Leitura Panorâmico Monsanto

Versão Excelentíssima Arquiteta Vanessa Martins
GESTO – FORMA – INTERSUBJECTIVIDADE
O primeiro contacto com o Panorâmico desperta em nós perplexidade e desejo
de ir ao encontro do edifício, de o conhecer e partilhar a sua visão. Este suscitar
pode surgir de duas maneiras de acordo com escalas diferentes: à distância, pelo
detectar da sua forma e silhueta na paisagem ou ao aproximar, pelo percorrer da
estrada que lhe dá acesso.
Caso a sua primeira percepção seja realizada à distância, o elemento focal será
evidentemente o seu topo, identificável de praticamente todos os quadrantes e
destacado pela sua forma peculiar. Caso enfrentemos o edifício a partir do
alinhamento das Amoreiras teremos também visibilidade para parte do corpo
intermédio. A exposição do edifício na paisagem é hoje em dia limitada face a
original que o deixava completamente descoberto na encosta devido à
vegetação ainda não maturada do plano de arborização da serra. Ainda assim,
esta identificação é possível dada a localização dominante e forma inósita do
Panorâmico, que manifestam deste modo um sinal de chamada. Ainda assim,
pela diversidade de elementos construídos que se elevam sobre a silhueta de
Monsanto, a expressão do Panorâmico torna-se reduzida por falta de isolamento,
além da vegetação permitir praticamente apenas a visibilidade do corpo superior
que poderá ser confundido com outra antena ou uma torre de água. Este corpo é
no entanto o veículo chamariz do edifício, não necessitando do letreiro inicial
colocado no topo com a inscrição “Restaurante” para gerar atenção sobre o
lugar. O acesso ao edifício desta escala no entanto não é fácil, claro ou
convidativo e exige sempre que haja uma perda visual do edifício para o seu
encontro.
Por outro lado, caso o encontro seja feito no aproximar ao Panorâmico, este não
deixará de suscitar a mesma perplexidade e o seu encontro será uma surpresa
que nos dará uma sensação de estarmos perdidos. No entanto, aqui a forma
funcionará mais como um todo que se vai desvelando, caso façamos o percurso
de subida, à medida que o contornamos até ao encontro com a entrada ou um
confronto imediato e repentino caso estejamos a descer a encosta e encaremos
a entrada de frente. Ainda assim, o topo terá um forte potencial de chamariz
como será justificado à frente.
Atravessado o limite de propriedade e dando-se a aproximação ao edifício a
perplexidade mantém-se, agora sobretudo devido às dimensões inesperadas do
edifício que se vão revelando à medida que sobre ele andamos e penetramos
causando espanto.
Não existe aqui um percurso claro pois temos cinco opções de movimentos
resultando numa experiência livre que irá variar entre os diversos habitantes do
espaço. No entanto esta é uma falsa liberdade na medida em que poderá apenas
gerar confusões ou hesitações. Poderemos no entanto admitir que haverá uma
maior tendência a procurar o caminho directo para o topo, pois enquanto
chamariz e miradouro mais elevado o ponto torna-se naturalmente um destino e
um objectivo na jornada deste edifício. Também o corpo central pela sua
dimensão volumétrica e materialidade terá tendência a arrastar-nos de uma
forma quase gravítica na sua direcção (veja-se como a curvatura definida pelo
corpo da base acentua isto). Além disso as áreas superiores apresentam
atmosferas mais claras e racionais do que as inferiores, mais iluminadas e leves,

por fim. sendo esta formada por um exterior e um interior e em que o elemento principal de atenção somos nós. Tanto o vão da entrada principal como o mural de grandes dimensões ao lado pretendem esta chamada tão alusiva ao espírito do Estado Novo. o topo miradouro anteriormente descrito que se representa pela secção de uma base cónica invertida. Dá-se um primeiro encontro com a perspectiva para o exterior. O exterior do edifício revela-nos então uma arquitectura monumentalista devido à totalidade da sua volumetria. As atmosferas destes volumes diferem também intensamente criando transições espaciais dinâmicas ao longo de toda a experiência. à aplicação de materiais brilhantes e suaves que remetem para uma ambiência luxuosa como a pedra amaciada e o cerâmico avermelhado. É um espaço puramente funcional. A dimensão da pala face o pé direito do espaço dá-nos uma sensação cavernosa num sentido acolhedor. Este já não é um espaço acolhedor que suscite vontade de o habitar e que na realidade não está preparado para o habitar. para a contemplação e para a permanência. Somos aqui primeiro testados a penetrar no espaço e em seguida incentivados a uma . um olhar contemplativo que nos permite perdermonos na vastidão do horizonte. pois o derradeiro objectivo ainda não foi alcançado. aqui é mais intenso o silêncio necessário ao primeiro verdadeiro confronto com a paisagem. Formalmente o edifício é composto por três volumes: uma base longitudinal curva que constitui um pedestal e une o edifício ao terreno. Assumindo que a experiência realizada seguiria as condicionantes descritas anteriormente e houvesse alguma hesitação na entrada imediata do edifício. Será este o espaço onde nos iremos deter por mais tempo até ao desenvolver do percurso. Há um centralismo humano. haveria uma tendência a aproximar do corpo central e a contorná-lo em busca de uma entrada mais reveladora e convidativa como é o caso da entrada principal. A dimensão. Após a ascensão ao piso superior somos convidados a aceder ao miradouro do antigo espaço de restaurante. Esta entrada monumental coloca-nos em destaque e cria uma ambiência propícia a que haja uma sensação de elevação. que nos incentiva a tomar um primeiro olhar na paisagem. a partir do limite do pedestal. que gera um acelerar no ritmo do percurso. no entanto este encontro é ainda incompleto. O acesso é no entanto muito diferente dos espaços anteriores. Esta é uma caverna preparada para o habitar. tornando tanto paisagem como interior parte da nossa subida. Após esta detenção face o espaço haverá tendencialmente uma continuação da busca do topo. luminosidade e atmosfera criam um espaço que já não é convidativo à sua transição ou permanência. um corpo intermédio cilindrico onde se passa a acção principal de habitar e ocupação espacial e. Todo o delinear da subida cria uma subida verdadeiramente cinematográfica. à dimensão e número de elementos que constituem o espaço exterior como rampas e escadas de acesso e à escala dos elementos que enfrentam o lado da cidade e acentuam o foco que se pretendia dar ao edifício na paisagem.que poderão também transmitir alguma dessa clareza para o exterior e tornar-se mais atractivas. Aqui habita-se a paisagem. surgindo aqui ainda muito fragmentada pela vegetação envolvente.

luzes e ambiências nos espaços de fruição são apagados nos espaços funcionais para uma frieza mecânica. Mais uma vez na transição para a subida somos confrontados com um espaço sem qualquer iluminação. A paisagem é aqui completada e dá-nos dois tipos de olhares que são delimitados pela presença do rio. Temos um espaço funcional que pretendia uma servidão de um espaço de fruição. Um olhar filosófico que nos acolhe e nos confronta. Aqui sentimo-nos dominantes face o território que se encontra para cá do rio e Pode ainda ser notável alguma frieza ou distância pela simplicidade deste espaço. O Panorâmico é assim um amigo. O espaço confinado e a proximidade ao centro suscitam este movimento. A libertar-nos das constrições do dia-a-dia e a partilhar da sua visão. Ficam aqui definidos os dois tipos de espaços principais no edifíco. O Panorâmico ajuda-nos assim a encontrarmo-nos e a pacificarmo-nos com o universo. Uma ontologia humanista inserida numa ordem cósmica.rápida transição quebrando a tranquilidade de todo o deambular gerado anteriormente. através de um abraço absolutamente humanista que advém de uma noção de ordem suscitada por uma contemplação quase divina ou sagrada. Aqui partilhamos o olhar omipresente do Panorâmico. Alcançado o topo sentimos satisfação e êxtase com a chegada e a recompensa da paisagem. habitável e de permanência. Há aqui uma experiência alegórica que culmina numa aprendizagem efectivamente ontológica. A suavidade e qualidade dos materiais. Um amigo que nos convida a distanciarmo-nos do quotidiano e de nós próprios. que nos abre portas e mentalidades e nos leva ao conhecimento de nós próprios e da realidade exterior. . correspondente á antiga sala de espera do miradouro e postos à prova se teremos a coragem para avançar ou não.SENTIDO A experiência do Panorâmico consiste assim num distanciamento que leva a um refúgio e um confronto que leva um encontro. presentes em todos os volumes ainda que transmitindo sensações diferentes dadas as condições atmosféricas e ambientais diferentes. no entanto aqui será algo relevante pois o espaço não vive apenas da sua construção. omisciente e ominipresente que observa todo um espectro de possibilidades e encontra o nosso lugar. Um situar-se que traz acolhimento e recolhimento. e somos testumunhos do seu testemunho. LEITURA .