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EDUCAÇÃO PARA A COESÃO

Israel Belo de Azevedo
Este é o texto, na íntegra, da palestra proferida pelo autor no Encontro de Educadores
realizado no Instituto de Educação Religiosa - IBER - Rio de Janeiro
Todos aqui sonham com futuro melhor para a educação cristã. Por isto, estão aqui. Os mais
jovens, com seu pobre passado, imaginam como deveria ser a educação, em função de um presente que
não lhes agrada e daquilo que aprenderam sobre o ideal educacional. Os menos jovens tendem a projetar o
futuro a partir das experiências de seu rico passado, por vezes colocados como ideal.
Então, vamos a um breve quadro do Brasil batista recente e eu tomo minha própria
experiência. Quando eu era júnior e adolescente, lia a Bíblia diariamente, levava-a todos os domingos para
a igreja, sabia dezenas de versículos de cor, conhecia a seqüência dos livros da Bíblia (era um campeão de
velocidade ...). Mais ainda: lia biografia de heróis cristãos e conhecia boa parte da história das missões
modernas, aprendidas nos Embaixadores do Rei. Etc. Etc. Devo dizer também (e não por acaso) que lá em
casa (e nem na casa de ninguém até a metade dos anos 60) não tinha televisão e que fui ao cinema pela
primeira vez aos 19 anos de idade...O resultado, podemos dizer, era uma certa coesão doutrinária e
consuetudinária. Ao longo do século, a coesão doutrinária batista (forjada principalmente pelo púlpito, pelo
hinário e pela imprensa) só conheceria duas tensões: a primeira, que não deixou seqüelas, foi a discussão
(nos anos 50) em torno da perda da salvação, e a segunda, que rachou a denominação (nos anos 60), foi a
discussão em torno dos dons espirituais. Houve uma tensão que perpassou o século, mas teve
conotação exclusivamente política: a relação entre os batistas brasileiros e os missionários, cujo ápice
crítico foi a chamada questão radical. Outra tensão, travada em torno da responsabilidade social da igreja,
estimulada pelo movimento Diretriz Evangélica, tornou-se uma bandeira arriada e jamais chegou às igrejas.
No plano dos costumes, celebrou-se a moral da diferença negativa: nenhum batista fuma, bebe ou dança.
Nada é mais ilustrativo, no entanto, do que o seguinte episódio: o caso Canaã (Paraná e Espírito Santo).
Como o retrato hoje parece diverso, nós nos perguntamos: onde falhamos? o que podemos
fazer, para continuarmos influenciando vidas? As perguntas revelam que somos viúvos da coesão perdida.
Diante de certos retratos, alguns choram diante daquilo que chamam de falência de um projeto
denominacional. O caso Juerp é emblemático: na sua crise, muita gente, formada de batistas históricos,
torceu para que ela falisse. A maioria simplesmente não deu ouvidos aos apelos que a Juerp e o Conselho
da Convenção fizeram. Por que? Porque a imagem da Juerp estava desgastada? Talvez, mas em outros
tempos, nas mesmas circunstâncias internas, haveria resposta. Permitam recordar algumas marcas
distintivas do nosso século.
Entre outros termos, há uma espécie de sentimento de que a denominação chegou ao fim e de
que a igreja local é para ser usada utilitariamente. Estamos, na verdade, diante da falência de uma
cosmovisão, verificável nos planos da economia, da política, da religião e da educação. Na raiz desta
falência, está a democratização do saber, iniciada por Gutenberg e Lutero e continuada pela urbanização e
pela massificação dos meios de comunicação, especialmente os televisuais (como a televisão e o
computador). É preciso prestar atenção a estes dois processos: à urbanização, porque a matriz de
evangelização que veio para o Brasil era rural quando o Brasil era rural e talvez estejamos chorando porque
o Brasil seja urbano e nossa pedagogia rural não lhe assenta mais; à televisão, que preenche os outrora
sagrados domingos (dia do Senhor) não só de futebol mas de cultos inteiros, com mensagens e tudo; ao
computador, que permite aos iniciados um acesso a um conjunto de informação muito além do que qualquer
pessoa pode sistematizar. Ignorar esse quadro nos deixa ansiosos e culpados. Já não fazemos mais cultos
ao ar-livre e seus famosos arrastões. A Escola Dominical já não tem uma freqüência quantitativa próxima à
dos cultos, pois em muitos casos há cultos com 500 pessoas e Escolas Dominicais com 100. As uniões de
treinamento sobrevivem pela teimosia de alguns, como se fosse um fardo.
No entanto, quem vê os batistas de fora vê coesão, embora quem veja os batista de dentro
veja diversidade. O caso Southern Baptist Convention x Walt Disney é uma prova disto. Apesar do que
achamos, temos um elevado grau de coesão (definida aqui como a afinidade existente entre pessoas ao
ponto de se sentirem membros de uma comunidade). Não falamos ainda de identidade batista? Coesão tem
a ver com motivação, moralidade e compromisso. Diante deste cenário e do desejo pela coesão, a
educação pode ceder a duas tentações totalitárias: a doutrinação e o treinamento.
No primeiro caso, educar é inculcar informações, conceitos e valores, como se a educação
fosse uma espécie de programação neuro lingüística. Ilustração: mesmo o aluno universitário hoje só tem
uma preocupação: nota. O poder todo está com o educador; ao aluno pertence a obediência. Pensar lhe
cabe; copiar cabe ao aluno. Produzir lhe cabe; reproduzir cabe ao aluno.

estas imagens e estes sons não comportam todos os sentimentos do inundo. imagens e sons. há mesmo uma competição pela informação. no sentido de uma abundância de informações. a indiferença e a insensibilidade. presos do preconceito. para que não sejam o esconderijo de um novo tipo de analfabetismo. Uma sobre o culto à tecnologia e outra sobre o narcisismo da informação. como se fosse uma flor que "é sem por que. Para que a tecnologia cumpra sua função. Há uma terceira via: a educação como formação. se colocadas para o bem de cada um de nós. ensinar é ensinar alguém a fazer algo. Vivam as máquinas do mundo. corno se a máquina fosse o mundo. educar é ensinar habilidades. Vivam as teias em que o mundo se transformou. sentindo vitoriosos diante do virtual que se deixou capturar. que são tão largos como o suspiro dos apaixonados e tão longos como os soluços dos destroçados por cima de quem passam as máquinas. Há tanta informação disponível (40 mil títulos diferentes de livros publicados a cada ano só no Brasil. permitindo dominar pela mentira dos que detêm a liberdade da palavra. usemos o meio. porque as teias carregam dados. as teias. porque as máquinas foram feitas por nós e para nós e não nós por elas e para elas.No segundo caso. apresentando voluntariamente para escravos da ilusão. os decretos e as leis. mas estes dados. Vivam as telas que transfiguram o mundo. O olho olha a máquina. Muita gente acredita que parte da defasagem da igreja cristã é provocada por uma defasagem tecnológica nos recursos empregados na educação cristã. O olho olha a tela. O olho olha a teia como se a teia cercasse o mundo. que podem chegar a 100 ou 200. Antes. aquele que se embasbaca diante das animações de uma tela e se esquece de pensar. sorridentes com os sonhos que sonharam para nós. transformar ao máximo e vigiar ao máximo para que não sirvam de barreira entre as pessoas. como foi durante muito tempo. floresce por florescer. Nossos problemas educacionais não podem ser explicados reducionisticamente como sendo motivados pela ausência do uso da tecnologia. E isto que as igrejas fazem quando ingenuamente pensam que formaram evangelizadores ao lhes dar um folheto com os chamados "quatro pontos fundamentais" ou "as quatro leis espirituais. se colocadas como o que são: janelas abertas para quem aprendeu a ler a ouvir e a sentir mas janelas que se fecham para quem se recusa a ler~ a ouvir e a sentir porque a tela que tudo vê a si não vê[1] Portanto. monta. corno se navegasse o mundo. é preciso fazer duas digressões. de criar e de ousar. Em resumo. 30 canais de televisão. mas celebremos apenas o homem que criou a máquina e celebremos o homem que não se deixará fascinar por ela. mas não o transformemos em fim. felizes do fácil. contra 6 ou 7. E isto que as empresas fazem para que seus funcionários apertem melhor os parafusos. o homem deve ser utilitário com ela: cria. Sim. reconheçamos a tecnologia que nos permite navegar virtualmente pelo corpo dos desejos e das informações disponíveis. Com relação ao frenesi da informação. tirar tudo dela e destruí-la. para que as tecnologias de informação realizem o destino que lhes traçamos. nem pergunta se alguém a vê!"[2] Não nos deixemos seqüestrar pela verdade dos mestres da consciência roubada. Tratam-se tentações. 30 milhões de sites com informações utilíssimas e informações inutilíssimas . não olha para si mesma. devemos desenvolver ao máximo.

não para o seu fim mas para o fim da felicidade dos batistas. É o diretor dos Cursos de Comunicação da Universidade Gama Filho. mas incentivar e incendiar o conflito. O caso das reações diante de "Deus: uma biografia". subsidiar o aluno para que ele caminhe com pernas próprias). De igual modo. mas critica. Resta a pergunta: nossa educação deve buscar a coesão? O círculo do não comporta um pequeno subcírculo para um sim. às vezes harmonicamente e às vezes conflitivamente. que as desenvolverá em doutrinas. do Deus do reino. aqui reside o problema: qual é o objetivo de nossa educação cristã?). de forma a dispensar a própria educação? O educador é aquele cujo telos é se tornar inútil. que usam 10% das informações que lhe são remetidas) ou empurrado por meio do seu computador (tecnologia cast). Quanto ao teleólogico. que a prática que levou os defensores da lei a condenar Jesus por permitir que seus discípulos debulhassem espigas no sábado. mas apenas mostrar o caminho do mesmo reino pelo qual vive. Numa mercadoria a curto prazo. O fato de não poder construir o reino de Deus não o exime de se fazer parceiro. desde que se restrinja a ministrar princípios teológicos gerais. seja brincando. Quanto ao lúdico. reino que lhe cabe tão somente anunciar. O que educar. permanece fiel a Deus aquele que não se assusta com a mudança dos paradigmas. o fato de não poder modelar a mente do educando não o exime de ser seu parceiro nesta modelagem. escritor. pois a compra se dá pelo marketing dela. por fim. O educador cristão vive os valores do reino de Deus. podemos tomar a metáfora e pensar nas pessoas como caixas. 1 Paráfrase a Ludwig Wittgenstein. Lembremos que as pessoas não são caixas vazias. Informação é uma mercadoria como outra qualquer. Muitos preferem "blue laws". que só é mensurável num plano: a felicidade do homem. Quero traçar aqui. consta que na Grécia metáfora é o nome pelo qual é conhecido aquele veículo de transporte coletivo que no Brasil se chama ônibus. O caso da caixa de fósforo africana em Fernando de Noronha. reino cuja consumação não pode antecipar. Israel Belo de Azevedo é jornalista. que fala de decência. nas quais guardamos nossos conteúdo. A metáfora é entre a educação e o Reino de Deus. de novo. outros o farão. que lhe trarão um terreno mais tranqüilo para caminhar. A educação cristã deve contribuir para uma coesão consuetudinária. que não trazem certezas aos educandos. num diálogo que permita a reflexão? A educação para a consciência é aquela capaz de preparar o aluno para o futuro como profissional. porque é mais cômodo.na Internet). onde os conteúdos convivem. se nossos interlocutores são escravos do prazer? A educação. Então: A quem educar. século XVII . como cidadão e como cristão. Ao educador cabe ser parceiro de Deus na felicidade das pessoas. o educador cristão não pode antecipar as escolhas que os educandos farão. Sua meta deve ser a mesma de João Batista em relação a Jesus: sumir para que o Mestre fique em evidência (ou no caso da educação. uma metáfora. ao ponto de já existir uma espécie de seleção do que vai ser publicado (caso dos jornais. De igual modo. incluída aí a embalagem. pode contribuir para mudar aquele que não consente. o que menos importa é a qualidade do produto. e aqui. mesmo que inútil. embora use a tradição como uma ferramenta e não como um amuleto ou um escudo para proteger sua preguiça. mesmo a da igreja. importa que a mercadoria chegue ao consumidor. Como educar. Se a sociedade muda. permanece quem é crítico o suficiente para saber mudar. Se a fé é dinâmica. A tarefa da educação não é cultivar e cultuar a harmonia. pesquisando ou trabalhando? Porque é gostoso. 2 Angelus Silesius. No entanto. A coesão a ser buscada deve ser doutrinária e consuetudinária. por que uma pessoa passa uma noite diante de um computador. mas não da altura da saia ou da profundidade do decote. A educação cristã deve contribuir para uma coesão doutrinária. no Rio de Janeiro e membro da Igreja Batista em Itacuruçá. Nossa meta é buscar a glória de Deus. Se o educador cristão não o fizer. deve ser ao mesmo tempo lúdica (na forma e no conteúdo) e teleológica (indicando no seu conteúdo que a sua finalidade não é ela mesma. Ou melhor: outros o estão fazendo. que escreveu: "o olho que tudo vê a si não vê". mas sem subordinar a teologia à doutrina. mestre em Teologia e doutor em Filosofia. Num território de alta competição. podemos buscar secundariamente algum tipo de coesão denominacional. No entanto. Se o emprego muda. Lembrar disto nos torna menos ansiosos e também menos ufanistas. Aliás. em termos de normas gerais.