INFLUÊNCIA DE MÉTRICAS ESTRUTURAIS DA PAISAGEM NA

RIQUEZA DE ESPÉCIES DE MAMÍFEROS DE MÉDIO E GRANDE PORTE EM
FRAGMENTOS DE CERRADO, NO SUDESTE DE GOIÁS

Jhefferson Silva¹, Ednaldo Cândido Rocha²
1

Engenharia Florestal, Bolsista PIBIC/CNPq, Câmpus Ipameri,
jhefferson_2010@hotmail.com

2

Doutor, docente na Universidade Estadual de Goiás, Câmpus Ipameri – GO.

INTRODUÇÃO
O Cerrado constitui-se na segunda maior formação vegetal brasileira, ocupando cerca
de 2 milhões de km2 (aproximadamente 23% do território nacional), com fisionomias vegetais
que englobam formações florestais, savânicas e campestres (RIBEIRO e WALTER 1998).
Esse bioma foi incluído entre os 34 hotspots do planeta por apresentar alto grau de
endemismo e ser uma região biologicamente rica e ameaçada (MITTERMEIER et al., 2005).
Estimativas indicam que cerca de metade da cobertura original do Cerrado já foi
transformada em pastagens plantadas, culturas anuais e outros tipos de uso do solo (RATTER
et al., 1997; KLINK e MACHADO, 2005). Essa acentuada expansão das atividades
socioeconômicas tem contribuído para a mudança na paisagem do Cerrado, de forma que em
muitas regiões ele se encontra altamente fragmentado (SANO et al., 2007; CARVALHO et
al., 2009).
A fragmentação, que é considerada uma das principais ameaçadas à biodiversidade,
pode ser definida como um processo no qual uma extensão de habitat é transformada em
pequenos pedaços remanescentes, isolados uns dos outros e mergulhados em paisagens em
mosaico alteradas pelo homem (PIRES et al., 2006; CARVALHO et al., 2009).
Após a fragmentação, diversas características das populações, tais como abundância,
distribuição dos indivíduos, reprodução, sobrevivência e recrutamento, podem ser alterados
(WOLFF et al., 1997; FAHRIG, 2003). Na comunidade, os principais efeitos da fragmentação

Pirenópolis – Goiás – Brasil
20 a 22 de outubro de 2015

. Para o mapeamento. 1999. onde cada fragmento foi amostrado quatro vezes. foram adotadas duas classes de uso do solo: 1) floresta . como na região sudeste de Goiás. e avaliar a intensidade de associação entre a riqueza de espécies de mamíferos e quatro métricas estruturais da paisagem. fornecida pelo United States Geological Survey (USGS).2 (COLWELL. 2) não floresta – Pirenópolis – Goiás – Brasil 20 a 22 de outubro de 2015 . A coleta de dados foi realizada entre os meses de janeiro de 2014 a agosto de 2015. Foi utilizada uma imagem do satélite Landsat 8 referente ao ano de 2014.foram observados na composição de espécies e na diminuição da riqueza e na diversidade das espécies com a redução do fragmento (CHIARELLO. pelo estimador Jackknife 1 (HELTSHE e FORRESTER. distribuídas nos municípios de Catalão (n=2). As características da paisagem são variáveis importantes que influenciam o padrão de riqueza e diversidade da comunidade de determinado local. Para o registro das espécies de mamíferos de médio e grande porte foram utilizados métodos diretos (visual e vocal) e indiretos (identificação de pegadas. Por isso. METODOLOGIA Foram amostradas 10 áreas localizadas no sudeste de Goiás. OBJETIVOS Os objetivos do presente estudo são: estimar e comparar a riqueza de espécies de mamíferos de médio e grande porte entre os fragmentos estudados. A partir dos registros de cada espécie de mamífero de médio e grande porte obtidos em cada local amostrado. foi estimada a riqueza de espécies de cada área. cujas localizações estão apresentadas na Figura 1. SANTOS-FILHO et al. utilizando o Programa EstimateS versão 8. com pelo menos dois pixels de largura (60 m). sendo amostradas as áreas de preservação permanente nas margens de cursos e as reservas legais adjacentes. tocas e outros sinais). A análise da paisagem foi realizada com o auxilio de mapas de uso do solo obtidos a partir da classificação visual de imagens de satélite. Ipameri (n=7) e Urutaí (n=1). 2012). 2009).florestas e / ou áreas de Cerrado mais denso. 1983). entender como as mudanças na estrutura da paisagem afetam a riqueza de espécies é importante para a conservação. especialmente em ambientes fragmentos.

Para analisar a estrutura da paisagem.2. 2013). foram criados buffers com raio de 1. rios e áreas de Cerrado abertas (campos sujos e limpos).8 km a partir do centro de cada fragmento amostrado. Figura 1 – Localização dos 10 fragmentos de Cerrado amostrados no sudeste de Goiás.número de fragmentos florestais na Pirenópolis – Goiás – Brasil 20 a 22 de outubro de 2015 . sendo elas: 1 . Os números de 1 – 10 correspondem a A1 – A10 apresentados na Tabela 1.área total da classe floresta na paisagem (CA). 2 . Foram selecionadas quatro métricas da paisagem. Os mapas de uso do solo gerados foram analisados com o software Fragstats 4.áreas com vegetação original alterada e áreas com lagos. a fim de se obter as métricas de paisagem (MACGARIGAL e ENE.

39) A7 178 19 24 (IC = 2. As demais áreas apresentaram riqueza intermediária. a área que apresentou a menor riqueza foi a A10. Artiodactyla (três espécies). A A1 foi a área que se destacou apresentando maior riqueza de espécies.39) Áreas Tamanho da área (ha) A1 Pirenópolis – Goiás – Brasil 20 a 22 de outubro de 2015 .6 7 8 (IC = 2. Para avaliar a intensidade de associação existente entre a riqueza de espécies de mamíferos de médio e grande porte e as métricas de paisagem obtidas para os fragmentos.58) A2 71 12 14 (IC = 4.5 11 15 (IC = 2. e 4 – total de borda dos fragmentos florestais (TE). Por sua vez. apresentando riqueza observada de 7 espécies e estimada de 8 espécies.39) A5 26 18 21 (IC = 6.77) A10 15.16) A4 32 14 16 (IC = 2.77) A3 45 16 23 (IC = 7. com 25 espécies registradas e 32 estimadas. Riqueza de espécies Riqueza de espécies observada estimada 288 25 32 (IC = 4. será conduzida a análise de correlação de Pearson (CALLEGARI-JACQUES. variando de 11 a 19 espécies registradas e de 14 a 24 espécies estimadas (Tabela 1).paisagem (NP).Distância Euclidiana média dos fragmentos florestais em relação aos vizinhos mais próximos na paisagem (ENN_MN). 2003).77) A8 10. Pilosa (duas espécies).75) A6 15. Primates (duas espécies). Cingulata (quatro espécies).77) A9 14. pertencentes a 8 ordens: Didelphimorphia (duas espécie).3 13 18 (IC = 2. 3 .5 11 16 (IC = 4. Lagormorpha (uma espécie) e Rodentia (duas espécies). Carnivora (onze espécies). RESULTADOS E DISCUSSÃO Foram obtidos registros de 27 espécies de mamíferos de médio e grande porte. Tabela 1 – Características das áreas amostradas e riqueza de espécies observada e estimada em 10 fragmentos de Cerrado na região sudeste de Goiás.

1780). Assim.0. pois as áreas com maior quantidade de floresta na paisagem (CA) acabaram por ter maior quantidade de borda.g.Os maiores fragmentos estudados apresentaram. maior riqueza de espécies de mamíferos que os fragmentos menores (Tabela 1). Para tais espécies. p= 0. a quantidade de borda e a distância entre fragmentos são variáveis menos importantes. 1766)]. 1815) e tapeti Sylvilagus brasiliensis (Linnaeus. Pirenópolis – Goiás – Brasil 20 a 22 de outubro de 2015 . 1818) e Hydrochoerus hydrochaeris (Linnaeus. Além disto. o efeito não significativo encontrado para a Distância Euclidiana média em relação aos vizinhos mais próximos na paisagem (ENN_MN) pode ter ocorrido porque na análise dos dados foram consideradas todas as espécies registradas.09 e r = 0.77. respectivamente) (Figura 2). Já o numero de fragmentos florestais na paisagem (NP) e a Distância Euclidiana média em relação aos vizinhos mais próximos na paisagem (ENN_MN) não apresentaram correlação significativa com a riqueza de espécies registrada (r = 0. lontra Lontra longicaudis (Olfers. a maior riqueza ocorreu em função da maior quantidade de floresta e não em função da quantidade de borda. 2007).69. incluindo aquelas que possuem preferência por habitats abertos [e. Cuíca-d’água Chironectes minimus (Zimmermann.99 e r = . p = 0. p= 0. 1758)] e espécies de hábitos semi-aquáticos [e. respectivamente).32. Santos-Filho et al. p = 0. A tendência de aumento na riqueza de espécies com o aumento do tamanho dos fragmentos florestais foi encontrada em estudos com mamíferos de médio e grande porte em áreas de Floresta Atlântica no Espírito Santo (CHIARELLO. 1999) e na Amazônia Meridional brasileira (MICHALSKI e PERES.g. raposa-docampo Lycalopex vetulus (Lund. O efeito observado neste estudo para o total de borda (TE) na paisagem ocorreu em função do acentuado processo de fragmentação presente na região estudada (Figura 1). 1842).37.01. seguindo padrões gerais de aumento de riqueza em função da quantidade de habitat disponível. A quantidade de área florestal disponível (CA) é uma variável importante para a fauna em geral. Além disto. A área total da classe floresta na paisagem (CA) e o total de borda dos fragmentos florestais (TE) apresentaram correlação significativa com a riqueza de espécies observada (r = 0.03. de forma geral. evidenciando a importância das áreas maiores para a conservação desse grupo faunístico. (2012) estudando pequenos mamíferos não voadores em 23 fragmentos na Amazônia Meridional também observaram correlação positiva entre o tamanho da área e a riqueza de espécies. lobo-guará Chrysocyon brachyurus (Illiger.

69.30 r = 0.37 Riqueza de espécies observada Riqueza de espécies observada 30 40000 25 20 15 10 5 0 r = 0. O resultado encontrado para o número de fragmentos na paisagem (NP) mostra que essa variável pouco afetou a permanência das espécies de mamíferos de médio e grande porte nas áreas estudadas. sem unidade). Pirenópolis – Goiás – Brasil 20 a 22 de outubro de 2015 .01. p = 0. p = 0. distância euclidiana média do vizinho mais próximo na paisagem (ENN_MN.77. p = 0.32. em metros). a quantidade de habitat florestal presente na paisagem é mais importante que o número de fragmentos. Métricas: Área total de floresta na paisagem (CA. em metros).99 25 20 15 10 5 0 0 200 400 600 0 ENN_MN 5 10 15 20 25 30 NP Figura 2 . Para esse grupo biológico. p = 0. em hectares). total de borda na paisagem (TE. Número de fragmentos florestais na paisagem (NP.Resultados das análises de correlação entre métricas de paisagem e riqueza de espécies de mamíferos em 10 fragmentos no sudeste de Goiás.009 Riqueza de espécies observada Riqueza de espécies observada 30 25 20 15 10 5 0 r = 0.0.03 25 20 15 10 5 0 0 100 200 300 400 500 0 20000 CA 60000 TE 30 r = .

M.. Effects of fragmentation of the Atlantic forest on mammal communities in south-eastern Brazil. 89. Pirenópolis – Goiás – Brasil 20 a 22 de outubro de 2015 . K. aos proprietários e funcionários das fazendas por autorizarem a realização da coleta de dados em seus imóveis rurais.2. Biological Conservation. 1392-1403. mostrando a importância das áreas de preservação permanente e de reserva legal para a conservação da mastofauna da região..uconn. As maiores diversidades de espécies de mamíferos foram encontradas em fragmentos de maior porte. p. M. A. 142. 2009. The Cerrado intopieces: habitat fragmentation as a function of landscape use in the savannas of central Brazil. Ao Paulo Machado e Silva pela ajuda na coleta de dados. EstimateS: Statistical Estimation of Species Richness and Shared Species from Samples. G. CARVALHO. F. 2010. AGRADECIMENTOS Agradecemos a todos que contribuíram para a realização deste projeto. Acesso em: 24 mar.edu/EstimateS>. FERREIRA. v. p. Disponível em: <http://viceroy. 2009. em especial: ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela bolsa de Iniciação Científica concedida ao primeiro autor. 255 p. P.CONSIDERAÇÕES FINAIS Registros de 27 espécies de mamíferos foram obtidos. A quantidade de habitat florestal na paisagem (CA) foi a métrica da paisagem que mais influenciou a riqueza de espécies de mamíferos das áreas estudadas. Porto Alegre: Artmed. COLWELL. 2003. 1999. S.eeb. G. Biological Conservation. R. L. 71-82. V. REFERÊNCIAS CALLEGARI-JACQUES. Version 8. v. DE MARCO JÚNIOR. CHIARELLO. Bioestatística: princípios e aplicações.

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