DADOS DE COPYRIGHT

Sobre a obra:
A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros,
com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos
acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim
exclusivo de compra futura.
É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer
uso comercial do presente conteúdo
Sobre nós:
O Le Livros e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dominio publico e
propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o
conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer
pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.site ou em
qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.
"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando
por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível."

Para Santuza

Sumário
Lorem ipsum
Circular
Oficina
Poética prática
Tríptico com hotel e sirene
Limiar
Horácio no Baixo
Cinco sonetos frívolos
Biographia literaria
Apêndice
Ecce homo
Fogo-fátuo
Pequeno manual de retórica
Man in a chair
Fábula
Cave canem
Seis sonetos soturnos
Lagniappe
Biscuit
Carrossel
Par délicatesse
Canção
Eleática
Três peças dispépticas
Quatro bagatelas
Três autotraduções
Mosaico
Uma lenda
Madrigal
Instant replay
Pós
Envoi
Nota do editor

formas do nada .

cesuras. “que eu lhes ofereço sinéreses. e sim seu oposto. tão melífluos. hemistíquios e muito mais. Tudo resulta apenas neste dístico: Ninguém busca a dor. .Lorem ipsum “Venham”. e aguarda apenas o momento exato de nos servir a suprema delícia. Venham. diz ele. e todo consolo é metalinguístico. que a noite é sólida e solícita. cascas vazias e rabiscos pífios. e em troca só lhes peço sofríveis simulacros de sentido. como um garçom anódino e hierático. atraem tão só máscaras sem rosto.” Porém apelos tantos.

alguém está pensando a mesma coisa que você estava prestes a dizer. dizendo sempre. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vez neste mundo. Sim. Como faz este poema. não caia nessa: é sempre a mesma coisa.Circular Neste mesmo instante. Mesmo parecendo que desta vez algo de importante vai ter lugar. em vez de ficar o tempo todo a alugar todo mundo. em algum lugar. sem sair do lugar. nem tempo. Melhor calar-se para sempre. . Perda de tempo dizer o que quer que você tenha a dizer. Tanto faz dizer coisa com coisa ou simplesmente se contradizer. nem lugar. a mesma coisa que nunca foi necessário dizer. sempre. O que você fizer não muda coisa alguma. Pois é. Talvez.

E mesmo assim elas se impõem com a força de quem não admite contra-argumentos nem limites. pese ou meça.Oficina i Escrever. Não que ainda haja necessidade (se é que já houve) de autoexpressão. origem. Há que deixá-las entrar sempre. mas não por ter vontade: escrever por determinação. (E a maioria dela se esquiva. . ou sei lá qual carência faminta: toda veleidade dessa espécie estando de longa data extinta.) ii Umas às vezes aparecem sem nem ter sido convocadas. Não têm razão. resta o desejo (que se não cresce por outro lado também não míngua) de estender frágeis teias de aranha tecidas com os detritos da língua. com o acaso. nada que se calcule. nem desculpas. Uma ocupação inofensiva: quem cai na teia sequer se arranha. por dever de hospitalidade e temor supersticioso: pois não se bole impunemente com a contingência. esses deusinhos perigosos. nem exceções.

v Por só dispor destas palavras. Nem por mim. pejadas .iii Música ingrata. mais prenhas. Não outras. me contento com o vago prazer (se é mesmo prazer) de rabiscar num caderno. música orgulhosa. Sendo assim. nada se aproveita. Por quê? Não vem ao caso. ao acaso. eu sei. capaz de se enquistar nos intestinos mais íntimos da mais agreste prosa em cálculos duros e cristalinos. música que brota onde a palavra era pra ser mais bruta. iv Tudo se perde. colocando aqui e ali uma trava. à revelia de quem desejava um rio de sentidos retilíneos. E faz sentido? Não. mais plenas. o que talvez jamais venha a ser lido por mais ninguém. revelando aquilo que nada tem de relevante. As que se ambiciona. turvando o que estava mais límpido. enviesando o que ninguém vai desvirar. Será ilusão? Será pura vaidade? Bem provável. mas mais que o imediato esquecimento. Porém a impressão permanece: alguma (pouca) coisa que foi feita pode talvez merecer uma espécie de não exatamente eternidade. Não faz sentido. Escrever é preciso. desviando da rota o que não devia nunca ir além do rotineiro.

não. tantas vezes) que ora caem constrangedoramente aquém do alvo.de algum sentido além da soma dos meros significados das partes — essas. ora de tal modo extrapolam o pensamento — Nem mesmo destas. no final das contas. . E sim nada mais do que um somatório de peças discretas (tão indiscretas. A coisa vai mal.

A vida que se leva é um filme inassistível? Vejamos só os anúncios. e o espírito é impreciso: eu não é um nem outro. Anda inconveniente a tal da poesia. São os limites do corpo intrusões malignas de um demiurgo escroto? O corpo não é preciso. a significar? Nada como um bom significante vazio para abolir o azar. .Poética prática A realidade é um calhamaço insuportável? Tragam-me então resumos.

desafinando. Toda a energia esbaldada do dia agora se recolhe compungida por trás de persianas. dissonante e insistente. Dedicam-se à serena operação de preencher um pedaço de terra com aquela absoluta perfeição dos que. feito algum tronco truncado de Apolo. No corredor. os prédios complacentes que resistiram a uma e outra guerra: o tempo deles é o instante presente em que escrevo. Escurece. dessas que inspiram mudanças na vida.) ii Esta é a hora inaugural da noite. domesticado a custo.Tríptico com hotel e sirene i Esta avenida. . não tendo opção. e mais nenhum. jamais hesitam. Seis e oito. Mas tudo permanece na avenida como antes — exceção feita a um solo de sirene. (Aqui deve haver alguma lição. uma risada breve responde a um inaudível comentário. Os prédios olham de esguelha pro trânsito feroz. Seis e meia. ao qual não chega a oferecer consolo a luz que se acendeu no prédio em frente. Nada esperam. Uma sirene desgrenhada se esvai. Alguém no quarto ao lado liga um rádio.

o inverno se aproxima. Sexto andar. Lá fora está escuro — estamos em maio. Quase sete. . De súbito. a sirene — risco vermelho na tarde. iii Hotel.Mais risos soltos: a noite promete.

Limiar Uma geografia de dúvidas lhe percorria todo o firmamento: serão serafins? será música isso que martela incessantemente e não consegue arrebentar? As perguntas se dissipam no ar. com a magnificência de um pterossauro em pleno voo. E um cardume de corolários atravessava-lhe o desfiladeiro: então isto é aquilo. concluiu. Depois dormiu. E viu que isso era bom. . Isso proporcionava-lhe prazer não pouco. como a virtude. Definitivamente. e o contrário só é verdade do princípio ao meio etc. O saber é sua própria recompensa. e uma penca de álibis. ele pensou. sou.

. Toma o teu chope. o que vier é lucro. ou pode ser o último — vá saber. 11) Tentar prever o que o futuro te reserva não leva a nada. e quanto ao amanhã. O melhor é aceitar o que de bom ou mau acontecer. Mãe de santo.Horácio no Baixo (Odes i. O verão que agora inicia pode ser só mais um. mapa astral e livro de autoajuda é tudo a mesma merda. aproveita o dia.

ii De vez em quando o mundo faz sentido.Cinco sonetos frívolos i Hoje acordei bem prático. Devia haver mais dias como este. só que não há nada a lembrar. sim. a sotavento do Brasil ou do que quer que seja. sem pudores de lógica e moral. Questão de ângulo. só. sofístico. um dístico ou uma pedra (mas não filosofal). páginas ou pó. Ou parece. e sim como quem quer se lembrar de uma coisa há muito esquecida. Pelo menos. Dias de amarrar barbante ao redor do nada. mas contingência pura. a faca com que se vai cortar o que merece ser cortado — e. levantar a vista não pra ver algo. de na hora exata não se atentar pra página do livro supostamente sendo lido. fechado em mim. em vez. feito uma ostra. e capturar um deus menor. iii . fezes. nada que deixe um rastro ou excedente em sangue. a não ser a suma importância de não se ter nada a lembrar. a sul. livres de compromissos com dois mil anos de ocidentalismo. nada que valha a pena sacrificar esse momento único e inteiramente vazio em que o mundo faz sentido. Simplesmente ser. a nordeste.

Não vai. como sempre. antes que se deteriore de todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculo ângulo do evento único que só durou um segundo.Mesmo o mais sólido some sem deixar nenhum vestígio. num zás-trás. Entrementes. iv Até onde a vista alcança é real todo o visível. e agora já é outro o mundo. dando alívio à consciência inquietante de que no próximo instante o erro vai ser dissipado. Melhor relaxar os músculos e aproveitar o espetáculo. assim também não há esperança de se atingir algum nível em que uma e outra substância se separem. o sentido — que se dá a posteriori. um risco vira traço e o traço. A coisa morre à míngua. sem nem se ter (como exige o costume) lhe dado um nome. Como dançarina e dança formam um todo indistinguível. Por exemplo: uma manhã de domingo. v Súbito? Não. E. somem. ponto. a . coisas mais surgem. O logro é absoluto.

que se dane o tempo. trivial. e o lugar também (um boteco? o elevador?) — pois chegou ao final um processo previsível. que reduziu o universo a uma bolinha de papel. tudo pronto pra não se fazer nada — ou então a noite de uma terça-feira inane. perverso. sob o quebranto da televisão — mas isso não importa. da qual você se livra com um peteleco. .mesa posta pro café.

uma porta entreaberta — não. Menos mal. iii . Claro que houve um instante crucial em que esses cacos mal e porcamente colaram-se. Já é alguma coisa. até o que se esqueceria. mesmo se azeda. Todo porto a que se chega é a meta desejada. Imagens que se ordenam segundo uma lógica indecifrável. Aproveite. E pronto: deu no que deu. É tudo que me resta do começo disso que agora pensa. todo e qualquer passado. afinal. talvez inexistente. se é. Isso. fala e sente que pode ser denominado “eu”. vai pouco a pouco virando uma espécie de bala que se chupa com deleite. muito pouco mais que nada. se pudesse. E o caminho tomado. Mãos que acenam. ii Não volta mais. acaba sempre sendo a exata estrada a dar naquilo que.Biographia literaria i Lembranças pouco nítidas. E não renego a rota tonta que segui. Ninguém se faz em linhas retas. Assim. fechada — uma criança que não reconheço: ou seja. chupe. porém só surge em pleno ar. provavelmente falsas. por mais torto. aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá.

o preciso. v Céu azul. um telefonema. E. terá sido o necessário. correr atrás de lucro ou prejuízo. o sábado que não choveu. Cores vivas. O mais é dor. iv Acrescentar ao mundo um morto a mais é só o que a vida garante. O resto é risco. seja lá o que for. três e meia. eu não disse? etc. gozo. Você rindo de alguma coisa ou alguém que está à esquerda do fotógrafo.Corpo agora perdido além de todo anseio lá onde nem vestígio do perdido desejo lá onde o que é lembrança de palavras e atos entre ódios e ânsias e demais artefatos esvai-se por completo. é vai da valsa. É claro que essa sensação de perda . você naquela foto. Dá no que der. Tanto faz improvisar ou decorar o texto. ser pedra ou imitar os animais. Corpo antes inteiro tão tangível concreto quase fictício agora. embromação. É talvez domingo. névoa sem cor nem cheiro onde nem mais memória. falta de juízo. a suéter amarela perdida. o que tinha que ser. a boa ideia.

tão infeliz. e a cabeça — até que em definitivo anoiteça e tudo se resolva enfim em breu. ou se estivesse sem foco. Se fosse como eu quis. vi Até aqui a corda não rompeu. De resto. talvez a foto não doesse tanto? Você. Até me sinto como quem tem não o que foi pedido. absurdamente nítida. fazendo a transubstanciação de coisa em texto que é o seu único métier. E se fosse menor a claridade. O motivo você não lembra. vii Nada disso foi do jeito que eu quis. Haverá tempo de sobra pra se dedicar à contemplação da folha em branco e outras formas do nada. prossegue cozinhando em fogo lento essa tão adiada refeição a que ela sequer será convidada. a cabeça vai tocando. com sorte. às gargalhadas. não haveria de ser tão sofrido. você lembra. Assim. ou preto e branco. A foto é muito boa.não está na foto. Você ainda era vivo. Mas eu — o eu que sou — eu não seria. . não — não está na imagem extremamente. ou se fosse em sépia. Naquele tempo você ria à toa. guiado pelo instinto. não me lamento. os ossos aguentaram. Depois. teria querido. e sim o que. restará uma obra. Paciência. não pelo querer. ou tremida.

Embora só um esforço de desmemória. é você.O que de mais duro a vida me deu — que dura mais quanto mais me custou dele me acostar. um que possa sequer ser entendido nos termos de um passado agora lenda. um que se entenda. leve ao que se perdeu. Sim. revele o que resta. Mas sou eu. Vamos. Tudo faz sentido. exatamente o que se esperava. a coisa deu nisso. Sim. . mas me escolheu. tábula rasa de si. e torná-lo meu — o que não escolhi. talvez. Não é o eu que eu me quis. Eis o futuro. é o que. viii Já se aproxima aquele tempo duro de se colher o que ninguém plantou. Repita comigo: “Eu”. E no entanto essa lenda. Ou o exato oposto. mais eu sou. ainda que não. ao fim e ao cabo. é agora ou nunca. essa fábula sem moral nenhuma.

é claro. numa leitura um pouco mais apressada). esse espaço mínimo acomoda grossos tomos — só que de interesse ínfimo pra todos nós que não os fomos. .Apêndice Uma palavra transcrita ou vírgula acrescentada: a súmula de uma vida (que. Pra nós. basta uma linha (pulada. No entanto. foi mais que nada). que estamos de fora. afinal.

As essências enganam. O homem mais o androide. e nada como a negação da negação pra efetuar tão delicada operação. achando pouco simplesmente ser. Exige a disciplina austera e rigorosa de quem.Ecce homo Não ser quem não se é é coisa trabalhosa. A coisa vem com garantia. e o eu é tão escasso que há que ocupar com alguma coisa tanto espaço. . E pronto: está completo. ser e não ser na mais perfeita sintonia. requer o luxo adicional de parecer. imune a suave mari magno e Schadenfreude. Use e abuse.

Fogo-fátuo Nenhuma solução se oferta onde problema não havia.) . (Cada porta estava aberta e cada sala vazia. (Estava cheia a despensa e a mesa estava posta.) E no entanto a consciência buscava alguma resposta.) Como livrar-se do estigma de se saber terminável? (A inexistência do enigma é uma ausência insuportável.

Sem outra opção. escuta mal. recorri à justiça. A chuva desabou na avenida deserta. 3. A qual. esbravejei. Reclamei. além de cega. 4. Contei a mesma história no mínimo mil vezes. O vento atravessava a noite como uma faca repartindo uma romã. .Agora só confio nas minhas próprias mãos A manhã nasceu morta. A lua semioculta atrás da nuvem: um olho semicerrado.Pequeno manual de retórica 1. ameacei. gargarejando nos bueiros entupidos. esperneei. 2.

mas sem relaxar os músculos. Sem certezas. Sem esperanças nem expectativas. Não como quem. Mãos tensas nas coxas como quem prestes a se levantar. Sentado na cadeira como quem não espera exatamente nada. e indesejada.Man in a chair (Lucian Freud) Esperar sentado. E sim como se encurralado na cadeira. . descansa. à espera. com exceção da única.

mas ninguém dá pela falta. Enquanto isso.Fábula Um pensamento pensado até a total exaustão termina por germinar no mesmo exato lugar sua exata negação. uma ideia trauteada numa flauta faz uma cidade erguer-se — é claro. sem alicerces. .

lado a lado. É uma relação de amor nascida pra perdurar. até que somem. melhor amigo do homem. Seguem pelo calçadão. Não se desgasta com o tempo nem enfraquece com a idade. à prova de mal-entendidos e imune a desencontros: pois um foi feito à medida e à imagem exata do outro. Trata-se de um sentimento sem prazo de validade.Cave canem Um homem e seu rancor caminham à beira-mar. O rancor é como um cão. .

uma tolice — pode retornar feito um bumerangue capaz de destruir o que encontrar. salas de espera — tudo à mercê do que afinal não passa de ar comprimido. aos poucos exalado. porém um certo desapontamento embota sua precisão de lâmina.Seis sonetos soturnos i A qualquer hora. longos corredores. não se concretiza. Por isso o sentimento prometido há tanto tempo. reputações. Ou vice-versa. e com tanta minúcia. gado. E nada que se funde em carne e sangue escapa dessas bólides de ar: o amor e demais estados de graça. o que se chama vida pode mudar da água pro vinho. e assim ao que vem falta essa volúpia das paixões temperadas com cuidado. chegada a hora. Cada palavra proferida — uma sentença grave. ii E de repente a coisa aconteceu. fazendas. que logo se dissipa na atmosfera. ações. Mas não tal qual se havia imaginado: detalhes há que nem sequer o medo mais abjeto é capaz de antecipar. e desse modo um travo de desânimo turva e amortece vergonhosamente a dor tão longamente antecipada. iii .

A coisa não termina. iv Caminhos que só levam com certeza a caminhos que dão na estaca zero. a vaga mariposa persistente que não se mexe nem com a luz acesa. não há saída. nada é ambíguo. não adianta mais. feito esses porta-fotos digitais em que a paisagem muda pouco a pouco. e nas entrelinhas é só espaço em branco. Por outro lado. Conforme o combinado. Resolução? Final feliz? Esquece. metas. tudo está bem claro. talvez escurecendo mais e mais. e ainda não é a hora. É claro que vai dar errado. Não há limite para o abismo estreito que se abre justamente no lugar . que a tela mergulhou na escuridão. Noves fora. Mãos à obra. Igual à outra vez: táticas. como quem leva um soco. termina se tornando simplesmente uma espécie de enfeite sobre a mesa.E durma-se com um barulho desses. A única surpresa é constatar que mesmo o desespero. sempre. sim. v As coisas sempre podem piorar. engulam-se os sapos necessários. A hora chega. planos. E no entanto há que seguir em frente. ou já é tarde e Inês é morta. Não. como se anoitecesse — quando então se percebe. Nada de novo.

Refeita. do golpe. vi Podia. ter sido de outro jeito. está feito. e sem temer mais nada. Mas por quê. Certo ou errado. estou aqui. É fato consumado.onde a relação entre causa e efeito parece indicar que a crosta é mais dura e é mais remoto o risco de ruptura. Sim. acabou. E no entanto. neste edifício. . foi desse modo que eu agi. nesta festa? Este poema não é pra você. aberta a fenda. Não — não pra mim. afinal. O que está feito. no meio desta gente. Pensei que era o melhor. nada mais há a fazer. Pra mim era a pior saída. uma vez desmascarada a aparência enganosa de integridade e estrita solidez. E agora sei que pros outros foi ainda pior. expõe um novo flanco à próxima porrada. que não levam a nada. pois. sim. A cada dia fica mais difícil sair e ter conversas como esta. a mente busca uma saída honrosa e com algo assim por fim se contenta: Agora sei onde a corda arrebenta. só que não foi.

All the same. Sometimes a thing goes on for much too long — so long. in fact. more than y ou or I could bear. it’s tragedy first. And wait.Lagniappe Enough. enough is enough. . And once can be more than enough — y es. One might as well call it a day (or night). Of course. No matter which. can be. or may be it’s the other way around. Not that it makes much difference. then farce. when there’s a will — but the spirit willing? (Never mind the flesh. in fact. it’s hard to tell whether it’s good or bad.) Well. and just sit tight. one time too many. You never know. it’s time to stop. or any one could care less. Or else hang on.

Então todo obstáculo vira finalidade: é o fim do espetáculo. frágil felicidade. .Biscuit Felicidade frágil. que se equilibra mal e mal (ainda que ágil) no contrafactual e no mais-que-imperfeito do que ganha sentido quando não tem mais jeito e o prazo está vencido.

Carrossel Noite dentro da noite. noite em que a consciência — essa fábrica de catástrofes — gira em torno de si como um cão e seu rabo perseguindo o pesadelo desde o início encontrado. acúmulo de desastres. .

contentamento aplacado com tudo que é incompleto. que antes mesmo do ato se satisfaz com o projeto e recusa a própria vida por pura falta de espaço. (Não havendo tentativa como pode haver fracasso?) .Par délicatesse Veleidade de ser que nunca chega a vontade e se instala com prazer onde o que é jamais cabe.

Canção Havendo necessidade. claro que é sempre possível desfazer o nunca feito. . Há coisas piores na vida. de todas as hipóteses. desdizer o jamais dito. Fingir não é nada difícil quando a própria realidade é. Não se vexe de negar uma simples negativa: menos com menos dá mais. a que é mais indesejada.

porém. e eis então o resultado. e a imobilidade cansa. O mundo. até o mundo piscar. . Daí que um dia se arrisca um tímido passo de dança. Mas tem gente que até gosta.Eleática A quintessência do ser é estar no mesmo lugar exato. não pisca. e diz (e eu não contradigo) que a condição oposta é que seria o castigo. a lógica consequência: ser (isto é. estar) condenado a mil anos de imanência. sem se mexer.

A sua partida será esquecida em cinco segundos. Mil perdões. A casa não é sua. Não esteja à vontade. por ali é a rua. Não peça desculpas: não adianta nada. ii Foi sem querer. Você era esperado. Compartilhamos vossa dor.Três peças dispépticas i É aqui mesmo. sim. Já vai? É melhor sair pelos fundos. é este o endereço. Nossa intenção era a mais pura imaginável. feito está. iii Não fosse por isso . A vida é dura. Agora é tarde. Mas deus nos guarde de ter que dividir convosco — tinha graça! — o muito que lucramos com vossa desgraça. E por falar nisso. E se não gostar. Mas fique sabendo: tudo aqui tem preço. O atraso será contabilizado. chegou atrasado. e o que foi feito. Não há a menor dúvida.

teleologia nem origem.por outra seria. Não tem. a qual é um fim sem finalidade. Pronto. desde o início. E termina assim. Já vai tarde. . Avança sem pausa rumo à conclusão. causa ou motivação.

Ao corpo. Transcendência nenhuma entre o sabugo e a unha.) ii Nenhuma explicação entre o pé e a mão. pouco importa que você morra. iii Viver momento a momento com a insensatez dos insetos que arremetem impávidos contra o real da vidraça obedecendo sem trégua à lógica imperturbável que trazem em suas entranhas. sim. risco sobre risco. iv Vida sempre rascunho. Escolha. pré-texto de nada.Quatro bagatelas i Todas as soluções são boas. folha sem pauta. dá uma espécie de prazer. pasto de lacunas e rasuras. . (Mesmo que doa. menos a que você escolher. masmorra sem porta.

then the next best thing. he say s. This object or creature erupts in the parlor with the utmost violence. words like empty shells.Três autotraduções (lorem ipsum) i “Come”. “and I will give y ou kennings. but rather pain’s opposite. Come when the night is solid and solicitous like an ancient and hieratic maître d’. and vacuity is all that comes of it. Our brave Odradek lies folded like a fan into its own neck in a drawer with no distinguishing feature. meaning is all I ask y ou in return. or if not meaning. rolls on the ceiling. And it all boils down to a single distich: No one seeks pain. . (two grotesque sonnetettes) ii The house is asleep. hangs from the fixtures.and solace is always metalinguistic. awaiting the time that’ll suit us to a T to serve us a feast most ample and luscious. lording it over the dark and the silence. trochees.” But such entreaties are to no avail. The family awakes. which for all its appeal within six months had sunk without a trace. worthless scribbling. hemistichs to burn. caesurae. iii Here’s the latest version of the real. Not half as comely in figure or in face as last y ear’s issue.

all clammy wings and squeals. And y et it flies. . We could have done far worse.This new one sags like an empty purse. a bat of sorts.

um remédio contra o medo de nada haver — nem padrão. nada senão o amontoar-se dos dias. ou um destino. . claro — o que sabem os dias?) uma estrutura em relevo. mas assim mesmo um resguardo. com padrão indecifrável (por não seguir um projeto). nem projeto. algo que se assemelhasse a uma meta.Mosaico Os dias a amontoar-se como se rumo a um sentido. mas formando (sem sabê-lo. espécie de marchetaria. nem destino — no mundo.

todos nós dormimos o sono não direi dos justos. ou eram os pássaros de sempre anormalmente alvoroçados nessa tarde. Uma neblina indevassável impedia que se enxergasse o outro lado da avenida. contrariando as previsões oficiais. Ninguém podia imaginar as consequências. E uma pedrada na vidraça foi o símbolo . As testemunhas rubricaram cada página.Uma lenda Os formulários foram todos preenchidos em sete vias. Naquela noite. como depois ficou bem claro. ameaças. No céu. protestos veementes. Pois bem. projeções. por fim. vagas dúvidas. imprecações. depois. as nuvens prometiam chuva forte. reclamações. Antes das nove já tocavam os telefones. Mas na hora só se pensava em lucros. alvíssaras. mas daqueles que examinaram com cuidado cada cláusula e consultaram os oráculos devidos e só depois é que assinaram nas lacunas. Ninguém achava que pudesse haver um vínculo entre dois planos tão diversos — só que havia. Mas na manhã seguinte as coisas complicaram-se. Alguma coisa acontecera com as árvores. todas elas registradas. Inicialmente eram consultas. insultos. Todas as partes envolvidas concordavam que não se havia omitido nenhum trâmite. pois não havia folha alguma em galho algum. Alguém notou que parecia haver mais pássaros que de costume.

com a intenção de escapulir pela fronteira. e abandonar a sede enquanto havia tempo. enviamos cinco faxes ao Grande Templo. armados. a pé. a faca. . o sacerdote e o público já estavam todos prontos para o sacrifício. Porém a menos de cem metros do edifício nos capturaram com a maior facilidade e nos levaram à pirâmide mais próxima. o fogo. e a resposta foi o silêncio. saímos pelos fundos. mas mesmo assim nos pareceu que o mais prudente era entregar aos deuses e à equipe jurídica o que restasse do nosso empreendimento. Do céu caía não exatamente chuva. O altar. Como nas ruas não passavam mais veículos.mais que concreto do que havia de ocorrer. Em desespero.

Desista. enquanto é tempo. desejo é uma porta aberta. desejo é uma coisa cega. Dá no mesmo. Desista. O mundo é sempre a esmo.Madrigal Desista: não vai dar certo. Ou insista. que a vida é incerta. os pés vão aonde não sabem. As mãos não sabem o que pegam. O mundo é o mesmo de sempre. As cartas estão marcadas: vai dar desgraça na certa. .

Instant replay A nostalgia pior é a do instante presente — sentir que se vive o agora mas não o suficiente. desejar tê-lo vivido em vez de o viver no ato pra então poder possuí-lo na nostalgia de fato. .

talvez porque. os que sonhamos. E a certeza de que algum dia tudo teria um significado. Chegou o tempo de depois? Digamos que sim. aliás. insones. Tudo teria solução depois. se entregavam à tarefa prosaica de dar nomes sem antes os sonhar. imunes.Pós Antes era mais fácil — sim. E nós seríamos os responsáveis por dar nomes aos bois. dia feito. agora tudo é fácil. enquanto alguns se davam ao luxo de sonhar. outros. havia mais em jogo. Havia bois a nomear. E no entanto os nomes dados não foram. Coisas palpáveis. porque era mais difícil. então. Talvez porque sonhássemos errado. então. Precisamente: mais difícil. Nem nunca teve. Desde o início. E por isso difícil. nem um só. E. Porque sempre se sabia de que lado se estava — havia lados. logo mais fácil. Não. a coisa não tem jeito. . e o tempo todo se jogava à vera. implacáveis.

que em folha esquiva a gente retoca e remenda até ser coisa que se entenda. ainda que breve — pois todo poema é murmúrio frente ao amor e sua fúria.Envoi O tempo. se traça. mas algo que na carne viva se esboça. conserta. se inscreve bem mais a fundo. que a tudo distorce. e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morse de instantes sem rumo e roteiro então dá forma a algo de inteiro. às vezes alisa. . Não um verso.

“Pequeno manual de retórica”: Correio das Artes lxi. “Horácio no Baixo”: Ilustríssima.br/volumes/Ano4Volume1/poesias/POEMAPAULOHENRIQUESBRITTO. João Pessoa. jun. Folha de S.Paulo.php? item=4545>. Rio de Janeiro: Casa da Palavra. 125. que pode ser visto em: <www. 2011. Folha de S. p.pdf> “Man in a chair”: Relâmpago 23. 9 jan. Jorge (orgs. Poema vi da série “Biographia literaria” (com o título “Até aqui a corda não rompeu”): in Leite.).Paulo. p. Marcelo e Reis-Sá. . 2011.).museumsy ndicate. 2008.revistaeutomia. 2011. v. 19. 10 jul. Ivana Arruda (org. Dicionário amoroso da língua portuguesa. O poema “Man in a chair” foi inspirado no quadro de mesmo título de Lucian Freud. jul. 2010. out. Portugal. Poema v da série “Cinco sonetos frívolos” (com o título “Peteleco”): in Moutinho.Nota do editor Alguns dos poemas incluídos neste livro foram publicados anteriormente: “Lorem ipsum”: Ilustríssima. 60 tão. 1.com/item.com. São Paulo: Edith. 2009. “Ecce homo”: Eutomia – Revista Online de Literatura e Linguística iv. 2011. 6. www.

702.com.companhiadasletras.Copy right © 2012 by Paulo Henriques Britto Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. cj.a. Capa Kiko Farkas/ Máquina Estúdio Edição Heloisa Jahn Revisão Ana Maria Barbosa Renata Favareto Callari ISBN 978-85-8086-386-4 Todos os direitos desta edição reservados à editora schwarcz s. 32 04532-002 — São Paulo — sp Telefone (11) 3707-3500 Fax (11) 3707-3501 www. que entrou em vigor no Brasil em 2009. Rua Bandeira Paulista.br www.br .com.blogdacompanhia.

publicou os quatro últimos pela Companhia das Letras.Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro. Autor de cinco livros de poemas — Liturgia da matéria (1982). Trovar claro (1997). prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira) e Tarde (2007. 1951) é professor e tradutor. 2004). prêmio Alphonsus de Guimaraens da Fundação Biblioteca Nacional) — e de Paraísos artificiais (contos. Macau (2003. Mínima lírica (1989). .