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N.Cham. 306.

342 L836e 1997
Titulo: O estado capitalista e a questao urbana.
Autor:

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00161046

fx.2 PUCPR - BC

O ESTADO
CAPITALISTA E A
QUESTÃO URBANA

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0161046

li

O ESTADO
CAPITALISTA E A
QUESTÃO URBANA

Jean Lojkine

Tradução
ESTELA DOS SANTOS ABREU

Martins Fontes
São Paulo

f 997

Título original. U: Mi\RXJSME, L'ÉTAT ET LA QUESTJON URBAJNE
Copyright <D hy Prcsses Universitaires de France, Paris, 1977
Cof'yright <D Lfrraria Martins Fontes Editora Ltda.,
Süo Paulo, 1981, para a presente edição

2ª edição
março de 1997

1

Tradução
ESTELA DOS SANTOS ABREU

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l ndice

Revisão gráfica
Elvira da Rocha Kurata
Eliane Rodrigues de Abreu
Produção gráfica
Geraldo Alves

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9

utilizadas .............................. .. ................................................. .

31

l 1111, Hlução .................................................. .. ...................................... .

41

Capa
Katia Harumi Terasaka
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CAPÍTULO I
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
____ (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

1

·.1.1do. política e luta de classes. Da tomada de decisão à produção

da política estatal. .................................................................... .

51

:\ sociologia funcionalista e a análise do Estado ...................... ..
1 <> modelo de Crozier e a aporia da decisão ............................ .
' l Jma nova prática sociológica em contradição com a teoria funcionalista .................................................................................. .

51
51

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Lojkinc, Jean.

O Estado capitalista e a questão urbana/ Jean Lojkine ;
Jtraduc;ão Estela dos Santos Abreu]. - 2' cd. - São Paulo:
Martins Pontes, 1997. - (Novas Direções)
ISBN 85-336-0584-6
1. Capitalismo 2. O Estado 3. Planejamento urbano 4.
Planejamento urbano - França 5. Política urbana 6. Sociologia urbana I. Título. II. Série.
97-0571

CDD-301.264
Índices para catálogo sistemático:

1. Política urbana capitalista : Sociologia
2. Sociologia 30 l.264

301.264

Todos os direitos desta eciirão resermclos à
Livraria Martins Fontes Editora Lida.
Rua Conselheim Ramalho, 3301340 OI 325-000
Sâo Paulo SP Brasil Telefone 239-3677

63

11 1>o funcionalismo ao estruturalismo. A análise althusseriana do

J·:stado ......................................................................................... .
1. ( >s impasses de uma análise estruturalista do Estado: O exemplo de M. Castells ................................................................... ..
1 . ( )s fundamentos epistemológicos do impasse estruturalista ... .
\. A aplicação do modelo estruturalista à sociologia política ... ..

79
79
84
91

III. Elementos para uma análise materialista e dialética do Estado ..
1. O Estado, produto de uma relação social .............................. ..
2. O Estado e a análise das relações de produção capitalistas .. ..
3. O Estado e a análise das classes sociais ................................ ..

106
106
113

126

CAPÍTULO II
Da política estatal à política urbana. O papel do Estado na urbanização capitalista ... ... .................................... .. ................. ....................... .
I. Urbanização e socialização das condições gerais da produção
capitalista .... ..... ....... ... .. .... .. .. ..... ....... .... ...... .. ... .. ....... ..... ..... .. ..... .. .
1. Meios de consumo coletivos e condições gerais de produção
2. Das condições gerais da produção à aglomeração urbana .... ..
II. Os limites capitalistas da urbanização ........................... .. .......... ..
1. Os limites capitalistas do financiamento dos meios de comunicação e de consumo coletivos ................................ .. ............ .
2. Os limites capitalistas oriundos da concorrência anárquica entre os diferentes agentes que ocupam ou transformam o espaço urbano ... .... ..... .... ... ... .. ..... ....... ........ .. .... .. .. ...... ..... ... ... .. ....... .
3. O papel da renda fundiária no planejamento urbano . Preço do
solo e segregação urbana ........ ... ...... .............. .... .. .. .......... ...... ..
III. O papel do Estado na urbanização capitalista ...... .. .................... .
1. Um instrumento de "regulação" social.. ...... ........ ...... ...... ....... .
2. Uma intervenção contraditória sobre a socialização das forças
produtivas ....... .... .. .. .. .... .. ...... ...... ..... ..... .... .... ... .. .. ....... .. ..... ... ... .

CAPÍTULO IV
Política urbana a segregação social ........ ...... .. ................ ..... .. .... .... .... .

243

1. Política urbana e clivagens de classe .................................... ..
2. A desigual distribuição dos equipamentos sociais; segregação ou estratificação social? ....... .. .......... ...... .. ...................... .
3. O desigual acesso aos meios coletivos de reprodução docapital .... ........... ... ................ ..... ..... .. ................... ........ .... ..... ... ... .

243
244
260

143
CAPÍTULO V

144
146
158
174
175
184
185
190
190
192

CAPÍTULO III
Política urbana e planificação urbana .......................... .. ................... ..

197

1. Análise crítica das definições de política urbana ................... .
2. As três dimensões da política urbana ..................................... .
3. As relações entre planificação, práticas políticas e efeitos urbanos .. .. ..... ... ............. ... ...... .. .. ... ............. ......... ... ... .. ..... ........... .
4. Da seleção urbanística à segregação social.. .......................... .

197
202
212

217

Política urbana e luta de classes. As concessões às classes dominadas ...
Do "Estado instrumento" ao Estado como reflexo da luta de
classes ................ ... ....... .. ... ....... ..... ... ...... ............................ .. ..... ..
1. Política fundiária "monopolista" ou política de comprometimento em relação à pequena e média propriedade fundiária? ........ ........... ................... .......................... ......................... .
2. A política de reestruturação das coletividades locais: Natureza do "comprometimento" entre capital monopolista e camadas médias, suporte das "liberdades locais" .. .... .......... .... .
3. A política dos "centros comerciais" e o pequeno e médio
capital comercial ....... ............... .. ........ ......... ..... ............ ......... .
4. Os novos limites do "reformismo urbano" .. ........................ ..

279
279
282
290
296
299

CAPÍTULO VI
Da política urbana aos movimentos sociais urbanos .. ...................... ..

313

1. Decomposição do aparelho hegemónico de Estado e emergência de uma contra-hegemonia das classes dominadas .... ..
2. O problema de definição do movimento social ................... ..
3. Do movimento social ao movimento social urbano ............. ..
4. As primeiras manifestações de um novo movimento social ..

314

Conclusão ..................................... ................. ..... ...... .. ...... .... ............. .

341

313
322
332

Prefácio
O marxismo, o Estado e a questão urbana, vinte anos depois
O título deste livro tem uma história significativa. O editor francês aconselhou-me, em 1976, a acrescentar a palavra "marxismo" ao título inicial, O
Estado e a questão urbana, a tal ponto a conjuntura política (e comercial!) era
favorável às obras "marxistas". Será cabível pensar, ironia da história, que,
vinte anos depois, a referência a Marx é hoje mais favorável no Brasil do que
na França? Acho que as coisas são mais complicadas. Na França, após dez
anos de purgatório, as obras sobre Marx (para não dizer as obras marxistas)
conhecem novo sucesso e, mesmo no Brasil, o interesse constante pelas obras
marxistas não pode ser separado, a meu ver, de um recuo crítico em relação
aos fracassos da experiência soviética (também do Estado Providência?) e,
mais amplamente, de certa forma de romantismo revolucionário.
É por isso que acredito não se poder mais dissociar, hoje em dia, um
procedimento verdadeiramente marxista de um balanço crítico:
1) do esgotamento dos modelos socialistas centenários (tanto comunistas como social-democratas)Ol;
2) do fracasso atual tanto do movimento "operário" clássico como
dos "novos movimentos sociais".
O esgotamento dos modelos socialistas deve-se essencialmente ao
fato de eles não terem sido mais que "contraculturas" capitalistas, inscritas
(]) Cf. meu artigo: "Aprés l' échec des socialismes, que! futur?", La pensée, 297, março
de 1994.

9

nos paradigmas da civilização industrial do século XIX: divisão entre o econômico (monopolizado pelos especialistas patronais), o político (monopolizado por uma casta tecnocrática) e o social (a que se limitou o movimento
operário); estatismo centralizador, eficácia econômica reduzida a um produtivismo devastador.
O fracasso do movimento operário tradicional deve-se à sua referência
à classe operária: o assalariado atual não é mais, em sua essência, um assalariado operário, como ainda era nos países ocidentais nos anos 50, mas é, majoritariamente, um assalariado de serviços. Mas, sobretudo, a antiga hegemonia
da classe operária ( e, na classe operária, dos metalúrgicos) nos movimentos
sociais não corresponde mais à realidade. Diversificadíssimo, cada vez mais
feminino, graças ao desenvolvimento dos grandes serviços coletivos (saúde,
educação), o assalariado atual é perpassado por novas oposições: com diploma/sem diploma; assalariados protegidos por um estatuto/assalariados precários, etc ... o que torna muito mais dificeis as convergências intercategoriais,
sobretudo em período de crise econômica e de desemprego maciço.
Mas, nesse caso, dirão, por que falar de um fracasso simétrico dos
"novos movimentos sociais" preditos há vinte anos por sociólogos como
Touraine? Porque, justamente, eles haviam sido concebidos com base no
modelo do antigo movimento operário, com a emergência de um grupo social hegemônico (os técnicos e os engenheiros substituindo os metalúrgicos) e de uma oposição central na sociedade, entre o projeto contestatário
(freqüentemente elaborado, na realidade, por uma elite tecnocrática) e os
valores e instituições dominantes. Ora, justamente os novos movimentos
sociais dos anos 80-90 (coordenações das enfermeiras, dos ferroviários,
movimentos de secundaristas, de universitários, etc.) revelam uma ruptura
profunda entre a solidariedade comunitária tecida pelos antigos movimentos sociais (solidariedade fusional em torno de um líder carismático, como
em Maio de 68), e as novas solidariedades associativas, tecidas atualmente
pelas novas gerações de estudantes e de assalariados, preocupados em conciliar sua autonomia pessoal com seu engajamento numa ação coletiva (2).
Os slogans, as palavras-de-ordem vindas de cima não pegam mais, as
críticas não-argumentadas não mobilizam mais, as alternativas mais generosas, porém mais utópicas, não convencem mais, por não estarem apoiadas
em proposições credíveis (notadamente no plano econômico) em face das
políticas elaboradas pelas classes dominantes.
(2) Cf. minha obra: Les jeunes diplômés, PUF, 1992.

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Portanto, é fazendo eco a esse balanço de fim de século que me proponho aqui revisitar o que foi meu percurso de sociólogo, enquanto o movimento de Maio de 68 podia deixar crer, erroneamente, que se tratava seja
de um renascimento "do" movimento operário, seja de um "novo" movimento operário.

1. Uma sociologia do movimento ... na estrutura
A sociologia é tradicionalmente dividida em duas correntes antagônicas; uma sociologia da Ordem, da Reprodução, de um lado; uma sociologia da Mudança, da Ação, de outro. Por ter escolhido desde o início a sociologia dos movimentos sociais, nunca quis, com isso, encerrar-me unicamente na problemática do ator, seja ele individual ou coletivo.
Compreender como a sociedade age sobre si mesma, como cria suas
regras, decerto, mas por meio das injunções, dos pesos, sociais ou extrasociais, que se impõem aos atores da transformação social; melhor, somente levando-se em conta esses "impossíveis" pode-se compreender como se
realizaram os possíveis históricos, como Spinoza ("A liberdade é a consciência da necessidade") e Marx ("Os homens é que fazem a história, mas
não sabem disso") compreenderam tão bem.
Foi justamente para evitar a mistificação da transferência (do movimento social a si mesmo) e da livre vontade do sujeito que sempre tentei
confrontar a produção do social com as lógicas do "extra-social", quer se
trate das leis econômicas (as chamadas "leis do mercado"), quer da dinâmica das leis da natureza imbricadas na tecnologia. Na dinâmica tecnológica, nem tudo é questão de opções sociais, há também um confronto perpétuo entre o ideal e o material, entre os recursos mobilizados pelos humanos e as leis químicas, ecológicas, biológicas, para não falar das leis do
inconsciente, que a sociedade humana não domina ...
Intimamente persuadido de que nem tudo era um livre desempenho
dos atores negociando seus interesses, mas desempenho muito mais complexo entre práticas e estruturas na espessura das temporalidades históricas, desempenho entre liberdade e necessidade, injunções "objetivas" e dinâmica da produção do social, procurei, portanto, inscrever minhas pesquisas nessa tensão entre duas exigências científicas contraditórias, mas também complementares. Foi igualmente por ter querido o tempo todo confrontar minhas hipóteses teóricas com o teste do real que, jovem professor de
II

filosofia, escolhi o campo científico da sociologia. Nunca me deixar encerrar no discurso especulativo e na argumentação tautológica, submeter minhas
hipóteses ao teste da falsificabilidade, sem com isso cair no positivismo será essa a segunda tensão que vai animar minha busca.

to operário" fora de si mesmo, além do desencanto e do encanto, do dar a
morte e da nostalgia, na grande mutação que se efetua sob nossos olhos
entre a revolução industrial e a revolução informacional(4 l.

2. O Estado e o Urbano
Testes e erros
Meu objetivo aqui não será, em absoluto, suprimir ou minorar os erros
e as ilusões de que pude ser vítima durante esse percurso de vinte e cinco
anos. Citemos de saída os mais marcantes, a meu ver: ter demorado excessivamente para analisar o inelutável declínio do movimento operário tradicional, que julguei poderiam ter uma possível ampliação nos novos movimentos sociais urbanos; ter identificado em demasia com um enfoque economicista a necessária articulação entre o desempenho dos atores e a dinâmica dos modos de regulação socioeconómicos; nem sempre ter sabido evitar a "naturalização" tecnicista quando queria evitar o enfoque unilateral
inverso, a saber, o "indeterminismo tecnológico"( 3 l.

Método
Há dois meios para o sociólogo apreender a mudança social: situando-se de saída na sociedade "quente", "vulcânica", em via de se fazer, como dizia Gurvitch; ou, ao contrário, desvendando na própria estrutura da
necessidade, na instituição cristalizada, as falhas, as fissuras, as desagregações capazes de se transformar, amanhã, cm trampolins de novos movimentos sociais ou, mesmo, de mudanças estruturais da sociedade. Até aqui, é
essencialmente nesse segundo eixo que se têm situado minhas pesquisas,
preocupado que estava em não confundir as representações e as projeções
dos atores com sua capacidade real de transformar as regras de funcionamento de nossa sociedade.
A pesquisa que faço atualmente sobre o sindicalismo e a intervc11~·;"io
dos assalariados na gestão rompe deliberadamente com essa posi,;:10 1k· n·cuo analítico; persuadido que estou de ter encontrado agora. 1wss,· p1111lo 1k
minha trajetória teórica, as ferramentas conccil11:1is para sil1w o "111,1\ 111w11(3) La révolution informationnelle, PlJI•'. col. S,wi"l"J',i,· i1·,11IJ"""'"'"" .i,-.-,-111'"" .J,1992. Tradução brasileira por J. Paulo Nctto, hl. ( ·"' 1,-/, 1•1•1.J

12

Se alguém quisesse classificar toda a pesquisa sociológica em função
de um tema especializado, tenho a sensação de que teria grande dificuldade
de me situar em qualquer uma das rubricas temáticas que dividem a sociologia em função de um domínio empírico bem circunscrito: sociologia urbana, política, sociologia do trabalho, da educação, etc ... Sem serem pretextos
para uma pesquisa transversal (visando à capacidade de nossas sociedades
agirem sobre si mesmas), os campos sucessivos que abordei ainda assim são
construtos sociais, que não decorrem nem simplesmente de temas selecionados pela administração (ainda que minhas pesquisas tenham tentado constantemente, em seu nível, responder às questões colocadas pela sociedade),
nem divisões "espontâneas" da vida cotidiana (a cidade, a fábrica, o trabalho,
o extratrabalho, etc.).
Assim, minhas primeiras pesquisas sobre as "políticas urbanas", desde a criação das cidades novas (S) até as políticas de transportes e o planejamento urbano, reconstruíram na verdade esses materiais brutos da demanda social em torno de uma problemática sociológica, que, apesar das mudanças temáticas, permanece sempre minha. Assim, a própria escolha do
campo urbano para minhas primeiras pesquisas não decorre de uma seleção
oportunista de um tema então dominante no mercado das ciências humanas
durante os anos 60-70.
Tratava-se, antes, para mim, de empreender com Alain Touraine um
debate-confronto, que nunca cessou e cuja fecundidade sempre experimento, sobre a emergência de novos movimentos sociais (ontem os movimentos urbanos, hoje os estudantis ou as coordenações ... ). Será que deveríamos
descobrir neles as síndromes de um declínio inelutável do movimento operário como movimento social portador do conflito central (o conflito capi(4) Cf. meu artigo "Un espace public non rcconnu: la discussion dans l'cntreprise",
Cahiers internationaux de sociologie, segundo semestre de 1994.
(5) La création eles villes nouvefles, Laboratoire de sociologie industrielle, em colaboração com A. Touraine e M. Melendres, 1968.

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tal-trabalho) inerente a nossa sociedade? Ou tratar-se-ia de uma articulação
muito mais complexa entre produção e "condições gerais da produção", trabalho e meios de consumo coletivos ( dos meios de transporte aos grandes
equipamentos coletivos da cidade moderna), que não marginalizava inelutavelmente o movimento operário, mas condenava-o a mudar fundamentalmente, sob pena de morrer, se quisesse se abrir para as novas categorias
assalariadas que, na época, alentavam os movimentos urbanos (associações
de bairro, movimentos pelo transporte coletivo, ação de trabalhadores sociais e educadores especializados nos bairros problemáticos, etc.).
Todavia, meu procedimento não consistiu em estudar diretamente, de
dentro, esses novos movimentos sociais, mas antes em analisar como eles "trabalham" as instituições estatais, centrais e locais. Nem sociologia dos movimentos sociais, nem das organizações, nem "política", meu procedimento será de saída transversal, procurando ligar, fazer dialogar entre si as abordagens, a meu ver demasiado estanques, de um mesmo fato social total (6): as
modalidades de expressão, de representação e de aplicação políticas de um
movimento social urbano.
Tratava-se, por conseguinte, de estudar as relações entre os diferentes
representantes do ou, antes, dos movimentos urbanos e os detentores do
poder - legítimo - do Estado, eles próprios enredados em toda a diversidade de suas estratégias. Tratava-se, pois, não de um estudo tradicional de sociologia da organização, mas de um desvio deliberado pelo político, como
encenação pública, e pela política, como aplicação de certo número de recursos (financeiros) e de imposições (jurídicas), para avaliar a capacidade
de nossas instituições "traduzirem" as demandas sociais que se exprimiam
nesses movimentos urbanos.
Além disso, era necessário analisar o que vinha a ser essa demanda de
urbano, essa "questão urbana" que estará no centro das motivações e dos debates dos planejadores e dos urbanistas do período gaullista, notadamente
através do primeiro Esquema Diretor de Planejamento e de Urbanismo da região parisiense (7).

(6) "La spécialisation des champs en sociologie". Cahiers internationaw: de sociologie, vol. LXVIII, 1980.
(7) La politique urbaine dans la région parisienne, 1945-1972, EHESS et Mouton,
1972, 2~ ed., 1976.

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A questão urbana
A reflexão socioeconômica que empreendi sobre o urbano(8) rompe,
num ponto fundamental, com as abordagens tradicionais da cidade. Para mim,
a (grande) cidade moderna não se define nem pelo consumo (menos ainda
a simples reprodução da força de trabalho), nem pela produção, mesmo se
há e se houve cidades especializadas no consumo (as cidades principescas, as
cidades de funcionários, descritas por M. Weber) ou na produção (as cidades-fábricas, as cidades industriais). O que chamei então de "meios de consumo coletivos" concentrados, desde a Segunda Guerra Mundial, nas grandes cidades (escolas, universidades, centros de tratamento, centros culturais,
espaços verdes planejados, terrenos para esportes, transportes coletivos,
administrações voltadas para o atendimento dos usuários, como os Correios, ou até organismos de seguros, de viagens, etc.) não depende, com efeito, nem do que os economistas chamam de "consumo final" (consumo de
produtos mercantis), nem do consumo "produtivo" (matérias-primas, máquinas, etc.).
Tampouco se pode, na minha opinião, retomar a conhecida definição
de M. Weber, "aglomeração mercantil", justamente na medida em que esses
equipamentos urbanos não são assimiláveis aos mercados, às feiras, nem
mesmo a nossos modernos supermercados, em que se trocam mercadorias.
Certos economistas com carência de conceituação falaram de "bens coletivos", o que é uma contradictio in adjecto, pois um bem, isto é, uma mercadoria, é por definição alienável e privatizável. Na realidade, trata-se de
meios materiais de um tipo radicalmente não-mercantil (ou misto), muito
embora sejam objeto de uma avaliação mercantil, pois o que produzem não
é um produto material, mas um serviço, uma informação, no sentido lato do
termo - produzem SENTIDO (9)_
Essa análise antecipava, pois, o que ia se tornar, vinte anos mais tarde, o ponto central de minhas reflexões: a emergência, por ocasião da revolução informacional, do não-mercantil nas sociedades mais mercantis e mais
capitalistas existentes. Ao mesmo tempo, a ênfase que dei à periodização
histórica dessas novas formas urbanas permitiu-me associá-las ao notável
desenvolvimento dos grandes serviços públicos estatais depois da Segunda
Guerra Mundial; logo, não se podia tratar, em caso algum, de uma volta atrás,
na direção das comunidades pré-mercantis e pré-capitalistas, que se distin(8) Cf. O Estado capitalista e a questão urbana, cap. 2, Martins Fontes, 1981.
(9) La révolution informationnelle, op. cit.

15

guem pela solidariedade "mecânica", pela dominação do coletivo sobre os
indivíduos.
Essa abordagem do urbano como condição geral da produção capitalista permitiu-me apreender uma das originalidades da revolução informacional com respeito à revolução industrial, a saber: o papel crucial dos serviços urbanos no crescimento da produtividade global. Ao mesmo tempo, essa
abordagem inseria o processo de socialização urbana numa tríplice contradição entre seu valor de uso coletivo e sua apropriação privada:
- no nível dos modos de financiamento do urbano (públicos e privados);
- no nível dos modos de coordenação dos agentes (tentativas de planejamento e tendências cegas do mercado imobiliário);
- e, enfim, no nível dos círculos viciosos produzidos pela privatização do valor de uso urbano (sua capacidade de aglomeração dos meios de comunicação); trata-se notadamente das espirais segregativas engendradas pelos mecanismos da renda fundiária urbana: congestionamento dos centros
urbanos terciários e saturação inexorável dos meios de transportes coletivos
radioconcêntricos ( 1OJ.
Entretanto, minha abordagem pecava por seu economismo. A partir de
uma crítica da "naturalização" da cidade pela Escola de Chicago, tentei, de
fato, esclarecer os processos históricos de produção do urbano, mas não relacionei esses processos socioeconômicos aos processos culturais estudados
por Simmel e pela antropologia urbana . Com efeito, era perfeitamente possível esboçar uma articulação entre, de um lado, o duplo movimento de socialização e de fragmentação do espaço urbano e, de outro, o duplo movimento de objetivação e de singularização, de massificação padronizada e de individualização, de anonimato e de distinção, que caracterizam a cultura urbana atual; semelhante articulação teria permitido, justamente, desnaturalizar
a cultura urbana e superar essa oscilação um tanto estática entre dois pólos,
estudando a nova criatividade cultural introduzida pelos espaços públicos de
circulação das informações e dos símbolos.
Sem cair no angelismo da transparência e da interatividade, o dom-contradom que estrutura as relações de comunicação urbanas acaso não é mais
rico do que aqueles breves encontros anônimos e estereotipados analisados
por Goffman? A mistura cultural que pude analisar após L. Chevallier na Paris do século XIX acaso não é também uma forma de criatividade graças ú
(10) Cf. O Estado capitalista e a questão urbana, cap. 2, op. cit.

16

cooperação e à contribuição recíprocas entre a cultura profissional, política, dos artesãos-operários do século XIX e a nova cultura dos operários de
máquina das grandes fábricas industriais(] 1)?
Foi justamente por não ter sabido sair do "enquistamento" das comunidades operárias, inclusive nas grandes cidades, que o movimento operário
francês não conseguirá sua implantação nos locais de mistura, de encontro
entre o novo assalariado urbano (dos serviços) e o antigo assalariado operário.
Mas a cidade também é uma forma de associação política, como bem
notou M. Weber. Evidentemente, não é por acaso que a gênese do espaço público será associada, justamente por Habermas, à de uma classe social e de um
tipo de cidade. Bürgerlich tem a vantagem polissêmica de designar, ao mesmo
tempo, a sociedade civil, cívica, e o ator histórico que a aplicou, a burguesia.
E justamente no encontro entre o espaço urbano e o espaço político (local) que
vou construir minha problemática das "políticas urbanas".

Encenação e aplicação
A primeira dificuldade com que defrontarei resume-se num verdadeiro dilema: como ligar relações sociais e funcionamento das organizações
políticas e estatais sem sufocar a autonomia do "trabalho" da instituição ou
isolar a organização como se ela girasse em torno de si mesma, fora ou
acima dos conflitos de interesses e de grupos sociais?
Nesse sentido, nossa primeira abordagem em tennos de "reflexo ativo",
verdadeira contradictio in adjecto, não poderá assumir de maneira positiva
essa dupla exigência. De nosso debate com Michel Crozier e sua equipe0 2l,
acabei por extrair a convicção de que precisava construir novos conceitos
operacionais mais capazes de expressar a atividade autônoma da instituição
estatal, mas também e sobretudo a constante defasagem entre base social e
representação, seja ela ideológica ou institucional. De fato, meus trabalhos
sobre as políticas urbanas permitiram pôr em evidência uma tríplice defasagem entre as "condições materiais" e as "instâncias" ideológicas ou polí(11) Classe ouvriere, société loca/e et municipalités en région parisienne (com N.
Viet-Depaule), CEMS, 1984, cj. Lojkine: La classe ouvriere en rnutations, Paris, Editions
Messidor,junho de 1986. (Trad. brasileira por .T. Paulo Netto: A classe operária em mutações,
Oficina de livros, Belo Horizonte, 1990).
(12) Cf. meu artigo: "Pour une analyse marxiste du changement social", Sociologie du
travai/, 3/1969 e o primeiro capítulo de O Estado capitalista e a questão urbana.

17

ticas, entre o instituído e o instituinte: 1) na formulação das motivações (ou,
se quiserem, no horizonte teórico ou prático, estratégico ou tático em que se
situam atores e instituições); 2) em sua periodização histórica e; enfim, 3) em
sua representação do futuro (curto prazo, longo prazo).
Nesse sentido, tenho retrospectivamente consciência de que meus melhores resultados de pesquisa estiveram defasados em relação a uma teorização demasiado acentuada então, apesar de meus esforços, por um marxismo mecanicista e economicista. Falar de "reflexo ativo" talvez permitisse,
como metáfora, "deixar ver" o que era visado (a dupla dimensão expressiva
e ativa da instituição), mas essa conceituação não podia dar conta das contradições e, sobretudo, das defasagens no tempo, no espaço e nas motivações,
entre o representado e a representação.
Para mim o exemplo mais significativo é a gênese da operação La Défense03) nos anos 50. De certo ponto de vista (mecanicista), todos os fatos
vão contradizer a hipótese de uma relação causal direta e: unívoca entre classe dominante e política pública. De fato, não apenas os meios de negócios
da época antipatizam explicitamente com o projeto de construção de um centro de negócios em La Défense, como os únicos agentes econômicos que se
manifestam então (o Centro Nacional das Indústrias e das Técnicas) vinculamse a pequenas empresas de máquinas-ferramentas e não ao "grande capital".
Portanto, será necessária uma verdadeira "antecipação" de um segmento do aparelho de Estado, a princípio marginal, para criar uma demanda de
agentes imobiliários e, sobretudo, de grandes empresas usuárias. De certo
ponto de vista, eu talvez estivesse na mesma situação teórica de M. Weber,
quando ele recusa, cm A ética protestante do capitalismo, "a doutrina simplista do materialismo histórico" (ou, antes, do materialismo vulgar e simplista que os sucessores de Marx desenvolverão?), segundo a qual o etos e o
modo de vida capitalistas seriam "o reflexo ou a superestrutura de situações
econômicas dadas", justamente na medida em que esse espírito capitalista
existia "ANTES de se desenvolver a ordem capitalista".
Mais tarde, voltarei a encontrar o mesmo problema quando for levado
a estudar as relações entre a estrutura da mão-de-obra operária na região de
Lille, no fim do século XIX, e suas formas de representação sindicais e políticas Cl4l. De fato, segundo a tese de Claude Willard (Os guesdistas), "o nível mais alto dos salários" teria tornado os operários das fiações de l;1 "rc( 13) La poli tique urbaine dans la région parisienne, 1945-1972, º!'· ,·if.
(14) La classe ouvriere en mutations, op. cit.
IS

fratários ao socialismo"; mostrei, ao contrário, que a presença em Tourcoing
de uma forte aristocracia operária - notadamente entre os tapeceiros e os
selecionadores de lã - aproximará a maioria dos operários socialistas da
CGTU (15) e do PCF, apesar de uma implantação do cristianismo muito mais
vigorosa do que em Lille.
Encontrarei o mesmo paradoxo entre os operários da indústria do tule.
Se eles garantem o sucesso do guesdismo, depois da SFIO e da CGT confederada em Calais e Caudry, permitem em compensação uma implantação
precoce da CGTU e do PCF em Romilly-sur-Seine. Mesmo panorama contrastante na metalurgia de Lille: aí também nunca há uma relação direta e
unívoca entre maneira de produzir, tipo de autonomia profissional e comportamento sindical ou político; a organização da consciência de classe e a
gênese de um etos específico nunca se baseiam num determinismo técnicoeconômico, mas sempre remetem a um entrelaçamento complexo entre fatores técnico-econômicos e fatores éticos, culturais, ideológicos.
Eu atualizava, assim, uma causalidade dialética em que ação e reação
dos fatores objetivos e subjetivos sempre permitem que os sistemas ideológicos (ou políticos) não apenas retrabalhem um solo de que teriam brotado
(como flores brotando de um húmus fértil, para retomar a imagem weberiana ), mas se destaquem de sua base social original para trabalhar, duramente,
num espaço próprio de conflituosidade, pelo parto dos grupos sociais que, por
sua vez, vão apropriar-se deles e, portanto, transformá-los ou mesmo subvertê-los.
Portanto, são todas as mediações e todos os mediadores entre o etos filosófico, religioso, de um grupo social e seu etos da vida cotidiana (a religião da vida cotidiana) que cumpre reconstituir, sem suprimir as contradições e o fosso que podem separar um grupo social de seus representantes teóricos ou políticos, às vezes com sua capacidade não apenas de síntese (de
definição de um interesse geral), mas sobretudo de antecipação e, portanto, de
superação dos interesses materiais atuais, imediatos, dos membros do grupo.
Para voltarmos à urbanização francesa dos anos 50, nem os grandes grupos industriais ou financeiros, cuja estratégia espacial estudei, nem os agentes imobiliários estavam dispostos a investir na zona de La Défense, principalmente porque as reestruturações técnico-econômicas e a nova divisão
técnica e social das funções nas firmas multinacionais ainda não eram uma
realidade na França. Caberá, pois, à iniciativa de alguns altos funcionários e
(15) Oriunda da cisão da CGT nos anos 20, a CGTU agrupa as correntes comunistas
e anarco-sindicalistas, em oposição às correntes reformistas da CGT "confederada".

19

urbanistas do Ministério da Construção formular, antes de toda o d,·111,11,r/11
social, uma visão de longo prazo de uma organização regional do esp:11,·" d:1s
grandes metrópoles mundiais, como Paris, triunfando das reticências. q11:i11do não das oposições, de outras frações do Estado.

Atores, decisões ... ou "lógica inconsciente e cega"?
Não quis reduzir, por isso, a elaboração de uma política a um simples
desempenho de atores negociando seus interesses, nem à aplicação de uma
vontade onipotente. Ao contrário, procurei um confronto permanente entre
uma análise fina das diferenciações ou das contradições, tanto nos grupos sociais, como nas instituições, e uma valorização da coerência relativa, apesar
de suas contradições, da regularidade de conjunto. No campo urbano, valorizei assim a "lógica cega e inconsciente" da segregação urbana das funções (e dos homens), porém esforçando-me em evitar o "anti-humanismo"
estruturalista, graças a três procedimentos conjuntos:
- uma abordagem dinâmica das instituições, como estrutura "aberta",
que funcione ao mesmo tempo como expressão-condensação das relações
sociais (por meio da construção de espaços públicos locais, notadamente municipais, mas também nos bairros e empresas) e como organização de uma
política cujos efeitos sociais são fortemente diferenciados;
-- uma distinção entre agente e ator, no sentido forte, entre o ator "alegre", cujo comportamento apenas segue mais ou menos a trajetória de seu
devir provável (segundo a terminologia de Ricoeur, o ator "infinitesimal")
e o ator "sujeito histórico", capaz de antecipar e superar o horizonte de seu
devir provável , de seu meio social;
- - enfim, uma tentativa de articulação entre o variegado mosaico dos
atores e a lógica urbana que se desenha notadamente no espaço regional em
que se implantam homens, capitais e equipamentos coletivos estruturantes
(meios de transporte, mas também centros de atividades, universidades, centros de pesquisa, etc.) .
Ligando de maneira um tanto paradoxal à esfera política as programações e os financiamentos públicos urbanos, tais como se projetam no espaço urbano, quis confrontar as normas universalistas do espaço público local
(a "cena local") com os efeitos a longo prazo de um conjunto de decisões, de
não-decisões, de estratégias e de práticas. Ademais de sua relativa coerência,
valorizamos os círculos viciosos desencadeados pela lógica da segregação

20

urbana em grandes metrópoles como Paris; quanto mais o habitat dos assalariados se distancia dos empregos concentrados no centro terciário, mais
aumenta a demanda de transportes radioconcêntricos, mais aumenta o congestionamento dos transportes ... Portanto, sem ser desejada, sendo até combatida, a lógica segregativa permanece o modo de regulação (cego) de longo prazo do crescimento urbano.
Nem por isso tudo passa a ser determinismo das estruturas. Trata-se,
antes, do encontro no espaço urbano local de decisões públicas em cascata e
do jogo cruzado dos agentes imobiliários e dos grandes usuários de escritórios:
as classes dominadas (e seus representantes) afinal pesarão pouco diretamente sobre esses processos segregativos, mas as contradições ressaltadas nos debates e as opções estatais também remeteriam a formas de "representação"
indireta, deformada, de interesses sociais incapazes de se exprimir de maneira autônoma.

3. Consenso, consentimento e hegemonia
No entanto, a primeira parte de minhas pesquisas urbanas privilegiava
o espaço público estatal e não dava ênfase às relações diretas entre o espaço
público e as classes dominadas. Será objeto de minhas monografias sobre os
"sistemas hegemônicos locais" em Lyon, Lille, Marselha e nos subúrbios de
Paris (16).
Tomado de empréstimo a Gramsci, a noção de hegemonia será objeto
de um uso crítico, cuja fecundidade, mas também cujos limites, gostaria de
sublinhar hoje, à luz de minhas novas abordagens das referências de identidade "classistas", inclusive na sua forma institucional O7l. Ao contrário do
conceito althusseriano de aparelho ideológico de estado (como aparelho de
"sujeição à ideologia dominante"), o conceito gramsciano parecia evitar o hiperfuncionalismo da teoria estruturalista então dominante nas ciências sociais, sem cair com isso na onipotência do ator individual, senhor de suas
opções. Mais precisamente, a análise gramsciana permitiria três avanços em
relação às análises weberianas da "coerção legítima".
( 16) Cf. minhas obras: La poli tique urbaine dans la région lyonnaise (op. cit. ), Classe
ouvriére et social-démocratie. Lille e/ Marseille, Paris, Editions Sociales, 1981, e La classe
ouvriére en nzutations (op. cit.).
( 17) Ver em particular a introdução de: La poli tique urbaine dans la région ly onnaise
(op. cit.), Classe ouvriere et social-démocratie. Lille et Marseille (op. cit.).

21

Primeiro avanço, hegemonia não é apenas ideologia; em outras palavras, a influência que a classe dominante exerce não se reduz nem ao poder
das palavras, nem ao poder das representações e das normas.
Trata-se, além disso, de práticas, costumes, morais, culturas. Muito mais
do que uma legitimação puramente política, trata-se, pois, de um sistema de
influência que se exerce sobre todas as esferas da vida social, desde a sexualidade ou a família (como mostra a análise por Gramsci cio "fordismo" e do
"americanismo" na Itália), até os modos de trabalho.
Segundo avanço, a hegemonia não é uma forma de consentimento passivo, quer se trate da violência estatal legítima dos weberianos, quer da inculcação simbólica de Bourdieu ou M. Foucault. Muito pelo contrário, a hegemonia suporia, para ter pleno êxito, um consentimento ativo, ao mesmo
tempo consciente e inconsciente, de parte das classes dominadas, de um modo de vida, de um "etos" sem dúvida concebido pela classe dominante, mas
para o conjunto do corpo social; daí sua pretensão ao mesmo tempo real e
ilusória à universalidade. Se Gramsci insiste tanto sobre o "êxito" do modelo jacobino francês, é justamente porque, ao contrário do sistema político italiano, o modelo da nação republicana elaborado sob a revolução francesa lhe
parecia uma síntese bem-sucedida da institucionalização universalista.
Mas, justamente, para ser plenamente bem-sucedida, a hegemonia supõe a capacidade das instituições representarem interesses e forças sociais
diferenciadas ou, mesmo, contraditórias. Nesse sentido, a hegemonia implicaria a existência de formas contra-hegemónicas, que representariam, mais
ou menos explicitamente, as classes dominadas, é claro que com defasagens
e contradições entre representados e representantes. Por isso mesmo, pelo
menos é esta minha interpretação, a hegemonia perde seu caráter monolítico
e funcionalista de "aparelho" dominador, de "máquina" de poder e de disciplinamento, para se tornar objeto de conflitos ou de lutas.
No entanto, o recurso a Gramsci de que me valerei em minhas pesquisas se chocará com dois grandes limites: de um lado, a no,;ão gramsciana permanece muito acentuada pelas orientações da III Internacional, para a qual
a "ditadura do proletariado" é a única resposta à "ditadura da burguesia",
mesmo se "couraçada de hegemonia". Sempre há a idéia de um "aparelho"
político (ou burocrático) estranho e externo aos indivíduos concretos, que
garantiria necessariamente a mediação entre vida cotidiana e regulação
sociopolítica. Além de Gramsci e da corrente leninista, encontraremos hoje
esta aporia com o conceito, a meu ver demasiado mecanicista, de "Veículo"
22

(o Dinheiro, o Poder) entre os "Sistemas", econômicos, estatais (de regras),
e o "mundo vivido", tanto em Habermas como em Parsons< 18 ).
Mais fundamentalmente ainda, a ditadura "couraçada de hegemonia"
não parece, em absoluto, explicitar os modos de influências complexíssimos
da hegemonia dominante, em particular quando os sistemas contra-hegemônicos dela fazem parte indiretamente, da mesma maneira, por exemplo,
que se pode dizer que a autonomia política, suas "contraculturas" e suas formas de resistência organizadas, institucionalizadas, inscreveram-se numa
divisão do trabalho implícita (sem maestro, nem complô), entre a esfera do
social e a do econômico, bem como entre o social e o político (identificado
maciçamente com o representativo).
Divisão flutuante, decerto, que às vezes pode ser denunciada, negada, mas que, no tempo longo das regulações sociopolíticas (durante os dois
últimos séculos, em particular), assinala com toda a sua especificidade o
que Gramsci vira muito bem como um pluralismo essencial do espaço
público moderno, em oposição às formas mais ou menos despóticas ou totalitárias do político. É bem verdade, no entanto, que esses espaços de "contra-hegemonia" centrados no "papel dirigente" da classe operária e de seus
"aliados" (intelectuais e camponeses) são completamente inadequados às novas relações salariais, em particular à emergência de um assalariado dos serviços, que definir provisoriamente mediante uma dupla identidade negativa:
nem operários, nem executivos(1 9).
As contradições, mas também as novas afinidades, entre um assalariado educado, diversificado, e uma "burguesia", cuja concentração econômica efetiva não impede uma extraordinária difusão cultural(2 0), limitam o interesse das análises gramscianas, tão antecipadoras porém, no que concerne
aos técnicos de fábrica (os "intelectuais de fábrica") ou aos intelectuais: de
fato, que relação há entre os intelectuais italianos do entreguerras, para não
falar dos funcionários do Mezzogiorno, e os engenheiros, os professores, as
enfermeiras ou os trabalhadores sociais deste fim de século? Numa época em
que ainda se podia acreditar no êxito e, mesmo, no futuro do modelo jacobino (ou até republicano clássico), Gramsci não pôde prever a crise do EstadoProvidência e do antigo modo de regulação social das sociedades capitalistas
mais desenvolvidas.
(18) Cf. minha crítica de Habermas, in La révolution informationnelle, op. cit. (pp.
109-115).
(19) Cf. meu livro: Les jeunes diplômés. Un groupe social en quéte d'identité, Paris,
PUF, col. Sociologie d'aujourd'hui .
(20) Classe ouvriére, sociéte loca/e et municipalités en région parisienne, op. cit.

23

Foi o que procurei analisar da crise dos sistemas locais de implantação
do movimento operário, em seus "bastiões" socialistas e comunistas<21 ), nessa
mescla de extrema diversidade local, mas também de sutil regulação republicana que caracteriza tão bem o funcionamento da democracia francesa até a
virada dos anos 1970.
Assim, nosso estudo do movimento operário só toma emprestado da historiografia o que pode nos permitir reconstituir, como sociólogo - do mesmo modo que pôde fazer, numa óptica bem diferente, P. Rosanvallon - a
gênese, o desenvolvimento, depois a crise de um modo de regulação do social. Ele também visa, como em contraponto, analisar o esgotamento dos modelos "contra-hegemônicos" dos movimentos operários, em suas tentativas
abortadas para superar a civilização industrial capitalista que os fez nascer.
Portanto, a "geminação" das monografias de "bastiões rivais" ( comunistas ou socialistas, baseados na autonomia ou na heteronomia operária) não
decorria em absoluto do acaso das obrigações contratuais, mas sim da escolha
deliberada dos lugares mais significativos para estudar o "êxito", posteriormente o declínio, tanto do modelo laico e republicano, como do modelo "contracultural" operário, de que nasceram todos os movimentos socialistas, do
movimento guesdista até o jauresismo, passando por todos os possibilismos.
Mais exatamente, minhas pesquisas puderam mostrar a existência não
de uma, mas de várias contraculturas operárias: o socialismo municipal de
Lille também é uma forma de resistência operária profundamente arraigada
na história e na especificidade do movimento operário do lugar, do mesmo
modo que o comunismo operário, tal como se arraigará em certos municípios
do subúrbio de Paris. Cabarés, cooperativas de consumo, patronatos laicos,
sociedades festivas e esportivas; diante da repressão implacável do empresariado têxtil contra os militantes socialistas, essas redes vão permitir, pouco a pouco, depois da conquista da prefeitura de Lille, que se organize um sistema de ajuda mútua que tentará se opor tanto ao paternalismo patronal, quanto ao paternalismo católico.
Mas esse sistema de resistência se oporá de saída à "ação direta" na
empresa, preconizada pelos anarco-sindicalistas, depois pela CGTU e pelo
PCF. A essa forma de ação, julgada ineficaz, os socialistas "reformistas"
preferirão a negociação por ramo industrial entre "parceiros" de peso institucional igual. A confusão explícita entre as funções sindicais, trabalhistas,
(21) "The working class and the State. The french experience in socialist and commu-

municipais, no sistema guesdista de Lille corresponde a essa busca de uma
legitimação estatal, para melhor apoiar as reivindicações operárias diante da
organização patronal; ela repousa na crença republicana na neutralidade do
Estado-árbitro acima das classes e dos interesses particulares: quando de todas as grandes greves operárias em Lille, os socialistas com cargo eletivo,
municipais ou nacionais (notadamente R. Salengro em 1929 e 1936), se apresentarão como "árbitros" que privilegiam os acordos contratuais em detrimento da prova de força, e isso com a concordância da maioria da população
operária. De fato, não seria possível subestimar a profunda confiança popular e operária que essas práticas valeram aos edis socialistas de Lille na memória operária local (22).
É bem diferente o sistema comunista local. Ele se baseia no papel preeminente da autonomia operária na empresa e não preconiza a arbitragem municipal, mas seu apoio explícito às lutas operárias, como se pôde ver por ocasião das greves de 1936 (ainda que o "momento" negociação também esteja
presente na discussão das convenções coletivas setoriais ou nacionais). Mostrei, junto com outros, o papel preeminente desempenhado pelos operários
metalúrgicos na construção desses sistemas contra-hegemônicos locais; mas,
para mim, não se pode de forma alguma confundir a unidade política de um
ator histórico, a "classe operária", e a extrema diversidade sociotécnica das
categorias operárias que constituirão o "metalúrgico" parisiense. As ideologias, as formas de luta e de organização veiculadas pelos herdeiros dos sansculottes de 1793 serão, ao mesmo tempo, transmitidas e remodeladas, inconscientemente, pelos "operários mecânicos" de junho de 1848 e de 1871; operários-artesãos, independentes ou submetidos ao sistema manufatureiro vão,
em seguida, se ver confrontados com as grandes mutações da revolução
industrial e do maquinismo, nas empresas mecânicas dos bairros periféricos
da capital.
O que procurei compreender foi a extraordinária complexidade e a especificidade desse "encontro urbano" nesse lugar de mistura único das populações operárias. Mistura que vai possibilitar uma transferência cultural freqüentemente ocultada pela aparente continuidade das doutrinas políticas e
das ideologias de referência.
Não insistamos sobre este paradoxo que não é único: a mesma referência ao Partido Operário Francês (POF) de J. Guesde une estas três cidades tão
dessemelhantes, que são Lili e, bastião do socialismo operário (onde o "co-

nisl 1111111icipalities", in: Cities in recession. Critica! responses to the urban politicies of' the

,1," 11,·/11, edited by I. Szelenyi, Sage publications, Londres, 1984.

_,,,

(22) Classe ouviere et social-démocratie. Lille et Marseille (op. cit.).

25

letivismo" dos sindicatos operários se oporá, vigorosamente até, à pequena
burguesia laica), Ivry-sur-Seine, bastião comunista, dominado pelo grupo dos
operários metalúrgicos, e Marselha, desde cedo ganha pela hegemonia da pequena burguesia radical-socialista na cena municipal.
Também aqui, como a propósito da operação La Défense, dei ênfase à
capacidade de antecipação da instância política em relação a mutações sociológicas e urbanas que ainda não aconteceram. Enquanto a estrutura das atividades econômicas evolui sensivelmente no mesmo ritmo em Lille e em Marselha, enquanto essas duas cidades ainda são, ambas, profundamente marcadas pelo mundo operário e popular, é notável a defasagem entre o privilégio concedido desde 1953 à "terciarização" e à moradia dos quadros técnicoadministrativos por G. Defferre e pelo reformismo operário que continuará a
marcar a política urbana de Lille durante mais doze anos. De fato, somente
em 1965 é que se esboçará, pela primeira vez no município, uma política
urbana centrada no futuro "terciário" da metrópole regional. Do mesmo modo que a antecipação dos criadores da zona de atividades de La Défense, a
"antecipação defferrista" de 1953 assinala, assim, não apenas a autonomia
relativa do político em relação às evoluções da estrutura socioeconômica,
mas sua capacidade de antecipar e acelerar uma evolução em gestação.
Contra todo e qualquer determinismo morfológico ou econômico, a parte de escolha deixada aos atores políticos da época ressalta muito bem opapel dos indivíduos que adquirem estatuto de ator histórico: numa cidade ainda dominada pelo habitat operário e popular, distinguida pela forte autonomia política da classe operária, na qual predomina então o PCF, G. Defferre
aposta em uma nova aliança municipal entre as camadas médias assalariadas que começam apenas a se desenvolver, o empresariado local e a pequena burguesia laica, em tomo de um mito - a figura do quadro técnico-administrativo - e de um programa econômico centrado na terciarização. Por sua
vez, o PCF permanecerá, apesar da sua capacidade de socialização e de mobilização coletiva, encerrado em seus bastiões. Não será capaz de apreender,
em Marselha como em outras localidades, o desafio crucial ligado ao desenvolvimento desse novo assalariado dos serviços; ele continuará a se distinguir pela divisão (herdada do anarco-sindicalismo) entre uma forte autonomia
operária na empresa e nas zonas nortes e uma cena política municipal sobre
a qual tem pouca influência.
Mas em Paris, mesmo o casamento entre ideologias, atores históricos e
estruturas econômicas não é menos complexo. A referência às doutrinas do
passado mascara com freqüência a novidade das práticas, ainda que a filiação

26

ideológica conserve todo o seu sentido. Assim, o "blanquismo" dos partidários de Vaillant já se apóia muito mais nas lutas operárias na empresa do que
no programa de Blanqui. É justamente o caráter misto do tecido industrial parisiense, essa mistura de artesanato, de pequenas empresas e de fábricas modernas que permitirá o encontro entre as tradições do socialismo utópico, do
jacobinismo "secionário" e do sindicalismo revolucionário, ele próprio herdeiro do blanquismo e do proudhonismo.
É igualmente essa mesma mistura urbana entre as antigas camadas
operárias e os novos assalariados dos serviços que garantirá, cinqüenta anos
depois, durante os anos 50-70, o sucesso das políticas municipais a favor
dos quadros técnico-administrativos e de um assalariado diversificado em todas as grandes cidades francesas. Por isso, a política estreitamente obreirista
do PCF (caracterizada então pelo conceito leninista de "ditadura do proletariado") vai confiná-lo, com algumas exceções, ao pequeno cinturão industrial
e aos bairros fabris de Paris (como o Quartier de la Gare, no XIII distrito); já
os prefeitos socialistas, como H. Sellier em Suresnes, saberão antecipar, desde o entreguerras, no plano urbanístico (sabendo imaginar um planejamento
regional ligado à "racionalização" da grande indústria), a diversificação e a
intelectualização vindoura do assalariado. Enquanto os prefeitos comunistas
se dirigem, quase exclusivamente então, à "classe operária", Sellier dirige-se
aos "trabalhadores, produtores de todas as categorias: operários, empregados,
pequenos industriais, intelectuais" (23).
Enquanto a mistura urbana favorece as mestiçagens e as transições, as
transmissões culturais, em compensação - e, também nesse caso, além de
qualquer marxismo mecanicista - a "pureza" e a nitidez das mutações técnico-econômicas em regiões virgens de qualquer penetração socialista não foram muito favoráveis à implantação do "coletivismo": a autonomização cultural e política da classe operária não nasceu no Creusot ou na De Wendel,
nas cidades fabris devotadas ao paternalismo patronal, mas nos lugares de
mistura urbana favoráveis à mobilidade profissional e urbana dos operários
metalúrgicos.
O confronto desses três sistemas contra-hegemônicos locais possibilitou mostrar a pluralidade das formas de resistência operária, contra a assimilação dogmática do reformismo operário com uma pura e simples integração da classe operária ao "molde" republicano e patronal: a simetria entre o
notabilismo socialista e o republicano não suprime a especificidade das alter(23) Classe ouvriére, société loca/e et municipalités en région parisienne, op. cit.

27

nativas associativas arraigadas na sociabilidade operária local, ainda que limite a real capacidade contra-hegemónica dessas; o "paternalismo" das associações beneficentes laicas é o simétrico exato do paternalismo católico ou
patronal, mas nem por isso se confunde com estes últimos, como atesta a feroz concorrência a que se entregam para controlar as mulheres e as crianças
e, mais geralmente, o espaço da habitação.
Se, enfim, para retomarmos a distinção de A. Touraine, a rede associativa comunista deve sua especificidade à construção de uma identidade de classe (comunidade de ação para questionar a gestão da classe capitalista) e não de
uma identidade proletária (comunidade de sofrimento, consciência defensiva
voltada para si mesma, nem por isso deixa de escapar, como suas irmãs rivais
socialistas, ao problema dos limites de sua eficácia diante das grandes regulações políticas (o sistema republicano) e econômicas (o sistema capitalista).
Sem falar no desgaste do poder das velhas equipes municipais confrontadas,
como as outras prefeituras, ao clientelismo, à burocratização e aos círculos
viciosos de todo o sistema representativo, o sistema contra-hegemónico comunista é ainda mais fragilizado pela profunda mutação de sua base social: com
efeito, o obreirismo original dificilmente se adapta aos novos modos de vida,
às novas aspirações dos(as) empregados(as) e dos assalariados dos serviços,
notadamente em matéria de democracia direta na vida dos bairros.
Já ressaltei, em meus trabalhos sobre os subúrbios de Paris, a tríplice
crise da antiga identidade operária " classista":
1) crise de uma esfera operária reduzida aos trabalhadores manuais,
exterior aos operários-técnicos das instalações automatizadas, que não se
identificam mais com a classe operária;
2) crise das antigas comunidades operárias desestabilizadas, tanto pelos
novos modos de vida operários, voltados para o casal monocelular e o consumo de massa, como pela derrocada das antigas redes de sociabilidade operárias, com a crise ou, mesmo, com o desaparecimento de regiões industriais
e de "fortalezas operárias";
3) crise, enfim, da ação direta e do sindicalismo contestatário ("os patrões podem pagar") diante da necessidade de enfrentar as gestões empresariais confrontadas com a crise econômica.
Mas minha análise de 1986 ainda continua sendo, a meu ver, uma análise "nostálgica" de um ator histórico, "a " classe operária, que perdeu sua
centralidade histórica, como Touraine mostrou tão bem, ainda que não tenha
conseguido apreender os atores sociais que vão substituí-lo. Como Touraine
notará com razão, meu livro de 1986 (La classe ouvriere en mutations) per-

28

manece, de fato, marcado pela ilusão de urna "nova classe operária" à Serge
Mallet, ampliada aos técnicos e aos engenheiros. Eu ainda permanecia prisioneiro, apesar das minhas referências à revolução informacional, de uma visão antiga dos movimentos sociais dominados pelo operário assalariado e pela Revolução Industrial.
Mais globalmente e sem cair num mecanicismo sistêmico, é toda aregulação da sociedade capitalista pelos movimentos operários, em toda a sua
diversidade ideológica, que estaria hoje em crise. Nesse sentido, o poderio
contestatário comunista deve ser relativizado em seus efeitos a longo prazo, situando-o na divisória (implicitamente admitida por todos) entre o social e o econômico, o social e o político; é todo o sistema republicano oriundo da Resistência, inclusive suas variantes socialistas ou comunistas, que está
hoje em crise, não apenas este ou aquele sistema clientelista ou notabiliário
local.
É nesta leitura-balanço que se inscrevem meus trabalhos atuais sobre
os novos movimentos sociais nos espaços públicos autônomos, quer se trate
de espaços políticos institucionais (inclusive a mídia), quer de espaços informais da empresa ou da cidade. A importância que eu já dava, neste livro,
aos espaços descentralizados, livres das dominações estatais ou delegatárias,
parece-me reencontrar uma atualidade nas tentativas de constituir lugares de
debate democráticos acessíveis aos cidadãos "comuns". Menos que nunca,
o Estado não deve ser reduzido a um simples "aparelho" de repressão e de
organização pertencente exclusivamente à classe dominante: ele também é
objeto de disputa social, é cena política que pode se abrir à representação de
interesses contraditórios, contanto que as classes dominadas tenham a capacidade cultural de construir novas racionalidades, mais dignas de crédito
do que a racionalidade capitalista baseada na rentabilidade e na delegação
de poder.
JEAN LOJKINE

29

1

1
1

Siglas utilizadas
AFTRP
AFU
AGUR

AIE
AP
APUR
ARISO

BEPC
BERU
BMO

BNP

Agence fonciêre et technique de la Région parisienne
(Agência fundiária e técnica da Região parisiense)
Association fonciêre urbaine
(Associação fundiária urbana)
Agence d'Urbanisme, Dunkerque
(Agência de Urbanismo, Dunquerque)
Appareil Idéologique d'Etat
(Aparelho Ideológico de Estado)
Autorisation de Programme
(Autorização de Programa)
Atelier parisien d'Urbanisme
(Ateliê parisiense de Urbanismo)
Autoroute interurbaine de Seine-et-Oise
(Auto-estrada interurbana de Seine-et-Oise)

Brevet élémentaire du Prernier Cycle
(Diploma elementar do Primeiro Ciclo)
Bureau d'Etudes et de Recherches urbaines
(Escritório de Estudos e de Pesquisas urbanas)
Bulletin municipal officiel
(Boletim municipal oficial)
Banque Nationale de Paris
(Banco Nacional de Paris)
31

BTP
BTTP

Bâtiment et Travaux Publics
(Construção e Obras Públicas)
Baisse tendancielle du Taux de Profit
(Tendência à baixa da taxa de lucro)

CFDT
CGE
CGR

CAP
CCES

CCI

CCID
CCURP

CDC
CECIM
CEE
CEM
CERAT

CERAU
CERM
CES
CET

32

Certificat d'Aptitude professionnelle
(Certificado de Aptidão profissional)
Comité consultatif économique et social de la Région parisienne
(Comissão consultativa econômica e social da Região parisiense)
Chambre de Commerce et d'Ind1ustrie
(Câmara de Comércio e de Indústria)
Chambre de Commerce et d'Industrie de Dunkerque
(Câmara de Comércio e de Indústria de Dunquerque)
Comrnissariat à la Construction et à l'Urbanisme de la Région parisienne
(Comissariado para a Construção e para o Urbanismo da Região parisiense)
Caisse des Dépôts et Consignations
(Caixa de Depósitos e Consignaç,5es)
Centre d'Etudes de Conjoncture immobiliere
(Centro de Estudos de Conjuntura imobiliária)
Communauté économique europeénne
(Comunidade econômica européia)
Compagnie électro-mécanique
(Companhia eletro-mecânica)
Centre d'Etudes et de Recherches sur l'Aménagement du
territoire
(Centro de Estudos e de Pesquisas sobre o Planejamento
Territorial)
Centre d'Etudes et de Recherches sur l'Aménagement urbain
(Centro de Estudos e de Pesquisas do Planejamento urbano)
Centre d'Etude et de Recherche marxiste
(Centro de Estudo e de Pesquisa marxista)
Conseil économique et social
(Conselho econômico e social)
College d'Enseignement technique
(Colégio de Ensino técnico)

CGS
CGT
CIAT
CID-UNATI

CIL
CME
CML
CMP
CNAT
COGEDIM

cos
COURLY
CRESAL

cso
CSP

Confédération française démocratique du Travai!
(Confederação francesa democrática do Trabalho)
Compagnie Générale d'Electricité
(Companhia Geral de Eletricidade)
Conseil général du Rhône
(Conselho geral do Rhône)
Conseil général de la Seine
(Conselho geral de la Seine)
Confédération générale du Travai!
(Confederação geral do Trabalho)
. .
Comité interministériel d'Aménagement du Temtorre
(Comissão interministerial de Planejament~ Territ~rial)
Comité d'Information et de Défense. Umon nationale des
Artisans et Travailleurs indépendants
(Comissão de Informação e de Defesa. União nacional dos
Artesãos e Trabalhadores autônomos)
Comité interprofessionnel du Logement
(Comissão interprofissional da Habitação)
Capitalisme monopoliste d'Etat
(Capitalismo monopolista de Estado)
Conseil municipal de Lyon
(Conselh~ municipal de Lyon)
Conseil municipal de Paris
.
. .
(Conselho municipal de Paris)
Commission nationale d'Aménagement du Temtoire
(Comissão nacional de Planejamento Territorial)_.
Compagnie Générale de Développement lmm?~~er
(Companhia Geral de Desenvolvimento Imobiliano)
Coefficient d'Occupation des Sols
(Coeficiente de Ocupação dos Solos)
.
Communauté urbaine de la Région lyonnaise
(Comunidade urbana da Região de Lyon)
Centre de Recherche économique et sociale appliquée de
la Loire
.
(Centro de Pesquisa econômica e social aplicada de la Lorre)
Centre de Sociologie des Organisations
(Centro de Sociologia das Organizações)
Catégorie socioprofessionnelle
(Categoria sócio-profissional)
33

'1

csu

Centre de Sociologie urbaine
(Centro de Sociologia urbana)

DATAR

Délégation à l'Aménagement du Territoire et à l'Action
régionale
(Delegação do Planejamento Territorial e da Ação Regional)
Direction Departeméntale de l'Equipement
(Direção Departamental do Equipamento)
Déclaration d'Utilité publique
(Declaração de Utilidade pública)

DDE

DUP

EDF
ENA
EPA
EPAD

FBCF
FDES
FEN
FFF
FIAT
FNAFU

FNAT

FO
FPA

Electricité de France
(Eletricidade de França)
Ecole Nationale d'Administration
(Escola Nacional de Administração)
Etablissement Public d' Aménagement
(Estabelecimento Público de Planejamento)
Etablissement public pour l'Aménagement de la Défense
(Estabelecimento público para o Planejamento de la Défense)
Formation Brute de Capital Fixe
(Formação Bruta de Capital Fixo)
Fonds de Développement économique et social
(Fundo de Desenvolvimento econômico e social)
Fédération de l'Education nationale
(Federação da Educação nacional)
Foyer du Fonctionnaire et de la Familie
(Lar do Funcionário e da Fam11ia)
Fonds d'Intervention pour l'Aménagement du Territoire
(Fundo de Intervenção para o Planejamento Territorial)
Fonds national pour l'Aménagement foncier et l'Urbanisme
(Fundo nacional para o Planejamento fundiário e para o
Urbanismo)
Fonds national d'Aménagement du Territoire
(Fundo nacional de Planejamento Territorial)
Force ouvriere
(Força operária)
Formation professionnelle accélérée
(Formação profissional acelerada)

GCPU
GEP

GFARD

GFF
GSU
GU

HBM
HCL
HLM
HLR

IARD
IAURP

ICP

ILM
ILN

Groupe central de Planification urbaine
(Grupo central de Planificação Urbana)
Groupe d'Etude et de Programmation, d'une Direction
départementale de l'Equipement
(Grupo de estudo e de programação, de uma Direção departamental do Equipamento)
Groupement pour le financement et l'aménagement de la
Région de la Défense
(Grupo para o financiamento e planejamento da região de
la Défense)
Groupement foncier français
(Grupo fundiário francês)
Groupe de Sociologie urbaine, Lyon
(Grupo de Sociologia urbana, Lyon)
Groupement d'Urbanisme
(Grupo de Urbanismo)
Habitation bon marché
(Habitação de baixo custo)
Hospices civils de Lyon
(Asilos civis de Lyon)
Habitation à Loyer modéré
(Habitação de aluguel moderado)
Habitation à Loyer réduit
(Habitação de aluguel reduzido)
Risques: Incendies, Accidents, Risques divers
(Riscos : Incêndios, Acidentes, Riscos diversos)
Institut d'Aménagement et d'Urbanisme de la Région parisienne
(Instituto de Planejamento e de Urbanismo da Região parisiense)
Immobiliêre Construction de Paris
(Imobiliária Construção de Paris)
Immeuble à Loyer moyen
(Imóvel de aluguel médio)
Immeuble à Loyer normal
(Imóvel de aluguel normal)

34

35

INSEE
ITC
IUT

Institut national de la Statistique et des Etudes économiques
(Instituto nacional da Estatística e dos Estudos econômicos)
lngénieurs, Techniciens, Cadres
(Engenheiros, Técnicos, Executivos)
Institut Universitaire de Technologie
(Instituto Universitário de Tecnologia)

PACT
PADOG

PAZ
MEAVN

MPC
MRL
MRU

Mission d'Etudes et d'Aménagement de la Ville nouvelle
(Missão de Estudos e de Planejamento da Cidade nova)
Mode de Production Capitaliste
(Modo de Produção Capitalista)
Ministere de la Reconstruction et du Logement
(Ministério da Reconstrução e da Habitaição)
Ministere de la Reconstruction et de l'Urbanisme
(Ministério da Reconstrução e do Urbanismo)

PCF
PDUI
PME
PMI
POS

OCIL
OMHBM
OMHLM
OPDHLM
OPHLMVP
OPMHLM

OREAM

ORU
O.S.
OTR

1(,

Office central interprofessionnel du Logement
(Administração central interprofissional da Habitação)
Office municipal d'HBM
(Administração municipal de HBM)
Office municipal d'HLM
(Administração municipal de HLM)
Office public départemental d'HLM
(Administração pública departamental de HLM)
Office public d'HLM de la Ville de Paris
(Administração pública de HLM da cidade de Paris)
Office public municipal d'HLM
(Administração pública municipal de HLM)
Organisation régionale d'Etudes et d'Aménagement de l'Aire
métropolitaine
(Organização regional de Estudos e de Planejamento da Área
metropolitana)
Opération de Rénovation urbaine
(Operação de Renovação urbana)
Ouvrier spécialisé
(Operário especializado)
Organe Technique Regional des Ponts et Chaussées
(Órgão Técnico e Regional dasPonts et Chaussées)

PRDE
PS
PSR
PSU
PUD

RATP
RER
RIVP

SAGI

Propagande et Action contre les Taudis
(Propaganda e Ação contra os Pardieiros)
Plan d'Aménagement et d'Organisation générale de la Région parisienne
(Plano de Planejamento e de Organização geral da Região
parisiense)
Plan d'Aménagement de Zone
(Plano de Planejamento Zonal)
Parti communiste français
(Partido comunista francês)
Plan directeur d'Urbanisme intercommunal
(Plano diretor de Urbanismo intercomunal)
Programme de Modernisation et d'Equipement
(Programa de Modernização e de Equipamento)
Petites et Moyennes Industries
(Pequenas e Médias Indústrias)
Plan d'Occupation des Sols
(Plano de Ocupação do Solo)
Programme régional de Développement et d'Equipement
(Programa regional de Desenvolvimento e de Equipamento)
Parti socialiste
(Partido socialista)
Programme spécial de Relogement
(Programa especial de Realojamento)
Parti socialiste unifié
(Partido socialista unificado)
Plan d'Urbanisme de Détail
(Plano de Urbanismo Pormenorizado)
Régie autonome des Transports parisiens
(Administração autônoma dos Transportes parisienses)
Réseau express régional
(Rede expressa regional)
Régie immobiliêre de la Ville de Paris
(Administração imobiliária da Cidade de Paris)
Société anonyme de Gestion Immobiliêre
(Sociedade anônima de Gestão Imobiliária)

scc
SCET
SCIC

SDAU
SDAURP

SEDA
SEM
SEPIMO
SFBP
SFIO
SNCF
SPEI
SRE

TPE
TVA

UDR

38

Société des Centres Commerciaux
(Sociedade dos Centros Comerciais)
Société centrale d'Equipement du Territoire
(Sociedade central de Equipamento do Território)
Société Centrale Immobiliêre de la Caisse des Dépots et
Consignations
(Sociedade Central Imobiliária da Caixa de Depósitos e
Consignações)
Schéma directeur d' Aménagement et d'Urbanisme
(Esquema diretor de Planejamento e de Urbanismo)
Schéma directeur d' Aménagement et d'Urbanisme de la
région parisienne
(Esquema diretor de Planejamento e de Urbanismo da região parisiense)
Société d'Equipement de l'Ain
(Sociedade de Equipamento do Ain)
Société d'Economie mixte
(Sociedade de Economia mista)
Société d'Etudes et de Promotion Immobiliêre
(Sociedade de Estudos e de Promoção Imobiliária)
Société Française British Petroleum
(Sociedade Francesa British Petroleum)
Section française de l'International ouvriêre
(Seção francesa da Internacional operária)
Société nationale des Chemins de fer français
(Sociedade nacional das Estradas de ferro francesas)
Société Pilote d'Expansion et d'Information
(Sociedade Piloto de Expansão e de Informação)
Service régional de l'Equipement
(Serviço regional do Equipamento)

UNR

Union pour la Nouvelle République
(União pela Nova República)

ZAC

Zone d' Aménagement concerté
(Zona de Planejamento conjugado)
Zone d'Aménagement différé
(Zona de Planejamento diferido)
Zone industrielle
(Zona industrial)
Zone industrialo-portuaire
(Zona industrial-portuária)
Zone de Peuplement industrie! et urbain
(Zona de Povoamento industrial e urbano)
Zone à urbaniser en priorité
(Zona de urbanização prioritária)

ZAD
ZI

ZIP
ZPIU

ZUP

Travaux Publics d'Etat
(Obras Públicas do Estado)
Taxe à la Valeur ajoutée
(Taxa do valor acrescido)
Union pour la Défense de la République
(União pela Defesa da República)

39

Introdução
O presente estudo procura responder à pergunta: "O que vem a ser uma
política? No quadro do sistema capitalista contemporâneo, quais são os
principais determinantes sociais dessa política?". É perfeitamente válido
indagar por que escolhemos responder a tal pergunta através de um estudo
parcial que limita a política estatal apenas ao setor urbano. Será por simples prudência "pragmática" diante da amplidão do assunto a tratar? Para
nós, não é essa a razão principal. Nossa hipótese é a de que a urbanização,
como forma desenvolvida da divisão social do trabalho, é um dos determinantes fundamentais do Estado. Portanto, bem mais do que campo de aplicação da política estatal, o urbano é, principalmente, a nosso ver, um momento necessário de sua análise, um componente-chave que não pode ser
deixado de lado.
É claro que temos plena consciência de que a noção de "política
urbana" logo remete a um recorte ideológico (política "econômica" /política "social") que reduz o campo urbano a domínio acessório da política
estatal, exterior ao objetivo principal das sociedades capitalistas, que buscam o "progresso econômico", a "acumulação do capital".
Tentaremos mostrar que não é nada disso, ou melhor, que este recorte dissimula o papel decisivo que tem a política urbana - no sentido exato
do termo - no crescimento capitalista, como no desenvolvimento da contradição principal capital/trabalho, trabalho morto/trabalho vivo. Estas
precisões preliminares não devem, no entanto, esconder a dificuldade de
nossa tarefa: toda tentativa de definição objetiva de política urbana esbarra,
com efeito, na resistência - quase sempre inconsciente - que a ideologia
41

dominante opõe a qualquer discussão da "autonomia" do aspecto político
em relação à estrutura econômica. Resistência sorrateira, com múltiplos
recursos, alojada às vezes no discurso empirista e pragmático dos "atores
que tomam decisões": quando falarmos de uma política, priderão opor-nos
a infinita variedades de políticas - ou mesmo a ausência de política, em
proveito do caos das "práticas" díspares; quando falarmos de Estado como totalidade sociológica constituída de real unidade - vão objetar-nos
as múltiplas contradições entre diferentes setores do aparelho de Estado,
contradições que invalidam qualquer pretensão ao "monolitismo".
Pelo contrário, outras vezes, quando falarmos de determinações
sociais ou econômicas da política estatal, vão opor-nos a "autonomia" do
"sistema político", isto é - no sentido rigoroso do termo - suas "leis próprias" de funcionamento, distintas das leis econômicas. Quando falarmos,
enfun, dos "invariantes da estrutura" política, vão identificar nossa posição com a do fatalismo estruturalista que nega o papel dos atores políticos.
Não se consegue, de fato, escapar a esse círculo vicioso no qual nos
encerra a ideologia dominante, a não ser pela recusa dos postulados ideológicos que balizam e forram as próprias noções de que se serve o discurso de
nossos críticos. :É preciso "questionar o questionador" como propunha
Nietzsche em La généalogie de la mora/e, exigindo explicações sobre o
fundamento teórico de suas perguntas: "O que é, no fundo, essa 'autonomia' do aspecto político à qual você se refere para refutar qualquer tentativa de relacionar aspecto político com estrutura econômica? Por que essa
'autonomia' nunca chega a ser definida nem explicitada? Não será justamente porque sua função ideológica consiste em ser ambígua, em significar,
ao mesmo tempo, a independência de um sistema fechado e os diversos
graus de dependência de uma estrutura em relação a outra estrutura?".
Mesma pergunta quanto ao discurso "decisório": "Quem prova que
houve 'decisão' ou, melhor, que uma política é um conjunto de 'decisões'?
E, antes de mais nada, o que a noção de decisão postula? Indivíduos 'livres'
e 'conscientes', uma sucessão lógica entre "vontades' racionais, 'deliberações' e 'atos' que 'executam' o que foi 'decidido'?". Outras tantas noções
que nada têm a ver com premissas indiscutíveis, e que o pesquisador deve
transformar em hipóteses a serem controladas e demonstradas.
O círculo ideológico é então rompido e podemos transformar o
Político - de terreno balizado pela ideologia dominante - em terreno virgem, aberto à pesquisa científica.
Para nós, com efeito, nada sobre esse assunto está ainda definitivamente resolvido, mesmo se Marx conseguiu indicar algumas pistas essen42

ciais. :É sem dúvida primordial saber que o "fundamento secreto" do Político jaz na "relação imediata entre o proprietário dos meios de produção e
o produtor direto"O). Mas essa proposição, longe de encerrar a questão,
longe de funcionar como um princípio de razão suficiente - mero pretexto para a preguiça intelectual do dogmático - não passa de um convite a
pesquisas concretas - que Marx não pôde efetuar:
"Isso não impede que uma mesma base econômica... sob a influência de inúmeras condições empíricas diferentes ... possa apresentar variações e gradações infinitas que só uma análise dessas condições empíricas
conseguirá e/ucidar"(2).
Será portanto à análise dessas variações bem como dos invariantes :
da política urbana capitalista que nos dedicaremos, procurando não con- ·
fundir a validação de um conjunto de hipóteses com a simples ilustração
de afirmações propostas aprioristicamente.
Com efeito, formular a hipótese de que a política urbana é a resul- ·
tante cega da luta de classes, por um lado, e, por outro, das formas e dos
estágios de desenvolvimento do capitalismo, não representa para nós uma
"receita" teórica que sirva de explicação para qualquer situação. Essa hipótese não só responde como suscita questões e age, antes de tudo, como
estímulo heurístico.
Como, na verdade, falar de "resultante cega" sem cair num determinismo de tipo funcionalista que esmaga os atores individuais, reduzindo-os
a passivos suportes de funções econômicas e sociais? Mas, inversamente, se
os atores individuais ou coletivos têm um papel na determinação das políticas estatais, por que essas políticas são totalmente distintas dos objetivos
ou dos projetos elaborados por esses mesmos atores? Como, por outro
lado, determinar a eficácia própria da luta de classes e de fatores objetivos
como a estrutura econômica específica da formação social considerada?
Qual é o fator determinante: a predominância econômica da fração de
classe hegemônica ou a pressão política das classes dominadas? Como,
além disso, distinguir aquilo que, na estrutura estatal, procede do modo de
produção capitalista daquilo que, ao contrário, procede das "condições"
específicas nas quais tal formação social - sobretudo na França - passou
para o capitalismo? A própria natureza da documentação que conseguimos
reunir levou-nos a considerar a França como o centro de nossa demonstração - o que poderia ser considerado como um deslize etnocêntrico nosso.
(1) K. Marx, Le Capital, Ed. Sociales, livro III, cap. XLVII, t. VIII, p. 172.
(2) lbid., p. 172.

43

Num país como a França, que se caracteriza desde a época feudal por um
enorme desenvolvimento do aparelho de Estado e por uma hipcrcc11tralização política, como distinguir o que caracteriza especificamente o Estado
capitalista?
Última pergunta - e não a menos importante - em que nos baseamos e o que queremos dizer exatamente com unidade do Estado e de sua
política? Trata-se de uma unidade monolítica que implicaria a hipótese no atual estágio do capitalismo - de um mecanismo único "Estado-fração
monopolista do capital"? Ou, ao contrário, pode-se conceber, ao mesmo
tempo, uma unidade ligada à nova forma de predominância de classe e
uma diversidade na política como na organização estatal, diversidade que
serviria para refletir os diferentes tipos de contradição (principal, secundária, antagônica, não antagônica) entre frações do capital, por um lado, e
entre o conjunto das camadas sociais não monopolistas e a fração monopolista, por outro? Mas como então explicar não só as divergências entre
segmentos estatais como também as variações das políticas estatais, sem
questionar nossa hipótese inicial de uma lógica estatal invariante e dominante?
O procedimento que adotamos para responder a essa série de perguntas pode provocar objeção análoga à que foi feita ao método usado por
Marx na sua Critica da Economia Política. Com efeito, se nosso objetivo
concreto de pesquisa é a ou as políticas urbanas nos países capitalistas
desenvolvidos, por que não "começar pelo real e pelo concreto", em vez
de começar por noções tão abstratas quanto as determinações gerais do
Estado e do urbano, que é o que forma o cerne de nossos dois primeiros
capítulos? Idêntica é a tentação, em economia política, de se começar o
estudo de um país pela população, sua divisão em classes, sua distribuição
na cidade, no campo, etc.
Marx mostrou por que esse primeiro método - seguido sobretudo
pelos economistas do século XVIII - era falso: "A população é uma abstração se não considero, por exemplo, as classes de que se compõe. Essas
classes são, por sua vez, uma palavra vã se desconheço os elementos nos
quais elas se apóiam, como trabalho assalariado, capital ... Portanto, se eu
começasse assim pela população, teria uma representação caótica do todo
e, através de uma determinação mais exata, eu chegaria analiticamente a
conceitos cada vez mais simples; do concreto da representação eu passaria
a entidades abstratas cada vez mais tênues até chegar às determinações
mais simples. Partindo daí eu teria que refazer o caminho inverso até conseguir chegar de novo à população que, então, não seria mais a representa-

44

ção caótica de um todo, mas uma rica totalidade de inúmeras determinações e relações"( 3) .
O problema parece-nos idêntico no campo da sociologia política e
da sociologia urbana: partir das representações concretas com todo o seu
séquito de falsas evidências e de categorias errôneas como as "decisões
políticas", os "atores", os "desafios urbanos", etc., sem ter antes analisado
os principais elementos que determinam essas "decisões" aparentes, esses
desafios, significaria confundir a aparência dos discursos e das percepções
dos atores com a essência real que define uma "política urbana".
Eis porque, para manter com rigor o método de exposição, pareceu-nos necessário começar desenvolvendo as principais "determinações gerais
abstratas" e categorias sócio-econômicas que fundamentam qualquer análise das políticas urbanas "concretas" dos países capitalistas desenvolvidos.
Sem dúvida, o método é um pouco mais trabalhoso, mas essa incursão
parece-nos indispensável: como explicar, por exemplo, a transformação, na
década de 60, das políticas da habitação, da política fundiária e até o reinício na França das "grandes obras públicas"; como explicar as atuais reviravoltas na organização do aparelho territorial do Estado, se não estabelecermos antes as ligações entre Estado e sua política com as convulsões da sua
base sócio-econômica e se as delimitações ilusórias nas quais a ideologia
dominante procura circunscrever o urbano não forem questionadas através
de uma análise científica da divisão espacial do trabalho nas grandes empresas e na nova socialização das forças produtivas tanto em escala de
territórios nacionais quanto multinacionais?
Para convencer-se disso, basta considerar as conseqüências epistemológicas dos "atalhos" empiristas e descritivos usados pela sociologia das
organizações: porque recusa toda análise teórica do Estado identificado à
multiplicidade caótica "concreta" de seus aparelhos, ela não consegue
explicar-lhe as transformações "concretas", senão pela referência ritual
ao empurrão dado pelo "meio" exterior.
Supondo-se superada esta primeira objeção, resta ainda saber se o
próprio vínculo entre as "determinações gerais abstratas" dos dois primeiros capítulos e as determinações concretas dos capítulos seguintes fica
bastante claro.
Com efeito, na medida em que nosso objeto empírico só se refere à
(3) K. Marx, F. Engels, Textes sur la méthode de la science économique.
Introduction à la critique de l'économie politique, edição bilíngüe, Ed. Sociales,
1974, pp. 157-159.

45

política urbana no estágio e na fase atuais do capitalismo desenvolvido essencialmente na França - por que misturar, superpor, análises do Estado
em geral, do Estado capitalista em geral ( qualquer que seja seu estágio de
desenvolvimento), do Estado do capitalismo monopolista de Estado e,
enfim, do Estado francês? Não será falsear a leitura de nosso estudo que
só se refere realmente ao Estado capitalista francês na época do capitalismo monopolista de Estado? No fundo, essa segunda objeção parece-nos
proceder dos mesmos pressupostos epistemológicos da primeira; por isso a
melhor resposta ainda consiste em procurar imaginar como seria uma análise "abreviada" do Estado capitalista contemporâneo.
Ora, tomar como "premissas" de nossa análise o tipo de vínculos
específicos estabele,cidos entre o Estado e a (fração de) classe dominante,
na época contemporânea, é precisamente cair na falsa abstração, na incapacidade de medir a real validade empírica e histórica do que analisamos
como "mecanismo único de exploração e de acumulação do capital". Eis
porque nos pareceu indispensável relativizar bastante esta análise, mostrando concomitantemente seus limites históricos (por oposição sobretudo ao
"bloco no poder" característico do capitalismo pré-monopolista) e sua
perenidade através de todo o desenvolvimento do capitalismo, na medida
em que, apesar das variações de suas formas de organização política, a
dominação da classe capitalista sobre o aparelho de Estado nos parece um
invariante estrutural do modo de produção capitalista. De que outra
maneira caracterizar a própria natureza das políticas urbanas estudadas:
como determinar se uma ou outra de suas características procede do modo
de produção capitalista como tal, do seu atual estágio de desenvolvimento,
e até mesmo das especificidades histórico-culturais da França?
É verdade que os próprios limites deste estudo bem como, infelizmente, dos estudos históricos e sociológicos referentes à questão obrigaram-nos, em boa parte, a reduzir nossas referências mais gerais relativas ao
Estado capitalista a hipóteses de trabalho: o estado atual das pesquisas
sobre as políticas capitalistas não nos permitiu substituir essas hipóteses
por conclusões devidamente validadas de trabalhos de pesquisa.
Por isso, pedimos ao leitor que considere o conjunto da exposição
teórica de nossos dois primeiros capítulos como um corpo de hipóteses
necessárias à compreensão das análises concretas que se seguem. Não se
trata de, assim, negar a defasagem entre o campo empírico das políticas
urbanas capitalistas e o alcance bem mais vasto de nossas análises sobre o
Estado e a urbanização; nesse sentido, os cinco últimos capítulos só em
parte servirão para verificar esse corpo de hipóteses cuja validação siste46

mática supõe um conjunto de pesquisas interdisciplinares ( econômicas,
sociológicas, históricas) que, por enquanto, permanecem em estado de projeto. Pensamos, todavia, que não é o campo da pesquisa que determina o
nível da análise: não é porque O Capital de Marx toma como exemplo principal a Grã-Bretanha que a estrutura do modo de produção capitalista em
si deixa de ser analisada. Como diz Marx, dirigindo-se a seus "críticos"
alemães, franceses ou de outros países europeus, de te /abula narratur: "é
de você que se trata" tanto quanto da Inglaterra. Ora, nossa prática de pesquisas não se detém na descrição das particularidades culturais francesas
mas na análise dos elementos fundamentais da estrutura do Estado capitalista, através do exemplo francês; neste sentido, se consideramos as particularidades históricas francesas não é por preocupação etnográfica, mas
sim para destacar o que procede da estrutura capitalista como tal, independentemente da f armação social considerada.
Se tal objeção - fundada na confusão entre campo de pesquisa e
nível de análise - parece-nos errada, o que nos parece, pelo contrário,
necessário é definir com precisão os limites reais dentro dos quais decidimos
conduzir nossa pesquisa. Sem pretender abordar o conjunto da política
estatal, só trataremos aqui de seus elementos fundamentais, e sobretudo
dos ·invariantes e das variações que determinam a "essência estrutural" da
política estatal sem entrar na infinita variedade de suas formas concretas.
Neste sentido, não fomos até o fim de uma análise materialista e
dialética do Político, já que sobretudo os atores políticos concretos, as
personalidades históricas, não foram considerados. O que nos levou a isso
não foi uma escolha "estruturalista" ou "anti-humanista" que despreza o
papel dos atores políticos; mas, como acreditamos que esse papel foi
secundário no âmbito das políticas urbanas capitalistas, sobretudo na
França, pareceu-nos normal só considerar o "essencial", ou seja, os fatores
principais que determinam o que chamamos a estrutura cega do Político.
O que não exclui de modo algum que uma etapa ulterior da pesquisa sobre
o Estado capitalista possa analisar detidamente os vínculos entre essa
"estrutura cega" e os atores polític que são seus suportes inconscientes.
A mesma preocupação de ficar no essencial, para romper definitivamente com as representações ilusórias da política estatal, levou-nos a abandonar certas variações secundárias entre segmentos estatais ou entre instituições urbanas. Convém ainda precisar que, em vez de contradizer nossa
hipótese central - que postula a existência de uma lógica política dominante - essas variações podem perfeitan1ente ser analisadas no quadro de
um estudo mais acurado das redes de contradição entre classes ou frações
1 :•::

47

de classes. A esse respeito, nosso Capítulo V indica as grandes linhas do
que poderia ser essa análise, inseparável de estudos históricos e de ciência
política sobre as convulsões institucionais que marcaram a vida política
francesa a partir de 1958.
Essas observações preliminares permitem-nos apresentar agora, sem
perigo de mal-entendidos, a ordem que escolhemos para esta exposição.
Seguindo o método de exposição de O Capital, tentamos passar progressivamente das determinações gerais mais simples para as determinações mais
complexas que reproduzem toda a riqueza do concreto real. Convém todavia repetir que não procuramos explicar todas as gradações e a diversidade
concreta das políticas urbanas capitalistas, mas apenas suas constantes e
variações mais importantes. Nesse sentido, nosso estudo constitui uma das
etapas de um trabalho de fôlego maior.
Seja como for, os seis capítulos que apresentamos organizam-se em
torno de quatro importantes momentos ou níveis de análise.
Primeiro momento: a exposição dos fundamentos materialistas do
Estado e do urbano constitui o objeto dos Capítulos I e II.
O primeiro capítulo tenta definir, como hipótese de trabalho, o vínculo rigoroso entre a análise materialista do modo de produção capitalista
e o conceito de Estado. Presente apenas de forma indireta na exposição de
O Capital de Marx, o Estado bem como as classes sociais ou o urbano
merecem, a nosso ver, o mesmo rigor teórico que o conceito de mais·valia
ou de lucro; ora, essa lacuna ainda não foi preenchida, na medida em que a
maioria dos pesquisadores marxistas identificou a teoria do Estado com as
descrições ou com as alusões dos clássicos marxistas( 4), descrições que não
tinham por objetivo a exposição do conceito de Estado.
O Capítulo II desenvolve essa hipótese buscando ao mesmo tempo
situar teoricamente o conceito de urbano e determinar o que ele acresce à
análise do Estado. Precisemos que, nestes dois capítulos, trata-se de mostrar a especificidade atual - na época do que definimos como "capitalismo
monopolista de Estado" - tanto do Estado quanto do urbano, isto é, dos
dois conceitos que fundam nossa análise das "políticas urbanas". Mas foi
justamente para ressaltar essa especificidade histórica que nos foi necessário fazer uma breve incursão - comparativa - nos outros estágios de

desenvolvimento do capitalismo, sem o que não teríamos podido falar de
política ou de urbanização "monopolista".
Os quatro capítulos seguintes procuram enriquecer essas determinações gerais, ainda abstratas, do Estado e do urbano, definindo pouco a
pouco as principais formas da política estatal no domínio urbano. Estão
fundamentalmente articulados em três grandes etapas.
Os Capítulos III e IV definem o processo de segregação social produzido pela política urbana, enquanto o Capítulo V procura medir a distância entre a subordinação aos interesses do capital monopolista e os comprometimentos com as classes dominadas.
Tendo partido da definição clássica de política estatal como organização da predominância de classes, chegamos assim a um novo momento
de análise onde o Político aparece não tanto como "instrumento" de uma
classe mas sim como lugar da luta de classes. Somente no último capítulo,
através da análise do movimento social urbano, qu~braremos o círculo
vicioso funcionalista para definir o Político como o lugar de decomposição
da hegemonia dominante e lugar do aparecimento de uma nova hegemonia
das classes dominadas.

(4) Como veremos no Capítulo I, Marx, Engels e seus sucessores - sobretudo
Lenin e Gramsci - contribuíram de modo importante para uma teoria do Estado,
mas isso de forma indireta, alusiva, sem atacar de frente a análise da rcla<;ão entre as
formas de desenvolvimento do capitalismo e o Estado.

48

49

Capítulo I

Estado, política
e luta de classes
Da tomada de decisão
à produção social da política estatal
I. A sociologia funcionalista e a análise do Estado

l. O modelo de Crozier e a aporia da decisão

Um dos méritos de Lucien Sfez(l) foi o de ter mostrado o obstáculo epistemológico essencial contra o qual esbarra toda tentativa de análise científica do político, isto é, a metamorfose ideológica dos atores políticos em
"decisões" de atores. Mais precisamente, Lucien Sfez esmiuça com grande
clareza os postulados ideológicos - e metafísicos - subjacentes a todas as
"pré-teorias" jurídicas, de ciência política ou sociológicas que se referem à
noção de "decisão" ou de "tomada de decisão"; pode-se dizer que três
"prenoções", no sentido durkheimiano do termo, articulam a ideologia da
decisão: a "linearidade", a "racionalidade" e a "liberdade", prenoções que
se inscrevem explicitamente no que L. Sfez chama o "modelo cartesiano"
da decisão.
A "linearidade" cartesiana, lembra o autor, consiste apenas nisto: "as
coisas propostas em primeiro lugar devem ser conhecidas na ordem das
(1) L. Sfez, "Critique de la décision", Cahiers de la Fondation nationale des
Sciences politiques, 190, Paris, Armand Colin, 1973.

51

coisas que vêm a seguir e essas coisas que vêm a seguir devem ser dispostas
de modo a poderem ser demonstradas apenas pelas coisas que as precedem". Essa lin~aridade, "ponto central do esquema clássico ... supõe um
con:ieç~ e um _f~ da _'linha', o at~ começa e acaba. O fim é a realização do
proJeto. a dec1sao esta compreendida entre limites defini·dos"(2) A 1·
·
d d
.
rneana e supoe portanto necessariamente a existência de um ato voluntário
que estrutu~a a o~dem decisória em momentos descontínuos e, ao mesmo
tempo, obngatonamente justapostos: "concepção deliberação decisão,
execução"(3).
'
'

suporte o mundo, e dilui o poder político da classe dominante em competências fragmentadas e autônomas ( deliberação, decisão, execução ... )(7).
Mas Lucien Sfez vai ainda mais longe e é essa, a nosso ver, a segunda
contribuição fundamental de seu estudo: demonstra que o velho modelo
cartesiano impregna toda a ciência política, inclusive as ciências sociais na
aparência mais alheias à "racionalidade" cartesiana.
Retomaremos aqui sua análise da sociologia da decisão visto ter ela
pontos de contato com o procedimento que adotamos. L. Sfez mostra com
facilidade o vínculo entre as teorias americanas das organizações (Cyert,
March e Simon, Taylor) e até com a teoria do poder de Robert Dahl (Who
governs?)(8); mais difícil fica a sua tarefa quando aborda sociólogos que
aparentemente questionam o modelo linear cartesiano: Michel Crozier e a
equipe do Centre de Sociologie des Organisations ou a escola althusseriana
(no caso, Manuel Castells). Os estudos da equipe de M. Crozier são analisados duas vezes: na crítica do axioma da "racionalidade" e na crítica do
axioma da "liberdade".
Quanto ao primeiro ponto, segundo L. Sfez, a escola de M. Crozier
vai bem além do quadro das práticas teorizadas justificadoras. Sua visão
das organizações remete sem cessar ao conjunto do sistema social, que
remete de novo às organizações, e tudo isso numa perspectiva globalizante(9).
Resumindo, "Crozier rejeita a linearidade, elimina-a totalmente. ..
não recai de modo algum numa concepção fragmentária da decisão"O O).
De fato, para ele, as tomadas de decisão no conjunto político-administrativo francês são o produto da interconexão de três subsistemas interdependentes mas distintos0 1): o subsistema administrativo ( que garante todas as
decisões que podem ser integrados nas múltiplas rotinas e programas já
elaboradas anteriormente), o sistema poh'tico ou deliberativo ( que se
encarrega dos problemas que não podem ser resolvidos a partir das rotinas
já existentes), e enfim o sistema extralegal ou revolucionário (que permite
enfrentar as reivindicações e as perturbações que excedem o quadro deliberativo ou que o questionam). Eis como se caracteriza, segundo L. Sfez(l 2),
a superação, em Crozier, da decisão "linear" em benefício de uma causali-

Desenvolver as implicações lógicas da linearidade decisória conduz
fatal~e_:1te ao _segundo postulado cartesiano: o da racionalidade; pois "a
defimçao _da lmha supõe uma continuidade de movimento, uma ordem
de sucessao e de geração dos movimentos que só a compreensão pode perceber: a_ordem é do domínio da razão"(4). Se a linha é uma construção da
mente, e porque a razão impõe uma estrutura de ordem à descontinuidade
dos _pontos; ela liga, mede, arruma e pode, desse modo, explicar uma
cadeia contínua entre momentos descontínuos: num esquema 1·
cau al.d d
. al.d
rnear,
. s i a e e racion i ade são a mesma coisa ... "Meu comportamento
minha :scolh~, é racional se todos os momentos, desde a motivação até~
execuçao, estiverem claramente ordenados"(5).
.
Terceiro ~x~oma, inseparável dos dois primeiros: 0 sujeito livre, a
lzberdade, cond1çao de toda racionalidade possível. "Ela bloqueia a cadeia
dos acontecimen~os e lhe fornece 'um começo' que possibilita, a partir
d~l~, o estabelecunento de uma ordem linear. .. Em outras palavras, a
hipotese .. ~e ~m começo da linha, de uma causa primeira e definida para
uma sequencia de acontecunentos inteligíveis, acarreta a hipótese de um
e~paço q_ue não se pode transpor nem atravessar, que é um ato de consciência de tipo bem especial: a liberdade do sujeito, responsável por seus
atos"(6).
, . Será que é um modelo cultural ultrapassado? L. Sfez mostra, ao contrano, que não só ele impregna toda a prática administrativa moderna
como também asse~ura um~ função ideológica de primeiro plano para pre~
servar a ordem social: permite que o ator aja , que aquele que recebe a ação
(2) Op. cit., p. 29.
(3) Op. cit., pp. 27-28.
(4) lbid., p. 32.
(5) lbid., p. 32.
(6) lbid. , p. 34.

j

(7) Op. cit., pp. 10-13.
(8) Jbid., pp. 280-284.
(9) Jbid., p. 226.
(10) Op. cit., p. 227.
(11) M. Crozier, Le phénomene bureaucratüzue, Le Seuil, 1964, pp. 307-342.
(12) L. Sfez, op. cit., pp. 228-230.

dade sistémica. O funcionamento do subsistema administrativo é caracterizado por três disfunções: as decisões nunca são totalmente adequadas
porque quem as toma procura evitar qualquer contato com aqueles que
vão ser atingidos por elas; a rigidez de cada administração nas suas relações
com o meio é acrescida da rigidez nas suas relações com as outras administrações, o que cria difíceis problemas de coordenação; enfim, o problema
da adaptação à mudança fica mal resolvido, o que leva a uma série de "círculos viciosos", como, por exemplo, na questão da coordenação: as administrações respondem a isso restringindo suas atividades de modo a não
entrar em conflito com outras administrações e submetendo-se a uma
centralização geral, modo de comunicação que reforça a falta de comunicação entre estratos e tende a afastar mais ainda os centros de decisão. Igualmente os administradores regionais(*) cujo poder garante a permanência
do equilíbrio dos privilégios entre todos os grupos que participam do sistema, não conseguem desempenhar com facilidade um papel inovador porque não têm como ajudar, de modo dinâmico, na solução dos conflitos. A
mesma observação cabe para a administração das grandes repartições que
não podem desempenhar um papel coerente de inovador. Logo, para mudar o sistema administrativo, deve apelar para o exterior, isto é, para o
subsistema pohtico ou deliberativo: esse sistema bi-institucional (governo
e parlamento) institucionaliza as crises necessárias de um poder onipotente
e centralizado, mas não permite o verdadeiro confronto entre sistema
administrativo e forças sociais; isso é possível pela confusão dos papéis
entre parlamento e governo, a "classe política" sempre se mantendo alheia
às barganhas propostas por administradores e governantes. Esse jogo, adaptado aos problemas da sociedade burguesa do fim do séc. XIX "bloqueada"
num equilibrio estável, não corresponde mais a uma sociedade confrontada
com o problema permanente da mudança. Donde o recurso ao terceiro sistema: o sistema extralegal de solução dos conflitos, conseqüência do fracasso do sistema deliberativo, incapaz de garantir a participação de todos
os grupos atingidos pela socialização crescente do homem moderno, e conseqüência indireta do sistema administrativo que proíbe todo procedimento de solução paritária dos conflitos.
Os três subsistemas mantêm uma interdependência direta que dá
equihbrio ao conjunto: o sistema administrativo repele as decisões para um
nível tão elevado que o sistema deliberativo se isola cada vez mais dos problemas que criam conflitos entre grupos de cidadãos. Governo e parlamen(*) Préfets, no original (N. da T.).

54

to tornam-se impotentes. Mas quanto mais o sistema deliberativo se aproxima do sistema administrativo, mais lugar ele tem que deixar ao sistema
extralegal cujas violências levam a reforçar o sistema administrativo e_imP:·
dem qualquer progresso em matéria de participação e de descentralizaçao
das responsabilidades. L. Sfez nota enfim que o equilíbrio entre os três
subsistemas de Crozier depende em particular do ritmo das mudanças
sociais e econômicas: quando a mudança se torna regra geral numa sociedade cujo ritmo de crescimento efetuou um salto qualit~tivo, o equ~1'bri? de
conjunto torna-se discutível pois o sistema extralegal so pode reagrr a situações de crises excepcionais.
Mas, segundo L. Sfez, as concepções de Crozier também contesta~ a
mono-racionalidade cartesiana: ele quer explicitamente acabar com o raciocínio tayloriano do one best way ( escolhida uma finalidade, s~ exis~e um
único caminho para realizá-la). Ele preconiza uma nova rac1onah~ade:
"Quanto mais avançamos no conhecimento dos parâmetros que definem
um campo de ação, menos precisamos ser rígidos na definição de um problema e podemos mais conseguir aceitar que os meios não e~tejam sep~ados dos fins e que a vida mais racional é a que compara conJuntos de fms-meios"0 3).
Quais são, porém, no entender de L. Sfez, os limites desse tipo de
análise? Não consistem no recorte do campo político em "sistemas" organizacionais nem nos modos de relação entre sociedade e aparelhos de Estado mas s~ na ausência de críticas de ideologia. do "progresso". "Crozier
fal; muito de resistência à mudança, mas não fala da mudança em si. Isso
porque explicar a mudança leva a romper com ~ábit~s ~e fazer previsões;
significa romper com valores liberais que Croz1er assimila tanto que nem
procura explicitá-los"0 4). Não é o caso, todavia, segundo L: Sfez,_ de
todos os discípulos de Crozier. Assim, no estudo de J. C. Thoemg e Fnedberg, La création des directions départementales au ministere de ~ 'Equipement< 15): "A caminhada para a multi-racionalidade parece aqui completa. . . para Thoenig ... o êxito dos altos funcionários não re~id~ tanto ~o
fato deles ocuparem postos políticos, parapolíticos ou eco_nom1~s -:-- seJa
no setor público, seja no setor privado - que lhes permitem inflmr nas
decisões, mas reside nos próprios componentes da organização e da ideologia profissional do corpo de funcionários ao qual pertencem. .. " (p. 5). A
(13) L. Sfez, op. cit. , p. 231.
(14) Ibid., p. 233.
(15) Paris, CSO, 1970; offset.

55

crítica da ideologia da racionalidade e do progresso é para L. Sfez um elemento capital da análise de Thoenig; uma das provas que ele invoca para
isso é esta citação do autor: "As próprias noções de racionalidade e de
racionalização não são muito nítidas nem sólidas em matéria de urbanismo.
A cidade é essencialmente uma questão de relações entre múltiplos grupos
e de afrontamento entre perspectivas antagônicas. Ora, se os engenheiros
das Ponts(*) querem ser tidos pela sociedade local como árbitros e como
representantes da síntese entre diversos grupos e interesses em confronto,
devem-no em boa parte à capacidade de racionalização que lhes é atribuída
ou da qual se julgam portadores" (p. 288, op. cit. ). Donde a conclusão de
L. Sfez: "se ... outras pessoas podem ter outra concepção da racionalidade, reflexo de uma outra posição no tabuleiro das estratégias, se todas as
racionalidades podem sobrepor-se . . ." é sinal de que J. C. Thoenig tem
uma concepção sistemática e multi-racional; ele eliminou ao mesmo tempo
a linearidade, o progresso e a eficácia(l 6). No entanto ele se contenta,
segundo Sfez, de "constatar sem praticar" essa multi-racionalidade; descobrindo "racionalidades locais justapostas", a equipe de M. Crozier não
revelou a homogeneidade fundamental que liga essas racionalidades particulares, ''jogo i"acional, processo decorrente do inconsciente", o que teria
exigido, segundo Sfez, a utilização da semiologia, da cibernética, da psicanálise, ao passo que "as análises da escola de Crozier são feitas num único
nível: o nível sociológico sem grande aprofundamento, sobretudo de
ordem psicanalítica" (1 7).
Veremos adiante o modelo teórico que nos propõe L. Sfez. Num
primeiro tempo, vamos só examinar o segundo aspecto de sua crítica sobre
a teoria da decisão proposta por Crozier: o problema da liberdade dos indivíduos na sociedade burocrática.
Segundo L. Sfez, há três determinações da "liberdade", no modelo
de Crozier(l 8 ). Primeiro, a autonomia individual, "ciosamente guardada
através de uma hierarquia e centralização rígidas. Quanto mais as relações
forem desligadas do real (recusa do confronto por meio da utilização de
regras anônimas), mais a autonomia será conservada". A liberdade é também possibilidade de decisão: se ela for reduzida por causa da rigidez e das
estruturas separatistas e hierárquicas, os jogos de adaptação e de inovação
(*) Ponts et Chaussées, serviço público encarregado principalmente da construção e da manutenção das vias públicas (N. da T.).

(16) Op. cit., p. 235 .
(17) Op. cit., p. 235 .
(18) lbid., p. 288.

56

pessoais são ainda assim possíveis, mas serão o oposto de uma estratégia
que dá segurança. Esses jogos de inovação atrapalham, com efeito, o grupo
dos pares e ninguém tem, de fato, interesse em que um dos membros exerça uma atividade que possa perturbar o sistema de competição e de favoritismo no interior da organização. A inovação acha-se aí bastante refreada e
cerceada. A liberdade é enfim o poder que existe "na medida em que a
insegurança é o lote comum". O poder nasce de situações de incerteza:
dispõe de "poder" o indivíduo ou o grupo que controla uma fonte de
incerteza, seja por sua perícia tecnológica, seja por aceder a informações
privilegiadas.
Como situar essa concepção de liberdade em relação ao modelo
clássico cartesiano? Para L. Sfez, os indivíduos atores de Crozier não são
os "sujeitos" da decisão cartesiana, mas sim categorias sociais. Ainda aí
Sfez reconhece o estatuto científico dos estudos crozierianos, por afastarem as prenoções da representação espontânea.
Essas categorias definem-se pelo lugar do indivíduo na organização,
não se trata pois do "clássico sujeito livre, o da metafísica e da religião",
mas o sujeito não é de todo eliminado já que tem o sentimento de liberdade, sentimento esse irredutível e vividoO 9).
Pode-se aqui completar a crítica de L. Sfez com a - mais central de M. Castells ( que L. Sfez aliás retoma explicitamente). Perguntando a
Crozier: "Quem são os atores que decidem? Podem ser definidos por si,
sem referência ao conteúdo social que exprimem?", M. Castells( 20) nota,
com efeito, que todo o modelo explicativo de Crozier baseia-se, no fundo,
no postulado filosófico segundo o qual é preciso finalmente privilegiar a
liberdade do homem que permanece, qualquer que seja sua situação, um
agente autônomo capaz de negociar sua cooperação( 21).
A análise crítica de L. Sfez termina constatando a ausência quase
total de teoria da mudança em Crozier: na medida em que a crise, "solução
francesa", bloqueio dos círculos viciosos burocráticos, não é para Crozier
uma verdadeira mudança, pois pode ser imediatamente recuperada no interior do sistema num outro nível de bloqueio, Crozier só propõe como solução a prática da liberdade que se analisa numa aprendizagem institucional
(19) lbid., p. 289 .
(20) M. Castells, "Vers une théorie sociologique de la planification urbaine",
Sociologie du travai/, 4, 1969, pp. 413 e segs.; e La question urbaine, Maspero, 1972,
p. 315.
(21) M. Crozier, "Pouz une analyse sociologique de la planification française",
Revue française de Sociologie, VI, 1965 , pp. 147-163.

57

do face a face< 22 ). "Por raciocinar apenas em termos de organizações e de

com a aparência institucional; mas isso significa, como diz L. Sfez, que sua
visão das organizações remete sem cessar ao sistema social no seu conjunto(26)? (o grifo é nosso, J. L.). Seria negar, como nota justamente mais
adiante L. Sfez, a redução - voluntária - efetuada por Crozier dos atores
sociais a categorias organizacionais, o que exclui qualquer análise em termos de classes sociais(2 7). Além disso, seria negar que, em seus últimos trabalhos, quando os sociólogos do CSO remetem às mudanças da estrutura
social,· fazem-no essencialmente com referência a uma mudança tecnológica, quer se trate de urbanização(2 8) ou de industrialização(2 9).
Em resumo, e este é o primeiro ponto, assim como seria falso dizer
.que a sociologia das organizações não considera as relações sociais, já que
justamente ela se define pelo fato de estabelecer uma relação entre a administração e os "grupos em conflito no interior de um sistema social"(3 O),
assim também parece-nos objetivo constatar que:

indivíduos inseridos em categorias administrativas", Crozier "não consegue
examinar o processo social fora do modelo cultural francês que extraiu de
suas análises sobre a sociedade burocrática. Ora ... esse modelo só pode
explicar o estilo de certas decisões - as decisões auto-adaptativas do sistema. Ele não indica ... a mudança nem a multiplicidade dos possíveis"(23).
Se fizemos questão de reproduzir fielmente a análise crítica de L.
Sfez é porque ela nos parece ter ao mesmo tempo tocado na ruptura real
entre as prenoções do senso comum e as categorias usadas pela sociologia
das organizações, assim como designar alguns dos pontos em que o modelo
de Crozier esbarra com noções pré-críticas que ele retoma incólumes, sem
passá-las pelo crivo da análise científica.
Dizemos deliberadamente "alguns" dos pontos, porque nos parece
que L. Sfez omite certas aporias importantes da sociologia das organizações e ao mesmo tempo reduz injustamente a contribuição do conjunto de
trabalhos do CSO ao "modelo burocrático" proposto por M. Crozier em
1964. Baseamo-nos principalmente num dos últimos trabalhos do CSO, Ou
va _l 'administration française(24), para mostrar que, a nosso ver, certas pesqmsas quebram o quadro teórico inicial e abrem novas perspectivas à análise do aparelho de Estado francês.
Primeiro ponto: a crítica de L. Sfez parece-nos parcial, incompleta,
na medida em que aceita, sem criticá-las, uma série de noções-chave usadas
pelo modelo crozieriano. Trata-se essencialmente das noções de "sistema",
"disfunção", "desviância", assim como das relações entre sistemas (justaposição-distância entre conjuntos independentes). Ora, essas noções não
são inocentes, "ingênuas": provêm explicitamente da sociologia funcionalista clássica e, no plano epistemológico, do que se poderia chamar um
racionalismo mecanicista. Ao aceitar estas noções sem criticá-las, L. Sfez
limita profundamente tanto o alcance de sua crítica da decisão quanto a
sua própria capacidade de propor um modelo de explicação verdadeiramente alternativo. É fato, e já o sublinhamos, que ao opor à ideologia vivida da racionalidade linear cartesiana a função latente de representação dos
grupos de interesse( 25), a sociologia crozieriana não pode ser identificada

ela reduz os grupos sociais a grupos corpora tistas;
ela reduz o modo de relação de "representação" entre administração
e sociedade a uma relação de exterioridade entre dois sistemas fechados e independentes.

A EXPLICAÇÃO CROZIERIANA DA MUDANÇA
NA ADMINISTRAÇÃO FRANCESA

Três novas "tendências" são observadas por M. Crozier na administração francesa:
uma parte da elite dirigente não tem mais fé nos valores tradicionais
sobre os quais se baseava o "círculo vicioso burocrático";
a função pública passa por uma crise de recrutamento em favor do
setor privado;
(26) L. Sfez, op. cit., p. 226.
(27) CT. L. Sfez, ibid., pp. 288-289. "Crozier não raciocina em termos de for-

(22) L. Sfez, op. cit., p. 289.
(23) L. Sfez, op. cit., p . 290.
(24) Paris, Ed. d'Organisation, 1974.
.
(25) Ou va l?dministration française, op. cit., p. 99: "A função política expl{.
cita de repres~ntaçao da população e a função latente e implícita de representação
dos grupos de mteresse da coletividade".

58

'

ças, mas... de organizações e de indivíduos inseridos em categorias administrativas.
Assim sendo, ele não consegue examinar o processo social fora do modelo cultural
francês .. ."
(28) Ou va l'administration française, pp. 76 e seg.: "Modele rural/modele
urbain d'administration territoriale".
(29) Ibid., p. 182, p. 140: "Les exigences du développement industrief'.
(30) Ou va l'administration française, op. cit., p. 171.

59

ao lado da administração tradicional, novos serviços e novos métodos
aparecem e conquistam pouco a pouco certos setores administrativos.
A explicação esboçada por M. Crozier fundamenta-se na seguinte
problemática:
"Doravante é possível. .. introduzir a problemática da mudança no
cerne da análise funcionalista por meio de uma pergunta - não a de procurar saber como os elementos do sistema mudam, mas como, em que condições e a partir de quais momentos, as tensões que até então tendiam a
reforçar o sistema do qual eram conseqüência, tornam-se muito difíceis de
suportar e provocam o questionamento desse sistema ou sua transformação"(31). Como explicar essa brusca inversão da função das tensões no
sistema? Para M. Crozier, apesar de uma alusão - pouco explícita - à
"margem de manobra" entre os diferentes níveis da realidade - logo, à
relativa "indeterminação" do sistema administrativo - são essencialmente
as transformações do "meio" que explicam as transformações do aparelho
de Estado: "Se sempre há repercussão no sistema todo de uma mudança
efetuada num único nível, essa mudança motora podle acontecer em cada
um dos diversos níveis; especialmente as mudanças, que se verificam na
ação sob a pressão de injunções do meio, podem, por sua vez, repercutir
sobre os valores profundos. Uma aprendizagem social ou institucional
pode ser desenvolvida no nível da práxis... "(32).
Em outros termos, a possibilidade de uma mudança social está, para
Crozier, ligada a duas premissas:
Premissa 1: Sempre há uma grande margem dle manobra entre os
diferentes níveis de um sistema social, sobretudo entrie o nível - consciente - dos atores individuais e coletivos e o nível "profundo, inconsciente"
dos valores culturais que determinam o conjunto dos comportamentos de
uma dada sociedade histórica.
Premissa 2: Graças a essa "distância", alguns indivíduos, grupos
sociais, organizações... podem ser receptivos às mudanças exteriores do
meio (mudanças tecnológicas, novas técnicas de comunicação nas "grandes
organizações modernas") e "propagarem" wn novo estilo de relações sociais
o qual, por sua vez, vai modificar os "valores profundos" herdados do
passado.

(31) Socio/ogie du travai/, 3/66, número especial: L 'Administration face aux
problemes du changement; M. Crozier, Crise et renouveau dans l'administration française, pp. 227 e seg.
(32) Op. cit., p. 229.

Nota-se logo que estas duas premissas supõem:
o postulado cartesiano da liberdade individual: mais do que nunca a
aprendizagem de novas relações face a face implica que "o homem
permanece, qualquer que seja sua situação, um agente autônomo
.
capaz de negociar sua cooperação"( 33);
o postulado de uma relação de exterioridade entre Estado e sociedade, como entre os diversos níveis da sociedade assimilados a "sistemas" autônomos. A "tensão" como a "disfunção" ou a "desviância"
são conseqüência desta superposição sistêmica - herança direta do
pensamento funcionalista.

Mas, para serem eficazes, estes dois postulados têm que ser inseparáveis: não há mudança sem distorção entre sistemas; não há distorção eficaz
sem aptidão dos atores colocados no nível de uma destas distorções para
receber a mudança "vinda de fora" e para propagá-la nos diferentes subsistemas.
O fato é que esse modelo explicativo choca-se com uma contradição
inerente à sua própria estruturação: com efeito, como provar que a mudança "recebida" e propagada por um grupo social colocado "à margem" do
sistema burocrático não será absorvida e, por fim, aniquilada pelo sistema,
como aconteceu até aqui com as "crises" periodicamente suscitadas pela
própria esclerose burocrática?
É o próprio M. Crozier quem assinala que o sistema burocrático francês "não pode corrigir-se em função de seus erros. Ele tem tendência constante a fechar-se sobre si. .. os funcionários franceses vivem de fato lutando
contra as conseqüências de uma inadaptação da administração à realidade,
que, através dessa própria luta, eles ajudam a manter e a desenv~lv_er.
Enfim, visto que toda adaptação local é sempre considerada com~ paliat~vo
provisório, como urna distorção dos princípios, imposta pelas crrcunstancias e não corno experiência ou tentativa de reforma capaz de trazer progresso, a mudança só pode advir quando a soma de erros e de inadaptação
se torna tão considerável que ameaça, senão a sobrevivência, pelo menos o
equfübrio do conjunto do sistema. A mudança toma então a forma de uma
(33) M. Crozier, "Pour une analyse sociologique de la planification française_",
Revue française de Sociologie, VI, 1965, p. 14 7. CT. também o artigo citado de Soczologie du travai/, 3/66, p. 235: ''Toda organização moderna apóia-se de fato ~da vez
mais na boa vontade de seus membros (o grifo é nosso, J. L.), sobre sua capacidade de
ádaptação e de inovação, sobre sua aptidão a cooperar entre si". Cf., também, Ouva
l'administration française, op. cit., p. 18.
-

60
61

crise que abala o conjunto do sistema mas mantém seus princípios e sua
rigidez"(34). Reforçando as tradicionais reações de resistência, o reformador levado pelo sistema ao autoritarismo carismático é "pouco eficaz pois
age geralmente às cegas; os reformadores devem esconder-se de todas as
partes interessadas para escapar a suas pressões; será difícil para eles controlarem suas informações"(3 5).
"Se o sistema não dá liberdade de ação para ninguém, nem mesmo a
seus diretores" ( 36), não se pode então adotar a conclusão cínica de que
"de fato nada mudou, a não ser o modo como os dirigentes do sistema
justificam suas decisões", e de que a ilusão tecnocrática de "critérios racionais" de decisão fora de qualquer contato passa a substituir a tradição aristocrática do reformador autoritário de outras épocas(37)?
De fato, os aspectos fundamentais da mudança permanecem sem
explicação:
Porque a "fé"(38) dos dirigentes nos valores tradicionais desapareceu
ou desapareceria para dar lugar ao seu contrário? Como explicar que os
contatos - as "pressões" - de um sistema definido como "meio" sobre
um outro sistema fechado - o sistema institucional - podem ora reforçar,
ora enfraquecer o sistema institucional? Se a fé burocrática dos dirigentes
era ilusão necessária ao funcionamento do sistema,. como pôde ela gerar
uma "fé" diametralmente oposta - tecnocrática?
A resposta procura usar todos os recursos do modelo mecanicista de
sistema: fazendo intervir a variável temporal (uma evolução, uma progressão também de tipo mecanicista) pode-se explicar que, sob o efeito repetido dessas "fricções" e dessas "tensões", o sistema acabe ficando "desgastado", deteriorado, enfraquecido(3 9). Na medida em que ele havia ficado
confundido com o sistema social, segundo a análise crozieriana, pode-se
então perguntar como o que o alimentava, o que lhe permitia funcionar
(as crises, as tensões) faz com que hoje ele se enfraqueça. Incapaz de expli(34) M. Crozier, Sociologie du travai/, 3/66, op. cit., p . 232.
(35) /bid., p . 236.
(36) Op. cit., p. 240.
(37) /bid., p. 247.
(38) "A fé burocrática (o grifo é nosso, J. L.) dos dirigentes do sistema é
elemento indispensável, pelo menos a longo prazo, ao bom funcionamento do sistema... Constata-se em quase toda parte que é possível, na administração francesa,
exprimir idéias e eventualmente fazer experiências que teriam sido chocantes há dez
anos atrás", ibid., p. 240.
(39) Op. cit., p. 240 .

62

car a mudança no sistema institucional e até num sistema social cuja ideologia dos atores é prisioneira dos "valores profundos" da bur~cracia francesa, M. Crozier elimina a mudança e faz dela um dado exterior que age um
pouco como o "choque inicial", como a "causa primeira" cartesiana.
Que a "razão" incoativa se chame "mudança técnica" ou mudança
urbana .. . , as imposições teóricas inerentes ao modelo funcionalista obrigam-no a substituir a análise da mudança social pela "naturalização" da
mudança, em última instância inexplicada e inexplicável.
.
.
A freqüente referência à "complexidade crescente da sociedade
moderna" à necessidade dela desenvolver suas "funções de regulação", ou
à interven~ão econômica do Estado, fica de certo modo "exterior" à análise sociológica, simples "empurrão" teórico que ajuda a esc~nder um~
flagrante ausência na' ordem das razões funcionalistas. Com efeito, su~s_t1tuir a mudança naturalizada, considerada como um dado, por uma análtse
dos determinantes reais das mudanças que se verificam na sociedade e no
Estado francês supõe uma ruptura radical com o modelo que pôde servir
para explicar parcialmente certos aspectos estáticos do aparelho de Estado
francês antes das convulsões dos anos 1950-1960.

2. Uma nova prática sociológica em contradição com a teoria funcionalista

Gostaríamos de mostrar como, no nível da prática científica concreta, os pesquisadores do CSO foram levados ao questionamento mais ou
menos radical do modelo de explicação crozieriano. Parece-nos que, nesse
sentido, a pesquisa mais avançada é a de Erhard Friedberg sobre "Le ministere de !'Industrie et son environnement"< 40 >.
À primeira vista, os instrumentos conceituais do pensamento funcionalista (sistema, relações entre sistemas autônomos, equiltbrios, r~:aç~es
homeostáticas, etc.) pennanecem inalterados e veremos as consequenc1as
disso quanto à própria teorização da nova prática científica adotada .. ~as
não se pode negar O essencial que consiste, para nós, no fato da estabihd~de do fenômeno burocrático francês ser analisado não como a reproduçao
(40) Relatório de pesquisa DGRST, CSO, 1973, Microfiche AUDIR, Paris,
Hachette, 1973, e sobretudo Ou va l'administration française, cap. V; "Administration et entreprises", op. cit., pp. 101-140, que comentaremos aqui.
63

eMetee•
f armai e indefinida de um sistema auto mantido mas - em parte - como a
configuração transitória de um processo histórico( 41), configuração que
desaparece quando muda o processo social que ela reflete.
De dado natural "exterior" de certa forma à análise sociológica, a
mudança torna-se objeto de uma análise dinâmica, enquanto a estrutura
burocrática se torna uma forma histórica transitória. Desta vez são as "mudanças profundas alterando a paisagem econômica da França" que "transformam tanto o papel como as funções do Estado no desenvolvimento
econômico do país"( 42 >; e "os modos de inteivenção econômica do Estado não são o produto apenas do aparelho administrativo, de suas estruturas
e de seu funcionamento internos. Eles só podem ser compreendidos se
forem relacionados com a estruturação, com os principias de organização
e com as práticas do mundo dos negócios"<4 3).
Na origem dessas mudanças está a supressão das barreiras protecionistas que cercavam a economia francesa. O efeito sobre a estruturação do
mundo dos negócios é a: "Afirmação progressiva da empresa oligopolística,
e mesmo monopolística, aumento do seu poder de dominação, o que
provoca a hierarquização e a unificação mais acentuada do mundo industrial em torno de alguns pólos que o estruturam e o organizam cada vez
mais"(44).
Essa concentração do poder econômico traz como conseqüência o
questionamento dos papéis e funções das organizações profissionais - e
sobretudo dos sindicatos de ramos - como representantes tradicionais
"corporatistas" das firmas: "Uma tal evolução ... reforça singularmente
as tensões e contradições inerentes à dupla face do papel sindical: manter
a coesão corporativa através da defesa coletiva e não diferenciada do estatuto dos indivíduos membros, por um lado, e, por outro, garantir a promoção dos interesses econômicos diferenciados das empresas membros"(45).
... Com efeito, "a tomada de poder e o fortalecimento progressivos das
grandes firmas levam-nas a abandonar um pouco os sindicatos por ramos
(41) Lucien Seve, "Méthode structurales et méthode dialectique" La Pensée
135, outubro de 1967, p. 88: "Para o método dialético, a estrutura, qu~ por trás d~
sua esta~ilidade relativa não passa de configuração transitória do processo, tem, dentro de si, sob a forma de contradição motora interna, a necessidade de sua própria
transformação".
(42) Ouva l'administratwn française, op. cit., p. 102.
(43) Jbid. , p. 103.
(44) lbid., p. 127.
(45) Jbid. , p. 127.

e,,.... · ,ee.,,e

ara concentrar esforços e ação em outro nível da estrutura sindical: o das
. • . .
r· · · "<46 >,. º
P
grandes uniões profissionais e o das mstanc1as mterpro 1ss10na1~
que conduz a um novo modelo de represent~çã~ e~tre o m~nd? mdustnal
e O Estado, modelo que privilegia as negociaçoes ·informais drr~t~s ent~e
dirigentes dos grandes grupos econômicos e dirigentes da admlillstraçao
estatal<4 7) . Enfim, a9 transtornar os equilíbr~os de poder .~~tr: segment_os
administrativos, a liberação das trocas ocaszona consequenczas tam~e':1
importantes para a estrutura interna e para o funciona":,ento da admznzstração. Ela muda a natureza de seus instrumentos de açao e transfarma os

.
objetivos de sua ação"< 48 >.
o Estado vai ter que "maximizar os efeitos estruturantes de suas
intervenções através da instalação de um princípio de dominação do q~l
os grandes grupos são os instrumentos natur~is.: . O q~e. o le:a a defmrr
operações que excedem o quadro estrito do d1re1~0 adm1mstrat1vo e para a
realização das quais ele vai contar de modo especzal com os grandes grupos
. d
·t . •'(49)
industriais que quase sempre aJu a a constz uzr
.
A burocracia igualitária e tutelar não seria portanto o produto do
"patrimônio cultural", dos "valores profundos"(SO) qu~ emanam dos
cidadãos-indivíduos franceses; ela é, de modo bem prosaico, o produto
historicamente situado de um mundo econômico fechado, pouco conc~~trado, onde a unidade econômica da empresa desaparece por trás das prra-

1
1
\

rnides sindicais estanques.
.
Mesmo as grandes empresas não tinham nenhu~ intere~se e~ d:scu~
tir essas estruturas profissionais e estatais corporatlstas e 1gu~itar1stas.
"no quadro de uma França fechada para a concorrência internac1on~, elas
dominavam com facilidade a estrutura profissional; elas não p~ec1savam
dela nem para eventuais serviços, nem para o contato necessáno com os
poderes públicos. Mas ao mesmo tempo elas obtinham inúmeras vantagens
dessa estrutura profissional, a começar pela proteção que elas lhe garantiam contra um questionamento muito violento das relações de força em
seus setores . .."(51). Em outro sentido, a entrada da França no Me~~ado
Comum, a concorrência das grandes empresas estrangeiras - ~urope~as e
sobretudo americanas _ "obrigam pouco a pouco o mundo mdustnal a
(46) Jbid. , p. 129.
(4 7) Jbid., p. 118.
(48) [bid. , p. 130.
(49) Jbid., p. 138.
(50) Jbid., p. 114.
(51) Jbid. , p. 114.

65
64

reestruturar-se em torno de um princípio de desempenho ... de competitividade no mercado"(52) , e as grandes empresas a reorganizarem sua
gestão, privilegiando sua unidade econômica em detrimento das divisões
sindicais ou setoriais.
A análise de Friedberg é relevante ao demonstrar a capacidade que o
conceito de "reflexo organizacional" tem para explicar não apenas a mudança interna de uma organização, mas também, simultaneamente, seus
pontos de clivagem, suas tensões.
P. Grémion e J. P. Worms acusaram-nos quando introduzimos o
conceito de "reflexo ativo" na sociologia do Estado, de termos assim
introduzido uma "visão monolítica":
"t como se Lojkine considerasse nula e inexistente a diferenciação
organizacional do Estado ... De tanto conceber o Estado como puro
instrumento de um único segmento da sociedade civil, acaba-se por não ver
que ele também é cada vez mais aberto aos conflitos do seu meio.
"Cada grupo social mantém com o Estado relações específicas. Mas
ele nunca as mantém com o Estado como um todo. As relações são mediatizadas pelo aparelho administrativo, aparelho administrativo esse cada vez
mais diferenciado"(5 3).
Também, mais recentemente, Pierre Grémion assim definia o modelo
marxista: "Nega a autonomia do aparelho de Estado e vê, pelo contrário
(o grifo é nosso, J. L.), na burocracia, um reflexo das relações de classe"(54).
Parece-nos que, em sua prática científica, o estudo de E. Friedberg
prova que é possível usar o conceito de "reflexo ativo" sem com isso suprimir a autonomia e a diversidade do aparelho de Estado. Ele prova ainda
mais: se não for feita a ligação da análise do Estado com a da estrutura
social que ele exprime, não se consegue explicar todas as transformações,
todas as tensões e contradições que nele surgem.
P. Grémion e J. P. Worms reduzem erroneamente esta "refração" ou
"representação" estatal a uma relação termo a termo entre uma fração de
classe ou uma camada social e um único segmento estatal.
E. Friedberg prova, ao contrário, que tal tipo de relações Estado-classes sociais está historicamente ultrapassado; que o aparecimento da
(52) lbid., p. 125.
(53) Debate sobre o artigo de Jean Lojkine, "Pour une analyse marxiste du
changement social", Sociologie du travai/, 3/69, p. 274.
(54) Ouva l'administration française, op. cit., p. 172.

66

dominação monopolista reflete-se por uma relação direta grandes empresas-totalidade do poder de Estado(55). Para E. Friedberg, a liberação das
trocas e a concentração do poder econômico acarretam "uma maior unificação da ação do Estado . .. por um lado, ela se concentra e se especifica
cada vez mais em torno de uma série de operações exemplares engendradas
como 'golpes' irreversíveis e não repetitivos; por outro lado, ela se integra
e se amplia na medida em que tais operações pretendem sempre mais
englobar a totalidade dos aspectos implicados"( 56).
No modelo burocrático dominante antes da abertura de nossas fronteiras, "cada segmento estatal estava encarregado de um domínio de atribuição específico que constituía seu campo de ação privilegiado ... o que
mais importava a esses segmentos era manter sua própria capacidade ~e
ação face às iniciativas ou tentativas de usurpação"(57); bem ao contráno,
a nova estruturação do capital monopolista francês substituirá o "extremo
estilhaçamento" da ação e da estrutura estatais por um processo de unificação em torno de um "centro", o Ministério das Finanças:
"Do lado da indústria é por isso não tanto a profissão mas sim a
empresa, e principalmente a grande empresa, que se torna o interlocutor
pertinente do Estado; do mesmo modo, na administração, o Ministério das
Finanças toma-se o centro de negociação predominante e o interlocutor
desejado pelos industriais"( 58).
Porém, processo de unificação, ênfase da tendência à centralização
do poder e do aparelho de Estado, não significam absolutamente, para E.
Friedberg, unidade monolitica do Estado. Pelo contrário, ele mostra com
razão - e com muita argúcia - que a predominância de um novo modo de
relação Estado-empresas, se tende a unificar a política estatal, agrava ao
mesmo tempo as tensões e oposições entre dois tipos de intervenção estatal
e, correlativamente, dois tipos de aparelhos administrativos: por um lado,
um aparelho que liga diretamente grandes grupos industriais e poder financeiro de Estado; por outro, um aparelho de controle tutelar e corporatista
que compensa sua perda de domínio por um papel ampliado de "representação" dos interesses do capital não monopolista:
(55) E. Friedberg fala , com efeito, da interação entre dois conjuntos organizados: o sistema administrativo e o sistema industrial (p. 103), o que significa, por isso
mesmo, reconhecer, a cada um, um princípio de unidade.
(56) Op. cit., pp. 130-131.
(57) Op. cit., p. 107.
(58) Op. cit., p. 135.

67

"Para compensar essa perda de poder e para, assim mesmo, conservar
a atenção da clientela habitual (as burocracias setoriais), acabarão por
apoiar-se cada vez mais nessa clientela ... procurando conservar o capital
de influência delas ... graças a uma defesa cada vez mais estreita de seus
interesses... Tornando-se assim defensoras e porta-vozes dos segmentos
'esquecidos' do aparelho industrial, das vítimas abandonadas pela evolução
do contexto econômico e das orientações prioritárias do Estado, elas vão
assumir de modo sempre mais explícito e ativo o papel de 'amortecedores'
das rupturas econômicas, gerindo da melhor forma os desequilíbrios e as
tensões que as mudanças aceleradas das estruturas industriais não deixam
de provocar"(59).

disso, a política estatal é ainda descrita em termos psicologistas de "decisões"(61) , Mas, acima de tudo, por falta de um adequado aparelho conceituai, E. Friedberg tropeça, como M. Crozier, no problema da mudança, da
passagem de um modelo de organização administrativa para um modelo
que rompa radicalmente(62) com o anterior. A dificuldade onde esbarra
sua análise aparece logo na contradição entre as noções às quais remete a
descrição da natureza da mudança ("ruptura radical") e as que usa na sua
tentativa de explicação (progressão linear(63) de acordo com o modelo
mecanicista de evolução). Modelo mecanicista e fixista da mudança - pré-hegeliano - que procura reduzir a mudança qualitativa a uma sucessão
linear de unidades descontínuas ("cada vez menos", "cada vez mais").

O reflexo da relação de classes e, no caso, da dominação exercida
pelos grandes grupos monopolistas não implica absolutamente uma "visão
monolítica rudimentar, simplista" do Estado; E. Friedberg mostra, ao contrário, que a unificação do aparelho de Estado e a ligação direta de seu
novo centro com os grandes grupos econômicos(60), longe de suprimirem
toda diversidade da organização administrativa, polarizam a oposição de
dois tipos de aparelhos administrativos, oposição que reflete a luta entre o
que ele chama os "esquecidos" do aparelho industrial (PME, etc.) e os grupos econômicos dominantes.

Enfim, se E. Friedberg refere-se muitas vezes ao conceito de "representação" ou de expressão(64) para falar das relações entre aparelho de
Estado e "sistema" econômico, o paralelismo estrito que ele observa entre
mundo industrial e mundo estatal leva-o a colocar num mesmo plano o
econômico e o político, concebidos não como uma "base" e uma "superestrutura" mas como dois sistemas "planos" evoluindo num espaço geométrico homogêneo. Por isso, a mudança "motora", se for explicitamente
econômica (a abertura do mercado, a concorrência ocidental. .. ), permanece exterior ao mundo social como ao mundo político : ela os "pressiona"
da mesma forma que o estímulo behaviorista ou o "empurrão" cartesiano:

Apesar de toda a sua riqueza heurística, o estudo de E. Friedberg
permanece limitado por sua subordinação teórica ao modelo conceituai
funcionalista: vimos, de fato, que tanto o aparelho de Estado como as relações sócio-econômicas são descritos em termos de "sistemas" autônomos,
ligados por uma "interação" que coloca num mesmo plano, dá o mesmo
"valor", à força do determinante econômico e à força do determinado
político ( cuja ação de retorno "iguala" a ação do "sistema" social). Além

(59) Op. cit., pp. 132-133.
(60) Pode-se até pensar que a descrição de Friedberg chega ao reconhecimento
de um "mecanismo único Estado-monopólios" quando declara: "Os modos de intervenção econômica do Estado ... devem pois ser analisados enquanto resultado da
interação entre dois conjuntos organizados - 'sistema' administrativo e 'sistema'
industrial - que têm, cada um, finalidades e lógicas de ação próprias mas que são, ao
mesmo tempo, profundamente interdependentes na realização de seus respectivos
objetivos" (op. cit., p. 103). Veremos mais adiante que nosso acordo sobre a idéia de
um "mecanismo único" Estado-grandes grupos dominantes não implica, pelo contrário, uma mesma concepção nem da natureza real desses grandes grupos, nem do modo
de relação entre os dois elementos desse mecanismo único.

68

- Ela não é inerente à própria estrutura social, e fica portanto, em
última análise, inexplicada e inexplicável: por que "bruscamente" uma
abertura de nossas fronteiras? Por que "pouco a pouco" o mercado e os
imperativos de rentabilidade se impuseram à indústria francesa? , etc. A
mesma indeterminação quanto às relações Estado-grandes grupos econômicos dominantes: como falar, ao mesmo tempo, de "interdependência"
igualitária entre dois sistemas autônomos e de administração que se torna
(61) Cf. p. 105, por exemplo.
(62) Op. cit., p. 123.

(63) "Injunções sempre mais fortes", "passa-se progressivamente para um
mercado mais autônomo" (p. 123); "cada vez mai:r é em torno (da empresa) ... que
se organiza o mundo industrial. A maior pressão do mercado aberto obriga, de fato,
pouco a pouco o mundo industrial a reestruturar-se... "(p. 125).
(64) Por exemplo, p. 123: "As mudanças nas modalidades de organização e de
ação, tanto do aparelho de Estado quanto dos meios industriais, como em seus modos
de interação são a pura expressaõ desse fenômeno (um mercado aberto, com exigências próprias de rentabilidade, etc.)".

69

"muito mais vulnerável e permeável às pressões ( do seu meio de intervenção)"(65)?
Preso numa "verdadeira ·engrenagem da subvenção. .. (Plan Calcul,
Concorde, Fos.. . )", vendo diminuir "sua margem de ação e de negociação
à medida que aumentam os desafios"(66), terá de fato esse aparelho de
Estado um poder de ação sobre os grandes grupos igual à pressão que estes
exercem sobre ele? Organizador da nova dominação exercida por esses grupos econômicos(6 7>, o aparelho de Estado não pode ser considerado como
parceiro ou como sistema autônomo. Deve-se então perguntar se, mesmo
na fase histórica anterior - a da predominância do "modelo burocrático"
-, o igualitarismo regulamentar e a legitimidade do Estado, "garantia
tutelar dos equihbrios econômicos e sociais básicos"(6 8), não eram antes
uma ilusão ideológica - difundida e entretida pelo próprio Estado - do
que a realidade. E. Friedberg deixa entrever isso(6 9), mas não analisa as
relações reais entre, de um lado, universalidade e igualdade regulamentares
e, de outro, a dominação econômica das grandes empresas.
É verdade que ele mostra bem como as grandes empresas francesas se
serviram, em proveito próprio, da estrutura profissional e administrativa
setorizadas(70); mas, a rigor, não se percebe em quê as pequenas empresas
também não se aproveitavam desse sistema. Em outros termos, E. Friedberg não mostra de que modo a "máscara tutelar e igualitária" pôde de
fato agir não como meio de "equilibrar" pequenas e grandes empresas ou
de paralisar a concentração econômica mas sim como instrumento de seleção em favor dos grupos mais sólidos. Ora, veremos mais adiante, o processo de concentração econômica nos anos 50, mesmo antes do tratado de
Roma, é uma realidade e a ação do Estado a seu respeito não tem nada de
neutro.
Todas estas reservas não devem esconder o que a análise de Friedberg
tem de novo em relação aos postulados crozierianos: não só as relações
sociais não são aí identificadas com um "tecido coletivo" ou com uma
(65)
(66)
(67)
(68)
(69)

Op. cit., p. 140.
Op. cit., p. 130.
Op. cit., p. 138.
Op. cit., p. 121.
"Uma tal intervenção do Estado nos negócios industriais baseava-se
essencialmente no direito que lhe assegurava a unidade e a legitimidade, o que era
garantia da exterioridade - pelo menos aparente (o grifo é nosso, J. L.) do Estado,
em relação às estruturas de poder dos meios patronais" (op. cit., p. 122).
(70) CT. p. 114.

70

estrutura ecológica ou tecnológicaO l) onde se repartiriam e equilibrariam
ad aeternum as estratégias corporativas dos indíviduos livres, mas a atual
predominância dos grandes grupos econômicos está claramente ligada às
transformações do aparelho estatal. Este, aliás, não fica reduzido ao modelo abstrato de uma organização estilhaçada em segmentos autônomos - de
cujo modelo Friedberg mostra a relatividade histórica. Enfim, a realidade
da mudança no aparelho de Estado não é subestimada já que Friedberg fala
de "mudança radical", enquanto Crozier só fala de mudança futura, hipo-

tética e parcia/(72).
Poderiam aqui acusar-nos de "forçar" um pouco a oposição entre o
modelo crozieriano e as atuais práticas científicas dos pesquisadores do
CSO: E. Friedberg não insistiu, de fato, na especificidade do seu campo de
análise, onde a mudança é mais acentuada do que em outros campos(73)?
Vamos no entanto procurar mostrar que, mesmo se as divergências não são
tão fortes como no estudo de Friedberg, as atuais pesquisas de P. Grémion(74) e J. C. Thoenig(75) também conduzem implicitamente ao questionamento dos postulados funcionalistas iniciais.
Ao relativizar histórica e espacialmente o consenso entre figurões
locais e funcionários territoriais - consenso descrito por J. P. Worms no
artigo "Le préfet et ses notables"(76) -, P. Grémion põe em discussão um
dos terrenos favoritos onde teria podido dest,nvolver-se o modelo burocrático crozieriano; ao mostrar que "o par harmonioso formado pela organização. burocrática e pela comunidade local, característico do mundo rural,
tende a desagregar-se ou a desaparecer no modelei urbano de administração
(71) M. Crozier, Ou va l'administration française, op. cit., p. 221: "As transformações internas da sociedade francesa, e especialmente.. . a passagem de um modelo de civilização rural para um modelo de civilização urbana".
(72) Op. cit., pp. 222 e 223: "As transformações internas e essas pressões
externas impõem ao aparelho administrativo francês tensões extremame1'te consideráveis... Pode-se portanto formular a hipótese de que ele vai entrar - e de que até já
entrou - numa longa e profunda crise de renovação ... A encenação de mudança
radical que vai permitir a implantação de um novo modelo de gestão do tecido coletivo, modelo esse mais adaptado, parece ter que ser a[a!tada. .. A reflexão prospectiva
leva-nos pois naturalmente a hipóteses intermediárias: a quebra parcial do modelo
conservador".
(73) Ouva l'adminimationfrançaise, op. cit., p. 103.
(74) Principalmente "L'Administration territoriale", in: Ou va /'administra·
tionfrançaise, op. cit., pp. 76-99, e "La concertation", ibid., pp. 166-186.
(75) L 'Ere des technocrate!, Paris, Ed. d'Organisation, 1973.
(76) Sociologie du travai/, 3/66, pp. 249-275 .

71

territorial" ele desfecha um rude golpe na universalidade e na permanência
do "fenômeno burocrático". Sua universalidade é negada pela ausência de
"consenso social", base indispensável da conivência administrador regional.figurões locais; sem falar explicitamente de luta de classes, P. Grémion
insiste contudo no caráter "conflituoso" do meio urbano: "A defasagem
entre os canais tradicionais de formação das decisões coletivas e o desenvolvimento urbano leva à formação de novos grupos cuja ação não adota o
sistema de valores institucionalizado entre o Estado e as coletividades
locais"(77).
O modelo crozieriano perde também seu caráter perene, na medida
em que P. Grémion o situa historicamente:
"Esta primeira configuração de interação ( consenso entre os funcionários territoriais e as elites locais) corresponde a um modelo rural tal
como existia no fim da década de 5 O"( 7 8). Mas "esse equilfbrio foi progressivamente perturbado com a fase de expansão regional que se esboça
no fim da década de 50 e que aumenta no início da de 60. A política de
descentralização industrial e a política de equipamento do território adotadas pelo Estado e por certas coletividades locais reunidas em comissões de
expansão provocam uma série de mudanças"(79). Poderíamos di~cutir a
primazia causal atribuída à politica de descentralização industrial e não ao
fenômeno econômico em si - a nova divisão espacial das atividades nos
grandes grupos industriais em via de reestruturação. Mas, para nós, o importante é notar o processo de desagregação do modelo crozieriano, na
medida em que a realidade sociológica não entra mais em suas categorias
de análise. Como Friedberg, P. Grémion mostra o aparecimento de um
novo sistema político-administrativo local fundado ao mesmo tempo sobre
um reforço do executivo local e sobre a criação de novas instâncias locais
do executivo central (missões regionais, OREAM, GEP) cuja ação se desenvolve à margem dos processos normais da "democracia representativa" e
entra em contradição com "os comportamentos e valores do funcionário
territorial"(80) .
Mas, sem dúvida, é na análise do "concertamento"(81) que P. Grémion vai mais longe , já que, segundo ele, o "transbordamento" das antigas
estruturas corporatistas, pela "implantação de sistemas de decisão mais fle(77)
(78)
(79)
(80)
(81)
72

Ouva l'administration française, op. cit., p. 87.
Op. cit., p. 90.
Ibid., p. 92.
Jbid., p. 95.
Jbid., pp. 166-186.

xíveis e mais soltos que passa por cima dos canais de tutela", constituí uma
evolução que invalida as hipóteses formuladas por Michel Crozier sobre a
aprendizagem institucional através da planificação de um n.o~o m~delo de
poder e de racionalidade. O que a observação da a~ão admm~stratlva mostra é a coexistência e a institucionalização progressiva de d01s modelos de
.
poder e de racionalidade"(82).
E mais: p. Grémion ainda estende o campo destes novos sistemas
de decisão liberados das imposições do modelo tutelar e corporatista: eles
se implantam não só na política industrial mas também na política urbana(83) .
Último ponto, e bastante importante, P. Grémion acha que o modelo
"organizacional" é "pobre demais para possibilit3:1" .... a integração dos
fenômenos de representação na compreensão das racionalidades e das estratégias das unidades burocráticas"(84). Na medida em que, para ~e, "globalmente O aparelho administrativo do Estado aparece - na rela~ao ~e tutel~
- como instância representativa latente", na qual "cada orgamzaçao administrativa está orientada para um grupo social e cada grupo social é mais ou
menos articulado num segmento burocrático", não é o modelo "jurídico",
mas sim o modelo funcionalista da relação Estado-"sociedade civil" que é
posto em discussão: passa-se de relações de estrita exterioridade para uma
relação de tipo reflexo autônomo(85), mesmo se o autor o nega ... recusando o modelo marxista de reflexo - reduziC:c abusivamente por ele a modelo mecanicista de reflexo passivo. Contudo, a nosso ver, P. Grémion não
vai tão longe quanto Friedberg na superação do modelo crozi~riano, na
medida em que não se serve, fora do modelo tutelar, deste con~elto operacional· assim ele reduzirá a relação da administração com a sociedade a um
único' modo' de "representação": a representação tutelar. Para Friedberg,
ao contrário, o novo "modelo de decisão" vai refletir, exprimir, o novo
poder econômico instalado depois do trat~do .de. ~orna: é po~tanto qualquer instituição política - e não apenas a mstttmçao b~rocrátlca tutel~ e
corporatista _ que exprime a seu modo, de forma autonoma, as relaçoes
sociais.
No entanto, P. Grémion afirma explicitamente que uma adminis!ração _ e, portanto, não só a administração tutelar - "não é apenas um ms(82) Jbid., p. 181.
(83) /bid., p. 182.
(84) /bid., p. 171.
(85) Ibid., p. 172.

73

trumento de execução, nem mesmo um sistema de organização, ela é também uma instituição de representação", o que a nosso ver é uma ruptura
fundamental com referência ao modo de relação "sistêmico" implicado
pelo modelo "organizacional".
É verdade que Grémion procura não reduzir toda relação entre "sistema administrativo" e "sociedade civil" a uma "função de expressão
latente dos interesses corpora tistas", já que ele mostra justamente o aparecimento de um novo sistema administrativo rompendo com o sistema tutelar. Mas ele não vai até o fim da análise desenvolvendo, correlativamente,
as novas relações de expressão, de representação "sociedade civil-sistema
administrativo". Nesse ponto parece-nos que sua análise hesita entre procedimentos contraditórios:
- Ora ele fala de uma crescente contradição entre as redes de tutela
e as novas finalidades das unidades administrativas numa fase de mudança
social acelerada (op. cit., p. 175).
- Ora ele faz da relação de tutela fundamento "de uma defasagem
quase constante entre mudança social e mudança política" (p. 175). De
modo que não se sabe se estamos assistindo a um "transbordamento" marginal do modelo tutelar - que permaneceria dominante - (p. 181) ou, ao
contrário, a uma diminuição global de sua capacidade de regulação ou de
controle da sociedade francesa (p. 182), o que implicaria então a institucionalização de um novo modelo de poder (p. 181) e não uma "explosão
institucional rompendo as barreiras da representação" (p. 184), porque
então sempre haveria um único tipo de instituição, a instituição tutelar, e
não dois, como é postulado acima.
- Ora, enfim, Grémion opõe a função representativa da administração de tutela à influência reciproca, às relações "diretas" entre os que decidem no novo modelo(86); mas não será confundir a função de qualquer
administração ("representar" a sociedade e as relações de classes) com um
certo tipo de representação: a representação corporatista na administração
tutelar, representação que supõe um tipo muito especial de relações entre
os "grupos sociais" e o aparelho de Estado? Relações setorizadas, compartimentadas, onde a unidade do Estado desaparece numa multidão de segmentos autônomos estanques, enquanto as classes sociais ficam diluídas
em múltiplos estratos corporatistas.
Fica evidente que, nesse tipo de modelo "burocrático", não há possi(86) lbid., p. 182.

74

bilidade de relação entre um grupo social e o Estado "como totalidade".
Resta saber se se trata de uma lei universal, como pensavam Grémion e
Worms no debate de 1969(87) ou, ao contrário, de uma situação particular
própria a um dado período histórico. A nosso ver, o estudo de Friedberg
prova que a uma nova relação de classes corresponde um novo modo de
relação Estado-classes sociais, a predominância monopolista determinando
uma relação direta entre a fração economicamente dominante e um
aparelho de Estado tendendo para a unificação em tomo de seu centro
financeiro.
De fato Grémion constata que existe um novo tipo de relações Estado-sociedade, mas não o submete ao conceito de "representação", como se
não pudesse existir um modo de representação distinto da representação
tutelar e que seja justamente a representação da predominância de classe,
representação que explicaria tanto a crise da legitimidade estatal quanto a
necessidade que tem a organização estatal de se reestruturar em torno de
um centro em relação direta com a fração de classe dominante.
Ao contrário dos estudos anteriores, as pesquisas de J. C. Thoenig
sobre o conjunto dos funcionários das Ponts et Chaussées parecem ser a
validação completa do modelo crozieriano; de fato, na aparência, elas
demonstram perfeitamente a fecundidade dos conceitos-chaves determinando o "fenômeno burocrático" ("centralização" e "estratificação") não
apenas para analisar o passado (a administração das obras públicas nos anos
50), mas também para explicar as mutações atuais (a criação do Ministério
do Equipamento; a passagem da gestão da sociedade rural para a gestão da
sociedade urbana exercida pelo conjunto dos funcionários das Ponts ).
Longe de estar em via de regressão, o fenômeno do funcionalismo
continua sendo, de fato, segundo Thoenig, um fenômeno muito determinante na administração francesa: "Hoje, e mais ainda amanhã, a persistência da estratificação e do modelo de organização que ela induz parece
tornar bem mais lento o desenvolvimento da sociedade francesa ... a estratificação ... ainda vai continuar, pelo menos nos próximos anos, a manter-se e a ser reforçada apesar de tudo".
Quanto à "centralização" como dissociação na organização administrativa entre função de decisão e função de execução, de modo que cada
uma se torne o monopólio de um escalão(88) - aparece hoje como "o
(87) Debate sobre o artigo de Jean Lojkine, "Pour une analyse marxiste du
changement social", op. cit., Sociologie du travai/, 3/69, p. 274.
(88) J. C. Thoerug, L 'Ere des technocrates, op. cit., p. 144.

75

único remédio para a estratificação, antídoto e estímulo da estratificação
pelos grandes conjuntos de funcionários"(89). Eis o melhor modo de
sublinhar a permanência e a força do modelo de explicação crozieriano,
bem como sua universalidade se, como afirma J. C. Thoenig, o exemplo
da análise do conjunto dos engenheiros das Ponts et Chaussées - um dos
estratos hierárquicos e estatutários dos mais elaborados - "permite destacar uma série de traços que nos parecem característicos desse tipo particular de grupo que é um corpo de funcionários na administração francesa
em geral" . É toda a função pública que está empenhada "numa louca corrida: onde cada estrato procura se aproximar do tipo ideal representado a
seus olhos pelo funcionalismo"(90).
Contudo, examinados de perto, alguns fatos constatados por Thoenig contradizem, a nosso ver, a dupla hipótese da perenidade e da universalidade do modelo burocrático fundado no par centralização/estratificação.
Como Friedberg e Grémion, Thoenig nota, de fato, que "profundas
transformações surgiram a partir dos anos 50 nas relações entre Estado e
grupos sociais ... "; a centralização das funções de decisão não é apenas um
reforço da estratificação corporatista, se "ela traduz . . . uma ruptura sociológica entre a sociedade e os que deveriam representá-la: os habitantes das
cidades não se sentem defendidos nem pelos figurões que ainda são a
expressão de uma sociedade rural, nem mesmo pelos funcionários locais da
administração estatal que permanecem prisioneiros dos recortes setoriais
de suas atribuições"(91). Mas como falar então de controle onipresente e
todo-poderoso de uma tal administração sobre a sociedade, se os "parceiros sociais" que ela privilegia - os figurões, emanação do sistema rural só "representam a si mesmos. . . não dispõem de verdadeiras bases urbanas"( 92 )? Não se deve então definir a emergência de um outro tipo de
relações administração-sociedade e, conseqüentemente, a implantação de
uma nova estrutura administrativa mais de acordo com as novas relações
sociais? É o que Thoenig reconhece implicitamente quando nota na conclusão de sua obra: "Para tomarem decisões e para influirem sobre a realidade, os responsáveis do Estado renunciam progressivamente à ação regulamentarista e empregam práticas mais flexíveis. . . A planificação urbana
(89)
(90)
(91)
(92)

76

Op. cit., p. 279.

Ou va l'administration française,

op. cit., p. 45.
L'Êredestechnocrates, op. cit., p. 275.
Ibid., p. 191.

não é mais o produto de um código de urbanismo (será que alguma vez o
foi?, J. L.), mas sim o resultado de acordos mais ou menos explz'citos estabelecidos entre os dirigentes do aparelho de Estado, alguns interesses
econômicos e financeiros e um punhado de políticos locais. . . O Estado
seleciona alguns grupos econômicos e sociais que transforma em parceiros
privilegiados e com os quais exerce as arbitragens.
"Tais transformações traduzem-se pelo desenvolvimento em Paris,
junto aos responsáveis governamentais, fora dos aparelhos administrativos
tradicionais, de novas instituições e de meios humanos que levam em conta
as funções de concepção e de negociação. Os gabinetes ministeriais assumem dimensões desmesuradas; desenvolvem-se organismos de coordenação
entre administrações, etc. "(9 3).
Fizemos questão de citar quase integralmente esse trecho porque ele
nos parece em contradição com a hipótese de uma permanência do modelo
burocrático descrito na obra de Thoenig. Mas este trecho não está desenvolvido, fica isolado numa conclusão que, a nosso ver, não está de acordo
com o resto do estudo. Thoenig poderia objetar que os fatos novos que ele
indica não alteram em nada sua hipótese central, ou seja, que "hoje os
grandes conjuntos de funcionários são mais influentes e indispensáveis do
que nunca"(94), já que são eles que vão fornecer o "viveiro" dessas novas
instituições "decisórias": simplesmente mudaram de ofício; não são mais
os dirigentes em função executiva direta e não agem mais como especialistas. Transformam-se em negociadores e em homens do estado-maior"(95).
Mas sua função sociológica continua sempre a mesma? Indagar da perenidade do fenômeno de estratificação administrativa é a nosso ver primeiro
verificar a persistência da homogeneidade - postulada pela própria noção
de estratificação - entre a reprodução social da "cúpula" da pirâmide
administrativa e a reprodução social da base. Thoenig insiste, com efeito,
várias vezes, neste axioma que fundamenta toda a sua demonstração: "O
sistema de estratificação é induzido pela cúpula. Cada um fixa os olhos no
seu superior e procura tornar-se semelhante a ele. Por isso, as práticas de
reprodução pela base realizam-se sempre com um tempo de atraso em
relação à cúpula"( 96). . .. As grandes administrações não poderiam proceder assim se fossem as únicas a gozarem de tais privilégios. As camadas
(93)
(94)
(95)
(96)

Ibid.,
Ibid.,
Ibid.,
Ibid.,

p.
p.
p.
p.

275.
276.
276.
243.
77

médias e subalternas da função pública também estão presas na engrenagem. Os estratos de ontem são as castas de amanhã"(97) .
Ora, Thoenig desmente esse axioma quando analisa as profundas
transformações sobrevindas na função sócio-política das grandes administrações. A partir do momento em que elas abandonam suas antigas missões
- técnicas - para tornar-se uma elite social estreitamente ligada ao poder
central do Estado, passam a ser "autônomas" em relação à administração
tradicional", "não têm mais o suporte fornecido pelo aparelho administrativo"(98) . Não é reconhecer implicitamente uma brecha, um hiato entre a
função social da administração tradicional, saída para as "camadas populares e pequeno burguesas", e a das grandes administrações - meios exclusivos de recrutamento para os gabinetes ministeriais - que "gera um número
reduzido de privilegiados, independente de qualquer gestão de responsabilidades técnicas e administrativas"(99)?
Por não haver relativizado seu modelo teórico inicial, Thoenig acaba
fazendo generalizações e afirmações arbitrárias, totalmente desmentidas
pelos fatos. Enquanto, desde 1966, M. Crozier mostrava a crise de recrutamento na função públicaO 00), enquanto todas as estatísticas demonstram
a profunda desvalorização do poder aquisitivo dos agentes subalternos e
dos funcionários de nível médio da função pública, J. C. Thoenig postula
de modo totalmente arbitrário uma "irresistível atração" pelo conjunto da
função pública: "São as jovens gerações que mostram, afirma ele, uma fé
cega nas virtudes do sistema. Estão convencidas de que a função pública é
uma profissão de futuro e de que o estatuto de funcionário oferece perspectivas tentadoras"( 1 O1) .
Partindo da análise bem minuciosa e exaustiva de uma administração
particular - a administração das Obras Públicas e, mais precisamente, de
seus dois estratos superiores que são a administração das Ponts et Chaussées
e a dos engenheiros de Obras Públicas (TPE) - J. C. Thoenig procurou de
modo imprudente - sem testar suas afirmações - generalizar sua análise
para o conjunto do aparelho de Estado.
(97) /bid., p. 241.
(98) Ibid., p. 276.
(99) /bid., p. 276.
(100) Sociologie du travai/, 3/66, p. 239; entre as "novas tendências", M. Crozier assinalava, com efeito, "a desvalorização geral das funções administrativas na
escala de prestígio das prof'Lssões, e a crescente falta de interesse dos franceses pelos
empregos públicos subalternos outrora tão procurados".
(101) L 'Ere des technocrates, op. cit., p. 245.

78

Se há grande interesse pelo ingresso na administração das Obras Públicas, isso não significa que há grande interesse em ingressar na administração em geral, e o "contágio" que ele pôde observar entre o corporatismo
das Ponts et Chaussées e o dos engenheiros das Obras Públicas (TPE) não
implica necessariamente uma espécie de mimetismo geral, de alto a baixo,
do aparelho de Estado, entre todas as categorias de funcionários. Pode-se
perguntar, ao contrário, se o isolamento das altas administrações, tanto por
sua função social cada vez mais ligada às camadas dirigentes do Estado e da
economia, não transforma o antigo "estrato" superior do aparelho de Estado em uma "casta" separada da massa dos agentes do Estado cujas reivindicações e função social de simples executantes fazem com que eles se identifiquem cada vez mais com as outras categorias de assalariados.

II. Do funcionalismo ao estruturalismo.
A análise althusseriana do Estado

1. Os impasses de uma análise estruturalista do Estado:
O exemplo de M. Castells

Ao estudar a problemática elaborada por M. Castells para determinar ,
o campo teórico da planificação urbana002), Lucien Sfez teve o grande ·
mérito, a nosso ver, de mostrar o parentesco entre a aporia funcionalista e
a aporia estruturalista: a incapacidade de propor uma teoria da mudança.
Depois de haver lembrado os principais elementos da demonstração
de L. Sfez, poremos à prova sua validade em relação às obras posteriores
de M. Castells, bem como e sobretudo em relação aos dois autores a que se
refere explicitamente M. Castells, ou seja, L. Althusser e N. Poulantzas.
Para M. Castells, segundo L. Sfez, uma distinção capital deve ser feita entre
"estruturas" ( o sistema econômico, o sistema político e o sistema ideológico) e "práticas", as práticas sendo "as relações entre os diferentes ele(102) M. Castells, "Vers une théorie sociologique de la planification urbaine",
Sociologie du travai/, 4/1969, pp. 413 e segs.; L. Sfez, op. cit., pp. 291-296.

79

mentos e as diferentes estruturas" e os agentes "sendo apenas o suporte
dessas relações estruturais".

Segundo P. Birnbaum, nunca sabemos quem são os atores estatais.
Em Le 18 brumaire de Louis-Napoleon Bonaparte, "Marx distinguia um
lugar do político e procurava bem concretamente quais eram os representantes de cada uma das classes em conflito, de que modo agem, com que
fins, etc. Ele levava em conta ao mesmo tempo as estruturas e os atores.

Aqui a recusa quase total de atores é talvez o motivo que faz com que o
autor ( Lojkine) só nos fala do Estado sob uma forma reificada"O 07).
No debate que seguiu a publicação desse artigo, P. Birnbaum precisou sua crítica a Castells: "Na linha de Althusser que ainda recentemente
enfatizava o fato de que a história é um processo sem sujeito008), ou de
Poulantzas segundo o qual 'os agentes de produção são suportes de estruturas'O 09), Castells, em La question urbaine, concede pouca importância às
práticas dos atores ... seria difícil conhecer, a partir apenas da análise feita
por ele, o papel exato do pessoal político na proposta de renovação urbana
de Paris ... O Estado age em favor de seus próprios interesses, é apenas o
'criado' dos promotores ou então o 'aliado' do grande capital? Concedendo
pouco espaço à análise da ação própria do Estado, Castells não trouxe realmente uma resposta precisa a quem se interessa pela ação específica do
político; o pessoal político no cargo 'reproduz' simplesmente (ver a análise
mecânica do reflexo em sociologia do conhecimento) ou age deliberadamente para preservar também seus próprios interesses, melhorando a representação de sua clientela eleitoral? ... parece difícil admitir que o Estado
possa ao mesmo tempo 'dirigir' essa operação e contentar-se com a 'reprodução' . Ou bem ele 'dirige' e possui poder próprio que interessa muitíssimo à sociologia política; ou bem ele consegue, no máximo, facilitar a
'reprodução' e, em conseqüência, não 'dirige' mais ... "01 O).
A nosso ver, essa crítica, como a de L. Sfez, se suscita reais problemas - a análise da mudança, do Estado e dos atores políticos numa perspectiva estruturalista - permanece parcial, inacabada, na medida em que a
crítica como o método criticado apóiam-se em prindpios epistemológicos
comuns que já destacamos no modelo crozieriano, isto é, a noção funcionalista de sistema.
Se examinarmos de perto a obra fundamental de M. Castells, La
question urbaine, a crítica de L. Sfez e a de P. Birnbaum parecerão bem
caricaturais, na medida em que Castells procura pensar simultaneamente
funcionamento e transformação do sistema econômico, reprodução simples (repetição) e reprodução ampliada (desenvolvimento), defasagem parcial e contradição: "As regras de funcionamento do sistema urbano são

(103) Op. cit., pp. 294-295.
(104) Op. cit., p. 295.
(105) Revue française de Sociologie, julho-setembro de 1973, XIV, 3, pp. 336

(107) P. Bimbaum, op. cit. , p. 345.
(108) Lénine et la philosophie, Paris, Maspero, 1968, p. 76.
(109) N. Poulantzas, Pouvoir politil[ue et classes sociales, Paris, Maspero,
1968, p. 76.

(106) Mouton, 1972.

(110) P. Birnbaum, "Controverse sur le pouvoir local", Revue française de
Sociologie, XV, 1974, p. 259.

Ora, nota L. Sfez, "não se percebe como o código invariante do
econômico, no modo de produção capitalista, pode mudar algo já que,
cada vez que há dificuldades, há reestruturação dos elementos do sistema.
Recuperação e adaptação constante do sistema ... Castells não se pergunta
se no código capitalista não existem elementos que, por uma progressiva
tomada de consciência, cheguem um dia a mudar radicalmente o sistema . ..
Paradoxo de Castells: ele se situa como antípoda das idéias de Crozier, já
que efetua uma crítica ideológica, apoiando-se na invariância do código
econômico; chega, porém, ao mesmo ponto de impotência no que se refere
à mudança. Nos dois casos a sociedade está bloqueada003) ... ou então
diante do bloqueio determinista, o especialista da cidade se revolta ... Se
os aparelhos de Estado reproduzem as contradições e são incapazes, por
meio de suas decisões, de modificar o sistema ... resta ainda algo a fazer
no plano das 'lutas urbanas' ... revoltas práticas. .. soluções desviantes . ..
Em suma, quando se trata de fazer com que a máquina ande, é preciso sair
do determinismo não com a ajuda de conceitos, mas graças a uma prática.
A desviância considerada como elemento perturbador é então valorizada"(! 04), mas, segundo Sfez, a mudança permanece inexplicada e inexplicável mesmo dentro do sistema global de análise dos políticos. Crítica bastante grave porque chega a reduzir o estruturalismo a que M. Castells se
afilia a uma simples variação do funcionalismo; será isso fundado? Observa-se antes de tudo que esta crítica coincide com a de P. Bimbaum no seu
artigo "Le pouvoir local: de la décision au systême"005), crítica que ele
estende, aliás, ao conjunto dos textos marxistas de sociologia urbana,
inclusive ao nosso estudo sobre La politique urbaine dans la région parisienneO O6) .

e segs.

80

81

fáceis de determinar, porque não passam da especificação das regras gerais
do modo de produção. Assim, no capitalismo, o sistema urbano é um sistema onde há uma dominante(*) ... Dito isso, o esquema se complica quando é preciso reproduzir a lógica no nível dos subelementos e, sobretudo,
quando é preciso abordar não mais o funcionamento (reprodução) do sistema mas sua transformação. Porque deve-se então estudar o encadeamento
das contradições"( 111).
Mas a crítica de L. Sfez e P. Birnbaum torna-se pertinente quando
Castells expõe os meios de unir os dois pólos da análise sociológica. Ele nos
propõe, de fato, uma ruptura fundamental, absoluta - ruptura não justificada - entre dois procedimentos e dois níveis de análise: um procedimento
estrutural que pense o funcionamento do sistema e a análise de "situações
concretas" que permite perceber as contradições das "práticas", a luta de
classes e a transformação do sistema econômico. Estudar "o encadeamento
das contradições, isto é, a passagem de uma defasagem parcial para a condensação das oposições numa contradição principal ...", é, para Castells,
fazer aparecer novas regras estruturais, impossíveis de deduzir do simples
mecanismo de funcionamento e de sua reprodução ampliadaO 12).
Em conseqüência, não só a "reprodução ampliada" é reduzida ao
funcionamento, já que ela não permite pensar a transformação de uma
estrutura e equivale no fundo a uma simples variante da reprodução simples, mas, além disso, um hiato epistemológico é postulado entre a análise
"abstrata" das leis estruturais e a análise "concreta" do sistema de lugares
definindo atores e práticas sociais, os únicos capazes de mudar o sistema:
"Se nossa construção em termos de estrutura urbana permite pensar situações sociais, ela não consegue captar o processo de sua produção sem uma
teorização das práticas"( 113) .
Se compreendemos bem Castells, a contradição e a transformação
não estão pois no sistema, na estrutura, mas nas práticas, o que o leva a
recair nas distinções idealistas clássicas tanto em história como em sociologia (M. Weber), entre "a inteligência" dos determinismos sociais e a "compreensão" das "situações concretas" onde a "liberdade" e a "vontade" dos
atores podem manifestar-se. Assim, segundo Castells, "o princípio metodológico segundo o qual só a matriz estrutural ( onde há uma dominante) de
(*) À dominante, no original (N. da T.).
(111) M. Castells, La question urbaine, op. cit., p.
(112) Jbid.
(113) Jbid., p. 304.

82

304.

uma sociedade se torna inteligivel, mas que só a análise do processo político permite compreender uma situação concreta e sua transformação,
ultrapasse o par ideológico estrutura/acontecimento"0 14).
O impasse epistemológico fica ainda reforçado quando Castells, sem
resolver a dificuldade, tenta relacionar "práticas" com "estruturas". Ele
oscila então entre duas posições contraditórias:
- Ora, como vimos, ele opõe ordem das estruturas e ordem das
práticas como dois níveis de análise e dois objetos de reflexão fundamentalmente heterogêneos: "A organização específica das práticas produz efeitos autônomos ... que não estão contidos no simples desdobramento das
leis estruturais" ( 115) e não se pode deduzir da análise da estrutura urbana
suas leis de desenvolvimento e de transformaçãoO 16) .
- Ora Castells liga explicitamente a análise das práticas à da estrutura social. Assim, ele deduz da "articulação específica das instâncias de
uma estrutura social no interior de uma unidade (espacial) de reprodução
da força de trabalho"0 1 7), isto é, da análise dos elementos do sistema
urbano, combinações entre subelementos, "sistemas de lugares" ocupados
pelos "agentes suportes", diferenças explicitamente determinadas "segundo sua posição na estrutura social", que "explicam práticas sociais contraditórias e permitem transformações no sistema urbano"018).

1
í

Tomando também o exemplo da "compreensão" concreta da luta
política proletária, Castells afüma que é preciso começar "por desvendar a
estrutura do modo de produção capitalista e estabelecer as leis das relações
estruturalmente antagônicas entre detentores dos meios de produção e
suportes da força de trabalho, sem o que os movimentos sociais e políticos ... tornam-se mero lugar de brigas, expressão da intencionalidade dos
homens ... "(119). Mas se as práticas urbanas, como toda prática social,
são apenas a combinação dos elementos estruturais0 20), não se entende
por que a análise estrutural não nos levará até as práticas, mas "esbarrará",
ao contrário, como o reconhece Castells, "cada vez que se quer estabelecer suas leis de desenvolvimento e de transformação"( 121).
(114)
(115)
(116)
(117)
(118)
(119)
(120)
(121)

Jbid.,
Jbid.,
Ibid.,
Jbid.,
Ibid.,
Ibid.,
Ibid.,
Ibid.,

p.
p.
p.
p.
p.
p.
p.
p.

307.
307.
307.
299.
303.
307.
332.
307.
83

2. Os fundamentos epistemológicos do impasse estruturalista

lad

:ssa aporia epistemológica só pode de fato ser explicada pelos postuos o pensamento estruturalista, tais como foram sistematizados ela
~scola de Althusser, sobretudo em Pour MarxO 22) e Lire Le Capita/O ~3)
E verdade que essas duas obras precisam ser lidas levando em conta o mo.
m;;~o e~ qu~ ~oram escritas e o fato de seus autores já lhes terem
re icaçoes teoncas - que examinaremos ma1·s ct· t
.
ind"
, 1
.
a ian e -, mas achamos
~~rnsave exammar-lhes os pressupostos epistemológicos essenciais na
;e I a em qu~ serviram como modelo a muitas obras sociológicas declaraa~~nte marxistas, na área de estudo da relação entre Estado e classes
soc1a1s.

feit;

T_odo modo de produção, segundo Althusser e Balibar é a combina
f:ºd va)nada de três elementos (trabalhador, meios de produção, não-traba~
a or se~~do as _duas relações que pertencem à estrutura de todo modo
d_e pr~~uça~. rela?,ªº _de p~opriedade e relação de apropriação real. Esses
cmco 1~var1antes ev1denc1ados pela análise das formas da produção "pe tencem a estrutura de qualque
d d
r
reconstituir os diversos modos rd:;r~du:ã~roduifüd podem~s portanto
medida en endrar
.
· · · 0 emas ate, em certa
orma : d g d
assim modos de produção que nunca existiram de
fi
m epen ente
.
. . . ou ainda. . . dos quais· so- se podem prever as condiçoes gerazs, como o modo de produção socialista"(l 24)
d " Eis o que prej~dica as recentes análises de Althus~er onde ele pretene nunca haver cedido ao idealismo formalista delirante de uma produ d~ ~eal pela combinatória de elementos quaisquer. Marx fala da 'combi~ªa~
çao dos elementos na estrutura de um modo de produção M
b.
nação - "
. as essa com 1nao
e
uma
combinatória'
formal
Ror
l
d d . (l
...
exemp o nao se pode
. e uzzr ogo, pr<~ver) os diferentes modos de produção ;ossíveis, elo
J~go form.:!l ~as dife_rentes combinações possíveis dos elementos e, em;artlcular, nao e posszve/ construir assim a priori
d d
comunista"Cl 25).
'
· · · 0 mo O e produção
(122) L. Althusser,PourMarx, Maspero, 1966.
(123) L. Althusser, J. Ranciere p Macher
E B .
d ' ·
ey, · alibar, R. Establet, Lire Le
Capital Maspero 1965 u
Le Capital.
,
. saremos oravante a abreviação LLC para o título Lire
(124) E. Balibar, LLC, op. cit., t . 11, pp. 209 e 211. ,
(125) L. Althusser, Eléments d' t
··
"
.
Hachette, 1974, col. "Analyse"
62 O au ocrztU/_ue ( 'Strncturalzsme?''}, Paris,
' p. · ra, em LLC, Althusser declarava: "O concei-

Mas há uma categoria introduzida por Althusser, na linha de Marx,
que o afasta radicalmente da corrente estruturalista, ou seja, a "determinação em última instância". Essa "determinação em última instância" da
estrutura social pela economia não é a definição da própria especificidade
do materialismo histórico e de seu antiformalismo? Podemos pensar que
não, ao ver que para E. Balibar a determinação em última instância não
implica absolutamente que a economia seja a instância determinante em
todo modo de produção: "A economia é determinante pelo fato de determinar a instância da estrutura social que ocupa o lugar determinante ...
No modo de produção capitalista, acontece que este lugar é ocupado pela
própria economia; mas em cada modo de produção é preciso fazer a análise da 'transformação' ... (Assim) o modo de produção em certas sociedades 'primitivas' ou 'de auto-subsistência' determina uma certa articulação
da estrutura social onde as relações de parentesco determinam até as formas de transformação de base econômica"0 26).
Deixaremos aos antropólogos marxistas como Jean Suret-Canale a
crítica desse postulado posto em prática por etnólogos como C. Maillassoux027) ou Maurice Godelier, e que, no fundo, consiste em aproximar o
marxismo das posições epistemológicas defendidas por Lévi-Strauss. Para
nós o essencial está na possibilidade - entreaberta pela escola althusseriana
- de questionar o papel determinante da estrutura econômica (o que Marx
exprimia pela metáfora "base/superestrutura") e sobretudo de fazer da
esfera "política" a estrutura "dominante"; o que os próprios Althusser e
Balibar não fazem, mas que é feito, em certos estudos, por N. Poulantzas,
em nome justamente desse postulado epistemológico. Para isso, a escola
althusseriana efetua, a nosso ver, uma verdadeira substituição de conceitos.
A determinação da superestrutura ideológica, política, etc., pela base
econômica, é substituída, pelos althusserianos, pela combinação formal,
infmita, chã, entre várias "estruturas", "sistemas", "instâncias" ou "re-

to marxista de história baseia-se no princípio de variação das formas dessa combinação, .. " (op. cit., t. II, p. 153).
(126) LLC, op. cit., t. II, pp. 221-222. Cf. também L. Althusser, LLC, op.
cit., t. II, pp. 154-155; o conceito de "totalidade" dos níveis distintos da sociedade e
de seu tipo de articulação (p. 154) leva a fazer variar as determinações dominantes:
política, religião, etc. (p. 155).
(127) Cf. J. Suret-Canale, "Structuralisme et anthropologie économique", La
Pensée, número especial: "Structuralisme et marxisme", 135, outubro de 196 7, pp.
94 e segs.

84
85

·- "(128)

·

-

gioes
_ , cuJas relaçoes podem variar de acordo com a mesma lógica
das relaçoes entre elementos da "estrutura" econômica.
?~as conseqüências de primeira ordem decorrem dessa "retificação"
mecamc1sta de Marx:
1. O
hegeliano
· conceito
d
. de contradição interna
· é el;=;"
............a d o, o que
im~e _e
estruturahstas de conceitualizarem a mudança.
2
- O m?tv~d~?· o ato~ social, fica reduzido a "suporte de uma função
econ~m~c~ , o que impede que seja explicado o papel dos indivíduos
na His~on~,. sobretudo o fenômeno de "tomada de consciência"
revoluc1onana e de luta de classes.

?s

O ESVAZIAMENTO DO CONCEITO DE CONTRADIÇÃO INTERNA

, . É verdade que E. Balibar dedica um capítulo de Lire Le Capital à
anahse ~os textos de Marx sobre a contradição, porém, é para chegar à
conclusao de _que "a contradição está apenas nos efeitos, mas a causa não
s~ acha em sz m~sma dividida, não pode ser analisada em termos antagônicos. _A ~ontrad1ção não está portanto na origem mas é derivada. . . A
conexao mtern~ e necessária que defme a lei de produção dos efeitos da
estrutur~ :xcluz a contradição lógica. .. Igualmente: a causa que produz a
contrad1çao é sempre. um certo equifz'brio (o grifo é nosso , J . L .) , mesmo
quan do esse equil ibno é atingido por meio de uma crise"0 29)
. . Conseqüência: longe de constituírem em si um questio~amento dos
11:°1tes do m~do de produção, os efeitos interiores da estrutura de produçao tende_m a perpetuação do modo0 30): assim a c:rise econômica "manifesta o circulo no qual se move todo o modo de produção de um movimento imóvel"0 3l) . Ela pode ser, no máximo, uma das condições de um
outr~ :esultado, ex!erior à estrutura da produção0 3 2) . Reencontra-se aí a
opos1çao desenvolvida por Castells entre "estrutura" e pra't·1cas, pois
· a ana,
(128) Toda estrutura é uma "combinação de invanan·t
d 1
u " ·t
d 13
,,
es, e e ementos" ou
...~ sisialema e orças (LLC, op. cit., t. II, p. 204). Ora, " todos os níveis da estru..u .. soe
possuem a estrutura de u • d •
o ·
.
_
m mo o . . . u seJa, eles mesmos se apresentam
sob a forma de combznaçoes complexas específicas" (ibid. , p. 216).
(129) Ibid., pp. 299-300.
(130) Ibid., p. 301.
(131) Ibid., p. 301.
(132) Ibid., p. 303.

lise da luta de classes e das relações sociais políticas "não faz parte do estudo da estrutura de produção"0 3 3) . Ao passo que o modo de produção
reproduz indefinidamente as mesmas relações sociais0 34), por estar a
reprodução do modo assimilada à "determinação necessária do movimento
da produção pela permanência dos elementos iniciais no próprio funcionamento do sistema"0 35), a passagem de um modo de produção para outro,
por exemplo, do capitalismo ao socialismo, não pode portanto consistir na
transformação da estrutura por seu próprio funcionamento< 1 3 6).
De fato, a origem desta metamorfose decisiva que Balibar efetua nos
conceitos marxistas encontra-se em Pour Marx âe Althusser(l 37), sobretudo ao substituir pela noção de "sobredeterminação" o conceito hegeliano de "contradição".
Partindo de um célebre texto de Engels que distingue a determinação
em última instância (pela base econômica) das determinações específicas
da superestrutura, Althusser infere que a contradição marxista não é simples, como em Hegel - no sentido em que a base econômica determinaria
diretamente o acontecimento histórico -, mas sim complexa, sobredeterminada, no sentido em que haveria acumulação de determinações eficazes
( oriundas das superestruturas e das circunstâncias particulares, nacionais e
internacionais) sobre a determinação em última instância pelo econômico0 38).
"Sobredeterminação" que permitiria supor "a autonomia" das superestruturas em relação à infra-estrutura, sua "eficácia específica" e, em particular, nos países que passaram ao socialismo, a sobrevivência dos hábitos
burocráticos "apesar" do desaparecimento de sua "base" econômica. Em
conseqüência, a estrutura social no seu conjunto (base e superestrutura)
não pode ser pensada sob a categoria hegeliana de totalidade como "desenvolvimento alienado de uma unidade simples", mas como qualquer complexo que possui a unidade de uma estrutura articulada onde há uma
(133) Ibid., p. 303.
(134) Ibid., p. 272.
(135) Ibid. , p. 276 .
(136) Ibid., p. 278 .
(137) L. Althusser, Pour Marx, Paris, Maspero, 1966.
(138) Op. cit., p. 112. Cf. também LLC, t. II, p. 169: "Essa transferência de
um conceito analítico (tirado da psicanálise, J. L.) para a teoria marxista não foi um
empréstimo arbitrário mas sim necessário, já que nos dois casos trata-se do mesmo
problema teórico: com qual conceito pemtllr a determinação :reja de um elemento, :reja
de uma estrutura por uma estrutura".

86
87

dominant~0 39 ), Reencontra-se então a noção de "combinação" sistêmica
desenvolvida por E. Bal!bar, pura transposição das noções positivistas preP?~derantes na etnologia, na lingüística e na nova escola francesa de psicanálise.
A c?~tradição como princípio hegeliano de negatividade desapru;ece
em beneficio da "det~rminação desigual", da "sobredetêrminação"040);
0
m~to~ do desenv~l~ento histórico reside então na exteriorização do
econ~mico e do pohtico, como esferas ou sistemas autônomos ligados por
relaçoes de correspondência, defasagem, deslocamento, etc.

A REDUÇÃO DO INDIVIDUO A SUPORTE DE UMA FUNÇÃO ECONÔMICA

. . Sendo assim, a análise da estrutura social é a análise de um "sistema
obJetlvo regulado em suas determinações mais concretas pelas leis de sua
montagem e de sua maquinaria"0 41). Não há mais "fora" e "de t "
ne d t
. .
l'b
n ro '
m e ermlillsmo e i erdade "humana", já que a categoria ideológica de
~orne~ _ou de vontade individual cede lugar à de "atores forças, presos nas
1mposi~oe~ ~e um tex~o e de papéis dos quais não podem ser autores, visto
que a historia é, essencialmente, um teatro sem autor".
A análise da reprodução faz desaparecer até a aparência de "ato" iso!ªd~ _que O processo de produção possuía: um ato cujos agentes seriam
mdividuos transformando as coisas em condições determinadas.
Esses "indivíduos", essas vontades individuais não passam de "representant:s de classes", classes essas que são funções do processo global da
produçao; as classes sociais não são pois o sujeito desses processos· são ao
contrário, determinadas por sua forma. Suportes da estrutura, os' age~tes
do processo de produção não têm, conseqüentemente, nenhuma realidade
nenhuma determinação real fora de sua função, do lugar que lhes é desig:
nado na estrutura042).
Se o modelo althusseriano for desembaraçado de suas referências ao
(139) Op. cit., pp. 208-209.
(140) Op. cit., p. 220.
041) LLC, t. II, p. 177; cf. também Pour Marx, pp. 117-128 (análise da carta
de Engels aBloch em 21-9-1890 e da célebre metáfora do "paralelogramo de ,orças")
"
"
(~ 42) L. Althusser, LLC, t. II, p. 157: A estrutura das relações de produçã~
~eterm~ lugares e funções que são ocupados e assumidos pelos agentes da produ~ao que sa~ ª~,enas os ocupantes desses lugares na medida em que são os portadores
essas funçoes . CT. E. Balibar, LLC, t. II, pp. 270-271.

88

texto de Marx, ou seja, se os conceitos marxistas de contradição, luta de
classes, determinação em última instância, forem esvaziados do seu conteúdo próprio em favor da importação maciça das noções estruturalistas ( sistema, combinação de elementos invariantes, relações de correspondência,
defasagem, etc.), chegaremos a aporias idênticas às que L. Sfez assinalou a
respeito da sociologia funcionalista, com apenas esta diferenç_a: por invocarem o marxismo - logo, a luta de classes e a possibilidade de transformações revolucionárias de um modo de produção-, Althusser e seus discípulos tropeçam no determinismo produzido pelas próprias noções que eles
pensaram poder transferir para a problemática marxista.
Como, por exemplo, imaginar a "transição" de um modo de produção para outro, se é obstinadamente rejeitada a categoria hegeliana de contradição interna? Assim, "já que a passagem de um modo de produção para
outro não pode consistir na transformação da estrutura por seu próprio
funcionamento, isto é, em nenhuma passagem de quantidade a qualidade"(l 4 3), já que, contra a ideologia evolucionista, é preciso instalar a
história na pura sincronia, como ciência de modos de produção descontinua0 44), será então tentada a impossível transmutação do contínuo em
combinação de unidades justapostas ou, antes, de estruturas descontínuas:
"As próprias formas de passagem são formas particulares de manifestação
dessa estrutura geral. . . são portanto em si mesmas modos de produção"0 4 5).
Mas como a reprodução idêntica do mesmo mecanismo permitiu a
gênese de um outro modo de produção? Não há como responder e Balibar
é então obrigado a considerar essa gênese como um dado (a constituição da
estrutura é um "achado")046), para poder em seguida tratá-la de modo
plano, como uma estrutura, logo como algo descontínuo. Ele o reconhece
aliás: "o raciocínio do qual tracei o movimento fica na impossibilidade de
completar-se"0 4 7); mas a pirueta lógica constituída pela separação entre
a "estrutura" dissecada pela genealogia e "a história de sua formação"
"esmaecida" (!)048) não pode enganar por muito tempo: para imaginar a
transição, Balibar tem que partir de uma estrutura já dissolvida, escamoteando a explicação de sua dissolução!
(143)
(144)
(145)
(146)
(14 7)
(148)

E. Balibar, LLC, t. li, p. 278.
p. 257.
p. 278.
p. 290.
p. 290.
p. 290.

Jbid.,
Jbid.,
Jbid.,
Jbid.,
Jbid.,

89

Em sua obra recente, Cinq études du matérialisme historique049),
suas observações críticas, a respeito de Lire Le Capital, vão levá-lo a reconhecer explicitamente seu fracasso teórico:
"Introduzi uma aporia indefinidamente renovável relativa à formação desse novo modo de produção ou, melhor, a 'transição' a esse 'modo
de produção de transição' "(150).
Segunda dificuldade importante, enfim: já que os indivíduos são apenas suportes passivos das imposições de um sistema eternamente dominante, como explicar a luta de classes? Como explicar a ruptura de certos indivíduos com a classe à qual pertenciam, como foi o caso de .Marx ou Engels?
Como o conjunto dos membros de uma classe dominada pode chegar
enfim a libertar-se da hegemonia da classe dominante para tornar-se, por
sua vez, hegemômco?
A solução é um impasse: como a estrutura não encerra nenhuma contradição interna suscetível de dissolvê-la, como seus agentes-suportes não
têm nenhum grau de liberdade, é preciso analisar a luta de classes "fora"
da estrutura: "A análise dessa luta e das relações sociais políticas que implica não faz parte do estudo da estrutura da produção"0 51). E vai-se recorrer então, como mais acima para a transição entre dois modos, a uma
sobredeterminação (como a crise pode ser, se outras condições forem reunidas, ocasião de transformação - revolucionâria - da estrutura de produção(l 5 2)), sobredeterminação que não passa de uma indeterminação pois
não se pode mudar de conceito ou de registro explicativo no meio do
caminho.
Sem que ele o confesse explicitamente, parece que E. Balibar também tirou as conseqüências - parciais, vamos constatar - dessa segunda
aporia, visto que em seu último livro(l53) ele reconhece que tanto o estruturalismo quanto o evolucionarismo esbarram na mesma incapacidade
teórica de pensar simultaneamente modo de produção e luta de classes.
As representações "evoluciomstas" como as representações "relativistas" (tipologistas ou estruturalistas) da história, opostas na aparência,
mas simétricas, e ambas não dialéticas. .. surgem pelo fato de serem colocados separadamente dois problemas que, para Marx, são apenas um:
(149)
(150)
(151)
(152)
(153)

90

Paris, Maspero, 1974.
Sur la dialectique historique, p. 240.
LLC, p. 303.
LLC, p. 303.
E. Balibar, Cinq études du matérialisme historique, op. cit.

0

problema do caráter historicamente relativo de um modo de pro-

dução;
( 154 )
.
0 problema do papel da luta de classes na história. . .
Ora O autor reconhece que a tendência relativista estava "inegavelmente pr~sente em algumas de minhas formulações de_ Lire Le Ca~itaf
... reaçao a
(quase sempre sob uma terminologia .do tipo, estrutural1sta)
·
· t "(155)
'tendência' evoluciomsta na qual haviam caido muitos marxis as
.
Veremos adiante o que pensar da inversão teórica feita por Balibar ao
propor a superação da aporia da separação modo de produção/luta de clas156
ses pela identificação do modo de produção comª. luta de c~asses<
>.
Vamos por enquanto continuar até o fim a análise dos efeitos do modelo althusseriano sobre a prática científica, estudando o modo com~ a
sociologia política tentou empregá-lo. Faremos aqui referência essencialmente aos trabalhos de N. Poulantzas sobre o Estado capitalista, traba~os
que exerceram e exercem influência dominante sobre os estudos marxistas
no campo da política urbana.

3. A aplicação do modelo estruturalista à sociologia política

Em Pouvoir politique et classes sociales, podemos, v_er pela, ~rimeira
vez funcionar, "agir", o modelo althusseriano num domiruo empmco concreto: a relação entre Estado, estrutura econômica e luta de ~lasses nos países capitalistas europeus. Mas, se se trata dos me_smos conc~it~s que os que
foram expostos em Lire Le Capital, como explicar a op~siç~o entre Poulantzas e Balibar a respeito da relação estrutura econom1ca/clas_ses sociais(l 57)? Convém notar antes de mais nada que os postulados epistemológicos mais gerais de Althusser e Balibar são retomados sem alterações por
(154) Ibid., p. 241.
(155) [bid., p. 242.
(156) Ibid., pp. 179, 180, 245 e segs.
.
.
(157) Em Les classes sociales dans le capitalisme d'auj~u~d'hu1 (Pans,_ Le
Seuil, 1974) N. Poulantzas insiste bastante nas diferen~as es~.en_cum que o opo~1'.1n:1;
desde Pouvoir politique et classes sociales (1968) a Balibar: Diferenças essencm1s Ja
existiam entre Pouvoir politique. .. de um lado, e, de outJ:o, o texto, marcado pel~
economismo e pelo estruturalismo de Balibar: 'Les concepts fondamentaux du materialisme historique' em LLC (1966)", p. 15, nota 1.

91

Poulantzas; qu~r ~e trate da combinação de três invariantes que fundam a
e~tr~tu,:a economica, das relações de apropriação real e de propriedade da
~ist~ç~o entre determinação em última instância e dominação de ~ma
mst ancia, ~ue~ se trate do primado da noção de sobredeterminação e de
:~rrespondencia/d~fa-~em en~e sistemas autônomos (níveis, regiões, etc.),
enfim da substitmçao dos 'sujeitos que fazem a história" pelos "agen!es-~uportes da estrutura" (p. 67), pode-se afirmar que Poulantzas endossa
1~terra~ente as teses de Lire Le Capital. Porém, 0 campo político não
tinha sido desbravado _pelos autores de Lire Le Capital e era preciso realme~te ~~ov'.11" a fecundidade dos conceitos althusserianos num dos terrenos
mais_ dificeis, nesse: justamente, onde o estruturalismo esbarra nas duas
aponas f~nd~mentais que indicamos: o caráter estático das "estruturas" de
r~produçao sunples e a alergia fundamental que a determinação mecanicista dos "s~portes" tem para revelar a luta política entre classes antagônicas e os fenomenos revolucionários.
_ N. Poula~tzas pensa matar dois coelhos de uma só cajadada usando a
noçao althussenana de "sobredeterminação"· segundo 1 1 d
·
tir:
,
e e, e a eve perffil1) introduzir ui:ria autonomia e defasagens entre todos os níveis da
est~utur~ soci~ (ec~nômico, político, ideológico): 0 movimento his~~nco v:11'á _ent,~o ~ao da contradição interna da estrutura ( concepção
evol~cio~is~a reJeitada), mas da não-correspondência, da distorção
entre mstancias ou níveis·

2) p~ese:_Var a ~~ssibilidade 'de uma luta de classes, e sobretudo da orgamzaçao ~0I_1t1ca das classes, pela separação radical entre "estruturas"
(o _ec~nom1co, o Estado, o direito ...) e práticas de classes, como
d~1s s~tem_as totalmente autônomos. Assim será evitada toda determmaçao ~ir~ta pela estrutura da prática de classe: o determinismo
será _supnmido graça~ à sobredeterminação das relações estrutura/
/práhca, sobredetermmação definida por Poulantzas como "defa _
. sistemas.
.
sa
gem ,, ent re dois
É. aqui que s~ deve medir o alcance exato da divergência que O opõe
a E. Balibar ~ respeito da confusão estruturas-práticas.
~m Lzre Le Ca~ital, o objetivo específico de Balibar - definir os
conceitos fundamentais do materialismo histórico - leva-o a , f
breves alusões ao "pol1'f ,, É 0
so azer
tr . _
ico ·
que faz em sua análise do conceito de
con. adiçao, que reduz à noção de correspondência: é o texto ue ºá
analisamos onde Balibar tenta quebrar o caráter estático, inerte, da e:rut~-

ra que reproduz indefinidamente, inclusive nas crises econômicas, seus
próprios limites, ao introduzir, fora de, no exterior da estrutura, as determinações políticas, a luta de classesO 5 8). Ele refere-se explicitamente à
análise althusseriana da "unidade" de uma conjuntura e da "sobredeterminação".
Mas, em outro trecho, ao tentar explicitar os diferentes modos de
correspondência entre níveis da estrutura, Balibar coloca no mesmo plano
a correspondência entre nz'veis da estrutura e a correspondência entre duas
práticas:
"No que precede já encontramos essa articulação sob duas formas:
por um lado, na determinação da 'última instância' determinante da estrutura social, que depende da combinação própria ao modo de produção
considerado; por outro, como a determinação dos limites nos quais o efeito de uma prática pode modificar uma outra da qual é relativamente autônoma ... a f arma particular da correspondência depende da estrntura das
duas práticas. .. Podemos generalizar esse tipo de relações entre duas instâncias relativamente autônomas que se encontra, por exemplo, na relação
da prática económica e da prática política, sob as formas de luta de classes,
de direito e de Estado. Não encontramos também neste caso uma relação
de transposição, de tradução ou de expressão simples entre as diversas instâncias da estrutura social. Sua 'correspondência' só pode ser pensada na
base de sua autonomia relativa, de sua estrutura própria, como sistema das
intervenções desse tipo de prática em outro ... "(15 9).
Balibar não diz nada além disto: na relação entre práticas como na
relação entre níveis da estrutura social não se trata de transposição simples,
direta, mas de correspondência entre instâncias autónomas. Poulantzas
deforma ou, pelo menos, interpreta unilateralmente essa proposição reduzindo a comparação epistemológica de Balibar (podemos generalizar esse
tipo de relações) a uma confusão entre dois "domínios" da realidade (prática e estruturas).
É verdade que nesse texto epistemológico onde o campo político só
é analisado a título de exemplo, alusivamente, Balibar não diz se a luta de
classes é ou não do "mesmo domínio" que as estruturas.
O primeiro texto que analisamos - onde ele define a luta de classes
como exterior à estrutura (o comentário do capítulo do Capital sobre a
acumulação primitiva) - tanto quanto o comentário crítico que ele acaba
(158) LLC, op. cit. , t. II, p. 303.
(159) E. Balibar, LLC, op. cit., t. II, pp. 319-320.

92
93

d~ apr:se~tar nos Cinq études levam a pensar que de fato não há nenhuma
dzverg~~Clll ~e~/ entre Poulantzas e Balibar nesse ponto. Resta ver que
beneficio teonco Poulantzas tira realmente de sua distinção. Na verdade
Poulant:as faz um~ dupla distirlção: por um lado, distirlção entre o sistem~
de relaçoes que articulam os níveis de uma estrutura social e o sistema de
r~lações que articulam as diferentes práticas de classe060)· por outro lado
distirlção "ontológica" de certo modo entre o domínio d;s estruturas e ;
das práticas0 6 1).

A classe social, diz Poulantzas, é "um conceito que indica os efeitos
do conjunto das estruturas, da matriz de um modo de produção ou de uma
formação social, sobre os agentes que constituem o seu suporte: este conceito indica portanto os efeitos da estrutura global no domínio das relações sociais. Nesse sentido, se a classe é mesmo um conceito, não designa
uma realidade que possa ser situada nas estruturas: designa o efeito de um
conjunto de determinadas estruturas, conjunto que determina as relações
sociais como relações de classe"C164) .

. ~obre º. primeiro ponto, é bem verdade que Poulantzas quase não dá
prec~soes teón,:as: em nenhum momento fica bem especificado O que diferencia ~s ~elaçoes entre níveis estruturais e as relações entre práticas, visto
que o umco termo explicativo usado nos exemplos que devem "ilustrar"
seu ~~nceito é a pal~vra "defasagem", empregada indiferentemente para
qualificar tanto a nao-correspondência entre níveis estruturais quanto a
não-correspondência entre estruturas e práticasO 6 2). Assim essa defasagem _"de_ segundo grau" parece-nos bem pouco pertinente e apóia-se de
fat~ m~~rra~ent,~ na segunda distinção pela qual Poulantzas opõe "estruturas a práticas . Para ele, trata-se de opor radicalmente relações sociais,
l~ta de classes e_ classe~ sociais, de um lado, a estruturas, de outro. o objetlvo é claro: fugrr da cilada funcionalista que considera inexoravelmente as
estruturas como determinantes das práticasO 6 3) . Vejamos como Poulantzas desenvolve sua demonstração.

Observemos já de início o caráter pouco rigoroso de uma defrnição
onde a função do conceito não é a de determinar, mas de indicar; não é o
que Althusser chama, em Pour Marx, um "conceito-sinal" cuja função é
mais ideológica que científica? Mas o mais grave é o caráter tautológico da
própria definição; o que se deve entender por efeitos da estrutura sobre
seus suportes? A nota 14 da mesma página 69 define esses efeitos como a
existência da determinação da estrutura nas classes sociais. Não apenas, por
conseqüência, o "efeito" da estrutura remete ao seu modo de determinar
os suportes - sem que fique explicitado de que tipo de determinação se
trata - mas além disso os efeitos são definidos ... com referência às classes
sociais, que eles deveriam justamente determinar! O mesmo círculo vicioso
aparece no procedimento que consiste em remeter a "classe social" às
"relações sociais": as classes sociais são "os efeitos da estrutura global no
domínio das relações sociais" (p. 69), enquanto as relações sociais "designam a distribuição dos suportes em classes sociais" (p. 66)06 5 ); como
observa com acerto Christine Glucksman, "se toda classe exprime os efeitos das estruturas, como se pode individualizar umas classes a título de
grupos autônomos com interesses distintos, senão recorrendo à análise
estritamente econômica dos suportes (o que Poulantzas recusa)?"0 66 ).

El~ .proc~ra evitar definir as classes sociais como "sujeitos" ou grupos sociais reais se_m .por isso reduzi-los a variações de combinação dos
elementos ou dos Il!ve1s da estrutura social.
0_60~' "O que deve ser considerado aqui é que se trata mesmo de dois sistemas
de relaçoes (N. Poulantzas, Pouvoir politique et clas.,es sociales Paris Maspero
1968, p. 94).
'
'
'
. (161)_ Ibid., ~- 92: "B~li~ar coloca o problema como sendo o de duas formas
de _art1cu!açao dos diversos ruve1s, sem no entanto distinguir que se trata de fato de
art1culaçoes compreendendo dois domínios diferentes" (c:f. p. 90).
. _062) Ver P~incipalmente pp. 94 e 95. Aliás, Poulantzas parece cair em cont~diçao quando afuma que as relações entre estruturas e práticas de classe "são de
tzpo
semelhante ao das relações de cada um desses domínios" (p . 99) . Ma s nao
- ' ·
.
e isso
Justamente o que Balibar dizia e que Poulantzas havia censurado? . ..
_
(163) "Se não se ~ode referir as práticas a um suJjeito comum, não é porque
soo _as estruturas que praticam - a luta econômica não e' a 'aça-0 • da s re la çoes
- de produçao, tanto quanto a luta política não é a 'ação' do Estado. " (op ·t
94
nota 40).
··
· cz ·• p. ,

94

j

1

De fato, propondo a existência de dois sistemas autônomos, o das
estruturas e o das práticas, Poulantzas cai numa dupla aporia: ele não consegue fundamentar teoricamente a relação entre esses dois sistemas e, para
dar um conteúdo a classes sociais reduzidas às "práticas de classe", "acaba
recaindo na sobrepolitização que ele critica no historicismo esquerdista, ou
(164) Ibid., p. 69.
(165) Mesmo jogo de empurra entre "práticas" e "estruturas". Depois de
haver oposto estruturas e práticas, Poulantzas define essas práticas como "sistema
estruturado (sic) que reflete as relações das instâncias sobre os suportes" (p. 94).
(166) C. Glucksman, "Vers une conception nouvelle de la politique", L 'Homme et la Société, 11, Anthropos, janeiro-março de 1969, p. 203.

95

recaindo n~ 'praticismo', conformando-se com pensar a política em termo
apenas de situação revolucionária"0 6 7).
s

em segundo grau "na medida em que o próprio campo das práticas está
circunscrito pelos efeitos das estruturas como limites"O 7 3).
Não seria então impossível definir a prática política e a conjuntura
como um campo de variações cujos limites seriam produzidos apenas pela
estrutura econômicaO 7 4), na medida em que Poulantzas parece colocar,
no mesmo plano, determinante e determinado - determinação das práticas
pelas estruturas e das estruturas pelas práticas: "A eficácia da estrutura
sobre o campo das práticas está portanto limitada pela intervenção, sobre a
estrutura, da prática política". Interação entre sistemas autônomos ou
entre forças de igual peso? Parece que o círculo no qual se chega aqui é a
conclusão lógica da oposição althusseriana entre a determinação em última
instância e a dominação de uma instância: a lei matricial da combinação e
do peso específico dos diferentes níveis, instâncias - e aqui além do "sistema das práticas" - funciona na realidade, forçosamente, como uma combinatória formal em que a estrutura econômica não é mais, como para Marx
e Engels, um fator dominante e determinante em relação aos outros níveis
da estrutura social. Há aliás uma certa contradição em, de um lado, opor-se
à simplicidade da totalidade hegeliana e, de outro, reduzir a complexidade
da totalidade marxista a simples jogo de defasagem entre sistemas autônomos cuja estrutura é idêntica. Em Pour Marx, Althusser ainda falava de
"estrutura complexa onde há uma dominante". Um deslize epistemológico
imperceptível levou-nos de Lire Le Capital a Pouvoir politique et classes
sociales onde a referência à determinação econômica é ou negativa ( a
determinação econômica não explica tudo ... ), óu ausente, quando a classe
social é identificada pura e simplesmente como uma força socia/0 7 5),
como se a existência de uma classe social pudesse ser confundida com seu
modo de representação político!
Poulantzas vai procurar distinguir "a organização de uma classe
como condição de sua presença por efeitos pertinentes no nível político,
como condição portanto de sua existência enquanto classe distinta" e "sua
organização específica como condição de seu poder político de elas-

~ão é evidente que a introdução de um "novo conceito" a "te .
?ºs efe~~os pert_inentes" repensada a partir do que Althusser ch~a a "c:~~
JUn:ur~ ' pernuta a Poulantzas escapar de fato a essas aporias como dº
Chnstme Glucksman068).
'
1Z

A_d~icul~ade começa, ~ambém aqui, no nível da própria defmição
as noçoes. m!is um~ vez a mtenção - não determinar as práticas pelas
etruturas _e. nao recarr no antropologismo dos indivíduos-sujeitos ou das
c asses sociais - choca-se com a capacidade real dos conceitos empregados
~ara _ultrapassar o duplo impasse do mecanicismo e do voluntarismo A
~O~J~ntura" ~u "momento atual", individualidade de uma dada situa~ão
histonca, é "a ~ção combinada das forças sociais"(169) ou os efeitos pertin~~~i das p~ática~ políticas de classe como forças sociais sobre a estrutura
) . Serao designados como "efeitos pertinentes" "o fato da reflexão
di° lugar no processo_ de produção sobre os outros níveis constituir um
e emento ~ovo que nao pode ser inserido no quadro típico que esses níveis
apresentana1:11 sem este elemento. Este elemento transforma assim os limites dos níveis ( de estrutura ou de luta de classes) n
.
efeitos pertinentes ... "0 70)
os quais se reflete por
d

. I~so significa que "o elemento novo" designa aquilo que não determina duetamente a estrutura, o indeterminado estrutural? o que poderia
p_arecer quando ,:oulantzas insiste no fato de que "a conjuntura não é uma
.
simples expressao da estrutura"(! 71) mas " .
- d
.
crrcunscreve precisamente a
açao a prática política sobre a estrutura"· contudo o , ul ..
d
'
, CHC O vic10so aparece ~ novo ~uando esta ação da prática sobre a estrutura é ro osta
como determmada pela estrutura"0 72); a intervenção das práti~as ~obre
a estru:ura como a determinação das práticas pela estrutura consiste na
produçao pela estrutura dos limites de variação da luta de clas;es... limites

:e

(167) C. Glucksman, op. cit., p. 203 .

(168) lbid., p. 204.

r

consid?6~ Ibid.,
98: "A homogeneidade do campo da conjuntura consiste na
raça,? cJ_as pr~tIC:s de classe - e especialmente das práticas políticas de ela
.. "
"
sse
em relaçao a sua açao' sobre a estrutura como for s
ças sociais se reflet~m no nível da prática ~lítica por ~eiS:0:1;:d~e~t::.=.. Essas for(170) Op. c1t., p. 82.
·
(171) lbid., p. 99.
(172) lbid., p. 99.

96

1
f.

(173) lbid., p. 100.
(174) /bid., p. 101.
(175) "Uma classe não pode ser considerada como classe distinta e autônoma
- como força social - no interior de uma formação social, senão quando sua referência às relações de produção, sua existência econômica, reflete-se nos outros níveis por
uma presença específica", p. 81, ou p. 83: ''Foi paradoxalmente o bonapartismo que
constituiu os camponeses parciais como classe distinta, como força social nessa formação".

97

1

se"(l 76); mas nunca se saberá muito bem o que distingue uma da outra.

Chega-se então a uma total autonomia do político em relação ao econômico: ao rejeitar o conceito de situação/posição de classe, Poulantzas, lógico consigo mesmo, esvazia a definição de classes sociais de todo conteúdo
econômico, apoiando-se principalmente numa generalização abusiva da
situação dos camponeses parcelares sob o Segundo Império. Seria ainda preciso compreender, mesmo nesta situação, como a existência de uma classe
pode depender exclusivamente de uma conjuntura histórica tão particular
quanto a do bonapartismo: será que depois do desaparecimento do Segundo Império essa classe "não existe mais"? Percebe-se a qual absurdo chegaríamos.
É aliás surpreendente observar que quando se sai do terreno da
"Grande teoria" para analisar situações históricas concretas, assiste-se a
uma oscilação constante entre dois procedimentos:
ou Poulantzas analisa, explica realmente esta situação, sobretudo as
relações concretas de classe, e abandona, então, completamente seu
aparelho conceitual estruturalista;
ou ele tenta aplicar esse aparelho, mas para logo cair no formalismo
estéril ou no apelo mágico "ao princípio de razão suficiente".
Assim, no que se refere ao primeiro caso - felizmente o mais freqüente - a análise mais acurada dos diferentes "modelos" europeus de
revolução burguesa leva-o a associar revolução inglesa com "processo de
dissolução e de destruição do modo de produção patriarcal", noção no
entanto rejeitada pelo estruturalismo; enquanto as diferentes frações de
classe, como a presença ou a ausência de "forças sociais", são claramente
analisadas em referência a critérios econômicos: distinção da classe dos
proprietários fundiários, dos fazendeiros arrendadores e de uma imensa
maioria de assalariados agrícolas, ausência de camponeses parcelares,
etc.<177).

Ao contrário, quando Poulantzas tenta usar o aparelho estruturalista,
sua análise não vai muito longe. Assim, por exemplo, quando ele procura
explicar como o bismarckismo é possível enquanto existência de um Estado feudal numa formação capitalista. A nosso ver a resposta assemelha-se
à dos tomistas que recorrem à "virtude cadente" das pedras· para explicar
a atração terrestre.
(176) Ibid., pp. 87-88.
(177) Ibid., pp. 183-184.

98

Segundo Poulantzas, com efeito, a existência de um Estado dominado pelo tipo feudal em uma formação capitalista seria devida "ao fato do
MPC dominante, pela autonomia das instâncias que o caracteriza e que ele
imprime na f armação capitalista, permitir a existência, no nível da instância política, de um Estado dominado por um outro tipo diferente daquele
que caracteriza o Estado deste modo"0 78). Em vez de explicar, isto é, de
relacionar uma situação histórica precisa com conceitos, Poulantzas usa
sem nenhum resultado as categorias de autonomia e de instância. Será
excepcional esse caso?
Para evitar qualquer crítica arbitrária, mas sobretudo a fim de determinar rigorosamente qual é a fecundidade epistemológica do modelo estruturalista num determinado campo empírico, devemos agora examinar
como Poulantzas desenvolve o modelo althusseriano a fim de definir uma
teoria do político. Veremos em seguida qual é a eficácia dessa teoria em
suas análises concretas do Estado capitalista.

ESTRUTURALISMO E ANÁLISE DO ESTADO CAPITALISTA

A nosso ver, a teoria do Estado que Poulantzas propõe em Pouvoir
politique et classes sociales é profundamente marcada pelo modelo estruturalista: por um lado, o axioma da "autonomia" das "instâncias" ou_ "regiões" acaba por isolar completamente a an~se das estru~u~~ estat~1s _da
análise da estrutura econômica. Chega-se entao a uma defID1çao - class1ca
na sociologia funcionalista - do Estado "fator de coesão social", organismo regulador das relações políticas de classe. O Estado não é o instrumento de uma classe dominante, nem o representante político direto de seus
interesses "econômicos", mas sim de seus interesses "políticos".
Esse deslize "político" realiza-se por uma série de reduções arbitrárias do campo de análise do Estado capitalista:
Primeira etapa: Parte-se da relação entre estruturas ( o econômico e o
político) ou instâncias autônomas da estrutura social: "Se consideramo~ o
Estado capitalista como instância regional do MPC, logo, em suas relaçoes
complexas com as relações de produção, podemos estabelecer sua autonomia específica com referência ao econômico"(l 79). Trata-se pois da "respectiva autonomia no MPC das estruturas políticas e econômicas"0 80),
(178) lbid., p. 155.
(179) Op. cit., p. 136.
(180) Op. cit., p. 136.

99

autonomia justamente relacionada por Poulantzas com a análise materialista das combinações entre relação de apropriação real/relação de propriedade, "segredo" da constituição das superestruturas (p. 136). Mas esse segredo é logo esquecido: apesar de Poulantzas ter começado a utilizá-lo nas
páginas anteriores para analisar os modos de passagem ao capitalismo na
Europa, através dos diferentes modos de acumulação primitiva, sua referência à "autonomia" das instâncias e ao "isolamento" do econômico na
superestrutura jurídico-política do capitalismo leva-o aqui a afastar completamente a análise econômica dos tipos de Estado.
Segunda etapa: Constatando - com razão - q[ue a ideologia jurídica
capitalista "isola" completamente econômico e político e oculta as relações de produção, Poulantzas usa esse isolamento ideológico como um
dado que lhe permite considerar o Estado apenas em relação à luta política
de classes:
"Meu objetivo principal não será o de analisar a organização dessas
estruturas estatais a partir das relações de produção nem o de elucidar suas

contradições internas, o que competiria primordialmente a um aprofundamento da relação assinalada entre sistema jurídico e estrutura do processo
de trabalho: mas meu intuito será sobretudo de compreendê-las em sua
função quanto ao campo da luta de classes. O que significa considerar aqui,
de certo modo, seu efeito de isolamento sobre as relações sociais econômicas como um dado, a fim de esclarecer o papel propriamente politico do
Estado a respeito delas"( 181) .
Terceira etapa: Da redução "metodológica" à redução "epistemológica".

Esse terceiro deslize já não é mais nem controlado nem justificado.
Consiste em confundir relações de produção (definidas no início do livro
como "estrutura econômica") com relações de classe; em seguida, a reduzir
as relações de classe a relações políticas de classe. Já na citação anterior
via-se que as relações de produção eram sub-repticiamente identificadas
com relações sociais, ao passo que toda a análise que precede, de classes e
relações de classe, tinha procurado distingui-las, como oposição das estruturas às práticas. Confusão "prática" - e aqui não teorizada - que prova, a
nosso ver, ausência total de consistência da oposição anterior, mas que
nem isso justifica a ausência de distinção teórica entre os níveis da estrutura social. Enquanto no início a função estatal remetia:
(181) Jbid., p. 143.

100

à combinação propriedade/apropriação real, determinação econômica em última instância,
às relações de produção e às relações econômicas entre classes sociais,
Poulantzas procede agora a uma inversão epistemológica: é o politico que
se torna determinante e dominante na sua análise do Estado:

"O Estado, no seu papel de coesão da unidade de Ull).a formação,
papel particularmente importante na formção capitalista, comporta várias
funções: econômica, ideológica, política. Essas funções são modalidades
particulares do papel globalmente político do Estado. São sobredeterminadas por - e condensadas em - sua função propriamente polz'tica, função
referente ao campo da luta política de classes. É em torno dessa função e
dessa relação que se ordenarão as análises seguintes"0 8 2).
Só examinaremos duas das conseqüências dessa inversão arbitrária:

a) Por não ter feito uma análise econômica profunda, Poulantzas
identifica o estágio atual do capitalismo e sua última fase - o capitalismo
monopolista de Estado - com uma "dominação do político" sobre as
outras instâncias:
"No modo de produção capitalista onde o econômico detém, via de
regra, o papel dominante, constata-se a predominância, na ideologia, da
região jurídico-política: mais particularmente, entretanto, no estágio (sic)
do capitalismo monopolista de Estado, onde o papel predominante é
detido pelo político, é a ideologia econômica - cujo tecnocratismo é apenas um aspecto - que tende a tornar-se predominante"0 83).
É a conseqüência lógica da teoria estruturalista da variação ilimitada
do modo de predominância das "instâncias": já o havíamos assinalado,
indiretamente, a partir da definição althusseriana de "modo de produção"
como "modo de combinação formal" . Mas é também conseqüência da
redução da análise do Estado capitalista à sua dimensão jurídico-política
e ideológica. Partindo exclusivamente da descrição dos modos de representação jurídicos e ideológicos do CME, Poulantzas chega assim a uma confusão entre o ideológico e o real, ou seja, no caso, a determinação econômica
da intervenção estatal.
b) Segunda conseqüência característica: o bonapartismo passa, de
situação histórica concreta, a situação típica do Estado capitalista; deixa
de ser uma exceção. O Estado capitalista realiza, por sua natureza, um
(182) Jbid., p. 201.
(183) Cf. op. cit., p. 55.

101

equilíbrio de comprometimentos; como instância politica, pode muito
bem fazer concessões econômicas, inclusive às classes dominadas, enquanto
sua dominação política não for questionada(l 84). Ora, de acordo com a
observação de C. Glucksman, como evitar o deslize lógico, seja para uma
definição funcionalista, seja para uma definição estruturalista de Estado?
No primeiro caso, o Estado integraria e unificaria os conflitos sociais,
segundo o modelo parsoniano, seja desempenhando o papel de árbitro, seja
realizando funções técnicas e econômicas alheias à dominação de classe.
No segundo caso, a autonomia "relativa" do Estado tornar-se-ia de fato
total: seria isolado um nível estrutural inteligível em suas funções mas
separado de seus fundamentos econômicos e sociais. Toda relação entre a
estrutura e a prática social seria então impossível; e também toda transformação do capitalismo. É verdade, e C. Glucksman o assinala, que Poulantzas defende-se vigorosamente contra essa dupla acusação. Segundo C.
Glucksman, a garantia teórica que Poulantzas nos propõe reside na distinção entre a noção estruturalista de nível e a definição funcionalista de
Estado "árbitro acima das classes". Para Poulantzas, com efeito, a autonomia do Estado no regime capitalista é a própria forma da dominação de
classe: "O Estado capitalista comporta, inscreve em suas próprias estruturas, um jogo que permite, dentro dos limites do sistema, uma certa garantia
dos interesses econômicos de algumas classes dominadas. Isso faz parte de
sua função, na medida em que essa garantia é conforme à dominação hegemónica das classes dominantes"0 85) ... É "essa autonomia do poder
político institucionalizado que permite às vezes atingir o poder econômico
das classes dominantes, sem jamais ameaçar-lhes o poder político"(l 86).
Contudo, pode-se perguntar se o que fica claro de um lado ("como o
Estado pode ser ao mesmo tempo 'Estado do povo-nação', assegurando a
coesão do conjunto da formação social, e Estado que organiza a predominância de uma classe?") não faz ainda aumentar a dificuldade e a confusão
quando se tenta aplicar essa proposição teórica à relação Estado-classes
sociais. Surgem, a nosso ver, duas dificuldades principais. Por não ter sido
especificado(! 8 7) e sobretudo por não ter sido de fato distinguido de uma
total independência entre dois sistemas fechados, o princípio de "autonomia" que fundamenta a análise de Estado proposta por Poulantzas:
(184) Cf. C. Glucksman, op. cit., p. 202.
(185) Op. cit., p. 205.
(186) lbid., p. 208.
(187) Poulantzas falará com freqüência da "autonomia específica" do Estado,
sem nunca chegar a defini-la.

102

não permite pensar a relação Estado-classes dominantes a não ser
através da noção de "bloco no poder", noção que implica um certo
equilíbrio estático entre várias classes dominantes (mesmo se uma
delas, a "fração hegemônica", "representa" todas as classes dominantes);
não permite pensar a relação entre Estado e luta de classes a não ser
como dominação intangível, através de variações secundárias, de uma
classe hegemônica sobre classes dominadas. É significativo, como
bem o demonstra C. Glucksman, que Poulantzas não chegue a dar o
amplo sentido do conceito gramsciano de hegemonia que implicava a
possibilidade para as classes dominadas, graças a uma organização
política independente, de elaborar uma contra-hegemonia.
No que se refere à relação Estado/classes dominantes, a posição de
Poulantzas é das mais explícitas: a transformação da relação entre as classes dominantes, ocorrida desde a passagem do capitalismo concorrencial ao
capitalismo de monopólio, não tem efeitos sobre a estrutura política do
Estado que continua, como na França de 1848, a ser caracterizada pela
noção de "bloco no poder", unidade complexa das classes ou frações de
classes dominantes através da hegemonia de uma delas:
"A relação atual do Estado com a fração monopolista hegemônica
não impede absolutamente que outras frações da burguesia pertençam ao
bloco no poder. . . o desenvolvimento do imperialismo ao dar origem a
novos pontos de clivagem e a deslocamentos das contradições - burguesia
imperialista e compradora, burguesia nacional, média burguesia - não
anula as coordenadas fundamentais do bloco no poder"( 18 8).
Em outras palavras, a relação entre capital monopolista e pequeno e
médio capital nacional é idêntica à relação entre a fração financeira e as
frações industriais e fundiárias do capital no estágio do capitalismo de livre
concorrência. Ou, se não é nada disso, a mudança da relação entre frações
do capital não tem nenhum efeito sobre a estrutura do poder politico, o
que implicaria então que a autonomia do político é uma independência
absoluta. Veremos adiante a que ponto essa esquerdização positivista da
análise marxista é contrária aos fatos. Damos com o mesmo impasse quando se trata de analisar a relação entre Estado e classes dominadas: as concessões impostas ao Estado pela luta das classes dominadas sempre "existem como possibilidade nos limites impostos pelo Estado à luta de direção
(188) Op. cit., p. 328.

103

hegemônica de classes"0 89). Em outras palavras, essas concessões políticas sempre são analisadas por Poulantzas como o meio de realizar a hegemonia das classes dominantes, e nunca como a expressão da perda de
hegemonia das classes dominantes e da emergência de uma nova hegemonia das classes outrora dominadas.
É verdade que Poulantzas tem o cuidado de precisar que a "política
social" imposta pela luta das classes dominadas não questiona as estruturas
de tipo capitalista do Estado, na medida em que ela se realiza dentro de
certos limites, além dos quais uma restrição do poder econômico das classes dominantes teria um efeito sobre o poder político0 90).
Também, a "estratégia política da classe operária depende da decodificação adequada, na conjuntura concreta, desse limite que fixa o equilíbrio dos comprometimentos e que é a linha de demarcação entre o poder
econômico e o poder político"0 91). Resta explicar por que e como uma
classe dominada ultrapassará esses limites e transformará a reforma em
processo revolucionário.
Segundo C. Glucksman, Poulantzas procura evitar a cilada do determinismo e do fatalismo funcionalista ao distinguir "práticas de classe" e
"estruturas", "a autonomia" das relações práticas/ estruturas sendo a origem da iniciativa política de que dispõe a classe operária para organizar
uma "estratégia" revolucionária. Já havíamos notado essa função decisiva
que Poulantzas atribuía a tal distinção. Mas, como vimos, Poulantzas não
chega a fundamentá-la teoricamente nem a mantê-la quando analisa as
relações Estado/luta de classes.
A aporia estruturalista aparece com clareza quando ele tenta separar
"interesses de classe" e "estrutura": de um lado, com efeito, "o conceito
de classe indica os efeitos da estrutura sobre os suportes" e o conceito de
prática "um trabalho exercido nos limites impostos pela estrutura"; de
outro, os interesses indicariam também esses limites "mas como extensão
do campo, num nível particular, da prática de uma classe em relação às
práticas das outras classes"0 92). Mas em que se fundamenta essa "extensão"? Em que pode ser ela diferente dos "efeitos da estrutura"? Poulantzas
não conseguirá nunca - compreende-se por que - responder a essa pergunta, o que o fará recair nos impasses do voluntarismo quando ele procura

(189) lbid., p. 206.
(190) lbid., pp. 207, 209.
(191) lbid., p. 208.
(192) Ibid., p. 118.

104

fundamentar teoricamente a noção leninista de "ação aberta ou declarada"
de uma classe; ele vê esta ação como "organização específica, política e
ideológica de uma força social, que ultrapassa sua simples reflexão no nível
político por meio de "efeitos pertinentes"(l 93). Quadratura do círculo
para um estruturalista que não pode justificar esse ultrapassar, na medida
em que a organização política como organização de poder de uma classe
ou é determinada - pelos "efeitos de estrutura" - ou é dada como indeterminada: a ação declarada "refere-se ao campo de indeterminação da
conjuntura"(l 94). Quando, ao contrário, Poulantzas quer dar um conteúdo positivo a essa indeterminação, ele só consegue recaindo na problemática psicologista e voluntarista das "estratégias":
"A capacidade de uma classe para realizar seus interesses, cuja organização de poder é a condição necessária, depende da capacidade de outras
classes de realizarem seus interesses. O grau de poder efetivo de uma classe
depende diretamente do grau de poder das outras classes, no quadro da
determinação das práticas de classe dentro dos limites estabelecidos pelas
práticas das outras classes.. ,"(195) . Este sentido preciso dos limites (no
segundo grau) determina para Poulantzas a noção de "estratégia": "Ele se
manifesta nos efeitos específicos que a prática política de uma classe tem
sobre a de outra classe, enfim, na estratégia do adversário"(195),
Isoladas de qualquer análise econômica das situações de classe, as
"práticas" de classe assim como os "interesses de classe" não podem mais
ser determinados senão no interior da esfera fenomenal das relações de
força. Estaremos assim tão longe, apesar das críticas prévias feitas por
Poulantzas, da sociologia de Weber ou até da sociologia de CrozierO 96)?
E, principalmente, estaremos assim tão longe delas quando for preciso
passar das definições teóricas preliminares às análises concretas?

(193)
(194)
(195)
(196)

Jbid., p. 102.
Jbid., p. 103.
Jbid., p. 105.
De fato, ou se define "interesses" de classe e "estratégias" das forças
sociais por seu conteúdo sócio-econômico, ou se isola esses "interesses" e "estraté·
gias" como jogo formal entre forças ou entre "atores" corno os da sociologia das
organizações. Não há terceira via, mesmo se há uma maneira "dialética" e uma maneira "mecanicista" de definir as relações entre forças sociais e situação econômica.

105

III. Elementos para uma análise materialista
e dialética do Estado

1. O Estado, produto de uma relação social

Podemos agora procurar traduzir o conjunto dessas análises epistemológicas no nível de nosso objetivo de pesquisa: a sociologia política.
Três proposições parecem-nos ser o fundamento da análise do político que
aqui será feita. Elas podem, de início, ser formuladas de modo negativo,
como "críticas" das teorias políticas examinadas anteriormente.
Proposição 1: O Estado não se define por uma relação de exterioridade com a estrutura social; "sociedade civil" e "Estado da sociedade civil"
são noções pré-científicas que se apóiam num duplo postulado:
a redução das relações sociais a uma adição de átomos livres (as vontades individuais);
a metamorfose do Estado em "agente da vontade geral" acima das
vontades particulares.
Concordamos integralmente com a crítica que Poulantzas faz a essas
noções(l 97).
Proposição 2: A superestrutura estatal não é nem o produto da
superposição de um sistema sobre outro ou ao lado de um outro (teoria
das "instâncias") e nem uma organização autônoma ligada a um "meio"
exterior (funcionalismo da sociologia das organizações).
Proposição 3: A política estatal não é constituída por uma série de
"decisões" ou de "estratégias" de atores autônomos.
Com essas três críticas é preciso relacionar, a título de hipóteses,
proposições de conteúdo positivo, que abram caminho para uma análise
materialista do Estado.
Quase todas as referências a uma teoria marxista do Estado remetem
ao que se poderia chamar uma abordagem "externa" do aparelho estatal: o
Estado intervém "na periferia" da relação capital/trabalho, "fora" da empresa como lugar de extorsão da mais-valia, para "regulamentar" no nível
nacional, no nível do conjunto da formação social, a reprodução dessa
(197) Pouvoir politique et classes sociales, op. cit., pp. 132-144.

106

extorsão. Tomando, por exemplo, a descrição que Marx faz da legislação
fabril no livro I do Capital, o político aparece aí como norma, regra geral,
inclusive para os capitalistas. Suporte do interesse geral da classe capitalista, o Estado pode ser naturalmente levado a exercer seu poder de coerção
contra este ou aquele capitalista em particular que se recusasse a aplicar
essa norma.
Engels vai ainda mais longe, em Ludwig Feuerbach, quando define a
função normativa do Estado não mais apenas em relação a uma classe, à
classe capitalista, mas em relação ao conjunto das classes presentes numa
formação social: "A sociedade se cria um organismo em vista da defesa de
seus interesses comuns contra os ataques internos e externos. Esse organismo é o poder de Estado. Mal nasce, já se torna independente da sociedade,
e isso tanto mais porque se torna principalmente o organismo de uma certa
classe, fazendo prevalecer diretamente a dominação dessa classe"(l 98).
Foi essa análise que inspirou a exposição de N. Poulantzas sobre "a
autonomia relativa" da "instância política" como meio para fazer aceitar
pelo conjunto das classes dominadas a hegemonia da classe dominante.
Vimos os limites e insuficiências de tal abordagem. Mas uma outra abordagem é possível, uma abordagem de certa forma "de dentro", onde o Estado aparece não mais como um organismo exterior às relações de produção,
mas, bem ao contrário, como um dos momentos, uma das manifestações
da contradição fundamental entre a socialização do processo de trabalho e
a apropriação privada dos meios de produção e do produto do trabalho. O
célebre texto de Marx que serve de origem a esta segunda abordagem merece ser lembrado:
"Constituição de sociedades por ações: ( as empresas desse tipo) apresentam-se como empresas sociais em oposição às empresas privadas. B a
supressão do capital enquanto propriedade privada no interior dos limites
do próprio modo de produção capitalista ... Em certas esferas, essa fase de
transição para uma nova forma de produção estabelece o monopólio provocando assim a ingerência do Estado . .. "(199). Longe de aparecer então
como força exterior ao MPC, o Estado torna-se, pelo contrário, uma "sociedade por ações à n-ésima potência", para parafrasear o texto-comentário
de Engels.
O Estado, neste sentido, é o desenvolvimento último da contradição
(198) Engels, Ludwig Feuerbach. ln: 11tudes philosophiques, op. cit., p. 54.
(199) Marx, Le Capital, Ed. Sociales, liv. III, Cap. XXVII, "Le rôle du crédit
dans la production capitaliste", t. VII, pp. 101-104.

107

que aparece desde o primeiro capitulo do Capital, a contradição principal
entre valor e valor de uso, e da qual todo O Capital só faz estudar as metamorfoses(200).
Longe portanto de deter-se na forma dinheiro, o desenvolvimento da
relação contraditória valor/valor de uso leva-nos à forma capital: "A fonna
valor do produto do trabalho é a forma mais abstrata e mais geral do modo
de produção atual que adquire, por isso, um caráter histórico - o de um
modo particular de produção social. Se erroneamente ela for tomada como
forma natural, eterna, de toda produção na sociedade, perde-se de vista o
lado específico da forma valor, em seguida da forma mercadoria e, em grau
mais desenvolvido, da forma -dinheiro, forma capital, etc."(201). É disso
que_ sempre se tratará na separação do lucro do empresário e do juro, do
capital real e do capital dinheiro, etc. E é ainda a gênese dialética - e não
mecanicista, voltaremos a este ponto - da forma valor que nos explica a
gênese da norma politica ou da f arma Estado. O motivo que faz do Estado
da classe dominante o suporte mítico do "interesse geral" de toda a sociedade é o mesmo que transforma uma mercadoria particular, o dinheiro, em
equivalente geral, propriedade exclusiva de uma mercadoria particular: "(a
forma equivalente) consiste precisamente no fato de o corpo de uma mercadoria, uma roupa, por exemplo, exprinúr, enquanto coisa, valor e, por
conseguinte, possuir naturalmente formas de valor. É verdade que isso só é
exato se uma outra mercadoria, como o pano, se relaciona com ela como
equivalente ... Em outra ordem de idéias, também é assim. Este homem,
por exemplo, só é rei porque outros homens se consideram seus súditos e
_agem como tal. Eles, por outro lado, pensam que são súditos porque ele
é rei''(20 2).
É portanto a mesma lei que gera o equivalente dinheiro e o equivalente Estado, os quais têm como função comum a de dissimular a relação
social que os produziu, fazendo-a aparecer "pelo avesso" e desligada dos
valores de uso como dos indivíduos concretos. Ao passo que os defensores
do poder de Estado "constituem um novo ramo da divisão do trabalho no
seio da sociedade", eles aparecem aos olhos de seus ]Próprios mandatários
(200) "A oposição entre mercadoria e moeda é a forma abstrata e geral de
todas as oposições que o trabalho burguês implica" (Marx, Contribution à la critique
de l'économie politique, Ed. Sociales, pp. 66-ó7).
"Capital e trabalho têm uma relação semelhante à qu,e existe entre dinheiro e
mercadoria" (Marx, Grundisse, trad. Ed. Antluopos, t. I, p. 273).
(201) Marx, Le Capital, op. cit., liv. I, t. I, p. 83, n. 1.
(202) Marx, Le Capital, op. cit., liv. I, Cap, I, t. I, p. 71, n. 1.
IOR

como cada vez mais independentes em relação a eles. "Doravante acontece
o mesmo que no comércio das mercadorias e, mais tarde, no comércio do
dinheiro: a nova força independente tem que seguir no conjunto o movimento da produção, mas, por causa da relativa independência que lhe é
inerente, isto é, que lhe foi conferida e que continua a se desenvolver progressivamente, ela também reage por sua vez sobre as condições e a marcha
da produção. Há ação recíproca de duas forças desiguais, do movimento
econômico, de um lado, e, de outro, da nova força política.. . "(203).
O fetichismo da moeda como o do Estado "acima das classes" não
passam, portanto, de dois aspectos da mesma relação dialética entre a base
econômica e sua superestrutura, entre as relações de produção e as formas
disfarçadas, autonomizadas e invertidas (formas políticas, jurídicas, filosóficas, religiosas, etc.) que geram e que reagem sobre a base.
Mas não se pode usar a análise feita por Marx sobre o fetichismo
como modelo epistemológico aplicável ao político sem responder à objeção fundamental apresentada por Balibar em seu artigo de La Pensée: "Sur
la dialectique historique" ( agosto de 1973). Segundo Balibar, com efeito,
"os marxistas nunca puderam escorar na análise do fetichismo senão filosofias do conhecimento ou antropologias idealistas"(204) e isso porque, diz
ele, a teoria do fetichismo, tal como Marx a desenvolve na seção I do
livro I, baseia-se em categorias da economia política burguesa: dependência/liberdade, troca espontânea/plano estabelecido, pessoas/coisas, natural/
/social( 20 5). Na seção I Marx teria feito, voluntariamente, abstração de
um duplo processo: 1) o processo histórico que, através da história das
diferentes formações sociais, precedendo e incluindo o desenvolvimento
do modo de produção capitalista, faz da mercadoria forma universal e
necessária de todos os produtos do trabalho; mas também 2) o conjunto
do processo social que produz "a aparência" como tal, ou seja, para Balibar, "a presença e a eficácia dos elementos da superestrutura jurídica e
ideológica diretamente implicados no processo de circulação das mercadorias"(206).
Ora, se "tratarmos esta ( dupla) abstração como propriedade constitutiva do objeto real que Marx analisa e ... apresentarmos a análise ulterior
das condições reais do processo de troca e até de produção de mercadorias
como o desenvolvimento desta abstração inicial. .. então a ordem de expo(203)
(204)
(205)
(206)

Engels a Conrad Schmidt, 27 de outubro de 1890, op. cit., p. 157.
Cinq études du matérialisme historique, op. cit., p. 215.
Jbid., p. 214.
lbid., pp. 216-217.
109

sição e de análise do Capital aparece-nos como uma ordem contínua e
teleológjca. . . ordem que seria apenas o reflexo imediato do 'automovimento' da mercadoria desde o abstrato (sua forma elementar, simples) até
o concreto histórico, sua inserção num processo complexo incluindo o
dinheiro e até o capital... O 'fenômeno' da mercadoria (seu caráter de
'coisa' com dupla face, 'valor' de uso e valor de troca, e as formas desenvolvidas de troca) (e) até os 'sujeitos' (proprietários privados-cambistas) para
quem esse fenômeno é representado, aparecem-nos como as manifestações
de si da mercadoria, no seu processo contínuo de diferenciação e de alienação (para falar como Hegel)"(207).
Bem ao contrário, para Balibar, se tratarmos essa "abstração" como
uma propriedade do conhecimento em sua relação objetiva com a realidade
(Marx criticando as categorias da economia burguesa "de dentro"), constatamos que a análise de Marx "comporta forçosamente uma série de ruptu·
ras, correspondendo à definição e à introdução de um novo objeto de análise, que substitui o precedente ou o completa, sem nunca poder reduzir-se
a seu desenvolvimento interno"(208) ... (duplo aspecto da mercadoria/
/duplo caráter do trabalho; forma valor geral/processo de troca; processo
de troca/processo de produção da mais-valia, etc.).
Ora, é legítimo perguntar em que medida não somos atingidos por
essa crítica quando fazemos do Estado "o desenvolvimento último da contradição inicial valor/valor de uso".
Pensamos já haver respondido de antemão a esse tipo de objeção
quando insistimos, com Lucien Seve, em que o processo dialético pelo qual
um reflexo se separa de sua base nada tem a ver com "o autodesenvolvimento" do mesmo, para retomar a expressão de Balibar. O que não exclui
absolutamente a existência de uma contradição interna, na medida em que
até seu desenvolvimento dissocia "base própria" e "base inicial" e na medida em que sua resolução dá origem a realidades superiores qualitativamente
novas e, por conseguinte, nada redutíveis em sua estrutura a quaisquer
"cópias" de sua base "cronologicamente" original.
A identificação das noções de inversão e de reflexo invertido com o
uso que disso fez Feuerbach parece-nos aqui totalmente infundada. Além
disso, dizer que a análise do fetichismo baseia-se exclusivamente em categorias "fenomenais" da economia política burguesa é esquecer que ela se
baseia primeiro na descoberta fundamental de Marx: o destaque, desde o
(207) Cinq études du matérialisme historique, op. cit., pp. 217-218.
(208) Jbid., p. 218.
110

primeiro capítulo do Capital, do duplo caráter do trabalho, conforme ele
se exprima em valor de uso ou em valor de troca(209). Longe pois de estar
encerrada nas categorias da representação ilusória, fenomenal, da mercadoria (como "coisa" de dupla face, etc.), a análise do fetichismo liga essas
formas ilusórias com a realidade que é o processo concreto do trabalho;
senão recaímos na confusão entre a oposição aparente valor de uso/valor
de troca e a oposição real, destacada no Capítulo I, entre valor e valor
de uso.
Criticando a análise do Capital publicada no Traité d'économie politique de Adolphe Wagner, Marx assinalava: "O vir obscurus não percebeu
que já na análise da mercadoria não me limito às duas formas sob as quais
ela se apresenta, mas que continuo imediatamente dizendo: que nesta dualidade da mercadoria reflete-se o duplo caráter do trabalho, do qual ela é
produto, a saber, o trabalho útil, isto é, os modos concretos dos trabalhos
que criam valores de uso, e o trabalho abstrato, o trabalho como dispêndio
da força de trabalho. .. ; em seguida, que no desenvolvimento da forma-valor da mercadoria e, em última instância, de sua forma dinheiro, logo,
dinheiro, O VALOR DE UMA MERCADORIA EXPRIME-SE POR SEU
VALOR DE USO, isto é, pela forma natural da outra mercadoria; enfim,
que a própria mais-valia deduz-se de um valor de uso especifico da força de
trabalho, pertencente exclusivamente a esta, etc. "(21 O).
A contradição valor/valor de uso é pois uma contradição inicial da
qual é possível acompanhar o desenvolvimento e as metamorfoses através
do Capital, mas:

essa contradição inicial nada tem a ver com a contradição aparente
entre duas formas de mercadoria como "coisa" de dupla face remetendo a "sujeitos" proprietários privados, livre-cambistas. Ao contrário, sua origem está na oposição entre duas características do trabalho e pode desde então fundamentar as outras formas desenvolvidas
do valor;
o processo de desenvolvimento nada tem a ver com um autodesenvolvimento da "noção abstrata" e "simples" que seria a mercadoria:
"Não parto de 'noções' e, muito menos, da 'noç_ão de valor' ...

(209) Marx, Lettre à Engels du 24 aout 1867. Lettres sur Le Capital, Ed.
Sociales, t. I, p. 174.
(210) Notas marginais para o Traité d'économie politique de Adolphe Wagner,
in: Le Capital, Ed. Sociales, livro I, t. III, anexos, p. 248.
111

Parto é da forma social mais simples sob a qual se apresenta, na sociedade atual, o produto do trabalho, e isso é a 'mercadoria' "(2 l l).
Não há portanto nenhuma razão de isolar, como faz Balibar, a análise do fetichismo, no Capítulo I, do conjunto das formas sociais mais
desenvolvidas do que a forma valor - expostas nos capítulos seguintes.
Longe de pressupor a dupla abstração de que nos fala Balibar - dupla abstração que dá base efetivamente à utilização metafísica, idealista, do fetichismo - o fetichismo remete, para além das aparências que produz, às
diferentes relações sociais históricas que o produzem: "As relações dos
produtores nas quais se afirmam as características sociais de seus trabalhos
adquirem a forma de uma relação social dos produtos do trabalho. Eis
porque esses produtos se convertem em mercadorias, isto é, em coisas que
são percebidas ou não pelos sentidos, ou coisas sociais"(212).
Na realidade, toda a argumentação de Balibar visa a desqualificar
teoricamente os conceitos de alienação e de indivíduos, reduzindo-os à sua
aparência idealista de "sujeitos livres" abstratos; para realizar esse "esforço" ele precisa portanto: 1) assimilar os "sujeitos" do humanismo metafísico ou do direito burguês aos individuas concretos determinados pelas
próprias relações sociais; 2) supor essas relações sociais ausentes, "abstratas", na análise feita por Marx do "fetichismo" da mercadoria. Na medida
em que os pressupostos são falsos, a argumentação toda cai por si.
Analisar o Estado como a forma mais desenvolvida da contradição
valor/valor de uso é perfeitamente fundamentado na medida em que tal
análise, longe de "aplainar" e de "reduzir" a complexa totalidade estatal a
uma qualquer noção "simples" elementar, acompanha o conjunto do processo de desenvolvimento-metamorfose das formas sociais, sem saltar
nenhum elo intermediário, sem procurar reduzir a realidade superior a
uma forma "primitiva".
No plano inicial do Capital - que previa um capítulo sobre o Estado
- Marx fazia com que sua análise do Estado fosse precedida pelas seguintes
formas sociais:
"l.º As determinações abstratas gerais, convindo portanto mais ou
menos a todas as formas de sociedade ( e o conceito de mercadoria será o
primeiro, como forma social ao mesmo tempo mais simples e mais geral,
J. L.).
(211) Ibid., p. 246.

(212) Marx, Le Capital, op. cit., cap. I, p. 85.
112

"2.o As categorias que constituem a estrutura interna da sociedade
burguesa e sobre as quais repousam as classes fundamentais. Capital, trabalho assalariado, propriedade fundiária. Suas relações recíprocas. Cidade e
campo. As três grandes classes sociais. O intercâmbio entre elas. Circulação. Crédito (privado).
"3.° Concentração da sociedade burguesa sob a forma do Estado"(2l3).
Convém notar que a análise do Estado:
supõe a análise das classes sociais;
vem, no plano de Marx, logo após a do crédito. Ora, vimos que é
justamente na análise do crédito que aparecia pela primeira vez a
determinação social do Estado como f arma mesma - a mais desenvolvida - da produção capitalista, concentração e condensação do
conjunto das relações de produção.
Levar em conta a urbanização capitalista, como veremos mais adiante, permite enriquecer a determinação social do Estado como aparelho
territorial e agente da socialização espacial das relações de produção.
Aqui mostraremos apenas como uma análise científica do Estado
capitalista remete:
por um lado, à análise do processo de produção/reprodução do capital, análise essa centrada na teoria do valor;
por outro lado, à análise das classes sociais.

2. O Estado e a análise das relações de produção capitalistas
a) O ESTADO E O CAPITAL PORTADOR DE JURO

A análise do crédito já mostra como o Estado, em vez de se sobrepor
às relações sociais como realidade exterior, pode ser definido a partir da
própria estrutura social.
Todavia, se nos ativermos textualmente a O Capital, o Estado, ou
melhor, a intervenção estatal, aparece duplamente limitada.
(213) Marx, Introduction à la critique de l'économie politique (Contribution
à la critique de l'économie politique, Ed. Sociales, p. 1 72).
113

- Por um lado, ela é apenas uma das formas possíveis - se bem que a
mais desenvolvida - da socialização capitalista, ao lado das sociedades por
ações, dos cartéis e dos monopólios.
- Por outro, ela se encontra confinada no meio das relações de circulação, na esfera do lucro e do capital portador de juro, forma acabada do
"fetiche capitalista" ... "que atribui ao produto acumulado do trabalho e,
mais, configurado em dinheiro, a força de produzir mais-valia graças a uma
qualidade inata e secreta ... "( 214). Ora, "o juro não mostra o capital em
oposição direta ao trabalho, mas sim sem relação com ele, como simples
relação entre capitalistas. Logo, como determinação extrínseca, indiferente
à relação capital/trabalho"(2 l 5).
Não estaremos diante de objeção idêntica à de Balibar segundo a
qual uma determinação do Estado a partir da esfera do lucro deixá-lo-ia
fora da relação social fundamental capital/trabalho, do processo de produção da mais-valia?
Mesmo se aceitarmos de início as observações referentes aos limites
desta primeira determinação "interna" do Estado, é preciso entretanto
avaliar devidamente a verdadeira revolução teórica que, em relação às análises clássicas da sociologia do Estado, ela acarreta.
Em vez de surgir como "força exterior" à "sociedade civil", ou como
guardião da ordem social burguesa, o Estado é logo defüúdo, na análise do
crédito, como uma das formas - a mais acabada - da "supressão do modo
de produção capitalista no interior do próprio modo de produção capitalista, logo, contradição que se destrói a si mesma e que ... se apresenta como
simples fase transitória para uma nova forma de produção"( 216).
O Estado perde desde então a universalidade e a perenidade abstratas
que lhe atribuíam as filosofias políticas idealistas, de Platão a Rousseau ou
Hegel, para tornar-se uma forma social histórica intimamente ligada ao
modo de produção que a gerou; é assim que o Estado capitalista aparece
como a expressão acabada e condensada da principal contradição que
caracteriza o modo de produção capitalista, a saber, a contradição entre o
desenvolvimento das forças produtivas - sua "socialização" - e a natureza
mesma das relações de produção - a separação entre produtores e seus
(214) Marx, Le Capital, op. cit., Ed. Sociales, Jiv. III, 5.ª seção, Cap. XXIV,
t. VII, p. 63.

(215) Marx, Le Capital, op. cit., 5.ª seção, Cap. XXIII, t. VII, p. 47.
(216) Marx, Le Capital, Ed. Sociales, 5.ª seção, Cap. XXVII, t. VII, p. 104.
114

ft

meios de produção, a exploração do trabalho assalariado pela classe dos
proprietários do capital.
Mas essa contradição, no MPC, entre forças produtivas e relações de
produção não se exprime apenas pela interrupção ou pela mutilação da
expansão tecnológica e científica; ela provoca também "no interior da
velha forma capitalista", como diz Engels, transformações estruturais fundamentais do próprio modo de produção: trata-se da passagem de formas
privadas para formas cada vez mais "socializadas" da exploração capitalista, tentativas de adaptação do MPC à necessária socialização do processo
de produção: sociedades por ações, sociedades de crédito, etc. realizam
assim de maneira "monstruosa" a expropriação de pequenos e médios
capitalistas, sem com isso conseguir ultrapassar o caráter privado da propriedade capitalista concentrada, no caso, num punhado de acionistas.
Belo exemplo de contradição não antagônica entre propriedade
social e propriedade privada, essas formas de socialização capitalista "negam" a "velha forma" capitalista, continuando porém incapazes de destruí-la:
"A própria transformação em ações permanece ainda prisioneira dos
limites capitalistas; em vez de superar a contradição entre o caráter social
das riquezas e a riqueza privada, ela elabora e desenvolve essa contradição
dando-lhe um novo aspecto"(21 7).
A intervenção do Estado aparece por sua vez como a forma mais
desenvolvida da socialização capitalista, depois da sociedade por ações e
do monopólio. No Anti-Dühring, Engels desenvolveu essa dupla característica da gênese do Estado mostrando, ao mesmo tempo, a continuidade do
processo de socialização capitalista ("a relação capitalista não é suprimida
mas sim levada ao auge"(218)), e também a novidade da forma estatal em
relação ao monopólio: passa-se da produção de um ramo industrial para a
regulação do conjunto da sociedade pelo representante oficial da sociedade
capitalista - o Estado. O que conta, de fato, é não reduzir a intervenção
do Estado a simples desenvolvimento da sociedade por ações ou do truste;
é verdade que Marx e Engels tiveram o mérito de devolver ao Estado sua
realidade de configuração histórica transitória integrando-o ao processo de
socialização capitalista - do qual ele é apenas uma das formas; mas nem
por isso se pode deduzir que haja uma homogeneidade estrutural entre o
truste e o Estado e, nesse sentido, devemos reconsiderar a expressão que
(217) Marx, Le Capital, op. cit., liv. III, 5.ª seção, Cap. XXVII, p. 105.
(218) Engels, Anti-Dühring, Ed. Sociales, 1963, 3.ª parte, Cap. II, p. 318.
115

usamos para determinar a realidade estatal, de "sociedade por ações à
n-ésima potência"(219).
A rigor, tal expressão poderia levar a identificar o Estado como um
dos agentes econômicos, fazendo dele um elemento da infra-estrutura
econômica. Ora, Engels sempre procurou, ao mesmo tempo em que relacionava o Estado com sua base econômica, especificar suas características
próprias de "representante oficial da sociedade capitalista"(220) e até de
"representante oficial de toda a sociedade, sua síntese num corpo visível"
mesmo se, nas sociedades de classes, isso só fosse possível na medida em
que o Estado "fosse o Estado da classe que, para o seu tempo, representasse ela mesma toda a sociedade"(221). É o que permite compreender o
desenvolvimento diferente da contradição forças produtivas/propriedade
capitalista, conforme se trate da sociedade por ações ou da propriedade do
Estado; no primeiro caso, efetivamente, a apropriação permanece privada,
mesmo se ela está baseada na expropriação de inúmeros pequenos capitalistas; no segundo, ao contrário, a apropriação é feita em nome do conjunto
da sociedade, mesmo se continua sendo uma relação de exploração capitalista. Nesse sentido, "chegando a esse auge, (a relação capitalista) se inverte. A propriedade do Estado sobre as forças produtivas não é a solução do
conflito, mas contém em si o meio formal, o modo de agarrar a solução"(222), solução que consistirá para o proletariado, para os produtores
associados, em apossar-se do poder de Estado e em transfonnar os meios
de produção, inicialmente, em propriedade do Estado. É verdade que historiadores(223) mostraram o profundo parentesco entre a gestão das companhias "privadas" de estradas de ferro e sua gestão estatal após terem sido
nacionalizadas; de qualquer fonna, a propriedade de Estado introduz uma
(219) í por isso que se deve dar pleno sentido à palavra "dialético" quando
Paul Boccara afirma que "a empresa pública representaria um desenvolvimento dialético das formas monopolistas simples ou privadas e o financiamento público, em
geral, um desenvolvimento do capital financeiro" (Etudes sur le CME. .. , Ed. Sociales, op. cit., p. 57).
O salto qualitativo representado pela passagem do capital financeiro privado ao
financiamento público justifica justamente, segundo Paul Boccara, a hipótese de uma
nova fase do imperialismo - a do CME - distinta da fase inicial, chamada "monopolismo simples".
_
(220) Engels,Anti-Dühring, op. cit., p. 317.
(221) Ibid., p. 319.
(222) Engels,Anti-Dühring, op. cit., p. 318.
(223) François Caron, Histoire de l'exploitation d'un grand réseau. La compalnie du chemin de fer du Nord (1846-1937), Paris-Haia, Mouton, 1973.

116

1

realidade qualitativamente nova em relação à propriedade privada capitalista, mesmo se já se tratasse de sociedades de economia mista que dependiam
de subvenções estatais. O proprietário capitalista, na pessoa dos acionistas
privados, desaparece de fato, como tal, da empresa estatizada e a persistência da exploração capitalista no interior da empresa não se apóia mais na
propriedade privada do capital da empresa, mas sim no capital social, o
capitalista coletivo representado pelo poder de Estado que dirige e gera a
empresa estatizada. Como se vê pelo caráter político da mínima luta econômica numa empresa nacionalizada como a Renault, é pois a predominância do conjunto da classe capitalista como tal que é discutida nas lutas dos
trabalhadores de empresas estatizadas, onde a luta capital/trabalho não
aparece mais sob a forma de conflito entre um capitalista - ou um grupo
de capitalistas - isolado, privado, e os trabalhadores assalariados, mas sim
sob a forma de conflito entre os produtores associados de urna empresa
"formalmente" socializada e o representante oficial da classe capitalista:
o Estado. É por isso que Engels pode falar aqui de uma "inversão" da relação capitalista "levada ao auge", ao passo que o monopólio bem como a
sociedade por ações, mantendo o caráter privado da propriedade dos meios
de produção, não chegam a questionar a rt;lação capitalista em si. Há inversão na medida em que a propriedade do Estado sobre as forças produtivas
abre "formalmente" caminho para a socialização efetiva dos meios de produção; mas essa inversão permanece formal enquanto o poder de Estado
estiver nas mãos da classe capitalista dominante.
Nesse sentido, tanto na propriedade estatal como na propriedade
monopolista, a contradição entre o tipo de socialização que ela efetua e a
relação capitalista permanece não antagônica e por conseguinte a "relação
capitalista", longe de ser suprimida, é levada ao auge.

b) DA ANÁLISE DO CRÍDITO À PRODUÇÃO DO VALOR:
TEORIA DOESTADO E TEORIA DA
"SOBREACUMULAÇÃO-DESVALORIZAÇÃO DO CAPITAL"

A riqueza dessa primeira abordagem "interna" do Estado, a partir do

capital portador de juro e de suas formas sociais mais desenvolvidas que
são a sociedade por ações e o monopólio, não deve nem por isso esconder sua limitação: as formas sociais que geram o monopólio de Estado sociedade por ações, cartel, truste, etc. - procedem da separação do lucro
11 7

economistas de Economie et politique. Neles há o cuidado constante de
;untar a relação capital constante/capital variável com a relação trabalho
cristalizado (morto)/trabalho vivo que funda a teoria da mais-valia; é bem
explicitamente que P. Boccara apresenta a teoria da sobreacumulação-desvalorização do capital como desenvolvida sobre a base da teoria da
mais-valia e do capital(228); para ele, essa teoria "permite aprofundar o elo
entre o livro I e o livro III do Capital (entre a análise em termos de valor e
a análise em preços de produção, etc.)(229). A oposição entre "trabalho
,cristalizado do capital acumulado e trabalho vivo fornecido pelo proletário", longe de ser dissimulada pelo conceito de sobreacumulação, desenvolve-se ao contrário " na oposição entre trabalho cristalizado do capital
constante e trabalho vivo representado pelo capital variável"(230) .
A sobreacumulação do capital, exprimindo a tendência à baixa da
taxa de lucro ligada à elevação da composição orgânica do capital, não será
compreensível se for separada da teoria do valor e da mais-valia: "Para
compreender essa sobreacumulação, basta supor que ela é absoluta. Haveria sobreprodução absoluta de capital quando o capital adicional destinado
à produção capitalista fosse igual a zero. Ora, a finalidade da produção
capitalista é a valorização do capital, isto é, a apropriação do trabalho
excedente, a produção de mais-valia, de lucro. Logo, quando o capital
tivesse aumentado relativamente à população operária em tal proporção
que o tempo de trabalho absoluto fornecido por essa população não pudesse ser prolongado, nem o tempo de trabalho excedente relativo pudesse ser
estendido ... logo, se o capital aumentado só produzisse uma massa de
mais-valia no máximo igual ou até menor do que antes de seu aumento,
haveria então sobreprodução absoluta do capital ... "(231).
A cisão absoluta entre trabalho vivo e trabalho cristalizado, valor de
uso e valor da força de trabalho, que é característica de toda economia
mercantil, encontra sua forma mais perfeita na economia capitalista, na
medida em que o próprio motor da economia capitalista, ou seja, a elevação da produtividade do trabalho vivo pela acumulação do trabalho cristalizado, entra em contradição com a "própria finalidade da produção capitalista . . . a produção de mais-valia".
Mas não se deve entender essa contradição como simples repetição

de juros e lucro de empresa. Ora, já foi visto, "o juro não mostra o capital
em oposição direta ao trabalho, mas sim em relação com ele"(224).
De modo ainda mais geral, a esfera do lucro dissimula completamente o processo de produção de mais-valia. Assim, quando definimos as diversas formas capitalistas de socialização como contradições da relação capitalista, tratava-se de definições concernentes não ao processo de extração
da mais-valia, isto é, ao próprio fundamento da existência do capital, mas
sim à relação entre agentes capitalistas na esfera de circulação: capitalistas
"produtivos" - industriais - e capitalistas acionistas - banqueiros-; direção "t~cnica" e direção "comercial" da sociedade por ações, etc.
A primeira vista, é o que acontece com a teoria da sobreacumulação-desvalorização(225) do capital, exposta por Marx na terceira seção do
livro III do Capital dedicada à lei da tendência à baixa da taxa de lucro
("Développement des contradictions internes de la loi") (Cap. XV).
Na medida em que a diferença - que funda a teoria - entre sobrelucro dos capitais monopolistas e taxa de lucro inferior ou nula dos capitais "desvalorizados", na medida em que essa diferença "só intervém no
nível da repartição da mais-valia socialmente produzida entre diferentes
capitais, e não no nível da produção de mais-valia"(226),já que a exploração do trabalho é tão intensa nas empresas "públicas" quanto nas empresas
privadas, não se deve então dar razão a E. Balibar quando ele rejeita o
conceito de "desvalorização" do capital - a taxa de mais-valia também
aumenta nas empresas públicas - e acusa essa teoria de "substituir a
análise do lucro a de mais-valia em vez de basear-se nesta" e de "definir o
capital não como relação social de exploração mas como grandeza contabilizável"(22 7)?
Para bem precisar a crítica de Balibar, a teoria da sobreacumulação-desvalorização dissimula, segundo ele, a luta entre capital e trabalho, reduzindo-a à forma fenomenal, aparente, de oposição entre capital constante e
capital variável (lei da tendência à baixa da taxa de lucro e problema da
medida dessa taxa como relação entre "grandezas contabilizáveis").
Tal crítica é surpreendente quando se estuda com cuidado a exposição que Boccara faz da teoria da sobreacumulação-desvalorização; chega-se
mesmo a duvidar de que Balibar tenha lido os trabalho de Boccara e dos
(224) Marx, Le Capital, liv. III, 5.ª seção, Cap. XXIII, p. 47.
(225) Ver principalmente Paul Boccara, EtudetJ rur /e capitalisme monopoliste
d'Etat, sa crise et son issue, Ed. Sociales, 1973, sobretudo Cap. I, pp. 41-69.
(226) E. Balibar, Cinq études du matérialisme historique, op. cit., p. 164.
(227) Ibid., p. 164.
118

1

(228)
(229)
(230)
(231)

P. Boccara, Etudes sur le CME, op. cit., p. 296, n. 1.
Jbid., p. 304.
Jbid., p. 308.
Marx, Le Capital, op. cit. , Ed. Sociales, Liv. III, 3.ª seção, Cap. XV,

t. VI.

119

da relação trabalho vivo/trabalho morto no nível do processo imediato de
produção da mais-valia, tal como está exposto no livro I do Capital. No
livro III do Capital, trata-se ao contrário de passar do processo imediato
de produção para a unidade do processo de produção e do processo de
circulação, para o movimento do capital considerado como um todo "que
nos aproxima progressivamente da forma sob a qual ele se manifesta na
sociedade ... na ação recíproca dos diversos capitais... "(232). Mas isso
não quer dizer de modo algum que a gênese real dessas "formas concretas
do capital" seja esquecida, como o é na consciência dos agentes do capital;
a diferença entre o procedimento científico e as percepções imediatas
destes últimos está justamente em que ele é capaz de reconstituir o processo ideológico inconsciente que vai metamorfosear e dissimular o processo
imediato de produção de mais-valia onde se afrontam diretamente capital
e trabalho. Contudo, o "mistério profundo" da economia política clássica
- constituído pela oposição entre a necessidade de elevar a produtividade
do trabalho e a necessidade de manter a taxa de lucro - não se explica se
não relacionarmos composição orgânica do capital com relação social imediata, fundamental, entre o valor de uso da força de trabalho (a necessidade de desenvolver de modo ampliado a reprodução do trabalho vivo) e
seu "valor" como quantum de trabalho abstrato, massa de trabalho excedente destinado a criar um capital adicional.
Por ter ficado preso ao processo imediato de produção da mais-valia,
E. Balibar não pôde entender o sentido do conceito de "desvalorização"
do capital que ele opõe ao aumento da mais-valia relativa provocado pelo
crescimento da exploração do trabalho. Ora, Marx mostra justamente que
no nível do processo de conjunto do capital social (não mais do capital
individual abstrato do livro I, mas sim do conjunto dos capitais postos em
relação) se for reintroduzido o efeito do tempo social (efeito da rotação
sobre a produção de mais-valia, logo, de lucro), chega-se a um momento
em que "o tempo de trabalho absoluto que_fornece (a população operária)
não poderia ser prolongado, nem o tempo de trabalho excedente relativo
poderia ser estendido"; então o capital adicional não produz mais lucro ou
até produz menos que o capital C antes de ser acrescido de ~C: "De qualquer modo, parte do antigo capital teria de ficar ociosa. Ele deixaria de
agir na sua qualidade de capital, na medida em que ele tem que funcionar
e valorizar-se como capital.. . "(233). É esse o sentido qÜe precisa ser dado
(232) Ibid., Ed. Sociales, liv. III, Cap. I, t. VI, p. 47.
(233) /bid., t. VI, pp. 265-266.
120

ao conceito de "desvalorização" do capital. Além disso, P. Boccara não
reduz de modo algum a sobreacumulação do capital à sobreacumulação do
capital constante, na medida justamente em que a atual crise do capitalismo mostra que pode haver "insuficiência em relação às novas necessidades
(ligadas ao crescimento dos meios materiais de produção em quantidade e
em qualidade tecnológicas) de despesas com trabalho cristalizado, fora da
produção material em sentido estrito assim como para aumentar as capacidades exigidas dos trabalhadores"(234). Veremos adiante a importância
primordial dessas despesas de consumo coletivo na análise do financiamento público da urbanização. Assinalemos por ora que o vínculo estabelecido
entre os gastos com educação, pesquisa, urbanização e a sobreacumulação
do capital mostra que a teoria da sobreacumulação, longe de ser uma análise do lucro amputada da análise da luta de classes, é antes de tudo análise
da relação entre as exigências de formação das forças produtivas humanas
( o trabalho vivo) e as exigências ligadas à acumulação da mais-valia ( do trabalho cristalizado).

DA SOBREACUMULAÇÃO-DESVALORIZAÇÃO À TEORIA DO ESTADO

Marx liga explicitamente sua análise da desvalorização do capital
com a exportação de capitais(235) e com o desenvolvimento do capital-ação das empresas de forte composição orgânica de capital, como as estradas de ferro( 236). De modo mais geral, P. Boccara mostra que o capitalismo vai elaborar respostas de conjunto à tendência para a sobreacumulação
durável do capital social, pela instauração de desvalorizações setoriais que
implicam uma reestruturação profunda do sistema capitalista; assim, o
capital financeiro no estágio monopolista simples bem como o capitalismo
monopolista de Estado representam dois tipos de desvalorização de uma
parte do capital social, para "contrariar", "regular", nos limites do contexto capitalista, a tendência à baixa da taxa de lucro.
Esta teoria tem pois a vantagem de retomar, sistematizando-as, as
primeiras abordagens "internas" da gênese do Estado, que havíamos perce(234) Ibid., p. 309. Esse ponto será bastante desenvolvido no capítulo seguinte quando forem analisadas as repercussões do financiamento público da urbanização
sobre a diminuição da taxa média de lucro.
(235) /bid., p. 268.
(236) Ibid., p. 275. Nessas empresas, o capital pode não render a taxa média
de lucro mas só reverter uma parte sob forma de juro.
121

bido tanto na análise do crédito como na da constituição dos monopólios.
O Estado também aí aparece como forma social, entre outras, da regu.lação
da economia capitalista, já que o financiamento público não se identifica
com a desvalorização de uma parte do capital social, do qual ele é apenas a
f~rma acab~d~. A desvalorização do pequeno e médio capital pela formaçao de cap1ta1s monopolistas constitui, com efeito, uma outra forma de
desvalorização. Mas o progresso incontestável da teoria da sobreacumulação com referência às abordagens anteriores é evidentemente sua capacid~de de re!acio?ar a análise do Estado com a análise do processo de produçao ~~ mais-valia'. logo, com a relação capital/trabalho. Ao passo que tanto
ª. anahse do ~réd1to quanto a análise das formas capitalistas de socialização
ficavam confmadas nas relações de circulação ou de repartição da mais-~alia, teoria da sobreacumulação liga explicitamente essas relações de
crrculaçao com as relações de produção de mais-valia, por meio da análise
~o valor; mais ainda: ela integra as análises parciais da socialização capitalista numa explicação de conjunto onde as formas sociais privadas e as
fo~m~s públicas são ligadas ao movimento de conjunto do capital, mas
pnnc1palmente ao desenvolvimento do capitalismo em estágios e fases definidos rigorosamente como respostas, ao mesmo tempo, qualitativamente
novas e limitadas, do sistema capitalista às longas fases históricas de sobreacumulação.

ª-

INFRA-ESTRUTURA E SUPERESTRUTURA : REGULAÇÃO SOCIAL
E LUTA DE CLASSES

Resta uma última objeção de Balibar: a teoria da sobreacumulação-desvalorização, ao reduzir a história das formações capitalistas a "regulações cegas", seria estritamente "economista" e estaria substituindo a luta
de classes como motor da história por mecanismos de regulação quase
"automáticos", o que significa recair na aporia funcionalista. Antes de
mais nada, lembremos que Boccara recusa várias vezes em sua obra qualquer fatalismo economista. É verdade que ele assimila a teoria da sobreacumulação-desvalorização a uma "regulação espontânea, agindo como
um organismo natural, biológico"(237), regulação "cega"(238) de um
"organismo" que chega provisoriamente a "manter sua coerência ape(237) Op. cit., p. 354.
(238) Jbid., p. 302.
122

sar do desenvolvimento dos antagonismos e a reencontrar seu equilíbrio... "(239); ele chega até a falar de um "mecanismo de regulação natural, surgindo do grande número de ações individuais" que "se impõe como
uma fatalidade social cega"(240). Mas P. Boccara recusa-se, ao mesmo
tempo, a identificar essa teoria da "regulação" com qualquer tipo de "fatalismo": não há, diz ele, "ação mecânica fatal do desenvolvimento econômico sobre o movimento político. Não há desenvolvimento fatalista"< 241 ).
Pelo contrário, são as lutas de classe que "obrigam o capitalismo" a profundas transformações estruturais e, depois, à transformação revolucionária que leva à construção de uma sociedade socialista(242). Resta saber em
que medida P. Boccara nos fornece os conceitos necessários para pensar
"ao mesmo tempo", dialeticamente, a sobreacumulação-desvalorização
como:
mecanismo de equilibração;
efeito da luta de classe.
De fato, a ligação é afamada, postulada, mas pode-se perguntar, retomando a expressão epistemológica de R. Boudon(243), se ele não fica mais
numa definição "intencional" do que conceituai da ligação entre regulação
econômica, estrutural e luta de classes. Se bem que esse problema esteja
fora das preocupações centrais - econômicas - da exposição de P. Boccara,
ele não pode ser ignorado na medida em que, como diz o próprio P. Boccara, o problema da regulação social vai muito além do campo da economia,
se é que existe um campo fechado da economia ( de uma estrutura econômica separada da superestrutura política, ideológica, jurídica, etc.) para o
materialismo histórico. P. Boccara procura em dado momento sugerir uma
solução quando nos mostra a diversidade politica das formas de intervenção estatal como soluções para o bloqueio da estrutura monopolista simples ( da economia nazista ao New Deal de Roosevelt ou às reformas democráticas da França em 1945)(244). Mas é fácil fazer uma objeção: esse
exemplo se inscreve no interior mesmo da regulação capitalista, já que esse
modo de relação entre luta de classes e estrutura econômica levará à constituição de uma nova estrutura capitalista ( o capitalismo monopolista de
(239)
(240)
(241)
(242)
(243)
(244)

Ibid., p. 303.
Ibid., p. 357.
Ibid., p. 142; cf. também p. 135.
Ibid., pp. 222-223; p. 310, etc.
A quoi sert la notion de structure, op. cit.
P. Boccara, op. cit., p. 143.

123

Estado, nova fase do estágio imperialista) e não à superação, à destruição
da própria estrutura capitalista. Ora, P. Boccara não indica o que distingue
esse tipo de relação entre luta de classes e estrutura econômica - relação
de tipo "refonnista" - da relação "revolucionária" pela qual as lutas de
classe, como as que estão, na França, ligadas ao programa comum de governo PS-PCP, possibilitam um processo de transição para um outro modo de
produção - o modo de produção socialista. Esta crítica pode parecer
estranha na medida em que toda a terceira parte de sua obra é justamente
dedicada à análise do vínculo entre "a teoria da crise do CME" e "sua solução revolucionária democrática". Mas essa parte é mais voltada para a
análise de conteúdo revolucionário da democracia avançada - fase de transição ao socialismo que seria aberta pelo programa comum da esquerda do que para a definição exata do processo sócio-político que romperia não
apenas com a "regulação espontânea" do capitalismo, mas até ultrapassaria
os limites dessas adaptações, de suas reformas estruturais análogas às que a
França experimentou em 1945.
Aliás, o problema é explicitamente colocado sob todas as dimensões
quando P. Boccara observa "que a democracia avançada, econômica e política, dando acesso ao socialismo, seja a solução necessária da crise do CME
num país como a França não quer dizer que essa solução seja fatal. Odesfecho real depende das lutas de classe concretas"(245).
Mas não se pode parar aí, visto que P. Boccara traz inúmeros elementos que permitem esboçar a forma e o conteúdo que deveriam ter essas
lutas de classe para chegar a uma transformação revolucionária, rompendo
de verdade com a lógica de acumulação do capital. Quer se trate da exposição da convergência das lutas da classe operária e das camadas médias
assalariadas e não assalariadas, ou da análise do questionamento da predominância monopolista pela aplicação sobretudo das nacionalizações democráticas dos setores-chave da economia, é fácil mostrar em que essas lutas
de classe têm um novo conteúdo em relação às lutas da Frente Popular ou
da Liberação e questionam desta vez diretamente a lógica do capitaJ(246).
Nossa pergunta ficaria mais precisa se fosse formulada assim: a análise da
"crise do CME" revela, em relação aos estágios e fases econômicas anterio(245) Ibid., p. 328.
(246) "Ao contrário do que acontece no CME, desde a democracia avançada,
a lógica de conjunto da economia já não é mais a que é imposta pela acumulação do
capital privado . . . a democracia avançada ... constitui uma fase de transição revolucionária ao socialismo" (p. 371).

124

res, uma "barreira"(24 7), um novo limite do capitalismo com referência a
suas antigas capacidades de adaptação à sobreacumulação do capital? Na
medida em que nenhum fatalismo, nenhum catastrofismo é aceito por
Boccara, na medida em que, por conseguinte, pode-se imaginar, senão
novas formas de regulação "espontâneas" - estruturalmente tão novas
quanto o monopolismo simples ou o CME - pelo menos adaptações provisórias(248), como conceber a transição do reformismo - de reformas
capitalistas que permitem uma nova auto-regulação capitalista - para um
processo revolucionário que destrói, que mina o próprio CME?
Pode-se encontrar resposta a essa pergunta na última parte do Capítulo I da terceira parte do livro dele, intitulado: "Evolution et fonctionnement économiques dans la démocratie avancée, comme phase de transition
révolutionnaire au socialisme". Ao centrar sua resposta na dupla solução
possível da luta de classes característica da fase de transição, P. Boccara
evita qualquer tentação determinista. Fazendo predominar o setor público


!

:

(24 7) "Doravante, após a instauração de um setor público, decisivo para a
acumulação privada, é a própria intervenção pública do CME, a utilização sistemática
do setor público no interesse monopolista privado que está em fogo e constitui a
barreira estrutural, quaisquer que sejam as 'reformas' efetuadas no âmbito dessa
estrutura" (op. cit., p. 327).
(248) Dentre todas as "racionalizações" capitalistas possíveis no âmbito do
CME, P. Boccara cita a concentração monopolista acelerada, a reestruturação do setor
público existente e das "funções coletivas" do Estado ou, ainda, as "economias" ligadas ao reagrupamento dos investimentos sociais das coletividades locais (op. cit.,
p. 327). Além disso, ele nota que a "pressão das diferentes categorias de trabalhadores pode impor esforços com a finalidade de procurar limitar os estragos da desordem
econômica e monetária, principalmente os do desemprego maciço, certos excessos da
especulação e as insuficiências mais gritantes de despesas sociais", mas essas despesas
de intervenção mais ou menos públicas (ajudas à acumulação monopolista, gastos
com infra-estrutura e com consumo coletivo - urbanização ou formação ...) ...
"acarretam a partir de agora no âmbito do sistema de lucro monopolista a agravação
da sobreacumulação durável e a pressão inflacionista redobrada dos lucros e da acumulação" (op. cit., pp. 325-326).
"Longe de edificar um novo andar do CME, elas aumentam, com seus novos
arranjos, as tensões em todo o edifício" (ibid., p. 410). Também a análise do desenvolvimento da revolução técnica e científica, em ligação com as exigências da própria
desvalorização do capital, leva-o a afirmar que doravante "não se trata mais de fazer
sacrifícios numa estrutura que mantém a dominação do lucro ... como no capitalismo monopolista de Estado. Ii o próprio sistema do CME que está em crise. O objetivo
do capitalismo, o lucro para a acumulação, é questionado não mais de forma parcial,
como no passado, mas sim de forma total pelas exigências revolucionárias do desenvolvimento das forças produtivas" (ibid., p. 408).

125

graças à extensão da nacionalização antimonopolista e levando ao poder as
forças democráticas, a democracia avançada não possibilita de modo algum
uma "pausa social" ou neutralização da luta de classes. Pelo contrário, a
democracia avançada é caracterizada por uma "contradição geral entre o
setor nacionalizado ou público dominante e a orientação democrática da
política econômica, por um lado, e, por outro, a sobrevivência de um importante setor de produção capitalista privada e a importância das relações
exteriores com o mundo capitalista"(249). Trata-se da expressão de contradições capitalistas no decurso de uma fase de transição revolucionária(250). Mas, segundo a capacidade das forças operárias e democráticas advindas do poder de Estado e do setor nacionalizado - para reduzir os
obstáculos econômicos através da extensão das nacionalizações do grande
capital ou do uso das formas de propriedade cooperativa, pode-se imaginar
ou um processo de redução sistemática dessa contradição em proveito da
nova regulação social antimonopolista, ou, ao contrário, um reforço do
setor capitalista privado e de maiores dificuldades econômicas que acabariam por isolar a esquerda no poder e permitiriam, com o tempo, a volta
maciça dos representantes políticos do CME. Tudo dependeria pois do
grau de consciêncfa(25 l) do antagonismo de classe subsistente não apenas
entre os partidos políticos no poder, mas também e sobretudo entre as
massas populares mobilizadas por estes últimos.
Para avançar mais na análise da relação político/econômico será
preciso que fiquem esclarecidas:
- as relações de classe decorrentes do desenvolvimento do capitalismo,
sobretudo na perspectiva da periodização histórica fundada pela
teoria da sobreacumulação-desvalorização;
a inserção dos atores políticos nestas relações de classe, principalmente através do fenômeno de toma.da de consciência de sua situação objetiva.
3. O Estado e a análise das classes sociais

a) ELEMENTOS PARA UMA ANÁLISE DAS CLASSES SOCIAIS
Inicialmente parece-nos necessário distinguir três níveis de análise
das classes sociais:
(249) Ibid., p. 366.
(250) Jbid., p. 368.
(251) P. Boccara, op. cit., p. 366.
126

O primeiro nível é fundamental na medida em que determina a existência das duas classes fundamentais ( capital e classe operária): é o processo imediato de produção onde se distinguem os agentes produtores de
mais-valia e os agentes que dela se apropriam; ou ainda, trata-se de fundar a
existência das classes sociais sobre a dissociação entre propriedade dos
meios de produção e força de trabalho. Esse é o objetivo do primeiro livro
do Capital de Marx.
O segundo nível de análise engloba o conjunto da reprodução do
capital, e por conseguinte as diferentes fases da metamorfose do capital, o
que nos leva a considerar o fracionamento do capital segundo as diferentes
funções autonomizadas na esfera da p~odução (fração industrial) e da
circulação (fração comercial e fração bancária(25 2) do capital). Este segundo nível de análise amplamente exposto por Marx no livro III do Capital foi
muito bem resumido por N. Poulantzas em Pouvoir politique et classes
sociales (p. 253). Eis os dois textos de Marx que mais bem caracterizam
este tipo de fracionamento do capital:
"A existência do capital, enquanto capital-mercadoria ( o capital comercial). . . constitui uma fase do processo de reprodução do capital
industrial, logo, de seu processo total de produção ... trata-se de duas formas de existência separadas, diferentes, do mesmo capital" (livro III, t. I,
p. 280, Ed. Sociales).
De qualquer modo, a autonomização do capital em função nos diferentes lugares do processo global de produção leva à constituição de verdadeiras frações autônomas de classe. "Que o capitalista industrial trabalhe
com seu próprio capital ou com o capital emprestado não altera nada o
fato de que: a classe dos capitalistas financeiros se opõe a ele como uma
categoria particular de capitalistas, o capital financeiro aparece como uma
espécie de capital autônomo, e enfim, o juro como a forma independente
da mais-valia correspondente a esse capital específico"(2 5 3 ).
A esse tipo de fracionamento, N. Poulantzas acrescenta com muito
acerto a oposição entre a grande propriedade fundiária e o capital como tal.
A essas frações do capital correspondem frações dos trabalhadores
assalariados (assalariados da indústria, do comércio, dos bancos). Mas o
segundo nível permanece subordinado ao primeiro que é fundamento
(252) Preferimos usar o qualificativo "bancário" em vez de "financeiro" que
reservaremos a uma das frações do capital origináxio do terceiro nível de análise (a
fração monopolista ou o capital financeiro).
(253) Op. cit., livro III, t. II, p. 42.
127

dessas relações de repartição ( de distribuição) dos agentes sociais em lugares distintos, segundo a natureza do processo de produção da mais-valia.
Assim, a justaposição igualitária dessas frações do capital e do trabalho é
substituída, além das aparências, pela distinção fundamental entre, de um
lado, o par classe "operária" (única fração de trabalhadores assalariados
que produz mais-valia)/capital produtivo (de mais -valia) e, de outro, todas
as outras frações de classe que tiram a própria existência dessa primeira
relação de classes.
É forçoso constatar que, apesar das referências rituais mais numerosas à reprodução ampliada das classes sociais, a maioria dos autores marxistas pára aí a análise de classes e frações de classe, o que significa, no final ,
apesar de suas afirmações, limitar-se à reprodução simples dos processos
globais de produção, isto é, ao funcionamento de um sistema social que se
repete eternamente.
Passar ao terceiro nível de análise que ultrapassa e ao mesmo tempo
se apropria realmente dos dois primeiros níveis consiste, com efeito, em
relacionar a análise da reprodução das classes sociais com o desenvolvimento do modo de produção, logo, à sua transformação histórica e à sua dissolução. Resumindo, trata-se de "tornar dialética" uma análise que permanece forçosamente estática e mecanicista nos dois primeiros níveis e, por
isso, de diferenciar a estrutura de classes de acordo com os diferentes estágios e fases de desenvolvimento do modo de produção - no caso, do capitalismo.
Ora, o desenvolvimento do MPC caracteriza-se por um duplo processo, ou antes pela interação de dois processos:
a socialização dos processos de produção e de circulação ( da divisão
social e técnica nesse processo)( 25 4);
(254) Nicas Poulantzas recusa-se obstinadamente a relacionar o desenvolvimento das forças produtivas com relações de classe. f'. verdade que se deve evitar qual·
qu er tentação "tecnicista" que consiste em apresentar a ação das forças produtivas
sobre a estrutura social como uma ação "neutra" ou como se a própria estrutura
sócio-econômica não agisse sobre o desenvolvimento das forças produtivas. Contudo,
a tentação inversa de afogar as forças produtivas nas relações de produção , a divisão
técnica na divisão social do trabalho, e, portanto, de suprimir a relativa autonomia
das forças produtivas.. . leva a suprimir a contradição fundamental do MPC entre "o
invólucro" social (a propriedade privada dos meios de produção e dos meios de troca)
e a natureza das forças produtivas (cada vez mais socializadas). Contradição que fundamenta, não convém esquecer, a contingência histórica do .MPC e a possibilidade de
sua transformação 1evolucioruuia. Lembremos a tão conhecida citação de Marx no
Manifesto de 1848: "Há dezenas de anos, a história da indústria e do comércio não
128

a concentração do capital, concentração que chega, no estágio supremo chamado de "putrefação" do capitalismo, à formação de uma
nova fração cuja autonomia não tem mais nada a ver com a das frações do segundo nível. Fato ainda mais importante: essa nova fração
nascida do processo de socialização-acumulação do capital perturba
o conjunto das relações que existiam entre as frações da classe capitalista, como entre as dos trabalhadores assalariados.
Um outro tipo de fracionamento é portanto produzido pela domina, ;io econômica do capital monopolista e isso :

no interior da classe capitalista: entre a fração monopolista e duas
frações que analisaremos detidamente, na medida em que - Poulantzas tem razão de observar isso, embora não proponha nada para
ajudar na análise - as definições não são muito nítidas. Trata-se do
pequeno e médio capital;
no interior dos trabalhadores assalariados que não fazem parte da
classe operária; um novo fracionamento se efetua também entre uma
fração que garante a realidade da direção e do controle dos grupos
monopolistas (na verdade , falsos assalariados) e se integra na nova
fração dominante - o capital monopolista - e as outras frações que
se designa pela noção de camadas intermediárias assalariadas, para
significar não, como pretende Poulantzas, que elas estão "fora das
classes" (reflexão tipicamente mecanicista) mas sim que elas tendem
a oscilar, a resvalar para uma nova classe operária cada vez menos
redutível aos "trabalhadores manuais".
Isso nos conduz ao segundo eixo fundamental deste terceiro nível de
análise, o eixo dinâmico, que substitui os critérios estáticos da reprodução
simples pelo movimento de polarização social, característico de todo o
desenvolvimento do capitalismo(255), e talvez mais ainda do seu estágio
monopolista.
passa da história da revolta das forças produtivas modernas contra as relações modernas de produção".
(255) Ao passo que a manutenção sem mudança do antigo modo de produção
era "para todas as classes industriais anteriores a condição primeira de sua existência",
com o MPC , "todas as relações sociais, tradicionais e rígidas, acompanhadas de con·
cepções e idéias antigas e veneráveis, se dissolvem" (O Manifesto de 1848). E isso
num sentido preciso : "Pequenos industriais, comerciantes e pequenos proprietários,
artesãos e camponeses, todo o escalão inferior das classes médias de outrora cai no
proletariado" (ibid., p. 30), o que O Capital retomará de modo mais teórico na aná-

129

É preciso no entanto não compreender de forma simplista o conceito
de polarização social e N. Poulantzas tem uma certa razão quando observa,
em seu último livro, que "a imagem esquemática de uma polarização interna radical entre alguns gigantes monopolistas, de um lado, e, de outro, uma
massa de pequenas empresas"(2 56) não corresponde à realidade, já que "o
capital não monopolista cobre de fato ... uma gama dispersa que compreende muitas empresas de tamanho médio igualmente atingidas pelo
processo de sua dependência em relação ao capital monopolista".
Mas aprofundar a hipótese da polarização social supõe que se considerem conceitos intermediários discriminantes, o que infelizmente não é o
caso das obras de Poulantzas onde se procuraria em vão uma definição
exata das diferentes frações não monopolistas do capital e, ainda mais
fundamentalmente, do processo de fracionamento-polarização.
Ora, o estudo fundamental de Louis Perceval sobre os camponeses(257), que retoma e atualiza os trabalho - e o método - de Lenin sobre
o campesinato russo, ajuda-nos a avançar nessa direção, na medida em que
consegue analisar as diferentes frações do campesinato através do processo
atual de acumulação do capital, logo, de modo basicamente dinâmico e
histórico. Dois critérios fundamentais lhe permitem classificar as diferentes
camadas sociais: "O emprego ou não da mão-de-obra assalariada e o grau

desse emprego, por um lado; por outro, a possibilidade temporária ou permanente de obter um excedente de renda suscetível de transformar-se em
capital, garantindo assim não apenas a reprodução simples, mas uma reprodução ampliada que pode chegar à maior exploração do trabalho assalariado. O primeiro critério serve para determinar se a camada pertence ou não
a uma das duas classes fundamentais; o segundo serve para julgar para que
classe resvala objetivamente, na época considerada, a própria camada, o
que a define por si"(25 8).
É notável a argúcia dialética desse método de análise que, em vez de
lise da acumulação: "Assim como a reprodução simples reconduz constantemente a
mesma relação social - capital e salário - também a acumulação reproduz sem cessar
essa relação numa escala igualmente progressiva com mais capitalistas (ou com maiores
capitalistas) de um lado, e, de outro, mais assalariados... Acumulação do capital é
portanto concomitante crescimento do proletariado" (Le Capital, liv. I, 7.ª seção,
Cap. XXV, t. III, p. 55).
(256) Lesclassessocialesdans /e capitalismed'au;ourd'hui, Ed. du Seuil, 1974,
p. 165.
(257) Avec les paysans, pour une agriculture non capitaliste, Ed. Sociales,
1969, sobretudo pp. 155-182.
(258) lbid., p. 157.

130

reduzir o estudo das classes sociais à elaboração de um sistema rígido de
lugares onde ficariam definitivamente encerradas essas camadas sociais,
sugere a elaboraçáo de um modelo tendencial; o lugar no processo de produção, longe de ser atribuído de uma vez por todas, imutável, está aí definido por seu movimento objetivo em direção à grande exploração capitalista ou em direção ao pequeno e médio cawpesinato proletarizado em via de
desaparecimento.
E.sse método permite-lhe portanto diferenciar a situação das diversas
"camadas sociais intermediárias" no movimento de polarização social.
Assim ele evoca de forma prospectiva a evolução divergente dos pequenos
exploradores capitalistas dos quais "uma parte juntou-se ao campesinato
abastado, e outra aos grandes exploradores capitalistas"( 25 9), o que nos
parece responder perfeitamente, e no nível da prática científica, à objeção
de N. Poulantzas.
Porém, a especificidade do setor agrícola - relativamente ao setor
industrial - na análise da concentração monopolista, leva L. Perceval a
abandonar um critério de diferenciação que considere especificamente o
monopolismo; assim, ele re<luz sua definição dos "grandes exploradores
capitalistas" ao fato de "efetuarem ao menos o equivalente do lucro médio"(260), embora o estágio monopolista tenha alterado completamente
o modo de repartição do lucro entre frações do capital. Existe ainda uma
"taxa média de lucro" ou, pelo contrário, no âmbito da sobreacumulação-desvalorização do capital, alguns setores de sobrelucro e inúmeros setores
onde o capital está mais ou menos desvalorizado? Como obseiva J.-P. Deli. lez, numa fórmula bastante exata, a formação do lucro médio, mesmo em
tendência, não passa de um engodo(26 l) hoje, destinado a esconder a realidade do estágio monopolista: a diferenciação das taxas de lucro, a reprodução de dois tipos de capitais - o capital monopolista e os capitais não monopolistas. Ora, os sobrelucros obtidos pela fração monopolista supõem
que os outros capitais funcionem a taxas inferiores e de fato sejam pouco
ou não remunerados. J.-P. Delilez descreveu muito bem essa solidariedade,
essa interação dos dois processos de reprodução no capitalismo monopolista: "Se certos capitais se acumulam rapidamente e conhecem uma rotação
rápida, é porque fazem recair a desvalorização sobre outros capitais q·ue
lhes são não obstante necessários como base, para obte.r taxas de lucro
(259) lbid., p. 178.
(260) lbúi., p. 160.
(261) Les monopoles, Ed. Sociales, 1970, p. 189.
131

elevadas. E se os capitais de baixa rentabilidade não se podem orientar para
outros ramos ou outras associações de maior rentabilidade ... é porque são
prisioneiros do sistema de inter-relações do capital financeiro. Só podem
escolher entre uma associação pouco remuneradora ... e o sono do entesouramento"(262) . A lei de perequação das taxas de lucro não tem mais
validade num sistema dominado em sua evolução como em sua estruturação pela lei de reprodução do capital monopolista.
Percebe-se a importância desse ponto para a análise da classe capitalista, e principalmente das frações não monopolistas. Por falta de uma real
assimilação da arrálise econômica do monopolismo, sociólogos como Poulantzas ou Baudelot e Establet(26 3) não conseguem encontrar uma base
objetiva para os conceitos unificadores de polarização social e de camadas
sociais não monopolistas.
E, justamente, porque o MPC só subsiste atualmente pela desvalorização maciça não apenas do pequeno capital mas do conjunto de capitais
não monopolist~, inclusive dos setores controlados pelos grupos monopolistas mas não remunerados à taxa de lucro extra (ou monopolista), é que
se pode formular a hipótese de uma nova barreira fundamental de classe: a
do pertencimento ou não-pertencimento ao capital monopolista.
Porque se ,ecusa a considerar as conseqüências das mudanças sociais
trazidas pelo estágio de desenvolvimento monopolista, Poulantzas fica
obrigado a oscilar entre referências rituais às análises do capitalismo concorrencia1(264) e a constatação - inexplicável de acordo com suas próprias
hipóteses - da e.xistência de novas formas de polarização social(265) .
Ao tomar como critério discriminante apenas o conceito de "burguesia" ( ou seja, a propriedade dos meios de produção e de troca), Poulantzas e Baudelot transformam o materialismo histórico em um dogma
(262) Ibid., p. 189.
(263) La petite bourgeoisie en France, Ed. Maspero, 1974.
(264) "O conjunto do capital não monopolista situa-se do lado burguês da
baneira de classe" (op. cit., p. 166); cf. também p. 163: "A maior dependência do
capital não monopolista em relação ao capital monopolista ... não significam absolutamente (sic) que o capital não monopolista seja 'explorado' pelo capital monopolista" (Poulantzas, op. cit.) .
(265) Assim ele tem que admitir que a acumulação monopolista atinge tanto
o pequeno quanto o médio capital: "Uma pequena empresa capitalista não tem,
forçosamente, com o capital monopolista, mais contradições do que teria uma 'média
empresa' capitalista. O processo de lúzuidação e de eliminação naõ ameaça apenas o
pequeno capitalista, mesmo se a taxa de mortalidade parece mais forte nas pequenas
do que nas médias enpresas capitalistas (ibid., p. 166).

132

fechado, incapaz de analisar as "novas formas" da realidade, segundo a
expressão de Lenin em A Doença Infantil do Comunismo. O conceito de
burguesia tornou-se secundário relativamente ao de "diferenciação das
taxas de lucro, sob a predominância do capital monopolista", e seu antigo
poder unificador esfacela-se diante dos novos mecanismos da exploração
monopolista(266). Não é pois por urna espécie de incapacidade teórica que
se emprega, a respeito do conjunto das camadas não monopolistas, a expressão camadas intermediárias, mas sim para traduzir cientificamente o
fato atual de que essas camadas não se reproduzem mais de forma autônoma, como as frações industriais, comerciais ou bancárias do estágio
concorrencia1(267). Camadas e não classes sociais, na medida em que sua
reprodução é determinada, no nível atual da acumulação, pelo duplo movimento de monopolização e de proletarização: uma pequena fração do
médio capital poderá assim integrar-se ao capital monopolista por um
movimento ascendente, mas a grande massa dos capitais cai inelutavelrnente na esfera do pequeno capital, ela própria fadada a dissolução iminente
(sob múltiplas formas, aliás, como veremos).
Camadas intermediárias na medida em que elas estão não "no meio",
mas no duplo movimento ascendente-descendente que dissolve os antigos
(266) De fato, nossa hipótese é de que a contradição principal que fundamenta a exist~ncia do MPC é a que opõe acumulação do capital a reprodução da força de
trabalho. Ora, a "burguesia" só se define pela propriedade dos meios de produção,
sem especificar se o conjunto de seus detentores efetuá uma reprodução simples ou
ampliada (acumulação) do seu capital; o conceito de burguesia não é pois capaz de
diferenciar a pequena propriedade artesanal - cuja reprodução simples se aproxima
muito da sobrevivência de tipo proletário - da propriedade monopolista que é a
única apta, hoje, a efetuar uma acumulação de capital em larga escala.
Para nós, se a oposição antagônica e fundamental "capital/trabalho" pôde
designar, no estágio clássico do capitalismo, a oposição entre o conjunto da classe
burguesa - então pouco diferenciada - e o proletariado, ela remete - no estágio
monopolista - muito mais à contradição entre a única fração capitalista dominante
que se aproveita realmente do mecanismo da acumulação e o conjunto das camadas e
frações vítimas dessa forma de exploração das riquezas sociais. f. neste sentido que se
pode afirmar, como fizemos acima ao analisar os diferentes tipos de contradição
social, que "a contradição - constante - entre proletariado e capital não monopolista torna-se secundária - não está mais 'em primeiro plano', como no estágio pré-monopolista - permanecendo contudo antagônica".
(26 7) ''O capital financeiro significa de fato a unificação do capital. Os setores, outrora distintos, do capital industrial, comercial e bancário estão doravante sob
o controle das altas finanças onde os magnatas da indústria e dos bancos estão estreitamente associados" (R. Hilferding, Le capital financier, Ed. de Minuit, 1970, p. 407).

lugares no processo global de produção para aglomerá-los tendencialmente
nas duas classes fundamentais que são produzidas pelo atual movimento
de repartição da mais-valia: capital monopolista de um lado, proletariado
do outro ( classe operária e outros trabalhadores assalariados).
Não é relevante que se esteja falando de "camadas" ou de "frações"
de classe; o essencial é saber do que se fala e em que momento. Uma fração
do capital industrial da França de 1848 não tem em absoluto o mesmo
significado que um capital industrial do mesmo tipo em 1977 - mesmo
número de operários, mesmo tipo de acumulação ( de reprodução ampliada). No primeiro caso, de fato, a lei de perequação das taxas de lucro funciona em cheio entre capitais dos quais nenhuma fração consegue, sozinha,
dominar e regular, em proveito próprio, a repartição da mais-valia. No
segundo caso, ao contrário, esse médio capital aparece subordinado à
reprodução global do capital monopolista ( em escala nacional e, hoje, até
internacional) e a relação social dominante é det erminada, em última
instância, por essa predominância econômica do capital monopolista. Mesma conseqüência a respeito das camadas assalariadas: a nova divisão social
e técnica do trabalho nos grupos monopolistas modificou o modo de direção e de controle do processo de produção e de circulação , o que provoca,
como no interior das frações do capital, um duplo movimento de dissolução dos antigos lugares ocupados pelos técnicos e engenheiros, e por isso
um deslocamento dessa camada social:
para cima, de uma mínima fração deles que se associou à classe monopolista;
para baixo, da maioria dos que se tornam meros executantes, seja
associados diretamente ao processo de produção (trabalhadores
produtivos tendendo a integrar-se na nova classe operária), seja associados à direção técnica dos processos de produção e de circulação,
e coletando a mais-valia para a direção monopolista.
b) DAS RELAÇÕES DE CLASSE À ANÁLISE DO ESTADO

A teoria da sobreacumulação-desvalorização do capital introduz uma
diferenciação fundamental no processo de polarização social ao substituir
um evolucionismo ingênuo e mecanicista por uma periodização histórica
que exprime transformações estruturais próprias a cada estágio e a ca"da
fase de evolução do capitalismo. Em vez de conceber o duplo processo de
monopolização e de proletarização como um processo linear, é-se assim
134

levado a distinguir, correlativamente às longas fases de sobreacumulação e
desvalorização estruturais crônicas, períodos de estabilização relativa ou,
ao contrário, de aceleração dos processos de polarização social.
A mesma diferenciação deveria poder ser aplicada à análise das formas estatais correspondentes a cada estágio ou fase específica de desenvolvimento do capitalismo. Veremos adiante, no decorrer da nossa análise
sobre a formação social francesa e sua política urbana específica, em que
medida outros fatores sócio-econômicos podem ainda intervir nas variações das combinações possíveis entre estrutura econômica e poder político. Por enquanto, no quadro de elaboração de nossas hipóteses centrai~,
notaremos apenas que, longe de ser intangível, a estrutura do Estado capitalista não pode deixar de refletir, em última instância, a evolução fundamental da estrutura de classes, e principalmente a modificação da relação
de forças entre frações do capital, como entre o capital dominante e a classe operária. Para retomar o exemplo-chave, estudado por Poulantzas, do
"bloco no poder" constituído por frações relativamente iguais do capital,
é impossível, em nosso entender, emitir a hipótese de uma conservação
sem mudança dessa estrutura de poder estatal repousando numa ausência
de dominação econômica de uma fração de classe, quando se passa do capitalismo "clássico" de 1848 ao imperialismo da segunda metade do século
XX - caracterizado pela dominação sem partilha da fração monopolista do
capital.
É o que, para nós, fundamenta o conceito de capitalismo monopolista de Estado como " mecanismo único" de exploração capitalista ligando
monopólios e aparelho de Estado, sem com isso "fundi-los", o que é o
oposto das asserções de Poulantzas(26 8). Não há dúvida de que a novidade
deste conceito causa alguns problemas: como evitar, quando se fala de
"mecanismo único", tornar o Estado um elemento da infra-estrutura econômica, um agente econômico no mesmo plano que os grupos monopolistas? É a dificuldade principal que ameaça nossa análise "interna" do
Estado, "originário" da estrutura sócio-econômica, apesar de ser fu~damentalmente distinto dela. Pode-se achar uma "tradução sociológica" disso
no problema da relação entre pessoal político e classe economicamente
dirigente, tal como expôs R. Aron:
"Não nego que em certas ocasiões os representantes dos interesses
capitalistas tenham exercido pressões sobre os estadistas. O que afirmo é
(268) N. Poulantzas, Les classes sociales dans /e capita/isme d'aujourd'hui, op.
cit. , p. 198. Ver, por exemplo , a análise de P. Boccara, op. cit., p. 296.
135

não ser verdade que a minoria que dirige as grandes concentrações industriais constitui um grupo único, com uma mesma representação do mundo
e uma vontade política una. Jamais e em nenhum lugar foi constatada essa
cristalização, como classe consciente de si, dos donos das organizações econômicas.
"Também não é verdade, do que se pode julgar pela experiência, que
os representantes dos grandes interesses econômicos 'tiranizem' os dirigentes políticos e lhes imponham decisões. Os que gerem as grandes concentrações industriais exercem, normal e legitimamente, uma influência sobre
a política do país. Descrevê-los como déspotas que manipulam títeres políticos é cair na mitologia. Os representantes dos grandes interesses econômicos não merecem nem tanta honra nem tanta infâmia"(269).
É o mesmo tipo de crítica contra o "mecanismo único" que se
encontra em Poulantzas quando pretende - sem razã:o - que "para o PCF
principalmente, a prova da fusão do Estado e dos monopólios em um
'mecanismo' único acha-se na identificação física dos 'indivíduos' que os
dirigem"(2 70).
Ora, observa Poulantzas, "atualmente em certos governos social-democratas europeus (Alemanha, Áustria, Suécia, Grã-Bretanha com
Wilson), a hegemonia do capital monopolista se realiza por meio de um
pessoal político quase todo proveniente das fileiras não só do capital não
monopolista, mas também da pequena burguesia e até da aristocracia operária pelo canal sindicatos-Partido Social Democrata ou Trabalhista"(2 71) .
É certo que as análises de Henri Claude sobre a natureza do poder
gaullista contribuíram para dar crédito a essa concepção "vulgar" do capitalismo monopolista de Estado, reduzindo o mecanismo único de inter-relações classe monopolista-Estado a relações pessoais entre dirigentes das
grandes empresas e representantes do Estado(2 72). Ora, convém distinguir
radicalmente as relações entre organizações sociais com função totalmente
diferente (a empresa e o aparelho de Estado) das relações interpessoais,
senão recaímos nas aporias da psicossociologia. Mesmo na época do capitalismo monopolista de Estado, é fato que o Estado só pode preencher sua
(269)
(270)
(271)
(272)

R. Aron, Démocratie et totalitarisme, Gallimard, 1965, p. 140.
N. Poulantzas, op. cit., p. 198.
lbid., p. 198.
H. Qaude, La concentration capitaliste. Pouvoir économique et pouvoir
gaulliste, Paris, Ed. Sociales, 1965; Le pouvoir et /'argent, Ed. Sociales, 1972. A análise crítica que J.-P. Cot e J.-P. Mounier (Pour une sociologie politique, Le Seuil,
1974, t. II) fazem dessas obras é justificada.

136

função hegemônica se der a impressão de "representar" a unidade da formação social (Estado-nação), a unidade de todas as classes sociais ( aglomerado de cidadãos); ele precisa "alimentar" essa ilusão preenchendo funções
que interessam o conjunto das classes sociais de uma dada formação nacional. Não há nada disso numa empresa privada, qualquer que seja sua dimensão ou sua importância nacional (a General Motors nunca foi o Estado
federal dos Estados Unidos). Só se pode portanto concordar nesse ponto
com N. Poulantzas quando afirma que a correspondência entre os interesses da fração hegemônica, dos grandes monopólios, no caso, e os da política do Estado não é fundada numa questão de vínculos pessoais: ela
depende, basicamente, de uma série de coordenadas objetivas, relativas ao
conjunto da organização da economia e da sociedade, sob a dependência
dos grandes monopólios ..." É por causa de suas funções objetivas em relação ao conjunto do sistema social que o Estado só pode, numa sociedade
organizada sob a dependência dos monopólios, servir finalmente os interesses desses monopólios"(273). J.-P. Cote J.-P. Mounier(274), de quem tiramos esta citação, aproximam com acerto essa concepção da predominância
política, através da autonomia sistêmica, da análise que P. Bourdieu fez da
orquestração sem maestro:
"Porque a identidade das condições de existência tende a produzir
sistemas de disposições semelhantes (ao menos parcialmente), a homogeneidade (relativa) dos habitus(275) que daí resulta dá origem a uma harmonização objetiva das práticas e das obras capazes de lhes conferir tanto
a regularidade como a objetividade que definem sua 'racionalidade' específica e que lhes permitem ser vividas como evidentes, isto é, como imediatamente inteligíveis e previsíveis, por todos os agentes dotados do domínio
prático do sistema de esquemas de ação e de interpretação .. ." . O que permite, segundo Bourdieu, refutar as teses de R. Aron sobre a pluralidade das
elites: "Enquanto for ignorado o verdadeiro princípio dessa orquestração
(273) N. Poulantzas, "Le concept de classes sociales", L 'Homme et la Societé,
24, abril-setembro de 1972, pp. 46-47.
(274) Pour une sociologie politique, op. cit., pp. 164 e segs.
(275) O habitus é assim definido por Bourdieu: "Um sistema de disposições
duráveis e que se podem transpor, o qual, integrando todas as experiências passadas,
funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de apreciações e de ações
e torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas graças às transferências analógicas de esquemas que permitem resolver os problemas de mesmo tipo
e graças às correções incessantes dos resultados obtidos, produzidas dialeticamente
por esses resultados". (P. Bourdieu, Esquisse d'une théorie de la pratique, Paris, Droz,
1972, p. 178).

137

sem maestro que confere regularidade, unidade e sistematicidade às práticas de um grupo ou de uma classe, e isso, mesmo na ausência de qualquer
organização espontânea ou imposta dos projetos individuais, está-se condenando ao artificialismo ingênuo que só reconhece como princípio unificador da ação ordinária ou extraordinária de um grupo ou de uma classe o
concertamento consciente e meditado do complô ... "(276). Mas resta
determinar com precisão o que são essas "coordenadas objetivas" que
ligam Estado, sociedade e classe dominante, assim como resta determinar
o fundamento social dessa "orquestração sem maiestro"; não basta falar,
como P. Bourdieu, "de harmonia preestabelecida" entre as "práticas" dos
membros de uma mesma classe ( ou entre as dos representantes do Estado e
as dos membros da classe dominante) para explicar as relações objetivas em suas variações históricas - entre aparelho de Estado e classe dominante. Como aliás reconhece o próprio P. Bourdieu, a análise sociológica dos
habitus de classe continua, em ultima instância, subordinada à análise fundamental - da relação infra-estrutura-habitus: "As disposições e a situação que se conjugam na sincronia para constituir uma determinada conjuntura nunca são totalmente independentes, já que são geradas pelas
estruturas objetivas, isto é, em última análise pek1s bases econômicas da
formação social considerada"(217). Mas nem Bourdieu nem Poulantzas
indicam o que são essas "estruturas objetivas", o que Marx chamava o
"fundamento secreto" da gênese das formas estatais(278). Ora, vimos que
não há análise científica do Estado, isto é, análise que transmita a variedade de suas formas concretas, sem esforço para relacionar rigorosamente:
periodização econômica (através das hipóteses de sobreacumulação-desvalorização do capital);
(276)

Jbid.

(277) P. Bourdieu, ibid., p. 185.
(278) ":É sempre na relação imediata entre o proprietário dos meios de produção e o produtor direto (relação cujos diversos aspectos correspondem naturalmente a
um grau definido do desenvolvimento dos métodos de trabalho, logo, a um certo grau
de força produtiva social) que se deve procurar o segredo mais profundo, o fundamento escondido do edifício social, e por conseguinte da forma polftica assumida
pela relação de soberania e de dependência, enfim, a base da forma específica que o
Estado reveste em dado período. O que não impede que uma mesma base econômica ... sob a influência de inúmeras condições empíricas diferentes - condições naturais, relações sociais, influências históricas exteriores, etc. - possa apresentar variações e gradações infinitas que só uma análise dessas condições empíricas conseguirá
elucidar (K. Marx, Le Capital, Ed. Sociales, liv. III, 6.ª seção, Cap. XLVII : "Genese
de la rente fonciere capitaliste"; II: "La rente en travail", t. VIII, p. 172).

13 8

- periodização sociológica (as modificações cíclicas das relações de
classe)
e variação das formas de Estado.
Só um tal estudo histórico global permitiria evitar o formalismo ou o
"fatalismo" sociológico que tornam estático o conceito de "autonomia
relativa" do político, seja pela absolutização de um certo tipo de relações
de classe - é, já vimos, a metamorfose do conceito de "bloco no poder"
tal como o utiliza N. Poulantzas -, seja pela substituição da luta de classes
pela reprodução eternamente repetida da predominância de uma classe
sobre outra - como em Bourdieu. Existe na realidade uma multidão de
graus de autonomia do político, graus determinados tanto pelo estágio de
desenvolvimento do modo de produção quanto pelo nível da luta de classes, como veremos nos capítulos seguintes. A hipótese que emitimos por
enquanto é que o novo período histórico do capitalismo, conceitualizado
pela expressão "capitalismo monopolista de Estado", não pode ser analisado - como é o caso em Poulantzas nem como é sugerido pelas análises
feitas por Bourdieu sobre a "autonomia" dos sistemas de inculcação ideológica - como simples continuação ou repetição das relações sociedade/política próprias dos estágios anteriores.
Já insistimos sobre esse ponto ao analisar as pesquisas de E. Friedberg sobre a evolução das relações entre o Ministério da Indústria e os
sindicatos patronais. Ora, pudemos constatar que o autor é levado, por sua
própria prática científica e independentemente de qualquer acordo teórico
com o conceito de CME, a caracterizar os novos modos de intervenção
econômica do Estado como "resultado da interação entre dois conjuntos
organizados - o sistema administrativo e o sistema industrial"(2 79) -, a
reestruturação do aparelho estatal em torno de um "centro" - o Ministério das Finanças - respondendo à tomada dos organismos profissionais
pelas grandes empresas multinacionais. Notamos além disso que essa descrição rigorosa do novo "mecanismo único" Estado-monopólios não implicava em absoluto uma concepção "monopolítica" de Estado, já que, bem
'ao contrário, essa nova relação Estado-grandes empresas só fazia avivar as
tensões e oposições tanto entre frações capitalistas quanto entre os dois
tipos de aparelhos administrativos que coexistem: o aparelho de direção
econômica que determina efetivamente a política econômica e os aparelhos "de controle tutelar e corporatista" que tendem hoje a compensar sua
perda de poder por uma representação mais ou menos fiel das reivindica(279) Ouva l'administrationfrançaise?, op. cit., p. 103.

139

ções das antigas classes dominantes (pequeno e médio capital). Essas cisões
no aparelho de Estado podem até ir mais longe na medida em que principalmente o aparelho territorial local do Estado entra cada vez mais em
contradição com o poder de Estado central, pelo fato de exprimir, através
dos organismos locais eleitos, os interesses específicos de camadas sociais
não monopolistas.
Isso não significa, no entanto, como bem observam J.-P. Cote J.-P.
Mounier(280), que "o Estado capitalista constitua um conjunto de peças
soltas, exprimindo uma 'partilha' do poder político entre diversas classes
e frações. Pelo contrário, o Estado capitalista exprime, sempre, além das
contradições no interior de seus aparelhos, uma unidade interna própria,
que é uma unidade de poder de classe: o da classe ou fração hegemónica",
o que significará, no funcionamento do sistema estatal, "a predominância
de certos aparelhos ou ramos sobre outros: e o ramo ou aparelho que
domina é, em regra geral, o que constitui a sede do poder da classe ou
fração hegemõnica. Isso faz com que, no caso de uma modificação da hegemonia, haja modificações e deslocamentos de predominância de certos
aparelhos e ramos para outros: esses deslocamentos determinam aliás as
mudanças das formas de Estado e das formas de regime" .
Mas pudemos também notar que não se deve confundir mecanismo
único e interação de duas forças iguais, como parece sugerir E. Friedberg,
que se aproxima nesse ponto das teorias de Galbraith sobre a "tecnoestrutura" . Engels já falava, a respeito da relação Estado/base econômica, da
relação entre duas forças de peso desigual, visto que a economia, em última
instância, sempre determina a orientação do acontecimento histórico. É
preciso prosseguir e definir as possíveis variações desse peso - desigual do político, de sua ação de retorno, considerando-se as capacidades do
próprio sistema capitalista de se adaptar às crises periódicas de sobreacumulação do capital através de modificações estruturais profundas. Ora, a
hipótese-chave que se destaca da análise atual da sobre:acumulação-desvalorização é justamente que a margem de manobra deixada ao CME para
adaptar-se ao novo impulso das forças produtivas é qualitativamente muitíssimo reduzida em relação às capacidades de adaptação e de regulação
que as passagens do capitalismo ao estágio clássico ou até ao estágio monopolista simples tinham representado. Na medida em que não há mais novo
estágio nem nova fase correspondente a uma desvalorização estrutural do
capital que preserve a reprodução das relações capitalistas, a ação de retor-

no do Estado - que havia desempenhado papel determinante para garantir
periodicamente esses diferentes tipos de regulação capitalista - será portanto infinitamente mais limitada; qualquer nova modificação estrutural
do sistema capitalista vai ameaçar, desta vez, a própria estrutura capitalista.
Poderemos assim relacionar a atual crise do CME com a crise das políticas
reformistas do Estado, crise da sua capacidade de regulação relativamente
durável das contradições capitalistas, e sobretudo da contradição - principal - entre a necessária socialização do processo de trabalho e as exigências da acumulação do capital.

(280) Pour une sociologie politique, op. cit., t. II, p. 171.
140

141

Capítulo II

Da política estatal
à política urbana
O papel do Estado
na urbanização capitalista
Vimos no capítulo anterior que a análise teórica do Estado capitalista
supõe, além da análise do valor e das categorias que fundam as relações de
classe, um estudo específico das relações entre cidade e campo . Em que
medida tal estudo pode trazer à definição de Estado capitalista um enriquecimento tão importante quanto a análise do crédito ou das classes
sociais?
A hipótese principal que esteia este capítulo - bem como o conjunto de nossa problemática - pode ser assim formulada: longe de restringir a
análise do Estado a um "domínio" empírico particular, a análise de sua
intervenção na urbanização capitalista contemporânea deveria, pelo contrário, ajudar-nos a progredir num ponto essencial, ou seja - dentro do que
convencionamos chamar análise "interna" do Estado(l) - na determinação do vínculo entre a elaboração da política estatal, de um lado, e, de
outro, a socialização contraditória das forças produtivas e das relações de
produção. Na medida em que, segundo nossa hipótese, as formas de urbanização são antes de mais nada formas da divisão social (e territorial) do
trabalho(2), elas estão no centro da contradição atual entre as novas exi(1) Cf. Cap. I.
(2) Ou, mais exatamente, postularemos com Marx que "toda divisão desenvolvida do trabalho que se mantém por meio da troca de mercadorias tem corno base
fundamental a separação entre cidade e campo" (cf. Le Capital, Ed. Sociales, liv. I,
4.ª seção, Cap. XIV, t. II, p. 42). O que significa, por conseguinte, que as formas de
urbanização capitalistas são antes de tudo, fundamentalmente, formas de divisão
social (territorial) do trabalho.

143

gências do progresso técnico - essencialmente em matéria de formação
ampliada das forças produtivas humanas - e as leis de acumulação do
capital.
Não considerar a urbanização como elemento-chave das relações de
produção, reduzi-la ao domínio do "consumo", do "não-trabalho", opor
reprodução da força de trabalho - pela urbanização - a dispêndio do
trabalho vivo - na empresa - é, ao contrário, retomar um dos temas dominantes da ideologia burguesa segundo a qual só é "produtiva" a atividade
de produção da mais-valia. Ora, a nosso ver, as formas contraditórias do
desenvolvimento urbano, do modo como são refletidas e acentuadas pela
política estatal, são justamente a revelação do caráter ultrapassado da
maneira capitalista de medir a rentabilidade social através apenas da acumulação do trabalho morto.

1. Urbanização e socialização das condições
gerais da produção capitalista( 3)

São conhecidas as relações estabelecidas por Marx entre a revolução
industrial, o maquinismo e a acumulação capitalista; parece, porém, que a
análise do sentido da "revolução urbana" nas relações capitalistas de produção tenha ficado fora de seu campo teórico( 4). E, no entanto, longe de
ser um fenômeno menor, a urbanização desempenha, a nosso ver, papel tão
importante quanto a multiplicação da potência mecânica do trabalho na
unidade de produção.
Marx demonstrou no Capital que o modo de produção capitalista é
obrigado a "revolucionar" incessantemente seus meios de produção para
aumentar a parte do trabalho excedente com relação ao trabalho necessá(3) Uma parte desse desenvolvimento é diretamente inspirada em nosso artigo
"Contribution à une théorie marxiste de l'urbanisation capitaliste", Cahiers intemationaux de Sociologie, LII, PUF, 1972. Ao contrário, toda a parte referente aos
"meios de consumo coletivos" foi reelaborada.
(4) :E, verdade que há alusões e até esboço de análise, especialmente em A
Ideologia Alemã, mas o estudo sistemático das principais formas do capitalismo (0
Capital) deixa de lado o fenômeno urbano.

144

rio. Longe de ser pura necessidade técnica, o aumento da produtividade é
imprescindível ao desenvolvimento da acumulação capitalista.
Ora, esta análise bem conhecida das relações entre desenvolvimento
das forças produtivas e acumulação do capital não se limita absolutamente,
como às vezes se acredita, ao trabalho na oficina ou mesmo na unidade de
produção. A "socialização" das forças produtivas, consecutivas ao desenvolvimento da mais-valia relativa, não está em absoluto limitada à formação do "trabalhador coletivo" no local da produção; para Marx, esse conceito de socialização estende-se de fato ao conjunto da reprodução do
capital social. Com mais exatidão, pode-se dizer que ela abrange simultaneamente a divisão técnica do trabalho na oficina e a divisão do trabalho
no conjunto de uma sociedade. Assim Marx é levado a desenvolver um
novo conceito para definir a relação entre o processo imediato de produção, a unidade de produção, por um lado, e, por outro, o processo global
de produção e de circulação do capital: é o que ele chama as condições ·
gerais da produção.
A hipótese que vamos desenvolver quanto ao lugar da urbanização ·
na teoria marxista baseia-se muito nesse conceito; eis porque achamos que
convém analisar, do modo mais rigoroso e exaustivo possível, o seu real
alcance. Quando Marx se refere a isso, não parece com efeito dar-lhe um
sentido que possa ser logo aproximado do fenômeno urbano:
"A revolução no modo de produção da indústria e da agricultura
exige uma revolução nas condições gerais do processo de produção social,
isto é, nos meios de comunicação e de transportes"(5). Contudo, essa limitação do alcance do conceito parece-nos hoje discutível por causa do aparecimento de fatores também importantes que são outras tantas condições
necessárias à reprodução global das formações capitalistas desenvolvidas.
Trata-se, de um lado, dos meios de consumo coletivos que se vêm juntar
aos meios de circulação material(6); de outro, da concentração espacial dos
meios de produção e de reprodução(7) das formações sociais capitalistas.
A aglomeração dos meios de produção e de troca (banco, comércio)
não é característica específica da cidade capitalista na medida em que o
burgo medieval já reunia - em escala mais restrita, é claro - atividades
(5) Le Capital, Ed. Sociales, liv. I, 4.ª seção, Cap. XV: "Le machinisme et la
grande industrie", t. II, p. 69.
(6) Trata-se dos meios de comunicação e de transporte.
(7) Trata-se dos meios de reprodução do capital (ver n. os 1 e 2) e dos meios
de reprodução da força de trabalho, isto é, dos meios de consumo individuais e coletivos.

145

produtoras e mercantis. O que, a nosso ver, vai caracterizar duplamente a
cidade capitalista é, de um lado, a crescente concentração dos "meios de
consumo coletivos" que vão criar pouco a pouco um modo de vida, novas
necessidades sociais -·· chegou-se a falar de uma "civilização urbana" -; de
outro, o modo de aglomeração específica do conjunto dos meios de reprodução (do capital e da força de trabalho) que se vai tornar, por si mesmo,
condição sempre mais determinante do desenvolvimento econômico.
Vamos analisar agora com precisão os dois conceitos.

1. Meios de consumo coletivos e condições gerais de produção

É conhecida a oposição fundamental que Marx estabelece entre consumo produtivo e consumo individual-fmal: "O consumo do trabalhador é
duplo. No ato de produção ele consome, por seu trabalho, meios de produção a fim de convertê-los em produtos de valor superior ao que foi desembolsado pelo capital. Eis o seu consumo produtivo que é, ao mesmo tempo, consumo de sua força pelo capitalista ao qual ela pertence. Mas o
dinheiro fornecido para a compra dessa força é gasto pelo trabalhador em
meios de· subsistência e é o.que forma seu consumo individual. O consumo
produtivo e o consumo individual são portanto perfeitamente distintos. No
primeiro, o trabalhador age como força motriz do capital e pertence ao
capitalista; no segundo, ele pertence a si mesmo e realiza funções vitais
fora do processo de produção. O resultado do primeiro é a vida do capital;
o resultado do segundo é a vida do próprio operário"(8) .
Pode parecer duplamente estranho que estejamos integrando meios
de consumo na esfera das "condições gerais da produção"(9).
Por um lado, de fato, o consumo fmal remete explicitamente ao processo de reprodução da força de trabalho, fora do processo de produção,
para usar a fórmula de Marx. Bem ao contrário, os meios de circulação material ( os meios de comunicação) participam das condições gerais da produ(B) K. Marx, Le Capital, Paris, Ed. Sociales, liv. I, 7.ª seção: "L'Accumulation
du capital", Cap. XXIII: "La reproduction simple", t. III; p. 14.
(9) As linhas que se seguem devem muito às críticas feitas por Bruno Théret à
minha análise publicada no Cahiers internationaux de Sociologie, 1972. Apesar da
persistência de minhas divergências quanto às análises desse autor, fui levado a esclarecer e a desenvolver a primeira parte do artigo dos Cahieri internationaux.

146

ção, na medida em que prolongam o processo de produção no processo de
circulação e entram, assim, na esfera do consumo produtivo - pelo qual o
trabalhador consome meios de produção e converte-os em produtos de
valor superior ao do capital adiantado.
Por outro lado, considerando a medida capitalista dessa oposição, as
despesas de consumo do trabalhador opõem-se às despesas de produção, já
que as primeiras consistem em simples gastos de renda, enquanto as segundas são um adiantamento de capital.
A compra de mercadorias destinada a consumir seu valor de uso é
paga pelo dinheiro que funciona como meio de circulação e corresponde a
um gasto de renda e não a um adiantamento de capital; quanto à compra
de serviços, de trabalho improdutivo, é paga com dinheiro e não com capital. Ao consumo produtivo opõe-se, portanto, na esfera do consumo individual, o consumo improdutivo de valores já produzidos. À primeira vista,
por conseguinte, não há nenhum motivo para colocar os meios de consumo
coletivos em outra esfera que não seja a do consumo final e improdutivo,
assim como os meios de consumo individuais. Em que seu modo social de
consumo pode mudar-lhes a função? Quer se trate de despesas de ensino
ou de saúde, não participam elas da reprodução da força de trabalho e, por
isso, dos gastos de renda?
Uma resposta rigorosa a essa série de perguntas passa, a nosso ver,
pela análise, em cada caso, das relações precisas que ligam esses novos
modos de consumo ao processo de produção. O primeiro caso que constitui um problema -- e já constituía quanto ao maquinismo, na época de
Marx - é o da ciência. O conjunto de despesas ligadas à pesquisa científica,
ao desenvolvimento do trabalho científico, não pode, à primeira vista rigorosamente falando -- fazer parte da esfera de consumo dos meios de
produção; não se trata, como para as despesas de formação profissional, de
despesas ligadas à reprodução da força de trabalho, reprodução ampliada,
complexa, é verdade, mas reprodução final e portanto improdutiva de
mais-valia? Mas então não se compreende mais as novas relações instauradas pelo maquinismo entre ciência e produção. Já em várias ocasiões, no
capítulo consagrado ao maquinismo e à indústria moderna, O Capital
caracterizava a ciência como "força produtiva independente do trabalho"(! O), "incorporada ao sistema mecânico"01) e, por isso, "aumentan(10) Le Capital, op. cit., liv. I, t. II, p. 50: "A indústria moderna, que faz da
ciência uma força produtiva independente do trabalho e a recruta a serviço do capital".
(11) /bid., t. II, p. 72.

147

do de maneira extraordinária a produtividade do trabalho"(l 2) ... logo, a
produção de mais-valia relativa.
É verdade que o sistema capitalista "traduz" a seu modo essa "intelectualização" das forças produtivasCl 3) opondo o horizonte estreito do
trabalho manual do operário à "força intelectual da produção" transformada pela indústria moderna capitalista em "poderes do capital sobre o trabalho"0 4). "Acessório consciente de uma máquina parcial"0 5), o produtor
opõe sua ausência de formação profissional à força científica que produziu
a máquina da qual ele depende. Mas reduzir o maquinismo a esse único
aspecto consiste em silenciar o caráter contraditório da indústria moderna
capitalista. Se, por um lado, ela reproduz e agrava a velha divisão (manufatureira) do trabalho com suas peculiaridades rígidas (principalmente a
oposição entre trabalho manual e trabalho intelectual), por outro lado, ela
precisa, para realizar-se, "da variação no trabalho, da fluidez das funções,
da total mobilidade do trabalhador"O 6).
Como Marx já mostra a propósito da legislação fabril, primeira forma
através da qual a sociedade regulou o trabalho infantil, essas leis contêm
"em germe" a formação profissional politécnica que só poderá realmente
surgir sob o modo de produção comunista.
Isso não impede que a indústria moderna "torne questão de vida ou
morte, para a sociedade capitalista, a substituição do indivíduo parcial,
vítima de uma função produtiva fragmentada, pelo indivíduo integral que
saiba enfrentar as exigências mais diversificadas do trabalho"O 7). Ora,
Marx insiste no "enorme impulso que a limitação e a regularização da jornada de trabalho dão ao desenvolvimento técnico", por ter a legislação
fabril exigido a intensidade do trabalhoCl 8) e, em conseqüência, a produção de mais-valia relativa.
Vm vínculo direto aparece pois entre não só a pesquisa científica oposta ao operário produtivo em O Capital - mas também entre o conjun(12) Ibid., p. 72.
(13) Marx fala das "forças intelectuais da produção" (i bid., p. 105).
(14) "A moderna indústria mecânica completa... a separação entre trabalho
manual e forças intelectuais da produção que ela transforma em poderes do capital
sobre o trabalho. A habilidade do operário parece minguada diante da ciência prodigiosa, das enormes forças natiuais, da grandeza do trabalho social incorporadas ao
sistema mecânico, que constituem a força do patrão." (Le Capital, op. cit., p. 105.)
(15) Jbid., p. 162.
(16) Ibid., p. 165.
(17) lbid., p. 165.
(18) Jbid., p. 178.

148

to da formação profissional dos operários da grande indústria e a produtividade do trabalho - logo, a formação de mais-valia relativa. É verdade que,
na época de Marx, esse vínculo era tênue na medida em que o trabalho
intelectual estava concentrado seja na pessoa do próprio capitalista, seja com o desenvolvimento da divisão social do trabalho - num número reduzidoO 9) "de engenheiros, mecânicos, marceneiros, etc., que controlam o
mecanismo geral e providenciam os consertos necessários. É uma classe
superior de trabalhadores, uns f armados cientificamente, outros tendo um
ofício fora do círculo dos operários de fábrica aos quais estão apenas agregados"(20). Apesar disso, a partir do momento em que o capital se demite
de sua função de controle imediato e, em seguida, de direção do processo
de produção, a partir do momento em que são os próprios assalariados que
dirigem o processo, o trabalhador intelectual aparece então não mais como
"fora" da produção de mais-valia, mas como produtivo também, na medida em que é membro do "trabalhador coletivo" constituído pela cooperação dos operários, técnicos e engenheiros da oficina ou da fábrica(21).
Quando se sabe a importância alcançada hoje pelos técnicos e engenheiros nos setores avançados da produção moderna (energia, informática,
química, etc.), pode-se suprimir a restrição que Marx fazia a seu peso na
produção. Mas sobretudo a generalização do ensino primário, a democratização parcial mas real - com referência ao século passado ou até ao início
do século XX - do ensino secundário fizeram da formação profissional dos
trabalhadores produtivos um problema primordial para o desenvolvimento
atual da indústria moderna. Mais exatamente: o nível hoje atingido pela
socialização interna da produção industrial faz da formação profissional
(19) "Um pessoal numericamente insignificante", diz Marx (op. cit., p. 104).
(20) lbid., p. 103.

(21) "Para ser produtivo, não é mais preciso pôr-se a trabalhar com as próprias
mãos; basta ser um órgão do trabalhador coletivo, exercendo qualquer uma de suas
funções" (op. cit., p. 183). Mesmo assim, todos os membros do trabalhador coletivo
só produzem mais-valia no interior da unidade de produção e não no nível do conjunto do território (divisão social do trabalho). :E'. preciso pois não confundir o que é
produtivo ... do ângulo da divisão técnica do trabalho (e então o trabalhador "coletivo" pode reagrupar todos os que cooperam diretamente ou não para o processo de
produção) e o que é produtivo do ângulo do sistema capitalista, o que implica uma
restrição do conceito apenas à produção de mais-valia da qual veremos adiante as
condições de formação.
:E'. justamente essa oposição assinalada por Marx entre os critérios tecnológicos
e os critérios capitalistas da produtividade que funda a principal contradição do modo
de produção capitalista.

149

um fator-chave para aumentar a produtividade do trabalho. Mas não é só a
aquisição de conhecimentos científicos e tecnológicos que intervém na
eficiência da nova "força produtiva social"; Marx já havia percebido nos
artigos da legislação fabril sobre a educação, além da "sombra" de uma
verdadeira formação profissional, a possibilidade concrntizada pela primeira vez na história da humanidade "de unir ensino e ginástica"(22); o desenvolvimento da saúde física aparecia então, tanto quanto o desenvolvimento
intelectual, "não apenas como método para aumentar a produção social,
mas (também) como o único método para produzir homens completos"(2 3).
É verdade que seria inútil pensar, enquanto o modo de produção
capitalista domina a economia, que o desenvolvimento das capacidades dos
homens, o aumento do trabalho vivo possa substituir o aumento do trabalho morto, como motor do crescimento econômico. Mesmo assim, até no
interior do MPC, e principalmente no seu estágio atual, o par máquinas-trabalhadores manuais (sem nenhuma formação profissional nem iniciativa) já não basta para responder às novas exigências decorrentes do desenvolvimento das forças produtivas: as forças produtivas humanas adquirem
um papel essencial e exigem a superação do par instrumental mecânico/
/homens apêndices da máquina. A automação, como nova revolução tecnológica e científica subseqüente à revolução do instrumental mecânico do
início da indústria moderna(24), surge de fato como a necessária superação
da atual oposição trabalho manual/trabalho intelectual, pela supressão dos
trabalhos em série com máquinas semi-automatizadas. Mas semelhante
revolução tecnológica não é concebível numa sociedade onde a medida do
(22) Op. cit., p. 161.
(23) Ibid., p. 162.
(24) Cf. P. Boccara, "Su.r la révolution industrielle du xvme siecle et ses
prolongements jusqu'à l'automation", La Pensée, 115, junho de 1964, pp. 12-27, e
i1tudes sur le CME, sa crise et son issue, op. cit., pp. 333-336. No estágio de "pré-automação", diz Boccara, "o trabalho de supervisão, de correção (e de comando) do
proletário industrial, passando doravante pelo sistema de sinais codificados oriundos
dos meios materiais de produção ... permanece de forma predominante dependente
de operadores humanos, num trabalho mais ágil e mais cerebral, mas sempre parcelado e estreitamente subordinado ao processo material, de modo tipicamente proletário. Mas os limites subjetivos dos operadores proletários, que vão se desenvolver
com a extensão dos processos de produção, forçarãQ sem dúvida à elevação da composição técnica do capital, tomando mais urgentes a baixa de valor do capital constante e uma formação menos ex(gua dos trabalhadores co"espondente às necessidades dos materiais mais automatizados", op. cit., p. 333.

1.'iO

progresso econômico continua baseada no quantum de trabalho cristalizado, acumulado em meios de produção, e onde o progresso da produtividade dá de encontro com o excesso de trabalho cristalizado acumulado(25).
Nesse sentido, do ponto de vista da medida capitalista, as atividades
de ensino, de saúde, ou de pesquisa científica permanecem improdutivas
(de mais-valia), mesmo se elas são cada vez mais necessárias à própria produção material como meios de formação ampliada das forças produtivas
humanas. Os meios de consumo coletivos entram então na esfera de consumo final, da mesma maneira que os meios de consumo individuais? De
modo nenhum, na medida em que justamente sua especificidade é de não
serem consumidos diretamente pela força de trabalho individual, isto é, de
não serem objeto de transformação direta do capital variável em salário,
logo, em gasto de renda que serve para comprar mercadorias necessárias à
reprodução individual da força de trabalho. A produção de meios de consumo coletivos como a escola ou o hospital - pouco importa, no caso, que
sejam privados ou públicos - oferece a particularidade de ser a metamorfose de uma fração do capital variável em compra de forças de trabalho e
de meios de trabalho que só funcionam no processo de consumo. São portanto despesas indispensáveis para transformar o resto do capital variável
em salário, e, depois, em compra de mercadorias destinadas ao consumo
final.
É pois legítimo estabelecer um paralelo entre a função social dos gastos de circulação e a dos gastos de consumo; Marx ficou no esboço da análise dos primeiros mostrando como as atividades ligadas à circulação do
capital representavam "um dispêndio adicional de tempo de trabalho e de
meios de trabalho, dispêndio que é necessário, mas que reduz o tempo que
poderia ser utilizado produtivamente"(26); noutro trecho ele emprega a
expressão "adiantamento de capital que não cria nem produto nem valor",
sublinhando em várias ocasiões o paralelismo entre o capital produtivo
constante e esse capital "pseudoconstante", na verdade porção de capital
variável que se transformará em "máquina" para vender e comprar o resto
do produto(27). O fraco desenvolvimento dos meios de consumo coletivos
(25) i1tudes sur le CME, op. cit., pp. 308-309.
(26) Le Capital, op. cit., liv. II, 1.ª seção, cap. VI: "Les frais de circulation",
t. IV, p. 123.
(27) Le Capital, op. cit., liv. II, 1.ª seção, cap. VI: "Les frais de circulation",
t. IV, p. 122: "No processo de circulação, tem que ser gasta, para a mera conversão
de forma, certa quantidade de força de trabalho e de tempo de trabalho. Mas isso se
manifesta desde então como adiantamento adicional de capital: é preciso dedicar uma

151

,,
na época de Marx levou-o a não prosseguir essa análise; mas propomos a
hipótese de uma função social idêntica dos meios de consumo coletivos e
das despesas de circulação social. O paralelismo é de fato bastante nítido:
assim como é preciso tempo e força de trabalho para efetuar a conversão
do valor da forma dinheiro para a forma mercadoria, no processo de circulação, assim também é preciso tempo e força de trabalho para transformar
o capital variável em salário, e, em seguida, em meios de reprodução da
força de trabalho. Nos dois casos, por conseguinte, urna fração da riqueza
social, do capital social, é destinada a permitir e facilitar - materialmente
- ao conjunto da reprodução do capital social e suas diferentes metamorfoses; nos dois casos não se trata pois de atividades que entram no consumo produtivo ou no consumo improdutivo(28); o que há é trabalho social
e meios de trabalho funcionando num caso como "simples máquina de
circulação" e, no outro, como "simples máquina de consumo". Em outros
termos, não se deve confundir estas atividades nem com as que compõem
os diferentes ciclos do capital produtivo (consumo produtivo) nem com
as que compõem o processo de reprodução da força de trabalho ( consumo
individual). Condições necessárias da continuidade do processo de reprodução do capital e da força de trabalho, elas se inserem entre as fases do processo como auxiliares necessários do ponto de vista social mas totalmente
improdutivos.
Mas para que o paralelismo possa ser levado até o fim , seria preciso
confundir a função dos meios de consumo individuais com a dos meios de
consumo coletivos, quando Marx identifica a função do agente individual
da circulação com a das formas socializadas de organização da circulação(29). Se a mudança de forma não modifica nem o caráter das despesas
parte do capital variável à compra dessas forças de trabalho que só funcionam na
circulação. Esse adiantamento de capital não cria nem produto nem valor. Ele dimi·
nui por isso, de quantidade correspondente, a medida na qual o capital adiantado
funciona produtivamente.
como se parte do produto se transformasse em uma
máquina que vende e compra o produto restante".
(28) A esse respeito o que Marx diz da moeda vale também para os gastos com
consumo: "Essas mercadorias que funcionam como moeda não entram nem no consumo individual nem no consumo produtivo" (Le Capital, op. cit., p. 125).
(29) " ... função improdutiva em si, mas que constitui um momento necessário da reprodução, que era anteriormente exercida por um grande número de pessoas
a título acessório, não muda de caráter quando a divisão do trabalho faz dela o exercício exclusivo de poucas pessoas... A natureza dessa função também não muda nem
pela extensão que toma por se concentrar nas mãos do produtor capitalista de mercadorias e nem por - em vez de ser a função de um grande número de pequenos produ-

:e

152

de consumo e nem o das despesas de circulação, não está aí a prova de que
os meios de consumo, coletivos e individuais, são simples gastos de renda e
não adiantamentos de capital? De fato, uma tal dedução baseia-se na confusão entre objeto e meios de consumo como entre processo de consumo
final propriamente dito (reprodução da força de trabalho) e processo de
preparação, de produção dos valores de uso destinados a serem consumidos
pelos indivíduos. Que fique bem claro: "produção" não significa aqui a
fabricação material ( atividades produtivas da Construção e Obras Públicas)
dos suportes físicos dessa atividade, mas sim a própria atividade que permite a reprodução da força de trabalho. Pouco importa então que essa atividade seja individual ou socializada: sua função social será sempre ... não de
consumir mas de tornar possível o consumo. Por isso, e só por isso, ela
pode ser definida como despesa de consumo ou falsa despesa de produção,
como as atividades de estocagem ou de contabilidade .
Por que então a expressão "meios de consumo coletivos"? Porque, a
nosso ver, os suportes materiais desse "condicionamento" do consumo só
têm existência real sob forma de meios de consumo coletivos, sendo próprio dos meios de consumo individuais, ao contrário, confundir em si meios
e objetos de consumo. Quer se trate do consumo de "salsichas" ou do consumo de aulas para retomar o célebre exemplo de Marx, só se poderá falar
de despesas de consumo e de meios de consumo distintos dos objetos de
consumo na medida em que se fizer referência a formas socializadas e autonomizadas de organização do processo de consumo: mercearia ou supermercado, de um lado; estabelecimento escolar, de outro. Parece-nos que esta
última precisão tem o duplo mérito de completar o paralelismo entre despesas de circulação e despesas de consumo e, ao mesmo tempo, de especificar os meios de consumo coletivos.
Um segundo traço específico das despesas de consumo vem dos vínculos cada vez mais importantes que unem os meios de consumo coletivos
com o próprio processo de produção, ao passo que as despesas de circulação se caracterizam por sua total ausência de conexão com a produção( 3 O).
Mas o segundo tipo de utilidade - tecnológica - tanto quanto o primeiro (a redução do tempo social não produtivo) não torna em nada protores - aparecer ... como uma função inerente a um processo de produção em grande
escala... " (Le Capital, op. cit., t. IV, pp. 121-123).
(30) Essa "máquina" que "vende e compra" "não coopera no processo de
produção, apesar dela poder diminuir a força de trabalho, etc. despendida na circulação", Le Capital, op. cit., liv. II, t. IV, p. 122.

153

li
dutivas as despesas de consumo. Do ponto de vista da medida capitalista de
rentabilidade, elas permanecem, com efeito, despesas sem retorno, na medida em que não criam nenhum valor mas efetuam, ao contrário, uma
punção no valor já criado; ainda mais: o que constitui a importância mesma dos valores de uso dos meios de consumo coletivos se transforma em
critério negativo do ponto de vista do seu processo de produção capitalista.
Enquanto os meios de circulação social (crédito, bancos, etc.) compensam
sua improdutividade pela necessidade de intervirem no nível da reprodução
do capital produtivo, os meios de consumo coletivos, na medida em que
só intervêm no nível da reprodução da força de trabalho, são pois classificados como "supérfluos", do ponto de vista da reprodução do capital. A
restrição desses meios entra pois no próprio objetivo da acumulação do
trabalho morto, em detrimento do trabalho vivo.
Se tentássemos agora retomar de maneira sintética os diferentes critérios que especificam os meios de consumo coletivos, poderíamos adiantar três características principais que distinguem meios de consumo coletivos e meios de consumo individuais.

a) O valor de uso dos primeiros é coletivo, no sentido em que se
dirige não a uma necessidade particular de um indivíduo mas a uma necessidade social que só pode ser satisfeita coletivamente: por exemplo, os
transportes coletivos de passageiros, a assistência hospitalar ou o ensino
escolar são valores de uso coletivos no sentido em que se dirigem ao consumo de uma coletividade social e - ou - territorial ( estratos sociais definidos por sua renda, e ainda, classes sociais cujo modo de consumo está
ligado ao lugar no processo de produção e de reprodução do capital).
Assim, a relação direta e imediata "gasto de renda-compra de mercadorias-consumo individual de seu valor de uso" é substituída, nos meios de
consumo coletivos, por uma relação indireta entre o consumo de seu valor
de uso e o momento de serem postos à venda, de sua apresentação no mercado. Ora, essa particularidade vem da socialização do processo de consumo - correlativa à socialização do processo de produção - que tende a
substituir a relação direta entre proprietários privados de mercadorias
(livre-cambistas) por uma relação muito mais complexa fundada ou em
diferentes formas de propriedades sociais dos meios de consumo, ou
em diferentes formas de consumo coletivo de seus valores de uso( 31)
(31) E. Préteceille, "Besoins sociaux et socialisation de la consommation",
La Pensée, número especial: "Sociologie: Besoins et consommation", 180, abril de
1975, pp. 22-60, e sobretudo pp. 54-60.

(transportes coletivos, ensino coletivo, medicina de grupo, centros de saúde, cantinas, etc.); estas formas de conswno coletivas substituem as formas
de consumo individuais (transportes individuais, aulas particulares, medicina liberal, etc.) na medida em que elas permitem mais responder globalmente
a necessidades suscitadas pela sociedade (economia de tempo de transporte
para toda a coletividade graças aos transportes coletivos; economia de despesas de consumo e aceleração do ritmo de distribuição de serviços para
toda uma coletividade por sua gestão e sua prestação coletivas, etc.).
coletivas, etc.).
Mas essa vantagem do ponto de vista da velocidade de rotação do
capital não produtivo (adiantado no consumo) tem contrapartida semelhante à que decorre da compra de máquinas para o aumento da produtividade do trabalho: o capital adiantado para gerir coletivamente esses meios
de consumo (manutenção do pessoal, compra e manutenção dos meios de
trabalho) é totalmente improdutivo (de mais-valia).
Além disso, a socialização capitalista dos meios de consumo coletivos
traz em si a mesma contradição que a socialização capitalista dos meios de
produção e de circulação material; com efeito, a medida capitalista da utilidade desses novos valores de uso entra em contradição com sua natureza
complexa, indivisível, e portanto pouco apta a inserir-se no processo de
troca mercantil. Expliquemos esse ponto essencial: para ser trocado por
seu valor, como mercadoria, um produto deve de fato poder ser destacado
e diferenciado dos outros produtos e dos processos aos quais está ligado, a
fim de se apresentar no mercado, na esfera da circulação, como um objeto perfeitamente individualizado onde possa ser coagulado um quantum de
trabalho abstrato que determinará seu valor. Esse é o caso, na análise feita
por Marx do processo de consumo como de troca, dos meios de subsistência ou do vestuário, objetos cujo valor de uso corresponde a uma necessidade bem particularizada (alimentar-se, vestir-se). Mas já não é o caso da
escola, do hospital ou do centro cultural: seu uso é complexo, difuso, dificilmente mensurável em termos de necessidade particular individualizada;
decerto a formação ampliada da força de trabalho, o desenvolvimento global da personalidade têm efeitos cada vez mais decisivos sobre a produtividade do novo trabalhador coletivo da empresa moderna, mas esses efeitos
indiretos, a longo prazo, não são mensuráveis em termos de manutenção
imediata da força de trabalho, vítima de uma função fragmentada, apêndice, peça peculiar da máquina.
Donde as infindáveis discussões sobre o custo real das despesas de
educação e ... sobre sua utilidade . . . no âmbito de um regime econômico
155

154

Bo

fundado sobre a acumulação do capital e não sobre o desenvolvimento das
capacidades humanas. Problema idêntico decorre da "rentabilidade" dos
transportes coletivos cuja utilidade global, coletiva para um conjunto de
consumidores espacialmente concentrados (unidade de um mercado regional do trabalho ou do consumo, por exemplo), entra em contradição com
os critérios mercantis que se tenta aplicar-lhes ao individualizar a "rentabilidade" de cada linha de transporte, em função de sua freqüentação específica e da relação receitas obtidas/despesas investidas (pessoal + material).
A não-rentabilidade (mercantil capitalista) dos transportes coletivos tomada como um valor de uso complexo indivisível - apesar de dividida pelo
modo capitalista de produção - aparece então como a expressão da "rejeição" pelo sistema capitalista de um setor econômico que é alheio a uma
pura medida mercantil clássica.

b) A mesma dificuldade de inserir os meios de consumo coletivos no
setor das mercadorias aparece com a própria duração de seu consumo como destruição, consumação: o efeito da lentidão de sua renovação (uma
habitação, uma escola, um hospital duram várias dezenas de anos) é uma
diminuição da rotação do capital não produtivo no st:tor do consumo e,
por conseguinte, uma rentabilidade capitalista muito fraca, a menos que se
modifique o próprio valor de uso, o que significa quase sempre uma mutilação do seu valor de uso ( casas pré-fabricadas transformando-se logo em
pardieiros, prédios escolares sem nenhuma segurança contra incêndio, etc.).
c) Valores complexos de uso (dificilmente divisíveis), duráveis, imóveis, os meios de consumo coletivos têm enfim a característica de não
possuir valores de uso que se coagulem em produtos materiais separados,
exteriores às atividades que os produziram. Edifícios escolares, hospitalares,
culturais, equipamento ferroviário para transporte de viajantes, VRD(32),
etc., esses equipamentos materiais, produtos separados do processo de produção dos meios de consumo coletivos, não devem ser confundidos com os
serviços e com as prestações de serviço das quais são o suporte físico.
Enquanto, por exemplo, num meio de subsistência o valor de uso se
cristaliza no próprio objeto material (alimentos, roupas ... ), no meio de
consumo coletivo há dissociação entre o valor de uso material ou imaterial
dos meios de consumo coletivos (serviços) e os objetos,-suportes das atividades dos prestadores de serviços (de saúde, de educação, etc.).

(32) VRD: "Voirie et Réseaux divers" (Viação e Redes diversas): água, gás,
eletricidade ...
156

que explica justamente o caráter difuso, pouco divisível, desses
valores de uso não materializados, não coagulados em objetos materiais
particulares. Deve-se insistir neste ponto na medida em que é freqüente
confundir-se, nos meios de consumo coletivos, o processo de produção
material desses meios - que se identifica com qualquer produção material
do setor BTP (Construções-Obras Públicas), quer se trate de fábricas ou de
escolas - e a produção de valores de uso - quase sempre imateriais (serviços), atividade intermediária entre a fabricação de meios materiais de consumo e o consumo final propriamente dito.

MEIOS DE CONSUMO COLETIVOS, MEIOS DE ORCULAÇÃO MATERIAL
E CONDIÇÕES GERAIS DA PRODUÇÃO

i

·Ii'

Distintos dos meios de circulação social por suas conexões indiretas
com o processo de produçãó - o que para nós justifica plenamente que
sejam qualificados de "condições gerais da produção" - os meios de consumo coletivos opõem-se no entanto também às condições gerais diretas da
produção capitalista - a saber, os meios de circulação material (os meios
de comunicação) - na medida em que não acrescentam nenhum valor
àquele que é criado no próprio processo de produção.
Do ponto de vista da acumulação de capital (e não mais do processo
tecnológico de trabalho), não há pois nenhuma homogeneidade entre o
efeito dos meios de consumo coletivos e o efeito dos meios de comunicação sobre o processo de produção de mais-valia.
Não vamos repetir aqui a demonstração feita por Marx do caráter
produtivo dos meios de transporte(3 3). O que queremos sublinhar é o
contraste entre a complementaridade tecnológica das diversas condições
gerais do processo de trabalho (meios de consumo coletivos, meios de
transporte) e sua divisão, sua oposição, desde que vistas da perspectiva do
(33) Marx mostrou que o transporte e a estocagem de mercadorias, apesar de
não criarem nenhum produto distinto do processo de produção e portanto nenhuma
mercadoria onde se possa cristalizar o valor criado pela força de trabalho, criavam
entretanto valor, na medida em que essas duas atividades implicavam uma transformação do valor de uso de mercadorias transportadas ou estocadas. :f. de fato porque o
trabalho despendido no transporte espacial ou na estocagern acrescenta um valor de
uso ao produto (transformando-o de mercadoria potencial em mercadoria real, entregue efetivamente ao mercado do consumo) que essas duas atividades constituem um
prolongamento do processo de produção de circulação. "Assim, o capital produtivo

157

'

processo de produção, da relação social capital/trabalho. Ora, é essencial
compreender bem a produção e o desenvolvimento das diferentes condições gerais da produção sob o aspecto contraditório que lhes confere
o modo de produção capitalista; com efeito, reduzir sua "função necessária" à sua utilidade puramente tecnológica é forçosamente não entender a
disparidade de seus modos de financiamento nem de seu ritmo de produção. Por mais úteis que sejam à reprodução ampliada da força de trabalho,
os equipamentos esportivos ou culturais serão menos privilegiados que os
equipamentos escolares diretamente ligados à formação profissional especializada desejada pelo patronato; do mesmo modo, os meios de comunicação diretamente ligados à acumulação ou à reprodução do capital ( estradas
servindo as zonas industriais, telecomunicações) serão mais favorecidos que
os meios de comunicação destinados à reprodução da força de trabalho
(estradas servindo as residências dos trabalhadores, telefone para usuários
individuais). Mas, inversamente, não se pode confundir a utilidade das condições gerais da produção com seu uso capitalista sem destruir a principal
contradição do capitalismo, a que opõe a socialização das forças produtivas
- cuja lógica não se confunde com a da organização social - à propriedade
privada dos meios de produção. É justamente o conflito entre as exigências
do capital e as exigências de complementaridade, de coordenação no
desenvolvimento das diversas "condições gerais", independente da demora
de seu ef.eito social, que fundamenta, a nosso ver, as contradições sociais e
políticas da urbanização capitalista e prova, em última instância, seu caráter historicamente limitado.

1

j
1

f

1

t
2. Das condições gerais da produção à aglomeração urbana

Se a cidade capitalista não pode ser definida sem referência aos
meios de consumo coletivos e aos meios de circulação material, estes últiinvestido nessa indústria (dos transportes) acrescenta valor aos produtos transportados, em parte porque ele efetua uma transferência de valor a partir dos meios de transP~!1e, em p~e porq~e se_ realiza uma adiçaõ de valor através do trabalho do transporte ~Le C~pztal, op. cit., liv. II, t. IV, p. 137). Sobre a indústria dos transportes, cf. Le
Capital, liv. II, Cap. I e Cap. VI (Ed. Sociales, t. IV, pp . 51, 52, 53 e pp. 137-140).
;~~eB)~ estocagem, cf. Le Capital, liv. II, 1.ª seção, Cap. VI (Ed. Sociales, t. IV,

158

mos não podem, nem por isso, especificá-la, enquanto não determinarmos
o vínculo que liga esses diferente modos de socialização do consumo e da
circulação com o espaço. Ora, essa mediação pode, a nosso ver, ser efetuada graças ao conceito marxista de cooperação, contanto que ele não seja
reduzido apenas à associação dos trabalhadores na unidade de produção,
mas sim que se torne um instrumento essencial do desenvolvimento da
produção social.
Parece-nos ser esse o sentido do célebre texto onde Marx analisa as
relações entre o valor de uso do espaço social e o conceito de cooperação;
"A cooperação, declara Marx, pennite aumentar o espaço no qual o
trabalho se estende ... Por outro lado, sempre desenvolvendo a escala da
produção, ela pennite estreitar o espaço onde o processo de trabalho se
executa. Esse duplo efeito, poderosa alavanca que elimina falsas despesas
(o grifo é nosso), só é possível pela aglomeração dos trabalhadores, pela
aproximação de operações diversas mas conexas, e pela concentração dos
'meios de produção' "(34). Longe de reduzir-se à concentração dos meios
de produção, a cooperação desenvolvida estende-se portanto à aglomeração
dos trabalhadores e à aproximação de operações diversas, isto é, de fases
distintas do processo de produção.
Sendo assim, a aglomeração da população, dos instrumentos de produção, do capital, dos prazeres e das necessidades - em outras palavras a
cidade(35) - não é de modo algum um fenômeno autônomo sujeito a leis
de desenvolvimento totalmente distintas das leis da acumulação capitalista:
não se pode dissociá-la da tendência que o capital tem a aumentar a produtividade do trabalho pela socialização das condições gerais da produção das quais a urbanização, já vimos, é componente essencial.
O que explica a aparente autonomia dos ·fenômenos urbanos é o fato
deles pertencerem à divisão do trabalho na sociedade e não à divisão do
trabalho na unidade de produção: ora, a divisão "social"(36) do trabalho
- cuja separação cidade-campo é a base fundamental - pertence às formações econômicas das mais diversas sociedades e não, como a divisão "ma-

nufatureira" ou a fábrica, apenas à fonnação capitalista.
(34) Le Capital, Ed. Sociales, liv. I, 4.ª seção, Cap. XIV, t. II, p. 21.
(35) K. Marx, L 'ldéologie a/lemande, Ed. Sociales, p. 80.
(36) Não se deve confundir divisão do trabalho na sociedade (a formação
social) - que Marx chama às vezes também de divisão "social" - e divisão social do
trabalho, que se opõe à divisão técrúca. Para maior clareza, usaremos a expressão
divisão "societal" do trabalho sempre que haja esse perigo de confusão.

159

~ssim se explica o fato do fenômeno urbano ter precedido de muito
nasc~ento do capitalismo e de alguns de seus traços até contemporâ~eos nao pare~er_em_ provir diretamente da acumulação capitalista ( em particular, a subs1stencia de pequenas cidades onde a vida econômica e social
se aparenta mais ao modo de produção feudal do que à civilização urbana
engendrada pelo maquinismo).
0

Eis porque_ Ma~x evita r~duzir a relação entre urbanização e capitalismo ª. uma relaçao s1mples, direta, unívoca entre um efeito e uma causa.
Dep~1s de haver distinguido as duas esferas onde os dois fenômenos se
m~festam ~~ ~ivisão do trabalho no nível do conjunto de uma formação
~o_ci_al e a diVIsao do trabalho na unidade de produção), ele se contenta
llll_c1almente com uma analogia, com um paralelismo, do qual explica
cmdadosamente os limites:
_"Assim como a divisão do trabalho na manufatura supõe como base
mate~al um ~e_r~o número de operários ocupados ao mesmo tempo, assim
tambem_ a dzv1sao do trabalho na sociedade supõe um certo volume de
populaçao acompanhado de uma certa densidade que substitui a aglomeração na oficina"(3 7).

, A fim de deixar bem claro que se trata não de um simples fato demo~áfico (a concentração de uma população num território restrito) mas
Sim urbano, Marx enfatiza nitidamente o que, para ele, determina a densidade da população: a rede das vias de comunicação(3 8).
. De modo mais amplo, diríamos hoje que é a repartição espacial dos
me10s de produção, do capital e dos meios de consumo, as vias de comunic~ção só efetivando essa repartição. Marx emprega aliás uma expressão pró~a ~uando fala no mesmo texto da "divisão territorial do trabalho que
atnbm certos ramos de produção a certos distritos de um pais" (p. 43).
. Isso? significa que se pode confundir a cooperação na oficina e na
socie~de;, De modo algum. E é por isso que Marx explica os limites de sua
a~~~gia: Apesar das numerosas analogias e relações que existem entre a
diVIsao do trabalho na sociedade e a divisão do trabalho na oficina há contudo entre elas uma diferença não de grau mas de essência.
'
"Enquanto na manufatura a lei de ferro da proporcionalidade sujeita
(37) !;e Capital,_ Ed. S?ciales, liv. I, 4.ª seção, Cap. XIV, t. II, p. 42.
Essa densidade e cont~do algo de relativo. Um país cuja população está
proporc10':°lmente espalhada possui mesmo assim - se suas vias de comunicação são
des_envolVJdas - uma população mais densa do que um país mais povoado mas cujos
mews de comunicação sejam menos eficazes" (ibid., p. 43).

um determinado número de operários a funções determinadas, o acaso e o
arbitrário fazem seu jogo desordenado na distribuição dos produtores e de
seus meios de produção entre os diversos ramos do trabalho social"(3 9).
Resumindo, se a cooperação é uma planificação convencionada na
empresa capitalista, ela não passa de anarquia no nível do conjunto da formação social capitalista, reduto da concorrência entre produtores mercantis independentes.
Essa diferença de natureza é pois fundamental já que provém da
essência mesma do modo de produção capitalista do qual não se pode
extirpar - ainda mais na era dos monopólios internacionais - a concorrência sem pôr f1m à acumulação capitalista. Mas ela não diminui em nada o
lugar essencial da distribuição espacial dos meios de produção de consumo
na busca que o capitalismo faz de um aumento de produtividade.
Marx mostra, pelo contrário, o vinculo direto entre aumento da produtividade do trabalho e planejamento urbano, referindo-se a James Mille
Th, Hodgskin:
"É preciso uma certa densidade da população seja para as comunicações sociais, seja para a combinação de forças, por meio das quais o produto do trabalho é aumentado (James Mill, Elements of Political Economy,
Londres, 1821).
"À medida que o número de trabalhadores aumenta.:. o poder produtivo da sociedade aumenta também na razão composta deste aumento
multiplicado pelos efeitos da divisão do trabalho (Th. Hodgskin, Popular
Political Economy, p. 120)"(40).

Longe pois de serem esferas independentes, a esfera da produção, a
da troca e a do consumo estão em constante interação:
"A divisão manufatureira do trabalho só se implanta onde sua divisão social já chegou a um certo grau de desenvolvimento, divisão que por
repercussão ela desenvolve e multiplica (ibid., p. 43)"(41).

Essa interação é generalizada por Marx a todos os estágios históricos
do desenvolvimento da cooperação: manufatura, fábrica, mostrando como
os meios de comunicação e de transporte foram "revolucionados" primeiro
pela divisão manufatureira e, depois, pelo maquinismo e pela indústria
moderna.

(~8)

(39) lbid., pp. 4445.

(40) Le Capital, Ed. Sociales, liv. I, 4.ª seção, Cap. XIV, t. II, p. 42, n. 0 2.
(41) Cf. Le Capital, ibid, Cap. XV, p. 69.

160
161

lJ
Não podemos no entanto ficai num simples paralelismo entre os
diferentes estágios de desenvolvimento da cooperação capitalista e suas
relações com as condições gerais da produção: a própria noção de desenvolvimento da cooperação não contradiz a idéia de inter-relações estáticas,
fixadas de uma vez por todas entre .o processo imediato de produção e as
condições gerais de sua reprodução?
Enquanto na manufatura e no início da indústria moderna havia a
. oposição entre unidade de produção ( dominada por um agente capitalista)
e pluralidade de produtores mercantis independentes, o desenvolvimento
da indústria moderna deu origem a vastos monopólios cujo império se subdivide em m_últiplos estabelecimentos ligados uns aos outros por uma sábia
economia de falsas despesas e por uma estratégia global de maximização do
lucro.
A diferença "de natureza" entre "a ordem", a organização na manufatura e a anarquia da concorrência permanece portanto, mas manifesta-se
hoje na oposição entre a formidável organização de cada império industrial
e bancário, .de um lado, e, de outro, a concorrência, a anarquia que regulam as relações entre os impérios rivais.
A análise da cooperação capitalista desenvolvida vem dar assim
necess~riamente na oposição entre a necessidade técnica da socialização e a
necessidade social da concorrência. Por isso ela nos leva a perceber O caráter contraditório da socialização capitalista das condições gerais da produção. Mas cabe aqui perguntar se não confundimos urbanização com planejamento territorial(*): não é de preferência a esse segundo conceito que
remete a divisão "societal" do trabalho? Em todo caso é essa a tese desenvolvida por Manuel Castells quando reduz. voluntariamente o urbano à
reprodução da força de trabalho:
"O 'urbano' unidade econômica? Seja; mas deve-se ainda perguntar
se o processo conotado corresponde ao conjunto do processo de trabalho
ou a um de seus elementos, e qual. Ora... não parece que 'a cidade' ou
uma 'região urbana' sejam um recorte significativo no nível do conjunto do
siste~ .econômico. .. entre os dois elementos fundamentais do processo
econom1co - os meios de produção e a força de trabalho - a busca de uma
especificidade do primeiro remete muito mais ao que se chamou problemas
r:_gionais, isto é, a arrumação dos diferentes elementos técnicos da produçao, levando-se em conta os recursos naturais e produtivos dos movimentos
de capitais ... Pelo contrário, o 'urbano' parece conotar diretamente os
(*) Aménagement du territoire, no original (N. da T.).

162

processos relativos à força de trabalho de modo diverso do que em sua aplicação direta ao processo de produção"(42).
De fato, uma tal definição do urbano apóia-se numa tríplice confusão:
- Confusão entre processo - técnica - de trabalho e processo social - de produção: em nenhum momento o autor distingue, de fato, as
determinações procedentes do desenvolvimento das forças produtivas
das determinações procedentes das relações capitalistas de produção, o que
terá por conseqüência apresentar como dado inelutável a separação - operada pelo capitalismo - entre reprodução da força de trabalho ( do trabalho vivo) e reprodução do capital ( do trabalho morto).
- Confusão entre a unidade imediata de produção e a divisão "societal" do trabalho, no nível do conjunto de uma formação social. É sintomático que o autor empregue, sucessivamente, como sinônimos, as noções
de "processo de trabalho" e de "processo econômico". Ora, já vimos, se o
urbano não intervém diretamente no nível do processo imediato de trabalho, o mesmo não acontece no nível da cooperação desenvolvida, no nível
da socialização da produção tomada como conjunto espacial combinado de
unidades de produção.
- Terceira confusão, enfim, e talvez a mais grave por suas conseqüências quanto à problemática sociológica que dela decorrerá, a confusão
entre "forças produtivas" e "forças produtivas materiais" Ao definir o
"processo econômico" apenas pela arrumação dos recursos naturais e produtivos e dos movimentos de capitais, M. Castells tende a reproduzir a
distinção ideológica, dominante na economia clássica, entre o econômico
- identificado com o trabalho cristalizado - e o "social" - identificado
com o trabalho vivo( 4 3). Nesse quadro, o urbano aparece então como o
domínio do "não-trabalho", como o conjunto das atividades que se desenrolam "fora da empresa", em outros termos, como "consumo". Se, ao contrário, tivermos o cuidado de distinguir forças produtivas humanas e forças
produtivas materiais, não se pode mais aceitar tal divisão, tornada aliás
caduca, até aos olhos de muitos economistas não-marxistas, pelo papel
hoje decisivo da formação ampliada da força de trabalho na grande indús-

f

(42) M. Castells, La question urbaine, op. cit., p. 297.
(43) Cf. D. Bleitrach e A. Chenu, Aménagement: régulation ou aggravation
des contradictions sociales? Un exemple: Fos-sur-Mer et l'aide métropolitaine marseillaise, CERA T, IEP de Grenoble, Aménagement du territoire et développement régional, vol. VII, Grenoble, 1974.

163

tria moderna. O que, é claro, não significa que seja preciso recair no erro
- inverso - do neomarginalismo que suprime a própria existência das relações capitalistas de produção fazendo dos "bens coletivos" produzidos
pela cidade uma pura noção tecnológica, harmônica, alheia à contradição
capital/trabalho. Não se pode definir a cidade como "conjunto de bens
indivisíveis, imóveis e duráveis", como fez J. Rémy( 44), sem logo acrescentar que o sistema capitalista vai procurar dividir, esfacelar esses efeitos
úteis de aglomeração, diminuir sua duração de vida e sua fraca motilidade,
a fim de incorporá-los em sua esfera de produção mercantil. É justamente,
convém repetir, a unidade contraditória dessas duas lógicas, dessas duas
necessidades (tecnológica e social) que define a cidade capitalista.
Resta a objeção de Castells referente às relações entre planejamento
territorial e urbanização. Basta aqui precisar que, de acordo com as análises
anteriores, o urbano, longe de ser exterior ao planejamento (como o seriam
os dois sistemas fechados do "econômico" e do "social") é apenas uma de
suas subdivisões, ou melhor, um de seus principais componentes. À divisão
mais geral do território nacional em cidades e campo, e acrescentamos,
hoje, principalmente, em zonas de produção agrícola, de produção industrial, de circulação do capital, etc., corresponde uma outra divisão em
zonas de comando econômico e político, de centros de poder-revezamento
e de zonas de execução e de reprodução limitada da força de trabalho. A
urbanização capitalista atual poderia ser então definida como a forma mais
desenvolvida da divisão do trabalho material e intelectual( 4 5). Mas enquanto para Marx os dois termos espaciais desta oposição são a cidade - concentração da população, dos instrumentos de produção, do capital, dos
prazeres e das necessidades - e o campo - que isola e espalha esses mesmos elementos -, pode-se formular a hipótese de que essa oposição é
muito mais materializada hoje pela segregação espacial entre os grandes
centros urbanos - que concentram ao mesmo tempo o trabalho intelectual
mais desenvolvido e os órgãos de comando - e as zonas periféricas onde
estão disseminadas as atividades de execução e os lugares de reprodução
empobrecida da força de trabalho. Não há pois nenhuma solução de continuidade entre a divisão econômica do trabalho nas novas unidades de produção e de circulação do capital e a organização urbana, já que esta última
(44) J. Rémy, La ville, phénoméne économique, Bruxelas, Les Editions Ouvrieres, 1966.
(45) "A maior divisão do trabalho material e intelectual é a separação entre
cidade e campo" (Marx, L 1déologie allemande, Ed. Sociales, p. 80).
164

aparece, ao contrário, essa é nossa hipótese, como o lugar da nova divisão
do trabalho. Em vez de rejeitar o urbano "para a margem" do afrontamento direto capital/trabalho, postulamos pois que nas novas condições de
desenvolvimento do capitalismo, o urbano é um dos lugares decisivos da
luta de classes, na medida em que ele "resume" a principal contradição
entre a exigência de desenvolvimento do trabalho vivo - e sobretudo seu
desenvolvimento intelectual - e a lógica de acumulação do trabalho cristalizado que tende a restringir ao máximo esse desenvolvimento em função
de suas necessidades imediatas. Tal é, em todo o caso para nós, o desafio
sociológico fundamental que se esconde sob o problema da distribuição
social e espacial desigual dos meios de consumo coletivos. Voltaremos mais
adiante detidamente a esse ponto central de nossa problemática(46), mas
pareceu-nos essencial sublinhar desde agora em que uma defmição não
restritiva do urbano pode ser determinante para toda a nossa orientação
teórica futura.
Não podemos contudo contentar-nos com uma definição geral estática - da urbanização capitalista; na medida em que fizemos a hipótese
de uma correlação entre divisão social do trabalho e formas de urbanização, teremos que especificar essa correlação, no estágio atual e até na fase
atual do desenvolvimento do capitalismo: o CME. Em outras palavras, será
que há uma urbanização monopolista e, se há, em que medida é ela determinada pela própria natureza do monopolismo? Lembremos antes de tudo
em que consiste a especificidade do capitalismo monopolista, no âmbito da
divisão social (societal) do trabalho. Três critérios principais podem, a nosso ver, defini-la:
- um novo tipo de socialização da produção considerada em seu conjunto, isto é, no nível da divisão "societal" do trabalho;
um novo tipo de autonomização das funções do capital;
e, enfim, um novo tipo de mobilidade espacial da fração dominante
do capital.
a) UM NOVO TIPO DE SOCIALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO
Quase sempre as periodizações históricas do desenvolvimento tecnológico do capitalismo ignoram mais ou menos a especificidade do estágio
monopolista com relação ao estágio clássico, chamado de livre concorrên(46) Cf. sobretudo o Cap. VI, 3.ª parte.
165

eia. ~e, em geral, se faz corresponder - segundo as análises tão conhecidas
do l~v~o I_ do_ Capital sobre o maquinismo - o estágio clássico do capitalismo a md~stria moder~a, especifica-se raramente o estágio monopolista da
cooperaçao desenvolV1da ; ou então, se essa tentativa é feita , como no caso
de ~aul Boccara( 4 7 ), fica-se ainda, a nosso ver, na fase do inicio do monopo_h s~o, naqu~la em que a ''usina" sucede à "fábrica" como conjunto de
~aq~mas semi-automatizadas e automatizadas, mas em que a unidade econ~mtca permanece materializada por uma unidade física sin1ples que ainda
nao apresenta verdadeira diversificação - social e espacial _ das diferentes
funções_ sociais e tecnológicas que intervêm no conjunto do processo de
pr~duçao/rep~od~ção_ do capital. Ora, é discutível que hoje a verdadeira
urudade eco~om1ca amda seja a empresa simples (fábrica, usina) em vez da
~mpresa conJugada, segundo a expressão usada por Hilferding e Lenin( 4 8) ,
isto é, um complexo de atividades produtivas e não produtivas ao mesmo
te~po separad~s (~ocial e ~s~acialmente) e unidas por um duplo pro )sso
de rnterdependencia tecnolog1ca e de centralização social.
Pode-se distinguir dois tipos, dois níveis de socialização : a socialização do processo de produção e de circulação dos capitais decorrente de uma
me~ma propriedade financeira, isto é, de um mesmo centro privado _
soc1~dade por aç~es,. cartel, monopólio ; por outro lado , a socialização de
co~Junto desses diferentes processos particulares no nível da divisão tem"to~al do trabalho, da cooperação ampliada a toda uma formação social, e,
h~Je , até m~smo .ª conjuntos multinacionais. M. Castells e F. Godard propo~m defmrr ass1m essas duas socializações: uma como "interna" (a uma
urudade eco~ômic~), a outr~ como "externa"( 4 9). Não há dúvida de que
es~as _expressoes tem o ménto de descrever os dois fenômenos, mas têm
p~nc1pal~1ente O defeito de remeter à terminologia marginalista da econorrua c~as~ica para a qual toda economia e todo valor de uso que não sejam
redutJveis a mercado~~s são "externos" ( economias "externas").
~e ,_ pel~ contrano, se tenta determinar positivamente o segundo tipo
d~ sociahzaçao, fala-se mais da socialização dos efeitos úteis de aglomeraçao ( ou de cooperação espacial), a chamada socialização "interna" remetendo aos agentes capitalistas privados(50) ou particulares; mas não se
. (~ 7) P. Boccara, "Hypotheses sur le développement du ' capital"', Economie
et Polztzque, março-abril-maio de 1961.
(48) Lenin, L 1mpérialisme, stade suprême du capitalisme in : Oeuvres choisies
em 3 volumes, Edition du Progres, t. I, p. 794 .
'
(49) Monopolville, Mouton, 1974, pp. 7-92.
(50) "Privados" no sentido em que a unidade que eles constituem é primeiro a

166

l

pode de modo algum concluir, do ponto de vista do processo de cooperação técnica e portanto de combinação das forças produtivas, que uma seja
"exterior" à outra: há, ao inverso, complementaridade crescente entre, de
um lado, a socialização da produção ( desenvolvimento da automação), de
seu controle imediato e mediato, da comercialização, da pesquisa, etc., no
nível de uma unidade capitalista e, de outro lado, a socialização não menos
necessária da cooperação entre unidades; complementaridade dos meios de
produção (zonas industriais), de troca (zonas de negócios especializadas),
de comercialização ( centros de comércio regionais, nacionais, internacionais), etc. Mas , além da "economia de aglomeração" nascida da justaposição espacial dessas diferentes funções do capital, é o conjunto "das condições gerais da produção" que é "revolucionado": não são só os meios de
comunicação e de transporte que se devem adaptar à ampliação da divisão
territorial do trabalho e à aceleração do ritmo das trocas(5 l), mas sim o
conjunto dos meios de aglomeração espacial das novas funções autonomizadas do capital. Ainda mais, é o conjunto dos meios de formação de uma
força de trabalho complexa, adaptada às novas condições de trabalho
como à nova divisão espacial das atividades, que é adaptado a esta socialização do território nacional e multinacional: para localizar suas unidades
de produção, de gestão, de pesquisa ou de direção, os capitalistas exigem
mais não só estradas ou instrumentos de telecomunicação mas também
conjuntos coletivos de ltabitação, escolas, universidades, centros de pesquisa ... A socialização da cooperação territorial atinge pois o conjunto das
condições gerais da produção e, longe de ser ''externa" em relação a esse
processo, pode-se dizer que as novas formas da urbanização monopolista
são, de certa maneira, "o outro aspecto" da cooperação capitalista, quer se
trate da criação de centros urbanos que concentrem atividades de comando
e meios de formação de forças iritelectuais de trabalho ou da "descentração" das atividades e dos lugares de reprodução da força de trabalho não
diretamente ligados aos centros nervosos da economia e do poder político.
Como lembrava Marx, "se a direção capitalista, quanto a seu conteúdo, tem dupla face, porque o próprio objeto que se trata de dirigir é, de
um lado, processo cooperativo de produção e, de outro, processo de extração de mais-valia, a forma dessa direção torna-se necessariamente despó-

unidade de uma propriedade privada de um conjunto de capitais produtivos e improdutivos.
(51) Marx, Le Capital, op. cit., liv. I, t. II, p. 69.

167

tica. As formas particulares desse despotismo se desenvolvem à medida que
se desenvolve a cooperação".
No âmbito dos processos particulares como no âmbito do processo
global da produção, essa "dupla face" da direção capitalista implicará pois
uma perpétua contradição entre o desenvolvimento das forças ptodutivas
- e, no caso, da socialização - e a tentativa de subordiná-lo às exigências
do capital.

tal tarefa, que compete doravante a uma camada, cada vez mais ampla, de
engenheiros e de técnicos, mas ainda deve ele assimilar novas formas produtivas; a informação no estágio do soft e do hardware, a eletrônica, as
telecomunicações"(54).
Chega-se então a uma nova divisão das funções do capital em quatro
processos distintos:
1. Decisão e programação da empresa a médio e longo prazo - atividade também socializada e objetificada através dos métodos de gerência
(decisão coletiva de um brain trust), mas diretamente subordinada aos interesses dos proprietários financeiros do grupo monopolista.
2. Criação, circulação, tratamento das informações provenientes do
mercado.
3. Decisão e programação da empresa quanto ao andamento diário.
4. Operações de produção.

b) UM NOVO TIPO DE AUTONOMIZAÇÃO DO CAPITAL
Não se pode, de fato, separar socialização e autonomização, na medida em que o primeiro processo supõe uma diversificação - levadas ao
extremo - das diferentes funções exercidas outrora pelo proprietário capitalista. Marx já havia mostrado como, desde o estágio clássico do capitalismo, se dissociavam controle imediato e propriedade do capital(5 2). Sem
adotar a tese central de C. Palloix(53) que vê na firma multinacional atual
"um novo estágio do capitalismo", é forçoso porém concordar com sua
análise da especificidade da autonomização atual das funções do capital
monopolista. Ao passo que a divisão do trabalho consistia, assinala Palloix,
quando a unidade de produção era "a firma", em cindir dois tipos de operação: a operação de fabricação do produto (trabalho manual) e a operação
de informação e de tomada de decisão exercidas pelo empresário (trabalho
intelectual), a principal característica do estágio monopolista é a autonomização do próprio trabalho intelectual; o problema primordial da firma
multinacional torna-se, com efeito, "a criação, a circulação e o tratamento
da informação que ela recolhe no interior de si ou através dos acordos de
truste e cartel com as outras empresas oligopolísticas do ramo. Para isso,
não só o capitalista não é mais capaz de, sozinho, garantir e coordenar uma
(52) "0 capitalista começa se eximindo do trabalho manual. Depois, quando
seu capital cresce e, com ele, a força coletiva que ele explora, ele se demite de sua
função de supervisão imediata e ass(dua dos operários e dos grupos de operários e vai
transferi-la a uma categoria especial de assalariados. Desde que ele se encontra à frente de um exército industrial, são-lhe necessários oficiais superiores (diretores, gerentes) e oficiais inferiores (supervisores, inspetores, contramestres) que, durante o processo de trabalho, mandam em nome do capital" (Le Capital, op. cit., liv. I, t. II,
p. 24).
(53) C. Palloix, L '/Jconomie mondiale capitaliste, t. II: Le stade monopoliste
et l'impérialisme, Maspero, 1971.

168

1

Essa hierarquização se inspira de fato diretamente nos trabalhos de
Raymond Vemon e de sua equipe (Harward Multinacional Enterprise
Study) que, desde 1965, têm o mérito de analisar a nova divisão internacional do trabalho nos grupos monopolistas. Remetemos de modo especial
às pesquisas de Alfred D. Chandler(55) que mostram como, desde 1920,
em resposta à primeira crise econômica global do capitalismo, os maiores
monopólios americanos reestruturaram o conjunto da organização do
trabalho em suas atividades produtivas e improdutivas substituindo sucessivamente por dois tipos de organização a simples justaposição inicial de
empresas relativamente autônomas: primeiro, uma organização piramidal
e centralizada onde todos os centros de poder foram reagrupados no quartel geral; depois, uma organização bem mais flexível aliando uma centralização das grandes decisões estratégicas com a desconcentração máxima de
todas as atividades de direção e de gestão não diretamente ligadas às orientações fundamentais do grupo monopolista. Lenin já havia mostrado como

(54)

lbid., p.

143.

(55) A. D. Chandler, Stratégies et structures de l'entreprise, Paris, Ed. d'Organisation, 1972. Convém porém precisar que o conjunto dos estudos americanos aos
quais aludimos permanecem na confusão ideológica entre divisão técnica e divisão
social do trabalho, ou seja, não consideram a natureza monopolista d?s ~er~ntes
tipos de organização das "firmas multinacionais". Esquecer esse prelimmar e um
obstáculo para o uso pertinente da contribuição científica - e não ideológica - desses estudos.

169

não se deve confundir desconcentração, delegação de poder e descentralização:
"Vê-se com que rapidez estende-se a rede apertada dos canais que
envolvem todo o país e centralizam todos os capitais e rendas, transformando milhares e milhares de empresas esparsas em um único organismo
capitalista nacional e, depois, mundial. A "descentralização", de que
falava . .. Schulze-Goevernitz em nome da economia política burguesa de
nossos dias, consiste de fato na subordinação a um único centro de um
número sempre crescente de unidades econômicas outrora relativamente
"independentes" ou, mais exatamente, de importância estritamente local.
Na realidade há pois centralização, acentuação do papel, da importância,
da força dos monopólios gigantes"(56).
Mas a confusão mantida em 1915 por Schulze-Goevernitz entre desconcentração e descentralização está longe de ter desaparecido, já que A.
D. Chandler, apesar d.e todos os méritos de suas pesquisas monográficas,
continua a falar de "descentralização" onde, na realidade, só existe diversificação e autonomização das funções - sobretudo das funções "intelectuais" - do capital monopolista. Todavia, mesmo no interior da economia
política não-marxista, há um número crescente de pesquisadores que rejeitam essa confusão. Assim, o Prof. Bruce Scott assinala em seu prefácio à
edição francesa da obra de A. D. Chandler: "Pesquisas profundas nesse
domínio - em que o autor se empenhou com cinco estudantes que preparavam o doutorado - indicam existir uma relação fundamental entre a
diversificação e a separação em divisões autônomas. Uma política de diversificação para os setores variados é acompanhada de uma organização multidivisonal. O Prof. Chandler insiste às vezes mais na descentralização,
fenômeno suscetível de acontecer indiferentemente tanto numa organização funcional quanto numa divisional. Se, em muitos casos, essa distinção
parece puramente acadêmica, no da New Jersey Standard, por exemplo,
haveria a tentação de se considerar a descentralização como simples etapa
transitória para a criação de divisões, no ramo do petróleo - isto é, uma
centralização, no interior de uma organização funcional, efetuando-se
junto com uma política cada vez mais integrada da exploração doméstica
e mundial do petróleo"(5 7).
Ora, o conjunto desses trabalhos parece-nos extremamente rico se
forem aplicados à urbanização enquanto forma desenvolvida da divisão

1

social do trabalho. Ao passo que quase todas as pesquisas urbanas se contentam, de fato, com descrever as novas formas de urbanização com a
ajuda de noções fenomenológicas extremamente pobres ou ideologicamente
confusas ( oposição ecológica centro/periferia, noções de "terciarização" e
"desindustrialização" dos centros urbanos), uma análise da divisão urbana
do trabalho permite ao contrário determinar com rigor e precisão a natureza sociológica das diferentes organizações do espaço urbano.
À autonomização social e espacial no grupo monopolista, na empresa
"conjugada", das atividades de direção ligadas à coleta de informações, das
atividades de pesquisa, das direções dos processos de execução e de fabricação, etc., corresponde de fato, no nível da divisão territorial do trabalho
no conjunto do processo econômico ( quer se trate do espaço nacional ou
do espaço mundial), uma organização das condições gerais determinando a
realização dessas diferentes funções, e sobretudo a aglomeração espacial
dos suportes materiais(58) e humanos(59) que permitem uma coordenação
das diferentes fases de reprodução do capital social como dos diferentes
agentes capitalistas privados. A "armação urbana", no estágio monopolista,
aparece então antes de tudo airavés de sua rede de cidades médias, de metrópoles provinciais, nacionais e internacionais, como uma distribuição
social e espacial das diferentes condições gerais da produção, em função do
tipo de atividades que dela faz um uso privilegiado: zonas industriais-portuárias para a indústria pesada (siderurgia, petroquímica); universidades,
centros de pesquisa, centros de atividade intelectual e de formação de dirigentes, centros de gestão, de informática, etc., nas metrópoles mundiais,
para as atividades de direção geral; extensões regionais das universidades,
dos centros de pesquisa, de gestão e de informática nas metrópoles provinciais ou nas cidades novas, para as atividades de direção, de exploração, etc.
Mas, bem mais do que descrever rigorosamente a correlação entre
formas de urbanização e formas da divisão social do trabalho, essa problemática permite, a nosso ver, substituir uma sociologia da estratificação
social, por uma sociologia da segregação social. Enquanto toda sociologia
urbana que reduz seu campo à reprodução da força de trabalho só pode
revelar os conflitos sociais sob a forma de oposições entre "estratos" de
consumidores, podemos, ao contrário, formular a hipótese de uma segrega(58) Desde os portos, zonas industriais, até os instrumentos de telecomurúcação, etc.

(56) Lenin, L 'Impérialisme, stade suprême du capitalisme, op. cit., p. 810.
(57) A. D. Chandler, Stratégies et structures de l'entreprise, op. cit., p. 16.

170

(59) Conjuntos de habitação e de equipamentos coletivos oferecendo um mercado local ou regional de mão-de-obra.
171

ção espacial e social fundamental entre o espaço urbano "central" monopolizado pelas atividades de direção dos grandes grupos capitalistas e do
Estado e as zonas periféricas onde estão disseminadas as atividades de execução assim como os meios de reprodução empobrecidos, mutilados, da
força de trabalho.

precária, a localização de uma atividade de um grupo monopolista apresenta-se não como uma imobilização durável de uma fração (e de uma função)
do capital num espaço fixo , mas como uma conexão efêmera entre esse
capital e o conjunto dos valores de uso imóveis e duráveis de det~ffilinado
território (meios de comunicação, meios de consumo coletivos, aglomeração de meios de produção e de forças de trabalho mais ou menos diversificadas, etc.).

c) UM NOVO TIPO DE MOBILIDADE DO CAPITAL

. - A mobilidade social, pela qual se define "a dissociação entre o
destmo de uma empresa e o de um único ramo"(60). Essa mobilidade dos
investimentos de capital entre os diferentes ramos, entre as diferentes esferas da ~conomia de uma nação ou de um grupo de nações é, a nosso ver,
detemunante, na medida em que funda não só a mobilidade espacial, de
acordo com os recursos em matérias-primas, meios de comunicação e de
aglomeração urbana detidos pelos diferentes espaços regionais concorrentes, ~a~ ao mesmo tempo o modo de autonomização e de diversificação
das at1V1dades do grupo monopolista considerado, segundo a taxa de lucro
que elas podem conseguir.
- A mobilidade temporal já aparece, então, como conseqüência
dessa mobilidade inter-ramos (ela própria conseqüência das novas condições da tendência à baixa da taxa de lucro e das dificuldades crônicas
atuais para elevar essa taxa, mesmo setorialmente). Ela poderia ser definida
~orno tendência à descontinuidade, no tempo, dos investimentos monopolistas, cada vez mais precários, consideradas as variações rápidas das condições da concorrência e da sobreacumulação dos capitais.
- A mobilidade espacial, enfim, pode ser definida como a resultante
dos dois primeiros processos: na medida em que agora ela é diversificada e

Convém agora precisar no que esse tipo de mobilidade do capital é
próprio da fase atual do capital monopolista. É comum opor-se a "imobilidade" do pequeno e médio capital "local" à mobilidade da firma"multinacional", como se o monopolismo coincidisse com a multinacionalização do
capital. Ora, não é nada disso. A primeira fase do monopolismo - ou
monopolismo capitalista simples - foi quase sempre caracterizada pelo
estabelecimento de conexões duráveis entre certas regiões ocidentais ricas
em matérias-primas e os ramos industriais em que o monopolismo inicialmente mais se desenvolveu (indústria pesada; primeira transformação de
metais). O exemplo das regiões ricas em carvão e minério de ferro é bastante célebre e dispensa demonstrações (a região do Nord e a Lorena, na
França; a Valônia, na Bélgica; o Ruhr, na Alemanha, etc.). Mas é indispensável insistir nas conseqüências desse fato quanto à caracterização da
"mobilidade" do capital: longe de ser inerente ao monopolismo, a nova
mobilidade que definimos é pois característica de um período bem determinado do monopolismo, período em que a tendência à baixa da taxa
média de lucro acarreta uma instabilidade generalizada das taxas setoriais
de lucro e, por conseguinte, a necessidade dos grupos monopolistas abandonarem os investimentos pouco diversificados e de longa duração. Não é
possível, assim, explicar esse novo tipo de mobilidade sem fazer referência
às análises econômicas da sobreacumulação-desvalorização do capital e às
hipóteses sobre os ciclos longos de depressão e de estabilização( 61).
Essa terceira característica da atual divisão monopolista do trabalho
é a nosso ver elemento fundamental de toda tentativa de explicação das
formas de urbanização monopolista, na época do CME. Seria tentador com
efeito pôr em correspondência a vila industrial - a Company Town dos
anglo-saxões - com a grande indústria capitalista como tal. Ora, essa forma
urbana parece-nos de fato estreitamente ligada a uma fase bem particular
do desenvolvimento do capitalismo: a fase monopolista simples, em que a

(60) A. D. Chandler, Stratégies et strnctures de /'entreprise, op. cit., p. 16.

(61) Cf. nosso Capítulo I e nossa análise das hipóteses de Paul Boccara sobre
o capitalismo monopolista de Estado .

O terceiro traço específico da divisão monopolista do trabalho é sem
dúvida o mais conhecido: a constituição de "firmas multinacionais", objeto de múltiplos trabalhos de pesquisa, não é a própria forma dessa nova
mobilidade do capital, no estágio monopolista?
. Na verdade, o conceito de mobilidade remete a determinações bem
mais complexas, onde a mobilidade "multinacional" só aparece como uma
das formas da mobilidade espacial monopolista. Deve-se antes de tudo distinguir três tipos de mobilidade do capital.

172

173

indústria pesada se desenvolve na base da utilização de um espaço territorial relativamente restrito. Não é possível compreender o fenômeno da vila
industrial se não for relacionado com uma certa estraitégia de fixação do
capital monopolista na região em que ele se constitui. M. Castells e F. Godard mostram muito bem como a urbanização atual se caracteriza, ao
contrário, pela separação entre o financiamento da cidade (pelo capital
público ou por um capital desvalorizado privado, semipúblico) e o fmanciamento dos meios de produção(62), mas não conseguiram explicar por
que os monopólios atuais têm que abandonar o sistema da vila industrial
em favor de habitações e de meios coletivos de consumo financiados pelo
Estado.
Somente a exigência de mobilidade do capital monopolista, face à
imobilidade dos investimentos referentes ao setor imolbiliário, pode explicar, em última análise, por que a vila industrial não é mais hoje a forma
predominante da urbanização capitalista.

II. Os limites capitalistas da urbanização

Até aqui insistimos(63) principalmente num aspecto da relação entre
urbanização e acumulação capitalista, a saber, o desenvolvimento da aglomeração urbana determinado pela tendência constante do capitalismo a
diminuir o tempo de produção e o tempo de circulação do capital.
(62) Monopolville, op. cit., p. 457. Nem a referência à "necessidade" de resolver as contradições na reprodução da força de trabalho cujo papel aumentaria no
processo de produção "por razões próprias a cada faixa social", nem a referência à
vontade "de aumentar as chances de integração social" podem de fato servir como
explicação.
O mesmo acontece quanto ao caráter não rentável do setor imobiliário: esse
setor era ainda menos rentável na época das vilas industriais, e o fato dos próprios
monopólios continuarem a financiar as habitações de certas categorias de pessoal,
como os diretores, invalida completamente esse tipo de explicação.
Quanto às chances de "integração social", por que a habitação pública iria a
priori aumentá-las?
(63) Para não cair no tecnicismo mostramos logo de início o duplo aspecto contraditório - da urbanização capitalista, mas insistindo sobretudo no aspecto "progressista" da socialização capitalista dos meios de consumo e dos meios de aglomeração espacial.

A cidade aparece assim como efeito direto da necessidade de economizar as falsas despesas de produção, as despesas de circulação e as despesas de consumo a fim de acelerar a velocidade de rotação do capital e, portanto, de aumentar o período em que o capital é valorizado. Mas concluir
daí que o desenvolvimento urbano é de certa forma assegurado pela necessidade constante que tem o capitalismo de aumentar a produtividade do
trabalho social é duplamente errôneo: por um lado, porque todo desenvolvimento da produtividade, ao elevar a composição orgânica do capital
social, reforça, a prazo, a tendência à baixa da taxa de lucro e provoca uma
reação, em retorno, de [reagem e de "seleção" do desenvolvimento das
forças produtivas; por outro lado, porque a necessidade de cooperação dos
diferentes agentes de produção no espaço urbano é contrariada:

a) pelas leis da concorrência capitalista;
b) pela fragmentação do espaço urbano em porções independentes
umas das outras que são a propriedade privada dos proprietários fundiários. Esse segundo limite é o da renda fundiária urbana.
As relações de produção capitalistas, ao mesmo tempo que provocam, com a indústria moderna, uma tendência crescente à aglomeração
urbana, imprimem um tríplice limite a qualquer organização racional,
socializada, do planejamento urbano.
- Um limite ligado ao financiamento dos diferentes elementos que
conferem à vida urbana capitalista o caráter que lhe é próprio.
- Um limite ligado à divisão social do trabalho no conjunto do território e, por conseguinte, à concorrência anárquica entre os diferentes agentes que ocupam ou transformam o espaço urbano.
- Enfim, um limite proveniente da própria propriedade privada do
solo.

1. Os limites capitalistas do fmanciamento dos meios de
comunicação e de consumo coletivos

Marx demonstrou com clareza a função contraditória do desenvolvimento das forças produtivas sobre a tendência à baixa da taxa de lucro:
de um lado o aumento da produtividade amplia a massa de mais-valia e a
175

taxa de mais-valia; mas, ao ~levar a composição orgânica do capital pela
acumulação crescente de capital fixo constante ( de máquinas), ela provoca
tendencialmente uma nova baixa da taxa de lucro. É o que ele exprime,
por exemplo, nesta fórmula particularmente explícita: "Pode-se entretanto
perguntar se o que é ganho de um lado não é perdido de outro, se o empre-

go de máquinas economiza mais trabalho do que custam a construção e a
manutenção dessas máquinas"(64).
Resta demonstrar que as despesas urbanas desempenham junto à
composição orgânica do capital social o mesmo papel que o emprego de
máquinas. O que estaria no prolongamento da comparação que estabelecemos entre a socialização do processo imediato da produção e a socialização de suas condições gerais.
Vamos fazê-lo em duas etapas. Na primeira, procuraremos examinar
o lugar dos diferentes elementos urbanos entre a esfera do capital produtivo e a esfera do capital improdutivo. Na segunda, vamos nos colocar no
nível da repartição social da massa de mais-valia, isto é, no nível do recolhimento e da apropriação do lucro, de modo a determinar a "rentabilidade"
das diferentes despesas urbanas.
Definimos a cidade capitalista como o produto de uma dupla socialização: a das condições gerais da produção e a do espaço. Seria assim possível falar - a respeito do impacto global das atividades urbanas sobre a
economia capitalista - de efeitos de aglomeração urbana.
QueremÔs com isso dizer:
por um lado, efeitos úteis produzidos pelos meios de circulação e de
consumo concentrados na cidade;
por outro, efeitos de aglomeração que são apenas o produto indireto
da justaposição de meios de produção ou de reprodução e não estão
ligados, como os efeitos anteriores, a um objeto material particular.
Pode-se dizer que sua produção é, de certa forma, coletiva: é uma
combinação social - consciente ou não, deliberada ou não - de
agentes urbanos individuais (construtores de prédios de moradia, de
comércio, de escritórios, de fábricas, etc.).
O valor de uso consiste então unicamente na propriedade que tem o
próprio espaço urbano de fazer com que se relacionem entre si os diferentes elementos da cidade.
Teremos ocasião de voltar a esse segundo tipo de efeito urbano ao
(64) Le Capital, Ed. Sociales, liv. I, 4.ª seção, Cap. XV, t. II, p. 72.
176

analisar a renda fundiária urbana, cuja renda de localização é, como veremos, uma utilização direta desse valor de uso para fins especulativos.
Voltemos ao primeiro tipo de efeitos urbanos - os que são produzidos pelos meios de circulação e de consumo.
Esses efeitos úteis são mesmo valores de uso, mas de forma alguma
objetos materiais, produtos que possam servir de suporte físico ao valor
transmitido pela força de trabalho. Marx mostrou que a criação de mercadorias, suportes da contradição entre valor e valor de uso, supunha a "alienação" do produto com relação a seu processo de produção, separação essa
que permite ao produto cristalizar o valor criado pela força de trabalho.
Não é esse o caso dos efeitos úteis ou "serviços", enquanto seu valor de
uso não for cristalizado num objeto material.
Com duas exceções: o transporte e a estocagem de mercadorias, na
medida em que essas duas atividades supõem, como foi demonstrado por
Marx, urna transfarmação do valor de uso das mercadorias transportadas

ou estocadas( 6 5).
Se, ao contrário, se tratar de transporte de passageiros, de atividades
de saúde ou de educação, ou de atividades bancárias e comerciais, esses serviços, esses efeitos úteis, não se cristalizam em nenhum objeto material e
não acrescentam mais valor a mercadorias produzidas em outros setores.
Não criam portanto nenhum valor adicional e são totalmente improdutivos
(demais-valia).
Então, em que pode haver comparação entre as despesas ligadas aos
meios de consumo e de circulação e as ligadas aos meios de produção e de
comunicação?
Não é possível responder corretamente à pergunta sem considerar

globalmente o conjunto das despesas provocadas pela reprodução ampliada
do capital: Marx só considera as despesas de produção ( onde entra a construção de máquinas), as falsas despesas de produção (produção de meios de
comunicação e de estocagem) e, por outro lado, as despesas de circulação
propriamente ditas (atividades bancárias e comerciais), necessárias à valorização do capital, mas que não transmitem nem acrescentam nenhum valor.
A estas últimas despesas juntaremos as despesas de consumo de que acabamos de falar. Ora, nas despesas de circulação como nas despesas de consumo, o dinheiro adiantado não é um gasto de renda, mas um gasto de capital (improdutivo)(66).
(65) Cf. supra, Cap. II, 1, p. 139, n. 0 1.
(66) Cf. supra, Cap. II, 1, pp. 132-135.

177

Trata-se portanto de um capital adiantado, mas, ao contrário do
capital constante, resulta de uma retirada antecipada da mais-valia já produzida. Donde o conceito proposto por Paul Boccara(67) de capital de
despesa. À luta contra a tendência à baixa da taxa de lucro pela elevação
da taxa de mais-valia seria acrescentada, segundo Boccara, "a busca da produtividade pelo aumento de outros elementos que se tornaram bem mais
importantes (não verdadeiramente novos) com as condições tecnológicas e
estruturais do CME. Trata-se, de um lado, das despesas não produtivas de
valor e de mais-valia, apesar de necessárias, das próprias empresas capitalistas, despesas com estudo e pesquisa, com formação, gestão e comercialização: o que se pode chamar de capital de despesa". Trata-se, de outro lado,
do capital desvalorizado pela intervenção pública: seja capital constante,
seja capital de despesa transformado em despesas públicas ( especialmente
para a educação pública e para a pesquisa científica, mas também para a
gestão ... ). Para justificar esse novo conceito, P. Boccara precisa enfim
que, se "sob certos aspectos, esse capital se assemelha ao capital constante
do ponto de vista da taxa de lucro - não-produção de valor mas capital
adiantado ... - sob outros, ele é bem diverso: retirada antecipada sobre a
mais-valia e recuperação pelos preços. Donde a necessidade de um conceito
diferente"(68).

da esfera produtiva. As estradas de ferro e o conjunto dos meios de comunicação fazem parte justamente de um setor bastante desvalorizado pela
composição orgânica excessivamente elevada - o que Marx notava desde
a primeira metade do século XIX.
A diferença "de natureza" entre o capital constante dos meios de
comunicação e o capital de despesa dos meios coletivos de consumo e dos
meios de circulação social esmaece, pois, do ponto de vista da desvalorização do capital; a diferença de natureza torna-se diferença de grau entre um
capital totalmente desvalorizado produzindo zero de valor adicional ( o
capital de despesa) e um capital muitíssimo desvalorizado como o que é
investido nos meios de comunicação.
Assim é possível generalizar a análise da infra-estrutura pública dos
transportes ao conjunto dos domínios em que o caráter coletivo das forças
produtivas materiais e os custos catastróficos que daí podem resultar, em
caso de concorrência capitalista, provocaram a concentração monopolista,
e, em seguida, a intervenção do financiamento público, forma dialética
desenvolvida do monopólio privado.
Paul Boccara cita o caso das estradas de ferro, dos transportes urbanos ou do gás urbano que apresentam características idênticas às de toda
infra-estrutura pública: "O caráter indivisível das obras e sua falta de especificidade - digamos ... seu caráter coletivo - e também ... a interdependência entre as despesas de infra-estrutura e a diminuição dos custos ou
o aumento dos lucros das empresas utilizadoras. Temos aqui domínios que,
se fossem capitalistas, representariam uma composição orgânica extremamente elevada. Poderiam até ser inteiramente compostos de capital constante sob forma de capital fixo. Sua natureza de instalação longamente
durável e indivisível não lhes permite variar com as flutuações da demanda
de acordo com a conjuntura ..."(69).
Contudo, nos exemplos citados, só se trata de setores produtivos em
que o conceito de capital de despesa não pode ser aplicado e P. Boccara
reconhece, mais adiante, que sua tentativa de analisar o financiamento
público através da teoria da sobreacumulação-desvalorização é "parcial.. .
Em particular, precisa ser completada por um estudo referente à intervenção pública nos domínios do consumo (privado ou coletivo) e dos serviços.
Deixando de lado os importantes consumos parasitários como o dos armamentos, esses domínios saem da esfera estrita da produção material, apesar
de lhe serem estreitamente ligados. Já os consumos da pesquisa fundamen-

Ora, esse capital de despesa age sobre a composição orgânica do capital como o capital constante: eleva a composição orgânica aumentando a
massa de capital social acumulado sem ser valorizado. Mas a convergência
desses dois processos é ainda mais íntima se aceitarmos a hipótese geral da
sobreacumulação-desvalorização. Já mostramos como a busca incessante
pelo capitalismo de uma produtividade crescente, a fim de lutar contra a
tendência à baixa da taxa de lucro, não se efetua mais hoje apenas pela
elevação da taxa de mais-valia, mas também pela socialização das condições
gerais de produção.
Mas esses novos meios de luta contra a tendência à baixa são, como
os outros, arma de dois gumes: ao aumentar a massa de capital social que
não é valorizado, o capitalismo eleva de novo a composição orgânica do
capital e provoca uma nova sobreacumulação.
E ainda mais: todo o capital produtivo não age da mesma forma
sobre a composição orgânica. A hipótese da sobreacumulação-desvalorização permite distinguir divel'Sos graus de valorização do capital no interior
(67) P. Boccara, 11tudes sur le CME, sa crise et son issue, op. cit., p. 245.
(68) lbid., p. 245, n. 0 26.

(69) lbid., p. 61.

178

179

1

tal ~êm a ver com a produção intelectual. Mas a economia pública da edu
caçao ou da saúde tem a ver com a produção dos próprios homens"(70) ~
P~rece que é possível encontrar uma aplicação direta desta ampliação
da teon_a da sobreacumulação-desvalorização nos numerosos trabalhos de
econ~-~-ma urbana dedicados aos "bens coletivos urbanos"· assim a cidade
a r~giao e os diversos tipos ~e ~glomeração espacial seri~ a combinaçã~
de mfra-estr~turas em parte mdissociáveis, estreitamente complementares
que fornecei:iam uma base indispensável às diferentes atividades{71). Don~
de um~ teon~ bem mais global das infra-estruturas, das quais as infra-estruturas ~igadas a esfera da produção material são apenas um elemento. Tratar-se-1~ de en~glo_bar os fatores essenciais que desempenham um papel na
evoluçao econom1ca e sobretudo:
- a infra-estrutura de formação (o cqnjunto dos meios de ensino geral
e d~ formação profissional, em todos os graus de que depende a
qu~1dade do potencial humano da região);
a_s mfra-estr:uturas sócio-culturais (habitação, equipamentos sanitános, culturais e de lazer);
as infra-estruturas ec?nômicas propriamente ditas que compreendem
sobre!udo: as zonas mdustriais, as vias de comunicação, as redes de
energia e de telecomunicação{72).
Esses tr_ês tipos de infra-estrutura são integrados nos diferentes níveis
do espaço regional:

infra-estrutura da empresa (zonas industriais) compreendendo a compra dos terrenos, os equipamentos comuns e eventualmente a pré-construção;

"

infra-estruturas urbanas compreendendo os equipamentos 'estruturantes' (c~ntro~ ?úbl~cos), os equipamentos 'de acompanhamento'
(zon·a,s _res1denc1a1s e hgações com as redes) e os equipamentos intermedianos (centros sociais);

(10) Ibid., pp. 68-69.
(71) J. F. Besson, L 'Intégration urbaine PUF 1970 p 16 Cf t b, V
F h Th G
·
'
,
, ·
. . am em
~c s,
e rowmg_ Importance of the Service Industries, National Bureau of Ec
:
mie Research, Occasional Paper, 96, 196S.
ano
. (72) J. F. Besson, ibid., p. 33. Cf. também Eléments d'équipement collectif
co;1stituant le ~a~re de. la vie économique, CEE, grupo de peritos n.o 1 ob"etivos e
metadas de pohtica regional, Bruxelas, 1964.
' ~

infra-estruturas locais para uso industrial: equipamentos escolares,
sanitários, equipamento local de transporte;
infra-estruturas regionais: universidade, institutos e organismos de
pesquisa, rede regional de transporte e de telecomunicação"(73).
Porém não se pode negar que tais classificações se apóiam na teoria
bastante discutível do "bem coletivo" oposto ao bem individual: os "bens
coletivos" seriam "bens comuns do grupo social", dos quais ninguém poderia ser excluído(74). Também Jean Rémy, se teve o mérito de insistir na
dimensão econômica da cidade(75), fica, como J. F. Besson, "na problemática tradicional do consumidor, na teoria abstrata da utilidade e das
escolhas, reduzindo a socialização do consumo a um aumento das possibilidades de escolha", como o nota muito bem E. Préteceille(7 6). O motivo
dessa limitação é fornecido pelo próprio J. Rémy quando afirma:
"O teórico da economia não se apega ao conteúdo concreto da
demanda: tanto lhe faz que se prefira geladeiras a aspiradores; ele só se
interessa pelas caracterz'sticas abstratas dos produtos procurados; por
exemplo, pelo deslocamento da demanda de produtos que incorporam
principalmente mão-de-obra para produtos que incorporam principalmente
capital"(77).
O que permite a E. Préteceille concluir com pertinência: "Numa tal
perspectiva, a teoria econômica recebe assim como único objeto a análise
de apenas uma 'forma econômica', isto é, no fundo, a relação de produção
capitalista, o movimento de acumulação do capital. A análise do 'conteúdo
concreto da demanda' que é assim - entre outras - afastada, o que permite manter-se na abstração do consumidor final, caberia a uma psicossociologia descritiva das preferências, sistemas de valor, modelos culturais. Há
uma notável coerência - negativa - entre a recusa de interesse pela natureza concreta das necessidades, e a recusa de interesse pela natureza concre(73) Ibid., p. 34. Cf. também CEE, grupo de peritos n.o 3: Moyens de la politique régionale dans les 11tats membres, Bruxelas, 1964.
(74) lbid., p. 24.
(75) "A economia da cidade é a produção de bens decorrendo não de uma firma industrial mas da multiplicidade de empresas justapostas" (La ville, phénomene
économique, Bruxelas, Edition Vie Ouvriere, 1966).
(76) E. Préteceille, Equipements collectifs, structures urbaines et consommation sociale, Centre de Sociologie urbaine, 1975, p. 96. J. F. Besson define também
os bens coletivos como "um conjunto de possibilidades de ser e de agir ligadas a um
espaço", op. cit., p. 5.
(77) J. Rémy, La ville, phénomene économique, op. cit., p. 167.

180
181

!:

análise, que não seja unilateral, do conju1:to das desp,:sª~, urban~s_:
o
conjunto das condições gerais da produçao é todo _tao _ necessano ,_o
mesmo não acontece com sua utilidade . .. para a valonzaçao e acumulaçao

ta das forças produtivas; o único interesse é quanto à 'utilidade' para o
capital"(78). Jean Launay também assinala, a respeito da tentativa de integrar as despesas de educação na categoria muito ampla de "bens", que se
trata de "integrar esse setor econômico na produção capitalista, na esfera
mercantil, no mercado"(79). Ora, não se pode apreciar essa despesa unicamente como valor, mas sim também como valor de uso(SO). Isso significa
que se deve rejeitar toda generalização da teoria da infra-estrutura pública
para o setor do consumo, na medida em que ela se apóie na noção ideológica de bem " coletivo"? Não é esse o significado do que diz E. Préteceille
quando assinala que todas essas classificações servem para camuflar a realidade sociológica que está na base desses equipamentos coletivos, ou seja,
sua desigual distribuição social, a segregação social e espacial do seu
uso(8l)? Na verdade, as determinações precisas dos diferentes equipamentos coletivos por seus valores de uso - coletivos, imóveis, duráveis, indivisíveis, etc. - não são falsas em si; mas constituem apenas um dos dois aspectos - contraditórios - que não pode ser separado do outro, isto é, suas
determinações sociais, no âmbito das relações de produção capitalistas
mercantis. Se, de fato, do ponto de vista da divisão técnica do trabalho
um porto tem valor de uso "coletivo indivisível" e pode fornecer serviço:
ao conjunto das indústrias regionais e até nacionais ou mesmo multinacionais para as quais foi equipado, do ponto de vista de divisão social do
trabalho esse valor de uso tenderá a ser privatizado e fragn1yntado sob o
duplo efeito da concorrência entre agentes ou frações do capital (utilizadores) e da necessidade para o MPC de rentabilizar todos os setores da economia, integrando-os à esfera capitalista mercantil. O erro da teoria do "bem
coletivo" é o de ter suprimido a contradição valor de uso/valor, ao reduzir
os equipamentos coletivos apenas ao seu valor, isto é, apenas à sua medida
social pelo tempo de trabalho abstrato; erro correlativo seria o de só considerar o caráter indivisível e coletivo dos "bens coletivos" fazendo abstra~ão das relações sociais capitalistas que modificam seu valor de uso para
mtegrá-los na produção mercantil . Percebe-se logo a dificuldade de uma

.
. _
do capital.
Enquanto os meios de circulação material (~e~os de comumca~ao) e
social (bancos, créditos ...) são condições necessanas da reproduçao ~o
capital, os meios de consumo coletivos só intervêm no n~vel da re,p~oduçao
da força de trabalho: decerto, indiretamente - já o indicamos vanas vezes
_ a reprodução socializada, ampliada, da força de trabalho é um fator cada
vez mais decisivo da elevação da produtividade do trabalho; mas é também
verdade que, do ponto de vista do capital, as despesas de consumo são
despesas sem retomo que não permitem nem uma redução ~o tempo de
produção ( despesas de produção ou falsas despesas de produçao) nem uma
redução do tempo de circulação do capital. Nesse sentido, elas pei:m~ecem sempre para o capital despesas supérfluas que devem s~r co~p~~das
ao máximo. Além disso, seu valor de uso específico ( coletivo, mdiv1S1~el,
imóvel, durável. ..) onera sua rentabilidade capitalista, do ponto de v1Sta
dos agentes que as produzem: imobilização do ~apital, inadaptação aos

(78) E. Préteceille, op. cit., p. 96 .
(79) J. Launay, Economie et Politique, 164-165, p. 132.
(80) Ibid., p. 139. Para uma crítica global das categorias da contabilidade
nacional francesa, ver J.-C. Óelaunay, Essai marxiste sur la comptabilité nationale
Ed. Sociales, 1971, col. "Economie et Politique".
'
(81) E. Préteceille, op. cit., p. 97. "~ o mesmo procedimento (o de J. Rémy)
que também leva a censurar a intenogação sobre a distribuição social dos equipamentos coletivos."

182

'
1

critérios mercantis.
Esses dois motivos principais explicam, a nosso ver, a dissociação
fundamental efetuada pelo capitalismo entre, de um lado, as condições
gerais da produção diretamente necessárias à reprodução do capital e - o~
_ decorrentes de setores de produção rentáveis e, de outro lado, as condições gerais da produção que não são nem necessárias .à reprodução do
.
capital nem rentáveis: ou seja, os meios de consumo coletivos.
Dissociação capitalista que não acontece apenas entre u~ :ºnJunt?
dos meios de consumo coletivos e o conjunto das outras condiçoes genus
da produção, mas se insere em cada um de seus subconjuntos par~ hierarquizá-los, selecioná-los, em função do duplo critério acima m~nc1onado.
Todos os meios de consumo coletivos não terão, com efeito, o mesmo caráter "supérfluo" para o capital: as despesas com educação e, em
primeiro lugar, as referentes ao ensino técnico, ~rofissional, as despesas
com pesquisa-desenvolvimento, poderão entrar asslffi no que os esquemas
de equipamento chamam "funções de treinamento", do mesmo modo que
as auto-estradas ou as telecomunicações; ao passo que , as despesas com
saúde, os equipamentos sócio-culturais serão relegados - junto com as
estradas secundárias, os transportes coletivos ou o telefone para uso
_
,
doméstico - às "funções de acompanhamento".
Além disso, a evolução das próprias condições de sua produçao fara
183

variar seu grau de rentabilidade para o setor capitalista: trechos de auto-estradas entregues ao setor capitalista, estabelecimentos privados de ensino ou de saúde (apenas certas especialidades), áreas particulares de lazer,
etc. Mas o efeito global permanece o mesmo, ou seja, uma mutilação, um
desmantelamento constante dos valores de uso coletivo, indivisíveis do
ponto de vista das forças produtivas.

2. Os limites capitalistas oriundos da concorrência anárquica entre os
diferentes agentes que ocupam ou transformam o espaço urbano
Já pudemos notar a oposição entre a organização - relativamente
racional - da cooperação numa unidade de produção ou num conjunto de
estabelecimentos controlados pelo mesmo grupo capitalista e a "anarquia"
que se manifesta na divisão territorial do trabalho: "O acaso e o arbitrário
fazem seu jogo desordenado na distribuição dos produtores e de seus meios
de produção entre os diversos ramos do trabalho social"(82).
Na medida em que o desenvolvimento da aglomeração urbana depende estreitamente de sua articulação com um pólo de empregos, os modos
de implantação das firmas industriais e dos empregos de escritório vão
assim pesar muito no desenvolvimento das cidades. Ora, percebe-se hoje
cada vez mais que os critérios de implantação espacial das grandes firmas
capitalistas entram em contradição com as necessidades tecnológicas e
sociais de um verdadeiro planejamento territorial, isto é, de uma cooperação desenvolvida em termos de território nacional.
Uma recente sondagem(83) junto a um grupo de empresas americanas e européias, quase todas de grande porte e pertencentes aos diversos
ramos da indústria, mostrou que o fator prioritário para a escolha do lugar
de sua instalação foram as vantagens de localização conferidas pela existência de ligações fáceis com os outros países, de equipamentos e de serviços
de todo tipo (portos, aeroportos, telecomunicações) ou seja, o conjunto
das infra-estruturas urbanas - logo, o que Marx chamava de "densidade
relativa" da população.
(82) Le Capital, Ed. Sociales, liv. 1, 4.ª seção, Cap. XIV, t. II, pp. 44-45.
(83) Sondagem feita sob os auspícios da Fundação Olivetti e do Club Turanti
que organizaram uma "Mesa redonda" em 8 e 9 de novembro de 1969, em Veneza,
reunindo representantes das indústrias públicas e privadas e responsáveis políticos.

A cidade desempenha pois fundamental papel econômico no desenvolvimento do capitalismo mas, inversamente, a urb~izaç~o ~ moldada,
modelada, de acordo com as necessidades da acumulaçao cap~tal~sta.
.
A mesma pesquisa constata que as grandes firmas capitalistas continuam a preferir a Lombardia ao Mezzogiorno; em 1968, o aumento do
emprego subiu de 97,2% no Centro-Norte e apena~ de_2,~% ?ºSul.No
período de 1951-1963, os novos empregos foram assun distnbu1dos:
76% no Centro-Norte;
- 24%no Sul.
A divisão social do trabalho sob o efeito da acumulaç[o capitalista
engendra assim dois fenômenos espaciais contraditórios mas que decorrem
simultaneamente de uma busca comum pelas firmas capitalistas de uma
implantação que lhes permita fazer a economia máxima das falsas despesas
de produção.
·É, por um lado, o subdesenvolvimento crescente das regi.oes ~e~os
equipadas em infra-estruturas urbanas (meios de c~culação matena1s e
meios de consumo coletivos) e, por outro, o congestionamento urbano, a
gigantesca aglomeração de "megalópoles" onde já estão concentrad~s os
mais variados e densos meios de comunicação e de consumo coletivos.
Aglomerações no interior das quais se reproduzirá o mesmo processo de
diferenciação espacial entre as zonas mais bem equipadas que o ser~o cada
vez mais _ centros de negócios, zonas residenciais das classes domrnantes
_ e as zonas menos equipadas, cuja distância em relação às primeiras tende
sempre a crescer.

3. O papel da renda fundiária no planejamento urbano.
Preço do solo e segregação urbana
Se o crescimento anárquico das cidades, seu desenvolvimento desigual
decorrem em boa parte das estratégias de implantação das füm'.15, um
outro tipo de agente urbano desempenha um papel bastante negativo: os
proprietários fundiários. Marx reduz, em O_Capi~al, o valor de ,uso do solo
a duas funções: a de instrumento de produçao (nunas, quedas~ águ~, terreno agrícola) e de simples suporte passivo de meios de produçao .~usma}, ~e
circulação (armazém, bancos) ou de consumo (mora~as: etc.): A propna
terra age como instrumento de produção, o que nao e o caso (ou pelo

184
185

menos só se verifica em limites muito estreitos) de uma usina, onde o terreno serve apenas como fundamento, como local, como base de operações
delimitadas"( 84).
Ora, um terceiro valor de uso do solo assume, a nosso ver, crescente
importância com a socialização das condições gerais da produção: o que
chamamos sua capacidade de aglomerar, logo, de combinar socialmente
meios de produção e meios de reprodução de uma formação social.
Conseqüência da apropriação privada do solo, a fragmentação desse
valor de uso, do qual por definição o consumo só pode ser coletivo, vai
tornar-se um obstáculo, no interior do modo de produção capitalista, para
o desenvolvimento das forças produtivas sociais. Mas para entender a atual
importância da renda fundiária é indispensável precisar o que são os atuais
proprietários fundiários urbanos.
De fato, para alguns marxistas, a apropriação da renda fundiária
urbana é feita cada vez mais pela pequena e média burguesia que se aproveita da fragmentação que a grande propriedade fundiária apresenta de
duzentos anos para cá. O freio, o obstáculo, que a renda fundiária constitui
para o desenvolvimento econômico bem como para a livre circulação dos
capitais seria assim identificado com a sobrevivência de camadas sociais
pré-monopolistas ( os pequenos proprietários fundiários) cujo interesse de
classe entraria em oposição com o do desenvolvimento monopolista.
Caberia então perguntar como se explica que a instauração do capitalismo monopolista no fim do século XIX não tenha sido seguida pela
supressão desse obstáculo "arcaico" que estaria freando a acumulação
monopolista. Por que a fase atual do capitalismo monopolista - o capitalismo monopolista de Estado -, marcada pela intervenção sistemática e
generalizada do Estado em favor da acumulação monopolista, não chegou
à supressão de uma renda fundiária que só seria proveitosa para camadas
sociais decadentes? Poderia ser proposta uma explicação meramente política: a coletivização do solo ou o controle dos preços do solo pela coletividade se teriam tornado impossíveis devido à importância dessas classes
médias de pequenos proprietários - apoio necessário à hegemonia política
das frações dominantes do capitalismo.
Mas tal raciocínio, válido para um país como a França, é bem menos
plausível para países capitalistas desenvolvidos onde a dominação monopolística, apesar de se exercer sem o apoio dessa massa de pequenos proprie(84) Le Capital, Ed. Sociales, liv. III, 6.ª seção, Cap. XLVI: "Rente sur Ies
terrains à bâtir", t. III, p. 163.

186

tários, não suprimiu de forma alguma a propriedade privada do solo. Na
realidade, o capitalismo monopolista caracteriza-se, a nosso ver, não pela
oposição entre os monopólios "produtivos" e os pequenos proprietários
"passivos" que estariam especulando sobre um desenvolvimento econômico para o qual não contribuíram, mas sim pela apropriação progressiva
e contraditória da renda fundiária pelos grandes grupos monopolistas.
Lenin já assinalava essa transformação da função da renda fundiária:
"O monopólio dos bancos fusiona aqui com a renda fundiária e com o das
vias de comunicação, porque a subida do preço dos terrenos, a possibilidade de vendê-los, bem mais caro, em lotes ... dependem sobretudo da
facilidade das comunicações com o centro da cidade, e essas comunicações
estão precisamente em mãos das grandes companhias ligadas a esses mesmos bancos pelo sistema de participação e pela repartição dos postos de
direção ... "(85).
Na época de Lenin, isto é, no estágio do capitalismo monopolista
simples, a apropriação monopolística da renda fundiária urbana manifesta-se principalmente pela especulação desenfreada à qual se entregavam as
"companhias" privadas de estradas de ferro ou de bondes, ao lotear os
terrenos situados em torno dessas vias de comunicação urbana.
Convém contudo perguntar se a desvalorização do capital investido
nas ferrovias não reduz consideravelmente a possibilidade do proprietário
fundiário recuperar uma porção do sobrelucro nesse setor.
A fusão do monopólio fundiário e do monopólio financeiro suprime,
além disso, a distinção - que dá origem à renda fundiária - entre a parte
de lucro recolhida pelo proprietário fundiário e a que é coletada pelo capitalista propriamente dito.
É possível, ao contrário, formular a hipótese de reconstituição de
uma verdadeira renda fundiária através do aluguel, que se desenvolve cada
vez mais desde a última guerra, de locais comerciais para capitalistas (financistas ou comerciantes).
Uma renda considerável pode surgir, por um lado, da distinção entre
o incorporador imobiliário - proprietário fundiário - e seu inquilino capitalista e, por outro, da fraca composição orgânica do conjunto do setor
referente à circulação do capital, o que permitiria a formação de sobrelucros< 86).
(85) Lenin, L 1mpérialisme, stade suprême du capitalisme, in: Oeuvres choisies
em 3 volumes, Moscou, Editions du Progres, vol. I, p. 832.
(86) Cf. Jean Lojkine, "Y a-t-il une rente fonciere urbaine?", Espace et Sociétés, 2, 1971.

187

Ao estágio clássico do capitalismo marcado pela oposição entre o
capital industrial e a propriedade fundiária agrícola sucede pois o estágio
monopolista marcado pela fusão do capital financeiro com a renda fundiária. Fusão que, longe de suprimir a contradição entre o capital e a renda
fundiária, pode desenvolvê-la integrando-a à contradição mais geral que
opõe as tendências parasitárias, especulativas do capital à sua tendência a
aumentar a taxa de mais-valia pelo aumento de seu investimento na produção.
Fator de agravamento da tendência à baixa da taxa de lucro, a apropriação monopolística da renda fundiária urbana é também e sobretudo
um obstáculo estrutural para qualquer verdadeira planificação urbana; a
coletivização do uso do solo urbano choca-se, de fato, muito menos com a
pequena propriedade privada que o novo arsenal legislativo permite expropriar com muita "eficácia", do que com a propriedade privada monopolista, cuja supressão supõe a supressão do próprio modo de produção
capitalista.
Qualquer estudo histórico sério dos incorporadores imobiliários(87)
mostra, de fato, a passagem que se efetua progressivamente de uma renda
fundiária urbana fragmentada por uma multidão de pequenos incorporadores independentes para uma renda fundiária monopolizada pelos grandes
grupos financeiros internacionais que dominam o mercado fundiário e imobiliário( 8 8).
Terceiro limite inerente ao modo de produção capitalista, a renda
fundiária urbana vai pois marcar de forma durável o desenvolvimento urbano. Sua principal manifestação espacial reside , a nosso ver, no fenômeno
da segregação, produzido pelos mecanismos de formação dos preços do
solo, estes, por sua vez, determinados, conforme nossa hlpótese, pela nova
divisão social e espacial do trabalho.
À nova divisão monopolista do trabalho marcada principalmente
pela apropriação privativa dos meios de consumo coletivos concentrados
nos grandes centros urbanos ( telecomunicações, meios de informação e
formação de alto nível. ..), em proveito das funções de direção dos grupos
multinacionais, corresponderia, com efeito, a formação de um submercado
(87) Cf. Christian Topalov, Les promoteurs immobiliers, Mouton, 1974, col.
"Recherche urbaine".
(88) Entre a multidão de obras descrevendo esse processo, assinalamos o livro
de Eichler e Kaplan, The Community Builders (Un. California Press, 1967), que mostra o domínio crescente das grandes sociedades americanas sobre o mercado imobiliário , nos diferentes estágios da construção e da comercialização.
188

imobiliário específico fundado na produção maciça dos suportes físicos
dessa concentração dos estados-maiores (imóveis de escritórios). Através
do jogo dos preços do solo, esse submercado poderia adq~irir r~?f~amente
um papel motor, determinante, na formação dos pre~o~ un~bihanos para
conjunto do centro das grandes metrópoles e garantma assun uma segre0
gação econômica e social quase "automática" das funções e das classes
sociais que conseguem residir no centro.
_
Pode-se distinguir principalmente três tipos de segregaçao urbana:
1) Uma oposição entre o centro, onde o preço do solo é o mais alto,
e a periferia. O papel-chave dos efeitos de aglomeração explica, a nosso ver,
,
a importância dessa "renda de acordo com a localização". .
2) Uma separação crescente entre as zonas e moradias reservadas as
camadas sociais mais privilegiadas e as zonas de moradia popular.
3) Um esfacelamento generalizado das "funções u~banas" '. ~sserninadas em zonas geograficamente distintas e cada vez ma1s especializada~:
zonas de escritórios, zona industrial, zona de moradia, etc. :É o que a pohtica urbana sistematizou e racionalizou sob o nome de zoneamento.
O vínculo entre esse terceiro fenômeno e a renda fundiária reside
essencialmente - é a nossa hipótese - no mecanismo de seleção social
constituído pela diferença crescente entre os preços do solo na periferia e
os existentes no centro, cada vez mais reservado às sedes sociais das firma_s
internacionais, únicas capazes de se apropriarem dessa vantagem de locali_
zação(89).
Mas não basta justapor assim esses três tipos de segregaçao urbana; se
for aceita a nossa hipótese central segundo a qual a segregação do espaço
urbano é determinada, em última instância, pela divisão monopolista do
trabalho deve-se concluir que há uma hierarquização dessas três formas de
segregação em função de seu vínculo mais ou menos direto.com a contra'!!·
ção social, que se tornou principal, entre o uso monopolista e o uso nao

monopolista do solo.
A oposição entre estratos de consumidores - definidos pela correlação entre sua renda e seu modo de acesso aos meios de consumo coletivos
- torna-se secundária com relação à oposição principal entre, de um lado,
a fração monopolista do capital que tende a garantir para si o monopólio
(89) Cf. Gist e Fava, Urban Society: Ecology of Urban Jnstitutions, p. 221,
sobre a extensão do "Central Business District". Ver também M. Portefait, lt~de d~
/a cité financiere de Paris, Beru, 1968, e o estudo de Mme. Demo~gon ~o Atelier pansien d'Urbanisme (APUR), L1mplantation des bureaux neufs a Pans (1962-1968).

exc~sivo d~ uso dos equip~entos coletivos mais ricos em meios de reproduçao ampliada do trabalho mtelectual (equipamentos cuja raridade acarreta a co~centração espacial) e, de outro lado, o conjunto das camadas não
mo~opohstas, tanto capitalistas como assalariadas, excluídas desse uso
social.
C.o~vém notar desde já a complexidade desta hipótese: ela não rejeita
a oposiça~ real entre ~s camadas sociais não monopolistas segundo seu
acesso des~gual aos me10s de consumo coletivos, mas procura subordinar
essa estratificação urbana a uma segregação social que seria a forma atualmente determinante de relação das diferentes classes sociais com os valores
d~ uso urb~nos. Concretamente, isso equivaleria a demonstrar que não só a
faixa supenor ~as camadas médias assalariadas ( engenheiros, executivos ...)
o~ _não assalanadas (profissões liberais, grandes comerciantes ou industnais)_ ~ão é a principal beneficiada pela rejeição das camadas populares
(operanos, empregados, aposentados) para fora dos grandes centros urban~s, .mas q~e, alé~ dela, as frações_ não monopolistas do capital (pequeno e
~edio capital) sao também excluidas, pelo próprio jogo da renda fundiána, do acesso aos grandes meios de comunicação e de consumo coletivos.

III. O papel do Estado na urbanização capitalista

. A hipótese que acab~os de expor relativa ao tríplice limite _ capi~ahs~a -:- en~ravando a soc~alização do espaço urbano é uma hipótese que,
a pnmerra VIsta, pode serVIr de suporte teórico para uma análise "interna"
para uma "genealogia" da intervenção estatal na urbanização capitalista'.

1. Um instrumento de "regulação" social

Se_ for aceit~ a tese de~nvolvida em nosso primeiro capítulo segundo
a qual amte~e~çao_estatal ~ a forma mais elaborada, mais desenvolvida, da
resp~sta capitalista ~ ne.cess1dade de socialização das forças produtivas, será
possivel dar uma pnmerra definição das políticas urbanas dos Estados capi190

talistas desenvolvidos: são "contratendências" produzidas pelo próprio
MPC para regular, atenuar os efeitos negativos - no nível do funcionamento global das formações sociais - da segregação e da mutilação capitalistas dos equipamentos urbanos.
Aqui vamos só destacar as características comuns às políticas urbanas dos Estados capitalistas desenvolvidos.
A intervenção do Estado capitalista permitiu impedir a curto prazo
processos anárquicos que minam o desenvolvimento urbano. Nos três pontos de crise da urbanização capitalista: o financiamento dos equipamentos
urbanos desvalorizados, a coordenação dos diferentes agentes da urbanização e, enfim, a contradição entre o valor de uso coletivo do solo e sua fragmentação pela renda fundiária - nesses três pontos de ruptura - a intervenção do Estado permitiu resolver a curto prazo problemas insolúveis
para os agentes capitalistas individuais.
O financiamento público dos meios de comunicação e dos meios de
consumo coletivos não rentáveis possibilitou ao capitalismo enfrentar apesar da desproporção das quantias empregadas - o desenvolvimento de
todas as condições gerais da produção: tanto dos meios de consumo como
dos meios de circulação.
Segunda intervenção: a planificação urbana propriamente dita, ou
seja, a coordenação estatal da ocupação e da utilização do solo urbano,
se teve resultados bem desiguais, também resolveu dificuldades imediatas.
Assim, as leis de 1850-1860 sobre a salubridade e a higiene públicas impõem às municipalidades um certo controle das condições de higiene das
moradias operárias(90). As leis sobre a habitação social da Terceira e sobretudo da Quarta República resultaram na construção de centenas de milhares de habitações cujo conforto era incomparavelmente maior do que o das
casas de fam11ias modestas. Poderiam também ser citados os inúmeros
trabalhos de viação, de adução de água, de construções escolares, de transportes ... provenientes da política urbana adotada pelo Conseil général de
la Seine entre as duas guerras mundiais(91).
A intervenção financeira, coercitiva(9 2), do Estado permite suprimir
as taras mais aparentes da concorrência capitalista e da renda fundiária.
Terceira intervenção, enfim, as tentativas de coletivização do solo, se
(90) R. H. Guerrand, Les origines du logement social en France, Editions
Ouvrieres, 1966.
(91) A. Cottereau, "Les débuts de la planification urbaine dans l'aggloméra·
tion parisienne", Soe. du travai/, 4/1970.
(92) Aludimos ao efeito dos regulamentos de urbanismo, variável, é verdade,
191

n~o- chegaram a suprimir mecanismos se e .
nu tiram - graças a reservas fundi, . gr ga~':'os. da renda fundiária, perEscandinávia) ou a diversas 1'"orm adnas mu~c1pa1s (Alemanha, Holanda
~ .
as e taxaçao d
·
,
'
o exito de experiências urbanísticas li ·t d as mais-valias fundiárias escandinavas(9 3).
nu ª as, como as cidades novas
No entanto, essa primeira abord
agem ~a_rece totalmente de dimensão
histórica: as formas e os cont , d
idênticos, se provêm do est/~o os das po~1t1cas urbanas não são de fato
capitalismo.
gi monopohsta ou do estágio clássico do
, .
.
. ~sim, como já indicamos, o fmanci
hab1taçao - próprio ao CME
_
amento publico dommante da
ao fm
·
des empresas monopolistas - fiopoe-se
.
anc1amento direto pelas grau.
- manc1amento c
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monopolista simples· també
arac enst1co do capitalismo
'
m o papel atual a
·d
no financiamento do setor imobil", . l
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entre financiamento da ac u1 1_ar10, onge de questionar a separação
.
um açao monop li t
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me10s de consumo coletivos s , e
fl .
o s a e manciamento dos
.
, o iaz re etu a am li - d
çao capitalista - onde a m
· terv - d
.
p açao a esfera de produençao o capital , bl"
nante, mesmo se for mais indiret
pu tco permanece determiA
a.
. autonomização e a nova mobilidade
. .
determmar formas bem mai fl , .
. dos capitais monopolistas vão
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ex1ve1s
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. ,
planifiicações e programaço-es u b
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nçao JUndica do Estado·
.
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e1~ ' a aptadas" às exigêndo solo ( concessões e preempçõ~:p1 ú bl:onopolista, soci~izações seletivas
pequena propriedade não mo
pli
as ...) que permitem expropriar a
.
nopo sta em be f' .
nos monopolistas.
ne 1c10 exclusivo dos usuá-

2· Uma intervenção contraditória
sobre a socializa - da e
çao s iorças produtivas

No entanto, uma tal aborda em é .
.
.
que n~o revela o caráter contrad}ório d:ida l~~uficiente na medida em
Reduzu a intervenção estatal a
.
pohticas urbanas capitalistas.
um simples mecanismo "de adaptação"
segundo os países: mais eficaz na Ho
,
ça, por exemplo.
landa e nos pa1ses escandinavos do que F
(9J) p
.
.
na ran. Merlm, Les vzlles nouvel/es, Paris, PUF, 1969.

192

funcional da estrutura capitalista às contradições sociais que ela engendra
é esquecer o caráter contraditório, no âmbito do MPC , do desenvolvimento
do conjunto das condições gerais da produção: à necessidade de desenvolver a socialização das forças produtivas materiais e humanas responde a
necessidade oposta, que o capitalismo tem, de subordinar o crescimento
econômico unicamente à valorização do capital. A socialização estatal da
reprodução da força de trabalho, bem como da reprodução dos meios de
comunicação e de aglomeração espacial, conservará pois todas as taras da
relação social capitalista. Longe de suprimir a contradição entre meios de
reprodução do capital e meios de reprodução da força de trabalho, a política urbana vai exacerbá-la, tornando-se um instrumento de seleção e de
dissociação sistemática dos diferentes tipos de equipamento urbano, de
acordo com seu grau de rentabilidade e de utilidade imediata para o capital. Contradição reforçada no estágio monopolista pelo fracionamento da
classe capitalista e refletida no nível estatal pela constituição do que chamamos uma política "monopolista", ou seja, a instauração de instrumentos jurídicos, ideológicos e financeiros a serviço exclusivo da fração monopolista do capital.
Agente principal da distribuição social e espacial dos equipamentos
urbanos para as diferentes classes e frações de classe, o Estado monopolista
vai portanto refletir ativamente as contradições e as lutas de classe geradas
pela segregação social dos valores de uso urbanos. Longe de unificar o aparelho de Estado, a subordinação de sua política à fração monopolista do
capital vai, pelo contrário, agravar as fissuras, as contradições entre segmentos estatais, suportes de funções sociais contraditórias. Desse modo,
certos aparelhos de Estado locais, suportes privilegiados do financiamento
público da reprodução coletiva da força de trabalho (coletividades locais),
vão ver seus interesses específicos opor-se aos dos aparelhos de Estado
centrais (DATAR, Ministério da Indústria) ou locais (portos autônomos,
postos locais da DATAR ou do Ministério do Equipamento, administradores regionais, etc.); estes últimos estão subordinados ao financiamento
direto das condições gerais da produção ou da circulação dos grupos monopolistas. Pode-se, desde já, emitir a hipótese de uma grande variedade de
tipos de contradição que podem surgir no aparelho de Estado:
- Contradições secundárias e antagônicas entre segmentos centrais
ou locais do aparelho de Estado, quando os aparelhos locais aceitam, finalmente, subordinar-se aos interesses dos grupos monopolistas, seja encarregando-se de uma parte dos equipamentos que lhes são destinados, seja
193

fm~ciando os meios de consumo coletivos regionais ou nacionais dos
qu~s ~ Estado central q~er se desincumbir para concentrar as quantias
assun liberadas ~o financiamento privilegiado da acumulação capitalista.
- Co~tradições antagônicas (secundárias) entre certos aparelhos de
Estado locais que representam fielmente as classes dominadas vítimas da
segrega?ªº
- ur bana, e os segmentos estatais que representam os
' interesses
do capital monopolista; a recusa de sacrificar uma política centrada na
re~r?duç!o ampliada da força de trabalho dos operários e das camadas
medias na~ monopolistas pode assim levar certas municipalidades ou conselhos gerais a opor-se politicamente ao poder de Estado monopolista local
ou central.
Oposição política que procede mais do aparelho representativo do
E~tado - a cena política refletindo as lutas de classe ou as lutas entre fraçoe~ ~e u~a mesma classe, sobretudo as lutas entre capital monopolista e
capitais_ nao monopolistas - do que do aparellio de financiamento público,
na medida em que o aparellio de coerção jurídico e financeiro reduz hoje a
quase nada a margem de manobra fmanceira das coletividades locais.
Essa é ~penas uma. il:1st~ação grosseira das diferentes formas que
pode~ assu~ as c~ntradiçoes mterestatais; caberá aos capítulos seguintes
exarnmá-la~ sistematicamente corúrontando nossa hipótese com a realidade
contemporanea.
Resta expor o aspecto talvez mais paradoxal - e mais difícil de
dei_nonstr": - de nossa análise das políticas urbanas, ou seja,
unidade:
uru~de nao apenas no nível de seu efeito social (a segregação social dos
equipamentos urbanos), mas também no nível da função social do conjunto do aparellio d: ~stad?. Unidade contraditória decerto - que nada tem a
ver com o monolitismo Já que implica, ao contrário, múltiplas contradições
entre segmentos estatais - mas unidade do que se deve no entanto considerar como o Estado na medida em que, além das contradições e das fissuras
a~ontadas, º. conjunto da máquina administrativa "produz" uma distribuiçao segregativa dos equipamentos urbanos, conforme procedam eles da
reprod~ção do traballio vivo ou da reprodução do trabalho cristalizado.
Quer ~er então que ~ .º funcionalismo que tem a última palavra, as "agitações ~a cena pohtica servindo apenas para dissimular a inexorável
reproduçao da segregação urbana? De modo algum, a nosso ver, na medida
em ~e - de acordo com nossa hipótese - se a resultante política unifica a
f~n~ao e a estrutura do Estado capitalista, nem por isso suprime as contradiçoes. Longe de suprimir as contradições que estão na base de sua inter-

sua

venção, a política urbana só as exacerba: a socialização estatal das condições gerais da produção permanece, com efeito, uma socialização capitalista
e, nesse sentido, concorre apenas para levar ao auge a contradição entre a
reprodução da força de trabalho e a reprodução do capital e, hoje mais
ainda, a contradição entre a reprodução do conjunto das camadas não
monopolistas e a do capital monopolista.
É o que nos falta demonstrar. Antes, porém, de passar à análise concreta das políticas urbanas capitalistas, gostaríamos de antecipar uma
crítica que surgiria forçosamente diante de uma falta flagrante no corpo
de hipóteses que acaba de ser exposto. Enquanto no primeiro capítulo, de
fato tínhamos cuidadosamente mostrado nossas distâncias em relação à
análise estruturalista, insistindo na necessidade de incluir o papel específico dos atores políticos individuais no campo de análise da política estatal, é preciso agora constatar que já não se trata mais disso neste segundo
capítulo nem nos capítulos seguintes.
Estamos perfeitamente conscientes do fato mas cremos que este
"estreitamento" de nossa problemática pode ser justificado sob duas condições:
- Por um lado, afirmando claramente que toda sociologia política
científica tem que chegar à análise dos atores históricos, coletivos e individuais.
- Por outro lado, atribuindo um objetivo bem mais limitado a este
estudo; vamos simplesmente procurar desvendar as formas principais, as
leis de desenvolvimento das políticas urbanas capitalistas, no atual estágio
do capitalismo; nesta medida, os atores políticos individuais só aparecerão
enquanto "personificação de categorias econômicas" ou sociais, os "suportes de interesses e de relações de classe determinados" para parafrasear um
célebre texto de Marx(94). Mas pedimos ao leitor que não confunda esta
restrição metodológica com uma definição exaustiva que reduziria o ator
político a suporte passivo de uma função econômica ou social. Já nos
estendemos bastante sobre esse ponto. Não nos parece pois contraditório
conceber um prolongamento, um desenvolvimento de nossas pesquisas que
chegaria forçosamente à análise do peso específiéo deste ou daquele ator
político na elaboração das políticas urbanas.
Se no entanto não nos pareceu necessário, nesta primeira etapa,
(94) K. Marx, Le Capital, Ed. Sociales, liv. l, Prefácio à 1.ª edição alemã, t. l,
p. 20.

195
194

abordar ~s~e campo de análise, é que, para nós, ao contrário das aparências,
ao :~ntrano da ~o:ça das ilusões sobre "a autonomia" de ação dos atores
pohticos, as pohticas urbanas capitalistas, em particular na França, não
parecem ser profundamente determinadas por ações individuais. E verdade
que os mitos têm vida longa - mitos que confundem a política urbana
f~an:esa dos anos 60 com a ação de Paul Delouvriler, delegado geral do
distnto da região parisiense, ou até com a do general de Gaulle. Contamos
com as páginas que seguem para demonstrar, sem deixar dúvida, que a real
produção da_ política urbana tem causas bem outras ou, antes, que a ação
das personalidades políticas acima citadas está long1~ de ter sido determinante.

Capítulo III

Política urbana
e planificação urbana
1. Análise crítica das definições de política urbana

O quanto concordamos com a crítica muito complexa e arguta que Manuel
Castells fez às análises funcionalistas da "política urbana"(l) é o quanto
discordamos da definição que ele propõe tanto do conteúdo como da função sociológica dessa política.

A POLITICA URBANA PODE SER IDENTIFICADA
COM A PLANIFICAÇÃO URBANA?

Manuel Castells define de fato a "política urbana" pela combinação
de "dois campos analíticos indissoluvelmente ligados na realidade social: a
planificação urbana sob diferentes formas e os movimentos sociais urbanos"(2). Deixaremos provisoriamente de lado a segunda parte de sua definição que tende - o que é legítimo - a não separar "intervenção dos aparelhos de Estado" e "luta de classes"(2). Não podemos, porém, aceitar a
redução da "intervenção dos aparelhos de Estado sobre a organização do
espaço" apenas à "planificação urbana". Decerto, em suas pesquisas concretas sobre a planificação urbana, M. Castells tem o cuidado de precisar
(1) La question urbaine, Paris, Maspero, 1973, pp. 308-324.
(2) Op. cit., p. 327.

196

que "não se deve identificar planificação urbana com planos de urbanismo"; estes são, antes de tudo, "textos ideológicos, o que não diminui em
nada sua eficácia social, porém caracteriza a intervenção do político como
referente não ao sistema urbano mas sim à instância ideológica... Nossa
escolha, quanto ao terreno da pesquisa, recai mais em operações efetivamente realizadas ou em curso de execução, na medida em que seu efeito é
assim mesmo mais direto do que no caso dos 'esquemas diretores' ou dos
'livros brancos"'(3).
Mas este questionamento da definição teórica inicial (política urbana
= planificação urbana) não contribui, a nosso ver, para esclarecer a posição
de Castells. Este "ajuste do enfoque" se realiza no nível da "operacionalização" do conceito, como se a variação assim introduzida (planificação-operações reais de urbanismo) já estivesse contida, implicada pela definição teórica prévia de planificação urbana. Ora, não pode ser isso, na medida
em que o urbanismo que se pode observar nos países capitalistas desenvolvidos aparece como constante distorção entre planos e práticas. Se, como
pensa Castells, os planos de urbanismo "constituem a maior massa de intervenção" ( do aparelho de Estado sobre a organização do espaço) pode-se
então perguntar como a "política" urbana poderá "realizar os interesses
objetivos" da classe dominante, já que ela é só ideologia e não intervenção
econômica, e em que sentido as "operações de urbanismo" decorrem da
definição de "uma" política coerente.
Mas não será esta nossa objeção por demais purista, visto que o autor
soube precisar que o esquema teórico proposto "foi desenvolvido, remanejado, precisado, paralelamente à pesquisa concreta e está por isso adiante
dela na medida em que procuramos principalmente, por enquanto, estabelecer instrumentos de trabalho em vez de nos confinarmos na alternativa
da descrição cega ou do fechamento prematuro de um modelo teórico"(4)?
A nosso ver, um certo fechamento - imprudente - já se deu quando o
autor restringiu "política" a "planificação": os estudos de casos vão ter
uma certa ambigüidade na medida em que sua interpretação não está
adiantada mas sim "atrasada" com referência à análise imediata dos fatos.
Assim, no estudo concreto - sem dúvida o mais rico - "La reconquête de Paris", o autor assinala muito bem o duplo efeito, espacial e
sociológico, das operações de renovação iniciadas pelo poder político central e municipal, ou seja: a acentuação da "segregação residencial, amplian(3) Op. cit., p. 344.
(4) Op. cit., p. 345.

198

do a ocupação de Paris-cidade pelos estratos superiores e repelindo as
camadas populares para o subúrbio subequipado"(5); "mais importante
ainda é o papel da renovação no nível da reprodução ampliada da especialização do espaço produtivo ... o crescimento constante da implantação
de escritórios em Paris, transformada em gigantesco centro terciário, se
antes de tudo é a expressão da divisão do trabalho e da constituição das
grandes organizações do capital monopolista, encontra assim considerável
reforço na ação dos organismos renovadores"(6).
Porém, a interpretação minimiza ao extremo esse aspecto fundamental da política urbana ao argumentar que "a renovação não acrescenta nada
de novo" à "tendência espontânea" do sistema urbano da região parisiense:
a intervenção da "instância política" na "instância econômica" parece-lhe
portanto secundária se comparada à sua intervenção na "instância ideológica": "Aos projetos de renovação caracterizados principalmente pelos
valores capitalistas avançados, o Estado juntaria sua vontade de marcar o
centro de Paris, por meio do planejamento das Halles e apresentando,
como expressão final, o centro de negócios de La Défense, oferecido pelo
aparelho de Estado aos monopólios do ano 2000"(7).
Sublinhamos de propósito as expressões que sugerem a existência de
uma "vontade" estatal, sujeito histórico encarnado aqui pelo "programme
Reconquêt~ urbaine de Paris" (programa de reconquista urbana de Paris)
da cidade de Paris. Encontra-se essa tendência no estudo coletivo(8) de
onde foi extraída a análise já citada de Castells, quando os autores perguntam: "Por que o elemento 'gestão' intervém no sistema, já que, de qualquer
jeito, as tendências se teriam exprimido e que ele não resolve nenhum dos
grandes problemas parisienses?"(9).
Pergunta que supõe inicialmente um postulado: "o político" é "gestão", isto é, regulação-neutralização das contradições de uma formação
social assimilada a um sistema que se reproduz indefinidamente. Neste
sentido há, implícita, uma grande aproximação do modelo funcionalista
e, principalmente, da noção de disfunção.
"O elemento G só intervém se o sistema urbano não se reproduzir
(5) Op. cit., p.
(6) Op. cit., p.
(7) Op. cit., p.

389.
39Ci.
392.

(8) F. Godard, M. Castells, M. Delayre, C. Dessane, C. O'Callaghan, La rénovation urbaine à Paris. Structure urbaine et logique de classe, Paris, Mouton, 1973,
p. 104.
(9) Op. cit., p. 104.

199

sozinho, portanto se defasagens e crises vierem entravar o processo de
reprodução"(! O). O Estado na política urbana aparece ao mesmo tempo
como uma válvula de segurança e como uma entidade subjetiva, consciente, materializada pela "instância planificadora": "A intervenção das instâncias planift,cadoras manifesta-se seja por uma mudança da relação entre os
elementos, seja pela modificação da organização interna de um elemento ... "01).
Resultado: a renovação urbana de Paris permitiu essencialmente "a
reorganização da simbólica parisiense". Ora, essa é a única fecundidade
científica que os autores encontram na noção de aparelhos ideológicos de
Estado defendida por AlthusserO 2). Para nós, é a prova, entre outras, de
sua esterilidade científica pois a intervenção estatal é bem diferente desse
"suplemento ideológico" das "tendências espontâneas".
A real riqueza da pesquisa sobre "a renovação urbana de Paris" desmente aliás, para nós, a fraqueza teórica da noção de AIE e, em geral, do
apelo ao neopositivismo estruturalista.
Assim F. Godard assinala, mas sem questionar o corpo de hipóteses
de Castells que no entanto ele contradiz neste ponto: "A renovação, longe
de responder à 'crise' que marca Paris, vai reproduzir essa crise ampliando-a.
Em vez de resolver os problemas que enfrenta a capital - transportes, reestruturação espacial das atividades econômicas, recuperação dos equipamentos coletivos - a renovação faz surgir novas contradições"( 13).
O espanto - teórico - e a pergunta que segue ("Por que o elemento
G intervém no sistema") provam a completa distorção entre a análise dos
fatos e a hipótese teórica prévia.
Em pesquisa ainda mais recente, realizada em conjunto por F. Godard
e M. Castells sobre o litoral de Dunquerque0 4), o Capítulo V intitulado
"Politique urbaine" retoma, no início, as hipóteses de M. Castells que
evocamos; sem voltar à redução do urbano à reprodução da força de trabalho05), a política urbana é identificada à planificação urbana06) como
modo de intervenção estatal no sistema urbano. É verdade que por "plani(10) Op. cit., p. 103.
(11) Op. cit., p. 103.
(12) Cf. LaPensée, n. 0 151,junho de 1970.
(13) Op. cit., p. 104.
(14) Monopolville: l'entreprise, l'Etat, l'urbain. Analyse des rapports entre
l'entreprise, l'Etat et l'urbain, à partir d'une enquête sur la croissance industrielle et
urbaine de la région de Dunkerque, Paris, Mouton, 1974.
(15) Ver Cap.11.
200

ficação" os autores não entendem o "meio de uma impossível racionalidade a-histórica", mas sim a expressão dos interesses globais do bloco das
classes dominantes0 6); entretanto, as diferentes "lógicas do aparelho de
Estado": dominação, regulação, repressão e integração-reforma(l 7) remetem a uma perspectiva ao mesmo tempo funcionalista e voluntaristaO 8).
Mas principalmente a dupla redução da política urbana à "planificação" e à "regulação" leva os autores, apesar da imensa riqueza de material
empírico coletado, a concederem um lugaz ínfimo ao conjunto dos mecanismos jurídicos e financeiros pelos quais o aparelho de Estado e as coletividades locais intervieram na organização do espaço econômico de Dunquerque.
O capítulo "Politique urbaine", muito rico quanto à análise da Cena
política local e da relação entre classes sociais e instituições locais, é porém
pouco explícito quanto ao conteúdo dos diferentes investimentos públicos
referentes ao planejamento dos meios de produção, de comunicação e dos
meios de reprodução da força de trabalhoO 9). Uma análise financeira das
opções da comunidade urbana, das verbas do orçamento e dos fundos
especiais (FDES, etc.) não teria ajudado a dissociar política urbana . .. e
estudo dos documentos de urbanismo, que assume lugar considerável na
pesquisa?
Infelizmente é só por alusão ... e quase "por acaso" que ficamos
sabendo que há uma profunda oposição entre o ritmo de realização dos
equipamentos de Usinor-Dunkerque e o ritmo de construção das habitações e equipamentos de seus empregados; ou entre a localização dos transportes rodoviários de mercadorias e a das vias de atendimento urbano e
interurbano, etc.
Para nós a chave da análise científica de uma política urbana está
numa interpretação completamente diferente do Estado e "da" política,
no modo de produção capitalista, e mais especialmente no atual estágio
monopolista.
(16) Op. cit., p. 293.
(17) Op. cit., p. 345.
(18) Destacaremos só a título de ilustração o uso de uma "linguagem" voluntarista; assim, para explicar o papel da política do transporte de mão-de-obra, os autores declaram: "Isso também explica por que o sistema de planificação prefere deslocar
a contradição para outro lugar" (op. cit., p. 370). Mas o essencial está na própria análise do real.
(19) Das 500 páginas dessa obra, 21 são de fato dedicadas às "principais intervenções públicas sobre as contradições urbanas em Dunquerque", op. cit., pp. 364-384.
201

O corpo de hipóteses que usamos em nossas pesquisas pode ser articulado em torno de dois eixos:

um "projeto" - materializado por um plano e realizado por um conjunto
de práticas estatais coercitivas.

de um lado, o conteúdo da política urbana;
de outro, sua função sociológica, ou seja, seu efeito real sobre a
situação urbana das diferentes classes sociais.

A unidade e a coerência - supostas - residem, para nós, nos efeitos
do par plano/operações de urbanismo sobre o conjunto da organização
social do espaço. Conjunto cuja unidade espacial, geográfica, está contida
não só no espaço de reprodução da força de trabalho ( o lugar ou os lugares
de reprodução das forças de trabalho de determinada região econômica)
mas também na unidade da aglomeração espacial dos meios de produção,
de troca e dos meios de reprodução da força de trabalho. Como vimos no
segundo capítulo, o quadro empírico pode muito bem ser regional e ultrapassar a mera aglomeração urbana, ou até multi-regional quando se tratar
de meios de reprodução do capital ou da força de trabalho referentes ao
conjunto do território nacional, e até mesmo um grupo de Estados (as
políticas regionais dos países da CEE, por exemplo).

2. As três dimensões da política urbana

Não negamos em absoluto o efeito ideológico e jurídico sobre os
agentes sociais (que concorrem para a urbanização) que têm os documentos de urbanismo e, mais amplamente, o conjunto das opções espaciais regulamentos de ocupação do solo - reagrupados sob o nome de "planificação urbana". Mas, como aliás é notado por F. Godard e M. Castells no
último livro citado, é a partir das intervenções públicas reais sobre as contradições urbanas. . . que se pode "perceber o sentido dos diferentes
documentos de urbanismo"(20) .
Mas, para nós, o "produto" que é a política urbana - produto de
contradições urbanas, de relações entre diversas forças sociais opostas
quanto ao modo de ocupação ou de produção do espaço urbano - não
pode ser reduzido à "planificação urbana". Ele se compõe de três dimensões:

1. Uma dimensão "planificadora" (voltaremos para dizer em que
sentido usamos esse qualificativo).
2. Uma dimensão "operacional", que é o conjunto das práticas reais
pelas quais o Estado central e os aparelhos estatais locais intervêm financeira e juridicamente na organização do espaço urbano .
3. Uma dimensão propriamente urbanística que condensa, materializa e mede, por isso mesmo, os efeitos sociais - no espaço - do par planificação urbana/operações de urbanismo.
A hipótese que formulamos de uma política urbana coerente não
remete portanto nem à suposta existência de uma "vontade" (que seria o
poder de Estado ou um indivíduo particular) ou de uma decisão, nem à de

(20) Op. cit., p. 366.

202

Mas o essencial neste capítulo consiste em insistir quanto à ausência
total de relação direta entre o que colocamos como "uma política" e os
critérios decisórios ou ideológicos.
Pode de fato acontecer que os agentes do poder de Estado não
tenham nenhuma consciência da política urbana real que eles ajudam a pôr
em funcionamento , embora a inconsciência e a ausência de domínio dos
processos de urbanização postos em funcionamento decorram, a nosso ver,
não de uma necessidade inelutável mas sim de um tipo de sociedade
histórica e geograficamente determinada, limitada.
Vamos agora retomar e desenvolver a análise destas três dimensões
da política urbana que propomos a título de hipótese.

PLANIFICAÇÃO URBANA E OPERAÇÕES DE URBANISMO

t

Pode parecer estranho que tenhamos conservado a primeira dimensão: segundo nossa lógica, não deveríamos suprimir tudo o que a nossa
terceira dimensão não mede por um efeito real sobre a organização do
espaço urbano? Ora, que eficácia atribuir a documentos cuja coerência espacial - é completamente oposta à fragmentação das operações de urbanismo realmente efetuadas, quer se trate de conjuntos habitações-equipamentos-empregos ou das redes de comunicação? O estudo que fizemos

203

sobre Lapolitiqueurbainedans la région parisienne de 1945 à nos jours(21)
parece de fato trazer muitos argumentos nesse sentido.
Por que relacionar com a política urbana documentos natimortos
como o PADOG de 1960 ou símbolos de derrogação como o Esquema
diretor de planejamento e de urbanismo da região parisiense - SDAURP de 1965? Como explicava o promotor deste último documento, na época
delegado geral do distrito da região de Paris - Paul Delouvrier -, o .....
SDAURP, e em particular o seu plano de transporte, só teria sentido urbanístico se fosse realizado num curto lapso de tempo e de forma global :
"Para os equipamentos de base que são a rede rodoviária primária e
a rede de transportes coletivos, o projeto de conjunto pode e deve ser estabelecido quanto ao essencial, de uma só vez e, depois, o programa deve ser
executado sem interrupção. É muito importante que tal estrutura circulatória possa ser realizada num período de tempo limitado: de fato , seus
diversos elementos determinam-se uns aos outros e, além disso, o projeto
de conjunto é fator decisivo da evolução da aglomeração. Por motivos que
decorrem tanto do atraso acumulado quanto da própria natureza das grandes aglomerações, trata-se de um domínio no qual a evolução só se pode
efetuar por meio de um salto brutal"(22).
Ora, como se sabe, a rede de comunicação, cujo programa de financiamento duodecenal de 1964 previa a conclusão para 1975, só foi realizada
muito parcialmente; assim, o único eixo oeste-leste (Saint-Germain-en-Laye · Boissy · Saint-Léger) da rede expressa regional ainda não está terminado no seu trecho central Auber-Nation(*) , enquanto as linhas Norte
para o Bourget, Valmondois e a cidade nova de Cergy-Pontoise não estão
programadas nem no VI nem no VII Plano. A mesma observação é válida
para o programa rodoviário e em especial para a famosa e interminável via
alternativa(**) A86 de ligação entre os subúrbios. Quer dizer que o único
modo de se entender o Plano de Urbanismo é como valorização de uma
ideologia destinada a esconder a incapacidade do poder de Estado para
realmente "planificar" a urbanização? Decerto, uma análise do conteúdo
pode mostrar a coerência de um discurso destinado a encobrir e deformar
a realidade, em especial através do mito da "necessária terciarização e
(21) Paris-Haia, Mouton, 1973, col. "Recherches urbaines", n.o 1.

(22) Avant-projet de programme duodécennal pour la région de Paris, 1963,
p. 116.
(*) Atualmente já concluído (N. da T.).
(**) No original rocade; via de comunicação paralela a uma outra, usada como
desvio (N. da T.).

204

desindustrialização dos centros". Mas a função social de um plano como
o SDAURP não nos parece meramente ideológica: seria inexplicável, então,
o emprego de procedimentos autoritários, o dispositivo do segredo, a
recusa de consultar as coletividades locais - antes de sua redação - se esse
documento fosse apenas um discurso sem nenhum efeito sobre o real.
Ora, pudemos constatar que alguns temas fundamentais referentes à
organização social do espaço parisiense concordavam perfeitamente com o
efeito urbanz'stico regional do conjunto das medidas jurz'dicas e financeiras
adotadas em matéria de planejamento urbano.
Três invariantes destacavam-se da confrontação planificação/operações/efeitos no nível regional; tratava-se:
da "terciarização da região parisiense", com seu par - a desindustrialização(23);
da segregação das atividades e dos locais de residência;
da subordinação dos meios de transporte a esta lógica segregativa.

1

É claro que há uma grande distância entre "a ideologia" terciária,
amplamente veiculada no SDAURP, e a análise científica da nova divisão
social e espacial do trabalho nos novos grupos industriais e financeiros
dominantes: os monopólios. Mas não se pode esquecer que o SDAURP
foi e é um instrumento de coerção real, eficaz, não contra esses grupos, é
claro, mas sim contra toda tentativa (municipal, por exemplo) de contrariar uma "desindustrialização" e uma "concentração terciária" desejadas e
até, como veremos, muito encorajadas pelos segmentos do aparelho de
Estado responsáveis pelas práticas de coerção urbanística (a política dos
acordos da comissão de descentralização e da DATAR, sobretudo).
Nesse sentido, a eficácia própria do Plano de Urbanismo deve ser
articulada à das produções e práticas jurídicas que constituem, de certa
forma, o ponto de junção político entre a globalidade e coerência espacial
do plano e a fragmentação das operações feitas de uma em uma.
Manuel Castells via no "programa de reconquista urbana de Paris"
"uma das raras iniciativas de envergadura da planificação urbana para a
cidade de Paris" e pensava poder daí deduzir "ao mesmo tempo, o conteúdo social da política urbana francesa e a significação de Paris, com referência aos diferentes desafios econômicos, políticos, ideológicos"(24) .
Em outros termos, se compreendemos corretamente sua interpreta-

(23) Para uma crítica dessas duas noções ideológicas, cf. Cap. 11, seção 1.
(24) La question urbaine, op. cit., p. 378.
205

T
ção, ele achava possível estabelecer diretamente a unidade e a coerência de
uma política urbana confundindo planificação com operações de urbanismo. Ora, como é mostrado aliás na pesquisa citada sobre La rénovation
urbaine à Paris, a unidade e a coerência procedem não de uma "vontade
política", de uma "decisão" - mesmo que haja um "discurso" de chefe de
Estado sublinhando a importância atribuída a tal operação - mas sim da
mudança global do uso do espaço sujeito à renovação. M. Castells deixa de
lado nessa obra a análise do processo institucional e financeiro da renovação(25); ora, tal análise aponta justamente a extrema diversidade dos agentes da renovação: organismos públicos a 100% ( cidade de Paris, OPHLMVP),
sociedades de economia mista com múltiplas finalidades (OCIL, SCIC,
FFF, GFF), sociedades de economia mista da cidade de Paris (RIVP, SAGI,
SEPIMO, La Hénin, SPEI), controladas por bancos d'affaires(*)(26). É
pois difícil ligar a uma "tomada de decisão" governamental o conteúdo
real de operações que, como uma das mais importantes - a operação
"Italie" no XIII arrondissement(**) - são confiadas a incorporadores privados e prefiguram o que se chama hoje as ZAC (Zones d' Aménagement
Concertées - Zonas de Planejamento Conjugadas). Que relação direta,
aliás, existe entre a coerência dos 1 SOOha do "programa" de renovação
"previsto" pela cidade de Paris e os 381,6 ha renovados ou em curso de
renovação através de 31 operações desprovidas de qualquer homogeneidade, dispersas no tempo, procedentes de montagens financeiras e jurídicas
profundamente diferentes?
Mesmo no nível de cada operação, há uma grande defasagem entre a
coordenação dos equipamentos "programados" (viação, escola, áreas verdes) e o forte atraso que têm essas realizações com referência ao ritmo de
adiantamento da operação(27). Mesmo no nível da mudança de uso do
solo, à unidade de um único detentor do perímetro de renovação opõe-se o
(25) lbid., p. 383, n. 63 ..
(*) Bancos cujas transações caxacterizam-se por empréstimos de grandes somas
a longo prazo (N. da T.).
(26) La rénovation urbaine à Paris, op. cit., p. 76.
(**) A"ondissement, divisão administrativa da cidade. Paris tem 20 ª"ºn·
dissements (N. da T.).

(27) "Paralelamente à rápida extensão das áreas comerciais em Paris, nota-se
um atraso inquietante na realização dos projetos de vias alternativas ligando os pólos
de escritórios: não estão no programa do VI Plano, assim como também não estão o
RER para Choisy, o eixo norte-sul, a ligação XV-XVI ª"ondissement ... (operações
de reestruturação) avançam enquanto a data de realização das obras de viação interna
como a radial Vercingétorix para 'Plaisance-Vandamme', o eixo norte-sul para ltalie, a

206

processo descontínuo de aquisição dos solos: "A configuração da operação
é estritamente determinada pela prévia ocupação dos terrenos, e depois as
maquetes vêm organizar o conjunto ... parece que a lógica de implantação
dos incorporadores ( ocupação dos terrenos livres) passa na frente da lógica
técnico-estatal de planejamento da avenida de Italie. Mas o desenrolar da
operação vai também seguir uma outra lógica: foram escolhidos os quarteirões mais fáceis, onde os proprietários estão de acordo ... os pontos difíceis, com forte densidade de população, não foram tocados e nesses locais
já se organiza a defesa através de comissões de inquilinos que querem fazer
respeitar a lei. .."(28). Os incorporadores podem então "ceder a vez" para
a cidade sobre esses terrenos difíceis e "a Administração que concede derrogações de COS não deve então nesse caso terminar a operação com ambições mais modestas"(28)?
Percebe-se toda a dificuldade do problema: mesmo os programas das
operações, votados pelo Conselho de Paris, não constituem, nem de longe,
as práticas reais tanto dos incorporadores como dos planejadores, e principalmente das administrações responsáveis pelos "projetos" de meios de
comunicação e de equipamentos coletivos. Nesse sentido, os quadros dos
efeitos de reestruturação social das operações de renovação elaborados
pelos autores têm ainda o defeito, apesar do admirável esforço para medir
cientificamente a mudança do uso social, de confundir programa com
operações reais. Aliás, eles não levam em conta inúmeras operações "isoladas" de reestruturação do tecido da capital que não estão compreendidas
no programa oficial de "renovação" da cidade de Paris mas que permanecem sujeitas às práticas jurídicas do alvará de construção e da aprovação, e
também fazem parte da "política" urbana. Ora, são as operações mais
importantes quanto ao efeito global do uso do solo parisiense, como veremos adiante.
Numa outra ordem de idéias, operações aparentemente não "urbanísticas" têm no entanto um impacto essencial na organização urbana
como, por exemplo, o eixo oeste-leste da rede expressa regional, a construção de auto-estradas de ligação partindo de Paris ... ou a criação do aeroporto de Roissy-en-France.
Será necessário agora propor um esquema de análise que indique
rotatória para Mariniers... não foi marcada" (La rénovation urbame à Paris, op. cit.,
pp. 58-59).
(28) Op. cit., p. 97.

207

Percebe-se portanto que se o primeiro indicador parece opor planificação espacial intemporal e compromisso financeiro real do Estado, o mesmo não acontece com os três outros critérios; porém, se a programação
urbana (critério 2) e até a programação financeira (lei dos planos qüinqüenais) podem ser distinguidas do compromisso financeiro real, parece haver
uma fronteira mínima entre o último critério e o domínio do real. O fio
condutor que nos leva de 1 a 4 e faz passar, num salto qualitativo, para o
domínio das práticas financeiras, parece consistir:

com clareza as três dimensões da política de planejamento de uma região
urbana e permita evitar as confusões e os erros teóricos que acabamos de
apontar.

A PLANIFICAÇÃO URBANA: CONCEITO E INDICADORES EMPJ.'RICOS

À primeira vista parece muito simples distinguir o que decorre da
previsão, da declaração de intenções, e o que decorre das práticas sociais
reais dos agentes estatais: entre um esquema diretor e a concessão de verbas públicas para uma operação de renovação ou para a construção de uma
auto-estrada não há uma solução de continuidade que insistimos em sublinhar? Olhando de perto, os critérios de discriminação não são porém tão
evidentes. Em nossa pesquisa sobre "a política urbana na região parisiense"
pudemos destacar quatro indicadores de "planificação" que se aproximavam progressivamente, sem solução de continuidade manifesta, do que se
poderia chamar o domínio das "práticas" políticas reais.

PLANIFICAÇÃO URBANA E PLANIFICAÇÃO DOS TRANSPORTES
NA REGIÃO PARISIENSE (1945-1970)

1. Projeções espaciais de futuro longinquo, sem cronograma financeiro, isto é, sem nenhuma indicação dos meios de financiam ento. - Exemplo, o SDAURP.

2. Cronogramas de desembolso financeiro, sem nenhuma indicação
dos compromissos reais das autoridades financeiras. - Exemplo, o programa duodecenal 1964-1975.

3. Compromissos politicos a médio prazo que não implicam um
compromisso financeiro automático. - É o caso dos planos qüinqüenais
votados pelo Parlamento e regionalizados desde 1964, dos PME (Programa
de Modernização e de Equipamento) e dos PRDE (Programas regionais de
Desenvolvimento e de Equipamento).
4. Previsões anuais do empreiteiro sem compromisso financeiro
automático. - É o caso de um orçamento de previsão, distinto das despesas realmente efetuadas durante o ano, quer se trate de orçamento de uma
administração central, de uma municipalidade ou de um estabelecimento
público.
208

- de um lado, no grau de coerção temporal à qual está sujeito o aparelho de Estado, ou seu segmento encarregado do planejamento
urbano;
de outro lado, no grau de coerção espacial que implicam as opções
de localização (as opções puramente financeiras correspondendo
sempre a escolhas espaciais, mesmo se os agentes estatais não têm
consciência disso).

t

Coerção temporal, com efeito, de qualquer documento de urbanismo:
assim, como já lembramos, o estatuto e a coerência interna do SDAURP de
1965 implicavam uma fortíssima coerção temporal: um financiamento
contínuo e regular por dez ou doze anos, o que se traduz pelo programa
duodecenal de 1964-1975 . Ao contrário, os dois últimos indicadores provêm de uma coerção temporal a curto prazo (cinco anos - um ano) , na
medida em que o Estado francês não pratica compromisso financeiro real
além de um ano: o que vai marcar, de certa forma , o limite entre planificaçao e prática. Quanto à coerção espacial, ela se exerce sobre a dimensão 1
como sobre a dimensão 2, mesmo se o plano de urbanismo regional - o
SDAU - tende a atenuar-lhe a lógica seletiva e segregativa: assim todos os
planos de transporte ferroviários propostos pelos serviços do Estado para
servir a aglomeração parisiense afastam os projetos de uma linha férrea
alternativa ligando as cidades da periferia entre si, e isso em proveito de
eixos radioconcêntricos. As práticas de financiamento da RA TP trarão
além disso coerções suplementares, ao privilegiar sobretudo o eixo oeste-leste em detrimento do serviço ferroviário do subúrbio Norte, mas reproduzirão com fidelidade essa primeira coerção. Já se vê como a invariância
dos efeitos medida pela dimensão 3 poderá relacionar, para além de suas
diferenças, mas sem confundi-las, planificação e operação reais.

209

mente pelo Ministério do Equipamento, em detrimento da CCI local) ou
local (municipalidade, Conselho geral, Comunidade urbana, CCI).
f) Enfim, a política de localização dos meios de transporte e de telecomunicações.

AS PRÁTICAS POLI'nCAS: COERÇÃO JURIDICA E MECANISMO DE
FINANCIAMENTO DOS EQUIPAMENTOS COM EFEITO DIRETO
SOBRE A REESTRUTURAÇÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO

Resumindo, as intervenções estatais, bem diversificadas quanto à forma, podem ser consideradas em três setores:

Pudemos ver no estudo sobre La rénovation urbaine à Paris os incovenientes surgidos da confusão entre "programas" e práticas reais; pudemos também perceber como é necessário dar a essas práticas um quadro
teórico de conjunto, distinto do quadro dos planos, mas que leve em conta
todas as intervenções estatais que têm um efeito sobre o espaço urbano quer tenham ou não um objetivo diretamente urbanístico. Nesse sentido,
a confusão feita por M. Castells entre as operações, oficiais, de renovação
(pública e conjugada) e a política urbana parecem-nos perigosa por não
assinalar outras intervenções estatais, menos visíveis talvez, mas, a nosso
ver, também muito importantes. Já na pesquisa sobre La rénovation urbaine à Paris notava-se a importância dos meios de transporte rodoviários ou
ferroviários, mas é preciso ir mais além. Sem pretender ser exaustivo, deveriam ser considerados os seguintes elementos:

a) As práticas jurídicas ligadas ao controle da localização das habitações e dos empregos (alvarás de construção, regras de urbanismo, práticas
de aprovação para a "descentralização industrial e terciária").
b) As práticas jurídico-financeiras ligadas à construção de habitações, desde o financiamento público das habitações subvencionadas ( o
impacto do preço teto HLM sobre a localização é de fato fundamental se
for considerado o peso da carga fundiária nas grandes cidades) até os diferentes métodos de planejamento das zonas residenciais; a "renovação urbana" pública é então apenas um elemento bastante parcial de um conjunto
de instrumentos e de montagens jurídico-financeiras possíveis (ORU, ZAD,
ZUP, ZAC) - ou sucessivamente usados há vinte anos.
c) As práticas jurídico-financeiras ligadas à reestruturação global de
espaços urbanos: trata-se principalmente da criação dos suportes de atividades de direção (operação de La Défense), comerciais (centros de comércio internacionais, centros de comércio regionais, etc.), mistos (La Part-Dieu em Lyon), etc.
á) As instâncias jurídico-financeiras específicas ( controle direto,
jurídico e financeiro, exercido pelo poder central) de pólos de habitação e
de atividades produtivas ou terciárias banais na periferia ("cidades novas").
e) A criação de diferentes gamas de zonas industriais por meio do
poder central (pela prática dos "portos autônomos" controlados direta210

a localização (seu controle mas também seus meios diretos ou indiretos de incitação) das atividades industriais e "terciárias";
o controle da localização dos diferentes tipos de habitação;
a localização dos meios de consumo.
O uso do solo em si pode constituir um quarto elemento embora os
processos de aquisição e de atribuição do solo pelos aparelhos estatais
constituam menos um "setor" das práticas urbanas do que um elemento
de práticas jurídico-financeiras comuns aos três setores. Assim é possível,
para maior clareza, considerar as práticas das políticas ur~anas segu~do
dois eixos distintos, um eixo setorial que acabamos de analisar e um eixo
funcional onde as práticas poderiam ser decompostas em dois grandes
elementos:

1

a) A função de organização da produção e da circulação das "mercadorias" ou "produtos" fundiários e imobiliários: solo tornado "viável",
imóveis residenciais, imóveis comerciais, meios de consumo coletivos de
uso social (escola, creche, centro cultural... ), zonas industriais.
O aparelho de Estado pode então intervir como empreiteiro organizando diretamente todos ou alguns desses produtos imobiliários ou simplesmente como suplente, num setor bem localizado, da não-rentabil~~~e
capitalista do produto (financiamento de um meio de transporte, aqms1çao
de um espaço construído que exige várias desapropriações, etc.);
b) A função de organização do uso do solo: pode tratar-se então da
coordenação de diversos ramos de atividades econômicas e de e~presas
estatais em vista da criação de uma "zona de recepção" para um tipo de
atividade bem específica (CCI, Zonas industrial-portuárias, centro de
lazer, etc.).
Em ambos os casos, o controle pelo Estado da propriedade do solo e
a desvalorização da renda fundiária - principalmente através da locação do
solo a promotores e utilizadores capitalistas - permitem, ou melhor, "tendem a permitir" ao capital produtivo que seja investido no setor imobiliá21 I

rio sem se defrontar com o obstáculo fundiário; ao mesmo tempo, essa
intervenção do Estado produz uma certa "socialização" dos espaços urbanos em proveito das diferentes atividades que buscam valores de uso
urbanos específicos: economias de aglomeração e serviços coletivos das
zonas industriais, das zonas de direção, centros de pesquisa, atividades
comerciais, etc.

3. As relações entre planificação, práticas políticas e efeitos urbanos

O artigo fundamental de Edmond Préteceille sobre "La planification
urbaine"(2 9 ) vai ajudar-nos a examinar melhor as complexas relações entre
planificação, práticas e efeitos sobre a estrutura urbana. É com acerto que
Edmond Préteceille define, antes de tudo, toda planificação urbana como
"intervenção do Estado sobre as relações de produção e de circulação ( dos
elementos urbanos)"(30). Essa intervenção pode ser diferenciada em dois
grandes processos:

1. A intervenção jurídica sobre as relações de produção.
2. A programação dos equipamentos públicos.
O primeiro processo "opera uma definição jurídica das condições nas
quais os diferentes agentes sociais podem apropriar-se do espaço urbano:
definição do 'direito do solo', isto é, do tipo de construção possível num
terreno ... o uso que pode ser feito dele".
Edmond Préteceille logo observa com justeza que se trata de um
"direito intervencionista, que não se limita a refletir e codificar as relações
sociais existentes, mas que as modifica socializando-as, como o indica o
caráter de previsão das disposições jurídicas que levam em conta a urbanização futura". Por isso mesmo trata-se também, diz o autor, de um processo técnico "que inclui, por um lado, trabalhos de previsão e, por outro,
tarefas técnicas de concepção dos valores de uso complexos, efeitos úteis
dos quais convém organizar a formação: uma vez elaborado esse direito, a

(29) E. Préteceille, "La planification urbaine. Les contradictions de l'urbanisation capitaliste", Economie et Po/itique, 236, março de 1974, pp. 94-114.
(30) Op. cit., p. 108.
212

1
,li

j

sua aplicação é intervencionista, implica formas de controle e de orientação dos processos privados de produção"(31).
O segundo tipo de planificação urbana, "em que a modificação das
relações de produção torna-se mais profunda", é a planificação dos equipamentos públicos, o que coincide praticamente em nossa própria classificação com a noção de "programação". E. Préteceille distingue aí dois tipos
de relação. "O primeiro é definido pelo domínio completo do processo de
produção pelo Estado (trabalho de produção garantido por um serviço
público, por uma empresa nacionalizada ou por um equivalente). O segundo é definido pelo domínio relativo do processo pelo Estado a partir do
domínio do financiamento e da circulação do produto bem como da definição das características deste produto, o trabalho de produção propriamente dito estando garantido contudo por empresas privadas"(3 2).
Se E. Préteceille reconhece que a produção dos equipamentos públicos responde, por um lado, a uma lógica setorial e pode por isso inscrever-se num processo isolado a curto prazo em que o valor de uso urbano, os
efeitos úteis de aglomeração não são diretamente levados em conta, ele
pensa contudo que ela "responde necessariamente, por outro lado, a uma
lógica da planificação urbana. Cada equipamento público não pode ser
corretamente realizado como valor de uso urbano, garantindo desse modo
a formação de valores de uso complexos: uma estrada, uma escola, uma
rede de água ou de saneamento adquirem sua plena utilidade através das
habitações ou atividades que servem. Dominando a produção dos equipamentos públicos, o Estado é pois suscetível de dominar em parte, através
deles, a formação dos efeitos úteis de aglomeração"(3 3).
Devemos examinar aqui o que E. Préteceille chama "uma lógica da
planificação urbana". De fato, não deve ter ficado desapercebida uma certa
divergência entre essa última análise da planificação dos equipamentos
coletivos públicos e nossa própria interpretação do lugar real da "produção
dos equipamentos coletivos" na política urbana. Não nos parece que seja o
fato de a havermos relacionado com as "práticas" ao passo que Préteceille
a relaciona com a "planificação", falso problema na medida em que existe
mesmo uma eficácia própria - e portanto práticas - da planificação urbana. O verdadeiro problema está, para nós, na identificação operada por E.
Préteceille das práticas francesas de produção de equipamentos públicos
(31)
(32)

Op. cit., p. 109.
Op. cit., p. 109.
(33) Op. cit., p. 110.

213

com uma "lógica planificadora" que garanta um real domínio da formação

dos efeitos úteis de aglomeração.
Que tal planificação dos equipamentos públicos seja possível, não há
dúvida: resta demonstrar que ela existe ou pode existir no âmbito das condições econômicas e sociais que caracterizam a formação capitalista contemporânea, e sobretudo a França. É por isso que preferimos considerar a
programação-reprodução dos equipamentos públicos ( e principalmente dos
transportes cujo impacto urbano nos parece o mais importante) não na
"lógica planificadora", justamente, mas sim na lógica - em grande parte
inconsciente - de práticas das quais, a nosso ver, o efeito urbanístico real
não é nem assumido, nem dominado, nem mesmo às vezes percebido. Sem
dúvida a resposta de E. Préteceille seria que ele nunca confundiu este tipo
de "planificação" com uma "racionalização unívoca": não distingue ele,
com acerto, múltiplas tendências "divergentes ou até contraditórias que
se manifestam na tendência à própria planificação", sobretudo entre os diferentes "setores" de programação-realização dos equipamentos públicos?
"Bastante arraigada na lógica setorial dos segmentos especializados
do aparelho de Estado, esta programação-realização, assinala o autor, corre
o risco de ser esfacelada pelas lógicas próprias de cada um que podem ignorar ou dificultar a necessária socialização de suas produções, o que implica
uma coordenação intersetorial concomitantemente espacial, temporal,
financeira e jurídico-administrativa"(34).
Ou mais: "certas lógicas setoriais podem impor suas exigências, para
além da programação, aos próprios planos de urbanismo - diz-se que certos planos não passam de esquemas de viação"(35).
Mesmo assim não estamos completamente de acordo com a interpretação de E. Préteceille na medida em que ele persiste em identificar
"planificação urbana" com domínio da formação dos efeitos úteis de
aglomeração, sem distinguir, como procuramos fazer para a política urbana
capitalista, a lógi.ca real da intervenção da planificação urbana sobre o uso
dos solos (dimensão 3 da política urbana) da ideologi.a veiculada por essa
mesma planificação que propõe um domínio ilusório sobre os valores de
uso urbanos. Nesse sentido, se E. Préteceille está certo ao denunciar a oposição superficial, ideológica, entre plano e derrogação, parece-nos que ele
não vai até o fim de sua crítica porque não atribui nenhuma lógica "urba(34) Op. cit., p. 113. O que parece indicar, contrariamente ao que está dito na
página anterior, que só há uma planificação possível.
(35) lbid.
21-1

nística", logo nenhum efeito de conjunto sobre os valores de uso urbanos,
às práticas derrogatórias que "vão agravar a saturação dos equipamentos
públicos". Isso o leva, em última instância, a estabelecer uma pura distinção "moralista" entre as "boas" práticas planificadoras que permitem
"melhorar o tecido urbano", a coordenação dos valores de uso urbanos, e
as práticas "negativas": "outros tipos (de derrogação) provêm essencialmente da intervenção da distribuição de renda, com efeitos variáveis sob o
aspecto da planificação(36) mas que quase sempre vão agravar a saturação

dos equipamentos públicos"(3 7).
Reencontramos aqui o problema que sentimos nos trabalhos de M.
Castells onde a confusão entre planificação e prática política leva a uma
deplorável imprecisão teórica e, sobretudo, a uma tendência idealista para
identificar intervenção estatal com vontade consciente.
Nem por isso minimizamos o considerável alcance desse artigo de E.
Préteceille na medida em que vai nos permitir apreender teórica e empiricamente as duas dimensões essenciais da planificação urbana, quanto a seu
conteúdo: planos de urbanismo e programações dos equipamentos públicos. Talvez a natureza dos exemplos escolhidos pelo autor (o POS e o PUD
em vez dos SDAU) o leve a esquecer um aspecto pouco visível no POS,
mas fundamental no nível do esquema de urbanismo regional: a articulação
entre planificação espacial e grandes escolhas econômicas regionais(3 8).
Neste sentido, a limitação da função do Plano de Urbanismo à "definição
das condições de apropriação do solo"(39) parece-nos restritiva, na medida
em que ela nos parece referir-se mais aos POS e aos PUD. A planificação
espacial fica então limitada à regulamentação do uso dos solos (sobretudo
por meio do zoneamento e dos COS) enquanto os SDAU parecem-nos trazer uma outra dimensão ao Plano de Urbanismo: a articulação com o planejamento territorial e a localização dos diferentes tipos de atividades
econômicas.
Já indicamos, no nosso segundo capítulo, em que medida a atual
organização do espaço urbano - tanto no nível da aglomeração dos meios
(36) Op. cit., p. 113.
(37) lbid.
(38) ~ verdade que não é o que acontece na sua comunicação no Colloque de
Grenoble "Pour un urbanisme" organizado por La Nouvelle Critique em 6 e 7 de abril
de 1974: "Planification urbaine et politique urbaine du capitalisme rnonopoliste
d'Etat". Cf. número especial de La Nouvelle Critique, novembro de 1974, pp. 21-30
(n.º 78 bis; Colloque "Pour un urbanisrne").
(39) Op. cit., p. 112.

21"

1
de produção e de troca quanto no nível da aglomeração dos meios de
reprodução da força de trabalho - depende, em última instância, da nova
divisão social e espacial nas grandes empresas e principalmente nos grupos
monopolistas multinacionais.
Ora, essa articulação entre o mundo das empresas e o da produção e
do uso dos espaços urbanos aparece não no nível dos POS mas sim no nível
dos SDAU e dos PRDE. Que fique bem claro : no âmbito do sistema capitalista, não se trata, de modo algum, de uma tentativa de dom1'nio simultâneo da localização das atividades e da localização dos equipamentos.
Pelo contrário, o SDAU parte do postulado de que há "tendências"
econômicas, inelutáveis, sobre as quais os planificadores não têm nenhum
poder e principalmente para a região parisiense, sua "terciarização": é a
condição necessária, segundo os autores do SDAURP, do equihbrio dos
dois pólos europeus formados pelo triângulo Milão-Turim-Gênova e o
triângulo Basiléia- Hamburgo- Roterdam( 4 O).
Não analisaremos toda a capa ideológica com a qual os autores procuram justificar o desenvolvimento dos escritórios e a desindustrialização
na região parisiense. Para nó·s o essencial é a eficácia do SDAURP, que não
deve ser subestimada, sobre:
o conjunto dos outros elementos de planificação urbana;
- as práticas jurídicas da Comissão de Descentralização, sobretudo em
matéria de aprovação e de contratos de localização.
Primeiro ponto, o POS de Paris como os programas de equipamcrttos
ficam assim profundamente marcados por essa escolha ideológica, o que
provoca imediato impacto econômico e urbano: tudo é feito para "acolher"
e "atrair" para o centro de Paris as sedes sociais dos grupos industrais e
financeiros e as administrações centrais.
Por isso os SDAU podem ser percebidos como um invólucro esvaziado de qualquer conteúdo por uma série de derrogações: a articulação do
SDAU com as práticas jurídicas e financeiras mostra ao contrário que ,
junto com elementos que nele funcionam unicamente "a ideologia", podem ser notadas verdadeiras opções políticas maiores, que remetem não a
uma "decisão" voluntarista, como a ideologia do SDAU quer fazer crer,
mas sim a uma subordinação da planificação espacial a uma lógica econô(40) "Na escala internacional e nacional, a região de Paris surge como a salvação da França diante da competição internacional" .. . Para que a região parisiense
não perca nessa competição, é preciso pois que possam aí desenvolver-se as "atividades motoras", ou seja, essencialmente terciárias (SDAURP).

216

1

mica contra a qual ela confessa sua total impotência. É o que explica nossa
profunda hesitação em identificar a planificação urbana francesa com a
verdadeira "planificação" como domínio da organização espacial das forças produtivas materiais e humanas. Submissa à liberdade da empresa
(monopolista) ela só pode procurar limitar os efeitos espaciais da concorrência capitalista. Nada mais. Como o reconhece o IAURP, a "coerção jurídica" não pode muito contra o modo de divisão do trabalho monopolista.
"A implantação dos imóveis de escritório na região parisiense baseia-se em grande parte nas regras da economia de mercado ... e não é fácil
alguém opor-se à construção de escritórios nos setores que, precisamente,
são considerados pelas firmas de escritórios como zonas de negócios"( 41 ).

4. Da seleção urbanística à segregação social

Se a política urbana capitalista não é uma planificação - no sentido
de um domínio real da urbanização - nem por isso deixa de responder a
uma lógica: à da segregação social. É o que aqui procuraremos demonstrar
no nível da própria estrutura do processo de "fabricação" da política urbana. Nossa demonstração será baseada no exemplo da região parisiense, analisando sucessivamente o processo de elaboração da planificação urbana e o
das práticas de financiamento estatal, durante os anos 60.

A PLANIFICAÇÃO URBANA, PROCESSO DE SELEÇÃO SOCIAL:
O CASO DA REGIÃO PARISIENSE

Pareceu-nos bom usar dois documentos essenciais para o período
1964-1975: o "Programa duodecenal" {1964-1975) elaborado em 1964
pela delegação geral do distrito da região de Paris e o PRDE para o VI Plano (1970-1975) elaborado pela administração regional(*) e pelo conselho
de administração do distrito.
Cronograma de desembolso financeiro do SDAURP, publicado no
(41) "Prévisions d'implantation des bureaux en région parisienne", Cahiers
de l1AURP, vol. 22,janeiro de 1971, p. 16.
(*) No original, préfecture de région (N. da T.).

217

Previsão de realização do "Duodecenal"

ano seguinte, o "Livre vert" da região parisiense retoma as grandes opções
desse esquema. Se inicialmente se examinar a programação do sistema de
rodovias , pode-se dizer que o Duodecenal prevê uma verdadeira rede rodoviária irrigando sobretudo o subúrbio graças a um justo equihbrio entre
radiais e vias alternativas ("vias alternativas de periferia" através do tecido
urbano e em torno da aglomeração urbana - ARISO ; ligações múltiplas
Paris-subúrbio).
Ao contrário, o projeto de recortar os centros urbanos densos, principalmente Paris intramuros, com penetrantes rodovias, a exemplo das
cidades norte-americanas, implica uma nítida opção urbanística contra os
transportes coletivos na capital.
Se a injunção seletiva ainda for acentuada através do cronograma de
desembolso financeiro, será constatada uma primeira distorção entre Paris
e a periferia. A prioridade de financiamento é concedida de fato ao serviço
de Paris intramuros : o anel periférico deveria estar terminado em 1970;
radiais como a de Vercingétorix-porte de Vanves ou a de Denfert-Rochereau estão programadas desde 1964, enquanto no subúrbio as duas vias
alternativas periféricas que fazem tanta falta para os trajetos intersuburbanos são adiadas para o período 1966-1975 . No entanto, as auto-estradas de
ligação AS (auto-estrada do Leste Paris-Saint Maurice-Villiers-sur-Marne),
AlO (porte de Vanves-Palaiseau direção de Chartres) e a auto-estrada da
Normandia servindo a zona de La Défense (A14) recebem programação
prioritária.

11

1965-1970

1971 - 1975

Transportes coletivos RA TP

1.1 . RER
RER oeste-leste
Saint-Germain-Auber e
Nation-Boissy
Auber-Nation-Fontenay· Villiers-Montesson
RER norte-sul
Linha de Sceaux-Châtelet

1962-1964

1965-1970

1971-1975

1.2. Extensão do metropolitano no subúrbio
1965-1968
1965
1966-1969
1969
1967-1970

Porte de Bagnolet
Pont de Clichy
Sai nt-Lazare -Saint-Augustin
Desvio gare de Lyon, linha 5
Pré-Saint-Gervais -Saint-Augustin
Saint-Augustin -Champs Elysées
Champs-Elysées-lnvalides

21

1971
1971
1970-1972
1970-1973

Auto-estradas

2. 1. Em Paris

Anel periférico
Eixo norte-sul
Radiais quai de Bercy-Rapée
Radiais Bir-Hakei-pont-Mirabeau
pont-Mi rabeau - Bas Meudon
Vercingétorix
Denfert-Rochereau
norte-oeste
Bagnole-eixo norte-sul
Via alternativa sul

1970

1957
1964

1975

1966
1966
1964-1970
1964-1970
1966
1966
1966

1975
1975

1966

1975

1965
X
X

1975
1975
1975

2.2. Fora de Paris

Previsão de realização do "Duodecenal""
1962-1964

(continuação)

Via alternativa de subúrbio e ARISCO
Via norte-sul
Auto-estrada AS-porte de Bercy
Saint-Mau rice- Vi li iers-su r-Marne
Coulommiers
A4- Saint-Maurice-carrefour Pompadour
Paris-Versailles
A14 -porte Maillot
A14-Zonas A, B, C,
EPAD-Orgeval
A15 e A12
A10

1969

1974
1971-1974

porte de Vanves-Prunay

219
21 8

Se passarmos agora à programação do serviço ferroviário, constata-se
antes de tudo, como no SDAURP, a ausência total de via alternativa [elloviária intersuburbana.
Dois tipos de rede ferroviária devem ser distinguidas: a rede expressa
regional e os prolongamentos, na periferia, do metropolitano parisiense.
Para o RER logo se constata que o plano ferroviário proposto pelo
SDAURP é só parcialmente retomado pelo Duodecenal já que os dois
eixos norte são substituídos por uma simples junção pelo RER da gare du
Nord com o ramal da SNCF do Valmondois por Saint-Denis-Pierrefitte.
Quanto aos dois eixos ferroviários sul que deveriam servir as cidades
novas de Trappes, Evry, Tigery-Lieusaint, não foram programados.
Mas a seleção é ainda mais severa quando intervém o cronograma de
desembolso financeiro. Acabamos de assinalar que o eixo do RER-Le
Bourget-aeroporto Paris-Norte só está programado para 1974, e a ligação
pelo RER das gares du Nord e de l'Est com Saint-Denis só está programada
para o período 1969-1972, a ligação Saint-Denis-Pierrefitte-linha do Valmondois devendo esperar até 1971-1974. Enfim, a junção entre esta linha
norte e o eixo oeste-leste deverá esperar até 1971 . Mesma coisa para o
prolongamento em Paris da linha de Sceaux-Luxembourg-Châtelet: o compromisso é para 1971-1974. Porém, o eixo Saint-Germain-en-Laye-Boissy·Saint-Léger é prioritário: já começado em 1961, deve estar terminado em
1972, ao passo que as linhas Fontenay-sous-Bois-Bry-sur-Marne-Villiers
e Nanterre-Montesson não devem ser começadas antes de 1971. Pode-se
notar mais adiante, no capítulo seguinte, a sensível convergência com as
opções das práticas reais de financiamento, não quanto às datas mas sim
quanto às operações físicas selecionadas.
Se, enfim, forem consideradas as extensões do metrô, constata-se
- como para RER - uma fortíssima "seleção" dos inúmeros projetos que
dormem há quase cinqüenta anos nas gavetas da RATP. Basta comparar as
três extensões propostas com as 22 previstas no plano ferroviário de extrema urgência elaborado pelo Conseil général de la Seine em 1935 - das
quais apenas 9 estavam realizadas em 1956.
Se considerarmos o PRDE do VI Plano, a projeção espacial do programa rodoviário previsto no quadro do VI Plano revela uma nítida prioridade concedida:
1. À ligação entre a capital e as três cidades novas (Cergy-Pontoise
pela AIS , Saint-Quentin-en-Yvelines pela via alternativa FI2-GI2-A86, e
Marne-la-Vallée pela A4).

220

2. Ao serviço do novo aeródromo de Roissy-en-France (ligação B3
duplicando a AI e ligando Roissy com a rotatória de Bagnolet na A3; F2
duplicando a RN2; G4 ligando Roissy com a A4).
3. Ao serviço do subúrbio residencial oeste onde estão concentradas
inúmeras operações imobiliárias privadas e novos pólos de negócios: via ao
longo da margem esquerda do Sena, circular do EPAD e início da AI 4,
duplicação do túnel de Saint-Cloud e ligação da A13 com o anel periférico.
4. À junção urbana de duas auto-estradas concedidas ao setor privado: a AIO e a A4 (junção da AlO com a rede rodoviária urbana pelas A87,
C6, H6 e A6 até o anel periférico; início da radial Denfert-Rochereau que
possibilita a penetração da auto-estrada do Sul (A6) em Píiris; desdobramento da AIO pela via rápida F6 desembocando na ponte de Sêvres e continuando em Boulogne pela RNIO melhorada; início da radial Vercingétorix-Maine-Montparnasse-porte de Vanves que também deve encontrar,
ulteriormente, a AIO. Quanto à A4, sua junção urbana com a porte de
Bercy e com o centro de Créteil também está programada.
Por outro lado, se executarmos o serviço para a enorme operação
imobiliária privada empreendida por um pool bancário em Créteil e o serviço para Marne-la-Vallée, os subúrbios leste e norte continuam ainda sendo
"os primos pobres" deste programa: a via alternativa A86 está aí programada de modo apenas muito parcial(42). De forma mais geral, pode-se constatar que a prioridade ainda não foi concedida às duas vias alternativas intersuburbanas que deveriam circundar a região parisiense em 1975, de acordo
com o Duodecenal e o SDAURP. No VI Plano não estão programadas nem
a via alternativa A871, nem a A861 entre La Défense e Pont-Colbert, perto
de Trappes, e nem a ligação entre a AIO em La Folie-Bessin e a A6 em
Evry (F6 ligação Trappes-Evry). Ainda mais: nenhum projeto de ligação
aparece nem no mapa entre as cidades novas de Evry e de Marne-la-Vallée.
E se for introduzido o critério temporal, como fizemos com o Duodecenal,
a ausência total de prioridade concedida à A86 no cronograma torna-se
ainda mais marcante, já que os trechos programados só serão terminados
no início do VII Plano, o serviço do subúrbio norte entre a AIS e Bobgny
permanecendo como sempre o mais desfavorecido (1976-1978).
Pode portanto ser afirmado que o radioconcentrismo é dominante,
(42) " ... não é possível entrever a realização completa de A86 antes de 1980-1982. Quanto à via alternativa A87, sua perspectiva média de acabamento situa-se.
entre 1982 e 1985" (La région parisienne. Quatre années d 'aménagement et d 'equipement [1969-1972], RP, p. 119).
221

tendo sido seu eixo contudo deslocado para o oeste pela extensão do bairro de negócios para "La Défense" e comunas vizinhas.
Se examinarmos a rede ferroviária fica logo evidente a escassez de
novas operações programadas, em comparação com a rede rodoviária:
as novas operações resumem-se exclusivamente no segundo ramal leste do
eixo oeste-leste do RER (F ontenay-Mame-la-Vallée), a ligação por aerotrem
entre La Défense e Cergy-Pontoise, e uma série de junções esparsas da rede
existente da SNCF com as cidades novas de Evry, de Saint-Quentin-en-Yvelines, e com o aeroporto de Roissy (desde Aubray). Quanto às extensões do metrô na periferia, dá para contar com os dedos de uma mão: linha
13 até Saint-Denis, linha 8 até Créteil, linha 14 até Bagneux, linha l3B até
pont de Clichy. Pode-se também notar aí a diferença de tratamento no
cronograma entre a ligação pela linha 8 do metrô do "Nouveau-Créteil" e o
adiamento das extensões do metrô até Saint-Denis e Châtillon ( cidades
dirigidas pela oposição de esquerda) para 1977.
O PRDE não indica a distribuição entre essas diferentes operações
dos 7 440 milhões de francos atribuídos aos "transportes coletivos".
Porém, um projeto de relatório para a preparação do VI Plano dos
transportes elaborado pela administração regional em 20 de março de 1970
dava as seguintes estimativas:
trecho central do RER Auber-Nation = 1 000 MF
extensão SNCF de Cergy, de Evry, a nova estação de Trappes, RER
F ontenay-Mame-la-Vallée
linha 14 - - - - Bagneux = ?
linha 13 - - - - Saint-Denis = 180 MF
linha 13 bis - - - - porte de Clichy = 230 MF
extensão ferroviária Aubray-Roissy = 280 MF
extensão SNCF Cergy e Evry, a nova estação de Trappes = 875 MF
linha 8 - - - - Créteil = ?
RER Luxembourg-Châtelet = 750 MF
Por outro lado, o relatório de 1970 estimava o custo da modernização da rede existente da RA TP entre 2 780 e 2 980 MF (300 MF para a
construção do material funcionando para as novas linhas). Os 7 440 MF
apresentados como uma "prioridade" ( ou uma igualdade) concedida aos
transportes coletivos reduzem-se pois a pouco mais de 4 000 MF para as
novas ferrovias de pequeno e grande gabarito. Ora o quarto dessa quantia
ainda vai para o trecho central do eixo oeste que dificilmente pode ser
incluído na rubrica das "operações novas".
222

Ao contrário, é recusada prioridade ao serviço ferroviário do aeródromo de Orly pelo prolongamento da linha de metrô n.o 5 (750 MF),
apresentada pelo relatório de 1970 como "a mais rentável de todas as
extensões de linhas de metrô no subúrbio" visto que serviria não só o aeroporto mas também uma parte bastante povoada do subúrbio.
Mesma hesitação a respeito do prolongamento da linha de Sceaux até
o Châtelet e o eixo oeste-leste, apesar do relatório da administração regional insistir no ponto de congestionamento de Denfert-Rochereau e na
urgência de uma melhor difusão da linha de Sceaux em Paris.
Como então falar de "planificação" quando até as operações mais
"urgentes", mais "rentáveis", no plano da densidade dos fluxos migratórios atingidos, não são programadas? Contudo os responsáveis do Ministério dos Transportes insistiram muito nos procedimentos de preparação
regional do VI Plano que lhes pareciam oferecer todas as garantias de um
real domínio de objetivos urbanísticos globais. Assim, quando o conselho
interministerial de 15 de outubro de 1970 decidiu que "certas operações
são julgadas prioritárias, entre as quais o trecho central do RER oeste-leste,
as auto-estradas Pontoise-Cergy e Paris-vallé de la Mame, a modernização
de duas linhas de metrô, a criação de uma primeira via alternativa rodoviária de subúrbio"(43), parecia estar propondo opções que subordinam de
modo bem forte os investimentos de transporte aos objetivos de uma política urbana não segregativa. Trata-se em particular:

"l) De melhorar as condições de serviço das zonas de extensão e de
reestruturação prevista no SDAURP e, assim, de favorecer num prazo de
dez anos a criação de 90 000 empregos secundários, de 105 000 empregos
terciários nas cidades novas e de 82 000 empregos nos centros reestruturadores do subúrbio.
"2) De diminuir os tempos de trajeto.
"3) De melhorar a comodidade dos transportes coletivos"( 44).
Foram portanto calculados, para cada investimento de transporte,
seus "efeitos sobre a diminuição de densidade do habitat e dos empregos, a
duração e a comodidade dos deslocamentos", isto é, seu grau de contribuição â melhoria desses três objetivos fixados na situação de referência ...
por exemplo, o trecho central do RER faz progredir de 8% o objetivo
(43) Bulletin d'information de la région parisienne, IAURP.
(44) Março de 1971, Le vze Plan des transports, p. 6.
223

comodidade, de 3,5% o objetivo tem d t .
nização"(45).
po e ra3eto, e de 3% o objetivo urba· a1·
Essa aplicação dos métodos d
tázias (REO)
·t
b
e rac1on IZaçao das escolhas orçamenperm1 e uma a ordagem global ... "levando e
"d
numa mesma operação:
m cons1 eração
as estradas e os transportes coletivos·
~::eesc;~:idadel~ atduais ligadas às condições de transporte e as necessiuras iga as ao desenvolvimento urbano·
a~ infra-estruturas novas e as medidas comple~entares de explora
çao, de regulamentação e de tarifação dos transportes"(46)_
vicios:~sim, el~ leva a superar, segundo os partidários da REO o círculo
'
e um sistema de programação que - r
com as opções urbanísticas: "Se o desejo
d~ga~a ~s opções tr~nsportes
to das infra-estruturas d
1mmu1r o congesttonamen-

t::

I::::i.:~,~~s:U!f;i,O:~~:;::~,::,::~~;:~:~io::::f!:~:~

fecha-se o círcu1o"(46/

azem o congest10namento para seu estado inicial:

Para "superar essas contradições" os métodos d
Plano propõem m di b. .
'
e preparaçao do VI
mento em maté . e dr o ~ettvamente o impacto urbanístico de cada investin~ e transporte, de modo a dominar o impacto que terá
sobre o de
objetivos p:::~~~=~nto urbano e a orientar este último, segundo os três
O que aconteceu finalment ? S
fi
opções e os ob·etivos
~- e con rontamos rapidamente as
pelo PRDE
~ b do c~ns~lho mterrninisteriaJ com as escolhas feitas
consiste a ;:erce emos pnm~tro qu~ a luta contra o radioconcentrismo
-Clama t p bas na pro~am~çao da ltgação rodoviária La Défense-Petit-

d:~g:;;o

-estrad:
mutilados.

e~; o~!e~~:vao;~~a parte da penetr:ção urbana da auto, a A87 e a F6 nao passam de trechos

No entanto "a recepção d AIO"

novas de Mame- '_
,
.
a
. e a igação entre Paris e as ci~ades
. "dad
Vallee, Samt-Quentm-en-Yvelines e Cergy-Pontoise têm
pnon
e, semdas pela rede auto-rodoviária de p . (
. , .
duplicação do túnel de S . t Cl d .
_
ans anel penfenco,
Vercin étor"
a~ . ou e Junçao AI3-anel periférico, radiais
IX e Denfert, via expressa margem esquerda) Mas e'
. . al.
g
.
prmc1p

(45) Ibid.
(46) Ibid

mente o radioconcentrismo das ferrovias programadas que chama a atenção: o investimento dominante é, como já apontamos, o trecho central do
RER oeste-leste Auber-Nation. Se a isso for acrescentado o prolongamento
das quatro linhas de metrô previstas (também elas radioconcêntricas), a
ligação Châtelet-Luxembourg pelo RER e as ligações SNCF com três cidades novas(4 7), pode-se constatar que a melhoria imediata das condições de
transporte foi nitidamente dominante, às custas do objetivo n. 0 1 afirmado
pelos autores do VI Plano de transportes: a urbanização voluntária, a autonomização do subúrbio pelo acoplamento cidades novas-centros de reestruturação urbana. A esse respeito, o eventual serviço de La Défense àtravés
de uma ligação por aerotrem com Cergy-Pontoise não deve enganar: prolongamento do centro de negócios parisiense, a zona A do EPAD nada tem
a ver com os centros urbanos autônomos de subúrbio previstos pelo .....
SDAURP ou pelo PADOG. Corpo estranho no tecido urbano de Nanterre,
Puteaux e Courbevoie, a zona A do EPAD poderia ter utilizado o aerotrem
apenas como um meio de "aspirar" a mão-de-obra "terciária" da cidade
nova de Cergy-Pontoise, onde faltam muitos empregos de escritório; o mesmo se verifica com o futuro centro de negócios Bercy-gare de Lyon em
relação à população residente de Créteil.
Há portanto um hiato total entre a globalidade do método de REO,
sua pretensão de combinar critérios fmanceiros e critérios urbanísticos e
esta extrema fragmentação das opções do PRDE.
Percebe-se isso ainda melhor se compararmos os projetos escolhidos
pelo grupo de trabalho da administração regional e os que finalmente
foram selecionados pela comissão interministerial de 15 de outubro de
1970 e pelo conselho restrito de 25 de março de 1971, presidido pelo Primeiro-Ministro.
Em março de 1970, a extensão da linha de metrô n. 0 5 (place d'Italie-Orly) foi considerada como "a mais rentável de todas as extensões de
metrô na periferia", por causa das fortes migrações alternantes diárias nesta parte da periferia sul, e considerada também como único serviço eficaz
para o aeroporto de Orly. De fato, o relatório de 1970 mostra bem o caráter ilusório de um serviço puramente rodoviário, ainda que fosse duplicado
ou triplicado: "Para Orly, o serviço rodoviário acaba de ser melhorado com
a abertura de uma pista da auto-estrada H6; ele poderá ficar ainda melhor
(47) Uma única exceção: o reinício de funcionamento do trecho leste da pequena cintma ferroviária; mas isso está longe de significar a programação de verdadeiras vias alternativas contornando a aglomeração.

224

225

com a abertura prevista da segunda pista no início de 1971; mas essa
melhora será apenas passageira por causa do aumento geral do tráfego e da
junção da Al O".
Ora, essa opção tida como primordial pelos cálculos de REO ... desaparece em 1971 e não passa de uma "operação eventual" não programada
no PRDE definitivo. Mais incoerente ainda é o fato do projeto de março de
1970 falar de uma escolha entre a extensão da linha n.o 5 place d'Italie-Orly e a da linha de Sceaux-Châtelet: "A extensão da linha de metrô n.º 5
traz um novo serviço em lugar adequado para um subúrbio mal servido ...
Sua taxa de rentabilidade é mais elevada que a da extensão da linha de
Sceaux até Châtelet (13% contra 8%)... a escolha definitiva entre essas
duas infra-estruturas é deixada em suspenso até que estudos ulteriores
permitam esclarecer a escolha da infra-estrutura e a incluam nesse programa"(48).
Quando acima foi assinalado que "os estudos comparativos mostram
que a linha de Sceaux apresenta um congestionamento extremamente
grave na altura da estação Denfert-Rochereau", é legítimo perguntar se

essas escolhas são algo além da repartição da penúria.
Uma lógica seletiva que nada tem a ver com uma lógica de planificação urbana pode pois ser destacada: trata-se, num contexto de financiamento público malthusiano dos equipamentos coletivos, de "atender ao
mais urgente", elaborando uma resposta a curto prazo às "urgências percebidas como prioritárias. Resta pôr em evidência os mecanismos de seleção

que designam essas prioridades à "percepção" do aparelho de programação
estatal.
Pudemos demonstrar em nossa pesquisa sobre a região parisiense que
esses mecanismos chegavam a designar com notável constância sempre as
mesmas prioridades em matéria de eixos de transporte.
De fato, se forem examinadas as opções do programa trienal e do
programa quadrienal elaboradas em 1959-1960 pela comissão 2 bis do
FDES (Comissariado para o Plano), as do duodecenal em 1964 ou as do VI
Plano, uma convergência inquietante aparece nos transportes ferroviários
em favor do eixo oeste-leste do RER (Saint-Germain-en-Laye-Boissy-Saint-Léger):
1959: prioridade concedida a uma transversal oeste-leste "duplicando a linha do metrô n.o 1";
(48) Préfecture de la région parisienne. Préparation du VI Plan des transports
de la région parisienne. Projeto de relatório, 20 de março de 1970.
226

1960: financiamento prioritário do trecho La Défense-pont de
Neuilly;
1961-1962: prolongamento desse trecho até o "centro de atividades"
de Paris, no triângulo Saint-Lazare-Opéra -Havre-Caumartin, até a
estação Auber;
1970: financiamento do trecho central Auber-Nation, com uma participação excepcional do Estado central (50%), em relação às outras
operações (35%).
Trata-se, nos quatro casos, de "aliviar o tráfego" onde ele é - ou
corre o risco de ser - mais perigosamente saturado e, correlativamente,
melhorar o serviço para o centro de atividades mais importante: o do bairro de Saint-Lazare-Opéra e do novo bairro de negócios de La Défense.
Está-se portanto colocando exatamente nas condições. . . que os
partidários da REO esperavam evitar. Como constatam com bastante lucidez os autores do projeto de relatório para a preparação do VI Plano de
transportes, "os meios empregados no decorrer do VI Plano contribuirão
mais para 'liberar', local ou setorialmente, uma demanda suplementar
de deslocamentos, do que para facilitar, no conjunto, os deslocamentos
atuais"(49).
Esse tipo de programação, circunscrita numa lógica financeira que
lhe é totalmente exterior, acaba assim num processo de seleção ou cego ou
impotente, mas relativamente lúcido, como o mostra esta última citação.
Não que não se possa falar de "vontade deliberada", mas tudo acontece
como se os agentes do Estado encarregados da programação dos equipamentos urbanos participassem, contra a vontade, impotentes, de um mecanismo de seleção das verbas públicas produzindo efeitos urbanísticos que
esses agentes não podem impedir.
O aparelho estatal de previsão e de orientação do desenvolvimento
urbano dá a impressão de flutuar como puro invólucro ideológico em torno de um mecanismo que no fundo se confunde com o mecanismo das
práticas políticas, jurídicas e financeiras. Decerto, o VI Plano dos transportes "fala" de coordenar suas decisões financeiras com as opções urbanísticas do SDAURP mas, na verdade, já pudemos constatar, ele filtra a demanda de transporte segundo os mesmos critérios das opções do Ministério dos
Transportes e do Ministério das Finanças: trata-se primeiro de servir as
concentrações de empregos terciários mais importantes, ou seja, fatalmen(49) lbid.

227

te, o centro de negócios parisiense. Assim, a decisão de financiar o trecho
central Auber-Nation é justificada não por referência a opções de urbanismo voluntário como as do SDAURP, mas pela necessidade de "adaptar" os
meios de transporte aos fluxos atuais das migrações alternantes, diárias.
O funcionamento do trecho central permitiní assim "aceder rapidamente aos empregos do VIII e IX arrondissements de Paris, logo, do centro
de negócios da margem direita, de aliviar as linhas de metrô paralelas (principalmente a linha n.º 1), de suprimir uma conexão"(50).
O que contradiz de todo os critérios globalizantes propostos pelo
PRDE (VI Plano): o eixo de transporte aparece aqui como instrumento
de uma lógica estritamente setorial, fechada em si mesma ("aliviar o tráfego onde é mais congestionado") e ao mesmo tempo inteiramente subordinada a uma lógica urbana segrega tiva.
A defasagem entre o esfacelamento das opções finais do PRDE e a
globalidade do SDAURP não deve no entanto causar ilusões quanto ao
lugar do próprio SDAURP nesse processo de seleção: como já indicamos e vale a pena insistir nesse ponto - o SDA URP já é uma primeira operação
de mutilação da demanda social regi.anal em matéria de transportes.
Silenciando de todo quanto à ligação ferroviária entre os subúrbios(51) como quanto à irrigação do conjunto do tecido suburbano através
do prolongamento da rede metropolitana, o SDAURP já reduz, de fato , a
reorganização urbana a uns poucos pólos urbanos, sobretudo de cidades
novas onde estão concentrados praticamente todos os esforços previsto em
matéria de equipamentos coletivos. Aliás, ao apoiar a autonomia de circulação dos centros suburbanos através apenas do serviço rodoviário, ao
passo que o pólo direcional parisiense - prolongado em La Défense - goza
de uma dupla rede rodoviária e ferroviária de transportes radioconcêntricos, o SDAURP resvala insensivelmente da planificação urbana para a
lógica cega de uma prática setorial subordinada aos processos de segregação
urbana.
Como "prever" um crescimento muito rápido do intercâmbio entre
subúrbio sem prever ao mesmo tempo um espessamento correspondente
do tecido urbano, espessamento que logo tornará caduca e ilusória uma
(50) "Le dossier des transports de la région parisienne", administração da
região parisiense, suplemento do n.o 118 deActualité-servi'ce, publicado pelo Comité
interministérial pour l'Information, maio de 1971.
(51) Apesar de reconhecer muito bem o crescimento incessante do tráfego
entre os subúrbios, o SDAURP justifica sua escolha exclusiva de transportes rodoviários pela "densidade urbana" mais fraca no subúrbio do que em Paris.
228

ligação puramente rodoviária? A ausência de previsão, "incoerente" sob o
aspecto do domínio real do crescimento urbano, encontra, porém, relativa
coerência quando contribui para "alimentar" a segregação entre uma "terciarização" que o SDAURP deseja favorecer e uma indústria rejeitada para
a periferia e excluída da "centralidade" urbana.
O processo de filtragem fica mais nítido, mais firme, quando se passa,
depois, do estágio de plano ao de programação, e ainda da programação a
longo prazo ( duodecenal) à programação a curto prazo ("quadrienal", planos qüinqüenais da RA TP, PRDE ...) e enfim às previsões anuais das administrações centrais responsáveis pelos transportes.
Se for seguida, por exemplo, a lógica de seleção elaborada sucessivamente pelo SDAURP, pelo duodecenal e pelo PRDE do VI Plano, pode-se
destacar dois estágios, dois níveis de seleção, ou, ainda, dois pontos sucessivos de uma mesma engrenagem.
Primeiro nível: a recusa do serviço ferroviário feito através de uma
via alternativa entre os subúrbios. - Pode-se falar de um invariante político
estrutural na medida em que o plano e programa vão reproduzi-lo ... até o
PRDE que introduzirá uma variação (abertura de um trecho da pequena
cintura ferroviária SNCF) variação secundária quanto aos efeitos reais
sobre o conjunto da organização urbana da região parisiense, mas essencial
quanto aos efeitos políticos e ideológicos sobre o quadro político urbano
(questionamento do modelo urbano da fração de classe dominante; começo de elaboração de um modelo urbanístico alternativo).
A recusa de prolongar as linhas de metrô no subúrbio procede da
mesma invariância e conjuga-se, bem recentemente, com a mesma variante
- secundária, do ponto de vista econômico e urbanístico, mas essencial
para a cena política urbana -, variante que não pode ser explicada sem
referência aos movimentos sociais urbanos pelos transportes coletivos.
Segundo nível: a cisão plano/programas a médio e curto prazo. - Ela
se verifica principalmente no eixo norte-sul do RER, no serviço ferroviário
para os aeroportos, e enfim nas vias alternativas marginais entre os subúrbios. A não-programação do eixo RER-gare du Nord-Saint-Denis destrói o
equilíbrio proposto pelo SDAURP e pelo programa duodecenal entre a
reestruturação "terciária" da zona de La Défense e a de Stains-Saint-Denis.
Quanto às últimas opções negativas, reforçam elas o congestionamento do
centro parisiense, a última opção contribuindo aliás para reforçar a dependência do subúrbio em relação a Paris.
O significado desse segundo nível de seleção vai aparecer mais claro
quando articularmos modo de seleção com práticas políticas. Desde agora
229

já serve para distinguir, sob a aparente coerência e unidade do SDAURP,
duas componentes diversas: uma componente ideológica destinada a disfarçar a impotência para dominar o desenvolvimento urbano e uma componente política que vai funcionar essencialmente como justificativa da
terciarização-desindustrialização e como tentativa de tradução urbana de
uma opção econômica.

AS PRÁTICAS DE FINANCIAMENTO ESTATAL

Na medida em que até agora baseamos nossa exposição na análise da
região parisiense, vamos tentar desvendar o financiamento público regional
dos meios de consumo coletivos, através de dois documentos parciais mas
que dão as despesas reais efetuadas pela cidade de Paris (1960-1970) e pelo
distrito da região parisiense (1962-1968 e 1969-1972).
A distribuição financeira das despesas do distrito revela primeiro
uma prioridade esmagadora atribuída aos "transportes" e "comunicações"
(80,2% de 1962 a 1968; 85 ,8% de 1969 a 1972) em detrimento do equipamento esportivo, social, cultural e turístico que recebe apenas 4,2% dos
investimentos de 1962 a 1972.
Distorção "normal", pode alguém objetar, na medida em que a posição, a própria função do distrito o designavam antes de tudo para o financiamento das "grandes obras" "estruturantes" e não para os "equipamentos de acompanhamento" assumidos por outras coletividades e organismos
públicos. Admitindo - provisoriamente - esse recorte ideológico que faz
de uma universidade ou de um centro de pesquisa um "equipamento de
acompanhamento", basta referirmo-nos à distribuição regional, compreendendo todos os financiamentos, das verbas públicas destinadas ao conjunto
dos "equipamentos coletivos" para reencontrar no entanto a mesma distorção. Primeira demonstração: os cronogramas de desembolso financeiro dos
IV, V e VI Planos, bem menos restritivos a respeito dos equipamentos
"não estruturantes" do que das despesas reais, revelam a mesma prioridade
concedida aos meios de transporte (e, em primeiro, à viação) em detrimento do equipamento escolar, social, esportivo e cultural; a mesma distância
aparece tanto no V quanto no VI Plano entre a parte dedicada aos transportes ( 45 e 4 7%) e a dedicada aos equipamentos sociais e escolares (20
e 23%).
Mas se fosse possível comparar as previsões com o conjunto dos
financiamentos reais, essa distância ainda ficaria bem mais acentuada, em
230

231

~.11.,

detrimento dos últimos, como o demonstram os estudos do Comissariado
para o Plano e do CCES(52) sobre a taxa de realização dos V e VI Planos.
O segundo documento sobre o qual nos basearemos: o balanço de
dez anos das despesas com equipamentos para a cidade de Paris(53), confirma essa distorção, já que revela que 48,2% das despesas foram para a
viação enquanto somente 13,9% foram para os equipamentos escolares,
esportivos e culturais, 11,9% para os equipamentos hospitalares, 1,7% para
os equipamentos sanitários e sociais e 2,5% para a habitação e alojamento.
Se a discriminação financeira entre esses dois tipos de equipamento
já não é mais discutível, resta determinar a exata função sociológica desse
tipo de equipamento: não é ele tão "social" quanto os outros? Com que
direito podemos opor os meios de transporte aos outros equipamentos
coletivos?

A REDE EXPRESSA REGIONAL

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Para responder a essa objeção e levar adiante a nossa análise, desdobramos as verbas públicas destinadas pelo distrito, pela cidade de Paris e
pelo Estado aos transportes, em sub-rubricas mais pormenorizadas (ver
quadro da p. 213) procurando, sempre que possível, relacionar as massas
financeiras assim atribuídas com as principais operações físicas realizadas
entre 1962 e 1972. O estabelecimento pela administração regional parisiense de um mapa exato com a localização das operações efetuadas(54) permitiu-nos enfim confrontar atribuição financeira e repartição espacial dos
equipamentos.

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Linhas do RER previstas pelo Esquema diretor de planejamento e de
urbanismo da região parisiense - SDAURP - (1965)

Se nos ativermos primeiro às realizações previstas para o período
1962-1968, constataremos que a quase totalidade da "extensão" da rede
de transportes coletivos consiste na construção de um primeiro trecho La
Défense-Etoile (e depois La Défense~Auber) do eixo oeste-leste do RER,
seguido pelo trecho Nation- Boissy-Saint-Léger. Analisamos detidamente
(52) CCES , execução do V Plano.
(53) "Dix ans d'efforts d'équipement de la ville de Paris", Paris-Projet, 2,
1970, pp. 86-87.
(54) Préfecture de la région parisienne, Quatre années d'aménagement et
d'équipement (1969-1972), 1973: cf. mapa do prolongamento das redes de transporte coletivo antes de 1968, de 1968 a 1976, p. 374: cf. mapa do prolongamento das
grandes vias de comunicação 1962-1976, p. 373.

232

233

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Transportes coletivos: sobre 983, 1 MF:
952,2 foram atribuídos ao financiamento de dois trechos do eixo oeste-leste
do RER (Saint-Germain-Auber e Nation-Boissy·Saint-Léger).
Transportes rodoviários: os 956,5 MF
permitiram a realização de 2;3 km do anel periférico, de 13 km da via expressa
da margem direita em Paris, do prosseguimento da A 1, da A6, da continuação
da A13, de dois trechos da A86.

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1969-1972:
Transportes coletivos: sobre 853,B MF:
mais de 50% ainda foram dedicados ao prosseguimento da construção do eixo
oeste-leste do RER, e principalmente de seu trecho central Auber-Nation, das
estações Châtelet e gare de Lyon. Os restantes 388,4 MF empregados só permitiram financiar as junções das cidades novas com a rede SNCF - desde 1970:
extensões de Evry (165 MF empregados pelo distrito em 1971 e 1972), de
Saint-Ouentin-en-Yvelines (33 MF em 1971 e 1972), de Cergy-Pontoise (100
MF de AP votadas nos orçamentos 1971-1972). Ou seja, 165 + 33 + 100 =
298 MF dos 388,4. O distrito participa com 30% no financiamento dessas
extensões ferroviárias, o Estado com outros 30% e os 40% restantes são financiados por um empréstimo, a longo prazo, do distrito.
Transportes rodoviários: sobre 1 279 MF:
(dos quais 4, 7% para os parques de estacionamento):
11,8% aplicados nas vias expressas em Paris (anel periférico, radiais Vanves·Montparnasse, via expressa da margem esquerda, estudos do eixo norte-sul;
16,1 % aplicados nas auto-estradas de desafogamento (A4, A6, B6, C6, A10,
A13, A14, A15, A3, A1);
41, 1% aplicados nas auto-estradas urbanas, vias alternativas, vias expressas;
9,8% aplicados na viação primária das cidades novas (essencialmente Cergy,
Evry, Saint-Quentin e Marne-la-Vallée);
2,6% apenas nas estradas nacionais de distribuição.
Os 1 219,8 MF atribuídos à viação serviram essencialmente para três grandes
realizações de tipo rodoviário, fora de Paris:
a) três auto-estradas com ligação internacional foram unidas ao periférico: a
A6 (duplicada até Rungis pela H6 e C6, a A3 e a A1 (Saint-Denis-anel
periférico);
b) a A10 foi indiretamente ligada a Paris por uma secção da A87 para a A6,
pela C6; pela F6 e F18 ao anel periférico (ponte de Sêvres);
c) a via margem esquerda do Sena fora de Paris teve duas secções terminadas,
das quais uma entre a ponte de Neuilly e a ponte d'Asniêres, e a outra entre
a ponte Royal e a ponte d' léna.

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235

As despesas com equipamento da cidade de Paris (1960-1970)
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via expressa da margem direita : 136,0 MF
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Renovação urbana
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compreendendo
adução de água: 365,4 MF
saneamento: 15,5 MF
equipamentos portuários e fluviais : 10,2 MF
Equipamentos escolares, esportivos, culturais
Equipamentos hospitalares
Equipamentos sanitários e sociais
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Fonte : Paris-Projet, 2, 1970.

em nossa pesquisa sobre a região parisiense(56) a funçffo sociológica desse
primeiro trecho (ligar o bairro de La Défense com o centro de negócios do
VIII e IX arrondissements) ; em seguida, a função do conjunto do eixo
oeste-leste ( oferecer ao novo centro de negócios um instrumento adaptado
para coletar a mão-de-obra que vive nos subúrbios-doJ[mitório do oeste e
do leste) . Tivemos o cuidado de não julgar "nocivo" esse eixo do RER
para os moradores do subúrbio mas, a partir do momento em que a seleção
financeira conseguiu "isolar" essa única via de serviço ferroviário da rede
(55) Compreendendo as praças de esporte e de lazer de Tremblay e de Vaugirard.
(56) La politique urbaine dans la région parisienne, op. cit., pp. 110-117 . Ver
também nossa. monografia : La création de l 'ax e ouest-est du RER, Laboratoire de
Sociologie industrielle, 1970.

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Fonte: Primeiro-Ministro, Comissão lntermi nisterial para a informação, Le dossier des transpores de la région parisienne, maio de 1971,
p. 20.

237

PROLONGAMENTO E MODERNIZAÇÃO DA REDE
DE TRANSPORTES COLETIVOS

PROLONGAMENTO DAS GRANDES VIAS DE COMUNICAÇÃO

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1962
1968
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Funcionamento
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Via férrea (SNCF-RATP) :
planejamento, eletrificação
ou criação de linha

1968
antes de 1968

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Funcionamento 1
ou em obras

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La région parisienne (1969-1972), quatre années d'aménagement
et d'équipement, Préfecture de la région parisienne, p. 46 .

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10 km

La région parisienne (1969-1972), quatre années d'aménagement
et d'équipement, op. cit., p. 44.

prevista, a partir do momento em que essa realização fez parte do quadro
de desequilfbrio fundamental entre, de um lado, a concentração de empregos nos bairros Saint-Lazar-Opéra-Champs-Elysées e a zona A de La Défense e, de outro lado, o subemprego das grandes concentrações residenciais da periferia, pode-se afirmar que o modo de seleção financeira dos
meios de transporte coletivo contribuiu para reforçar a segregação espacial
entre os bairros de negócios de Paris-La Défense e os subúrbios residenciais, em detrimento dos empregados condenados a migrações alternantes
diárias cada vez mais duras.
Segregação aumentada igualmente pelo modo de seleção financeira
dos eixos rodoviários, todos eles radioconcêntricos (Al, A6 , Al3) ou destinados ao serviço imediato para o centro de direção parisiense (anel periférico, vias expressas).
Se passarmos para o período 1969-1972, a atribuição parece mais
moderada visto que o eixo oeste-leste do RER só recolhe 50% das verbas
destinadas pelo distrito aos transportes coletivos, enquanto os transporte~
rodoviários mostram, à primeira vista, um certo equilíbrio entre as novas
vias radioconcêntricas (A4, AIS, H6, Al4, etc.) e os trechos das vias alternativas A86 e A87 na periferia oeste e sul. Contudo, um estudo mais acurado mostra que o serviço ferroviário pela SNCF das quatro cidades novas
mais desenvolvidas (Cergy, Evry, Saint-Quentin, Marne-la-Vallée) é meramente radioconcêntrico, nada tendo sido feito para desencravar essas cidades periféricas e até as cidades novas com referência ao pólo dominante de
empregos concentrados entre La Défense e l'Opéra. O projeto de ligação
por aerotrem entre Cergy e La Défense só contribuiria para reforçar essa
tendência reduzindo a cidade nova à função de zona residencial-dormitório
para La Défense. Quanto à localização dos novos grandes eixos rodoviários
financiados durante esse período, pode-se ver no mapa elaborado pela
administração regional (5 7) que quase todos os trechos de vias alterna tivas
servem, de fato, para o serviço urbano da auto-estrada de ligação AIO ;
quanto à futura ligação La Défense-A86-Al5-Cergy-Pontoise, é provável
que seu papel seja idêntico ao do aerotrem, se a cidade nova de Cergy-Pontoise continuar a apresentar um desequilibrio sociológico entre a natureza
dos empregos que oferece e a da população que aloja(58) , Por outro Indo ,

o serviço efetuado por vias alternativas entre os grandes centros industriais
de la Seine-Saint-Denis e do Val-de-Marne é praticamente inexistente.
Ao terminar esta análise podemos pois questionar muito a oposição
ideológica planos/práticas, na medida em que os primeiros não escapam
nunca à "lógica" social que os produziu. Os planos não são "menos" segregativos que as práticas, e muito menos estão em oposição às práticas segrega tivas das políticas financeiras. De fato, ambos estão inscritos num mesmo processo social; processo complexo, é verdade, em que os diferentes
níveis conservam sua especificidade funcional - a norma estatal não tem a
mesma função do que a do processo de orientação conjuntural das verbas
públicas - mas processo coerente no seu conjunto na medida em que a
seleção das normas responde à das práticas financeiras. Essa lógica global
da política urbana leva-nos, por isso mesmo, a rejeitar a ilusão - corolário
da primeira - que vê nas práticas financeiras um caos desprovido de qualquer significação: operações casuais, díspares, mistura emaranhada de interesses particulares ou corporatistas.
A análise de longos períodos dos orçamentos regionalizados mostra
bem ao contrário, por trás dessas aparências, a continuidade e a coerência
de um processo de seleção urbanística que privilegia o equipamento de
algumas zonas urbanas de que se apropriou a fração de classe dominante
(Paris-La Défense) em detrimento dos equipamentos coletivos que deveriam beneficiar outras camadas sociais.

(57) Ver mapa p. 216.

(58) Dados disponíveis atualmente: cf. teste de 3.º ciclo de E. Campagnac
sobre Les villes nouvelles (Grenoble I, UER aménagement/urbanisation, abril de
1975). Para os empregos localizados nas cidades novas entre 1968 e 1972, cf. Quatre
années d'aménagement et d'equipement (196 9-19 72), Préfecture de la région parisien-

240

ne, op. cit., p. 87 e Cahiers de /'IA URP, vol. 22, p. 24. Para o alojamento, cf. o Bulletin d'Information de la région parisienne, 3, e La politique urbaine, op. cit., p. 256.

241

Capítulo IV

Política urbana
e segregação social
1. Política urbana e clivagens de classe

O capítulo anterior não considerou isoladamente política urbana e relações
de classe; ao contrário, tentou mostrar como uma análise "interna" do
conteúdo e da estrutura dos diferentes componentes da política estatal
leva forçosamente à determinação de sua função sociológica .
Contudo, por haver focalizado nossa análise nos invariantes estruturais da política urbana, só abordamos de modo alusivo ou ocasional os
problemas de suas relações com o conjunto da estrutura social; assim, o
objetivo principal dos três capítulos seguintes será o de examinar sistematicamente os vínculos entre os diversos elementos da "estrutura" política e
os processos de transformação das relações de classe, no estágio monopolista - em sua fase atual.
Será inútil repetir - os nossos dois primeiros capítulos já insistiram
bastante nesse ponto - que a hipótese fundamental que tentaremos verificar refere-se à correlação - ou ausência de correlação - entre a polarização
social e a política estatal. De fato, até onde se pode dizer que a política
urbana age sobre esse duplo processo de "monopolização" e de "proletarização" pelo qual caracterizamos a estrutura social do capitalismo monopolista de Estado(l)? Trata-se de uma "regulação" que atenua as clivagens
sociais ou, ao contrário, de uma "exacerbação" das contradições sociais?
(1) Cf. Cap. I, seção III, 2 a.

243

A análise que busca responder a essa série de perguntas articula-se
numa separação dos usuários dos meios de consumo "urbanos" em duas
categorias distintas: os que pertencem à reprodução do capital e os que
pertencem à reprodução da força de trabalho. Precisemos desde já que essa
divisão "mecanicista" das relações de classe em duas categorias externas é
puramente heurística, logo, provisória.
Caberá à análise concreta determinar qual é, hoje, no estágio atual do
desenvolvimento do capitalismo francês, a principal linha de divisão entre
as classes sociais no âmbito da urbanização.

2. A desigual distribuição dos equipamentos sociais;
segregação ou estratificação social?

Porém, se aceitarmos - provisoriamente - esta divisão entre dois
tipos essenciais de meios de consumo coletivos, podemos dizer que as
camadas médias assalariadas, com relação ao capital monopolista, desempenham junto aos trabalhadores assalariados o mesmo papel-chave que o
médio capital desempenha junto às diferentes frações capitalistas. De fato,
à leitura das diversas pesquisas sociológicas referentes à situação e à posição de classe das camadas urbanas assalariadas, parece que o problema-chave dos anos 60 gira em torno de suas relações com a fração dominante
do capital e de seus representantes políticos.
B o que vamos tentar mostrar através da análise dos efeitos da nova
política urbana rnonopolista sobre essas camadas sociais. A hipótese de
uma clivagem fundamental entre os interesses "urbanos" da classe operária
e os das camadas médias assalariadas, sobretudo dos executivos, baseia-se
na análise de três tipos de segregação social e espacial:
uma primeira segregação, no nível da habitação - a lógica "operária"
da "renovação-deportação" opondo-se à lógica do "emburguesamento" do centro urbano renovado ou das residências "para executivos";
uma segunda segregação, no nível dos equipamentos coletivos ( creches, escolas, equipamentos esportivos, sociais ... ) - o subequipamento dos conjuntos "operários" opondo-se ao "superequipamento"
dos conjuntos "burgueses";
enfim, uma terceira segregação, no nível do transporte domictlio-

244

-trabalho - a crise dos transportes coletivos para o operariado contrastando com os privilégios "burgueses" do uso do automóvel.
Talvez possa o leitor achar que estamos forçando, quase caricaturalmente, as três clivagens sobre as quais se apóia a hipótese de uma fundamental oposição de classes entre classe operária e dirigentes. Precisaremos
apenas que, atenuando portanto nossa primeira formulação, a maioria das
análises sociológicas que vamos examinar focalizam a contradição não
tanto sobre os empregados ou até sobre os chefes de nível médio, mas
sobretudo sobre os chefes-engenheiros, chefes da produção ou da administração. Além de nossa própria pesquisa sobre Lyon, duas obras parecem
fornecer material bastante rico a respeito desse assunto : o trabalho coletivo
sobre La rénovation urbaine à Paris e o de Castells e Godard sobre Monopolville (Dunquerque). O primeiro oferece, a nosso ver, um certo contraste
entre uma referência - meio frouxa - às categorias particularmente vagas
de "média burguesia", "nova pequena burguesia"(2) e um estudo empírico
bastante rigoroso e fecundo dos famosos "equipamentos coletivos" que
teriam "favorecido" as novas camadas que ocupam os espaços urbanos
renovados.
No que se refere, inicialmente, aos equipamentos escolares, os autores assinalam que se "o nível de equipamento escolar (elementar) das operações de renovação comparado ao dos arrondissements onde elas são
implantadas se revela, no conjunto, superior", há "duas exceções notáveis:
Hauts-de-Belleville, Italie, se só forem levados em conta os equipamentos
criados"(3).
Ora, estas duas últimas operações são justamente as que foram assumidas integralmente pelos bancos d'affaires ... e onde a porcentagem de
"habitações de categoria para executivos" é a mais elevada.
Como mostram os autores, "para as operações de status social elevado e com características de prestígio, a parte atribuída aos equipamentos
escolares é quase sempre bem fraca"( 4).
As creches, porém, são o único equipamento que está em quase
todas as operações de renovação, embora os autores constatem que o número de leitos previstos é o mesmo "quer seja o programa para 534 habitações, quer seja para 4 335". Retomando as normas do Ministério da Educação nacional (0,3 crianças por habitação, entre 3 e 5 anos, pode freqüentar
(2) Op. cit. , p. 98.
(3) La rénovation urbaine à Paris, Mouton, pp. 45-46 .
(4) La rénovation urbaine à Paris, op. cit., p. 46 e quadro p. 45.

245

a maternal) e estimando em 50% a proporção de mulheres ativas ( que
devem mandar os filhos à creche), "seria preciso prever 0,05 lugar por
habitação, ou seja, uma creche com 40 leitos para 800 habitações e uma
creche de 60 leitos para 1 200 habitações, ou seja, ainda, 15 leitos para
cada 1 000 habitantes"(5) . Diante dessa demanda, a média parisiense para
as creches é de 1,2 leitos por 1 000 habitantes. Os arrondissements mais
bem servidos são, como para o equipamento escolar, o XIII e o XX (2,8
leitos/1 000 habitantes).
Se examinarmos agora o terceiro equipamento escolhido pelos autores - as áreas verdes - chegaremos à mesma conclusão. Comparadas a uma
situação de conjunto bastante catastrófica (média parisiense= 0,814 m2 de
área verde por habitante), as operações de renovação ficam, para 57% dos
espaços a renovar, abaixo da média parisiense; 21 % prevêm médias situadas
entre 0,8 e 2,25 m2/habitante, e só 22% ultrapassam a média de 2,25 m2/
/habitante. verdade que está "prevista" uma área de 8 ha em Bercy, que
novos projetos surgiram há pouco em Front-de-Seine e, ultimamente, nas
Halles. Mas a questão é saber como esses "programas" serão realmente aplicados em operações cada dia mais sujeitas à lei do lucro, como constatamos anteriormente, apoiando-nos sobretudo no estudo de Denis Duelos.
Ora, todos os números - já bastante baixos - que nos fornecem os autores
de La rénovation urbaine à Paris são tirados dos programas e não das realizações< 6 >. Dados esses plenamente confirmados por nossa própria pesquisa
em Lyon e Villeurbanne. Assim, entre as últimas operações de renovação,
onde a porcentagem de "habitações de categoria" é a mais alta - como a
segunda faixa da ZAC do Tonkin, em Villeurbanne(7) - dois blocos escolares com apenas 20 classes e mais 8 classes para o maternal são "previstos"
para cerca de 3 500 crianças. Ora, mesmo aceitando as normas ministeriais
(uma classe primária para 33 crianças, uma maternal para 49 matriculadas),
as 40 classes primárias só poderiam receber 1 320 crianças, e as 8 classes do
maternal 392, ou seja, um total de 1 712 crianças, ao passo que uma esti-

:e

(5) Op. cit., p. 47.
(6) Op. cit., p. 45, n. 38: "Nossos dados (trata-se precisamente dos equipamentos escolares) referem-se a 1965, não tendo sido realizado até esta data, pela ORU,

nenhum equipamento escolar".

(7) De fato, das 3 500 habitações "programadas" na ZAC do Tonkin há apenas 2% de habitações sociais (100 PSR), todo o resto repartindo-se entre habitações
em co-propriedade (1 800, ou seja, mais de 50% do total), habitações de aluguel subvencionadas (1 000), alguns ILN (200) e, enfün, habitações não subvencionadas (400,
ou seja, 11 % do total).

246

mativa razoável deveria prever que houvesse em média 0,8 crianças por
habitação, ou seja, 2 800 crianças.
Do mesmo modo, a ZAC Gabriel-Perl em Villeurbanne só prevê 20
classes para 3 500 habitações. A situação não é nada melhor para as creches: há ao todo 17 creches em Lyon que receberam 881 crianças em 1969.
Ora, 30 000 mulheres casadas trabalham em Lyon. Quanto à média de área
verde por habitante (0,5 m2) é ela ainda inferior à média parisiense. As
"facilidades" de transporte oferecidas aos novos ocupantes das ORU também não passam de ilusão. Para ficarmos só em duas operações "de categoria" - Maine-Montparnasse e "ltalie" - eis qual é a situação previsível a
curto prazo. Mesmo admitindo que o quadriculado relativamente ~údo da
rede de transportes coletivos que recorta Maine-Montparnasse( 8) seJa reforçado por uma rede de radiais e de vias alternativas rodoviárias(9), cabe
perguntar, como o faz o Atelier parisien d'Urbanisme, se esse projeto qu_e
facilita o acesso por automóvel, "não trará um afluxo suplementar de ve1culos que, desembocando pela radial Vercingétorix nas imediações da estação Montparnasse, virá engarrafar as vias incapazes de escoarem esse volume suplementar"00). Além disso, a comercialização do setor III (a Tour
Montparnasse e as galerias comerciais, ou seja, 11 000 empregos) certame~te provocará um afluxo de novos migrantes diários que mais cedo ou mais
tarde lotarão o conjunto dessa rede de transporte.
O mesmo fenômeno é previsto para a operação Italie pelos autores
de La rénovation urbaine à Paris.
"(Embora) não se conheçam os prazos nem para a construção ~a
rede expressa nem para a da linha n. 0 5 do metrô, (é esperado que haJa)
13 000 empregos de escritório e 7 000 empregos em novas lojas ... um
importante fluxo de população drenado por gigantescos centros comerciais ... (;) o atual engarrafamento das linhas de metrô e de ônibus que
servem o bairro faz prever uma situação crítica, por volta de 1973-75, para
essa parte da capital"( 11).
(8) Três linhas de metrô norte-sul, uma linha leste-oeste, onze linhas de ônibus.
(9) Sobretudo um subterrâneo na avenida do Maine, sob a laje com áJ:ea verde
que liga a estação Montparnasse à Tour Montparnasse; o alargamento de certas ruas, a
radial Vercingétorix que deve ser conectada ao anel periférico e enfim uma via alternativa interna - não programada.
(10) A. Berthier, "Maine-Montparnasse avant la Tour", Paris-Projet, 4, 1970,
p. 86.
(11) Ver também pp. 58 e 102.

247

O estudo que empreendemos de dois grandes conjuntos do subúrbio
de Lyon - La Duchêre e Bron-Parilly - não só confirma esses fatos mas
parece-nos mostrar a semelhança de situação do conjunto dos trabalhadores assalariados, sejam eles executivos, empregados ou operários.
O conjunto de La Duchêre, como o de Bron-Parilly, reagrupa não só
bairros predominantemente operários como também bairros de habitações
em co-propriedade onde os executivos são majoritários<12). Ora, estatísticas do serviço regional das Ponts et ChausséesO 3) revelam que 60,2% das
familias de operários têm carro, ou seja, praticamente tanto quanto os
chefes de nível superior (62,5%), menos do que os chefes de nível médio
(75%), mas bem mais do que os empregados (45%). No grande conjunto de
La Duchêre, 56% dos operários têm carro, enquanto entre os chefes de
nível médio são 79%, entre os chefes de nível superior 61 % e entre os
empregados só 31 %.
Essa forte porcentagem de motorização fica facilmente explicada se
forem considerados os trajetos domici1io-trabalho que os trabalhadores
desses dois grandes conjuntos devem efetuarO 4).
Diante da fraca freqüência dos ônibus que servem La Duchêre ou
Bron-Parilly e que fazem a ligação com o centro de Lyon, é fácil compreender que o automóvel tenha sido, nos anos 60, um precioso auxiliar
para os trabalhadores desses grandes conjuntos que se vêem hoje confrontados com a crise generalizada dos transportes urbanos, tanto coletivos
como individuais.
É o que assinalam os serviços das Ponts et Chaussées de Lyon a respeito do tráfego rodoviário La Duchêre-centro-de-Lyon: "já muito sobrecarregadas, as vias de acesso ( do grande conjunto) prometem um considerável congestionamento futuro: via de acesso à nacional 6 = 3 650 veículos
por dia, e à nacional 89 = 8 200 veículos por dia, estas suportando, por dia,
22 000 e 24 000 veículos, respectivamente"(l 5).

A mesma constatação é feita no já citado estudo sobre Dunquerque,
em que os autores notam que a grande nova vila industrial das Grandes-Synthes tem uma forte taxa de motorização (65%) - onde, é bem verdade, os veículos de duas rodas são quase tão numerosos quanto os carros
(12)
(13)
(14)
(15)

Cf. La politique urbaine dans la région lyonnaise, op. cit., p. 183, § 3.
OTR de Lyon-Bron.
ID, La politique urbaine dans la région lyonnaise, p. 182.
Op. cit., p. 183.

- enquanto os executivos que moram no leste sofrem com a estrutura
fracionada da rede rodoviária, visto o lado leste estar separado do oeste por
uma travessia central bastante difíciJ(l 6).

A REPARTIÇÃO SOCIAL E ESPACIAL DA HABITAÇÃO

Convém, porém, examinar o que constitui talvez a mais forte segregação social: a localização da habitação; seria esconder a realidade deixar
de constatar a segregação espacial cada dia mais forte entre locais de residência dos executivos e locais de residência dos operários e empregados. :É
assim que os autores de Monopolville opõem o oeste - operário e industrial - da aglomeração de Dunquerque, ao leste - "burguês" e residencial.
Também na aglomeração de Lyon, segundo um estudo de Economie et
HumanismeO 7), ao lado da oposição entre centro e subúrbio teria surgido,
depois de 1962, uma outra segregação espacial entre oeste e leste: "A leste
do eixo Rhône-Saône, a zona das grandes operações imobiliárias onde
foram concentrados (e continuam a ser), em habitações essencialmente de
aluguel cuja taxa de ocupação aumenta gradativamente, milhares de jovens
casais de meio modesto que, por causa da sua idade, têm filhos pequenos.
A oeste, a zona das pequenas operações imobiliárias, para onde vão, de
livre e espontânea vontade, em habitações das quais são quase sempre
proprietárias e cuja taxa de ocupação tem tendência a diminuir, as fam~i~s
do meio "executivos e profissionais liberais" que têm, visto ser a sua media
de idade mais elevada que a de leste, filhos com idades mais bem distribuídas"0 8).
Contudo, se for examinada mais de perto a distribuição dessas diversas categorias sociais pelo conjunto das novas habitações construidas, tanto
na aglomeração de Dunquerque como na de Lyon, será necessário atenuar
essas primeiras constatações.
Assim, para Dunquerque, Castells e Godard mostram que quase todo
o novo habitat construído, depois da implantação de Usinor, concentra-se
"em zonas operárias e industriais do oeste e do centro da aglomeração", ao
contrário do projeto "funcional de separação leste/oeste = residência/tra(16) Monopo/vil/e, p. 259.
(17) Les besoins en /ogements dans l'agglomération lyonnaise (1971-1976),

estudo encomendado pelo Centre d'f:tudes de Conjoncture immobiliere (CECIM) de
Lyon.
(18) La politique urbaine dons la région lyonnaise, p. 153.

249
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balho"(l 9). Ora, se for examinada a distribuição das CSP no maior conjunto imobiliário construído, o das Nouvelles-Synthes, "aí se encontram não
só chefes de nível médio e administradores, como também operários"(20),
um bom número de habitações individuais construídas em vista da acessão
à propriedade estando misturadas com imóveis coletivos de aluguel.
Também, na aglomeração de Lyon, foi possível constatar uma forte
distância entre a distribuição espacial das habitações postas à venda (trata-se pois apenas do setor co-propriedade) e a das habitações realmente
vendidas. Assim, no primeiro trimestre de 1971, sobre as 6 360 habitações postas à venda - e quase todas localizadas a oeste da aglomeração só 1 089 foram vendidas. Ora, 56% (616) foram vendidas no subúrbio
leste(11).
Essa constatação que pudemos fazer em Lyon sobre o caráter muito
relativo da "segregação espacial" camadas assalariadas médias/operários
provocou inúmeras reações - diríamos passionais - entre vários sociólogos
e urbanistas acostumados a identificar, sem exame critico, a despopulação
dos grandes centros urbanos com o reforço da segregação espacial entre
operários e executivos.
Ora, acontece que um recente estudo do Centre de Sociologie urbaine - Ségrégation spatiale et déplacements sociaux dans l'agglomération
parisienne(22) - reforça, a nosso ver, esta nossa interpretação.
Na medida em que, além do mais, ele se refere a um longo período
(1954-1968) - que abrange sobretudo a época das grandes operações de
renovação - e concerne ao conjunto da aglomeração parisiense, esse estudo tem a vantagem de oferecer uma resposta científica - indiscutível aos problemas causados pela relação espacial entre as diversas camadas
sociais de moradores.
Achamos útil retomar aqui as principais conclusões dessa obra. De
fato, segundo os autores, "a segregação entre, de um lado, os operários, e,
de outro, os profissionais liberais e os chefes de nível superior, foi mantida
sem aumentar (de 1954 a 1968). Tornou-se, ao contrário, reduzida entre
os operários e os chefes de nível médio"(23).
Mas o subúrbio não se torna por isso mais "popular" - segundo a
expressão dos autores - pois "o número de chefes de nível médio e supe(19) Monopolville, p. 216.
(20) Monopolville, p. 214.
(21) ·La politique urbaine dans la région lyonnaise, op. cit., p. 156.
(22) M. Freysseinet, T. Regazzola, J. Retel, CSU, 1971.
(23) Op. cit., p. 11.

250

rior cresce ai bem mais depressa do que o dos operários, de modo que a
. · · "(24)
porcentagem de operários chegou mesmo a dlffi~Urr
_Se por um lado aderimos à análise propnamente dita destes deslocamentos sociais, por outro temos as mais nítidas reservas qu~to ao _vocab~:
lário não científico e proveniente, no fundo, de uma vulgar 1deolo~a dom
nante, que foi usado para "interpretar" es~es deslocament?s .•~ssim'. fala,~
_ a respeito das camadas assalariadas médias - de ca~egona~ supenores
como opostas às "categorias populares", é confundrr análise das classes
sociais com análise da estratificação social e, ao mesmo tempo, postular
uma divisão social fundamental - indiscutível e eterna - entre essas camadas sociais, enquanto a análise sociológica mostra com clareza as mudanças
que estão acontecendo no nível da situação urbana.
De qualquer forma, os autores chamam muito bem a atenç!o para o
uso não crítico da noção de "segregação" e da express~o "r~novaç~o-deportação". É verdade que os operários foram a categona ~oc1al mazs a(eta~a
pelo movimento de deslocamento da população _de Pans par~ o su_burb1~,
mas "com relação à nova repartição da populaçao, os operários nao estao
·
t e"(25) .
no subúrbio mais do que estavam ant1gamen
o que pode ser explicado por um dado bastante simples m!s, a noss?
.un portante· "Todas as categorias sociais tiveram a sua fraçao de hab1ver,
.
b 1 "
tantes de Paris diminuída em valor relativo e também em valor a souto
com exceção dos chefes de nível superior, embora estes últimos aumente_m
bem menos em Paris(+ 3,4%) do que no subúrbio(+ 51,6%)( 26 >. O obJetivo da citada pesquisa não era de explicar mas sim ~e constata~ esses
deslocamentos sociais, e por isso não nos apresenta uma mterpretaçao global. Vamos nós propor aqui duas hipóteses.
.
Primeira hipótese: a segregação urbana, que se torna hoJe fundamental, confunde-se cada vez menos - com exceção de _uma ~nfima camad~ _da
grande burguesia - com a tradicional segregação reszdencza~ entre opera_n~s
e camadas médias assalariadas. Ela se manifesta bem mais pela opos1çao
entre a função de direção do centro urbano tran_sformado em centro ~e
negócios e a função residencial como tal. Resummdo, a atual segregaçao
urbana implicaria mais uma despopulação geral dos grand~s- centros urbanos do que a substituição de uma camada social (os operanos) por outra
( os executivos, por exemplo).
(24)

Op. cit., p . 11.
(25) Op. cit., p. 12.
(26) Ver quadro na página seguinte.

251

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Para poder ser verificada, tal hipótese supõe a validação de uma
outra hipótese, subordinada à primeira, ou seja, um certo parentesco nas
causas, nas condições sociais e nas conseqüências desses deslocamentos das
diversas camadas de assalariados de Paris para o subúrbio. Em outras palavras, uma certa comunidade de interesses de todos os trabalhadores assalariados quanto ao afastamento do centro. Digamos desde já que tal interpretação não é absolutamente partilhada pelos autores do estudo citado, já
que eles afirmam que se "os deslocamentos de Paris para o subúrbio não
são próprios das categorias populares", "o que lhes é próprio e cria um
problema social são as causas, as condições e as conseqüências dessa transplantação"(27).
Afirmação que é explicitada da seguinte maneira: "Não é a mesma
coisa receber, vindo de outras zonas, gente que queria e podia sair de lá ou
gente que tenha sido obrigada a sair (programa de renovação, nível dos
aluguéis, deslocamento do local de emprego ...). Logo, mesmo se o movimento é o mesmo, suas causas, o processo em que se insere, podem ser
bem diferentes"(28).
Apesar desta análise parecer indiscutível no plano metodológico e
abstrato ( é verdade que as causas e condições desse movimento podem ser
bem diferentes) ela nos parece invalidada pelos fatos justamente no que se
refere ao deslocamento dos operários e das camadas médias assalariadas.
De fato, afirmar que os executivos que se instalam maciçamente no subúrbio fazem isso "porque querem e podem" não nos parece compatível conr
um estudo sério, objetivo, de suas injunções orçamentárias·, principalmente
com relação ao preço da moradia na capital. Notemos aliás que os autores
contestam-se a si mesmos quando fazem alusão, algumas páginas adiante, a
um estudo anterior onde demonstravam que são os chefes de nível médio
"que têm o tempo de trajeto domicilio-trabalho mais longo, que mais freqüentemente mudam de casa ... , que são os mais descontentes com as
condições de transporte e com o bairro" ... descontentamento que se
traduz diretamente quanto à habitação (preço, condomínio, qualidade),
aos transportes, aos equipamentos comerciais e sócio-culturais(29).
Ora, a pesquisa que já citamos de Economie et Humanisme sobre as
conseqüências espaciais, na aglomeração de Lyon, da distorção entre a
(27)
(28)
(29)

Op. cit., p. 11.
Op. cit., p. 19.
Op. cit., p. 19.

253

oferta e a procura de habitação nova ( como acessão à propriedade) parece
confirmar nossa hipótese.
De fato, se a maioria das habitações novas é vendida na zona industrial e operária do leste e não nas colinas residenciais do oeste, é porque há
um vínculo determinante entre as injunções orçamentárias dos eventuais
compradores(30) e o êxito das vendas de habitações no lado leste da aglomeração. A pesquisa mostra que as habitações à venda mais baratas concentram-se a leste e não a oeste - onde, é verdade, são mais numerosas mas
também mais caras. É provável que idênticas constatações possam ser feitas
em Paris e em certos setores "residenciais" do subúrbio parisiense onde
atualmente se concentram dezenas de milhares de habitações muito caras
e invendáveis. A pesquisa sobre a aglomeração de Lyon é, de qualquer
modo, formal neste ponto: no primeiro trimestre de 1971, uma entre três
habitações vendidas valia menos de 1 100 francos o metro quadrado; apenas 11 % das habitações vendidas valiam de 1 700 a 2 000 francos - ou
mais - o metro quadrado. Ora, a oferta de habitações valendo menos de
1100 francos o metro quadrado é bastante concentrada no subúrbio leste
(92%) onde se efetua a quase totalidade das vendas (93%); essa oferta
porém não existe em Lyon. Pode-se, enfim, constatar a forte diferença
entre a distribuição dos preços das habitações oferecidas e a dos preços das
habitações vendidas. Se as habitações por menos de 1 180 F /m2 constituem
32% da venda, em compensação elas só representam 12% da oferta. Na
outra extremidade, as habitações de 2 000 francos e mais - 8% da oferta só constituem 4% da venda. Até as habitações de categoria intermediária
são atingidas pela não-venda, já que as compreendidas entre 1 100 e 1 500
francos - representando 59% das habitações oferecidas pelos incorporadores - constituem apenas 45% das habitações vendidas. Essa crise de superprodução fica facilmente explicada se compararmos os preços das habitações oferecidas com os salários líquidos anuais por CSP no departamento
do Rhône. Assim, 48% das habitações oferecidas em 1968 são por mais de
1 500 F /m2, ou seja, 120 000 francos o apartamento de 80 m2; ora, a
fração mais bem remunerada dos assalariados ( chefes de nível superior, ou
seja, 5,2% da população ativa no Rhône) ganha 45 226 francos por ano; os
chefes de nível médio (11,9%) têm em média uma remuneração duas vezes
menor; os operários (43%) quatro vezes menorC31).
Infelizmente dispomos de pouquíssimos dados sobre a evolução do
(30) Cf. La politique urbaine dans la région lyonnaise, op. cit., p. 155.
(31) La politique urbaine dans la région lyonnaise, op. cit., p. 155.

consumo das camadas médias assalariadas, sobretudo no que se refere ao
bem "habitação". :É verdade que Establet e Baudelot lembram que um
membro de uma famfüa de executivo consome mais que um membro de
uma famfüa de operários especializados02) e gasta uma parte maior do
seu orçamento com cultura, lazeres, transportes e casa(3 3).
Simples conseqüência do fato - que não se pode absolutamente
ignorar - que um executivo de nível superior ganha, em média, seis vezes
mais que um trabalhador manual. Resta saber se, por isso, se deve considerar esses fenômenos de estratificação social (no nível das relações de repartição) - é ó que acham os autores - como efeito direto de relações de classes antagônicas, logo, de relações de produção. Não cabe aqui examinar as
hipóteses de Baudelot e Establet sobre a "retrocessão da mais-valia" para
as camadas médias assalariadas, definidas por eles como a "classe" dos
pequenos burgueses(34). Diremos apenas que essa tese parece esquecer
totalmente o vínculo fundamental que une as relações de consumo com a
contradição principal das relações de produção atuais, isto é, a oposição
entre a fração monopolista - o capital financeiro - e o conjunto das
camadas não monopolistas. Ora, essa divisão de classe, determinante, a
nosso ver, para as atuais relações de produção capitalista, não deixa de ter
efeito sobre a estrutura das relações de repartição, e sobretudo sobre o
acesso à habitação.
Infelizmente não temos estudo específico sobre a evolução da taxa
de esforço dos executivos em matéria de habitação; mesmo assim as pesquisas de C. Topalov(35) autorizam-nos a afirmar sem hesitação que:

1) as despesas dos executivos com habitação caracterizam-se cada vez
mais, desde 1963, por uma drenagem maciça de seus rendimentos
pelo capital financeiro;
2) as atuais condições do crédito bancário fazem da maioria dos assalariados que acedem à propriedade, em vez de pessoas "privilegiadas"
(32) La petite bourgeoisie en France, Maspero, 1974, p. 242.
(33) Op. cit., quadro, p. 243.
(34) Hipóteses baseadas, a nosso ver, numa análise grosseira e simplista da
formação da força de trabalho complexa; cf. Jacques Chaillou, "Travail simple,
travail qualifié et hiérarchie des salaires en économie capitaliste", La Pensée, 176,
agosto de 1974.
(35) Capital et propriété fonciere, primeira parte, Cap. II: "Capitalisme monopoliste d'Etat et diffusion de la propriété d'occupation", Centre de Sociologie urbaine, 1973, pp. 89-188.

255

com relação aos inquilinos, pessoas exploradas, obrigadas, por causa
da alta taxa de esforço exigido pelos bancos, a procurar moradia na
periferia.
No que se refere ao primeiro ponto, C. Topalov mostrou(36) como o
aumento das taxas de juro dos empréstimos especiais do Crédito fundiário,
a definição de novos tetos de renda que excluem as famfüas de renda
média, vão gradualmente obrigando as camadas médias assalariadas a recorrer aos empréstimos bancários com altas taxas de juro.
Assim, no conjunto das habitações destinadas à venda, a parte do
setor sob financiamento bancário passa de 27,6% em 1962 a 62,8% em
1965. Ora, nesse setor, segundo C. Topalov, "a diferença dos encargos de
reembolso é de 45% entre os que mudaram recentemente e o conjunto das
famílias, sendo que a renda média necessária para morar nesse setor da
área imobiliária aumenta". Isso leva-nos ao segundo resultado do estudo de
Topalov: "A taxa de esforço aumenta ... consideravelmente, passando de
19% a 26%: essa grande punção realizada na renda é a conseqüência direta
da inserção do capital bancário na circulação das habitações produzidas
nesse setor"(3 7).
.É verdade que o estudo não prova diretamente que os que acedem à
propriedade no setor controlado pelos bancos venham especificamente
das camadas médias assalariadas; mas, a nosso ver, isso fica demonstrado
indiretamente na medida em que prova que os executivos são a categoria
mais atingida pela acessão à propriedade(3 8).
Além disso, é na faixa de renda anual de 20 000-50 000 francos
( dados do INSEE de 1966) que a proporção de proprietários e de endividados é superior à média; ora, aí se encontra a maioria dos executivos
(50,9% dos executivos de nível médio, 64,4% de executivos de nível
superior).

Só uma ínfima minoria de executivos - 2,5% do conjunto da população atingida pela pesquisa - pode financiar a propriedade que ocupa
graças a um patrimônio e não a uma renda comum sujeita à punção bancária. Ao contrário, a forte alta da taxa de esforço parai a maioria dos execu(36) Op. cit., pp. 135 e 140.
(37) Op. cit., p. 139.
(38) Op. cit., p. 123: 22,5% das famfüas cujo chefe é executivo de nível superior e 22,2% das fam11ias cujo chefe é um executivo de nível médio estão em processo
de acesso à propriedade - ao passo que na categoria dos empregados são 16% e na
dos operários são 14,9% (pesquisa 1967).

tivos mostra que sua renda não acompanhou a alta dos encargos de habitação, apesar de um elevado peso relativo das famfüas atingidas por essa
alta(39).
Concordamos com a interpretação que C. Topalov propõe para o
fenômeno: "Sem dúvida trata-se de um dos efeitos da tendência geral que
leva, por causa da mudança de seu lugar nas relações de produção, a uma
regulação da remuneração da maioria dos executivos, não mais por uma
redistribuição de uma parte da mais-valia, mas sim pelo custo de reprodução de sua força de trabalho"(40) . .É claro que isso ainda não foi demonstrado mas não é o objeto deste nosso estudo.

(39) Op. cit., p. 101.
Segundo o estudo do Centre d'Analyses et de Prévision Immobilieres (~~PEM~,
a taxa de esforço para a família que deseja adquirir um apartamento na regrno parisiense dobrou de 1971 a 1974, ou seja, num período de quatro anos. O exemplo para
a comparação é o da compra de um apartamento de três cômodos, cuj_o comprador
pede como empréstimo 80% do preço da venda, com o prazo de dez01to anos. Nos
dois casos o comprador fica muito endividado (cerca de 30% do que ganha). Pode-se,
então, determinar o montante mensal mínimo da renda necessária para comprar esse
apartamento.
Preço
Contribuição pessoal (arredondada)
Empréstimo
Encargos mensais
Salário mensal necessário
Preço
Contribuição pessoal
Empréstimo
Encargos mensais
Salário mensal necessário

Janeiro de 1971
189000 F

38000
151000
1630
5400

-

Julho de 19 74
280000 F

56 000 224 000 3020 10100 -

Para realizar a mesma operação, o comprador em julho de 1974 devia dispor
de uma contribuição pessoal de 18 000 F a mais do que a contribuição de 1971 (a
contribuição pessoal aumentou portanto de 4 7%). Ora, mesmo estimando a progressão do poder aquisitivo em 10% ao ano, em média, um salário de 5 400 francos em
1971 não iria além de 7 600 francos em 1974. Isso explica a brutal queda das vendas
que se verifica atualmente, com muitos candidatos à casa própria preferindo adiar a
operação.
(40) Op. cit., p. 101.

257

COMUNIDADE DE EXPLORAÇÃO E DIVERSIDADE DE SITUAÇÕES
NAS RELAÇÕES DE REPARTIÇÃO E DE CONSUMO

Parar neste ponto de nossa análise - ou seja, considerar somente os
elementos objetivos que reúnem essas diversas camadas de assalariados significaria não entender as vivas resistências, ideológicas e políticas, que
se manifestam nessas camadas com referência à idéia de uma "comunidade
de situação". De fato, já notamos o peso da hierarquia dos salários, do
acesso desigual aos meios de consumo e à cultura. Também é bom lembrar
as justas observações de Chamboredon e Lemaire sobre a não-coincidência
entre proximidade espacial e proximidade social( 41); a coabitação das
camadas médias assalariadas e da classe operária nos grandes conjuntos
habitacionais pode muito bem exacerbar a consciência que elas têm de
sua "distância social" em vez de ser um cadinho unificador< 42 ). A esse
respeito, concordamos plenamente com a crítica muito acertada feita por
Chamboredon e Lemaire sobre a "sociologia espontânea" do gosto "ou das
disposições para a comunicação", à qual eles opõem o tratamento científico da heterogeneidade das pressões sociais que determinam efetivamente
a localização das diferentes camadas sociais. Não podemos, porém, aceitar
a identificação infundada, que percorre toda a análise desses autores, dessa
heterogeneidade - constatada - entre estratos sociais com a oposição postulada - de classes sociais com interesses antagônicos.
Também nos parece gratuita a afirmação de que as condições de
instalação das camadas médias nos grandes conjuntos estariam perfeitamente de acordo com suas aspirações específicas( 4 3 ).
O mito pelo qual se assimilam as camadas médias assalariadas a camadas "favorecidas" pelo sistema econômico capitalista, sobretudo em matéria de habitação, não resiste a uma análise concreta, como ficou demonstrado nos estudos em que nos baseamos.
Também é fundamental não cair no excesso contrário, substituindo
o postulado ideológico da "contradição classes superiores/classes popula(41) "Proximité spatiale et distance sociale, les grands ensembles et leur peuplement", Revue française de Sociologie, janeiro de 1970, p. 32.
(42) Cf. a crítica de nossa obra La politique urbaine dans la région parisiense
por M. Blanc e J. Maltcheff (Espace et Société, 12, p. 160).
.
(43) "A instalação tem portanto um efeito de ruptura para os grupos mais
desfavorecidos, enquanto, para os outros, ela permite o desenvolvimento de um
estilo de vida próprio. .. as classes médias podem realizar suas aspirações", op. cit.,
p . 22.

res"(44) pelo postulado não menos ideológico de uma "comunidade"
total de situação entre todos os moradores dos grandes conjuntos. Nesse
sentido, a análise das diferenças, e até das contradições secundárias entre a
classe operária e os executivos, por exemplo, é um momento necessário da
análise global das condições objetivas nas quais se vão definir os pactos
de classe.
Não pretendemos absolutamente negar essas divergências, essa heterogeneidade(45), mas simplesmente relativizá-las na medida em que decorrem, a nosso ver, não de uma contradição de classes antagônicas, mas de
contradições secundárias entre camadas sociais sujeitas, senão a uma mesma forma de exploração, pelo menos à mesma fração de classe exploradora. É assim que as percepções divergentes do grande conjunto habitacional
pelas diferentes camadas sociais de moradores, mesmo que decorram das
diversidades das pressões sociais às quais estão sujeitas, só são determinantes na medida em que as camadas médias gozam de condições extremamente favoráveis à sua instalação (sobretudo crédito barato). Ao contrário,
o acúmulo de condições desfavoráveis pode levá-las a pôr em primeiro
plano a contradição de classe que opõe todo o grupo dos moradores ao
incorporador do conjunto habitacional. A experiência coletiva que as
camadas médias têm de uma contradição social mais fundamental do que
;1s que elas percebem "espontaneamente" questiona então totalmente as
análises sociológicas baseadas no postulado de uma ausência total de exploração das camadas médias assalariadas pelo capital monopolista.
A consciência do questionamento global de seus meios de consumo
pode então levar à luta econômica e até ao combate político que permitem
relegar a segundo plano a distância social que separa os diferentes estratos
de moradores. O estudo de Castells e Godard sobre Dunquerque oferece
um bom exemplo disso quando analisa as reações dos operários, dos funcionários e executivos de nível médio que se vão instalar no grande conjunto das Nouvelles-Synthes(46). A "distância social" entre as moradias
individuais de uns e os imóveis coletivos dos outros não vai impedi-los de
se unirem contra o incorporador quando eles constatam a deplorável qualidade das habitações, sejam coletivas ou individuais.
E ainda: "a acessão à propriedade foi recusada por inúmeros inquili(44) Cf. Chamboredon e Lemaire, op. cit., sobretudo pp. 12, 13, 19 . ..

(45) Marx mostrou muito bem a heterogeneidade dos componentes da classe
operária sem com isso deixar de sublinhar sua unidade (cf. René Mouriaux, Livro I do
"Capital et sociologie de la classe ouvriêre", La Pensée, 156, dezembro de 1972).
(46) Op. cit., p. 214.

259

nos que chegaram a ganhar um processo contra o incorporador, obrigando-o
a retomar a propriedade dessas habitações"( 4 7). A consciência de uma
comunidade de exploração traduziu-se, enfim, no plano político, por uma
vitória da Union de la Gauche (União das Esquerdas) nas duas eleições
municipais de 1971.
Também, o estudo coletivo sobre Rennes, apesar de sua tendência a
superestimar as contradições entre camadas médias ,e classe operária, distingue contudo a "contradição principal (que) ocorre entre os interesses da
massa dos moradores e o processo de produção do bairro globalmente
pautado pelos interesses da classe dominante" das "contradições secundárias entre certas categorias de moradores cujos interesses e aspirações são,
senão sempre opostos, pelo menos bastante especificados"(48) .

3. O desigual acesso aos meios coletivos de reprodução do capital
Até agora procuramos definir o conteúdo sociológico das políticas
urbanas tomando como referência sua dupla destinação: a reprodução do
capital e a reprodução da força de trabalho sob as diversas formas de socialização do espaço.
Ficar apenas nisso - ou seja, reduzir a política urbana à oposição
entre capital e trabalho - seria ignorar as contradições de interesse que
surgem no interior da esfera do capital, entre os usuários monopolistas e
os usuários que pertencem ao pequeno e médio capital.
Uma análise exaustiva dos meios de reprodução do capital exigiria
que fossem examinados tanto os meios de reprodução do capital produtivo
(industrial) quanto os meios de reprodução do capital circulante-improdutivo: capital comercial e capital bancário. Neste item examinaremos apenas
dois tipos de meios de reprodução e duas frações do capital particularmente determinantes na produção das cidades, ou seja, as zonas industriais
e os centros comerciais.

(47) Jbid., p. 215.
(48) Armei Huet, etc., op. cit. , p. 158.

260

1 'APIT AL

INDUSTRIAL E POLI'TICA URBANA

Nossa demonstração será baseada principalmente nos dois estudos
que abordam de modo direto esse problema: o trabalho citado de M. Castdls e F. Godard sobre Dunquerque e nossas próprias pesquisas sobre o
capital industrial de Lyon.
Os autores de Monopolville reconstituem esquematicamente a lista
dos principais equipamentos realizados entre 1958 e 1971 e a correspondência desses equipamentos às exigências das diferentes frações do capital
industrial implantadas no litoral de Dunquerque(49). A subordinação da
política de equipamento às necessidades de Usinor é facilmente demonstrada . Com efeito, quer se trate da bacia para minérios, de uma comporta
111arítima para os navios de 125 000 t, da construção e da extensão de um
mis para minérios, ou da instalação na zona industrial-portuária de uma
1·entral EDF, de uma usina destiladora de coque, de uma área de estocagcm, sem esquecer o alargamento do canal Denain- Valenciennes, a construt,:ão da auto-estrada Lille-Dunkerquer, a via rápida de penetração a oeste de
Dunquerque, vizinha de Usinor, e, enfim, a instalação de uma estação de
friagem à margem da zona industrial de Petite-Synthe, é fácil mostrar, ponto por ponto, que esses diversos equipamentos respondiam antes de mais
11ada às necessidades de Usinor.
f verdade que Usinor precisa de:

1) lugar para a estocagem de minério perto do cais, ao que responde
justamente a construção de áreas de estocagem;
2) bacia para receber os navios transportadores de minério de 125 000 t
e de um cais preparado para a descarga rápida do minério; de uma
comporta que permita aos navios transportadores de minério o acesso direto ao cais Usinor;
3) uma boa rede de transporte ferroviário interno na zona ( estação de
triagem, vias no cais), de uma ligação leste-oeste terminando na usina
das Dunes, de boas ligações rodoviárias, ferroviárias e fluviais com o
interior (auto-estrada Dunkerque-Lille, canal Denais-Valenciennes);
4) enfim, como todos os estabelecimentos siderúrgicos metalúrgicos, o
estabelecimento Usinor de Dunquerque precisava, para produzir, de
coque (destiladora de coque), de eletricidade (central EDF), de óleo
diesel e de lubrificantes (refinaria SFBP).
(49) Ver sobretudo pp . 88-89, quanto à lista.
261

Não insistiremos aqui no caráter "ideal", se é que se pode chamar
assim, dessa subordinação da política estatal às necessidades de um grupo
monopolista; concentraremos toda a atenção nas relações entre essa política de equipamentos produtivos e as outras frações do capital implantadas
no litoral de Dunquerque.
A esse respeito, parece-nos indispensável conferir a maior importância à luta que se instaura em torno da ZI de Bourbourg, cuja meta principal
é, segundo os autores, o desenvolvimento, ao longo do canal, de indústrias
de transformação que os monopólios já implantados em Dunquerque não
querem aceitar de modo algum. Essas indústrias que oferecem empregos
{qualificados) só contribuem para reforçar a atual situação de desequilibn·o, em preju{zo das grandes empresas(SO).
Essa oposição traduz-se perfeitamente, no nível jurídico-ideológico(S 1), pelo antagonismo entre o Plan Bernard de 1963, que previa um
desenvolvimento da industrialização e da urbanização em torno do eixo
constituído pelo canal de grande gabarito Dunkerque-Valenciennes, e o
SDAU do Nord-Pas-de-Calais da OREAM, que prevê a expansão de zonas
industriais autônomas desenvolvendo-se paralelamente ao litoral seguindo
os eixos Calais-Dunkerque, Arras-Lille e Cambrai-Valenciennes. Ora, esta
última perspectiva exclui por completo o desenvolvimento industrial ao
longo do canal de grande gabarito e confere ao litoral Calais-Dunkerque a
vocação de pólo industrial-portuário apoiado na indústria pesada de primeira transformação - seja ela siderúrgica ou petroquímica.
Assim, ela responde perfeitamente às exigências do conjunto dos grupos monopolistas implantados em Dunquerque cujo funcionamento do
mercado de trabalho exclui a implantação de indústrias de segunda transformação. Fica particularmente patente para a organização das vias de
comunicação, e os autores mostram que o SDAU de Dunquerque foi realizado em 1972 com base numa ampla união antimonopolista, reagrupando
ao mesmo tempo a classe operária, os grupos portuários não ligados aos
monopólios e o conjunto das profissões marítimas com interesse no desenvolvimento do tráfego de mercadorias gerais.
Desse modo, a auto-estrada litorânea A26 foi localizada pela ..... .
OREAM ao sul de Bourbourg e evita Dunquerque, ao passo que a Agência
de Urbanismo ligada à comunidade urbana de Dunquerque havia previsto
que a A26 passaria perto de Bourbourg com um desvio para Dunquerque e
(50) Monopolville, p. 91.
(51) lbid., pp. 394-396.

.'<,2

que uma estrada norte-sul Saint-Omer-Bourbourg iria servir a nova zona
industrial à margem do canal.
Enfim, a oposição entre a opção radioconcêntrica da AGUR - baseada no desenvolvimento urbano de Dunquerque - e a dispersão dos centros
administrativos e universitários previstos pela OREAM ao longo do litoral
refere-se igualmente à relação entre monopólios e pequenas e médias empresas de Dunquerque não ligadas à ZIP. Estas últimas têm, de fato, interesse no desenvolvimento de wn meio urbano capaz de tornar-se um mercado para os produtos de consumo corrente (ramo onde as PMI estão
concentradas).

EFEITOS DA POLITICA MONOPOLISTA SOBRE O MÉDIO CAPITAL
PORTUÁRIO : DISSOLUÇÃO E INTEGRAÇÃO

Os autores insistiram com razão, a respeito da análise das transformações do capital portuário depois da construção da ZIP, na diferenciação
que se efetuou no interior do médio capital portuário - não monopolista.
Eles distinguem, em especial, duas frações: uma fração - a mais dinâmica
- vai subordinar-se e integrar-se aos interesses dos monopólios, um pouco
como empreiteiros, pautando sua estratégia pelo desenvolvimento de uma
infra-estrutura portuária para a indústria pesada ( de primeira transformação). Essa fração será finalmente anexada ao capital bancário e perderá
toda autonomia. Ao contrário, as empresas comerciais portuárias não integradas ao capital bancário e apoiadas no tráfego de mercadorias, que constituem a segunda fração do capital portuário, são incapazes de sustentar a
concorrência e entram em crise total assim como o conjunto de profissões
que delas depende. Essa distinção é tanto mais fundamental porque, indicam os autores, a Câmara de Comércio está justamente nas mãos da fração
dinâmica do capital portuário, pronta a se extinguir enquanto tal, apelando
para a grande indústria (de primeira transformação). Tal situação de classe
explica a ausência de conflito entre esse médio capital - e seus representantes institucionais na CCID - e o capital monopolista.
Porém, reduzir o fenômeno de concentração monopolista a simples
movimento de dissolução significa não entender o comportamento desse
tipo de médio capital que evita a dissolução total por uma subordinação
voluntária assemelhada à empreitada. O que representa uma nuança importante para qualquer análise científica das bases objetivas de uma aliança

263

política entre classe operária e capital não monopolista, como veremos
adiante.
Os estudos referentes ao comportamento das diferentes frações do
capital industrial de Lyon com relação à política das zonas industriais confirmam esses processos de diferenciação, essas contradições de interesses
que acabamos de constatar para o litoral de Dunquerque(52),
Vamos nos basear principalmente num documento da OREAM Lyon-Grenoble-Saint-Etienne intitulado Pour une politique des grands sites
industrieis de la région Rhône-Alpes (janeiro de 1972) e, também, num
estudo do CERAU feito a pedido do Atelier d'Urbanisme de la Communauté urbaine: L 'Aménagement industrie! de l'agglomération lyonnaise
( agosto de 1971 ). Esses estudos já redundaram, veremos adiante, em medidas políticas que manifestam, também elas, a coordenação dos poderes
políticos locais e nacionais.
O primeiro documento começa por uma pergunta que é também um
questionamento:
"Será possível contentar-se com reproduzir no futuro os mecanismos
de localização e de desenvolvimento dos últimos anos que viram indústrias
de porte médio se desligarem das aglomerações existentes para terrenos
situados na periferia mais próxima ( ou no caso de empresas maiores
implantadas nas grandes cidades, para cidades menores situadas geralmente
a algumas dezenas de quilômetros)? Deve-se assinalar que as implantações
dessa natureza consomem superfície (de 200 a 300 ha por ano, pode-se
estimar hoje) mas não correspondem em geral a importantes criações de
emprego" .
Donde a proposta que é feita: "mudar de escala e propor às indústrias da região e às provenientes de outras regiões francesas ou européias ...
grandes plataformas mais adaptadas a suas necessidades e que .. . designaremos por 'parques industriais'(5 2)", zonas de reagrupamento de indústrias
pesadas que podem chegar até 1 000 ou mesmo 3 000 ha para a mais
importante delas - a zona industrial das Loyettes a nordeste de Lyon - ao
passo que, como já vimos, as zonas industriais clássicas não ultrapassavam
os 200 ha.
Mas a verdadeira originalidade desse documento está menos no seu
conteúdo do que no modo como foi elaborado e na sua função. De fato,
longe de ser o fruto da reflexão de alguns pesquisadores ou de funcionários
isolados, esse documento é o produto de um verdadeiro estudo de mercado
(52) Cahiers de l'OREAM.. . , op. cit., (7), dezembro de 1968, p. 1.

264

.-lduado junto a grandes grupos industriais da região bem como junto a
1•.rupos internacionais suscetíveis de interesse pela região; nesse sentido, sua
!unção não é tanto definir uma nova política de planejamento territorial
1t'. gional, mas sim de adaptar os recursos locais, geográficos como econôrni,·, 1s, às necessidades a curto prazo dos grandes grupos monopolistas, tal
,·orno foram formuladas através das sondagens empreendidas pela OREAM.
Assim , as escolhas, a princípio, de oito locais industriais e, em seguida , de três desses locais, não decorrem de um estudo geográfico industrial
::obre o equilfbrio entre os pólos de desenvolvimento econômicos e urba11os mas provêm simplesmente da constatação de que a criação de empre1·.•,s na região depende não das indústrias de transformação leve mas sim da
111dústria pesada: petroquímica, química, metalurgia pesada, indústria do
p:1pel. Do mesmo modo:
"Só grandes locais próximos de uma grande cidade podem receber
uma indústria com grande necessidade de mão-de-obra, caso alguma indús1ria desse tipo venha a aparecer. Até o momento tais indústrias não procumm as zonas industriais (de porte demasiado pequeno) mas podem estar
111 teressadas pelo conjunto de equipamentos de um parque industrial. . .
1:usões ou concentrações de empresas, a evolução tecnológica, a remodela,,:io da geografia industrial (sendo a evasão para Fos ou Dunquerque da
indústria regional dos aços especiais apenas um aspecto) podem tornar
;1manhã necessária e urgente a recepção desse tipo de indústria".
Por isso, a palavra está com os grandes grupos que dominam esses
ramos: para a química, considerando-se a decisão do monopólio francês
Rhône-Poulenc de praticamente não efetuar nenhum investimento no
Rhône-Alpes até 1973-1974, e por outro lado, considerando-se os engajamentos de Péchiney em Fos-sur-Mer, será "desde 1975" que lhes deverá ser
oferecida uma "plataforma suficientemente atraente para deter o atual
movimento centrífugo". Quanto à localização privilegiada, segundo "opi11iões obtidas dos industriais, Loyettes e Péage-de-Roussillon seriam as
melhores localizações, com ligeira vantagem para a primeira, por ficar mais
perto de Lyon e do meio industrial dos fornecedores, dos subempreiteiros
e das companhias de serviços". A mesma coisa para as indústrias de pasta
de papel. Quanto aos grupos metalúrgicos, "a região de Saint-Etienne parece-lhes muito complementar de Fos, graças em particular a suas tradições
industriais e à qualidade da mão-de-obra".
Fora desses três locais privilegiados - Loyettes, Péage-de-Roussillon,
Bouthéon - a OREAM endossa a atitude negativa das empresas industriais
interrogadas a respeito da recepção de atividades de estocagem em parques
265

industriais, o que pode explicar que a zona industrial de Chesnes - a cidade nova de L'Isle d' Abeau - seja eliminada do quadro de ações prioritárias:
longe demais de Lyon para interessar "as indústrias que querem deixar
Lyon e que se contentariam com zonas menores mas mais próximas dos
bairros residenciais"; e não suficientemente atraente para estimular empresas mais importantes a localizarem ali suas atividades de estocagem, perto
de Satolas e da auto-estrada Lyon-Grenoble, visto estas empresas terem
tendência a preferir um local isolado.
O estudo realizado pelo CERAU para a Comunidade Urbana de
Lyon apresenta exatamente as mesmas características, tanto por seu modo
de elaboração quanto por sua função. Seu objetivo é definido desde as
primeiras páginas do relatório introdutório: Que estruturas de recepção

precisam ser preparadas para atrair os chefes de empresa parisiense e futuramente os alemães ou os americanos? O método de trabalho apóia-se também na colaboração estreita com o Groupment interprofesswnnel lyonnais
(GIL) e com os diversos sindicatos profissionais.
O diagnóstico é idêntico: poucos empregos foram criados pelas zonas
industriais (4 221 entre 1966 e 1970) e o crescimento industrial estagna na
Comunidade Urbana. Assim o CERAU propõe "adaptar os equipamentos
das zonas industriais" às empresas, definindo o tipo de serviços comuns
desejados pelos industriais de acordo com o ramo, o que o leva a distinguir
as "zonas industriais internas do tecido urbano" reservadas às atividades
que empregam muita mão-de-obra, sobretudo feminina, e pouco poluentes
(indústrias têxteis, estabelecimentos de confecção); as "zonas industriais
clássicas" na periferia urbana próxima para as médias empresas da química,
da mecânica, da alimentação e dos transportes; e, enfim, as "áreas industriais pesadas" geradoras de fortes poluições - sobretudo atmosféricas permitindo um importante tráfego rodoviário, ferroviário e fluvial, dispondo principalmente de equipamentos especializados para a petroquímica e
para a metalurgia pesada; as respostas dos industriais desses dois ramos
levaram assim o CERAU a citar o fornecimento de água industrial, o tratamento das águas usadas, a evacuação dos detritos sólidos, o fornecimento
de vapor e eventualmente de eletricidade, os serviços de segurança e de
socorro, como equipamentos coletivos julgados desejáveis.
Mas a convergência entre as necessidades das grandes empresas e a
política de planejamento industrial dos poderes locais e nacionais não se
limita a essas declarações de intenção. Extensão da DATAR, a OREAM
Lyon-Saint-Etienne- Grenoble contribuiu por meio de seu "estudo de mer266

cado" para levar o poder central a financiar prioritariamente a zona industrial das Loyettes.
Mas o esforço financeiro público reside de fato essencialmente, por
enquanto, nas coletividades locais; assim, dos 201 milhões de francos
necessários ao financiamento mínimo dos equipamentos previstos pela
OREAM para 1975, o Conselho geral do departamento do Ain fornecerá
35 milhões em parcelas que serão entregues durante os três anos de 1973· 1974-197 5; e isso graças ao empréstimo de 100 milhões lançados pelos
departamentos da região Rhône-Alpes. O resto do financiamento deve ser
garantido pelas Câmaras de Comércio do Ain e do Rhône, pelas Câmaras
de Agricultura e pela Comunidade Urbana de Lyon, pela Société d'Equipement de l'Ain (a SEDA, filial da SCET), agrupadas numa sociedade de economia mista à qual poderiam juntar-se bancos particulares.
A realização da zona industrial das Loyettes é, no entanto, apenas
um elemento de uma política inter-regional bem mais vasta, fundada sobre
a constituição, na escala do "Grand Delta", de zonas de recepção e de equipamentos coletivos especificamente destinados às firmas multinacionais.
Se a associação do Grand Delta remonta a 1966 e se até a idéia de
utilizar a via fluvial Ródano-Reno para desenvolver toda a região Rhône-Provence-Méditerranée remonta a 1933, o projeto só se tornou realidade
bem recentemente, na medida em que respondia às novas necessidades de
dois ramos econômicos dominados pelos grupos monopolistas franceses
mais poderosos: de um lado, a petroquímica e, de outro, a siderurgia.
Ao combinar a utilização, pela química, do petróleo da África do
Norte - sobretudo através do oleoduto Marselha-Lavera-Karlsruhe - com
a importação do minério "barato" da Mauritânia para Wendel-Sidélor, as
regiões de Lyon e de Marselha tornaram-se um pólo de interesse para os
grupos monopolistas: o complexo petroquímico de Feyzin data de 1964
e a decisão de Wendel-Sidélor instalar-se em Fos, de dezembro de 1970.
Presidente da Comissão Zonas Industriais Portuárias, Paul Berliet
designará sem ambigüidade os principais favorecidos, a seu ver, por essas
novas zonas industriais: "Todas as indústrias que precisam de abastecimento barato de produtos pesados: areia, coque, minério, sucata, etc., isto é,
quase todas as indústrias metalúrgicas e especialmente as fundições das
quais a região de Lyon carece muito, visto que Berliet, por exemplo,
recebe uma parte do que lhe é necessário de Fumel, no sudoeste, a 50 km
ao norte de Montauban, longe do vale do Carona"; e, por outro lado, as
indústrias que precisam, para suas entregas, de um meio de transporte não
muito caro: refinarias de petróleo, usinas de materiais de construção ... ,

267

usinas que fabricam elementos com grandes dimensões ou grande peso,
indústria siderúrgica e muitas outras indústrias metalúrgicas - entre as
quais as construtoras de caminhões bem como as construtoras de material
elétrico pesado - , as centrais que fabricam concreto betuminoso e, enfim,
todas as indústrias metalúrgicas e sobretudo químicas que precisam de
água para o resfriamento de seus aparelhos.
No tocante ao interesse primordial para Berliet da navegabilidade do
Ródano, convém lembrar que uma forte porcentagem de suas exportações
é destinada ao Oriente Médio e sobretudo à África do Norte, via Marselha.
As necessidades de Berliet como as dos construtores de material elétrico pesado (entre os quais a CGE, Delle-Alsthom, Câbles de Lyon, Teppaz de Lyon) continuavam secundárias, no nível nacional, em relação aos
grupos dominantes da siderurgia, do petróleo e da química. E verdade que
o relatório de 1963 insiste no interesse desses três ramos tanto pelo planejamento das zonas industriais portuárias quanto pela navegabilidade do
Ródano. Mas a conjuntura da época afastava a prioridade de tais investimentos de importância nacional: as refinarias de petróleo utilizavam com
menos despesa o oleoduto Lavera-Karlsruhe; a petroquímica, que iniciava a
construção do complexo de Feyzin, tinha satisfeito provisoriamente suas
necessidades de zonas industriais. Quanto à siderurgia - então em plena
reestruturação - a idéia de "zona industrial portuária" foi de fato aceita
mas os investimentos foram concentrados, nos anos 60, na realização do
complexo de Dunquerque.
Hoje já não se dá o mesmo. Em 1971, o déficit de carburante da
região Rhône-Alpes é de 3,8 milhões de toneladas, pois a refinaria de Feyzin só fornece 4,4 7 milhões de toneladas dos 8,28 milhões necessários déficit que se refere essencialmente ao diesel, o que obriga sobretudo as
indústrias da região a importar diesel por um preço acrescido das despesas
de transporte.
Quanto à siderurgia, a decisão tomada por Wendel-Sidélor em dezembro de 1970 de criar em F os uma imensa usina de chapas ( com previsão de
20 milhões de toneladas por ano) para a mecânica pesada, para a indústria
automobilística e para a eletrodoméstica, bem como a implantação vizinha
de uma segunda usina siderúrgica da Péchiney-Ugine-Kulhmann tornam
bruscamente fundamental a questão da navegabilidade do Ródano.
A subordinação do poder político regional ao grande capital industrial - nacional e internacional - tal como ela se exprime na associação do
Grand Delta ou no financiamento das zonas industriais "pesadas" é, portanto, um fenômeno novo na França, na medida em que altera a antiga

268

divisão do trabalho entre a coletividade local encarregada de financiar os
meios de consumo coletivos de uso exclusivamente local e o Estado encarregado dos grandes equipamentos "econômicos" de importância nacional.
Ora, quer se trate das zonas industriais fluviais ou portuárias, do
canal Ródano-Reno, dos grandes locais industriais como o das Loyettes ou
do aeródromo de Satolas, esses equipamentos não são destinados nem ao
pequeno nem ao médio capital de Lyon.
A atitude da Câmara sindical das Indústrias Metalúrgicas do Rhône é,
a esse respeito, bem significativa quando define a natureza das implantações e dos equipamentos desejados por seus aderentes:
"E essencial que as empresas encontrem no local onde se instalam
subempreiteiros e fornecedores capazes de atender a suas necessidades.
Uma emigração das atividades industriais, sob pretexto de descentralização
seria nefasta pelos efeitos induzidos que provocaria. É por isso que algumas
zonas industriais foram equipadas na periferia imediata de Lyon: Vénissieux, Meyzieux, Genay-Neuville. E indispensável agora que seja assumido
o equipamento da vasta zona de Saint-Priest-Genas. Isso será seguido por
outras realizações".
Ligadas ao mercado local - principalmente urbano - do consumo e
da mão-de-obra, dependendo diretamente dos grandes grupos capitalistas
que as controlam financeiramente ou lhes garantem trabalhos de subempreitada, as pequenas e méilias empresas da metalurgia e das obras públicas
:;ofrem hoje diretamente os contragolpes das novas orientações, em matéria
de espaço, dos investimentos monopolistas da petroquímica, da siderurgia
ou dos aços especiais.
Não é, portanto, de admirar que a seleção prioritária, pela OREAM e
pela DATAR, de oito e, em seguida, de três "grandes locais industriais"
tenha suscitado apreensão e hostilidade não apenas entre os prefeitos das
cidades em dificuldade, mas também entre as pequenas e médias empresas
de Lyon que aguardam antes de tudo uma ajuda pública que lhes permita
ou adaptar-se aonde estão instaladas ou implantar-se em zonas industriais
equipadas e bem próximas da mão-de-obra urbana. Também não é de
admirar que a pesquisa e as propostas do CERAU e do Atelier d'Urbanisme
de la Communauté urbaine sobre a criação de "serviços comuns" para as
empresas tenham suscitado a hostilidade de um pequeno patronato incapaz
de assimilar, como os monopólios da indústria química, certas vantagens
da economia de escala e da socialização das forças produtivas.

269

CAPITAL COMERCIAL E POLl'rICA URBANA

Os pontos de interação entre os meios de reprodução do capital
comercial e a política urbana são muito numerosos. Existem tanto no nível
da política de renovação-reestruturação do centro da cidade quanto na
urbanização periférica dos grandes conjuntos imobiliários (centros comerciais de bairro e sobretudo hipermercados) e nos equipamentos de caráter
regional e mesmo internacional: Mercados de interesse nacional (Rungis),
Centros de Comércio internacionais. Levando em conta o estado de nossas
informações, vamos limitar o campo desta análise à implantação urbana de
"grandes áreas comerciais" (hipermercados e centros comerciais regionais)
em duas grandes cidades da província: Lyon(53) e Rennes(54).
O estudo sociológico sobre a cidade de Rennes mostrou de forma
evidente como a nova política de urbanismo empreendida pela municipalidade a partir de 1969 acelerou o processo de fracionamento, de divisão
da categoria social dos "comerciantes", principalmente no centro da cidade. Até então, o poder municipal tinha-se baseado no postulado da "homogeneidade" social e política dessa categoria profissional; mas, quando a
municipalidade de Rennes assumiu o planejamento do centro comercial
"Alma", na ZUP ao sul da cidade, houve uma profunda "desunião" entre
os comerciantes autônomos que por muito tempo haviam formado uma
classe homogênea de apoio para a municipalidade. Como assinalam os
autores, "ao assumir essa função ativa, a municipalidade aparece aos olhos
de muitos como a precursora das grandes áreas comerciais e cria para si um
problema político"(55). Mas seria inexato concluir por uma simples divisão entre "comerciantes autônomos - do centro da cidade" - e "grande
capital comercial - da periferia".
De fato, por um lado, o grande capital procura agora implantar-se
também nos centros das cidades(56); projetos nesse sentido são propostos
pela municipalidade de Rennes a respeito de Carrefour e pelos estabelecimentos Decré de Nantes quando da operação de Colombier no centro da
(53) La politique urbaine dans la région lyonnaise, op. cit., 2.ª parte, Cap. II,
1.ª seção: "Politique urbaine et capital commercial", pp. 61-82.

(54) Rôle et portée économiques, polituzues et idéologiques de la Participation à l'aménagement urbain, estudo financiado pelo DGRST e pelo Office social et
culturel de Rennes, Armei Huet, J. C. Kaufman, Monique Laigneau, René Peron, A.
Sauvage.
(55) Op. cit., p. 104.
(56) Cf. nossa pesquisa sobre Lyon.
270

cidade. Além disso, constatam os autores, "já não se pode falar de comerciantes autônomos em geral. Nota-se um esfacelamento em várias camadas
cujos interesses econômicos, no clima de concorrência reforçada, afastam-se cada vez mais uns dos outros, e de quem os interesses urbanos até então
solidários (por exemplo, os dos comerciantes instalados no centro das
cidades) tornam-se também contraditórios"(57).
E mais precisamente ainda: os autores acham que a contradição prin
cipal está, na classe capitalista local, não mais entre pequeno e médio capital, mas sim entre duas frações do médio capital comercial; segundo os
autores, "duas grandes correntes existem na 'burguesia comerciante' do
centro da cidade: a primeira, herdada do longo período histórico caracterizado pelo imobilismo econômico e urbano ... , a segunda corrente, caracterizada pela vontade de conquistar um lugar na nova organização do
mercado e de defender seus interesses a termo ... ".
Para esta última fração do médio capital, "as grandes áreas e o comércio especializado do centro da cidade são complementares, seu desenvolvimento estando ligado"(58).
É sensível a semelhança entre esse tipo de análise e o de Castells e
Godard sobre as duas frações do médio capital portuário em Dunquerque:
em ambos os casos, os autores concluem pela nova aliança entre a fração
''dinâmica" do médio capital e o capital monopolista; em ambos os casos,
atribuem um papel-chave à Câmara de Comércio, controlada pelo médio
capital dinâmico; em ambos os casos, enfim, concluem pela subordinação
voluntária - diferente da absorção - do médio capital à estratégia econômica e espacial do capital monopolista(59). Mas os sociólogos de Rennes
insistem talvez mais que Castells e Godard no papel decisivo que teve a
política municipal na elaboração dessa aliança.
De fato, segundo a interpretação deles, ao frear e ao limitar a implantação das grandes áreas comerciais no seu território, a cidade de Rennes
permitiu à fração dinâmica do médio capital local "ganhar o tempo necessário para se reestruturar", enquanto essa mesma cidade executava, em
proveito próprio, um plano de desengarrafamento do centro da cidade
(melhora da fluidez e da penetração no centro através do planejamento
de eixos rodoviários transversais; um dispositivo de estacionamentos para
(57) Op. cit., p. 106.

(58) Op. cit., p. 121.
(59) "Uma parte da burguesia comerciante tradicional (em Rennes) está consc:iente da necessidade de aceitar um comprometimento com (o grande capital), porque seu próprio futuro depende disso" (Rennes, op. cit., p. 122).

271

carros cercando o centro da cidade; manutenção da rede em forma de
estrela dos transportes públicos( 6 O)).
Falta saber o que pensar da conclusão dos autores: "Tranqüila quanto às condições do futuro, não apenas de sua sobrevivência, mas de seu
desenvolvimento, ela (a burguesia comerciante do centro) prepara-se, no
âmbito da nova divisão do mercado, para receber a segunda onda de grandes áreas que desponta no horizonte: Nouvelles Galeries no norte da cidade
e Carrefour no leste, onda essa que vai estourar logo após as eleições legislativas"(61). De fato, não se sabe se essa nova aliança entre a fração dinâmica do médio capital comercial e o grande capital é durável ou se, ao contrário, a adaptação provisória do médio capital não é um momento limitado - do processo de concentração. Notemos, para começar, que o
âmbito - temporal - da citada pesquisa exclui o momento em que a
"segunda onda" de grandes áreas comerciais "estourará", e desta vez sem
empecilhos, sobre Rennes e seu velho centro comercial.
Aliás, o perigo não estava tanto no hipermercado Carrefour da periferia quanto no relançamento da operação "segundo centro" do Colombier. Esta renovação que visava à criação de um vasto conjunto de escritórios para companhias, para firmas de serviços e para comércio malogrou,
por enquanto, não por intervenção da municipalidade , mas por falta de
clientes. Mas o que teria acontecido se uma ou várias grandes lojas tivessem
decidido instalar-se aí?
Uma primeira resposta é dada pelos próprios autores quando descrevem as reações dos grandes comerciantes do centro de Rennes, inclusive os
da fração dinâmica, quando a municipalidade comunicou seu projeto de
duplicar o centro tradicional com a operação do Colombier.
"O conjunto (o grifo é nosso, J. L.) da burguesia comerciante do
centro vê nisso uma agressão direta a seus interesses( 6 2) .. . é o maior erro
da municipalidade. Instalam uma grande loja de 15 000 m2 . .. criam para
nós uma concorrência artificial. Vão buscar gente de fora, o Bon Marché,
um supennercado de roupas estrangeiro. É claro que os comerciantes de
Rennes não podem estar interessados, é caro demais"( 6 3).
Como reconhecem os autores, se "uma parte da burguesia comerciante tradicional está consciente da necessidade de aceitar um comprometimento com o grande capital" - e inúmeros comerciantes do centro asso(60) Pp. 127-128.
(61) P. 128. Trata-se das eleições de 1973.
(62) Op. cit., p. 121.
(63) P. 122.
272

, ,aram-se diretamente com diversos projetos de grandes áreas comerciais
desta vez (no caso de Colombier) o preço exigido é inaceitável: é o pró' ,rio campo de defesa que é atacado"(6 4 ) .
Ora, nenhum fato prova que, na "segunda onda" das grandes áreas
, , ,merciais, a operação do Colombier não vá encontrar grandes lojas dispos1;is a se integrarem num centro comercial regional, a exemplo dos centros
,la região parisiense ou de Lyon-La Part-Dieu. Nada , por outro lado, faz
pensar na hipótese de uma ação municipal que procure "frear" esse tipo de
1111plantação.
De fato, se é verdade, como dizem os autores, que certos projetos de
!\randes áreas comerciais periféricas foram recusados pela municipalidade,
<> mesmo não acontece com a operação do centro da cidade (o Colombier),
i:í que os autores mostram em várias oportunidades que foi por iniciativa
do prefeito que o projeto foi lançado (ao contrário dos projetos de grandes
:1reas comerciais periféricas); o fracasso da operação foi devido não a uma
pressão vitoriosa do médio capital comercial tradicional sobre a prefeitura,
111as simplesmente à ausência de interesse do grande capital por essa opera•,c ffo , no momento em que foi lançada.
O "êxito" do centro comercial regional de 100 000 m 2 em Lyon -La
l'art-Dieu pode fornecer, em compensação; alguns elementos novos de
julgamento sobre a "solidez" dessa aliança - mais "esperada" do que estabelecida - entre médio capital comercial e capital monopolista. Ao contrário da operação do Colombier, a operação de reestruturação do centro
margem esquerda de Lyon resultou em 1970 na construção de um centro
comercial comportando duas grandes lojas e umas cinqüenta boutiques. :É
verdade que o centro só entrará em funcionamento em 1975 e será preciso
esperar ainda alguns anos para conhecer seu efeito econômico real sobre as
lojas anômalas independentes do centro tradicional de Lyon-a península.
Contudo, possuímos desde agora um certo número de elementos que
permitem questionar a hipótese proposta pelos sociólogos de Rennes quanto à aliança entre médio capital e capital monopolista.
A "coexistência pacífica" esperada pela fração dinâmica do médio
capital tradicional entre "grandes áreas comerciais" e "comércio especializado do centro da cidade"(65) só se aplica de fato aos hipermercados do
(64) P. 122.
(65) "As grandes áreas comerciais e o comércio especializado do centro da
cidade são complementares e o desenvolvimento de um está ligado ao do outro entrevista", p. 121.

273

tipo Carrefour, baseados essencialmente na venda de produtos alimentícios. Tudo muda quando:
a) a distribuição de massa orienta-se para os artigos especializados ou de
luxo;
b) as grandes áreas comerciais escolhem uma localização central e não
mais periférica.
Ora, já o vimos, essas duas condições poderiam ter sido preenchidas
pelas grandes lojas consultadas pela cidade de Rennes para constituir seu
"segundo" centro de negócios do Colombier (44 000 m2 de escritórios programados); ou seja, o Bon Marché (15 000 m2 previstos) e "C & A", primeira cadeia têxtil holandesa implantada recentemente nos centros comerciais regionais da região parisiense.
Já indicamos a reação hostil do conjunto dos representantes do médio capital comercial tradicional de Rennes. Ora, a municipalidade não
abandonou de modo algum o seu projeto, repetimos ainda uma vez, mas
teve que suspender sua execução por falta de resposta favorável das grandes lojas contatadas. Por outro lado, a resposta favorável dada pelas Galeries Lafayette e pelo Le Grand Passage (grupo suíço Jelmoli) à implantação
de duas grandes lojas no centro margem esquerda de Lyon mostra muito
bem os limites estreitos da "aliança" médio capital-capital monopolista,
assim como os da capacidade "reguladora" do poder político, tanto central
quanto local.
Segundo uma firma de estudos especializada nos problemas de centros comerciais(66), a chegada em La Part-Dieu de duas novas grandes
lojas deveria, com efeito, reforçar consideravelmente a concentração comercial no setor dos bens comparativos. A parte da cifra de negócios das
grandes lojas no conjunto da zona de atração do centro comercial regional,
que em 1971 foi estimada em 9,2%, deveria passar a 15%, em 1975 - data
de abertura do centro de La Part-Dieu - a 17,5% em 1980, a 20% em 1985.
Por outro lado, enquanto 33,5% da cifra de negócios das grandes lojas são
efetuados pelas unidades da península, o desenvolvimento do centro comercial de La Part-Dieu vai modificar completamente esses dados. Amesma firma de estudos prevê que La Part-Dieu poderá açambarcar 77 ,5% do
potencial do centro da cidade, a parte do mercado de lojas existentes na
península diminuindo para cerca de 22,5%. A parte do mercado de La
(66) Cabinet Larry Smith, Etude sur la rentabilité du centre commercial régiona/ de LaPart-Dieu, 10 de outubro de 1967 e 15 de outubro de 1971.
274

Part-Dieu aumentaria para cerca de 82,5% em 1980, para 85% em 1985 e a
parte do mercado da península continuaria a baixar em idêntica proporção.
Ora, os motivos do "otimismo" dessas previsões não provêm apenas
da confiança que elas têm nos efeitos da "livre" concorrência monopolista.
Provêm também da política urbana conduzida pelo Estado central e pelas
coletividades locais atingidas (Lyon e Villeurbanne essencialmente). A
parte principal das "grandes obras rodoviárias" (auto-estradas urbanas) e
ferroviárias (metrô, nova estação SNCF) converge de modo evidente para
o novo centro de La Part-Dieu e não para a península. Como constata com
satisfação a firma de estudos citada, "nenhum programa importante de
renovação no centro da cidade está previsto, as três auto-estradas urbanas
mais importantes previstas em Lyon ... são bem próximas do novo local e
permitem o acesso pelo norte, pelo oeste e pelo leste". Quanto à primeira
linha de metrô, atualmente em construção, fará a ligação de Décines-Cherpieu, a leste de Villeurbanne, nos bairros de forte densidade urbana, com o
centro regional de La Part-Dieu. Enfim, a nova estação SNCF será transferida da península (Perrache) para La Part-Dieu.
Poderia alguém objetar que estamos identificando sem razão "centro
comercial regional" com "grande loja". Ora, a realidade não é um pouco
diferente na medida em que, ao lado dessas duas grandes lojas, o centro
comercial regional compreenderá de 158 a 200 lojas do comércio "autônomo" "de Lyon"? O prefeito de Lyon precisava até, em recente entrevista,
que 567 "opções" já haviam sido tomadas pelos comerciantes de Lyon
para La Part-Dieu. Na realidade, dessas 567 opções, 150 ou 200 no máximo serão mantidas e o alto preço do aluguel e dos encargos impostos a
cada comerciante(6 7) fazem prever que dos 150 ou 200 "inquilinos" um
grande número será apenas de filiais "de Lyon" das grandes firmas de
porte nacional ou internacional como Christofle, Courhay, Jourdan, Picadilly, Gilliot, Casino ...
Quanto ao médio capital comercial realmente de Lyon, ou aquilo
que os sociólogos de Rennes chamam sua "fração dinâmica", pode-se perguntar se, com o tempo, não pagará seus esforços de modernização tecnológica com o endividamento e, em seguida, a falência ou a absorção pelo
capital financeiro. É claro que será preciso estudar o balanço financeiro do
(67) O aluguel mínimo garantido com correção anual sobre o custo da construção será de 180 a 400 francos/m2; um aluguel variável será calculado em porcenta·
gem da cifra de negócios (de 3 a 9%) segundo a atividade. Além disso, os comerciantes terão o encargo do arranjo interno do local e, enfim, deverão pagar encargos
coletivos bastante altos por causa da multiplicidade dos serviços coletivos previstos.

275

centro para apreciar objetivamente esse processo, mas o exemplo - atual das dificuldades financeiras encontradas pelo grande comércio de alimentação no novo mercado de La Part-Dieu faz pensar. Segundo um artigo de
La vie lyonnaise(6 8), a criação do novo mercado de La Part-Dieu provocou
clivagens no comércio de Lyon, por um lado, "entre os quinze comerciantes que não puderam ou não quiseram por diversos motivos ir (do antigo
mercado do centro da península) para La Part-Dieu" e os mais abastados;
por outro lado, entre estes últimos "que tiveram que enfrentar datas de
vencimento financeiro difíceis de suportar"(69) .
Compreende-se então a explosão de cólera que neles provoca a notícia da implantação no estacionamento dos Cordeliers - construído no
lugar do antigo mercado - de um grupo de restaurante e de comércio
alimentício de 480 m2, loja no estilo Fauchon de Paris, e isso sob a direção
de três grandes burgueses de Lyon (senhores Bocuse, Nandon e Reybier,
triunvirato composto de dois grandes mestres-cucas e de um dono de grande firma alimentícia). Avalia-se em dois milhões de francos o financiamento de uma loja desse tipo.
Essas duas análises permitem voltar agora às relações reais entre capital monopolista, pequeno e médio capital e poder político. De início, estamos de acordo com os sociólogos de Rennes, e nesse ponto nossos dois
estudos chegam a conclusões idênticas, para determinar duas etapas, dois
momentos distintos na atitude de ambas as municipalidades com respeito
ao capital comercial local.
Primeira etapa, desde os anos 50, a política de "renovação urbana"
coincidiu com a eliminação espacial e quase sempre social do pequeno
capital comercial do centro da cidade, e isso em proveito dos negócios
comerciais locais mais prósperos - o médio capital comercial. A esse respeito, remetemos ao citado estudo sobre o comércio de Rennes que fornece precisões particularmente interessantes relativas à clivagem entre essas
duas frações de comerciantes, quanto à capacidade de inserção na reestruturação do centro.
Segunda etapa, no fim dos anos 60, a política municipal(70) teve
(68) 11 de novembro de 1971.
(69) "5 000 francos por casa de direito de entrada para os antigos, 10 000
francos para os outros, sendo precisas várias casas para constituir uma loja; além
disso, despesas com decoração, licenças, etc."
(70) Quer dizer, a política das duas municipalidades "centristas" de Lyon e
Rennes; de fato , como assinalam os próprios autores, uma outra política municipal com apoio nas camadas populares - teria sido possível (cf. op. cit., p . 190).

276

que se "adaptar" à irrupção do grande capital (patrimonial ou - e - monopolista) no equipamento comercial. É aqui que divergimos da análise dos
sociólogos de Rennes. Enquanto estes últimos acham, como Castells e
Godard, que a nova política municipal é um instrumento político eficaz
para garantir uma nova aliança entre a fração dinâmica da burguesia comerciante local e o capital monopolista, parece-nos que essa nova divisão do
capital comercial, desta vez no interior do médio capital, é bastante provisória, por causa do inelutável processo de concentração monopolista.
Por conseguinte, isso nos leva a definir a política urbana não como
instrumento de regulação ou de "gestão" das contradições de classe - no
caso, das contradições entre capital monopolista e frações não monopolistas do capital - mas sim como elemento de agravação, de exacerbação da
contradição principal, no atual estágio do capitalismo, entre monopólios
e camadas sociais não monopolistas.
Longe de estar a serviço da fração dinâmica da "burguesia local", o
poder municipal, tanto em Lyon quanto em Rennes, está agora diretamente
subordinado aos interesses do capital monopolista, como revela sua política a respeito dos grupos industriais(71) e dos grupos comerciais: o "segundo centro" do Colombier, para Rennes, e sobretudo o centro de negócios de La Part-Dieu em Lyon, demonstram fartamente que o capital
público gerido por essas duas municipalidades financia de modo direto a
reprodução do capital monopolista e não mais a do capital local.
Dessa forma, pode-se discutir a hipótese segundo a qual a função
"delegada pela grande burguesia à instância municipal (de Rennes)" foi ao
mesmo tempo a de organizar as condições locais da penetração dos monopólios e a de permitir à burguesia ( de Rennes) que se reestruturasse "de
maneira a poder tirar proveito da evolução do sistema econômico" que ela
aí "garantisse um lugar", a fim de "defender suas prerrogativas econômicas
e políticas". Todo o problema resume-se nisto : o capital monopolista
aceita de fato conceder "vantagens reais" ao médio capital, através de sua
subordinação econômica e política?
Se for esse o caso, não se entende então por que a equipe de sociólogos de Rennes assinala, no mesmo trecho citado, que as camadas comerciantes exprimiram claramente sua desaprovação a respeito de uma equipe
municipal que se está tornando "representante objetiva da grande burgue(71) Política de recepção da mão-de-obra operária nos conjuntos HLM, sobretudo em Rennes, centro "de direção" de La Part-Dieu, centro de negócios do Colombier; infra-estruturas das Zl.

277

sia". Alguém pode objetar que é preciso fazer uma distinção entre a massa
de pequenos e médios comerciantes lesados pela nova política municipal e
a fração dinâmica que conseguiu, graças à municipalidade, "garantir um
lugar" no novo sistema de distribuição. Mas, então, por que, na análise das
eleições municipais de 1971, a equipe de Rennes nota, como nós também
o fizemos em relação a Lyon(72), que um "nítido movimento de abstenção manifestou-se, não apenas entre os pequenos comerciantes e artesãos,
mas também entre os comerciantes do centro da cidade". Esta entrevista,
prosseguem os autores, obtida de um representante dos comerciantes, pode
ser considerada como fiel tradução de um sentimento bastante generalizado entre eles: "Criticamos apenas sua política comercial; o balanço global de sua gestão é positivo ... "( 7 3).
Que o poder do Estado central tenha tentado utilizar, onde podia, o
poder municipal para arranjar uma aliança entre médio capital e capital
monopolista, é uma coisa; que ele o tenha conseguido, tanto as realidades
econômicas quanto as realidades político-ideológicas parecem desmentir. O
estudo efetuado pelo CERAT de Grenoble sobre Roanne(74) confirma, a
nosso ver, esta interpretação na medida em que demonstra a incapacidade
do médio capital industrial de Roanne de fazer com que seus interesses
fossem realmente levados em consideração pelo capital monopolista e pelo
poder de Estado central; isso fez com que a municipalidade "centrista",
representante dos interesses das camadas médias locais, se opusesse politicamente ao poder de Estado central por um acordo de tipo terceira força,
para finalmente ceder o lugar à União das Esquerdas que compreendia os
representantes locais da classe operária, nas últimas eleições municipais
de 1977.

(72) Pudemos assim notar que foi nos arrondissements da península (1 e II
arrondissements) onde estão concentradas as casas de comércio anômalo tradicional,
que a lista do prefeito de Lyon perdeu mais votos, sem que a esquerda, com isso, conseguisse a maioria desses votos perdidos pelo prefeito que saía (cf. La politique urbaine dans la région lyonnaise, p. 194 e pp. 285-286).
(73) Op. cit. , p. 204, n. 1. A vitória da esquerda em Rennes, em 1977, só vem
confirmar essa análise.
(74) CERAT, La place de l'institution communale dans l'organisation de la
domination politique de classe em milieu urbain, le cas de Roanne, Sylvie Biarez,
Claude Bouchet, Guy de Boisberranger, C. Mingasson, M. C. Monzies, C. Pouyet,
com a colaboração de Pierre Kukauoka, Mouton, 1973.

278

Capítulo V

Política urbana
e luta de classes
As concessões às classes dominadas
Do "Estado instrumento" ao Estado
como reflexo da luta de classes
O conjunto de nossa análise da relação entre situações de classe e política
estatal (urbana) baseou-se até agora num postulado: a perfeita adequação
entre o modo de predominância econômica - o monopolismo - e seu
reflexo político que é constituído pelos diferentes componentes da política urbana.
Para transformar esse postulado em hipótese demonstrável devemos
examinar:

- se a política urbana reflete mesmo a transformação da estrutura
social, e sobretudo a dominação econômica exercida exclusivamente
peúi fração do capital monopolista;
ou se a constatação de concessões políticas feitas pelo aparelho de
Estado, tanto às frações não monopolistas do capital como a esta ou
àquela camada de assalariados, não vem desmentir a definição postulada até agora de um Estado inteiramente subordinado ao capital
monopolista; ao contrário, essas concessões demonstrariam a existência de um bloco "que associa monopólios a classes-apoio" ("média
burguesia" ou "pequena e média burguesia").

279

Em vez de resolver esse problema, uma resposta - que procurasse
ligar as "concessões políticas" acima citadas não mais com uma aliança de
várias classes no poder (bloco no poder), mas sim com a "pressão" da classe operária e de seus aliados - só serviria para deslocar a pergunta ou as
formas do impasse teórico.
Pode-se objetar que esta última hipótese também contesta o postulado que define o Estado como o organismo político dos monopólios, na
medida em que ela parece implicar uma capacidade de regulação, uma
flexibilidade de adaptação do contexto capitalista tais, que as reivindicações urbanas mais urgentes das classes dominadas possam ser resolvidas.
Em outros termos, se damos um conteúdo político e social real às concessões políticas feitas pelo Estado, não está aí a prova irrefutável de que ele
não pode ser identificado com os interesses apenas da fração de classe
economicamente dominante?
Já dissemos várias vezes que é essa a objeção essencial contida nos
trabalhos de Poulantzas em relação a uma definição de Estado que é,
apesar de suas denegações, a de LeninO). O conjunto de nossa análise da
política estatal no planejamento urbano chega agora a um ponto além do
qual não é possível prosseguir sem antes responder a essa pergunta-chave.
Enfim, parece-nos também que chegou o momento de confrontar
com os fatos o segundo postulado que apoiava toda a nossa análise até
agora , ou seja, a identificação dos órgãos representativos locais do aparelho
de Estado (comunas, conselho geral, comunidade urbana, conselho regional) com o poder de Estado central. Já falamos várias vezes, mas de forma
alusiva e não determinante para a análise, que algumas coletividades locais
não representam os mesmos interesses de classe que o poder do Estado
central; mas então não há uma tradução dessa divergência nos modos de
representação no nível da política urbana efetivamente assumida por essas
coletividades territoriais?
Nossa demonstração vai referir-se essencialmente às relações entre a
nova política urbana dos anos 60 e as "classes médias" urbanas, suporte
tradicional da hegemonia local da burguesia nas cidades. Será apenas por
incidência que examinaremos, no fim do capítulo, o impacto da luta da
classe operária sobre o conteúdo da política urbana.

(1) Cf. Cap. I: "Estado, política e luta de classes".

280

AS CAMADAS MEDIAS NÃO ASSALARIADAS: DA ALIANÇA À
SUBORDINAÇÃO AO CAPITAL MONOPOLISTA

Seja em seu livro sobre a análise dos textos políticos de Marx e
Engels, Pouvoir politique et classes sociales, ou em seu livro Les classes
sociales dans le capitalisme d'aujourd'hui, N. Poulantzas mantém o postulado de uma dominação política idêntica nos Estados capitalistas, exercida
pelos blocos no poder, quer se trate dos Estados no estágio capitalista concorrencial, como Marx pôde descrever em La lutte des classes en France en
1848 ou em Le 18 Brumaire, quer se trate do monopolismo e do estágio de
dominação econômica da fração monopolista, estágio característico do
"capitalismo contemporâneo"(2).
Todas as frações da burguesia, mesmo se a burguesia monopolista
desempenha um papel "hegemônico", são reagrupadas na noção perenizada, cristalizada de modo a-histórico, de "bloco no poder". Poulantzas é
bem claro nesse ponto quando afirma: "Essas características do bloco no
poder e do Estado capitalista, e as análises dos clássicos marxistas a esse
respeito, têm como único campo de validade o capitalismo concorrencial?
Ora, embora consideráveis modificações apareçam no estágio capitalista
monopolista, e mais especialmente em sua fase atual, não se trata disso(3)
... A maior dependência do capital não monopolista em relação ao capital
monopolista ... não significa absolutamente que o capital não monopolista
seja "explorado" pelo capital monopolista(4) ... O conjunto do capital
não m_?nopolista está situado do lado burguês da barreira de classe"(5).
A perenidade dessa situação de classe corresponde, portanto, uma
mesma continuidade nas concessões econômico-políticas feitas pela fração
monopolista às outras frações(6), ainda que, sobre este último ponto, as
posições de Poulantzas sejam muito ambíguas. Ora, é esse no entanto o
crit~ri~ essencial que permite validar ou invalidar a aplicação às formações
capitalistas contemporâneas da noção de "bloco no poder". Só um verdadeiro estudo histórico da evolução da situação da classe capitalista e das
concessões políticas feitas pela fração dominante às frações capitalistas
não dominantes poderia trazer uma resposta científica a essa pergunta. Na
(2) N. Poulantzas, Les classes socialies dans /e capitalisme d'aujourd'hui Paris
Le Seuil, 1974, p. 101.
'
'
(3) lbid., p. 107.
(4) lbid., p. 163.
(5) lbid., p. 166.
(6) lbid., p. 156.

281

ausência de tal estudo sobre o período 1870-1977, principalmente para a
França, vamos tentar apresentar o que a política "urbana" traz de novo a
respeito das fraçõ~s capitalistas não monopolistas, durante estes últimos
vinte anos. É pos1ível medir o impacto das diversas camadas médias não
assalariadas sobre as políticas urbanas através da:
política fundiária elaborada pelo aparelho de Estado e pelos proprietários fundiários rurais e urbanos (PME, co-proprietários);
política de reestruturação das coletividades locais e do conjunto das
camadas médias ligadas aos "figurões" locais;
- política dos "centros comerciais" e do pequeno e médio capital
comercial;
política de renovação urbana diante do pequeno e médio capital
industrial; na medida em que a propriedade fundiária não monopolista reagrupa ao mesmo tempo a pequena propriedade industrial,
artesanal ou comercial e a propriedade habitacional, este último
ponto será integrado em nossa análise da política fundiária nacional.
Esses diferentes setores da política urbana (política fundiária, autonomia local, renmações do centro comercial e política industrial) deveriam
permitir uma melhor compreensão da evolução histórica das "concessões"
feitas pela fração de classe economicamente dominante ( o capital monopolista desde os anos 1910-1930 na França) para com frações ou camadas
que foram as aliadas da burguesia capitalista e da aristocracia fundiária no
século XIX, na época do "bloco no poder". Por falta de informações suficientes, limitaremos o período histórico estudado aos anos 1945-1970, só
remontando ocasionalmente ao período entre as duas grandes guerras.

1. Política fundiária "monopolista" ou política de comprometimento
em relação à pequena e média propriedade fundiária?

Eis a pergunta que pode ser feita quando se vê a ausência de questionamento radical sobre a pequena propriedade fundiária por parte das diversas leis fundiárias francesas que surgiram desde 19 50( 7).
(7) Cf. C. Topalov, Expropriation et préemption publique en France ( 1950-

1973).

282

Os trabalhos de C. Topalov mostram como a aplicação de uma regulamentação seletiva havia possibilitado a criação de sobrelucros fundiários
monopolistas em toda uma série de zonas urbanas ou peri-urbanas. Resta-nos agora explicar a persistência do obstáculo da propriedade fundiária
não monopolista, na medida em que nenhuma lei francesa atacou-a frontalmente. A referência histórica ao peso político e econômico "da propriedade fragmentada e dos pequenos bens de raiz"(8) na França dos séculos
XVIII e XIX, e mesmo do início do século XX, parece-nos mais uma
referência "etnologista" e mítica do que científica, diante das transformações que a indústria moderna e a urbanização produziram na França depois
de 1950. Não é verdade que a maioria dos franceses (80%) é hoje assalariada e que a propriedade, embora ainda muito difundida(9), é antes de tudo
uma "propriedade" de ocupação (co-propriedade), ilusória, bem parecida,
quanto à qualidade do habitat, com a locação e diferente tanto da propriedade dos meios de produção ou de troca quanto da propriedade fundiária
como lugar de repartição e de coleta da mais-valia social?
É certo que, na França, deve-se distinguir a grande propriedade burguesa ou mesmo nobiliária ligada à agricultura capitalista ( ou ao investimento especulativo) da pequena propriedade parcelar. Contudo, estudos
como o de Raymond Dugrand(l O) sobre os pequenos proprietários urbanos que deixaram as zonas vitícolas do baixo Languedoc mostraram que
grande parte de seus rendimentos provinham da renda fundiária extraída
das regiões vitícolas.
Se nos anos 1950, 34,5% do vinhedo do baixo Languedoc é possuído
por proprietários não residentes dos quais mais de nove décimos são citadinos, R. Dugrand distingue, no entanto, claramente a "pequena propriedade
citadina" dos que deixaram o campo (menos de 6 ha) - 15 300 proprietários nas três grandes cidades : Montpellier, Nfmes, Béziers; 24 150 nos centros urbanos do baixo Languedoc, 18 000 citadinos tendo em média apenas 0,72 ha de vinha (5% do vinhedo do Languedoc!); ao contrário, 1 331
proprietários que deixaram o campo, tendo cada um mais de 50 ha de
terras, possuem 21 % do conjunto do baixo Languedoc; 1 218 morando na
cidade possuem 70,9% da propriedade fundiária urbana - um quinto do
vinhedo do baixo Languedoc é possuído por 1 400 citadinos. Desses 1 400
proprietários, 282 têm, em média, 610 ha. Dos 3,5 bilhões de renda fun(8) K. Marx, Un chapitre inédit du capital, Paris, col. "10/18", p. 290.
(9) C. Topalov, Economie et Politique, março de 1974, p. 76 .
(10) R. Dugrand, Villes et campagnes en bas Languedoc, Paris, PUF, 1963.

283

diária anual média recebida pelos proprietários fundiários, 60,6% são
açambarca dos pela alta e altíssima burguesia vitícola ( 51 O citadinos, 5 ,8%
dos proprietários urbanos).
Também é verdade que milhares de funcionários e pequenos comerciantes que procuram um emprego de capital lucrativo conseguem aumentar sensivelmente sua renda graças a essas "migalhas" de mais-valia bem
surpreendentes, segundo os dados de Dugrand: em 1957, pequenos funcionários de Béziers ou de Montpellier duplicavam seus salários ( 61 O francos
por mês num emprego qualificado) graças à vinha que era vendida a 580
francos o hectolitro.
É claro que isso está longe do sobrelucro capitalista extraído da
sobreexploração dos assalariados agrícolas nas grandes propriedades vitícolas; assim, sempre segundo Dugrand, enquanto a vinha só rendia 35 000
francos/ha para a propriedade microfundiária, ela rendia no mesmo ano
70 000 francos para a grande propriedade. Por outro lado, a mecanização
muito desenvolvida nas grandes propriedades permitiu ao grande proprietário adaptar-se às crises de sobreprodução, enquanto os pequenos camponeses eram levados à falência . Isso não impede que a pequena propriedade
parasitária dos que deixaram o campo, aumentada ainda pelo afluxo para a
cidade de camponeses arruinados, constitua uma sobrevivência que pode
servir de base a uma aliança ideológica e política entre pequena e grande
propriedade fundiária dos que deixaram o campo, nas cidades do baixo
Languedoc, apesar do crescente poder monopolista sobre as maiores propriedades vitícolas e da proletarização dos camponeses que exploram a
terra, semelhante à dos assalariados da cidade. Pode-se perguntar em que
medida esse exemplo regional não poderia ser generalizado a outros conjuntos cidades-campo onde a urbanização ainda não destruiu, mesmo
entre os operários de fábrica e os outros assalariados, o vínculo social e
ideológico com a propriedade rural microfundiária (Bretanha, Aquitânia,
Normandia, etc.). Esse fato talvez explique a durável resistência política,
apesar da queda sensível da porcentagem de camponeses na população
ativa francesa, a qualquer forma de coletivização - municipal ou nacional
- da propriedade fundiária. É em todo o caso o que se depreende do fracasso sucessivo de todos os projetos governamentais, sobretudo desde 1966,
que procuram impedir os pequenos proprietários fundiários de se apropriarem de uma parte da renda fundiária urbana (sobretudo renda diferencial
I) e de se aproveitarem da alta dos preços do solo. A oposição, indicada
por C. Topalov, entre os representantes diretos, no aparelho de Estado, do
capital monopolista (alta administração, Comissariat au Plan, Ministério

do Equipamento) e os representantes dos pequenos proprietários fundiários não é uma evidênciaCl 0? Segundo esse autor, os deputados-prefeitos
como os senadores UNR teriam sido vigorosamente contrários a qualquer
instituição de um imposto financeiro bem como à contestação da fixação
dos preços de indenização pelos "juízes fundiários"; estes seriam sistematicamente favoráveis em suas declarações aos proprietários, ao passo que
o governo queria substituir os juízes fundiários pelos administradores
regionais.
O fracasso dos projetos de imposto fundiário elaborados em 1966-1970 por Edgar Pisani ou em 1971 por Albin Chalandon não pode ser
explicado no entanto "apenas pelo receio das reações poujadistes< *)" dos
dez milhões de pequenos proprietários, como nota com pertinência A.
Lipietz0 2) . É porque a "Union nationale de la Propriété immobiliêre"
que se opôs com vigor a qualquer tentativa de "municipalização" dos solos
reagrupa ao mesmo tempo os pequenos exploradores agrícolas, os co-proprietários, os proprietários de casas no subúrbio e os grandes proprietários
fundiários ligados a grupos monopolistas, os únicos de fato capazes de
recuperar a maior parte da renda diferencial I visada pelos projetos de
imposto financeiro .
Poderia, então, ser feita a objeção de que a municipalização dos solos
das grandes cidades é fato consumado nos países capitalistas vizinhos da
França (Dinamarca, Alemanha, Holanda) onde, entretanto, a propriedade
fundiária monopolista existia também desde o começo do século. É fácil
responder, a nosso ver, opondo o período atual àquele em que se efetuou a
municipalização do solo das grandes aglomerações alemãs, holandesas ou
dinamarquesas - o fim do século XIX( 13) e o início do século XX, período em que o caráter usurário do capitalismo francês contrastava com os
investimentos produtivos dos grupos monopolistas desses três países europeus; de fato, pode-se formular a hipótese de uma correlação entre a atual
crise geral do capitalismo monopolista de Estado - em todos os países
.
(11) Cf. C. Topalov, Expropriation et préemption publique en France, op.
clf., pp. 84 e segs., e A. Lipietz, Le tribut foncier urbain, Paris Maspero 19174 pp.
'
'
'
196-199.
(*) Poujadistes, relativo a Pierre Poujade, fundador de um movimento e partido político popular de direita. Atitude pequeno-burguesa de rejeição da evolução
sócio-econômica (N. da T.).
(12) Op. cit., p. 199.
(13) Segundo um estudo de M. Boyer publicado em Le Monde de 20 de abril
de 1971, os Países-Baixos constituíram desde 1851 importantes reservas fundiárias
municipais.

285

,·apllalistas desenvolvidos - e o desenvolvimento parasitário, improdutivo,
dos i11vcstimentos monopolistas. Assim , a atual compra maciça de terrenos
pn i urbanos, bem situados nas vias de serviço rodoviário ou ferroviário,
I'"' sociedades industriais e financeiras nada teria a ver com um "atraso"
cs1wdfico do desenvolvimento do capitalismo francês, mas decorreria de
11111a característica geral do sistema capitalista atual. Já tivemos oportunidade de mencionar as importantes aquisições fundiárias do grupo Suez-La
l lénin (Les Salines du Midi); a tese de terceiro ciclo de Elisabeth Campag11ac e Christine Dourlens sobre Les villes nouvelles en région parisienneO 4 )
analisa por seu lado a natureza da propriedade fundiária nas áreas de planejamento das cinco cidades novas. Ora, fica assinalado que "dois terços das
propriedades (67,89%) têm mais de 5 ha, a metade mais de 100 ha, dos
quais 450 ha em Nandy e em Lieusaint para os laboratórios Zizine, 450 ha
cm Croissy-Beaurbourg para Guy de Rothschild; 1 250 ha vizinhos da fábrica de chocolate Meunier em Noisiale . . ."(15). Ora em Ménincourt (Cergy-Pontoise), Maurepas (Saint-Quentin-en-Yvelines), Ris-Orangis (Evry), etc.,
os grandes proprietários efetuaram operações de concorrência em torno
das áreas das cidades novas ou simplesmente adiantaram-se à expropriação
através de transações proveitosas com a AFTRP. As autoras da tese citada
indicam aliás que as aquisições fundiárias das cidades novas são justamente
as mais adiantadas nessas grandes propriedades. Outros exemplos podem
ser encontrados nas terras arborizadas da periferia oeste e da periferia leste
da região parisiense perto das auto-estradas AIO e Al 1 e do trecho Nation-Boissy-Saint-Léger do RER(16).
Quando, enfim, se examinam as condições reais de indenização dos
pequenos proprietários nas zonas de renovação urbana (La Défense, ltalie,
Front de Seine ... ) como nas zonas peri-urbanas (lavradores de Cergy),
percebe-se logo a fragilidade da hipótese segundo a qual esses pequenos
proprietários estariam recebendo, graças a essa indenização , uma verdadeira transferência da mais-valia social.
Segundo um conselheiro geral0 7) de Courbevoie, no momento da
(14) UER : Urbanisation et Aménagement, Université des Sciences Sociales de
Grenoble; abril de 1975, Les villes nouvel/es en région parisienne, op. cit.
(15) Op. cit., p. 314.
(16) Pensa-se naturalmente nas aquisições do grupo Balkany nas Yvelines
(depois de Parly II, Chevry II, Sainte Mesme, Saint-Amould-en-Yvelines - 800 ha
pertencentes aos Srs. Saint-Freres - ) ou na tentativa de venda pelo duque de Luynes
de 1 3 72 ha de suas propriedades no vale de Chevreuse para o banco Lazard.
(17) Conseil général de la Seine. Débats.

286

, ,peração da zona A de La Défense, "indenizações irrisórias foram pagas
,,,·/o Ministério da Reconstrução e da Habitação aos pequenos proprietá1h 1.1· da zona A de La Défense. A administração dos Domínios e o MRL
.-xerceram sobre eles pressões diretas para que aceitassem preços quase
,,·mpre inferiores de 50% aos preços do mercado".
Depois da publicação do decreto de 20 de maio de 1955 modificando parcialmente o planejamento da zona A de La Défense, R. Barbet,
prefeito de Nanterre e conselheiro geral, se constitui porta-voz do "abalo
dos locatários e pequenos proprietários": estes últimos estão diante da
recusa de qualquer alvará de construção, "todas as pequenas novas constru~:1)es estão paradas em Nanterre", enquanto "pessoas" se apresentam aos
111oradores dos prédios situados perto do Rond-Point de La Défense, convidando-os a assinar termos de compromisso a fim de cederem sua pequena
propriedade0 8). Um conselheiro geral socialista também denunciará as
.. pressões" exercidas sobre os pequenos proprietários em La Défense, no
sentido de uma cessão amigável. O presidente do Conselho geral em 1956,
,'>r. Chochon - centrista - insurge-se contra a lei de 12 de dezembro de
1956, "distorção da liberdade econômica, lei dirigista ... atentado contra
a propriedade ... os procedimentos de expropriação são cada vez mais
voltados contra os proprietários em proveito das coletividades públicas"(l 9).
A prova: enquanto as comissões de desapropriação compreendiam na
111aioria, ou na totalidade, proprietários, hoje essas comissões são constituídas por quatro funcionários para um proprietário. G. Dardel, prefeito de
l'uteaux, poderá retorquir que é preciso fazer uma distinção entre pequenos proprietários e o GFARD, o grupo dos grandes proprietários-incorporadores da zona A de La Défense(20) .
O mesmo não acontece com os novos proprietários nos anos 19551957; as aquisições amigáveis de terrenos são não só toleradas, mas encorajadas pelo MRL que lhes concede o direito de retrocessão e o alvará de
construção (Esso, Simca, CEM, Philips, Compagnie d'Assurance L'Union,
Crédit Lyonnais, E,hell-Berre, grupo Beghin - empresa de imprensa). Esses
grupos industriais e financeiros compraram terrenos na zona A no momento em que os projetos de planejamento de La Défense foram tornados
públicos (1955-1956) e sua intenção especulativa é evidente.
(18) ConseiÍ général de la Seine. Débats, 14 de desembro de 1955, p. 625.
(19) lbid., 12 de dezembro de 1956, p. 702.
(20) lbid., p. 705.

287

Em sua monografia sobre La rénovation de la région de La DéfenClaude Liscia revela que o terreno adquirido em 1956 pela socie11:idc Simca-Fiat perto do Rond-Point de La Défense pelo preço de 53 francos será desapropriado pelo EPAD em 1966 por 860 F/m2(22)_
O caso de La Défense não é um caso· isolado. Dos 260 co-proprietários da place des Fêtes em Paris, 240 procuram, por seus próprios meios ,
outra moradia, visto não poderem pagar as quantias suplementares para
adquirir a habitação nova construída no per{metro; pelo menos 30 voltam
a ser inquilinos por não conseguirem reutilizar a indenização de desapropriação na compra de um apartamento equivalente(23).
Os pequenos artesãos e industriais são ainda mais prejudicados, já
que o preço de aquisição das parcelas industriais ( de 120 a 300 F /m2 entre
1958 e 1961) será inferior ao preço das parcelas ocupadas pela habitação(24). Ao contrário, as grandes parcelas industriais serão vendidas a
preço sempre superior, até 196 7, ao preço médio anual das mutações amigáveis e judiciárias da operação. Assim, de 1962 a 1963, as grandes parcelas
passam de 300 a 600 F /m2; as parcelas médias, ocupadas essencialmente
por pequenas empresas artesanais ou industriais, vêem seus preços girar em
torno de 250 F/m2, ou seja, abaixo do preço médio das desapropriações e
aquisições amigáveis das parcelas para uso habitacional. Como diz D.
Duelos, a lei de 1962, que limitava então os preços fundiários ao nível de
1959, parece que deixava passar por suas malhas a grande parcela(25).
Constatação idêntica para a operação Beaugrenelle -Front-de-Seine : enquanto Citroen faz uma venda "amigável" de 20 000 m2 a 2 200 F /m2, ou seja,
mais de 700 F acima do preço médio dos outros terrenos industriais, as
pequenas parcelas industriais são adquiridas por desapropriação por cerca
de 1000F/m2(26).
O estabelecimento das AFU (Associações fundiárias urbanas) em
1968 faz com que os incorporadores financeiros possam limitar ainda mais
a parte da renda fundiária recuperada pelos pequenos proprietários.
Vimos como o dispositivo regulamentar da AFU possibilita ao incorporador conseguir a maioria através do interesse individual dos grandes
sc( 21 ) ,

(21) CI. Liscia, tese de 3.º ciclo, Paris, 1976.
(22) Op. cit., Cap. III, p. 3.
(23) D. Duelos, Deux opérations de rénovation urbaine à Paris entre 1958 et
1971, CSV, 1973, p. 65 .
(24) Ibid., p. 68.
(25) Ibid., p. 74.
(26) Ibid., pp. 96-97.

proprietários (antes da constituição definitiva da AFU e da adesão à "Fédération Italie"), e reduzindo em seguida o custo das aquisições fundiárias
através de uma série de meios regulamentares. Assim, segundo D. Duelos, a
COGEDIM (Paribas) dispõe das seguintes possibilidades nos quarteirões de
Bl a B4 de Italie:
- Para os 18 000 m2 de habitações HLM, é a AFU, isto é, os proprietários, quem pagará o encargo fundiário não abordável pelo construtor.
- O excesso dos preços de aquisição das parcelas de co-propriedade
sobre as outras é repartido entre os proprietários e deduzido do valor de
seu terreno.
- Um preço de demolição dos solos, estabelecido pelo promotor
(50 F/m2 em 1968), é imputado sobre o preço de venda das parcelas.
- As despesas de gestão da "Fédération" acrescentam-se, para a
AFU, às dos organismos prestadores de serviços que efetuarão as pesquisas
e os estudos.
- A participação do construtor nos equipamentos coletivos (30
F/m2) é garantida pela própria AFU.
O que caberá ao proprietário não é, portanto, o valor venal de seu
bem, mas sim, em nome de sua "participação na urbanização", uma soma
residual da qual cada parâmetro foi definido, imposto pelo incorporador(27) .
A desvalorização seletiva da pequena propriedade industrial, comercial , ou da co-propriedade de nível modesto, tal como era praticada nas
operações de renovação pública, dá lugar na ZAC de Italie(2 8), onde o
incorporador privado encontra diretamente o obstáculo da propriedade
fundiária, a uma dominação completa de todos os proprietários de determinado quarteirão.
Estes fatos levam-nos a reconsiderar as hipóteses apresentadas por
A. Lipietz e C. Topalov (Expropriation et préemption publique): o atual
fracasso de qualquer tentativa de "municipalização" do solo na França
(27) Op. cit., p. 149.
(28) O estudo do Groupe de Sociologie urbaine (102, rue Tronchet, Lyon VI): Rénovation urbaine du quartier du Tonkin à Villeurbanne. Relogement des
anciens habitants. Enquête aupres des ménages relogés (julho de 1973) apresenta

resultados semelhantes: "Pode-se constatar ... uma diminuição de metade do número
de proprietários: no Tonkin, 12% atualmente contra 24%"... (p. 11); quanto às indenizações de realojamento "alguns, sobretudo ... os proprietários de casas, de lojas ou
de oficinas têm a impressão de ter perdido muito" (p. 89).

288
289

procede menos de um comprometimento político entre a classe dominante
e os dez milhões de "proprietários" parcelares do que dos imperativos das
taxas de lucro dos grupos monopolistas para quem os deslocamentos fundiários são um instrumento apreciável de "ostentação" para a baixa da
taxa de lucro nos setores industriais; os atuais processos de "desmunicipalização" do solo nos grandes centros urbanos da República Federal Alemã,
da Holanda ou da Escandinávia contribuem para reforçar esta nossa
hipótese.
De qualquer forma, nada permite validar concretamente a hipótese
de concessões reais à pequena propriedade fundiária; quanto à "municipalização" do solo, é ela desejada não só pelos representantes monopolistas da
construção industrializada como também por certos setores do aparelho de
Estado sensíveis à contradição, no nível do conjunto da formação social,
entre o custo das aquisições fundiárias nas grandes cidades e as necessidades diretas do capital produtivo; tal contradição não nos parece atualmente
capaz de ser solucionada na medida em que a fusão do capital industrial e
do capital bancário - o capital financeiro - assimilou o obstáculo fundiário, transformando-o numa tendência entre outras à especulação parasitária
dos grupos monopolistas.

2. A política de reestruturação das coletividades locais:
Natureza do "comprometimento" entre capital monopolista
e camadas médias, suporte das "liberdades locais"

Já assinalamos na primeira parte deste capítulo o paralelismo entre a_
estrutura de classe da política fundiária e a estrutura da política referente à
administração local. Na medida em que havíamos formulado a hipótese,
em ambos os casos, de uma política "seletiva" em favor dos interesses da
fração de classe dominante, o problema da natureza real do comprometimento em relação às camadas médias também fica proposto.
Pode-se distinguir com razão duas etapas no processo de reestruturação das instituições locais(29):
- Uma primeira etapa, de 1958 a 1967, em que o Estado procede
(29) Cf. a tese de E. Campagnac e C. Dourlens, Les villes nouvelles en région
parisienne, op. cit., p. 216.
290

por medidas fragmentadas (os decretos de 1958 sobre os distritos urbanos
bem como a lei de 1966 sobre as comunidades urbanas só serão aplicados a
algumas cidades).
- Uma segunda etapa, a partir de 1968, com o projeto de lei Fouchet (1968), a lei Marcellin e as duas reformas regionais (a - malograda de 1969 e a de 1972), onde, então, é o conjunto das coletividades locais
que é visado.
Ora, uma rápida análise do conteúdo como das condições de aplicação dessas diferentes reformas pode levar-nos ainda uma vez à hipótese da
ausência de ataque frontal das camadas médias, suportes das coletividades
locais, pelo aparelho de Estado central e pelo capital monopolista.
Convém lembrar o caráter bem fragmentado e hesitante da primeira
etapa: sobretudo o fracasso do decreto de 1958 sobre o distrito da região
de Paris diante do Parlamento e sua transformação, em 1961, em lei emendada por deputados e senadores(30); a limitação da lei sobre as comunidades urbanas a quatro grandes cidades, enquanto ficavam excluídas aglomerações como Marselha, Toulouse ou Nice; e, enfim, as dificuldades de
aplicação da lei em Lyon (levou dois anos para que nascesse a comunidade
urbana de Lyon) ...
O mesmo se verificou na segunda etapa: o projeto de lei Fouchet que
essencialmente procurava reagrupar as comunas, inclusive por via autoritária, choca-se com a oposição da Associação dos Prefeitos de França: "As
pesquisas e consultas efetuadas pela Associação mostraram que se os prefeitos pretendem usar amplamente as diferentes formas de agrupamento
que lhes são oferecidas, recusam-se, na maioria, a qualquer forma de agrupamento imposto, mesmo indiretamente, e que tenha tendência a retirar às
comunas o poder de decisão e a limitar-lhes as possibilidades de ação nos
organismos intercomunais por elas criados"(31).
Essa hostilidade será ainda reforçada diante das propostas muito
autoritárias referentes à criação de "conjuntos urbanos" administrados por
um conselho de nove membros nomeados por decreto para gerir as cidades
novas; a Associação recusará categoricamente o esvaziamento dos conselhos municipais em proveito de funcionários nomeados pelo poder de
Estado central(3 2).
(30) Cf. J. Lojkine, La politique urbaine en région parisienne, op. cit., Paris-Haia, Mouton.
(31) E. Campagnac e C. Dourlens, op. cit., p. 226.
(32) Ibid., pp. 276-277.
Se cabe a uma comissão departamental de deputados estabelecer, em cada
291

Quanto à lei Marcellin sobre o reagrupamento das comunas, embora
tenha sido de fato votada pelo Parlamento em 1971 e tenha retomado o
essencial das disposições contidas no projeto Fouchet, só se pode constatar
a oposição entre o autoritarismo do texto da lei e seu pequeno efeito prático: como aplicação da lei de 16 de julho de 1971 houve só 609 fusões
abrangendo 1 543 comunas< 3 3). Ora, as propostas de fusão e de reagrupamento contidas nos "planos ótimos" elaborados pelos administradores
departamentais referem-se a 9 761 comunas para a fusão. :É verdade que
entre 1945 e 31 de dezembro de 1971, só houve 403 fusões abrangendo
864 comunas, ao passo que em um ano, desde a lei de julho de 1971,
houve 609( 34 ). Mas não se deve esquecer que restam 37 574 comunas,
enquanto os elementos "modernistas" da alta classe patronal pediam
2000( 3 5) , à semelhança das fusões autoritárias realizadas nos outros
países capitalistas desenvolvidos: na Suécia passaram de 7 000 comunas
em 1946 a 1 029 comunas em 1961, e a 700 em 1969; nos Países Baixos,
de 1014 comunas em 1954 a menos de 900 em 1967; na República Federal Alemã as Landkreise e Landschaftsverbante, associações intercomunais
ou intercantonais (300 Kreise para 24 000 comunas), substituem as comunas no que se refere a equipamentos e a tudo que não for de competência
local. Quanto à Grã-Bretanha, a autonomia das coletividades locais - fre·
qüentemente citada na França como exemplo - tornou-se um mito.
No estudo já citado sobre L 'évolution du systeme de gouvernement
local en Grande-Bretagne, CI. Mingasson analisou assim o inexorável processo de transferência de competência dos poderes locais ao governo central: desde os serviços de transportes rodoviários de passageiros em 1930,
departamento, um projeto de reagrupamento comunal, o poder de decisão cabe ao
administrador regional que, à vista do projeto, "estabelece um plano de fusão de
comunas a realizar e outras formas de cooperativa intercomWlal a promover" _
comunidade urbana, distrito ou sindicato intercomunal com finalidade múltipla
(SIVOM).

(33) Les Cahiers [rançais, 158-159, janeiro-abril de 1973.
(34) Les Cahiers [rançais, 158-159, janeiro-abril de 1973, La région.
. (35) ~lub Jean-Moulin, Les citoyens au pouvoir, 12 régions, 2 000 communes,
Paris, Le Seuil, 1968. Pode parecer estranho que identifiquemos o Qub Jean-Moulin
como organização da classe patronal. Nossa hipótese é que sua função atual asseme·
lha-~e à do. Mu~eu social. dos anos 20 onde se encontravam membros da classe patronal mdustnal, mtclectuais e deputados socialistas. Convém distinguir aqui, segundo a
expressão de Marx em La lutte des classes en France en 1848, "o horizonte ideológico" - comum ao conjunto dos membros do Club - e o pertencimento de classe que
pode ser bem diversificado, desde a pequena burguesia clássica as camadas médias
assalariadas até a oligarquia monopolista.
'

292

até os hospitais (National Health Service Act de 1946), o fornecimento de
eletricidade (194 7), de gás ( 1948), a assistência social (1948) e a avaliação
da propriedade para os impostos locais (1948)( 3 6).
Além disso, novas funções foram assumidas pelo Estado: o New
Towns Act de 1946 não prevê que as developpment corporations encarregadas da construção dessas cidades possam ser organizadas pelas coletividades
locais. Quanto ao planejamento regional, em 1964 a Grã-Bretanha foi dividida em oito regiões, cada uma dotada de um Regional Economic Planning
Council que participa da elaboração dos planos regionais ( estradas e transporte, habitação, população, escolas, hospitais, serviços sociais, localizações industriais e comerciais ... ) e supervisiona sua execução. Ora, as auto-

ridades locais não são representadas de acordo com sua qualidade nesses
conselhos, já que o governo escolhe um terço do Conselho dentre uma lista
proposta pelas associações de autoridade locais, e que os membros assim
designados são admitidos a título individual e não como representantes dos
poderes locais. O poder de decisão pertence, ali.ás, não ao Conselho, mas a
um "Regional Economic Planning Board" composto de representantes dos
principais ministérios(3 7). Mas a centralização e a concentração do poder
urbano ultrapassaram um novo limiar em 1972(38) com a reformulação
geral da estrutura das coletividades locais, em proveito do poder de Estado
central.
Não é essa a prova da existência, na França, de uma relação de forças
em favor dos "figurões locais" e das classes sociais que eles representam?
De que outro modo explicar o tão limitado alcance da lei de 1971?
Não é difícil continuar a demonstração com relação aos dois projetos
de reforma regional, o fracasso do projeto de De Gaulle de 1969 tendo-se
traduzido por importantes modificações da lei adotada pelo Parlamento em
1972. Enquanto o projeto de 1969 previa, com efeito, a instituição de um
conselho regional comportando 40% de membros representantes das associações profissionais privadas, na maioria patronais, a lei de 1972 reserva o
poder deliberativo aos conselhos regionais compostos apenas de deputados
- embora do terceiro grau.
(36) Op. cit. , pp. 554-555.
(37) Jbid., pp. 550-551.
(38) A exemplo da França, com a criação desde 1961 do distrito da região de
Paris, o London Govemment Act a partir de 1963 vai reagrupar as 118 coletividades
locais de níveis diversos que constituem a "Grande Londres" sob a autoridade de um
"Conselho da Grande Londres" dominando 32 conselhos de burgo e a corporação da
City.

293

Enfim, o próprio autor da lei sobre as cidades novas, M. Boscher,
apresenta seu texto como um acordo político: "Este texto que traz meu
nome ... procura ser um acordo entre os partidários de um autoritarismo
para quem as preocupações de eficácia passavam na frente das tradições de
democracia local e aqueles para quem não há salvação fora dos textos de
1884 sobre o estatuto das comunas"(39). A prova patente disso é uma
comparação com o projeto de lei Fouchet sobre as cidades novas: o conselho de nove membros nomeados por decreto que recebia todos os poderes
de um conselho municipal até que 40% das habitações previstas tivessem
sido ocupadas, cedeu a vez a cinco estruturas comunitárias das quais quatro recorrem a uma decisão voluntária das comunas:
o sindicato comunitário de planejamento (SCP);
a comunidade urbana;
a responsabilidade do planejamento por parte de uma comunidade
urbana preexistente;
o conjunto urbano voluntário;
a quinta fórmula é a do conjunto urbano imposto.
O SCP, como a comunidade urbana, é composto de membros eleitos

pelos conselhos municipais; o conjunto urbano voluntário é provido de um
conselho de nove membros dos quais quatro eleitos pelos conselhos municipais interessados e cinco pelos representantes do ou dos conselhos gerais
ou cantonais situados no território do conjunto urbano. Quanto ao conjunto urbano imposto, ele serve como ameaça de recurso, caso:
as comunas, no prazo de quatro meses, não tenham escolhido um
modo de reagrupamento;
o SCP ou a comunidade urbana, no prazo de quatro meses, não
tenham feito uma convenção com o EPA;
o conjunto urbano voluntário recuse fazer uma convenção com o
EPA nos mesmos prazos.
Então as estruturas voluntárias são substituídas por um conselho
cujos 31 membros são designados dentre os conselheiros gerais.
Isso significa que a instituição comunal sai praticamente incólume
dessas diferentes reformas? Nada disso, pois o recuo real do governo quanto à democracia local é bem compensado, na lei Boscher, pela dupla transferência de poderes que conduz a:
(39) Le Monde, 14 de dezembro de 1972.

- uma transferência obrigatória da maior parte dos poderes comunais
ao SCP como ao conjunto urbano ou à comunidade urbana(40)·
- uma transferência, num segundo tempo, dos poderes do SCP, ~u das
outras estruturas comunitárias a um estabelecimento público de
planejamento (art. 7) segundo uma convenção tipo.
Enquanto a convenção tipo deixava, aparentemente, liberdade ao
SCP ou à comunidade urbana para definir os poderes a serem transferidos
à EPA, o exame das convenções tipo já aprovadas (Cergy-Pontoise, Marne-la-Vallée, Saint-Quentin-en-Yvelines) mostra que é o conjunto dos poderes
de que gozava o SCP que foi transferido para a EPA (41). O motivo disso é
simples: só os equipamentos realizados pela EPA são suscetíveis de serem
beneficiados pela "dotação de capital". A convenção que deve ser assinad~
pelos vereadores obriga-os no fim a abandonar todas as tarefas de investimento no estabelecimento público enquanto a gestão dos equipamentos
for assegurada pelo SCP( 4 2). Pode-se mostrar o mesmo processo de "retomada" da autonomia local nas outras reformas já analisadas: quer se trate
dos conselhos regionais da lei de 1972 ou mesmo das comunidades urbanas
de 1966, tudo é feito para transferir os poderes comunais mais importantes
para as novas instituições, sempre controlando de forma cada vez mais
estreita seus principais investimentos, por meio das subvenções "seletivas"
e dos "contratos de plano", onde o administrador regional desempenha,
como já vimos, um papel determinante no nível das grandes opções do
PRDE. A complexidade contraditória desses textos legais vem simplesmente da dura luta política desencadeada pelo questionamento da autonomia
comunal: as concessões formais sobre o "concertamento" ou melhor a
"consulta" dos vereadores locais são desmentidas pelas disposições jurídico-financeiras que subordinam as grandes opções e os grandes investimentos regionais ou locais ao poder de Estado central (4 3).

(40) Cf. a tese de E. Campagnac e C. Dourlens, Les villes nouvelles en région
parisienne, op. cit., pp. 252 e segs.
(41) lbid., p. 305.
(42) lbid. p. 307.
(43) Cf. também o DES de J. Marsaud, La concertation entre /'Etat et /es
col/ectivités locales en matiere de p/anification urbaine, 18 -de outubro de 1972 Universidade de Poitiers, Faculdade de Direito e de Ciências Socias.
'

295

3. A política dos "centros comerciais"
e o pequeno e médio capital comercial

Alain Lipietz apresenta a lei Royer de 1973 sobre a implantação das
grandes áreas comerciais não como uma concessão "verbal" da grande
burguesia, mas como um recuo do Ministério das Finanças diante da revolta dos pequenos comerciantes e a capitulação desse ministério negociada
pelo Ministro da Agricultura, J. Chlrac. Verdadeira "regressão do capitalismo 'modernista' obrigado a pactuar com os pequenos comerciantes apoio político decisivo do atual regime"( 44).
Vamos demonstrar que há uma grande distância entre as declarações
de intenção e os efeitos sociais reais da lei Royer.
Segundo o texto da lei, os hlpermercados estão sujeitos a quatro
entraves :
a exclusão dos descontos diferidos (bonificações) de fim de ano no
cálculo do preço de custo;
a redução para trinta dias de prazo de pagamento dos gêneros perecíveis aos fornecedores ;
a proibição de condição de venda discriminatória não justificada por
diferenças nos preços de custo;
a atribuição às comissões de urbanismo comerciais de um poder de
decisão e não mais apenas de consulta.
Ora, segundo pesquisas da revista Entreprise(45) , eis como os grandes grupos da distribuição "torcem" essas quatro imposições:

- Os descontos diferidos (entrave n.0 1) são reintroduzidos no cálculo dos preços de custo quando são considerados "garantidos". É o caso
dos grandes hipermercados. Essa tolerância da administração é explicada
pela preocupação de barrar a alta de preços (?), e também porque a reldção
de forças fabricantes-distribuidores vai pender nitidamente em favor destes
últimos(46).
- A redução dos prazos de pagamento (segundo entrave) para trinta
dias não atrapalha os hlpermercados cujo estoque de alimentação se esgota
(44) Les tribut foncier urbain, op. cit. , p. 202.
(45) Entreprise, 1022, 11 de abril de 1975, pp. 64 e segs.: "Distribution: vers
une guerre de position?".
(46) Entreprise, op.·cit., p. 64.

2%

cm dez ou vinte dias. Esta medida contribuiu portanto para acentuar a
clivagem entre as finnas financeiramente mais poderosas que emprestam
aos bancos, como Carrefour, e as finnas mais frágeis que são obrigadas a
pedir empréstimos.
- A proibição de "condições discriminatórias" não justificadas (terceiro entrave) por uma diferença de preço de custo entre dois clientes já
figurava no decreto de 30 de junho de 1945 e mais tarde na circular Fontanet. "O próprio fato de ser ela relembrada periodicamente demonstra que
há dificuldades para torná-la respeitada"(4 7). Pois para os industriais
"negociar com um 'hlper' do mercado que representa entre 5% e 10% de
sua produção é bem mais delicado do que vender habitualmente a atacadistas e varejistas tradicionais dispersos. A lei é impotente para modificar com
uma penada esse estado de fato"(48).
- O último entrave, o mais "espetacular", o mais reivindicado pelo
CID-UNATI e pelos pequenos comerciantes - a atribuição às comissões de
urbanismo comerciais da decisão das licenças - terá sido mais eficaz? Segundo o estudo citado, sim, foi "muito eficaz" porque "foi conferido a
uma corporação o poder quase absoluto de aceitar ou recusar uma evolução que visa a seu próprio enfraquecimento (isto é, a implantação das grandes áreas comerciais). De fato, dos 20 membros das comissões departamentais ou nacionais, 9 representam o pequeno comércio local, 9 representam
os vereadores locais 'muito empenhados em defender os interesses desse
eleitorado', e apenas 2 representam os 'consumidores'". Além disso, o
balanço das autorizações e recusas de abertura para grandes áreas comerciais parece revelar o efeito malthusiano da lei Royer, visto que, segundo o
sucessor de Jean Royer no Ministério do Comércio, Sr. Ansquer, das 364
decisões tomadas até 30 de novembro de 1974, as licenças de abertura
referem-se a 784 000 m2, enquanto as recusas ultrapassam o milhão de
metros quadrados: "O ministro foi obrigado a reconhecer que os hlpermercados foram as principais vítimas do que alguns chamam 'as comissões do
machado': até agora, apenas um entre quatro pedidos recebeu decisão
favorável"( 4 9).
Entretanto é preciso atenuar esse primeiro balanço - que se refere
somente às decisões das comissões departamentais de urbanismo - notan(4 7) Jbid., p. 64.
(48) lbid., p. 65.
(49) Les Echos, 12 de dezembro de 1974, p. 4.

297

do que, como a decisão efetiva só é obtida após o acordo do ministro com
base no parecer da Comissão nacional, foram finalmente autorizados .....
910 000 m2 contra 910000 m2 recusados. A ação do ministro permitiu,
portanto, um certo reequihbrio em favor das grandes áreas comerciais no
nível nacional. Igualmente, o balanço efetuado em março de 1975 apresenta, sobre 24 processos examinados, 13 recusas (58 500 m2), 11 autorizações
(54 000 m2). Desde a lei Royer é, pois, quase 1 milhão de metros quadrados de área comercial que foram autorizados em menos de um ano. Ora,
recente estatística de 31 de janeiro sobre as decisões das comissões departamentais invalida a análise um pouco sumária que apresentava os membros das comissões departamentais - e sobretudo os vereadores - como
fiéis representantes do pequeno comércio: com efeito, as autorizações
foram superiores às recusas (201 contra 146) e, em superfície, um pouco
menores (700000 m2 contra 800000 m2)(50).
O que sabemos da ambigüidade da representa1;ão política e profissional do pequeno comércio(51) só contribui para re:forçar estes resultados
nacionais: tanto em Rennes como em Lyon as monografias sociológicas
mostraram o atual fracionamento das diferentes camadas de comerciantes
e a tentativa das frações mais ricas de se aliarem com o grande capital
comercial nas grandes operações de urbanismo da periferia e nas do centro
da cidade. Quanto aos vereadores, que se apoiavam tradicionalmente no
conjunto dos "comerciantes", como os prefeitos centristas de Lyon ou de
Rennes, a tendência é, cada vez mais, deles representarem apenas a fração
local do médio capital comercial ligado ao grande capital nacional.
Enfim, não se pode concluir este exame do efeito social real da lei
Royer sem considerar os mecanismos de seleção e de concentração provocados pela própria eficácia do quarto "entrave". O citado estudo de Entreprise mostra que se o limiar de saturação ainda não foi atingido pelos
hipermercados(5 2) - e se por isso não é possível garantir que a lei não
tenha nenhum efeito real sobre os que ainda devem ser abertos - o próprio
efeito malthusiano provoca o reforçamento dos grupos já bem implantados: "A lei. .. traz como resultado implícito a valorização dos hipermercados existentes. Apesar da saturação real estar longe de ser atingida, os
(50) LesEchos, 12 de março de 1975.
(51) Remetemos ao estudo dos sociólogos de Renm:s como ao nosso próprio
estudo sobre Lyon.
(52) Esse limiar foi estimado em 350-450, enquanto em 1.º de janeiro de
1975 só haviam sido abertos 292 hipermercados.

298

que existem e 'funcionam' gozam do privilégio de raridade o que ainda os
torna mais valorizados" ...
"Nesta 'caça ao hiper', Carrefour fica em posição forte em relação
aos concorrentes, graças à sua política constante de autofinanciamento e
ao grau de amortização de suas instalações"(5 3).
Assim, a lei Royer em vez de frear a concentração do capital no setor
comercial, favoreceu-a. Prova disso são os resultados para 1973 dos trabalhos da Commission des Comptes commerciaux de la Nation: o grande
comércio, cuja taxa de expansão (16,8%) superou em 1973 a do comércio
autônomo (11,1%), absorve agora 30% da atividade do comércio varejista
francês contra 25% de há quatro anos(54). Se as grandes lojas continuam a
perder terreno progressivamente (só representam 9,3% do mercado contra
10,5% em 1970), ao inverso, as grandes áreas comerciais - alvo da lei
Royer - absorvem agora 15,5% da cifra de negócios do comércio varejista
e sua taxa de crescimento foi de 31,6% em 1973. Quase 40% do comércio
concentrado é hoje garantido pelas grandes áreas comerciais contra 34,2%
em 1972. Quanto ao pequeno comércio varejista, sua participação no mercado caiu de 71,4% em 1972 para 70,4% em 1973 e sua taxa de crescimento é de apenas 11,1 % (31,6% para as grandes áreas comerciais).

4. Os novos limites do "reformismo urbano"

O conjunto destas análises da natureza real dos comprometimentos
estabelecidos com o pequeno e médio capital bem como com a pequena
propriedade fundiária permite-nos concluir que não há mais base social real
para aquilo que Poulantzas continua a chamar de "bloco no poder".
Estudos históricos que estão fora de nosso alcance dirão um dia em
que momento cessou na França o período de comprometimento social e
político entre a burguesia monopolista e as outras frações da classe capita.lista. Todos os documentos que conseguimos reunir parecem mostrar que
os anos 60 aceleraram o fracionamento dos interesses da classe capitalista e
contribuíram para reduzir a política estatal - no plano de seus efeitos
sociais reais - a uma política monopolista.
(53) Op. cit., p. 71.
(54) Les Echos, 19 de setembro de 1974.

299

E verdade que houve recuos, fracassos momentâneos, mas a concentração monopolista e sua dominação econômica não foram por isso retardadas: as concessões, como já disse Lenin, são hoje "ilusórias" e a aliança
política entre capital monopolista e médio ou pequeno capital funciona
antes de tudo "a ideologia", para parafrasear Althusser.
Só consideramos até agora as relações entre frações do capital, mas
as concessões feitas à classe operária e às camadas médias assalariadas
teriam passado pela mesma evolução? Na falta de um estudo sistemático(55) da evolução da política da habitação social e dos equipamentos
coletivos de cinqüenta anos para cá, pode-se contudo notar o questionamento, a partir de 1963, da ajuda do Tesouro Público à construção social
e aos equipamentos fmanciados pelas coletividades locais.
Desde 1963 os empréstimos do Crédito Fundiário para as habitações
comuns passam de 3,75% para 5% em vinte anos, e os empréstimos a
2,75% em trinta anos desaparecem; enquanto isso, a diminuição da porcentagem das HLM de aluguel em relação ao total de habitações construídas, a
partir de 1969, coincide com o encarecimento do custo do crédito bancário que fmancia, no entanto, uma parte crescente da construção de habitações(56). Além disso, a diferença entre o crescimento dos aluguéis HLM e
o dos salários dos operários e empregados a partir de 1966(57) transforma
a aparente estagnação da porcentagem das HLM construídas a partir de
1958 (cerca de 30%) numa transferência segregativa da atribuição das HLM
em proveito dos contramestres e sobretudo dos executivos de nível médio,
e isso em prejuízo dos operários.
É por isso que não se pode esquecer os limites das reformas urbanísticas, no interior do atual sistema, quando, sob a pressão de movimentos
de protesto maciços, o poder de Estado concede - contra sua própria lógica - algumas extensões de linhas de metrô para o subúrbio ou a proteção
do habitat urbano contra as auto-estradas ou os transportes em local próprio: esses limites capitalistas não devem ser atribuídos a uma opção urbanística nem a uma forma arquitetural peculiar, mas sim à segregação da
(55) Cf. Suzanna Magri, La politique du logement des classes laborieuses d
Paris et d Londres (1890-1939), Centre de Sociologie uxbaine, 1976; cf. também Politique du logement et besoins en main-d'oeuvre, CSU, 1972.
(56) Cf. Quadro do número de habitações terminadas por ano e por setor da
construção, in: Urbanisme monopoliste, urban.isme démocratique, pp. 153-154 (ver
p. seguinte).
(57) Ibid. , p. 155: "Evolution des loyers HLM, des salaires, des revenus et de
l'indice des prix depuis 1960" (ver páginas seguintes).
300

Profissões dos chefes de família morando em HLM de aluguel
(Bu/fetin statistique du ministere de la Construction, junho de 1960)
Paul Clerc, Grands ensemb/es. Banlíeues nouvelfes, caderno n. 0 49 do Centre
de Recherche d'Urbanisme, INED, PUF, 1967, p. 159:
"Quadro da composição social dos grandes conjuntos habitacionais
segundo o tipo de organismo promotor"
Novembro de 1964

1960
(%)

Artesão, comerciante
1ndústrias, grandes comerciantes, chefes
de nível superior, profissionais liberais
Chefes de nível médio
Empregados
Contramestres, operários qualificados
Operários e trabalhadores manuais
Pessoal de serviços
Inativos
Outros inativos

Aglomeração
parisiense
(%)

Província
(%)

4

5

4

8
15
16
30
16
3
4
4

7
15
14
47

5
14
14
48

4
Não
determinado

3

qual são vítimas os trabalhadores com referência às zonas de concentração
dos equipamentos coletivos que permitem o pleno desenvolvimento das
capacidades físicas e culturais da personalidade humana. A renovação do
centro de lvry realizada por sua municipalidade comunista demonstrou ao
mesmo tempo a existência real de um urbanismo anti-segregativo - alternativo - e como sua aplicação é limitada no sistema atual.
Como propunha Sarger, foi de fato possível quebrar a lógica funcionalista e segregativa do zoneamento tradicional integrando atividades, equipamentos sócio-culturais e habitat social, sem deportar a população operária que morava nos antigos prédios vetustos(5 8). Outras experiências
(58) O velho centro de lvry compreendia 44% de operários, 11 % de empregados, 14% de inativos.

Quadro 1
Número de habitações terminadas por ano e por setor de construção (em milhares)

Reconstrução
%

HLM locação
%

HLM acessão
%

Total HLM
%

1945
à
1953

1954
à
1956

1951

1958

1959

1960

1961

1962

1963

164,3
33,9
47,1
9,7
23,8
4,9

104,4
17, 1
86,6
14,2
39,8
6,5

32,9
12,0
54,5
19,9
18,7
6,8

24,2
8,3
68,7
23,5
18,9
6,5

17, 1
5,3
82,8
25,8
18, 1
5,6

15,3
4,8
77,0
24,0
18,8
5,9

11,8
3,7
70,8
22,4
20,7
6,5

8,3
2,7
68,3
22,1
20,9
6,8

3,9
1,2
78,9
23,5
22,5
6,7

70,9
14,6

126,4
20,8

73,2
26,7
67,4
24,64
78,4
28,64

87,6
30,0
74,0
25,34
80,4
27,54

100,9
31 ,5
86,6
27,0
87,6
27,34

95,8
29,9
89,0
27,74
87,7
27,3

91,5
28,9
98,9
31,2
81,7
25,8

89,2
28,9
103,3
33,44
74,2
24,04

101,4
30,2
112,7
33,5
79,2
23,5

Habitações econômicas
%

Habitações subvencionadas
%

Subvenções e empréstimo imediato
Subvenções e empréstimo diferido
Total subvenções e empréstimo
Subvenções sem empréstimo
Total subvenções
%

Habitação sem subvenção
%

484,8

Total

608,4

Quadre

Reconstrução
%

HLM locação
%

HLM acessão

145,8
53,2
21,8
7,9

154,4
52,93
25,5
8,7

174,2
54,3
28,2
8,8

176,7
55,0
33,0
10,2

180,6
57,1
32,1
10, 1

177,5
57,4
33,9
10,9

191,9
57,0
39,0
11,6

273,7

291,7

320,4

320,8

316,0

308,9

336,2

~ . -. ,... ,....,.J
, .. . 1r

-

-

:• -

._ac: ..,0. 1...,

1964

1965

1966

1967

1968

1969

1970

1971

1972

2,4
0,6
92,3
25,0
24,9
6,7

1,3
0,3
95,8
23,3
28,7
6,9

0,7
0,2
96,9
23,4
30,1
7,3

105,3
24,9
31,5
7,4

116,5
28,3
31,8
7,7

116,0
27,3
31,3
7,3

121,3
26,6
34,1
7,5

127,8
26,9
38,4
8,1

87,5
24,7
30,7
8,7

117,2
31,8
103,1
27,9
104,2
28,2

124,5
30,2

127,0
30,7

136,8
33,3

148,3
36,1

148,1
34,7

155,4
34,0

166,2
34,9

118,2
33,3

125,9
30,3

123,9
29,2

99,6
24,2
16,5
4,0

103,4
24,2
23,3
5,4

112,7
24,6
34,8
7,6

110,0
23,1
39,3
8,2

80,8
22,7
25,5
7,7

%

Total HLM
%

Habitações econômicas
%

Habitações subvencionadas
%

Subvenções e empréstimos imed iatos
%

Subvenções e empréstimo diferido
%

137,7
37,3
69,6
18,8

148,1
35,9
78,9
19,1

125,9
30,3
75,9
18,3

123,9
29,2
69,2
16,3

116, 1
28,2
60,7
14,7

126,7
29,6
55,2
12,9

147,5
32,2
52,1
11,4

149,3
31,3
56,2
11,8

108,3
30,5
41,1
11,5

%

207,3
56,2
41,9
11,3

227,0
55,1
58,8
14,2

201,8
48,7
84,7
20,4

193, 1
45,6
93,0
21,9

1?6,8
43,0
85,9
20,9

181,9
42,5
97,0
22,7

199,6
43,7
101,3
22,2

205,5
43,1
104,0
21,8

149,4
42,1
86,9
24,5

Total

368,8

411,6

414,2

422,9

411,0

427,0

456,3

475,7

354,5

Total subvenções e empréstimo
%

Subvenções sem empréstimo
%

Total subvenções
%

Habitação sem subvenção

Quadro 2
Evolução dos aluguéis HLM, dos salários, da renda e do índice
de preços desde 1960

Aluguéis

HLM
(1)

1960
1961
1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971
1972

100,0
105,0
112,2
117,8
129,6
159,4
192,8
198,4
210,3
224,3
239,9
263,8

Ganhos
mensais
operários
(2)

100,0
108,0
117,6
126,6
135,0
142,3
151, 1
159, 1
180,8
197,6
217,6
242,2

Salários
mensais
empregados

100,0
108,0
117,8
129,0
138,0
147,0
155,3
166,3
183,7
201,5
222,2
245,5

Renda
operários
2 filhos

Renda
operários
5 filhos

(3)

(3)

lndice
dos
preços
CGT

100,0
107,2
117,0
127,6
135,9
141,6
150,0
155,3
172,8
186,7
200,2
217,6
237,1

100,0
106,9
116,8
127,0
134,1
140,7
148,2
153,5
171,7
181,4
192,.7
208,4
235,9

100,0
106,8
114,6
122,3
128,9
132,7
138,3
148,3
158,0
170,2
182,9
197,2
214,0

(1) Aluguéis HLM: trata-se de uma habitação HLM O posterior a 1947, do
Office de la ville de Paris.
(2) Ganhos mensais operários : trata-se do ganho horário corrigido pela evolução da duração semanal do trabalho.
(3) Renda operários: trata-se da renda mensal líquida dos operários pagos por
tempo, cuja mulher não trabalha (antiga zona 4 %; na região parisiense aumentaram
menos depressa).

francesas ou estrangeiras de integração das funções urbanísticas foram
tentadas na Europa capitalista: mas o problema sociológico - e não puramente estético - que se coloca é saber "em proveito de que classe social"?
Os limites capitalistas dessas experiências foram descritos pelo promotor da experiência de lvry; Roger Grevoul, prefeito adjunto de Ivry,
assim apresenta o balanço de 1973(59) da renovação do centro de lvry .
(59) Encontro do Centre d'Etude et de Recherche marxiste organizado em
12 e 13 de maio de 1974: Urbanisme monopoliste, urbanisme démocratique. Les
Cahiers du CERM, 1974, pp. 184-185.

"O verdadeiro urbanismo sob o poder atual é impossível, tanto em
Ivry como alhures. Pois o urbanismo é evidentemente construir habitações
para as pessoas que têm necessidade; mas é também realizar equipamentos
sociais, atividades industriais ... , terciárias ...
"Ora, por causa da política do poder, a integração de todos esses
elementos, tal como figura no plano massa de Renovação do centro da
cidade, é i"ealizável. Os escritórios vendem-se com dificuldade, os equipamentos não são financiados, até as habitações HLM têm aluguéis tais que
as categorias sociais menos favorecidas, ou seja, mais de 50% dos solicitadores, não têm dinheiro para alugá-las.
"O inédito, a inovação , sobretudo a pesquisa, dos conjuntos de
Renaudie(60), nada disso é financiado pelo Estado. Por exemplo, os
'Passeios' do centro comercial Jeanne-Hachette são sem dúvida notáveis
do ponto de vista arquitetural, mas são vias semipúblicas deixadas à manutenção da comuna, como também os terracinhos públicos .. . Com alguns
milhares de metros quadrados foi gasto tanto quanto com um bairro ...
Outro exemplo: no prédio 'Spinoza' de Renée Gailhoustet 30% da área é
utilizada por equipamentos. O que não deve haver em muitos países! Examinemos melhor. O pensionato de jovens revelou-se impossível de ser
gerido, pequeno demais, sem restaurante coletivo . .. A municipalidade
pagará o prejuízo. Os jovens alojados (em pensionatos) pagam aluguéis
muito altos; logo, a categoria mais numerosa da juventude de Ivry, que não
dispõe de grandes recursos, não pode pensar em morar a(. A creche situada
no alto do prédio custou à comuna bem mais do que uma creche tradicional. O mesmo aconteceu com o Centro médico-pedagógico e com a biblioteca infantil.
"Essa renovação havia sido concebida há quinze anos numa situação
sensivelmente diferente. Os equipamentos eram então financiados em grande parte pelo Estado(61) . Agora é a comuna que paga, tendo como único
recurso o de sangrar seus habitantes pelo imposto.

(60) Arquiteto-chefe da operação "Jeanne-Hachette", célebre por seus terraços-jardins e seus prédios triangulares com janelas trapezoidais que conjugam escritórios, parte comercial e moradias. Todos os apartamentos são diferentes.
(61) Cf. a exposição complementar de Marc Mann, urbanista de lvry, no
Encontro " Pour un urbanisme" (número especial de La Nouvelle Critique, 78 bis, pp.
209-212) : "Em 1962, a comuna podia ainda contar com até 80% de financiamento
pelo Estado; hoje, na melhor hipótese, ela só consegue de 15 a 20%, menos do que a
TVA . . . ". "O déficit da operação avaliado em 5 milhões de francos em 196 3 atinge
305

"Os preços dos aluguéis aumentaram consideravelmente. Pergunta·
mo-nos: para quem construimos ? Não é mais para os que estão mal acomodados em lvry. No centro da cidade forma-se uma certa segregação. Os que
têm recursos modestos são relegados aos antigos blocos HLM de aluguel
mais barato, prédios que acabarão logo como redutos do desespero e da
tristeza"( 61).
A solução monopolista proposta pelo poder de Estado mostra bem
os limites entre uma experiência arquitetural - perfeitamente recuperável
pelo regime econômico atual - e uma experiência social (alojar a classe
operária neste conjunto modelo) que ele recusa em nome da segregação
social que produz.
Segundo o jornal Le Monde, diante das insistentes reivindicações da
municipalidade, a administração teria respondido que bastava ter previsto
um número maior de alojamentos do setor privado(6 2), ou seja, fazer
como em Créteil ou em La Défense ...
A experiência de La Ville-Neuve de Grenoble chega aos mesmos
resultados, depois de dissipadas as ilusões sobre a "autogestão municipal" e
o "poder imaginativo" apregoados pelos deputados socialistas e pelo PSU
de Grenoble.
"A partir de uma exigência real e de uma forte necessidade na aglomeração de Grenoble (falta de habitações sociais), La Ville-Neuve de Grenoble assumiu o objetivo de dar uma resposta parcial a essa expectativa
através da criação de um bairro com metas bem definidas: concentrar o
habitat para favorecer o intercâmbio, o convívio, com os equipamentos
reunidos na entrada dos prédios, misturar as camadas sociais a fim de lutar
contra a segregação reforçada pelo planejamento urbano"(6 3 ). Mas os
equipamentos escolares, a teledistribuição funcionam até agora graças às
finanças comunais que substituem o Estado. As inovações que precisam de
despesas de funcionamento também são atribuídas à cidade(6 4 ). Segundo
o prefeito de Grenoble, em 1975 , "a política municipal seguida desde
1965 por(minha)equipeestá sendo desta vez diretamente contestada"( 65 ).
37 milhões em 1975. Os encargos com aquisição dos terrenos aumentai:am, com a
inflação, de 10 milhões de francos, apenas no ano de 1973" (cf. Le Monde, 4 de
março de 1975).
(62) Le Monde, 4 de março de 1975.
(63) Colloque Urbanisme du CERM, op. cit., pp. 185-186.
(64) Os quarenta animadores sócio-culturais são financiados integralmente
pela cidade.
(65) Le Monde, 15 de janeiro de 1975.

306

Para respeitar apenas os programas previstos em matéria de equipamento,
seria preciso aumentar o orçamento de 40%! Senão, será preciso desistir da
abertura da piscina de La Ville-Neuve e adiar por ao menos um ano o funcionamento da biblioteca prevista no bloco do Escritório do Turismo.
Além disso, as reais vantagens das inovações psicopedagógicas do primeiro
bairro de La Ville-Neuve - L'Arlequin - estão hoje relegadas a segundo
plano por disparidades sociológicas que não param às portas de La Ville-Neuve: das 2 210 habitações de L'Arlequin existem de fato 1084 HLM,
22 ILM-ILN e 746 habitações como acessão à propriedade; mas os ocupantes são na minoria operários (24%) contra 23% de executivos, de nível médio, 16% de altos executivos ou profissionais liberais, 17% de empregados
ou pequenos comerciantes, 18% de inativos (estudantes e aposentados).
Enfim, em 1975, "para inúmeras fami1ias, o montante do imposto
local e o aluguel HLM representam um mês de salário. É um encargo insuportável, impossível de ser pago por muitos". Em La Ville-Neuve , onde
aumentos de 30 a 40% foram verificados, mais de 500 moradores apoiados
pela Associação Sindical das Familias contestaram esses aumentos "escandalosos e intoleráveis" e convocaram para uma greve do imposto e do aluguel. Figura proeminente da "autogestão municipal", o prefeito de Grenoble tem que reconhecer hoje: "Temos projetos importantes, mas estão
além de nossos recursos. Cabe, portanto, ao Estado .assumi-los"(66). Assim,
se é possível transformar a cidade e a vida urbana, como provam essas
experiências apesar de seus limites, só pode ser fundamentalmente através
do questionamento da lógica econômica atual que subordina a orientação
do financiamento estatal aos interesses dos grupos monopolistas.
Foi possível medir - de maneira mais sistemática do que através destes dois exemplos - o estrangulamento progressivo da autonomia financeira da gestão local há quinze anos e, através disso, a redução da margem de
manobra deixada à classe dominante para estabelecer acordos políticos
com os representantes das camadas médias assalariadas e até da classe operária. Possível ainda em 1960, a "gestão social" em proveito dos menos
favorecidos, tal como foi realizada por municipalidades comunistas ou
socialistas, torna-se cada vez mais ilusória em 1977, diante dos efeitos da
nova crise de sobreacumulação-desvalorização do capital. "Realizar" uma
gestão social era primeiramente criar habitações, escolas, equipamentos
culturais para a classe operária. Ora, isso só era possível graças ao grau de

(66) Les Echos, 29 de abril de 1975.

107

liberdade de que desfrutavam as comunas com as subvenções de equipamentos e de funcionamentos concedidas pelo Estado central. Já foi medida
a queda brutal da taxa da subvenção estatal desde 1962: a progressão das
subvenções de equipamento sofreu um relativo declínio entre 1962 e 1967,
constata um grupo administrativo restrito encarregado de elaborar um plano financeiro prospectivo das coletividades locais para o VI Plano: "Esse
relativo declínio aparece tanto na parte subvencionada da FBCF que passa
de 27 ,9% para 22,5%, quanto no ritmo de progressão anual. Essa evolução
é explicada sobretudo porque as taxas de certas subvenções eram fixas e
os custos aos quais se aplicam não foram atualizados. Por outro lado, convém lembrar que as subvenções são calculadas sobre bases que excluem
somas cobrindo certas despesas inevitáveis. Assim, o encargo residual a ser
financiado por empréstimo ou autofinanciamento passou de 72,1 % da
FBCF para 77,5% em 1967"(67) . A média de aumento anual, em francos,
das subvenções concedidas pelo Estado que era de 7,7% entre 1962 e 1967,
cai para 6% entre 1969 e 1973 , ao passo que os investimentos das coletividades locais progrediram, durante o mesmo período, de 13,3% por ano.
Além disso, a ausência de revisão periódica das tabelas provocou um
verdadeiro abismo entre as taxas de subvenção teórica por função (85%,
por exemplo, para os equipamentos escolares) e as taxas reais : assim , desde
1963, as taxas reais das subvenções para o equipamento escolar são de
apenas 41, 7% e caem hoje para cerca de 20%. A reforma geral do regime de
subvenções de março de 1972 só serviu para agravar o processo na medida
em que doravante o montante da subvenção é determinado no estágio da
demanda tendo por base a tabela ou orçamento, ou seja, não é mais suscetível de revisão. Por outro lado, a autonomia da gestão local é contestada
pelo novo modo de conceder a subvenção: "A atribuições conferidas por
lei, atribuições que deveriam provir apenas de uma simples tutela administrativa, tende a superpor-se um verdadeiro controle de oportunidade de
natureza hierárquica, já que pertence ao poder central ou a suas emanações
- atribuindo ou recusando as subvenções - confirmar ou anular arbitrariamente inúmeras decisões municipais inatacáveis no plano da legalidade" (6 8) . Esses dados são integralmente confirmados pelos estudos do
Centro de Economia urbana de Rennes, dirigido por Y . Fréville. Em seu
(67) Relatório das Comissões do VI Piano, 1971-1975, Comissariat général au
Plan, La Documentation française, Paris, 1971, p. 114 (citado por E. Campagnac e
C. Dourlens, Les villes nouvelles en région parisienne, op. cit., p. 251).
(68) Bulldoc, 45, setembro de 1973, Centre de Documentation sur J'Urbanisme, Arcueil.
.HlX

artigo sobre "L'Évolution des finances des grandes villes depuis 1967"( 69 ),
Y. Fréville mostra que os equipamentos escolares (primeiro grau) subvencionados a 47,5% numa amostra similar no decurso dos anos 1953-1963,
são subvencionados apenas a 36,3% no período 1967-1971. Mostra ainda o
"forte crescimento das despesas com funcionamento (72% entre 1967 e
1971 contra 42% para as despesas de equipamento; em francos constantes
a alta é de 47%). Só as despesas de pessoal representam a metade do orçamento de funcionamento ; além disso, todas as subvenções numéricas concedidas aos serviços sócio-culturais, aos transportes, à assistência social, aos
centros de jovens, à ajuda às pessoas idosas, todas essas despesas estão
inscritas no orçamento de funcionamento".
Ora, um estudo de J . Kobielsky sobre " Les dépenses de fonctionnement des services publics urbains"(70) demonstra que são as comunas
comunistas que têm as mais fortes despesas relativas ao conjunto da ajuda
social - rubrica que reagrupa as atividades acima enumeradas - e caracteriza bem o que se costuma chamar uma gestão "social", em proveito da
classe operária e das camadas médias mais proletarizadas. Em sua tese de
Estado de onde foi extraído o artigo citado, J. Kobielsky precisa que é a
ajuda social escolar que diferencia com nitidez as comunas comunistas das
outras comunas (socialistas ou "moderadas") de sua amostra. Ora, a crise
geral das finanças locais e o peso exorbitante do endividamento põe totalmente em discussão o prosseguimento de semélhante política que implicaria em onerar com novas altas de impostos locais as categorias menos favorecidas que a comuna queria justamente ajudar. Sem mudança fundamental
da política financeira do Estado central, a crise atual prende a gestão municipal operária no círculo vicioso da ausência de realização . .. ou de uma
alta - inaceitável - dos impostos locais.
Aliás, nunca os obstáculos isolados colocados por certas municipalidades operárias à segregação urbana contestaram a lógica segregativa, no
nível da aglomeração, da região ou do conjunto do território nacional.
Como observa acertadamente Jean-Louis Cohen<71) , "a diferença
entre as experiências soviéticas e todas as práticas das municipalidades,
tanto comunistas como socialistas, está na coerência da intervenção, impossível no âmbito da apropriação privada dos meios de produção e de
troca, e que sua socialização torna possível. .. Ã organização do imóvel ou
(69) Revue de Science financiere, 4, outubro-dezembro de 1973 , p. 731.
(70) Revue de Science finaciere, janeiro-março de 1973, pp. 69 e segs.
(71) Y a-t-il une pratique architecturale de la classe ouvriere?, op. cit. , p . 45.
J ()<)

do edifício isolado, opõe-se, na cidade do regime capitalista, a anarquia da
estrutura urbana considerada em seu conjunto . .. a intervenção contraditória dos diferentes capitais procurando criar valores no nível da produção
de moradias, ou de infra-estruturas e de equipamentos diversos, leva à criação de valores de uso separados, funcionando isoladamente.
É assim que se pode ver o plano de Viena (surgido entre as duas guerras, J. L.) salpicado com os Hofe(12) que marcam a paisagem urbana e não
podem ter contribuído em nada para a reestruturação dessa paisagem. Também foi assim que em volta da escola Karl Marx em Villejuif, ao lado da
qual A. Lurçat havia, aliás, previsto um conjunto de edifícios de moradia
que nunca chegaram a ser realizados, "surgiram casas, conjuntos habitacionais cada vez menos sociais, pois o preço do terreno não o permite" ...
Poderíamos acrescentar que no período atual nem a renovação muito parcialmente anti-segrega tiva - do centro de lvry, nem a de algumas
comunas isoladas do subúrbio parisiense conseguirão alterar a segregação
anárquica do conjunto do tecido urbano da região parisiense.
Assim, a vastidão da atual crise urbana reclama uma nova articulação
entre gestão municipal e luta política.
A única saída política para as municipalidades operárias é de fato a
batalha de massa para impor ao Estado central um aumento de suas subvenções: em 1933, a municipalidade comunista de Villejuif e as organizações operárias obrigavam o departamento de la Seine e o Estado a concederem uma subvenção real de 88% para construir a escola-modelo Karl Marx,
obra de Lurçat(7 3). Pode-se medir a atual regressão, visto as subvenções de
agora raramente ultrapassarem de 30 a 35% das despesas ... sem incluir a
TV A. A batalha maciça empreendida hoje por municipalidades operárias
como lvry para obter subvenções estatais que possibilitem a realização dos
equipamentos escolares e culturais mostra, por sua dureza, pelas repetidas
recusas dos respectivos ministérios, o deslocamento dos limites econômicos
das concessões que pode fazer uma classe dirigente às voltas com a nova
crise do capitalismo monopolista de Estado, principalmente desde o fim
da década de 60.
(72) Grandes conjuntos habitacionais construídos a partir de 1924 pela municipalidade social-democrata de Viena na periferia da cidade. Um cuidado extremo foi
dado aos equipamentos coletivos exteriores às moradias (escolas, creches, lavanderias,
banhos públicos, instalações esportivas).
(73) J. L. Cohen, Y a-t-il une pratique architecturale de la classe ouvriere?,
Unité pédagogique, 6, Institut de l'Environnement, p. 12.

310

LIMITES DE UMA FORMAÇÃO SOCIAL PARTICULAR - A FRANÇA OU LIMITES DO MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA?

A acusação de etnocentrismo pode outra vez ser formulada, e com
razão, quanto a qualquer tentativa nossa de generalizar a experiência francesa das relações Estado central-coletividades locais. O exemplo britânico
não está aí para demonstrar que o capitalismo pode muito bem, em certas
condições históricas, adaptar-se a um aumento da parte das subvenções
estatais do Estado central nas receitas locais? Cl. Mingasson assim demonstra em seu estudo de "L'Évolution du systême administratif local en
Gr~nde-Bretagne"(7 4) , que a parte de subvenções estatais na composição
da renda dos governos locais passou de 27,2% em 1933-1934 para 36,9%
em 1963-1964; entretanto, essa evolução parece inverter-se desde então,já
que em 1974, sobre os 741 milhões de libras de despesas (excluindo os
transportes públicos) do Greater London Council (Conselho da Grande
Londres), só 10% foram cobertos por uma subvenção governamental (63
milhões), ao passo que 55% foram cobertos por impostos locais em aumen-

to constante e 35% por bens e serviços próprios da coletividade loca[(? 5 ).
Além disso, não se pode esquecer que as consideráveis subvenções estatais
observadas nos anos 40-60 são correlativas a um crescente controle do
Estado central sobre a gestão local: Os poderes de controle do governo

central sobre os atos dos poderes locais aumentaram durante o mesmo
período, e isso, em grande parte, no momento das ajudas sempre mais
importantes conferidas pelo Estado aos orçamentos das coletividades
locais(76).
Se olharmos agora a gestão das outras grandes cidades capitalistas, as
pressões financeiras que aparecem são as mesmas que na França, como está
.
provado no estudo comparativo de Les Echos< 17 ).
Nova forque está a beira da falência, 1,5 bilhões de dólares de déficit,
uma taxação de impostos que atingiu um ponto limite (uma família de
(74) Aménagement du territoire et développement régional, IEP Grenoble-CERAT, vol. II, pp. 548-549. Fontes: W. A. Robson, Local govemment in crisis.
(75) Les Echos, 15 de maio de 1975, p. 3.
(76) CI. Mingasson, op. cit., p. 548.
(77) 15 de maio de 197 5, "Comment gérer les cités nées du gigantisme économique?", pp . 2 e 3. Para uma análise científica da crise das finanças locais nos Estados Unidos rem.etemos a J. O'Connor, The Fiscal Crisis of the State, Nova Iorque,
Saint Martin's Press, 1973; a M. Castells, "La crise urbaine aux Etats-Unis", Les Temps
Modernes, fevereiro de 1976; e, enfim, ao número especial de Espaces et Societés, La
crise urbaine aux Etats-Unis, n.º 17-18, março-junho de 1976.

J 11

Nova Iorque paga habitualmente 300 dólares de impostos a mais do que se
ela morasse no subúrbio), uma carreira desa balada no empréstimo junto aos
bancos da City (juros de 9 ,5%) que não querem mais comprar bônus
municipais totalmente desvalorizados; Montréal queixa-se, por sua vez, das
"migalhas" que recebe das instâncias governamentais, enquanto seu déficit
financeiro vem-se agravando de ano para ano: foi calculado que, se não
houver contribuição financeira por parte do Estado, as taxas municipais
terão que ser aumentadas de cerca de 67% de agora até 1977. A Comunidade urbana de Montréal emprega, aliás, 23,2% de seu orçamento para o
reembolso de suas dívidas.
Como assinala com razão M. Castells, "atingidas pela contestação
das políticas de reforma social dos anos 60, as municipalidades das grandes
cidades encontram-se hoje entre dois fogos: o dos meios de negócios que
pedem austeridade e o dos trabalhadores e consumidores que se recusam a
arcar com o fardo da crise"(7 8).
Amputado de sua antiga base econômica, o "reformismo" urbano
deve, então, ceder a vez ou a uma política urbana diretamente sujeita às
exigências do capital monopolista, ou a um afrontamento político direto
com a fração de classe dominante.

Capítulo VI

1
!

Da política urbana
aos movimentos sociais urbanos
1. Decomposição do aparelho hegemônico de Estado
e emergência de uma contra-hegemonia das cl~s dominadas

Quase sempre a análise do Político parece ter esgotado o assunto quando
caracteriza seu objeto pela "gestão" das relações sociais. Nesse sentido, o
Político, principalmente sob sua forma institucional, manteria para sempre
a ordem estabelecida e seria, por isso mesmo, a antítese do movimento
social. Achamos que nosso capítulo precedente já mostrou que o âmbito
político pode também ser lugar da luta de classes, logo, um equillbrio
instável entre forças sociais com interesses antagônicos. Contudo, essa
ampliação da função política ainda não contesta seu papel regulador e,
portanto, sua subordinação aos interesses da classe dominante. Ao analisar
agora diretamente a contestação da hegemonia dominante - urbana - e a
elaboração de um novo sistema de valores universais - o que Grarnsci
chamava uma "contra-hegemonia" - pensamos estar colaborando para
demonstrar que o Político é também - e sobretudo - o lugar onde se
efetua a transição de um modo de produção para outro, o lugar onde a
luta de classes é levada "até o fun".

(78) M. Castells, "La crise mbaine aux Etats-Unis", op. cit., p. 1230.

3 12

313

2. O problema de definição do movimento social

A análise de Chamboredon e LemaireO) sobre as "distâncias sociais"
que diferenciam os diversos estratos residenciais parece-nos remeter perfeitamente a um sistema social em que as classes dominadas estão inteiramente sujeitas à hegemonia política e à ideologia da classe dominante; tanto as
representações quanto as condutas dos representantes das diferentes camadas sociais entrevistadas procedem, de fato, de uma organização social,
com regras e papéis, totalmente determinada pela política imobiliária
imposta pela fração monopolista. Resumindo, são as diferentes vias de
financiamento da habitação e os diferentes tipos de pressão social que elas
produzem o que determina, no caso, o comportamento, as representações
e a ideologia das classes sociais. Temos aí um "tipo ideal", se é poss(vel
chamar-se assim, de adequação entre agentes sociais e sua "função" nas
relações de produção ou de repartição; é também a antítese por excelência da situação da qual pode emergir um movimento social.
Vamos pois esboçar uma primeira definição dizendo que um movimento social caracteriza-se primeiramente pela capacidade de um conjunto
de agentes das classes dominadas diferenciar-se dos papéis e funções através
dos quais a classe (ou fração de classe) dominante garante a subordinação e
dependência dessas classes dominadas com relação ao sistema sócio-econômico em vigor.
Mas, como assinala com justeza A. Touraine, o movimento social só
adquire sentido completo se tiver capacidade de opor-se à classe dominante
e ao conjunto de seu sistema hegemônico. Assim, ele não pode ser reduzido a uma "conduta de crise organizacional" onde "o ator é definido no
âmbito de uma organização; ele se refere a suas regras, costumes, necessidades ... A crise é vivida como um absurdo e não como resultado de uma
ação adversa"(2).
Resta determinar a relação entre movimento social e movimento
revolucionário; nesse ponto não achamos, como A. Touraine, que haja uma
oposição de natureza entre o processo de tomada do poder político pela
classe dominada e o movimento social, enquanto simples "expressão" do
(1) "Proximité spatiale, distance sociale", Revue française de Sociologie, X, 1,

1970. Cf. a análise de F. Godard, "Classes sociales et modes de consommation",La
Pensée, 180, abril de 1975, p. 147.
(2) A. Touxaine,.Production de la société, Paris, Seuil, 1974, pp. 350-351.
1 14

conflito de classes "na sua essência"(3). Nossa divergência fundamental
não consiste no fato do movimento social "exceder" a ação revolucionária
- o que define precisamente sua riqueza e ambigüidade, como veremos;
mas situa-se na antinomia que Alain Touraine estabelece a priori entre
"movimento social" e "relação com o Estado e com as instituições".
De fato, opor o movimento social como "reconhecimento dos conflitos" à ação política como "gestão da sociedade"(4) é, a nosso ver reduzir o movimento social à sua dimensão utópica ou reformista, postulando a
identidade fundamental de todo Estado, de todo sistema institucional, de
todo sistema político. f, pois, em última instância, postular a ausência de
diferenciação do poder político, segundo a natureza da classe social dominante. O Estado socialista, como o Estado capitalista, transcende as relações de classe: ele "não pode nunca ser reduzido ao papel de agente de
uma força social ou política ... ele tem sempre um aparelho autônomo, e
uma capacidade de ação própria"(5) . ~ verdade que Touraine não nega a
relação entre Estado e classes sociais, mas ele lhe atribui uma dimensão
societal, global, que lhe permite subsistir como um "instrumento" neutro
ou pelo menos insensível às mudanças de poder de classe. Que seja a classe
operária ou a classe capitalista que domine o poder político e econômico,
o Estado é sempre instrumento de integração e de repressão.
Não cabe aqui analisar as diferenças fundamentais entre a natureza
de classe do Estado socialista e a do Estado capitalista. Lembremos contudo que elas consistem justamente no modo de participação das massas
populares no poder polftico: em outras palavras, o próprio objetivo no
qual se fundamenta o Estado socialista é a reconciliação entre dois pólos
da vida social que A. Touraine transforma em termos antinômicos, absolutizando assim o que é uma característica histórica de todas as sociedades
fundadas na luta de duas classes antagônicas. Lenin já em 1917 mostrava,
em suas Lettres de loin(6), que "o Estado democrático revolucionário"
que começava a ser realizado pelos sovietes dos operários, dos camponeses
pobres, não tinha mais nada a ver com o Estado da democracia burguesa
mais avançada onde a participação das massas na vida política está reduzida à eleição dos órgãos de governo da burguesia monopolista.
Assim sendo, a luta de classes, cujo mais alto grau de expressão é o
(3) Ibid., p. 412.
(4) lbid., p. 424.
(5) Op. cit., p . 259.
(6) Oeuvres completes, t.

23, p. 352.
3 1)

"movimento social", não se exaure absolutamente(7) se for organizada e
levada até o fim por um partido político capaz de repriesentar os interesses
das classes dominadas independentemente dos partidos políticos subordinados à classe dominante.
Aliás, A. Touraine percebe o dilema em que se coloca (utopia ou
revolução) quando precisa que para ele não existe movimento social "puro"( 8), e que o sistema de ação histórica que ele encarna não é redutível
a categorias do concreto real. Se todo "movimento social popular" não
pode "nunca tomar o poder por si mesmo", é "um agente de contestação
e não de gestão"( 9 ), A. Touraine encurrala, a nosso ver, a luta de classes
num impasse: ou "introduzir" no movimento social um elemento exterior
- o partido político revolucionário - e então "o partido passa na frente
do movimento social", ou então conservar a primazia do "movimento"
sobre o "partido" e, nesse caso, o movimento social comanda o partidoOO). O que leva a caracterizar assim a revolução bolchevique:
a
conquista do Estado e não a força crescente de um movimento social que
derruba a ordem dominante"O l). O procedimento inverso não leva
porém, a derrubar a ordem dominante, quer se trate das "revoluções';
proudhonianas de 1848 ou de 18 71, do movimento anarco-sindicalista
dos anos 1900, ou enfim do movimento de maio de 1968 onde justamente
a articulação entre movimento de massa e organização política falhou.
Ora, a superação desse dilema, desse impasse, parece-nos estar na
análise dos "movimentos sociais vitoriosos"; a expressão do conflito nesse
caso, vai verificar-se não na contestação reformista - vaga poderos~ que,
porém, se quebra sempre contra a rocha da hegemonia política da classe
dominante - mas sim na participação militante das massas na gestão do
poder politico:
"Precisamos de um Estado, lembra Lenin em 11 de março de 1917,
mas não daquele que convém à burguesia e no qual os órgãos do poder
como a polícia, o exército e a burocracia ( o corpo de funcionários) estão
separados do povo, opostos ao povo. Todas as revoluções burguesas só
serviram para aperfeiçoar essa máquina de Estado, e fazer com que ela

":e

(7) "Quando um partido se impõe como agente do movimento social este
est~ prestes a ~esaparecer, seja pela institucionalização dos conflitos, seja pela ~stauraçao de uma ditadura" (A. Touraine, op. cit., p. 423).
(8) Op. cit., p. 427.
(9) lbid. , p. 427.
(10) lbid., p. 422.
(11) Ibid., p. 422.

316

'1

passasse das mãos de um partido para as de outro. O proletariado - se
quiser salvaguardar as conquistas da presente revolução e seguir avante,
conquistar a paz, o pão e a liberdade - precisa demolir, para usarmos um
termo de Marx, essa máquina de Estado 'pronta e acabada' e substitu{-/a
por outra, que consiga a fusão da polícia, do exército e do corpo de funcionários com o conjunto do povo em armas . .. o proletariado deve organizar e incluir todos os elementos pobres e explorados da população, a
fim de que eles mesmos assumam diretamente os órgãos do poder de Estado e formem por si as instituições desse poder"(l 2).
Convém repetir que não é nosso propósito analisar a realidade desta
definição de Estado socialista hos países socialistas e, sobretudo, nos países
onde se verificou a Revolução de Outubro. Mas, mesmo se nosso campo se
limita à França de hoje e aos processos sociais suscetíveis de aí abrirem
caminho para o socialismo, podemos basear-nos numa realidade histórica
indiscutível, ou seja, a ampla participação dos operários e dos camponeses
pobres da Rússia na revolução de abril e de outubro de 1917. Revolução
política precedida por uma revolução nas "cabeças" que foi concretizada
pelos sucessos rápidos e espetaculares dos bolcheviques no momento das
eleições dos sovietes.
Longe, portanto, de serem opostas, a mobilização das massas e sua
organização poUtica estão intimamente ligadas no movimento revolucionárioO 3).
Resta ainda, e nesse ponto concordamos com as análises de A. Touraine, que todo movimento social não é necessariamente movimento revolucionário. Lenin via assim na revolução democrática de abril de 1917 não
só uma gigantesca movimentação das massas populares russas contra o
regime tzarista, mas também uma orientação ideológica e política com
preponderância pequeno-burguesa, logo, sujeita à hegemonia da grande
burguesia. Ele ainda vai além em sua análise desse movimento social popular assinalando aí "correntes absolutamente diferentes, interesses de classe
absolutamente heterogêneos" que compunham o movimento social da pri(12) Oeuvres completes, Editions du Progres, t. 23, p. 359.
(13) Isso significa que a organização de um movimento social não se identifica
necessariamente com seu sufocamento burocrático, através da separação entre casta
dirigente e massas "dirigidas". Cf. Lenin, op. cit., p. 360: "A tarefa de organização
entendida não no sentido banal de um trabalho dedicado a organizações banais, mas
sim no sentido da participação de massas imensas das classes oprimidas numa organização que realize tarefas de tipo militar e outras de interesse do conjunto do Estado e
da economia nacional".

317

mavera de 19170 4). E se essas correntes divergentes "se fundiram com
notável coesão", nada indica que essa fusão tenha-se dado na base da ideologia proletária: Tudo indica ao contrário, segundo LeIÚil - principahnente
quando se analisam os temas reivindicativos e as plataformas políticas das
"correntes" dominantes - que a direção política do movimento tenha
ficado entre as mãos dos grandes proprietários fundiários capitalistas e
da grande burguesia monopolista que participar:am desse "movimento
soc~al" e se esforçavam para orientá-lo em seu proveito. A formidável onda
social que submergiu o país é espontaneamente, por sua base, essencialmente pequeno-burguesa, sujeita à ideologia dominante _ Lenin insiste
muito na idéia de que o "despertar político", "a aspiração à vida política"
dessas_ dez.en~s de milhões de pequenos camponeses, de pequenos produtores, nao s1gmficam em absoluto uma orientação anticapitalista do movi~ento. A aliança de classe entre esses pequenos burgueses e a classe capitalista não se "quebrou" nem "se desfez" sob o efeito de sua decisão de se
"porem. em movimento". Para que esse movimento se oriente para uma
n~va aliança pequena burguesia-classe operária, é preciso que esta última
cne ~~a "organização", exterior a um movimento social que é ideológica
e p~liticament~ subordinado à grande burguesia. Enfim, é preciso que 0
partido operáno consiga convencer os pequenos burgueses a aceitarem a
hegemonia, a própria estratégia política dos operários.
Se procedêssemos agora a uma primeira síntese provisória de nossas
observações, poderíamos definir o movimento social através da combinação de dois processos sociais:
A) Um processo de "pôr-se em movimento" de classes, frações de
classe e camadas sociais. Esse primeiro processo define a intensidade e a
extensão (o campo social) do movimento social pelo tipo de combinação
que une:
a) a base social, e
b) a, ~rg~~ção do movimento social. Para retomar as categorias da

fmca utilizadas por Marx e Engels (dinâmica, mecânica), chamaremos, portanto,força social a resultante social da ação da organização
sobre uma dada base social(l 5) .
, . (14) Oeuvres completes, op. cit., p. 330 : Lettre de loin (n.o J). Cf. também as
a~ses de Lenin sobre "a luta de massa dos oprimidos e descontentes de toda espécie em 1916. ?euvres completes, ibid.: Objetivamente ele:s atacarão o capital; e a
vanguarda consciente. · . que expressará a verdade objetiva de uma luta de massa disparate, discorda~te, variada, aparentemente sem unidade, poderá uni-la e orientá-la".
(15) O leitor pode notar que retomamos aqui praticamente as categorias utili-

3I8

Esta primeira dimensão define a natureza sociológica precisa das classes sociais que se "puseram em movimento"; logo, ela já pode indicar se
estamos diante, como em abril de 1917 na Rússia, de um movimento
sociologicamente compósito, heterogêneo ou, ao contrário, de um movimento relativamente homogêneo. O grau de mobilização resulta ao mesmo
tempo do "volume" das "massas" postas em movimento e da "abertura"
da organização ( do grau de abertura) para a participação dessas massas no
seu próprio "pôr-se em movimento" .
A "extensão" social do movimento define logo, de certo modo, uma
primeira relação com o espaço territorial tomado aqui como lugar de realização e de encerramento da hegemonia da classe dominante, delimitação
da reprodução da / armação social na qual se inscreve o movimento social.
Dependendo do movimento ter uma dimensão "local" e/ou nacional, ele
acarreta não apenas um "volume" diferente de "massas sociais" postas em
movimento, mas sobretudo uma relação diferente com o poder de Estado,
na medida em que este último se apóia, em última instância, na capacidade
da classe dominante para manter a coesão "nacional" do conjunto de uma
formação social. E verdade que um movimento social "local" ou "regional"
implica uma certa relação com o aparelho de Estado (por intermédio da
comuna, do departamento ou da região), mas ele só visa diretamente o
poder político da classe dominante se atacar o fundamento global, logo,
nacional, de sua hegemonia. Senão, como veremos, os "anteparos" ideológicos e políticos "locais" podem transformar o movimento social naquilo
que A. Touraine chama uma "conduta de crise" organizacional (luta contra a "burocracia" da administração "central", por exemplo).
B) Do "pôr-se em movimento" ao "desafio" político. A primeira
dimensão de nossa definição permite, portanto, diferenciar os movimentos
sociais de acordo com a relação mantida entre a "base social" e a "organização" que a "pôs em movimento". Não se poderá contudo definir a natureza sociológica desse movimento enquanto não se conhecer o tipo de relação que mantêm entre si as práticas ideológicas e políticas da organização e
as da base social. Relação de subordinação das "massas" ao "partido" (a
famosa correia de transmissão), do partido às massas ( o movimento sindical francês no tempo do anarco-sindicalismo) ou, enfim, relações mais sutis
zadas por A. Touraine . Contudo, na medida em que esta dimensão é inseparável da
segunda, onde nossa definição de movimento social diverge nitidamente da de A.
Touraine, recomendamos uma leitura "sincrônica", global, de nossa definição.

319

·de aliança, de convergência, no quadro da aceitação consciente pelas massas de um projeto político implicando uma transformação da natureza do
poder de Estado.
Ora, para responder a essas questões "organizacionais" de maneira
não formal, devemos definir a segunda dimensão do movimento social, ou
seja, o desafio político do qual é portador.
Aí também convém precisar as semelhanças tanto quanto as divergências desta noção em relação à que Touraine define no âmbito de sua
teoria do "sistema de ação histórica".
Semelhanças: ligar um movimento ao desafio, ao projeto histórico do
qual é portador, é mesmo fechar radicalmente a passagem à tentação funcionalista e determinista - de reduzir um movimento social a um
"sistema" organizacional sem conteúdo.
Divergências: enquanto A. Touraine recusa ligar movimento social
com "ação política", na medida em que ela subordinaria o conflito social à
questão do poder de Estado, para nós, ao contrário, o alcance histórico
real de um movimento social só pode ser definido pela análise de sua relação com o poder político. Logo, em vez de "parar" e de "esfriar" quando
confrontado ao Estado, o movimento social será definido, em última instância, por sua capacidade de transformar o sistema sócio-econômico no
qual surgiu. Senão há o risco de só se considerar como movimento social as
tensões, a agitação contida, ricas talvez em intensidade social, próximas da
efervescência social que Gurvitch analisava, mas no fundo imóveis, na medida em que o sistema social não se mexeu, não foi derrubado. Recuperados por "contramovimentos sociais" produzidos pela classe dominante,
esses movimentos sociais não passam, finalmente, de jatos de vapor da
válvula de segurança elaborada pelo Estado da classe dominante. O pôr-se
em movimento não será portanto efetivo, não se traduzirá por uma verdadeira mudança na relação entre forças sociais no poder e forças sociais
dominadas, a não ser que o desafio político o permita.
Ora, apenas a análise do conteúdo ideológico e político das reivindi·cações apresentadas pelo movimento social, das ações propostas e realizadas, permitirá definir o desafio real, ou seja, a capacidade de questionamento da hegemonia política da classe (ou fração de classe) dominante.
Como se vê, não se trata de definir o desafio da mobilização pelas ideologias e pelas ações "espontâneas" das massas "postas em movimento", mas
sim pela combinação de um certo tipo de ideologias e de práticas políticas
da "base social" com um certo tipo de ideologias e de práticas da organização que a pôs em ~ovimento. É fácil ilustrar os diferentes tipos de relações

ideológico-políticas entre base social e organização, retomando os já citados exemplos da Revolução Russa (a de abril, a de outubro de 1917) ou de
maio de 1968 na França.
o único ponto sobre o qual ainda queremos insistir é que nunc~ a
transformação da situação de uma classe social domÍI_lada lhe pernut~
espontaneamente fugir do domínio da classe dominant~. E sempre a combinação da ação política de uma organização de classe 1~dependente com a
sua "experiência" que vai lhe dar a possibilidade de libertar-se realmente
de sua servidão ideológica.
Pelo menos é O que demonstram tanto os fracassos políticos dos
movimentos sociais franceses de 1848, 1871 ou 1968 ... quanto o êxito da
Revolução de Outubro.

Tipo de força social
Base social

+

organização == Força social

Tipo de mobilização
"Pôr-se em movimento"

Intensidade

Tipo de desafio
Desafio da mobilização

Reivindicação

Extensão
Ação

Mobilização

I

Força Base social
social Organização

Extensão
X
X
Ação

Intensidade
X
X
Reivindicação

Desafio

x

== diferentes tipos de movimentos sociais resultantes da combinação 2 a
2 dos elementos da dimensão mobilização com a dimensão força

social.
321

320

3. Do movimento social ao movimento social urbano
Se voltarmos agora ao nosso objeto específico de pesquisa - o urbano - a primeira pergunta que ocorre, com certeza, é saber se é possível
falar de "movimento social" urbano, segundo os próprios termos de nossa
defuúção de movimento social. Uma primeira resposta, superficial, poderia
consistir em limitar a pergunta apenas à "extensão" do movimento. Limitado por defuúção a uma porção do território nacional sujeito ao aparelho
hegemônico da classe dominante, não fica ele assim reduzido a um desafio
secundário, e até marginal? No fundo, o problema não nos parece bem formulado. g claro que a dimensão "espacial" pode contribuir para reduzir o
alcance do movimento social (a Comuna de Paris não chegou a ser wna
revolução porque não atingiu as massas camponesas); mas também pode-se
encontrar exemplos históricos de movimento social limitado quanto à
extensão e, no entanto, revolucionário quanto ao objetivo; nesse sentido, a
tomada do Palácio de Verão na cidade de Petrogrado teve alcance nacional
pelo desafio político que representava: a queda do regime tzarista. Na realidade, o verdadeiro limite que pode causar problema no urbano é mesmo o
seu conteúdo ideológico e político, em relação ao problema do poder de
Estado. A "marginalidade" das reivindicações urbanas com referência ao
problema central do movimento revolucionário não é confmnada pelo
fraco alcance político de suas manifestações? Como achar que nas revoltas
sociais dos guetos negros dos Estados Unidos, nas lutas isoladas contra a
renovação-deportação nos centros das metrópoles ocidentais, ou nos movimentos por transporte coletivo há um "desafio" parecido com aquele que
acabamos de evocar?
Essa objeção parece-nos indiscutível na medida em que aceitarmos o
duplo limite que ela supõe do campo "urbano". De fato, se o urbano for
reduzido, como propõe M. Castells, à "reprodução da força de trabalho",
isto é, à moradia e aos equipamentos sociais(l6), fica estabelecido de antemão um corte entre a esfera do "econômico" (a reprodução dos meios de
(16) "Com a conquista pelo movimento operário ... em certos países, de
liberdades políticas e de garantias sociais no que se refere ao nível de vida, . . .chega-se à exigência social. . . de uma série de direitos à vida (moradia, equipamentos,
saúde, cultura . . .) arrancados à burguesia e aos aparelhos de Estado ... ; o consumo
coletivo (moradia, equipamento, transporte) torna-se assim ao mesmo tempo elemento funcional indispensável e objeto permanente de reivindicações ... " (M. Castells,
Luttes urbaines, Paris, Maspero, 1973, p. 16). Ver nossa crítica sobre essa concepção
do urbano em nosso Capítulo II, 1,a seção, 3.

322

produção) e a esfera do "social" ( o consumo coletivo) na qual se confina o
urbano. Ora, a conseqüência parece-nos particularmente grave para a análise dos movimentos sociais urbanos já que, de saída lhes fica r~cu~da a
possibilidade de contestar, diretamente, não só o poder econ~mico da
classe dominante, mas também o modo de reprodução do con7unto, d~
formação social, tanto econômico quanto social. C~m efeito, como pemutir a um movimento social - que "surgiu" do questionamento do modo ~e
produção de uma cidade - "chegar" até a reproduç~o glob~' da fo~açao
social, se o horizonte ideológico-político do movunento urbano.
acantonado no nível fenomenal das relações de conswno e de repartiçao.'
Corno, resumindo, ligar relações sociais vividas corno "relações de estratificação social" com relações sociais consideradas como relações entre
classes antagônicas?
Segundo limite que achamos essencial rejeit31: é o que faz do ~stado
um instrumento de controle e de integração socialO 7 >. O movlfilento
social é então definido por sua exterioridade ao poder do Estado, seu gra~
de "pureza" consistindo na sua capacidade de emergir "fora" da cena pohtica e das organizações partidárias.
. . .
. _
A nosso ver é a tendência que aparece quando a mstítuczonalzzaçao
do conflito social - mas o que será um conflito não "institucionalizado"?
_ e identificado com sua "recuperação" pela classe dominante e seu aparelho de regulação-integração social.
Não vamos voltar ao postulado que fundamenta a nosso ver es~a ~oncepção do sistema institucional e político - ou seja, uma certa extenondade, urna certa independência do Estado com relação à !uta de class~s(l S);
vamos somente examinar sua conseqüência sobre o tipo de ~oVlfilento
social ao qual a pesquisa sociológica atribui valor: qual~uer ~oVlfilento que
se desenvolva afastado da cena política globalmente identificada com um
aparelho de reprodução da classe dominante. Desse modo, como ~stranhar
que as lutas urbanas marginais assim destacadas fiquem caractenzadas ou
por sua incapacidade de ligar-se a outros ti~os d~ l~ta, ou pelo corte con,
creto total em relação a um processo revolucionán~. .
M. Castells poderia retorquir com razão que limitamos sua proble~atica apenas ao seu lado "urbano", enquanto ele tem o cuidado de defirur o
movimento social urbano num duplo plano: "Por um lado, enquanto aná-

!º~

(17) " ... a planificação urbana (é um instrumento) de do~inação: de integração e de regulação das contradições" (M. Castells, Luttes urbames, Pans, Maspero,
1973, p. 18).
(18) Cf. o Cap. 1.

lise dos processos sociais de mudança dos modos de consumo coletivo
expressos na organização urbana; por outro, enquanto apreensão das formas de articulação entre as novas contradições sociais que aparecem nas
sociedades industriais capitalistas e as contradições econômicas e políticas
na base de sua estrutura social"0 9). Ou seja, para Castells, como para nós,
não há análise de movimento social urbano independente da análise da
articulação com "movimentos sociais ligados à produção" e que evoque
diretamente a questão do poder político. Com posição diferente da de
Touraine, Castells coloca-se pois na perspectiva leninista que liga movimento social com poder político(20). É com razão que ele insiste na idéia-força
de que "uma reivindicação urbana pondo em conflito interesses sociais
fundamentais (e contraditórios) (como é o caso da renovação urbana de
Paris) só pode vencer se for transformada em movim.e nto social e só chegará a se cristalizar como tal, se for estreitamente ligada à luta política geral"( 21). Mas não é por acaso que todos os exemplos escolhidos por ele de
"lutas urbanas" caracterizam-se pelo "isolamento político" e pela "localização" - diríamos a atomização - dessas ações. Mesmo se, em fevereiro de
1972, "milhares" de parisienses compreenderam o alcance político da
ocupação das habitações vazias, tal ação permanece assim mesmo minoritária em relação à consciência política da maioria das massas populares
francesas da época. De fato, o que Castells chama "lutas políticas" ou
"movimento revolucionário" identifica-se para ele com grupos minoritários
(maoístas, PSU, comissões de ação ... ) e não com o movimento operário
em seu conjunto e sua realidade - sindical e política.
Quer isso dizer que deixa de haver problema de articulação quando
se está no plano dos partidos e organizações de massa da classe operária e
das camadas médias assalariadas? Longe disso, como veremos. É fato que,
durante muito tempo na França, os problemas urbanos foram formulados
de modo parcelar e marginal tanto pelo movimento operário como pelas
organizações esquerdistas.
Mas as novas condições de desenvolvimento do capitalismo francês,
na etapa da internacionalização da produção e da troca, produzem hoje (19) Luttesurbaines, op. cit. , p. 19.
(20) M. Castells, La question urbaine, Paris, Maspero, 1972, p. 444: "Por
movimento social urbano, entende-se um sll>tema de práticas ... tal, cujo desenvolvimento tende objetivamente para a transformação estrutural do sistema urbano ou
para uma modificação substancial da relação de fc,rça na luta de classes, isto ·é, em
última instância, no poder do Estado".
(21) Luttes urbaines, op.cit., p. 49 .

de
pelo menos é essa a noss a hipótese fundamental - novas .possibilidades
ver com
vém
emergência de movimentos sociais urbanos, que nada mais t~~ a
as lutas parcelares e intermitentes dos anos_ 60. ~om a cond1çao, con
. qu e se dê toda a amplitude a noçao de urbano.
de novo repe t rr,
A

"ANTIGAS" E "NOVAS" CONTRADIÇÕES URBANAS;
ANTIGOS E NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS URBANOS

Já pudemos analisar em nosso segundo capítulo como a utilizaçbão
- d. ~ es paço _ e portanto
daalificaur acapitalista da propriedade de aglomeraçao
.
niza ão - produzia duas contradições sociais fundamentais que_ ~u , .
mo/de "clássicas"' na medida em que elas apareciam desde o estagio class1co _ pré-monopolista - do capitalismo.
.
Em primeiro lugar, trata-se da contradição entre a parte. do cap1~1
social - assumido ou não pelo Estado - destinada ao fi~anciamen!~ . a
aglomeração dos meios de produção (zona industrial, se:~~o~:;::::n~~
ou ferroviários das empresas, água, terreno ...) e a _P
financiamento da aglomeração dos meios de reproduça~ d~ força de
lho (moradia transporte coletivo, etc.). Pudemos ver pnnc1~~ente gl
' n·tmos de fmanciamento público desses d01s tipos de a ose opunhamos
meração na França capitalista.
d se' nda contradição inerente, a nosso ver, ao modo de pro uçao
ca italis:: é a que existe entre dois usos do solo quando o espa~o a ser
ur~anizado é reservado prioritariamente às "necessidades" do ca~1t;J p~a
a aglomeração de seus meios de produção. ~a cidade co~o
c1~
fábrica (a Company Town dos Estados Urudos no s~cu o
a
cidade-dormitório dos operários de Citrõen ou de Usmor, es1e set~º
tipo de contradição parece surgir do esmagamento da força e tra
o
elo uso exclusivamente industrial do espaço urbano.
- "ant1·gas" não desapareceram em absoluto,
p
. d
Estas duas contra d'1çoes
ara segundo plano mas as transformações estruturais o
sobretudo a passagem do capitalismo monopo:ta simr~s
para o capitalismo desenvolvido ou de Estado - parecem ter- es mo 1·

:i!~

Jci~) ,

::;t.::=~~:

cado o conteúdo.
· (22)
De fato na medida em que - como tentamos demonstrar ac~a .
. ,
nto dec1·sivo operou-se no interior da classe capitalista
um f rac10name
(22) Cf. Cap. 1.

324
325

entre capital monopolista e capital não monopolista, a contradição social
oriunda do uso do espaço como meio de aglomeração parece-nos, por sua
vez, marcada pela oposição entre seu uso monopolista e seu uso não monopolista. Mais precisamente, podemos distinguir dois tipos de novas contradições surgidas:
a) da nova mobilidade espacial e temporal do capital monopolista;
b) das novas formas de autonomização social e espacial das funções

econômicas das empresas (ou melhor, dos grupos monopolistas).
O primeiro tipo de contradição poderia ser especificado de três diferentes maneiras:
- Contradição entre a mobilidade espacial do grupo monopolista
com raio de ação multinacional, para quem a região é apenas um ponto de
localização entre outros possívds, e a "imobilidade" da empresa local cuja
própria existência está subordinada aos valores de uso do espaço que a
cerca (principalmente as infra-estruturas de comunicação e o mercado do
emprego).
- Contradição entre a mobilidade temporal do grupo monopolista
para quem toda localização é um investimento precário, limitado no tempo, e a quase-"fixidez" temporal do pequeno e médio capital local cujo
futuro depende da continuidade do desenvolvimento regional.
- Contradição, enfim, entre a duração da imobilização do capital
fixo público que financia os equipamentos coletivos chamados de "recepção" para a empresa, e a duração de localização da unidade econômica do
grupo monopolista.
As duas primeiras contradições assim especificadas podem elas próprias manifestar-se sob duas formas diferentes, dependendo de remeterem
ou à implantação regional de uma nova unidade econômica de um grupo
monopolista estrangeiro, ou à reestruturação espacial de unidades econômicas antigas recém-ligadas a uma estrutura monopolística.
A segunda grande contradição nasce, a nosso ver, das novas formas
de autonomização e de especialização das funções econômicas nos grupos
monopolistas multinacionais; e isso na medida em que elas se chocam com
as pressões locais das pequenas e médias empresas em matéria de trocas
interindustriais e de economias de aglomeração. A própria lógica desta
nova divisão social e espacial do trabalho leva, de fato, a uma quase-"privatização" dos grandes equipamentos econômicos, sobretudo dos meios de
comunicação, em detrimento do tecido industrial regional.
326

No entanto, será que essas contradições diretamente "ec?nô~cas"
podem com legítimidade ser consideradas como a base de confht~s
nos" ou será que se trata, antes, de conflitos "regionais" ligados a p0Iit1ca
nacional de planejamento territorial?
Vamos supor já aceita a demonstração apresentada em ~osso s~gl_:n·
do capítulo de acordo com a qual o urbano não pode ser reduz1~0 ~o nao-econômico"; o único problema a resolver, então, é o da especificidade do
conflito "urbano" com referência ao conflito "regional". Ora, y~ece-?~s
que uma análise rigorosa dos conflitos urban~s supõe o d~m1mo pre:1º
das diferentes mediações que ligam as duas maiores cont~adições esp~cial-econômicas definidas acima com as contradições provementes especificamente da esfera urbana e percebidas como tais.
. _
Para dar uma definição sintética do que chamamos as contra~çoes
"antigas" e as contradições "novas" do uso social do espaço, podenamo.s
dizer que a principal contradição engendrada pelo modo de produção capitalista, como tal, consiste na oposição:
a) no nível do financiamento público;
b) no nível do uso de um espaço limitado
da produção dos meios de reprodução c~letiva da ~orça d~' tra~alho ,: da
produção dos meios de reprodução coletiva do_ ca_yital. ~ n~v1dade _do
atual estágio do capitalismo reside na diferenc1açao, no mtenor das dife-

":~a-

rentes frações do capital

dos usos do espaço urbano (zonas industriais para PME/zonas industrial-portuárias, por exemplo ...);
dos financiamentos públicos de que se beneficia cada uma delas.
Formular o problema dos modos de emergência de mov~ent~s
sociais urbanos na França atual consiste, a nosso ver, em determmar pnmeiro a natureza das relações entre esses dois tipos de contradição: há simples justaposição de uma contradição principal e d~ uma ~ontradição
secundária, ou, pelo contrário, o novo conflito questiona a aliança entre
as diferentes frações do capital (monopolista e não monopolista)?
Responder a essas duas perguntas é antes de tudo aprofundar a ~atureza das contradições intercapitalistas no uso do espaço urbano, ou seJ~, os
dois conceitos-chave que parecem determinar a nova divisão esp~ial _e
social do trabalho nos grupos monopolistas: o conceito de autonomzzaçao
das funções monopolistas e o conceito de mobilidade do capital monopolista.
• .
.
.
..
De fato, se é fácil perceber as conseqüencias regwnazs da mobilidade
327

e da autonomização do capital monopolista, não é fácil medir sua relação
com o urbano: ora, elas nos parecem fundamentais, decisivas. Quando
anteriormente(23) fizemos a lista dos diferentes tipos de segregação urbana, percebia-se com clareza que a política urbana em matéria de localização de atividades estava reduzida a medidas jurídicas (licença, alvará de
construção) cuja única função real consistia em acelerar, sistematizar
processos técnico-econômicos sobre os quais o aparelho de Estado não tem
a mínima influência. E entretanto, já dissemos e repetimos, não há planificação urbana - no sentido rigoroso de uma socialização dos usos do espaço urbano - sem domínio dos modos de localiza,ção dos diversos tipos de
atividade econômica.
Ora, é a nova divisão social e espacial das funções nos grupos monopolistas que está dando origem às principais formas de segregação urbana.
De fato, quer se trate da segregação entre atividades industriais e atividades
de direção, entre atividades administrativas de execução e atividades administrativas de concepção, ou mesmo que se trate da oposição global entre a
função de direção dos grupos monopolistas e o habitat residencial dos
grandes centros urbanos, topamos sempre com o duplo mecanismo da
formação dos sobrelucros imobiliários e da busca de economia de falsos
gastos. A esse respeito, o conflito Rateau pode ser considerado como
exemplar; ao discutir o potencial produtivo da usina de La Courneuve principalmente a fabricação de certas grandes turbinas para centrais térmicas - o grupo CGE revelava, com clareza, os efeitos urbanos da reestruturação espacial monopolista.
De fato, era mesmo a rentabilidade global do grupo CGE que ditava
o "deslize" da empresa Rateau para a função de firma de estudos, a parte
da fábrica devendo ser abandonada a empreiteiros; mas a rentabilidade ou
o interesse da CGE se opunha diretamente a uma repartição harmoniosa do
potencial técnico e econômico da região parisiense : 60 000 empregos de
fábrica já foram suprimidos em dez anos na regi:10 parisiense, 3 300 de
1971 a 1972 apenas no departamento de la Seine-Saint-Denis. Assim a
supressão de várias centenas de outros empregos qualificados teria como
conseqüência:
aumentar o processo de desqualificação da força de trabalho parisiense (sobretudo industrial);
transformar os antigos departamentos industrais como la Seine-Saint-Denis em subúrbio-dormitório;

- por conseguinte, agravar ainda mais as migrações alternantes diárias
dos trabalhadores.
Por outro lado, ao revelar que a CGE pensava vender uma parte dos
terrenos da fábrica para efetuar uma proveitosa operação imobiliária, os
grevistas de Rateau mostravam a segunda articulação que une o modo de
localização do capital monopolista à crise urbana, ou seja, a apropriação
privativa do solo para recuperar a renda fundiária.
Enfim, o último aspecto do conflito é o vínculo demonstrado entre
a política estatal em matéria de localização de atividades (a política da
DATAR) e a estratégia de reestruturação dos grupos monopolistas.
Resta comparar o alcance, de certo modo, objetivo deste conflito,
com seu desafio real, tal como se manifestou historicamente. Se de fato
não se pode negar que a luta contra o desmantelamento da usina Rateau
ultrapassou a simples luta contra as demissões e o desemprego,já que foi a
lógica de especialização e de autonomização das unidades do grupo CGE
que foi denunciada, pode-se perguntar no entanto qual foi a repercurssão
exata, no nível do conjunto da região parisiense, dos temas "regionais" e
"urbanos" do conflito. Porque um abismo parece ainda existir entre o
nível atual da consciência operária desses problemas e sua. dimensão
"objetiva".
A mesma demonstração poderia ser feita para a outra face da utilização monopolista do território, ou seja, as regiões de implantação das novas
fábricas de montagem, quer se trate das velhas regiões industriais às voltas
com a "reconversão" (Nord-Pas-de-Calais, Loire, etc.), ou de regiões rurais
com fraca estrutura urbana ( Oeste )(24). A defasagem entre a qualificação
da mão-de-obra operária existente ou formada pelas escolas profissionais
(CET e até IUT) e as "necessidades" das fábricas de montagem provoca de
fato uma onda de migrações profissionais, diárias, semanais ou definitivas
para as grandes cidades, e em último lugar, para Paris, onde existe uma
importante demanda de mão-de-obra qualificada. A mesma defasagem se
encontra, de outro lado, entre a produção pelas comunas e pelos departamentos vítimas do subemprego das zonas industriais e a lógica monopolista
que vai aí implantar unidades econômicas, sem nenhum vinculo nem efeito

(24) Ver principahnente P. Calame, La planification urbaine à Valenciennes,
CERAU-Beture, 1973; H. Coing, Loire moyenne, analyse des systemes locaux de
décision, CERAU-Beture, junho de 1973; C. Beringuier, A. Boudou, H. Jalabert,
Toulouse-Midi-Pyrénés: la transition, Stock, 1972.

(23) Cf. Cap . III.

328

329

multiplicador sobre o tecido industrial local(25), nem mesmo sobre o
mercado local de mão-de-obra, já que as fábricas substituem os operários
não qualificados por trabalhadores imigrados.
A crise urbana aparece então como o produto da combinação de
duas lógicas:

- uma lógica "política" que subordina a produção coordenada de conjuntos urbanos ( desde a zona industrial, o CET, até a moradia e a
rede de transportes) à recepção passiva de "empregos", sem controlar a adequação desses empregos com a mão-de-obra, e nem mesmo
com as empresas locais;
uma lógica econômica, monopolista, que subordina o modo de localização territorial dos diferentes tipos de atividades ao "interesse
geral" (multinacional) do grupo monopolista considerado em sua
unidade e sua totalidade.
Ora, já vimos, a contradição é total entre o uso do espaço que decorre da combinação destas lógicas ( ou se quiserem, da lógica do CME) e o
uso que resultaria, ao inverso, de uma subordinação da localização das
atividades ã repartição nacional e regional dos meios de produção e das
forças produtivas em toda a sua diversidade e sua complementaridade. Resta saber como essa contradição pode manifestar-se no nível da consciência
das classes exploradas, quebrando sobretudo os anteparos constituídos
pelo fechamento ideológico do "social" e do "econômico" , o isolamento
do mundo do consumo e do mundo da "empresa": como "cristalizar",
"condensar", na consciência do trabalhador, o problema do tempo de
transporte, o da desqualificação e da ausência de alternativas e os problemas de salário, dos ritmos de trabalho na fábrica e do desemprego?
No número especial de La Pensée, "Besoins et Consommation"(26),
Jean-Louis Moynot, dirigente da CGT, mostra que esta integração pelo
movimento operário francês dos problemas artificialmente delimitados
pela ideologia dominante como "fora do trabalho", "de consumo", deve
ser buscada, no fundo, na evolução da natureza das reivindicações operárias no própn·o local do trabalho. Assim, segundo a intensidade do trabalho, segundo o cansaço físico ou nervoso ... "inúmeras lutas mostram que
outros problemas de caráter mais 'qualitativo' assumiram importância
(25) Cf. Guingamp, cité industrielle, Revue de Géographie Norois, 7-8, abril-junho de 1973, pp. 237 e segs .
(26) "Déterminations sociales et individuelles des besoins", La Pensée, 180,
abril de 1975, pp. 80 e segs.
330

cada vez maior. As lutas dos operários não qualificados concernem é claro
aos salários e ao ritmo de trabalho mas reclamam também contra a fragmentação e a monotonia das tarefas, reivindicando tanto uma posição
melhor quanto uma elevação da qualificação real"(2 7).
l! verdade que se pode contestar a análise histórica simplista que procure identificar a história do movimento operário francês com uma seqüência de lutas meramente "quantitativas" por salários e que considere a
emergência de problemas "qualitativos" como fenômeno recente. Todo
historiador honesto do movimento operário pode sem dúvida destacar
inúmeros aspectos "qualitativos" e até "urbanos" das grandes lutas operárias do fim do século XIX e do começo do século XX, desde a reivindicação "urbana" por uma moratória de aluguéis sob a Comuna de Paris, desde
as Bolsas do Trabalho, as cooperativas municipais, até a imbricação estreita
das reivindicações econômicas e urbanas no programa dos socialistas "possibilistas" ; a tal ponto que se pode perguntar se a ligação das reivindicações
na empresa e fora da empresa não é um fenômeno mais relacionado com
um estágio ultrapassado do capitalismo - o capitalismo pré-monopolista
- do que com as características próprias do capitalismo monopolista de
Estado.
De fato, uma objeção desse tipo apóia-se numa dupla confusão:
confusão, por um lado, entre o modo de urbanização pré-monopolista e o modo de urbanização monopolista;
confusão, por outro lado, entre a natureza das reivindicações "urbanas" no movimento operário do capitalismo nascente e sua natureza
atual.
Uma exposição completa desses dois pontos exigiria uma longa comparação histórica que excede o âmbito do nosso trabalho; vamos apenas
lembrar o que caracteriza, no nosso entender, o que definimos no Capítulo
II como urbanização "monopolista", isto é, uma lógica de produção e de
ocupação do espaço fundada na dominação exercida pela fração de classe
monopolista, quer se trate da produção daquilo que é construído ou do
uso das diferentes zonas suportes das atividades monopolistas autonomizadas (zonas de direção, zonas auxiliares dos centros de negócios, reservas
de mão-de-obra não qualificada, etc.).
Enquanto a cidade do capitalismo concorrencial se caracterizava pela
coexistência espacial das classes dominadas e das diversas frações capitalis(27) Op. cit. , p. 67.
331

tas, enquanto o setor imobiliário no seu conjunto escapava em grande parte
a uma apropriação pelo grande capital, pode-se dizer que os traços característicos de Monopolville são, ao contrário, determinados pela subordinação
dos mecanismos de produção e de ocupação da cidade - sobretudo da
megalópole onde estão concentrados os equipamentos de comunicação e
de informação mais estratégicos - à lógica da acumulação monopolista.
Bem ao contrário, são duas lógicas totalmente diferentes que caracterizam, no estágio clássico do capitalismo, de um lado, a empresa capitalista
e, de outro, a pequena e média propriedade fundiária, a das "casas de
aluguel" da época de Haussman. A esse respeito, a contradição que Marx
assinalava no mundo rural entre capital e propriedade fundiária, investimento produtivo e especulação parasitária funciona plenamente, a nosso
ver, nas cidades do início do capitalismo. Por isso deve-se interpretar com
bastante precaução a própria natureza do vínculo estabelecido então pelo
movimento operário nascente entre industrialização e urbanização; formulamos a hipótese de que, no âmbito de uma formação social em que a
indústria moderna capitalista permaneça minoritária com referência à
pequena produção mercantil, as organizações operárias vão inicialmente
desenvolver reivindicações bem marcadas seja pelos estágios arcaicos do
capitalismo, seja até por vestígios da economia pré-capitalista (artesanato,
etc.): assim, as dimensões culturais, "urbanas" dessas reivindicações são, a
nosso ver, sintomáticas sobretudo de uma subordinação da lógica da
acumulação capitalista a lógicas ligadas a modos ou estágios de produção
anteriores: o "revolucionário" da Comuna de Paris bem como o sindicalista do início do século XX permanecem profundamente representativos do
mundo do artesanato ou da pequena empresa ainda mergulhada num
espaço urbano modelado pelo modo de produção feudal e pelo capital
mercantil.

4. As primeiras manifestações de um novo movimento social

Tudo isso é bem diferente, a nosso ver, das reivindicações urbanas do
movimento operário contemporâneo, o da indústria moderna, da "empresa
conjugada" de capital multinacional, que domina realmente todas as formas de reprodução da força de trabalho. Enquanto o movimento operário
nascente ligava reivindicações econômicas com reivindicações qualitativas

332

porque a empresa capitalista permanecia um elemento secundário na reprodução da formação social, é bem ao inverso o caráter totalitário, onipresente da lógica capitalista que explica, a nosso ver, o novo tipo de vínculos
estabelecidos entre o mundo do trabalho e o da reprodução da força de
trabalho.
Sendo assim, desmorona a barreira ideológica que tentava isolar o
mundo da produção do mundo da "reprodução da força de trabalho", na
medida em que um dos elementos-chave da reprodução ampliada da força
de trabalho - a formação de uma força de trabalho qualificada, a "necessidade de educação" - está integrado na luta operária dentro da fábrica .

JULHO DE 1969 EM TURIM

Nesse sentido, o movimento operário italiano foi bem além quando
assumiu, nos seus famosos "conselhos de fábrica", o conjunto dos problemas de reprodução ampliada da força de trabalho. Como assinala Christine
Glucksman (2 8), a grande greve geral de Turim de 3 de julho de 1969, organizada pelos sindicatos unidos e pelos partidos de esquerda contra_ o aumento de aluguéis e do custo de vida, responde a uma situação criada pela
rigidez de um sistema incapaz de promover um desenvolvimento geral
equilibrado. Em 1954, Turim tinha 787 970 habitantes; em 1964, 1116 631
- ou seja, um aumento de 41 %, com meio milhão de trabalhadores a mais.
Ao mesmo tempo eram produzidos 600 bilhões de liras de mais-valia industrial, mas isso através de uma expansão urbana desordenada, anárquica, e
de uma carência global de infra-estruturas sociais (transporte, moradia,
escola... ).
Sob esse aspecto, a greve de Turim é uma das primeiras que clama
"pelo direito à cidade", conduzida por 600 000 operários contra "o modelo de cidade que se desenvolve sob o impulso da especulação e sob o signo
do lucro máximo, como demonstra Diego Novelli"(29).
Se não podemos mencionar, na França, movimentos sociais com essa
amplidão - movimento de massa com base operária e ao mesmo tempo
econômico, social e político - parece-nos no entanto que, desde o fim dos
anos 60 e nos anos 70, manifestam-se múltiplos sintomas, índices de emer(28) "Le Mezzogiomo dans les luttes de classes", La Nouvelle Critique, 40,
janeiro de 1971, p. 25.
(29) Diego Novelli, Dossier Fiat, Editori Riuniti.

333

gência de um movimento social urbano francês, específico, e que fica,
como na Itália, integrado ao conjunto das reivindicações do movimento
operário: .

E claro que - na medida em que não existe na França o equivalente
de uma subordinação imediata da crise urbana de uma grande cidade como
Turim ao desenvolvimento do principal grupo monopolista italiano, a Fiat,
onde justamente a vanguarda revolucionária está implantada mais solidamente - não se pode comparar de forma mecânica a experiência italiana
com uma futura experiéncia francesa: os trabalhadores da Renault de Boulogne-Billancourt - "fortaleza operária", vanguarda do movimento operário francês - não têm a percepção imediata, como seus camaradas de
Turim, da ligação evidente entre suas lutas na fábrica e a crise urbana da
aglomeração parisiense, produto do movimento bem mais complexo de
uma multiplicidade de unidades econômicas: fábricas, sedes sociais, companhias, etc. E verdade que J .-L. Moynot tem razão de dizer que os últimos
movimentos de reivindicação dos operários não qualificados ultrapassam
os problemas econômicos imediatos de ritmos de trabalho e de salários e
chegam a colocar o problema da qualificação e, portanto, da formação
profissional. Assim também as lutas de abril na fábrica Renault contra o
desemprego e as demissões colocam imediatamente o problema - urbano
- da manutenção do potencial industrial da região parisiense; mas não se
pode dizer que esse prolongamento espacial e urbano das lutas na Renault
seja claramente percebido ou reivindicado; enfim, nenhum vínculo surge
por enquanto entre essas lutas operárias e as reivindicações referentes aos
aluguéis ou aos transportes apesar da extrema gravidade destes dois últimos
problemas na região parisiense.
Ao contrário, pode-se observar recentemente a emergência de dois
novos tipos de luta moderna - complementares e convergentes:
de um lado, o questionamento da nova divisão social e espacial das
atividades monopolistas na região parisiense , como em todas as grandes metrópoles urbanas, através das lutas contrn a "desindustrialização" da região parisiense e a proliferação anárquica em Paris das
atividades de escritório;
de outro lado, o questionamento da segregação espacial habitat/trabalho, através das lutas regionais, sobretudo na região parisiense,
contra a política governamental dos transporte coletivos.

334

O CONFLITO RATEAU

A segregação monopolista do espaço urbano está dessa forma no
núcleo do conflito Rateau de fevereiro-abril de 1974 ( três meses de greve
geral com ocupação dos locais de trabalho). Para a CGT - majoritária na
usina de La Courneuve - e seus dirigentes, o vínculo entre a defesa do
emprego e a luta contra a segregação monopolista da região parisiense está
apresentado com nitidez(30).
Diante da intransigência da direção da CGE, quando a greve geral
entra na oitava semana, Henri Krasucky, secretário da CGT, indica o alcance geral do conflito: "Rateau ... é uma questão de âmbito nacional por
motivos que se referem:

à política regional;
ao desenvolvimento industrial;
à necessidade de impedir a arbitrariedade nas decisões de fechamento
de empresas ...
". . . O que a classe dirigente vai fazer da maior concentração do
país? Qual será a vida para a capital e para as cidades que compõem sua
aglomeração? Um gigantesco dormitório? Um enorme centro administrativo e comercial? Falam-nos de urbanização, de qualidade da vida, de cida-

(30) O leitor terá razão se perguntar por que escolhemos um dos conflitos do
trabalho - o conflito Rateau - enquanto outros conflitos (Lip, Le Joint français ... )
tiveram na mesma época uma repercussão tão ou mais importante. O motivo está na
definição que acabamos de dar de movimento social urbano como questionamento da
nova divisão social e espacial das atividades monopolistas nos grandes centros urbanos, através do fenômeno da segregação habitat/trabalho. Ora, o conflito Lip permaneceu não só confinado no interior dos problemas da empresa (a gestão e o poder na
empresa) sem nunca ter sido articulado de fato com sua dimensão regional e urbana
(o fraco impacto da greve dos trabalhadores de Lip sobre a cidade de Besançon é
bastante significativo), mas também o caráter familiar e local dessa empresa não possibilita um questionamento do uso monopolista do espaço.
Quanto ao Joint francês, apesar dessa usina depender mesmo , assim como Rateau, do grupo multinacional CGE, sua inserção geográfica numa região pouco urbanizada (Saint-Brieuc e o interior da Bretanha) faz com que não se possa examinar a
articulação entre luta econômica e luta urbana; isso foi possível com Rateau, fábrica
inserida na megalópole parisiense. A esse respeito, seria possível considerar outras
lutas contra a desindustrialização parisiense (ldéal Standard, Néogravure, etc.); a escolha de Rateau se explica, pois, em última análise, pela dimensão ideológica e política
que conferiu a este conflito o alto nível de consciência de classe dos trabalhadores de
Rateau, nível que permitiu, ao menos para seus militantes mais conscientes, um
esboço do vínculo entre conflito do trabalho e conflito urbano.
335

des de tamanho adequado ao homem e fabricam-nos um monstro onde é
insuportável viver. Não há verdadeiras cidades numa vida industrial e econômica, sem empregos variados e suficientes ... O que vai ser dessas centenas de milh~:s de .1:abalhadores, operários, técnicos, engenheiros, que
povoam a regiao pans1ense? Gente desempregada? Gente desarvorada? Ou
e~t~o até onde vão levar essa louca transumância cotidiana que torna insoluve1s os problemas de transporte e aumente de várias horas a duração
média da jornada de trabalho? Apenas para o departamento de la Seine·Saint~Denfs, av~a-se em cerca de 260 000 o número de pessoas que, cada
manhã, sai para Ir trabalhar nos diversos pontos da região. E nas estradas
congestionadas ou nos trens repletos, elas cruzam com mais de 1 ()() 000
outras que vêm de todos os lados para trabalhar nesse departamento ...
Para onde irão os jovens dos CET e dos liceus técnicos que são acusados
de preferirem os empregos de escritório? ... "(31).
~epo!s do recuo da CGE no fim do mês de abril, Henri K.rasucky vai
resumrr assim o duplo alcance da vitória dos trabalhadores de Rateau(3 2):
1) É possível ter êxito na defesa do emprego, mesmo contra "um
dos maiores feudalismos multinacionais".
2) "A manutenção e o desenvolvimento ulterior de Rateau vão
entravar a política de eliminação de empregos industriais em Paris e nos
seus subúrbios. Os trabalhadores da região parisiense estão fartos desse
pre.tenso planejamento territorial que os elimina, que os afasta sempre para
m~1s longe e transforma o coração do país num monstro cuja vida econôffilCa e social desequilibrada vai torná-lo em gigantesco centro administrativo, comercial e residencial. Eles querem cidades bem pensadas onde 0
emprego, diversificado, reduz os deslocamentos cotidianos demenciais da
população trabalhadora."
É verdade que essa posição é de um dirigente nacional da CGT e na
f~ta de estudo sociológico preciso(3 3) sobre o grau de tomada de consciência desses problemas pelos militantes e operários da usina de La Courneuve
como por todos os que, na região parisiense e em toda a França manifes~
taram sua solidariedade ao pessoal de Rateau, não nos é fácil d~terminar
em que medida, além da defesa do emprego, o questionamento da segrega-

(31) L'Humanité, 27 de março de 1974.
(32) lbid., 30 de abril de 1974.
~33~ A m.u!tiplicação dos conflitos dessa natureza confia a desindustrialização
d~ ~uburb10 parmense torna urgentes tais estudos a fim de serem verificadas nossas
h1poteses.

ção monopolista do espaço urbano esteve ou não no centro da mobilização
popular.
Contudo já se pode notar uma característica indiscutivelmente nova
no modo de mobilização que houve, isto é, a junção entre ação sindical,
ação municipal e ação política dos partidos de esquerda e sobretudo
doPCF.
É claro que não é a primeira vez que os vereadores ou deputados do
"subúrbio vermelho" sustentaram ativamente os trabalhadores que lutam
em suas circunscrições; mas se forem associados o grau de mobilização
popular(34) com a novidade do objetivo do conflito Rateau ( conflito econômico e urbano) , é, a nosso ver, a primeira vez que o movimento operário
francês - no caso, essencialmente seus componentes da CGT e comunistas,
embora a CFDT e os partidos de esquerda tenham sustentado o movimento de solidariedade - mobilizou maciçamente os trabalhadores em torno
de uma reivindicação "urbana", a partir do próprio local da exploração
capital/trabalho. Por outro lado, os trabalhadores de Rateau-La Courneuve,
cujos locais de residência são muito espalhados pelo subúrbio(35), gozaram
de excepcional coordenação do conjunto das prefeituras comunistas e do
Conselho geral de la Seine-Saint-Denis. Mais ainda : a organização regi.anal
da solidariedade no nível global da região parisiense deve ter sido importante elemento da tomada de consciência regi.anal das raízes econômicas
da crise urbana, embora, também nesse ponto, tal afrrmação precise ser
confirmada por uma pesquisa sociológica adequada.
(34) Um índice disso pode ser encontrado na importância do apoio material
obtido em toda a França - e sobretudo na região parisiense - pela CGT, cf. L 'Humanité de 23 de abril de 1974: estado da solidariedade material em 13 de abril, por
departamento. Além disso, o próprio fato de, pela primeira vez, um grupo multinacional do porte da CGE ter que recuar quanto à decisão de fechamento da usina até
então imposta aos trabalhadores em nome do caráter "inelutável", da necessidade de
acompanhar o "progresso", da desindustrialização das metrópoles urbanas, prova a
importância da repercussão do conflito Rateau na classe operária, bem como nos ITC.
Apesar da usina de La Courneuve ter 156 engenheiros e executivos, 418 técnicos e
contramestres, a direção de Rateau só conseguiu reunir em 7 de fevereiro para a votação sobre a greve e ocupação da fábrica, com voto secreto, entre 250 e 300 desses
funcionários. Ora, dos presentes, 20% se pronunciaram pela greve, 10% contra, e o
resto recusou-se a votar (cf. L 'Humanité de 14 de fevereiro de 1974). O desmantelamento das usinas "Roussel-Uclaf" em Romainville e Saint-Denis em 1971 não pôde
ser contestado, o que mostra bem o caminho percorrido, desde 1971, na tomada de
consciência de classe desses problemas.
(35) "Le personnel de Rateau (La Courneuve) est réparti dans 123 communes" (Le Monde, 3 de abril de 1974).

336
337

AS PROPOSTAS DE ABRIL DE 1975 DO PCF

Na falta de um movimento regional anti-segregativo, importante
etapa nos parece ter sido atingida pelo movimento operário francês no processo que procura levar em conta os problemas urbanos. As propostas de
abril de 1975 do PCF parecem-nos, de fato, expressar um primeiro esforço
para a construção de um urbanismo anti-segregativo no nível do conjunto
da região parisiense, ao basear um planejamento de verdade para a região
(implantação de habitações e equipamentos, transporte, cidades novas)
sobre uma nova divisão técnica e social do trabalho: longe de reduzir-se a
um slogan saudosista, a vontade de "barrar a desindustrialização" da região
parisiense vai traduzir-se pelo desenvolvimento do potencial industrial de
vanguarda (como Rateau, por exemplo) e, portanto, pela ruptura com a
nova lógica monopolista que busca reservar os pólos urbanos como Paris
para as sedes sociais e para a especulação imobiliária e fundiária. Por outro
lado, uma repartição mais equilibrada das zonas de espaçamento industrial
é proposta, apoiada nas vias alternativas A86 e A87 - cuja realização prioritária deve estar conjugada com ligações ferroviárias transversais entre
comunas do subúrbio. Contra o isolamento segregativo das atuais implantações de fábricas, os comunistas propõem a integração à cidade de usinas
não poluentes cuja atividade seja compatível com o meio ambiente urbano:
"Contrariamente à atual política de segregação e de isolamento sistemático que caracteriza a implantação das fábricas, a maioria das indústrias
dominantes na regi.ão parisiense pode ser integrada à cidade. É uma das
principais condições de melhoria do ambiente de trabalho para os assalariados, de animação urbana cotidiana, de aproximação entre habitat e emprego para os operários".
Trata-se, pois, de uma política urbana anti-segregativa, o oposto tanto no plano arquitetural e urbanístico como no plano sociológico - dos
espaços fragmentados do zoneamento produzido pelo capitalismo.

CAMINHANPO PARA UM NOVO URBANISMO DE TIPO ANTI-SEGREGATIVO?

Pode-se com isso dizer que já estamos diante do esboço de uma
contra-hegemonia urbanística - no sentido amplo em que definimos essa
palavra?
Se lembrarmos que a atual política urbana foi por nós definida como
338

o estabelecimento - consciente ou não - de uma tripla segregação social
e espacial:
entre atividades (indústrias/escritórios);
entre residências e atividades;
entre tipos de residência e modos de acesso aos equipamentos coletivos,
podemos, de fato, aqui definir o esboço de uma contrapolítica urbana,
cuja realização - e em primeiro lugar a realização financeira - supõe antes
de tudo a supressão do motor econômico determinante da atual segregação
urbana, ou seja, o poder econômico e político dos grupos monopolistas
multinacionais.
B só na medida em que o critério determinante for não mais a lógica
do lucro em escala internacional - a própria noção de potencial econômico regional ou nacional perdendo nesse contexto qualquer sentido - mas
sim o desenvolvimento equilibrado das regiões, que será possível substituir
a segregação urbana por um real equfübrio espacial entre atividades e qualificações, entre residências e atividades e entre as diferentes camadas sociais
tendo um acesso cada vez mais igual aos diversos meios de consumo
coletivos.

Conclusão
Nossa problemática baseava-se em duas hipóteses maiores:
- Uma nova análise do Estado bem como do conjunto da superestutura é possível; análise qualificada de "interna" porque substituiria as
descrições de tipo jurídico e funcionalista do Estado "exterior à sociedade
civil" por uma demonstração de seu "fundamento social oculto". Projeto
bem ambicioso, já que consistia exatamente em explicar todas as características do "edifício político" pelo próprio desenvolvimento de sua "base"
econômica, social e histórica.
- Uma nova análise do urbano foi proposta; análise que não apenas
o ligaria diretamente com o processo de socialização contraditório das forças produtivas e das relações de produção, mas faria do urbano um momento fundamental da análise do Estado capitalista.

Em que medida essa dupla tarefa foi preenchida? Para precisar o
sentido de nossa pergunta, como conseguimos ligar hipóteses tão gerais
como as que definem o Estado capitalista como "a forma mais desenvolvida da contradição valor/valor de uso", o "produto do fetichismo mercantil" ou a "forma concentrada da sociedade burguesa", com nossas análises
concretas da política urbana na França dos anos 60? Como, além disso,
conseguimos conciliar o caráter aparentemente marginal do urbano - percebido espontaneamente como um componente secundário da esfera
"social" - com nossa ambição de fazer dele uma determinação essencial
na análise do Estado?
Marx abriu caminho para uma análise materialista do Estado e das

superestruturas, quando mostrou, num célebre texto do Capital< 1) , o "fundamento social oculto" do "edifício social e político" , ou seja, a relação
imediata entre o proprietário dos meios de produção e o produtor direto.
Mas é preciso evitar qualquer interpretação dogmática do método proposto: convém repetir, não se trata de uma receita teórica e sim simplesmente
de um princípio epistemológico que fundamenta a análise concreta, mas
que não a substitui.
Assim, recusamo-nos a superpor mecanicamente as diferentes formas
políticas às diferentes combinações matriciais possíveis entre propriedade
dos meios de produção e produção direta.
O materialismo dialético nada tem a ver com o neopositivismo e com
o formalismo dos estuturalistas. Nossa intenção foi bem outra: procuramos, num período hlstórico bem determinado, desde o fim da Segunda
Guerra Mundial até hoje, a partir do exemplo francês, revelar os fundamentos sociais das transformações estruturais sofridas pelo aparelho de Estado
capitalista do estágio clássico, ou seja, a comunidade de interesses entre
permanências, as mutações, as contradições da superestrutura estatal, a
partir da maneira como a "base " social e econômica determinou a superestrutura.
De fato, se for admitida a hipótese segundo a qual a superestrutura
estatal é sempre, em última instância, o "reflexo ativo" , a "condensação"
da relação de classes, é-se levado a postular um "efeito" - a determinar da transformação da base social sobre o edifício político.
Assim, a partir do momento em que a reprodução ampliada do modo
de produção capitalista substituí a oposição inicial entre proprietários dos
meios de produção - ou seja, uma classe capitalista ainda indiferenciada e produtores, por uma nova oposição entre fração capitalista dominante o capital monopolista - e o conjunto das camadas não monopolistas, a
partir desse momento pode-se perguntar se o fundamento social do Estado
capitalista do estágio clássico, ou seja, a comunidade de interesses entre
todos os proprietários dos meios de produção, e até mesmo o conjunto das
camadas não produtivas de mais-valia, não é alterado, contestado.
E essa, em todo caso, a pergunta que serviu de fio condutor para o
conjunto de nossa análise.
Mas não será possível compreender o caminho que nos levou desta
análise teórica do Estado ao estudo das políticas urbanas capitalistas sem
(1) K. Marx, Le Capital, op. cit., Ed. Sociales, livro III, 6.ª seção, Cap . XL VII,
t . VIII, p. 172.

342

explicar O sentido de nosso desvio pelo urbano. O_ra, esse desvio não ~e
explica apenas, a nosso ver, pela renovação do sentido dado a essa no~ao
como lugar privilegiado da reprodução socializada das forças produtivas
humanas e materiais, e portanto, ao mesmo tempo, do trabalho morto e
do trabalho vivo.
De fato na medida em que mostramos que não se pode separar a
análise do Es~ado capitalista e a da divisão técnica e social do trabalho,
um vínculo deve ser estabelecido entre as principais características da atual
socialização das forças produtivas e nossa definição de Estado: a partir _d~
momento em que a cooperação das forças produtivas humanas e matena1s
não se limita mais à unidade física da fábrica, mas atinge, através da "empresa conjugada" do grupo monopolista, o conjunto de um te~ritório nacional e, depois, dos conjuntos multinacionais, não se pode mais sep~ar a
concentração dos homens e a das máquinas, os lugares de reproduçao de
sua força de trabalho e os lugares de acumulação do capital. A f arma mais
desenvolvida da divisão do trabalho material e intelectual é a atual segregação urbana entre, de um lado, as zonas centrais de ~rodução intelectu~ ~
de mando e, de outro, as zonas periféricas onde estao espalhadas as atlVldades de execução e os lugares de reprodução mutilada da força de tr~b~lho; essa nova segregação urbana resume perfeitamente, para nós, a_prmc1pal contradição entre a exigência de desenvolviment~ do trabalho v1v~ - e
sobretudo seu desenvolvimento intelectual - e a lógica de acumulaçao do
trabalho morto que, em função de suas necessidades imediatas, tende a
restringir ao máximo esse desenvolvimento.
_ ,
Ora, 0 Estado representa justamente, aos nossos olhos, nao so o produto mais elaborado dessa "socialização" monopolista, como também a
confissão do seu fracasso.
Forma mais desenvolvida da socialização capitalista, a planificação
estatal representa com efeito a resposta mais coere~te
modo
produção capitalista para "acertar" as contradições e_conorrucas e sociais que o
solapam; mas na medida em que ela se mostra mc~paz, longo prazo, de
dominá-las realmente, na medida em que a planificaçao estatal aparece
subordinada não a uma lógica de controle racional, pela sociedade, de seu
desenvolvimento coletivo mas sim à lógica de acumulação do capital privado, a planificação assim como o conjunto da política estatal agem ~enos
como instrumento de regulação do que como revelador de uma sociedade
retalhada pelo conflito de classes antagônicas. Tal é, em todo cas?, _para
nós, 0 que há de mais proveitoso como balanço dos nossos quatro ult1mos

?:

capítulos.
343

Partindo da constatação - superficial e aparente - de uma defasagem entre '_'planificação" e "política" urbanas, chegamos bem depressa a
revelar aquilo que chamamos "a essência estrutural" do funcionamento
desse par aparentemente desunido "planificação/política", ou seja, um
process~ .~e distribuição segregativa das principais "condições gerais da
produçao , quer se trate dos grandes meios de comunicação ou dos meios
de con~umo coletivos (habitações, áreas verdes, escolas, hospitais, centros
culturais, centros de pesquisa, etc.); mas talvez nossa descoberta mais fun~ame~tal esteja na pró~ria natureza dessa segregação social: longe de ser
unutavel através dos diferentes estágios de desenvolvimento do capitalis~o, .ela pareceu-nos, ao contrário, profundamente especificada pelas principais características do estágio monopolista. Em outras palavras, acreditamos ter demonstrado uma transformação capital do processo de seleção
estatal, quando se passa do capitalismo "concorrencial" do estágio chamado "clássico" ao capitalismo monopolista, transformação materializada
essencialmente, no plano da ocupação do espaço urbano, por uma segregaç~o :_ntre os novos usuários dos grandes centros urbanos (atividades de
direçao dos grupos monopolistas e do Estado) e o conjunto das classes ou
camadas sociais excluídas dos grandes meios de comunicação e de decisão:
classe operária, camadas médias assalariadas, artesãos, comerciantes, pequenos e médios industriais.
. Segregação totalmente diferente da segregação capitalista do estágio
clássico onde se opunham, no interior da própria cidade, bairros "burgueses" e bairros "operários": a nova divisão social e técnica do trabalho leva
nos grupos monopolistas, a uma autonomização espacial de suas atividade;
de mando e, por via de conseqüência, a uma apropriação dos principais
lugares de concentração dos meios de concepção e de difusão da informação. Ao emaranhado urbano das atividades produtivas, comerciais e residenciais, sucede assim o imenso zoneamento das "megalópoles" onde a
ocupação do espaço é determinada pelo mecanismo de seleção rigorosa da
renda fundiária, mecanismo esse fundado no modo de localização dos metros quadrados mais caros - ou seja, no modo de localização das atividades
de direção dos grupos monopolistas.
Mas a relação entre os dois grandes componentes da política urbana
- a planificação e a prática de financiamento público - não é estática nem
simples; pudemos constatar que o método materialista permitia distinguir
dois períodos históricos, dois momentos no processo de adaptação da lógica de seleção estatal à monopolização do capital: primeiro, isolamos um
período marcado pelo par "produção de normas jurídicas igualitárias,

universalistas e rígidas" e ''práticas de derrogação"; exemplos não faltam,
desde a oposição entre a planificação econômica setorial do IV Plano e a
política monetária e econômica do Ministério das Finanças, até os planos
de urbanismo coercitivos acoplados com práticas políticas profundamente
seletivas. Do mesmo modo, as normas públicas da política de planejamento
territorial - indiferenciadas, igualitárias, fundadas no reequilíbrio regional
- são ligadas a uma repartição dos grandes meios de comunicação, repartição essa profundamente seletiva.
,.
, .
A partir dos anos 60, esse modo de articulação norma ngida/prat1ca
derrogatória cede a vez, pelo contrário, a uma planificação flexível, móvel,
"evolutiva", diretamente adaptável tanto às estratégias dos grupos monopolistas quanto aos apoios conjunturais e diferenciados da nova política
econômica. O mesmo processo aparece na política urbana: os planos de
ocupação do solo, os SDAU, os planos de zonas são suficientemente imprecisos para selecionar as "operações marcantes" (zonas industrial-portuárias,
centros de direção, etc.) e livrar os grandes grupos imobiliários de todo
entrave jurídico; ao plano de modernização e de equipamento rígido do
início dos anos 60, sucedem os planos evolutivos; às leis de expropriação
indiferenciadas e às zonas de planejamento públicas (ZUP) sucedem a
preempção seletiva e as zonas de planejamento diferido reservadas às "operações marcantes" da localização monopolista.
Ora a análise desta evolução na própria estrutura estatal procede
diretame~te, pudemos constatar, da transformação da estrutura de classe: é
claro que não é nos anos 60 que se dá a passagem do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista, passagem essa que se efetua desde
o fim do século XIX e começo do século XX; mas essa década marca, na
França, uma brutal transformação nas reúições entre frações do capital e a
generalização em todos os setores econômicos da "empresa conjugada"
tendo, como corolário, uma nova divisão do território urbano. As grandes
obras públicas do período de De Gaulle não são, portanto, uma "repetição"
das operações da época de Haussman, mas sim uma adaptação do apa.i:elho
territorial francês às necessidades espaciais dos novos grupos monopolistas.
Poderia ser contestada a importância que concedemos a um período
histórico tão curto: será que se pode mesmo dizer que entre o fim da década de 50 e a década de 70 a França assistiu ao triunfo definitivo do monopolismo e à substituição do bloco no poder, que reinou, at~ o iní:io d~
Quarta República, por um mecanismo único Estado-monopóhos? Nao sera
confundir uma periodização histórica fundamental que se mede em séculos
ou em meios séculos - a periodização dos três grandes estágios de desen-

volvimento do capitalismo - com variações conjunturais menores? E, se
for esse o caso, não se deve questionar as generalizações que fizemos ao
falar de política ou de urbanização "monopolistas" a respeito desse curto
período da história francesa?
Tentamos mostrar, com apoio nos documentos existentes, e apesar
d_e suas lacunas, que ~sse "atalho" histórico se explica pela própria especificidade do desenvolvnnento do capitalismo francês, especificidade marcada.
sobretudo pelo contraste entre a lentidão das mutações da base social,
durante o século XIX e a primeira metade do século XX, e a brutalidade
das mudanças havidas no fim dos anos 50. Achamos que vale a pena voltar
um pouco a essas mudanças, na medida em que é essencialmente a sua
sub~~timação que explica boa parte das "resistências" da atual sociologia
poht1ca quando se trata de analisar as novas relações estabelecidas na França entre o Estado e os grandes grupos monopolistas. Lembremos que a
população ativa agrícola francesa diminui mais nestes últimos doze anos
(44% entre 1954 e 1968) do que durante os vinte e seis anos que vão de
1936 a 1962 (40%) ou os oitenta e seis anos que vão de 1851 a 1936
(30%). Em 1905, a população ativa agrícola é ainda de 42,9%, enquanto
na Alemanha ela é de 28,4% e na Inglaterra de 10,6%; em 1950, ela é
na França de 28%, enquanto é de 16,4% na Alemanha e de 6,4% na Inglaterra.
_ A urbanização dos vinte últimos anos será ainda mais brutal: a populaçao urbana francesa passa de 54,5% para 70,6%, ou seja, um salto de