Literatura

Infantil

Autora
Marta Morais da Costa

2008

© 2006 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor
dos direitos autorais.

C837

Costa, Marta Morais da. / Literatura Infantil. / Marta Morais
da Costa. — Curitiba : IESDE Brasil S.A. , 2008.
120 p.

ISBN: 85-7638-417-5

1. Literatura infanto-juvenil. I. Título.
CDD 809.89

Todos os direitos reservados.
IESDE Brasil S.A.
Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482 • Batel
80730-200 • Curitiba • PR
www.iesde.com.br

Sumário
Literatura, leitura e aprendizagem........................................................................................5
Conjunto de elementos gramaticais..........................................................................................................7
Repositório de mensagens e informações.................................................................................................7
Decodificação...........................................................................................................................................8
Avaliação..................................................................................................................................................8
A integração em uma concepção autoritária de leitura.............................................................................9

A concepção escolar da leitura..............................................................................................13
O professor-leitor..................................................................................................................19
A formação do leitor ............................................................................................................27
A construção do sentido do texto..........................................................................................35
A leitura como responsabilidade social.................................................................................41
A contação de histórias.........................................................................................................47
Tipologia textual...................................................................................................................53
O jornal em sala de aula........................................................................................................59
História da Literatura Infantil...............................................................................................65
História da Literatura Infantil no Brasil................................................................................71
Tipologia dos textos literários: poesia infantil......................................................................77
Tipologia dos textos literários: as narrativas de tradição – I.................................................85
Tipologia dos textos literários: as narrativas de tradição – II...............................................89
Outras formas narrativas.......................................................................................................95
Projetos de leitura na escola..................................................................................................103
A biblioteca escolar...............................................................................................................109
A avaliação dos projetos de formação de leitores . ..............................................................115

Literatura, leitura
e aprendizagem
Itens a serem abordados
Funções da leitura
O papel do leitor
Concepções de leitura
O texto como conjunto de elementos gramaticais
O texto como repositório de mensagens e informações
A leitura como decodificação
A leitura como avaliação
A integração em uma concepção autoritária de leitura.
O que significa ler, em um país de poucos leitores?
Qual o valor da leitura para os habitantes deste país?

H

Que dificuldades se apresentam ao candidato a leitor?
á facilidades que permitam um envolvimento mais rápido com as tarefas da leitura?

São muitas as questões que afetam o tema da leitura em um país de educação problemática
como o Brasil. Os professores, encarregados da formação de leitores, atividade que atravessa todos os
níveis da escolaridade, trabalham sob o peso dessas muitas perguntas, algumas de resposta incompleta
outras ainda sem resposta.
Quando afirmamos que a formação do leitor atravessa todos os níveis do sistema escolar brasileiro,
estamos responsabilizando todos os agentes envolvidos com a escola, desde o ajudante de cozinha, o
faxineiro, a secretária, a supervisora, a direção, os estudantes e todos os docentes, independentemente de sua
formação – do professor de Português ao de Matemática, do professor de Artes ao de Educação Física.
Pensando nesse envolvimento de todo o corpo escolar com a promoção da leitura, chegamos
a uma primeira abordagem, de ordem reflexiva: que funções são atribuídas à leitura pelas pessoas
quando pensam nessa matéria?
Experimente indagar a colegas, parentes, vizinhos, aos pais de seus alunos e aos estudantes: para
que serve a leitura? As respostas darão a você um melhor panorama das expectativas que a sociedade
alimenta a respeito do assunto. Com esses dados, você poderá organizar melhor sua atuação docente
e prever problemas no encaminhamento da formação do aluno-leitor.
Você receberá como resposta desde a crença de que a leitura instrui, informa, leva ao conhecimento,
até aquelas de ordem prática, como, por exemplo, “a leitura torna-me independente, pois posso saber
das coisas sem precisar do auxílio de outros”, ou “a leitura permite-me sair da situação de pobreza,
porque posso conseguir um trabalho melhor”, ou, ainda, “a leitura me dá segurança”, ou “permite

Literatura Infantil

me relacionar melhor com os outros”. Provavelmente, nenhuma resposta trará um
valor negativo, descartável, de repulsa à leitura. As pessoas podem alegar que ela
é difícil, chata, demorada, mas jamais acusarão seus professores de lhes terem
ensinado o supérfluo quando foram alfabetizados, isto é, quando foram, mesmo
que minimamente, credenciados para ler.
Desde que nós, professores, passamos a ter certeza do valor da leitura para os
mais diversos sujeitos receptores, investir na boa qualidade da formação dos leitores
é apenas uma conseqüência. Então, vamos avaliar, neste módulo, os diferentes
aspectos da leitura para que, conhecendo o campo de atuação profissional, possamos
desenvolver melhor, e com melhores frutos, o trabalho docente.
Segundo Célia Abicalil Belmiro, é possível resumir um pensamento sobre
as funções e o papel do leitor comforme abaixo:
[...] a leitura será mediadora das relações entre o aluno e o mundo e, a partir dela, ele poderá
interferir na realidade e reconstruí-la. Dessa forma, a idéia de ferramenta, como objeto que
permite agir sobre o mundo, é transportada para a leitura como instrumento, recurso para a
expressão e, como tal, basta dominar seu código já que sua técnica é superada pela perspectiva
da leitura como um modo de organizar e constituir o conhecimento, estando a serviço, pois,
da construção de um mundo de referências que dão sentido à existência humana. A atividade
de leitura é posta como um ato político.
Dessa forma, fica clara qual é a função que o leitor pode e deve assumir na relação com o
conhecimento: na medida mesma em que o leitor suposto pelo autor interfere no ato de produzir textos,
o ato de leitura envolve um conjunto de histórias de leituras do texto e do leitor, apontando para
o ineditismo de sentidos renovados. (apud EVANGELISTA et al., 1999, p. 121-122).

Por muito tempo, a função do leitor reduzia-se a interpretar uma suposta vontade
expressa pelo autor no texto sob análise. Era muito freqüente na escola a pergunta: “O
que o autor quis dizer neste texto?” Hoje, as teorias da recepção de textos deslocam
a importância do papel exercido pelo sentido e o significado do texto para o receptor,
isto é, o leitor. Considera-se que um livro fechado não existe, não tem vida. Quem
lhe dá força e sobrevivência é a leitura, ação praticada por um leitor. Dessa forma,
o leitor deixa de ocupar um papel secundário, subordinado à vontade do autor e/ou
do texto, para ocupar o papel principal de fonte de sentidos. Um texto que não pode
ser compreendido também não existe. E as palavras de um texto vão recebendo os
sentidos que um leitor, motivado por elas, atribui a essas palavras. Mais ainda, os
recentes estudos de Lingüística e da Análise do Discurso afirmam que os significados
das palavras são flutuantes e variáveis: dependem do contexto cultural e pessoal, das
palavras que compõem o restante do texto, da experiência de vida e leitura do leitor e
assim por diante. O resultado é que o sentido flutua e, ao ler, o sujeito leitor projeta,
sobre a materialidade das palavras, significados que se alteram de leitor para leitor
– nem sempre com muita diferença, mas sempre com nuances, pequenas distinções,
frutos da individualidade de cada leitor.
Essa nova posição teórica vem alterar substancialmente o trabalho escolar
com a leitura, que passa a valorizar muito mais a força e a capacidade do leitor
para construir sentidos diferenciados para os textos que lê.
Experimente ler o mesmo texto em diferentes situações de sala de aula. Ou em
diferentes momentos do ano. Ou em anos diferentes. O texto será o mesmo, mas as
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pois um texto é muito mais do que um conjunto de fatos gramaticais: ele visa a comunicar idéias. desestimulando-o para a leitura. repositório de mensagens e informações. instigantes e polêmicas perguntas sobre diferentes perspectivas do texto para que os alunos possam exercitar sua capacidade de compreensão.. veiculadas pelas palavras. embora pareçam ser” (ORLANDI. fatalmente. p. cabe ao leitor selecionar os sentidos a partir de sua experiência com as palavras e montar um conjunto coerente que produza a interpretação que satisfaça aos objetivos colocados no início da leitura. avaliação. diferentes.. da visão de mundo expressa e. Podemos entender. o professor “utiliza o texto para desenvolver uma série de atividades gramaticais. para isso. Cumpre lembrar. ela contribui para o desinteresse do leitor. frases e orações. registrar acontecimentos ou pensamentos. de uma leitura significativa para o aluno ficam perdidas. Embora o livro didático se sirva com freqüência dessa concepção. Conjunto de elementos gramaticais Neste caso. decodificação. analisando. É diferente buscar um sentido quando se é obrigado a extrair do texto palavras isoladas (adjetivos. uma a uma. [. provocar efeitos no leitor. que o professor deve ter clareza quanto à concepção de texto que o leva a perguntas e a exercícios de leitura. O trabalho do leitor seria buscar o sentido das palavras. Repositório de mensagens e informações Ângela Kleiman critica uma concepção muito freqüente no trabalho com a leitura: a de que o texto é um depósito de informações. que qualquer texto tem um sentido em aberto. Vitalidade porque há uma permanente renovação na leitura de textos. leitura e aprendizagem interpretações de um mesmo leitor serão.. não são evidentes. conseqüentemente. para chegar cumulativamente à mensagem. Diz Eni Orlandi que “[. ainda.Literatura. p. uma vez que a compreensão dos sentidos gerais. o que determina a dinâmica no processo de leitura e a impossibilidade de declarar que uma interpretação é definitiva e/ou fechada. 7 . Ângela Kleiman (2000. uma fragmentação e um desvio de função.” Há um isolamento do texto.. 17-23) quatro delas: o texto como conjunto de elementos gramaticais. Esse simples teste comprova a mobilidade dos sentidos e a vitalidade dos textos. a língua enquanto um conjunto de classes e funções gramaticais.] os sentidos não se fecham. 9). por exemplo) ou quando o aluno procura satisfazer perguntas de respostas óbvias como “Quantos porquinhos o Lobo Mau comeu?” “Por que a história se intitula O Gato de Botas?” e assim por diante. 1996. Cabe ao professor promover diferentes.] a linguagem é sempre passível de equívoco. pois.

Avaliação Igualmente negativa é a atitude de transformar a leitura. principalmente aquela em voz alta. porque consegue trabalhar somente com partes e fragmentos. isto é. E o professor erra ainda mais ao deixar de investigar com maior profundidade o pensamento expresso no texto. sem antes promover a compreensão do texto autoral. pobre e desestimulante. a listagem de palavras sem concatenação. o professor transfere ao aluno a capacidade de opinar: sem que o estudante tenha sequer compreendido o texto. portanto. A linguagem não funciona dessa maneira isolada: ela é associativa. Por isso. “Resumos. a de avaliar se o aluno realmente leu silenciosamente o texto indicado. Essa atividade em nada modifica a visão de mundo do aluno – sendo. diz Ângela Kleiman (2000. Outra finalidade. um leitor insatisfeito. Em lugar desse questionamento. de incentivar a leitura. Para atingir o cumprimento dessa tarefa o aluno deve. Decodificação Ângela Kleiman (2000) descreve essa atividade como “uma série de automatismos de identificação e pareamento das palavras do texto com as palavras idênticas. à procura de trechos que repitam o material já decodificado da pergunta. 23). em forma de avaliação de compreensão ou. Substituir aquela palavra escolhida pelo autor por um sinônimo. Essa atitude tem tudo para produzir um leitor passivo. o posicionamento crítico. vai contra essa conscientização. numa pergunta ou comentário”. 20). por meio de uma prova ou questionário. fica muito distante da boa intenção de formar o leitor. Ela é apenas um dicionário. responder a uma pergunta sobre alguma informação do texto: o leitor precisa somente de um passar de olhos pelo texto. já está o professor a perguntar-lhe a opinião. A autora adverte: Parte constitutiva do ensino de leitura consiste em conscientizar o aluno da intencionalidade do autor. 8 . mais que isso. refletida na escolha das palavras.Literatura Infantil Tanto a pergunta “Qual é a mensagem do texto?” quanto a ordem “Vamos ler palavra por palavra para depois interpretar” são equivocadas do ponto de vista teórico. sem coesão. mesmo. da perfeita ou imperfeita evolução na dicção das palavras. p. evite sair falando em “minha leitura”. acomodado e. p. A solicitação de sinônimos e antônimos descontextualizados configura a imagem desvalorizada do texto. a concordância ou discordância com o autor. “porque é minha leitura”. relatórios e preenchimentos de fichas (representam) uma redução da atividade a uma avaliação desmotivadora”. porque se descobre incapaz de chegar ao todo da significação do texto. (2000. que mais ou menos mantém o sentido original tencionado. por exemplo. uma rede de sentidos.

segundo Kleiman (2000). A integração em uma concepção autoritária de leitura As quatro funções criadas pela escola para justificar o trabalho com a leitura produzem enganos sérios. para compará-lo com o de outros autores. isto é. O importante. para sua vida. a crença de que o texto se reduz ao conhecimento do vocabulário. tem uma intencionalidade. para relacionar o texto lido com outros. de leitores capazes de ler para informar. age negativamente sobre o aluno e impede que o texto seja significativo para ele. oral ou escrito. confrontando os objetivos e intenções do autor com seus próprios objetivos e intenções. leitura e aprendizagem A leitura medida por páginas. Primeiramnte. para sua aprendizagem. Visa a informar. o aluno deve ser exposto a textos reais (e não artificialmente construídos. apreciar e refletir sobre o conteúdo. para enfatizarem “um problema de ordem gramatical” ou “temático”). para criticar aspectos do texto ou da realidade que retrata etc. é ter em mente que qualquer texto. a estrutura textual ou os recursos de linguagem utilizados. realizada sem objetivos. p. É essa visão alargada da leitura que iremos adotar. a de que o professor produz uma leitura “autorizada”. para estudar e entender o ponto de vista de um autor. para fruir. Em terceiro. para atender à ordem do professor ou à cobrança. que Se o objetivo do trabalho com a leitura de textos é a constituição de leitores com uma gama variada de habilidades de leitura. a crença de que há apenas uma maneira de abordar o texto e somente uma interpretação. a influenciar o interlocutor e somente o fará na medida em que o leitor possa interagir com ele. Em segundo lugar. com Maria Bernadete Abaurre. para buscar e construir novos conhecimentos. a única verdadeira. 9 . (ABAURRE et al.Literatura. 1998.. Podemos concluir. 10). a persuadir..

Verifique se você age conforme alguns dos itens mencionados no texto da aula e procure repensar sua prática docente.Literatura Infantil 1. Entreviste alunos e a comunidade para saber quais são as expectativas em relação à leitura e que funções ela pode cumprir na vida de cada um. Registre suas conclusões. Registre suas conclusões. Proceda a um exame de suas crenças e/ou superstições a respeito da leitura. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. ____________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 10 .

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Avaliação de cartilhas e livros didáticos: pergun­tas a formular. 1998. n. . Interpretação: autoria. BRANDÃO. MA­CHADO.. 31. 1999. Oficina de Leitura: teoria e prática. Leitura: teoria & prática. KLEIMAN.ABAURRE. Heliana Maria B. Maria Zélia V. A Escolarização da Leitura Literária: o jogo do livro infantil e juvenil. jun. ORLANDI. ed. 10. Ângela. EVANGELISTA. (Org. Maria Bernardete et al. 7. 2000. Campinas: Unicamp/Pontes.).. leitura e efeitos do trabalho simbólico. p. Petrópolis: Vozes. Aracy Alves M. Belo Horizonte: Autêntica. Campi­nas. Eni. 1996.

à escola. aperfeiçoa-se ao longo da vida e pode mantê-la conectada a toda produção do pensar. sociológicos. que a constituem como sujeito e como participante de relações com outros sujeitos.A concepção escolar da leitura Itens a serem abordados A atuação da escola na questão da leitura A alfabetização como fator de formação de leitores O livro didático enquanto empecilho para a formação de leitores Caráter transdisciplinar da leitura A responsabilidade pela aprendizagem da língua portuguesa escrita foi atribuída. ela realiza. A iniciação da criança nas habilidades de leitura abre-lhe portas para o conhecimento. (apud Colomer. período em que nasce a escola burguesa que herdamos. O conceito de alfabetização ampliou-se de “mera capacidade de firmar ou de ler uma mensagem simples”. [guarda] as marcas da história da sua constituição. sociais. Por essas razões. enquanto leitor. para a obtenção de uma melhor comunicação e interação com os demais membros da comunidade em que se insere. pela origem regional. para “leitura de novo material e recopilação de novas informações a partir de um material”. 2002. a escola tem alfabetizado o povo brasileiro em sua maioria: ficam fora das estatísticas os atuais 9% de analfabetos do Brasil e as crianças alfabetizadas em casa. 16). pelo contato maior ou menor com a escrita. já conhece algumas regras básicas da linguagem. psíquicos. pela sociedade. Portanto. mas alguns cuidados podem facilitar a aprendizagem e auxiliar a formação de leitores competentes. produto do trabalho de sujeitos sócio-histórico-culturalmente marcados. Camps. que vem cumprindo esse papel em especial após o Iluminismo (séc. XVIII). filosóficos. adquirida nas trocas que. A atuação da escola na formação de leitores de primeiras letras pode resultar acréscimo significativo de valores humanos. p. agir e criar realizada pela humanidade e registrada em formato de textos escritos. Com maior ou menor eficácia. O professor sabe que: A língua. a necessidade de realizar uma alfabetização eficaz torna-se imperativo educacional. econômicos. pela própria subjetividade) e que . pela família. científicos. visíveis nas variedades lingüísticas que convivem no espaço (variedades marcadas pela classe/ grupo social. conforme Resnick e Resnick. A competência de leitura. Já domina intuitivamente uma série de normas e procedimentos lingüísticos que a auxiliarão a penetrar no reino das palavras em sua representação escrita. A criança já traz para o ambiente escolar a consciência da importância do desempenho lingüístico oral. A força dessa aprendizagem constrói consciência e atitudes eficazes ao longo da vida. do qual a escola não pode fugir. artísticos e tantos outros. São inúmeras as circunstâncias que interferem no cumprimento desse objetivo.

muitas vezes sem o devido apoio teórico. a leitura de textos escritos por outros tem determinações semelhantes. A capacidade de adequação é condição inerente ao falante inteligente e eficaz. A alfabetização levará em conta. Também é por demais conhecida a padronização das informações e exercícios. a criança deve “dominar o código da escrita.. sociais e regionais. 1998. Além do mais.. comicidade rasteira. saberes a aprender. Isto é. portanto. “representa a linguagem sem ser dela transcrição”. será tão mais competente quanto mais habilidoso em distinguir onde. seja ela qual for. Sobre eles recai a crítica da padronização e da facilitação. textos ficcionais e poéticos.Literatura Infantil se sucedem no tempo (variedades diacrônicas. uma vez que são criados e executados para atender crianças-padrão. em uma predileção por jogos e brincadeiras que deixam em segundo plano a aprendizagem mais sistemática e científica. A leitura não pode ser cartilhesca. utilizando os livros didáticos. ainda segundo os mesmos autores. Essa concepção lúdica transfere-se para os textos paradidáticos. sem levar em conta as diferenças individuais. Assim como para aprender a produzir textos. lugares de trabalho. personagens estereotipados. 1998. o falante de uma modalidade de língua. Em conseqüência. competências a 14 . p. se compara a linguagem usada pelas gerações mais velhas com a linguagem dos jovens). quando e de que maneira poderá servir-se dessa ou de outra qualquer modalidade. É nessa diversidade e mobilidade da língua. com muita ilustração redundante e explicativa. e que se pode encontrar convivendo no mesmo espaço. 5-26). p. quando. grau. segundo os autores.) que determinam um tratamento escolar específico (horários. esses textos assumem um tom cartilhesco de textos curtos.] a escola é uma instituição em que o fluxo das tarefas e das ações é ordenado através de procedimentos formalizados de ensino e de organização dos alunos em categorias (idade. série.. por exemplo. ter o que dizer. Essa perspectiva restritiva da leitura literária é perturbada. embora esteja ligada ao oral. natureza e volume de trabalho. É muito freqüente o professor de séries iniciais servir-se de textos alheios. marcas da variação da linguagem na linha do tempo. pela limitação própria do sistema escolar porque [. a escrita apresenta-se com leis próprias. que devem ser exercidas e exercitadas para que a aprendizagem se concretize. paradidáticos.. 22). a variedade da língua oral e escrita como princípio básico de aprendizagem e desempenho. tipo de problema etc. ainda. (ABAURRE et al. isto é. e ter claro um interlocutor” (ABAURRE et al. construídas como narrativas primárias que nada dizem ao imaginário infantil nem respondem às expectativas desse público. em total desacordo com a potencial curiosidade e o desejo de renovação inerentes ao modo de ser infantil. ter razões para dizer. com destinatário evidente e definido: a criança. que tem uma construção fragmentada. que se dará sua iniciação na representação escrita que. em que a criança já se encontra inserida. de frases sem coerência e sem sentido. em especial para a produção denominada Literatura Infantil – na maioria. exercida sobre textos construídos com a finalidade de servir de apoio a atividades e exercícios de língua.

). “a incultura da escrita – o desconhecimento tanto do que ela produz e transforma. uma vez que. mas um crescimento assustador nos índices de analfabetismo funcional. 1998. uma vez que buscam criar uma nova visão do trabalho com os textos. p. pela ordenação e seqüenciação desses conteúdos. p. modos de ensinar e de aprender. Atualmente. (SOARES. a criação artificial de ídolos semi-alfabetizados. analfabeto ou alfabetizado ágil – para que eles sejam tão resignados com que as coisas continuem como estão. o literário e o científico. é o processo que a institui e a constitui. nada por criar de diferente. p. em poucos anos. sobre técnicas de leitura. Continua Foucambert. Essa situação define-se como iletramento. desde a formação deficiente no período escolar. políticas equivocadas de incentivo à leitura e muitos outros. É a esse inevitável processo – ordenação de tarefas e ações. pelo modo de ensinar e de fazer aprender esses conteúdos – é a esse processo que se chama escolarização. o desinteresse pela leitura na sociedade (causado sobretudo pelo desprestígio da escrita e do magistério). há um avanço na escolaridade universalizada. isto é. A presença da literatura entre as tarefas da escola produz um contínuo questionamento a respeito de estratégias para levar os alunos aos textos. desempenho e satisfação no que se refere à literatura. e conseqüente exclusão de conteúdos. da capacidade do leitor/escritor para “fazer até mesmo uma simples correspondência entre o oral e o escrito” (FOUCAMBERT. isto é. por outro a escola mostra-se o ambiente de trabalho propício para o desenvolvimento de competências de leitura. de que não há nada por compreender. Fatores diversos podem ser apontados. processo inevitável. próprio da literatura. encarecendo demasiadamente o livro. procedimentos formalizados de ensino. 13). processos de avaliação e de seleção etc. a baixa escolaridade. os professores se preocupam em descobrir modos de incentivar a leitura. Se. porque é da essência mesma da escola. nada por mudar. 12). como dos meios de ter acesso a ela e dela participar” (FOUCAMBERT. “sua motivação é quase sempre uma insatisfação. a onipresença do computador. operário ou professor. nada por buscar do outro lado do espelho para que o mundo se transforme? O “ato da leitura”. a concorrência entre a leitura e todos os meios de comunicação de massa. diversidade dos textos escritos e desenvolvimento de estreitas relações de curiosidade. 21). muito além das técnicas de alfabetização. um desequilíbrio provocado por causas inerentes à natureza humana 15 .A concepção escolar da leitura adquirir. buscando explicar o porquê do iletramento disseminado na sociedade: O que se faz aos indivíduos – criança ou adulto. diz Robert Escarpit. Jean Foucambert localiza o problema da sociedade contemporânea mais no iletramento do que no analfabetismo. pelo menos nos países industrializados. que vão desde o texto mais simples (cartilhesco) até o mais complexo. a desvinculação criada entre o diploma e o sucesso em diversas carreiras. tratamento peculiar dos saberes pela seleção. 1999. 1998. tão persuadidos de que elas não poderiam ser diferentes. por um lado. a escolarização da Literatura Infantil rouba-lhe o caráter contestador e libertário. Os índices de analfabetismo funcional têm crescido rapidamente no Brasil. na perda. o preço do papel e dos insumos necessários à impressão.

dos mais informatizados aos mais estreitamente dependentes da tecnologia do livro. Dessa forma. na educação contemporânea. p.”(FOUCAMBERT. faz sobressair a importância da atuação do professor para auxiliar a criação de uma sociedade diferente e menos resignada. Em suma. Essa explicação. Ivani Fazenda). foi defendido pelos mais importantes educadores do século XX (Paulo Freire. p. a Psicologia. da necessidade de fazer interagirem as diferentes áreas do conhecimento. “através” e “além” e dissolve-se em seu objeto. ódio. portanto). que atravessa todas as demais. fragilidade da existência) pelo confronto entre indivíduos (amor. passando-se. podemos definir assim a postura transdisciplinar: Novos espaços de conhecimento são gerados. 55). Vigotsky. 16 . A História. Mas o solo epistemológico comum a todos esses conhecimentos encontra-se na leitura. miséria. envolvendo todos os parceiros do sistema. ele é um recurso contra o absurdo da condição humana. medo do futuro. Tem determinado comportamentos e atividades. a Filosofia. Segundo Celani. a Gestão de Negócios. assim. Não importa qual o suporte que a veicula (o livro. Estão. em especial o escolar. a Medicina. A transdisciplinaridade realiza-se em uma problemática “transversal”.Literatura Infantil (brevidade. a leitura é entendida enquanto uma atividade de construção de sentido (hermenêutica. Daí que a leitura se converta em uma disciplina nova. Esse processo. ao longo dos últimos anos. tédio). piedade) ou pelas estruturas sociais (opressão. 133). a Arquitetura. uma transdisciplina. os textos culturais não-verbais). à interação das metodologias. a Administração. na busca por melhorar e aperfeiçoar o conhecimento e as práticas educativas. o hipertexto. o que a configura como uma prática transdisciplinar. 1998. portanto. a Literatura. todos os campos do saber. a Educação. Muito tem-se falado. 1999. todos eles têm na leitura a forma de aprender a refletir e conhecer. indissoluvelmente ligados pela interpretação e pelo atuante papel do leitor. que se baseia em uma interpretação socioideológica da leitura. Emília Ferrero. Desloca o foco de um trabalho de formação do leitor de esquemas de alfabetização para exercícios e vivências de letramento. o Direito – enfim. denominado interdisciplinaridade. da interação das disciplinas à interação dos conceitos e. um novo campo do saber científico. que mantém unidas e coesas todas as ciências e todo o sistema que delas trata. daí. a Informática. a transdisciplinaridade converteu-se no fio que enlaça e dá solidez ao conhecimento. (CELANI.

Registre aqui o que encontrou.A concepção escolar da leitura 1. Estabeleça parceria com professores de outras disciplinas para criar um grupo de discussão sobre textos em sua escola. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 17 . dos técnicos aos argumentativos. Pesquise em sua escola a concepção de leitura vigente no projeto pedagógico. Entreviste a direção e a supervisão pedagógica para saber quais são as diretrizes estabelecidas pela instituição para o trabalho com a leitura. Registre aqui algumas conclusões do grupo. ____________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3. e assim por diante. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. Registre o que encontrou. dos informativos aos literários.

18 . Anna. 1998. Campinas: Mercado de Letras. Belo Horizonte: Autêntica. 31. Teresa. et al. Ensinar a Ler. BELMIRO. Lei­tura: teoria & prá­tica. Aracy Alves M. jun. COLOMER. CELANI. A Escolarização da Leitura Literária: o jogo do livro infantil e juvenil.. Transdisciplinaridade na lingüística aplicada no Brasil. A escolarização da literatura infantil e juvenil. 1998. 1998.Literatura Infantil ABAURRE. Campinas: Mercado de Letras. Helena Maria B. BRANDÃO. Maria Zelia V.) Lingüística Aplicada e Transdiciplinaridade: questões e perspectivas. A Criança.. A Escolarização da Leitura Literária: o jogo do livro infantil e juvenil. In: SIGNORINI. Ensinar a Compreender. p. Porto Alegre: Artmed. Marilda (Orgs. MACHADO. CAMPS. 5-26. 2002. 1999. Magda. Célia Abicalil. 1999. Maria Bernardete et al. FOUCAMBERT. 1998. In: EVANGELISTA. n. Campinas. Aracy Alves Martins. In: EVANGELISTA. Maria Antonieta Alba. A leitura na educação de jovens e adultos. CAVALCANTI.). Avaliação de car­tilhas e livros didáticos: per­guntas a formular. SOARES. (Orgs. Jean. Belo Horizonte: Autêntica. Inês. Porto Alegre: Artmed. o Professor e a Leitura.

Ou seja. No trabalho de formação do leitor. podemos considerar a noção de letramento que. entende-se a importância conferida à leitura enquanto instrumento indispensável para o acesso e a aquisição dos mais diferentes conhecimentos. um argumento de ordem legal e outro de ordem conceitual a indicarem a importância da leitura no sistema escolar. a história de vida dos sujeitos e agentes da educação. . Há. precisam estar em sua formação. pode ser definido como um conjunto de práticas sociais. é preciso avaliar os fundamentos. o conceito de letramento está relacionado aos usos da escrita em um determinado contexto social. por isso. devem interagir: o professor e o aluno.O professor-leitor Itens a serem abordados Formação docente História pessoal de leitura Depoimentos de professores Prática docente Necessidade de continuar a formação pessoal de leitor P ara que possamos pensar na leitura em sentido amplo. que tomam como objeto de análise a memória. não devemos desconsiderar a formação do professor. sem fazer referência aos professores e demais profissionais do ensino. da Escola dos Annales. 2002. Portanto. pertencentes aos mais diversos campos do saber humano. para os aspectos relacionados ao sistema educacional e sua expansão. sendo utilizada para atingir algum fim específico. conseqüentemente também envolvendo. de que a escrita é parte integrante e necessária. em pilares da formação docente. Entre elas. a prática da leitura. portanto. consideram-se sempre as bases teóricas que fundamentam a atividade docente. (GUEDES PINTO. que privilegia os depoimentos e histórias pessoais. p. envolvidos no processo educativo. p. Portanto. 2002. um dos principais agentes de formação de leitores. abriu caminho para vários outros livros com depoimentos de histórias pessoais de leitura de docentes de muitos países. os estudos de Antônio Nóvoa sobre a vida de professores de Portugal. Por essa razão. 32). Deve ser acrescentada a esses dois pontos uma tendência da historiografia contemporânea. Estudos empíricos mais recentes. a noção de letramento. editado em 1995. apenas. também. 41). conhecimentos e objetivos que servem de parâmetros para o trabalho docente e que. o aparato legal e as histórias pessoais de leitura constituem a base de teorias que autorizam a pensar a leitura como um ato indispensável para o conhecimento da educação e da formação dos professores. eles se convertem. A educação pressupõe dois parceiros fundamentais e que. têm assumido nos meios de estudo acadêmico um caráter de grande importância e destaque. dentro de toda a sistemática teórica da Nova História. necessariamente. uma vez que demonstram que a realização deste tipo de pesquisa oferece a possibilidade de preencher as lacunas deixadas pelos trabalhos voltados. Direcionados para a educação. Considerando as normas estabelecidas pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996 e pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. segundo Ângela Kleiman e Magda Soares (apud GUEDES PINTO.

. que teve a história de D.. Isso eu me lembro. às vezes? Que às vezes tinha escrito. mas não me lembro se ele mostrava alguma coisa. meus pais. bastante [.. né. livro mais.] E – Você falou que na sua casa tinha muita música? P – Tinha. qualquer música assim que a gente tem. acho que não. nada? P – Sempre teve.. eu sempre participava de teatro. brincava muito comigo. não tinha incentivo em casa. né ? Essas coisas ele brincava demais... É. (GUEDES PINTO.. não sei. ou música.. É. Me lembro assim de jornal. E eu sempre. 41). por que é justamente aí que eu tô.. Eu [a pesquisadora] – Nem Bíblia.] Desde pequena. Eles deixavam essa parte pra escola mesmo. quando fizeram ouvir suas vozes. não. tinha.. de artista. não. fortaleceram a imagem pública desses sujeitos. Aos domingos tinha. é.. que tem até hoje... 20 . minha mãe a Bíblia. aqueles folhetos. Batatinha e suas filhas e eu era D. suas concepções de mundo e seus percursos por meio da escuta e do registro de suas narrativas.Literatura e Infantil Podemos verificar no Brasil alguns resultados positivos de estudos a respeito da prática de leitura que. Até me lembro no pré. sempre teve sim. E – Aqueles livretos. Mas de leitura.] Não. Pra dá um exemplinho. Professora – Eu não me lembro dos meus pais lerem alguma coisa pra mim. 2002. Acho que.. comum. sempre teve.. por que eu tô perguntando leitura. A pesquisadora Ana Maria Guedes Pinto recolheu um interessante depoimento de uma professora-alfabetizadora que bem resume a história de leitura de muitos professores brasileiros. tem. Meu pai sempre leu jornal. nem tanto. é. Música de igreja. Minha mãe sempre cantou muito. né? AM. Não. p. E – Então. assim. tá. nem um pouco. E – Vocês acompanhavam. Então isso tem. E – E isso era comum? P – Comum. de ler. E – Então. Muitos discos. minha mãe. P – Isso. religioso [. Mesmo na escola eu era. Ele. Mais era meu pai. Acho que leitura. lia. tem. assim. isso tem.] E – Então eles liam? P – Liam. ao optarem pela perspectiva de se trabalhar com as falas dos professores e suas histórias de vida. Eu acredito que a parte de alfabetização era mais a escola. Gostava de escutar aquelas rádios. Isso sempre teve. P – Geral.. jogral. não me lembro assim de minha mãe brincar com a gente assim. P – Tem isso. Batatinha. P – Ah! Tá! Eu tô entendendo [. me destacava nessas coisas porque eu sempre gostei de decorar as coisas. meu pai. Sempre tivemos. liam. que eu lembre. Sempre teve Bíblia em casa [. aquela brincadeira “balança caixão”. tem.

pois o repertório construído ao longo da vida indica os percursos de leitura e não pode ser descartado. a prática de constante intercâmbio com os textos. Veja-se o absurdo da situação: o magistério coloca-se como um dos únicos lugares onde quem não sabe e não tem competência ainda se estabelece! (SILVA. dramaturgia) e não apenas à literatura de ficção.. p. o país vê nascer faculdades de letras e pedagogia por todos os cantos. cursos aligeirados. As informações da professora dão conta de uma formação deficitária no ambiente doméstico. desaparece com o tempo. a advertência contida na obra Magistério e mediocridade: Faculdades de beira de estrada. como resultado de um trabalho mal recompensado e mal desenvolvido. em finais de semana. além de indicar as lacunas que exigirão preenchimento. em nível de graduação. em momento posterior. Mas nem tudo são espinhos na profissão. Ensino Fundamental e Médio]. passando a integrar um modo de ler e preferências pessoais (temas. de que tratam as questões da pesquisadora. teorias atualizadas e adequadas. diluição do domínio da matéria etc. À medida que a conversa se desenvolve.146-147). são índices que revelam a pobreza intelectual do professor. Bíblia. O conhecimento dessa história 21 . como a própria professora-depoente desconhece que a leitura. atividades que exijam e multipliquem leituras. sempre eu tava no meio. contiver e exigir requisitos específicos no campo da leitura – como disciplinas.º e 2. na experimentação de comportamentos de cidadania. na transmissão do saber acumulado ao longo dos séculos pela humanidade. na formação do pensamento crítico. haverá condições de o professor resgatar e aperfeiçoar sua história de leitura e qualificar-se para um bom desempenho profissional. À distribuição farta de diplomas segue-se. Sabemos da dedicação e da persistência do professor e de seu papel imprescindível no desenvolvimento das inteligências. a fragilidade do ensino no âmbito das escolas de 1. estará sempre presente a história pessoal do professor-leitor. 2002. o conceito de leitura vai sendo esclarecido e a professora acrescenta mais informações.O professor-leitor Essas coisas. E. Igual a ninhadas de coelho. refere-se a qualquer tipo de escrito (jornal. Ressalte-se. O entusiasmo inicial da carreira extingue-se. Para que este papel se cumpra. para que esse trabalho possa ser realizado em sua plenitude. atendendo na forma de cursos vagos. Cumpre lembrar. nas palavras de Ezequiel Teodoro da Silva. é essencial a aprendizagem da leitura. p. estilos. 1996. tipos de textos). 60).º graus [hoje. o que acaba influindo em sua formação docente. nesse depoimento. Se a formação profissional. (GUEDES PINTO. folhetos. a descoberta de sua utilidade. aplicações justas e criativas –. ausência ou precariedade de experiência prática em salas de aula. Convém não esquecer que um professor aviltado pelo salário e pela ausência de perspectiva de aperfeiçoamento dificilmente se torna um bom profissional. Eu sempre gostei disso. alterando a fala inicial de que não havia leitura na casa de seus pais.

Constata-se. em nosso intercâmbio com os livros. direcione-se para determinados fatos e relações contidos na realidade circundante e tome distância desses. Entre os diversos tipos de textos existentes. o texto literário é o que dá conta da totalidade social. mesmo representando o particular. Conseqüentemente. 2000. A preocupação com sua própria formação de leitor leva o professor ao melhor conhecimento do que é a história dos livros. p. p. com maior segurança. questioná-los e transformá-los. atinge uma significação mais ampla. ininterruptamente. que possibilita ao homem descobrir as suas representações do mundo. 2000. A prática docente deve estar orientada para dois tipos de atendimento no que se refere à formação de leitores: a preocupação com o aluno – e. nunca é tarde para se retomar um comportamento saudável para a inteligência e para a cultura. 25). o cuidado de continuar. por causa de lacunas na sua própria formação escolar. com a orientação e a formação de outros leitores. Não se pode permanecer na justificativa de que. portanto. um caminho de livros. apura o gosto pessoal e dá maior segurança ao trabalho de formação de leitores infantis e juvenis. completar. Mesmo que lacunas possam ter existido no início da sua vida de leitor. nem a intenção de se formar leitores críticos e maduros. Em função disso. assim. uma vez que nunca se completa nossa formação de leitores. 24) Dada a importância da presença da leitura literária na vida do leitor. um problema: os professores estão passando para seus alunos uma concepção muito limitada do processo de leitura. textos e leituras sempre aberto à atuação do professor. Podemos recorrer novamente à perspectiva de análise de Maria de Fátima Betencourt: Em virtude das deficiências. se nossas primeiras leituras foram deficientes e lacunares. havendo uma identificação com outros homens de tempos e lugares diversos. quando necessário. para trabalhar com leitura. o professor acaba apoiando-se no livro didático. retomar. (BETENCOURT. Uma outra questão que não pode ser esquecida diz respeito à figura do professor que não gosta de ler. com todas as suas falhas. vai criando. observadas no curso de magistério e no curso superior. pois. a fim de refletir sobre eles. a seleção de textos adequados à sua idade e às funções da leitura na vida escolar e pessoal – e a preocupação com o próprio professor. convém que o professor tenha. A linguagem literária extrai dos processos históricopolítico-sociais uma visão da existência humana. em relação a sua própria formação. (BETENCOURT. portanto. este processo faz com que o homem. da leitura. buscando na literatura a efetivação de leituras constantes. sempre estamos sendo motivados a descobrir novos e outros textos que a cultura. ficaram marcas indeléveis que estarão presentes em seu trabalho na escola. Por mais simples e lacunar que tenha sido o início da vida de leitor do docente. 22 . Felizmente. dos novos produtos existentes no mercado. as metodologias utilizadas nas aulas de leitura com as crianças e os adolescentes acabam sendo a repetição do que ele conheceu como “aula de leitura”. Ao longo da vida. sempre é possível corrigir. pois não há conhecimento das teorias da leitura. nada mais pode recuperá-las ou corrigilas.Literatura e Infantil permite que o professor possa lidar. Convém lembrar que a leitura tem um poder conscientizador. dialeticamente. Há. pela vida profissional afora.

não se pode permanecer. para que não fossem repetidos. os mesmos defeitos do passado. 23 . nos mais novos. Portanto. no mesmo patamar de aprendizagem. como a realidade nos presenteia com dias novos e manhãs de esperança. acomodadamente. Como a história do homem e dos textos move-se continuadamente.O professor-leitor Essa advertência sobre como transferimos aos alunos nossas próprias deficiências e com isso alimentamos um círculo vicioso de leitura bastaria para mover os professores a procurarem novos caminhos de aperfeiçoamento pessoal. cabe ao professor que trabalha com textos e leituras promover o progresso constante de seus alunos. juntamente com a evolução pessoal de leituras e conhecimentos.

______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 4. Peça a seus colegas e amigos que relatem suas histórias de leitura. ainda pequeno. Se preciso.Literatura e Infantil 1. Procure resgatar os livros de sua infância: os textos. Redija um depoimento de sua história pessoal de leitura. vá à biblioteca e procure reler esses textos. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3. Registre aqui que textos são esses. as histórias. percurso de leitura. remexa em seus guardados. as ilustrações. Com os depoimentos. crie um banco de dados de histórias de leitura. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. Faça com que seus alunos escrevam seu. Registre uma ou duas aqui. Registre uma ou duas aqui. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 24 .

ed. 1996. 2002. São Paulo: Cortez.O professor-leitor BETENCOURT. Rememorando Trajetórias da Professora-alfabetizadora: a leitura como prática constitutiva de sua identidade e formação profissionais. Maria de Fátima A. PINTO. 25 . Magistério e Mediocridade. Passo Fundo: Universidade de Passo Fundo. 3. Campinas: Mercado de Letras. Fapesp/Faep. A Leitura na Vida do Professor. Ana Lúcia Guedes. 2000. Ezequiel Theodoro. SILVA.

Literatura e Infantil 26 .

Desde os fenômenos naturais (a chuva. ler e interpretar tornam-se sinônimos à luz das teorias da linguagem e da hermenêutica. o analfabetismo funcional ou secundário. a leitura emocional (o poder dos textos para despertar emoções e sentimentos. p. fisiológicos. neurológicos. Maria Helena Martins (1985. Há várias denominações e concepções dessas etapas. p. não necessariamente excludentes: a leitura sensorial (apoiada nos sentidos – o ver. Outra trata de três diferentes camadas. Suas primeiras expressões de contato com o mundo indicam uma contínua aprendizagem que se concretiza em risos. Outras tratam do analfabetismo. a noite. em especial a artística) (MARTINS. caracterizam o ledor. 1998. como processo de compreensão abrangente. lê-los e interpretá-los. 97). o leitor crítico. Essa realidade deve-se ao fato de que a natureza.). o sol. 37-81).A formação do leitor Itens a serem abordados Leitura e os signos do mundo Etapas percorridas pelo sujeito leitor Características buscadas nos textos pelo leitor Estratégias de leitura Relações entre as linguagens O leitor crítico A ntes mesmo de ver a luz do dia. 1985. o leitor expert e o leitor erudito (FOUCAMBERT. p. incitando a fantasia e o inconsciente) e a leitura racional (a capacidade de produzir e apreciar a linguagem. por meio de aprendizado estabelecido a partir do condicionamento estímulo-resposta (perspectiva behaviourista cognitivo-sociológica). por exemplo) até as convenções sociais (como os rituais de amizade. interpretando as reações maternas. No percurso de significação do mundo. choros e satisfações. o sujeito vai percorrendo etapas. essa capacidade e ofício de ler sinais e linguagens do mundo. cuja dinâmica envolve componentes sensoriais. os homens e a sociedade se constituem textos codificados e ao sujeito cumpre decifrá-los. à exceção dos escritos. intelectuais. o ouvir etc. bem como culturais. isto é. o frio. econômicos e políticos (perspectiva congnitivosociológica). Para compreender como se atinge ou não um determinado estágio de leitura cumpre pensar nas características e estratégias que definem um leitor na sociedade em que vivemos. Uma delas é a que prevê ao menos duas: o ledor e o leitor. representações que significam algo para alguém. São signos. 31) sintetiza as teorias da leitura em dois grandes grupos: como decodificação mecânica de signos lingüísticos. acasalamento e poder bem como a linguagem). 59-94). conforme se considere o mundo e os escritos. isto é. o feto já reage aos estímulos do exterior. na medida em que vive. emocionais. Portanto. . p. tudo passa pela interpretação. Para Eliana Yunes (2002. modos de interpretar a realidade que o cerca.

mesas. sem mediações. entretenimento. um artigo do crítico Wilson Martins chamava a atenção para o aspecto descartável do livro considerado apenas como mercadoria. que ocupam mas não trazem alimento algum. em que. não estamos referindo-nos a quem se limita a decodificar manuais. Da mesma forma. não? Uma sociedade cheia de livros [. egocêntrica. liberdade de escolha e leitura fazem parte do acolhimento ao leitor-criança. voltadas para o incentivo ao consumo. Apesar desse panorama otimista. o colorido e a quantidade das ilustrações.” A associação entre divertimento. a revitalização das bibliotecas e atividades de incentivo têm proporcionado uma relação menos ansiosa e mais produtiva com os livros nos espaços privados e públicos. o livro. Os jornais e revistas somente comentam as novidades.] (MACHADO. as livrarias apenas compram os últimos lançamentos. É o que está relacionado com a cultura de nosso tempo: hedonista. com proficiência em textos complexos. com os objetos de leitura. a vulgaridade e a mesmice do texto que divulga. as livrarias enchem suas prateleiras. ou aquela realizada apenas visando à avaliação. p. assim que uma nova fornada de pães começa a cheirar. principalmente literária. Por pouco tempo. sensorial. Na história da escrita. o público compra. Salas de leitura. Vai tudo bem. No entanto.] Mas de que livros? Ainda recentemente. livro efêmero. proporcionandolhe um espaço de bem-estar. prazer e livros para consumo é extremamente danosa à formação continuada do leitor. gôndolas com apelos especiais. almofadas. E as editoras. imediatista. a escrita e a leitura continuam sendo ações indispensáveis. acabam recorrendo ao expediente das padarias: várias fornadas sucessivas de pães cheirosos e convidativos [.. Mesmo agora. porque logo vem outra leva. 74-75). por sua vez. esconde muitas vezes a pobreza. não cresce na mesma proporção o número do leitores críticos... 137): “E quando falamos em leitor. horários especiais. ou seja. de embalagem bonita e atraente. muita narrativa e nenhuma poesia e outros fatores relacionados à sensação de leitura prazerosa? Há. de vida cada vez mais curta. outro ângulo pelo qual se pode entender essa busca exclusiva do prazer na leitura. 1999. caracterizado pela valorização da subjetividade e da iniciativa pessoal e pela preservação da história pessoal de vida. Quanto já não ouvimos de preferências por livros balizadas pelo número de páginas. Defendida por uma pedagogia que se coloca como um novo paradigma no ensino. cores. ou a mascar chicletes do espírito. têm conseguido melhorar o desempenho e a competência em leitura. As livrarias que mantêm uma seção de livros infantis criaram um ambiente adequado a essa faixa etária: cadeiras. somente exibem o que está sendo comentado. o final feliz. com a entrada vitoriosa dos computadores na vida moderna. Nela. p. as editoras despejam livros na praça sem parar. entretanto.Literatura Infantil Na busca do texto prazeroso.. Todas essas iniciativas visando à educação.] edita-se cada vez mais. descompromissada. Ana Maria Machado alerta: [... o enredo repetitivo. fica evidenciada a oposição entre ele e a leitura obrigatória. ninguém mais quer levar o pãozinho da fornada anterior. conforme o define Ana Maria Machado (1999. o trabalho com a leitura na escola tem procurado sempre que possível colocar a criança em contato direto. como numa padaria. nunca se publicou tanto como no século passado. o prazer 28 .

Texto frígido... Conclui-se facilmente que a sala de aula tem sido apenas uma alfabetizadora. [. jogar com tudo o que sei. E. por natureza. sentimentos e personagens. Por isso. 44). O livro em sala de aula – e não importa o estágio de estudos em que o educando se encontra – é um ato de comunicação em que a interação entre o sujeito autor e o leitor permite descobrir e criar sentidos para os signos textuais. inventadas a partir do real. mas se acredita um leitor competente.. Toda vez que percebemos a identificação do leitor com situações. A leitura desvincula-se de tempo e espaço que não sejam o aqui e o agora. é descobrir que o mundo e o homem podem ser diferentes. contém. As 29 . ou aceitá-lo e. ler é conhecer. vivenciamos o poder de expressar o ser humano que o texto literário. texto tagarela. E um dos maiores é o de ultrapassar a ignorância. mas de uma variada gama de linguagens que atraem o leitor e solicitam. muito mais tragicamente. o leitor formado (se é que é formado) pela escola lê somente o que lhe cai graciosamente às mãos. que desconhece vínculos e diferenças. ao ler. A leitura exige empenho. persistência. como sereias encantadas. Pesquisas entre alunos e egressos do sistema escolar têm demonstrado que a maior dificuldade que os leitores encontram ao se defrontarem com um texto é interpretá-lo. Ao deixar a sala de aula. quando sei perceber o jogo que ele me está propondo e diante dele tomo uma atitude digna: ou abandoná-lo. Não apenas no sentido de acumular informações mas também no de integrar-se à realidade do mundo e da interioridade. quando não desprezo o texto.. não apenas enquanto aprendizagem de um código.] Exemplo de texto ruim: o que deseja explicar tudo. em um leitor que sabe. aí. não apenas do alfabeto mas de tudo o que está oculto. equipado a realizar uma trajetória de desafios ao historicamente estabelecido. Está nessa troca entre o sujeito e tudo o que está fora dele o núcleo mais essencial da leitura enquanto ato social. exercitamos todos os sentidos. Por isso. porque a partida não me interessa. de persegui-las. E não se trata apenas de signos verbais escritos. isto é. exercer sua função de co-autor. é atividade. em uma definição bastante feliz de Jean Foucambert. É ter a capacidade de propor utopias. Texto que não deixa o leitor inventar. É por isso que o leitor alimenta seu imaginário ao interagir com as construções literárias. p. E qual é a realidade da leitura na escola? Como se dá a formação do leitor na instituição criada para cumprir função socialmente tão essencial? Numa ciranda perversa. uma decifração. e de qualidade inferior. além de nossa compreensão. que despreza a inteligência do leitor. Assim. Ler é questionar o mundo e ser questionado por ele. atuação. quando não simplesmente entender o que dizem as palavras ali escritas. É preciso divulgar a noção de que leitura é trabalho. ler é encontrar algumas respostas para os problemas da vida. mas não lê. por isso. a falta de exercício da leitura verbal reconverte-o em analfabeto e. 2001. é intervenção do leitor no texto produtivo: [.A formação do leitor é um fim em si mesmo. vitória sobre desafios. estar apto a mudanças. que não quer ser seduzido. Ler é reconhecer-se. Tudo converge para uma satisfação momentânea.] leio bem. (CARNEIRO. capaz de dar a conhecer às crianças a correspondência entre o som e a letra.

A escola. neles fazendo atuar concordâncias e diferenças. Na contramão da 30 . Suas mudanças processam-se internamente. O livro não enfrenta. E. mesmo que realize um competente trabalho de formação. cada vez mais complexos. Enfim. A leitura não tem o poder de intervir diretamente na crise social do país. dependem exclusivamente da relação entre os sujeitos constitutivos do ato de ler – autor e leitor. no governo de sua cidadania – é que se tem. e ela é que o fará agir. ditados oralmente com o poder da voz. é alienar o indivíduo de si mesmo. intermediados pelo texto. O que confirma que alfabetizar nem sempre produz indivíduos capazes de lidar com os textos da realidade. Por compreender o alcance político – entendido como participação do sujeito na pólis. Não entender e não ser capaz de interpretar o que lê equivalem a constatar no leitor o atrofiamento de sua qualidade humana de atribuir sentidos. Assim fortalecido. que o professor-leitor crítico é raridade. não apresentam quadro social mais animador. que passa a integrar suas necessidades diárias.Literatura Infantil infinitas possibilidades semânticas das combinações entre o universo e a palavra ficam relegadas ao autodidatismo. sem dúvida. de igual para igual. falta de salário digno. igualmente. que o Brasil. Buscam afirmar o indivíduo em sua constituição psíquica. vergonhosamente conquistado pelo Brasil. realizado intensa campanha para a rarefação da leitura. Podem ser invocadas as mais variadas razões –. aptos a estabelecer diálogos produtivos com os textos. ou ao desconhecimento total. Porém. tempo escasso. as decisões políticas e governamentais. mesmo assim. principalmente. com índices próximos a zero. desinformação. a elevada porcentagem de analfabetismo no Nordeste – em algumas regiões chega a 51% – por si só não explica a miséria. Ler as obras relacionadas com o exercício profissional não constitui um leitor: ser leitor pressupõe sempre a capacidade de desempenhar-se bem em múltiplas escritas e a competência de ler entrelinhas. como puderam constatar Marisa Lajolo e Regina Zilberman. É condená-lo a assumir os valores de outrem. É impor limites à sua relação com o mundo. É incorporar a história dos outros como se fosse a sua própria. É de se pensar se os promotores desse trabalho escolar – os profissionais docentes – são eles próprios considerados leitores. lacunas na formação profissional – mas a verdade é que a constatação da falência do sistema de ensino no Brasil passa. no Brasil. ele poderá lutar por suas idéias e seus direitos. Capacitar leitores a atuarem como produtores de sentidos. sem perder de vista que a linguagem aponta sempre para o sujeito e para o mundo. não conseguirá consolidar o leitor sem o respaldo da sociedade. ligados indissoluvelmente à leitura. intelectual e emocional. pela ausência de familiaridade com o livro que não seja aquele de ligação direta com a profissão – e. de forma eventual. Urge proceder a um trabalho de “leiturização”. O analfabetismo e a péssima constituição do leitor são poderosos responsáveis pela situação de desigualdade social e pelo pior índice mundial de qualidade de vida. ao longo dos séculos. O Sul e o Sudeste. aos signos da realidade. no dizer do educador francês Jean Foucambert. Pesquisas comprovam.

e. a cada passo do cotidiano. Temos assistido com freqüência às mudanças operadas no comportamento de leitores ao se descobrirem capazes de atuar em mão dupla na leitura. se pensarmos que todos os gestos e todos os – poucos – movimentos que estão presentes na hora da leitura. os olhos. e mais o imobilismo a que ela nos sujeita. somos todos responsáveis pela leitura como somos responsáveis pelo país. então. os quadris. de onde vem o gosto? Haveria prazer no ato de ler? De qual prazer se fala. que não são somente as do texto que lemos para nós mesmos. Que variaram ao longo desse muito tempo. Eu me chamo Lili. mesmo assim. Convém conhecer o depoimento de Eliane Marta Teixeira Lopes a esse respeito: Gosto de ler. trazem maior prazer do que a leitura. não lê e além disso interfere negativamente no trabalho de formação do leitor ao privilegiar formas de lazer que. Desse amor também se pode falar de sua resistência. Não sem luta. Somente muito tempo depois. aprendi a ler e até ganho a vida com isso. Na verdade. mas vieram também as astúcias – não é que existe curso de leitura dinâmica! Nessa briga. porém. Apesar da escola. quando se fala no prazer da leitura? Sou uma leitora antiga. hoje.A formação do leitor história. embora se posicione a favor. conseguimos. finalmente. Depois vieram os constrangimentos.. são as crianças que lêem ou contam histórias aos adultos. comparável a uma iluminação interior. recebendo e dando sentidos à história individual e à história do outro. Mas. sem briga. com o livro. como a escola tem patrocinado o encontro do leitor com essa revelação. apelidaram-me Lili. Eu comi muito doce. Aquele ato fundante é de puro amor. por vezes entorpecem-nos as mãos. Acordar esse poder transforma o casulo em borboleta. A reação é. quando as primeiras palavras que me entraram pelos olhos e me saíram pela boca. Cabe. 2005). Assim foi sentenciado. a da primeira professora. Isto quer dizer que leio há muito tempo. sem preconceitos e sem argumentos falsos. A amplitude do alcance social e individual da literatura completa-se com o prazer interior despertado pelo contato com a beleza da criação artística. (LOPES. quando lemos. sotto-voce. fazem-nos doer as costas. quase simultaneamente – há especialistas que sabem o que se passa entre um momento e outro – foram: Olhem para mim. sem me importar se era mesmo assim que estava no cartaz à minha frente e na cartilha às minhas mãos. definidora de destinos. desde quando sobre mim se aplicou a máxima sentença pedagógica. Ouvimos vozes. o dorso. por vezes. a nuca. a criança tornou-se leitora e até escritora. que se expressaram de diferentes maneiras. no interior dessa polifonia. Eu gosto tanto de doce! Vocês gostam de doce? Declamo isso. Ler as linguagens da realidade e especialmente ler os livros implica o resgate da cidadania.. hoje. uma vez que assim se conscientiza o leitor do poder de – ele também – criar sentidos para os textos que se apresentam. A família. pensa ela. fadigam-nos. Mas quantos dos alunos daquela sala de aula puderam alcançar o mesmo sucesso? Será que o trabalho de formação do leitor deve ficar restrito a sucesso tão mesquinho? E Eliane Lopes continua: Tenho cá também meus próprios prazeres com o texto. perguntar. “ela aprendeu a ler”. Que foram denominados de diferentes maneiras. com o autor. Ouvimos as vozes dos que nos ensinaram a ler. 31 . menos que a de todos.

. que “Amar é mudar a alma de casa”? (LOPES. como expõe o poeta Fernando Paixão em A leitura como educação dos sentidos: Não esqueçamos que a prática de ler em sala de aula. 2005). pois. a imagem permite manter o contato com o mundo e com a produção de sentidos. pelos diferentes níveis de atenção despertados. Seria. Não seria exagerado. Não disse Mário Quintana. ao lado da exigência social. tomá-la apenas no sentido informativo e preenchedor de lacunas culturais. respeitando as respectivas idiossincrasias. [. Mas. ao nível de cidadania. O importante aqui é que não haja uma confusão entre liberdade de interpretação e esta democracia da leitura. interiormente. nem a imagem é capaz de reproduzir a sonoridade da palavra e a multiplicidade de sentidos que ela é capaz de evocar. para tornar-nos o leitor. pela aquisição da linguagem. A compreensão das interfaces com as quais a leitura pode ser construída auxilia a atuação do professor em sala de aula e a construção de sedimentados e progressivos projetos de leitura. Ao meu ver. esta democracia coloca-se como um imperativo individual para que cada um. A linguagem visual. Da resistência criamos a sua residência. ou seja ainda pelo gosto diferenciado de cada leitor. o autor habita em nós e passamos a habitá-lo. esta democracia deve trabalhar com uma diversidade que permita a cada leitor trabalhar. 32 . afirmar que esse exercício reforça concretamente a idéia de uma democracia da leitura na sala de aula. esta emancipação apenas começa com a alfabetização. a emancipação do sujeito em sua relação ativa com o mundo. texto e imagem podem somar-se e ampliar os sentidos das mensagens. constitui um campo privilegiado para a refração do conhecimento – de si próprio e do mundo – que é perseguido pelos indivíduos. Mas. a oportunidade de discussão e confrontação permite a cada um o seu posicionamento em relação ao texto. entretanto. na relação texto-imagem há limites permanentes: nem a palavra consegue substituir a imagem.. constitui-se boa parte das vezes. possa experimentar a vivência de sua própria subjetividade. Paulo Freire já nos ensinou o quanto a alfabetização constitui um fato que estimula. a leitora. porém. tal como a verbal. para quem não domina o alfabeto. Ao invés de promover o “achismo” como expressão de autonomia do sujeito. A associação entre o prazer. numa tarefa coletiva.Literatura Infantil sustentar a nota daquela leitura. daquele autor. 2005). onde a argumentação é personalizada. Os caminhos posteriores. A literatura. o texto. Porém. Na verdade. no ato de ler. por mais que tente descrevê-la. O investimento na formação do leitor será sempre uma declaração de crença na democracia e reafirmação na esperança de um futuro mais digno e humano. nesse sentido. no interior da linguagem e das leituras realizadas. que a constitui como um todo orgânico. para que todos tenham acesso mínimo ao ato de ler. constitui muitas vezes a primeira experiência que temos. possui sua estrutura própria. é que possibilitarão os contornos de uma efetiva transformação. (PAIXÃO.] A exposição em grupo. a sua inocência e seu espírito crítico. Seja pelo confronto de opiniões. também. minimizar o poder da imagem. O livro. ao lado de ser uma prática individual. no mais belo e mais curto poema sobre o amor. o lúdico e o riso na formação do leitor merece ser acrescida de uma reflexão sobre a leitura como um ato coletivo e democrático. Como uma mulher torna-se a mulher de um homem. capaz de servir de instrumento de transmissão da herança cultural e de criação artística.

A formação do leitor 1. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. Crie um projeto de formação do leitor com textos de literatura em gradação de dificuldade. dos mais simples aos mais complexos. Pesquise a respeito dos índices de analfabetismo funcional em sua escola e bairro e procure encontrar as causas dessa situação. isto é. Registre aqui o que encontrou. Registre aqui a lista de títulos desse projeto. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 33 . Aplique ao longo do ano letivo e avalie os resultados ao final do período.

Literatura Infantil

3.

Promova atividades em que os alunos tenham de relacionar textos escritos com música, artes
visuais, cinema e televisão. Registre aqui algumas dessas atividades.
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CARNEIRO, Flávio. Entre o Cristal e a Chama: ensaios sobre o leitor. Rio de Janeiro: EdUERJ,
2001.
LOPES, Eliane Marta Teixeira. Leitura, Pra­zer e Saber. Dis­po­ní­vel em: <www.unicamp.br/iel/
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PAIXÃO, Fer­­­­­nando. A Leitura como Educação dos Sentidos. Disponível em: <www.
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MARTINS, Maria Helena. O que é Leitura. São Paulo: Brasiliense, 1985.
MACHADO, Ana Maria. Contracorrente: conversas sobre leitura e política. São Paulo: Ática,
1999.

34

A construção
do sentido do texto
Itens a serem abordados
O texto como intermediário entre sujeitos comunicantes
A interpretação
A compreensão pessoal e a força da interpretação coletiva
A leitura do contexto
Etapas da compreensão
A compreensão: inferência e paráfrase

A

s atividades de leitura pressupõem, de início, uma relação interativa entre dois sujeitos (o autor
e o leitor) mediada pelo texto. O ato de escrever baseia-se em um processo de significação.
Mas não é apenas o escritor que trabalha/emite/processa significados: o leitor também constrói
sentidos a partir do estímulo textual e de sua história particular de ser significante.

Segundo Eni Orlandi,
Queiramos ou não, quando fazemos parte do conjunto dos chamados sujeitos-leitores – além de constituir um público
com suas implicações e conseqüências – estamos fazendo parte de um processo do qual resulta a institucionalização
dos sentidos. O cerne da produção de sentidos está no modo de relação (leitura) entre o dito e o compreendido.
(ORLANDI, 1988, p. 59).

Os sentidos dos textos não nascem espontaneamente, são convencionados e construídos por
seus usuários em uma conjunção de ordem histórico-social. Isto é, alteram-se no tempo e com a evolução social. Além disso, estão atravessados pelas “relações de poder com seus jogos imaginários”
(ORLANDI, 1988, p. 60).
A construção dos sentidos de um texto tem, portanto, mutabilidade ao longo do tempo. Os sentidos
não pertencem nem ao autor, nem ao leitor, pois são efeitos da troca de linguagem, segundo Orlandi. Por
isso não se extinguem com esses sujeitos: têm um passado e projetam-se no futuro. Essa qualidade é uma das
razões que permite a permanência dos textos, com sua multiplicação de sentidos, ao longo da história.
A atividade do leitor na busca da construção do sentido pode passar por etapas que vão da visão
mais estreita ao conhecimento mais ampliado, dependendo do tipo de pergunta proposta ao texto.
Podemos olhar o texto e fazer perguntas sobre letras, mas, então, precisaremos de uma quantidade relativamente concentrada
de informação visual e veremos muito pouco. Ou podemos olhar para o texto e fazer perguntas sobre palavras, vendo,
então, um pouquinho mais, mas, provavelmente, não o suficiente para encontrar sentido naquilo que estamos tentando
ler. Ou podemos olhar para o texto e fazer perguntas sobre o significado, situação na qual não teremos consciência das
palavras individuais, mas teremos a maior chance de ler fluente e significativamente. (SMITH, 1999, p. 109).

Literatura Infantil

Quando tratamos do leitor em sua atividade de produção de sentidos, convém
ressaltar que ele o faz a partir de uma combinação de histórias: a sua, pessoal, de
sujeito falante e significante e a histórico-social, isto é, submetido aos mecanismos
de coerção social determinados pelas instituições (a Igreja, a escola, a cultura, os
organismos de poder, a família e outros). Trata-se, portanto, de uma combinação de
fatores individuais e coletivos, dinamizados no momento mesmo em que o leitor
se defronta com um texto qualquer da cultura.
Além dessas duas importantes ordens de fatores, os sentidos vão sofrer ainda
a pressão das circunstâncias que estão presentes no ato mesmo de construir sentidos.
O modo como o discurso foi construído, isto é, as circunstâncias da enunciação. O
modo como foi apresentado: no caso do livro, o objeto em si, o papel, a impressão,
as cores, o cheiro, a maleabilidade, o volume etc. As letras (sua forma, tamanho e
disposição), a presença ou não de ilustrações (o estilo, as cores, tamanho, combinação de imagens com letras, composição gráfica, o papel e outros mais).
Não se pode deixar de mencionar, ainda, a importância que a memória de
sentidos, adquirida ao longo da existência e da convivência com textos, interfere
na interpretação. Somos seres históricos, o que significa que estamos permeados pelo tempo e pela vida social. Vamos aprendendo a trabalhar com textos e
ficamos expostos a seus sentidos possíveis, dos quais atualizamos uns poucos,
mas também fazemos isso com a experiência de outros participantes, de quem
fomos recebendo instruções para operar a interpretação. São discursos de outrem
que, aliados ao nosso, constituem o interdiscurso e atuam fortemente em nossa
atividade interpretativa.
Eni Orlandi ensina, novamente:
Os aparelhos de poder de nossa sociedade gerem a memória coletiva. Dividem os que estão
autorizados a ler, a falar e a escrever (os que são intérpretes e autores com obra própria) dos
outros, os que fazem os gestos repetidos que impõem aos sujeitos seu apagamento atrás da
instituição. Seja essa instituição a Igreja, o Estado, a empresa, o partido, a escola etc. Em todo
discurso podemos encontrar a divisão do trabalho da interpretação, distribuído pelas diferentes
posições dos sujeitos: o padre, o professor, o gerente, o líder sindical, o líder partidário etc. E há
uma enorme produção de textos (falados ou escritos) que trabalham esta divisão: regimentos,
constituições, panfletos, livros didáticos, programas partidários, estatutos etc. Os sentidos não
estão soltos, eles são administrados. (ORLANDI, 1996, p. 96). 

A essa característica coletiva e poderosa da interpretação vêm somar-se os
diferentes suportes tecnológicos, que veiculam esses textos – e sem sombra de dúvida a televisão é, na sociedade brasileira, o veículo mais influente, o mais intenso
formador de opinião. Quanto podemos medir essa influência no dia-a-dia! Aquilo
que foi divulgado por essa mídia à noite é, no dia seguinte, a opinião da maioria
das pessoas, como se ela tivesse brotado do próprio intelecto.
Para que a compreensão de um texto, resultante do exercício da interpretação,
torne-se mais efetiva na escola, algumas etapas precisam ser cumpridas.
Em primeiro lugar, cabe definir qual a tarefa de compreensão a ser executada: o sentido de palavras novas, as idéias centrais de um texto, a construção
de representações narrativas (como espaço, personagens, situações) e por aí
adiante.
36

pelo leitor e pelo professor. Também se torna importante que a leitura possa existir no plano do indivíduo (a compreensão tem componentes psiconeurológicos que cada qual atualiza a sua própria maneira) em uma leitura silenciosa. cabe ao professor esclarecer qual a utilidade de tal procedimento. Na seqüência. 52). Essa habilidade é fundamental para a aprendizagem da leitura e da escrita. uma de grande eficácia é a divisão do texto em partes. Evidenciar a maneira de se chegar a construir o sentido – seja pelo contexto. comparar. quando professor e alunos dividem o texto. a criança não precisa apenas usar bem a linguagem. em um som. cabe escolher a estratégia de leitura a ser utilizada: selecionar. como pode ser socializada. na época em que aprendem a ler e a escrever. as dúvidas e as certezas da compreensão. Na etapa seguinte. “Quando?”. “Como?” facilitam o caminho rumo à compreensão. o professor deve mapear os procedimentos da descoberta da interpretação. p. (SOLÉ. pois a unidade de sentido do texto precisa ser preservada. competência que as leva inclusive a utilizarem estruturas lingüísticas realmente muito complexas. Entre as estratégias para o domínio do texto a ser interpretado. oriundos de interpretação de textos. Por último. Para tanto. apenas em um primeiro momento. seja pela associação de palavras. na fase de aprendizagem. a autonomia do aluno no processo de interpretação. Pois bem. Esse não é um processo limitado à infância: a troca de interpretações e de compreensão de sentidos de textos deveria realizar-se ao longo da vida. recortar/colar. No momento seguinte. [. perder de vista que a recomposição das partes será necessária em algum momento. Não se deve. quando se trata de aprender o código. tornando transparente o processo. 37 . o uso de questões que possam direcionar. para que. 1998. desenhar e outras mais. criando. Sabemos o quanto é importante socializar. reforçando o conhecimento dos passos da estratégia utilizada. seja pela memória de textos e interpretações anteriores. “Por quê?”. Questões do tipo “Onde?”.A construção do sentido do texto Convém salientar que. aos poucos. as crianças costumam mostrar-se competentes no uso comunicativo da linguagem. Essa orientação pode ser maior garantia para do sucesso da tarefa.  Após essa definição. Aprender a decodificar pressupõe aprender as correspondências que existem entre os sons da linguagem e os signos ou conjuntos de signos gráficos – as letras e conjuntos de letras – que as representam. pesquisar. que ela passe do patamar de exercício para o de conhecimento adquirido. intercambiar pontos de vista. “O quê?”. com outros leitores. isolá-los e diferenciá-los. A criança tem que ter desenvolvido uma certa consciência metalingüística para compreender os segredos do código. o leitor-criança para a compreensão sempre são muito eficazes. cabe ao professor assegurar que a estratégia adotada possa ser reutilizada em momentos posteriores da aprendizagem. Esse é o passo seguinte: levar os estudantes a confrontarem sua compreensão do texto com a dos colegas. no entanto. além de muitas outras coisas. uma vez que o aluno estará mais seguro de ter o controle do processo em suas mãos.. a intervenção do professor deve tornar-se paulatinamente menos intensa. compartilhada. a unidade menor permita um desempenho mais controlável.] No entanto.. Também necessita poder manipulá-lo e refletir sobre ele – que é o que lhes permite pensar em uma palavra. trocar.

os leitores. para aprender. seja porque o papel ou a letra ou a ilustração recorda-nos outros textos. [. estabeleçamos alguns conceitos a respeito de seu conteúdo. à estimulação de seu repertório pessoal de leitura. realizamos. Enfim. seja porque lemos ou ouvimos algo sobre o livro. ou o ser humano. (SOLÉ. por isso. Na Estética da Recepção. Nenhuma leitura é ingênua. palavra ou trecho não parece essencial para a compreensão do texto. imagens). ou causas internas dos textos como. como se entrevistasse o autor ou organizasse um ques38 . Nesse caso. seja qual for o seu valor para a compreensão geral do texto. Seja porque conhecemos outros textos do autor ou outros textos sobre o mesmo assunto. seja porque há estímulos sensoriais que desencadeiam afetos (cheiros. previamente. em situações de leitura em que o erro ou a lacuna é sistematicamente corrigido. espessuras. por prazer. Buscando. fatos inesperados. não entramos em contato com um texto escrito sem que. 1998.. que o sentido se esclareça. os mais variados motivos permitem-nos prever expectativas a respeito do texto a ser lido. 92-100). para comunicar um texto a um auditório. p. p. sua leitura é rápida e eficaz. entre outras razões. não podemos continuar ignorando e precisamos fazer algo mais.  As estratégias que podem ser adotadas para que a atividade de leitura seja [a mais bemsucedida] possível compreendem. cores. Ao leitor também cabe o papel de formular questões sobre o texto. Mas. a ação mais inteligente que nós. ou se. ao saltear o parágrafo problemático. esse momento denomina-se horizonte de expectativas e diz respeito aos conhecimentos prévios do leitor.  Um segundo momento consiste em ativar o conhecimento prévio do leitor e ativar suas previsões a respeito do que vai ser lido. podemos anotar: ler para obter uma informação precisa ou de caráter geral. A interrupção causa sempre uma perda de ritmo e de concentração: a retomada da leitura pode exigir maior esforço. mais adiante. percebemos que nossa interpretação do texto se ressente. palavras desconhecidas. término da aula e outros.. Quando uma frase. Elas podem ter causas diversas: a interferência externa. a teoria da leitura prescreve que um texto foi escrito para que o autor respondesse com ele a alguma pergunta sobre a realidade.Literatura Infantil Um outro cuidado que o professor deve tomar com a compreensão de textos escritos refere-se às interrupções de leitura. seja pela consulta ao dicionário. apelos. (SOLÉ. 1998. Isto às vezes dá resultado e. • Prosseguir a leitura. para verificar o que se compreendeu e outros. ou a existência. não funciona: se a palavra aparece repetidamente. Não de forma explícita. é de ignorar o obstáculo e continuar lendo. outras vezes.. causada por ruídos. a definição clara dos objetivos do que se vai ler. conforme abaixo. para praticar a leitura em voz alta. Hoje. Entre eles. seja pelo esclarecimento oral do professor. 129). isto é.. o leitor pode assumir uma de duas atitudes. para seguir instruções.] gostaria de salientar que é muito difícil aprender a estratégia de “ignorar e continuar lendo”. é uma estratégia que os leitores experientes utilizam com grande freqüência. por exemplo. falta de luz. de fato. para revisar um escrito próprio. • Interromper de fato a leitura e somente retomá-la depois de esclarecer o sentido dicionarizado da palavra. num primeiro momento. conversas.

a construção do sentido passa. ajudá-los a formulá-las em momentos adequados. “Onde o autor pretende chegar com esse argumento?”. 39 . no momento da aprendizagem da leitura. pela intensa atenção aos fatos da língua. pelo exercício continuado da leitura. São perguntas silenciosas. Para concluir. por entender que o texto é uma organização de linguagem. como excelente itinerário de compreensão de textos. “Será que não vai dizer tal palavra?” e muitas outras. pelo compartilhamento de compreensões. “Por que tal personagem disse isso?”. mas que sua atuação sobre o texto pode estar direcionada pelo sistema ideológico social. como “O que virá a seguir?”. que permitem aumentar a ligação entre leitor e texto e facilitar-lhe a compreensão. pelo reconhecimento das tarefas a serem realizadas. portanto. Ensinar os alunos a reconhecerem essas perguntas diretivas. pelo entendimento de que os sentidos se formam no sujeito-leitor. insistir que as reconheçam. são atitudes funcionam. mas pequenas e importantes indagações.A construção do sentido do texto tionário sobre o texto.

Exercite o fatiamento do texto em camadas diferentes. 6. Anote aqui suas conclusões. crianças. Trabalhe na criação de um dicionário feito com palavras desconhecidas. Aplique em turmas diferentes. leitura e efeitos do trabalho simbólico. O inteligível. o interpretável. Frank. SMITH. Escolha um texto qualquer e o submeta à interpretação escrita de leitores diferenciados: adultos. Porto Alegre: Artmed. ______. 1996. Leitura: perspectivas interdisciplinares. e estimule os alunos a imaginarem um sentido para elas. 1999. SILVA. apresente-as a seus alunos e trabalhe com semelhanças e diferenças. Estratégias de Leitura. 1988. 40 . 1998. SOLÉ. Analise os resultados. Eni. Porto Alegre: Artmed. sem auxílio do sentido já conhecido. com diferentes escolaridades. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ORLANDI. Compare depois com o que diz o dicionário tradicional e transcreva aqui algumas dessas comparações. Transcreva-os aqui. Petrópolis: Vozes. Isabel. São Paulo: Ática. Ezequiel Theodoro da. Regina. ed. o compreensível. Reúna as interpretações. In: ZILBERMAN.Literatura Infantil 1. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. Interpretação: autoria. Leitura Significativa.

Que fatores precisam ser considerados quando falamos em cidadania? A renda familiar e a concentração de renda. a taxa de analfabetismo está entre 5 e 18%. o tempo médio de estudo é de um ano. que pretende cruzar informações sobre a sociedade brasileira. o acesso à água e a esgoto tratado. 918 reais na Febem. a leitura. Os que não conseguem entender e interpretar sequer um texto que acabaram de ler são 60 milhões em nosso país. a habitação em residências feitas com materiais duráveis. 1997). isto é. com tempo médio de estudo de 5 a 7 anos. em índices de 2000. no Brasil.A leitura como responsabilidade social Itens a serem abordados Analfabetismo e cidadania A literatura e seu papel na construção da cidadania A sociedade leitora O papel da família Políticas de leitura O s miseráveis. 83% são analfabetos funcionais e 45% vivem na região Nordeste. as crianças que trabalham e não estudam. Repito: 60 milhões. O que representa cidadania para os mais pobres? Representa uma expectativa de vida de 56 anos. por natureza. a literatura fala do homem. A renda mensal é de até dez salários mínimos e apenas 10% das crianças trabalham. do interlocutor. Gilberto Dimenstein afirmava. o analfabetismo e a média de anos de estudo. Em decorrência. partimos do princípio de que literatura é linguagem. a comunicação. Mesmo quando estudam. A literatura também pressupõe o outro. do mundo e da relação entre eles. a literatura e o papel social que ela pode exercer. por mês. desses. a intenção e a realização estéticas. São 55% de crianças que trabalham e a renda familiar mensal vai de meio a dois salários mínimos. em 1997: Quero dizer: não há possibilidade de se viver em sociedade sem o desafio da alfabetização. Já para a classe média brasileira. e a expectativa de vida e a mortalidade infantil. compõem uma legião de 25 milhões de pessoas: representam 24% da população. Um desafio particularmente dramático no Brasil. língua em uso. E a língua é um código convencionado socialmente. Neste panorama. com taxa de analfabetismo de 60% em algumas regiões. Um adolescente custa. onde temos 20 milhões de pessoas incapazes de escrever um simples bilhete de recado. ela se constitui um ato social. o leitor. 530 reais na prisão e 570 reais na escola. . que necessita do outro. a expectativa de vida estende-se de 61 a 71 anos. Além disso. (DIMENSTEIN.

2000). deve ser uma tarefa.] A criança luta.. o indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado e o indivíduo no desempenho de seus deveres diante do Estado. de respeito ao grupo social. o literário. Com raízes. é a violência. metrópole. espraiando-se pelo tecido social. para além do entretenimento. (SILVA. não poderia ser diferente. como base e meta essencial do regime democrático. cidadania indica o habitante da cidade. 3-20). não é saber falar sobre as coisas. Já para Gilberto Dimenstein. O resultado da falta de noção de cidadania.(DIMENSTEIN. p. de dizer o que quer. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. política. aliado a outros campos do saber. Ser educado não é saber informações. cidadania é termo que qualifica os participantes da vida do Estado. com os direitos políticos. aí.º A República Federativa do Brasil. Com a literatura. a aprendizagem da leitura pode ser apreciada sob a luz da cidadania: 42 . para onde quer ir. de diplomacia. voltese para a construção do leitor cidadão. constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: a soberania. com os objetivos da educação. e conquista a capacidade de falar. com o conceito de dignidade da pessoa humana. E. aumenta a responsabilidade dos educadores e indica a todos os conteúdos escolares que sua aplicação ultrapassa os muros da escola. atingir um nível mais alto de poder. vamos convencionar que cidadania esteve associada. e desaprende.Literatura Infantil No entendimento do consagrado educador Anísio Teixeira (1954. Deve constituir-se um objetivo que. de controle. e volta a aprender. Na visão do poeta. [. Educar-se é passar por uma transformação da própria pessoa. Significa também que o funcionamento do Estado estará submetido à vontade popular. polícia. Na interpretação do Direito. de expressar os seus desejos. Ler esse tipo especial de texto.. no desemprego. Esse pensamento alarga os horizontes da educação. 1997). o termo conexiona-se com o conceito de soberania popular. Para mapear melhor o caminho dessa reflexão. Em sua acepção dicionarizada. ao conceito da pólis grega. a cidadania. A Constituição da República Federativa do Brasil estabelece: Art. a dignidade da pessoa humana. termo cognato de polidez. o pluralismo político. e aprende. na origem. desenhada na evasão escolar. conquistando plenamente esse poder. de plena responsabilidade social. Nunca o Brasil viu tanta violência urbana. os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. em baixos salários. que associavam à cidade noções de comportamento. no reconhecimento do indivíduo como pessoa integrada na sociedade estatal. portanto. num clima que faz lembrar uma guerra civil. 1.

A leitura como responsabilidade social
Eu já podia identificar, numa página escrita, onde estava a “folha”. Naquela altura, eu ainda
estava na emoção pré-histórica do aprendizado e, à semelhança das gravuras pintadas nas
paredes interiores das cavernas do paleolítico, a representação era o representado. Quer
dizer, a palavra folha era a folha.
Por outro lado, quando eu olhava uma folha eu passava a ver folha. O mundo, mansamente,
passava a converter-se em linguagem. Muitos anos depois, aprofundando essa prática
compreensiva e conversível da realidade em palavras, eu portava sempre um caderno para
nele anotar as palavras da realidade.
Alimentava a crença de que o poeta percebe o mundo como linguagem, como palavra
significante. Nesse caderno eu ia registrando as palavras que a leitura do mundo me
estimulava para a criação poética. (LOUREIRO, 1992). 

A constatação mais concreta que se apresenta a quem analisa os dados
editoriais é a de que a escola pode ser considerada a grande promotora da leitura. A
sociedade, como um todo, delegou responsabilidade e competência a essa instituição
burguesa, criada por ela no século XVIII. Ler e escrever, acredita-se, somente
se aprende na escola. Dados os resultados raquíticos, facilmente observáveis na
realidade que atende os leitores fora do sistema escolar – a inexistência de livrarias
em cidades de médio porte ou a deficiência dos acervos nas bibliotecas de cidades
de grande porte, para citar os menos assustadores – o poder da escola é colocado
em xeque. Como garantir, após a saída dos alunos das instituições de ensino, a
continuidade do envolvimento com a informação, com a leitura de textos complexos,
com a busca do saber?
Pesquisas entre alunos e egressos do sistema escolar têm demonstrado que a maior
dificuldade que os leitores encontram, ao se defrontarem com um texto, é interpretá-lo,
quando não simplesmente entender o que dizem as palavras ali escritas. Conclui-se
facilmente que a sala de aula tem sido apenas uma alfabetizadora, isto é, capaz de dar a
conhecer às crianças a correspondência entre o som e a letra. As infinitas possibilidades
semânticas das combinações entre o universo e a palavra, a compreensão da coerência e
a estrutura de textos, a diversidade de materiais que se oferecem à leitura ficam relegadas
ao autodidatismo ou, o que é dramático, ao desconhecimento total.
É de pensarmos se os promotores desse trabalho escolar – os profissionais
docentes – são, eles próprios, considerados leitores. Pesquisas comprovam
igualmente que professor-leitor proficiente é raridade valiosa. Aleguem-se as razões
que se possa encontrar – falta de salário digno, tempo escasso, desinformação,
lacunas na formação profissional –, a constatação da falência do sistema de ensino
no Brasil passa, sem dúvida, pela ausência de familiaridade com o livro, que não
seja aquela de ligação direta com a profissão e, mesmo assim, de forma eventual. Ler
apenas as obras relacionadas com o exercício profissional não constitui um leitor.
Ser leitor pressupõe sempre a capacidade de desempenhar-se bem em múltiplas
escritas e a competência de ler entrelinhas.
Mas a inexistência da atividade da leitura não se restringe aos docentes. A
sociedade brasileira, vista em sua totalidade, apresenta níveis baixíssimos de leitura:
sem considerar os livros didáticos – o Governo Federal é responsável pela compra
de mais da metade dos 331 milhões de livros vendidos no país –, a leitura média de
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Literatura Infantil

cada habitante do Brasil é de 0,9% ao ano! Considerados os didáticos, a média sobe
para 2,3%! Esse resultado coloca o Brasil nos últimos lugares em avaliação de leitura
no mundo ocidental. Lemos, aqui, menos de um décimo do que lê um alemão!
Não entender e não ser capaz de interpretar o que lê equivale a constatar, no
leitor, o atrofiamento de sua qualidade humana de atribuir sentidos, cada vez mais
complexos, aos signos da realidade. É impor limites à sua relação com o mundo.
É condená-lo a assumir os valores de outrem, ditados oralmente com o poder da
voz. É incorporar a história dos outros como se fosse a sua própria. Enfim, é alienar
o indivíduo de si mesmo.
Por compreender o alcance político – entendido como participação do sujeito
na pólis, no governo de sua cidadania – é que se tem, ao longo dos séculos, no Brasil,
realizado intensa campanha contra a rarefação da leitura, como puderam constatar
Marisa Lajolo e Regina Zilberman (1983).  O analfabetismo e a péssima constituição
do leitor são poderosos responsáveis pela situação de desigualdade social e pelo
pior índice mundial de qualidade de vida – que o Brasil, vergonhosamente,
conquistou. Porém, a elevada porcentagem de analfabetismo no Nordeste – em
algumas áreas chega a 51% – por si só não explica a miséria. O Sul e o Sudeste,
com índices próximos a zero, não apresentam quadro social mais animador. O que
confirma que alfabetizar nem sempre produz indivíduos capazes de lidar com os
textos da realidade. Urge proceder a um trabalho de “leiturização”, no dizer do
educador francês Jean Foucambert: capacitar leitores a atuarem como produtores
de sentidos, aptos a estabelecerem diálogos produtivos com os textos, neles fazendo
atuar concordâncias e diferenças, sem perderem de vista que a linguagem sempre
aponta para o sujeito e para o mundo.
A leitura não tem o poder de intervir diretamente na crise social do país. O
livro não enfrenta igualitariamente as decisões governamentais. Suas mudanças
processam-se internamente, dependem exclusivamente da relação entre os sujeitos
constitutivos do ato de ler – autor e leitor – intermediados pelo texto. Essas
mudanças buscam afirmar o indivíduo em sua constituição psíquica, intelectual e
emocional, e ela é que o fará agir. Assim fortalecido, o indivíduo poderá lutar por
suas idéias e seus direitos.
A escola, mesmo que realize um trabalho competente de formação, não
conseguirá consolidar o leitor sem o respaldo da sociedade que a sustenta. Na
contramão da história, hoje, são as crianças que lêem ou contam histórias aos
adultos. A família, embora se posicione a favor, não lê e interfere negativamente
no trabalho de formação do leitor, ao privilegiar formas de lazer que, pensa ela,
trazem prazer maior do que a leitura. Na verdade, somos todos responsáveis pela
leitura como somos responsáveis pelo país. A intervenção de todos os segmentos
sociais no processo de aperfeiçoamento cultural do Brasil vem desenhando-se com
nitidez, nos últimos anos – mas ainda com insuficiência – seja por meio de projetos
de incentivo à leitura, seja por atuações concretas na capacitação de leitores, na
construção e atualização de acervos de bibliotecas, ou em apoio a escritores e
pesquisadores. Percebe-se esporádicas iniciativas para a formação de agentes de
leitura, institucionais ou não, que se propõem reverter o quadro cultural brasileiro.
Projetos como Os Livros Criam Asas e Salas de Leitura transformaram parcialmente
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A leitura como responsabilidade social

o perfil do trabalho com leitura na escola. O Proler – Programa Nacional de Incentivo
à Leitura – da Biblioteca Nacional pretende despertar a sociedade para a urgência
em formar leitores competentes e expandir as práticas leitoras para além do espaço
escolar. O projeto do Governo Federal de Literatura em Minha Casa, em que os
estudantes do Ensino Fundamental recebem, gratuitamente, livros para manter sob
sua guarda, tem a melhor das intenções. Sua prática, porém, tem encontrado algumas
dificuldades. Os livros são distribuídos sob a alegação de que, sem educação para
o trato com esse tipo de objeto, os alunos não saberão preservar o pequeno acervo
que recebem. E o livro continua trancafiado na escola!
Ler as linguagens da realidade e, especialmente, ler os livros, implica o resgate
da cidadania, uma vez que conscientizam o leitor do poder de – ele também – criar
sentidos para os textos que se apresentam a cada passo do cotidiano. Acordar
esse poder transforma o casulo em borboleta. Temos assistido com freqüência às
mudanças operadas no comportamento de leitores, ao se descobrirem capazes de
atuar em mão dupla na leitura, recebendo e construindo sentidos, tanto nos textos
de uma história individual quanto nos da história do outro. A reação é, por vezes,
comparável a uma iluminação interior.
O interesse crescente pelos livros de auto-ajuda indicam com clareza a carência
dos leitores por obras que lhes apontem saídas para crises interiores. Sem receituário e
de maneira profunda e complexa, outros tipos de texto podem realizar mais eficazmente
o desejo desses leitores, como a literatura, por exemplo. Textos que eles desconhecem
ou para os quais não se julgam preparados. O leitor, nesse caso, limita-se às suas
circunstâncias e se vê impedido de progredir e aperfeiçoar-se.
Uma sociedade realmente interessada no bem-estar de seus membros deve
providenciar acesso a caminhos que os indivíduos possam trilhar, a fim de atingirem
sua realização pessoal.
Esse papel de responsabilidade pela leitura cidadã, competente, iluminadora
é de toda a sociedade, na qual a escola é apenas uma das parceiras.

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temas de cidadania). São Paulo: Brasiliense. Registre aqui as informações mais interessantes. p. TEIXEIRA. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. n./jun. 2000. São Paulo. LAJOLO. 1997. 1992. José Afonso da. Regina. 3-20. Faça um levantamento no acervo da biblioteca de sua escola a respeito de textos literários para crianças e seus aspectos ideológicos (preconceitos. 21. Rio de Janeiro. set. Memórias de um Leitor Amoroso. tratar do assunto na escola. Folha de S. Escola da rua. Anote suas propostas. Use o material analisado para um projeto de leitura e responsabilidade social. LOUREIRO. Estimule seus alunos a fazerem um levantamento de informações sobre leitura entre os seus familiares. A escola secundária em transformação. 1954. Marisa. ZILBERMAN. Gilberto. Anísio. visão crítica da realidade. Use o estudo para propor mudanças e responsabilização social para a leitura. 46 . Paulo. abr. São Paulo: Malheiros. 53. Rio de Janeiro: Proler. Pesquise sobre projetos que envolvam a leitura existentes em sua cidade e que não sejam de responsabilidade da escola. Aproveite o resultado para. v. José de Jesus Paes. SILVA. sem constranger. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ DIMENSTEIN. A Leitura Rarefeita. 1983. Poder Consti­tuinte e Poder Popular: estudos sobre a Cons­tituição.Literatura Infantil 1. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3.

Fizeram de todos os momentos da vida o instante próprio e sedutor da contação. em funções estritamente semelhantes. com a reflexão momentânea dos ouvintes. Atores e artistas da oralidade. o figurino. externada em falas poéticas. os contadores articulam a ficção e o público. os trouvères e os cantores de gesta mantiveram vivas as lendas e as paixões medievais. talvez. o olhar e os gestos – essas narrativas. representam uma espécie de crônica viva das histórias dos mais diferentes povos. em configuração mais despojada. Papel triplo ou quádruplo. atraente. O próprio nomadismo . Comunidades ágrafas convertem seus contadores em historiadores e sacerdotes. porque eles conservam em suas narrativas os saberes do povo. Leitores especiais. expressas em momentos ritualísticos. sacerdotes e pajés o repositório da sabedoria ancestral. ocupou praças e edifícios ao longo dos séculos. acrescentando-lhes uma interpretação. os recursos refinaram-se. histórico e de forte carga ideológica. São eles os mensageiros vivos de saberes registrados e muitas vezes desconhecidos. usando o corpo e a voz exclusivamente. através de regiões tão variadas. Nasceu o teatro dos rituais religiosos. hoje.A contação de histórias Itens a serem abordados Origem e história Importância social e cultural Tipos de narrativas e sua função Recomendações para uma boa contação O s contadores de história nasceram com a humanidade. os pensamentos. os contadores transcendem o texto na intenção de disseminá-lo por um público maior. Falar sobre e encadear acontecimentos. Comunidades detentoras da escrita vêem nos contadores a vivificação da história. a música. Presentes em todas as sociedades. Uma primeira pesquisa identifica. As tribos africanas e americanas tinham em seus feiticeiros. quando as caçadas e os acontecimentos do dia compunham uma espécie de jornal falado. na formação de línguas poéticas românicas e germânicas e. O contador reúne essas duas qualidades: a capacidade de narrar e de representar – com a voz. os sentimentos. disseminados por regiões diversas e culturas diferentes. migrantes nômades que. conviveram com artes mais elaboradas. À narrativa dos fatos. de sistemas de versificação. registrados na escrita. expressos nos textos. com as emoções despertadas no calor da contação. Paralelamente. Os jograis. Essa importância pode ser apreendida nas palavras de Paul Zumthor: Não se pode negar a importância do papel dos recitadores e cantores profissionais. Os rapsodos e os atores perpetuaram as narrativas míticas gregas. distribuíam saberes e ficções que ajudavam a construir o que hoje denominamos História. a arte de contar ganhou formatos e intenções diferentes. Usar o corpo para acentuar e definir a expressão do pensamento pertence aos artifícios da comunicação entre os seres. À medida que a civilização evoluiu. os contadores. Transportaram-se a si mesmos e a sua arte para todos os espaços possíveis. pensamentos e sentimentos do homem somaram-se os recursos da encenação teatral: o palco. o cenário. são atributos humanos. A atração que sempre exerceu a narração oral reporta-se ao tempo das cavernas.

71). sem a pressa tão comum a quem quer sair por aí. e que esse processo de formação somente é possível se estiver centrado numa reflexão que envolva nossas histórias de leitores. ele está. sobretudo. afetando profundamente a sensibilidade e as capacidades inventivas de populações que. 11). No 48 . 1993. previamente elaborado em termos de imagens. de formas de linguagem. um leitor plural e crítico. reescutada. em face de um auditório concreto.2 Em especial. de estilos. p. o poder de fazer ressurgir no contador e no ouvinte as sensações e as experiências vitais nelas depositadas. Considerando essa justificativa de ordem histórica. as palavras devem assumir toda sua densidade. do corpo. e que. antes de observar os sinais de maturação das coisas (até das palavras-histórias!). Talvez. ritmo.. sem a contribuição sensorial própria da voz e do corpo.] A palavra poética vocalmente transmitida dessa forma. Mais que isto. de temas narrativos. integradas no funcionamento de uma linguagem [. transformador. ao contrário. transcendendo os dialetos locais originais. nos trens. ou . nada teria aproximado.]: os homens agem com a palavra... de modas. com seu próprio acervo de vida e repertório de conhecimento. e não perde essa condição visceral. no instante presente. visto que a letra desse texto não é mais letra apenas. por isso mesmo. que ninguém vira contador de histórias da noite para o dia. é o jogo de um indivíduo particular. mas quem é leitor deve saber o que faz com ela e assumir suas conseqüências. respeite o fluir natural do tempo. ele deve ler para entender o que é possível entender. Daí o valor humano. do que os outros dizem. os “jograis” tenham transmitido ao mundo medieval os refugos de arcaicas formas imaginárias. mais e melhor do que teria podido a escrita. estético. 2 Na contação. emoções. nossas necessidades de comunicação artística. Sabe-se quantos contos circularam assim. movimentos. o “elocutor concreto” de que falam os pragmatistas de hoje. mas. lúdico. Eliana. a escrita do texto. ela esclarece a maneira com que essa leitura se constrói na relação com o mundo. p. na aula de matemática. do Rio de Janeiro: O contador de histórias é um todo orgânico que se expressa através da voz. é. na carne. enfim. como resultado de um estímulo que tem sua raiz no texto contado. uma definição de contador é apresentada por um dos mais admirados e profissionais grupos de contadores de histórias. O fenômeno produziu-se nas próprias fontes de uma palavra. conscientemente ou não. Texto inédito. sem a intervenção e a colaboração. sobretudo. (YUNES. é preciso acentuar que o contador tem de ser.Literatura Infantil de muitos intérpretes. 12) diz que contar histórias: 1 Texto inédito. nenhuma transferência ter-se-ia eficazmente operado. sobre áreas às vezes imensas.. assumido pelo ato de contar histórias. os homens e as palavras: O sujeito-leitor não está na sala de aula. (ZUMTHOR.. todo seu poder de evocação. em família. 1998. silêncio e treinamento .. das expressões faciais. é o “autor empírico” de um texto cujo autor implícito. 1998. e para interpretar. pode-se concluir que os caminhos de atuação de um contador e seu papel social ultrapassam o prazer de contar e ouvir. Mas nada teria sido transmitido nem recebido. cultural e funcional. p. nos escritório. indispensável na vida social moderna. também. favorece a migração de mitos. de outro modo. o Morandubetá. pouco importa. reatualizada. nossa opção pela palavra como agente sensível.1 Além destas qualidades. lingüística. o que pode vir a ser escrito. fazendo. Mais: precisa ler o que não está escrito e ler mais longe ainda. 3 O escritor peruano Mário Vargas Llosa (apud YUNES. o exercício constante. deduzido dos atos de fala [. incomparável. a dispersão de sua clientela tornaram possível a necessária constituição de idiomas comuns a regiões mais ou menos extensas. de um extremo ao outro da Eurásia. Em termos muito pragmáticos. O intérprete (mesmo que simples leitor público) é uma presença. memória. exclusivamente. YUNES. por estar na fábrica. Eliana Yunes salienta ainda que Sabemos.

acrescenta novas formas e situações ao já conhecido. todas elas passíveis de converterem-se em histórias. sexo. representem-nos. é refazer a experiência. nossa alegria ou nossa cólera reclamem. o que vimos. é claro. não temos outro recurso do que sair de nós mesmos e. o seu imaginário. numa herança que legamos aos outros. A ligação afetiva. ao exercer a generosidade.A contação de histórias É uma atividade primordial. ajudados pela memória e pela imaginação. A realidade da existência é sempre constituída por acontecimentos relatáveis. uma necessidade da existência. Contar transforma-se. religião ou nacionalidade. uma função psíquica formadora na contação de histórias. como indivíduos e como povos. É comum encontrarmos associados: o ato de contar histórias e o público infantil. uma maneira de suportar a vida. sentimentos. sempre é possível transformar fatos e sentimentos em relatos. contudo. conforme o previsto. essa atividade proporciona momentos em que o ouvinte trabalha mais intensamente. como toda atividade de linguagem. Há. igualmente. Herança composta por experiências. Trata-se de um processo ininterrupto e dinâmico. mas também que nos tornamos repositório de um sem-número de experiências. ou seja. Quem trabalha em bibliotecas e em escolas com a formação de leitores conhece de perto o poder de sedução de uma bela história. assim. portanto. a força atrativa das histórias ali apresentadas. por exemplo. não distinguindo nessa atração idade. muito bem. A contação. pressupõe o interlocutor e o público. De fato. nossos sonhos esfarrapados. verificamos não apenas que crescemos em sabedoria e paciência. 1989. Para falar apenas de meios de comunicação populares e acessíveis. o repertório do ouvinte (ISER. A partir dessas idéias. podemos afirmar que contar histórias – assim como ouvi-las – é uma experiência humana insubstituível. construído ao longo dos séculos. de desprendimento humanitário. uma omissão imperdoável nessa crença de que apenas as crianças gostam e devem ouvir histórias. encantamento e curiosidade. Além. como nossos antepassados ouviam alguém ler ou contar longos folhetins com histórias. ou não. permitimos que as personagens criadas pelas narrativas sejam parte de nós e. a história reproduz os modelos da tradição. ampliando. ouvimos e vivemos. emocional e ideológica dos espectadores exemplifica. criando um sistema de recompensas e frustrações. em que as expectativas dos ouvintes se confrontam com os acontecimentos e formas narrados. um dos caminhos para integrar as crianças no universo cultural. na medida em que aquilo que se esperava da narrativa acontece. Além disso. 49 . Ao contá-las. Assistimos a uma telenovela. egocentricamente. do natural prazer e divertimento de poder compartilhar narrativas inventadas. projetar-nos nessas ficções. é contar-lhes histórias imaginativas. expressamos nossa realidade interior. Se atende as expectativas. Ao mesmo tempo. histórias ouvidas e vividas. p. exercemos um ato de generosidade. portanto. Há. podemos observar que o cinema e a televisão se tornaram veículos privilegiados de encenação das infinitas histórias criadas ou a criar. retificar a história real na direção que nossos desejos frustrados. liberando o que guardávamos. complicadas e emocionantes. 165-195). Além da função de resgate da cultura. e de maneira individualizada. desejos. assim. enquanto a vida ainda pulsa em nós. Se surpreende e inova. Os adultos recebem com igual prazer. Para conhecer o que somos. somos tomados por um desejo de transmitir. À medida que vivemos.

a ambientação construída com elementos exagerados. “Quando o mundo ainda não havia sido criado. ressurgem em novos livros infantis e. O princípio e o fim das histórias são as partes mais deformadas na literatura oral.. acordam nos adultos a antiga e perene criança. jurídica.. esquematizadores. de velhas bruxas e velhas fadas. Para todos nós. solitárias e poderosas. “Contam os antigos que. [19–?]. amor.. “Um belo dia. . nas características das personagens. as primeiras cismas. entregues à memória e à imaginação. de meninas enterradas vivas. do pensamento intelectual letrado. “Num lugar muito distante. os primeiros sonhos. escondida sob as marcas do tempo no rosto e na consciência.. os objetos mágicos. na significação do conjunto textual. de demônios logrados e festas no céu povoam nossa lembrança mais remota. social. de encarar a formação de um repertório de narrativas populares pelo atrativo exótico ou nacionalista.”.. de princesas e sapos.Literatura Infantil É possível compreender melhor essa dinâmica. Da mesma forma. o guardião dessa riqueza. sociológica. A imaginação modifica.” e tantas outras. de animais falantes. etnográfica. como o “Era uma vez. p. Contador e ouvinte ficam. É um documento vivo. Não se trata. correm as águas paralelas. pela assimilação.. uma vez que ambos estarão engajados numa troca de saberes – o que o contador sabe da história que conta e o que o ouvinte conhece de histórias que já ouviu – sempre enriquecedora. enxertias ou abandonos de pormenores. denunciando costumes. (CASCUDO. as transformações e o final feliz estiveram presentes em vários textos ouvidos/lidos no passado e estarão sendo acionados. mentalidades. a criação do suspense. Esse procedimento contribui para intensificar a afinidade entre contador e ouvinte. “Havia naquela cidade. da memória e da imaginação popular. o arcabouço do edifício. É possível traçar pelo menos três procedimentos indispensáveis. As fórmulas muito conhecidas de início de contos. ampliando.”. ódio. ouvidas na infância.. quando a fonte das histórias é de origem popular oral. A ligação torna-se ainda mais forte.”. de resgate. compaixão vêm com as histórias fabulosas. ligada às histórias ouvidas na infância. é o primeiro leite intelectual: os primeiros heróis. cristalizada nos acontecimentos da ação..”. quando o texto objeto da contação desencadeia a memória afetiva.. O conto popular revela informação histórica. 50 A escolha dos contos a serem transformados em interpretação cênica pede um processo de estudos e análises minuciosos. restabelecidas e vivificadas. quando o contador inicia a narração. O conto é um vértice de ângulo dessa memória e dessa imaginação. predispõem o ouvinte a relacionar o que está sendo dito com um repertório de histórias já conhecidas e a projetar continuação e acontecimentos para a narrativa que está sendo apresentada. sobretudo. a manutenção da infância e dos valores nela aprendidos encontra nesses relatos uma forma de fixação e. certos aspectos da narrativa.. os movimentos de solidariedade..”. ao pensarmos em formas tradicionais de narrativas como os contos populares e de encantamento. idéias. 7-8). a memória conserva os traços gerais. simultaneamente. Histórias como as de Pedro Malasartes. portanto. A força dessa literatura é acrescida. decisões e julgamentos. Essas histórias são documento vivo e seu contador.. Contá-los é reviver a aprendizagem. então. de caipiras e padres. nosso grande folclorista: Ao lado da literatura. como bem descreve Luís da Câmara Cascudo. do ponto de vista cultural e humano. As provas triplas.

porém. Não é casual essa referência à escola. Inventando ou reproduzindo as palavras mesmas do escrito. A seleção dos textos será. que a escola tem procurado atribuir-lhe.A contação de histórias O primeiro deles diz respeito ao conhecimento e acesso a um elenco vasto e variado de narrativas folclóricas. comum a todos os seres humanos. A escolha dos textos deve passar ainda pela qualidade poética e humana do relato. dar vida às palavras e às idéias suscitadas a partir do texto. O repertório deverá compreender uma diversidade de histórias. presos pelos laços da afeição. acima de tudo. populares e literárias. dos xamãs. ao fim do século passado.3 É possível descobrir nas qualidades enumeradas a transcendência da atividade do contador. a contação de histórias para objetivos de reforço escolar e dinamização de bibliotecas. a pragmática. A compreensão limitada do ato de contar histórias tem produzido alguns equívocos culturais lamentáveis. pode ter nascido a concepção de uma atividade voltada exclusivamente para o público infantil. seja para ilustrar a importância dos contos de encantamento. 51 . considerados. sacrificar a identidade do narrador com as histórias em favor de uma variedade desencontrada. Foram o leite imaginário. impulsionar a imaginação e afirmar o caráter de seres criadores. não apenas quanto à temática mas também quanto à forma escrita. Dessa segunda vertente. coração da palavra. tão somente. dos fabuladores árabes. Contar apenas para preencher os vazios do tempo é como usar anéis e pulseiras de ouro para trabalhar a terra. seja para divulgar valores comportamentais e informações. todos tinham participação no banquete da contação. Essa visão idealista e humanista da arte de contar histórias integra nossa história mais íntima: a memória guardou em envoltórios de seda pura. de momentos diversos da história da humanidade e de povos próximos e distantes. sempre. democraticamente. Não se deve. Ao contrário. prestidigitadores da emoção e do imaginário. que utilizaram. A variedade das histórias permite opções mais seguras e surpreendentes. reconhecer e dimensionar a memória afetiva. Eliana Yunes aponta algumas direções desse papel: Recuperar uma trajetória de vida. ao narrador compete. que fortaleceu nosso crescimento rumo à maturidade. ultrapassando a presença meramente lúdica. dos jongleurs medievais. a pedra de toque do contador. a experiência histórica dos homens primitivos. como o de acreditar que apenas as crianças podem ser parceiras dos contadores. Na verdade. dos contadores de todos os tempos e lugares demonstra que o público visado não se distinguia por faixa etária. espaço habitualmente associado à contação de histórias. Faz-se necessária a consciência da natureza e da função do contador. Uma visão mais pragmática chegou até nós por intermédio dos educadores escandinavos. desilusões e angústias. entendida como atividade pedagógica complementar. definir a imagem social e de cidadania. incitando mudanças. Texto inédito. aquelas narrativas que nos tocaram profundamente o coração e que representaram um conhecimento todo especial da vida e dos homens. com todas as alegrias.

Rio de Janeiro: Amais. Rainer (org. Guardados do Coração: memorial para contadores de histórias. Organize um pequeno volume. Wolfgang. São Paulo: Companhia das Letras. Contos Tradi­cio­nais do Brasil: folclore. _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. ISER. Madri: Visor. YUNES. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ CASCUDO. Registre aqui uma lista destas histórias. La realidad de la ficción. Luís da Câmara. Prefácio. 1993. Organize uma antologia das histórias que seus alunos mais gostam de ouvir e ensine-os a contá-las. Leia ou conte-as e analise a reação deles. 1989. algumas histórias que possam agradar aos seus alunos. A Letra e a Voz. In: WARNING. Estética de la Recepción. de diferentes nacionalidades.). Eliana. [19–?]. ZUMTHOR. Registre aqui os títulos dos textos encontrados. Francisco. In: GREGÓRIO FILHO. Rio de Janeiro: Ediouro. Paul.Literatura Infantil 1. Recolha narrativas e poemas contados e declamados por familiares de seus alunos. In: ______. Prefácio difícil. 1998. 52 . Pesquise em obras de literatura popular oral. Registre aqui uma lista das histórias que encontrou.

os panfletos entregues na ruas. que nosso aluno conquiste independência no ato de ler. os contos. estará construindo seu próprio saber sobre texto e leitura. Se queremos. p. a notícia de jornal. as receitas médicas. principais parâmetros da situação de comunicação. não confundimos textos como as cartas. com o reconhecimento dos diferentes tipos textuais. as receitas culinárias. E por que a tipologia textual é importante? Para Jolibert. [assim] a criança estará formando-se como leitor. tipos de texto. Quando tratamos de leitores proficientes (ou competentes. a publicidade. bem como estabelecer diferenças com os demais tipos. para que ele entenda como proceder nas tarefas de construção de sentido nos textos que forem aparecendo em seu percurso escolar e de vida. os poemas. provindo da tradição. 142-201). isto é. (KLEIMAN. portanto. que se apresenta ao leitor para sua formação e educação na leitura proficiente. as bulas de remédio. p. 2000. Em busca dessa complexidade. encontramos a noção de contexto. e por causa da dinâmica interna (abertura. progressão e encerramento). os catálogos e tantos outros. A tipologia textual compreende os mais diferentes esquemas pelos quais podemos estabelecer características próprias e idiossincráticas. que cria condições de aprendizagem. para melhor compreendê-lo. intensamente. Sabemos que a compreensão infantil necessita da mediação do professor. Lingüística da frase e palavras e microestruturas que as constituem. 9). Grifamos a relevância que ocupa o conhecimento do tipo de texto. arrolados por Josette Jolibert (1999. ou críticos) sempre-nos estamos referindo ao sujeitoleitor capaz de ter desempenho eficaz com os mais variados tipos de textos que circulam na cultura. Por exemplo. Cumpre lembrar que o aluno deve estar consciente de que o processo de aprendizagem da leitura implica Tarefas progressivamente mais complexas e independentes que. os cartazes. Lingüística textual. precisamos orientar sua leitura na fase inicial. superestrutura que se manifesta sob a forma. os bilhetes. a variedade de tipos textuais ocupa papel principal. .Tipologia textual Itens a serem abordados A tipologia textual: diversidade e interação Textos informativos Textos de opinião Textos publicitários A compreensão durante o ato de ler está relacionada. cumulativamente. por três razões especiais: porque cada tipo apresenta uma organização espacial e lógica dos blocos de texto – que ela denomina silhueta. porque os textos narrativos possuem um esquema identificável. contribuam para um objetivo pedagógico relevante para professor e aluno. Entre os níveis de conceitos/indícios de leitura. e que está relacionada com a retomada do texto.

comunicar. que os protocolos de leitura de um tipo textual qualquer irão considerar a tradição de leitura desse tipo e acrescentarão. Isto porque a bula é um texto de divulgação de informação científica sobre o tratamento de uma doença que pressupõe. por ser leitura indispensável a todo grupo social. 2000. O leitor faz sempre uma leitura histórica e particular/coletiva de um texto. composto unicamente por cartas. uma interpretação pessoal. Exemplifica a autora o caso em que uma professora de alfabetização para adultos procurou trabalhar com o tipo textual da bula. não apenas os literários. Quase no fim da aula. e explicitou sua oposição à premissa. Expor a criança à diversidade. Ângela Kleiman propõe que mesmo o texto.. um jovem adolescente. sempre. que não foram sociabilizados nesse tipo de classe social. indicando com isso sua descrença absoluta na farmacêutica e na medicina. O resultado veio a confirmar o pressuposto de que os textos nunca conseguem ser efetivamente lidos apenas a partir do pressuposto da decodificação.] o acordo em relação a essa premissa fora pressuposto pela professora. isto é. crenças e atitudes que refletem o grupo social em que se deu nossa sociabilização primária. e.. catador de laranjas.Literatura Infantil A lista acima torna evidente que o trabalho com a leitura precisa abarcar os tipos textuais que circulam na realidade. 10). como o gênero epistolar. muito menos. opinar. Estudar a literatura não dispensa conhecer o funcionamento da linguagem. e a aula foi marcada por desentendimento e resistência.] a bula. ainda. até agora. p. prepara o leitor para a independência futura no trato com os textos culturais. no discurso e nas relações semânticas estabelecidas. induzir.. Há. p. não importa qual seja o tipo. dissertar. não partilhavam dessa crença. 2000. gêneros literários que se compõem exclusivamente de um tipo textual. e cuja leitura instrumental ou funcional figura nos programas de alfabetização de adultos. Deduzimos. conseqüência da aplicação dos resultados e descobertas dessa análise. 54 . as condições de elocução e de interlocução. [. (KLEIMAN. 11). ensinar. [. compra remédios na farmácia e segue as instruções para tomá-los. que pertencia a uma classe social que vai ao médico. que é um texto que poderíamos considerar “apenas” informativo. a associação entre leitura e literatura com exclusividade. Entretanto. Ocorre. contêm com freqüência a reprodução dos demais tipos textuais. está longe de representar “apenas” uma fonte de informações necessárias para o leitor. que os textos literários. que ele acredita que a doença é objeto de análise e o tratamento dela. nem exclui o reconhecimento dos diferentes tipos textuais e. Na medida em que o leitor se mostra competente no intercâmbio dos sentidos com textos de estruturas mais denotativas. contando casos de sucesso de remédios alternativos e de cura mediante benzedores. o salto de qualidade para textos mais complexos far-se-á com maior facilidade. para que não se faça. contaminada pelo grupo social. que o leitor está inserido na cultura letrada que acredita na ciência como fonte de conhecimento.. o grupo em que fomos criados” (KLEIMAN. segundo. deste caso particular. considerado informativo e técnico não dispensa o colocar “em ação todo nosso sistema de valores. não apenas formal mas também de exposição de idéias cada vez mais complexas. bem como as funções diferenciadas dos textos (informar. defendendo remédios naturais e chamando os médicos de exploradores dos pobres. vários alunos uniram-se a ele. descrever. primeiro. os alunos. tornou-se porta-voz de vários outros alunos. muito mais complexos em sua composição. inclusive. embelezar e outros). como costumeiramente se faz. pura e simples.

Outros introduzem uma estrutura dialogal dentro da estrutura narrativa. isto é.. o autor apresenta a informação. a divisão que apresentaremos a seguir não é consensual entre os lingüistas. Expositivo. Alguns textos narrativos seguem uma organização: estado inicial/complicação/ação/resolução/estado final..]. (SOLÉ. Quanto aos textos expositivos.Tipologia textual O tipo é uma superestrutura. Por último.]. causal.. lenda. os inventários etc.. baseada nos estudos de Adam. Esses dois tipos podem ser identificados por alguns indícios lingüísticos: [o narrativo] inclui personagens. enumerando-as e relacionando-as entre si. Importante é. esta também objetiva encontrar pontos comuns e facilitar a compreensão do funcionamento da linguagem expressa em textos escritos. devido a [. Existe acordo em considerar que os autores utilizam alguma das seguintes estruturas expositivas: descritiva. É o texto em que aparecem palavras-chaves como “em primeiro lugar [. o autor costuma apresentar uma quantidade variável de idéias sobre um tema. citar outras formas classificatórias. a ação e a resolução. haveria uma quinta categoria.] por último [. Os livros de texto e os manuais utilizam-no profusamente. Nestes textos. Também não há uma tipologia pura. isto é. a dos textos informativo/jornalístico. p. Descritivo. atua como um esquema ao qual o discurso escrito se adapta.] o argumento é a forma como se organiza o relato que inclui diversos episódios.. o texto expositivo explica determinados fenômenos ou proporciona informações sobre estes. Na verdade. como toda classificação..] em segundo lugar [. sua característica fundamental é justamente que não apresentam apenas uma organização.. romance. Segundo alguns autores. esta varia em função do tipo de informação de que se trate e dos objetivos perseguidos. 1998. ainda. instruções de montagem ou de uso etc.] Os textos causais também contêm indicadores ou palavras-chaves.... Exemplos: conto. Narrativo. apresenta a classificação abaixo. 84). muitas vezes.]. Adam agrupa nesta categoria os textos cuja pretensão é a de induzir à ação do leitor: palavras de ordem. que divide os tipos em apenas dois grupos: os narrativos e os expositivos. 55 . mas de tipo diferente: “por causa de [. Mediante o texto do tipo agrupador.. os tipos textuais surgiram para atender a necessidades sociais específicas para cada tipo. oferece-se informação sobre um tema em particular. Na estrutura descritiva.. Também é freqüente nos livros de texto. os guias turísticos.. Adam ressalta que este tipo de texto é freqüente tanto na literatura quanto nos dicionários.].. etc. um problema. Relacionado à análise e síntese das representações conceituais. mas. como a de Cooper. [. um cenário. mediante comparações e outras técnicas. pelo fato de que [. Isabel Solé. agrupadora. motivo pelo qual [. eles fazem parte dos tipos narrativos. organizando-a em uma seqüência que evidencia as relações causa/efeito tratado no texto.. os textos apresentam. Texto que pressupõe um desenvolvimento cronológico e que aspira explicar alguns acontecimentos em uma determinada ordem. esclarecedora e comparativa. segundo Solé. contaminação entre eles. Mas. de Bronckart e de Van Dijk. Sua intenção é descrever um objeto ou fenômeno. Instrutivo-indutivo..

para que maior seja a impressão de coloquialidade.Literatura Infantil No texto esclarecedor apresenta-se uma pergunta. que a realidade cultural apresenta uma variedade riquíssima de oportunidades de leitura. falar de qualquer um deles pressupõe a interferência de outros tipos expositivos e mesmo narrativos. Antes de mais nada. no texto comparativo. apela-se para as inteligências múltiplas. como o jornal ou a televisão.. para a aquisição do bem seja maior. [. Na procura de persuadir o leitor. o estudo dos tipos textuais contribui para a diversificação e a complexificação necessárias à formação de um leitor crítico. e. Essa semantização mais complexa recebe o auxílio de linguagens não-verbais. guardada a presença de fatores pessoais e de socialização. em outras.] Em algumas ocasiões.. numa dicção mais objetiva e generalizante. há necessidade de organizar idéias e transformá-las em argumentos. a fim de aprofundar a informação que se pretende expor. vamos considerar. expor o pensamento do autor. 56 . competente. O professor não pode ater-se exclusivamente a um dos tipos. As palavras-chaves neste caso podem ser: “tal como sucedia com [. o tom é dialogal. um problema e também se oferece sua solução. conceitos ou idéias. os textos que pertencem ao campo informativo. opinativo e de publicidade. diminuindo as chances do aluno crescer em compreensão e vivência de sua língua e de seu povo. a intenção de transferir ao leitor uma notícia. 1998.]”.. sem valores ou opiniões expressos claramente. é necessário inferir o problema que está sendo Por último. Aparentemente.]. De qualquer maneira. de familiaridade e a pressão para a compra. como a música. Os tipos textuais de caráter informativo.].]” e outras expressões sinônimas. o movimento etc. p. sob pena de distorcer a noção de leitura e de empobrecer sua prática pedagógica. o texto se estrutura sob a intenção de convencer. ainda. Às vezes. isto é. utiliza-se o recurso de apresentar as semelhanças e diferenças entre determinados fatos. em primeiro lugar. diferentemente de [. Não há porque reduzi-la.. no uso de metáforas e do sentido conotativo das palavras. Para tanto. Para concluir. visto que a função desse tipo de texto é convencer o leitor. No caso do texto opinativo. divulgá-lo para encontrar ressonância na sociedade. [. ou em terceira.. podemos extrair. uma descoberta.. desses tipos expositivos. a opinião a respeito de produtos e idéias apresenta-se sob a capa da criatividade. há uma tendência à objetividade. como expressão de um certo ângulo ou viés da verdade.. A partir dessas considerações. para a emoção e os sentidos (o visual com maior intensidade). 85-86). que não existe um tipo puro. tanto no singular como no plural. podem ser qualificados por possuirem. proficiente. conforme adverte Isabel Solé.](SOLÉ. Caso esse texto apareça em veículos de comunicação social. são utilizados indicadores do tipo: “O problema que se apresenta consiste em [. a imagem. a tendência é o suo da língua padrão... um dado ou um fato. exercer pressão sobre ele para que se convença. Nela. Cumpre lembrar. Por isso. Pode aparecer num texto em primeira pessoa. a voz do autor converte-se em voz de autoridade.. divulgando-o . Uma das formas desse texto opinativo é a publicidade.. o leitor é incluído necessariamente no discurso publicitário. sobretudo. da busca da inovação. A pergunta que se formula [. a pergunta é formulada claramente..

revistas. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3. Registre aqui suas conclusões. Trabalhe estética e ideologicamente com textos publicitários em diferentes suportes: televisão. Busque as intenções ocultas. Trabalhe intensivamente com diferentes tipos textuais. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 57 . Analise o porquê dessas combinações. os mais difíceis. mostre as motivações e os argumentos. os mais enriquecedores etc.Tipologia textual 1. Registre aqui algumas conclusões. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. outdoors. Organize com seus alunos uma lista dos tipos de texto com os quais eles convivem. Estabeleça uma hierarquia (os mais lidos. descobrindo a presença de tipos diferentes. Transcreva aqui essa lsita. jornais. folhetos.).

Estratégias de Leitura. 58 . 7. ed. SOLÉ. 2000. Formando Crianças Leitoras. Isabel. Ângela. Porto Alegre: Artes Médicas. Josette. Porto Alegre: Artmed. KLEIMAN. ed. 1998. 6. Oficina de Leitura: teoria & prática. 1999.Literatura Infantil JOLIBERT. Campinas: Pontes.

um contato com a linguagem usada na atualidade. 26). 12). geralmente no alto da primeira página de um jornal ou revista. que torne difícil ou inacessível o texto escrito ao comum dos estudantes. qualidade do papel. que contêm todos os dados necessários para que o leitor compreenda a informação. composto em letras garrafais e publicado com grande destaque. essa estrutura constitui-se de diversos tipos de textos.  O texto jornalístico possibilita ao professor abordar diversos tipos de informações através de atividades que levam o aluno a praticar a língua. e seus textos [.. ao discente. Indica o fato jornalístico de maior importância entre as notícias contidas na edição” (FARIA. RODRIGUEZ. a introdução e o desenvolvimento. Os manuais de estilo dos jornais sugerem que os títulos não excedam treze palavras. não restrita. Como veremos a seguir. p. A autora Maria Alice Faria explica que: A linguagem jornalística oferece hoje uma espécie de ‘português fundamental’. variedade de caracteres tipográficos. ou em publicações similares. devem ser bem exploradas. vem sendo defendido por diversos estudiosos que se demonstram preocupados com a má qualidade das aulas de língua portuguesa nas escolas. faz-se a exploração de sua estrutura. uma língua base. Posteriormente a este primeiro contato com o jornal. o “título principal.. 1995. (KAUFMAN. (FARIA. As manchetes de primeira páginas. destacando as dimensões. p. De acordo com Maria Alice Faria. a introdução do jornal deve ocorrer através do manuseio. . 1989. Eles defendem que a introdução desse tipo de texto e uso da língua é uma excelente maneira de proporcionar. É comum que este texto use a técnica da pirâmide invertida: começa pelo fato mais importante para finalizar com os detalhes. lendo e escrevendo. apresentação dos textos em colunas. 1989. 26). A notícia é o gênero jornalístico que marca a atualidade de uma publicação. não é necessário ter lido os jornais do dia anterior para interpretá-la) ou de ligá-la a outros textos contidos na mesma publicação. e nem tão ampla. como material didático.] apresentam-se como unidades informativas completas. Consta de três partes claramente diferenciadas: o título. que limite o crescimento lingüístico do aluno.O jornal em sala de aula Itens a serem abordados Configurações do jornal Intencionalidade dos diferentes textos Localização de informações Leitura do subtexto O uso do jornal. explorando a importância da composição da primeira página e mostrando que o texto de jornal é perecível. p. diferentemente do livro. numeração das páginas. sem necessidade: ou de recorrer a textos anteriores (por exemplo. O título cumpre uma dupla função – sintetizar o tema central e atrair a atenção do leitor.

A entrevista enquadra-se numa tipologia de textos de grande importância para o jornal. uma notícia apenas um pouco mais aprofundada e com uma maior carga de interpretação pessoal. citada textualmente. alternando o discurso direto e indireto e acrescentado comentários do jornalista. que a notícia é redigida na terceira pessoa. a testemunhas dos acontecimentos. é atrativo. o jornalista pode recorrer a entrevistas. 82).. p. transmite vida a um relato. Uma reportagem é. aprofundá-lo. Ele deve conter elementos que respondam às seguintes perguntas fundamentais: • Quem? • O Quê? • Onde? • Quando? Quando bem elaborado. Já a notícia deve responder a seis perguntas: • Quem? • O quê? • Quando? • Onde? • Por quê? • Como? Deve-se observar. por vezes. folhetos. Ela pode ser apresentada convencio­nalmente. p. ainda. 8). Trata-se de um trabalho que não sofre tão diretamente os efeitos da urgência. é também conhecido como lead. GOULÃO. O jornalista dispões de mais tempo para estudar o tema. à investigação direta no local ou locais abrangidos pelo trabalho e à consulta de fontes impressas. ou. procurar informações em fontes diversas e. [. pois o redator deve manter-se à margem do que conta e transmitir a informação de maneira objetiva e com estilo formal. estatísticas. nomeadamente livros. por parte do jornalista.] Na elaboração de uma reportagem. a que se refere o texto acima. exibe clareza. a parte mais importante da notícia.] pela sua maior elaboração. materiais de arquivo em geral.” (LETRIA.Literatura Infantil O título. (LETRIA. pois “A palavra falada... 60 . Outro gênero jornalístico utilizado pela imprensa é a reportagem. reproduzindo fielmente o diálogo entre o jornalista e o entrevistado. direto e simples. Goulão. O texto da reportagem estrutura-se da mesma forma que a notícia. 1986. 1986. por fim.. que se reconhece [. introdução e desenvolvimento. sob a forma direta de pergunta-resposta. com lead. encontrar o estilo de escrita adequado a uma melhor e mais direta transmissão do significado dos acontecimentos.

leitura e produção de textos. É importante lembrar que. referindo-se à atualidade: É a arma ideal para realçar a realidade e a atualidade através da ficção. 1995. no sistema capitalista.O jornal em sala de aula Dentro do jornal. ao contrário. Esta localização antecipa ao leitor a importância que a publicação deu ao conteúdo desses textos. recebe a assinatura do autor. podemos encontrar as seguintes: as acusações claras aos oponentes. presentes num jornal. suas funções e recursos lingüísticos. 84-85). Entre estas estratégias. 86). A efetividade do texto tem relação direta não somente com a pertinência dos argumentos expostos como também com as estratégias discursivas usadas para persuadir o leitor. Esse texto não é assinado pelo autor. Trata-se de um artigo ou comentário. 1995). 1986. o autor dá vazão aos sentimentos. É um estilo jornalístico exercitado com objetivos artísticos. como ato de criação estética. Após a exploração desses diferentes tipos de textos. (KAUFMAN. para dar objetividade e consenso à análise realizada. p. (LETRIA. O ponto de partida do editorial é a notícia. porém. com a qual muitas vezes os leitores se identificam. através dela se “faz o enquadramento de fatos relevantes e atuais numa situação mais geral”. O corpo das letras dos títulos também é um indicador a considerar sobre a posição adotada pela redação. (LETRIA. Fundamentalmente. de todas as formas de expressar sentimentos. técnica e cultural dos leitores. antes do trabalho em sala com o jornal. a retenção em recursos que servem para fundamentar os argumentos usados na validade da tese. Em Escola. para melhor conhecer a ideologia da mesma. e. RODRIGUEZ. o leitor encontrará diversos textos publicitários: A publicidade é um elemento essencial na vida dos jornais. Outro tipo de texto encontrado no jornal é a crônica. Esse conhecimento interno do jornal deverá ocorrer “através de uma análise de sua linguagem. Quanto a este texto deve-se destacar que. Esse tipo de texto tem a função de trocar experiências. p. é necessário o conhecimento profundo das informações contidas nos textos. a fim de uma exploração e compreensão eficaz dos alunos. É com a receita da publicação de anúncios que a maior parte dos jornais garante a sobrevivência. as insinuações. GOULÃO. GOULÃO. um preço elevado por essa relação de dependência: a incursão do discurso publicitário no espaço visual e textual da linguagem jornalística. p. 27-29). a tomada de distância através do uso das construções impessoais. RODRIGUEZ. as páginas ímpares e o extremo superior das folhas dos jornais trazem as informações que se quer destacar. a primeira página. da ironia. ao mesmo tempo. deve-se observar a intencionalidade em que estão apresentados no papel. O editorial é um espaço em que são comentados os fatos atuais da sociedade. pagando. Nela. O texto é concluído por advertências e soluções possíveis. debater idéias e contribuir para a formação política. do elogio emocionado. as digressões. 1986. Kaufman e Rodriguez orientam: É pertinente observar como os textos jornalísticos distribuem-se na publicação. p. 1986. as ironias. 84-85). Goulão. (LETRIA. a crônica transmite a reação pessoal. que exprime a opinião do jornal sobre determinado assunto. O artigo de opinião tem a mesma estrutura do editorial. através do humor. procurando mostrar quais os recursos lingüísticos que 61 . (KAUFMAN. as apelações à sensibilidade ou.

ou crimes. através das suas características e das coisas novas que tenham para dizer. 93). estimulando a construção do imaginário de um sujeito-leitor. “exigindo do aluno discernimento crítico não apenas quanto ao acontecimento analisado mas também quanto à linha do jornal” (FARIA. dessa forma. veiculando uma carga emocional. formar novos conceitos e adquirir novos conhecimentos a partir de sua leitura. cartazes. 78). p. textos políticos. possibilitando ao aluno relacionar seus conhecimentos prévios e experiência pessoal de vida com as notícias. 46). 62) e nela. Trabalhado dessa maneira. ou decisões em esportes. p. textos publicitários. promover a desautomatização da escrita.Literatura Infantil os jornalistas utilizam para veicular sua mensagem e o que pode estar por trás dos processos utilizados. É através do uso da linguagem referencial que se pode medir o grau maior ou menor de objetividade do periódico. visando influenciar seu comportamento. por exemplo. Aprofundando-se ainda mais no texto jornalístico. em jornalismo. Mas não apenas isso. panfletos. p. que é objetiva. Esta é usada em avisos. A descrição deve obedecer fielmente à realidade e o jornalista apenas pode descrever por si aquilo que observa. Esse trabalho poderá ser feito.” (FARIA. A produção de texto em sala de aula é outra forma de aprimorar a exploração do jornal e realizar a atividade de escrita resgatando o sujeito-autor. Maria Alice Faria sugere um trabalho comparativo. A função expressiva ou emotiva é outro exemplo de linguagem a ser explorada. que lhe devolve a contrapalavra e. 1989. Como a referencial. sem interferência da emotividade ou ideologia. GOULÃO. com textos de fatos políticos. já que ela “tem como objetivo transmitir a emoção de quem fala ou escreve” (FARIA. p. 1989. o emissor fala de seus sentimentos. 62 . orações. o jornal será um mediador entre a escola e o mundo. por exemplo: A narração. O professor pode explicar tipos de textos através do jornal. 1997). o que o conduzirá a aprender a pensar de modo crítico sobre o que lê e estabelecer novos objetivos de leitura. como sugere Sírio Possenti (POSSENTI. o professor pode também explicar as funções de linguagem presentes nos textos. faz-se com base em personagens reais. Outro tipo de função de linguagem encontrada nos jornais é a função conativa ou interpelativa. (LETRIA. nela a ênfase recai sobre o destinatário. 1986. 1989.

Faça apresentação por escrito ou em forma de painel oral. de enciclopédias ou da internet. Recorte-os e organize-os em conjuntos do mesmo tipo. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3. Pegue reportagens ou notícias de jornais e procure compará-las e enriquecê-las com textos técnicos ou científicos. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 63 . Registre aqui algumas conclusões. Registre algumas conclusões. Registre aqui o que essa visita revelou. Organize uma visita a redações e parques gráficos que editem jornais em sua cidade. procurando explicá-las. Estabeleça trabalhos de complementação de informações. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. Selecione tipos diferentes de texto jornalístico em diversos jornais do mesmo dia. Entregue os recortes a grupos de alunos e oriente para que percebam semelhanças e diferenças entre os textos.O jornal em sala de aula 1.

Leitura e Produção de Textos.Literatura Infantil FARIA. 64 . Ana Maria. GOULÃO. Escola. LETRIA. Maria Elena. 1995. O Jornal na Sala de Aula. 1986. Noções de Jornalismo. RODRIGUEZ. Sírio. (Coleção Repensando a Língua Portuguesa). São Paulo: Contexto. Porto Alegre: Artes Médicas. 1997. Porque (Não) Ensinar Gramática Na Escola. POSSENTI. 2. ed. 1989. História e Técnica. José. Campinas: Mercado de Letras. Maria Alice de Oliveira. Lisboa: Livros Horizonte. José Jorge. KAUFMAN.

lobos e cordeiros fazendo o papel de humanos e com finalidade moral explícita. p.História da Literatura Infantil Itens a serem abordados Origens Funções da literatura através do tempo Autores e obras relevantes A literatura surgiu. com intuito formativo. a partir do século XIX. São desse período remoto as primeiras fábulas com animais. as das classes desfavorecidas. um forte elo entre a literatura e a oralidade. Mais tarde. Nessa época a literatura popular tem grande importância. os meninos tornavam-se grandes guerreiros. Dessa tradição vêm as fábulas de Esopo. Nas sociedades primitivas. buscou na ficção uma maneira de transmitir a herança cultural. cujos textos atravessam os séculos e permanecem na cultura até hoje. o principal responsável pelo surgimento da Literatura Infantil é o próprio homem que. com a valorização social da criança. no século XIII. 23) . Na época clássica (Grécia e Roma) as crianças eram educadas para servir ao Estado ou à Sociedade – em geral. No período medieval. mitos e narrativas exemplares. acumulada pela humanidade ao longo do tempo. representando virtudes e defeitos humanos. com a tradição oral. reunindo lendas e contos folclóricos. ao sentir necessidade de transmitir idéias e acontecimentos. criados pelos padres Jesuítas para pregar o cristianismo às crianças: “[. até ser traduzido para o castelhano. acabaram determinando alterações também na literatura infantil. liam ou ouviam as histórias da cavalaria. sem se preocupar com as capacidades e anseios próprios da infância. um escravo grego. particularmente. bois. espontânea. As mudanças sociais. apenas intuitiva da necessidade da infância” (SALEM.. a menina assemelhava-se à mãe e o menino ao pai. ao longo da História. Há. Mais tarde. a literatura surgiu com fins moralizadores. ou seja. as crianças eram criadas para aprender somente o que seus pais passavam para elas. foi sendo traduzido para o persa e para uma versão árabe. provavelmente escritos por um fabulista indiano: Bidpai ou Pilpay. Suas fontes estão no folclore. essas narrativas passaram a ser contadas para as crianças. em geral. Na verdade. com a finalidade única de facilitar o ensino às crianças. Da Idade Média e do Renascimento (séculos XV a XVII aproximadamente) datam os primeiros livros considerados Literatura Infantil. enquanto as crianças nobres liam os autores consagrados pela tradição. com raposas.] esta foi a primeira forma de literatura infantil. de aventuras e as narrativas picarescas de heróis espertos. ela deveria ser educada conforme os objetivos traçados pelos adultos. corvos. com suas lendas. A princípio. São 14 livros.1970. A mais antiga coletânea vem do Oriente e intitula-se Calila e Dimna. pois a criança era vista como um “projeto de adulto”. portanto. orientados por seus preceptores. cães. usando recursos pouco usuais e nascidos do povo.. exercendo fortíssima influência sobre narrativas ocidentais. são os catecismos.

Jean Jaques Rousseau introduziu obras que tratam as crianças de acordo com suas idéias e princípios. embora suas narrativas tenham sido completadas no final do século XV. inaugurando a expressão para referir-se a histórias. as fábulas com animais. acentuando nas narrativas a forma mágica. São narrativas encadeadas umas às outras. Seguindo o modelo das fábulas greco-latinas de Esopo e Fedro. Émile (1762) influenciou 66 . de encarar as situações. através da tradução para o francês por Galland. valorizando as suas capacidades. a cultura oriental tornou-se mais conhecida. O romance da Raposa. O pequeno polegar e Pele de asno. os livros com narrativas de comportamentos exemplares e os bestiários. Chapeuzinho vermelho. Madame d’Aulnoy (Marie Catherine le Jumel de Barneville) publicou vários livros contendo histórias denominadas contos de fada. podem ser destacadas. repletas de metamorfoses e magia. Também são conhecidas e muito populares as novelas de cavalarias com os Ciclos do Rei Artur e do Imperador Carlos Magno. teve que usar de sua inteligência para conquistar a atenção do rei. Em aproximadamente 1600. escrito por D. Fénélon também contribuiu para a história da literatura infantil. como A bela adormecida. em 1335. Essas narrativas atravessam o Oceano Atlântico e vêm encontrar espaço nas narrativas populares de cordel do Nordeste brasileiro. entre outros. entre elas. já que Sherazade. o marinheiro. São exemplos do período. Ali Babá e os quarenta ladrões e Simbad. conseguiu resgatar esse repertório e aplicá-lo criticamente aos vários tipos humanos da sociedade da época. de origem árabe. própria das crianças. O famoso livro As mil e uma noites. A sua obra Aventuras de Telêmaco é dedicada exclusivamente ao duque de Borgonha. na linha dos contos de fadas. Com ele. a leitura. em defesa do amor. que ao trazer histórias da tradição oral. para dar novo impulso a esse tipo de texto literário. Juan Manuel. do conhecimento e da liberdade na vida das pessoas. repleto de narrativas moralizadoras e exemplares. e apresenta caracteres moralistas e instrutivos. Algumas delas farão parte da antologia de Charles Perrault. XIII). O mercador e o gênio. Mas já circulavam. a música sacra e a religião. surgiu a obra do famoso francês Charles Perrault. a protagonista. para crianças. Fábulas. em que o escritor renova o gênero e usa de maneira comunicativa o verso. O livro de Petrônio ou O Conde Lucanor. narrando as aventuras de cavaleiros medievais em luta pela afirmação da fé religiosa cristã e em torneios e batalhas. uma “epopéia animal” do século X. além de mostrar a importância da criatividade. Aladim e a lâmpada maravilhosa. Raimundo Lúlio. em 1684. No século XVII. a escrita. o italiano Giambatista Basile escreve o Conto dos Contos ou Pentameron. mais precisamente em 1697. com O livro das maravilhas e O livro dos animais (séc. reunindo algumas histórias fabulosas. A gata borralheira. neto de Luís XIV.Literatura Infantil às crianças eram ensinados nas escolas cristãs. sendo quase como uma cartilha de educação infantil. com uma literatura mais didática. Entre 1696 e 1698. tal fato fez com que esses contos de fadas ainda estejam presentes na cultura de todo o mundo civilizado. foi revelado em 1704. da religião e do rei. no período. surge na França a obra de Jean de La Fontaine.

com a coleção Eventyr (“Contos de fadas”) escritos entre 1835 e 1872. No século XIX. A coletânea de cantigas infantis. e As viagens de Gulliver (1726). admiração. em que a preocupação social e o anti-preconceito estiveram presentes. ao ver um homem transformado em gigante na terra dos anões. João e Maria e Os músicos de Bremen. As obras que surgiram posteriormente estão relacionadas à literatura especificamente infantil. as mais conhecidas são: A Branca de neve e os sete anões. escritos para adultos. principalmente. servem de apoio para as várias adaptações surgidas no mundo inteiro e. entendimento dos problemas alheios e dos seus próprios. São narrativas de fundo popular. voltado. dessa forma. apesar da crítica social. 67 . Os contos de fadas facilitaram o uso do lúdico junto ao cognitivo. 29). Trata da educação natural de crianças. para a criação de um gênero específico voltado para o público infantil. para o desenvolvimento da psique infantil: [. a literatura vem educar a sensibilidade. cidadãs e pessoais. O dinamarquês Hans Christian Andersen. entre outras. nas crianças. em 1744. contribuindo. de Daniel Defoe.História da Literatura Infantil muitas narrativas da época. Portanto. tinha como título: Para todos os pequenos senhores e senhoritas. É um escritor de forte cunho poético e autor de inegáveis méritos literários. A criança pode desenvolver as suas capacidades de emoção. que têm como público-alvo: as crianças. ou ao apresentar uma sociedade perfeita em suas leis e comportamentos. intensamente. Portanto.. interesses adormecidos que esperam que essa espécie de varinha mágica os desperte para aspectos do mundo que as rodeia. Entre elas. 1978. p. mas composta apenas por cavalos. reunindo a beleza das palavras e das imagens. que precisam do impulso de correntes exteriores para adquirir pleno desenvolvimento na evolução psíquica da criança (JESUALDO.. as suas experiências escolares.  O ideal da Literatura Infantil é fazer com que as crianças unam o entretenimento e a instrução ao prazer da leitura. embora muitos estudiosos acreditassem ser uma obra de fundo totalmente moralizante e fora do contexto social. enriquecendo. de Jonathan Switf. A primeira foi adaptada para as crianças como um “manual de conquistas pessoais” e a última. publicada por Mary Cooper.] estimula. “Histórias para crianças e famílias”) entre 1812-1815. seus contos como O patinho feio e O soldadinho de chumbo ainda fazem parte do universo infantil. apresentou animais e objetos como seres dotados de comunicação e sentimentos. para serem cantadas para eles por suas babás. age sobre as forças do intelecto. até que possam cantar sozinhos. afastadas do convívio social e tendo por companhia apenas seu preceptor. como a imaginação ou o senso estético. tiveram maior reconhecimento entre crianças e adolescentes como: Robinson Crusoé (1719). com influência de mitologias nórdicas. também escreveu novas histórias com fadas e duendes. apresenta um teor fantástico. compreensão do ser humano e do mundo. foram reunidos pelos pesquisadores e folcloristas alemães Jacob e Wilhelm Carl Grimm. surgem os famosos Contos de Grimm (Kinder und Hausmärchen. Mas. Alguns livros.

pelo prazer que toda leitura com pretensões a ser de algum proveito deve provocar na alma da criança. p. Numa época em que o acesso à internet. trabalhar na formação moral. mesmo quando mais lógica. divertir e educar. elas ainda estão num processo de formação de experiências reais. 1978. ou do puro retrato físico de uma modalidade de ser e de sentir. trazendo a criança ao mundo em que ela se identifica e sente-se livre para formar suas capacidades intelectuais e sociais. foram direcionadas exclusivamente às crianças. 1865) e Alice no país dos espelhos (Through the Looking-Glass. 1872) ambas de Lewis Carroll. Le aventure di Pinocchio. que a criança permanentemente luta por transcender (JESUALDO. é importante pais e professores estarem atentos aos meios de comunicação que sejam mais adequados. publicada em fascículos) escrito pelo italiano Carlo Lorenzini. o gosto pelo mundo sobrenatural com fadas. visto que. ao rádio e ao cinema são tão freqüentes e expressam os valores de uma sociedade capitalista e utilitarista. Em geral. é ainda mágica. A literatura nada mais é do que uma fonte saudável de alimentação à imaginação infantil. faz-se necessário retomar uma literatura herdada de povos seculares e que atravessou os anos. bruxas serve como para “dar asas à imaginação”: “A criança serve-se do real. relatam histórias ditas “fora do padrão” da época. sendo assim. tem a criança como principal representante. A Literatura Infantil. 25). para além de qualquer simplismo de expressão. p.] identificação. assim. para penetrar em sua fantasia. ogros. a infância é a fase que mais caracteriza a criatividade pura e a imaginação. social e literária. portanto. pois a representa sempre em busca de um explicação que. vulgo Collodi. mas somente reconhece quem sabe usá-la: [. estabelecendo uma íntima relação entre o “segundo mundo”. 1978. e a transposição de real. Por isso.. As histórias infantis podem. A palavra tem sua beleza própria.Literatura Infantil como a coletânea Melodia da mamãe gansa. justamente. 68 . à TV. o qual todas as crianças apresentam em seus momentos particulares. Os clássicos: Alice no país das maravilhas (Alice’s Adventures in the Wonderland. Essa literatura surge simultaneamente para instruir.” (JESUALDO. 30). conta as aventuras de um boneco que se transforma em menino de verdade. As aventuras de Pinóquio (1881-1883. Ainda como exemplo..

de que narrativas as pessoas de seu círculo familiar ou de trabalho ainda lembram. Compare diferentes versões de contos ou de fábulas. Busque saber o que elas pensam sobre essas narrativas e monte uma pequena antologia com essas histórias. São Paulo: Cultrix. valores e técnicas narrativas pertencentes à história da Literatura Infantil. a permanência de histórias. fazendo pesquisa com entrevistas e questionários. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ JESUALDO. Explique o porquê dessas mudanças. James. SALEM. Tradução de: AMADO. 69 . História da Literatura Infantil. Registre aqui um pouco do que encontrou. 1978. procurando estabelecer semelhanças e diferenças. 1970. Registre aqui algumas conclusões. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3. Pesquise na narrativa contemporânea. Procure descobrir. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. Nazira.História da Literatura Infantil 1. voltada exclusivamente para a criança. A Literatura Infantil. São Paulo: Metre Jou.

Literatura Infantil 70 .

Em conseqüência. a coletânea de José Saturnino da Costa Pereira. Com a valorização da instrução e da escola no país. Para atender a essa espera. Com a implantação da Imprensa Régia. porque atribui valores positivos à inteligência e ao saber. em 1905.História da Literatura Infantil no Brasil Itens a serem abordados Origens da Literatura Infantil no Brasil Funções da literatura através do tempo A Autores e obras relevantes Literatura Infantil brasileira surgiu muito tempo depois do início da européia. A escola possui um papel fundamental na valorização da literatura. (LAJOLO. indígena e africana. diluindo-se durante o Império em novas contribuições culturais. talvez. os livros. p. e um diálogo sobre geografia.] [. para a infância. confere importância ao exercício da leitura para formar o profissional e o cidadão. seja hoje difícil de distinguir nitidamente. 1988. O grande acervo de livros de memórias com que contamos. segundo as autoras. em 1818. Floresceu.. em nosso desenvolvimento cultural. fizeram florescer alguns institutos de velhos narradores e contadores de histórias. a falta de uma Literatura Infantil e o privilégio de uma pequena elite econômica capacitada para ler fizeram com que predominasse por muitos anos a literatura oral: As correntes culturais negras.. com as quais realizava um fenômeno de aculturação. a partir dessa data.. fixando aspectos curiosos do Brasil e de sua formação em vários espaços e tempos. Continuou atuando fortemente. Leitura para meninos. que mesclava textos de invenção com jogos e brincadeiras. de interação que. cresceu e alterou-se. eram esporádicas e insuficientes para caracterizar uma produção literária brasileira. cronologia. 45-46). percebe-se a carência de material adequado de leitura para crianças brasileiras: . Marisa Lajolo e Regina Zilberman. regular. trazidas para o Brasil durante o ciclo da escravidão. pois a sociedade brasileira coloca-se à espera da absorção de novos produtos culturais.] Esse lastro cultural não deixou de existir com a Independência. 1990. Após a Proclamação da República.. p. uma aceleração da urbanização propiciou o aparecimento da literatura infantil. (ARROYO. história de Portugal e história natural. começam a ser publicados livros para crianças no Brasil: [. Mas essas publicações. Porém. deixam de ser objetos tão raros no país. contendo uma coleção de histórias morais relativas aos defeitos ordinários às idades tenras. em seus múltiplos e complexos aspectos. ocorre o lançamento da revista infantil O Tico-tico.. a corrente européia com os racontos maravilhosos [..] a tradução de As aventuras pasmosas do Barão de Munkausen e. 23). deixa-nos preciosos depoimentos que mostram a vigência e realidade da confluência cultural européia. Anteriormente. em 1808. mais tarde. textos de informação científica e ilustrações chamativas. ZILBERMAN.

“foi a primeira coletânea brasileira de literatura infantil organizada com expressa intenção de traduzir em linguagem brasileira os contos infantis que circulavam em coletâneas estrangeiras. em parceria Zalina Rolim com João Köpke. (LAJOLO. Poesias infantis (1904). por sua vez. Nossos escritores extraíam dos vetustos fabulários o tema e a moralidade das engenhosas narrativas que deslumbraram e enterneceram as crianças das antigas gerações [. a circulação de obras traduzidas. de Zalina Rolim. jornalistas e professores arregaçaram as mangas e puseram mãos à obra. 215-216). A estudiosa Nelly Novaes Coelho analisa esse período finissecular por meio de Edgard Cavalheiro: A literatura infantil praticamente não existia entre nós.. Sílvio Romero e Machado de Assis. no Livro das crianças. escritos em português muito distante do idioma dos leitores brasileiros. quer como negligente e cruel. ou traduções portuguesas. Marisa Lajolo e Regina Zilberman afirmam que Via de regra. 223). História da nossa Terra e outros. Um dos problemas apresentados pelos textos europeus traduzidos foi a circulação de textos em edições portuguesas. em formato de diário. reunindo narrativas de fadas.] (COELHO. Tratava-se. é claro. de Francisca Júlia e Júlio da Silva. a imagem da criança presente em textos desta época é estereotipada. de Antônio Marques Rodrigues. ZILBERMAN. Durante este período. Texto de intensa afetividade. p. escritores e intelectuais dessa época eram extremamente bem relacionados na esferas governamentais. Olavo Bilac e Coelho Neto editam seus Contos pátrios (1904) e Júlia Lopes de Almeida lança as Histórias da nossa terra. também. (COELHO. As aventuras do celebérrimo Barão de Münchausen (1891). igualmente reivindicadas como necessárias à consolidação do projeto de um Brasil moderno. quer como virtuosa de comportamento exemplar. Robinson Crusoé (1885). essa imagem é anacrônica em relação ao que a psicologia da época afirmava a respeito da 72 ... fábulas e contos exemplares. que provinha da Europa. Além de estereotipada. que lembra um pouco Coração. p. 28-29). podia ser encontrada em Coração (1893). 1991. A poesia. Contos da carochinha (1896) de Figueiredo Pimentel. Trata-se de texto com evidentes características brasileiras na recuperação do tempo de meninice no interior do Estado de São Paulo. tratava da educação dos meninos na Itália. de Olavo Bilac e Alma infantil (1912). foi o primeiro livro de grande repercussão escolar. 1991. começaram a produzir livros infantis que tinham um endereço certo: o corpo discente das escolas. de um tarefa patriótica. não faltavam também os atavios da recompensa financeira: via de regra. de Edmundo de Amicis que. 1988.. Esse primeiro momento da Literatura Infantil brasileira é marcado pela apropriação de um projeto educativo ideológico. nesta época. a que. Os livros do povo (1861). o que lhes garantia a adoção maciça do que escrevessem. entre outros. E. Carlos Jansen foi um pioneiro na tradução e adaptação de textos como Contos seletos das Mil e uma noites (1882). Antes de Monteiro Lobato havia tãosomente o conto com fundo folclórico. p. que foram prefaciados por intelectuais como Ruy Brabosa. Contos infantis.Literatura Infantil Intelectuais. Tales de Andrade encerra este período da origem da literatura infantil brasileira. do final do século XIX. Com o romance Saudade (1919). na mesma época. observa-se.

nos anos 1940. (ARROYO. 1991. Na década de 1930. O espaço do sítio do Picapau Amarelo constitui sempre o ponto de entrada de todas as narrativas de Reinações de Narizinho (1931) – nome novo para Narizinho arrebitado. devido aos fatores sociais: maior número de consumidores. Buscou o nacionalismo na criação de personagens que refletiam a brasilidade na linguagem. enredo. com sua lucidez irreverente.) “todas elas existem com a mesma verdade. em Portugal. Além disso. Lobato foi lido por milhões de leitores e traduzido em diversos países. e que apresentam a mesma textura das personagens inventadas (a boneca Emília. como Érico Veríssimo.. Monteiro Lobato publica.] Alguns lançaram um único título. 32). em As aventuras do avião vermelho (1936) [. que Lobato criou. e Monteiro Lobato. 73 . representada por modernistas: Guilherme de Almeida. na relação com a natureza. dentro do universo faz-de-conta. outros. Entre o período de 1920-1945. ZILBERMAN.. avanço da industrialização e aumento da escolarização dos grupos urbanos.. Considerado o maior clássico da Lteratura Infantil brasileira. D. Pedrinho. é comum também que esses textos infantis envolvam a criança que os protagoniza em situações igualmente modelares de aprendizagem: lendo livro. ouvindo histórias edificantes.” (COELHO. Alguns recorreram ao folclore e às histórias populares: José Lins do Rego publicou as Histórias da velha Totônia (1936) Luís Jardim. 34). como Lúcia. empenhou-se em ‘desmascarar’ os falsos valores” (COELHO. autor de O sonho de Marina e João Pestana (1941) A estrela azul (1940) de Murilo Araújo e de Henriqueta Lisboa: O menino poeta (1943). o Pequeno Polegar. embora de modo diferenciado.História da Literatura Infantil no Brasil criança.. Devido à liberdade criadora e à liberdade de pensamento que defendiam suas personagens.. p. 1982. movimentação dos diálogos. Monteiro Lobato criou um universo para a criança... 228). p. linguagem visual. ele foi considerado subversivo.] compartilham a evolução da literatura infantil brasileira. Outros criaram narrativas originais. tendo conversas educativas com os pais e professores [. p. como os citados José Lins do Rego e Lúcio Cardoso. 1991. 47). Narizinho arrebitado. O boi Aruá (1940) Lúcio Cardoso. nos comportamentos. 1990. 198). p... “num cenário natural. que já apresentava um apelo à imaginação. p.] (LAJOLO. Tia Anastácia. 1990. porém. em 1921. ficando quase ausente a poesia. na afetividade. 1988. a criação literária infantil aumenta o número de obras. Benta. enriquecido pelo folclore de seu povo.. obra que dá início à etapa mais fértil da ficção brasileira.. 231). Histórias da Lagoa Grande (1939) Graciliano Ramos.] No conjunto predominou soberanamente a ficção. Com isso. por religiosos e até por Salazar. mantiveram uma produção regular [. humor e a graça na expressão lingüística e representava “toda uma soma de valores temáticos e lingüísticos que renovava inteiramente o conceito de literatura infantil no Brasil” (ARROYO. Esse crescimento quantitativo da produção para crianças e a atração que ela começa a exercer sobre escritores comprometidos com a renovação da arte nacional demonstram que o mercado estava favorável. Alexandre e outros heróis (1944). os romancistas e críticos [. aspecto indispensável à obra infantil” (CARVALHO. sofreu reações contrárias às suas obras. p. com personagens representando seres humanos. o sabugo Visconde de Sabugosa.. Nelly Novaes Coelho afirma que “o sistema tradicional estilhaçava-se.

Há. Ary Quintella. seus impasses e suas crises. a aventura do conhecimento humano. Eva Frunari. por vezes. Lygia Bojunga Nunes. Nos anos 1970. o surgimento das histórias em quadrinhos. Nascem instituições preocupadas com a leitura e o livro infantil. Essa tendência contestadora. que Através das personagens e das situações que arma. 1991. Sylvia Orthoff. contra a criança – e propondo o estabelecimento de nova relação entre pessoas. questiona valores estabelecidos. focalizando o Brasil atual. que envereda pela temática urbana. Atualmente. mas. Nessa década. que eram acusadas de ser uma das causas da falta de interesse pela leitura. Marina Colasanti. Bartolomeu Campos Queirós. demolindo arraigados preconceitos contra a mulher. o lúdico. A literatura brasileira está marcada pelo registro das peculiaridades locais. com a estruturação narrativa. ocorre uma fomentação e discussão da Literatura Infantil. manifesta-se com clareza na ficção moderna. Informar e educar passam a ser pano de fundo do interesse de autores e obras. p. Pela inversão a que submete os conteúdos mais típicos da literatura infantil. com o visualismo do texto e questionam os valores da sociedade. Hoje. Essa etapa da Literatura Infantil brasileira reata pontas com a tradição lobatiana. Nos anos 1960 e 70. Mas a principal marca da literatura infantil é a obra de Monteiro Lobato. as funções da literatura infantil no Brasil estendem-se para além da educação formal. por outras vias. Raquel de Queiroz e Ruth Rocha são alguns dos autores que compõem esse panorama e que produzem o experimentalismo com a linguagem. Ana Maria Machado. ainda. instala-se a crise da leitura. Passam a primeiro plano o conhecimento do próprio indivíduoleitor. temos escritores como Lygia Bojunga Nunes. contra o velho. apesar das discussões. o entretenimento (chamado. 240). de prazer) o experimentalismo na linguagem narrativa. dividindo-a em antes e depois do autor.Literatura Infantil Na década de 1950. contra o artista. 74 . prosseguem os debates acerca das reformas e reestruturações no campo do Ensino. quase nada muda nas condições da educação. com o fim da era getulista. investimentos capitais para inovar a veiculação e aumentar o número e o ritmo de lançamento de títulos novos. (COELHO. como a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e há toda uma mobilização do Estado apoiando e agilizando o envolvimento com a leitura.

ed. Literatura Infatil Brasileira: história e histórias. Pesquise na biblioteca de sua escola quais são os grandes escritores da Literatura Infantil brasileira que fazem parte do acervo. 75 . 1982.História da Literatura Infantil no Brasil 1. 2. 1988. Literatura Infantil Brasileira. Panorama Histórico da Literatura Infatil/Juvenil. Registre aqui essa lista. São Paulo: Melhoramentos. ZILBERMAN. ARROYO. COELHO. CARVALHO. sobre o repertório de leitura dos alunos. Leonardo. Registre aqui o que descobriu. ed. 1991. Registre o que descobriu. 1990. Faça um levantamento em sua escola. professores e funcionários e verifique qual a função mais importante que a Literatura Infantil cumpre em sua vida de leitores. Nelly Novaes. Marisa. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________ 2. Regina. Pesquise a relação entre a escola e a Literatura Infantil no Brasil. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________ LAJOLO. 4. São Paulo: Edart. 4. São Paulo: Ática. Barbara Vasconcelos de. ed. A Literatura Infatil: visão histórica e crítica. procurando descobrir as influências recíprocas. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________ 3. São Paulo: Ática.

Literatura Infantil 76 .

É fácil entender. portanto. em que as coisas e os seres estão relacionados entre si. E isto é prova de que o homem somente se encontra pela expressão afetiva. aos seres. que o revela e o conduz a seu semelhante.Tipologia dos textos literários: poesia infantil Itens a serem abordados Configuração dos poemas A metaforização e a simbolização Poesia e música A poesia brasileira para a infância é muito rica e diversificada. com lições de moral e linguagem nada poética. uma experiência épica. 93). cansa e dispersa a atenção da criança. em toda a sua grandeza. Esse movimento . 1982. Poesia é transfiguração da realidade objetiva ou subjetiva em expressão de beleza e de contemplação emocional. pela sensibilidade. o lírico e o épico são processos que se inter-relacionam na infância. É o encontro e a harmonização do eu existencial com o eu poético. difundida na escola. A primeira forma de expressão do homem em sua história é a primeira a encontrar ressonância na alma infantil. p. Alguns livros apresentam à criança poemas didáticos demais. enfim. p. Assim. De acordo com Maria Antonieta Cunha [. do gesto primordial do imaginário de reconhecer o mundo através da analogia. inicialmente. (CUNHA. 222-223). depois a poesia. realizando a revelação do ser. Realmente. à natureza. distanciada e crítica. através de uma apreensão lírica. é pela poesia que se iniciam todas as Literaturas. por não ser narrativa.. tanto pela variedade de tipos textuais quanto pelo grande número de poetas que se espalham por todo o país. a crença de que escrever poemas é fácil e basta colocar rimas em final de linha e se terá um bom poema infantil. em que sujeito e mundo se fundem. às boas ações. A fantasia e a sensibilidade caracterizam a ambos.] é muito comum compararmos a criança e o poeta. Para o trabalho coerente da poesia vale citar que: A poesia é a primeira manifestação de expressão literária.. há uma avaliação. geralmente. à árvore.] O predomínio da linguagem afetiva existe na poesia e na criança. como o campo da poesia. por que entre as formas de arte a criança prefira primeiro a música. À medida que distingue as coisas que o cercam. da essência. ao universo. de que poesia é difícil e que. assim. às coisas. O relacionamento do sujeito com o real e com a linguagem dá-se. o mundo infantil é cheio de imagens. são produzidos por educadores e não por poetas. Esses textos. e a tendência natural da criança para o ritmo e a metáfora. Essa presença atende a diversos fatores: a tradição do verso em composições dirigidas à infância. a criança desenvolve. 1983. Pode-se explicar essa visão errônea pela má escolha do poema e por seu tratamento equivocado em classe. Porém. [.. (CARVALHO.. ressalta-se a predominância do lírico. contudo. pregando amor à Pátria. identifica o outro e afirma a própria existência.

simbólica. Sua atividade diversificada permitiu-lhe divulgar as obras maiores da literatura. p. 78 . o leitor pode entrar nas brechas e alcançar uma vivência interior. explicitada pela forte presença da antítese. 96). 224). por exemplo. a conotação” (CUNHA. p. das palavras.Literatura Infantil lírico da primeira infância do ser humano explica o prazer dos sons. e o gosto pela repetição. Quanto à estrutura. simplicidade. atingindo a riqueza estética. Assim. ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel. pois “a poesia é para ser sentida. principalmente no que diz respeito à mudança no tratamento da arte. Foi a criadora de uma biblioteca infantil. concretizando-o nos mais variados temas. Sérgio Caparelli. “deve apresentar certos requisitos: ritmo. clareza e pequena extensão” (CARVALHO. Na obra Ou isto ou aquilo. Ou isto ou aquilo Ou se tem chuva e não se tem sol. uma das primeiras do gênero no Brasil. Vinícius de Moraes. No mistério que cada imagem poética engendra. e ao seu trabalho. no jornal A Manhã. nos Estados Unidos da América. temos o poema que dá título à obra e cujo tema é a dúvida. a poesia não é apenas linguagem versificada. O entendimento da poesia não é o essencial. sonoridade. Ângela Leite de Souza. De todos os gêneros. O ritmo é um elemento essencial e deverá ser fortemente marcado e. Henriqueta Lisboa. característica atraente para o leitor infantil. ao se sentir intrigado com um certo tipo de poema. Também foi jornalista. Poetas que constituíram marcos da poesia infantil brasileira. Por isso tudo. ao invés de afastar-se da poesia. Lecionou Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas. Cecília Meireles conhece o universo infantil e tira proveito disso. sem dúvida: entre os poetas maiores estão Cecília Meireles. deve ser o menos comprometido com aspectos morais ou instrutivos. bem como a tornaram conhecida. mas linguagem poética. que buscam a unidade com o aspecto semântico. a poesia é composta por ritmo e sonoridade. Para Bárbara Carvalho. muito mais que compreendida. José Paulo Paes e Sidônio Muralha. compõe o lúdico. deixando de apresentar o cunho pedagógico. junto à rima. é imprescindível expor o leitor-criança a um material poético diversificado. nacional e internacionalmente. Ainda segundo a estudiosa. 1983. 1982. tendo sido responsável por uma seção sobre problemas do ensino no Diário de Notícias e uma seção de estudos do folclore infantil. Cecília Meireles é uma das mais importantes escritoras de poesia infantil. A poesia é fruto da sensibilidade do leitor: emoção e beleza. Uma das principais características do fenômeno poético é exatamente a ambigüidade. poderá recorrer a outros que o agradem. das cores.

não sei se estudo. o jogo sonoro e visual. é poetizado. como a adivinha. imaginariamente. assonância. desde que foi lançado pela primeira vez. dos textos poéticos-infantis. o poema narrativo que é a história contada em versos com rima e ritmo. A poesia pode ser pensada em três grandes modalidades: o poema que se realiza de maneira mais lírica ou mais lúdica. tratando de um tema que não tem idade. o mundo existente. são o denominador comum. “Ou guardo o dinheiro e não compro o doce/ou compro o doce e gasto o dinheiro”. a cor que não tinha lugar na terra e se encontrou na lua. Na poesia citada. a criança apreende o universo em que se insere. De forma emocional e globalizante. constantemente. Considerando que a prosa poética não está presa ao verso. o eu lírico mostra que a vida é feita de escolhas e estas. a tematização do cotidiano infantil e até o reaproveitamento de formas folclóricas. obrigado a conciliar. os elementos fundamentais da ficção. mesmo possuindo. se constrói a partir de imagens poéticas. como estruturas métricas e estróficas. mas busca a musicalidade da linguagem e vale-se de imagens poéticas. são difíceis de resolver. Nela. próprio do lírico. com uma musicalidade agradável à criança. Apresenta uma riqueza nas formas e na rima. Os elementos formais da poesia. um livro em que os recursos poéticos da palavra se aliam à 79 . Cecília Meireles abre a porta para que a criança se instale no espaço do poema. sem menosprezar a inteligência e a sensibilidade infantis. a prosa poética que. O cotidiano do ser. estão representados os pólos opostos da realidade e do prazer que o ser humano é. O mesmo sucesso faz Flicts. sem estar presa ao verso. se saio correndo ou fico tranqüilo. Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo. O eu-lírico diz. mas ajustando o foco à percepção própria do mundo. ritmo. são atravessados por um estado de alma que funde sujeito e mundo. Cecília Meireles apresenta maior expressão na tendência lírica. também. não apenas num processo de reconhecimento. ou compro o doce e não guardo o dinheiro. aliteração. que oferecem mais um processo de vivências interiores do que experiências ou motivações para a ação. mas O menino maluquinho. que sabe ser feliz e tem agradado a inúmeras gerações. Sem dúvida. marcado pela dúvida e pela dificuldade de decisão. quem fica no chão não sobe nos ares. mas de revelação. rima. acentuação.Tipologia dos textos literários: poesia infantil ou se põe o anel e não se calça a luva! Quem sobe nos ares não fica no chão. Ziraldo cujo menino não é mais aquele do “ama a terra em que nasceste”. muitas vezes. Na simplicidade dos versos. Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo e vivo escolhendo o dia inteiro! Não sei se brinco. É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares! Ou guardo dinheiro e não compro o doce.

pelas mensagens experimentadas e sentidas. A técnica informa. ao sabor da moda marrom-terra. ou no aniversário do colégio. Sua obra compõe-se de. Cabe ao professor apresentar e propiciar à criança este encontro com a poesia. as letras de canções. 93). Nela. sem a obrigatoriedade de memorizar para a declamação na festa dos pais. as quadras de adivinhas. a amolecer de ternura alienante os 80 . 1986). Compreender. Outra escritora de destaque na literatura atual é Ângela Leite de Souza. pelos movimentos rítmicos. É também a condição prioritária e essencial para o professor que procura o reequilíbrio racional-imaginário entre os alunos. Num povo que ama a poesia e que tem uma escola que a odeia. há uma simbologia profunda. (KIRINUS. mostrar que a beleza da poesia é uma beleza que se encontra nas criaturas. os ouvidos e os olhos dos brasileiros. na natureza e na vida cotidiana. entre livros para adultos e infanto-juvenis. amar e conhecer a poesia são fragmentos do mesmo todo que compõe o ser poético – agente de re-ligações e re-citações ancestrais e múltiplas. ao encontrar os recifes da instituição escolar. pela dramatização. vulgo ecologia. 228). em sua riqueza de conteúdo e de linguagem. como é caso da coleção dos livros para cada letra do alfabeto. pelos jogos fônicos. peça de equipe a serviço de uma engrenagem técnica. e seus textos encaminham-se para a busca da essencialidade humana. O professor deve propiciar a vivência da poesia. aproximadamente. pesquisa. por exemplo.  O canal criativo do ser humano é excitado pela poesia. porém. (CARVALHO. 1998. onde situar a poesia infantil? Os poemas de cordel. 1982. A obra de Ziraldo inclui. tudo pode ser poesia. segundo as palavras de Maria da Glória Bordini. Uma formação sem arte. Acrescentarei: vigoram também. mas somente a cultura forma o homem. o texto é uma exposição lírica sobre a questão da identidade e metaforiza os dilemas da existência humana. com vozes onomatopaicas e figurino humano. Em O peixe e o pássaro. sem análise da versificação. os hinos religiosos povoam com rimas. não prepara civilização nem homens. mas apenas cria e condiciona exércitos e cérebros mecanizados. A ciência sem cultura se empobrece e reduz o homem a simples manipulador. p. Essa maré poética arrebenta-se. que exploram a rima. tradução. prosa e poesia.Literatura Infantil ilustração e aos aspectos gráficos. também. Já recebeu diversos prêmios nacionais e reconhecimento inclusive internacional. ritmos e imagens os dias e as noites. os animais grandes e pequenos. Nela vigoram. quarenta títulos. Cabe ao professor ser o mediador. também. Há muitos escritores e obras que merecem destaque e valorização. que podem estar inseridas na divisão anterior. o ritmo. sem cultura. O trabalho de Bartolomeu Campos Queirós é um dos exemplos mais expressivos de prosa poética na literatura brasileira. o “balbucio meloso das emoções ou a voz estrondejante que exalta deveres cívicos ou familiares”(BORDINI. Ele deve. conferindo-lhe um lugar de destaque na literatura infantil brasileira. p. densa. Talvez um maior interesse do professor em estimular a leitura da poesia em classe pudesse render melhores resultados. sem fichas de leitura. histórias escritas em versos.

dando vida ao desenho das letras... quando ele chega aos poetas.Tipologia dos textos literários: poesia infantil corações e mentes submissos à vontade e ao gosto adulto... sempre a ama-seca dos netos.. Freqüentemente. Entrar num universo de sons e sentidos inusitados. não ultrapassa a ode aos pássaros. de uma nova lógica. lavar as mãos. um Castro Alves altissonante.. o Hino Nacional. cantiga.. duni.. E a razão de ser da poesia e da vida achata-se num racionalismo pragmático – bem ou mal intencionado. dos dias da semana ou dos meses do ano...... definir e estabelecer verdades que se acreditam únicas e eternas. Animais que se multiplicam. um Drummond facilitado e um Manuel Bandeira adocicado – isto. Poesia que brinca de dizer muito a partir do mínimo e de suas combinações: 81 ... do abecedário. Sons. As possibilidades fundamentais – pretendidas por Staiger – transformam-se em inutilidades sem fundo mental. Caiu no poço Quebrou a tigela Tantas fez o moço Que foi prá panela. Poesia que contém música e que. lava. 57).... por isso. se faz canção: O Pato pateta Pintou o caneco Surrou a galinha Bateu no marreco . O progresso do leitor de poesia atinge o ápice quando ele consegue decorar o hino à primavera. dança: Uni. tomar banho – e no exercício mnemônico da tabuada. A existência humana é entendida como a vida idealizada de super-heróis sem cuidados nem afazeres. em que caem por terra os intuitos iluministas de ordenar.. da lição de ciências. p.... como os poemas figurativos de Antônio Barreto em Isca de pássaro é peixe na gaiola (CAPARELLI.. que se apresentam e representam em formas visuais. vivendo qual linda borboleta irisada a flutuar no firmamento azul – sem nuvens. classificar. cozinha e vegeta... 1989. ritmos e imagens cristalizam-se no exercício do hábito de higiene – escovar os dentes. cuida.. tê Salamê minguê Um sorvete colorê O escolhido foi você. fazendo-as obedecerem a um novo traçado igualmente significante. o passeio dos patinhos ou os cabelos encanecidos da vovozinha que. Mundo em que os sons encadeiam-se em ritmos e em que a significação se descobre enquanto brincadeira.

neste instante. assim como o compositor cria sinfonias. multiplica-se e unifica-se. O título define bem o núcleo de uma questão continuamente abordada. Nada de infantilizações pedagógicas e sim convites à aventura das palavras. O leitor constrói textos. das fronteiras à liberdade estética. salvo. tais como: caracterizar. mas em suas restrições (os adjetivos infantil e juvenil). que introduz modulações. uma vez que.” (BORDINI. A literatura que traz o destinatário. contendo estudos sobre a literatura para crianças e jovens. arranha e desliza. podendo privá-la de sua especificidade artística. Maria da Glória Bordini. na qual se sobrepõem às questões de ordem estéticoliterárias as intenções pedagógico-utilitaristas. 1986. ao postular esse gênero literário como arte para um público determinado. não é polêmica em sua essência (o substantivo literatura). 1986. e ainda imaturo. os estereótipos referentes a esse público retornam por efeito de ricochete sobre o comportamento da produção poética. incluído em seu modo de ser. Na esteira da reflexão sobre o trânsito poeta-poema-leitor é que se pode. subjugar a literatura à faixa etária de seus leitores? Que critérios adotar para a avaliação crítica de textos pré-destinados? Como saber. 1983). posiciona-se com maior clareza: a poesia infantil genuína é indistinguível da poesia não-adjetivada. Logo adiante. refletir a respeito do que se pretende definir como poesia infantil. preparam ou param o leitor iniciante. Em conseqüência. acrescentado à poesia. . é central para a discussão do assunto.Literatura Infantil Afinando violino Toco lino viofino toco vio fonolino vio toco linofino toco fino violino (BORDINI. alerta: O adjetivo infantil. Há um livro clássico. intitulado Literatura infanto-juvenil: um gênero polêmico (KHÈDE. ou retirar os entraves graduais e permitir saltos e aventuras na história dos leitores iniciantes? Esses leitores. As palavras descrevem sem obedecer a habituais fórmulas descritivas. em termos temáticos. talvez. somente encontrarão objetos de leitura e fruição na instituição escolar. os horizontes de expectativas dos leitores em formação? Adequar ou liberar? Ir progressivamente superando dificuldades de leitura. O ensaio musical descreve-se na estrutura nominal que se embaraça e se refaz. são geralmente desassistidos da família e da sociedade em geral. p. e enquanto leitores. infantil ou juvenil.11). de antemão. que descentra aquelas que seriam as discussões fundamentais para substituí-las por outras. a partir de um motivo. 13). adequar. 82 Não há possibilidade de tratar a poesia infantil sem conhecer as redes de relações que formam ou deformam. Trata-se da sobreposição dos limites. Uma das mais respeitadas estudiosas do assunto. variáveis. p. tons e semitons.

Literatura Infantil: teoria e prática. Trabalhe com poemas já escritos. Barbara Vasconcelos de. Crie paráfrases e paródias de poemas conhecidos. CARVALHO. KIRINUS. Crie a hora da declamação para poemas publicados e de artistas de renome. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3. Sônia Salomão. A Literatura Infatil: visão histórica e crítica. 2. São Paulo: Ática. CUNHA. 83 . Criança e Poesia na Pedagogia Freinet.Tipologia dos textos literários: poesia infantil 1. Literatura Infanto-juvenil: um gênero polêmico. Registre aqui uma dessas criações. 1982. 1983. modificando-lhes palavras para comprovar que o texto modifica seu sentido de acordo com as mudanças em sua estrutura. 1998. Maria da Glória. Tigres no Quintal. Petrópolis: Vozes. 1989. Porto Alegre: Kuarup. Sérgio. CAPARELLI. São Paulo: Edart. 1986. BORDINI. São Paulo: Paulinas. Crie um varal de poemas em sua sala de aula. Poesia Infantil. Maria Antonieta Antunes. São Paulo: Ática. 2. Ilustração de: Gelson Radaelli. Estimule os alunos a produzirem poemas para essa exposição. Glória. KHÈDE. 1983. ed.

Literatura Infantil 84 .

C. o romance policial. em sua obra Literatura Infantil: teoria. dentro de um contexto universal. portanto.” (COELHO.C. que trazem em suas narrativas um fundo espiritual. no século XVII. todas com uma característica em comum: apresentavam lições morais à sociedade. reações. Nela. o qual retomou suas narrativas. As fábulas surgiram no Oriente e sofreram várias reinvenções. distinguem-se dos outros textos pela “presença do animal. – 50 d. pode-se representar três mundos diferentes. o mundo religioso-cristão. A origem do termo vem do latim fari = “falar” e de grego phaó = “dizer algo”. Apresentam características populares. a oralização de um saber. No século XVI. assim como as parábolas. na Grécia. O grego Esopo trouxe as fábulas ao Ocidente (século I a. 19991. vícios e virtudes das pessoas. palavras e sentimentos equivalentes aos dos seres humanos. Implicam.C. didática.). que foi Fedro (15 a. ao final ou nas primeiras linhas. Em pouco tempo. colocado em situação humana e caracterizando símbolos. principalmente. 148). no qual são atribuídos sentimentos e fala aos animais. As fábulas foram a primeira espécie a aparecer. em uma narrativa conhecida como Fábula. ou seja. as fábulas. mas sem muita repercussão. mostrando as mudanças e valores da sociedade ao longo dos tempos. que retomou o uso do verso e .). inaugura-se a maneira de atribuir aos animais comportamentos. Consideramos aqui as três primeiras dessas espécies. mundo das metamorfoses. dentro desta classificação das narrativas primordiais: mundo real. imprimindolhes um caráter mais prático. pelas Parábolas. foram retiradas das histórias do próprio homem. no qual convivem seres fantásticos e seres naturais e. de maneira condensada. O folclore apresentou gêneros diferentes de narrativas. análise. mitos e lendas. mitos e lendas como espécies literárias. Foi o francês La Fontaine. presente no Conto de fadas. Leonardo da Vinci exercitou essa espécie literária na Itália renascentista. as quais a literatura infantil incorporou em seu repertório. representado. de origem hindu e que chegou ao Ocidente por volta do século XIII. alertando para os pecados.Tipologia dos textos literários: as narrativas de tradição – I Itens a serem abordados Fábulas Mitos Lendas A tradição oral foi responsável pela criação de formas artísticas e representativas dos povos. Tratamse de narrativas primordiais. as crônicas e outros tipos de textos literários. Também nelas aparece. p. entre elas. Segundo Nelly Novaes Coelho.  A primeira antologia com esse tipo de narrativa foi Calila e Dimna. Nelly Coelho considera as fábulas. conseguiu um imitador. a moral da história. os apólogos.

justamente. o italiano Ítalo Calvino. como um sapo. O burro. pois é comum as crianças interpretarem de forma contrária a mensagem que o escritor está querendo passar. emblemas ou símbolos” (JESUALDO. 144). para os adultos. chega à zoolatria e ao totemismo. o escritor Jesualdo alerta para situações bastante corriqueiras em relação a esta moral da história. visto que queriam.] necessidade natural que o homem sente de expressar seus pensamentos por meio de imagens. porém impessoal. Outros grandes fabulistas foram Monteiro Lobato. com elas. Ou seja. que simbolizam a força e a astúcia. as fábulas precisem receber novos meios de percepção do cotidiano. O lobo e o cordeiro. Ele também chama a atenção para o fato de quase sempre utilizar os mesmos animais como protagonistas. p. num caráter didático. as fábulas surgiram. O filme mistura os contos de fadas às fábulas: ao fim. ao contrário das fábulas. os contos de fadas apresentam um animal. encontramos a presença dessa personificação que. As fábulas não precisam ter essa preocupação. em geral. Os mitos (do grego mythos = “narrativa”) surgiram com o próprio homem. com atitudes e decisões que escapam ao arbítrio humano. traz como personagens principais um ogro (que dá nome ao filme) e um burro falante. 1978. não havia espaços políticos para essa atitude de denúncia. pois. no significado que elas vão deixar para os ouvintes e/ou leitores. Por exemplo. apesar de sentir-se excluído. em geral. Os dois vão caminhar em busca da felicidade. Algumas personagens são divinas. denunciar indiretamente uma sociedade que apresenta comportamentos de corrupção.Literatura Infantil denominava fábula à narração em si: seu significado chamava-se moralidade. Ao longo dos tempos. surgiu da “[. a ingenuidade. além da maldade presente nos seres humanos. Deram origem ao simbolismo animal (a raposa e o corvo significam esperteza: o lobo. o leão. perseguidos que foram por uma bruxa ou por uma madrasta. Na verdade. Porém. Talvez. apresentam uma explicação para fenômenos naturais. as fábulas tornaram-se uma forma de cartilha de bons princípios para as crianças. o tigre e a raposa. sem ater-se às aparências. o norteamericano Walt Disney e o humorista brasileiro Millôr Fernandes. satirizando a magia dos contos de fadas.. 86 . primeiramente. por vezes. trazendo os animais como instrutores desses conhecimentos. A cigarra e a formiga. La Fontaine foi responsável pela grande repercussão da fábula nos países latinos. consegue ajudar o Ogro a ser feliz. São formas de protesto e crítica. portanto. a força. pois o que realmente falta a ambos é a amizade verdadeira e sincera. com suas narrativas. o cordeiro. sem fundo moral e personagens-protagonistas submetidos ao sobrenatural. que se transforma em príncipe e/ou em linda moça. como: A leiteira e o pote de leite. a valentia e a nobreza. o sentido básico para esse gênero esse. pois. Eles confirmam a perenidade dessa espécie literária. Até nossos dias. O filme Shrek. e assim por diante). entre eles o Brasil.. há um desmembramento do que se considera “belo”.

A psicanálise também vai atribuir aos mitos as fontes de explicação humana. aquele existe pela imaginação humana: É costume dizer que quando o homem sabe. queria explicar. eles estão ligados aos fenômenos da natureza. Buscou-se uma correlação entre os mitos fortemente existentes no mundo greco-romano e as passagens bíblicas. por exemplo. essas duas manifestações do pensamento e da palavra dos homens respondem a um mesmo desejo: a necessidade de explicar a Vida ou o Mundo. o que havia vivido ou experimentado.Tipologia dos textos literários: as narrativas de tradição – I Em geral. que. 43). muitas vezes.. p. 1991. pois “A lenda [. em geral. pois apresentam indiretamente um questionamento da origem da existência. por pergunta e resposta. A narrativa da origem presente no primeiro livro da Bíblia (Gênesis) é assunto de discussão até os dias de hoje. pois ambos apresentam situações “sobrenaturais” para explicar a realidade. é possível verificar a dificuldade de datar uma origem concreta. teórico literário. p. O homem coloca-se diante do mundo e o interroga. As lendas (do latim legere = “ler. 1999. Quando o universo se cria. para o homem. (COELHO.. 109). são considerados explicações míticas. assim. Para André Jolles. O mítico está também diretamente ligado ao espiritual. em que atuam astros e meteoros. Há a busca incansável de explicação das origens e do mistério que afloram no além-terra: 87 . mas também quer conhecer os pormenores da vida. A busca de explicações para tudo que existe na Terra também contribuiu para o fortalecimento dos mitos e. 1978. refletindo o drama humano ante o outro. cria o Mito. (PRIETO. interpretar”) são textos constituintes das narrativas primordiais. pedindo que lhe revele seus fenômenos. p. As lendas trabalham especificamente com os relatos do povo. aos deuses e à criação do homem e do mundo. pois a crença na existência de um ser superior fez com que os homens temessem castigos e esperassem uma recompensa. mito e literatura caminham juntos. através de fatos sobrenaturais. 151). A psicanálise tem feito uso intenso dos mitos: Freud foi responsável pelo ressurgimento do mito de Édipo. Segundo a autora Nelly Coelho. ele cria a História e quando ignora. em sua primeira etapa. os mitos caminham com a história e ambos explicam-se: se este trabalha com a razão e observação dos fatos. Na verdade. Recebe então uma resposta: palavras que vêm ao encontro das suas.] não é mais do que o pensamento infantil da humanidade. o termo narcisista surgiu do mito do Narciso. forças desencadeadas e ocultas. Ainda segundo Nelly Coelho. As lendas. Deseja compreender o universo como um todo. visto que o homem mais primitivo já questionava a sua existência e o princípio do mundo. que diz respeito a pessoas com vaidade exarcebada. o homem faz uma pergunta ao mundo. fábulas e contos. tem lugar a Forma narrativa a que chamamos Mito. Trata-se de uma narrativa que parte de um fato histórico e o interpreta de maneira sobrenatural.” (JESUALDO. sendo assim.

São Paulo: Cultrix. tudo era causa de lenda para ele. Anote aqui o relatório de uma dessas contações de histórias. não é senão a história das primeiras lutas do homem. Organize com seus alunos uma antologia de lendas de sua região. COELHO. Anote aqui o relatório deuma dessas visitas. considerados mais antigos. porém. São Paulo: Angra. o movimento dos astros. as migrações dos povos e dos animais. seja ele bom ou mau. a lenda. a tradução viva do mundo físico. apresentam formas mais livres de entendimento do homem. James. As lendas. vão deixar mensagens de reflexão de boas condutas no mundo real. ed. Traga para a escola pessoas da comunidade que possam contar mitos. Quer Ouvir uma História? Lendas e mitos no mundo da criança. Registre aqui uma lista dessas lendas. As fábulas. a mesquinha vida de todas as criaturas da terra. caracterizam histórias do povo dentro das relações com o inexplicável. Crie um grupo de contadores de histórias para narrar esses tipos de textos literários. 1991. 109). em geral. Tradução de: AMADO. 2. numa busca de bons princípios e dignidade. transformadas em ritos. Naquela época. apresentam personagens fixos que. do que os mitos. que encontrou na voz popular o mais sólido acolhimento. numa palavra. As lendas são mais espirituais. p. Panorama Histórico da Literatura Infantil. no sentido cristão. Nelly Novaes. portanto. 1. portanto. diante do destino. ao deparar-se com um destino “inexorável”. 88 . (JESUALDO. 1978. JESUALDO. lendas e fábulas de conhecimento coletivo. de sua ignorância e de sua ânsia por desvendar o mistério que o rodeia e o aprisiona. as conquistas e as viagens. São Paulo: Ática. 1978. 3.Literatura Infantil Por isso. 4. Já os mitos. particularidades quanto a forma em que são narradas as reflexões e interpretações sobre a Vida e o Mundo. que têm atitudes pagãs. A Literatura Infatil. 1999. em seu princípio. As lendas. Heloisa. os transtornos do céu e do mar. PRIETO. os mitos e as lendas apresentam.

ao mesmo tempo. a da bruxa. (Lembremo-nos de que a principal missão das fadas nas histórias infantis é prever e prover o futuro de algum ser). 1991). didática.. principalmente oriundos do povo árabe. benfazejos ou não. a conquista de poder etc. 1991. As fadas simbolizariam. Nelly Novaes Coelho. Joãozinho e o pé de feijão etc. que sempre necessitam de auxílio sobrenatural como varinha de condão. A fada surge para ajudar os homens a adequarem-se ao mundo terreno.” (COELHO. continuadamente dominada pelo homem. o marujo) e também como O gato de botas. 154). em personagens e situações. em seu livro Literatura Infantil: teoria. necessária e.. Elas são providas de poderes mágicos e têm a função de ajudar àquele designado a ficar sob sua proteção. a satisfação do corpo. a face positiva e luminosa dessa força feminina e essencial: o seu poder de dispor da vida. repercussão O s contos nasceram. ética e existencial” (COELHO. (COELHO. amuletos e metamorfoses fantásticas. dos mitos. Para ela. talvez. p.).] uma força primordial. povo que habitou o sul da Inglaterra e o norte da França. análise. porque correspondem a características permanentes do ser humano. social e sensorial (a busca de riquezas. representam simbolicamente os acontecimentos humanos e sociais e reproduzem. O reverso seria a face frustradora. temida e. Já os contos de fadas são “de natureza espiritual. 1991. em geral. valores que atravessam os séculos.Tipologia dos textos literários: as narrativas de tradição – II Itens a serem abordados Contos maravilhosos e de encantamento Características e importância Autores e obras A leitura psicanalítica: princípios. frustra a realização do ser. Ali Babá e os quarenta ladrões e Simbad. o clássico As mil e uma noites. Como exemplos. por isso mesmo. contos maravilhosos e contos de fadas. divide esse tipo de narrativa em contos de encantamento. “O núcleo de aventuras é sempre de natureza material. . Elas representam o enigma que a mulher tem representado ao longo da história da humanidade. (em que encontramos histórias como Aladim e a lâmpada maravilhosa. aplicação. Os contos de encantamento apresentam em seu enredo fatos extraordinários ou inverossímeis. [. Sua origem estaria entre os celtas. os contos maravilhosos são originários do Oriente. – a mulher que corta o fio do destino. As fadas (cujo nome deriva do latim fatum = “destino”) representam espíritos femininos. 154). de conter em si o futuro. p.

um grande reservatório de condutas possíveis. Joãozinho e Maria. encontramos personagens oprimidos que. dos irmãos Grimm. vencem o mal opressor. são autores de obras-primas como O príncipe sapo. Alguns críticos acreditam que a obra dos Grimm. Entre 1696 e 1698. Mas quem cria e divulga a denominação de contos de fada é Marie Catherine le Jumel de Barneville. Perrault vinha escrevendo histórias de encantamento avulsas.] não se limitam a exprimir tensões sociais mas são organizados em torno de interdições e ou de permissões. Seus contos [. abrindo espaço para a esperança. Joãozinho e as três plumas. os irmãos Grimm e Hans Christian Andersen.. recolhido pelos autores entre 1812 e 1822. Nele. usando os poderes extraordinários. composto por onze histórias e destinado à aristocracia francesa. Os sete corvos. Contos da mãe gansa. Entre seus contos conhecidos estão O Barba azul. e compõem um conjunto de 168 contos. a parábola. No entanto. em que predomina a temática mágica e fantasiosa. as fábulas. As fadas em moda. Utilizam-se da memória popular para criar encantamento em suas histórias. denominado Histórias ou Contos do passado com moralidades. um corpo de censuras sociais expresso sob forma simbólica[. diz Nelly Coelho. desde 1691. 90 . “fundindo o universo popular e maravilhoso”. O pequeno polegar. porém. para encontrar o apoio necessário: “[. manipulava em favor do conformismo contra a opressão. Os autores mais conhecidos são Charles Perrault. a obra apresenta exaltação dos valores populares. na verdade. a Madame d’Aulnoy.] (SORIANO apud COELHO. por exemplo. como os contos de encantamento. ao contrário de Perrault. com a publicação de vários livros com esse tipo de conto de encantamento. Eles são ainda um repertório de experiências ancestrais.Literatura Infantil Ambos. Há mais humanismo e uma preocupação com a criança que. A bela adormecida e Pele de asno. Novos contos de fada. Cinderela. armados com a própria sabedoria e bondade. que estruturam a família e a sociedade. que satirizava o mal e o expunha com clareza.. os contos de enigma e os contos jocosos. por sua vez. 1991). Trabalham com os temas da solidariedade e amor ao próximo. da fantasia e do sonho para atrair a atenção de crianças e adultos. Branca de Neve e os sete anões. os contos maravilhosos. mas é em 1697 que escreve o livro pioneiro. O material folclórico. A bela adormecida e O chapeuzinho vermelho. as lendas.. Sintonizados com os ideais do Romantismo. é constante a luta entre o bem e o mal para retratar uma sociedade que se corrompe na mesma medida que progride..] O herói não tem maiores aliados dentro da Humanidade”. são versões diferentes em que os finais se alteram. Os músicos de Bremen. embora tenha havido muitos outros escritores que se dirigiram ao público infantil através desse tipo de narrativa ficcional. Por isso. publica Contos de fada. até aquele momento. Os contos de Andersen – denominados em dinamarquês Eventyr – foram publicados de 1835 a 1872. A obra compõe-se de diferentes gêneros. Cinderela.. Ilustres fadas e outros. são contos de encantamento que se utilizam da magia. tão comumente. resulta no volume Contos de fadas para crianças e adultos. Chapeuzinho vermelho. como. Alguns contos apresentam o mesmo título dos contos de Perrault. não existia..

que desborda das leis do esforço ordenado: tanto o palácio encantado de Aladim. Chapeuzinho é aparentemente uma menina de 11 anos. o “proibido” é que. em sua produção literária. pois há ainda insuficiente memória – que está em formação – e pouca experiência de vida. as vitórias. aos poucos. escritos de forma poética. as crianças transportam o mundo da imaginação para o real. para tanto. Por isso. Ou seja. sua partida para reparar um dano qualquer. interessam a ela as coisas que se mantêm imóveis no ar desafiando a gravidade (A cruz de Santo Humberto) as que burlam as leis físicas (As botas de sete léguas) os seres que aparecem e se esfumam (fadas. duendes. singeleza. os três obstáculos. na qual ela. justamente. a recomendação da mãe de não falar com estranhos aguça sua capacidade imaginativa. por isso tudo. Seus textos. não estabelecem limites entre a realidade e a fantasia. nesse contato. quanto a terna ressurreição da filha de Jairo. uma lição moralizante pode ser encontrada: “Não se deve falar com desconhecidos. porém. vai se descobrindo fêmea e sexuada. A curiosidade e a observação vão aguçar as suas vivências. nesse caso. (JESUALDO. Entre os títulos estão também obras-primas da literatura infantil: As roupas novas do imperador. 91 . E a magia está. aplicando-as às narrativas do folclore russo. contos etiológicos. 1991. essa história está relacionada com a fase da puberdade feminina. Estudos do estruturalista russo Vladimir Propp procuraram estabelecer as repetições dessas narrativas: o herói. As crianças apresentam muita facilidade em entrar nesse mundo mágico. gênios) as transformações mágicas de homens e animais (O gato de botas) e a realização miráculo-religiosa ou profana. Talvez. ingenuidade e predomínio das emoções do coração sobre as forças da razão (COELHO. Muitas vezes. devido ao fortalecimento do impulso imaginativo.” Segundo alguns críticos. O patinho feio. Há. o casamento final. as experiências vivenciadas são mínimas. Com a fabulação. A pequena vendedora de fósforos. A história O chapeuzinho vermelho apresenta muitas versões. recurso demasiadamente usado pela criança e com finalidade utilitária. realmente. Jesualdo em seu livro A Literatura Infantil. atravessam os séculos. o que comprova a filiação popular e oral entre esses textos. A sereiazinha. no qual realidade e ficção se misturam. p. lhe chama a atenção. Estabeleceu trinta e uma funções que se repetem na maioria dos contos de fadas. Os cisnes selvagens. Até os sete anos. Por isso. E a mesma estrutura pode ser aplicada nos demais contos ocidentais. que está ansiosa para descobrir o mundo e. p. as crianças começam a ordenar as suas lembranças e a entender as situações cotidianas. vários gêneros narrativos: histórias exemplares. que viajam através do tempo e dos povos. 1978. pois ainda não têm formada uma experiência concreta dentro daquela situação. a criança está em um estágio de crescimento e vivência de novas situações de desafio.Tipologia dos textos literários: as narrativas de tradição – II ideais de fraternidade e generosidade humana. O soldadinho de chumbo. 81). narrativas realistas e contos de fada propriamente ditos. 32). muitos autores consideram a criança com um espírito semelhante ao primitivo. fábulas. que seria uma conseqüência da própria curiosidade e da falta de fronteiras nítidas entre os parâmetros reais e os da fantasia. faz uma divisão entre mentira. e a fabulação.

principalmente os problemas interiores que todos passamos e as possíveis soluções para as dificuldades do dia-a-dia. Sobre essa aprendizagem interior. do que na verdade que a vida me ensina”. sendo desvendável através destes. são as que mais se aproximam das narrativas de origem. mudar-se e colocar-se elementos novos para que cheguem à mente humana. sendo estes. 1990. ou primordiais. estimulando-lhe a imaginação. de nada adianta o adulto impor uma compreensão para o conto. se o fundamento está. pokémon e power rangers. composto por um significado psicológico essencial. os conceitos encontrados nas histórias infantis devem ser interpretados e levados em conta pelo próprio leitor. 92 . contribuindo. que tanto preocupa e é necessária a todos. deve relacionar-se com todos os aspectos da sua personalidade” (BETTELHEIM. sendo que a moralidade. também. assim. essa relação com os mitos e as lendas folclóricas. de Bruno Bettelheim. Muitos contos de fadas trabalham com problemas existenciais que são resolvidos de forma rápida. Ou seja. ou seja. a partir de leituras mais profundas. o seu significado está contido na totalidade dos temas que ligam o fio da história. Os desenhos animados atuais. este aspecto: um mundo com seres digimon. está no contato com o bem e as virtudes. os contos de fadas são importantes. em si mesmo. isto é.[. mesmo que superficial.. O autor. e somente isso vai atrair as crianças. mostram. vai esclarecer algumas situações dentro da vivência infantil e a conseqüente formação de um novo adulto. conseqüentemente.Literatura Infantil A autora e psicanalista Marie Louise von Franz ressalta os processos psíquicos que envolvem os contos de fadas. mostrando para aquele leitor uma ponderação a respeito dos males humanos. Schiller (apud Figueiredo. ou seja. levando. Entretanto. permitem perceber-se que se trata da mesma história: faz-se necessário. que precisam de muitas explicações até chegar ao inconsciente. os contos de fadas são um conjunto de fatos psíquicos. há. também. O livro A psicanálise dos contos de fadas. para o seu cotidiano. Por isso. dificilmente a criança se identifica com o herói pelo seu interior. mas pela aparência deste personagem. p. Porém. a sua melhor explicação. os conceitos presentes nas histórias.. em geral. da televisão. exemplares para o conhecimento da mente humana.(FRANZ. há também a criação de um herói que sempre vence ao final. defende “que para uma história enriquecer a vida de uma criança. na própria formação da criança. A criança também pode conhecer os padrões morais de uma sociedade. podemos propor a hipótese de que cada conto de fada é um sistema relativamente fechado. a partir do estímulo das emoções. do intelecto e da imaginação. O conto de fada é. o desenvolvimento da sabedoria. com a criança em desenvolvimento. 1988). movido pelo estímulo dos contos de fadas. apenas. Na verdade. Para o autor. 2000) escreveu: “há maior significado profundo nos contos que me contaram na infância. expresso numa série de figuras e eventos simbólicos. Isto é. atraentes em seu colorido e visualidade. Muitos autores consideram que a criança se sente atraída pela história quando há o envolvimento com a sua personalidade. até então.] Do mesmo modo. portanto. portanto. na qualidade de educador e terapeuta infantil. que. para o conhecimento do ser humano. muitos contos apresentam semelhanças que. justamente. 29).

também. mitos e outros semelhan­ tes. (FRANZ. Nas sociedades primitivas. freqüentemente. 1990. que podem surgir em sonhos ou em alucinações em estado de vigília. Isto é sempre uma experiência luminosa. 93 . então essa experiência é sempre comentada. e. é deixar a criança ler os contos de fadas da forma mais livre e pessoal. Então. Nesta obra.Tipologia dos textos literários: as narrativas de tradição – II Parece-me que as histórias arquetípicas se originam. que a completam. 1 A auto ra refere-re às histórias arquetípicas como os contos de fadas. o conteúdo arquetípico irrompe na vida de um indivíduo. ampliando-se por outros temas folclóricos existentes. ela se desenvolve tanto quanto um boato1. O importante. seres e objetos mágicos. praticamente nenhum segredo é guardado. que lhe permitam desenvolver o imaginário e criar esperança de soluções felizes para sua existência. portanto. 31). Algum evento ou alguma alucinação coletiva acontece. p. então. há a interpretação dos contos de fadas como chave de explicação psicológica. nas experiências individuais. E rodeá-la de histórias de metamorfoses. através da irrupção de algum conteúdo inconsciente.

Marie-Louise von. Taicy de Ávila. 4. FRANZ. Nelly Novaes. COELHO. ed. São Paulo: Cultrix. 1988. BETTELHEIM. FIGUEIREDO. A Literatura Infantil.psicopedagogia. A Interpretação dos Contos de Fadas. James. Leia em voz alta e em partes outros contos de fadas. além dos já conhecidos de Grimm. recortes e dramatização de histórias de encantamento. Bruno. Monte atividades de ilustração. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra.Literatura Infantil 1. JESUALDO. 1990. São Paulo: Edições Paulinas.br>. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. Compare diferentes versões dos mesmos contos de fadas e analise semelhanças e diferenças. Acesso em: 1 jan. Tradução de: AMADO. Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil. 1991. São Paulo: Ática. Andersen e Perrault. Registre suas conclusões. 2000. A Magia dos Contos de Fadas. Disponível em: <www. com. 94 . 1976.

existiu. como fato. e com ele animaram seu vigor prático e seus sentimentos positivos. reunindo num só temperamento a vivacidade e a constância. mais lisonjeadores. em geral pela mulher amada. Este último é considerado o escritor em quem estão “todas as tradições reunidas”. igualmente. [1990 ?]). p. estão Shakespeare e Goethe. O u seja. principalmente. E tudo que existe no presente como evento para a experiência direta poderá. Homero. Ovídio e Sófocles são autores clássicos que retornam periodicamente à literatura. Na verdade. com muita freqüência. mais sofistas.. Em Shakespeare podemos encontrar os dilemas que fazem o pensamento atual: a dúvida existencial. decadentes. 20). que impressiona ainda hoje seus leitores. Fazem parte. e que interagem com o nosso cotidiano. sobreviver como relato.Outras formas narrativas Itens a serem abordados A retomada das narrativas da tradição As narrativas do cotidiano As narrativas de aventuras A história permanece no mundo pela tradição oral e é. mais volúveis.. 1957. portanto. A credibilidade das histórias é. numa linguagem de forte impacto emocional e numa reflexão dialética e poética. o ciúme. [1990 ?]). tornam-se líricos. a ambição política. terminam. A Literatura da Cavalaria. segundo Sainte-Beuve. um dia. enquanto fonte de inspiração e imitação. pois resgata feitos antigos para desenvolver uma compreensão sócio-intelectual moderna. há que se defender a tradição como meio de reviver aspectos históricos e individuais que são extremamente importantes para o desenvolvimento da humanidade. numa situação de “felicidade para sempre”. (SCHMIDT. como os contos de fadas. da retomada da tradição nos dias atuais. em especial. que já não existe como história. Portanto. [. os vencedores apossaram-se do precioso elemento divino.. Xenofonte. pois trabalham ao mesmo tempo. privados da prática das virtudes políticas. enquanto cultura e formação intelectual. da mesma forma. a tradição está em todos os relatos e contos. por exemplo. (SCHMIDT. o testemunho de alguém que presenciou um evento ou um modo de ser do mundo. reforçada pela observação da natureza.. as narrativas que tratam da aprendizagem dos fatos da vida. originalmente. (SAINTE-BEUVE. o abandono. Foi lá que surgiram os filósofos. artistas e pensadores que escreveram sobre a poesia. a tradição está diretamente ligada ao progresso da humanidade e faz-se extremamente importante para a compreensão humana e social. mostra seres dotados de heroísmo e fantasia que. tornavam-se (salvo raras exceções) mais superficiais. . Virgílio.] Nas trocas estabelecidas entre os testemunhos dos ‘antigos’ e a experiência direta. no futuro. de uma parte deste fogo de Prometeu. e mais próximos de nós. mais fabulosos do que nunca. ampliá-las ou relativizá-las. modificados pelos sentimentos. a diversão e educação: [.] E enquanto os gregos. Roma e a Grécia Clássica são o “berço da civilização”. vê-se que as histórias chamam atenção para certos fenômenos e a observação destes tende a confirmá-las. a estética e as realizações humanas que mais influenciaram a cultura ocidental e o Brasil. Da mesma maneira.

em Procurando firme (ROCHA. porém. o final do conto foge ao fechamento e univocidade dos citados textos clássicos e exprime com clareza uma posição pedagógica em aberto: “[. crítico e iconoclasta. assim. A introdução acentua a dualidade básica do jogo entre parecer e ser: “Uma história que parece / história de fadas mas não é. O Menino que achou uma estrela (1988) Um amigo para sempre (1988). enquadrada pela postura metaficcional do diálogo entre duas vozes: o narrador e seu interlocutor. seja no seu caráter mítico ou no caráter fabular.Literatura Infantil Fatores que irão permitir a retomada de modos de narrar e de histórias da tradição estão ligados à linguagem simbólica (os símbolos são eternos e permitem a atualização constante). trabalhando continuamente com o contraste entre personagens e situações do 96 . o assunto é extremamente envolvente. as suas personagens apresentam características de natureza maravilhosa. serve-se da paródia ao conto de fadas como procedimento fundamental para a desmistificação de valores e comportamentos.. Por isso. A situação narrativa básica é a educação diferenciada entre meninos-príncipes e meninas-princesas.] e se foi pelo mundo. Sob a aparente leveza e descompromisso do cômico. procurando não sei o quê. Ruth Rocha. como um procedimento de crítica para o estabelecimento de verdades. Ela retoma com poeticidade as narrativas de encantamento. às verdades individuais e gerais que estabeleceram (o ser humano preserva alguma identidade ao longo do tempo) e ao retorno da história (há fatos que se assemelham a acontecimentos passados). exemplificar comportamentos que norteiem o desempenho das pessoas durante a vida. de Rousseau. O conto de fadas representa um trampolim necessário ao desenvolvimento de idéias bem mais utilitárias. Algumas obras: Uma idéia toda azul (1979). e de propor. ou um Emílio. As obras de Marina Colassanti refletem o real a partir de uma linha fantasista e surpreendente. mas procurando firme!” O cômico configura-se. pois invadem a imaginação em qualquer idade. valores educacionais. encontramos na literatura infantil brasileira as narrativas que parafraseiam ou parodiam os contos de encantamento e as que retomam a linha do folclore.. destruindo-os pela força impiedosa e sem emoção do riso. As imagens acentuam o aspecto cômico. diferentemente do humor. de Fénélon. Entre a espada e a rosa (1992). A ilustração de Ivan e Marcello para Procurando firme casa-se com perfeição às intenções e ao tom do texto verbal. 1984). que rompe o mecânico e instaura a surpresa. assim. entre outras. trazendo-as para uma simbolização do inconsciente e falando liricamente do interior do ser humano. em que não existem verdades. Mas.” A paródia do texto realiza-se sobre um tipo de narrativa que acentua o aspecto pedagógico-moralizante. alguns consideram os seus contos como que destinados aos adultos. Entre os textos que apresentam esse parentesco com o passado. através da narrativa. / Também parece história / para criança pequena mas / não é. afirma-se solidamente a intenção da autora de construir um Telêmaco.

o avesso da função do herói – é o bicho que salva o homem. Distorcendo intencionalmente a tradicional cor sépia. convertido em cartum nas folhas de jornais diários. com palavras denunciadoras de situações-tabu (“Tem gente!”). 97 . parte integrante dos contos tradicionais. ao adotar o ocre. como em Uxa. devido à receptividade encontrada junto aos leitores. é sósia da própria Sylvia que. que transfere ao leitor um universo de cabeça para baixo. ora à direita. evocamos as memórias e narrativas de outra brufada: a Emília. palha e olhos de retrós. então. vira o mundo ora à esquerda. Pode-se pensar. que transformou a fazenda idílica da avó Benta num mundo maravilhoso de fantasia e liberdade. sobretudo. induzindo o leitor a vê-las com olhos contemporâneos. Os procedimentos cômicos e a presença do humor na obra de Sylvia Orthof são ricos e variados. o Paraíso visto como uma projeção da sociedade dos homens. de Ziraldo (ZIRALDO. A protagonista. as formas caricaturais representam um convite ao riso e à descoberta de intenções subentendidas. os procedimentos de carnavalização tornam-se acentuados e insubstituíveis. acreditamos. de alto poder de comunicação. Como escapar aos encantos daquele diabinho de pano. do homem para o bicho. realismo humanitário (relações afetivas e humanas). Não é verdade. que filmes e livros a respeito do passado adotam. as brincadeiras bem comportadas e a sabedoria sem contestação? No caminho das novas formas narrativas. o marrom e o amarelo. o cômico exerce uma função menos pedagógica do que no livro de Ruth Rocha. alterando histórias e realidade. Ao ler os textos de Sylvia. Além do contraste. por isso mesmo. Nelly Novaes Coelho divide a Linha do realismo cotidiano em realismo crítico (relacionado à realidade social). sem jamais deixá-los no que. personagens e palavras estão submetidas a um tratamento de extrema simplicidade e. Nele. a criação de personagens e situações não narradas – mas que poderiam ter sido contadas – torna a ilustração um acréscimo feliz e adequado à narrativa verbal. verificáveis em procedimentos variáveis: o deslocamento das personagens do Paraíso. o colorido da ilustração mantém-se próximo. sejam suas posições normais. 1982). camufladas pelo texto. nasce o cômico e o riso. às custas de sua teimosia e da ruptura que estabeleceu com as organizações metódicas. e o presente. Deles. Outra bem realizada união entre a imagem e o texto encontramos no tão conhecido e amado O bichinho da maçã. Como tal. com tabuletas proibitivas. de Monteiro Lobato. Trata-se de uma paródia ao Gênesis. realismo lúdico (as aventuras e brincadeiras). O traço anti-realista. atendendo ao estado de espírito de cada dia. o texto anedótico que substitui a seriedade bíblica. Situações. ora Fada ora Bruxa. mas é igualmente educativo: ensina a ver. que estas cores amortecem e monotonizam a ilustração. pioneira do humor e do cômico na literatura infantil brasileira. a disposição irregular dos desenhos e. trocando o embaixo e o em cima. tratamos agora da literatura que tem como base de representação a realidade e o cotidiano. uma brufada ou uma fabruxa.Outras formas narrativas passado. olhando com olhos diversos.

Robinson Crusoé. desde a imaginar o real e tentar captá-lo. além de divertir e pormenorizar as dificuldades diárias. de Júlio Verne. ao apresentar um caráter didático. segundo Jesualdo. em geral. Os filhos do Capitão Grant. bem como as possíveis soluções. Jesualdo diz: Esta etapa de aventuras e sonhos de viagens caracteriza-se. principalmente como jogos de preparação para o futuro. A volta ao mundo em oitenta dias. O encanto das narrativas como. ou seja. por um despertar de novas forças e elementos.Literatura Infantil realismo histórico (narrativas da tradição. O subtítulo da reportagem é: “Humor funciona como antídoto contra a chatice e a dura realidade do dia-a-dia”. Na verdade. T. período dos contos maravilhosos. Grandes nomes na crônica são citados pelo jornalista. As narrativas de aventuras fazem parte da etapa de Robinsionismo. passa a um realismo objetivo com o qual. As crônicas. pois o real sentido destes está na magia de não se adequar à realidade. citado pelo jornalista. As narrativas de aventuras trabalham com atitudes mais realistas. pois. de 1. da “Gazeta do Povo”. tratam-se de relatos de viagens. 1978. Algumas obras como Vinte mil léguas submarinas. a crônica deve escolher um fato capaz de reunir em si mesmo o disperso conteúdo humano”. Rubem Braga. esse misto de literatura e jornalismo traz à população uma nova forma de conhecer os problemas sociais. Fernando Sabino. viagens extraordinárias e ficções novelescas. Mário Prata. entre outros. e Os primeiros 98 . A reportagem “Simples narrativas do cotidiano”. aborda a importância e o crescente aumento das crônicas. 139-144). e que correspondem à mesma evolução da representação gráfica na criança: de um subjetivismo anterior. enquanto houver mais esforço pessoal e engenhosidade deste personagem. inspiram-se com os fatos. seja por sua inteligência. estabelecidas pela formação de um novo herói. adaptam o cotidiano a partir do passado). (JESUALDO. é exatamente o contrário do que ocorre nos contos de fadas. pois trata-se de uma fase na qual as crianças buscam personagens mais complexos e que. trazendo um terceiro mundo como solução das dificuldades) (COELHO. está no triunfo do herói até sua vitória. no Caderno G. nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico. pois. as narrativas de aventuras são. estão relacionadas aos traços referentes às atividades das crianças. pois. 159). p. conseqüentemente. todos esses tipos podem aparecer relacionados. por exemplo. tomando os objetos como simples pretextos. seja com o apoio das invenções científicas”. em geral. As narrativas. Ou seja. nos dias atuais. como Luís Fernando Veríssimo. até ao minucioso detalhismo verista que caracteriza algumas das etapas posteriores desse realismo. realismo mágico (fusão do maravilhoso e do real. p. Cousinet diz que “os obstáculos opostos à marcha do herói não passam de obstáculos naturais sobre os quais ele triunfa. portanto. 1993. portanto. mais caráter concreto ele vai atingir e. de mistura com o real e representando uma ponte entre literatura e ensinamento.º de setembro de 2002. julga-se necessário fornecer ao leitor novos recursos mentais e sensitivos. cumprirá escalas que a levam. como no processo de suas leituras. por Roberto Nicolato. Fernando Sabino. o leitor se sentirá atraído. Por isso. que não estavam presentes na anterior. diz: “quer num flagrante de uma esquina.

a luta duríssima de Raquel para encontrar sua identidade e o lugar na família. eles vão rir. Mas quando viu que a Dona-da-Casa não estava olhando. da fala de Raquel em A bolsa amarela? Se o pessoal vê as minhas três vontades engordando desse jeito e crescendo que nem balão. Quando toda a felicidade obtida parece apagar a fronteira de angústia que quase sempre existiu para tal conquista.. imutável. A guerra dos mundos. isso coincidirá até com o que acontece na vida real do adulto. de Orson Welles.Outras formas narrativas homens na lua. avessos à ruptura do já estabelecido: a criança não ter direitos e ser menina é repetir um papel social já definido e. somente pode demonstrar um sintoma de loucura. Quando Dalva o despede. quando os próprios triunfadores esquecem o sacrifício que seus êxitos lhe custaram.. será que dava prá entender? (NUNES. saiu vidrocê. É o riso condescendente dos falsos sábios. 1974. Não gargalhamos. a fala tropeçou junto. criadora dos mais belos textos da literatura infanto-juvenil contemporânea. A mesma língua que serve para os supérfluos da vida (anúncios de televisão. Lygia Bojunga Nunes cria o tatu Vítor que. Ademais. através da invenção de personagens e situações. só risos. Eu tenho que achar depressa um lugar para esconder as três: se tem coisa que eu não quero mais é ver gente grande rindo de mim. Eles não entendem essas coisas.. uma armadura para defender-se da rebeldia. 1976). Em torno dela. antes. acham que é infantil. criar personagens e diálogos fictícios. se virou: – Dalva. 35). de menosprezo. ele tenta declarar-se uma última vez: A Dona-da-Casa foi indo prá porta.”(NEVES. tenta declarar seu amor pela gata Dalva. como Raquel o faz. e o Vítor foi indo embora aflitíssimo: Dalva eu estou vidrocê. Esboçamos um sorriso. aposto. mas risos de mofa. O Vítor foi atrás. porém.] Na aparência. no caso do segundo autor. pelo chamado do telefone e pela entrada da Dona-da-Casa. a negação dessa expectativa. tal como o riso subversivo que “parece muito mais equacionado a crianças e loucos. misto de compaixão e surpresa. Há. em momentos diferentes. encontram-se nessa categoria que. A situação cômica não nos impede de avaliar a cena embaraçosa (para a personagem Vítor) ridícula (para a gata e a dona da casa): um tatu a tropeçar no tapete e nas palavras. incluem ainda pitadas de ficção científica. a oferecer-lhe um cafezinho. portanto. pois a língua tropeça. Como não perceber o alto risco do humor com gosto amargo em um parágrafo como este. Ele é. Todo o primeiro capítulo relata. Em O sofá estampado. Sua fala “Eu estou vidrado em você” é interrompida por comerciais de televisão. – Tropeçou no tapete. eu estou v. o herói é o principal responsável pelo interesse do leitor: [.. Da linhagem de Lobato é também Lygia Bojunga Nunes. 1981). a fala que revela a intenção de alterar a decoração da sala e o adeus indiferente da gata) deveria permitir ao apaixonado tatu expressar seu sentimento. Um riso doente. Em todas as obras. 1976). porque privado da iluminação proveniente da revelação do novo. num mundo de faz-de-conta. p. e até por sua timidez. (NUNES. não levam a sério. 99 . de desdém. (NUNES. achou que dava tempo de desabafar. nem francos nem desmistificadores. a comunicação interrompe-se e o sentimento é recalcado. do que a pessoas adultas.

visto que. Além de suas qualidades motivadoras da reflexão e da descoberta de novos sentidos. Acreditamos. A Literatura Infanto-juvenil deve tornar-se necessária à formação do gosto estético e do espírito crítico de seu leitor.Literatura Infantil A Literatura Infanto-juvenil usa o cômico e o humor com a mesma variedade de recursos e com as mesmas intenções demolidoras e críticas que a literatura destinada ao público adulto. portanto. são de estilos completamente diferentes. do cotidiano e de aventuras são. que não se trata apenas de cativar o leitor. por sua natureza. É elementar que todas apresentem uma inter-relação. porém. 100 . o emprego do cômico permite uma aproximação mais imediata e sedutora com o público leitor. esse efeito justificaria por si só a importância desse tipo de texto. As narrativas da tradição. O cômico. as outras buscam o presente como meio de interação do leitor e o livro. enquanto as narrativas da tradição resgatam o passado. porém. lúdica e didática. Em se tratando de literatura para crianças. outras formas de literatura informativa. mesmo o adulto. desenvolva suas capacidades imaginativas e intelectuais. pois fazem com que a criança e. é o caminho mais curto e encantador para atingir-se esses objetivos.

reescreva uma história você mesmo. para entender melhor a retomada das narrativas tradicionais. paráfrase e paródia. alterando personagens. Solicite que expliquem o resultado obtido. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 101 . as situações narrativas e o final. No espaço abaixo. o tempo. Pesquise a respeito de intertextualidade. do ponto de vista da ideologia e dos sentidos do novo texto.Trabalhe com crônicas de jornais para averiguar as semelhanças com a realidade e a presença da literatura na linguagem.Outras formas narrativas Sugira a seus alunos a reescrita de contos da tradição.

NUNES. 35-40. Nelly Novaes. A Bolsa Amarela. n. [1990 ?]. ed. Maria Luísa S. Ilustração de: Elvira Vigna. ZIRALDO. Ilustração de: Marie Louise Nery. 102 . 1978. Revista de Cultura Vozes. Rio de Janeiro. ROCHA. n. l98l. 1974. p. Tradução de: AMADO. A Literatura Infantil. didática. Jan. SCHMIDT. COELHO. Ruth. São Paulo: Ática. ed. A ideologia da seriedade e o paradoxo do coringa. O Sofá Estampado. Rio de Janeiro: Agir. 1976. 4. São Paulo: Cultrix. 1993. Luiz Felipe Baeta. Lygia Bojunga. Ilustração de: Ivan & Marcello. Rio de Ja­neiro: Civilização Brasi­leira. Da Tradição e do Clássico em Literatura. 6. 1957. 1. James. Procurando Firme.]. 1984. JESUALDO. O Bichinho da Maçã. NEVES. 1982. ______./Fev. análise.Literatura Infantil SAINTE-BEUVE. O Passado. Bahia: Progresso. [São Paulo]: [s. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. ed. Literatura Infantil: teoria. Mundo do Outro e Outro Mundo: tradição oral e memória coletiva. São Paulo: Melhoramentos. 2.

ele não deve comprometer-se com aspectos outros que não a própria transmissão da sensibilidade. a ser levado à criança. p. Constatou-se. por pedagogos e professores. aos olhos da criança. já em 1983. o contexto sócio-econômico e todas as suas implicações. como O desinteresse dos adultos envolvidos e comprometidos. o professor precisa capacitar para a escolha e a qualidade da leitura e é obrigado a enfrentar problemas de natureza diversa. até os dias de hoje. as festas e passeios. Hoje. O poema. Diversos estudiosos defendem o uso do livro em sala de aula. a pouca exigência social de conhecimento sólido e de informação estão produzindo uma geração de jovens e crianças alienados da cultura veiculada pelos livros e avessos à leitura de textos. 1982.  Visto isso. Terão mais condições de interessar as crianças os poemas em que predomine a fantasia. Para Bárbara Carvalho “o enfoque crítico. portanto. Convém lembrar que os primeiros livros infantis foram escritos para adultos e. atualmente. ainda. o professor deve procurar tornar a leitura interessante. dava conta de que os alunos preferiam televisão. e. como fonte de surpresas e descobertas. mais tarde. desde a criação da escola burguesa no século XVIII. da emoção do poeta. a musicalidade e a . toda essa complexidade de fatores e contingências constitui barreiras difíceis de transpor. Nesse trabalho.  Para selecionar-se um bom poema. 196). os fascinantes jogos no computador. do silêncio e da reflexão exigidos pela leitura. mesmo básicos e de pouca extensão. e reflexivo deve ser observado. A tarefa de instigar na criança o hábito da leitura é um trabalho que exige competência. com o objetivo de estabelecer padrões comportamentais exigidos pela sociedade burguesa que se estabelecia. e até intransponíveis (CARVALHO. desde o início. cinema e teatro. o objetivo não é apenas o de transmitir os valores que regem a vida em sociedade mas também o de propiciar uma nova visão da realidade. 1982. convivem com uma questão preocupante em relação aos discentes: o desinteresse pela leitura. Esses resultados serviam para exemplificar a gravidade da situação.” (CARVALHO. não precisa ter o tom de conselho. bibliotecários. pais. ou insistir em transmitir conhecimentos. por ignorância do problema. como professores. sobe e muito o nível de preocupação com o assunto. p. das pequenas narrativas.Projetos de leitura na escola Itens a serem abordados Importância e características Princípios pedagógicos Aplicações possíveis O s educadores. que eles não tinham biblioteca em casa (mesmo os de bom nível econômico) e nem mesmo a metade tinha fichas ou carteirinha nas bibliotecas públicas ou escolares. O consumo em shopping centers. atualmente. 9). deixando a leitura em último lugar. p. em tempos de maiores e mais intensos apelos para o afastamento da reclusão. A relação entre literatura e a escola tem sido muito intensa. 197). Uma pesquisa apresentada por Maria Antonieta Cunha (1993.

realizou um exercício intelectual de tal magnitude. França). Por isso. mesmo. Quanto aos temas. basicamente. melhor ainda. equipados de eficientes questionários para cobrança. algumas obras. 1976. O professor pode. XX. E acreditamos que o excesso de atividades (ou a repetição delas) pode ser prejudicial ao poema. destacamos Teilhard de Chardin (primeira metade do séc. Pode ser feita pelo professor. recorra a fitas gravadas com alguém que leia bem. p. se sente lograda. constituem-se parte fundamental do desenvolvimento lingüístico e da atração por textos poéticos. descomprometida. Quanto menos conceitual. com alunos maiores. sejam poemas ou narrativas. (CARVALHO. semanalmente. 1982. pensando ter realizado uma leitura livre de imposições didáticas sistemáticas. é o contato agradável da criança (ou adolescente) com o poema. e não o utilizar em momento algum de aula. o poema será ouvido. com temas delicados como a morte. Está colocando a criança em contato com a poesia [. independente do significado. Para que. mais atenderá ao espírito infantil. desta forma. venham trabalhando e discutindo problemas existenciais. Embora. a leitura constituirá uma frustração. a separação dos pais. talvez se devam evitar os poemas que apresentem uma visão triste e pessimista da vida. pois se ela não estiver em condições de ler corretamente. afixar na sala. Outro aspecto muito importante a ser observado pelo professor é se a criança realmente tem condições de ler. em grupo. Além dessa leitura. a falta de diálogo. Se o professor não se considerar “bom intérprete” do poema. p. Por isso. é interessante realizar a leitura criticada. por intermédio de estudos minuciosos da linguagem dos textos. a aventura da criança deve ser uma aventura livre e descomprometida com o adulto. essa leitura não passe de uma fase. O mais importante. Cada livro desses é um fiel cobrador da criança. mas sim transforme-se num hábito. numa necessidade. Em geral. um bom poema. ao desafiar os teólogos cristãos a incluírem em suas reflexões a biologia darwiniana. que em algumas ocasiões nenhuma atividade marcada deve ligar-se ao texto poético. Ler é aventurar-se a crescer. (CUNHA. E há discos (CDs) de poemas. quando as crianças já lêem. Esse primeiro contato com o texto é especialmente importante: dele. fazendo-o desaparecer no meio de tanta coisa. no entanto. que desembocou numa forma de pensamento complexo avant la 104 . Essa técnica propicia a formação do espírito crítico e do respeito à crítica. depende a reação do aluno ao poema. com boas interpretações. com efeito. Nada é mais desagradável e indigesto do que certos livrinhos de Literatura Infantil. por exemplo. Entre os principais filósofos. Imaginamos. numa curiosidade permanente. 46). A manipulação lúdica dos sons da língua pela criança e a fruição do sonoro. Para a produção de um projeto de leitura.Literatura Infantil imaginação. Mas a leitura pode e deve ser cobrada.. 197). numa conversa informal. depois de treinar a leitura. através de diálogo.] quando o poema nos parece de difícil exploração ou leitura. Situações complexas ou paradoxais também não têm sentido para a infância.. que. a leitura deve ser expressiva. o professor poderá apoiar-se em filosofias educacionais. em que a criança se sinta um leitor e não um examinador. de uma maneira muito sutil e interessante para a criança. que levará ao desestímulo irreversível. essa é uma boa saída. que.

a base do chamado Romantismo. o grupo de brilhantes pensadores pais da ciência política moderna. “Logo que nos tornamos conscientes de nossas sensações. na França. O aluno somente entraria na sociedade. da responsabilidade pela origem do Mal. diz ele. Para ele. levando. Se o desenvolvimento adequado é estimulado.Projetos de leitura na escola lettre. que não haja qualquer restrição física que não venha do próprio aluno. e depois que se desenvolve cognitivamente. O ambiente em que o aluno vive deve ser tal. 105 . O mestre deve educar o aluno baseado nas suas motivações naturais. e liberdade é aquilo que decidimos em conjunto. compartimentado e defasado em relação à realidade social e ao progresso das ciências. do movimento da escola moderna. Obviamente. Analisou de forma crítica o autoritarismo da escola tradicional. Seus pressupostos básicos com respeito à educação eram a crença na bondade natural do homem e a atribuição. o pensamento de Montaigne a uma reformulação que se tornou a diretriz das correntes pedagógicas nos séculos seguintes. a bondade natural do indivíduo pode ser protegida da influência corruptora da sociedade. Em filosofia da educação. uma tal educação somente seria possível se a criança fosse totalmente isolada da sociedade e não tivesse contacto social. com Montesquieu e os liberais ingleses. Muitos dos conceitos por ele cunhados foram posteriormente incorporados ao pensamento complexo. estamos inclinados a procurar ou evitar os objetos que as produzem”. é essencialmente o mestre que deve educar o aluno para ser um homem. mantém em mente o contexto social no qual o aluno eventualmente será um membro. Isso somente pode ser conseguido em um ambiente muito bem controlado. expresso nas regras rígidas da organização do trabalho. Em suas concepções educacionais. contrária à descoberta. etapa concluída por volta dos 15 anos. após o desenvolvimento da razão. e tornou-se. Em seu método. para Rousseau. Outro filósofo de destaque é Celestin Freinet (1896-1966) crítico da escola tradicional e das escolas novas. O objetivo de sua pedagogia é o desenvolvimento pleno do Eu natural do aprendiz. Freinet foi criador. Formou. fechada. é outro filósofo de importância para a educação. senão com seu mestre. à civilização. Conseqüentemente. a relação direta do homem com o mundo físico e social é feita através do trabalho (atividade coletiva). usando a estrutura provida pelo desenvolvimento natural do aluno. comportam dois aspectos: o desenvolvimento das potencialidades naturais da criança e seu afastamento dos males sociais. Isto aconteceria na adolescência. assim. dirige pesadas críticas à escola tradicional. o educando não deveria sofrer qualquer restrição moral em seu ambiente. Jean-Jacques Rousseau foi considerado um dos grandes pensadores europeus no século XVIII. os objetivos da educação. enquanto. ao interesse e ao prazer da criança. Sua obra inspirou reformas políticas e educacionais. no conteúdo determinado de forma arbitrária. ao mesmo tempo. mais tarde. que considera inimiga do “tatear experimental”. quando a tendência para a socialização surgisse como uma de suas necessidades naturais. enalteceu a “educação natural” conforme um acordo livre entre o mestre e o aluno. A busca em si de um diálogo ciência-religião expressa uma das dimensões mais desafiadoras desse espírito.

Os alunos da Escola Estadual Francisco Máximo de Souza estão participando de um projeto denominado Correio Cultural. ao partir dos interesses mais profundos da criança. de sólida teoria educacional. Essas técnicas têm como objetivo favorecer o desenvolvimento dos métodos naturais da linguagem (desenho. em que trocam correspondências com escritores regionais e nacionais. Também visa formar o aluno leitor. pesquisa. Um exemplo de projeto de leitura na escola é o que se apresenta a seguir. essas técnicas não são um fim em si mesmas. o jornal. sobretudo. seja no acervo da biblioteca. de autoria de Josélia de Lima. criação. principalmente. entre as atividades da criança e do adolescente. propicia as condições para o estabelecimento da apropriação do conhecimento. escrita. visitam a escola e. Porém. social. enviam cartas e livros para serem sorteados entre os estudantes. a situação sócio-econômica da família dos alunos e as condições materiais da escola em que atua. em seguida. é vista como elemento ativo de mudança social e é também popular. ainda.htm>. recreativa e estética. gramática) da matemática. o caderno circular para os professores etc. O professor deve observar.gov. quando não podem. a escola desenvolve o Programa Circuito da Leitura. de uma boa base de recursos materiais e. renovadora. Os escritores. ou seja. a correspondência interescolar. Disponível em: <http://www. por não marginalizar as crianças das classes menos favorecidas. defendendo o ponto de vista de que “se se respeita a palavra da criança. seja em espaços e apoio estratégico (equipamentos. Algumas técnicas da pedagogia de Freinet: o desenho livre. de 27 de agosto de 2002. A escola.Literatura Infantil Para Freinet. Para corresponderem-se com os escritores. O projeto de leitura na escola deve possibilitar a indagação. Dá grande importância à participação e integração entre famílias/comunidade e escola. e. o texto livre. O projeto é uma ação do PDE – Plano de Desenvolvimento da Escola – e tem o objetivo de combater as deficiências na leitura. Propõe o trabalho/jogo como atividade fundamental. Em qualquer circunstância. materiais de consumo).secom. necessariamente há mudanças”. 106 . o livro da vida (diário e coletivo) o dicionário dos pequenos.br/textos/jl270802at. Alunos trocam correspondências com escritores Texto n. tanto de professores quanto de alunos. de maneira que a literatura venha a ter uma função atual. das ciências naturais e das ciências sociais. por ele concebida. verdadeira.to. das turmas de Educação de Jovens e Adultos. para que não se transformem simplesmente em ativismo sem rumo. as mudanças necessárias e profundas na educação deveriam ser feitas pela base. sim. os alunos lêem suas obras e biografias e. Paralelo a esse projeto. as aulas-passeio. momentos de um processo de aprendizagem. pelos próprios professores. os projetos necessitam de entusiasmo. escrevem para eles comentando suas obras. executado com o auxílio dos voluntários da escola e com alunos da primeira fase do Ensino Fundamental. 549. que. quando podem.

O mundo de Sofia. Entre os livros mais lidos está a coleção do Harry Potter. de Jostein Gaarder. os estudantes aprendem a narrar suas próprias histórias. de Araguaína. Além de conhecer os textos narrativos. O estudante Luiz Otaviano Dias dos Santos.Projetos de leitura na escola Com esses projetos. produzem resultados positivos. é um exemplo de como as campanhas de leitura estão dando certo. de Ziraldo. Tabebuias. 107 . Projeto Leitura – Outra escola que se destaca com projetos de leitura é a Escola Estadual Vila Nova. os alunos participam das atividades como a Hora da História. quando voltou a estudar. está sendo sempre visitada. Ele passou mais de dez anos afastado do colégio e. Podemos verificar. Produção de Textos e Concurso de Poesia. aluno da 8. que desenvolve o “Cantinho da Leitura”. 25 anos. de Adelaide Carraro.ª série. da Escola Francisco Máximo de Souza. nesse espaço. desde que bem conduzidos. de Chiristiane Suplicy Teixeira e Inventando moda com o menino maluquinho. a biblioteca Humberto Campos. portanto. que projetos de formação de leitores. O estudante III. descobriu que tinha o dom para a poesia e hoje escreve e declama versos.

______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3. ed. Registre aqui um resumo do que descobriu. 108 . a respeito de incentivo à leitura. ______. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ CUNHA. Maria Antonieta Antunes. inclusive de outras escolas. Procure informações junto ao Ministério de Educação (MEC). refaça-os e aplique-os. CARVALHO. Troque idéias com colegas. Poesia na Escola. Registre suas conclusões. São Paulo: Ática. Pesquise sobre projetos de formação de leitores já desenvolvidos em sua escola. São Paulo: Edart. 2. Registre algo do que encontrou. acerca dos Projetos Nota 10. 1993. Bárbara Vasconcelos. 1982. a respeito de projetos que estejam sendo desenvolvidos. São Paulo: Discubra. Analise-os e procure descobrir neles o que ainda é possível aproveitar.Literatura Infantil 1. A Literatura Infantil: visão histórica e crítica. 1976. Literartura Infantil: teoria e prática. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. pela internet.

por volta de 1917. nem mesmo existência simbólica. Alexina Magalhães Pinto projeta uma biblioteca infantil. No Brasil. a de manter em bom estado todo esse material. na sociedade do tempo. 1982. proveniente de suportes diversos: os livros. Ainda a de preservar na biblioteca tudo aquilo que diga respeito à história da escola. As funções de uma biblioteca escolar podem estar resumidas em alguns verbos: guardar o acervo. que Lenyra Fraccaroli cria a primeira Biblioteca Infantil Municipal. assumir a responsabilidade pelo material nela depositado. Na etimologia. Outra função correlata é a de presevar. armário”. matemáticos e pesquisadores de diversas áreas. A biblioteca instaurou uma nova escritura científica “começando a alterar a situação anterior de lugar depósito. Cabe a César a iniciativa das bibliotecas públicas. um inventário do que havia sido produzido sobre a infância e a juventude. Na história das bibliotecas. CDs. E. filmes. No século IV. Aos poucos. (CARVALHO. a argila. Junto com a imprensa. o papiro. as transformações das ciências. pois a criança não tinha ainda relevância. p. 122). seja a madeira. as bibliotecas passam a ser um centro de divulgação de conhecimento e não mais um depósito. no antigo Egito. os jornais. habitualmente. 306). Não se encontram registros de bibliotecas infantis. biblioteca vem do grego biblion = “livro” e théke = “caixa. em Roma. seja por bárbaros ou por cristãos revoltados contra os pagãos. Essa história apresenta o fato lamentável de.A biblioteca escolar Itens a serem abordados Nova concepção de biblioteca As funções da biblioteca escolar Atividades na biblioteca escolar A s bibliotecas existem desde que o homem transmite suas idéias para um objeto concreto. É na Inglaterra que irá surgir a primeira Biblioteca Infantil. as bibliotecas haverem sido destruídas e reduzidas a cinzas em guerras. Destacam-se como as mais notáveis e célebres as de Pérgamo e a de Alexandria. de seus alunos. literatura e artes. Mas é em 1936. isto é. isto é. que traduziam para o grego os conhecimentos de várias culturas. no ano de 1748. p. os escritos surgiram no Oriente e. a biblioteca vai tornando-se um lugar de acesso às informações. as bibliotecas. fotos. em São Paulo. com cerca de 700 mil rolos de papiro. . até então. material de informática. 2002. As mais antigas guardavam pergaminhos e manuscritos. destacamos que Paulo Emílio é o nome do primeiro fundador de uma biblioteca. que faz parte da história da cultura. destinado a acolher somente livros religiosos e inventários de bens dos reis” (NÓBREGA. influenciou os modos de escrita e leitura. com a multiplicação dos livros. Os romanos conservavam as bibliotecas proibidas ao público até o reinado de Augusto. revistas. a diminuição do analfabetismo e o surgimento de universidades. Roma já possuía 28 bibliotecas públicas. com eles. a pedra ou o papel. De acordo com historiadores. selecionados por filósofos.

na posição que preferissem. Para Luiz Raul Machado (SANDRONI. Trazer. também. como quisessem: ficar sentadas ou deitadas. somente importaria o hábito de manusear e ler o livro. cadeiras de balanço. teatro. podendo trocar idéias no local. Os estudantes passam a procurar nas bibliotecas públicas os materiais de referência escolar para seus trabalhos. deveria abster-se de exigir silêncio: a criança seria atraída por jogos. dado-lhe meios para. estimulando-as a participarem na organização e seleção do material. com a livre escolha da criança e o contato agradável com os livros. principalmente. que deve ser um lugar onde se constrói a democratização do acesso e. deseja-se que a biblioteca escolar supra a falta de livros. Eliana Yunes (YUNES. Devem ser realizadas diversas atividades para tornar o espaço da biblioteca infantil repleto de leitores motivados. dado que nela estão depositados os registros do conhecimento acumulado pela humanidade ao longo de sua história e em formato materializado. 127). Imprescindível é. ampliar seu conhecimento. não possuem bibliotecas. tranqüilidade e quietação nos usuários. E. na biblioteca. Hoje. sempre novos usuários. criando novos leitores e mantendo os já existentes. na arrumação e no funcionamento dela. a escolar deveria estar voltada para ajudar a criança a desenvolver sua capacidade de estudo. Durante as férias. p. 2002. por revistas e jornais específicos para a infância.. almofadas. poesia. O 110 .Literatura Infantil do bairro. o objetivo principal deve ser o estreito relacionamento com o livro. 54-56) apresenta algumas reflexões teóricas atuais sobre a sociedade de informação. pela propaganda. nos países em desenvolvimento. que se concretiza nos acervos de uma biblioteca. ofertando. devido ao baixo poder aquisitivo da população. A iniciação do contato com a biblioteca deveria ocorrer desde cedo. pela hora do conto. por isso. através da apresentação da diversidade de opções de leitura. para evitar ser um espaço tradicional. Há outros educadores que pensam que a biblioteca. obras de ficção. isto é. Na biblioteca. Mas. a biblioteca escolar deveria proporcionar o encontro entre as crianças. De todos os recursos utilizados para tornar a biblioteca mais atraente. a função de difundir. que as escolas. MACHADO. explanaremos nesta aula algumas sugestões de atividades. Nanci Nóbrega propõe criar ambientes de leitura enquanto espaços agradáveis para o convívio com os livros e demais suportes de leitura e diversidade de linguagens (tapetes.. Também é importante ativar o conhecimento. prosa. Mas é exatamente por motivos sócio-econômico-culturais. para definir comportamentos de organização e preservação (NÓBREGA. deve ser dinamizado. Em relação à última dessas funções. p. cores) para proporcionar prazer. de divulgar a qualidade e importância do que ali está guardado. muitas vezes. existe a oportunidade de desfazer-se o condicionamento da leitura. através de pesquisas. 1987). isto é. Tenta-se aprimorarse nas novas tecnologias e dar conta de ações pedagógicas que suplantem a mera organização dos livros. mesmo antes de freqüentar a escola. existem dois tipos de bibliotecas: a pública e a escolar. E trabalhar em acervos implica competência científica e clareza política. 2002. Poderiam portar-se. além de livros didáticos. estimular a leitura.

os alunos de todas as séries. devem ser recebidos através de uma apresentação descontraída. Apresentam fotos e programações. levados à biblioteca. canções. em que cada aluno cederia um ou dois livros. a caixa-estante. classificados. com histórias relacionadas aos livros da biblioteca. Deveria ser animada por contadores de histórias. perceberá sua expressão facial. reprodução ou relaboração de livros a partir de leituras realizadas e comentadas. As atividades da biblioteca devem atender às necessidades da criança. mesmo a escola que não possua biblioteca.htm> é um endereço que apresenta ótimo exemplo de uma biblioteca atrativa. revistas e suplementos infantis. atividades. que é uma ótima alternativa. anúncios. jornais (murais ou impressos) entrevistas. o bater papo sobre livros.com. pois. lendas populares. folhetos de cordel. espaço adequado. para a avaliação da atuação desenvolvida e planejamento dos futuros trabalhos. a organização de exposições. e cabe ao bibliotecário despertar e iniciar as atividades a serem desenvolvidas em local apropriado. Essa atividade atrai principalmente o aluno menos interessado pelo livro.A biblioteca escolar bibliotecário deveria reunir-se periodicamente com o pessoal que atua na escola. A biblioteca pública infantil. Participando das atividades da biblioteca. O site <http://www. A biblioteca pode expor: histórias em quadrinhos. O bibliotecário pode dizer algumas palavras sobre cada o livro. escolar ou não. Sua informalidade atrairia a criança para o contato imediato com os livros. Luiz Raul Machado (SANDRONI. em seguida. A criação de uma estante em sala de aula. ao mesmo tempo. a criança poderá ser beneficamente influenciada para tornar a leitura uma necessidade vital. que funcionaria através do sistema de empréstimo. sem intermediação do adulto. A apresentação da biblioteca é muito importante. Outras sugestões de atividades são a presença e conversa com autores de livros infantis. Um meio de levar as crianças ao livro é espalhá-los sobre a mesa. deveria ser uma casa e não um depósito de livros. poderia ter.br/biblioteca/biblieduc_infantil/ biblioeduc_infant. Esses leitores podem ser cativados e despertados seus interesses através de painéis. Além de se tornar um ambiente de trabalho e entretenimento. Pode-se solicitar 111 . Através do revezamento. assim. compreenderá mais facilmente os significados. uma biblioteca. que exemplificam e ajudam a compreender melhor uma biblioteca ideal. a fim de suprir a falta de biblioteca e incentivar o hábito da leitura. passeios turísticos orientados às estantes. a biblioteca poderia propiciar o despertar do usuário para o conhecimento e admiração de outras artes. quadrinhas trava-língua. ao ouvir um contador. formando o acervo da classe.fariasbrito. representações teatrais. Uma outra sugestão é a hora do conto. em ambiente escolar. em grande número. 1987) sugere para as regiões mais carentes da periferia. as personagens e as situações narrativas. Assim. um aluno controlaria as saídas e devoluções. informativa. com propostas de leituras. poesias. MACHADO. pois. os próprios alunos os folheiam. afetuosa e. textos de jornais. passaria a fazer parte do dia-a-dia das crianças. Também se pode criar a biblioteca de classe.

não interferindo na escolha dos textos. Que criança resistiria em habitar um espaço como esse! 112 . crianças e adolescentes manifestam interesse. As experiências extra-escolares são uma alternativa de proporcionar o contato espontâneo com os livros. quando podem escolher livremente seu livro. duração de leitura. O caráter impositivo e obrigatório pode. rede. um pequeno sofá. nem no modo de realizá-la). reflexão e posicionamento crítico. deve-se visar: discussões. reflexões. a biblioteca escolar deveria ser um lugar de encontro com os livros: ler. escrivaninha e cadeiras. planos. escrever. ouvir. quando solicitado. democratizando o espaço e o tempo. sem características de biblioteca. trocar material de leitura entre as crianças. aos vários pontos de vista. O acervo é renovado após um período que permita que todas as obras sejam conhecidas pelos leitores. mesinhas com cadeiras pequenas. sem pressão do adulto (que será o criador de condições de leitura e se fará presente. existentes nas bibliotecas públicas municipais ou estaduais. criatividade. sendo avaliadas as dificuldades e resolvidas pelo responsável da caixa-estante. oportunizando a circulação dos diversos saberes. lousa.Literatura Infantil a instalação ao Departamento de Bibliotecas Infanto-Juvenis. Entre todas as atividades na biblioteca. algumas vezes. contar. A construção do espaço contaria com a simplicidade e aconchego. sonhos. debates. Resumindo. almofadões espalhados sobre o chão. afastar o leitor. Laura Sandroni e Luiz Machado apresentam ainda a opção de uma salinha de leitura. declamar. reinventar. Em contrapartida. apenas. com livros em evidência com as capas expostas. Uma pessoa indicada é treinada para serviço de empréstimo. criar histórias.

______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3. 2.). ed. De livros e biblioteca como memória do mundo: dinamização de acervos. Registre um relatório dessa visita. Anote aqui um relatório dessa atividade. Eliana (Org. com seus alunos. Pensar a Leitura: complexidade. Formule cuidadosamente um projeto de aquisição de livros. Traga para a sala de aula bibliotecários ou profissionais responsáveis por bibliotecas. Visite. Nanci. Pensar a Leitura: complexidade.). 113 . Rio de Janeiro: Loyola/PUC-Rio. Eliana (Org. Rio de Janeiro: Loyola/PUC-Rio. de empréstimos e de guarda do material. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ NÓBREGA. MACHADO. 2002. Analise seu acervo e seu funcionamento com os alunos. In: YUNES. para darem depoimentos sobre suas funções e sobre casos especiais. Laura C. Monte uma biblioteca de classe. algumas bibliotecas públicas. YUNES. escolares ou particulares de sua cidade. Luiz Rave. ocorridos no espaço das bibliotecas.A biblioteca escolar 1. SANDRONI. 1987. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. A Criança e os Livros: guia prático de estímulo à leitura. Registre aqui suas conclusões. São Paulo: Ática. 2002.. com a ajuda de seus alunos.

Literatura Infantil 114 .

ou seja. gostar de ler. para poderem passar a esses futuros leitores uma boa imagem da leitura. Ele também afirma que Os entusiastas do vídeo sustentam que as imagens são intrinsecamente mais cativantes do que as palavras. por exemplo. ignorando. qualidades que possibilitam uma leitura com prazer e não por obrigação. que começa no lar. o acesso à internet e todos os meios de comunicação de massa como rádio.” (GRIGOLETTI. ao contrário daqueles que acreditam que somente os professores são os responsáveis por esse assunto. curiosidade e gosto. aperfeiçoa-se na escola e continua pela vida afora. “a palavra permanecerá como o mensageiro mais confiável do mundo moderno”. 1999). todos podem contribuir para o conhecimento através das leituras. como calculadas e impostas pelo regime de dominação. dar a sustentação dessa aprendizagem. 1995. “A leitura reveladora da palavra e do mundo constitui-se mais um instrumento de combate à ignorância e à alienação. numa época de mundo virtual e de consumismo desenfreado. contudo. os professores farão a parte que lhes compete. o alto custo dos livros. 14). já que. assim como disse Paul Saffo. 7). Muitos fatores acabam por dificultar a leitura. TV e cinema. o desenvolvimento da humanidade passa a ser freado. Na verdade. Bamberger afirma que o desenvolvimento e hábitos permanentes de leitura são um processo constante. ao passo que o vídeo exclui tais excursões mentais. que muito ajudará a criança a interessar-se pela escola. Os professores precisam. pois. pois com ela há a possibilidade de conhecerse outras realidades e. ampliar e desenvolver o conhecimento a respeito do mundo e de si mesmo. crianças e jovens consideram muito mais fácil o uso do computador. Ou seja. fato que está sendo deixado de lado pela sociedade. (SAFFO. está sendo perdido o gosto pelos livros. primeiramente. o texto continuará oferecendo-nos o caminho mais direto entre a mente e o mundo exterior. A família é a primeira a impulsionar o gosto pela leitura. Nela. a diferença maior entre ambos: enquanto o vídeo é captado pelos olhos. principalmente. É importante esse primeiro contato. com literatura infantil oral e as cantigas. dado que ela realiza um encontro indispensável do sujeito-leitor com a tarefa de reflexão e crítica. Convém insistir na importância da leitura. . Enquanto não houver uma ligação física entre o cérebro e a máquina. o texto ressoa direto na mente. principalmente. faz-se necessário continuidade. através das influências da atmosfera cultural e dos esforços conscientes da educação e das bibliotecas públicas (BAMBERGER. Ou seja.A avaliação dos projetos de formação de leitores Itens a serem abordados Princípios de avaliação da leitura A progressividade na formação do leitor A leitura tem sido discutida intensamente ao longo dos tempos. Na verdade. p. p. devido a essa falha cultural. Para tanto. o baixo poder aquisitivo. poucas bibliotecas e a carência de boa leitura nas escolas fazem com que crianças e jovens – futuros adultos – não se interessem por ela. No Brasil. 2000. O texto convida-nos a buscarmos imagens que completem as palavras fornecidas por ele.

o da formação de leitores críticos. as famílias dos alunos. é que professores. escola e comunidade em geral também se tornem partícipes e influenciadores dessa aprendizagem. cada membro envolvido possui idéias próprias e imagina ações que pretende realizar. considerando nela todas as certezas. a incoerência dos textos redigidos pelos mesmos. não mais. Por exemplo: A internet está trazendo boas influências para os alunos? A televisão tem colaborado para o conhecimento? Além de outras que sejam pertinentes ao tema proposto. pois se vê uma grande necessidade dos educadores direcionarem de outra forma a leitura nas escolas. atualmente. no artigo intitulado “A Literatura Infantil e a formação de leitores”. visando sempre a qualidade da aprendizagem e uma preparação do aluno para a vida. em todos os lugares e funções nos quais estiver inserido. responsabilizar tão somente os professores pelo ensino é atitude descomprometida com a formação de novos leitores. conseqüentemente. detentores do saber. aos educandos. a primeira atitude é. Feito o planejamento. decretado pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. principalmente. facilitando a execução das tarefas do coletivo. sem dúvida. repertórios e atividades pertencentes ao grupo e. portanto. O aluno deve mergulhar em seu próprio conhecimento. Mais do que em outros projetos. faz-se necessário estabelecer certas metas e atitudes do grupo envolvido. é comum ouvir de alunos o desgosto pela leitura e. Estabelecer questões para o assunto a ser desenvolvido é a chave para um bom projeto. fazer com que esse aluno (e. Os projetos podem e devem integrar o aluno ao seu próprio conhecimento e. a leitura requer muita pesquisa e confronto de idéias para que se possa chegar a possíveis soluções de problemas. a importância de desenvolver projetos ligados à comunidade. implica intensivamente a leitura de bibliografia norteadora e esclarecedora. crenças. também os outros membros envolvidos do grupo) perceba que. No desenvolvimento de projetos. no caráter de aprendizes e. as pessoas do bairro em que a escola se localiza e tantos outros. O terceiro passo é a problematização. questiona a situação dos livros nas bibliotecas escolares e a disposição das crianças: 116 .Literatura Infantil Muito se tem falado sobre a importância e o impulso que os projetos de leitura podem dar para desenvolver o gosto e a aprendizagem da leitura. a fim de caracterizar a leitura como situação cotidiana e interacional. também. a leitura não deve interromper-se quando esse aluno sair da escola. Busque parcerias para viabilizar o trabalho: a diretoria da escola. Para tanto. É o chamado ensino-aprendizagem. visto que. 2001). através da leitura. Em geral. verificando a quantidade de pessoas envolvidas e disposição de recursos para tal. mas devem ser criadas condições inconscientes que lhe tragam o interesse para esse mundo. está sendo formada uma visão global e constante. político e econômico. É necessário. Ou seja. o mais importante. desde que harmonizadas com vistas a objetivos comuns. conhecimentos. os projetos surgem da necessidade e da carência de tratar determinados assuntos no contexto social. infelizmente. Naturalmente. o planejamento. nesse caso. o que. busca-se a escolha do tema. Leomar Kieckhoefel (apud Pereira. Daí surge. pois.

vale ressaltar que um bom leitor não quer dizer. os educandos. p. da leitura na sociedade e no mundo todo. enquanto classe docente. O educador. 108). mostrando o valor. pois “[. 2001. A escola entra como divulgadora do projeto à comunidade e auxiliadora dos meios físicos e organizacionais. que entende o mundo como um processo em constante transformação e que é necessário compreendê-lo para poder sobre ele atuar. por sua vez. não havendo restrições quanto ao que se vai ler. o planejamento. será que elas. pois é relevante para seu desenvolvimento. o segredo está em como esse leitor está encarando a leitura. sem que sejam estimuladas a fazer tal tarefa? Será que nós. ao fim. Prever a colaboração do aluno no processo ensino-aprendizagem..A avaliação dos projetos de formação de leitores Entretanto. para todos os membros da equipe. chega o momento da avaliação do projeto. integrando o uso das bibliotecas. no início. o produto e as ações comunitárias”. O educador como atuante direto da concretude dos objetivos e. serão avaliados no interesse e pré-disposição à leitura desenvolvida. após o grande trabalho. levando-se em conta a importância do “novo”. leitor alfabetizado. Porém. Traçados os objetivos. internet. Divulgar através de boletins informativos. Isto é. (PEREIRA. agora. Esse saber contribuirá decisivamente para toda a sua vida. ou seja. Após a pesquisa. 2001. o leitor passe a tornar-se crítico. A comunidade como incentivadora. dando-lhe a ferramenta do progresso pessoal e profissional: a leitura. com o planejamento e. segundo os membros do Comitê para Democratização da Informática que também trabalham com a Pedagogia de Projetos. ou seja. é que as pessoas adquiram o hábito de ler. busca-se a sistematização dos conhecimentos adquiridos no processo. Julga-se importante. jornais. Vai criar propostas de trabalho para além da Instituição de Ensino. vão até a biblioteca ler esses livros. elaboração de cartazes e cartas às autoridades convidandoas para prestigiarem o projeto.] a leitura está diretamente relacionada à elaboração de sentidos produzida pelo leitor que. estamos aniquilando cada vez mais o potencial de leitores das nossas crianças? O mais importante. possibilitando um outro olhar mais reflexivo. por livre e espontânea vontade. se as metas e ações previstas foram exatamente completadas.. 108). ainda mais. considerando o processo por completo. é necessário que. 2001. o projeto. São formas de concretizar. entrevistas com pessoas da comunidade e a vinda de pessoas de outros lugares para troca de idéias e experiências sobre o tema em questão. Deve-se estar atento. por fim. principalmente. revistas. para o primeiro aspecto do projeto. os elabora de acordo com o contexto cultural que o circunda” (PEREIRA. até mesmo como incentivo a todos os responsáveis pelo projeto. estamos oportunizando a fruição e o prazer pelo gosto da leitura? Ou. a divulgação do resultado. p. 117 . Portanto. através das leituras. trazer para dentro da sala leituras de mundo. somente. 110). nesse caso. conscientizá-lo de que ele pode desenvolver a leitura para além da sala de aula. o CDI vai afirmar que “a avaliação do educando contempla o processo. já com a divulgação. como forma de aprimoramento pessoal. (PEREIRA. sem dúvida. Ou seja.

______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 2. Anote aqui o seu projeto. destinado a seus alunos. Anote aqui um resumo das informações recebidas. Aplique-o. Entre em contato com os coordenadores desses projetos.Literatura Infantil 1. junto às Secretarias de Educação (municipal ou estadual) a respeito de projetos de formação de leitores. elabore um projeto de melhoria da qualidade de leitura na escola. Pesquise. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 3. Informe-se. os interesses de alunos e comunidade escolar. ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________________ 118 . em andamento ou já finalizados. A partir deles. Anote aqui o seu projeto. Elabore um projeto de curta duração para a formação de leitores. por meio de entrevistas e questionários. em busca de informações e sugestões. avaliando-o ao final do tempo previsto para sua conclusão.

Curitiba: PUC-PR. ed. Como Incentivar o Hábito de Leitura. 2000. 119 . São Paulo: Scortecci. São Paulo: Ática. Importância da Formação de Alunos Leitores e Algumas Observações na Universidade. Com a palavra. Richard. 1999. Paul. SAFFO. GRIGOLETTI. A fragilidade das verdades.). Encarte Veja 25 anos. PEREIRA.A avaliação dos projetos de formação de leitores BAMBERGER. 2001. São Paulo. Cláudia Gomes. Exercícios de Leitura. 7. In: SOUZA JÚNIOR. In: REFLEXÕES para o futuro. José Luiz Foreaux (Org. Marilda Pereira.