Paulo Mosânio Teixeira Duarte

INTRODUÇÃO À SEMÂNTICA

2ª. edição
Revista e Ampliada

SUMÁRIO
PREFÁCIO

1
2
3

4
5
5.1
5.2
5.2.1
5.2.2
5.2.3
6

7
8
8.1
8.2
9
9.1
9.2
10

11
12
13

14
15
16
17

18
19
20
21
22

CAPÍTULO I
A SEMÂNTICA NOS PRIMÓRDIOS: A ABORDAGEM DIACRÔNICA
O INÍCIO: A CONTRIBUIÇÃO DE MICHEL BRÉAL
OUTROS AUTORES
CONCLUSÃO
Exercícios de reflexão
CAPÍTULO II
PARA UMA TEORIA SEMÂNTICA: DOS OBJETIVOS
OS IMPASSES PARA A ELABORAÇÃO TEÓRICA
QUE TEORIA DO SIGNIFICADO ADOTAR?
Uma Teoria Mentalista: O Imagismo
Teorias Não-Mentalistas
A teoria behaviorista
A teoria extensionalista
Outras propostas: a instrumental e a contextual
ELEMENTOS PARA UMA TEORIA SEMÂNTICA: A PROPOSTA DE KATZ
Exercícios de reflexão
CAPÍTULO III
PARA UMA TEORIA SEMÂNTICA: DA NOÇÃO DE SIGNO
INTRODUÇÃO
DA ESTRUTURA DO SIGNO
A Concepção de Ferdinand de Saussure
A Concepção de Hjelmslev
DAS RELAÇÕES ENTRE SIGNOS
A Perspectiva de Hjelmslev
A Perspectiva de Eco
DAS CONDIÇÕES EXTERNAS PARA O FUNCIONAMENTO DO SIGNO
Exercícios de reflexão
CAPÍTULO IV
A SINONÍMIA LÉXICA
INTRODUÇÃO
A SINONÍMIA NA PERSPECTIVA DE ULLMANN
A PROPOSTA DE LYONS
Exercícios de reflexão
CAPÍTULO V
SINONÍMIA FRASAL: A PARÁFRASE
INTRODUÇÃO
A PARÁFRASE: ASPECTOS DEFINIDORES
PARÁFRASE E CORRESPONDÊNCIA
CONCLUSÃO
Exercícios de reflexão
CAPÍTULO VI
OPOSIÇÕES E CONTRASTES
INTRODUÇÃO
OPOSIÇÕES ANTONÍMICA, COMPLEMENTAR E CONVERSA
OPOSIÇÕES DIRECIONAIS, ORTOGONAIS, ATIPODAIS E CONTRASTES NÃO-BINÁRIOS
A OPOSIÇÃO E O CONTEXTO DISCURSIVO
CONCLUSÃO

Exercícios de reflexão

23
24
25

CAPÍTULO VII
HIPONÍMIA E HIPERONÍMIA
INTRODUÇÃO
RELAÇÕES DE INCLUSÃO: HIPONÍMIA E HIPERONÍMIA
CONCLUSÃO

Exercícios de reflexão

26
27
28
29

CAPÍTULO VIII
POLISSEMIA E HOMONÍMIA
INTRODUÇÃO
A HOMONÍMIA E A POLISSEMIA: A VISÃO TRADICIONAL
A HOMONÍMIA E A POLISSEMIA: A PROPOSTA DE BARBOSA
CONCLUSÃO

Exercícios de reflexão

30
31
32
33

CAPÍTULO IX
RELAÇÕES DE SIGNIFICADO NA FRASE: A VALÊNCIA SEMÂNTICA
INTRODUÇÃO
PROPOSTA DE FILLMORE
A PROPOSTA DE CHAFE
CONCLUSÃO

Exercícios de reflexão

34
35
35.1
35.2
35.3
35.3.1
35.3.2
35.3.3

CAPÍTULO X
O CAMPO LÉXICO
INTRODUÇÃO: OS PRECURSORES
A MODERNA TEORIA DOS CAMPOS LÉXICOS
Pottier
Greimas
Coseriu
Das distinções de base
Das relações paradigmáticas do léxico
Das relações sintagmáticas do léxico

36
37

CAPÍTULO XI
ADITAMENTOS AO CAMPO LÉXICO
A TEORIA KATZ-FODOR
BALANÇO CRÍTICO

Exercícios de reflexão

38
39
39.1
39.2
39.2.1
39.2.2
39.3
40
40.1
40.2
40.3
41

CAPÍTULO XII
O CONTEXTO NA DETERMINAÇÃO DO SENTIDO – PARTE I
INTRODUÇÃO
A DÊIXIS
A Pessoa
O Espaço e o Tempo
O espaço
O tempo
Síntese
A FORMULAÇÃO MODAL
Da Modalidade
Da Asserção
Do Desenvolvimento e da Determinação
CONCLUSÃO

42
42.1
42.2
43

CAPÍTULO XIII
O CONTEXTO NA DETERMINAÇÃO DO SENTIDO – PARTE II
RELAÇÕES DE ACARRETAMENTO
Implicação/Pressuposição
Pressuposição/Implicatura
A ESCALARIDADE

Exercícios de reflexão
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Por fim. Dorinha. que contribuiu para a estética. veio a lume esta 2ª. edição. .Agradeço a Claudete Lima. e ao empenho devotado na digitação. Roberto Cunha Lima e Socorro Azevedo. na revisão técnica. graças a cujo companheiril e psicológico. conteudística e textual. edição. Luiz Carlos. minha dileta mulher. agradeço à equipe técnica. Agradeço também ao Diretor da Imprensa Universitário Luiz Falcão. pelo perfeccionismo e empenho de natureza interpessoal com que conduziu o percurso desta 2ª. sem as imperfeições da primeira. para os aspectos técnicos e a revisão vernácula deste trabalho.

foi divido em dois. o professor se vê obrigado a juntar material teórico das mais diversas fontes. O Autor. Outro capítulo. Destina-se a estudiosos de Lingüística e Língua Portuguesa. revista e ampliada. acrescentamos conteúdos importantes. do que decorria uma visão de Semântica tradicional. este livro pretende fazer o leitor familiarizar-se com a tradição e com a novidade. referimo-nos aos jogos de oposição instaurados pelo discurso. das relações de acarretamento e da escalaridade. algumas vezes. da dêixis e da formulação modal. os objetivos de uma teoria semântica. no capítulo de oposições e contrastes. aludimos ao papel destes fenômenos na coesão textual e. Por exemplo. devido à grande extensão do mesmo. de caráter específico. passou por correções vernáculas de pontos obscuros que. estendemo-nos mais sobre a contribuição de Maria Aparecida Barbosa e acrescentamos mais pistas a serem investigadas no estudo sobre a polissemia lato sensu e a polissemia stricto sensu. comprometiam a legibilidade do texto.PREFÁCIO Este trabalho fez parte de uma pesquisa intitulada “Projeto de Melhoria da Qualidade do Ensino”. Nos assuntos já existentes. Abrimos um capítulo teórico e geral para a noção essencial de signo. baseando-nos na Lingüística e na Semiótica. trata da sinonímia frasal ou paráfrase. referente ao campo léxico. mantivemos assuntos já tratados sem alterações: as origens da Semântica. Os objetivos foram reformulados de modo a tratar outros assuntos não presentes na primeira edição. Novos capítulos foram inseridos para que o livro fizesse jus ao caráter genérico que pretende. a maior parte das quais de difícil acesso ou relegada ao esquecimento. houve estilização e ampliação de assuntos já tratados na primeira edição. Com estes acréscimos e revisões. No mais. o papel do contexto e sua relação com o sentido: no primeiro. naquele dedicado à polissemia e homonímia. Visa a suprir carências de obras sobre Semântica. Conseqüentemente a isto. e no segundo. . em mais dois capítulos. Esta segunda edição. Até aí. Abordamos também. No capítulo sobre hiponímia e hiperonímia. O capítulo. sinonímia léxica e relações de significado na frase.

resultado desta simplificação em latim vulgar. sendo esta “a ordem intencional em virtude da qual as palavras que deveriam ser sinônimas. à semelhança de muitos autores de tendência historicista. Porém. em que o sufixo –dor. nas línguas antigas. expurgando-a de possíveis interpretações deterministas: (. fenômeno que ele não define precisamente e que decorre de uma ação analógica lenta e gradual sobre um determinado número de lexemas ou morfemas e que se estende posteriormente na língua. tendência que já havia no latim clássico com os adjetivos terminados em –uus e –eus. que assume a função somente para si.. o latim vulgar generalizou o emprego do advérbio magis (que deriva mais). bastante em voga no século XIX. que se relaciona com um objetivo geral da linguagem. estudou os fenômenos da restrição e da ampliação semânticas. outra dedicada ao “como se fixou o sentido das palavras” e. Bréal se refere também à irradiação. Ensaio de Semântica (1992). o adjetivo exprime gradação por meio de sufixos. tomaram. se certas modificações do pensamento. pode parecer que o lingüista francês era um dentre outros que adotavam a perspectiva histórica e mecanicista. entre as quais o latim. por fim. refere-se ao grau. O lingüista francês. podemos dizer que a simplificação é a lei da gramática dessa língua. E. Assim. como contiguus e idoneus. entretanto. e que o eram efetivamente. o autor matiza a palavra lei nos termos abaixo.CAPÍTULO I A SEMÂNTICA NOS PRIMÓRDIOS: A ABORDAGEM DIACRÔNICA 1 O INÍCIO: A CONTRIBUIÇÃO DE MICHEL BRÉAL A Semântica tem suas raízes na obra de Bréal. p. Em segundo lugar. p. ilustrando a chamada lei da especialidade. como muitos dos seus contemporâneos. sustenta a sinonímia integral como fenômeno que atenta contra a economia da linguagem. como regra. menos ainda de uma lei imposta em nome de uma autoridade superior (1992. ao fato de a primeira parte intitular-se “As leis intelectuais da linguagem”. podemos exemplificar com o português. Bréal se reporta à lei da repartição. matadouro) tem o sentido locativo: bebedor. confundido com –douro (bebedouro. Esta impressão se deve.24). outra voltada para o “como se formou a sintaxe”.. O Ensaio tem como base a diacronia. expressas inicialmente por todas as palavras. são pouco a pouco reservadas a um pequeno número de palavras. em primeiro lugar. bem como a metáfora e o . 33). sentidos diferentes e não podem mais ser empregadas por uma outra” (1992. O português. A obra consta de três partes: uma dedicada ao que ele chama “as leis intelectuais da linguagem”.) se a gramática de uma língua tende de um modo constante a se simplificar. forma o comparativo com mais. No comparativo. Com isso. provador. para chegar ao nosso assunto. o de se fazer compreender com o mínimo de dificuldade e com o menor esforço possível. Por exemplo. estuda os fenômenos semânticos sob ótica diacrônica. Além da lei da especialidade. Para não darmos exemplos de línguas clássicas. À primeira vista. Não se trata de uma lei previamente estabelecida. ou mesmo a uma única palavra. dizemos que a especialidade é a lei que presidiu essas mudanças. continuando a deriva para o analitismo.

ressalte-se que Bréal enfatiza o papel do homem na evolução da fala. e o puro fenômeno instintivo. durante cinqüenta anos. ao entregar-se ao extremo oposto. “falsificar o direito”. se teve razão em renunciar às ingenuidades da ciência de outrora. segundo Bréal. adulterare jus. se propagavam e morriam. Vimos as línguas serem tratadas como seres vivos: disseram-nos que as palavras nasciam. Não haveria inconveniente algum nesse modo de dizer. Quanto à metáfora. Como se dizia também adulterare matrimonium. que significava originalmente “espaço onde corriam os cavalos”. exemplifica com a palvra latina adulterare. Nela não impera o caráter necessário das leis fonéticas. Por fim. a título de exemplo. Dizia-se adulterare colores. Repudiava a redução da Lingüística ao mero estudo das mudanças de vogais e consoantes ao longo do tempo. tantos cuidados se tomou para bani-la. que adotava uma concepção sociológica no seu trabalho. apresentam sentidos concretos. 1992. na similaridade entre dois objetos. No que tange ao segundo fenômeno. refletida.espessamento de sentido. Mas exatamente porque elas existem é que é preciso não deixar de protestar contra uma terminologia que. Em suma. 17-8). com uma psicologia verdadeiramente muito simples. A despeito das incursões na diacronia. isso parece quase uma histeria.91). “mudar as cores”. entre outros inconvenientes. É preciso fechar os olhos à . adulterare nummos “falsificar as moedas”. temos ornamento e aterro. sendo esquecida a idéia abstrata. O abuso das abstrações e das metáforas tal foi e ainda é o perigo de nossos estudos. embora se liguem a verbos. há uma distância que deixa lugar para muitos estágios intermediários. já que. Bréal ilustra com a palavra spatium. o autor cita numerosos exemplos. que. o espessamento de sentido consiste na subsistência da significação material de uma palavra. Entre os atos de uma vontade consciente. significava “ação de vestir” e dessa significação geral passou a ser objeto que serve para este uso. se não houvesse pessoas que o tomassem no sentido literal. Assim pensar é “calcular”: daí em português o verbo pesar (<pensare). Fazer intervir a vontade na história da linguagem. “Um caráter simples é comparado a uma roupa que não tem uma ruga sequer (simplex): os motivos tidos como falsos são bordas que dissimulam o defeito do tecido (praetextum)” (BRÉAL. pelo sufixo –tis. a linguagem é um instrumento de civilização. Depois a palavra tomou o significado de qualquer extensão espacial. venciam os combates. e nossos lingüistas teriam aproveitado mal as lições da filosofia contemporânea se continuassem a nos impor a escolha entre as duas alternativas desse dilema. por outro lado contentou-se. p. porque existe a ação da vontade humana. esta passagem. A propósito disso. tem o de nos dispensar de buscar as causas verdadeiras (1992. ilustremos uma vez mais com esta passagem do Ensaio. para Bréal. Citemos. formada a partir do prefiro ad-e da base alterare. calcada. daí saiu um sentido especial que passou aos derivados adulterium e adulter. de onde veio a palavra portuguesa espaço. P. Deste modo. a palavra vestis. a ampliação de sentido. Mas. No que diz respeito ao primeiro fenômeno. Em português.

por parte do falante. a princípio confusas e obscuras na infância. como em “Deus te abençoe”.evidência para não ver que uma vontade obscura. sem ser obrigada a tentá-las uma a uma. Bréal representa essa vontade sob a forma de tentativas e erros. que ele é o único expresso. obter mais clareza. Este aspectos subjetivo é representado: a) por palavras ou membros de frases. A fala não foi feita para a descrição. Reconheceu-lhe quatro funções: a) b) c) d) evitar qualquer dificuldade. provavelmente. No entanto. o único compreendido.. cuja finalidade é ser compreendido. o falante se vale de advérbios como sem dúvida. Assim. das formas que a analogia ameaça absorver. É preciso olhar a . isto é. monótonas e pobres. p. veríamos que neles o elemento subjetivo reina sozinho. muito menos como uma força cega. tanto por gosto como por profissão. que ele esgota sua faculdade de entendimento e toda a matéria de seus pensamentos (1992. Pondera: levada ao extremo. p. 161). até que. espectador interessado e autor dos acontecimentos. e se procurássemos o início da linguagem humana na linguagem dos animais. sublinhar uma oposição ou uma semelhança. Bréal não negligenciou o elemento subjetivo na linguagem. 19). Exemplo disso são as construções gramaticais. Para muitos homens. com o passar do tempo. de valor optativo. Bréal investigou o fenômeno da analogia em bases psicológicas. o falante vale-se do subjuntivo. certos de sermos compreendidos. preside às mudanças da linguagem (1992. ao mesmo tempo. para a narrativa. a analogia tornaria as línguas muito uniformes e. as domina num tempo relativamente curto.. demonstrar a posse sobre as pessoas ou sobre as coisas – esses empregos da linguagem foram os primeiros. É graças a ela que estamos certos de sermos entendidos. para as considerações desinteressadas. mesmo se chegamos a criar uma palavra nova. para marcar maior ou menor certeza de seu próprio discurso. dar uma ordem. Para expressar desejo. sem aprender uma após outra todas as palavras da língua. que acabam por determinar uma dada direção. Bréal resume desta maneira seu ponto de vista: deve-se começar a ver de que ponto de vista o homem agenciou sua linguagem. eles são ainda quase os únicos . na qual somos. o escritor estarão sempre. c) pelo plano geral de nossas línguas. recusa-se a apresentar a analogia como uma causa. Expressar um desejo. O filólogo. se tornam expressão suficiente do pensamento. por conseqüência. do lado dos vencidos. Mas é graças à analogia que a criança. Se descêssemos um ou vários degraus. ajustar-se a uma regra antiga ou nova. seguramente etc. talvez. mas perseverante. b) por formas gramaticais.

analogia como uma condição primordial de toda linguagem.” (MARQUES. fizeram referência à Semântica. é o que somente a história individual de cada língua pode nos ensinar (1992. a palavra brilhar procede do castelhano billar. além do significado original “acontecimento decorrente do acaso”. fortuna. a saber: a) especialização da significação: por exemplo. sorte. Hermann Pall (s. Exemplo disto é o emprego de vela em lugar de barco e de alma em vez de homem(ex. e m nosso trabalho. b) extensão da significação: a palavra alemã fertig significava a princípio “preparado para um trajeto de carro. Reconheceu. “caminho”. prestígio. 34). 2 OUTROS AUTORES O especial relevo conferido a Bréal.” e destas acepções originais decorrem as noções . apresentaram originalmente o significado “acontecimento de natureza casual”.d. 62). não se deve apenas ao fato de ter sido ele que se consagrou como pai da disciplina a que hoje chamamos Semântica. palavras como acidente. “objetivo”. Ele dedicou o IV capítulo de sua conhecida obra ao que chamou mutação semântica. enfatizando o papel da cultura e chamando atenção para a presença do elemento subjetivo. c) transferência. a palavra alemã Fass designou a princípio todas as espécies de recipientes e hoje designa um só tipo. Em português. fatalidade. com acréscimo de outras noções: “futuro”. sucesso tendem a ocorrer com restrição de sentido ao valor positivo “acontecimento casual bem-sucedido. outros autores que. Em português. mais tarde. ou se foi uma causa de uniformidade estéril. Destino. Se ela foi uma fonte de clareza e de fecundidade. os mais diversos tipos de mudanças semânticas. mas por ter se oposto tenazmente às concepções mecanicistas da época. revela extensão ou ampliação de significados. Fortuna. a serem usadas com restrição de significação ao valor negativo “acontecimento casual desastroso. que pode destruir”. que traz riqueza. 1990. d) similaridade: explicar etimologicamente “abrir as dobras”. no plano espacial ou temporal.) foi um desses autores. “direção”. Houve. prêmio. o barril. à semelhança de Bréal. “endereço”.: fui à aldeia e não encontrei viva alma). sorte. P. que se dá por contigüidade semântica. por oposição a complicar “juntar as dobras. “tipo de aplicação”. todavia. que tem resultado feliz. mesmo numa concepção historicista. a cavalo ou a pé” e hoje significa apenas “preparado”. Acidente e fatalidade tendem. etimologicamente “brilhar como berílio”. p.

larga e alongada com que os tecelões romanos comprimiam as tramas para obter um tecido mais encorpado nos teares verticais da época (é a função que nos teares mecânicos modernos é reservada ao pente). Porém.. era habitualmente usada depois de verbos intransitivos de movimento. que significa ainda hoje “passo”..de “explicar” e “complicar”. estendendo-se posteriormente este reforço como morfema de negação para outros tipos de verbos.rien. ne. que tem caráter negativo (ne. embora tenha sua extensão diminuída. Horrível. Quando apareceram . conviria que o leitor pesquisasse os compostos de que participa o lexema pé. Meillet (1965. como que bons vislumbres seguidos não raro de farta lista de exemplos. dois tipos de arma branca mais usados pelos soldados romanos: a espada curta que feria com a ponta e o corte. Hermann Paul reconheceu ainda o papel dos exageros e dos eufemismos na mudança de significado e não se limitou apenas à apresentação de nomenclaturas e exemplos. na origem... reconhece também as mudanças semânticas. nome dado a uma cana do Egito com a qual se fabricava uma folha que os antigos usavam para escrever. p. Illari (1992. de onde veio o português espada. como reforço da negação. mas também com o gustativo (gosto horrível). embora o objeto não seja mais feito a partir do papiro. 231-71). embora um tanto sumários.. p. e a espada longa que feria principalmente com o corte. rien e personne. não tem relação só com o visual. a tábua longa. semelhantemente ao que ocorre com outras expressões. mantémse o nome papel. olfativo (cheiro horrível) e auditivo (som horrível). que sofrem mudanças: papel provém do latim papyrum. A spatha era. a exemplo de pé de meia e pé de galinha. que decorre da ação de ne (não). Procurava também a explicação em termos lingüísticos. condições dos seguintes tipos: a) lingüísticas: a exemplo do caráter negativo das palavras pás. o termo corrente para essas armas em língua vulgar era spatha. e) sinestesia: é um tipo de metáfora em que a palavra passa a se aplicar a uma área sensorial diversa. 124) explica este fenômeno aludido por Meillet de forma mais sistemática. Afirma que a palavra pas. (01) ne bouger pas “não mexer-se nem mesmo um passo” (02) ne manger mie “não comer nem mesmo uma migalha” (03) ne boire goutte “não beber nem mesmo uma gota” (04) ne voir point “não ver nem mesmo um ponto” b) ligadas aos objetos ou coisas. Para maior exemplificação. estabelecendo. outro lingüista de formação historicista. Explicitou deste modo que a restrição semântica ocorre porque a palavra se enriquece quanto a seus conteúdos.. por exemplo. para as mesmas.pas. ao contrário do que acontece com a extensão semântica. ne. Podemos citar também como exemplos as palavras latinas gladius e ensis.personne).

anathema. Meillet confere maior saliência às condições sociais. peccare (pecar e não errar). em termos lingüísticos. motivada pelo contágio fonético e pela etimologia popular. na Medicina. de mala mattiana para maçã. quando aparece na Matemática. que traduz o termo grego apokálypsis. nas Ciências Contábeis ou na Silvicultura. a metonímia.por similaridade entre os sentidos. transferência de significado como fides (fé e não lealdade). Interpreta a metáfora e a metonímia. influenciado que era pela doutrina de Durkheim. como se vê na passagem de cidade capital para capital. Vale-se das contribuições da Lingüística moderna. Mohrmann identificou três processos no latim cristão para veicular idéias novas: empréstimo puro e simples ao grego. que traduz o grego sotér. 1992. lavacrum (batismo e não banho).em Roma espadas longas e largas. e revelatio. angelus. Evita a multiplicação de nomenclaturas e coloca os fenômenos de mudança lexical sob o fenômeno geral da transferência. formação de neologismos latinos. 127). P. . à contigüidade. a exemplo da palavra operação que tem diversos matizes de significados. . A classificação de Ullmann é mais racional e simples. 53-9). ao opor similaridade. para finalidades não estético-literárias. e de verbum correspondente ao grego lógos. a exemplo da passagem de fors-bourg (fora do burgo) para faubourg (falso burgo). que se dá por metáfora. que comportam subdivisões como descritas abaixo: a) transferência do nome: . c) sociais. em francês. o termo a que se recorreu para denominá-las foi naturalmente o do antigo instrumento de tecelagem.f. spiritus (espírito e não sopro).por contigüidade entre os sentidos. Ullmann (1951) prefere um enfoque mais amplo da transferência. utis (virtude e não valor) etc. P. em seu livro sobre o latim vulgar dos cristãos (C. da antiga retórica. Nem sempre é possível separar as razões sociais das históricas. de frate germanu para irmão. diaconus. a exemplo de salvator.por contigüidade do nome: derivada da elipse. 1979. . b) transferência do sentido. ELIA. Reconhece dois grandes tipos: a do nome e a do sentido. Prova disso é o estudo feito por Cristina Mohrmann. já exemplificadas: .por similaridade entre os nomes. em razão das quais uma palavra se alarga ou se restringe semanticamente conforme ela passe para um círculo social mais amplo ou mais restrito. sociólogo que atribuía ao fato social o caráter de exterioridade e coercitividade em relação aos indivíduos. A extensão metafórica de sentido e criação metafórica de sentidos novos para preencher um vazio do léxico correspondem a uma figura de linguagem cuja importância já era reconhecida por Aristóteles – a catacrese (ILARI. virtus. a exemplo de evangelium. no eixo paradigmático. de hora maneana para manhã. no eixo sintagmático.

3 CONCLUSÃO É possível aludir a outros autores insignes como Vendryés (1950). entre os muitos termos empregados em Lingüística. 5. Exemplifique. pelo menos em versão preliminar. Exercícios de reflexão 1. aconselhamos a leitura de Guiraud (1980) e Marques (1990). 6. As devidas considerações em torno de uma teoria semântica serão postas em relevo nos capítulos seguintes. Para atingir um nível satisfatório nas explicações. Sinalizam que a Semântica diacrônica. 7. 3. Isto sem falar da necessidade de reconstituir-se as etapas intermediárias entre uma forma em seu estádio inicial e seu estádio final. no plano sincrônico. que explicite em que condições existe a implementação das mesmas. que é dominante. muitos têm sido os obstáculos para a consolidação de um projeto consistente em termos de uma teoria semântica. Mostre que a metonímia é igualmente importante como fenômeno semântico. relacionando-o com a metáfora. Para os que desejarem maior detalhamento. Procure ilustrações para o mesmo. precisa apoiar-se em uma teoria geral das mudanças. construir uma teorização. Todavia. é necessário ultrapassar o plano lexical. Estude a proposta de Hermann Paull apresentada neste capítulo. 4. Verifique a possibilidade de reunir sinestesia e metáfora sob o mesmo fenômeno. mas julgamos dispensável fazê-lo para nossos propósitos. A delimitação do objeto. Verifique se as classificações para as “causas” das mudanças semânticas podem ser descritas de forma mais enxuta. para adentrar a sintaxe e o discurso. foi algo tardio. Quaisquer detalhes sobre a Semântica diacrônica não constituirão mais que meras ilustrações adicionais e essencialmente repetitivas. de restrição e extensão de significado. Cumpre acrescentar que é também possível. para se consolidar. . em português. de caráter polissêmico. Dê exemplos de metáfora. Procure a diferença classicamente estabelecida entre metonímia e sinédoque. simplesmente porque significado é. Tente definir o fenômeno da catacrese. 2. Procure outros exemplos. Comente-os. Dizer que a Semântica é ciência do significado em pouco ajuda. comente até que ponto se sustenta tal diferença. Exemplifique. Em seguida. em português.

Acrescente-se também que o próprio termo significado é fortemente marcado pela polissemia. 1982. que contribuiu para o assentamento da Semântica em termos lingüísticos. pois se negava a ela o caráter de disciplina autônoma. “que concernem a situações que não tem sido classificadas acuradamente” (1933. p. passou um período de declínio e descrédito. é que se pôs em dúvida o objeto da Semântica. Isto sem falar no atraso histórico dos estudos semânticos e na onda de formalismo vigente há algum tempo. deveria ser construída a partir de dados de ciências. o significado não foi apenas alvo de teorias behavioristas como a de Bloomfield. há intersecção entre elas. estribado no materialismo behaviorista. 43-62). O motivo disto. Por isto. Ogden e Richards (1972. como a Física ou a Química. mormente as não-mentalistas. Por sua natureza intrinsecamente complexa. como bem assinalou Greimas (1973). que. 139). entre as quais: a) uma propriedade intrínseca. em termos de Semântica. O mais poderoso adversário de uma teoria do significado foi. Outras teorias vieram à baila. palavras como amor e ódio. d) emoção suscitada por qualquer coisa. a Semântica.1. constituiriam sérios entraves à descrição semântica. houve muita dificuldade em constituir-se uma teoria semântica. o mecanicismo bloomfieldiano. sem que se tenha chegado a nenhum resultado conclusivo. e) aquilo a que o usuário de um símbolo realmente se refere. Para não sobrecarregarmos esta secção. 140) afirmava categoricamente que o estatuto do sentido é o ponto fraco da ciência da linguagem e que continuaria assim até que o conhecimento humano avançasse para além do atual estádio. é de cunho didático. b) as outras palavras anexadas a uma palavra no dicionário. sem dúvida. nos referiremos à proposta de Katz (in: DASCAL. p. Por estes motivos acima. p. através da escola de Praga. Uma Teoria Mentalista: O Imagismo . difundia opiniões desalentadoras sobre uma pretensa teorização sobre o significado. em um momento posterior. trataremos em separado das diversas teorias do significado. inclusive a bloomfieldiana. Bloomfield (1933. Bloomfield nutria a dupla ilusão de que o sentido se confundia com os dados da situação extralingüística e que a metalinguagem. p. c) a conotação de uma palavra. 194) apresentam uma lista das 16 principais definições vigentes entre os estudiosos do significado. Após a exposição das teorias do significado.CAPÍTULO II PARA UMA TEORIA SEMÂNTICA: DOS OBJETIVOS 4 OS IMPASSES PARA A ELABORAÇÃO TEÓRICA Nascida no domínio diacrônico e tendo sido objeto de abalizados estudos feitos por eminentes lingüistas. Lançaram-se os alicerces da Fonologia. A separação entre as teorias. como a imagística e a conceptualista. 5 QUE TEORIA DO SIGNIFICADO ADOTAR? 5. mas ainda estava distante a elaboração de uma teoria semântica consistente. Na prática.

26) alude a outros problemas: a) pode-se ter mais de uma imagem para uma mesma expressão. escaleno e eqüilátero. Além do problema relativo à natureza da imagem e às configurações imagísticas assumidas de acordo com a forma lingüística e com as ocasiões de enunciação. 103-105) atribui quatro características.2. Não sabemos. a exemplo de amor e ódio. p. Que forma imagística existe quando nos referimos a um item lexical genérico. p. c) empirismo: que leva à ênfase na experiência como meio primordial de conhecimento. o cérebro forma um triângulo universal. indiferente a aspectos particulares de representação geométrica? 5. o que é e nem como se estrutura semelhante imagem. atribuindo-se ao pensamento o caráter de discurso inaudível. que não são necessariamente indissociáveis: a) rejeição ao mentalismo: o que implica o afastamento de noções como mente e consciência. Kempson (1980. e talvez radicalmente de substâncias de pessoa para pessoa (1980. As imagens que temos do possível referente de uma palavra não só podem variar segundo a ocasião. 26). d) determinismo mecanicista: segundo o qual os fenômenos que acontecem no universo. inclusive as ações humanas. consciência. b) duas expressões podem ter a mesma imagem. p.d. mas como dependem de nossa experiência. b) identificação essencial entre o comportamento humano e animal: o que conduz à biologização da psicologia. Seria lícito afirmar que. há o problema adicional respeitante à questão dos universais. ..1 Teorias Não-Mentalistas A teoria behaviorista Existe uma tentativa de explicar o significado sem necessidade de recorrer-se a entidades tidas como metafísicas: mente. são determinados conforme as mesmas leis físicas. cabe especial menção a Bloomfield (1933). pensamento. Entre os lingüistas de tendência behaviorista. ante a figura de três espécies de triângulo. Acrescentamos a isto o problema da variação de cada falante.Esta teoria postula haver no cérebro uma imagem correspondente a uma dada expressão. certamente terão muitas variações de detalhes. como o destacado na frase: o homem é um animal racional? Que imagem se constitui a partir dos diversos morfemas gramaticais. todavia.2 5. Estamos nos referindo à teoria behaviorista. à qual Lyons (s. isósceles. que analisou o significado em função de três fatores: a) situação do falante. como as preposições e as conjunções? Isto sem falar de nomes designadores de emoções e sentimentos.

dadas as inúmeras particularidades que envolveriam cada caso. 23). As situações que nos preparam para enunciar qualquer forma lingüística são muito variadas. cor etc. c) ao agir sobre Jack. que ocorrem para explicar “acidentes” no percurso estímulo-resposta. É esta variável que determina os fatores predisponentes e fogem ao controle de qualquer observador. Cada um de nós usa a palavra maçã. como veremos. Assim. forma. Bloomfield assim se expressa: “a ocorrência de um discurso (e. desde a infância. nosso uso não é nunca muito uniforme e a maior parte das formas lingüísticas têm menos significados facilmente discrimináveis. Em um caso favorável. Este sobe na árvore. subindo ela própria na árvore para pegar a maçã. de qualquer maçã particular. o enunciado tem status de estímulo substituto (s). a fome de Jill é descrita em termos de contrações musculares e fluidos secretados no estômago dela. p. no curso de alguns meses. mas eventos práticos. b) ao invés de dar resposta mais direta (R). d) o estímulo-substituto provoca em Jack uma resposta (R). com efeito. os filósofos nos dizem. Todavia. c) a resposta do ouvinte. dá a maçã a Jill. que a come.. que. através do qual estimulou vicariamente Jack a apanhar a maçã. cor. tais como tamanho. cheiro. que não há jamais duas situações idênticas. Portanto. preferiu recorrer a um enunciado verbal.b) o enunciado. em vez de ter ido apanhar. solicita a Jack que a apanhe.. gosto etc. o objeto) apresente certas características relativamente definíveis. todos os membros da comunidade de fala têm sido treinados. distintivo (os trações semânticos que são comuns a todas as situações que emergem a partir da enunciação da forma . o exemplo clássico de Bloomfield para um acontecimento de fala é este: Jack e Jill passeiam e Jill vê uma maçã numa árvore. tal como aquele da palavra maçã. supostamente aferíveis na situação extralingüística. que diferem em tamanho. a usar a forma lingüística sempre que a situação (neste caso. é claro que devemos diferenciar entre traços não distintivos da situação. As ondas luminosas provenientes da maçã vermelha atingiam os olhos de Jill. Como está com fome. e o significado lingüístico. Interpretando: a) o fato de Jill ter fome constitui o estímulo (S). forma.s → R A descrição do evento peca pelo excesso de mecanicismo. não estamos perante idéias. referindo-se a diversas frutas individuais. Mesmo em casos como estes. São por vezes vagas como os fatores predisponentes (predisposing factors). a verbalização dele) e toda história dos eventos práticos antes e depois dele dependem da história de vida inteira do falante e do ouvinte” (1933. Mas nem sempre as explicações são claras em Bloomfield. Bloomfield simboliza a cadeia estímulo-resposta do seguinte modo: S→ r. conforme atesta o excerto abaixo. produz uma resposta substitua (r). que é um enunciado.

a ficção narrativa. 142). p. teríamos ainda de enfrentar uma dificuldade de outra espécie. Isto inclui. Acrescente-se o arrazoamento de Câmara Jr. 141). as pessoas. senão ingênua a afirmação de que “os usos deslocados do discurso são derivados. lingüísticas ou não. ato de vontade. porque num caso e noutro não ocorreram estímulos efetivos: a maçã não está presente e a criança não está de fato sentindo fome. sentimento. enunciam uma palavra como maçã. conceito. Bloomfield trata ambas as situações como discurso deslocado (displaced speech). a partir do seu valor primário estabelecido em dicionário” (1933. a teoria behaviorista na verdade pouco explica. em muitas circunstâncias de fala. Como vemos. Parece bastante simples. Se pudéssemos manter uma situação externa idealmente uniforme e nela inserir diferentes falantes. as dificuldades são inúmeras no âmbito de uma teoria behaviorista do significado. ainda assim seríamos incapazes de mensurar o equipamento que cada falante trouxe consigo (1933. a Botânica.lingüística). Não convence a asserção de que tão logo saibamos o significado dicionarial de uma forma. Ele mesmo o reconhece: mesmo se tivéssemos uma definição acurada do significado que é vinculado a cada uma das formas de língua. tratar um e outro evento como ilustrativos de discurso deslocado nada explica. Ora. para evitar que sua mãe a leve para a cama. muito menos em termos de behaviorismo. Usa o aparato da fisiologia para dar um aspecto de cientificidade às suas pretensas explicações. a ironia. de maneira razoavelmente uniformes. 140-41). ao que ela não aquiesce. (1978). Este simples rótulo está longe de explicar a mentira. a poesia. a propósito do signo lingüístico enquanto portador de um significado representativo. Tal como está posta por Bloomfield. imagem. Uma parte muito importante de toda situação é o estado do corpo do falante. estamos plenamente aptos a usá-la em um discurso deslocado. Isto sem falar nos fatores hereditários e pré-natais. como a Química. pois recorrendo a termos fisiológicos. muito freqüentemente. é óbvio. até exato momento. de modo que as suas teses fisicistas ainda padecem de obscuridade. p. como pensamento. a predisposição do seu sistema nervoso. a fim de evitar alusões a processos não-físicos. que “não temos meios precisos de definir palavras como amor e ódio. entre outros fenômenos de linguagem. . em termos de eventos práticos. Eis a explicação mecanicista e materialista para o significado. Uma criança. O autor reconhece que. Trata-se de uma falácia. ela é impraticável. Na ilusão de definir o significado das formas lingüísticas. na hora de dormir pode muito bem dizer I’m hungry (estou com fome). tais como os traços que são comuns a todos os objetos para os quais o povo de língua inglesa usa a palavra maçã (1933. que resulta de todas as suas experiências. concernentes a situações que não têm sido ainda perfeitamente classificadas”. recorrendo aos diversos campos do saber humano. Apenas é uma questão de rótulo. p. no entanto. Bloomfield reconhece que há muito por explicar. quando nenhuma maçã está presente. fora do domínio da abordagem científica. Bloomfield reconhece. a Zoologia.

e a baleia pode perfeitamente ser um peixe. na terminologia de Saussure. na nomenclatura de Saussure) estabelece-se uma relação indireta. Expliquemos o que foi dito acima em termos do conhecido triângulo de Ogden e Richards (1972. 32).2 A teoria extensionalista Lingüistas há. 80-93). Para a língua comum. 80). A questão crucial que se põe não é. portanto. procurando consubstanciar experiências parceladas sem a visão de um conjunto. que tratam do significado de uma palavra em termos de relação entre ela e os objetos a que ela remete. uma conexão arbitrária ou. O símbolo equivale aproximadamente ao significante saussureano. Por sua vez. tanto no seu léxico como na sua gramática. 5. típicas deste sistema (cf. A descrição estrutural dos significados é possível adotando-se uma versão matizada do relativismo lingüístico para o qual um dado sistema lingüístico revela. p. lembrando que para o alemão a formação do vocábulo selou até esta classificação para todo o sempre (1978. entre o símbolo e o referente (ou coisa. com os seus significados. Diz-se então que há. a espiral e a hélice são equivalente e assim “o fumo sobe em espirais”. a língua como mera representação da realidade.Um valor representativo desses nem sempre é bem delimitado e nítido. assim como filósofos. como ressaltou Greenough e Kittredge a propósito do correspondente inglês whale. pois as palavras da língua. onde entrou a linha diretriz de um pensamento racional. . p. relação esta a que se dá o nome de referência. Daí o conflito entre o léxico usual e a terminologia científica. p. A tal concepção de significado chamamos de extensionalista. a aranha é um inseto. imotivada. Ou em termos do mestre genebrino: “o signo não une um nome a uma coisa mas um conceito a uma imagem acústica” (1977. mais propriamente. 1978. uma classificação e uma ordenação dos dados da realidade.2. entre um e outro. mas de uma atividade da inteligência intuitiva. Mantém com a referência ou significado. abaixo apresentado: PENSAMENTO OU REFERÊNCIA CORRETO Simboliza (uma relação causal) SÍMBOLO ADEQUADO Refere-se a (outras relações causais) Representa REFERENTE (Uma relação imputada) VERDADEIRO Expliquemos agora detalhes conceituais importantes sobre a figura. 49). BIDERMAN. p. não resultam de um raciocínio consciente sobre o mundo das coisas. uma relação direta.

como unicórnio e duende? Tomemos. Se empregarmos. Isto depende do sim ou do não dados à pergunta. em termos de referente. podemos defini-lo em termos de propriedade observáveis. Na segunda frase. por exemplo. em virtude do caráter interrogativo da mesma. por sua vez. ele poderá designar um só indivíduo (ex. parece simples. por exemplo.Aqui preferimos empregar referente em vez de coisa porque o primeiro termo sugere uma acepção mais ampla que aquela sugerida pelo segundo. mas apenas crenças. e a entidades míticas. Se utilizarmos um substantivo comum. em que se predica algo a respeito das iguanas. por exemplo. não está implicada necessariamente a existência das iguanas. p. Contudo. estes exemplos extraídos de Kempson (1980. um nome próprio. dizemos que ele se refere a um dado indivíduo. podemos estabelecer uma condição para que a referência tenha êxito: a expressão referencial. em termos de nomes próprios. (02) Estão extintas as iguanas? (03) O professor Branestawn está procurando iguanas. . À primeira vista. (07) Espero que apareça um candidato ao cargo. preposições e conjunções. a entidades históricas. (04) Creio que o livro está aqui. (06) Acho que o prédio se localiza na outra rua.: o livro. definir o significado de uma palavra em função do “objeto” (“coisa” ou “indivíduo”) a que ela remete. até mesmo primário. julgamentos. entre andar e correr. como Napoleão e César. Outras objeções se põem: que significado atribuir aos instrumentos gramaticais. (08) É certo que Deus existe. adjetivo ou advérbios (ou qualquer entidade lingüística passível de ancorar-se no referente. Caso usemos um adjetivo como vermelho. quais os limites precisos. deve permitir que o interlocutor identifique o “indivíduo”. em objetos que ostentam a referida cor. (01) Iguanas não são muito comuns. Maiores problemas surgem quando aparecem verbos que não refletem a existência de objetos. dependendo da interpretação que cabe a ela: se existe pelo menos duas iguanas específicas ou se não existe necessariamente o objeto. substantivo comum. (05) Julgo que as iguanas existem. a exemplo e verbos como andar e ler). No continuum das cores. há situações embaraçosas para uma teoria da referência. Até mesmo advérbios podem definir-se referencialmente: o significado de devagar pode ser apreendido através de ações que exibem a propriedade da lentidão. 25). há um problema mais complexo. A partir da primeira frase. pressupomos que elas existem.: este livro) ou uma classe deles (ex. para delimitar onde começa e termina o vermelho? O mesmo se diga com relação aos limites entre monte e montanha. e. Esclarecida a noção de referente. em sentido genérico). opiniões ou expectativas. numa situação comum de intercâmbio verbal. Na terceira frase. Isto sem falar na possibilidade de modalizar predicados existenciais. por fim.

Decorrente desta visão instrumentalista. PALMER. Nesta obra. tais como /liberdade/. Outra observação: já que significado e uso se confundem e o valor semântico de uma palavra está em função do contexto lingüístico ou extralingüístico. então a tarefa é não só ingrata como inconseqüente. /transubstanciação/ ou /mundo livre/. p. considerando os contextos. 15). o sentido de uma palavra é o seu uso na linguagem. As funções das palavras são tão diversas quanto as destas últimas.(09) É possível que Deus exista. em o ____ apanhou o rato. estamos dispostos até mesmo a enfrentar a morte. e afirmar que o privilégio de palavras aparecerem em tais contextos com uma certa distribuição de freqüência entre as ocorrências é o significado lingüístico de gato (!). s.. Em defesa ou pela destruição dessas unidades culturais (como de outras. comprei peixe para o meu ____. Não se podem fazer considerações sobre os enunciados acima sem levar em conta os aspectos subjetivos inerentes aos adjetivos subseqüentes à cópula. 63-6). (10) É impossível que Deus exista. p. b) poderíamos pensar em testes de substituição como. desenhos. Ullmann (s. de comunicação entre os homens.3 Outras propostas: a instrumental e a contextual Existem outras tentativas de definir-se o significado em bases tangíveis. uso e significado se aproximam. sendo as palavras comparáveis a ferramentas. Só podemos compreender a linguagem humana. existem outras teorias contextualistas como as de Firth (cf. c) desta forma. a língua e seus conceitos são vistos como instrumentos.d. ela é o único referente. um astrônomo passou alguma vez por essa experiência. por exemplo. lingüístico e extralingüístico.2. 138-41) assim comenta a proposta de Wittgenstein: a) se nos limitarmos a reunir e analisar contextos nos quais ocorra a palavra.. Devido a todas essas questões.d. ou de outros meios. sugeriu o seguinte roteiro para a análise lingüística: . 5. como justificar a prática lexicológica de uma palavra em campo semântico? No âmbito da Lingüística. que explicitando melhor a noção de contexto empregada pelo antropólogo polonês Malinowsky. Eco (1974) assim se expressa sobre o que denomina o equívoco do referente: comumente falamos numa coisa chamada /Alpha Centauri/. Quando a morte chega. mas sem jamais tê-la experimentado. p. o único evento não-semiotizável (um semiótico morto não mais comunica teorias semióticas). e só depois. Conhecemos apenas uma unidade cultural que nos foi comunicada através de palavras. que adota uma abordagem operacional nas Investigações Filosóficas. Uma delas é de Wittgenstein. Mas nós não conhecemos esse astrônomo. Mas até um instante atrás é ela usada quando muito como unidade cultural (1974. Com algum estranho aparelho.

para a qual uma resposta direta e conclusiva. “isto ou aquilo. podemos estudar os seguintes fenômenos: a) sinonímia e paráfrase. Ao contrário. irmã.1. relação de igualdade que se dá respectivamente entre palavras (garoto e menino) ou entre frases (João ama Maria ou Maria é amada por João). “Quando Einstein se aposentou?”.2 a ação não-verbal dos intervenientes pessoas. Isto sem mencionar as diversas abordagens teóricas sobre o assunto. 2. Objetando contra o modo de conduzir a questão do significado em termos tradicionais. vaca. Supõe-se que pode ser obtida uma resposta da forma “Significado é isto ou aquilo. parece-me. pode ser dada. responder à pergunta “o que é significado?” não é tarefa fácil. 46). em vez de perguntarmos “o que é o significado”. Não é uma questão como “Qual é a capital da França?”. Por que não é simplesmente uma pergunta feita sobre um fato isolado. voltados para a identificação de sua natureza. atriz com o traço comum fêmea) e sua diferença semântica em relação a outros conjuntos de lexemas. como “o que é a matéria?”. uma pergunta que pode ser respondida simples e diretamente. mulher. P. freira. “o que é a luz?” (KATZ. que ocorre entre conjuntos de lexemas que têm em comum um traço semântico (exemplo tia.” Mas a questão “O que é o significado?” não admite uma resposta direta. “Onde é a Tasmânia?”. 6 ELEMENTOS PARA UMA TEORIA SEMÂNTICA: A PROPOSTA DE KATZ Como demos a conhecer. os objetos relevantes 3. égua. A questão é geralmente tratada como “Qual é a capital da França?”. . 1982. a ação verbal dos intervenientes 1. somente através das manifestações dos significados é que se pode construir uma teoria semântica. Da mesma maneira que os físicos não podem dizer o que é a matéria mas somente identificar um vasto número de fenômenos manifestos no comportamento da mesma. os efeitos da ação verbal Teceram-se críticas a Firth. b) similaridade semântica. porque não há consenso entre filósofos e psicólogos a respeito da natureza do mesmo. é uma questão teórica. tanto para referir-se à relação entre linguagem e mundo quanto para reportar-se a relações gramaticais. Katz (1982) argumenta: o equívoco. as características relevantes dos intervenientes: personalidades 1. “Paris”. Uma delas diz respeito ao uso equivocado da palavra significado. está na suposição de que a questão “O que é o significado?” pode ser respondida de modo direto e conclusivo.1. Assim. Katz tece uma analogia.” sua resposta é ao contrário uma teoria toda.

segue-se que há espaço para várias abordagens semânticas e não apenas para uma. se decorre de outra sentença implícita verdadeira (Onde está a chave? pressupõe a chave está em algum lugar). relações de sentido na frase. m) pressuposição. em que a verdade ou a falsidade de uma sentença não é determinada pela linguagem. aberto/fechado). campo léxico. polissemia e homonímia. neste livro. convém destacar. d) hiperonímia e seu inverso. mas pelo que ocorre na realidade (reis são generosos). à formulação modal. O sentido. referindo-nos aqui à dêixis. hiponímia. e) significatividade e anomalia semântica. que é a relação entre duas sentenças pela qual uma se segue necessariamente da outra em virtude de uma certa relação semântica entre elas (monarcas são pródigos implica rainhas são pródigas). oposições e contrastes. a resposta está incluída na própria pergunta (Qual é a cor do meu carro vermelho?). isto é. em que palavras superordenadas e subordenadas se relacionam (flor/tulipa). o) questão auto-respondida. por implicação semântica. em que uma sentença só apresenta sentido de verdade lógica. João chegou terça-feira são respostas possíveis a quando João chegou?). l) implicação. Presentifica-se também nas categorias pronominais e verbais e complexifica-se se consideramos o contexto discursivo. Dada a amplitude da entidade sentido quanto a suas manifestações. em que. influência do contexto na produção do sentido. se presentifica desde as formas mínimas. . aos seguintes aspectos: sinonímia (léxica e frasal). n) resposta possível. f) ambigüidade semântica. os morfemas. que se estabelece a partir de diferença semântica devido à incompatibilidade de componentes (amor/ódio. pelo fato de a verdade de uma implicar a falsidade da outra. que pressupõe uma compatibilidade entre sentenças interrogativas e sentenças afirmativas (João chegou ao meio-dia. Em virtude dos amplos objetivos atribuídos por Katz à Semântica. limitamo-nos. h) verdade analítica.c) antonímia. que acontece quando os componentes de significado dos modificadores se incluem nos constituintes centrais (um nu despido). às relações de acarretamento e à escalaridade. a multiplicidade de sentidos de palavras ou sentenças (é o que acontece com palavras como botão ou pé e com a sentença vi o rapaz da janela). k) inconsistência. em que é impossível atribuir simultaneamente verdade ou falsidade a sentenças como João está vivo e João está morto. hiperonímia e hiponímia. g) redundância semântica. j) sinteticidade. i) contradição. que se estabelece em virtude de o significado do sujeito conter informação incompatível com a que é atribuída a ele pelo predicado (bebês são adultos). que ocorre quando o significado do sujeito contém a propriedade expressa pelo predicado (reis são monarcas). que se deve ao fato de sintagmas ou sentenças terem significado e outros não apresentarem significado (cócega mal cheirosa).

a) Diz o autor: “o termo ‘referência’. Distinga cada um deles com exemplos. Exercícios de reflexão 1. tem a ver com a relação existente entre uma expressão e aquilo que essa expressão designa ou representa em ocasiões particulares de sua enunciação. 2.pronomes pessoais. Todas as noites. Verifique até que ponto existe a equivalência denotação/extensão.” (s. Leia o sétimo capítulo de Lyons (s. conotação. O senhor Ferreira procura o prefeito. Interprete a extensão e a restrição de significados em termos de referência e de referente. .sintagmas nominais definidos.d. CAPÍTULO III PARA UMA TEORIA SEMÂNTICA: DA NOÇÃO DE SIGNO 7 INTRODUÇÃO A finalidade deste capítulo é fornecer informações básicas sobre uma noção importante em Semântica e em teoria lingüística em geral: a de signo. O leão é um animal pacífico.nomes próprios. sentido e denotação e responda aos itens seguintes. a) b) c) d) e) f) Aquelas pastas custam cem reais. extensional. instrumentalista e contextual. Mostre a ambigüidade dos sintagmas nominais nas sentenças abaixo. Os professores têm o direito de escolher uma linha teórica.d. Em que medida o significado do termo referência se aproxima ou diverge do mesmo termo empregado por Ogden e Richards? b) Lyons reconhece três tipos principais de expressões singulares definidas: . intensão. p. conotação/intensão. 145). a definição dos lexemas: denotação.. em dicionários técnicos apropriados. 3.Antes de passarmos a estes tópicos específicos. . . às seis horas uma cegonha sobrevoa a nossa casa. Examine o triângulo de Ogden e Richards. 5. Analise os pontos comuns e diferenciais entre as teorias behaviorista.) sobre referência. a ser tratada no próximo capítulo. extensão. tal como o definiremos adiante. julgamos por bem tecer mais uma consideração teórica geral: a noção de signo. Exemplifique. 4. João quer casar com uma moça de cabelos louros. Procure.

O lingüista genebrino.Como ela envolve muitos aspectos: estrutura sígnica. o signo na cadeia de produção de significados. Comecemos. objeto de estudo desde a tradição clássica. Se o fazemos. Fonema traz implicada uma idéia de ação vocal e só é aplicável aos sons e às sílabas de uma palavra. tal imagem é sensorial e. mas a impressão (empreinte) psíquica desse som. isto se deve à oposição que se estabelece com o conceito. 80). Saussure defende a arbitrariedade em termos de relação imotivada entre significante e significado. e por oposição ao outro termo da associação. Como vemos. p. 8 DA ESTRUTURA DO SIGNO 8. talvez pó um lapso de Saussure. p. conceito e imagem acústica. de natureza psíquica. coisa puramente física. mas um conceito e uma imagem acústica” (1977. é despropositado mencionar os fonemas que o compõem.1 A Concepção de Ferdinand de Saussure Foi Saussure (1977) que enfeixou reconhecidamente valiosas contribuições da tradição sobre o signo lingüístico. p. geralmente mais abstrato (1977. O signo lingüístico exibe duas características essenciais: a arbitrariedade do signo e o caráter linear do significante. como bem assevera Saussure. para. O lingüista advoga. que o lingüista afasta tanto quanto pode de suas considerações sobre o signo lingüístico. . Fiel à tradição sociológica. achamos por bem limitar nosso trabalho ao essencial num livro introdutório. podermos falar ou recitar mentalmente um poema” (1977. em primeiro lugar. do signo como estrutura. “geralmente mais abstrato”. Mas o que dizer da imagem acústica? Sobre ela. tinha tendências mentalistas. A propósito. não entre significante e coisa. 80). é apenas por comodidade que caracterizamos o significante como físico. que. Sendo o significante imagem acústica. a representação que dele nos dá o testemunho de nossos sentidos. uma vez que não associa o significado de uma palavra à situação extralingüística: “o signo lingüístico une não uma coisa e uma palavra. vale destacar que o adjunto adverbal na realidade introduz. se chegamos a chamá-la “material”. na realidade. tem o signo lingüístico como entidade de duas faces. o referente. “sem movermos os lábios nem a língua. teoria dos códigos e condições de produção do signo. Ou. como se sabe. o conceito. em outros termos. reconhecia duas faces na entidade signo: significado e significante. o fato de. pois. Insiste na ausência de laços naturais na realidade. Só em passant nos referiremos às condições de produção. em seguida. 80). ambas de natureza psíquica. pela estrutura do signo. mostrarmos como ocorrem as relações entre signos. deixa bem claro que não se deve pensar que arbitrariedade implica livre escolha do falante. assim se exprime o mestre de Genebra: esta não é o som matéria. pelo menos neste ponto. em favor da tese do caráter psíquico da imagem acústica. Tratamos. é somente neste sentido. O uso do termo conceito já induz o leitor de Saussure a constatar que o autor.

As conseqüências da linearidade do significante são valiosas. Antes de nos reportarmos ao lingüista dinamarquês. A Lingüística não é senão uma parte dessa ciência geral. Não é o caso aqui de avaliarmos a amplitude desta noção. vale a pena citar esta passagem do Curso. trata-se. 131). o que implica que “o significante. como os marítimos. é forçado a precisarse ao se decompor. não se pode dizer o que será. a do pensamento e a do som. de o “pensamento-som” implicar divisões e de a língua elaborar suas unidades constituindo-se entre duas massas amorfas (1977. em que os significantes visuais coocorrem e em várias dimensões. à existência. nem materialização de pensamento. Registre-se que a escrita. por exemplo. em que fica clara a noção de signo como entidade relacional entre duas massas amorfas. da Psicologia geral. diz respeito ao seu caráter linear. em condições tais que uma união conduza necessariamente a delimitações recíprocas de unidades. O pensamento. a despeito da obviedade do princípio. O conceito de distribuição. ela constituiria uma parte da Psicologia social e. reflete a linearidade do significante. desenvolve-se no tempo unicamente e tem as características que toma do tempo: a) representa uma extensão. chamá-la-emos de Semiologia (do grego sêmeion. por conseguinte. do fato.2 A Concepção de Hjelmslev A concepção de signo de Hjelmslev (1975) se prende à tradição saussuriana. então. que leis os regem. conceber uma ciência que estude a vida dos signos no seio da vida social. Seu projeto ia além e tinha a noção de signo como carro-chefe. Saussure não parecia interessado apenas em lançar as bases da Lingüística que se convencionou estrutural. para daí extrair uma doutrina “coesa”. caótico por natureza. 84). .O segundo princípio referente ao significante. “signo”). 24). Não há. 8. antes. p. as leis que a Semiologia descobrir serão aplicáveis à Lingüística e esta se achará dessarte vinculada a um domínio bem definido no conjunto dos fatos humanos (1977. Como tal ciência não existe ainda. e b) esta extensão é mensurável numa só dimensão: é uma linha” (1977. sinal de sua importância. devido à sua disposição espacial. seu lugar está determinado de antemão. depende do da linearidade do significante. p. Pode-se. ela tem direito. porém. de certo modo misterioso. O papel característico da língua. p. nem espiritualização de sons. Podemos. A nós parece que juntou concepções e vislumbres que se encontram no Curso de Lingüística Geral. Ela nos ensinará em que consistem os signos. ilustrar. sendo de natureza auditiva. A idéia desta entidade persiste ao longo do Curso. A doutrina de Ferdinand de Saussure sobre o signo lingüístico nos parece mais ambiciosa do que pode parecer à primeira vista. todavia. como se pode atestar no Curso. e se estabelece a referida noção como forma e objeto em Lingüística. mas servir de intermediário entre o pensamento e o som. Visava a fundação de uma Semiologia. pois. frente ao pensamento não é criar um meio fônico material para a expressão das idéias. Esta característica distingue o signo lingüístico de outros signos.

PLANO DO Substância do conteúdo – (SC) (= designatum) CONTEÚDO Forma do Conteúdo – (FC) (= significado) PLANO DA Forma da expressão – (FE) (= significante) EXPRESSÃO Substância da Expressão – (SE) (= som) SIGNO Hjelmslev sofistica um pouco mais a noção saussuriana de signo com a noção de função. no terreno limítrofe. p. é o exposto abaixo (retirado de LOPES. pleremática). pois. forma da expressão e forma do conteúdo são functivos da função signo. No outro caso. forma/substância? Definamos antes o que Hjelmslev entende por substância e forma. muda a nomenclatura: expressão/conteúdo. tal como percebida ou pensada. ainda sem forma e sem organização no sistema gramatical de uma língua. temos a forma do conteúdo. de outro. O esquema hjelmsleviano para o signo. capazes de serem articulados. a gama ilimitada de sons. Quando a língua organiza o continuum sonoro. Existe também função entre raízes e afixos. é o continuum sonoro. sendo o primeiro constante. as de forma e substância. ainda inespecíficos porque não se distribuem nem se opõem numa dada língua. nos mesmos termos em que há função entre sujeito e predicado. Num caso. e. Deste modo. . Legitima-se assim a fonologia (para o autor. No que diz respeito ao primeiro par. já que aparece sempre para configurar uma oração. isto é. s.d. numa perspectiva meramente aproximativa: ainda estamos nos dois pólos extremos do som e do pensamento. quando organiza o continuum do pensamento e das percepções. como ponto de partida. “Uma dependência que preenche as condições de uma análise será denominada função” (1975. uma pressupõe a outra e vice-versa. 39). 95). p. Como juntar este par ao outro. matérias amorfas para Ferdinand Saussure. afirmamos que existe solidariedade nesta função. p. o autor conclui naturalmente que “a Lingüística trabalha. onde os elementos das duas ordens se combinam. as noções de expressão e conteúdo e. Como a função signo pressupõe uma relação recíproca entre forma da expressão e forma do conteúdo. existe função entre o predicado e o sujeito de uma frase. em um sentido próximo do da Matemática. Os membros de uma função são functivos.. temos a forma da expressão. A substância incide tanto sobre a expressão quanto sobre o conteúdo. de um lado. chamada cenemática) e a gramática (para o autor. já que nem sempre ocorre como nas orações sem sujeito. constitui a realidade extralingüística. e o segundo variável. com as seguintes noções: significante/significado. Em outras palavras. esta combinação produz uma forma não uma substância” (1977.Como arremate da concepção acima exposta. forma/substância. Por exemplo. em que conjuga. 131) Hjelmslev opera. Dependência e função são termos que se pressupõem.

9 DAS RELAÇÕES ENTRE SIGNOS 9. em contrapartida. “A forma é independente da substância.v. 89). “O primeiro . a expressão e conteúdo. Para o lingüista dinamarquês.. baseado em Eco (s. 1978. Dados os objetivos didáticos deste livro. em vez de definir com rigor o processo citado. Esta tem como significante um signo anterior.” (DUBOIS et al. mas uma substância lingüística. punição obrigação ← significante de significante de→ ← significante de significante de→ não passagem S← s vermelho verde decisão livre escolha passagem S→ s Resumindo: denotação e conotação são termos relativos. p. 89). Hjelmslev assume posição própria que destoa da de Saussure. p. Na cadeia de produção interna de significados. enquanto a permissão /passagem/ significa “livre escolha” (posso também não passar). Comecemos com a conotação. substância).d.d. extraído de Eco (s. Isto depende de um ponto de partia. preferimos ilustrar com o quadro abaixo. podemos ter teoricamente sucessivas denotações e conotações. s. respectivamente.) exemplifica o mecanismo denotação/conotação nestes termos: quando atravesso um cruzamento com semáforo sei que /vermelho/ significa “não-passagem” e /verde/ significa “passagem”. 90). mas a recíproca não é verdadeira: uma forma lingüística pode não se manifestar por uma substância lingüística (caso do morfema zero).d. Tudo que foi dito acima pode ser ilustrado por este quadro.. numa definição um tanto inexata.. significante significante significado significado Eco (s. Além disso. manifesta necessariamente uma forma lingüística. Mas sei também que a ordem de /não-passagem/ significa “obrigação”. a forma tem primazia sobre a substância.. p.d.1 A Perspectiva de Hjelmslev Hjelmslev parte da noção de signo para mostrar os mecanismos de denotação. digamos. sei que /obrigação/ significa “castigo pecuniário”. em que os termos significante e significado correspondem. da conotação e da metalinguagem. “apressar-se a decidir” (s.Em alguns outros pontos. enquanto a /livre escolha/ significa.

Para Eco. Hjelmslev não se preocupa apenas com o signo enquanto estrutura. a noção é relativa. A soma das várias linguagens seria um sistema auto-explicativo. que leva ao processo de semiose ilimitada. fundada por Peirce. e assim sucessivamente. mas conotativa segundo um nível mais baixo” (ECO. Esta acontece quando. mas também enquanto funcionamento interno.nível de significantes-significados constitui uma semiótica denotativa. no qual se esboçava uma nova ciência que daria conta da vida dos signos no seio da vida social. Por isto. O segundo nível é uma semiótica conotativa cujos significantes são signos (significantes + significados) de uma semiótica denotativa. assim.d.2 A Perspectiva de Eco Eco (1980) tenta agregar a noção de signo de Hjelmslev e a noção de signo de um filósofo. na obra de Eco. Deste modo. usamos a língua para falar da própria língua. tanto no discurso ordinário. já citada. uma grandiosa tentativa de conciliar perspectivas filosóficas e perspectivas lingüísticas. mas introduz um conceito. Não vãos nos deter na noção de interpretante. do universo humano. porque seu domínio vai além do . Há. a Semiologia. o signo semiótico ultrapassa a cultura e pode ser aplicado ao domínio da natureza. se baseia em noções filosóficas. ou um sistema que se explica por sucessivos sistemas de convenções a se esclarecerem entre si. bem como de metalinguagem. O terceiro nível é uma semiótica conotativa de segunda potência. de modo a situar-se no limite entre a Semiologia e a Semiótica. Dava mostras de compreender o espírito do Curso. já exige outro. de modo a garantir a circulação teoricamente ilimitada de signos. ganha uma dimensão essencialmente descritiva. A primeira tem inspiração lingüística.” (ECO. s. 90). por exemplo. um signo se deixa traduzir por outro signo. quanto no discurso científico. Percebemos. É claro que a parelha denotação/conotação reflete no exemplo e em outros congêneres aquilo que já está codificado na cultura. p. Daí poder falar-se de processos sígnicos na Botânica e na Zoologia. que “é a única garantia de um sistema semiótico capaz de explicar-se a si próprio. p. o de interpretante. cujos significantes são signos de uma semiótica que é denotativa em relação em nível mais alto. Na produção interna do significado. que.. inspirado em Peirce. que difere da Semiótica. 9. Vale-se das noções já referidas de denotação e conotação. enquanto a segunda. Também acontece quando um determinado código remete a outro. o interpretante é um signo de signo. significante significante Significado Significado Como vemos. Em outras palavras. Peirce. a metalinguagem pode ser resumida conforme o quadro abaixo. uma cadeia de interpretantes. bem como em outras. Mas Semiologia e Semiótica dependem da noção de signo. 1980. por sua vez. Hjelmslev também define a noção de metalinguagem. em seus próprios termos. embora com dimensões distintas: o signo semiológico é o signo apenas da cultura. 58).

nenhum interpretante de um objeto é o primeiro ou o último. não temos limites para que a cadeia de interpretantes deixe de funcionar incessantemente. emissor e receptor têm individualizadas suas pressuposições e as possíveis conseqüências lógicas das mesmas. de modo que o discurso está circunscrito ao espaço e ao tempo. todavia. 38). com Rector & Yunes (1980). devemos primeiro pensar em termos de aceitabilidade e compreensiblidade das mesmas. Assim. O receptor não é passivo: não participa apenas de um jogo comunicativo como que em corrente alternada com o emissor. No plano estritamente teórico. O esquema do que acabamos de afirmar pode ser sintetizado na cadeia abaixo. mas isto é objeto de um trabalho especializado.: o lexema cão se associa à noção de fidelidade). Se pedimos a definição de cadeira e alguém aponta para um objeto que represente o conceito. É tentador verificar de que modo a doutrina de Hjelmslev sobre conotação e metalinguagem pode-se assujeitar a uma doutrina mais geral dos interpretantes. por exemplo. pressupõe a situação. a indicação sobre o objeto cadeira é interpretante das cadeiras em geral. para interrogar ou pedir. pois podem existir na ausência destes) leva a concepções arrojadas. pode até modificar em diversos graus seu sistema de crenças sobre o mundo. Tais emissões verbais são utilizadas para referir-se a um estado de coisas no mundo. a doutrina dos interpretantes. OBJETO (signo antecedente) SIGNO (interpretante) INTERPRETANTE (signo conseqüente) A teoria dos interpretantes (que não devem ser confundidos com os intérpretes. circulares: para todo signo há um signo antecedente para o qual ele é intérprete. Na prática. para afirmar sobre a organização de um dado código. podemos resumir assim. Em suma. Neste sentido. O signo. objeto. A mensagem produz sobre ele efeitos.lingüístico. Compartilham crenças em variados graus. 10 DAS CONDIÇÕES EXTERNAS PARA O FUNCIONAMENTO DO SIGNO Pelo último esquema apresentado na seção acima. o entorno. . pois. Ao mandar ou receber mensagens. interpretante são. O ato de recepção não se resume a uma mera decodificação lingüística stricto sensu do conteúdo veiculado pela expressão. isto sem falar dos participantes (estamos falando aqui do signo lingüístico). respeitadas as condições externas de tempo e espaço. O interpretante é um “mediador” – serve de intermediário entre o signo antecedente e o objeto que tem em comum com este último. p. e um signo conseqüente que é seu interpretante. a semiose deve chegar a um termo. Pode-se dizer também que todo signo é um interpretante. no qual se situam o falante e o ouvinte. As definições signo. O signo é atado novamente ao seu objeto por meio de um outro signo que o interpreta. além disso. o termo interpretante é um termo relativo (1980. A noção se aplica multiformemente. na tradução de uma linguagem para outra ou até mesmo numa associação emotiva (ex. Quando pronunciamos palavras ou frases.

isto se aplica aos signos verbais. cada emissão discursiva tem seu aqui e seu agora. O trabalho desenvolvido para manipular o continuum expressivo. Não podemos aqui nos estender nos detalhes da produção de sentido. coisas ou estados do mundo. Se a teoria dos códigos. que. onde produz ocorrências concretas de dados significantes. tendo em vista a variedade de fatores implicados. Estes três processos estão estreitamente inter-relacionados: uma vez colocado o problema da formação do continuum expressivo. Num determinado estádio de investigação. o discurso. porém. Deste modo. nasce o da sua relação com o conteúdo e com o mundo. Em que medida as onomatopéias interferem na arbitrariedade do signo lingüístico? Em que medida elas fazem intervir o referente e a cultura na questão da arbitrariedade? . Logicamente. Ao mesmo tempo. é imotivada.a despeito de sujeitar-se a condições gerais de funcionamento. um evento irrepetível. (iii) o processo de CONEXÃO entre estes signos e eventos reais. havia voluntariamente obliterado essas diferenças. de modo que se configura como um acontecimento. (ii) o processo de CORREÇÃO da expressão formada por um conteúdo. admite a intervenção do fator extra-sígnico na moldagem do significado do próprio signo. É trabalho porque envolve produção de sinal e também porque envolve escolha (tanto dentro do sistema de signos como também entre sistema de signos) dos sinais apropriados para se combinarem uns com os outros. contempladas suas condições de produção. no seu esforço de oferecer uma definição unificada da função sígnica. após tratar do signo numa teoria dos códigos em geral. p. considerando o trabalho efeito e material necessário para a produção dos significantes. 136). Exercícios de reflexão 1. traz como evidência imediata o fato de que existem diversos tipos de signos. uma definição de signo enquanto tal. O objetivo desta secção final é simplesmente indicar que o signo vai além de uma mera estrutura. mas da sua inter-relação complexa (1980. Para tanto investigue sobre isso em manuais especializados de Lingüística. como assevera Saussure. devese passar de uma teoria dos códigos para uma teoria da produção do signo. compreende-se que aqueles que eram comumente chamados de “tipos de signos” não são o resultado claro e inequívoco dessas operações. Mostre que a relação entre significante e significado. 2. o signo não teria uma dimensão social que se define por regras de uso. é um ato. uma vez que estamos nos reportando aos signos sociais em geral. um trabalho. decorrentes de um processo tríplice: (i) o processo de MANIPULAÇÃO do continuum expressivo. Tampouco basta a listagem dos diversos signos. um trabalho produtivo. pois. é obrigada a reconhecer que existem diversos modos de produção. Não basta. sem nunca chegar ao interpretante final. Como bem sintetiza Eco (1980). de um simples funcionamento interno. Assim entendido. a teoria da produção sígnica. porque isto implicaria uma cadeia ininterrupta de interpretantes.

embora compartilhem traços. Relacione denotação/conotação com a noção de interpretante. existe a noção de semiose ilimitaa. Além da noção de signo. Na teoria da produção sígnica. criadas por você. 9.3. que. há duas idéias sobre o signo. são essenciais: os participantes. 4. Relacione produção de sentido e trabalho e mostre que a relação entre duas noções confere ao signo sua mais ampla dimensão social. Procure verificar se há relação entre mudança e arbitrariedade do signo. diferem em alguns pontos. neste capítulo. . 7. o tempo e o espaço. Mostre que a noção de denotação/conotação garante a cadeia de signos na produção de sentido. a) Quais os traços comuns? b) Quais os traços diferenciais? 5. a) De que modo os participantes particularizam seus papéis? b) Como o espaço e o tempo condicionam a produção de sentido? Responda com base em situações hipotética. a) Em que consiste essa semiose? b) Para você. que garante a estrutura da cadeia de signos e seu funcionamento interno. qual noção prevalece como central na produção do sentido: a de signo ou a de semiose? 6. Consulte o Curso de Lingüística Geral sobre este assunto. 8.

“a noção de sinonímia permanece intuitiva e bastante nebulosa” (1995.CAPÍTULO IV A SINONÍMIA LÉXICA 11 INTRODUÇÃO Um dos assuntos mais controversos em teoria semântica é a sinonímia. 249). por exemplo. Se um idioma é considerado superior ou inferior. se A implica B e B implica A. costume e hábito. ar). p. mostram descrença quanto a uma definição precisa do fenômeno. Ou os termos sinônimos se diferenciam ou um deles desaparece. ele se recusa a aceitar uma sinonímia que seria inútil e perigosa. 33). haveria sinonímia. de fato. opera-se um trabalho de classificação que consiste em atribuir valores às expressões sinônimas. à expressão dos sentimentos. assevera: “nosso pressuposto fundamental implica que cada forma lingüística tem um significado constante e específico. coloca em dúvida a existência da sinonímia. que. 145) (tradução nossa). Na Bretanha. como Bloomfield (1933). Vários fatores interferem na não-existência da sinonímia. A influência das ciências. Outro fator a ser considerado é a evolução conceitual na psicologia dos povos. Contra-argumenta com duas palavras. segundo Bréal. cujos significados se implicam reciprocamente. um sentimento de desprezo ligou-se à denominação rústica. argumentando. Se as formas são foneticamente diferentes. ou mesmo dois dialetos. que parece ter servido no princípio para denominar as operações mentais em sua totalidade. a língua impõe . acerca dos quais falaremos oportunamente. à discussão dos interesses e. da filosofia e da literatura pode também ser decisiva. num capítulo intitulado “A Lei da Repartição”. Por exemplo: Platão. terra. Além dos autores que negam a sinonímia. há aqueles que. Um exemplo é a raiz man. em virtude de uma grande variedade de fatores que interferem no fenômeno. A respeito dela. Todavia. com base no conceito de implicação mútua: dadas duas palavras A e B. sendo. em nível verbal. por isso. e que o eram efetivamente. seus termos podem aumentar de prestígio ou ficar desprestigiados. Um deles: quando duas línguas. O autor tenta estabelecer um critério para a sinonímia. Afirma o autor que os chamados dicionários de sinônimos apresentam na verdade palavras de significados muito próximos. no domínio filosófico. estabeleceram-se distinções. Uma vez conhecida a palavra jardin. Há lingüistas que negam a sinonímia. como Perini (1995). Afirma o autor. Para Perini. Bréal (1992). sentiu necessidade de distinguir dois termos que antes eram sinônimos: archai (dos princípios) e os stoicheia (os elementos: fogo. p. para o povo. supomos que os significados das mesmas também são diferentes” (1933. a linguagem se presta à troca de idéias. tomaram. o pensamento ou a paixão. Com o passar do tempo. Bréal chama de repartição “a ordem intencional em virtude da qual as palavras que deveriam ser sinônimas. entram em contato. dicionários de idéias afins. entre as duas citadas operações. p. entretando sentidos diferentes e não podem mais ser empregadas uma por outra” (1992. os jardins eram denominados courtils.

Esta sinonímia pode até persistir durante um período indefinido. apesar de todas as objeções supra contra a existência da sinonímia. Por exemplo: é lícito falar de usos e costumes da nossa tribo. que.d. um termo pode implicar aprovação ou censura moral enquanto o outro é neutro: parco. existem autores que optam por enfoque menos radical sobre o assunto. Vejamos algumas destas posições. maníaco/sistemático. Ullmann admite. gargalhar/rir/sorrir. que o mesmo autor pode usar indiferentemente. No entanto. Ullmann remete a recentes estudos sobre formação de terminologias industriais. c) Distinção quanto ao teor emotivo e avaliativo: abandonar/deixar.restrições de emprego a uma e outra. que podem ser assim estabelecidas: a) b) c) d) e) f) g) h) i) um termo é mais geral que outro: recusar/rejeitar. p. segundo Bally (1951. os quais mostraram que vários sinônimos surgiram em torno de uma invenção.) reconhece que há uma grande dose de verdade nas afirmações contrárias à possibilidade de uma completa sinonímia. um termo é mais coloquial que outro: recusar/declinar. Em alemão. Formenlehre e Morphologie (Morfologia). 12 A SINONÍMIA NA PERSPECTIVA DE ULLMANN Ullmann (s. muito poucas palavras são completamente sinônimas no sentido de serem permutadas em qualquer contexto. um termo é mais literário que outro: passamento/morte. e da Medicina: cecitus e typhlites (inflamação do intestino cego). (Fonética). contudo. mas não usos e hábitos da nossa tribo. um termo é mais emotivo que outro: gana/vontade. Podemos esquematizar a proposta de Ullmann conforme os parâmetros traçados por Martins (1989. temos: Lautlehre e Phonetik. porém. que não é verdade absoluta. no cômputo geral. suplicar/pedir. sem que isto acarrete a mais leve alteração do significado objetivo. frugal/econômico. cortar/decepar. morrer/perecer. Apóia-se nas conclusões de Collinson. embora admitam que são muitos os fatores interferentes. a) Distinção em termos de diferença objetiva: um termo é mais geral: carro/automóvel. Dá como exemplos os termos da Fonética espirantes e fricativas. um termo é mais intenso que outro: repudiar/rejeitar. 203) dizem respeito à origem ou à variedade sociolingüística de uma palavra): . d) Distinção em termos de valores evocativos (que. um termo é mais local ou dialectal que outro: tangerina/mexerica um dos sinônimos pertence à linguagem infantil: papá/pai. p. Bedeutungslehre e Semantik ou Semasiologia (Semântica). Exemplifica com a linguagem técnica. 105-07). b) Distinção em termos de intensidade: berrar/gritar. um termo é mais profissional que outro: óbito/morte. que limitam a sinonímia e põem em xeque o fenômeno enquanto pura identidade de significados. Admite. Ilustra também com os termos da Lingüística: semântica e semasiologia.

ósculo/beijo. Em termos de lingüística textual. p. p. dois itens lexicais podem diferir quanto aos registros ou níveis de estilo. Isto. luta sem qualquer prejuízo do alcance informativo (1978. Deste modo declinar é mais ou menos sinônimo de recusar quando significa o oposto de aceitar. não descarta o método anteriormente descrito. Palmer (s. . bóia/comida. A admissão desta modalidade de sinonímia é ponto pacífico entre diversos lingüistas. p. mas textual”. 77).. por exemplo.d. falaz/enganador.. pois é exatamente no contexto em que recusar e declinar podem alternar que ambas tem o antônimo aceitar. mas não quando se opõe a elevar-se. que é difícil traçar uma distinção clara entre os parâmetros b e c porque intensidade e emotividade se imbricam. Ullmann (s. Uma vez estabelecida a possibilidade da sinonímia parcial como regra. o que interfere obviamente na permutação deles.d. como bem observou Fávero (1991. Por este método. 54-5). todavia não vê com muito entusiasmo o método da substituição. Por outro lado.: há necessariamente coincidências múltiplas. como a própria autora reconhece. Em essência é o mesmo parecer de Guimarães (1990. ainda é mais possível numa dada situação lingüística. p. para quem são lexemas sinônimos os que possuem identidade referencial. indagamos se existem métodos para aferi-la. Não obstante o exposto. Isto sem falar nas diferenças estilísticas e os níveis de registros sempre em jogo.um termo é mais literário que outro: venusto/belo. porém.. em determinados contextos. mas numa frase sobre “a guerra na Coréia” se pode usar. 296) chama atenção para o fato de que pode não haver sobreposição no que tange aos aspectos estilísticos. diferenças de acepção entre termos como luta e guerra. não se vá inferir que não existam palavras cujo significado não se interseccionam.um termo é mais real ou dialetal que outro: vasquim/escasso.um termo é mais coloquial ou mais vulgar que outro: bagunça/desordem. unha-de-fome/avaro. . pois a sinonímia não é um problema puramente léxico. quicé/faça. p. pois ele indica somente a possibilidade de co-ocorrência. milico/soldado.um termo é mais profissional que outro: cirurgia/operação. mas não em todos. não parece que haja necessariamente uma relação íntima entre essas possibilidades e a proximidade de significado. Embora próximos quanto ao significado objetivo. pode-se deduzir sinonímia entre dirigir e governar por exemplo. quengo/cabeça. escabiose/sarna. 24): “o importante é a identidade referencial. e a equivalência significativa de duas ou mais palavras. . onde só funciona uma parte do campo semântico que cada palavra abarca. a exemplo de Câmara Jr. Há que destacar-se. possível em princípio. Outro método proposto por Ullmann é o da investigação dos opostos. A sinonímia parcial pode ser prevista dicionarialmente e se dá em conformidade com o contexto. Um dos métodos propostos é o da substituição. . 31). em substituição. tomados isoladamente. É fácil afirmar. Maduro na expressão menino maduro pode ser muito bem substituído por adulto.

no entanto. que consiste em agrupá-los numa série em que os seus significados e tonalidades distintivas se destacam por intermédio de contraste. Não há necessidade de discutir aqui a validade psicológica das distinções entre as várias “faculdades” mentais sobre que se basearam originalmente as distinções entre significados “cognitivo” e “não-cognitivo” sem necessariamente subscreverem a idéia de que o “intelectual” é profundamente distinto do “afetivo”. Uma outra objeção apontada por Lyons e. na verdade. mais parcimonioso.. Lyons. usa como parâmetro a equivalência entre os significados cognitivo e afetivo. A admissão das quatro possibilidades combinatórias. . hauridas de Ullmann. Para a segunda. Vejamos por quê. Associações afetivas se superpõem freqüentemente ao chamado significado intelectual.Ullmann (s. p. Para a primeira. A primeira objeção é a seguinte: os valores afetivos inerentes a um lexema não se separam. de maior monta é a seguinte: não há uniformidade conceitual no tratamento de distinção sinonímia cognitiva/sinonímia não-cognitiva. apenas disciplina o que já postulara Ullmann. provisória em Lyons. Existe então em termos de combinatória quatro possibilidades: a) b) c) d) sinonímia completa e total. p. é. que se pode preferir uma palavra a outra por causa de suas diferentes associações afetivas e evocativas. 476). Mas a importância disso varia consideravelmente de um estilo ou situação para outra (1979. incompleta mas total. é verdade. p. incompleta e não total. na linguagem cotidiana. quando este afirmava só se considerar como sinônimas as palavras que se podem substituir em qualquer contexto sem a mais leve mudança ou no sentido cognitivo ou no afetivo. estabelece uma condição: possibilidade de intercâmbio em todos os contextos. sem dúvida. todavia. 477). segundo ele. No que diz respeito ao uso da língua. e Lyons os separa. Convenhamos. lida apenas com dois conceitos: o de sinonímia total e o de sinonímia completa. Damos outra vez a palavra a Lyons (1979). 13 A PROPOSTA DE LYONS Lyons (1979. O lingüista é ciente das objeções feitas à distinção entre significado cognitivo e afetivo. Isto depende e muito da argúcia daquele que analisa. 297) propõe adicionalmente um método de diferenciar sinônimos. completa mas não total. que nem sempre é fácil estar atento para sutilezas das mais diversas ordens entre significados. Contra isso objeta Lyons (1979). Ullmann mistura dois critérios: o contexto e a natureza do sentido (cognitivo ou afetivo).d. Como vemos.

há nele muito de “subjetivo”. De fato. os quais se podem contrapor ao significado intelectivo: a) significado conotativo: o que é comunicado em razão daquilo a que a língua se refere. Para muitos autores que acolhem o significado emotivo. montanha/colina.. mas sim. sendo neste caso sinônimo de expressivo. sem que normalmente se considere que não deveriam ocupar um lugar especial na lingüística. por negação do significado intelectual. etc. “sinônimos cognitivos”. sem dúvida importante. e fazemos ainda outro tipo de juízo quando escolhemos as palavras. sendo flagrante o caso dos adjectivos good e bad. O que é necessário é que se examine cada um desses fatores nos termos que lhes sejam apropriados. Fazemos juízos sobre o tamanho e usamos os termos adequados: gigante/anão. O significado das palavras não é apenas uma questão de factos “objetivos”. Um dos autores que contesta a oposição entre significado cognitivo e emotivo é Palmer (s. nem razoável tentar defini-lo em termos de propriedades físicas. o termo adquirirá matizes diversos. oferece os seguintes tipos de significado. Ora dirá respeito apenas ao que implica emoção. caso contrário. para tanto. notar que nesse sentido muitos verbos e adjectivos têm pouco ou nenhum significado cognitivo. sobretudo. entre outros. Pode-se chegar inclusive ao extremo de atribuir ao termo afetivo amplo espectro de abrangência: será inferido por exclusão. Lyons julga preferível restringir o termo sinonímia ao que os semanticistas chamam sinonímia cognitiva. Apresenta. . dependendo do autor. a distinção entre significado cognitivo e afetivo é posta em termos muito vagos. três argumentos: a) nem é fácil determinar com exactidão o que é significado “cognitivo”. P. Ninguém jamais fala de palavras como “sinônimos afetivos”. Deveríamos. p. A despeito dos prós apontados em favor da distinção entre significado cognitivo e afetivo. ora se vinculará aos aspectos relativos ao emissor. b) há palavras em inglês que são usadas com fins puramente valorativos. c) fazemos juízos de toda a espécie e não apenas em termos de bom e mau. e não é possível distinguir claramente entre uma coisa e outra. 76). 478). por exemplo. Convém que atribuamos um valor mais operacional ao que se entende por afetivo. crê por bem não mais estabelecer diferença entre sinonímia completa e incompleta. das conotações “afetivas” para tudo o que se pode fazer entrar na categoria do significado “cognitivo” (1979. 147).Mas é sempre a sinonímia “cognitiva” que se define em primeiro lugar.d. Leech (apud BIDERMAN. há dimensões oponíveis ao chamado significado intelectual. Assim. De nada adianta servir-se da categoria. p. 1978. b) significado estilístico: o que é comunicado sobre as circunstâncias sociais dos usos lingüísticos. Bastaria esse fato para mostrar que “afetivo” está sendo usado como um termo polivalente que engloba um grande número de fatores bastante distintos e que podem influir na escolha dum sinônimo num contexto ou numa dada situação.

estrela do pastor/Vênus. com os valores positivos ou negativos em torno do lexema (conotações axiológicas). entre os quais aqueles relacionados com a própria definição do lexema (Vênus = estrela da manhã). apenas em coisas muito concretas: livro/tratado. Comente os pares sinonímicos abaixo conforme os parâmetros de Collinson utilizados por Ullmann. c) morrer/perecer. h) peitica/implicância. como halo. d) significado refletido (sic): o que é comunicado através da associação com outro sentido da mesma expressão. 3. Eco (1974. por exemplo. concernente à posição de Vilela (1994. No entanto. com um dos perfis de significado atribuíveis ao item lexical. a exemplo de rico/nababo. . a definição é verificável. Como vimos. agora chamado conotação emotiva. quanto às conotações axiológicas ou emotivas. é apenas um aspectos entre outros. f) esquelético/magro. em que os lexemas a e b são comutáveis em todos os contextos. Passa então a uma definição em termos de contexto de ocorrência e da correspondência significativa entre os lexemas: é a sinonímia relativa em que os lexemas têm o mesmo valor conotativo. como propõe Ullmann? Pense em termos como espirante/fricativa e semasiologia/semântica. 2. b) sinonímia parcial. i) bóia/comida. Exercícios de reflexão 1. Existe de fato sinonímia em termos técnicos. g) concubina/prostituta. Vilela admite que à sinonímia pode ser dada uma definição referencial formulada nestes termos: “os lexemas a e b são sinônimos se denotam o mesmo objeto”. que. ficam em torno do signo verbal. d) salário/honorários. Dois lexemas podem diferir. e) falaz/enganador.42) considera o significado emotivo em meio a vários tipos de conotação. em que a e b são comutáveis em alguns contextos. o significado emotivo.c) significado afetivo: o que é comunicado dos sentimentos e atitudes do locutor/escritor. Examine o trecho abaixo de nossa autoria. p. 28-9) sobre a sinonímia. Vilela arrola os seguintes conceitos: a) sinonímia total. segundo constata o próprio autor. b) adorar/amar. embora apresentem sinonímia do ponto de vista estritamente conceptual. p. Adicionalmente. a) recusar/rejeitar.

No primeiro caso. principiante/debutante. c) sinonímia em que existe identidade denotativa e comutabilidade geral mas há divergência na conotação: jornal/periódico. de preferência colhidos em corpus.. e comente a sua utilidade lingüística. consoante fricativa/espirante. além disto. natureza do significado (cognitivo ou afetivo). colocação. b) teça considerações críticas. p. b) sinonímia absoluta mas não total: a comutabilidade se restringe a alguns contextos: começar/iniciar.d. estagiário/aprendiz. . considerando os efeitos sobre o leitor ou sobre o ouvinte. A respeito da proposta de Vilela. 5. 313-22). 4. no segundo.Reconhecendo então os seguintes tipos de sinonímias: a) sinonímia total e absoluta: há identidade denotativa e conotativa e. Reflita: é possível separar aspectos cognitivos e emotivos na questão da sinonímia? Justifique. afirma serem interessantes e variados os usos estilísticos das combinações de sinônimos. referindo-se à relação entre sinonímia e estilo. comente em que medida ela se aproxima ou diverge daquela de Lyons. comutabilidade entre os lexemas. A propósito destes usos: a) dê exemplos. no tocante aos parâmetros intercâmbio contextual. o que parece verificar-se proeminentemente nos termos técnicos: consoante surda/áfona. haveria variação e. Estes podem ocorrer em intervalos ou podem estar em estreito contato uns com os outros. Ulmann (s.

Fuchs (1982) parte da função metalingüística para compreender o fenômeno da paráfrase. Aqui trataremos. uma vez que. A função metalingüística é apenas um ponto de partida. Para poder falar do semantismo de X e do semantismo de Y e compara-los. É. o locutor recorre a perífrases que funcionam como signos de signos. Isto constitui uma primeira seleção no interior da multiplicidade de semantismos produzidos correspondentes a X e a Y. referido por Perini (1995). em primeiro lugar. A autora fala de níveis de interpretação. Em virtude de um determinado signo frasal ou aspecto deste não ser devidamente compreendido. chega a alguns aspectos positivos sobre que parâmetros considerar para se falar de uma sinonímia sintática. sob algum aspecto. Fuchs (1982). Associar a paráfrase à metalingüística pode induzir o leitor a crer que o fenômeno se baseia numa mera tradução intracódigo. temos que definir o que levar em conta para dizermos que estamos tratando de uma sinonímia sintática. É fenômeno ocorrediço também no plano sintático.d. isto é. Em outras palavras. Todavia. fique bem claro. via de regra. p. embora tenha relações com o fenômeno da correspondência. a sinonímia não ocorre. . até que haja um consenso semântico entre locutor e alocutário.CAPÍTULO V SINONÍMIA FRASAL: A PARÁFRASE 14 INTRODUÇÃO A sinonímia não se dá apenas no plano lexical. embora entrem em jogo aspectos peculiares. existem pontos comuns com a sinonímia léxica. Resta definir sob que aspectos a paráfrase se manifesta. Tal função foi bem estabelecida por Jakobson (s. Tentaremos mostrar também que o fenômeno. como veremos. a fática e a poética. após longa digressão sobre problemas metodológicos concernentes à paráfrase lingüística. que S retém este ou aquele nível de interpretação (1982. em virtude de diversos fatores. em função de toda espécie de determinações extralingüísticas. de mostrar como se manifesta a paráfrase e que fatores contribuem para a não-existência da paráfrase perfeita. para adentrar o terreno pragmático. 127-8). Semelhantemente ao que acontece à sinonímia lexical. a conativa. a expressiva. que a situou entre outras funções bastante divulgadas nos meios lingüísticos: a referencial. entre os quais a “anormalidade” de uma sinonímia perfeita. o sujeito S opta necessariamente por um dado nível de interpretação em que se situa o semantismo que ele reconstrói. deve-se considerar um determinado fator que orientará o sentido deste tipo especial de sinonímia. que esclarecemos adiante.). com exclusão de todos os outros níveis de interpretação possíveis. 15 A PARÁFRASE: ASPECTOS DEFINIDORES Não há paráfrases perfeitas. ultrapassa o âmbito da Semântica enquanto mera correspondência de estruturas. Nada mais ingênuo. de sua situação e do contexto lingüístico. a superposição de sentidos é parcial.

grosso modo. P. As possibilidades de paráfrase são ilimitadas e as variações semânticas o são também. isto descontado o registro e os efeitos estilísticos.Como vemos. a afetividade. Ele vai chegar. “os níveis possíveis de interpretação se encadeiam uns com os outros de modo contínuo. . P. a interpretação mais livre)” (FUCHS. Paráfrases: (01) b. Ele está a ponto de chegar. O plano locutivo conduz a uma decodificação que se alicerça sobre o sentido lingüístico. Quando a consciência se orienta para um determinado fator. Na verdade. mas também os participantes. É a paráfrase propriamente dita. d. a intensidade e a generalidade. A situação se complica quando se consideram as operações enunciativas. 19821. ela impõe uma certa superposição. distinguiremos quatro planos definidores da paráfrase: a) b) c) d) o locutivo. o referencial. ancora o enunciado na situação enunciativa. 128). b. por exemplo. oriunda da abstração de outros fatores. quer dizer. Todavia. Somente fazendo tabula rasa de outros níveis é que se pode falar de sinonímia. entendendo-se por enunciativas as operações (intimamente ligadas às operações predicativas) através das quais o sujeito atribui ao enunciado um certo número de valores referenciais (de tempo. (nos aspectos do ‘eu-aqui-agora’) (FUCHS. O homem que entrou usava um chapéu. Afinal. com sua interpretação. de modo literal. Em suma. exemplos: (01) a. não só operam fatores lingüísticos como também aqueles ligados à situação. tratar a paráfrase como fenômeno meramente estrutural é empobrecê-lo. quando se descontam. Y reformula. o pragmático. a paráfrase pressupõe mais do que a situação em si mesma. o locutor com sua intenção e o alocutário com sua recepção. de determinação etc). 1982. Com Fuchs. Guardadas as proporções. ele usava um chapéu e ele entrou. de aspectos. c. Aquele que usava um chapéu é o homem e ele entrou. 129). o homem entrou. Exemplos: (02) a. de modalidades. para a autora. a autora postula parâmetros ou níveis possíveis de interpretação em função dos quais se opera a paráfrase. o registro. é o que acontece com a sinonímia léxica. o sentido literal de X. Ele usava um chapéu. Dadas as duas seqüências X e Y. Há o homem que usava um chapéu: é ele que entrou. o sentido básico permanece: há um homem. Percebemos também que. eles vão do mais lingüístico (quer dizer. o simbólico.

isto é. pois depende de crenças e do grau de capacidade figurativa por parte dos interlocutores. consideram-se as figuras de estilo e os gêneros literários. mas não apenas no nível das estruturas sintático-semânticas. a frase Ele veio aqui no mês passado. Persiste a função referencial. sobre os quais os participantes podem não estar de acordo. Damos como exemplos do primeiro tipo (04)-(06). pode ser interpretada como “Paulo veio a Paris em Janeiro”. seu comprometimento com o ato de fala (valores ilocutórios) e nos efeitos sobre o receptos (valores perlocucionários). (05) Não faça isto / eu te proíbo de fazer isto. (06) Tenho dor de cabeça / queria que você me trouxesse um medicamento.c. Do mesmo modo. b. no mês passado e em janeiro. É verossímil que ele tenha compreendido. Ele compreendeu sem dúvida. Do mesmo modo. temos (07) e (08). d. a paráfrase tem pontos de contato com os níveis de leitura de um texto (as isotopias). de até que ponto estão consensuais quanto aos trações semânticos a serem eleitos e isto depende do conhecimento partilhado. a passagem de Moisés pelo Mar Vermelho. A paráfrase. aqui e a Paris. As identidades referenciais se dão entre O Presidente da República e Fernando Henrique Cardoso. embora se faça tabula rasa de que Jonas desobedeceu a Deus por não ter ido pregar na cidade de Nínive. a frase O presidente da República foi visitar a maior cidade do Brasil pode corresponder a Fernando Henrique Cardoso foi visitar São Paulo. costuma-se ver uma paráfrase sobre Jesus três dias no seio da terra. pode ser vista como uma paráfrase da missão do Messias. A paráfrase se ancora sobre as identidades compartilhadas pelo locutor e pelo alocutário entre ele e Paulo. a paráfrase se baseia nas intenções do locutor. o primeiro tipo de paráfrase é a referencial. em que se considera a identidade das referências. Há todas as chances que ele tenha compreendido. Ele ainda não chegou. Deste modo. Quanto ao segundo tipo. c. Ele deve ter compreendido. No plano pragmático. a maior cidade do Brasil e São Paulo. libertando-os do pecado (o análogo da escravidão egípcia). quando há referência a Jonas no ventre da baleia por três dias. (08) Pedro aconselhou a Paulo que viesse / Pedro persuadiu Paulo que viesse. Assim. . (07) João sugeriu a Maria responder a minha carta / Maria respondeu a minha carta graças a sugestão de João. libertando os hebreus da escravidão egípcia. (04) Não partirei sem te avisar / prometo que não partirei sem te avisar. no nível simbólico. e. Falta pouco para ele chegar (03) a. Eu penso que ele compreendeu No plano discursivo. Assim. não impõe freqüentemente consenso. d. na Bíblia. No plano simbólico. no nível simbólico: conduzir os pecadores pelo reto caminho até a Terra Prometida (o Paraíso).

e (ii) para qualquer preenchimento léxico idêntico dos pares. que contribuem para um julgamento de paráfrase. tornando o objeto homogeneamente consensual entre os sujeitos). Em princípio. todavia. p. e vice-versa (1995. todavia. deve ser superada por uma diferença de outra ordem: a articulação entre a língua e o uso da língua pelos sujeitos. pode ser definida nestes termos.. b) relação de conteúdo que oscila desde “deslizamentos” eventuais da reprodução até a deformação semântica. sem. ao que costumeiramente entendemos por circunlóquios no âmbito puramente lingüístico. p. Ele próprio. do sentido literal. a paráfrase não poderá.A paráfrase não se reduz. A conclusão disto é que a oposição língua/fala. Três possibilidades se esboçam: a) relação entre uma identidade de conteúdo. de modo algum. que podem ter opiniões diversas. Como bem afirma Fuchs (1982): conseqüentemente. a despeito de alterações de forma. outro rejeitando determinadas paráfrases. quer na variabilidade infinita dos fatos de discurso e das determinações extralingüísticas (a cada um cabe sua interpretação e suas relações de paráfrase): a paráfrase é um fenômeno linguajeiro (quer dizer. Acolhe duas espécies de correspondência: a total e a parcial.. no âmbito da paráfrase. 208). determiná-lo de modo absoluto) (1982. admite então a existência de grupos de correspondência que agregam certas estruturas: frases e também sintagmas menores. 16 PARÁFRASE E CORRESPONDÊNCIA A noção de correspondência se encontra estabelecida em Perini (1995. e vice-versa. 176). trata-se de “um relacionamento sintático especial entre frases (. c) relação de conflito entre os sujeitos. o que corresponde à noção espontânea de paráfrase. . 46-9). p. a aceitabilidade de A implique a aceitabilidade de B. A primeira é definida assim: duas formas A e B serão totalmente correspondentes se for possível estabelecer entre todos os termos de A e todos os termos de B um relacionamento um-a-um tal que: (i) os membros de cada par assim formado sejam preenchidos por itens léxicos idênticos. um acolhendo. reconhece que a noção não é de fácil definição. por sua vez. A segunda. que implica dizer coisa totalmente diversa.) além do evidente parentesco semântico” (1995. p. da qual participa a atividade metalingüística. portanto.49). apoiando-se nas relações complexas da língua. e a inaceitabilidade de A implique a inaceitabilidade de B. uma atividade de linguagem empreendida pelos sujeitos nas situações de discurso dadas) que não é senão parcialmente lingüístico (isto é. inscrita de modo estável na língua. ser encerrada quer no sistema da língua (as relações de paráfrase não constituem uma propriedade intrínseca dos pares de seqüências.

c. b. de um ângulo puramente locutivo. Mamãe fez os sanduíches. De todo modo.Uma forma A será parcialmente correspondente a outra forma B se for possível estabelecer entre todos os termos de B e alguns termos de A um relacionamento um-a-um tal que: (i) os membros de cada par assim formado sejam preenchidos por itens léxicos idênticos. Todas as adolescentes gostam de tango. p. Constituem exemplos de correspondência total: a) topicalização: (09) a. por sua vez. As adolescentes gostam todas de tango. Leo comeu o peixinho imediatamente. embora não definam correspondência e nem procurem . c. Mariquinha estava se maquiando. b. pelo menos em parte. a função referencial. Mariquinha estava maquiando-se. para Fuchs (1982). então. É tentador aproximar. a aceitabilidade de A implique a aceitabilidade de B (mas não viceversa) (1995. 209). e) movimentação de quantificadores: (13) a. Leo comeu imediatamente. Constituem. João ama Pedro. O peixinho. o conceito de paráfrase e o de correspondência. Foi mamãe que fez os sanduíches. Mais latas são as correspondências estabelecidas por Ilari & Geraldi (1990. b. b) antecipação dos pronomes interrogativos: (10) a. registrar paráfrases. O que vocês procuram? c) clivagem (marcada por foi que ou é que): (11) a. Mastigar farinha é difícil. b) alçamento de objeto: (15) a. exemplos de correspondência parcial: a) a relação ativa/passiva: (14) a. b. b. b. a não ser que estejamos falando. p. As adolescentes todas gostam de tango. a perspectiva formalista de Perini impede uma certa aproximação entre correspondência e paráfrase. já que. pelo menos no tocante a algumas. e (ii) para qualquer preenchimento léxico idêntico dos pares. Você procuram o quê? b. Mariquinha se estava maquiando. considerando apenas o sentido literal. 48-50). Farinha é difícil de mastigar. d) movimentação de clíticos: (12) a. Pedro é amado por João. Registrar meras correspondências não é. este último fenômeno envolve uma articulação entre a língua e o uso da língua.

o discurso é orientado no sentido de salientar a superioridade de A. / João é amigo de Pedro. As frases comparativas também não podem ser consideradas sinônimos perfeitos. Se dizemos A é mais X que B ao invés de B é menos X que A. Algumas frases podem ser inclusive negadas como sinônimas numa situação discursiva. foi o irmão de João que correu os 3000 metros no mesmo tempo que o Zatopek. para os autores. fica alterada a atribuição dos vários participantes dos papéis de tema e rema (isto é. Assim. Os autores ilustram com as frases (23) e (24) abaixo. b) a construção de comparativo de igualdade: (17) Pedro é tão bom quanto José. / O irmão do João corre os 3000 metros no mesmo tempo que Wladimir Zatopek. c) a construção dos comparativos de superioridade e inferioridade. / José é menos esperto que Pedro. e) construções nominalizadas / construções não-nominalizadas: (20) Primeiro o coral cantou o hino. a passiva topicaliza o objeto da ativa) (1990. g) paráfrase lexical e estrutural ao mesmo tempo: (22) O camelô vendeu-me este descascador de batatas que não funciona. exemplos de relações parafrásticas: a) a relação voz ativa/voz passiva: (16) Pedro matou João. 49). (23) Não foi o Zatopek que correu os 3000 metros no mesmo tempo que o irmão de João./ João foi morto por Pedro. a escolha entre duas frases sinônimas por razões estruturais nunca é completamente inocente. Como no caso da sinonímia lexical. depois a banda executou a marcha fúnebre. No primeiro caso.tipificá-la. No segundo. d) a construção com ter/a construção com ser de: (19) Pedro tem João como amigo. Constituem. / José é tão bom quanto Pedro. / O canto do hino pelo coral foi seguido pela execução da marcha fúnebre pela banda. p. interessados que estão na sinonímia estrutural ou paráfrase. foi ele que me vendeu. . f) construção com mesmo: (21) Wladimir Zatopek corre 3000 metros no mesmo tempo que o irmão do João. ao passar da voz ativa para a passiva. muda a orientação argumentativa. formulados nos dois sentidos: (18) Pedro é mais esperto do que José. (24) Não fui eu que comprei este descascador de batatas do camelô. / Comprei do camelô este descascador de batatas que não funciona. Os autores são explícitos quanto à abordagem da paráfrase meramente estrutural. de ressaltar a inferioridade de B.

pode haver controvérsias. 17 CONCLUSÃO Considerando apenas o sentido literal. entre outros. Podem-se identificar superposições semânticas parciais entre frases e até mesmo o obnubilamento quase total do sentido original. Que tipo de paráfrase lhe parece mais problemática na proposta de Fuchs (1982)? Por quê? . diferentes orientações argumentativas. considerando-se os efeitos sobre o alocutário. devido a considerações de ordem extra-estrutural para o tratamento de paráfrase. Mostre até que ponto existem paráfrases entre os pares de sentenças abaixo. Discuta a assertiva abaixo. o pragmático e o simbólico. Exercícios de reflexão 1. f) Maria chegará. o referencial. / O quadro é muito belo. Os próprios sujeitos devem ser levados em conta no estabelecimento de paráfrases e. / O carro de Pedro é menos veloz que o de João. e) Prometo que virei cedo. isto levando em conta os quatro planos aludidos por Fuchs (1982): o locutivo. h) Pedro deve vir hoje. / É provável que Pedro venha hoje. na reprodução de sentidos. / João correu tanto quanto eu.Pelo exposto. Todavia. a) O rapaz leu o livro. Mostre que duas frases podem equivaler-se. podemos afirmar que existe paráfrase ou sinonímia frasal. 3. outros fatores interferem para a não-superposição de frases: saliência de termos. 4. a respeito disso. / Maria ainda não chegou. d) Eu corri tanto quanto João. g) Maria está quase por vir. vemos que há perfeita compatibilidade de base entre a proposta de Fuchs (1982) e de Ilari & Geraldi (1990). c) O quadro é belíssimo. / Maria vai vir. / O livro foi lido pelo rapaz. 2. A paráfrase se enquadra como um tipo de correspondência sintáticosemântica entre frases. / Virei cedo. b) O carro de João é mais veloz que o de Pedro.

Resta também investigar até que ponto o teste proposto por Palmer tem validade geral. formal/informal. O critério utilizado pelo autor é este: só um deles é utilizado quando queremos descrever ou saber o grau de determinada qualidade. diz respeito apenas aos contrastes binários. bom/mau. Característica assinalada por Palmer (s. (01) Que altura tem? (How high is it?) (02) Que largura tem? (How wide is it?) Em português. quem sabe. que são de caráter seqüencial. Pode manifestar-se também por meio de afixos: legítimo/ilegítimo. dizemos (01) e (02). Assim. de contraste. diferentemente do que ocorre em inglês. normal/anormal. mas X não é quente não implica necessariamente que X é frio. Se altura e largura cobrem as noções de alto e baixo. se caracteriza como oposição. Ela se caracteriza pela graduabilidade. largo e estreito. Podemos pensar num exemplo como (03). Segundo Lyons. em que a predicação de um membro do par implica a predicação da negação do outro. como vemos. Fiel à orientação deste nosso trabalho. escolher a sua. COMPLEMENTAR E CONVERSA A antonímia é apenas uma espécie de oposição e. leal/desleal. A esses opostos graduáveis pode atribuir-se outra característica: a predicação de um dos membros do par implica a predicação do outro. é uma oposição graduável.d). baseado em Lyons (s. Em suma: a antonímia é uma espécie de contraste binário e. Trata-se de itens lexicais susceptíveis de graduação: podemos dizer X é mais quente que Y e X é tão alto quanto Y. sem que haja reversibilidade: X é quente implica que X não é frio. 95) é que em cada par antonímico um dos termos é marcado e o outro não-marcado. Ilustremos isto com os pares de lexemas quente/frio. existem contrastes binários. p.d. Desde modo. oposição. e contrastes não binários. Também poderá dar-se conta de quão complexo é o assunto de que tratamos. o membro não-marcado vem na sua forma derivada por meio de sufixos. não podemos dizer o mesmo de um substantivo abstrato como beleza. a diferença entre dois termos: contraste e oposição. conseqüentemente. alto/baixo. convém estabelecermos. macho/fêmea. Já o segundo termo. por exemplo. isto é. por supleção mórfica ou heteronímia. o existente entre as palavras referentes aos dias da semana e aos meses do ano. 19 OPOSIÇÕES ANTONÍMICA. a exemplo do que ocorre em belo/feio.CAPÍTULO VI OPOSIÇÕES E CONTRASTES 18 INTRODUÇÃO No estudo da antonímia. a exemplo dos dois pares de lexemas citados neste parágrafo. por isso. como alto/baixo. A antonímia pode manifestar-se lexicalmente.. apresentamos outras posições para que o leitor tenha a oportunidade de compará-las e. . O primeiro é de caráter mais geral sem implicação quanto ao número de elementos contrastantes.

isto é indiscutível no efetivo uso das unidades lexicais no discurso. é curioso verificar que não existe uma distinção absoluta entre os dois tipos. Podemos igualmente perguntar (04) e (05). de vivo e de morto. que há antônimos variáveis em grau que apresentam algumas das características dos pares dicotômicos. (07) O rapaz está mais morto que vivo. 96-7) cautelosamente prefere não estabelecer polaridade entre a antonímia e a complementaridade. B). Vilela (1994) acredita que a possibilidade de graduação na oposição complementar (que ele chama antonímia complementar ou complementaridade) não afeta a existência da oposição reconhecida por Lyons pois da afirmação de um dos termos. um autor do porte de Palmer (s. mas um continuum entre macho e não-macho. p. se segue a negação do outro. do qual o emissor da mensagem elege alguns traços para definir o grau de macheza e de vitalidade. (06) João é mais macho que Pedro. p. podem ser considerados dar/receber. também. 31). (04) Quão baixo ele é? (05) Quão estreito ele é? Para Lyons.. Exemplo: João deu o livro a Pedro implica Pedro . a qualidade macho está sujeita a valores atribuídos pelo falante. As proposições formadas com estes termos não podem ser ambas verdadeiras. recebem o nome de complementares. Lyons reconhece os opostos conversos como marido/mulher. married/single. comprar/vender. Para nós. De fato. Todavia. matizes intermediários. todavia. No segundo caso. que está mais morta do que viva (more dead than alive). Trata-se de um emprego “valorado” dos adjetivos.(02) Quão belo João é? que pergunta pelo grau de beleza de João. entre vivo e morto. B. Em certos casos poderemos tratar male/female. baseada na oposição privativa.d. cuja semelhança se dá em termos de valência. de uma maneira mais óbvia. vivo/morto. certamente. como macho/fêmea. Pode dizer-se que determinada pessoa é muito viril (very male) ou mais casada (more married) do que outra e. em conformidade com os quais gradua um ou outro membro do par opositivo. alive/dead como antônimos variáveis em grau. opostos não-graduáveis. Verifica-se. Além dos antônimos e complementares. No primeiro caso. considerando-se não os aspectos biológicos inerentes aos mesmos em outras possíveis construções frasais. o exemplo invalida a proposta de Palmer. a do par (A. Esta relação constrói-se com base no princípio de tertium datur e corresponde à condição lógica (1994. nem ambas falsas. é usual se ouvirem construções como (06) e (07). Ambos podem ser considerados predicados de dois lugares: X é marido de Y implica Y é mulher de X. e vice-versa: a expressão estou mais morto do que vivo não afecta esta dicotomia complementar. do mesmo modo. Contudo. o falante reconhece entre os dois extremos. Todavia.

Consolação e raiva se opõem porque afirmam e negam respectivamente a resignação.. Breve menção cabe aos contrastes não-binários. como o conjunto dos dias da semana. a ortogonal e a antipodal. com Lyons. Às vezes. beijo e queixume. . quiçá porque um afirma aproximação e conciliação. (08) Treva e luz. ir/vir. 20 OPOSIÇÕES DIRECIONAIS. A primeira é mais típica de pares que têm em comum uma implicação de movimento numa de duas direções opostas em relação a um dado lugar. Pensemos com base no trecho do soneto O tear. 21 A OPOSIÇÃO E O CONTEXTO DISCURSIVO Convém esclarecer. Entram aí em jogo as intenções do locutor e a recepção por parte do ouvinte/leitor. comportam-se como subir/descer. que Vilela (1994. No entanto. a exemplo de subir/descer. norte opõe-se a leste e a oeste ortogonalmente e a sul antipodalmente. p. p. Palmer (s. O contexto discursivo estabelecido na base dos pares antitéticos e conflitantes da existência impõe que beijo e queixume se oponham. mas nestes opostos o número de lugares valenciais é o mesmo. positividade.recebeu o livro de João. “a oposição direcional só poderá ser discutida satisfatoriamente dentro de uma estrutura mais geral que analisa a localização (ingl. 345). de Olavo Bilac (1977. em que o autor se refere ao eterno retorno.d. a direcional. p. 32) chama de conjuntos seriados. o que difere os opostos conversos é a redisposição dos actuantes. o contexto prévio os indicia. para Lyons. Location) como um estado e o movimento como uma mudança de estado” (s. cautela e covardia. quando utilizados em expressões direcionais. Em suma. 97) é do parecer de que pares como direita/esquerda. chegar/partir. gelo e chama Combinam-se e consomem-se no urdume. Reflitamos sobre o trecho extraído da composição O quereres de Caetano Veloso (FRANCHETTI E PECORA. que a oposição de significados nem sempre se estabelece em termos de dicionário. Consolação e raiva. aos eternos temas que um tecelão (Deus?) impõe à existência.d.. isto não se encontra muito bem explorado. Nem sempre os traços semânticos eleitos para assentar a oposição são facilmente identificáveis. e o outro nega tudo isso. Ao estabelecer tais oposições. p. à guisa de acréscimo. lexemas que se opõem ortogonalmente ou perpendicularmente dos lexemas que se opõem antipodalmente ou diametralmente. 1998). ANTIPODAIS E Lyons reconhece. 228). Há que se considerar ainda. Deixamos para o leitor explicar a oposição entre gelo e chama. mas em termos de contexto discursivo. a frente/atrás. CONTRASTES NÃO-BINÁRIOS ORTOGONAIS. Podemos imaginar alguém opondo amor e paixão. No conjunto dos pontos cardeias. além das oposições acima citadas. o emissor elege ou pertinentiza traços que servirão de base para o “jogo opositivo” em sua fala. ódio e amor.

Procure. 2. levar/trazer. não consideram essa distinção. a reciprocidade ou relação conversa. Palmer designa uma variedade de oposições que Lyons põe em campos distintos: os conversos. diferentemente de Lyons e Vilela. anjo/mulher (celestial/humanos. a oposição direcional. que distinguem oposições antonímicas e complementares. 22 CONCLUSÃO Apesar de mais facilmente sistematizáveis que a sinonímia. dar/receber. os antipodais e os direcionais. côo Lyons e Vilela. 3. O campo é fértil para exploração e não pode ser estudado sem a noção de competência lexical.. eu sou. norte/sul. em que o autor chama a atenção para o fato de que há antônimos variáveis em grau. a suas limitações teóricas.. o que leva a antíteses. Por vezes. as oposições e contrastes não-binários não constituem ponto pacífico entre os autores. p.. no referente. Teça comentários críticos sobre ele. a) b) c) d) e) genro/sogro. às vezes. fundamentadas pela estrutura do discurso (ex. Por quê? 4. um assunto ligado a oposições e contrastes. A seu ver. que ultrapassa o mero reconhecimento de listas e classificação das entradas e formação destas. que ponto de vista é o mais sustentável. Exercícios de reflexão 1. reconhece a antonímia complementar. . numa gramática tradicional. assexualidade/sexualidade).: onde queres. há questões de pormenor que diferem um autor do outro. temos os pares ato/espírito (concretude/abstração.d. Outros.).. 96-97). ternura/tesão (espiritualidade/ carnalidade. tomando como ponto de partida o estudo que desenvolvemos neste capítulo. suavidade/ violência). Sob esta última rubrica. Classifique os opostos abaixo. saber/esquecer. como aprender/saber. Examine o trecho abaixo de Palmer (s. imposição. Autores há. como Palmer. amar/detestar. do contexto discursivo. em vários graus. Vilela. Inclui igualmente lexemas indicadores de movimentos abstratos. utilizando a proposta de Lyons e a de Palmer. realização/intenção). Pressupõe conhecimento de mundo e. livre/decassílabo (imprevisível/previsível). encampa as oposições direcionais e antipodais de Lyons.(09) Onde queres o ato eu sou o espírito e onde queres ternura eu sou tesão onde queres o livre. Deste modo. Assim. decassílabo e onde buscas o anjo sou mulher A composição se baseia na oposição básica entre dois desejos que não se cruzam. mais estritamente ligado a Lyons.. Sob o rótulo de opostos relacionais. Palmer não aceita senão com reservas a complementaridade.

por cima de/por baixo de. pois o primeiro é regime de governo e o outro. Você acha que lexemas referentes à posição no espaço como em frente/atrás. 6. O quereres (FRANCHETTI E PECORA. norte/sul. a oposição entre democracia e comunismo? . dar/receber? Argumente. pela oposição de traços de significado que aparecem no texto. o que para o autor não se justifica. segundo Sapir. apontando a influência da estrutura textual no redimensionamento de significado entre estes lexemas. Afirma Fiorin (1989) que. 8. Os termos. bem como do conhecimento de mundo. a less brilliant. decorrentes da argumentação do autor em prol do que considera a verdadeira política. Podemos dar como exemplo o par brilliant/stupid (brilhante/estúpido). 5. Procure ler o texto de Rui Barbosa. embora susceptíveis de gradação. no discurso dos conservadores. 1988). são opostos relacionais como pai/filho. honest/dishonest (honesto/desonesto). mansidão onde queres um lar revolução e onde queres bandido sou herói Mostre como se organizam as oposições entre os lexemas.a) Há alguns pares de adjectivos. open/ shut (aberto/fechado) que podem ser graduados em termos de more (mais) ou less (menos). verificando-se que a negação de um implica a afirmação do outro. b) Alguns pares de antônimos não são. Mostre como o autor consegue opor os dois lexemas que compõem o título. Onde queres prazer sou o que dói e onde queres tortura. sistema econômico. 7. simetricamente reversíveis. pois more brilliant não equivale a less stupid. Observe o seguinte trecho da composição de Caetano Veloso. Quer isto dizer que não podem variar de acordo com a relação more ou less. apesar da objeção de Fiorin. Como você justificaria. possuem também um valor absoluto num dos extremos da escala. democracia se opõe a comunismo. como por exemplo. ou more stupid. obedient/disobedient (obediente/desobediente). intitulado Política e Politicalha.

Por exemplo: dizemos que flor é um termo geral. p. 46-7). Fazia-se presente em Porfírio.C. como tulipa e violeta. 1984. como veremos a seguir. que abrange outros. ECO.CAPÍTULO VII HIPONÍMIA E HIPERONÍMIA 23 INTRODUÇÃO A relação entre lexemas também pode se dar em termos de inclusão. 91) adverte para o fato de o mesmo termo aparecer em vários pontos da hierarquia. filósofo grego do terceiro século d.. inscritos na língua. o que só é possível se o termo for polissêmico. chamamos hiperônimo ou superordenado e aos específicos chamamos de hipônimos. mas a concepção é antiga.47). “Tão logo nos desviamos da relação de entailment. abrimo-nos a todo tipo de conhecimento possível e a definição deve passar da definição de dicionário para a definição de enciclopédia” (ECO. . vermelho e verde. Palmer (s. na verdade.. Eco acredita que as relações de entailment são de caráter dicionarial. cujos desdobramentos se situam no plano léxico e textual. Tomando. é hiperônimo de escarlate.d. 1 Entailment é um termo inglês para designar a relação entre os lexemas dos nós mais baixos da classificação para os nós mais altos. responsável pela transmissão do pensamento filosófico de Aristóteles a quem remonta a diagramatização de uma árvore do universo que representa as manifestações da substância (Cf. A Lingüística moderna. por seu turno. Eis o exemplo: substância incorpórea corpórea inanimada animada insensível sensível irracional Platão racional Sócrates A árvore de Porfírio permite relações de entailment:1 se alguém for Sócrates será necessariamente racional. Ao termo geral. desenvolveu uma noção antiga. esta relativa ao conhecimento de mundo. p. 1984. Os termos são novos. P. mais específicos. o eixo semântico da cor verificamos que este superordena. por exemplo. 24 RELAÇÕES DE INCLUSÃO: HIPONÍMIA E HIPERONÍMIA Hiperônimo e hipônimo são termos relativos. Vermelho. será necessariamente sensível e assim por diante.

concernente ao grego clássico. quanto na linguagem corrente. que pode ser usado (1) em contraste com vegetal. Baleia. (3) no sentido de “bicho”. Observamos também que é temerário apresentar uma ilustração como esta acima sem considerar. A frase que contém o hipônimo pressupõe a que contém o hiperônimo. um termo hiperonímico desta ordem em português. Na linguagem científica. A questão da hiperonímia e da hiponímia deve ser tratada não apenas no âmbito da Semântica geral mas também no da Semântica específica de cada língua. porém. no entanto. A hiponímia implica uma relação lógica de conseqüência. Isto vem provar que o léxico. fazer um diagrama como o supra-exposto. Dizer isto é um gato pressupõe isto é um felino. Isto pode ser ilustrado da seguinte maneira: Seres com vida vegetal sem vida animal ave peixe insecto animal humano animal A ilustração acima dada por Palmer apresenta em bloco os significados dicionariais de animal. médico. fosfato de potássio (os lexemas designadores de sais são sufixalmente marcados por –ato. num dado discurso. Não podemos. reflete a cultura de um povo. -ito). . apenas um dos significados pode aflorar. para aclarar os conceitos de hiperonímia e hiponímia.Exemplificamos com o lexema animal. A propósito disto. mas só na linguagem corrente. em contraste com seres humanos. (2) no sentido de “mamífero”. incluindo ao mesmo tempo aves. além dos significados. em contraste com aves. -eto. sal só se refere ao cloreto de sódio. Não há. portanto. como pode ser hipônimo de peixe. os registros de ocorrência. língua na qual existe um hiperônimo que abrange um conjunto de profissões e ofícios: carpinteiro. pode ser hipônimo de animal tanto na linguagem científica. todos superpostos. sulfato de sódio. Dizer todos os felinos são bonitos implica dizer todos os gatos são bonitos. sapateiro etc. peixes e insectos. peixes. por exemplo. cabe referir a um trabalho empreendido por Lyons e citado por Palmer. é hiperônimo de cloreto de sódio. é mamífero. mais do que qualquer outro setor da língua. incluindo seres humanos e bichos. O termo hiperonímico pode pressupor o hiponímico se o hiperônimo for entendido como referente a todos os membros de uma classe. na Química. insectos e também mamíferos. timoneiro. Todavia. Na linguagem usual. Diga-se o mesmo do lexema sal que.

havia um Vokswagen sedan estacionado. . retângulos e trapézios.O conhecimento das relações de inclusão é importante como recurso para se estabelecer coesão no discurso. esperando que o proprietário do veículo aparecesse. p. No primeiro caso. (02) O professor mandou os alunos desenharem quadrados. Os quadriláteros encontravam-se empilhados uns sobre os outros na mesa dianteira da sala. Pedro percebeu que não conseguiria entrar em casa. adoro. p. Mãe. Mãe. a não ser em casos excepcionais como a exemplificação. Fávero (1991. (06) Na entrada da garagem. encostado numa caminhonete. a exemplo de (05).. Pôs-se então a buzinar furiosamente. Fávero (1991. quebrei o vidro de geléia. Pela posição do carro. Por exemplo. a extensão maior está no primeiro componente. 52-3) também advogam a tese de que a direção normal é do mais específico para o mais genérico. como em (06). como a direção hipônimo/ hiperônimo. As aves aguardavam o momento de se lançarem sobre os animais mortos. p. 24) tende a ver como mais “normal” a direção hipônimo/ hiperônimo. o veículo estacionava diante do Palácio do Governo. Um policial nos pediu os documentos do carro. Vejamos estes pares de exemplos criados pelos autores. “há uma relação de inclusão. 46). havia um veículo estacionado. e o segundo componente tem uma extensão maior”. Pela posição do carro. Menos fáceis de compreender são as cadeias em ordem inversa. (03) Gosto muito de doces. No exemplo. então. Alguns minutos depois. esperando que o proprietário do Vokswagen sedan aparecesse. o vidro de geléia quebrou. 24) mostra que tanto se pode dar a direção hiperônimo/ hipônimo. a exemplo destas frases extraídas de Koch (1989.. (05) Na entrada da garagem. encostado numa caminhonete. (04) Os corvos ficaram à espreita. Um sargento da guarda rodoviária nos pediu os documentos do Fiat. Ilari & Geraldi (1990. Complementarmente. a substituição de moto por veículo é mais justificável que a de veículo por moto. capaz de fazer que se sucedam cadeias de hipônimos e hiperônimos. (01) Vimos o carro do ministro aproximar-se. b. b. (08) a. Pedro percebeu que não conseguiria entrar em casa. Pôs-se então a buzinar furiosamente. Ilari & Geraldi sugerem a extensão do conceito de hiponímia às construções complexas. p. (07) a. do hiperônimo para o hipônimo. Cocada. No segundo caso. Isto necessariamente envolve situações discursivas e a competência textual do escritor. o que a justifica é a ilustração. A direção hiperônimo/ hipônimo não nos parece muito usual. o que dificulta a substituição.

Seria absurdo o falante afirmá-la e ao mesmo tempo ter estado com um padre. 5. A irritação de Pedro com a incompetência dos funcionários. Tente formular exemplos de coesão por hiponímia. a construção ativa. 25 CONCLUSÃO As relações de hiperonímia/hiponímia podem ser vistas sob o ângulo lingüístico ou situacional. a primeira frase é hipônima da segunda. a hiponímia seria aceita. 4. p. Explique com exemplos. fez um jogo de palavras ou simplesmente não conhece a língua”. pois “compreender corretamente uma frase é. 2. Discutir aprofundadamente a questão leva. . Explique-a em termos semânticos. 53). Em ciência natural. saber enumerar todas as suas conseqüências” (ILARI & GERALDI. (09) a. b. Como? Que critérios eram usados para a utilização destes termos? Qual a precisão do uso? 3. A irritação de Pedro. Procure exemplos de coesão por hiperonímia. Verifique em que casos excepcionais ela pode ser justificada. Na segunda frase. só seria recomendável a hiponímia da segunda leitura.d. em grande parte. Mostre que relações de hiperonímia/ hiponímia podem ocorrer não só no nível léxico. Todavia. é bom lembrar que a segunda fase pode ter dupla leitura: (+estativa) ou (-estativa). podendo. sendo mais exata do que a construção média (em que o SN é afetado). Ilari & Geraldi consideram também hiponímias sintagmáticas.É fácil ver que. Poderíamos. conforme a irritação de Pedro seja inerente ou nãoinerente. ao fenômeno da sinonímia. concluir com os autores que o falante “mentiu. 1990. Mais complexa é a relação de hiponímia no segundo par. Exercícios de reflexão 1. numa situação dada. Para o autor. o agente não se encontra explicitado. (10) Visitei o capelão militar da região de São Paulo há alguns dias. então X e Y são sinônimos. Tomemos como exemplo a frase (10). dada por Ilari & Geraldi (1990. implicitamente já se utilizavam os conceitos de hiponímia e hiperonímia. p.. Lyons (s. Apenas com a pressuposição do agente. se o falante tiver o evento como espontâneo. p. 53). como no par abaixo. no primeiro par. não existir. então. é sua hipônima. mas também no nível sintático. A nosso ver. inclusive. 236) estabelece uma relação entre sinonímia e hiponímia nestes termos: se X é um hipônimo de Y e Y o hipônimo de X.

c) coxa “anca” mudou seu significado para “coxa”. 75). é a passagem do latim coxa “anca” para o francês cuisse “coxa”. mais complicado que o exemplificado acima. outro conceito correlato. b) adveio daí um choque homonímico entre femus e fêmur “coxa” e o segundo termo foi abandonado. excremento” passou a femus por influência do seu sinônimo stercus. p. pois designavam-se com a mesma palavra fonológica animais importantes para os habitantes. O esquema é este: A cattus gallus B gat “cat” gat “cock” (bigey) C gat bigey Pelo exemplo acima. 27 A HOMONÍMIA E A POLISSEMIA: A VISÃO TRADICIONAL O fenômeno homonímico é de há muito conhecido. Substituiu-se assim gat “galo” pelo lexema bigey. usado anteriormente para designar o faisão. Wartburg estabelece quatro fases para o processo: a) o latim fimus “esterco. (1977. Esta colisão. Como sabemos. que ilustramos com os lexemas gat “galo” e gat “gato”. Assim apresentado. a homonímia ocorre quando duas palavras coincidem foneticamente em sua evolução histórica. célebre. o fenômeno da homonímia parece bastante simples. na região do sudoeste da França. d) adapta-se a palavra germânica *hanka para assumir o lugar e o significado de coxa. polissemia é o fenômeno que consiste em uma palavra apresentar dois ou mais significados. o da polissemia. “trata-se de dois semas que nada têm em comum. era inconveniente para o lugar. Um deles. conforme assevera Gonzalez et al. Outro exemplo. diz respeito ao choque homonímico. Evidencia-se também que a interrelação dos planos só é satisfatoriamente ilustrada quando se enfocam as etapas intermediárias entre os fenômenos. Todavia.CAPÍTULO VIII POLISSEMIA E HOMONÍMIA 26 INTRODUÇÃO Na visão tradicional. resultante da convergência de fenômenos fonéticos. Wartburg (1975) empreendeu uma série de estudos acerca do fenômeno. constatamos uma indissolúvel interrelação entre as abordagens sincrônica e diacrônica. mas que estão ligados ao mesmo monema”. Ainda do ponto de vista diacrônico. . contribui para complicar a descrição da homonímia.

perfeito (<cantaverant). q. este proveniente de sanctu).) “ferramenta” lima juncu (lat. vigilare “fazer vigília” velare “cobrir com o véu” velar dominu “senhor” donu “dom” dom lima (ar) “fruta” lima (lat. provocada pelo desenvolvimento de sentidos diferentes: isto é ilustrado pelos lexemas pupila “discípula” e pupila “menina do olho”. segundo o autor: a) convergência fonética. sunt) e são (adj. c) influência estrangeira: isto pode ser exemplificado com as formas realizar “empreender.) “engenho de extrair água” nora b) divergência semântica.Procurando sistematizar o fenômeno dentro da abordagem tradicional. 1ª. d) paradigmática. outro exemplo é banco “instituição financeira” e banco “tipo de assento”. Indicativo (<cantamus) / cantamos. conforme exemplificado a seguir. ambos provenientes do germânico bank.. 3ª. fazer” e realizar “conceber.) (apócope de santo. pret. sunt) e são (adj.) “esposa do filho” naura (ar. cantamos.) “planta” jung (mal. 365-74) estabelece três processos pelos quais a homonímia pode surgir. pret. p. sendo este último sentido influência do inglês realize. pres. pela qual formas de aspectos iguais se originam de étimos diferentes. (1977. pessoa singular (<amabam) / amava. (<cantaverunt) / cantaram. Ullmann (s. Já González et al. que remetem ao latim pupila. sanu).) (< lat. podendo ser parcial ou absoluta: expiar e espiar. m.jav. c) homográfica. (<cantavimus).) (< lat. que apresenta identidade ortográfica. perf. . p. sendo o terceiro deles de importância muito secundária.d. pessoa singular (<amabat). imaginar”. b) absoluta – é a homonímia decorrente apenas da diferenciação semântica: sanu (adj. perf. pres.) “embarcação” junco nora (lat. 77-8) estipulam as seguintes homonímias: a) parcial – dá-se com os homônimos que se diferenciam semântica e gramaticalmente: são (v) (< lat. em português. cantaram. que se concretiza nos verbos através de neutralização mórfica: amava.

BRÉAL. 103-06. escassa expressividade. (03) A estrada vai de São Paulo ao Rio de Janeiro. A linguagem cotidiana está eivada de metáforas. estabelecem tipologia baseada em dois critérios: o gráfico e o lingüístico. No referente à polissemia.Os autores. a polissemia com as palavras de uma amplitude conceptual – genéricas – que abarcam grande número de elementos significativos: os chamados verba omnibus. na estratégia militar etc. consideramo-los como sentidos diferentes do mesmo termo. p. o número de palavras que o falante teria de reter seria imenso” (1977. em sentido estrito e somente como um caso muito particular. e na metonímia. p. que afirmam: “este fenômeno afeta primordialmente a economia da linguagem. entre os quais o adjetivo bom. outro representante do enfoque tradicional. al.. como ação. na mesma página: a polissemia é um fator que caracteriza um estilo marcadamente intelectual e está em proporção direta com a freqüência de palavras. (Cf. Seu uso. na subdivisão supra-apresentada.. b) especialização num meio social – em função da qual um dado lexema. 331-46). Se uma palavra não tivesse a capacidade de ser empregada em vários sentidos ou significações (. 85). a exemplo daquelas veiculadas por lexemas designadores de parte do corpo: braço (braço da . condutas etc. 1992. é índice de pobreza léxica. aponta cinco fontes para o fenômeno: a) mudança de aplicação – que concorre para que as palavras tenham configurações semânticas diferentes. o enfoque tradicional é representado por González et. esta fundada na similaridade. (04) Agora que você se empenhou na tarefa a coisa vai. Ullmann (s. que se aplica a pessoas. outras podem transformar-se em matizes permanentes de significados de modo que. quando aumenta a separação entre eles. sentido e neutralização. p. pode apresentar contornos semânticos diferentes quando se aplica no Direito. c) linguagem figurada – principalmente em função da metáfora. de acordo com o contexto em que elas são usadas. na estratégia militar etc. Matemática.d. Afirma o autor que algumas configurações são de caráter efêmero. Mais adiante.. 107-11 para maiores detalhamentos sobre o assunto). objetos concretos.. mínima precisão significativa. Muitos exemplos poderiam ser evocados. em geral. (02) João vai bem. Não se pode identificar. são contemplados os seguintes aspectos: classe gramatical. aplicável na Medicina.). Atentemos para os sentidos do verbo ir neste contextos: (01) João vai à praia. e em proporção inversa com a fluidez do léxico. Neste último. alicerçada na contigüidade. ações. Diga-se o mesmo do lexema operação.

68-9). “o ‘sistema’ da língua exige a substituição do signo porque este se tornou totalmente inexpressivo ou para evitar incômodas confusões”. No primeiro exemplo. denominamo-las catacrese. No terceiro: vela (em lugar de barco). espírito (de spiritu “sopro). o de gallus. (06) Na pequena aldeia. Além da metáfora. Na linguagem comum. (05) Ganharás o pão com o suor do teu rosto. No segundo exemplo: alma (ao invés de pessoa). pela evolução fonética normal. Em primeiro lugar. escondeu suas vergonhas. Aqui não faremos distinção entre metonímia e sinédoque. olho (olho d’água). Exemplo disto são as palavras usadas para designar o demônio: cão. “gato” (gat-gat). no caso de amígdala ou rótula por exemplo. o fenômeno pelo qual certas palavras são evitadas e substituídas por empréstimos. “juntar as dobras”). relativos ao latim apes “abelha”. Como se trata de metáforas cristalizadas na língua. suor (em lugar de trabalho) e rosto (em vez de corpo). São exemplos de metonímia as frases (05)-(08). lexema empregados em lugar de os que estão em torno da mesa. “vigário”) em certo dialeto da França. “galo”. substituído pela imagem bigey (vicaire. embora mais ou menos eventuais. a metáfora é uma das grandes bases para a criação lingüística. A linguagem científica também nos fornece muitos exemplos: amígdala (etimologicamente “amêndoa”). julgamos por bem destacar a metonímia como fonte de polissemia. Além das razões lingüísticas. em que não há mais transparência no adjetivo. (07) A vela se aproximava do litoral. senão diacronicamente. É o caso do composto mesa-redonda. no qual. Mas a metaforização neste domínio nem sempre pode ser resgatada. complicar (de complicare. numa relação de continente/conteúdo. p. úvula (etimologicamente “uvinha”). óvulo (etimologicamente “pequeno ovo”). circunlóquios. eufemismos. rótula (etimologicamente “rodinha”). “lugar estreito”). em virtude de perda de motivação semântica. . não havia uma viva alma. Em suma. 2 Exemplo disto são os casos investigados por Gilliéron.cadeira). em especial para a polissemia.2 Em segundo lugar está o tabu lingüístico. depressão (de depressione “pressão de cima para baixo”). Por fim. por empréstimos interdialetais ou exatamente por metáforas (mouche-à-miel “mosca do mel”) nos dialetos franceses em que a evolução normal havia reduzido o termo a uma única vogal carente de expressividade. chegara a se confundir com a continuação de cattus. (08) A moça verificando que estava sendo observada. Outras são transparentes. pé (pé da cadeira). metáforas etc. orelha (orelha do livro). como assevera Coseriu (1977. Algumas metonímias tornaram-se opacas. existem a de outra ordem. véu (em véu palatino). no quarto: vergonhas (em vez de genitália). não se podem esquecer as metáforas mortas ou imagens mortas. capeta. como mesa. são estas as metonímias: pão (em lugar de alimentos). substituído por deri vados. A primeira baseada numa relação de contigüidade e a segunda. angústia (de angustia. no dizer de Bally (1951): trata-se de metáforas apreendidas apenas à luz da diacronia: apreender (de apprehendere “segurar”). cabeça (cabeça de prego).

na sua maioria. enfeitiçar” <antigo francês alurer “atrair com isca.. 28 A HOMONÍMIA E A POLISSEMIA: A PROPOSTA DE BARBOSA Barbosa (1981. a palavra hebraica ml’k “mensageiro” era muitas vezes usada no sentido de “anjo”. . no caso. sem nenhuma motivação fundada sobre a linguagem comum. Distinge a autora dois tipos de polissemia: a) polissemia stricto sensu ou polissemia propriamente dita: classificamse assim as palavras que têm para o mesmo significante vários feixes de significado. p. seria uma negação da linguagem de uma comunidade. em que cada termo seria portador de uma significação arbitrária. Segundo a autora.d) homônimos reinterpretados – trata-se. isto é.d. a monossemia inicial de um lexema pode corromper-se rapidamente. Barbosa parte do princípio de que toda homonímia é polissêmica. Ainda segundo Barbosa: (. b) polissemia lato sensu ou homonímia: assim são classificadas as palavras que não podem ser reunidas em torno do mesmo núcleo de significado. a partir do momento em que o lexema passa a circular na comunidade. p. 340) assevera que “este tipo de polissemia é muito raro e os exemplos. Como não havia em grego nenhuma palavra para designar “anjo”. de estabelecer relação semântica entre dois termos de origens diferentes.) a convenção monossemêmica não teria condições de substituir senão numa linguagem secreta. húngaro angyal etc. Ullmann cita como exemplos: (09) corn “grão” < antigo inglês corn – corn calo nos pés < antigo francês corn < latim cornu. apoiada em Guilbert (1975). das quais uma se preste como modelo para outra. francês ange. caracteriza de forma mais sistemática o que ela chama tensão polissemia-homonímia. russo angel. fascinar.. absolutamente fechada.. Do grego a palavra passou para o latim e acabou por se tornar um termo internacional: inglês angel. Ullmann cita como ilustração os vários empréstimos semânticos do hebreu ou do grego. porte” < francês allure. Ullmann (s. 247). p. que é um complexo de pessoas e de circunstância psico-sócio-culturais (1981. Na Bíblia. alemão engel. mas nem toda relação de polissemia é do tipo homonímico. ar. induzir” – allure “passo. 244-63). feixes acrescentados paulatinamente ao significado nuclear inicial. são um tanto duvidosos”. (10) allure “atrair. e) influência estrangeira – o exemplo mais notável é o empréstimo semântico decorrente do contato íntimo entre duas línguas. os tradutores da Bíblia copiaram a polissemia do termo hebraico usando o grego aggeloz “mensageiro” no sentido de “anjo”.

como podem ter as palavras homonímicas origem completamente diversa – esta última é o seu modus nascendi mais freqüente. p. “residência”. “instituição”. Dá como exemplos. A autora postula vários estádios para a configuração de uma polissemia. Quando ocorre o primeiro caso. “ação militar”. entre a lexia polissêmica e as lexias homonímicas. para a polissemia lato sensu ou homonímia. o significante pena (BARBOSA. Lexia monossêmica Lexia polissêmica Estágio intermediário Lexias homonímicas . descreve a autora: a lexia homonímica pode resultar da lexia polissêmica. 250). a segunda. 245). passa pela polissemia. É bom destacar que. conforma já dito. Admite. que uma monossemia inicial “pode corromper-se rapidamente a partir do momento em que a palavra formada entra em circulação na comunidade. temos um processo de mudança que começa na monossemia. p. A necessidade de atribuir várias significações a uma mesma forma significante do signo decorre da própria natureza do signo lingüístico. p. “ação jurídica”.” (1981. 250). Ilustra com o lexema Bauru. 1981. Primeiro momento Segundo momento Terceiro momento Criação da palavra Uso da palavra: semema polissêmico Bauru “sanduíche” Uso polissêmico bauru de presunto bauru de carne semema monossêmico “cidade” Bauru “sanduíche” Bauru Emprego de um ou outro sentido Emprego de um ou outro sentido Emprego Monossêmico Emprego monossêmico Bauru “sanduíche” No que diz respeito à polissemia lato sensu ou homonímia. “ação cinematográfica”. Barbosa exemplifica com as palavras casa e ação: a primeira pode significar “lar”. sempre se dá uma zona intermediária: não podemos dizer onde termina a polissemia e onde se inicia a homonímia.Para o primeiro caso. para que desta se chegue pouco a pouco à homonímia (1981. insusceptíveis de serem previstos.

“uma menina que é meiga”. (16) O juiz as achou culpadas. No primeiro exemplo. o que é encontradiço na maior parte dos manuais que tratam do assunto. cabem em primeiro lugar as seguintes interpretações: “um homem que é negro” . (15) O juiz as achou. as paráfrases seguintes. pois as classes gramaticais são diferentes (são “sadio” / são “verbo ser. do que resultam. Cabem também as interpretações seguintes: “um homem que é negro” (sendo negro utilizado em registro poético). (14) Vi a moça da janela. pueril”. pois foi referido no início deste capítulo. Nos casos acima. pessoa do singular do presente do indicativo”). outro tipo de ambigüidade: (13) O juiz achou as meninas culpadas. O critério por excelência passa a ser o significado. (12) um amor de menina. 3ª. Sincronicamente. mas pode haver polissemias no nível da frase. “um amor próprio de menina. feita de outro mterial” pena “caneta” Barbosa também se refere a um tipo bastante comum de homonímia. culpadas. ligada ao fenômeno da ambigüidade. valendo-nos da cliticização. Não trataremos disso. em que um significante resulta de étimos distintos. respectivamente. Existe outro tipo de polissemia de natureza sintática.pena “de ave” pena “de ave” pena “de ave” pena “de ave” pena “de ave. é fácil distinguir a homonímia. Os exemplos acima são de polissemia sintagmática. . a exemplo de manga “fruta” e manga “parte da roupa”. como por exemplo: (11) um negro homem. utilizada para escrever” pena “para escrever. Barbosa alude também a um tipo de homonímia em que forma fonética e classe gramatical se confundem. pode ser interpretado como adjunto adnominal ou como predicativo do objeto.

Mais agudo é o conflito no caso de pares como a cabeça/ o cabeça. 382-89). comportam-se como homônimos. Outro critério é o da distribuição. modificando ligeiramente a forma das palavras nele envolvidas. exigem o indicativo e noutro. à luz da Semântica moderna. respectivamente. d) diferenças ortográficas: expiar/espiar. Do ponto de vista semântico. ULMANN. bem como as formas flexionadas de insistir. Do ponto de vista sintático. Barbosa se vale também de recursos formais para decidir se o item lexical é polissêmico lato sensu ou stricto sensu. p. Não negligencia os aspectos extralingüísticos. 379-89) aduz outros critérios. adorar tem o .A autora interpreta. Mas deixa claro que o essencial é. função e sentido. como vemos.d. diversidade semântica de tal ordem que as palavras não podem mais partilhar o mesmo núcleo de significado. o subjuntivo. os bens. (22) insisto que eles vieram/insisto que venham. Isto constitui prova que. c) participação nos compostos: banco em banco de sangue. Podemos pensar. a flanela/ o flanela.: contra-ataque do inimigo). como: a) diferença de gênero: a cabeça. Como constituem uma cadeia argumentativa demasiado complexa.. a águia/ o águia. afirmação e ordem. Por exemplo. As formas flectidas de dizer são homônimas. b) diferença de número: o bem. Ulmann espende mais argumentos. polissemia stricto sensu. mas é o derivado que é susceptível de reger (ex. é preposição e rege o SN a maré. Ulmann (s. porque indicam. nem sempre é fácil estabelecer equilíbrio entre forma. adorar/amar/gostar. agregados ao núcleo sêmico e. (20) João escreve uma carta (para alguém). ligado metaforicamente a “instituição financeira” e não a banco “assento”. num caso. Porém. Um outro critério pode ser o da correlação dos tempos que uma forma verbal exige. o cabeça. uma vez que. propostas tradicionais.d. p. digo1 e digo2 são diferentes. tendo como núcleo o conflito homonímico. (19) João escreve um poema. s. explicáveis por metáfora ou metonímia. não nos deteremos neste critério aqui (Cf. como a transitividade. contra em lutar contra a maré e em contra-ataque são homônimos: no primeiro caso. no segundo caso. o mesmo se aplica a insisto 1 e insisto2. no caso da homonímia. feixes de significados. como a especialização de significados no meio social. é prefixo: contra não rege o substantivo ataque. pelo critério formal do gênero. à guisa de sugestão. sendo. portanto. Como ressalva. Pensemos num caso como adorar que pertence a campos distintos: adorar/venerar.. em outros critérios. no caso da polissemia. em matéria de polissemia e homonímia. como exemplificado com o verbo escrever. por exemplo: (21) digo que eles vêm/digo que eles venham. gostaríamos de salientar que muitas vezes há uma colisão entre o critério formal e o critério semântico.

mesmo comportamento. O que vai distinguir é o significado, baseado nos
campos diferentes a que adorar1 e adorar2 pertencem. Como pensar em refinar
a teoria dos campos de tal maneira que não traga resultados conflitantes com
os critérios formais? É uma questão que implica muitas questões que não
podemos abordar nos limites deste livro introdutório.
29

CONCLUSÃO

Apresentamos acima a distinção clássica entre homonímia e polissemia,
baseado na visão tradicional de Ullmann e González et al. Muitas objeções
críticas podem ser levantadas. Uma delas a destacar-se é que nem sempre a
proximidade de relações semânticas é verificável. A este propósito, Palmer
(s.d.) adverte:
em primeiro lugar, não é fácil distinguir se dois significados são
iguais ou diferentes e, conseqüentemente, determinar quantos
significados tem exactamente uma palavra (s.d., p. 80).

A assertiva supra evoca uma outra, já citada, de Bloomfield (1933, p.
436), “o grau de proximidade dos significados não está sujeito a uma medição
precisa.” Deste modo, não raras vezes, fica ao critério do lingüista optar por
uma classificação de homonímia ou polissemia.
Outra crítica feita ainda por Palmer, embora não seja tão séria porque
apenas assinala o caráter a posteriori e cultural da metáfora, diz respeito ao
caráter imprevisível da mesma. Pode parecer óbvio que “pé” seja apropriado
para serra, mas, olhando atentamente para outras línguas, vemos que o
primeiro lexema não se aplica ao segundo: nas línguas etíopes, as serras não
têm pé.
A razão disto é que as metáfora são de natureza cultural. Aqui vale a
pena aludir aos seguintes exemplos do Cântico dos cânticos.
(23) Os teus dentes são como um rebanho de ovelhas tosquiadas, que subiram
ao lavatório.
(24) As suas pernas são como umas colunas de mármore.
(25) O teu nariz é como a torre do Líbano.

Eco (1984) assim as comenta:
mesmo imaginando que o ideal de beleza para um pastor palestino
daquela época fosse uma mulher de certa robustez, capaz de levar
as ovelhas ao pasto, é um pouco exagerado pensar em dentes como
ovelhas molhadas. Além disso, as ovelhas nos sugerem a idéia de
serem malcheirosas, barulhentas, desordeiras, extremamente
peludas... E, no entanto, a metáfora funcional, isto é, funcionava no
contexto cultural da civilização hebraica da época de Salomão, e nós
fazemos o esforço filológico para entendê-la. Que significa isso?
Que, provavelmente, no âmbito cultural da época, a propriedade
mais evidente de um rebanho de ovelhas era a que mais tarde a
Idade Média chamaria de equalitas numerosa, isto é, a igualdade na
pluralidade. Em outras palavras: são postas em evidência apenas a
brancura das ovelhas e a pluralidade e deixam-se de lado outras
propriedade como, justamente, o fato de os dentes serem todos
alinhados e as ovelhas não. Deixa-se de lado a propriedade que as
ovelhas têm de serem barulhentas e malcheirosas (1984, p. 54).

O critério da etimologia é refutado por Palmer. Segundo o autor, “isto
está longe de ser satisfatório, pois o actual estádio da língua nem sempre
reflecte fielmente a evolução histórica”. Quem relacionaria, por exemplo, pupila
(aluna) a pupila (menina do olho)? O próprio Ullmann, como vimos, matiza o
critério histórico, referindo-se aos homônimos reinterpretados.
Palmer objeta também que a diferença em nível da escrita nem sempre
implica diferença de origem. Palavras que hodiernamente são homófonas
podem derivar de uma mesma forma original. Como exemplo, temos as
palavras metal (metal) mettle (brio).
Barbosa oferece indícios para o reconhecimento da polissemia lato
sensu, como a policategoria, exemplificada em são1 (santo), são2 (sadio), são3
(3ª. pessoa do vb. ser), e em manga1 (fruta), manga2 (parte da roupa), ambos
substantivos, mas diferentes quanto aos significados. No entanto, não nos
mostra como levar em conta aspectos ligados à regência, por exemplo, como
nestes casos abaixo.
(26) a. João trabalha.
b. João trabalha a terra.
(27) a. João escreve um poema.
b. João escreve uma carta para a namorada.
(28) a. O vento secou a roupa.
b. A roupa secou.

Nos casos acima, é de se notar que as diferenças de regência
determinam relações de significado distintas entre o verbo e os argumentos.
Outra questão que fica em suspenso, na obra de Barbosa, é a
conversão, denominada derivação imprópria na gramática tradicional. É óbvio
que temos policategoria, portanto uma condição para a homonímia. Por outro
lado, temos significado que depende do item lexical derivante, o que configura
polissemia. Talvez estejamos a meio caminho entre fenômeno polissêmico e
fenômeno homonímico.
A saída para resolver o problema da polissemia e da homonímia é
provavelmente considerar os parâmetros de forma, função e sentido
paritariamente e não apenas de sentido, que tem sido predominante.
Em suma, a distinção entre polissemia e homonímia, dados os
problemas que envolve, costuma ser freqüentemente uma conseqüência de
decisão tomada por um estudioso, já que os limites entre ambas são fluidos e
provêm de critério às vezes contraditórios.

Exercícios de reflexão
1. Procure, em gramáticas históricas, outros exemplos de homonímia e de
colisão homonímica.
2. Compare o verbete estado em Ferreira (1975) com os verbetes em
Bidermann (1992), assim caracterizados (foram retirados os exemplos da
autora e os verbetes foram simplificados):

estado1 s.m. 1. Modo de ser de uma pessoa ou coisa; situação ou condição
em que uma pessoa ou coisa se encontra. 2. Situação social dentro da
comunidade; condições de uma pessoa na sociedade.
estado2 s.m. 1. Autoridade soberana exercida sobre um povo e um território;
governo de uma nação. 2. Nação, país. 3. Cada uma das divisões políticogeográficas de um país.

a) Justifique, à luz dos critérios de homonímia e polissemia, os verbetes em
um e outro dicionário.
b) Teça críticas a um e outro, no que diz respeito ao emprego dos
conceitos mencionados acima.
c) Analise a extensão dos significados para cada verbete e diga em que
medida eles são descritos sem redundância, de modo econômico e
compreensível. Faça sugestões de melhora.
3. Rocha (1998, p.70) opõe polissemia e homofonia (homonímia) com base em
aspectos fonéticos, semânticos (apelo à metáfora) e funcionais (respeitantes à
classe gramatical), resumidos no quadro que adaptamos.
Fenômeno

Aspectos

Polissemia

Homofonia

Fonético

SIM

SIM

Semântico

SIM

NÃO

Funcional

SIM

SIM

Exemplo

Dentes (“órfão
de homens e
animais,
“saliência que
lembra este órgão”)

Manga
(“fruta”, “peça
do vestuário”)

Conclusão

Mesma palavra

Palavras diferentes

a) Compare a proposta de Rocha com a de Barbosa.
b) Verifique se são homonímias os casos abaixo, valendo-se dos critérios
de Rocha.
sobre, prefixo e preposição;
sufixo –ada, com os significados de golpe e produto alimentar;
sufixo –eiro, com os significados de agente, árvore ou arbusto e
recipiente;
prefixo in-, significando movimento para dentro e negação;
prefiro re-, significando repetição e movimento contrário.
4. Verifique se se trata de polissemia stricto sensu ou de polissemia lato sensu,
refletindo sobre os aspectos formais (flexão, regência, diferença de classe
gramatical) referentes aos itens lexicais destacados nas frases abaixo.
a) João trabalhou todo dia.

d) A cabeça de Maria dói. quer falada quer escrita. em conseqüência. O cisma no partido foi decisivo. e a homonímia na língua considerada em conjunto. O esforço do soldado foi vão. g) João tem cisma com Maria. A este respeito. c) João escreve poemas.) Mas tais casos são bastante menos comuns que aqueles em que a escrita ajuda a discriminar os homônimos da fala”. p. João cozeu a batata.d. A propósito do critério ortográfico. f) João quer o livro. 5. uma salvaguarda contra a homonímia. por outro lado. O cabeça do complô foi decapitado. a questão é que. É verdade. sob este aspecto. O critério da ortografia como salvaguarda contra a homonímia foi colocado em dúvida por Bloomfield (1933). 381-2): mas.. que afirma: “a escrita que reproduz os fonemas da fala é tão inteligível como a fala”.João trabalhou o texto sobre sinonímia. b) A batata cozeu. reflita até que ponto ele é. João quer bem a Maria. . seguramente. ponderando sobre os pontos de vista de Bloomfield e Ullmann. que a ortografia não-fonética produz por si próprio homônimos: “(. João escreve uma carta a Maria. afirma Ullmann (s. fica.. e) O vão do prédio está cheio de lixo. de fato.. a escrita é mais inteligível que a fala. reduzida.

o fato de que os casos indicam as funções na cláusula que seus respectivos Sns exercem. 31 A PROPOSTA DE FILLMORE Fillmore (1968) assinala que a menção aos casos semânticos se encontra em estudos tradicionais. f) a pressuposição de que a noção de caso é básica e primitiva para a teoria. Um mesmo autor. mesmo assim tal uso está sendo feito a entidades bastante distintas”. têm um status derivado e secundário. Aqui nos referimos. p. 1977) e de Chafe (1979). Carvalho (1987. para fins ilustrativos. afirma: “A diversidade destas várias propostas é tamanha que John Anderson chegou a nos afirmar (comunicação pessoal) que o único fator unificante de todas as teorias de casos existentes na atualidade é o uso da palavra caso. b) uma separação não estrita entre sintaxe e semântica. a saber: a) uma forte base semântica. não menos de quatro e não mais de dez). e) escolha de uma notação adequada para a representação dos predicados e seus conjuntos de casos. o que não é o caso. d) centralidade do predicado. reviu suas formulações. Um destes estudos é o dos manuais padrões de grego e latim. k) uma hierarquia de casos para a aplicação de diferentes processos sintáticos. remete ao que ficou conhecido como Gramática de Casos. em que se vêem expressões X e Y. h) um conjunto de relações de caso lingüisticamente definidas. o autor assinala pontos genéricos em comum entre as diversas teorias de casos. basicamente às propostas casualistas de Fillmore (1968. a exemplo de . como a de Charles Fillmore e a de Wallace Chafe. em que X é o nome de determinado caso e Y. baseando-se num modelo semântico. 10). j) o caráter relacional dos casos. g) noções de caso profundo como um universal da linguagem. o nome de uso determinado de X.CAPÍTULO IX RELAÇÕES DE SIGNIFICADO NA FRASE: A VALÊNCIA SEMÂNTICA 30 INTRODUÇÃO Falar das relações de significado entre palavras. na frase. com toda razão. apresentando propostas bem diferentes. objeto etc. Mesmo assim. cada argumento ocupando determinada função de caso profundo. c) uma forma mais fácil de explicar o uso da linguagem. 1971. i) um número bem limitado de relações de caso profundo que podem ser propostas por uma teoria (usualmente. como Fillmore. abrigam-se propostas diversas. isto é. O nome é claramente inadequado. com certos argumentos dependentes dele. Sob o referido rótulo. l) consideração de que relações gramaticais como sujeito. pois sugere uma teoria unificada.

. d) instrumento: coisa utilizada para efetuar a ação. Fillmore admite. Esta é formulada assim: S→M+P A proposta de Fillmore traduz em termos de estrutura sintática profunda as funções semânticas dos sintagmas nominais. a divisão na verdade obscurece os muitos paralelos estruturais entre sujeitos e objetos” (1968. relacionar cada um dos morfemas às noções tradicionais de caso. 296). p. além disso. nominativo de beneficiário. sugere um repertório de casos finitos e universais: a) agente: o ser animado que pratica a ação. e) locativo: lugar onde se realiza a ação. nominativo de paciente. ou compreendido como parte do significado do verbo. Na esteira de Tesnière (1959). Fillmore estabelece também que “o estudo dos casos pode ter um resultado mais fecundo se abandonamos o pressuposto de que uma característica essencial da categoria gramatical de caso é a expressão sob a forma de afixos em substantivos” (1968. Para tanto. p. 289). p. afirma sobre a dicotomia sujeito/predicado: “é uma importação da lógica formal para a teoria lingüística. incluindo verbos e substantivos. Outro tipo de estudo consiste na “simples verificação dos meios pelos quais se expressa uma determinada relação de caso. (05) Ele tem cabelos pretos. 285). ilustrados nas sentenças abaixo.nominativo de agente pessoal. reconhecido pela exclusão dos cinco acima. no modelo de 1968. p. b) dativo: coisa para a qual se dirige a ação. pode-se tentar “descobrir os significados originais dos casos de uma língua ou família de línguas ou empenhar-se em buscar as origens dos morfemas de caso em outros tipos de morfemas ou palavras de função sintática ou alguma espécie de morfemas derivacionais” (1968. Uma alternativa é identificar-se morfemas de caso na nova língua no sistema de flexão nominal e. c) factivo: o caso do objeto ou ser resultante da ação ou estado identificados pelo verbo. de um conceito que não é apoiado pelo fato da língua e. Por fim. em seguida. que a estrutura profunda se constitui de uma modalidade (M) e uma proposição (P). 293). o modo e o aspecto. (02) Ele recebeu o golpe. (04) Ele a ama. f) objetivo: o caso semanticamente mais neutro. (03) Ele recebeu um presente. sendo esta caracterizada como um conjunto de relações sem tempo verbal. no padrão escolhido na língua que se está examinando” (1968. nominativo de pessoa afetada e nominativo de pessoa interessada (ou nominativo ético). Fillmore assenta algumas conclusões preliminares. (01) Ele chutou a bola. A modalidade por sua vez inclui o tempo.

. Por exemplo. que exige um agente (A). conforme hierarquia que rege a escolha do sujeito. postula a centralidade da sintaxe. O modelo fillmoriano. b) a ordenação dos casos da esquerda para direita. em franca referência à estrutura profunda de Chomsky. em particular a seleção do sujeito. por ter chamado a atenção para a existência de relações casuais mais profundas que as relações de sujeito e objeto. Na ausência dos dois. Os casos se ordenam da direita para a esquerda. Exemplificando: (06) João abriu a porta (agente). entre as quais: a) ausência do constituinte modalidade. (08) A chave abriu a porta (instrumento). No que diz respeito aos verbos. é. (14) Chicago venta (locativo). a saber: a) um caso ocorre uma só vez com um dado verbo.Convém destacar que nenhum dos casos acima deve ser interpretado como correspondente às relações superficiais sujeito e objeto. (09) João abriu a porta com a chave (instrumento). Cumpre destacar que a relação de caso profundo entre um sintagma nominal e o verbo não se modifica por causa das posições superficiais que ele ocupa. (13) Parecia a João que ele ganharia (dativo). Por força de tais propostas. Por exemplo. Fillmore fala de casos profundos. I. b) apenas casos semelhantes podem ser associados. houve algumas diferenças em relação ao modelo de 1968. (12) Convencemos João de que ele ganharia (dativo). (10) João usou a chave para abrir a porta (instrumento). Fillmore estabeleceu alguns princípios razoáveis para a identificação dos papéis semânticos. do contrário. (15) Há muito vento em Chicago (locativo). pois as combinações de casos que definem os tipos de sentenças de uma língua impõem uma classificação dos verbos. (07) A porta foi aberta por João (agente). ambíguo. Fillmore não admite a centralidade do verbo. isto decorrente do prestígio das propostas chomskyanas. c) os casos estão em distribuição complementar. ao mesmo tempo em que fala de casos profundos essencialmente semânticos. Tomemos como exemplo o verbo abrir. O esquema é ___ O. em alguns aspectos. em nenhuma língua dada. A representação da estrutura semântica se faz em termos de esquemas casuais. um instrumento (I) e um objeto (O). ele se torna o sujeito. se há um agente. embora inovador em muitos aspectos. No modelo de 1968. cabe lugar ao objetivo. estes são escolhidos e classificados conforme o tipo e o número de casos exigidos pelo seu significado. o instrumento é selecionado para sujeito. Em Fillmore (1971). (11) João acreditou que ganharia (dativo). Os casos pressupõem uma hierarquia e esta se presta para nortear processos sintáticos. A.

num evento psicológico genuíno ou com um verbo de estado mental. sendo este último um caso provável. Experimentador (E). Fenômenos não sujeitos a controle. Fillmore não levou em conta o papel das forças naturais. O autor introduz os casos Origem e Meta. No modelo de 1971. Acrescentemos outras definições para os casos não presentes no modelo de 1968: a) temporal: é o tempo de um evento. sendo extensivo ao receptor de verbos de transferência de propriedade. continua como uma espécie de cesta de lixo. Objetivo (Ob). Far-se-ia necessária então uma compreensão da expressão de atos voluntários e intencionais. passamos à redefinição de alguns. Origem (Or). em 1968. b) Ob: sua ação ou oferecimento. Fillmore (1977) aperfeiçoa os estudos realizados no modelo de 1971. Assumindo o . Uma frase como (16). c) M: a direção ou recebedor da ação. ponto final de verbos de lapso de tempo ou de verbos de mudança de estado. em frases com agentes e apenas quando o papel do agente é deliberado ou voluntário. Cumpre ressaltar que. a sua localização temporal. Locativo (L). (16) João fez isto para mim. b) meta: é o ponto final de uma atividade. origem do movimento. Instrumental (I). O Objetivo.Estabelecidos os princípios acima. ao ponto de partida dos verbos de lapso de tempo ou mudança de estado. os locativos estáticos e direcionais se encontravam em distribuição complementar. Como boa parte dos casos já foi definida. definido como a entidade que muda ou sofre mudança e exprime o conteúdo de um evento psicológico. propõe-se a investigar o modo como a mensagem é organizada através de determinada perspectiva. o instrumental diz respeito a forças da natureza. Meta (M). são considerados instrumento. Na versão de 1977. segundo Fillmore. Em outro trabalho. O Benefactivo só ocorreria. Estende-se à origem dos verbos de transferência de propriedade. No modelo de 1968. Fillmore não acata tal possibilidade. mas causadores de eventos. o caso que se identifica por exclusão dos demais. Origem e Meta agora tanto se referem a locativos direcionais quanto a locativos abstratos. b) experienciador: é o caso do experienciador de um evento mental. comporta três noções básicas: a) A: aquele que faz algo. Definem-se assim: a) origem: é o ponto inicial de uma atividade. Temporal (T) e Benefactivo (B). Fillmore elencou nove casos: Agentivo (A).

(17) a. qual é o sujeito e qual é o objeto? c) como explicar elementos que. dinheiro e bens. o que favorece serem certas entidades realçadas. verbos como vender. segundo a qual os esquemas de casos em que se insere o verbo não abrangem todos os aspectos de uma situação. Fillmore lança mão da noção de cena. pois num caso assevera-se que o caminhão foi parcialmente ocupado e no outro. Fillmore admite que a interpretação de uma frase pode mudar como decorrência da função gramatical profunda de seus constituintes. embora conceptualmente obrigatórios. Um outro aspecto a ressaltar-se no modelo de 1977 é a determinação de critérios para definir os casos. Carreguei o feno para o caminhão. Se quisermos dar saliência ao comprador e ao dinheiro. c) a perspectivação da situação. Se quisermos salientar o vendedor e os bens. frases como (17)a. e (17)b podem ter interpretações diferentes. cada oração resulta da escolha de uma dada perspectiva que o falante impõe ao evento. usamos o verbo vender. que diz respeito às seguintes noções: um comprador. . de outro. Outras ponderações se põem: a) que participantes podem ser colocados no primeiro plano? b) entre estes participantes. pagar. Tomemos como exemplo um evento comercial. postas em primeiro plano. a determinar as funções gramaticais dos elementos em realce. Fillmore julga então necessário fazer referência a relações gramaticais como sujeito e objeto. de um lado. b. comprar. a saber: a) o traço (+humano): determina a preponderância de seres humanos sobre objetos inanimados. b) a atribuição de papéis semântico-sintáticos aos participantes da situação. Assim. Carreguei o caminhão com o feno. Fillmore assenta as seguines prioridades: a) os esquemas de casos. totalmente. A hierarquia de realce põe em relevo elementos que favorecem a perspectivação. custar. um vendedor. b) a mudança de estado ou posição: determina a inclusão da entidade que sofre objetos inanimados.caráter semântico de uma gramática de casos. gastar. Aquela se presta a determinar o caráter de primeiro plano dos elementos e esta última. Assim. empregamos o verbo gastar. podem ser dispensados na estrutura de superfície? A fim de explicar a saliência. através de dois princípios: a seleção do sujeito e a hierarquia de casos. Fillmore apela para duas noções: a hierarquia e realce e a hierarquia de casos.

em que. pelo fato de a parede ser objeto direto. (19) a. condicionado pelas características sintáticas e semânticas de recção ou regência do termo regente. isto é. Por fim. Fillmore recorre a dois expedientes: a) o apagamento. em que a relação entre o verbo assinalador de mudança e a entidade que sofre a mudança se manifesta na relação verbo e objeto direto. Quebrei o vaso com o martelo. (20) a. temos as frases (18)a e (18)b. para explicar a ausência de determinados elementos na superfície. Fillmore fica a nos dever uma explicação mais satisfatória. exemplificamos o terceiro fator com as frases (20)a e (20)b. A crítica de Lemle só faz sentido se tomarmos o modelo de 1968. João é “coisificado”. desde que complementado por uma como esta: muitas vezes um termo argumental. na segunda frase. Por fim. mais exatamente ao SN o jardim. pode ser dispensado. O pintor borrifou tinta na parede. Fillmore parece tender para a segunda opção. Risquei o canivete no João Como ilustração para o segundo fator. Assumindo as noções de cena e perspectiva. a perspectivação é de totalidade na primeira frase por oposição à segunda. Como exemplo para o primeiro fator. b) a não-inserção na estrutura profunda gramatical. b. em que. b. como demonstra a afirmativa de que “não é preciso acreditar que tudo que está incluso no nosso entendimento de uma sentença seja parte necessariamente da estrutura gramatical subjacente desta sentença” (1977. damos as frases (19)a e (19)b. O pintor borrifou a parede com tinta. Abelhas pululam no jardim. por exemplo. Fillmore se encontra ao abrigo de críticas como a de Lemsle (1984). 73). (21) a. p. a condição de objeto direto para a entidade completamente afetada e a condição de adjunto adverbial para a entidade parcialmente afetada. o que é atestado por não ser objeto direto.c) a totalidade: determina. em que a noção de totalidade se aplica apenas ao segundo exemplo. Neste particular. b. em que na parede é adjunto e o traço é de parcialidade. b. Risquei o João com o canivete. O apagamento parece ser uma solução melhor. que opunha frases como (21)a e (21)b. Quebrei o martelo no vaso. O jardim pulula de abelhas. (18) a. apagado ou eliminado da .

por oposição aos nominais. 1999. a exemplo de a madeira está seca. Continua o autor citado: também em razão do nosso saber sobre as coisas do mundo extralingüístico é que podemos fazer o chamado “emprego absoluto” de vários verbos. b) é a natureza do verbo que determina como deverá ser o restante da oração e o tipo de nome que o acompanha. afetam a oração inteira. Além disto. acompanhados de nome paciente. Na verdade.95). Chafe não nos deixa muita certeza quanto à centralidade da oração. O que configura de fato a oração é o verbo. a nossa experiência também facilmente entende aquilo de que estamos falando (BECHARA. dividindo os verbos nos seguintes grupos: a) de estado. implícitos na ação designada pelo verbo.oração pelo falante ou porque já foi referido anteriormente e. desacompanhados de seus argumentos ou complementos. ninguém possa negar que existem restrições sistemáticas. por isto. intensos. Chafe ensaia uma tipologia verbal. Afirma o autor que muitas coisas serão explicáveis somente quando estendermos nossa vista para além dos limites oracionais. arrolando os seguintes motivos: a) em todas as línguas. De fato. . 413). como o de tempo. a do verbo. um verbo está semanticamente presente em todos os enunciados. começa por circunscrever a descrição sintática à oração.413). que assinala a mudança de estado ou de condição. No capítulo nove. 1999. exceto alguns de natureza marginal. ao denominar os morfemas verbais de extensos. ou porque. P. enquanto os do nome se circunscrevem ao sintagma nominal. que uma frase como o homem riu seja aceitável. como em a fruta amadureceu. que engloba coisas (objetos físicos ou abstrações coisificadas). Admite explicitamente a centralidade do verbo. Este é que determina. “embora provavelmente. para além dos limites da oração” (p. enquanto a frase *a cadeira riu é anômala. graças ao conhecimento que temos das coisas e do mundo. também. interjeições como ai! oh! são tipos rudimentares de oração apenas ao nível psicológico. é facilmente subentendido pelo ouvinte. que engloba estados e eventos. mas que a nossa experiência recupera (BECHARA. Outra suposição do lingüista é a de que o universo conceptual humano total é de início dicotomizado em duas áreas. e a do nome. b) de processo. o que já fora observado por Hjelmslev (1975). 32 A PROPOSTA DE CHAFE Chafe (1979) é outro autor que se debruçou sobre a questão das funções temáticas. os morfemas do verbo. c) os morfemas do verbo pertencem a toda a oração. O autor prefere a dicotomia verbo e nome à dicotomia predicado e argumento. P. por exemplo.

1977). saber. João sentou na cadeira. como ver. que diz respeito a uma ação “que. na doutrina de um mesmo autor. jogar implica um jogo. mas com verbos de estado. É típico de casos dessa espécie que o verbo implique uma ação que faça que algo passe a existir. Chafe admite ainda marginalmente verbos de estado-ambiente (ex. p. quer seja gerativista ou funcionalista. conforme as propostas de Fillmore (1968. c) instrumento. uma ação que crie algo. permanecem.: está chovendo). O nome em causa. d) complemento. por sua própria natureza. como os SPs das frases o livro está na caixa. um constituinte da descrição gramatical. b) beneficiário. gostar. não conexo com verbos de ação. Serve para mostrar a quem nos lê certa falta de unidade conceitual e nomenclatural no terreno da gramática de casos. Identifique o caso dos sintagmas destacados abaixo. diz respeito a verbos de estado como ter e possuir. 103). segundo a qual o que unifica as gramáticas casualistas é a admissão da existência de casos. . vale a crítica de Anderson.: está quente) e de ação-ambiente (ex. já citado. Cantar por exemplo.c) de ação. O maior deles é a proliferação de propostas tão grande que marca diferença efetiva. Por isto. d) de ação-processo. implica a coexistência de um certo conceito nominal. como João matou o adversário. na verdade. e com verbos sensitivos. 33 CONCLUSÃO Hoje a gramática de casos constitui um marco definitivo em teoria gramatical. às vezes. na qual não há nenhuma ‘coisa’ de que se faça a predicação” (1979. de processo. Afirma o autor que o significado destas orações “parece não implicar nada além de uma predicação. que marca uma atividade que acarreta mudança de estado. Exercícios de reflexão 1. Todavia. Chafe trata das funções temáticas. então. que “difere notavelmente das relações experimentador e beneficiário porque não se associa com uma determinada unidade selecional que exista no verbo”. No capítulo 12. 162). que estabelece relações locativas. enviar. como querer. 1971. e de ação. que assinala uma atividade que não ocasiona todavia uma mudança de estado. a exemplo de João trabalha. Exemplo disto é o SP da frase João cortou o salame com a faca. especifica o que é criado: a interpretação de uma canção. ouvir. que é.157). (p. os obstáculos para uma consolidação da referida gramática. como Fillmore. e) lugar. implica uma canção.” (p. como ganhar e perder. 152). sentir. A apresentação de dois autores neste capítulo foi proposital. a saber: a) experimentador. como comprar. em que o nome “se beneficia de tudo que é comunicao pelo resto da oração” (p. a realização de um jogo etc.

Destaque a contribuição do modelo fillmoriano de 1977. instrumento. 3. . em relação ao de 1971 e ao de 1968. 2. O fumo prejudica a saúde. Argumente: os casos independem da função sintática. conforme a proposta de Chafe. As flores murcham com o sol de verão. A moça ganhou um carro do pai.a) b) c) d) e) f) g) h) i) j) O soldado cortou a mão com a espada. 4. Os espanhóis invadiram o império asteca. Muito tempo decorreu desde a morte do poeta. causativo. O sol de verão murcha as flores. 5. A espada cortou a mão do soldado. A mulata fascinava a platéia. O rapaz tem uma grande propriedade. Verifique se há evidências lingüísticas em favor destes casos: agente. Analise as frases acima.

à página 132. portanto. correspondentes exatos para o sentido. Os verbos schätzen e urteilen apresentam um conjunto de significações que correspondem. um articulus em que uma idéia se fixa num som em que um som se torna um signo de uma idéia”. que se encontra esboçada em Saussure (1977. . ensinamento.. tratando das relações associativas. dar ou tomar em aluguel. p. educação etc. p. às palavras francesas estimer e juger (“avaliar” e “julgar”). pois. Exemplifica desta maneira: (. correspondência exata de valores. afirma que os valores são sempre constituídos: 1° por uma coisa dessemelhante. 131). armamento. Podemos também estabelecer uma associação entre termos cujo elemento comum é o sufixo: ensinamento. o que não ocorre com a palavra francesa ou portuguesa (1977. desfiguramento. p. 135). Exemplificando: em ensino. o inglês diz mutton e não sheep. A diferença de valor entre sheep e mouton ou carneiro se deve a que o primeiro tem a seu lado um segundo termo. instrução. estabelece que “os grupos formados por associação mental não se limitam a aproximar os termos que apresentem algo em comum. “Cada termo lingüístico é um pequeno membro. enquanto o alemão emprega dois termos mieten e vermieten. 134). em particular porque. suscetível de ser trocada por outra cujo valor resta determinar. Mais adiante. o espírito capta também a natureza das relações que os unem em cada caso e cria com isso tantas séries associativas quantas relações diversas existam”. ensinar. grosso modo. lento. existe como elemento comum o radical ensin.) O português carneiro ou o francês mouton podem ter a mesma significação que o inglês sheep. essa correspondência falha (1977. de uma língua para outra. ensinamos. para significar. isso por várias razões. cada uma delas teria. aprendizagem.CAPÍTULO X O CAMPO LÉXICO 34 INTRODUÇÃO: OS PRECURSORES Uma noção de suma importância em Lingüística é a de valor. sob vários aspectos. 2° por coisas semelhantes que se podem comparar com aquela cujo valor está em causa. mas não ocorre assim. O francês diz indiferentemente louer (une maison) e o português alugar. não há. Na página 145. mas não o mesmo valor. Corrobora a assertiva acima esta outra. ao falar de uma porção de carne preparada e servida à mesa.. A analogia também pode ocorrer com base no significado ou na mera similaridade fônica: ensino. fundada na noção da arbitrariedade do signo lingüístico: se as palavras estivessem encarregadas de representar os conceitos dados de antemão..

houve outros autores que se referiram ao campo léxico. Weisgerber se refere a três tipos de campos léxicos. Além de Saussure. aprendizagem desfiguramento educação armamento etc. Este estudioso enfatizava a interdependência entre conceitos e palavras. a chave para o descobrimento de uma visão lingüística do mundo. etc. que assumem caráter distinto conforme seu domínio: a) campos léxicos do domínio dos fenômenos. Mostrou que os nomes das cores constituem um sistema arbitrário e que os antigos possuíam uma escala diferente da nossa. A tarefa fundamental da lexicologia aplicada ao conteúdo está em assinalar a existência e a estrutura dos campos léxicos existentes em uma língua (1984. etc. 1984). Estavam. etc. c) campos léxicos do domínio espiritual.ensinamento ensinar elemento ensinemos lento etc. 127). constituída pela totalidade de um grupo de signos lingüísticos que coopera em uma articulação orgânica. mesmo quando seus usuários não sejam conscientes dela em detalhe. nem lhes seja transparente (GECKELER. p. etc. 126). b) campos léxicos do domínio da cultura material. etc. 1984. refletindo o modo diferente de considerar a realidade. Assim Weisgerber concebe o campo lingüístico: um campo lingüístico é uma seção de entremundo da língua materna. p. . como vemos. Todavia. Uma articulação tal é totalmente efetiva. Um deles foi Weisgerber (in: GECKELER. as idéias de Saussure ainda estavam em germe: faltava desenvolver a noção de rede associativa. A maior importância da idéia do campo é a de ter chegado a ser o conceito metodológico central da investigação aplicada ao conteúdo lingüístico e. dando a ele maiores desenvolvimentos teóricos. postas as condições para os campos léxicos. Weisgerber entende o estudo do campo lingüístico como aplicado ao conteúdo. ao mesmo tempo.

e esse novo esquema reflete a desintegração da unidade e da catolicidade do conhecimento que eram características da civilização medieval” (GUIRAUD. Wizzen (saber) substituiu List. 85). compreendendo uma e outra. tendendo para o sentido moderno de “arte”. Kunst se refere às esferas corteses do saber. de uma perspectiva moral. mas uma só diante da sabedoria moral e do conhecimento divino. ao conjunto dos conhecimentos do nobre. Enquanto o código de honra. por seu turno. a astronomia e a habilidade técnica do artesão são Liste. enquanto nos campos léxicos relativos aos fenômenos. tanto se refere ao saber em geral como à capacidade técnica em particular. estética e principalmente religiosa. p. Wizzen. uma ordem material do conhecimento que é dupla. e que opõe uma sociedade cortês (Kunst) e não cortês (List). despoja-se de conotação social. mas o conteúdo dos três termos é diferente bem como se diferenciam as suas relações. Ou. dividido pelos dois modos de se apreender a sua unidade na ordem espiritual. Wisheit. deixa de abranger o domínio de Kunst e Wizzen. 84). um século depois. que abrange uma e outra (1980. É a sapientia. o vocabulário dos campos do domínio espiritual reflete melhor a situação do homem como elemento ativo no mundo. as palavras são Wisheit. Foi Trier que desenvolveu melhor a idéia de campos lingüísticos. “O saber material e a sabedoria espiritual diferem daí para a frente em sua essência. o esquema sofre alterações.Cabe destacar que os últimos merecem maior destaque. em grande medida. podemos ver. uma vez que a habilidade técnica individual é considerada independentemente da classe social. Kunst (arte) e List (artifício). nas palavras sintéticas de Guiraud: as três palavras refletem portanto uma situação e uma visão do mundo particular. Por volta de 1200. O autor constatou que três eram as palavras-chave para o conhecimento no vocabulário alemão no princípio do século XIII: Wisheit (sabedoria). Todavia. Problemas como a delimitação recíproca dos campos léxicos não foram resolvidos de modo satisfatório. 1980. p. Wisheit é o conhecimento espiritual. como assinala Guiraud. Kunst passa a referir-se às esferas mais elevadas do conhecimento. por sua vez. Comparando esquematicamente as duas relações temos: KUNST WISHEIT WISHEIT LIST 1200 KUNST WIZZEN 1300 . Um século depois. Wisheit se opõe simultaneamente a Kunst e a List. tais tentativas de classificar os campos léxicos parecem mal delineadas. a atitude para com as mulheres são Künste. Kunst e Wizzen. aos conhecimentos populares. pois. Trier mostrou que não houve uma simples substituição de List por Wizzen. tanto a sapientia personalis quanto a sapientia dei. Todavia. do cavalheiro e List. uma vez que não foi elaborado um método de campos léxicos. mas tal mundo. há duas atitudes específicas em face da ação e da ciência material. respostas do homem aos estímulos externos.

Weisgerber aludiu também à distinção pouco clara. utiliza os termos “campo léxico”. s. Weisgerber. Ipsen. Jolles e W. 204-5) e Geckeler (1984. LYONS.d. muito na linha de L. Whorf (1971) radicaliza a posição de Sapir. “esfera conceitual”. de um mosaico bidimensional.). eventualmente. “campo lingüístico”. Porzig. e como se deve diferenciar cada um deles da noção puramente saussureana de valor (Geltung). Não obstante. mormente aquele de natureza abstrata. relativo à cultura espiritual. Afirma este último: digamos ainda umas palavras sobre a terminologia de Trier. na terminologia de Trier... Contudo. “campo”. quer estabelecer entre cada um destes termos. Afirma que o sistema lingüístico não é simplesmente um veículo. p. b) formulou problemas antes despercebidos. “campo conceitual”. apesar das limitações o método de Trier apresenta uma tríplice vantagem: a) introduziu um método legitimamente estrutural num ramo da Lingüística. Sapir insistia no fato de que a percepção que o indivíduo tem da realidade é condicionada pelo sistema lingüístico que ele fala: as categorias da língua fornecem como que subsídios para a interpretação do real.d. o “programa e o guia para atividade . em seus trabalho. e condicionamento sociohistórico. “campo lingüístico de signos”. p.Algumas objeções relevantes podem ser levantadas contra as idéias de Trier. ou analogia. evita conscientemente. já citado: Trier não explica o que entende ele por sentido (Sinn) e por significado (Bedeutung). O próprio L. p. levando em consideração a língua hopi – língua indígena da América. o termo “campo semântico” (Bedeutungsgeld) que usaram G. Por outro lado. 124-5). entre as quais (Cf. Assim. Uma delas diz respeito à vagueza terminológica. c) permitiu entrever a influência da linguagem do pensamento. 212): a) o fato de se apoiar na metáfora. como a relação entre léxico. d) o fato de negligenciar as relações sintagmáticas em favor do relevo dado às relações paradigmáticas. Pelas relações estabelecidas entre léxico e cultura. integrado e totalmente articulado. c) a insistência em que o vocabulário como todo é um sistema único. o que foi notado por Lyons (s. assinalada por Lyons (s. a teoria dos campos se aproxima da hipótese Sapir-Whorf.d. há que se considerar outra objeção. um sistema reprodutor de idéias mas o próprio modelador das idéias. b) a recusa à possibilidade de haver lacunas ou sobreposições num campo lexical. sem atribuir-lhes as distinções que. A definição de seus termos não é precisamente seu ponto forte. entre “campo lingüístico” e “esfera conceitual”. Outras críticas podem ser feitas. A.

. 526).. A este respeito. Razão: seu caráter: nem autoridade. Weisgerber e Trier foram altamente influenciados pelo idealismo alemão. p. 89-92) alguns aspectos do léxico da geração de 1765. O CAMPO NACIONAL DE ARTE E DE TÉCNICA POR VOLTA DE 1765 I – A Razão e as Luzes 1. as duas palavras-chave que vigoraram na cena social foram individualismo e organização. artes e ofícios. Como vemos. com base na fundamentação acima. No prefácio da primeira obra. p. Descartes) e sistema. a lei o esporte etc. são esclarecedoras as palavras de Matoré: “é partindo do estudo do vocabulário que tentaremos explicar uma sociedade. partindo de uma análise das estruturas sociais” (ULLMANN. s. para a sua análise das impressões. para síntese de toda a sua bagagem mental”.d. ecletismo (1755).. antes e depois da Revolução de Julho de 1830. medicina).. expõe sua posição teórica: “propomo-nos considerar a palavra. .. As primeiras se definem como “elementos particularmente importantes em função dos quais a estrutura lexicológica se hierarquiza e se coordena” (ULLMANN. Entre os tipos humanos. que. O autor investigou. Luz: o século das Luzes 2. não já como um objeto isolado. de natureza prática. 527). Por outro lado. definir a lexicologia como uma disciplina sociológica que utiliza o material lingüístico que são as palavras” (ULLMANN. 527). salões. a lexicologia.d. jornalismo. Por exemplo. Matoré valeu-se de dois conceitos: palavras testemunhas (motstémoins) e palavras-chave (mots clés). Há um trabalho bastante representativo do referido autor. 2. mas como um elemento no interior de conjuntos mais importantes. institulado O Vocabulário e a Sociedade de Luis Filipe. p. uma palavra é uma “unidade lexicológica que exprime uma sociedade. s. que classificamos hierarquicamente. com bases apenas filosóficas que se desenvolveu a teoria dos campos. concebida nestes parâmetros. Em torno de 1830. diversos aspectos da vida social para o período que elegera: vida política e social. O representante desta vertente foi George Matoré. delineou seu arcabouço teórico em outro livro O Método em Lexicologia. O método: a) Análise: analisar (fim do século dezessete) b) Experiência: empirismo (1736. Daí a tônica dada à força motriz das idéias e do espírito humano. a despeito da fundamentação diversa da de Trier e Weisgerber. c) Síntese (século dezessete. de base social. arte e ciência. nem tradição (1722). 526). Poderemos. conforme o método de Matoré. p. acaba sendo ciência auxiliar da sociologia. assim. Não foi. à relação deste com a História. os termos armazém (magazin) e negociante (négociant) ocupam posição de destaque no mundo do comércio.1. um sentimento. chegou a resultados semelhantes aos destes. Adaptamos de Guiraud (1980. vivos na medida em que a sociedade reconhece neles seu ideal” (p. Dois anos depois. Ela também originou-se de outra fonte.d. uma idéia. s.. no entanto.mental do indivíduo. burguês se sobrepôs como palavrachave aos termos secundários proletário e artista.

charlatanismo (1752) b) A Natureza e o Sentimento  A Arte: o Belo Ideal  O gosto pela Natureza: jardim inglês etc. lida com os seguintes conceitos referentes à lexia. 35 A MODERNA TEORIA DOS CAMPOS LÉXICOS Existem diversas teorias do campo léxico. IV – A Sociedade: o espírito. vocabulário galante. vamos nos ater a autores que julgamos representativos. Por isto. principal objeto da ciência: a observação.2. interessante. sentimental. III – As Sensações 1. a verve. tocante. 3. c) semema absoluto: conjunto de semas efetivamente presentes na lexia.. d) semema relativo: semema obtido em uma lexia. ateísmo. apologia das paixões (ardor. a partir da comparação com outra. volúpia. . 35. vapores. a conversação. romântico. entusiasmo. êxtase. espiritualista (1775). Em filosofia: esotérico (1755). 3. fantasia etc. a corrupção do coração (escarnecer. bondades. lágrimas) 2. plágio (acadêmico torna-se pejorativo). Na arte: a) O coração: sentimento patético. 2. caso. ter. c) A originalidade: gênio. em francês “persifler”. e) arquissemema: é o sema que domina um campo semântico qualquer. b) semema: conjunto de semas. Não pretendemos oferecer uma visão panorâmica do extenso leque de teorias a respeito do assunto.  Direito natural: o “Bom Selvagem”  Moral natural: deísmo. Na vida: sensível.2. esotérico. Na arte (papel importante das artes menos “intelectuais” que a literatura: pintura. que se encontram resenhadas em Vilela (1979) e bem resumidas e analisadas em Geckler (1984).1 Pottier Pottier. em sua descrição semântica. mágico. música). o gosto. a) Formas de conhecimento  Ciências naturais: zoologia. II – O Sentimento 1. botânica etc. Em filosofia: Helvétius. b) A imaginação. O modelo: a natureza. Na vida: o prazer. 1762). unidade lexical memorizada: a) sema: traço mínimo do conteúdo. bonito.

para os quatro primeiros lexemas. s.d. Os referidos semas definem conteudisticamente o arquilexema assento.. Exemplificamos abaixo com o campo lexical de assento. tais como definidos acima. conforme bem assinala Lopes (s. um cover-word. 269). adaptado de Vilela (1979. “por ser a base comum de um campo semântico ao qual domina”. Assim um verbo como comer seleciona um SN sujeito de traço (+ animado) e ler seleciona um SN sujeito (+ humano). p.f) arquilexema: é. que funciona como hiperônimo ou superordenado. O semema relativo de cadeira em relação a poltrona é s1 + s2 + s3+ s5 + s6 + s4. O classema é. p.d. s1 e s5 são os semas comuns a todos os lexemas do campo. . Pottier lidou com classema que “põe o semema em relação com classes semânticas funcionais de distribuição pertencentes a langue mas selecionados no interior de frases” (LOPES. 271).. pois. Além dos semas. p. 81): S1 S2 S3 S4 S5 S6 Banco + - - - + + Cadeira + + + - + + Poltrona + + + + + - Sofá + + - + + - Divã + - + - + - Canapé + + - + + + Sendo: s1: ‘objeto construído para a gente se sentar’ s2: ‘com encosto’ s3: ‘para uma pessoa’ s4: ‘com braços’ s5: ‘com pés’ s6: ‘feito de material rijo’ Teremos assim. os seguintes semas: banco: s1 + s5 + s6 cadeira: s1 + s2 + s3 + s5 + s6 poltrona: s1 + s2 + s3 + s4 + s5 sofá: s1 + s2 + s4 + s5 O conjunto destes semas (indicados por s) é o semema. um sema relativo à classe.

p. 41). . Para o autor. Como diferenciar a conotação espontânea da conotação contextual. c) as conotações analógicas. o assunto e os propósitos da fala em que ambos estão engajados etc. 42). entre outros. outro exemplo é a associação dos números com conceitos: treze = “azar”.Pottier também distingue os semas conotativos. 30). profissão. p. vinte e quatro = “afeminado”. A descrição das conotações é o ponto fraco da doutrina de Pottier. os virtuemas. Estas dizem respeito aos falantes (faixa etária. Os virtuemas são. deixando a cargo do leitor sua própria interpretação? Mais completa é a tipologia apresentada por Ilari (2001. são de natureza individual.). linguagem padrão. sobre o virtuema. que tipifica melhor as conotações. o autor nos fornece pistas. já que a finalidade da visita não é apreciação estética que se pode ver em os turistas visitaram o Museu de Curitiba. gíria etc. b) as conotações contextuais (não definidas). em que visitar ganha o traço semântico adicional de “intenção de roubar”. mesmo que limitadas. de diferentes gêneros de fala e escrita (ofício X bilhete). O traço “percorrer para ver” se articula com o anterior. como o próprio autor afirma. que “caracterizam de uma maneira estável e muitas vezes individual a significação de um signo” (POTTIER. este elemento "que é patente na memória associativa do falante e cuja atualização está ligada aos fatores variáveis das circunstâncias de comunicação" (1978. mas inteligente: a beleza é associada à ausência de dotes intelectuais. Reconhece: a) as conotações espontâneas (que não são definidas). Um outro exemplo decorre de contextos discursivos como em ele é belo. de diferentes níveis de língua (linguagem literária. que é o efeito de sentido pelo qual as palavras falam ‘neutramente do mundo’” (ILARI. O autor exemplifica com a frase ladrões visitaram o Museu de Curitiba. condições sociais. 2001. p. que decorrem de comparações socioculturalmente estabelecidas: mais branco que a neve. mais feliz que um Rei. de expressões que indiquem proximidade ou distância. 74). se o próprio autor não fornece definições. Dá como exemplo de um nome de animal aplicado a um ser humano metaforicamente: ser um cavalo = “ser grosseiro”. se estabelecem no discurso. A conotação opõe-se à denotação. 1978. Todavia. A maneira como representamos o interlocutor ou o assunto leva à escolha: a) b) c) d) de diferentes pronomes e expressões de tratamento. procedência geográfica). Feitas as considerações acima. p. apresentamos a súmula da proposta de Pottier. A tipificação deixa a desejar e a distinção entre elas não está clara. “a conotação é o efeito de sentido pelo qual a escolha de uma determinada palavra ou expressão dá informações sobre o falante. sobre a maneira como ele representa o ouvinte. o ponto fraco da doutrina de Pottier. já que as relações que eles estabelecem.

conjunto de semas específicos: semantema. a oposição branco x preto se estabelece sob o eixo semântico da cor. segundo Greimas. distinguem A de B: ela é disjuntiva. Na apreensão de dois termos objetos. 113): já que “os termos objetos não comportam. isoladamente. A estrutura elementar de significação pode ser descrita sob duas formas: a) eixo semântico b) articulação sêmica (feita por intermédio da identificação de semas). Deve. .2 Greimas Para Greimas (1973). semelhantemente ao que ocorre com a Matemática e a Química. Greimas propõe para a oposição de dois termos-objetos um denominador semântico comum. aproximar-se da metalinguagem científica. Assim. vale-se da noção de estrutura como rede de relações. . denominados semas. chamado eixo semântico. Esquematicamente: Conjunto dos Conjunto dos Denotação semas específicos semas genéricos Conjunto dos semas virtuais Semantema Conotação classema Semema = S C = Virtuema V 35. é ao nível dessas estruturas e não ao nível dos termos-objetos (os elementos dela) que devem ser procuradas as unidades significativas elementares”. O semanticista francês reconhece também os elementos mínimos de significação. que guardam o mesmo conteúdo constante em Pottier. que se valem de linguagem formalizada. porém. é preciso obviamente que eles tenham algo em comum. a língua-objeto. a Semântica constitui uma metalinguagem. Como bem notou Lopes (s.conjunto de semas genéricos: classema. a segunda descrição privilegia as qualidades polares que. Fiel à orientação do estruturalismo. A este propósito assinala Lopes: a primeira descrição privilegia o que os termos-objetos A e B possuem em comum: ela é conjuntiva.d.. Em termos de rendimento .conjunto de semas conotativos: virtuema. língua de que nos socorremos para nos referirmos ao objeto de nosso estudo. situadas sobre o mesmo eixo-semântico. p. nenhuma significação. Greimas parte igualmente do princípio de que o ato de conhecer está na identificação das diferenças entre os termos-objetos: algo só ganha dimensão significativa quando o sujeito do conhecimento captura esta relação entre os dois termos-objetos.. A significação não se encontra nos elementos e sim na relação existente entre eles.

sendo o núcleo sêmico um subconjunto de semas invariantes. igualmente. (03) Fazer uma cara de sexta-feira. Denomina categoria sêmica à significação geral que abrande certo número de lexemas e possui existência imanente. b) unicamente a parte óssea (05) Quebrar a cabeça de alguém. aquele pertencente à línguaobjeto e realizado no discurso. em outras . De qualquer forma. A esse conteúdo positivo invariável de um lexema (semema). as variações de “sentido” que observamos nos exemplos de frases integradas por tête só podem provir do contexto. 315). o lexema tête (cabeça) possui uma constelação de sentidos diferentes. As relações mantidas entre os semas dentro da mesma categoria sêmica podem ser antonímicas. conforme Lopes (s. não caberia usar o lexema tête nesses contextos.. p. De outro lado. situado em diferentes contextos. b) designando ser vivo (ou vida) (09) Pôr a preço a cabeça de alguém. os semas contextuais. O núcleo sêmico conjugado aos semas contextuais é denominado semema. hiponímicas ou hiperonímicas. 327-9). Greimas chama lexema ao termo objeto. sem chapéu (02) Cabeças airadas não encanecem.prático-operacional. pelo fato de designar uma parte do corpo. O lexema tem um mínimo sêmico. a descrição sêmica é superior à descrição do eixo semântico e deve. Ele significa basicamente: a) parte recoberta pela pele e pelos cabelos (01) Com a cabeça descoberta. por isso. Ilustramos com o lexema cabeça. Explica Lopes que. (08) Pagarás tanto por cabeça. pois. As variações semânticas do lexema decorrem de outros semas oriundos do contexto.d. Explica o lingüista: se. qualquer que seja a diferença perceptível em relação ao sentido contextualizado. (06) Quebrar(-se) a cabeça etc. é evidente que parte do sentido de “tête” permanece invariável através de todas as frases. c) designando uma pessoa humana (11) uma cabeça coroada etc. por um processo de translação metonímica. referirse ao corpo como um todo: a) tomando um organismo como unidade discreta (07) Este rebanho se compõe de cem cabeças. o núcleo sêmico. (10) Ele o pagou com a sua própria cabeça. ser a preferida (s.. de outro modo.d. é porque existe uma correlação entre as variações do contexto e as variações do sentido de tête. a palavra cabeça pode. (04) Que cara! (= você está com uma cara de quem comeu e não gostou). p. Greimas chama de núcleo sêmico (Ns).

palavras, o contexto deve comportar semas variáveis responsáveis
pelas mudanças do sentido holofrástico. Essas variáveis sêmicas
constituem, por isso, semas contextuais (Cs) (s.d., p. 328).

O autor ilustra ainda com os exemplos abaixo.
(12) Quebrar a cabeça (= meditar intensamente sobre um problema).
(13) Ser um cabeça dura (= teimoso).
(14) Não caber na cabeça (= ser inadmissível).
(15) Bater a cabeça (= cometer tolices).

Em seguida comenta: verificamos que existe, em todas elas, um único
“efeito de sentido”, capaz de ser traduzido por parte óssea da cabeça (já que
óssea contém os traços semânticos: /objeto/ + /material/ + /rígido/ e pode
combinar-se, portanto, na mesma frase, com quebrar (um objeto material
rígido), caber (no interior de um objeto material rígido), dura (= objeto material
rígido), bater (contra um objeto material rígido). Comprovamos, aqui, que o
número dos semas contextuais é sempre mais reduzido do que o número de
contextos em que um lexema pode aparecer. Parece, pois, possível, agrupar
os contextos em classes contextuais, a partir do critério de apreensão do
mesmo efeito de sentido. Desse modo, o sema contextual seria o denominador
comum de toda uma classe de contextos (s.d., p. 329).
Além do núcleo sêmico e dos semas contextuais, existem os classemas,
que definem a combinação entre lexemas em termos de compatibilidade ou
incompatibilidade. Assim em o cão lê, há uma impropriedade de natureza
sêmica, porque ler pressupõe o traço (+ humano), que não é atribuível a cão.
Como vemos, a proposta de Greimas exibe pontos de contacto com a de
Pottier, mas não inclui os virtuemas.
Convém também destacar que, com as noções de núcleo sêmico e
semas contextuais, a teoria de Greimas, não obstante os limites inerentes a
uma semântica léxica, apresenta mais rigor que a de Pottier.
Abaixo apresentamos uma ilustração adicional sobre Greimas, extraído
de Vilela (1979, p. 88), no que diz respeito aos adjetivos de espaço.
Semas Espaciali- Dimensiona- Verticali- Horizon- Perspectidade
lidade
dade talidade vidade
Lexemas

Lateralidade

Alto
Baixo

+
+

+
+

+
+

-

-

-

Comprido
Curto

+
+

+
+

-

+
+

+
+

-

Largo
Estreito

+
+

+
+

-

+
+

-

Vasto
Espesso

+
+

-

+
+

35. 3 Coseriu
35.3.1 Das distinções de base
Coseriu estabelece uma série de distinções que têm como objetivo
aclarar e explicitar os estudos lexicológicos. São fundamentais, para um
entendimento de seu pensamento, as obras: Gramática, semântica, universales
(1978) e Princípios de semântica estructural (1986). Algumas pistas, de caráter
geral e teórico, encontram-se em Lições de lingüística geral (1980). Aí se
estabelecem as seguintes distinções:
a)
b)
c)
d)
e)
f)
g)

coisas e linguagem;
linguagem primária e metalinguagem;
sincronia e diacronia;
técnica do discurso e discurso repetido;
arquitetura e estrutura da língua;
sistema e norma da língua;
relações de significação e relações de designação.

No que diz respeito à primeira distinção, trata-se da oposição entre o
lingüístico e o extralingüístico. Com base nesta distinção, Coseriu destaca a
língua das terminologias científicas, uma vez que estas últimas utilizam-se da
língua, mas são diretamente condicionadas pelas coisas reais. Interpretando o
pensamento coseriano, assinala Vilela:
nas nomenclaturas há uma classificação objectiva e universal da
realidade própria dessas nomenclaturas, trata-se duma classificação
exclusiva; na língua (normal) não se trata necessariamente duma
representação objectiva e universal, podendo mesmo ser inclusiva,
isto é, há uma estruturação com base lingüística (1979, p. 55).

No que tange à segunda distinção, há que se explicar o seguinte: há
uma diferença entre linguagem primária, cujo objeto é a realidade
extralingüística, e a metalinguagem, cujo objeto é uma língua. Coseriu privilegia
a linguagem primária.
Quanto à terceira distinção, baseada em Saussure, ela assim influi na
lexicologia coseriana: o privilégio deve ser dado ao estado de língua, ou seja, à
sincronia.
A quarta distinção, entre técnica do discurso e discurso repetido, implica
que, numa sincronia, há que se diferenciar elementos utilizados livremente,
conforme regras de combinação de língua, das expressões fixas e cristalizadas
na língua (provérbios e expressões idiomáticas).
A quinta distinção fundamenta-se no fato de que uma língua histórica (o
português, o espanhol, o italiano) não é uniforme, pois apresenta diferenças de
ordem geográfica (diatópica), socioculturais (diastrática) e condicionais pela
intenção comunicativa (diafásica). Essas diferenças constituem a arquitetura da
língua. Para Coseriu, o objeto duma análise estrutural é a língua funcional: sem
diferença no tocante ao estilo de língua (sinfásica). Há, pois, que se escolher
uma só variedade geográfica, social e estilística.
No referente à sexta distinção, deve-se explicar o seguinte: a norma
contém o que é usual e tradicional, o conjunto de realizações tradicionais

baseadas na possibilidade do sistema. Este, por sua vez, abrange o que é
necessariamente funcional, as estruturas opositivas de uma língua, realizadas
ou não na norma. Coseriu confere importância ao sistema.
A última distinção concerte à diferença entre o conteúdo, no plano da
língua, e o conteúdo, no plano do discurso. Para Coseriu, são as relações entre
os significados e não as relações entre os signos e os objetos que devem ser
destacados.
Vilela (1979, p. 58) esquematiza a proposta coseriana:
Realidade
Metalinguagem
Língua
Diacronia
Linguagem
primária

Discurso
repetido
Sincronia
Ténica do
Discurso

Língua
histórica
Língua
Funcional

Tip
Sist
Nor
F
(dis

Coseriu estabelece uma tipologia de significados: o léxico, o categorial
(relativamente às classes de palavras), o instrumental (respeitante aos
morfemas stricto sensu: desinências), o sintático e o ôntico (referente às
modalidades oracionais: afirmativa, negativa, interrogativa).
À Lexicologia cabe estudar primordialmente o significado léxico, o qual,
como os de natureza gramatical, só existe numa língua específica, não no falar
em geral. Coseriu (1978, p. 209), porém, não advoga uma lexicologia apartada
da gramática, pois ele mesmo assume explicitamente que “o significado
categorial, instrumental, sintático e ôntico ficam fora da lexemática em sentido
estrito (embora os três primeiros devam ser considerados no estudo lexemático
da formação de palavras)”.
Em vista das distinções teóricas e de princípios de ordem estrutural e
funcional, Coseriu (1978, p. 229) estipula que “a tarefa fundamental da
lexemática, enquanto disciplina estrutural descritiva, consiste em delimitar,
dentro das línguas funcionais, e descrever, de maneira sistemática e exaustiva,
a paradigmática e a sintagmática do vocabulário, quanto ao plano do
conteúdo”.
a) Estruturas Paradigmáticas:
 Primárias:
- campo léxico
- classe léxica
 Secundárias:
- modificação
- desenvolvimento

plantas e coisas. a exemplo de vegetal.. Porém. a diferença classemática masculino/feminino pode aparecer como determinação ulterior tanto da classe seres humanos como da classe seres não humanos. isto é. A classe lexical pode ser definida da seguinte maneira: uma classe é a totalidade dos lexemas que. conforme seja idade de pessoas. c) semas: menores unidades pertinentes aos lexemas. 1979. a dimensão se relaciona. O traço semântico pelo qual se define uma classe é um classema. estão em relação por um traço distintivo comum. isto é. por exemplo. p. em latim. animais (COSERIU. Nos adjetivos referentes à idade. d) dimensão: critério segundo o qual se estabelece “o ponto de vista de uma determinada oposição. verbos transitivos e intransitivos (e também classes léxicas correspondentes a diferentes tipos de transitividade. em uma língua pode haver classes substantivas como seres vivos e coisas.2 Das relações paradigmáticas do léxico O campo lexical é um paradigma lexical constituído por um conjunto de unidades léxicas que compartilham entre si uma zona comum de significação.. independente da estrutura do campo léxico. como. animais. de algum modo. por exemplo. o que constitui o suporte implícito de uma distinção funcional. bem como a dimensão classe designada: senex-uetulus-uetus “velho”. animal. na casse seres vivos. Como vemos. 146-7). porém é exposta mais refinadamente. 1986. A dimensão existente em (d) é grau relativo de temperatura constatada pelo sentido térmico. São conceitos importantes para análise do léxico em campos: a) arquilexema: corresponde ao conteúdo total de um campo léxico. fundada em oposições imediatas. a classe seres humanos.3. pessoal etc. também pode haver interferência de classemas. adjetivo positivos e negativos. p. segundo o tipo de complemento direto admitido pelos verbos). Assim. constituídos de traços distintivos de conteúdo. por exemplo. 61). b) lexema: trata-se de uma unidade de conteúdo na língua enquanto sistema. . assim.composição b) Estruturas sintagmáticas:  afinidade  seleção  implicação 35. por exemplo. existe a dimensão idade: senex “velho” iuvenis “jovem”. Uma classe pode estar contida em uma classe de nível superior. e que ocupa uma porção do conteúdo do campo lexical. As classes se manifestam por sua distribuição gramatical e léxica. nos adjetivos relativos à temperatura (frio – fresco – (natural) – morno – quente) (VILELA. com a noção de eixo semântico de Greimas. os lexemas que pertencem à mesma classe se comportam de maneira análoga desde o ponto de vista gramatical ou léxico: podem assumir funções gramaticais e/ou léxicas análogas.

jovem e novo. como vendedor). quer dizer. Estabelece o autor: totalmente coerente e rigorosamente ajustado a seu objeto pode ser. parcialização. intensificação. a pronome + verbo (vendedor = “quem vende”. Neste particular. 248-9). as que estão caracterizadas por traços distintivos. Coseriu tem pontos de contato com Pottier. para tornar mais clara a noção de classes lexicais. Estes processos. a exemplo de livrinho. inteligente e gago não formam entre si oposições imediatas como velho. que ele foi substantivado. que abrange parte da sufixação e a prefixação em geral. c) composição: corresponde à junção de dois lexemas (guarda-roupa. ocorrem nos produtos da formação de palavras. como “se refere a classe X” (.. a formação de palavras corresponde a uma particular gramaticalização do léxico (. as classes pessoas. em troca. um estudo de formação de palavras do ponto de vista do significado. paragramaticais. pelo contrário. As relações resultam das equivalências semânticas entre os produtos e as construções que a eles correspondem. Coseriu também distingue as estruturas paradigmáticas secundárias. como livreiro). Coseriu distingue dois tipos de classes: determinantes e determinadas.Apropriamo-nos de um exemplo de Vilela. que correspondem. designativos de ser humano. saca-rolhas) a derivados agentivos. belíssimo (excetuam-se os agentivos. fundado no significado. como ele próprio denomina.) (1978. que é o classema. animais etc. traço de conteúdo que define uma classe. Jovem. eis os três principais tipos de formação de palavras: a) modificação: a categoria gramatical dos produtos é sempre a das bases respectivas. beauté = lê fait d’ètre beau/belle. como.) e os tipos de processo formativos correspondem aos tipos e condições desta gramaticalização (1978. Classes determinadas são. existem os subtipos: a mudança de gênero (duque/duquesa) e a quantificação (diminuição. como.. em geral. diga-se de passagem. cassação (excetuam-se os agentivos. aumento. No âmbito do . b) desenvolvimento: a categoria gramatical dos produtos difere do das bases de origem. por exemplo. Do ponto de vista do conteúdo (significado). referentes à formação de palavras do ponto de vista do conteúdo. p.. pois se incluem em diferentes campos lexicais. p. Comportam-se de modo análogo. coletivização. 151). a exemplo de casamento. Isto posto. não são estanques. no que concerne à combinatória com substantivos. Eles podem combinar entre si. Coseriu postula que as relações gramaticais ou. repetição e negação). por exemplo. No âmbito da modificação. o que implica ser o item derivado gramaticalizado por predicação atributiva. Classes determinantes são as que estão caracterizadas por classemas.. isto é. livreiro = “quem negocia com livros”).

uma descrição dos afixos e uma tipologia deles. É uma proposta desta natureza que torna muito difícil esgotar. A bem da verdade. a dos adjetivos derivados de substantivos (outonal). Os estudos do lingüista romeno pressupõem a prévia identificação deles. objeta: a) o não ter sido suficientemente delimitada a relação semânticocategorial. c) outras relações semânticas. a proposta é inoperacional para discernir com propriedade prefixos e sufixos. no âmbito da modificação. que passa a ser considerado setor particular do léxico (o que é assumido por Coseriu. No concernente ao modelo. ofício (consultoria).desenvolvimento há subclasses: a dos nomes de ação (vingança). acrescentemos que os mais diversos valores dos prefixos são também esquecidos. a dificuldade está presente em todas as propostas de base semântica. afecção e doença (furunculose). como um todo. isto do ponto de vista semântico. c) o não terem sido estabelecidos alguns dos paradigmas funcionais e/ou das oposições que estes configuram. para que possa saber se o prefixo é ou não o mesmo que se encontra presente em resseco e revelho. o que só pode ser feito com base no plano da expressão. e a dos verbos derivados de substantivos e adjetivos (enriquecer. à semelhança dos femas em Fonologia. . subjacente a cada processo derivacional e a significação final dos produtos léxicos. que objeta contra a fundamentação sintática dos gerativistas). a dos nomes de qualidade (imensidão). b) o não ter sido explorado o papel dos afixos nos processos derivacionais. Não podemos deixar de aludir aos aspectos positivos do modelo: a) atribui autonomia e especificidade ao domínio de formação de palavras. Não é sempre simples estabelecer conexão entre base primitiva e derivada. p. como aquela estabelecida entre beau e beauté. conteúdo (garfada). de maneira econômica. engavetar). b) importa esclarecer a relação entre repetição (refazer e recoser) e intensificação. semas de natureza primitiva. b) tenta estabelecer processos e paradigmas na formação vocabular. As dificuldades na proposta de Coseriu resultam também dos poucos meios de natureza metalingüística ou átomos semânticos. Rio-Torto (1993. A nosso ver. ocupação. locativa (colonato). atividade. 83-5) avalia assim alguns itens do modelo coseriano: a) é questionável a diferença entre intensificação e aumento. são negligenciadas: instrumental (cinzeiro). d) seria necessário demarcar os diferentes subtipos semânticos que o paradigma dos adjetivos de relação comporta e pesquisar as razões para isto.

Afinidades “acabar passivo” (relativamente aos seres vivos) animais/pessoas: morrer “acabar ativo” (relativamente aos seres vivos) animais/pessoas: matar plantas: cortar “altura” em relação a pessoas: estatura/altura em relação a líquido: nível/altura em relação a plantas: altura Seleção “estéril” “cortar” Implicação “macho reprodutor” relativo a pessoa: estéril relativo a planta/campo: maninho/estéril relativo a cereais: ceifar relativo a erva: segar relativo a planta: cortar relativo a abelha: zangão .. . 154-6). que são as combinações lexicais condicionadas numa língua. cabor.3 Das relações sintagmáticas do léxico Por fim.... p. óleo.. ligados à classe animal e à classe de pessoas respectivamente.... Para a implicação. boi: boi/touro (de cobrição) .. ladrar... cabra: bode. conforme a determinação de conteúdo incluso no lexema determinado como traço distintivo: a) a classe do lexema determinante (afinidade). Há três tipos de solidariedades. .. pois diferem no que diz respeito aos lexemas a que se aplicam (“grito específico relativo ao animal X”). maionese e ovos)...35. rançoso e choco. há os lexemas pêlo e pena.. cacarejar. Para a seleção. . p...3.. extraído de Vilela (1979.... margarina... mugir... miar... por fim. 75-6) “as estruturas combinatórias na lexemática (semântica das palavras) com base no facto de determinado lexema implicar um outro”. grunhir. chibo ... ou conforme estabelece Vilela (1979.. se referem respectivamente à classe dos elementos gordurosos (manteiga.. ... galinha: galo . b) o arquilexema (seleção). há como exemplo relinchar. regougar.. c) o lexema total (implicação). zurrar.... porco: varrasco/varrão . associados pelo traço distintivo “fecundação”. Vilela dá os seguintes exemplos para a afinidade: prenhe e grávida.... mula: macho .. vinculados ao conteúdo “sistema piloso” e distinguidos pelos arquilexemas mamífero e ave. por sua vez.. balir.. Ilustramos com mais exemplos... . cavalo: garanhão ... . resta fazer referência às estruturas sintagmáticas..

como também às sintagmáticas... ....... Mas. . .. .... como tivemos a oportunidade de assinalar.. nem sempre é fácil distinguir o que é afinidade do que é seleção....“fêmea de espécie” relativo ao cavalo: égua . ..... adentra o domínio da frase com as regras de projeção.. mas implica algo estudado aqui: a análise componencial... no que respeita à ilustração dada por Vilela referente aos lexemas pêlo e pena... Por exemplo. Ademais.. Por isto.... É de ressaltar o valor atribuído por Coseriu não só às relações paradigmáticas... cão: cadela . Não se restringe a uma descrição direta e imediatista dos campos lexicais.. boi: vaca .. Resta falar sobre outro assunto conexo com o que vimos tratando neste capítulo: a teoria de Katz-Fodor.. pois é sofisticada com uma série de distinções muito refinadas. Como fecho... tratamos dela no capítulo seguinte à guisa de aditamento. Não é propriamente uma teoria do campo léxico....... faremos um balanço crítico desta teoria e do campo léxico. diferenciados pelo arquilexema mamífero e ave.. podem-se interpretar igualmente tais lexemas como designadores de classes........ assim nos parece.... . galinha: capão A teoria de Coseriu merece destaque pelas explicitações teóricas que consolidam a lexemática. “macho castrado” relativo ao cavalo: capão .. embora em outros termos que não semas e classemas.... É patente a influência da fonologia e da noção de fonema como feixe de traços distintivos o que se aplica a outras análises. carneiro: ovelha .. .. estas últimas não contempladas na teoria de Trier. A adaptação é feita com as devidas adequações ao estudo do plano do conteúdo.........

também. como diz respeito à análise componencial. dada a lista teoricamente ilimitada que o mesmo implica. mas é mal equipado de computadores. além de dar conta do número de leituras duma sentença e de construções semanticamente anômalas. A mesma frase. Suponhamos uma frase como (01). mas não o dicionário. Tais regras devem ser conhecidas pelo usuário. porque há incompatibilidade entre o adjetivo silenciosa e o substantivo tinta.CAPÍTULO XI ADITAMENTOS AO CAMPO LÉXICO 36 A TEORIA KATZ-FODOR Não poderíamos terminar de falar sobre análise componencial. indicando-lhe a anomalia. tratamo-la aqui. 59-76). poderia ser desambigüizada no contexto sentencial abaixo. em termos que especificaremos mais abaixo. embora em separado. como entradas associadas às definições. deve considerar. (01) Esse banco é grande. as paráfrases ou sinonímias sintáticas. p. Há que se registrar que ela é potencialmente ambígua. (03) *Ele pintou as paredes com tinta silenciosa. Registre-se que ambos os sentidos são compatíveis com o do adjetivo grande. como o exemplo abaixo: (04) Duas cadeiras estão na sala. Mas. Segundo a referida teoria. sem fazermos referências a uma teoria que ficou célebre: a teoria de Katz-Fodor (in: LOBATO. A teoria semântica teria de dar conta também de frases como (03) abaixo. Tal teoria não tratou propriamente dos campos léxicos. uma vez que banco pode ter duas leituras: “instituição financeira” ou “determinada tipo de assento”. Há pelo menos duas coisas na sala sendo que cada uma delas é uma cadeira. b) uma regra de projeção. A Semântica. 1977. Em suma: . O primeiro diz respeito ao conjunto de itens lexicais. uma teoria semântica deve encerrar dois subcomponentes: a) um dicionário. segundo Katz-Fodor. (02) O banco é grande. As segundas se relacionam com a capacidade de codificar e decodificar a informação veiculada pela frase.

Se uma teoria do efeito seletivo do contexto tivesse de tratar desses casos. e indicando qualquer outra propriedade ou relação semântica que também desempenhe um papel nessa capacidade interpretativa (LOBATO. No entanto. não é possível. Acrescentemos que a teoria deve ser aplicada às sentenças isoladas de contexto. julgando relações de paráfrase entre sentenças. os autores especificam melhor a questão da seleção contextual. porque as leituras que um falante atribui a uma sentença num contexto são resultado de uma seleção das leituras que a sentença possui isolada. p. Se uma teoria deixa de representar informações que os falantes realmente utilizam para compreensão de sentenças. ou por regras especiais (alguns códigos e construções semelhantes). o contexto seja defendido de forma a que se torne capaz de representar toda e qualquer informação não-lingüística exigida pelos falantes para a compreensão de sentenças. Ainda à mesma página. p. o mecanismo através do qual tal informação contribui para o processo de compreensão. 88). na medida em que se determina o seu significado ou por convenções especiais (senhas. que qualquer variedade de uma teoria dessa natureza terá. uma completa teoria dessa natureza. 1977. ou por informações especiais acerca das intenções do falante. há casos em que uma sentença pode ter uma dada leitura para alguns falantes em certos contextos e não tê-la em isolamento para todos os falantes. porque se poderia fazer qualquer sentença ter o significado que se desejasse pela simples construção do contexto de modo a incluir as convenções apropriadas. necessariamente. É claro.). de satisfazer à condição de que. Asseveram: mas uma teoria contextual precisará ter como uma de sua partes uma teoria de interpretação semântica.uma teoria semântica descreve e explica a capacidade interpretativa dos falantes: dando conta de seu desempenho na determinação do número e do conteúdo das leituras de uma sentença. palavras cunhadas para ocasiões ou grupos particulares etc. não seria possível construí-la. 89-90). porém. Naturalmente. para satisfazer à condição necessária acima . no entanto. na sua elaboração. Assim se referem às diversas variantes desta possível teoria. através da qual se procura dar conta do modo como aspectos do mundo bio-social determinam a compreensão de sentenças. em princípio. uma teoria de interpretação semântica é logicamente prioritária em relação a uma teoria do efeito seletivo do contexto. Em termos gerais é evidente que uma sentença não pode ter leituras num contexto que não sejam também admitidas em isolamento. são essencialmente idiomáticos. ela será incompleta. (1977. porque. uma vez que as leituras que um falante atribui a uma sentença em contexto correspondem a uma seleção das leituras que a sentença admite em isolamento. pois haverá informações que determinar o modo pelo qual os falantes compreendem uma sentença que a teoria não incluiu na representação do contexto daquela sentença. a teoria deixa de explicitar. Na medida em que uma teoria deixe de satisfazer a esta condição. Portanto. em todos os seus aspectos. detectando anomalias semânticas. embora os próprios autores admitam que uma teoria semânticocontextual é mais poderosa do que uma teoria de sentenças em isolamento. Tais casos.

(10) Our store sells shoes made from the skin of horses. (06) Our store sells horse shoes. (Nossa loja vende sapatos para crocodilos). (Nossa loja vende sapatos feitos de pele de cavalo). uma vez que. o discurso pode ser considerado como uma única sentença em isolamento. Objetam: mas não se evidencia claramente que a versão fraca da teoria de seleção por contexto de discurso tenha maior poder explanatório em relação a esses fenômenos de que uma teoria de interpretação semântica. que. Na grande maioria dos casos. como o faria um falante fluente com amnésia para fatos não lingüísticos. ou. mas sem afasia”. 93). (Nossa loja vende sapatos para cavalos). haveria uma sentença única. tendo em conta o fato de que. Conseqüentemente. (07) Our store sells shoes made from alligator skins. p. . 1977. pois. as frases (05) e (06) equivalem respectivamente a (07) e (08). ex hypothesi. (08) Our store sells shoes for horses. afirmam os autores à página 46. para cada discurso. afirmam os autores. ou seja. à exceção de alguns casos. pode ser mas. Katz e Fodor examinam a versão fraca de uma teoria de seleção contextual “para que ela interprete discursos limitando-se apenas às informações proporcionais pelas relações gramaticais e semânticas existentes dentro e entre as sentenças do discurso. se a teoria tem de selecionar a leitura correta para (06). (05) Our store sells alligator shoes. (Nossa loja vende sapatos para cavalos). “Em contextos normais”. Assim. relacionadas pelos conectivos proposicionais adequados. 90-1). ela terá de representar o fato de que crocodilos não usam sapatos. a sentença única pode ser descrita por uma teoria de interpretação semântica. seria imprescindível que a teoria representasse todo o conhecimento que os falantes têm do mundo (1977. Na verdade. Da mesma forma. constituída pela seqüência de n-sentenças do discurso. p. será preciso representar o fato de que cavalos usam ferraduras e não se fazem sapatos de couro de cavalo. (09) Our store sells shoes for alligators.indicada. e caracterizada pela presença das mesmas relações semânticas existentes no discurso. uma teoria de interpretação semântica terá tanto poder descritivo quanto uma teoria de seleção contextual (LOBATO. esse é que seria o tratamento mais natural. Mas.). etc. em todos os casos em que uma seqüência de discurso admita um tratamento como sentença única. para uma teoria de seleção contextual selecionar a leitura correta para (05). a partição sentencial no discurso é simplesmente uma conjunção do tipo e (em outras. Os autores amparam-se nos exemplos abaixo. Em potencial são também possíveis as leituras (09) e (10). se os limites sentenciais forem tratados como conectivos sentenciais.

que combina com substantivo de traço (+ material). na sua . numa relação sintática. agem como filtros de leitura. Muitos dos autores que recentemente se debruçaram sobre os campos semânticos têm reconhecido que os campos lexicais. c) os diferenciadores (ing. que assinalam a compatibilidade ou não dos itens lexicais. d) as restrições seletivas. A marca categorical (adulto) do primeiro “caminho” já está contida em old “velho” e a marca categorial (jovem) não se compatibiliza com o elemento old “velho”.d. sendo um dicionário (uma lista ordenada ou não dos itens lexicais da língua). Distinguishers) que assinalam o idiossincrático de cada lexema. em inglês. como dissemos. que diz respeito às relações sistêmicas do vocabulário (são os marcadores ou.). a exemplo do adjetivo pesado. Este comporta as seguintes informações: a) a classe gramatical. que indicam a possibilidade que uma palavra tem de configurar-se a uma outra. b) a categoria semântica geral. de modo que estes formem sentenças plausíveis. semantic markers). valendonos de Lyons (s. As regras de projeção. Citamos o clássico exemplo. 37 BALANÇO CRÍTICO Comecemos por fazer uma avaliação crítica do campo léxico.Como vemos. Detenhamo-nos no componente dicionário. a teoria Katz-Fodor. bachalor substantivo (Humano) (Macho) (Animal) (Macho) [que nunca se [jovem cavaleiro que [que possui o primeiro Casou] serve sob o nível de grau acadêmico estandarte de outro] universitário] É graças à categoria semântica (os classemas de Pottier) que podemos entender sem ambigüidade uma frase como: (11) The old bachelor finally died. associa cada item a um verbete.

maioria. Porém. E esta concessão pode vir a retirar-lhe valor como teoria geral da estrutura semântica. definições. Aliás. objetos lingüísticos. os traços fonêmicos são “parametrizáveis” qualquer que seja o aspecto a ser contemplado. no tocante aos parâmetros. por vaga que tenha sido a sua formulação. prejudicá-la-ia mais se houvesse uma teoria alternativa da estrutura do vocabulário que tivesse sido formalizada e testada com base em igual proporção de provas empíricas – que não acontece (s. Assim. Os primeiros são em número finito (Jakobson limitou-se a doze. o autor se reporta a Hjelmslev. A primeira observação diz respeito à base da análise componencial ou análise sêmica. a análise em semas não conduz a parâmetros gerais porque dependem de convenções culturais. palavras. que entrevia a possibilidade de descrever lexemas a partir de um número limitado de semas ou. um traço como (+ Animado). sua interconexão é suficiente para definir um semema e o modo pelo qual ele pode ser inserido em contexto. Deste . além de que alargou a nossa compreensão das relações de sentido entre os lexemas de uma dada língua. de natureza acústica). respeitantes à análise componencial. numa dada cultura pode cobrir realidades que outra não contempla. na terminologia hjelmsleviana. nem poder porventura sê-lo. 217). de traços chamados semas. a teoria dos campos. Por outro lado. b) o segundo é a impossibilidade de estudar o vocabulário de uma língua independentemente da sua estrutura gramatical. que é a fonologia: o fonema constitui-se de traços chamados femas e o lexema. O mesmo Lyons sublinha dois pontos teóricos e metodológicos sobre os quais se está concorde: a) o primeiro é a necessidade de ter em conta o contexto em que as palavras correm. A primeira crítica diz respeito à falta de paridade entre femas e semas. de figuras do conteúdo. Traços como oclusão. elementos da natureza podem comportar o referido traço. b) se constituem um conjunto finito de “universais semânticos”. Além das críticas formuladas por Lyons no que tange ao campo léxico em geral. o facto de não ter sido formalizada. pois torna-a necessariamente mais difícil de formalizar. Uma segunda crítica se refere à disparidade numérica entre femas e semas. Colocando o primeiro problema. p. ou seja. Os segundos são de natureza pelo menos ilimitada. Assim. Numa cultura animista.. Eco (1980) assim se refere aos semas. questionando: a) se estes componentes podem ser identificados. Até hoje não se encontrou um número satisfatoriamente finito para a descrição de um campo léxico ou de um lexema. tem demonstrado o seu valor como modelo de investigação em semântica descritiva durante os últimos quarenta anos. enfim. d) se.d. não estão tão nitidamente estruturados nem claramente separados uns dos outros como Trier pretende. bilabialidade são fisicamente mensuráveis. c) se são construções teóricas que não requerem análise componencial posterior. acústico ou articulatório. existem críticas a fazer. ou construções empiricamente fornecidas pelo dicionário.

83-4).) o semema poltrona pode ser analisado como “para sentar-se”.modo. quatro traços elemetnares como ovino. Pottier consegue estabelecer uma matriz combinatória de traços cuja ausência ou presença caracterizam também o escalelo. as regras de seleção. ao lado de regras de subcategorização. as quais pressupõem que os itens lexicais são caracterizados em termos de um vocabulário universal. Esta dificuldade determina a exigência de traços mais analíticos (1980. Arremata nestes termos: as limitações do sistema parecem consistir no fato de o repertório potencial dos traços não ser inteiramente finito. expressa-se o autor: infelizmente. p. o autor refere-se especificamente a Chomsky (1978). mas os traços da matriz são demasiado pouco “universais” para servirem ad hoc: portanto. Mas a descrição exaustiva dos traços está longe de ser alcançada. ovelha e porco. assevera que “procura pôr em relevo traços muito ‘universais’ que são ao mesmo tempo construções teóricas que não requerem análise posterior e que permitem uma análise ulterior apenas no sentido de que cada traço faz parte de um parte oposicional subjacente”. para quem haveria. ajudanos indubitavelmente a compreender como.. estabelece o estudioso italiano: (. macho e fêmea poderiam ser combinados em unidades maiores como carneiro. porca. Mau. No que diz respeito ao segundo problema. a cadeira. pois.. No tocante à Semântica estrutural de Greimas. 83). Portanto. afigura-se necessário alargar a noção de marca semântica ainda que isto possa ocorrer às expensas da sua universalidade e limitação (1980. “com braços”. já examinado por nós. não caracterizam nada que não seja um móvel concebido para sentar-se e requerem. “com espaldar”. Aludindo a Pottier. fixo e limitado. “para uma pessoa”. além disso. que sejam por sua vez analisado semanticamente (1980. . mas não servem para diferenciar um hipopótamo de um rinoceronte. O método de Greimas parece muito útil para explicar como um semema consente em substituições retóricas: quando Greimas demonstra que um lexema como cabeça tem um “núcleo sêmico” com unidades nucleares como “extremidade” e “esfericidade”. A este propósito. o pufe. os únicos exemplos de tais traços que temos à nossa disposição nos textos chomskianos são tão “universais” que servem apenas para diferenciar um bispo de um hipopótamo (porque um dos dois não tem o traço Humano). enquanto o semema canapé só possui os dois primeiros traços. suíno. “sobre pés”. p. certo que uma análise semântica deve levar em consideração entidades sêmicas desse tipo. Basta pensar no que acontece quando se passa ao sistema da temporalidade ou ao sistema de valores (Bom. É. Inaceitável) para compreender que a série e dos traços deve expandir-se como uma galáxia de estrutura imprecisa. privilegiando uma ou outra unidade nuclear. 83). p. carece do terceiro e pode ou não ter os dois últimos. se podem constituir metáforas do tipo cabeça de alfinente ou cabeça de ponte. mas a solução não parece ainda satisfatória. Aceitável.

está na não consideração do plano funcional da língua. põe em relevo o seguinte. O que impede a leitura de bachelor como “foca” na segunda frase é o traço ter cabelo e o que autoriza a leitura de bachelor como “foca” na primeira frase é ter barbatanas. p. Contudo. por exemplo. 106) nos dá os exemplos. quer dizer. Em todo o caso. Particularmente quanto à teoria Katz-Fodor. 277). seja em Pottier seja em Greimas. onde uma semântica das estruturas paradigmáticas teria que cumprir sua função. reproduzidos em (12) e (13) abaixo.d. um princípio semasiológico. p. O dicionário não teria condições de prever traços desambigüizadores. por uma curiosa operação de enxerto botânico). Teríamos que admitir os traços referidos como dicionariais? Admitindo isto. e com isto também da semântica de (Katz-Fodor). Eco põe no mesmo patamar Greimas e Pottier. algumas das quais essenciais e outras inessenciais. dizer razoavelmente que o limão é um mineral. Assim. Outro autor. mas núcleos conceptuais baseados de preferência nos usos que determinada cultura faz de determinado lexema e na visão précientífica ou científica que tal cultura tem da unidade cultural a que o lexema se refere. aos quais se acrescentam diferentes significados (signifiés). Adiante em crítica mais contundente: o ponto fraco da semântica de KF está precisamente no componente dictionary. Aqui nos encontramos simplesmente com uma . pode-se dizer o limão é verde ou mesmo o limão é azul (num quadro impressionista. ao ignorar seu eixo paradigmático e com isto as oposições funcionais. (13) The bachelor got his hair wet (o bacharel molhou o cabelo). seus semas acham-se mais próximos daqueles que o cientista chamaria de “propriedades” do objeto investigado e por ele descrito justamente através de uma hierarquia de propriedades. mas em certas circunstâncias. ainda que um dos semas de limão seja indubitavelmente a marca “amarelo” (1974. Estrutura significa para a GT exclusivamente “estrutura sintagmática”. (12) The bachelor wagged his flippers (a foca sacudiu as barbatanas). O ponto de partida da semântica de KF constitui-se de significantes. em último extremo. 49-50). que tira a ambiguüidades das frases.. Temos que admitir que é o conhecimento de mundo do falante/ouvinte. quer dizer. estrutura combinatória (1984.Percebe-se que Eco nutre uma certa simpatia teórica por Greimas. diferenciado dos distinguidores. não obstante as reservas feitas com relação ao alcance da análise componencial. p. pois. se se trata de um signifiant polissêmico. o número de marcadores seria ilimitado e mal diferenciado dos distinguidores. Uma das faltas mais graves da (Gramática Transformacional). não se buscam componentes universais derivantes de categorias gramaticais. Não se pode. em outra obra. Nesse sentido. quer dizer. podemos opor severas restrições. Palmer (s. na base desta teoria reside. Geckeler (1984). “a estrutura da interpretação deste signifiant” é representada na forma de dependências (como na estrutura sintática) à maneira da árvore genealógica. segundo o qual focas têm barbatanas e focas não têm cabelos.

de tal maneira estruturados que formem um conjunto finito. Eco (1980) tece detidas considerações com relação ao modelo KF: a) b) c) d) e) o modelo KF tem os limites de um dicionário. A organização local de um dicionário estabelece quais. em princípio. distinguishers). não obstante. exceto as propriedades de ser. aceitar alguma coisa por pressuposto.. para o bom andamento da interação comunicativa. 133). respectivamente. arquilexemas e variantes contextuais nem distingue entre uso metafórico e uso não-metafórico. p. “não se possa e não se deva recorrer a uma representação estruturada como marcas de dicionários. Pode conseguir o estabelecimento e classificação dos possíveis ‘significados contextuais’ de um signifiant. p. certas marcas ou propriedades não devam ser usados como“ ’mais dicionariais’ do que outras” (1991. porém. Não representa nenhum método da análise do conteúdo. com a estruturação de um campo léxico. para o uso prático as correspondentes definições se tiram dos dicionários e se formalizam (1984. obtidas não se sabe como.) há infinitos contextos em que estão postas em questão várias propriedades de água. Explicita-se o autor: (. A análise do conteúdo não constitui em absoluto para ela o objeto da investigação. p. pois se supõe como já dado. e há contextos em que é preciso. Isto não quer dizer que. 278-9). Aceitar pacificamente uma noção não quer dizer julgá-la mais ou menos semanticamente necessária: quer dizer.partir da afirmação oposta (1991. não têm nada que ver. por razões práticas. na cultura e num contexto. ao contrário. . um líquido. sendo somente um procedimento para alcançar a desambigüação com ajuda de certas características semântica (semantik markers. um ser humano. que é pragmaticamente necessário.” e que. nem as oposições. o modelo descreve apenas expressões verbais categoremáticos. Há contextos em que se pode usar a expressão atômico partindo do pressuposto de que “a-tomo” é tudo o que não pode ser “dividido” em unidades menores. não devem ser alteradas no âmbito de um certo discurso. 131). as conotações não são levadas em consideração. os contextos não são previstos. um animal. A semântica de KF não conhece a diferença entre lexemas. as estruturações em forma de árvore. e passa por alto do plano funcional da língua ou o ignora. porque cada discurso (cada contexto) pressupõe algumas noções como “pacificamente aceitas”. dentre as propriedades anteriormente atribuídas a uma certa unidade de conteúdo.identificação de signos (signes) em razão da atribuição do correspondente signifié a um signifiant. Esta semântica não pode pretender ser uma semântica estrutural no sentido que lhe dá o estruturalismo europeu. A água é um líquido até que não nos encontremos diante de um discurso que (visando a mudar radicalmente o nosso paradigma científico) não porá em discussão a natureza dos líquidos. o que Eco deseja assinalar é que é teoricamente impossível elaborar um dicionário de primitivos universais. e termos Em relação ao item a. pois não considera nem as relações do conteúdo.. os distinguishers exibem uma impureza extensional.

Arremata o autor, à mesma página, que “organizamos um dicionário
toda vez que queremos circunscrever a área de consenso dentro da qual um
discurso se move”.
Esclarece ainda o estudioso italiano:
indubitavelmente, marcas que habitam os nós últimos de tantas
árvores de dicionários (como “vivente” ou como “corpo” enquanto
oposto a “não corpo”) estão radicados no modo de pensar de uma
civilização. A própria distinção entre gêneros naturais (...) e
acidentes parece radicada na própria estrutura das línguas indoeuropéias (sujeitos e predicados, substantivos e verbos, substantivos
e adjetivos etc.). Não é que essas distinções não possam ser
discutidas: é que para discuti-las é preciso pôr em questão todo o
nosso modo de pensar e de falar. Por isso, parece muito mais
cômodo pressupô-las como indiscutíveis. Mas basta passar dos
contextos “funcionais” aos “poéticos” para se dar conta de como,
precisamente mediante as estratégias metafóricas ou simbólicas,
tende-se algumas vezes a pôr em questão também e talvez
precisamente essas distinções. E são esses os casos em que parece
muito mais difícil recorrer a estruturas correntes de dicionário (1991,
p. 133-4).

Além do caráter dicionarial do modelo KF, é de ressaltar-se o aspecto
platônico das marcas semânticas, em nível teórico obviamente, uma vez que o
modelo postula as marcas como construções teóricas puras não susceptíveis
em princípio à análise componencial sucessiva. Porém é o próprio Katz, em
outra obra, Teoria Semântica (in: LOBATO, 1977), que fala de regras de
redundância que favorecem uma análise semântica sucessiva, a exemplo do
traço (+ humano) em que está implícita a marca (+ animado).
Duas outras objeções, em meio a outras possíveis, podem ser
sustentadas. Uma delas diz respeito ao fato de o modelo KF deter-se apenas
no sentido estritamente denotativo. A este propósito comenta Eco:
desse modo se sacrificam muitos percursos possíveis. Existem
subcódigos bastante difundidos pelos quais, pelo menos na
civilização ocidental, solteiro pode conotar tanto “dissoluto” quanto
“jovem desejável” ... Em determinados subuniversos semânticos (...)
adensam-se sobre o solteiro conotações autorizadas de simpatia ou
de antipatia e verdadeiras marcas “axiológicas” (do tipo Bom ou
Mau) (1980, p. 90).

Outra objeção concerne ao que Eco chama natureza espúria dos
distinguidores. Estes não são definidos como puras construções teóricas e
sustentam-se em definições muito complexas, que misturam intensão e
extensão, sendo esta decisiva para distinguir o lexema.
Uma vez postas em evidência as fragilidades do modelo Katz-Fodor,
restam como questões pendentes:
a) reelaborar as noções de denotação e conotação;
b) apresentar uma teoria do dicionário por oposição a uma teoria da
enciclopédia.
Faz-se necessário estabelecer uma teoria dos contextos, de modo a
indicar como estes interferem na produção do sentido. Obviamente, a teoria

deve mencionar apenas aquelas ocorrências de lexemas e textos cultural e
convencionalmente tidas como mais prováveis. No caso do já citado exemplo
our store sells alligator shoes, ao qual se conjugam duas leituras teoricamente
possíveis: “nossa loja vende sapatos feitos de pele de crocodilo” e “nossa loja
vende sapatos para crocodilos”, só a primeira é de fato aceitável no universo
cultural. Outros exemplos, aduzidos por Katz e Fodor, são as frases (14) e (15)
abaixo.
(14) Devemos levar o menino ao zoológico.
(15) Devemos levar o leão ao zoológico.

Para os autores, a interpretação das duas frases demandam um
conhecimento adicional sobre menino e leão, de modo que possamos
interpretar corretamente a forma verbal levar. Mas, se considerarmos o fator
cultura acrescido ao fator probabilidade, temos que registrar que leões
costumam viver na selva, nas jaulas de zoológicos e nos circos eqüestres.
“Existem provavelmente leões que circulam livremente no atiço de algum
milionário excêntrico, mas este fato é tão inusual e contrário às regras que a
sociedade não só se recusa a aceitá-lo e a registrá-lo que ainda encarrega a
polícia de impedi-lo”, como bem ironiza Eco (1980, p. 100).
Remetemos o leitor ao terceiro capítulo deste livro, referente ao signo.
Retomando-o, salientamos que não basta compreender o signo como estrutura
fechada, mas dentro de condições de produção, em que entram os
participantes, o aqui e o agora da enunciação.
Exercícios de reflexão
1. Releia o quadro referente à doutrina de Georges Mattoré e procure identificar
os grandes movimentos científicos, sociais e filosóficos retratados por ele.
2. Aponte as semelhanças e diferenças de abordagem entre a teoria de Trier e
Mattoré.
3. Identifique as diferenças entre a Semântica de Coseriu e as de Greimas e
Pottier.
4. Resuma a contribuição de Coseriu para a formação de palavras, destacando
as diferenças em relação à abordagem tradicional.
5. Mostre as vantagens e limitações da Semântica do léxico e da frase.
Comente-as.
6. Aplique uma das propostas semânticas ao campo do vestuário.

CAPÍTULO XII

O CONTEXTO NA DETERMINAÇÃO DO SENTIDO – PARTE I
38

INTRODUÇÃO

Neste capítulo e no subseqüente, vamos tratar da influência do contexto
na produção do sentido. Não se trata exatamente de Semântica, mas de
aspectos sobre a enunciação. É por terem influência sobre o sentido que
decidimos nos referir a eles, mas, de forma muito sumária, dada a natureza
introdutória deste livro.
Aqui trataremos dos seguintes tópicos: a dêixis e a modalidade. No
capítulo subseqüente, trataremos das relações de acarretamento e dos
aspectos escalares da linguagem, que têm a ver com a orientação
argumentativa do discurso.
Aqui estamos admitindo que o sentido ganha uma nova dimensão com a
inserção do contexto discursivo, em que entram fatores como:
a)
b)
c)
d)

intenção, que se atribui ao locutor;
relação social que o locutor mantém com o interlocutor;
a localização dos sujeitos em interação;
os mecanismos operantes sobre o universo de referência,
produzindo “estado de coisas reconhecidos como relevantes e
legítimos ou susceptíveis de serem aceites como tal” (FARIA, 1983,
p. 161).

Conceito importante é o de competência comunicativa que “envolve
necessariamente mais do que uma competência lingüística, mas um saber ou
forma de consciência que ao enunciarem-se são igualmente portadores de uma
sócio-semântica, em que intervêm os valores físicos e os valores simbólicos do
grupo social a que cada locutor pertence (FARIA, 1983, p. 163). São, pois,
fatores constituintes da interação verbal: falante, ouvinte, espaço, tempo,
discurso anterior, universo de referência.
Dois princípios de comunicação se salientam:
a) princípio de interação: regulador da relação entre locutor e alocutário
no que concerne à posição, ao comportamento e ao tratamento.
b) Princípio de localização: relativo ao universo de referência, no que
diz respeito ao espaço e ao tempo.
Faria (1983, p. 164) dá saliência ao princípio de interação, uma vez que
ele fundamenta as possibilidades de cada um dos princípios, chegando até a
mudá-los. Graças a ele, gera-se uma mensagem específica, “estabelecendo as
regras que geram aquilo que conta para o locutor como mensagem legítima e
as formas que essa mensagem pode apresentar”.

O que é certo afirmar é que nós é plural por natureza. nós dois. vinculada à categoria de pessoa. convém assinalar. os pronomes nós e vocês são ambíguos quanto à combinatória do eu e do tu: eu + tu você + você nós eu + ele eu+ tu+ ele vocês você + ele Para precisarmos o escopo extensional do nós. nós todos. esquematizada assim por Pottier: Eu/tu ele Do ponto de vista da locução. Em vista do esquema acima. por exemplo. .1 A Pessoa Pottier (1978. Participam da interlocução. as referidas pessoas engendram o seguinte esquema: elocutivo/alocutivo delocutivo Discordamos daqueles que afirmam terem os pronomes significado apenas gramatical. na Bíblia e em alguns cultos religiosos. é de natureza discursiva. São. conexo com o tempo e o espaço. isto tem sabor arcaico. Em português. Vocês pode ser interpretado como plural de você apenas na primeira combinatória. lexicalmente: eu. o significado existe dicionarialmente. é errôneo afirmar que nós é plural de eu. dissertações e artigos. podendo alternar com você. p.39 A DÊIXIS 39. Todavia. valemo-nos de vários expedientes: só nós. 190) admite que a dêixis se fundamenta sobre a relação do eu com o tu e o restante. já não se utiliza a forma vós. aquele que fala”. a depender da variedade diatópica e do registro. significa “primeira pessoa do singular. para que o falante isente sua falta de certa presunção e arrogância. Em português. A questão dos referentes. que corresponde a livro1 + livro2 etc. a não ser em obras antigas. uma vez que não corresponde a eu + eu. nós mesmos. É comum nos discursos científicos de teses. Remetem a referentes que são especificados apenas na situação. pois. Convém assinalar também que a forma pronominal tu ainda subsiste no português oral. Para os usuários modernos. diferentemente de livros. os interlocutores os elementos centrais. conexa com o próprio significado lexical. É o locutor que o utiliza. pretendendo velar-se em parte na sua fala. A língua portuguesa desenvolveu também um uso retórico do nós para indicar modéstia.

c) eu e tu se sustentam na correlação de subjetividade: eu é pessoa subjetiva. podendo sempre esse não importa quem ou não importa o que ser munido de uma referência objetiva (1991. eu: tu/você: ele.d. Outras oposições entre o eu/tu e ele são assinaláveis: a) eu e tu. e) os pronomes de primeira e segunda pessoa são necessariamente definidos. É por isso que não há truísmo em afirmar que a não-pessoa é o único modo de enunciação possível para as instâncias do discurso que não devam remeter a elas mesmas. por exemplo) dos pronomes adjetivos pessoais (meu e teu/seu). p. por exemplo: noqa = eu noqayku = eu + os outros eu noqancis = eu + qualquer um. exceto a própria instância. o eixo da combinatória é o eu. membro não marcada da correlação. entre os quais o interlocutor. não expresso no quadro acima. diferencia um nós inclusivo de um nós exclusivo. as formas não-parentéticas.. enquanto ele. A “terceira pessoa” representa de fato o membro não-marcado da correlação de pessoa. . são únicos. b) eu e tu ostentam alternância. é um adjetivo em função de predicado). ao passo que os de terceira podem ser indefinidos. Diferentemente do português. há matizes peculiares a cada sistema lingüístico. que não exibe alternância por ser exterior ao discurso. respectivamente. no ato de fala. conforme se refira ao sujeito ou não. ambos oponíveis a ele. temos um quadro dos pronomes pessoas como este abaixo. pessoa não-subjetiva. ore (exclus) pe (pe~e) i É de destacar-se uma diferença patente em relação ao português. é que o tupi reserva para a terceira pessoa adjetiva (os pronomes possessivos) duas formas: o e i. que pode estar ou não ausente. 55). o tupi reserva basicamente as mesmas formas para as funções substantivas e adjetivas.Embora as três pessoas sejam universais lingüísticos. p. ela xe (ixé) nde (endé) i nós: vocês: eles. por oposição a ele. a saber. no alto de fala. por se aplicar a um sem número de sujeitos não comporta unicidade. por oposição ao “assunto”. Em quechua. Controvérsia digna de registro é aquela referente à terceira pessoa. 282). mas que predicam o processo de não importa quem ou não importa o que. que difere pronomes substantivos pessoais (eu e tu. adaptado de Barbosa (s. Um detalhe importante e diferencial. por exemplo. contrastando com tu. em segundo lugar. d) o falante e o ouvinte participam obrigatoriamente da situação. admite alomorfes conforme a distribuição sintática: as formas em parênteses se utilizam quando o pronome não está seguido imediatamente de um verbo predicativo (que. na verdade. chamada por Benveniste (1991) de a não-pessoa. Em primeiro lugar. elas: iandé (indus). Em tupi.

d. De que modo reformular a regra para abrigar a terceira pessoa que. Em tupi. que é um tipo de dêixis no . Pensemos no português e em como deveríamos alterar algumas regras que mencionam a pessoa nominal. singular. como contraponto. Isto implicaria. por exemplo. chegando mesmo a afirmar que é a pessoa fundamental. por outro lado não aceita o caráter dêitico. p. individuando-o e atualizando-o na situação de fala. 55). a forma de terceira pessoa não é exatamente um pronome pessoal. é a não-pessoa? Se Cervoni aceita a terceira pessoa como uma pessoa positivamente caracterizada. quando ela se manifesta sob a forma de um pronome pessoal – . diferentemente do eu e do tu. a) b) a oposição masculino/feminino. que as três pessoas têm um ponto comum.ou implícita. a do deslocutado. quanto aos aspectos de significado lexical que comporta. No nosso ponto de vista. numa certa medida. masculino] e como tal implica um campo de aplicação muito indeterminado. Porém. à terceira pessoa um papel fundamental. papel unicamente passivo no ato de linguagem. p. p. desta pessoa. Assevera. 25-6). portanto. servem para apresentar um objeto de fala. por exemplo. se presta à dêixis. ele tem como traço [terceira pessoa. como no caso do nome (1989.” (1989. a marca diferenciada de plural. para o autor. pois pode abranger seres inanimados. que tem. do ponto de vista tipológico. 25). Concorda que “as duas primeiras pessoas da interlocução se opõem efetivamente. que difere da oposição masculino/feminino nos nomes. conforme informação de Barbosa (s. como a da concordância: o verbo concorda com o sujeito em número e pessoa. pode remeter as coisas ausentes da enunciação. possibilitando a dêixis do nome. se presta à anáfora. para a expressão da terceira pessoa. que é apenas a pessoa da qual se falou. todavia. não é tão fácil afirmar ou negar o caráter dêitico da terceira pessoa. para Benveniste. pertencem ao mesmo grupo que o português. é desconhecer um fato essencial: ao menos nas línguas que. enquanto nos pronomes é apenas gramatical. já que nestes marca a distinção de sexo. mais longe: dizer que a terceira pessoa é uma “não-pessoa”.. O autor vai. seja essa pessoa explícita. Afinal de contas. opondo-se francamente a Benveniste. Do nosso ponto de vista. o ele. enquanto em nós a marca não tem distinção morfêmica: conjuga-se à noção de pessoa. mostrativo. recorre-se a formas demonstrativas. pretextando que em tal ou tal língua ela não tem marca específica. Em primeiro lugar. Atua semelhantemente ao artigo definido junto ao nome. admitir a terceira pessoa como não-pessoa é um tanto problemático. marcada – é o caso. Cervoni (1989) reserva. que traz o objeto para o âmbito da enunciação. há certas singularidades. aceitar todos os nomes da língua como dêiticos. Por outro lado. Em português. Tampouco procede a argumentação de Cervoni para combater a dêixis desta pessoa. Este campo se individua. pela ostensão. todavia. porque os objetos individuados por ele e o tu. a pessoa é o suporte necessário de qualquer predicação. à terceira pessoa.Em latim e em grego. mas um prefixo pessoal.

Esta só se aplica plenamente a eu e tu. por exemplo.? Estaríamos perante uma semidêixis? Talvez seja mais correto não assimilar por inteiro a noção de pessoa à noção de dêixis. Isto e aquilo nunca acompanham o substantivo. Para não nos delongarmos muito num assunto tão complexo. não aquele. não aquele lá. a nós e a vocês.2 O Espaço e o Tempo 39. em que co-ocorrem formas demonstrativas e formas locativas. porque trazem em sua natureza semântica a noção substantiva geral de “coisa”. (01) Aqui é um bom lugar. nas condições já referidas. o que afirmamos tem que ser matizado. Estas últimas formas. diferem dos demonstrativos.2. sob certas condições. quando significa você + ele. Este e aquele. pois podemos dizer: este livro aqui me agrada. diferem por distribuição. Assumi-la como não-pessoa traz complicações intransponíveis. parcialmente a ele. Em suma. acompanham substantivo ou o pressupõem: este livro me agrada. mas apenas o espaço e o tempo (e marginalmente. Pottier abriga os demonstrativos e os advérbios de lugar. (03) O homem nasceu aqui. Campo do falante Campo do ouvinte aqui cá Campo externo ao falante/ouvinte ali aí lá/acolá . Todavia. Também diferem por não possuírem formas específicas substantivas. O que dizer de nós quando significa eu + ele? Ou de vocês. é difícil uma posição unificada sobre a forma de terceira pessoa. substantiva e adverbial.nível textual. têm função adjetiva. No plano da língua. mais especificamente. isto sem afastar a noção de distância. (02) O homem aqui sabe das coisas. o lugar onde os objetos estão. embora saibamos que os primeiros indicam a distância dos objetos em relação ao eixo falante/ouvinte e os segundos. semelhantemente aos demonstrativos clássicos. A proximidade ou a distância é às vezes psicológica: depende de como o falante encara o referente ou o conceito. Talvez pelas complicações da superposição da noção de pessoa à de dêixis é que Pottier não trata as pessoas como entidades dêiticas.1 O espaço Sob o nome geral de dêixis espacial. (04) Este amor que trago no peito me consome. 39. Neste último aspecto. apresentamos ao leitor o quadro dos dêiticos espaciais lato sensu. a dêixis nocional).

a organização do Tempo pelo falante num eixo que é contínuo. enquanto forma gramatical. possível. o presente do subjuntivo vale pelo futuro sistematicamente. O próprio quadro. É bom ressaltar que. 198). havia demonstrativos para coisas ou ações visíveis. podiam-se usar formas demonstrativas. necessário. em primeiro lugar. ostentam comportamento idiossincrático de língua para língua. como kó (com o traço adicional de proximidade do falante) e para coisas ou ações invisíveis como a-îpó (com o traço adicional de longe do falante/ouvinte).este/esse aquele isto/isso aquilo Pelo quadro acima. baseada na oposição campo do falante X campo do ouvinte é artificial. em determinadas condições semânticas. Só para enfatizar. Admitimos que a diferença entre este e esse e entre isto e isso. eclode a Primeira Guerra. (05) Vou nestes dias à sua casa. No tupi antigo. . convém assinalar que os dêiticos espaciais. o emprego do presente em lugar dele. não irá à festa para a qual foi convidado. dependendo da necessidade de expressão.2 O tempo O tempo pressupõe. constitui uma sofisticação. a língua põe a seu dispor uma referência zero. Por último. por exemplo. Ele vem para que todos tenham vida em abundância. desejável.3 PASSADO no momento então ontem PRESENTE neste momento agora hoje FUTURO no momento então amanhã O presente como forma não-marcada se presta tanto a valores de passado como a valores de futuro. e à direita. em muitas línguas. é uma demonstração de ruptura com a tradição. o leitor pode perceber que não adotamos na íntegra a posição da gramática tradicional. Segundo Pottier (1978. que é um presente. como em (05) e (06). (06) Em 1914. conjugado a advérbios capazes de ancorar melhor a futuridade. que integra os tradicionais pronomes demonstrativos e advérbios locativos. A escolha de uma forma pela outra decorre de fatores estilísticos. a noção se acha presa ao modo como o falante encara seu ato de fala: como provável. Se não era importante assinalar a visibilidade. À sua esquerda. um futuro. que é um devir. em que era importante assinalar a visibilidade ou a não-visibilidade dos objetos. extremamente ligados à situação discursiva e a imposições de ordem cultural. que nem sempre se manifesta em todas as línguas. o falante elege um passado. de contornos mal definidos. 3 O futuro. Daí. como ã e anga. Embora chegue amanhã.2. p. Isto se dá em virtude da própria natureza do futuro. 39. mais ou menos vasto.

a despeito de associar-se com o presente. O hoje bem como o amanhã e o ontem dependem da enunciação e é com base nesta dependência que se constroem frases como esta abaixo. (11) Fiado só amanhã. não pode ser usado “indiferentemente” por amanhã e por ontem. Semelhantemente amanhã pode ter extensões diversas. Tanto pode referir-se ao momento da enunciação. como a uma época do passado: (10) Agora eu era herói e o meu cavalo só falava inglês. no primeiro caso. (08) Preocupo-me com o estado de saúde de minha mãe. . É interessante observar que o agora também é forma não-marcada. como no exemplo anterior. num aqui e num agora. (12) Hoje vou à escola (semelhante ao presente momentâneo). Pode também referir-se a eventos válidos numa cultura para quaisquer que sejam as circunstâncias. Isto não invalida a inclusão da forma marcadamente cursiva do presente. como o presente é utilizado em lugar do passado e do futuro. a referência temporal fica muito imprecisa para localizar o evento em foco. No segundo caso.É muito importante nesses casos estudar o papel dos advérbios na real determinação do valor semântico da forma de presente. Dependendo de quando é lida. O hoje. esse amanhã continuamente se referencia. Para os teóricos da enunciação. Porém. (15) Amanhã será um novo dia e certamente serei mais feliz. só o presente do indicativo tem valor na situação comunicativa. (09) Estou estudando agora. Sem o adjunto adverbial. (07) A água ferve a 100 graus centígrados. (14) Amanhã irei à festa. a exemplo de (07). fica difícil saber se o evento ocorre no mesmo momento da fala. Mais uma vez a interação entre advérbio e forma verbal ajuda a entender o agora como um momento do passado. Só poderíamos compreendê-lo como manchete de jornal na época em que se deu o evento. a extensão do hoje é muito dependente da enunciação. (13) Hoje a vida está mais difícil (semelhante ao presente habitual). como em (08). sem a expressão da data.

as comunicativas. p.deliberativo . Ela comporta dois dêiticos: o pronome de primeira pessoa e o presente do indicativo do verbo. que determina a expressão-ocorrência: o eu remete a referentes distintos ou a momento distintos do mesmo referente.eventualidade . É aqui que cabe fazer uma distinção entre expressão-tipo e expressãoocorrência. subdivididas em modal e locutiva.declaração . 1990. na mensagem. 67). 160). A formulação modal diz respeito à “manifestação do EU enunciador sobre o propósito e sobre sua própria formulação” e “pode revestir-se de aspectos muito variados” (POTTIER. 40 A FORMULAÇÃO MODAL Pottier (1978) parte do conceito de formulação. O eu. por outro lado. em todas as circunstâncias. Todavia. já tratada acima. ganha matizes distintos conforme a situação enunciativa. remete a a um sem-número de participantes. Na frase acima. por exemplo.apreciação • Modalidade . entre os tipos de formulação.3 Síntese Se de um lado o fenômeno da dêixis representa uma grande economia. Podemos esquematizá-la da seguinte forma. esta última relacionada em parte à dêixis. uma informação diferente.39. Ilari & Geraldi (1990. 67) nos exemplificam com a frase reproduzida em (16).. p.impulso . Esta particularidade dos dêiticos implica uma distinção entre sentido e referência. na boca de um cidadão do Terceiro Mundo e falsa na do cantor Michael Jackson. o sentido permanece o mesmo. p. 1978. uma vez que. gera uma dependência da linguagem com a situação extralingüística.sensação • eixo modal • constatativo . é uma expressão-tipo em todas as ocorrências possíveis. já que comporta um significado léxico invariável: “aquele eu fala”. • prospectivo . mas a referência muda. que. Traz. os quais se atualizam na situação discursiva.” (ILARI & GERALDI. todavia. O autor reconhece. (16) Eu estou preocupado com os resultados da política econômica ditada pelo FMI. com alguns itens.causativo . no discurso.permissivo • factitivo • modos • indicativo • subjuntivo . conforme o momento em que é pronunciada e a pessoa que a pronuncia: “poderia ser verdadeira hoje.. expressa as relações entre as designações.

Sejam os exemplos (17) e (18) abaixo. sendo. marcados por polissemia. conforme o esquema. No que diz respeito ao eixo modal. fixando-nos naquelas que julgamos mais pertinentes para o nosso estudo.1 Da Modalidade A modalidade é uma crítica subjetiva do discurso. (18) João pode trabalhar hoje. posso. ligada à opinião do EU sobre o enunciado. que podem estar ligados ao impulso ou à eventualidade. Manifesta-se. pelos modos e pelos laços modais. pelos eixos modais. servimo-nos de Pottier (1992). Quando isto não nos é possibilitado. conforme o esquema. três verbos há em português: querer. envolvendo os graus de certeza sobre um evento. na maioria das vezes. Uma vez que o autor raramente define os termos. três enfoques possíveis: o prospectivo. (17) João deve trabalhar hoje. quando possível. utilizando-se.• laços modais • Asserção • Desenvolvimento • se • que • interrogação • negação • ênfase • fase • modificação do estado • relatividade • oposições • Determinação • tipos • antes • depois • artigo • apresentação • substitudos • aplicação Nas seções seguintes. pois. b) possibilidade. poder. dever. a fim de aclarar melhor os conceitos. trataremos em separado dos subtipos de formulação modal. No primeiro exemplo. a forma modal deve admite as leituras de: a) obrigação ou necessidade. O primeiro pode manifestar-se como impulso (quero. o constatativo e o factitivo. devo) – conjunto de atitudes orientadas para o agir – ou como eventualidade. 40. Na área do prospectivo. apenas de esquemas. . corremos o risco da interpretação. Pottier reconhece.

(29) Há necessidade de João trabalhar hoje. a leitura de Pottier (1992) nos conduz à inclusão destas estruturas na modalidade prospectiva. há que se registrar apenas as possibilidades de leitura. (20) Você quer bagunçar o ambiente! (21) Está querendo chover. (24) Provavelmente. (26) É certo que João trabalhará hoje. declaração e apreciação. A prospectividade pode ser marcada também por outros itens lexicais em diversas estruturas sintáticas. a despeito de Pottier (1978) não se manifestar sobre isso. (23) É possível que João trabalhe hoje. (28) Há certeza de João trabalhar hoje. (19) João quer trabalhar hoje. (25) Certamente. (30) Meu desejo é trabalhar. (31) É necessário que João trabalhe hoje. (33) Deus te abençoe. Os exemplos se seguem abaixo. O enfoque constatativo se manifesta por diversas estruturas indicadoras de sensação. . No plano da língua abstrata. com a leitura dominante de impulso como em (19). porém. O verbo querer é mais tendente à monossemia. b) possibilidade. com exatidão. admite a leitura de possibilidade em maior ou menor grau. Isto sem falar da leitura de “permissão”. a forma modal pode implica: a) capacidade. (34) Acredito/penso/acho/sinto/parece/julgo que João trabalhará hoje. João trabalhará hoje. (36) Lamento/admira que João trabalhe tão cedo! (37) Tenho a sensação/a impressão/ o pressentimento de que João trabalhará hoje. (22) É provável que João trabalhe hoje.No segundo exemplo. = desejo que Deus te abençoe. que o coloca sob um terceiro eixo modal. É lícito supor que a não-lexicalização da prospectividade não impede que determinadas estruturas estejam incluídas nesta modalidade. Em alguns contextos. (27) Há possibilidade de João trabalhar hoje. (32) Trabalhe! (imperativo) = quero/desejo que você trabalhe. João trabalhará hoje. (35) Digo/afirmo/grito/nego/anuncio/sugiro/juro que João trabalhará hoje. o factitivo. a leitura adequada para as formas verbais em questão. como veremos. Todavia. Somente o contexto discursivo é que pode especificar.

é menos transparente. pois esta relação. Há casos em que o uso do subjuntivo pode indicar certeza ou possibilidade. não importa se há ou não lexicalização para os enfoques supracitados. ela guarda estreita relação com os modos. (47) Declaro-vos marido e mulher. como em (55). É assunto a estudar-se a relação entre modalidade e modo nas orações adverbiais em português. o fenômeno chover tanto pode ser interpretado como uma factualidade quanto como uma possibilidade. o que se verifica nos períodos compostos. Em português. adjetivos ou advérbios. No que diz respeito aos verbos. como em (48) e (49). que se manifesta em verbos. = afirmo que a Terra é redonda. conforme exemplos (32) e (33). . (51) Quero que João trabalhe hoje. as condições de uso dos modos. (56) Procuro uma pessoa que goste de trabalhar. a nosso ver. (55) Embora chova. A modalidade é uma categoria ampla. causativa e deliberativa. (53) É imperativo que João trabalhe hoje. (54) É certo que João trabalha hoje. vou sair. pelo menos. Manifesta-se por submodalidades permissiva. (41) Dou a permissão/ o consentimento para João trabalhar (42) Você pode trabalhar hoje. (50) Duvido que ele trabalhe hoje. a exemplo de (56) e (57). (43) É permitido que João trabalhe hoje. pois o EU enunciador estará sempre pressuposto. (44) Faço João trabalhar hoje. (46) Nomeio João meu secretário.(38) É lamentável/admirável/vantajoso/apaixonante/triste que João trabalhe hoje. (45) Eu obrigo João a trabalhar. Também isto pode ser verificado nas orações imperativas e optativas. (52) Lamento que João trabalhe hoje. como se vê em (50) e (54). (40) Deixo/permito que João trabalhe. (48) A Terra é redonda. (49) João trabalha tão cedo! = lamento/é admirável que João trabalhe tão cedo (a depender da entonação e do contexto discursivo). (39) Felizmente/infelizmente/lamentavelmente João trabalhará hoje. Como estamos tratando da substância do conteúdo. uma hipótese. a oposição entre indicativo e subjuntivo ou. Na frase acima. é mais nítida nas orações adjetivas. como demos a perceber. O enfoque factitivo envolve itens lexicais que implicam em sua estrutura semântica um fazer agir.

O estudo desses laços é muito complexo. resta falar apenas dos laços modais. para os quais oferecemos os exemplos abaixo. (58) Conheço uma pessoa que gosta de trabalhar. Ainda com respeito à modalidade. razão por que preferimos não tratar deles neste livro introdutório. temos o exemplo (65). dados. É o que explica a frase (59) não admitir subjuntivo. como em (66). (Paris fica) na França. (67) Quem vai trabalhar hoje? (68) Qual a capital da França? (69) Onde fica Paris? (70) O que Pedro fará hoje? - João (vai trabalhar hoje). (63) Ele foi ver se João tinha terminado o trabalho. (Pedro) vai trabalhar. Trata-se de influência do fator pressuposição de existência. uma vez que já são conhecidos dos interlocutores. (59) *Conheço uma pessoa que goste de trabalhar. na segunda frase. (65) Será que Pedro mastiga nozes? Pode acontecer que haja elementos pressupostos. admite-se que Paris seja uma capital e que Suíça tem uma capital. O artigo definido numa oração negativa leva o verbo para o indicativo por oposição ao artigo indefinido no mesmo tipo de oração. (66) Será que Paris é a capital da Suíça? Aí. . que leva o verbo ao subjuntivo. No primeiro caso. Neste caso não cabe a resposta sim ou não. da negação e da ênfase. (60) Não conheço a pessoa que gosta de trabalhar. A interrogação pode referir-se a um enunciado inteiro ou apenas a uma parte dele. em português. (61) Não conheço uma pessoa que goste de trabalhar. (62) Ele foi ver que João tinha terminado o trabalho. o é. que para Pottier (1978) se resumem a dois: que (de natureza integrante) e se (de natureza integrante e adverbial). a existência da pessoa procurada não é dada como certa e. a exemplo de (67) e (70).2 Da Asserção A asserção diz respeito à relação interpessoal entre um EU e um TU através dos mecanismos lingüísticos da interrogação. Paris (é capital da França). que admitem como respostas membros de frase. (64) Se chover não sairei. No primeiro caso. 40.(57) Procuro uma pessoa que gosta de trabalhar. com as palavras interrogativas. Isto se dá. Outras frases há em que a interrogação incide sobre um elemento da frase e não sobre a frase inteira.

.. (86) João mastiga nozes. Em português. eu tenho muitos. Nestes dois últimos casos. (83) Foi o gato que comeu o rato. A negação pode se manifestar parcialmente. pode levar a ambigüidades. Como se vê. sendo este algo o escopo da mesma.que). (77) O perigo não está muito controlado.que/é. (87) Livros. o sintagma preposicional.. o que desfaz a ambigüidade. O mecanismo da ênfase é complexo nas línguas. os mecanismos podem ser clivagem (foi. mas outro animal. Este escopo. (74) Não foi Pedro que matou a serpente (foi outra pessoa). . (72) Paris fica em algum lugar. pode ostentar diversos graus de integração. (84) É dele que eu gosto mais. Podemos aí ter as seguintes interpretações: a) a serpente continua viva. posição. ilustradas nos parênteses. o sintagma nominal ou o sintagma adjetival. A negação implica negação de algo. (85) João mastiga nozes. que só se emprega quando o SN ou SAdj se manifesta por uma só palavra. pode haver o emprego do não ou de um elemento prefixal. acento. (81) João deseja o não-retorno da filha. Temos os exemplos (83) e (87). (76) O que Pedro fez não foi matar a serpente (foi apenas feri-la).Frases como estas acima admitem pressuposições que podem assumir as formas seguintes. b) não foi Pedro quem matou a serpente. c) Pedro não matou a serpente. (79) O perigo está muito incontrolado. como em (73). (82) João deseja o retorno não da filha. Ela pode atingir o sintagma verbal. no que diz respeito às frases (67) e (69). de natureza variável. a negação de um elemento ou membro frasal leva a relações de acarretamento. em português. (71) Alguém vai trabalhar. (80) João não deseja o retorno da filha. A negação. (73) Pedro não matou a serpente. (75) Não foi a serpente que Pedro matou (foi outro animal). por sua variabilidade. por exemplo. (78) O perigo está não muito controlado..

em que a referida categoria semântica é relacionada à noção de aspecto. em contraste com alguma informação prévia: X é igual a cachorro. (100) João continua dormindo. mas o locutor afirma que X é igual a gato. Na terceira frase. admite-se. (101) João usa sempre o mesmo chapéu. mas nozes. “o desenvolvimento expressa o ponto de vista do falante a respeito do acontecimento. como em (88). (98) João morreu. (88) Eu quero tudo de bom. (97) João perdeu a consciência. mas este algo não é carne. 177). (96) João se humanizou. por exemplo. com verbos auxiliares como continuar e permanecer. O uso desses mecanismos está muito ligado a aspectos da informação sobre os quais se quer chamar a atenção. para o locutor. Na perspectiva antiga.Advérbios também podem se prestar à formulação da ênfase. (92) Começo a escrever. ou em contraste com uma informação dada como conhecida. como ponto comum na interlocução.3 Do Desenvolvimento e da Determinação Em Pottier (1978). (93) Paro de escrever. Tanto pode se manifestar em nível léxico como em nível sintático. como ainda. quer cessativa. 40. . c) a relatividade: relaciona duas fases ou dois momentos de uma fase. o que não é mais aceito em Pottier (1992). (99) João ainda dorme. bem como por certas perífrases verbais. na primeira frase. (91) Acabo de comer. João mastiga algo. p. b) a modificação da fase: expressa a passagem de uma fase para outra. pressupõe-se X comeu o rato. sempre e já. É fácil perceber que este subaspecto se relaciona com a mudança de estado. A relatividade se manifesta por meio de advérbios. (89) Eu estou comendo. quer incoativa. em função dos pontos de vista que ele decidiu” (1978. O desenvolvimento comporta os seguintes estádios: a) fase: marca um momento do desenvolvimento. Por exemplo. (90) Vou comer. (94) João adormece. (95) João torna-se egoísta. principalmente (sobretudo/mormente) a paz. o desenvolvimento aparece como um subaspecto da formulação modal. ou que se quer apresentar como novo.

observamos que a determinação está ligada aos fenômenos seguintes: a) informação dada/informação nova. (105) Il est agréable de fumer (é agradável fumar). p. porque nomes próprios dão os referentes como conhecidos. O artigo um indicia. prospectivo) e de um DEPOIS (determinado. como fenômeno modal. Relacionados ainda à determinação. na segunda. “a oposição fundamental é de um ANTES (ainda não determinado. com força e avançar em silêncio. (104) O gato é um mamífero. Por vezes. não conhecido. não obstante as aparências em contrário. como em: um isqueiro a gás. porque a intenção do falante é não determinar. implicando um antes. um elemento novo. (103) Um gato é um mamífero. que não comparece em Pottier (1992). (106) Fumer. c) topicalização. Na determinação. concebidos pelo falante” (1978. o artigo se refere ao conceito gato. (102) Procurava um livro e o livro foi encontrado. Há distinções semânticas entre elas. A primeira forma indica que algo ainda vai ser apresentado. Por fim. enquanto a segunda indica que a apresentação já foi feita. não há a presença do artigo. que são pressuponentes (anafóricos) por definição. sendo portanto. retrospectivo). como categoria semântica independente. Exemplo disto são os pronomes de 3ª pessoa no português. Deixamos ao cargo do leitor estabelecer os elos entre esses fenômenos e o da determinação. A determinação se manifesta por meio do artigo. Em francês. resta falar dos substitutos. enquanto o artigo o pressupõe um elemento conhecido ou assim considerado. (107) *Il est Jean. são a apresentação e os substitutos. são duas as formas ligadas à apresentação: il e ce. enquanto. b) anáfora. Pelo exposto. cést agréable. .A última subcategoria modal é a determinação. Outros efeitos de sentido correlatos podem ocorrer. Na primeira. isto é agradável). Observemos as frases (103) e (104). (literalmente: fumar. É por isso que usamos a forma ce com nomes próprios e não a forma il. 182). na intenção do falante. entre outros meios. (108) C’est Jean. o artigo indicia todo elemento extraído da classe gato.

se relaciona ao grau de adesão do sujeito enunciador ao enunciado e parece estar vinculada a um tipo de constatativo: a sensação. as terminologias mudam. dever. 160). foi adotado em Pottier (1992). poder. em vez da mais conhecida. A razão para isto é que o referido nome é mais conhecido e. ademais. Nesta última obra. a motivos didáticos. Tomamos a iniciativa de mudar o nome para dêixis. 1978. Talvez englobe também o que aqui tratamos como eventualidade. adotada modernamente por autores como Cervoni (1989). Preferimos manter a nomenclatura formulação modal. modalidade. bem como os critérios e o alcance do próprio conceito de modalidade. a epistêmica. Faria (1983) e pelo próprio Pottier (1992).41 CONCLUSÃO Baseamo-nos em Pottier (1978) para a confecção deste capítulo. o desenvolvimento e a determinação não são mais incluídos na formulação modal. p. DESENVOLVIMENTO começar a EU MODALIDADE começar a Pedro é um ser insuportável crer não não ASSERÇÃO DETERMINAÇÃO . Por exemplo. Além disto. apresentamos a formulação modal com seus vários aspectos integrados (POTTIER. aparece a modalidade factual. A escolha de Pottier (1978) se deve. A reformulação é muito grande para ser devidamente apreciada aqui. em vez de formulação discursiva. nomenclatura proposta pelo autor. dirigida para o fazer e o dizer. Para fins esquemáticos. principalmente. Uma outra modalidade. estreitamente ligada aos verbos de impulso querer.

Helena viu aquele deputado na festa. é difícil manter plenamente a condição (b). A frase (01)b é formalmente distinta de (01)a. Como vemos. ocupável pelo objeto direto. uma vez que: a) envolvem operações ao nível da estrutura proposicional. Uma delas é no nível formal. A frase pode realizar ou não estas possibilidades. ao contexto discursivo. (1983. b. Contudo. uma vez que aquela está na passiva e esta. No plano da língua. isto sem falar da admissibilidade de adjuntos. Uma ressalva se faz necessária quanto aos dêiticos aquele e ontem. abstrata. mesmo que velada. e à direita. Não entendemos exatamente o que a autora quis dizer com independentemente da situação e da interpretação dada pelos falantes. constituindo ou não tais operações formas lingüísticas precisas. sem alusão. outro espaço vazio. partes dos mecanismos lógicos. fundadas no acordo entre falante e ouvinte quanto a determinados itens altamente dependentes da situação de fala. à sua esquerda. ocupável pelo sujeito. Convém esclarecermos algumas convenções terminológicas. (01) a. para haver implicação. relativa ao valor verdadeiro ou falso de uma frase. e a referência. como relação entre duas frases. para Faria (1983). não se pode objetar que existe relação semântica entre ambas: parte do significado de (01)b está contido em (01)a. um significado permanece comum a ambas: o fato de um deputado indicado ter sido visto ontem à noite na festa. independentemente da situação e da interpretação dada pelos falantes. na ativa. ela se manifesta de três maneiras. b) atribuem ao enunciado determinada interpretação semântica: conferem a ele um valor de verdade. referente às condições necessárias e suficientes para que uma frase seja verdadeira. porque em (01)b apagou-se o agente da passiva. cuja manifestação é a frase. Assim. A implicação pode ser reformulada genericamente nos seguintes termos: uma frase A implica uma frase B se a verdade de B depende necessariamente da verdade de A e se parte do significado de B está contido em A. já que ela própria reconhece duas entidades nos mecanismos lógicos: o significado. 164-5). Proposição é uma entidade lógica. . um espaço vazio. p. adotadas pela autora. estabelecida por Faria. Ontem à noite. Aquele deputado foi visto ontem à noite na festa. É preciso que se estabeleçam condições interpretativas. há de se partir do pressuposto de que aquele se refere ao mesmo deputado nas duas frases e de que ontem aponta para o mesmo momento.CAPÍTULO XIII O CONTEXTO NA DETERMINAÇÃO DO SENTIDO – PARTE II 42 RELAÇÕES DE ACARRETAMENTO 42. o verbo amar admite. Todavia.1 Implicação/Pressuposição Implicação e pressuposição constituem.

A diferença entre (03)a e (03b) é de grau. João bebeu meio litro de vinho. i. há que se partir de um suposto acordo entre os interlocutores. como nos exemplos (03) e (04). b. . A sopa está boa. desde que se admita (06)a como verdadeira.A segunda forma de manifestação da implicação é de natureza lexical. O terceiro tipo de implicação diz respeito às escalas de quantidade e qualidade. (05) A sopa não está boa. (04) a. No uso efetivo da língua. a verdade de A2 não garante a verdade de A1” (1983. (+masculino). se se admite que João bebeu um litro de vinho. quer no nível da frase: duas palavras ou duas frases sinônimas se baseiam nas mesmas condições de verdade. está ótima. estabelecer relações de implicação entre as frases abaixo? Cremos que sim. Concordamos quanto à relação de implicação quantitativa entre (04)a e (04)b. Além disso. Mais uma vez. Ambas as frases diferem quanto à voz: (a) está na voz ativa e (b). na passiva. admite-se também que João bebeu vinho. 166). a escalaridade qualitativa é estanque. há uma troca de itens lexicais: o substantivo deputado aparece em (a). João bebeu um litro de vinho. A implicação também está ligada ao fenômeno da sinonímia. enquanto em (b). (06) a. A sopa está ótima. no entanto. quer no nível do léxico. Semelhantemente ao exemplo (01)b anterior.e. temos o substantivo homem. (02) a. Aquele homem foi bisto ontem à noite na boite. Poderíamos. p. Diga-se o mesmo dos dêiticos. implica a afirmação de que ela está boa. conforme podemos depreender destes exemplos de Faria. mas não quanto à relação qualitativa entre (03)a e (03)b. que é um item genérico. tanto que se pode dizer (05). ambas compartilham os traços (+humano). Segundo Faria. o que já foi comentado no exemplo anterior. b. Uma vez tendo-nos referido à implicação. Ontem à noite. Helena viu aquele deputado na boite. (+singular). Do mesmo modo. A explicação para isso está no plano da própria língua: deputado é hipônimo de homem. Todavia. João bebeu vinho. (03) a. resta falarmos de outro mecanismo lógico: a pressuposição. definida por Faria (1983) nos seguintes termos: “diz-se que uma asserção A1 pressupõe outra asserção A2 se a verdade de A2 for uma condição necessária mas não suficiente da verdade de A1. o agente foi omitido em (02)b. b. quanto à mesma referência de deputado e homem. a afirmação de que a sopa está ótima. b. João bebeu um litro de vinho. A autora dá como exemplos as frases reproduzidas em (07)a e (07)b.

Talvez por isso. O acarretamento. como Ilari & Geraldi (1990). b. a depender do tipo de cão.. c. 1990.) uma oração pressupõe outra quando a verdade e a falsidade da primeira tornam inescapável a verdade da segunda (ILARI & GERALDI. Ilari e Geraldi diferenciam acarretamento e pressuposição nos seguintes termos: uma oração acarreta outra quando a verdade da primeira torna inescapável a verdade da segunda (. c. em virtude da possibilidade de confusão entre implicação e pressuposição. todavia. mas a verdade de (07)b não garante (não é condição suficiente para) a verdade de (07)a. c. em (07)b. traiçoeiros etc. b. Um fator de ordem lingüística interfere nisto: a ausência do adjetivo em (07)b. A quinta tem cães. o que interessa é a existência de cães enquanto gênero. Pedro não bate na mulher. A empregada lavou a louça. mas como atributo. João trabalha no banco (no tempo da enunciação). (09) a. João continua a trabalhar no banco. é um fenômeno semântico mais fraco que a pressuposição. os autores dão como exemplos as frases abaixo. (08) a. capaz de delimitar o substantivo cães. não importando sua qualidade: se selvagens. no passado. pressuposição e acarretamento com base em dois testes propostos por Frege (1978): a negação e a interrogação. só se mantém como pressupostas (08)b e (09)b. b. Todos os cães da quinta são mansos. p. amigos. haja autores. atualmente.(07) a. (07)b pode estar incluída em (07)a. Em virtude do auxiliar e do tempo verbal deste em (08)a. . Na prática. os sentidos de (08)b e (08)c estão incluídos em (08)a. se negarmos (08)a e (09)a. estabelecem que a pressuposição se mantém. João trabalhava no banco (num tempo anterior à enunciação). A empregada só lavou a louça. 42. A verdade de (07)a pressupõe a verdade de (07)b. pois é um tipo de acarretamento forte. Pedro parou de bater na mulher. puro e simples. Assim.. (10) a. pode trazer complicações. Os autores diferenciam. as pistas são lingüísticas para o estabelecimento das relações semânticas. Como vemos. Pedro batia na mulher. Para ilustrar o par pressuposição/acarretamento. Com base neles. A empregada não fez os outros serviços. que preferem estabelecer diferença entre pressuposição/acarretamento strictu senso e implicatura.2 Pressuposição/Implicatura A diferença estabelecida por Faria entre implicação e pressuposição não é tão clara quanto parece. Assim. 61). Deste modo. (09) e (10) são outros exemplos dados pelos autores. b. pois não resiste aos testes.

Todavia. assim se expressam Ilari & Geraldi (1990): Valendo-se do fato de que as informações pressupostas não são passíveis de negação.). tomando como referência Grice (s. Esta finalidade ou direção podem ser estabelecidas desde o princípio ou surgir no decurso da conversa. ativamente. Num sentido quase jurídico do termo. o locutor as utiliza para impor ao seu interlocutor um quadro em que o discurso precisará desenvolver-se. 63). Podem ser relativamente definidas ou de tal forma indefinidas que favorecem ampla margem de liberdade aos participantes. (08)c é um acarretamento. estudioso no qual se baseiam Ilari & Geraldi (1990). O referido princípio abrange certo número de máximas referentes à informação. atualmente. porque a mulher deixou de traí-lo. paralela à pressuposição entre (08)a e (08)b já que o fato de a mulher ter deixado de traí-lo não é motivo para Pedro bater na mulher no passado. Para ele. pelo fim ou rumo aceito de conversa de que você esteja participando. a pressuposição é então utilizada para configurar por trás das informações passadas uma “verdade” que não pode ser contestada sob pena de bloquear o diálogo (1990. p. Isto é o que resume o Princípio de Cooperação. porque a mulher deixou de traí-lo. a pressuposição funciona como um recurso que o locutor. com base nessas considerações. a relação expressa pelos conectivos não atinge jamais estes conteúdos. o que já foi ilustrado pelos exemplos acima: b) como mecanismo de atuação no discurso. nesse enfoque. podemos caracterizá-la como um fenômeno eminentemente discursivo. Retomemos como exemplo (08)a. ao encadearmos orações que transmitem conteúdo pressupostos.d. como fala Ducrot. Antes. Grice formula. um princípio geral que se pressupõe seja observado pelos participantes de uma conversa: dê a contribuição que for exigida em determinada fase. Por isso. Cada um deles nela identifica finalidades comuns ou mesmo uma direção aceita em comum. A inserção da causal não afeta a pressuposição entre (11) e (08)b. a relação causal afeta (08)c: Pedro não bate na mulher. Grice parte do que chama Princípio de Cooperação entre os participantes numa situação comunicativa. uma conversa normal implica um trabalho de cooperação entre os participantes. Em outros termos. emprega para estabelecer limites à conversação e para direcioná-la. de remeter à diferença entre os dois fenômenos.Uma característica marcante da pressuposição é que. no entanto. convém estabelecer em que bases ela é postulada. Sobre este último enfoque. No que tange à implicatura. Os autores chamam a atenção para o fato de que a pressuposição em Lingüística pode ser entendida de duas maneiras: a) como condição de emprego da oração que a pressupõe. a pressuposição pode ter um enfoque lingüístico e discursivo. à verdade. que difere da pressuposição em mais de um ponto. (11) Pedro parou de bater na mulher. à relevância e à clareza. respectivamente máximas de .

a partir da qual se avaliam os “desvios”. Contrariamente às regras lingüísticas em geral. Nela. Podem ser resumidas da seguinte forma: QUANTIDADE Esta máxima diz respeito à quantidade de informação a ser transmitida. Deve-se concluir. Ora. as informações não são pertinentes para a indicação ao emprego pretendido pelo aluno. essas normas implícitas de comportamento verbal são freqüentemente violadas. evite obscuridade de expressão. evite ambigüidades. Prova disto é a existência de mentiras. As máximas constituem mais uma referência teórica e abstrata. não dê uma contribuição mais informativa que o necessário. que compreende duas instruções mais específicas: 1. dá-se o fenômeno da implicatura conversacional. É célebre o exemplo do professor que escreve uma carta de referência sobre seu aluno. isto sem falar da possibilidade de um falante violar determinada máxima de forma intencional. 2. não diga o que acredita ser falso. que são regra na conversação. Esta suposição só se justifica se admitirmos que o missivista quer dizer que o aluno não é bom em Filosofia. seja metódico. subdividindo-se nas quatro instruções seguintes: 1. que o professor quer fornecer informações que não se dispôs a incluir na carta. seja breve. o recomendador afirma ter o candidato perfeito conhecimento da língua materna e ser assíduo às aulas. 2. o que pode acontecer ou não. abrangendo as duas normas seguintes: 1. conseqüentemente. QUALIDADE Nessa categoria se inclui a norma geral de respeito à verdade. Quando acontece. MANEIRA Esta máxima pode ser resumida na fórmula “Seja claro”. com a finalidade de que o ouvinte reconheça tal violação. não diga aquilo de que não tem provas suficientes. de qualidade.quantidade. 4. dê uma contribuição tão informativa quanto necessário (para os fins da conversa). 2. candidato a um emprego na área de Filosofia. de relação e de maneira. de observações irrelevantes no decurso de uma conversação. RELEVÂNCIA Seja relevante. . 3.

podemos afirmar que. embora não dispensem o contexto lingüístico. Admitem um ponto em comum: em algum sentido. Para alguns autores. ou melhor. b) o Princípio da Cooperação e suas máximas. Quando. que fornece as pistas para elas existirem. No processo pelo qual somos levados a compreender um conteúdo pressuposto. não podemos deixar de registrar a ressalva de Ilari & Geraldi (1990). ao passo que as segundas são estranhas a ele (1990. para se poder falar de mensagem implícita na conversação (implicatura).. Podemos tornar ainda mais nítida esta distinção entre pressuposições e implicaturas. embora ambas – implicatura e pressuposição – dependam em algum grau do contexto discursivo. 77). a distinção pressuposição.. como uma construção a posteriori do analista (1990. tanto as implicaturas como as pressuposições não fazem parte do conteúdo assertado. sempre entre outras coisas. c) o contexto lingüístico ou não do enunciado. dizendo que as primeiras fazem parte do sentido literal das frases. este suporte na construção lingüística é muito menos óbvia (. 77).). Afirma o autor que. derivamos implicaturas do discurso do nosso interlocutor ou as impingimos a quem nos ouve.Grice implica o escopo de suas máximas à análise das figuras de linguagem. a estrutura lingüística nos oferece todos os elementos que nos permitem deriva-lo. Todavia. são necessárias as seguintes condições: a) o sentido convencional das palavras usadas. . Todavia. p. a interpretação das frases que nos são dirigidas mobiliza sempre habilidades semelhantes às que levam às implicaturas: interpretar é. p. acarretamento sentido estrito/implicatura é muito mais clara e operacional que aquela estabelecida por Faria (1983) entre implicação e pressuposição. Em suma. a pressuposição é nitidamente presa ao significado literal da frase e é reconhecida conforme testes sobre os quais já fizemos referência. as intenções é que contam e o sentido literal só existe como uma hipótese. d) outros elementos da situação. interpretando casos como metáfora. que defendem o caráter intencional da significação. admitem a diferença seguinte. e) o fato (real ou presumido) de que todos os elementos relevantes dos itens anteriores são conhecidos pelos participantes e que estes sabem ou presumem ser este o caso. As implicaturas são fortemente dependentes do contexto discursivo. em função da violação das máximas. ironia e hipérbole em termos de violação intencional da máxima da qualidade. intenção do falante à parte. paralelo com a eventual identificação das referências feitas. Para nós. reconhecer uma intenção. Ilari & Geraldi (1990) tentam confrontar implicaturas e pressuposições. ao contrário.

) uma mesma conclusão (a que por convenção se denomina R). d) introduzem argumentos alternativos que levam a conclusões diferentes ou opostas: ou. Koch (1992) fornece como exemplo para classe argumentativa o que se segue. mesmo.. ainda.43 A ESCALARIDADE Para o entendimento do fenômeno da escalaridade. inclusive.quer. Dá como exemplo (13). nem (= e não). pois. etc. menos que. além de.. tem-se escala argumentativa. f) introduzem uma justificativa ou explicação relativamente ao enunciado anterior: porque.. também. até mesmo. + forte) p’’ – esteve presente o Presidente da República. .... entre os operadores. 2 – tem experiência no cargo arg.seja. etc. já que. conseqüentemente etc. c) introduzem uma conclusão relativamente a argumentos apresentados em enunciados anteriores: portanto. ou então. p’ – estiveram presentes pessoas influentes nos meios políticos. em decorrência.mas também. b) somam argumentos a favor de uma mesma conclusão (isto é. (13) R: a apresentação foi coroada de sucesso: (arg. 1 – tem boa formação em Economia arg. aqueles que: a) assinalam o argumento mais forte de uma escala orientada no sentido de determinada conclusão: até. com vistas a uma dada conclusão: mais que.. Ligada à noção de escala argumentativa.. seja. etc. por conseguinte. Ducrot (1976) utiliza duas noções importantes: a de escala argumentativa e a de classe argumentativa.. “Uma classe argumentativa é constituída de um conjunto de enunciados que podem igualmente servir de argumento para (. etc.. aparece a noção de operadores argumentativos. quer. que.... Se dois ou mais enunciados de uma classe ostentam gradação crescente no sentido da mesma conclusão.. a par de. não só. o sentido para o qual apontam. logo. 1992. e) estabelecem relações de comparação entre elementos. tanto. p.como.como. . Koch (1992) classifica. p – estiveram presentes personalidades do mundo artístico.. 3 – não se envolve em negociatas classe argumentativa . tão. argumentos que fazem parte de uma mesma classe argumentativa): e. (todos os argumentos têm o mesmo peso para levar o alocutário a concluir R). etc. 30).” (KOCH. pois. (12) João é o melhor candidato (conclusão R) arg.. que designam elementos da gramática de uma língua cuja função é assinalar a força argumentativa dos enunciados..

elegemos alguns exemplos da autora. (16) A equipe da casa não jogou mal. (14) a R: João é o melhor candidato Tem boa formação Tem experiência no cargo Não se envolve em negociatas (15) a R: O rapaz era dotado de grandes ambições Pensava em ser: ? ? prefeito da cidade onde nascera (16) a R – A equipe da casa merecia ganhar ~R – A equipe da casa não merecia ganhar MAS p a equipe da casa não jogou mal q o adversário foi melhor . ainda. contudo. (14) João é o melhor candidato: não só tem boa formação em Economia. no entanto etc).g) contrapõem argumento orientados para conclusões contrárias: mas (porém. (15) O rapaz era dotado de grandes ambições. agora etc. posto que. A autora oferece os seguintes gráficos para os três exemplos acima. apesar de (que) etc. embora (ainda que. h) têm por função introduzir no enunciado conteúdos pressupostos: já. Pensava em ser no mínimo (pelo menos. Na impossibilidade de exemplificar todos os casos. ao menos) prefeito da cidade onde nascera.). todavia. mas o adversário foi melhor e mereceu ganhar o jogo. mas também tem experiência no cargo e não se envolve em negociatas.

O que os unifica? Até que ponto a abrangência pretendida por Pottier (1978) é válida? 8. conclusões que o locutor deseja passar para o seu interlocutor. . mas assinalando a direção argumentativa para que apontam. anáfora e tipos de informação? 11. 6. Em resumo. que se situam acima. Argumente favoravelmente ou contrariamente às duas noções de pressuposição resenhadas neste capítulo. 7. Mostre de que maneira o sentido é afetado pela situação. 13. Assim. O contexto. em graus diversos. você acha que a modalidade está expressa pelo verbo? Pense em exemplos como Maria sorri talvez. Dê exemplos em português de como o tipo de modalidade implica a escolha dos modos. não é um fenômeno estanque: guarda vínculo com o da pressuposição. Maria provavelmente sorri. Associe pronomes demonstrativos e advérbios de lugar. o fenômeno escalar mostra uma maneira não-formalista de abordar os mais diversos tipos de oração. com o conhecimento de mundo que tem. embora não constitua o sentido. Preencher os espaços escalares é tarefa para o interlocutor. 12. 3. Diferencie as duas noções de pressuposição. Defina dêixis e indique em português seus grandes tipos.A escalaridade é um fenômeno que tem íntima relação com o discurso argumentativo. De que modo a categoria de pessoa é uma categoria dêitica. 10. O uso correto e apropriado dos operadores favorece. não apenas estabelecendo os elos semânticos entre as mesmas. A formulação modal abrange diversos fenômenos semânticos. 4. Discuta: a terceira pessoa é não-dêitica. mencionando os componentes desta. 5. determina este. 2. estamos pressupondo outros termos escalares. 9. Como vemos. Por que a determinação está ligada a fenômenos tão diversos como formulação modal. mostrando que podem ser reunidos sob um só rótulo. Maria certamente sorri. uma adotada por Faria (1983) e a outra adotada por Ilari & Geraldi (1990). Numa frase como Maria sorri. Diferencie e aproxime implicatura de pressuposição. Discuta: a terceira pessoa é não-pessoa. quando dizemos (15). Exercícios de reflexão 1.

. mas o povo compareceu em massa ao comício. Verifique os aspectos escalares das frases abaixo. f) Embora o Presidente tenha envidado o máximo esforço. c) Nem José. b) Tanto o Presidente quanto simples vereadores compareceram à grande solenidade de inauguração do Metrô. h) A ambição política de João não tinha limites. a) Mesmo o Presidente compareceu à grande solenidade de inauguração do Metrô. g) Choveu e até trovejou ameaçadoramente. d) Até José.14. Ansiava ser Governador. meu amigo. no mínimo. esteve comigo na hora em que eu precisava. representando-as graficamente. esteve comigo na hora em que eu precisava. e) O caso era gravíssimo para que eu me desse o luxo da abstenção. o dólar não baixou. meu desafeto.

BECHARA. universales. 1981. O homem e sua linguagem. São Paulo: Perspectiva. J.d. (s. Aspectos da teoria da sintaxe. 1979. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico. Coimbra: Armênio Amado.). 1984. L. _____. E. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos. 1989. As formas do conteúdo. Rio de Janeiro: Lucerna. Madrid: Gredos. ECO. M. N. 1979. _____. C. 1999. 1991. _____. 1978. A enunciação. Sobre a diversidade da gramática de casos. (Org. Madrid: Gredos. BARBOSA. BRÉAL.). M. 1933. 1986. Princípios de semântica estructural. CHAFE. _____. A. produção e criatividade: processos do neologismo. São Paulo: EDUSP. São Paulo: Ática. In: NEVES. Rio de Janeiro: Presença. CARVALHO. 1977. BIDERMANN. Moderna gramática portuguesa. Lisboa: Presença. CAMARA JR. Semiótica e filosofia da linguagem. O signo. BILAC. Lições de lingüística geral. Traité de stylistique française. Gramática de Casos. _____. 1978. Poesias. M. 1980. BARBOSA.d. 1992. 1974. São Paulo: Perspectiva. M. L. Gramática. 1977. J. (s. Araraquara: Editora da UNESP. de M. Rio de Janeiro: Livro Técnicos e Científicos. Teoria lingüística. Significado e estrutura lingüística. OLAVO. 1978. Campinas: Pontes.A. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico. E. 1951. 1992. Language. Rio de Janeiro: São José. Conceito de texto. _____. H. BLOOMFIELD. New York: Henry Holt Company. Léxico. B. Curso de tupi antigo. BENVENISTE. E. U. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. São Paulo: Global. Tratado geral de semiótica. W. Paris: Klincksieck. de. São Paulo: Editora da PUC-SP. M. 1987. M. . CHOMSKY. CERVONI. 1991. A natureza dos pronomes. São Paulo: Ática. C. Problemas de Lingüística Geral I. Ensaio de semântica. 1986. _____. São Paulo: Ática. semántica. T. COSERIU. Dicionário contemporâneo da língua portuguesa. _____.).REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BALLY. Contribuição à estilística portuguesa.

M. Enunciação e interação verbal. Preparação à lingüística românica. 1943. In: LOBATO. T. ILARI. PÉCORA. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico. P. al. 1973. 1975. Em favor do caso. C. Coimbra: Almedina. DUCROT. 1976. . al. et al. (Orgs). Literatura comentada: Caetano Veloso. 1980. 1971. S. Elementos de análise do discurso. Introducción a la semántica. J. GUIBERT.d. São Paulo: Nova Cultural. Madrid: Gredos. Some problems for case grammar. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. e A. de H. In: COLE. e SADOCK. O. J. Rio de Janeiro: F. L. M. I. São Paulo: Ática. _____. Campinas: Ed. HJELMSLEV. (Org. A semântica. FILLMORE. Lógica e filosofia da linguagem. Fundamentos metodológicos da lingüística. A. et. GUIMARÃES. (s. 4. São Paulo: Perspectiva. Coesão e coerência textuais. L. Madrid: Cátedra. 1977.P. L. GONZÁLEZ. São Paulo: Ática. 1975. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1990. FUCHS. MATEUS. J. FIORIN. H. GECKELER. A. R. 1983. FREGE. F. In: MONOGRAPH series on languages and linguistics. R. J. 1978. C. P. São Paulo: DIFEL. A. 1992. FERREIRA. São Paulo: Cultrix. New York: Academic Press. Lingüística românica. 1978. Princípios de semântica lingüística. São Paulo: Cultrix. H. Paris: Presses Universitaires de France. A. 1984. G. La créativité lexicale. 1977. Semântica estrutural. Madrid: Gredos. P. São Paulo: Contexto. The case of case reopened. FRANCHETTI. Ensayos linguisticos. v. L. 1979. 1975. A articulação do texto. GREIMAS. v. B. DUBOIS. L. v. _____.ELIA. São Paulo: Cultix. A semântica na lingüistica moderna: o léxico. FARIA. do Autor. 24. H. Semântica estructural y teoria del campo léxico. 1991. E. Alves. 1989. Paris: Larousse. Gramática da língua portuguesa. FÁVERO. São Paulo: Ática. L. Lógica e conversação. _____. M. et. GUIRAUD. GRICE. Dicionário de lingüística. 1982. 1988. La paraphrase.).). P. Syntax and semantics. Novo dicionário da língua portuguesa. M. DASCAL. 8. 1977. São Paulo: Cultrix. S.. H.

Rio de Janeiro: Zahar editors. Lisboa: Edições 70. São Paulo: EDUSP. Rio de Janeiro: F.S. M. A semântica na lingüística moderna: o léxico. Iniciação à semântica. M. In: LOBATO. E. P. Introdução à semântica.J.M. OGDEN. São Paulo: Nacional. . &GERALDI. A. e I. 1979. Lisboa: Presença. Rio de Janeiro: Zahar Editores. Lingüística geral: teoria e descrição.d. J. Campinas: Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP. Semântica. Teoria semântica. (s. In: DASCAL M. 1992. 1992. K. LYONS. L.A.). 1992. A. São Paulo: Ática. (s. A semântica na linguistica moderna: o léxico. Semântica. 1995. São Paulo: Contexto. 1990. 1989. Ingedore Villaça. MARQUES. Princípios fundamentais de história da língua. Introdução à lingüística teórica. (s. FODOR. Fundamentos da lingüística contemporânea.) Semântica. 1984.d. Análise sintática: teoria e aplicação. KOCH. Linguistique historique et linguistique générale. RICHARDS.J. Alves. F. R.). Rio de Janeiro: F.W. H.).d. 1977. 1965. N. (s. KEMPSON. _____. M. POTTIER. J.d. _____. LEMLE.A. PALMER. São Paulo: Cultrix. (Org. São Paulo: Ática. C. Lisboa: Calouste Gulbenkian. 1978. R.). _____. Paris: Klincksieck. B. Rio de Janeiro: Presença. 1972. com a colaboração de professores e alunos do departamento de lingüística. 1989. In: LOBATO.).d. Alvez. KATZ.P. Estrutura de teoria semântica. MARTINS. São Paulo: cultrix. J. (s. MEILLET. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Ática.H. _____. PAUL. LOPES. 1982. Semântica I. 2001. Lingüística e comunicação. Edição financiada pelo organizador. ILARI. Teoria Semântica. Paris: Presses Universitaires de France.D. Coesão textual. R. Sémantique générale. R. São Paulo: Contexto. Gramática descritiva do português. M. 1990. e J. 1977. J. JAKOBSON._____. PERINI. O escopo da semântica. L. Introdução à estilística. KATZ. O significado de significado. São Paulo: Contexto. Rio de Janeiro: Zahar Editores.

Problemas e métodos da lingüística. 1998. Barcelona: Barral. W. (s. 1951. TESNIÈRE. Paris: Klincksieck. 1980. Le langage. 1994.RECTOR. 1959. Manual de semântica.). Coimba: Almedina. M. _____. pensamiento y realidad. VILELA. . 1994. Lenguaje. Coimbra. e S. J. Lisboa: Calouste Gulbenkian. de. von. S. Formação de palavras em português: aspectos da construção de avaliativos. & YUNES. L. L. São Paulo: Cultrix. Paris: Berne. de O. Élément de syntaxe structurale. Estruturas léxicas do português. M. 1977.d. M. L. ROCHA. Belo Horizonte: Editora da UFMG. The principles of semantics. SAUSSURE. B. VENDRYÈS. (Tese de Doutorado inédita). F. Estudos de lexicologia do português. Semântica: uma introdução à ciência do significado. Coimbra: Almedina. ULLMANN. 1975. WARTBURG. 1993. _____. C. RIO-TORTO. Estruturas morfológicas do português. G. 1950. São Paulo: DIFEL. 1971. de A. WHORF. Glasgow: Jackson. Curso de lingüística geral. Son & Co. E. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico.