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OPINIÃO

COLUNA

Mulheres, corpo e insurreição
Ao relacionar violência sexual e direitos reprodutivos com greve do trabalho, argentinas e
polonesas atingiram muito mais do que parece

Mulher protesta contra os feminicídios na Argentina. /DAVID FERNÁNDEZ (EFE)
ELIANE BRUM

24 OUT 2016 - 13:15 BRST

"Se a minha vida não vale, que produzam sem mim."
A frase no cartaz de uma manifestante nas ruas de Buenos Aires, em 19 de outubro, expressa um ponto de
inflexão nos protestos contra a violência sofrida pelas mulheres. Não são apenas mulheres no lado de dentro das
ruas, mas mulheres fora da produção. Ao relacionar corpos violados com corpos que se recusam a produzir, pela
declaração de greve geral, o potencial de questionamento e de rebelião amplia-se. Não é uma fagulha, mas um
incêndio. Este não é um outubro qualquer no campo dos feminismos.
A greve de uma hora foi movida, na Argentina, pela morte de Lucía Perez, na cidade litorânea de Mar del Plata. Ela
foi drogada, violentada e morta. Foi estuprada não só com pênis, mas também com um objeto. Lucía foi empalada.
Tinha 16 anos.

pare por uma hora para exigir 'basta de violência machista. nós nos queremos vivas'". é do controle sobre os corpos femininos que se trata. Deixaram até mesmo de trocar as fraldas e de alimentar as crianças. A interrupção da gravidez é permitida no país apenas em caso de risco de morte da mãe. em 2010 – e depois cassou seu mandato sem base legal para isso. a grande potência mundial do mundo contemporâneo. Mas trazem a ele um acontecimento inédito. Decretaram o “Dia de Folga das Mulheres” e ocuparam as ruas exigindo igualdade de direitos. misógino e colecionador de declarações de estímulo à violência de gênero. corte. cinco anos depois. as argentinas diziam: "Em seu escritório. em 1980. ficou 16 anos na presidência do país. me traficar. as mulheres fizeram greve de trabalho contra o controle dos corpos: pelo estuprador e assassino. ao lado de sua mãe e de sua filha de três anos. o movimento foi chamado por um grupo de organizações feministas. Brutal assassinato com estupro de adolescente reacende luta contra o feminicídio na Argentina 40 anos atrás. Na convocatória. já que podem me coisificar. fábrica ou onde quer que trabalhe. assim. Em grande parte por conta deste ato de rebeldia. e ecoaram pelo mundo. abriria espaço para que assumisse o poder pelo voto. mas teve a participação expressiva de mulheres que nunca tinham participado de nenhum protesto nem pertencem a qualquer coletivo. É dizer também que o corpo com desejo jamais será só objeto. as mulheres deram um susto no governo – e também na Igreja Católica. O que havia nas ruas da Argentina eram corpos desejantes. As greves de mulheres se inserem no contexto de irrupção de novos feminismos em diferentes partes do planeta. quando não justificado. Mas o projeto restringiria ainda mais o acesso legal. MAIS INFORMAÇÕES Argentinos se mobilizam contra os feminicídios no país Tanto na Polônia quanto na Argentina. loja. nem mesmo na linha de produção capitalista. Retirar o corpo da esfera concreta da produção e colocá-lo nas ruas é dizer muito claramente que aquele que assim se enuncia não é objeto em nenhuma posição. na prática. então que produzam sem mim”. recém tenta eleger a primeira. a pesquisadora e jornalista Micaela Férnandez Darriba afirmou: “Se eu não sou considerada como sujeita ou cidadã. me torturar e me assassinar.Ao promover a manifestação. pelo Estado e pela Igreja Vigdis Finnbogadóttir. redação. Tanto na Argentina quanto na Polônia. E os Estados Unidos. como no próprio Brasil. Em 3 de outubro. articuladora do projeto. Pelo Estado e pela Igreja. Em entrevista ao jornal Nexo. acabaria com a possibilidade do aborto. estupro e malformação do feto. Em 24 de outubro de 1975. mais de mulheres islandesas suspenderam todas as atividades. Participou da greve geral que. me explorar sexualmente. hospital. Hillary Clinton – e contra um candidato machista. E também num mês de outubro. A inspiração da greve de trabalho – fora e dento de casa – pode ter vindo da Islândia. as mulheres da Polônia decretaram greve geral para protestar contra um projeto de lei que. Neste outubro de 2016. Ao vestirem-se de preto e tomarem as ruas em mais de 60 cidades do país. milhares de que com frequência se articulam para barrar direitos sexuais e reprodutivos. as argentinas inspiraram-se nas polonesas. Pelo estuprador e Histórias trágicas por trás do protesto de milhares de mulheres na Argentina assassino. . tolerado e seguidamente impune. me estuprar. Conquistaram. há algo de particular nos movimentos que atravessaram dois países periféricos na geopolítica mundial. Não custa lembrar que o Brasil só elegeu uma mulher presidente – Dilma Rousseff – três décadas mais tarde. Era mãe solteira e divorciada. eleita e reeleita mais de uma vez. um recuo na ofensiva contra o aborto. a primeira mulher presidente da Europa e a primeira chefe de Estado escolhida democraticamente no planeta pelo conjunto da população. a Islândia elegeu. Algo que merece toda a atenção. Na Argentina e na Polônia. O que não há no estupro é justamente desejo. situados em continentes diversos.

corre imbricado. como aqui. É impossível compreender a história recente do Brasil sem compreender a relação entre o corpo das mulheres. elas ao mesmo tempo tiram o corpo da produção. disputada por José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT?)? A acusação subterrânea de que Dilma é “assassina de fetos”. Relacionar corpos sexualmente violados e literalmente destruídos com corpos que concretamente se recusam a produzir é juntar os pontos. o poder e a política Quando as mulheres. por exemplo. fortalecendo-se no país após a dissolução da União Soviética e o fim da Guerra Fria. . Entre suas tantas maquinações. Me parece que chama a atenção para muito.Retirar o corpo da linha de produção e colocá-lo nas ruas é dizer que não é objeto em nenhuma posição: o objeto objeta Ao se retirar da produção. A relação entre os corpos das mulheres. Objetos para a destruição. o potencial da manifestação é de outra ordem. objetos para a produção. um jargão feminista. Objetos para a violação. Um corpo – não mais pedaços de um corpo. E o conteúdo político também. É o dia a dia da política. sujeitam. compreender a história recente do Brasil sem compreender essa relação. para ocupar as ruas. nos pesos e nos contrapesos. É impossível. vão às ruas reivindicar direitos ou protestar contra a violência. ao peregrinar por templos evangélicos afirmando que Dilma é contra o aborto e pedindo aos fiéis que votem nela? Eduardo Cunha (PMDB). É explicitar a relação íntima entre todas essas dimensões. O poeta Arnaldo Antunes disse tão bem: “Sujeita quem objeta”. Ao objetar. mas questionar o próprio lugar do corpo no mundo da produção. E reapropriar-se do potencial de insubordinação contido na reconversão do objeto em sujeito. é forte. o aborto legal. Mas quando. Intimamente imbricado – e implicado. mas muito mais do que isso. O corpo das mulheres atravessa – e é atravessado – pelo poder e pela política. Ao objetar. o objeto objeta. A greve geral do outubro polonês. Sujeito multidimensional – e não mais compartimentado. Qual é o tema que rebaixa a eleição presidencial de 2010. o corpo das mulheres está intimamente entrelaçado na negociação dos apoios. Ao que as mulheres argentinas objetam? Objetam a ser objetos. No caso da Argentina. o poder e a política se dá no cotidiano. é indubitavelmente sujeito. Não corre no paralelo. Lá. O controle sobre o corpo das mulheres não é apenas debate filosófico nem move somente protestos ativistas. O controle dos corpos das mulheres não é uma denúncia de militantes. por exemplo. foi movida contra um projeto articulado pela Igreja Católica e apoiado pelo governo conservador do país. Não se trata apenas de discutir como o corpo é regulado no mundo da produção. na prática. em qualquer parte do planeta. este personagem tão complexo une as bancadas conservadoras da Câmara dos Deputados em torno de qual projeto? Barrar. Quem se aproxima e se torna um aliado estratégico. E sujeitam em amplos sentidos. ativistas afirmaram que a greve também chamava a atenção para o desemprego e para a desigualdade de salários no mercado de trabalho. Vale lembrar que a Igreja Católica só se sentiu fortalecida na Polônia para fazer essa ofensiva contra o aborto porque foi uma aliada estratégica contra o regime comunista.

Amamentá-lo também. Uma moeda de barganha que não comprometia o essencial. sem corpo. também. Mas o que parecia compartimento era o que de fato articulava um projeto muito mais complexo e agressivo de ocupação do poder. Vencer? Naquele momento. Eduardo Cunha e a chamada Bancada BBB (Boi. que avisa. outras coisas acontecem também no corpo. há um sentido novo: a crescente possibilidade científica de uma inteligência sem corpo. Polonesas e argentinas têm. Mas uma mulher sangra todo mês. . Nem que quisessem não escapariam do corpo. Pelo contrário. neste contexto histórico. Em tempos de “inteligência artificial” e de relações “sem corpo” na internet. E grande parte desses processos do corpo são controlados e regulados por leis feitas por homens. Esse debate. há tantos ataques contra os corpos femininos. seu humor está intimamente ligado à variação corriqueira dos hormônios. Encarnar-se. já é uma realidade. no meu ponto de vista – pela experiência de ter um corpo. cada qual com suas particularidades. neste momento da história humana. Mas talvez tenha começado a cair quando. Quando tudo isso cessa. no Brasil. em certa medida. Assim como o Brasil. em comum. que goza. E há tantas tentativas de retrocesso por toda parte. esquartejá-lo. Ninguém escapa. a velhice é anunciada pelo útero. São justamente as mulheres que. capitulou diante da chantagem com o corpo das mulheres e se aliou ao pior. Há um sentido novo. mas conservador. a primeira mulher presidente do Brasil. E sempre foi explosiva. não “escapam” do corpo. Mas uma realidade ainda limitada – ou ampliada. o aborto pode ter parecido um tema secundário – ou um tema de ordem apenas moral. o potencial explosivo é ainda maior. Essa característica biológica pariu o mundo da cultura – os mundos das culturas. Dilma Rousseff começou a cair antes mesmo de se eleger. neste momento. vira palavra. portanto. foi derrubada por várias razões. a reprodução ou não é uma escolha difícil quando é escolha. Não liberal. Acontece.  Vale lembrar que. as mulheres são aquelas que “encarnam” O que quero sublinhar aqui é: neste mundo de virtualidades e inteligência artificial. A então candidata a presidente aceitou ser derrotada ali como mulher – para poder vencer. como tão bem ensinou. e uma opressão quando não é. só interessa a projetos de poder que passam pelo controle destes mesmos corpos. Dilma Roussef.Compartimentar o corpo. neste mundo. me parece. na internet. O “sem corpo”. ao aceitar a chantagem em torno do aborto e ser “defendida” por Eduardo Cunha O controle sobre o corpo das mulheres atravessa vários períodos históricos e culturas diversas. passa a ganhar novas camadas de complexidade. um projeto conservador nos respectivos governos. É fascinante esse corpo que chama. Gerar um filho é possivelmente a experiência mais encarnada que um humano pode ter. Mas. Agora. Bala e Bíblia). ao articular o desejo. já bem intrincado. não é maldição. as mulheres são aquelas chamadas cotidianamente a se encarnar. que lembra. claro. É também fascinante esse corpo que. Cotidianamente. há também uma ofensiva conservadora no mundo. para se eleger. E também por isso há tantas ofensivas no mundo inteiro contra os direitos das mulheres. quando uma grande parte da vida cotidiana de todos acontece nas redes sociais.

Elas dizem: “Encarnem-se!”. Eliane Brum é escritora. mas potência. E encarnam-se. suspender as vantagens oferecidas às empresas.com Twitter: @brumelianebrum  ARQUIVADO EM: Opinião · Argentina · Brasil · América do Sul · América Latina · América © EDICIONES EL PAÍS. as mulheres também têm muito a dizer. A Vida Que Ninguém vê. Meus Desacontecimentos. Encarnar-se é verbo-ação que ameaça quem depende da subjugação dos corpos para impor seus projetos de poder. as mulheres produzem o grito mais insurreto. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes . As mulheres têm muito a dizer sobre os corpos convocados a se sacrificar por governos conservadores Um corpo sem desejo não produz. governos como o atual não cogitam reduzir os privilégios dos mais ricos. este não é um dizer apenas no campo das ideias. e do romance Uma Duas. Contato Venda Publicidade Aviso legal Política cookies Mapa EL PAÍS no KIOSKOyMÁS Índice RSS . É mais do que isso: é não aceitamos nenhum corpo a menos. sobre isso. A convocação é para que os mais pobres compareçam com seus corpos. O Olho da Rua. Ao fazer greve geral e dizer “Nenhuma a menos”. são seus os corpos que devem se apresentar para serem exauridos em mais anos de trabalho.Quando as crises econômicas se acentuam. E aponta diretamente para onde está a mistificação. Como este é um dizer sobre o corpo e com o corpo. Não. O sacrifício exigido é sempre dos mesmos corpos. S.o Avesso da Lenda. São eles que terão menos recursos para a saúde e a educação.L. Site: desacontecimentos. E. vira ato. Não aceitamos na vida.com Email: elianebrum. taxar as grandes fortunas. É pelo controle dos corpos que se dá a disputa política.coluna@gmail. Mas um corpo de desejo produz um dizer: “Nenhuma a menos”. Recusar o lugar de objeto na linha de produção para encarnar-se como sujeito em todos os lugares é um ato imenso. repórter e documentarista. É fascinante testemunhar o momento em que as mulheres (re)descobrem que ter um corpo feminino não é maldição. E não aceitamos em lugar algum. Quando as argentinas dizem “Ni Una Menos”. a disputa de poder. redistribuir a renda. A Menina Quebrada.