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COLEÇÃO CULTURA

DE

PAZ

E

MEDIUNIDADE

A PSICOSOFIA DE LAO-TSÉ, KRISHNA E BUDA SEGUNDO A ESPIRITOLOGIA

COLEÇÃO CULTURA

DE

PAZ

E

MEDIUNIDADE

A PSICOSOFIA DE LAO-TSÉ, KRISHNA E BUDA SEGUNDO A ESPIRITOLOGIA

ADILSON MARQUES

2012

© do autor – 2012 Direitos reservados desta edição RiMa Editora

M357p

Marques, Adilson A psicosofia de Lao-Tsé, Krishna e Buda segundo a espiritologia / Adilson Marques – São Carlos: RiMa Editora, 2012. 84 p. ISBN – 978-85-7656-235-1

1. espiritologia. 2. Lao-Tsé. 3. Krishna. 4. Buda. I. Título. II. Autor.

www.rimaeditora.com.br

Rua Virgílio Pozzi, 213 – Santa Paula 13564-040 – São Carlos, SP Fone/Fax: (16) 3411-1729

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COLEÇÃO CULTURA

DE

PAZ

E

MEDIUNIDADE

A coleção Cultura de Paz e Mediunidade foi idealizada para divulgar as sete pesquisas realizadas pelo projeto Homospiritualis, entre os anos de 2001 a 2010. Elas não foram feitas dentro das Universidades, porém, utilizaram heurísticas próprias das Ciências Humanas. A mediunidade foi inserida no projeto Homospiritualis por volta de 2001, após a visita de dois médiuns kardecistas ao Centro de Estudos e Vivências Cooperativas e para a Paz, um local onde diferentes atividades eram ofertadas à comunidade e grupos de estudos se reuniam. Com a inserção destes dois novos participantes, a fenomenologia mediúnica se tornou a ferramenta principal para as pesquisas que abordaram os seguintes temas: a Apometria, a Umbanda, as técnicas de desobsessão, as filosofias orientais etc. Em 2003, o projeto criou uma ONG para servir de laboratório para as pesquisas: a ONG Círculo de São Francisco, encerrada após a conclusão das mesmas. Apesar de utilizar a suposta comunicação com os espíritos como recurso metodológico, é importante esclarecer que o projeto Homospiritualis não tem nenhuma posição fechada sobre o fenômeno. Buscando conhecer as interpretações sobre esta manifestação psíquica, encontramos seis diferentes hipóteses: 1. a mediunidade é fraude, charlatanismo; 2. a mediunidade é uma patologia mental; 3. o médium manifesta durante o transe informações presentes em seu próprio inconsciente; 4. o médium manifesta informações presentes no inconsciente coletivo da humanidade; 5. o médium é um instrumento do demônio; 6. o médium transmite informações de seres incorpóreos, os espíritos dos mortos.

Apesar da existência das seis teorias acima e, possivelmente, de outras que não conhecemos, as pesquisas realizadas no projeto Homospiritualis não se preocuparam em teorizar sobre esse assunto, concentrando o seu esforço no conteúdo das mensagens transmitidas pelos médiuns que participaram do projeto. Assim, através da mediunidade coletamos informações e dados que foram interpretados utilizando vários recursos e métodos das pesquisas qualitativas em Ciências Humanas como a História oral, a Pesquisa-ação, a Etnografia, a Mitocrítica etc. Este campo de pesquisa, original e que abre uma nova perspectiva acadêmica, recebeu, de nossa parte, o nome Espiritologia ou Ciências do Espírito.

SUMÁRIO
Apresentação .................................................................... 9 Introdução ...................................................................... 13 Capítulo 1 – A psicosofia de Lao-Tsé comentada pelos espíritos ............................................................. 16 O não-lutar ....................................................................... 22 A não-ação ........................................................................ 24 O não-saber ...................................................................... 24 O não-desejo .................................................................... 25 Capítulo 2 – A Psicosofia de Krishna comentada pelos espíritos ............................................................. 29 Capítulo 3 – A Psicosofia de Buda comentada pelos espíritos ............................................................. 44 Anexo.............................................................................. 73 Conclusão ....................................................................... 81

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APRESENTAÇÃO
O livro “Evangelho segundo o espiritismo” é considerado um livro religioso pelos adeptos da Doutrina Espírita. Muitos chegam a afirmar que ele é a “bíblia do espiritismo”. Particularmente, não concordo com essa idéia. Em minha opinião, o livro é uma espécie de tratado de “ciências das religiões”, escrito através do método criado por Kardec, no século XIX: a coleta de dados através de entrevistas com prováveis espíritos, realizadas em reuniões mediúnicas organizadas com a finalidade de estudar um tema de interesse da humanidade através do diálogo com estes “seres incorpóreos”. Por alguma razão, o método proposto por Kardec deixou de ser utilizado em grande parte do movimento espiritista. Hoje predomina o que alguns chamam de “espiritismo sem espíritos”. Além disso, o livro acima se tornou, realmente, uma espécie de “Bíblia” para alguns setores do movimento espiritista, sobretudo aqueles que tendem a se fechar para o estudo de outros ensinamentos espiritualistas, com medo de manchar a chamada “pureza doutrinária”. Porém, o livro nada mais é do que a opinião de alguns espíritos entrevistados por Kardec sobre os evangelhos canônicos. E, em nenhum momento, eles afirmam que não podem opinar sobre os evangelhos apócrifos ou, inclusive, sobre os livros sagrados de outras religiões, inclusive, as não-cristãs. E isso se tornou evidente, para mim, em 2001, quando descobri a comunicação mediúnica. Até aquele momento, não manifestava nenhum interesse pelo estudo do espiritismo. Minha paixão, desde a adolescência, sempre foi os ensinamentos místicos do Oriente e, por isso mesmo, a primeira coisa que fiz quando descobri a possibilidade de conversar com os “mortos” foi dialogar com eles sobre os ensinamentos de Lao-Tsé, Buda, Krishna e outros.
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A grande surpresa, nesse processo, foi descobrir que estes prováveis seres incorpóreos admiram e respeitam tais ensinamentos, não os interpretando como “errados”, “mistificações” ou incompatíveis com os ensinamentos cristãos presentes no “Evangelho segundo o espiritismo”. Dentro de uma visão realmente laica, ou seja, de respeito por todas as manifestações religiosas, foi possível constatar que os espíritos são transreligiosos, respeitando todos os movimentos sagrados que ajudam na libertação espiritual do ser humano. E neste livro, que encerra a coleção Cultura de Paz e Mediunidade, vamos apresentar a opinião dos espíritos que entrevistamos sobre os ensinamentos de Lao-Tsé, Krishna e Buda, reunidos, respectivamente, em livros como Tao Te Ching, Bhagavad Gita e Dharmapada. Futuramente, em outra coleção, pretendemos apresentar a opinião deles sobre os ensinamentos presentes em alguns evangelhos apócrifos, como é o de Tomé e o de Madalena e também sobre o Eclesiastes, um dos mais interessantes livros do Antigo Testamento, e também sobre o Sermão da Montanha, provavelmente, a essência de todo o ensinamento cristão. Mas é importante ressaltar também o motivo de chamarmos os ensinamentos de todos estes mestres de Psicosofia (expressão que estamos usando desde 2003 para representar uma sabedoria espiritual) e não, como normalmente acontece, de Psicologia ou de Filosofia. Com a expressão Psicosofia queremos realçar a dimensão universal e atemporal destes ensinamentos, ao contrário do que ocorre com as disciplinas acadêmicas acima. Nesse sentido, ao utilizarmos a expressão Psicosofia também enfatizamos o caráter místico (lembrando que misticismo não é superstição) que possuem, e sempre voltado para a “libertação espiritual” do ser humanizado, ou seja, do espírito preso ao ego. Além disso, a expressão Psicosofia serve também para distinguir os ensinamentos destes mestres das religiões criadas por seus discípulos ao longo da história da humanidade. Nenhum deles criou religião, no sentido tradicional deste termo, ou seja, pressupondo a existência de uma doutrina e de um ritual. Os ensinamentos que transmitiram transcendem essa dimensão
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limitadora das religiões e nos faz lembrar que, frequentemente, a espiritualidade não caminha de mãos dadas com as religiões, apesar delas merecerem todo o nosso respeito, pois são instrumentos ainda necessários nos chamados “mundos de provas e expiações”. A Psicosofia, portanto, é empírica, construída a partir de experiências místicas e transcendentais, como a meditação e outras práticas espiritualistas. Muitas vezes, a Psicosofia destes mestres se mistura, nas religiões criadas por seus discípulos, com superstições e dogmatismos que vão caducando com o tempo, pois são construções sócio-culturais que sofrem a ação de Cronos, distanciando-se da força arquetípica e agregadora presente no ensinamento original. Assim, a relação entre a Psicosofia e as religiões que se fundamentam nela pode ser compreendida na paradoxal frase de LaoTsé: “quando todo o mundo reconhece o bem, enquanto bem, ele se torna o mal”. A religião transforma o ensinamento espiritual, que é algo para ser vivenciado cotidianamente, em algo a ser atingido, mediatizado por ela através da doutrina e do rito. Contraditoriamente, a virtude valorizada no ensinamento original se torna inacessível, se perdendo no meio das abstrações e opiniões divergentes. A felicidade, o amor, a fé, a paz interior etc. se tornam menos reais na medida em que são tantos os meios criados (doutrinas e rituais) para atingi-los, e cada vez mais rebuscados e complexos, que nos tornamos “alienados”, ou seja, esquecemos que as virtudes já estão dentro de nós, só precisando ser despertadas. Quando passamos a buscá-las fora de nós, nas doutrinas e nos ritos religiosos, nossos esforços se concentram nos meios e, como afirmou Lao-Tsé, este caminho não conduz a nada. Ou melhor, conduz ao auto-engrandecimento (fortalecimento do Ego) e entra em conflito com o Tao (a fonte real de todo o Bem) e se autodestrói. É por isso que as religiões não são perenes, ao contrário das Psicosofias. E, em relação à Espiritologia, já apresentamos uma reflexão mais profunda sobre ela no primeiro livro desta coleção. De forma resumida, ela consiste no uso da História Oral para se entrevistar
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prováveis espíritos, através de reuniões mediúnicas organizadas para essa finalidade. Não temos, obviamente, como afirmar cientificamente se são espíritos e não o próprio inconsciente do médium em transe que se manifesta. Pode até mesmo ser o “demônio”, como afirmam as religiões neo-pentecostais. Mas o fato é que alguém responde e é este “alguém” que estamos chamando, em tese, de “espírito”. Durante toda a década da Cultura de Paz (2001-2010) tivemos a Graça de poder estudar com estes “seres incorpóreos” os ensinamentos espirituais de vários mestres. E neste pequeno livro desejamos compartilhar com todos que amam o saber ou o estudo das coisas divinas, sem apego por particularismo ou exclusivismo religioso, as reflexões sobre as Psicosofias destes três mestres orientais, Lao-Tsé, Krishna e Buda. São Carlos, 01 de janeiro de 2012 Dia Mundial da Paz

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INTRODUÇÃO
Religião e Ciência almejam a verdade. Porém, ambas partem de métodos distintos para estudar algum fenômeno. De forma geral, o método da Ciência é dedutivo e o da Religião baseado na experiência direta de um assunto espiritual. E como a experiência religiosa nem sempre é possível de ser reproduzida em laboratório, muitos acreditam que o homem religioso e o homem cientifico se excluem reciprocamente. Porém, a experiência mediúnica pode ser uma porta de entrada para aproximar esses dois campos do saber. Ela pode ser uma experiência religiosa, pois envolve supostos espíritos e, ao mesmo tempo cientifica. E apesar de ela acontecer muitas vezes de forma espontânea e fragmentária, é possível ser observada a partir de métodos que permitam coletar dados e alcançar resultados objetivos. Mas não estou preocupado com o fato mediúnico em si, com o objetivo de comprovar a vida após a morte, mas com o conteúdo das mensagens que os médiuns obtêm, seja por meio da psicografia (escrita), da psicofonia (verbalmente) e outros. Minha primeira experiência mediúnica aconteceu em 2001, quando dois médiuns kardecistas foram me procurar no antigo Centro de Estudos e Vivências Cooperativas e para a Paz, hoje Núcleo de Animagogia e Práticas Bionergéticas Rosa de Nazaré. Eles disseram que foram até lá porque um espírito havia passado o meu nome e endereço. Este espírito se identificava como dr. Felipe. Foi com ele que tive minha primeira experiência em conversar com um suposto morto. Na época, eu estava concluindo o meu doutorado na Faculdade de Educação da USP e comecei a idealizar um pós-doutorado relacionado com mediunidade. Infelizmente, nenhuma instituição de ensino superior que procurei se interessou pelo meu
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projeto de pesquisa, mas, mesmo assim, resolvi levá-lo adiante. E um dos temas que resolvi pesquisar foi a opinião dos supostos espíritos em relação aos ensinamentos orientalistas, que chamo de Psicosofia, particularmente os de Lao-Tsé, Krishna e Buda. Muitos dos espíritos entrevistados afirmavam trabalhar no centro acima, isto porque lá se realizavam práticas como hatha-yoga, tai-chi-chuan, meditação, entre outras. Ou seja, em tese, seria um local “frequentado” por espíritos orientais. As pesquisas envolveram vários médiuns, entre os anos de 2003 e 2008. Alguns eram totalmente inconscientes, ou seja, não se lembravam de nada do que os espíritos falavam durante as entrevistas. Mas alguns eram conscientes e tinham os que preferiam responder as perguntas por meio da psicografia. Algumas entrevistas foram filmadas em vídeo, como as do espírito pai Joaquim de Aruanda, que se manifesta através do médium Firmino José Leite. Parte de sua fala sobre os ensinamentos de Buda podem ser acessadas no canal do projeto Homospiritualis, no youtube. A partir de 2008 comecei a organizar o material coletado e fiz com ele algumas palestras, quase sempre em centros espiritualistas. Poucos são os chamados centros espíritas que aceitam informações que não estejam já presentes nos livros de Kardec, mesmo que tenham sido obtidas através de espíritos. Estas informações costumam ser classificadas como “não-doutrinárias”. Também cheguei a postar trechos deste livro em algumas listas de discussão espírita na internet e fui acusado de estar postando textos sobre outras doutrinas e não sobre espiritismo. Porém, apesar dos espíritos responderem questões sobre os ensinamentos de Lao-Tsé, Krishna e Buda, em nenhum momento eles fizeram críticas à doutrina espírita ou ao cristianismo. Ao contrário, sempre enfatizaram a unidade de todas essas Psicosofias. Assim, compreendi que apesar do assunto espírito e/ou mediunidade ser um tema religioso, é preciso partir de uma visão laica para se estudar algo através da mediunidade, ou seja, da consulta aos espíritos. Essa é uma necessidade básica para que
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haja um distanciamento em relação ao espiritismo instituído e se possa dialogar com estes seres de uma forma natural e espontânea, sem a necessidade paranoica de julgar o que é ou não “antidoutrinário”. Os temas que foram discutidos nestas reuniões mediúnicas foram tirados de três clássicos da literatura oriental: o Tao Te Ching, de Lao-Tsé; a Bhagavad Gita, poema épico que faz parte do Mahabharata e o Darmapada, que reúne alguns dos sermões de Buda, compilados por seu primo Ananda.

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CAPÍTULO 1

A

PSICOSOFIA DE

LAO-TSÉ

COMENTADA PELOS ESPÍRITOS

No meio espiritista, sobretudo para os que aceitam as comunicações de Emmanuel, suposto mentor espiritual de Chico Xavier, acredita-se que a civilização chinesa, em seus primórdios, foi uma das poucas que não foram constituídas por espíritos exilados de Capela. Quando teria iniciado o degredo daqueles espíritos, a civilização chinesa já estava consolidada na Terra, afirma Emmanuel. Mas, mesmo assim, esta civilização também recebeu seus missionários, entre eles, Lao-Tsé. Segundo os historiadores, não há comprovação de sua existência. Alguns chegam a afirmar que o livro Tao Te Ching pode ter sido escrito por alguma confraria espiritualista. Outros levantam a hipótese de que ele viveu por volta do ano 570 a.C., tendo nascido em uma família nobre chinesa. Com a espiritualidade obtivemos a informação de que ele existiu e que se tratou realmente de um espírito missionário que para cá foi enviado para auxiliar na “evolução espiritual da humanidade”, particularmente, da civilização chinesa, apesar da universalidade de sua Psicosofia. A história que cerca o livro também é singular. Afirma-se que pouco antes de abandonar a China para morrer em paz, foi interpelado por um guardião que lhe pediu para escrever um resumo de seus ensinamentos. Assim teria nascido o Tao Te Ching. Para este estudo com a espiritualidade, optamos em usar a tradução realizada por Huberto Rohden, educador e filósofo universalista brasileiro. E as reuniões em que perguntas foram formuladas aos supostos espíritos aconteceram entre os anos de 2003 e 2006. As respostas apresentadas a seguir já foram utilizadas tam– 17 –

bém em diferentes cursos de Animagogia, uma proposta educativa que formulamos e cujos princípios básicos são os ensinamentos de Lao-Tsé, Krishna, Buda, Jesus, Espírito Verdade (que, em tese, respondeu as perguntas de Kardec, importantes para a sistematização da Doutrina Espírita) e Mahatma Gandhi. Como fizemos no livro anterior dessa coleção, após a resposta dos espíritos aos nossos questionamentos, apresentamos um breve comentário à resposta.
Pergunta 01 – O que a espiritualidade pode nos dizer a respeito do livro Tao Te Ching?

Resposta – A resposta para esta indagação pode ser encontrada em O livro dos espíritos quando o Espírito Verdade diz a Kardec para estudar todas as doutrinas e filosofias, do passado e do presente. O espiritismo seria apenas a chave para a compreensão dessas sabedorias espirituais, que vocês chamaram de Psicosofia, e que são universais, portanto, que não estão vinculadas apenas a uma determinada cultura ou a um determinado tempo histórico. Elas são verdadeiros caminhos para vencer o mundo de provas e expiações. Comentário – Podemos constatar o respeito aos ensinamentos de todos os tempos e lugares. E, curiosamente, O livro dos espíritos é citado para manifestar o valor do Tao Te Ching. A questão que fazem referência é a de número 628, na qual o Espírito Verdade afirma que não há nenhum sistema filosófico antigo, nenhuma tradição, nenhuma religião a negligenciar, enfatizando: “não negligencieis, portanto, de haurir objetos de estudos nestes materiais: eles são muito ricos e podem contribuir poderosamente para a vossa instrução”. Infelizmente, são muitos os centros espíritas que não seguem essa orientação e, o que é pior, seus coordenadores classificam quem estuda “outras doutrinas” de “não-doutrinários”, como se o estudo fosse uma espécie de heresia que pode, em tese, manchar a “pureza doutrinária” do Espiritismo.
Pergunta 02 – E qual é a melhor tradução deste livro?

Resposta – É aquela que chegar às suas mãos. Todas possuem uma finalidade providencial. O importante, porem, é ler com o coração. Quem ler os poemas que compõem o Tao Te Ching com a razão ficará preso à letra
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morta, não compreendendo seu significado profundo. Os maiores problemas são de interpretação e não de tradução. Para se recuperar o sentido profundo de seus ensinamentos hoje em dia já se fala em laoísmo para diferenciar a obra de Lao-Tsé das práticas exotéricas e supersticiosas criadas pelos taoístas ao longo dos milênios. Comentário – Como salientamos na introdução deste livro, a Psicosofia tem um fundamento universal. Porém, com frequência, ela se mistura com superstições, rituais e outras necessidades do ego, ou seja, do ser humanizado. O mesmo aconteceu com os ensinamentos de Lao-Tsé nas mãos de muitos taoístas. Porém, por ser um ensinamento universal, o Tao Te Ching se mantém sempre atual, enquanto os rituais, panacéias e outros produtos culturais do taoísmo têm seus momentos de apogeu e crise, como acontece com todas as produções religiosas. A compreensão espiritual dos poemas é praticamente impossível se não usarmos a intuição. Muitas vezes, ao lermos os poemas, parece que estamos diante de uma contradição. Porém, os ensinamentos de Lao-Tsé estão transitando pelos dois pólos arquetípicos e complementares: o Yin e o Yang. Independentemente da tradução, a mente intuitiva é capaz de acessar a dimensão numinosa, a essência espiritual desta Psicosofia.
Pergunta 03 – O Teo Te Ching teria sido um livro inspirado pela espiritualidade?

Resposta – Obviamente. Nenhum livro é escrito sem a interferência da espiritualidade. Porém, como há várias moradas no reino de Deus, existem vários tipos de espíritos intuindo os escritores. Cabe a cada um escolher a companhia que vai querer ao seu lado, uma vez que os iguais se atraem. E Lao-Tsé foi a personalidade vivenciada por um espírito de muita Luz e que foi convidado para a missão que realizou na China. E no caso do Tao Te Ching podemos afirmar que foram também espíritos superiores que intuíram Lao-Tsé na hora de confeccionar seus belos poemas universalistas. A China foi uma das grandes civilizações do passado que não precisou dos exilados de Capela para se desenvolver. Ao contrário do Egito para onde foram encarnar os espíritos mais evoluídos, entre os exilados, e do povo judeu, onde encarnou os espíritos exilados mais orgulhosos e fanáticos, a

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China contou com o amparo da espiritualidade, mas sem precisar do “empurrão” que os exilados empreenderam em outros povos. Mesmo assim, o Tao Te Ching foi um dos primeiros manuais que serviram para orientar a evolução dos espíritos, inclusive de muitos exilados de Capela, que começavam aqui uma nova aventura reencarnatória. Gradativamente, os ensinamentos ali registrados chegavam até outros povos, através do intercâmbio cultural, influenciando outros missionários, apesar dos chineses terem criado uma civilização extremamente fechada. O importante é que, o que Deus quer deve ser. Quando um ensinamento precisa chegar a um determinado lugar, ele chega, não importa como. Comentário – Segundo Edgard Armont e outros estudiosos, há cerca de 10 mil anos atrás, teria acontecido um exílio de espíritos rebeldes para a Terra. Estes espíritos não estavam em condições de continuar “evoluindo” naquele outro sistema solar e passaram a encarnar na Terra. Acredita-se que tais espíritos não eram evoluídos moralmente, apenas intelectualmente. A presença deles na Terra teria proporcionado a mudança que os antropólogos apontam entre o período paleolítico e o neolítico, com a domesticação dos animais, o surgimento da agricultura e outros avanços tecnológicos e culturais. E como os iguais se atraem, os espíritos afirmam que, mesmo entre os capelinos, havia diferenças evolutivas, de forma que os mais “evoluídos” entre eles foram encarnar, primeiramente, no Egito. Por sua vez, os mais “orgulhosos e fanatizados”, começaram sua aventura encarnatória na Terra no meio do povo judeu. Mas é importante salientar que a resposta acima não manifesta preconceito étnico-racial, uma vez que os espíritos, em tese, encarnam em todas as raças, etnias e, inclusive, gênero. Por exemplo, o mesmo espírito poderia, em uma encarnação, nascer no Egito como mulher e, na seguinte, como um homem judeu. No caso da China, apesar de ser um ensinamento ético, o confucionismo, talvez a principal escola filosófica rival ao taoismo de Lao-Tsé, e que chegou a ser considerada a religião oficial da China durante muito tempo, não consegue aceitar a espontaneidade e não se abre para uma vida simples baseada nos fluxos da natureza. O Tao Te Ching, nesse sentido, vem sempre lembrar o
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ser humano da necessidade de se voltar para a verdadeira vida, a do espírito, relativizando a necessidade do controle exterior, do Estado forte e presente na vida cotidiana da população etc. Mesmo com toda a burocratização e excessos de rituais, as coisas invisíveis nunca deixam de existir.
Pergunta 04 – E qual foi a proposta espiritual do livro, uma vez que os poemas muitas vezes parecem não ter sentido?

Resposta – Ao longo dos 81 poemas que o compõem, o Tao Te Ching afirma que o ser humano não está preparado para compreender a natureza intrínseca de Deus. A razão humana não é suficiente para realizar essa proeza. E isso também foi dito para Kardec, em meados do século XIX. Os espíritos disseram para Kardec que falta ao encarnado um sentido para compreender a natureza intrínseca de Deus, exatamente o que afirma o Tao Te Ching. Além disso, o livro de Lao-Tsé traça um roteiro, através das virtudes nele anunciadas, para o “regresso ao lar”, ou seja, para que o espírito eterno volte para os braços de Deus, de onde saiu. Tais virtudes seriam a “nãoação”, o “não-lutar”, o “não-saber” e o “não-desejo”, todos também ensinados pelo cristianismo, apesar de nem todos os que se dizem cristãos terem essa compreensão. Ao longo do tempo, estas virtudes foram interpretadas de forma errônea, perdendo seu sentido espiritual e orientando diferentes práticas religiosas desvinculadas da proposta original, como frequentemente acontece até hoje com todos os ensinamentos, por exemplo, com os de Buda e de Jesus, no passado, e com os do Espírito Verdade, atualmente. Comentário – O Livro dos Espíritos, apesar de trazer como informação que Deus seria a inteligência suprema e a causa primária de todas as coisas, na questão 10 afirma que não temos como compreender a natureza íntima de Deus. Nesse sentido, os espíritos entrevistados por Kardec sugerem que devemos aceitar que Deus existe e não nos preocupar com nenhum sistema. De certa forma, é a visão de Buda e de Lao-Tsé. Ainda segundo este último, qualquer reflexão sobre o Tao, seja ela sistemática, ativa, contemplativa etc. isola o indivíduo dessa força oculta de toda a vida e de toda verdade. E as quatro virtudes, em síntese, vão além da visão ética de Confúcio, da idéia de que devemos tratar os outros da forma como gostaríamos que os outros nos tratasse. Essa idéia ainda pressupõe uma concepção particular de Bem que
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gostaríamos de impor aos outros. Lao-Tsé acredita no Bem que já trazemos dentro de nós e que pode ser vivenciado plenamente quando não elaboramos conscientemente metas para a nossa evolução. Assim, ao parar de racionalizar, de fazer planos etc. começaríamos, realmente, a nos “elevar”. E isso aconteceria naturalmente, sem nos aperceber do processo. As quatro virtudes formam um programa prático que revela uma simplicidade Franciscana, destituída de doutrinas, rituais e qualquer tipo de busca exterior, como podemos compreender em um dos ensinamentos de Chuang Tzu, um dos que mais compreendeu e viveu a Psicosofia de Lao-Tsé: “você só encontrará a felicidade quando parar de procurá-la”.
Pergunta 05 – Vocês poderiam comentar um pouco mais sobre a concepção de Deus segundo o Tao Te Ching?

Resposta – A palavra Tao já existia no vocabulário chinês, mas não com a concepção dada a ela no Tao Te Ching. Em muitos contextos, ela pode ser traduzida como “caminho”, mas não neste livro. No Tao Te Ching a tradução mais adequada seria Deus. Traduzir a expressão como “caminho” não é suficiente para abarcar todo o significado profundo proposto no texto. O caminho é a prática das virtudes. Várias passagens podem ser pesquisadas para que vocês compreendam que a referência feita é a Deus, que para os espíritas é a Inteligência Suprema e a causa primária de todas as coisas. Assim, temos diversas passagens que nos fornecem indícios precisos, como nos poemas 14 e 32. Portanto, tudo que pode ser compreendido pelo ser humano não é o Tao. O Tao está além das formas e das compreensões humanas. Mas é possível entrar em união com o inominável e invisível Tao através da vivência das quatro virtudes que estão presentes no poema, todos universais e atemporais. A prática destas virtudes é a vivência do Tao, ou seja, é o caminho para a nossa realização espiritual. E estes poemas deixam claro que o Tao precede e produziu tudo o que há entre o Céu e a Terra, em outras palavras, o Tao é a causa primária de todas as coisas. Comentário – A visão de Lao-Tsé, como salientamos, é muito diferente daquela adotada por Confúcio. A própria “realização espiritual” se não for feita de forma desinteressada e espontânea
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não é a vivência do Tao, mas apenas outra forma de ilusão. E as quatro virtudes, como veremos abaixo, não são regras de comportamento. Elas são atitudes, ou seja, ações sentimentais que diferenciam o “sábio” dos outros, mesmo quando as ações exteriores de ambos sejam as mesmas: o coração do “sábio” está centrado no Tao e não em si mesmo. Assim, quem vive com o coração centrado no Tao, abandona a necessidade de querer compreender, julgar ou criticar, pois o que hoje é “bom”, amanhã pode ser considerado “mau”. E aquilo que, por um ponto de vista, é considerado “certo”; por outro, é considerado “errado”. Com o coração centrado no Tao, o sábio simplesmente deixa o Tao operar nele e através dele. E Deus, neste caso, não seria aquela concepção com a qual estamos acostumados: a de um senhor que pune ou premia de acordo com o seu humor. Como afirma o espírito que respondeu a pergunta, não temos como explicar Deus, é preciso apenas saber que ele existe e é a causa primária de todas as coisas, assim como o Tao para Lao-Tsé.
Pergunta 6 – E o que a espiritualidade pode dizer a respeito das 4 virtudes, segundo o Tao Te Ching?

Resposta – Todas elas são direcionadas pelo coração e não pela razão, isso deve ficar claro. Entender cada virtude sem praticá-la não é suficiente. E sua prática se resume ao amor incondicional. Mas esta prática é interior e não exterior. Aparentar vivenciar uma determinada virtude não passa de um comportamento meramente formal. No poema 27 temos uma alusão de como é viver a vida humanizada pela ação do Espírito e não apenas na formalidade do ato exterior. Comentário – a partir desse momento, os espíritos vão abordar cada uma das virtudes. Faremos nosso comentário após a apresentação delas.

O

NÃO-LUTAR

A primeira virtude anunciada no livro é o “não-lutar”. Se pensarmos que o sentimento que nutre a Terra em seu estágio de provas e expiações é o egoísmo, podemos compreender que o natural é o ser humano agir com motivações egoístas. Portanto, nossa atitude natural diante dos outros e
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da natureza é a de “lutar” para defender nossas verdades, nossos pontos de vista, nossos valores... Dentro dessa perspectiva, “não-lutar” significa deixar de responder às agressões alheias com a mesma face. “Não-lutar” significa dar a outra face à vida, conforme Jesus também ensinou. Ou seja, da mesma forma que a moeda possui sempre duas faces, se alguém vem para cima de você com ódio, colocar em prática o “não-lutar” é dar a ele a outra face: o amor. O “não-lutar” é exatamente isso. As pessoas agem inconscientemente motivadas pelo ódio, pelo orgulho, pela vaidade etc. Todas essas atitudes afastam o ser humano do Tao, de Deus. E a prática do “não-lutar” é inverter esse ciclo. É dando sempre a outra face que se pratica o “não-lutar”. É dando amor para todos, inclusive para aqueles que nos ofendem. A oração de São Francisco também diz a mesma coisa: perdoar sem ser perdoado, compreender mesmo não sendo compreendido... Esse é o sentido do “nãolutar”. Não importa o que o outro fez ou falou, cabe aquele que diz seguir os ensinamentos de Lao-Tsé ser sempre amoroso. Mas ser amoroso não quer dizer ser bobo ou “bonzinho”. Em algumas situações é necessário ser enérgico, porém agindo amorosamente e não com ódio. Foi assim que Jesus expulsou os vendedores do templo. Ele precisou ser enérgico, mas, interiormente, agiu com a bondade pura de seu coração. Para uma pessoa que não compreenda o seu significado profundo, “nãolutar” passa uma impressão de passividade, de aceitação de tudo o que nos acontece. Mas, ao contrário, ela exige muita ação, sobretudo interior. Uma vez que a nossa tendência como ser humano é a de reagir às agressões do mundo de provas e expiações com a revolta, com o desejo de vingança ou com o ódio, é preciso ser muito forte para “não-lutar”. Por isso o “não-lutar” é uma virtude. Independentemente de qual for sua ação exterior, ele é praticado sempre que agimos com paciência, somos indulgentes e colocamos em prática o perdão das ofensas. Aliás, no século XX, Mahatma Gandhi afirmou que o perdão é a arma dos fortes, já que os fracos não sabem perdoar. Enfim, para que possamos falar das outras virtudes, vocês sabem o que é a caridade segundo a Doutrina Espírita? Está em O Livro dos Espíritos: é ser benevolente, indulgente e perdoar. Ou seja, ser caridoso é praticar o “não-lutar”.
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A

NÃO-AÇÃO

A segunda virtude presente no Tao Te Ching é a “não-ação”. Ela é idêntica à primeira, porém, não aborda a forma sábia de reagir à ação alheia. Agora, Lao-Tsé nos ensina como devemos agir. Em outras palavras, como deve ser a nossa iniciativa. Como salientamos, a tendência do ser humano é agir motivado pelo egoísmo, o sentimento que nutre os mundos de provas e expiações. Enquanto fizermos isso, não viveremos Deus dentro de nós. Porém, quando tomarmos consciência e, voluntariamente, passarmos a agir de forma naturalmente amorosa, estaremos colocando em prática a “não-ação”. Em suma, “não-agir” não é ficar inativo, não fazer nada. Não é ficar de braços cruzados deixando a vida nos levar, mas deixar de pautar a nossa existência pelo sentimento básico que move a humanidade: o egoísmo. Não foi por acaso que o Espírito Verdade ensinou Kardec que o maior dos males da humanidade é justamente o egoísmo. É esse sentimento que precisa ser atacado pela raiz e a prática da “não-ação” visa exatamente esse objetivo. E essa mudança é interior e não exterior. Não adianta fingir participar de um ato amoroso enquanto a atitude, a ação sentimental, não for amorosa. Até dar um prato de comida para quem precisa pode ser uma ação egoísta. Tudo depende da intenção que está por trás de cada ato. “Não-ação” também traz em si o sentido profundo da palavra abnegação. Nos poemas 13 e 24 encontramos o lirismo de Lao-Tsé exaltando o caminho para vencermos as tribulações das vicissitudes humanas e pautarmos nossa existência pela renúncia ao egoísmo, o que significa agir no teatro da vida humanizada com desinteresse e humildade. É por isso que a “não-ação” não pode ser confundida com sujeição à pobreza ou à servidão. A “não-ação” é sempre interior e não exterior como podemos contemplar no poema 67. E ela nos ajuda a ser desapegados na prosperidade e também pacientes na adversidade.

O

NÃO-SABER

A terceira virtude é o “não-saber”. Será que Lao-Tsé queria que todos parassem de estudar ou que se confinassem na ignorância? Obviamente que não. Acontece que o saber, conforme organizado na Terra, estimula o
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orgulho, a vaidade, a pompa dos títulos acadêmicos e outras coisas que afastam as pessoas de Deus. Lembremos que conhecimento não é sinônimo de sabedoria. E Lao-Tsé está se referindo ao conhecimento que mata o espírito por estar limitado apenas à apreensão dos sentidos e à mente consciente. O conhecimento que nos afasta do Tao é apresentado no poema 12 e é ele que precisa ser transcendido. Daí Lao-Tsé ensinar a importância do “não-saber”. Para quem quiser viver Deus em seu coração, ele recomenda a prática do “não-saber”. E qual seria o saber que realiza o Tao? Seriam todos que tornam a pessoa mais humilde, mais tolerante, mais amorosa. O sábio está consciente do seguinte fato: tudo aquilo que percebemos não é o Real. Tudo o que percebemos é manifestação do Tao, mas o importante são as forças que se ocultam por trás dos fenômenos captados pelos sentidos e refletidos pela mente consciente. É por isso que ele afirma que os conhecimentos humanos não são capazes de atingir a natureza real das coisas, mas são fortes para criar orgulho e vaidade naquele que acha que sabe alguma coisa. Não é à toa que encontramos também no Eclesiastes a seguinte afirmação: “aquele que aumenta sua ciência aumenta sua dor”. E a essência do “não–saber” pode ser lida no poema 6 quando ele nos exorta a praticar o verdadeiro saber: “o que torna simples o coração”.

O

NÃO-DESEJO

E a quarta e última virtude é o “não-desejo”. E Lao-Tsé afirma que ninguém consegue viver sem desejar. Desejar é algo inerente ao ser humano. Porém, deixando-se guiar pelo instinto, cada um só terá desejos egoístas. Por isso ele ensina o “não-desejo” que nada mais é do que canalizar o desejo para um único objetivo: realizar o Tao, ou seja, vivenciar Deus cotidianamente. E para fazer isso o roteiro já foi apresentado acima; está na prática das demais virtudes: o “não-lutar”, a “não-ação” e o “não-saber”. Podemos ver que a essência do Tao Te Ching não se choca com os ensinamentos de Jesus. Aliás, as quatro virtudes acima estão sempre presentes nos ensinamentos do mestre Galileu. Como em todas as religiões, o problema é quando o ensinamento deixa de ser vivido e em seu lugar os discípulos criam infinitos rituais e dogmas. Os
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ensinamentos presentes no Tao Te Ching são universalistas e atemporais. O livro é um roteiro seguro para quem pretende vencer o mundo de provas e expiações. E foi com esse intuito que ele foi escrito. E como disse Jesus, “seja feita a Vossa vontade”. Ao falar assim estava nos estimulando para a libertação do desejo de conquistar os tesouros que a traça rói, os ladrões roubam e a ferrugem consome. Os objetos de nossos desejos são como miragens que nunca nos satisfazem. Quando conquistamos aquilo que desejamos, nossa satisfação dura pouco e logo passamos a desejar outra coisa, nos envolvendo em um ciclo vicioso que nos traz apenas sofrimento, ansiedade e preocupação. Mesmo assim, o “não–desejo” não quer dizer que vamos conseguir ficar sem desejar, já que isto é impossível. Mas podemos fazer com que os nossos desejos sejam canalizados para que sejam os mesmos que o do Tao. Em suma, que seja feita a Vossa vontade e não a nossa. Em outras palavras, o “não-desejo” não quer dizer apatia e nem resignação, no sentido de aceitação passiva de tudo o que acontece, mas uma compreensão ativa de que somente recebemos o que necessitamos e merecemos, naquele determinado momento de nossa vida humanizada, em função do que plantamos no passado. Não há decepção quando se pratica o “não-desejo”. Além disso, a simplicidade de coração nos faz amar tudo aquilo que nos acontece ou que faz parte do nosso destino, pois temos a certeza de que não há uma só circunstância, prazerosa ou não, que não possua um ensinamento superior para aprendermos. A prática do “não-desejo” nos leva a agradecer tudo o que o Tao nos dá. Ao compreender que não se vive das circunstâncias materiais, mas da essência que se oculta por trás delas, o nosso único desejo passa a ser a busca por nossa realização espiritual, o que é feito quando praticamos as demais virtudes, que estão inteiramente integradas. É por isso que encontramos a caridade na essência do “não-lutar” e da “não-ação” e a humildade e a simplicidade na prática do “não-saber”. Colocar tais virtudes em prática passa a ser o nosso único desejo, como ensina Lao-Tsé no poema 57. Quando os espíritos dizem que fora da caridade não há salvação, estimulam o “não-desejo”. Ou seja, buscam estimular o espírita a pautar sua vida por um único desejo: a prática da verdadeira caridade (ser benevolente, indulgente e perdoar). Quando as quatro virtudes são colocadas em prática, viver para o espírito ou para o Tao deixa de ser uma crença consoladora, tornando-se uma certeza
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indestrutível. Liberto do orgulho e dos tentáculos do egoísmo, a pessoa se torna de fato humilde. Ao chegarmos a esse ponto, podemos dizer que o caminho, que começou com um pequeno passo, foi, finalmente, percorrido. Comentário – São muitos os ensinamentos apresentados acima, mas vou começar pela compreensão da impermanência das coisas. Os ensinamentos de Lao-Tsé valorizam a aceitação de tudo o que acontece de bom grado, pois tudo que vem do Tao é “bom”. A luz não existiria sem as trevas, o dentro sem o fora, o alto sem o baixo, o vazio sem a forma etc. E tudo o que acontece ou existe serve para exercitar o que, de fato é importante, por exemplo: a paciência, o desapego, a gratidão etc. Apesar dos inúmeros mosteiros e eremitérios taoistas, Lao-Tsé não defende o isolamento da vida profana. Ao contrário, é dentro dela que o sábio deve viver com o coração ligado no Tao. Ou seja, observando como ele opera na natureza e imitando-o, fazendo o que precisa ser feito, mas sem fadiga; e sendo útil aos outros, de forma indiscriminada e universal, sem ressentimento ou discriminação. Apesar de não encontrarmos reflexões que nos levem a pensar na ideia de destino ou fatalidade, nos ensinamentos de Lao-Tsé encontramos certa analogia com a distinção que existe na língua francesa entre as palavras destin e destinée. A primeira se refere a algo programado para acontecer e a segunda se refere ao como podemos nos relacionar com o que acontece. Ou seja, podemos usar o que acontece para crescermos ou não. Por exemplo, imaginemos um jogo de cartas. Ao distribuir as cartas, um jogador inexperiente pode pegar as melhores enquanto um jogador mais hábil pega as “cartas fracas”. Vamos dizer que essa distribuição seja o destino. Porém, enquanto um recebeu do destino uma “mão boa” e não sabe o que fazer com ela, o outro recebeu apenas “lixo” e mesmo assim consegue “virar o jogo”. Poderíamos pensar ainda no resultado de um instrumento perfeito, com as melhores cordas e sonoridade, na mão de um musicista medíocre; nada de agradável será produzido. Porém, um virtuoso violonista é capaz de criar uma bela e melodiosa harmonia mesmo tendo em suas mãos um instrumento faltando cordas.

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Assim, ser flexível, frugal, desprendido e tranquilo são características do sábio. E, por isso, ao invés de se preocupar com o que acontece, o taoista vai procurar agir ou reagir diante daquela situação ou fato sem se desligar do Tao: com espontaneidade, mantendo seu coração sereno e a mente em paz diante de qualquer circunstancia “positiva” ou “negativa”, desapegando-se do que já passou e não sofrendo ou se angustiando com o desejo de querer que as coisas sejam diferentes do que realmente são. E no que se refere às virtudes, é importante ressaltar que o contexto em que aparecem no Tao Te King é bem diferente da visão confucionista, voltada para a reforma ou transformação da sociedade. As virtudes ensinadas por Lao-Tsé servem para reconectar o ser humano à simplicidade do Tao, que age sem alarde e sem exigir “direitos autorais”. Esse agir desinteressado e benevolente está na essência das virtudes apresentadas acima e rompem com a dicotomia presente em algumas práticas psicoterapêuticas contemporâneas que discutem tipologias comportamentais, classificando as pessoas em “ativas” e “reativas”. Nestas práticas, considera-se o comportamento “ativo” como o mais adequado e o comportamento “reativo” como algo negativo e que deve ser superado. Porém, como vimos nos ensinamentos sobre o “não-lutar” e a “não-ação”, o importante seria o agir ou o reagir de forma desinteressada e benevolente, em outras palavras, com o Tao no coração. O agir ou o reagir com egoísmo só afastaria o ser humano do Tao. E toda essa reflexão parte de uma constatação fácil de compreender, mas difícil de colocar em prática: a ideia de que todos nós somos espíritos sem mácula. Porém, coberta pelas névoas da paixão e dos desejos, a maioria das pessoas (espíritos encarnados) passa a vida inteira inconsciente desta realidade. As virtudes ensinadas por Lao-Tsé visam redescobrir o tesouro oculto e adormecido dentro de cada um e viver a vida humanizada à sua Luz, portanto, com equanimidade, serenidade e alegria, não importando o que aconteça.

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CAPÍTULO 2

A PSICOSOFIA

DE

KRISHNA

EXPLICADA PELOS ESPÍRITOS

A Bhagavad Gita é um pequeno poema, dividido em 18 partes, que apresenta, basicamente, quatro grandes ensinamentos: 1. a fé plena em Deus, a inteligência suprema e causa primária de todas as coisas; 2. a lei inexorável do carma regendo todas as nossas ações; 3. as três possíveis atitudes humanas diante de qualquer fato; e 4. a maneira para libertar-se da roda das encarnações (samsara), fazendo exatamente o que precisa ser feito, mesmo que seja lutar em uma guerra e destruir o exército rival. Para compreender a Psicosofia de Krishna é preciso levar em consideração o que na Antiguidade se chamava de sapiência e que se processa intuitivamente. Ela produz sabedoria e não conhecimento, como faz a ciência, uma ação humana fundamentada no intelecto racionalista e em métodos dedutivos. Para muitos, a Bhagavad Gita não passa de uma grande “bobagem mística”. Mas para quem aprecia o sabor da sabedoria universal, é um deleite para a alma que se reencontra, mesmo que seja através dos elementos do próprio ego. A racionalidade instrumental, que utilizando a própria referência da Bhagavad Gita poderia ser chamada de “rajas”, não é capaz de compreender que o “correto-agir”, ou seja, a maneira de se relacionar com o mundo fenomênico de forma a se libertar do samsara (ou seja, da roda das encarnações) não está no que é feito, mas no como aquilo foi feito. Por exemplo, parece uma contradição o fato de Arjuna ser incitado por Krishna a lutar e a matar os seus próprios parentes em uma sangrenta guerra para alcançar sua libertação espiritual. Porém, esta será alcançada se ele conseguir agir de forma desinteressada, sem apego ou aversão, sem ódio em seu cora– 30 –

ção e sem se prender aos frutos desse ato material. Ou seja, libertarse do samsara é passar por uma porta para lá de estreita. E esse é o desafio de Arjuna, um guerreiro que se encontra entristecido e pensa em desistir de lutar, se entregando ao exército rival quando descobre que este é formado por seus próprios parentes. E, imerso na angústia, implora a Krishna que o ensine o que deve ou não fazer. E assim tem inicio a Psicosofia de Krishna, ensinando ao jovem guerreiro que por mais que tente fugir de sua missão, sua natureza interior o impele a agir. E mostrando sua face terrífica, Krishna mostra a Arjuna que Ele já derrotou o exercito rival e que as mãos do guerreiro serão apenas os instrumentos para que a ação carmática ocorra. Ou seja, a guerra vai acontecer de qualquer jeito, uma vez que Deus seria a causa primária de todas as coisas, inclusive das desagradáveis para a ótica humana. Mas Arjuna tem o livre-arbítrio para escolher a atitude, ou seja, a ação sentimental ou interior. Ele pode agir com sabedoria, libertando-se do samsara, ou não, permanecendo preso à roda das encarnações. Particularmente, acredito que há muita semelhança entre a Psicosofia de Krishna e a do Espírito Verdade, que fundamenta a doutrina espírita. E é sobre essa possível relação que conversamos com alguns espíritos em reuniões mediúnicas criadas para esse objetivo na antiga ONG Círculo de São Francisco, entre os anos de 2003 e 2006.
Pergunta 01 – Vários ensinamentos que estão em O Livro dos Espíritos são similares aos que aparecem na Bhagavad Gita, porém, quase todos os livros espíritas reforçam que o espiritismo seria uma filosofia cristã, considerando o espiritismo a “terceira revelação” cósmica, menosprezando, assim, todo ensinamento milenar do Oriente, isso não seria um equivoco?

Resposta – se pensarmos com a mentalidade do século XXI, sim; mas no século XIX a Europa ainda estava descobrindo as riquezas espirituais do Oriente. Mesmo na época de Jesus, muitos dos ensinamentos que ele transmitiu e que chegaram até os dias de hoje também são similares aos que aparecem em livros como a Bhagavad Gita, o Tao Te Ching e outros. E isto porque são ensinamentos universais, transmitidos por verdadeiros avatares, ou seja, enviados de Deus.
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No século XIX, o espiritismo veio trazer um novo alento ao movimento cristão, introduzindo de forma mais enfática a ideia da reencarnação e revalorizando positivamente a mediunidade. Não estranhem se daqui a alguns séculos o Livro dos Espíritos esteja fazendo parte da Bíblia. Os vários livros que compõem a Bíblia foram escritos ao longo do tempo. Dos textos de Moises até o Novo Testamento passaram-se milênios. Assim, quando a ciência comprovar a existência da vida após a morte, a realidade da comunicação mediúnica e a reencarnação, o movimento cristão sofrerá uma grande transformação e o livro de Kardec será lido com outro olhar e aí vocês vão entender porque o espiritismo é considerado a “terceira revelação” dentro do movimento cristão, que se inicia com a reforma protestante e tem no mediunismo do século XIX e XX o seu auge. Porém, dentro de uma perspectiva mais ampla, ou mais universalista, obviamente que não se pode negar a importância e o valor dos ensinamentos orientais, principalmente estes que compõem a Bhagavad Gita. Comentário – O movimento espírita, de forma geral, considera o espiritismo como sendo o “cristianismo redivivo”. Um ex-presidente da Federação Espírita Brasileira chegou a escrever que o “espiritismo não é mais uma religião, mas a religião”. Infelizmente, essa visão dogmática e exclusivista impede uma compreensão mais holística ou transreligiosa, compreendendo que todos os ensinamentos espirituais (Psicosofias) se complementam e que a maior parte dos ensinamentos que compõem a doutrina espírita esta presente não só no Novo Testamento, mas também, entre outros, nos ensinamentos de Lao-Tsé, Krishna e Buda. Particularmente, de todos os ensinamentos espíritas, o único que me parece original é a afirmação de que antes de encarnar o espírito escolhe um gênero de provas, informação que aparece na questão 258 e seguintes de O livro dos Espíritos.
Pergunta 02 – Alguns autores dizem que a Bhagavad Gita está para o Mahabaratha assim como o Sermão da Montanha está para a Bíblia. Essa comparação é correta?

Resposta – Sim, estes dois textos formam a essência dos ensinamentos védicos e cristãos, respectivamente. E os ensinamentos são os mesmos, focando na superação das verdades criadas pelo ego, portanto, das verdades ilusórias que prendem o espírito à roda das encarnações até que ele adquira a
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sabedoria que liberta. Podemos inserir neste rol também o Tao Te Ching, de Lao-Tsé. Comentário – Huberto Rohden, pensador brasileiro criador da filosofia univérsica também enxerga semelhanças entre os três textos, demonstrando a unidade e o valor universal e atemporal destas três grandes Psicosofias. Da mesma forma que a Bíblia não foi escrita de uma única vez, mas reúne diferentes livros escritos em épocas diferentes, muitos até contraditórios, o mesmo aconteceu com o épico Mahabharata. Porém, a essência do cristianismo está no Sermão da Montanha que guarda muita semelhança com os ensinamentos abaixo, presentes no capítulo 04, versículos de 18 a 22, da Bhagavad Gita:
18. Quem age sem perder o repouso interno, e quem vê atividade na inatividade – este é um sábio, quer ativo, quer inativo, sempre realiza o seu dever e age corretamente. 19. O seu trabalho é livre da maldição do egoísmo; o seu desejo de recompensa foi consumido no fogo do conhecimento sagrado – este é um santo, porque santo é o espírito que o anima. 20. Não se compraz em nenhum fruto do seu trabalho nem se apega a objeto algum da natureza; habita, sempre sereno, na paz do seu eu, porque sabe que não é ele que age, mesmo quando realiza alguma obra. 21. Não espera lucro e nem receia perda; vive todo em si mesmo, senhor dos seus sentimentos e pensamentos, enquanto age, rei no reino da alma. 22. Habita puro no meio dos impuros; aceita com serenidade todos os acontecimentos; nenhuma adversidade o abate, nenhuma prosperidade o exalta; ele é sempre o mesmo.

No texto acima e no Sermão da Montanha, não encontramos uma infinidade de fatos ou de informações, mas ensinamentos universais que originam uma verdadeira Psicosofia inspirada pela sapiência divina e que ciência humana nenhuma é capaz de compreender racionalmente, pois a singeleza e “pobreza de espírito” da Bhagavad Gita e do Sermão da Montanha ferem a lógica do ego humano.
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Pergunta 03 – A grande polêmica que envolve a Bhagavad Gita está no fato de Krishna estimular Arjuna a lutar e derrotar seus inimigos, no caso, seus próprios parentes. Para alguns, este fato mostraria uma apologia da violência e não da paz. Outros, pensando nisso, não aceitam a leitura literal, afirmando que se trata de uma simbologia, de um diálogo figurado entre o ego, representado por Arjuna, e o Espírito, representado por Krishna. Assim a ênfase seria a luta contra o ego, ferindo-o, matando-o. Qual das duas é a correta?

Resposta – as duas interpretações são corretas. Podemos tomar o texto de forma figurada, entendendo como um diálogo libertador entre o ego e o Espírito, mas também no sentido literal, desde que compreendamos o texto como um todo, não parando em um parágrafo específico. Quando Krishna diz para Arjuna lutar e derrotar os seus inimigos, ele contextualiza a questão, mostrando que a atitude é que importa e não o fato em si. E esse mesmo ensinamento é ensinado para Kardec, quando o Espírito Verdade afirma que Deus julga a intenção e não os fatos (questão 747 e outras de O Livro dos Espíritos). Além disso, Krishna ensina a lei do carma, mostrando que cada um precisa passar por determinadas situações e que Deus é a causa primária de todas as coisas, inclusive das terríficas. Ele mostra para Arjuna que os inimigos já foram mortos e que os braços do guerreiro são apenas os instrumentos (“O meu poder já derrotou o inimigo – seja o teu braço apenas o instrumento do meu poder” – capítulo 11, versículo 34) que utilizará para realizar a ação carmática daquele grupo. Porém, após ensinar sobre a fatalidade, ou seja, de que ninguém consegue ficar sem agir, pois todos são compelidos para fazer o que precisa ser feito, Krishna vai ensinar a Arjuna qual deve ser a atitude correta, já que, do fato em si, ele não tem como escapar por ser um guerreiro e agir de acordo com sua natureza interior guerreira. E vocês podem encontrar o mesmo ensinamento em O Livro dos Espíritos, no resumo teórico da motivação das ações do homem, no capítulo X, do livro III. Aqui, é possível notar que Kardec compreendeu que o livre-arbítrio foi exercido antes da encarnação e que existe a fatalidade, não como acaso ou questão de sorte ou azar. A fatalidade está nos acontecimentos que se apresentam, mas jamais nos atos da vida moral. Assim, é na escolha da atitude com a qual vai lutar que está o livre-arbítrio de Arjuna. Ele
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não tem como fugir do combate; sua própria natureza o levará a lutar e, no caso, exterminar o exército rival. Aqui também podemos encontrar relação com os ensinamentos do Espírito Verdade. Como ensina Kardec, é na morte que estamos absolutamente submetidos à fatalidade, pois não temos como fugir do gênero de morte que deve interromper uma encarnação. Assim, seja por prova ou expiação, os parentes de Arjuna precisavam morrer em um combate. Portanto, eles não têm como escapar dessa fatalidade. E a guerra, como também explica o Espírito Verdade, é necessária para o progresso e para a liberdade humana (questão 742 e seguintes de O Livro dos Espíritos). Um dia ela acabará sobre a Terra, mas enquanto for necessária, fará parte dos objetivos da Providência. Comentário – No capítulo 01 do livro, encontramos Arjuna angustiado e sofrendo por não querer lutar. Ele diz que prefere morrer a matar seus parentes. Nesse momento, podemos dizer que Arjuna ainda pensa como ser humano e não como um Espírito eterno. No capítulo 02, Krishna vai mostrar a ele que o Espírito não morre e não é afetado pela matéria e ensina, nos capítulos seguintes, que o verdadeiro sábio age sempre com equanimidade, sem perder a paz interior e sem apego ou aversão a absolutamente nada do que acontece no mundo fenomênico, e faz o que tem que fazer sem se prender aos frutos de sua ação. Os versículos de 12 a 15 e os de 22 a 27, do segundo capítulo, são elucidativos a esse respeito:
12. Nunca houve tempo em que eu não existisse, nem tu, nem algum desses príncipes – nem jamais haverá tempo em que algum de nós deixe de existir em seu Ser real. 13. O verdadeiro Ser vive sempre. Assim como a alma incorporada experimenta infância, maturidade e velhice dentro do mesmo corpo, assim passa também de corpo a corpo – sabem os iluminados e não se entristecem. 14. Quando os sentidos estão identificados com objetos sensórios, experimentam sensações de calor e de frio, de prazer e de sofrimento – estas coisas vêm e vão; são temporárias por sua própria natureza. Suporta-as com paciência! 15. Mas quem permanece sereno e imperturbável no meio do prazer e do sofrimento, somente esse é que atinge a imortalidade.
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22. Assim como o homem se despoja de uma roupa gasta e veste roupa nova, assim também a alma incorporada se despoja de corpos gastos e veste corpos novos. 23. Armas não ferem o Eu, fogo não o queima, águas não o molham, ventos não o ressecam. 24. O Eu não pode ser ferido nem queimado; não pode ser molhado nem ressecado – ele é imortal; não se move nem é movido, e permeia todas as coisas – o Eu é eterno. 25. Para além dos sentidos, para além da mente, para além dos efeitos da dualidade habita o Eu. Pelo que, sabendo que tal é o Eu, por que te entregas à tristeza ó Arjuna? 26. Se o ego está sujeito às vicissitudes de nascer e morrer, nem por isto deves entristecer-te, ó Arjuna. 27. Inevitável é a morte para os que nascem; todo morrer é um nascer – pelo que, não deves entristecer-te por causa do inevitável.

Procurando ensinar a Arjuna a diferença entre o Espírito e o ego, Krishna demonstra que não há motivo para sofrer, pois somente o ego se alimenta dos frutos doces e azedos da árvore da vida, ou seja, passa por vicissitudes. E, entre os capítulos 07 e 13, demonstra a lei de causa e efeito em ação, ensinando que Deus é a causa primária de todas as coisas, tanto das “boas” como das “más”, das “criações” e das “destruições”. Enfim, nada aconteceria sem a permissão de Deus, inclusive as guerras. Tudo estaria em Deus. Mas não se trata de uma visão panteísta, que confunde Deus com a criação, mas uma concepção “panenteísta”, ou seja, que Deus, por sua onipresença estaria em todas as coisas, mas, ao mesmo tempo, não se confunde com as coisas criadas, transcendendo-as, como podemos compreender na fala de Krishna no versículo 12, do capítulo 07:
12. Entende que de Mim procedem todas as coisas – consciência, energia e matéria; Eu não estou nelas, mas elas estão em Mim.

Mahatama Gandhi, considerado por muitos o hindu mais cristão do século XX, também costumava dizer que Deus estava tanto no bisturi de um médico que salva uma vida, como na arma de um
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bandido que tira a vida de alguém. E, apesar do médico usar seu bisturi e o bandido a sua arma com objetivos distintos, quem, de fato, salvaria ou tiraria uma vida seria sempre Deus. Tendo essa sapiência foi capaz de perdoar e pediu aos hindus que perdoassem o que atirou nele, pois sabia que ele foi apenas o instrumento para o seu desencarne, na hora certa e da forma como tinha que ser. Além da fatalidade nos atos materiais, Krishna ensina a Arjuna que ninguém vive sem agir, pois a própria natureza interna de cada um nos compele a agir. E, nos capítulos finais, do 14 ao 17, apresenta as três atitudes que podem motivar nossos atos: “sattva”, “rajas” e “tamas”. Após compreender todo o ensinamento e se integrar à consciência de Krishna, no capítulo 18, encerrando o livro, Arjuna finalmente decide cumprir sua missão:
73. Tudo compreendi, Senhor dos céus! Desertou de mim a tristeza; tua graça iluminou o meu coração e transfigurou a minha alma. Dissiparam-se as dúvidas; resplandece clara a verdade – e farei o que o teu verbo me mandou.

Pergunta 04 – Seria possível nos explicar a diferença entre as três atitudes ensinadas por Krishna: sattva, rajas e tamas? Há algum ensinamento similar na doutrina espírita?

Resposta – Podemos dizer que se integra a Deus o que supera as três, portanto, estando para além do “bem” e do “mal”, do “vício” e da “virtude”. Essas três atitudes demonstram estágios diferentes de evolução e o sábio é aquele que consegue compreender que ninguém pode agir diferentemente de sua natureza. Você não pode esperar de um espírito que está iniciando suas encarnações como ser humano que tenha os mesmos interesses e desejos daquele espírito experiente, que já passou por muitas encarnações. Por isso, de forma geral, nas primeiras encarnações do Espírito em um mundo de provas e expiações, que é aquele onde funciona a lei do carma, ou seja, onde cada um colhe o que semeia, sua natureza pode ser chamada de “tamas”. Quem tem essa natureza fundamenta suas ações apenas na busca do prazer sensorial. No plano religioso, é apegado às superstições. Todas as ações desse Espírito ignorante, que está dando os seus primeiros passos rumo a sua purificação são motivadas por “tamas”.
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Depois de várias encarnações, quase todas compulsórias; de muitas vicissitudes positivas e negativas, mas sempre pautadas pela inexorável lei de causa e efeito; começa a despertar a consciência deste Espírito. Neste estágio, podemos dizer que a natureza dele agora é outra e pode ser identificada como “rajas”. O intelecto já começa a se desenvolver e ele já faz escolhas racionais. Ele já consegue pesar suas ações e, em alguns casos, começa a praticar o “bem”, mas de forma interessada, pensando apenas nos benefícios que poderá adquirir com a sua ação, que pode ser um retorno material ou até mesmo espiritual, como uma melhor condição no mundo espiritual. Vejam a questão 897 de O Livro dos espíritos. Estamos diante do mesmo ensinamento:
Questão 897 – aquele que faz o bem, não em vista de uma recompensa sobre a Terra, mas na esperança de que lhe será levado em conta na outra vida, e que sua posição ali será tanto melhor, é repreensível, e esse pensamento lhe prejudica o adiantamento? Resposta – É preciso fazer o bem por caridade, quer dizer, com desinteresse.

E quem faz o bem por caridade, por desinteresse é aquele que já possui a terceira natureza apresentada por Krishna: “sattva”. Das três, podemos dizer que esta é a mais “evoluída”, é a mais espiritual, pois a pessoa já consegue agir desinteressadamente. Não espera nada em troca. A pessoa que age motivada por sua natureza “sattva” distingue o “bem” e o “mal”, o “certo” e o “errado” e escolheu o lado em que vai atuar. Mas estamos falando de atitude, de ação interior ou sentimental e não de comportamento. Por exemplo, quando Jesus expulsou os vendedores do templo agiu de forma enérgica, assustando a todos. Porém, interiormente, agiu através de sua natureza “sattva”, tendo plena consciência de estar servindo a Deus e amando aqueles vendedores, que só seriam tocados ou despertados por uma ação mais enérgica e enfática. Não seria passando a mão na cabeça dos vendedores que o problema ali seria resolvido. O caso de Arjuna é similar. Se ele lutar motivado por “tamas”, sua motivação será o ódio e/ou a ignorância; se lutar motivado por “rajás”, sua motivação será conseguir algum benefício material ou espiritual. Mas se lutar motivado por “sattva”, será um mero instrumento nas mãos de Deus, o “servo inútil” como se refere Jesus.
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E por que dissemos inicialmente que as três naturezas devem ser superadas? Por que é muito comum encontrar pessoas cujo ego lhes diz que possuem natureza “sattva” julgando e classificando como “errados” os que estariam nas outras naturezas, não entendendo ainda que a natureza não dá saltos e ninguém pode agir contrariando sua natureza interior. Essa é uma artimanha do ego para ludibriar aqueles que acham que são “evoluídos”. Mas quem supera as três naturezas é capaz de amar incondicionalmente e jamais vai esperar que alguém que age motivado por “tamas” faça algo diferente daquilo que sua natureza está apta a realizar. Além disso, a ação de todos é guiada sempre por Deus, pois como o Espírito Verdade ensina na questão 964, Deus tem leis que regulam todas as nossas ações e quando as violamos, sofremos as consequências delas. É assim que a lei do carma funciona. Portanto, sempre vamos colher o que semeamos. Colhendo os frutos do egoísmo, cada espírito vai lapidando sua alma eterna e superando cada estágio até integrar-se plenamente em Deus, encontrandose para além do “bem” e do “mal”, do “certo” e do “errado”, servindo apenas como instrumento da Vontade divina, como meros “servos inúteis”. E quais seriam os ensinamentos do Espírito Verdade que abordam esse tema? São vários, mas vamos nos concentrar naqueles presentes nas questões 655, 672, 736 e 745:
Questão 655 – é repreensível praticar uma religião à qual não se crê no fundo de sua alma, quando se faz isso por respeito humano, e para não escandalizar aqueles que pensam de outra forma? Resposta – A intenção, nisso como em muitas outras coisas, é a regra. Aquele que não tem em vista senão o respeito às crenças alheias, não faz mal. Ele faz melhor do que aquele que as ridicularizasse, porque faltaria à caridade. Mas aquele que a pratica por interesse e ambição é desprezível aos olhos de Deus e dos homens. Deus não pode ter por agradáveis aqueles que aparentam se humilhar diante dele apenas para atrair a aprovação dos homens. Questão 672 – A oferenda que se faz a Deus de frutos da Terra tem mais mérito aos seus olhos que o sacrifício de animais? Resposta – Eu já vos respondi dizendo que Deus julgava a intenção e que o fato tinha pouca importância para ele. (...) Repito que a intenção é tudo e o fato nada.
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Questão 736 – Os povos que possuem em excesso o escrúpulo relativo à destruição dos animais têm um mérito particular? Resposta – é um excesso num sentimento louvável por si mesmo, mas que se torna abusivo e cujo mérito é neutralizado pelo abuso de bens de outras espécies. Há entre eles mais de medo supersticioso do que verdadeira bondade. Questão 745 – quem pensar daquele que suscita a guerra em seu proveito? Resposta – este é o verdadeiro culpado e precisará de muitas existências para expiar todos os homicídios dos quais foi a causa, porque responderá pelo homem, cada um deles, ao qual causou a morte para satisfazer sua ambição.

Na questão 655, temos um exemplo de ação motivada pela natureza “rajas”. A pessoa pratica uma determinada religião por interesse e ambição. Já na questão 672, o Espírito Verdade volta a ressaltar que o importante é a intenção. E isso vale para qualquer atividade. Por sua vez, na questão 736, a verdadeira bondade pelos animais é de natureza “sattva”, mas, no caso comentado, é o medo supersticioso que leva ao excrúpulo relativo à destruição dos animais, logo, a natureza presente nesta ação é “tamas”. Por fim, temos a questão 745 que tem muita relação com o tema discutido na Bhagavad Gita. Ao contrário de Arjuna que resolve lutar sem ambição, apenas para ser o instrumento de Deus, ou seja, ser o instrumento carmático da destruição do exército rival, no exemplo acima alguém suscita uma guerra para satisfazer sua própria ambição. Ele também será instrumento, pois sua ação será guiada por Deus, mas ele se compromete com a lei do carma, precisando de várias encarnações para expiar, como afirma o Espírito Verdade. No caso, sua ação pode ter como base uma natureza “tamas”, se motivada pelo ódio por outro grupo étnico, por exemplo; ou como “rajas”, se age pensando nos benefícios econômicos ou políticos que poderá alcançar com a guerra. Comentário – Uma frase muito comum no meio espiritista é “fora da caridade não há salvação”. Ela sempre me incomodou, pois, apesar de O livro dos espíritos ensinar que a caridade não tem relação com a esmola e que o ser caridoso é aquele que é benevolente, indulgente e que perdoa todas as ofensas, fazendo o “bem”
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desinteressadamente, ela me parece uma frase típica da natureza “rajas”. Ou seja, a pessoa, com o desejo de se salvar, vai procurar ser caridoso. Suas ações são calculadas para obter um resultado: a “salvação”. E muitas vezes não é nem a vontade de ser salvo, mas o alívio de uma dor de cabeça ou de qualquer outro mal-estar. É o que muitos passistas comentam. Dizem que só frequentam um centro espírita e trabalham com o “passe” para não sentirem dor, para não passarem mal, pois alguém disse que se não fizessem isso, sofreriam. Assim, buscam algo em troca para fazer o “bem”. Mas como disse o espírito na resposta acima, não devemos julgar, pois ninguém é capaz de agir de forma diferente àquela manifestada por sua natureza interior. Porém, constatar um fato e tirar dele algum proveito, não é julgamento. E quando compreendemos que nos mundos de provas e expiações como ainda é a Terra encarnam espíritos dos mais variados estágios evolutivos, mas que todos são instrumentos de Deus, conseguimos viver com equanimidade, não sofrendo nem nos momentos de atribulações e nem ficando eufórico naqueles que nos são agradáveis. Quanto à fatalidade nos atos materiais, Krishna revela o futuro para Arjuna, mostrando que os seus inimigos já foram mortos por Ele e que a mão de Arjuna só será o instrumento. Enfim, podemos entender nesse poema épico que os Espíritos que estavam encarnados como seus parentes precisavam, pela lei de causa e efeito, desencarnar lutando. E mesmo que Arjuna tentasse fugir da luta, sua natureza de guerreiro o levaria a agir. E sua intenção inicial de não-agir é tão negativa quanto a ação interessada, que se prende aos frutos do trabalho. Somente quando Arjuna compreende o ensinamento de Krishna, aceita lutar e realizar sua missão sendo um instrumento consciente da ação de Deus. E no que se refere ao estudo das atitudes, podemos dizer que aquele que possui a natureza “tamas”, tem mais probabilidade de “fazer o mal pelo mal”, ou seja, ser escolhido para ser o instrumento de uma ação carmática negativa, pois vive apenas para sua
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própria satisfação sensorial. Vamos dizer que seja o caso de um motorista que, por mais campanhas educativas realizadas, insiste em dirigir embriagado e corre o risco de ser escolhido para provocar um acidente necessário para o desencarne de alguns Espíritos. Por outro lado, até aquele que age segundo sua natureza “rajas”, ou seja, calculando o ganho que vai ter com determinados atos, também será um instrumento. Eu me lembro de quando estava na graduação e fiz vários cursos sobre questão ambiental. Neles, era comum encontrar professores dizendo que esta área seria a que mais daria dinheiro no século XXI. Muitos não estavam nem aí para a preservação ou conservação ambiental; a preocupação era apenas com o dinheiro que poderiam ganhar criando tecnologias menos impactantes, prestando assessoria para prefeituras etc. Neste exemplo, mesmo que a natureza da ação seja “rajas”, ou seja, interessada, a ação dessas pessoas será guiada por Deus para que haja a preservação do que deve ser preservado. Outro fenômeno que possui natureza “rajas” é o Marketing social. A empresa faz alguma ajuda social para obter benefícios, seja pagar menos impostos ou passar uma imagem de “boazinha” para a sociedade e com isso ganhar mais clientes etc. Enfim, até aquele que age através de sua natureza “rajas” pode ser o escolhido para “fazer o bem através do mal”, ou seja, pode ser o instrumento escolhido para criar algo benéfico para a sociedade ou para curar uma pessoa que mereça ter uma enfermidade tratada, mesmo que aja com a intenção de receber determinados benefícios, nem que seja o de ser “salvo” espiritualmente. Por fim, quem já possui uma natureza “sattva” tende a ser o escolhido para “fazer o bem pelo bem”, mesmo que este “bem” seja lutar em uma guerra sangrenta e ser o instrumento para o desencarne de vários espíritos, como no caso de Arjuna. O importante é que a pessoa que possui a natureza “sattva” é sempre compelida a servir de forma desinteressada e benevolente. Existe uma história taoísta muito interessante a respeito da benevolência. Confúcio estava fazendo uma preleção sobre a benevolência quando Lao-Tsé se aproxima bêbado e começa a fazer pa– 42 –

lhaçada, atrapalhando sua palestra. Confúcio se revolta e com ódio parte para cima daquele para agredi-lo. Nesse momento Lao-Tsé comenta que a benevolência deve ser colocada em prática em todas as circunstâncias, inclusive com aqueles que pensam de forma diferente ou não fazem o que achamos certo. Nesse momento, Confúcio percebe que caiu em mais uma das armadilhas do mestre taoista, ao ficar com ódio das traquinices daquele sábio chinês. Por isso não adianta sair dizendo que se possui uma natureza “Sattva”, que é uma pessoa “evoluída” etc. Normalmente, quem afirma isso são os que mais estão presos às artimanhas do ego. Para estar integrado em Deus é preciso se colocar acima da “virtude” e do “vício”, do “bem” e do “mal”. Aquele que afirma ter uma natureza “sattva”, mas que ainda costuma julgar como “errados” quem comete assassinatos, estupros e outras ações não virtuosas, ainda não é tão benevolente como imagina, pois ainda precisa compreender que até aqueles que ele julga como “errados” agem de acordo com a sua natureza interior e também são instrumentos da justiça divina, pois suas ações também são guiadas pela lei de causa e efeito, mesmo que pelas leis humanas tenham que ir para a cadeia. E no caso de ter que ser enérgico com alguém, que essa ação seja, interiormente, também amorosa e desinteressada. E para quem se preocupa com a justiça, reproduzo a fala de um Exu em um trabalho mediúnico, “O que hoje estupra, amanhã é estuprado e assim a roda do carma gira até o espírito aprender a fazer ao outro apenas o que ele gostaria que o outro fizesse a ele”. E a justiça divina sempre é acompanhada pela misericórdia divina, como em um fato narrado por uma ex-trabalhadora do projeto Homospiritualis. Ela trabalha como terapeuta ocupacional em um hospital em uma cidade do interior do estado de São Paulo, quase divisa com Minas Gerais, e é médium vidente. Em certo dia, deu entrada no hospital uma criança de três anos de idade com o corpo quase todo queimado. Ela ficou revoltada e pensou: “como Deus permite que uma criança sofra desse jeito!” E na hora a vidência dela se abriu e ela passou a ver um navio carregado de escravos e um homem que devia ser um feitor maltratando e chegando a jogar no mar os doentes. Ela percebeu que o Espírito
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que animava a criança queimada era o mesmo que no passado agia com ódio e crueldade com os negros trazidos para o Brasil. Com essa compreensão, parou de julgar Deus e se restringiu ao seu trabalho, procurando tratar com amor e carinho aquela criança queimada. Apesar de ter que expiar os “erros” do passado, a misericórdia divina não abandonou este Espírito que, por estar agora ligado ao corpo de uma criança inocente, recebeu todo o amor necessário para aliviar sua dor.

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CAPÍTULO 3

A PSICOSOFIA

DE

BUDA

EXPLICADA PELOS ESPÍRITOS

Neste capítulo vamos apresentar a opinião dos espíritos que entrevistamos, entre os anos de 2005 e 2008, constituindo um diálogo muito rico sobre os ensinamentos espirituais de Buda. As entrevistas versaram sobre o livro Darmapada, que reúne os sermões curtos de Buda e é considerado o mais conhecido e importante documento sobre o darma, ou seja, os ensinamentos para a superação do sofrimento e a vivência da felicidade plena ainda na Terra. Segundo Fernando C. Garcia, tradutor do livro do páli para o português, Buda revolucionou os costumes de sua época. Não valorizou a hierarquia das castas, ressaltando que são as boas ações que importam e não o nascimento. Também contestou o valor dos sacrifícios e os rituais de purificação praticados pelos brâmanes (sacerdotes), afirmando que cada um deve se purificar através da renovação de sua própria mente. Buda viveu, segundo os historiadores do budismo, 80 anos e sua busca espiritual teve início aos 29 anos de idade, quando abandonou a família e o luxo do palácio real para levar uma vida de asceta, fato que durou 6 anos. Com o seu “despertar”, intuiu que os dois extremos não eram capazes de acabar com o sofrimento e passou a ensinar o caminho do meio, composto por oito nobres caminhos, que, além de acabar com o sofrimento, ainda em vida, seriam importantes para deixar a roda das encarnações (samsara). O caminho ensinado por Buda é prático e não especulativo. Não pode ser chamado de religião e não se fundamenta na fé. A essência de sua Psicosofia está em compreender a lei do carma, que considera uma lei natural, e não está fundamentada em atos, mas em intenções. A intenção precede o sentir ou o agir, portanto, os atos já seriam frutos do carma e não o carma em si. Em suma,
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o carma, para Buda, é a somatória das atitudes mentais. O domínio da mente seria o caminho para o dominar e, consequentemente, acabar com o sofrimento. Muitos afirmam que o budismo seria ateu, mas há indícios que Buda acreditava em Deus, mas não necessariamente como um homem autoritário e punitivo, que distribui castigos e benesses de acordo com o seu humor. Pela meditação, parece que ele reconheceu a existência de Deus e dos espíritos, mas não se preocupou com isso, nem mesmo em relacionar-se com eles. Sua meta era pragmática, ensinar o caminho para quem tivesse interesse em libertar-se do samsara e do sofrimento. Buda chegou a afirmar que havia uma grande diferença entre o que ensinava e o que realmente sabia. O que ele ensinava era algo como algumas folhas em sua mão. Mas o que ele sabia se assemelhava as folhas em uma árvore. Por isso, o fato de acreditar que para se libertar do sofrimento não é necessário acreditar na existência de Deus, não significa que ele fosse ateu. Para ele, as especulações religiosas não tornam as pessoas mais felizes, daí sua ênfase apenas na prática do darma, ou seja, vivendo neste mundo sem apegos ou aversões, e acolhendo os frutos do carma com paz interior. Em suma, participar no cenário da vida humanizada com a consciência desperta. Os espíritos com quem conversamos nos mostraram a grande semelhança entre os ensinamentos de Buda, contidos no Darmapada e os ensinamentos do Espírito Verdade, presentes em O livro dos espíritos, principalmente, no capítulo XII, do livro três, como no item chamado “caracteres do homem de bem” e, também, no livro quatro, no item “Felicidade e Infelicidade relativas”.
Pergunta 01 – Em sua opinião, qual é a essência dos ensinamentos de Buda e por que ela seria universal e atemporal?

Resposta – A essência de seu ensinamento é que podemos viver plenamente felizes e sem condicionar a nossa felicidade a nada que aconteça no mundo. Muitos interpretam que ele só fala no sofrimento, como se fosse um ensinamento negativista. Ao contrário, ele vai demonstrar empiricamente como podemos vivenciar a vida humanizada do espírito sem perder a paz
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interior. Em seu primeiro sermão abordou as “quatro nobres verdades”, fundamentais para compreender e colocar em prática todo o seu ensinamento, e livrar-se do sofrimento. E esse caminho pode ser praticado por qualquer pessoa, em qualquer contexto cultural e época, pelo menos nos “mundos de provas e expiações”. Ele seria universal para o contexto espiritual em que estamos inseridos no momento e não necessariamente para os mundos já regenerados.
– E quais seriam essas “quatro nobres verdades”?

Resposta – A primeira é que o sofrimento existe; isso não pode ser negado. A segunda é a consciência das raízes do sofrimento. A terceira é que o sofrimento pode deixar de ser gerado quando cortamos essas raízes e, a quarta, é percorrer o caminho que conduz ao fim de todo sofrimento. Quando compreendemos e colocamos em prática as quatro nobres verdades, acabam as percepções individualistas e passamos a viver feliz, sem condicionar nossa felicidade a nada que gera sofrimento.
– mas isso não seria uma utopia? Como colocar em prática essas verdades?

Resposta – o primeiro passo é constatar que se sofre e compreender que felicidade não é prazer nem euforia. O ser humanizado confunde felicidade com prazer, por isso quando tem algum desejo realizado acredita que ficou feliz, mas apenas obteve uma satisfação individual, sentiu um prazer momentâneo. A felicidade é sempre Universal e é vivenciada quando nos libertamos das verdades criadas pelos “cinco agregados”, que são as formas materiais, as sensações, as percepções criadas pelos sentidos, as formações mentais (pensamentos) e a memória (consciência). Pense em um torcedor de futebol eufórico com a vitória do seu time. Vocês chamam isso de felicidade, mas para ele sentir prazer o torcedor do time derrotado sentiu desprazer. O sentimento que ele teve ao ver o time ser campeão não é universal, pois depende do sentimento de desprazer de outro ser humanizado. A alegria contém a semente da tristeza, o prazer contém a semente do desprazer. Mas, a felicidade, enquanto um estado de paz interior ou como realização plena do nirvana, está além dessas dicotomias humanas. Comentário – No primeiro sermão atribuído a Buda, facilmente achado na internet, ele aborda as “quatro nobres verdades” e os cinco “candas”, que o espírito entrevistado chamou de “agregados”. Mas, ao contrário de algumas correntes budistas que não
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acreditam em uma essência anímica, ou seja, na existência do Espírito ou de uma individualidade que sobreviva à morte, afirmando que acreditar nessa possibilidade é uma ilusão criada pelo quarto “canda”, o provável Espírito que entrevistamos, afirma que os agregados formam o ego, uma espécie de consciência provisória que não pertence ao Espírito eterno, à individualidade, mas que o ilude enquanto se encontra encarnado. Ou seja, o nosso entrevistado apresenta uma interpretação mais próxima da visão hinduísta e espírita e não daquela mais comum no movimento budista que acredita que o carma renasce em outro corpo, mas não o Espírito. Porém, no que se refere às quatro nobres verdades, o nosso entrevistado não questiona a interpretação corrente no movimento budista que consiste, primeiramente, em aceitar que o sofrimento existe, mas que não é eterno, como pensa o bramanismo. Em seguida, compreende como ele aparece: através dos desejos. E nos versos do Darmapada, Buda não se refere somente ao desejo por coisas materiais, poder, riqueza, pessoas, prazeres sensuais, mas também por ideias, pontos de vista, teorias, crenças etc. Em suma, o sofrimento tem raízes no apego e também na aversão pelos bens materiais, sentimentais e culturais. É importante ressaltar que o apego e a aversão são faces de uma mesma moeda. Se apegar ou manifestar aversão aos bens materiais, por exemplo, causa sofrimento. Vou dar um exemplo, recentemente em uma lista de discussão espiritista na internet, postei um vídeo em que o preto-velho pai Joaquim de Aruanda comenta sobre as raízes do sofrimento e uma pessoa comentou que Jesus era mais “evoluído” do que Buda porque este aceitava convite para pernoitar em castelos enquanto Jesus não. E eu respondi que Buda ensinava a não ter apego e nem aversão a nada. Assim, dormir em uma praça com a cabeça sobre uma pedra ou em um castelo em uma cama feita de ouro tinha o mesmo valor. O importante seria manter a equanimidade diante das situações favoráveis ou desfavoráveis. Se ele demonstrasse aversão à riqueza, não aceitando um convite para dormir em um castelo, seria igual aos ascetas com os quais conviveu durante seis anos e percebeu que a atitude extrema de fugir do mundo também não era o caminho para se libertar do sofrimento e do samsara.
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Mas é importante sempre ressaltar que o importante não é o ato em si, mas o desejo (a intenção), pois ele seria o responsável pela permanência no samsara, vivenciando ciclos de nascimentos e mortes. Não ter apego ou aversão é não desejar nada, mas aceitar de bom grado tudo o que o carma trouxer na forma de acontecimentos ou atos. Mantendo a equanimidade diante dos fatos e procurando sempre ser benevolente com todos os seres sencientes não haveria mais “carmas” e a necessidade de renascimentos. Porém, como já foi salientado acima, para alguns movimentos budistas, como é o caso da escola Theravada, não existe o “espírito” ou uma individualidade que reencarna. Essa ideia, presente no hinduísmo, seria fruto do quarto canda (formações mentais). Para estas escolas budistas o que renasce é o carma, fruto da vontade, das intenções e do desejo. Essa força energética que moveria o mundo não seria destruída com a morte do corpo físico e renasceria em outro corpo. Uma imagem que a escola Theravada utiliza para explicar essa interpretação é a de uma vela que está se consumindo pelo calor da chama. Se aproximarmos esta do pavio de outra vela intacta, o pavio vai se acender e terá inicio um novo processo, com a vela passando a derreter. Nesta imagem, não podemos dizer que uma vela é fruto da anterior, porém, a segunda, foi acesa com a mesma chama que queimava a outra. A chama é que teve origem na anterior, podendo-se dizer que herdou o carma da outra. Através desta imagem, a escola Theravada ensina que cada vela representaria um corpo físico e o carma seria a “chama” que migra de uma para outra vela. Ou seja, o carma (somatória das atitudes mentais) é que migraria entre corpos que morrem e nascem, sem a necessidade de existir uma individualidade, um espírito eterno ou uma alma como acreditamos no Ocidente. Porém, outras escolas budistas aceitam a existência do espírito e chegam a afirmar que este pode, inclusive, encarnar em mais de um corpo ao mesmo tempo, como aparece no filme o pequeno Buda, dirigido por Bernardo Bertolucci, em que a espírito de um antigo lama tibetano reencarna em três crianças simultaneamente. A interpretação poderia ser outra se pensássemos a chama da vela como sendo uma alma que traz o registro carmático impregnado
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nela e que, ao migrar de um para outro corpo, colhe as consequências boas, más ou neutras das intenções anteriores. Ou seja, a chama da vela também poderia representar uma individualidade que luta para se purificar do ego. Neste caso, existiria a reencarnação de espíritos e não uma simples transmigração do carma, como ensina a escola Theravada. Porém, esta questão já faz parte das especulações das quais o Buda não queria se envolver. Talvez, por isso, não aprofundou o assunto porque, Independentemente de existir uma individualidade que encarna ou apenas a transmigração do carma entre corpos, o importante, em seus ensinamentos, é que os acontecimentos sempre seriam justos, com cada um colhendo no presente o que plantou no passado e, ao mesmo tempo, tendo a oportunidade de escolher o que semear para a sua próxima colheita. Assim, tanto os que acreditam na existência de uma individualidade e os que não acreditam não precisariam se engalfinhar, restringindo-se à prática do darma. Particularmente, acho pouco provável que Buda não acreditasse na existência de uma individualidade que pré-existe e sobrevive à morte física. E isso vai ficando cada vez mais evidente quando, na terceira nobre verdade, encontramos o ensinamento sobre o que deve ser feito para cortar o sofrimento pela raiz: para Buda basta extinguir o desejo, o ódio e a ilusão. Este processo seria necessário para alcançar a felicidade suprema, ou seja, o nirvana, ainda em vida. A ilusão seria criada pelos cinco candas ou atributos do ego, segundo Buda e também na opinião do Espírito que entrevistamos. Porém, para este, como já abordamos acima, a felicidade e a capacidade de amar seriam atributos da individualidade e não criação do ego. Podemos dizer que as palavras felicidade e amor sejam criações do ego, assim como as interpretações do que seja felicidade e amor. Mas o sentimento vivido, ao qual as palavras acima se referem, seria experimentado pelo Espírito, pela individualidade. Por isso, ao extinguir os atributos do ego, secariam todos os desejos egocêntricos, ódios e ilusões, e o Espírito passaria a viver sua existência humanizada apenas através da energia que vem de sua es– 50 –

sência, daí a possibilidade de uma vivência de amor incondicional e de felicidade plena ainda sob o efeito da encarnação ou humanização do Espírito. Fica difícil compreender de onde viria essa felicidade plena se não aceitarmos a existência de um Eu, de uma individualidade, ainda mais quando Buda afirma “(o nirvana) é atingindo pelos sábios dentro de si mesmos”. Com base nesta frase de Buda, presente no Darmapada, mesmo que se acredite que a mente não passe de uma ilusão é preciso compreender que, acima dela, existe algo capaz de controlá-la. Ou seja, é necessário existir uma individualidade para acontecer o processo acima, de atingir o nirvana dentro de si mesma. A concepção de carma sem a existência de uma individualidade que possa controlar a mente (esta sim fruto dos candas e, portanto, criadora de ilusões) lembra muito as teorias da neurociência contemporânea para quem o cérebro é o criador de tudo, do sofrimento, da felicidade, da paz, dos pensamentos, das revoltas, da alma, da mente etc. E, com a morte física, com a decomposição do cérebro, tudo terminaria. A única diferença entre elas é que na interpretação de algumas escolas budistas o carma, enquanto uma energia, permanece existindo após a morte e migrando para um novo corpo em formação. Mas, nos dois casos, a impressão é que está se tomando o efeito pela causa, justamente pela necessidade que estes cientistas e alguns budistas têm de negar a existência de uma individualidade que, em tese, pode permanecer existindo após a morte e que teria como atributos a vontade, o pensamento, a capacidade de expressar amor, ser feliz e ter Fé em uma força superior e causa primária de todas as coisas. Podemos dizer que essa necessidade de negar a existência de uma individualidade também é criação do quarto canda (formações mentais) e, portanto, também ilusória. Se não há provas ainda da existência de uma individualidade que sobreviva à morte física, também não há de sua não-existência. Mas, se a felicidade suprema que Buda diz ter atingido em vida não for a expressão pura de uma individualidade que se libertou de todas as ilusões criadas pelo ego, quem seria capaz de limitar
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os desejos e vencer a tentação de sentir ódio ou libertar-se da ilusão criada pela mente? A não aceitação de uma individualidade acontece quando ela se confunde com a mente. Está é fruto dos candas e ilude o Espírito, a individualidade encarnada, e que está além de qualquer compreensão racional. Para se atingir os objetivos de Buda, a mente precisa ser controlada. Mas, sem a existência dessa individualidade o projeto de Buda se desmancha no ar. O Espírito que entrevistamos apontou alguns capítulos de O livro dos espíritos que trazem ensinamentos similares aos de Buda. E neles podemos perceber também a necessidade de uma instância superior, além da mente. Por exemplo, na questão 926 e seguintes de O livro dos espíritos, quando o suposto Espírito Verdade afirma para Kardec que aquele que limita seus desejos e não inveja ninguém se poupa de decepções e que o sofrimento está por toda a parte, inclusive nas classes sociais mais abastardas. Além disso, diz que os sofrimentos morais ou da alma são mais torturantes, como o orgulho ferido, a ambição frustrada, a ansiedade da avareza, a inveja, o ciúme e todas as paixões humanas. Nesse sentido, podemos entender que a mente cria os desejos, mas é o espírito iludido por tais criações que sofre com o orgulho ferido, a ambição frustrada etc. Se não existisse uma individualidade com força suficiente para tentar limitar os desejos criados pelos candas e não invejar os outros, como esse processo poderia ser feito? Quem pode controlar a mente, se não existir nada além dela? Neste caso, teríamos que aceitar a ideia do acaso regendo a vida. Assim, por acaso, um deixa de invejar e outro não; por acaso um freia seus desejos por supérfluos e outros não. E o mesmo princípio vale para o ensinamento budista, cujo objetivo é deixar de manifestar desejo, ódio e ilusão. Sem uma individualidade presente neste processo, poderíamos dizer que a proposta budista também seria uma ilusão criada pelo canda formação mental e que não haveria como se libertar do sofrimento e nem do samsara, pois o sofrimento e o samsara também seriam ilusórios processos criados pelo quarto canda, derrocando a primeira nobre verdade que diz que o sofri– 52 –

mento existe. De certa forma, é essa ideia que encontramos no sutra do coração. Similar ao discurso budista, na questão 933 de O livro dos espíritos, o Espírito Verdade diz textualmente:
“com a inveja e o ciúme, não há calma e nem repouso possível para aquele que está atacado desse mal: os objetos de sua cobiça, de seu ódio, de seu despeito, se levantam diante dele como fantasmas que não lhe dão nenhuma trégua e o perseguem até no sono. Os invejosos e os ciumentos estão num estado de febre contínua. Portanto, está aí uma situação desejável e não compreendeis que, com suas paixões, o homem criou para si suplícios voluntários.”

A vontade de criar ou se libertar desses suplícios voluntários pressupõe uma individualidade com livre-arbítrio, se não nos atos, pelo menos na intencionalidade. E comentando a resposta acima, do Espírito Verdade, Kardec se manifesta usando expressões que poderiam muito bem ter saído da boca de um budista:
“frequentemente, o homem não é infeliz senão pela importância que liga às coisas deste mundo. É a vaidade, a ambição e a cupidez frustradas que fazem sua infelicidade. Se ele se coloca acima do circulo estreito da vida material, se eleva seus pensamentos até o infinito, que é a sua destinação, as vicissitudes da Humanidade lhe parecem, então, mesquinhas e pueris, como as tristezas de uma criança que se aflige com a perda de um brinquedo que representava a sua felicidade suprema. Aquele que não vê felicidade senão na satisfação do orgulho e dos apetites grosseiros, é infeliz quando não os pode satisfazer, ao passo que aquele que nada pede ao supérfluo é feliz com o que os outros olham como calamidade.”

Por fim, a quarta nobre verdade, que seria a prática do caminho do meio, evitando os dois extremos e, dessa forma, não produzindo mais a necessidade de novos renascimentos, também parece pressupor uma individualidade que tenha vontade para realizar esse caminho. Pois, se nem um extremo, o da busca da felicidade nos prazeres sensoriais e nem o outro, manifestado na mortifica– 53 –

ção do corpo, acabam com o sofrimento, quem vai percorrer o caminho do meio? Buda, antes de se “iluminar” vivenciou os dois extremos, como príncipe e depois como asceta e concluiu que o caminho do meio consiste em vivenciar nossa existência sem apegos e sem aversões, não manifestando desejos egocêntricos, ódios e liberto de toda e qualquer ilusão criada pelos cinco candas. Logo, alguém tem que percorrer esse caminho e esse alguém tem que ser real e não mais uma criação ilusória de um canda. Provavelmente, Buda acreditava na existência do Espírito e que este poderia alcançar um estado de plena paz e felicidade ainda encarnado, libertando-se das verdades ilusórias criadas pelos candas, mas seus discípulos, principalmente da escola Theravada, ao afirmarem que não existe uma individualidade sobrevivente à morte, apenas a transmigração do carma, nos deixa com uma inquietação: quem poderia, então, percorrer o “caminho do meio”, que é formado por oito nobres caminhos? E por mais nobre que seja o agir desinteressado, será que alguém buscaria viver uma existência pautada em uma ética e em valores positivos, procurando se libertar de apegos escravizantes sabendo que não vai colher os frutos de suas boas ou más intenções, pois estas serão herdadas por alguém que vai nascer movido pela força do acaso?
Pergunta 02 – como podemos entender espiritualmente os oito nobres caminhos, que formariam o chamado “caminho do meio”?

Resposta – Para uma compreensão universal deles, e usando as referências que vocês têm, podemos dizer o seguinte: 1 – Compreensão correta – significa compreender que Deus é a causa primária de todas as coisas, atuando na vida de todos os seus filhos através da lei do carma. Mas não estamos falando da concepção de Deus como um carrasco que pune e castiga e nem de um ser egocêntrico que dá prêmios para os seus queridinhos. Por ser apenas bondade e amor, criou a Lei natural do carma que processa de forma inexorável as colheitas de cada um de acordo, apenas, com o que foi semeado. Deus não precisa estar acompanhando de perto os passos de cada um de seus filhos, mas age a partir das leis naturais que criou. Por isso, nesse exato segundo você está, ao mesmo tempo, colhendo o que plantou no passado e semeando o que vai
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colher no futuro. Não falo em atos, mas em sentimentos. O sentimento emanado neste exato momento vai determinar o retorno dele no futuro. Assim, podemos dizer que a compreensão correta também significa aceitar que somente o presente é real e este deve ser vivenciado com sabedoria e compaixão diante de qualquer vicissitude ou ser humanizado, não importando se ele foi a vítima ou o algoz. 2 – Pensamento correto – hoje está mais popularizado o valor do pensamento positivo. Hoje sabemos que o pensamento é criador de realidades. Assim, o pensamento correto é aquele que vai a favor de um fluxo energético e não contra. E aqueles que têm a compreensão correta vão pensar na paz e não na violência; no valor positivo da honestidade e não no negativo da desonestidade. Mesmo a pessoa que foca sua vida lutando contra a violência, achando que está fazendo algo correto, inconscientemente alimenta mais violência no mundo. O foco de seu pensamento é a violência, não importa se você é a favor ou contra. Por isso, pensar corretamente é pensar na paz, na harmonia, na saúde, na benevolência, pensando sempre em fazer ao outro aquilo que você gostaria que o outro fizesse para você. É dar sem esperar receber; é perdoar sem esperar ser perdoado. 3 – Palavra correta – Se o pensamento tem energia, o que dizer da palavra expressada. Jesus já dizia que o problema não é o que entra, mas o que sai da boca do homem, referindo-se ao poder criador ou destruidor das palavras. Uma palavra pode ser muito mais ferina do que uma agressão física. Por isso, quem tem uma compreensão correta e pensa corretamente, também vai se expressar corretamente, usando sempre palavras afetuais, positivas, que unam e não que separem; e que ajudem a resolver pacificamente os conflitos. Por mais “errada” que seja a ação do outro, não o critique, não o julgue, não expresse palavras com energias negativas sobre a pessoa. Fazer isso é como jogar mais lenha na fogueira. Todo o mal tem origem no egoísmo e só é eliminado pelo amor, que deve se expressar na forma de pensamentos ou de palavras corretas. 4 – Ação correta – Dentro dessa mesma linha interpretativa, agir corretamente é ser sempre amoroso, benevolente, perdoar as ofensas, ter empatia e compaixão por todos, amigos ou inimigos, vítimas ou algozes. Como sempre salientamos, estamos falando na atitude, pois mesmo uma ação enérgica exterior pode ser praticada com amor no coração. E a nossa ação tem que ser aquela que o outro merece receber. Eu não posso dar uma pedra
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para quem merece receber uma flor, mas posso ter a intenção de dar uma flor para todos, mesmo que eu não consiga, porque naquele momento a pessoa precisava receber uma pedra e por isso outro foi o instrumento para levar a pedra até ela. Porém, independentemente do carma te trazer uma pedra ou uma flor, você sempre terá a liberdade para dar uma utilidade para aquilo que receber. 5 – Meio de vida correto – Já abordamos indiretamente a questão no item anterior ao falarmos sobre a intenção de levar flores para todos, mesmo sem saber quem merece ou não recebê-las. Esse é o meio de vida correto. É como devemos pautar todos os atos de nossa existência. É preciso ter em mente que todos nós, antes de mais uma encarnação, escolhemos um gênero de provas, assim, o meio de vida correto é aquele que nos leva a vivenciar nossas provações sempre com honestidade, verdade, humildade, caridade e não vendo aquele que foi o escolhido para ser o instrumento de um carma negativo como “inimigo”, mas como um grande amigo que Deus colocou em nosso caminho para nos exercitar no Bem. 6 – Esforço correto – Este se resume em canalizar todos os nossos desejos egocêntricos para apenas um desejo: o de integrar-se plenamente a Deus, a inteligência suprema e causa primária de todas as coisas. Ou seja, viver plenamente feliz nossa atual aventura encarnatória. Por isso, mesmo que em algum momento a dor seja necessária ou faça parte de nossas provações, o sofrimento é sempre opcional. Podemos passar por qualquer vicissitude ou prova escolhida voluntariamente antes da encarnação com a paz plena em nosso coração. Ou seja, sempre com equanimidade. Esse deve ser o nosso esforço correto. 7 – Correta reflexão – Consiste em sempre orar e vigiar. Mas não falamos em vigiar a vida alheia, mas os próprios pensamentos e sentimentos para não ser surpreendido pelos cinco candas (agregados) que formam o ego. Com a correta reflexão não vamos sofrer quando algo desagradável acontece, e nem ficar eufórico nos momentos de prosperidade. É preciso lembrar sempre que as formas materiais não tem substancialidade e são impermanentes, e que são realidades ilusórias as sensações, as percepções e as formações mentais que infernizam nossa vida como espíritos humanizados. 8 – correta introspecção – Compreendendo e colocando em prática, na forma de atitudes, os 7 nobres caminhos acima, o último representa o
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controle pleno da mente, de forma que a pessoa é capaz de agir sempre com equanimidade, sabedoria e compaixão diante de qualquer criatura virtuosa ou viciosa, nobre ou delinquente, em toda e qualquer circunstancia, agradável ou desagradável. Comentário – Como salientamos, para Buda, o carma é adquirido através da intenção e os atos já são frutos do carma. As intenções podem ser boas, más ou neutras. Essa concepção é bem diferente daquela normalmente presente em romances espíritas e no senso comum, que associa o carma com punição por maus atos. Nesse sentido, para Buda, o carma não pode ser pensado como expiação ou punição por maus atos e nem um prêmio por atos bons. E apesar do carma ser pensado como uma lei natural, quem seria o criador desta lei? E o fato de Buda não falar em Deus, não significa que ele fosse ateu ou desconsiderasse a existência de uma causa primária. Acontece que ele era pragmático e não se interessava por especulações filosóficas ou metafísicas. Porém, é um erro chamar o budismo de ateu ou de materialista. A preocupação de Buda foi encontrar o caminho para superar o sofrimento, algo visto como inevitável, principalmente, pelo bramanismo. Além disso, acreditava na possibilidade de viver plenamente feliz no aqui e agora, desde que o coração não fosse palco de desejos egocêntricos, ódio e ilusões. E Buda propôs um caminho que pode ser percorrido por qualquer pessoa, pois é baseado na experiência e não na abstração e racionalização. E não importa qual seja a religião, a casta ou qualquer outra diferenciação sócio-cultural, todos podem experimentá-lo. Como ensina o darmapada: o sofrimento segue aquele que age ou fala com uma mente impura e a alegria segue o que age ou fala com a mente pura. E o ódio não cessa o ódio, por isso, quem abriga sentimentos negativos, afirmando “ele me insultou, ele me feriu, ele me derrotou”, não consegue calar o ódio dentro de si. Por isso, é importante saber lidar com as situações desagradáveis. A sabedoria consiste em ser vigilante com os próprios pensamentos e sentimentos. E nesse sentido, quando o espírito comunicante que entrevistamos disse que a compreensão correta significa aceitar que Deus é a causa primária de todas as coisas, está afirmando que Deus –
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que não sabemos o que é e como age – é o responsável pela lei do carma, a base fundamental para se entender a Psicosofia de Buda e colocá-la em prática, dominando a mente e os sentidos. E podemos notar, também, como os oito aspectos que formam o caminho do meio estão presentes também nos capítulos 12 e 13 de O livro dos espíritos. Quem ler com atenção e sem preconceito esses dois capítulos notará que todo o ensinamento de Buda está ali contido e que ressaltam, também, o papel da intenção. A questão 894, por exemplo, aborda o que na Terra ainda é exceção: o agir espontâneo, liberto das más intenções. E afirma também que a felicidade é dominante nos mundos onde todos agem motivados apenas por boas intenções. Porém, na Terra, “o verdadeiro desinteresse é uma coisa tão rara que é admirado como um fenômeno quando ele se apresenta” (questão 895). E ao falar que o esforço correto significa canalizar nossos desejos para um único, o de integrar-se a Deus, está afirmando que para se libertar do sofrimento basta seguir as leis naturais que regem a vida na Terra. Fazendo isso, acaba o sofrimento. E no caso da correta reflexão, encontramos na questão 903, um ensinamento similar. Diz o Espírito Verdade:
“antes de fazer aos outros uma censura de suas imperfeições, vede se não se pode dizer a mesma coisa de vós. Esforçai-vos, portanto, em ter as qualidades opostas aos defeitos que criticais nos outros, esse é o meio de vos tornardes superiores. Se os censurais por serem avarentos, sede generosos; por serem orgulhos, sede humildes e modestos; por serem duros, sede dóceis; por agirem com baixeza, sede grandes em todas as vossa ações...”

Podemos notar que o espírito Verdade fala sempre em atitudes e não, necessariamente, em atos. O ensinamento acima é similar ao de Buda, no capítulo IV da darmapada, quando fala para não nos preocuparmos com as imperfeições dos outros, mas se não estamos sendo iguais aos que criticamos. A vigilância deve ser exercitada para apontar os nossos defeitos e corrigi-los, e não os dos outros. Por isso, o sábio seria comparado a uma flor de lótus que nasce no lodo. Mesmo entre cegos e infelizes, o sábio pode viver radiante e
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se tornar uma flor atraente, cheia de cor e perfume e agir através de suas boas palavras e ações. Outras similitudes entre os ensinamentos dos espíritos para Kardec e os de Buda, presentes no Darmapada, podem ser vistas na questão 913, que afirma ser o egoísmo a causa de todo o mal e que o nosso foco deve ser o de extirpá-lo pela raiz e também na questão 926, na qual encontramos a afirmação que os males deste mundo estão em razão das necessidades fictícias que criamos para nós. Assim, aquele que sabe limitar seus desejos e vê sem inveja o que está acima de si, poupa-se a muitas decepções nesta vida. Percorrer o Caminho do Meio não é fácil. Mas quem consegue abandonar os dois extremos está na senda certa para atingir o Nirvana, ou seja, uma existência de paz, com sabedoria e felicidade. Por isso, só sofre quem vivencia sua encarnação a partir dos extremos (devoção aos prazeres sensuais ou à austeridade extrema).
Pergunta 03 – Apesar dos Oito nobres caminhos focarem sempre na atitude, ou seja, na ação sentimental, uma vez que o ato seria fruto da Lei do carma, Buda também não fala em atos quando se refere às 5 virtudes: Não destruir a vida; não roubar; não cometer adultério; não mentir e não intoxicar-se com bebidas ou drogas?

Resposta – Se focarmos com mais atenção nestas cinco virtudes, podemos dizer que aqui também a ênfase é na atitude e não no ato. Vou explicar. Por exemplo, um espírito pode pedir como prova vencer a tentação de mentir ou de ser um viciado em bebidas alcoólicas. Se o pedido dele for aceito, ele precisa nascer com um ego, uma programação genética ou crescer em um ambiente que estimule a tentação que ele precisa vencer. E Deus sabendo se ele vai vencer ou não, e quando será essa vitória, vai utilizá-lo também como instrumento para as provações dos outros. Ou seja, enquanto ele for propenso a mentir, vai enganar aquele que tem merecimento negativo para ser enganado. A ação dele não pode afetar o gênero de provas de outro espírito humanizado. E o espírito que passa por esse tipo de provação, ao ouvir que é errado matar, enganar etc. terá um estímulo para vencer a sua prova. A misericórdia divina age dessa forma. Ela não afasta a prova de ninguém, mas traz elementos que podem ajudar a superá-la. Assim, mesmo
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que pareça que Buda esteja falando de atos, continua falando em atitudes: ter a vontade e a intenção de não matar ou de não mentir para fortalecer o espírito e esse vencer o ego, programado, justamente, para fazer o contrário: ter vontade de matar ou de mentir. Mas é preciso nunca se esquecer da “compreensão correta” que, como dissemos, é compreender que Deus é a causa primária de todas as coisas, agindo através da Lei do carma. Portanto, ninguém será enganado se não merecer, se não tiver que “expiar” o fato de ter enganado outros no passado. Comentário – Sendo a lei do carma uma lei universal inexorável, ela não depende da fé para acontecer. Cada um sempre vai colher o que plantou, daí a importância em viver o presente, sem preocupação com o passado ou com o futuro. O que somos hoje é fruto do que fomos ontem e o que seremos amanhã depende do que formos hoje. E a doutrina espírita traz um novo elemento para esse debate: o ensinamento que diz que antes de encarnar o Espírito escolhe um gênero de provas. Ou seja, além de possíveis “carmas de vidas passadas”, os fatos também acontecem na vida humanizada de um espírito em função das escolhas que fez antes de encarnar. E o espírito comunicante aponta uma diferença importante entre a individualidade e o ego. Este, normalmente, é criado como uma espécie de espelho invertido. Ou seja, se o Espírito pede uma prova para vencer o vício, o seu ego precisa estimular o vício para que a prova possa acontecer. Assim, o vício pode estar determinado na carga genética, como afirmam os cientistas, ser estimulado por um obsessor etc., mas o fato é que o Espírito está vivenciando a prova que, em tese, escolheu antes de encarnar. Assim, se ele for mais forte que a matéria e as tentações programadas em seu ego, vencerá a prova. Caso contrário, vai constatar, ao desencarnar, que ainda não é tão forte como imaginava ser e pede uma nova encarnação. Os atos como “frutos do carma”, ou seja, das intenções podem mudar conforme estas mudam. Aquele que hoje mente, rouba ou pratica outras ações que a sociedade não considera virtuosa, pode deixar de praticá-los quando o ego é controlado pelo Espírito, mas enquanto este foi o servo daquele, dificilmente as intenções positivas vão predominar sobre as negativas e o sofrimento será o
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resultado dessa escolha e a permanência na roda das encarnações inevitável.
Pergunta 04 – Para conseguir se manter no caminho do meio, Buda recomenda a prática meditativa. Mas a meditação não pode também ser uma forma de fuga?

Resposta – No ocidente, a meditação costuma ser pensada como um descanso para a mente, para relaxar ou para se acessar informações transcendentais. Não podemos dizer que tais concepções sejam erradas ou que não tenham valor. Mas, para Buda, o objetivo da meditação seria uma ferramenta útil para libertar-se dos desejos criados pelo ego, vencer a ilusão dos 5 agregados e, o mais importante, libertar-se do ódio guardado no coração. Alcançando essa meta, é possível libertar-se também do samsara (roda das encarnações), vivenciando com paz interior a vida humanizada, com todas as suas vicissitudes, positivas ou negativas. É preciso lembrar que Buda afirma ser importante não ter apego e nem aversão ao prazer, por isso não seria contrário ao uso da meditação para esse fim. Mas o importante é tentar manter-se no caminho do meio. Não é errado sentir prazer com a meditação, mas sofrer quando não se sente prazer meditando. Quando isso acontece, ela virou uma muleta. Para Buda, a busca do prazer ou a fuga do desprazer não são caminhos que levam para o nirvana. O importante é viver em paz, tendo ou não prazer, seja de qual tipo for. Se apegar ao prazer ou ter aversão a ele é causa, na certa, de sofrimento. Comentário – A meditação abordada por Buda ficou conhecida com o nome de Vipassana e há várias escolas que ensinam a técnica. O seu objetivo é o controle da mente. Esta meditação visa a autotransformação através da auto-observação. Afirma a tradição budista que ela deve ser ensinada de graça para quem desejar aprendêla. Com a prática da meditação Vipassana busca-se alcançar uma mente equilibrada, cheia de amor e compaixão. A prática meditativa é acompanhada pelo estudo de pelo menos dois sutras: o sutra da perfeição da sabedoria e o sutra do diamante, que podem ser facilmente encontrados na internet, com diferentes interpretações. Mas é importante salientar que para Buda nós já trazemos dentro de nós a semente da iluminação e depende apenas de nosso pró– 61 –

prio esforço fazê-la germinar e florescer. E, apesar do condicionamento dos fenômenos, a capacidade de respeitar ou de ser tolerante com todas as formas de vida é um atributo de nosso livrearbítrio. Podemos criar a paz e a harmonia sobre a Terra, mesmo sabendo que as formas materiais não possuem substancialidade e não são permanentes. Em suma, é possível enxergar e viver uma unidade na diversidade. E a prática da meditação Vipassana não visa fugir da realidade, mas ajudar o praticante a construir o seu próprio destino, no sentido de viver suas próprias experiências e tomar suas próprias decisões, sem precisar de um mestre ou guru. Não há mandamentos na Psicosofia de Buda, apenas um ponto de partida, mostrando que os frutos das intenções positivas, negativas ou neutras afetam naturalmente nosso destino, mas a escolha é sempre individual. Assim, procura valorizar o que podemos chamar de liberdade com responsabilidade. A meditação é uma prática universal no sentido de poder ser praticada por pessoas de qualquer religião, casta, classe social, etnia, raça etc. Ela não ameaça nenhuma cultura, ao contrário, se adapta a elas. Não é preciso se aculturar para colher os seus benefícios. A pessoa que a pratica corretamente vai compreender, gradativamente, que é responsável por tudo que lhe acontece e que não é vítima de um destino cego e nem de um Deus irado que pune ou distribui prêmios a seu bel-prazer, e de acordo com o seu humor. Por mais paradoxal que possa parecer, a meditação não visa manter o praticante prisioneiro de seus pensamentos, vagando por intuições vagas. Ao contrário, visa despertá-lo para que possa viver plenamente sua vida humanizada, consolidando o darma na vivência cotidiana, no contato com a realidade vivida. Os ensinamentos devem ser experimentados, mesmo sabendo que as formas materiais, as sensações, as percepções e as formações mentais são “ilusórias” ou impermanentes. Ao invés de fugir do mundo, a prática meditativa ajuda o praticante a viver mais alegre, saudável, com paz interior etc. no meio das tribulações da vida, com suas vicissitudes positivas e negati– 62 –

vas. A prática meditativa permite se abrir ao fluxo transformador da vida, permite se capacitar para vivenciar esse fluxo de transformações constantes, sem apegos ou aversões, pois não é a transitoriedade da vida que nos faz sofrer, mas o sentimento de posse pelas coisas matérias, por pessoas ou até mesmo por ideias, doutrinas e religiões.
Pergunta 05 – podemos falar agora um pouco sobre os cinco agregados ou candas que formam o ego?

Resposta – As formas materiais fazem parte dos instrumentos que Deus utiliza para realizar as provas que os Espíritos solicitaram antes de encarnar (questão 258 de O livro dos espíritos). As formas materiais é o primeiro agregado. Não somos donos de nada, e Deus nos empresta estes recursos enquanto forem úteis para as nossas provas. Por isso, quem se apega às formas das coisas sofre. É do apego que nasce o sentimento de posse e todo o julgamento que fazemos. Por isso é preciso compreender que a forma que a matéria possui é sempre perfeita para a provação dos espíritos encarnados. Quando aceitamos isso, deixamos de sofrer ou de ver coisas feias ou bonitas, certas ou erradas. É preciso se desligar da forma para enxergar a essência. E como já diz a ciência da Terra, a matéria é uma ilusão criada dentro do cérebro de vocês. E o segundo agregado é formado pelas sensações. Por sensações Buda entendia também todos os sentimentos que o ser humanizado nutre pelas coisas, pelas formas materiais, pelos acontecimentos e pelas pessoas. As sensações levam ao sofrimento porque não aceitamos que cada ser é diferente. Queremos que o outro seja uma cópia perfeita de nós mesmos e como isso é impossível, sofremos. Aprender a respeitar o direito de cada um ser da forma que quiser vai nos libertar do sofrimento. Isso não vai fazer com que deixemos de sentir, mas conhecendo nossas sensações podemos evitar dar vazão às sensações individualistas, aceitando que as diferenças entre os seres é também o fruto da ação de Deus. Ou seja, é preciso aceitar a “vontade” de Deus, compreendendo que tudo ocorre, ocorreu e ocorrerá por Sua vontade, pois não cai uma folha de uma árvore sem que Ele a faça cair. E isso nos leva a compreender qual deve ser a “percepção correta”. É aquela que aceita que toda ação de Deus é sempre Justa e amorosa, pois Ele
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sempre dá a cada espírito o que precisa e merece. Somente quando compreendemos que todos os atos são direcionados por Deus para recebermos o que precisamos e merecemos em cada momento de nossa existência é que nos libertamos do individualismo. Sofremos enquanto achamos que comandamos os nossos próprios atos e que podemos mudar os dos outros. E o quarto agregado são as formações mentais. E sofremos quando acreditamos que qualquer coisa no Universo pode acontecer independentemente da Inteligência Suprema. A “reforma íntima” que vocês tanto falam não acontece enquanto se acreditar na possibilidade de agir individualmente, esquecendo-se de que é necessário ser guiado por um amor sublime para que não haja desequilíbrio na balança universal. E o quinto agregado é a consciência ou a memória, que registra e arquiva as formas materiais, as sensações, as percepções e as formações mentais, fazendo a pessoa sofrer quando acontece algo que ela não concorda ou aceita. Tudo no Universo é interdependente e Deus é a causa primária de todas as coisas. Você não tem como se libertar dos cinco agregados, mas pode viver sua existência humanizada dentro da realidade universal quando compreende que todas as ações são comandadas por Deus. É por causa desse comando que existe sobre o planeta uma Justiça Perfeita e um Amor Sublime. Só quem não fez ainda sua reforma íntima acredita que vive em um mundo injusto e mal, e por isso sofre. Quem vive na realidade universal pode viver feliz e em paz, mesmo que em sua vida humanizada aconteçam ferimentos ou vicissitudes negativas. O papel da “reforma íntima” é esse: deixar de acreditar nos cinco agregados ainda na carne. Esse é o sentido também do termo “renascer de novo”. Muitos desencarnados permanecem presos aos cinco agregados por algum tempo, mas depois se libertam para planejar uma nova aventura encarnatória, mas para vencer a prova e não precisar mais reencarnar, é necessário libertar-se deles ainda na carne. Por isso, ninguém faz a reforma íntima alterando as formas, as sensações, as percepções ou as formações mentais, pois elas dependem do ego criado para cada espírito humanizado. Temos que aceitar que o ego já traz nele as formas, as sensações, as percepções e as formações mentais necessárias para sua provação. O ego começa a ser preparado após as escolhas das provas. Por isso, os cinco agregados são interdependentes.
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Muitos não conseguem fazer a reforma íntima porque o desejo é mudar os “cinco agregados” e, como não conseguem, passam a lamentar. Entendam que a reforma íntima consiste em abandonar, ainda na carne, a consciência individualizada (egoísta) para viver sua vida humanizada com a consciência universalista. E para isso acontecer, Deus cria uma prova a cada segundo de sua existência. Até mesmo uma dor de cabeça pode ser uma prova criada por Deus. Preso a uma consciência individualista, você vai acreditar que ela é o resultado de um problema no fígado, pois na visão individualista não há a presença de Deus. E você faz a sua reforma íntima quando inclui a premissa “Deus fez”. Obviamente que Ele não fez isso para te castigar, mas como um alerta, para mostrar que as suas percepções não são ainda universalizadas. Em outras palavras, o que quero dizer é que a sensação física “dor de cabeça” não é oriunda de um mal físico. Deus programou para você a sensação “dor de cabeça” sempre que o seu nervosismo, o seu desgosto ou a sua chateação atingir certo limite. É por isso que as dores físicas são frutos das percepções individualistas. Mudando a forma de encarar a vida, universalizando-se, é possível evitar a dor. E é isso também que Buda ensina. Ou seja, os sentimentos ou as sensações que podem causar dor (nervosismo, desgosto etc.) são essências que você aplicou a determinados acontecimentos, pessoas ou objetos. E Deus, com as suas leis, faz com que o individualismo reflita em uma dor física como um aviso para você alterar a essência que está aplicando às coisas.
– pode se dizer, então, que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional?

Resposta – tristeza, desgosto, angústia mental, perturbação... são formas de sofrimento. O ser humanizado sofre porque passou por um desgosto. E isso sempre acontece quando os seus anseios individuais não são contentados. Quando acontece algo que você não queria que acontecesse, reage com uma dessas sensações. Por isso, aquele que não consegue atingir aquilo que planejou sofre. Da mesma forma, aquele que se encontra com quem não gosta, sofre. Mas se Deus é a causa primária de todas as coisas, nossa liberdade está em conviver sao lado dos nossos “inimigos” sofrendo ou com felicidade. Comentário – para quem está acostumado com os textos budistas, as expressões do espírito que respondeu essa pergunta pare– 65 –

cem chocantes. Ele fala muito em Deus, o que é raro nos textos budistas, e não utiliza as expressões usuais do budismo. Porém, uma leitura mais profunda nos revela que ele não distorce os ensinamentos de Buda. O sofrimento, segundo Buda, é visto em três aspectos: 1. o sofrimento ligado ao nascimento, à morte, à velhice; por estarmos ligados às pessoas ou situações desagradáveis ou por estarmos distantes das pessoas ou situações agradáveis etc. 2. O sofrimento por causa das mudanças que acontecem no mundo, pois nada é permanente e com muita frequência muda para o seu oposto. Ou seja, são as vicissitudes. 3. o sofrimento resultante do sancara, ou seja, o conjunto dos candas, chamado pelo espírito de agregados do ego. A realidade, porém, segundo Buda, seria impermanente (anicca) e sem substancialidade (anatta). E o que chamamos de individualidade seria composta por cinco candas, uma combinação de fenômenos físicos e mentais. Para algumas escolas budistas, eliminando-se estes componentes não existiria mais nada, nem espírito, nem alma, nem ego etc. Porém, a visão do espírito comunicante é diferente, e nem poderia ser diferente, caso contrário ele não existiria, seria uma “ilusão”. Na opinião desse espírito, os agregados formariam o ego. Este sim seria impermanente e sem substancialidade. E para encarnar, o espírito, enquanto uma individualidade, precisaria se ligar a um ego, uma espécie de consciência ilusória que começaria a ser criada a partir do momento que a individualidade escolhe um gênero de provas para vivenciar na Terra. Assim o ego teria aspectos físicos (um corpo masculino ou feminino, gordo ou magro etc.) e também mentais (sensações, percepções, formações mentais etc.). Neste caso, ao retirar o ego encontraríamos o espírito que, segundo o Espírito Verdade, na questão 23 de O livro dos espíritos, “não é uma coisa palpável, para vós ele não é nada; mas para nós é alguma coisa. Sabei bem: o nada é coisa nenhuma, e o nada não existe.”

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Mas como já dissemos, não temos evidências de que Buda não acreditava na existência dos espíritos ou se não pretendia entrar em uma discussão metafísica sem fim. Ele mesmo dizia, como já salientamos, que sabia muito mais do que ensinava. Assim, pode ser uma visão reducionista de algumas escolas budistas a afirmação de que não existe uma individualidade, assunto que já comentamos acima. Voltando aos candas, Buda relacionou cinco: o da matéria, o das sensações, o das percepções, o das elaborações mentais e o da consciência, que seria a soma dos quatro anteriores. Os cinco, como um grupo, Buda chamou de sancara, e por ser o sancara o que nos mantém ligados à existência, é também causa de sofrimento. Nesse sentido, ser impaciente com o sofrimento não o elimina, apenas o torna mais agudo.
Pergunta 06 – os agregados do ego seriam as raízes do sofrimento, segundo o Buda?

Resposta – Não. As raízes do sofrimento consistem em três situações básicas da vida nas quais os cinco agregados espelham o nosso individualismo. Sempre que nossa ação é baseada em uma de suas raízes, há sofrimento. A primeira raiz é a contrariedade. Toda vez que nos sentimos contrariado com algum acontecimento, com alguma pessoa ou com algum objeto, sofremos. Ou seja, os nossos conceitos individualistas não foram contemplados. Sempre que você estabelece uma forma determinada para as coisas acontecerem, corre o risco de sofrer, pois o risco de ser contrariado aumenta. Por isso, se quer parar de sofrer liberte-se do achar que na vida carnal existe o certo e o errado. Por exemplo, vocês acham que a reforma íntima consiste em não condenar o outro que possui uma escala diferenciada de valor. Mas ainda acham que ele está “errado” ou que é “inferior”. A reforma íntima consiste em ser feliz mesmo nos momentos de contrariedade. Aquele que age amorosamente sobre tudo, dá a cada um a igualdade de ser diferente dele. Esse é o caminho para eliminar a raiz contrariedade que nutre o nosso sofrimento. E a segunda raiz que traz sofrimento para o ser humano é o sofrimento dos outros. Vocês acreditam que se solidarizar com o outro é passar pelos mesmos sentimentos que ele está passando e sofrer junto. Quem age assim,
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dissemina mais sofrimento pelo planeta. Compartilhar a dor do outro ser não leva à felicidade, mas prende o outro ainda mais na infelicidade. Quando alguém sofre, seu corpo está encharcado desse sentimento que realça o seu individualismo e Deus cria uma doença para ajudar a mudar o rumo de sua vida. E nós, frente àquele que sofre, devemos emanar amor. Esse é o sentimento universal que pode ajudar o outro a eliminar os seus individualismos, mostrando a ele que pode existir felicidade, mesmo quando os seus conceitos são contrariados. E a terceira raiz do sofrimento é o medo. E quanto menos Fé em Deus, maior é o medo. Fé é confiança e entrega absoluta a Deus. Todos os mestres afirmaram que para alcançar a felicidade absoluta é necessário confiar e entregar sua vida na mão de Deus. Não é errado sentir medo, é apenas um indicio de que ainda não estão extintas as verdades relativas, individualistas. Por isso, mesmo vocês que estão tentando fazer a reforma intima sentem medo. Assim, sem eliminar as raízes do sofrimento não é possível elevar-se espiritualmente. Esse deve ser o trabalho da reforma íntima. Não é mudando o mundo exterior que ela acontece, mas mudando interiormente, deixando-se de se contrariar com o mundo, mantendo-se sempre feliz. E você não precisa deixar de amparar o outro, só não precisa sofrer com o sofrimento dele, aceitando que a sua vida e a dele são guiadas por Deus. Percebam que para se fazer a reforma íntima é preciso acabar com as raízes do sofrimento, o que é feito quando deixamos de se apegar aos cinco agregados.
– Jesus venceu os cinco agregados, ou seja, vivenciou sua existência com consciência universal?

Resposta – Jesus sempre afirmou que apenas cumpria o desejo do Pai, logo, ele tinha consciência universal. Além disso, sempre alertou para não olharmos o cisco no olho dos outros, mas sim o graveto que se encontra em nossos próprios olhos. Ele demonstrou com o seu exemplo como é realizar a reforma íntima, ou seja, comprender a vida com os cinco agregados, mas dentro da verdade absoluta das coisas. E somente quem consegue fazer isso é capaz de amar o seu inimigo.

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Na verdade, aquele que você chama de inimigo é o seu verdadeiro amigo. Deus o colocou ao seu lado para você fazer a sua reforma íntima e não a dele. E isso não se faz somente não reagindo, mas não acusando sofrimento, não gerando formações mentais (pensamentos) que condenam os atos praticados. Todo sofrimento fere a Lei de Deus. Sofrer já é quebrar o mandamento divino, pois só sofremos quando deixamos de amar a Deus acima do que está acontecendo. Aquele que ama estará sempre feliz. A reforma íntima acontece quando manifestamos amor por Deus e pelo próximo. Por isso, toda reação que expresse sofrimento não conduz à elevação espiritual. Por isso não basta apenas se resignar. Se resignar é como fazer a poda em uma árvore. Para acabar com o sofrimento é preciso arrancar as “raízes do sofrimento”, como Buda ensinou. Comentário – como dissemos, para algumas escolas budistas o Eu, enquanto uma individualidade, é uma ilusão. Nesse sentido, acreditar que após a morte viveríamos como alma, espírito etc. seria uma ilusão criada pelo quarto canda. Apesar de não concordar com essa posição, o espírito comunicante em sua resposta valoriza a libertação do que chamou de atributos do ego para que se possa viver sem sofrer com o sofrimento alheio, sem medo e sem sofrer com as contrariedades. Aceitando a ideia de Deus enquanto causa primária de todas as coisas, agindo através da lei do carma, e que o espírito antes de encarnar escolhe um gênero de provas, o espírito, em sua resposta, apresenta o ego como um agregado do qual precisaríamos nos libertar ou dominar. E, quanto mais o ego vai sendo dominado pelo Espírito, mais livre e feliz vai sendo a vida humanizada deste ser. Além disso, libertando-se do ego (ou de suas verdades), mas aumentaria a capacidade de compaixão e de interesse pelo bem do próximo, uma vez que estes valores seriam atributos do Espírito, e que estavam apenas adormecidos. Quanto mais o Espírito se liberta do ego, menos limitado e mais amplitude mental passaria a ter, conseguindo agir com equanimidade em qualquer situação.

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Pergunta 07 – e a questão do sofrimento relacionado com o medo na morte. Buda aborda essa questão?

Resposta – Buda ensina que a elevação espiritual é como uma viagem que fazemos saindo do porto da “ignorância” com destino ao porto da “sabedoria”. O trajeto é feito através do mar do “conhecimento” sobre o barco do “ensinamento”. Porém, é necessário ao se atingir o porto da “sabedoria” abandonar o barco. Poucos fazem isso, e passam a adorar o ensinamento, criando idolatria. Em todas as religiões isso acontece. O verdadeiro sábio, como vocês já estudaram em Lao-Tsé, abandona a cultura para vivenciar os ensinamentos com simplicidade e humildade. Vocês consideram como sábios aqueles que possuem grande cultura, muito conhecimento. Mas isso é ilusão. Não adianta navegar pelo mar do “conhecimento”, dentro do barco do “ensinamento”, e não descer em nenhum porto. Quem age assim, não pertence mais ao porto da “ignorância”, mas ainda não vive no da “sabedoria”. Quem age assim, ainda se move pela soberba. O que desejam é serem louvados e não promover sua reforma íntima. Ou seja, são como as tumbas caiadas por fora, mas podres por dentro, como Jesus salientou. E porque essas pessoas agem assim? Por causa das quatro âncoras e dos quatro elos. E é deles que provém o medo da morte.
– E quais são essas âncoras?

Vamos falar sobre elas agora. A primeira ancora é a vontade de “ganhar” e o medo de “perder”. Quem age sempre buscando “ganhar”, mesmo que seja em campeonato de cuspe a distância, não conseguirá jamais viver no porto da “sabedoria”. E a segunda âncora é o desejo de alcançar o “prazer” e o medo do “desprazer”. O prazer é uma satisfação pessoal. Por isso, o verdadeiro sábio não procura se satisfazer, nem tem medo da insatisfação. Para ele tudo é felicidade, pois vive em harmonia com o universo, acolhendo de bom grado tudo aquilo que Deus lhe dá. A terceira âncora é a busca do “elogio” e o medo da “crítica”. O pseudosábio alcança prazer quando é elogiado e as críticas que recebe ferem sua soberba. Por isso, os pseudo-sábios se preocupam com o elogio e temem a
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critica, pois essa retiraria dele a posição de sábio. Paradoxalmente, o ser universalista deve se preocupa apenas com sua própria elevação. Ele não dá a mínima para aquilo que os demais “pensam” dele. O importante para quem atingiu o “porto da sabedoria” é viver permanentemente em contato com a fonte universal, com Deus. Os sábios vivem para Deus enquanto os pseudo-sábios vivem para se satisfazer. E isso nos leva até a quarta âncora: a busca de “fama” e o medo da “infâmia”. Aquele que vive para servir a Deus não se preocupa se os atos serão reconhecidos pelos outros ou não. Quem atingiu o “porto da sabedoria” sabe que todo mérito pertence a Deus. Quem ainda não chegou ao “porto da sabedoria” acredita que seus conhecimentos são verdades absolutas e não aceita contradições. É por isso que os pseudo-sábios querem sempre se impor pela força, desacreditando aquele que o difamou. O sábio é aquele que não se impressiona com conhecimentos opostos ao que já possui. Seu papel não é o de combater as novas informações, mas de se aproximar de Deus. Sabendo que todo novo ensinamento é uma nova verdade relativa, vai usá-la para se aproximar um pouco mais da verdade absoluta do universo. Aquele que briga por conhecimentos, não está defendendo suas “ideias”, mas a si mesmo. Se não se mantiver como “o culto”, perderá sua fama, acabarão os elogios que inflam o ego e deixará de ganhar, não sentido mais o prazer em se achar superior aos demais. O sábio, ao contrário, é aquele que sabe que não tem nada a perder, pois tudo que possui lhe foi dado por Deus. Ele não alcança o desprazer, pois vive plenamente na felicidade universal (a bem-aventurança prometida por Jesus) que só é alcançada pelos puros de coração. O sábio é aquele que reconhece que suas verdades são relativas e que apenas Deus possui a verdade absoluta das coisas. E, assim, não tem medo da infâmia. Mas para chegar à condição de sábio e não temer a morte é preciso quebrar os quatro elos que prendem o ser humano às quatro âncoras acima. E esses elos estão descritos no sutra Anguttara Nikaya IV .184 – Abhaya Sutta. São eles: o apego aos prazeres sensuais, o apego pelo corpo físico, o egoísmo e a descrença no dharma, o ensinamento de Buda.
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Comentário – como já salientamos, segundo os ensinamentos de Buda, as formas materiais são impermanentes e não possuem substancialidade, algo que parece ser confirmado atualmente pela chamada ciência quântica. Enfim, na essência, tudo o que chamamos de matéria não passa de energia. Porém, são as percepções, através dos sentidos, que criam as sensações e as emoções baseadas em algo que não é real, como acontece quando assistimos a um filme e nos emocionamos com as histórias dos personagens. Portanto, sentir frio ou calor, medo, raiva etc. são sensações e emoções que sentimos por acreditar nas percepções que nos chegam do mundo exterior, mas que são “ilusórias”, pois foram criadas dentro de nós, no cérebro, a partir das diferentes ondas sonoras, visuais, olfativas etc. captadas pelos sentidos. Do “lado de fora” podemos dizer que só existem ondas energéticas das mais variadas vibrações. E, por causa das sensações e emoções, criamos também pensamentos ilusórios, ou seja, irreais, pois se estruturam em fatos cuja existência é uma “sombra”, como no mito da caverna de Platão. Desconhecendo a Realidade, passamos a julgar, a criticar e a condenar algo que não está, de fato, acontecendo. São como miragens que só existem em nossa mente. Ao fazer isso, deixamos de amar universalmente, além de deixarmos escapar o que temos de mais sagrado em nossa alma: a felicidade. Além disso, passamos a ter medo da morte, por ser algo desconhecido, uma vez que só lidamos com a morte do outro. Para os espiritualistas, de uma forma geral, ou seja, os que acreditam na existência de uma individualidade que sobrevive a morte física, não deveria existir o medo da morte. Porem, iludidos pelos “cinco agregados”, manifestamos ódio, raiva etc. e nos tornamos infelizes, sofrendo quando alguém morre e temendo nossa própria morte. Por fim, devido à memória, nos apegamos às formas, às percepções, às sensações, aos pensamentos do passado, esquecendo-se de viver plenamente o presente. Nos apegamos a um passado que não mais existe e sofremos ao remoer as sensações e emoções que já se foram, sobretudo quando relacionadas aos entes queridos que morreram, ou pautamos a nossa vida por projeções de um
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futuro que pode não acontecer e que nos leva a sofrer por antecipação, a chamada pré-ocupação. Daí a necessidade de se libertar dos “cinco agregados” para vivermos de forma amorosa e feliz nossa existência humanizada, e isso se faz não acreditando neles. Mas, além dos cinco agregados, existem as quatro âncoras que o espírito salientou em sua resposta (a vontade de ganhar e o medo de perder; buscar o prazer e o medo do desprazer, a busca por elogio e o medo da crítica e, por fim, a busca pela fama e o medo da infâmia). E os quatro elos que o espírito afirmou prender o ser humano a essas âncoras estão descritas no sutra Anguttara Nikaya IV .184 – Abhaya Sutta, que pode ser acessado, na internet, através do endereço http://www. acessoaoinsight.net/sutta/ANIV .184.php. Quem, em tese, liberta-se desses “elos”, não teria porque temer a morte e estaria em paz diante dessa inevitável realidade, da qual ninguém escapará, mais cedo ou mais tarde.

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ANEXO
O texto a seguir é parte de uma palestra realizada pelo espírito Pai Joaquim de Aruanda, através da mediunidade de Firmino José Leite. Nele é feito um comentário ao sutra Buda Anguttara Nikaya V.161 – Aghatapativinaya Sutta, e foi retirado no site do movimento Espiritualismo Ecumênico Universal, mantido pelo médium: www.meeu.com.br. A obra realizada pelo médium/espírito foi tema do primeiro livro desta coleção, chamado “História Oral, Imaginário e Transcendentalismo: mitocrítica dos ensinamentos do espírito pai Joaquim de Aruanda”. Resolvemos colocar este texto como anexo para mostrar a interpretação que o espírito, que realiza frequentemente palestras pela internet, faz de um sutra budista.
Existem cinco maneiras para subjugar a raiva, através das quais quando a raiva surge em um bhikkhu ele deveria destruí-la completamente. Quais cinco?

Ter raiva é sofrer. O ser humano que sente raiva de outro entra num processo de angústia e amargura que extermina a sua paz interior. Por isso, Buda, aquele que propõe o alcançar a paz interior como realização da elevação espiritual, nos ensina como vencer a raiva. Vamos analisar o seu discurso sobre o assunto a partir da visão do EEU (Espiritualismo Ecumênico Universal). Mas antes, precisamos falar um pouco sobre raiva. A raiva é uma contrariedade forte, violenta. Toda vez que um ser humano se contraria fortemente com as palavras ou atitudes de outra pessoa ela sente raiva desta. Por isso, precisamos conversar um pouco sobre contrariedades para entendermos melhor o assunto. O que é uma contrariedade? Toda vez que um ser humano age ou fala palavras que contrarie as verdades de outro ser, este se sente contrariado. Na verdade, não foi ele quem foi contrariado, mas as opiniões dele. Ser contrariado é estar exposto a opiniões e ações que não concordamos, ou seja, que para nós não se constituem em uma verdade ou realidade.
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Existem muitas contrariedades que o ser humano não liga. São coisas de pequenas montas que acontecem no dia a dia e que ferem nossos conceitos. Mas, por não representarem aparentemente uma afronta grande, não ligamos para elas. É aí é que começa o equívoco do ser humano. Qualquer contrariedade, por menor que seja – não guardar as coisas onde se acha certo que elas estejam, um pequeno atraso, uma palavra mal colocada – fica marcada na memória do ser humano. Não existe momento em que somos contrariados que a marca não fique guardada. Por isso, toda e qualquer contrariedade precisa ser trabalhada, precisa ser curada. Se não, o acúmulo delas pode levar à raiva. A raiva surge, então, do acúmulo de contrariedades que vamos tendo no dia a dia com determinadas pessoas. A cada vez que não trabalhamos a contrariedade ela vai gerando marcas em nossa memória e, quando vemos, aquilo que era apenas uma contrariedade virou uma raiva. Mas, não para por aí. A raiva pode transformar-se em ódio. A raiva surge do acúmulo de contrariedades, mas quando ela aparece, as contrariedades não cessam. Pelo contrário: tornamo-nos mais intransigentes com aquela pessoa e por isso vamos observando cada vez mais as contrariedades e plantando-as em nossa memória. É através deste processo que a raiva se transforma em ódio. Ou seja, o ódio, sensação que leva o ser humano a vivenciar um grande sofrimento, começa nas pequenas contrariedades do dia a dia. Por isso, neste trabalho, quando analisarmos os ensinamentos de Buda não estaremos nos referindo diretamente à raiva, mas buscando usar o que ele ensina para vencer as pequenas contrariedades do dia a dia.
Quando surge a raiva em relação a uma pessoa, ele deve desenvolver a boa vontade para com aquela pessoa. Dessa forma, a raiva por aquela pessoa deve ser subjugada.

“Desenvolver a boa vontade para com aquela pessoa”: o que quer dizer isso? Vamos conversar sobre o tema. As contrariedades surgem quando há um desacordo entre o que cada um dos envolvidos num relacionamento acha verdade ou certo. Ela existe porque a verdade ou o certo do outro contraria a sua verdade ou seu certo. Mas, o que é o nosso certo ou verdadeiro?
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Cada ser humano é exposto diariamente a centenas de informações. Estas informações são analisadas pela mente a partir de conceitos pré-existentes na memória. Cada vez que uma informação se coaduna com o conceito que está na memória ela é considerada certa ou verdadeira. Mas, como se formam os conceitos pré-existentes na memória? Somos o resultado do meio que vivemos. A cultura de cada povo, região, cidade, bairro ou mesmo núcleo familiar possui um grupamento específico de informações às quais dá o valor de verdade e certo. Acontece que estes grupamentos diferem entre si. Nos países ocidentais, por exemplo, a cultura afirma que só se pode ter uma esposa, nos árabes ela já é diferente: o homem pode ter mais mulheres. Entre os jovens, atitudes irresponsáveis são consideradas como atos perfeitos, entre os mais velhos isso já não acontece. Quem está certo? Todos os dois... O certo e o errado não são absolutos, ou seja, não servem para todos e não permanecem por toda a existência sem mudanças. Na verdade, a avaliação de certo ou errado aos conselhos, depende do momento da existência de cada um ou do grupo social onde se vive. Na verdade, ela é relativa, ou seja, depende de cada um. Por isso cada um tem o direito de achar certo e verdadeiro aquilo que achar naquele momento. Não se pode criar um estatuto rígido que sirva para todos ao mesmo tempo. É fundamentado neste conhecimento sobre a relatividade da avaliação de certo e errado que Buda ensina que devemos ter boa vontade com todos. Você tem o direito de ter o seu padrão de certo e verdadeiro, mas o outro também o tem. Querer impor ao outro o que aquilo é verdade para você só leva à contrariedade. Isso porque o outro não vive a sua vida, ou seja, não vivencia a existência dele com os mesmos valores que você. Aliás, aproveitando que estamos falando com espiritualistas, exigir do próximo que ele tenha as mesmas avaliações que você é querer retirar dele o livre-arbítrio. Acreditamos que Deus deu a cada um o direito de livre optar por qualquer coisa. Exigimos para nós este direito, mas não o estendemos ao próximo. Escolher um padrão próprio de certo e verdadeiro é o exercício do livre-arbítrio que se foi dado por Deus a cada um não pode ser retirado por ninguém. Este é o caminho da boa vontade que Buda ensina que leva ao fim da contrariedade e com isso evita a existência da raiva e do ódio: dar ao outro o direito de exercer o seu próprio livre-arbítrio.
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Quando alguém faz ou pensa coisa diferente de você, ao invés de se contrariar, diga: ‘ele tem o direito de fazer ou pensar aquilo que achar melhor para ele’. Este é o exercício da boa vontade. Concedendo ao próximo este direito não existirá contrariedade, apesar de continuar existindo a não similitude entre o que você e o outro acham certo ou verdadeiro. Desenvolver a boa vontade com o outro não é acreditar no que ele acredita ou fazer o que ele faz, mas apenas dar ao próximo o direito de ser diferente de você. Isso leva ao fim da contrariedade, da raiva e do ódio. Leva ao fim do seu sofrimento.
Quando surge a raiva em relação a uma pessoa, ele deve desenvolver a compaixão para com aquela pessoa. Dessa forma, a raiva por aquela pessoa deve ser subjugada.

Compaixão é algo muito diferente daquilo que nós humanos imaginamos que deva ser. Acreditamos que ter compaixão por uma pessoa é sofrer a tristeza que ela está sentindo. Isso não é realidade. Quem sofre não consegue transmitir o que ele mais precisa no momento de sofrimento: alegria! Quem está sofrendo precisa ser animado, fortalecido, para poder sair do estado de espírito que se encontra. Como animar alguém se o animador também está desanimado? Costumamos dizer que sofrer é como alimentar-se de um alimento que não gostamos. Jiló, por exemplo. Quem está sofrendo está ingerindo uma porção de jiló e precisa de alguém que coloque em seu prato algo que o ajude a deglutir aquele alimento. Ao invés disso, quando vivemos o momento com a compaixão como entendemos, colocamos mais jiló em seu prato, ou seja, aumentamos o sofrimento daquele que já está sofrendo. Ter compaixão pode ser definido como ter a consciência do sofrimento que pode causar a si ou ao outro. Quem sente verdadeiramente compaixão pelo próximo, ao invés de sofrer junto com ele, busca animá-lo com felicidade e alegria para não aumentar o seu sofrer. É esta compaixão que Buda ensina. Quem sente contrariedade com a palavra ou ação do outro e tenta corrigilo aumenta o sofrer do próximo. Mesmo que a contrariedade não gere a briga ou discussão, apenas a tentativa de corrigi-lo já traz embutida em si
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uma acusação, uma crítica. Esta por si só já traz sofrimento a quem está sendo criticado. Portanto, para vencer a contrariedade que acaba levando à raiva, tenha compaixão do outro: pense no sofrimento que irá causar ao próximo com sua crítica. Para isso, lembre-se: ele tem o direito de ter o seu certo e verdadeiro. Mesmo que você saiba que o padrão de certo ou errado leve aquele ser humano mais tarde a sofrer, não o faça sofrer agora. Evite discordar do próximo para não fazê-lo sofrer... Um dos instrumentos ensinados pelo Espiritualismo Ecumênico Universal para isso é ‘a doação da razão’. Sempre que discordamos de alguma coisa que alguém acredita buscamos debater o assunto para poder ao fim ficar com a razão. Mas, será que isso é importante? Ter a razão significa vencer a discussão. Quem dá a última palavra acha sempre que conseguiu dobrar o próximo e impôs aquilo que acreditava. Mas, para que você quer vencer? Para poder gabar-se de estar certo? Qual o preço que você paga por isso? Será que vale a pena expor-se a arquivar contrariedades que futuramente lhe levarão à raiva ou ao ódio? Quem vai sofrer no final das contas? Você mesmo... Portanto, por compaixão, ou seja, por consciência do sofrimento que pode causar àquela pessoa agora e a você no futuro, doe a razão.
Quando surge a raiva em relação a uma pessoa, ele deve desenvolver a equanimidade para com aquela pessoa. Dessa forma, a raiva por aquela pessoa deve ser subjugada.

Equanimidade quer dizer igualdade de ânimo, ou seja, sentir apenas uma coisa por uma pessoa, não importa o que esteja se vivendo. Buda ensina que devemos ter apenas um sentimento com relação às pessoas, pois isso acaba com a contrariedade e estanca a possibilidade de sofrermos mais tarde. Que sentimento é esse? Aquele que já nutrimos por aquela pessoa. Os seres humanos afirmam que gostam, amam ou têm amizade por alguém, mas na verdade eles só nutrem estes sentimentos quando os outros atendem os anseios e expectativas deles. Se em determinado momento a outra pessoa, num mínimo detalhe, entra em contradição com aquilo que eles acreditam ou acham certo, todo este sentimento extingue-se.
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Quem ama, o faz o tempo inteiro e não apenas nos momentos em que o próximo satisfaz seus conceitos. Quem gosta, gosta o tempo inteiro e não apenas quando o outro está de acordo com suas verdades. Quem tem amizade é sempre amigo do outro, mesmo quando este não possui tudo aquilo que nós temos. Se a emoção não permanece, isso quer dizer, então, que ela não existe realmente. Gostar, amar e ter amizade por uma pessoa não devem ser emoções que tenhamos por alguém apenas quando ela nos satisfaz. Quem vive desse jeito, além de não ter realmente estes sentimentos pelo outro, está expondose ao risco de em qualquer contrariedade decepcionar-se com o próximo e com isso buscar o seu próprio sofrimento.
Quando surge a raiva em relação a uma pessoa, ele não deve empenhar a sua mente ou dar atenção para aquela pessoa. Dessa forma, a raiva por aquela pessoa deve ser subjugada.

Grande conselho de Buda: não empenhar a sua mente e dar atenção à pessoa que nos causa contrariedade. Existe um ditado que diz: Deus deu uma vida para cada pessoa, para que cada um tome conta da sua. Ao invés disso, vivemos empenhando nossa mente para prestar atenção na vida dos outros. Isso causa sofrimento. Todos somos diferentes. Não existem duas pessoas que acreditem ou dêem o valor de certo em mesmo gênero, número e grau a um mesmo conceito. Por isso, quando ficamos atentos aos outros, certamente vamos descobrir contrariedades entre o que ela acha, pensa e faz com o que achamos, pensamos e fazemos. Por isso, o melhor é cada um tomar conta apenas de si mesmo. Cristo nos ensinou: Você repara o cisco nos olhos dos outros, mas não vê a trave que está no seu olho. Somos naturalmente juízes do mundo. Vivemos constantemente observando as ações e crenças dos outros e comparando-as com as nossas. Isso causa sofrimento... Para não sofrer é preciso que nos mantenhamos constantemente focados em nós mesmos e demos aos outros a liberdade de ser, estar e fazer o que bem entender.

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Quando surge a raiva em relação a uma pessoa, ele deve dirigir os seus pensamentos para o fato de que aquela pessoa é o produto do carma dela: ‘Esse venerável é o agente do seu carma, herdeiro do seu carma, nascido do seu carma, atado ao seu carma e dependente do seu carma. Qualquer carma que ele faça, para o bem ou para o mal, disso ele será o herdeiro. Dessa forma, a raiva por aquela pessoa deve ser subjugada.

Carma é algo que os seres humanos entendem muito pouco. Por nossa tendência a crer no pecado, no mal e nas suas consequências, achamos que o carma é o castigo que cada um recebe por suas ações negativas, mas isso não é verdade. Carma é a consequência natural de uma ação, seja ela uma condenação ou premiação. O Universo é regido pela lei da causa e efeito, ou seja, a cada movimento nosso, geramos uma ação como efeito do que foi feito. Isso é o carma: o efeito de uma causa. O carma é o motor que movimenta o Universo. Sem ele, tudo seria estático, pois o que hoje foi gerado não teria uma reação e com isso o Universo permaneceria estático. Quando Buda nos afirma que a outra pessoa – as suas crenças e conceitos – são o produto do carma dela, quer dizer que o que ela acredita é a reação ao que ela viveu em momento anterior. Se uma pessoa, por exemplo, tem medo de velocidade, pode ter certeza que isso é uma reação a um perigo ou acidente que esta pessoa já sofreu em um momento passado quando estava se deslocando em alta velocidade. Se você não tem este medo, é sinal de que nunca vivenciou uma ação desse tipo. Não ter o medo, portanto, é o seu carma, enquanto que o dela é tê-lo. Vivenciando a vida a partir dessa verdade, podemos encarar as contrariedades de uma forma simples – diferença das vivências das pessoas – ao invés de imaginar que o outro está errado. Quem não entende que os conceitos de uma pessoa são o carma da sua vivência na vida, vive contrariado com o que ela acha certo ou acredita como verdade. Para estes, Buda faz um alerta neste trecho: Qualquer ação que se faça, para o bem ou para o mal, disso você será o herdeiro. A lei do carma – a reação a uma ação – é inexorável. A certeza de que cada ação gera sempre uma reação nos transforma em herdeiro daquilo que fazemos.

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Já nos ensinava Salomão: Quem semeia vento, colhe tempestade. Se você anda pelo mundo com sua mente atenta aos conceitos do outro, colherá contrariedade e com isso sofrerá. Não por castigo ou penalidade, mas como justa consequência da sua própria ação.
Essas são as cinco maneiras para subjugar a raiva, através das quais quando a raiva surge em um bhikkhu, ele deveria destruíla completamente.

Desenvolvendo a boa vontade, a verdadeira compaixão e a equanimidade pelos outros, mantendo a sua atenção na sua própria vida, ao invés de cuidar das dos outros e compreendendo que a vida é uma sucessão de carmas, ou seja, de consequências de ações anteriores, evita-se as contrariedades e com isso extingue-se a possibilidade da raiva, do ódio e do sofrimento.

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CONCLUSÃO
Com este livro encerramos a coleção Cultura de Paz e Mediunidade. De 2003 a 2008, através de vários médiuns, muitos prováveis espíritos foram entrevistados. E o livro é publicado no mesmo ano em que completo 20 anos de experiência com a História Oral, iniciada no Grupo Abaçaí Cultura e Arte, na cidade de São Paulo. Da experiência em coletar depoimentos sobre cultura popular, alimentação e outras informações através desta metodologia qualitativa das ciências humanas, acabei, em 2001, tendo a ideia de entrevistar os “espíritos”, após conhecer dois médiuns kardecistas na cidade de São Carlos. Dois anos foram necessários para organizar as primeiras reuniões e começar as pesquisas. Ingenuamente, imaginei que teria o apoio das Universidades brasileiras para fazer as pesquisas, uma vez que estava propondo um método para coletar informações: organizar reuniões mediúnicas e entrevistar os prováveis espíritos sobre vários assuntos de interesse da humanidade, como fez Kardec no século XIX, antes do movimento espírita se institucionar e virar um movimento sócio-religioso, porém, sem preocupação em descobrir quem estava respondendo. Cientificamente não temos como saber se quem responde é um espírito, ou seja, a alma de um morto; um demônio, como afirmam as religiões neo-pentecostais ou até mesmo o inconsciente do próprio médium. Mas alguém responde e o objetivo das pesquisas era trabalhar com as respostas, com o conteúdo das mensagens. No caso das entrevistas com o espírito pai Joaquim de Aruanda, que se manifesta através do médium Firmino José Leite, todas foram gravadas em vídeo e contabilizaram cerca de 30 horas de gravação. No youtube, no canal homospiritualis, o interessado pode ver vários vídeos. E sobre os ensinamentos de Buda, na visão deste espírito, há duas séries: 1. do porto da ignorância ao porto da sabedoria: http://youtu.be/Il9pjjAT_lw
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2. as quatro âncoras: http://www.youtube.com/watch?v=YzY9g5T4TO0 Em 2010, iniciamos a organização desse material e, com o auxílio do projeto Homospiritualis, foi possível organizar sete livros, entre eles, este que apresenta a opinião dos espíritos sobre os ensinamentos de Lao-Tsé, Krishna e Buda. E esse enfoque que acabamos criando foi denominado Espiritologia para diferenciar do espiritismo, o movimento sócioreligioso que se considera cristão e que é avesso aos ensinamentos orientalistas, considerados “não-doutrinários”. Mas a Espiritologia não se preocupa com doutrina e nem com proselitismo. Ela é empírica e científica, consistindo apenas e na prática da História Oral com os supostos espíritos. E, da mesma forma que se deve respeitar o depoimento de um “encarnado”, o mesmo deve ser realizado com o depoimento de um “morto”. Vou dar um exemplo. Recentemente, um amigo médium psicografou um livro com mensagens sobre animais no mundo espiritual. O centro espírita onde ele fez as psicografias enviou os originais para uma editora espírita que resolveu publicar o livro, mas fez várias mudanças, retirando as informações que os editores consideraram “não-doutrinárias” ou seja, que não se coadunavam com os ensinamentos organizados por Kardec. Quando o médium viu as mudanças não aceitou, pois queria que o livro fosse publicado do jeito que o suposto espírito escreveu. Porém, a editora afirmou que só publicaria com as mudanças propostas no conteúdo nas mensagens. Como o centro espírita desejava a publicação do livro, aceitou as mudanças. O médium, por sua vez, não concordou e pediu para o seu nome não sair no livro, colocando no lugar um pseudônimo. Esse fato não acontece na Espiritologia. O que o médium/ espírito diz vale com discurso e não em relação com alguma doutrina já instituída. Como a proposta da Espiritologia é ouvir para compreender, ou seja, sua proposta é mais acadêmica do que dou– 83 –

trinária, todas as opiniões são importantes e são estudadas, mesmo que elas não defendam ou legitimem uma determinada doutrina religiosa. Muitos budistas que viram os vídeos de pai Joaquim na internet, por exemplo, criticaram sua interpretação sobre os ensinamentos de Buda, uma vez que ele faz muita relação à Deus, a Jesus e ao espiritismo; por outro lado, muitos espíritas o classificaram de zombeteiro e mistificador. Não preciso nem dizer que os evangélicos o chamam frequentemente de demônio. Porém, no caso da Espiritologia, o depoimento dele é tão importante quanto ao de algum lama ou dirigente de centro espírita. Não estamos preocupados em dizer se ele está certo ou errado, mas a sua interpretação de um texto sagrado tem valor em si mesmo, concordemos ou não com ele. O que podemos fazer é compará-lo com o de outros intérpretes dos mesmos textos. Em suma, a Espiritologia não legitima o espiritismo, apenas é um método de pesquisa que se baseia em entrevistas com supostos espíritos, realizadas com a presença de médiuns em reuniões organizadas para esse fim. Obviamente, o processo pressupõe a aceitação do médium/espírito pra participar da pesquisa. Alguns aceitam falar, mas não que sejam gravados. Outros preferem que a entrevista seja feita por psicografia. Outros não querem que seus nomes sejam revelados. Enfim, é preciso respeitar cada participante. E no caso particular deste livro, será que estes mestres, cujas Psicosofias foram aqui discutidas, viveram em vão? Obviamente que não. São milhões de pessoas espalhadas pelo mundo que há milênios pautam suas vidas pelos ensinamentos que eles deixaram. Podemos dizer que hoje o acervo cultural e histórico que foi gerado a partir do culto e do respeito a esses ensinamentos é um patrimônio da humanidade. E, o que é muito importante, em vários aspectos eles podem ser complementares. Enfim, com esta modesta pesquisa esperamos ter demonstrado como a religiosidade pode ser um campo de estudo científico. E uma das ferramentas para isso é a mediunidade, não aquela
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usada para fins doutrinários ou proselitismo, como se alguma religião fosse a dona dos espíritos, mas como um recurso para ouvir os depoimentos dos “seres incorpóreos” que se manifestam, em tese, através de médiuns. E as mesmas perguntas podem ser formuladas para outros prováveis espíritos, em outras regiões do planeta e as respostas comparadas, uma vez que os espíritos se manifestam em todos os locais, independentemente da classe social do médium ou, religião, gênero etc. Encerrando essa coleção de livros, quero aqui agradecer a todos os espíritos, médiuns e demais pessoas que ajudaram a tornar concreta esta pesquisa. A semente foi, portanto, semeada. Se germinar será graças a vontade de Deus.

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