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fotografia sem fronteiras

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s a l i d a d e s

2016

fotografia sem fronteiras

Título Transversalidades 2016 – fotografia sem fronteiras Coordenação Rui Jacinto Júri do Concurso António
Título
Transversalidades 2016 – fotografia sem fronteiras
Coordenação
Rui Jacinto
Júri do Concurso
António Pedro Pita | Henrique Cayatte | Jorge Pena | Lúcio Cunha | Rui Jacinto
Santiago Santos | Susana Paiva | Valentín Cabero | Victorino García
Textos
Rui Jacinto | Helena Freitas | Caio Maciel e Priscila Vasconcelos | Teresa Pinto-Correia | João Rua
José António Bandeirinha | Sandra Lencioni | Clara Almeida Santos | Maria Tereza Duarte Paes
Produção
Alexandra Isidro | Ana Sofia Martins
Revisão
Ana Sofia Martins | Ana Margarida Proença
Concepção e montagem da exposição
António Freixo, Arménio Bernardo, Renato Coelho,
Eduardo Martins, Alcides Fernandes e Ricardo Pereira
Design | pré-impressão
Via Coloris, Design de Comunicação, Lda.

Impressão | acabamento

Marques e Pereira, Lda.

Tiragem

1000 ex.

Depósito legal

335972/11

ISBN

978-989-8676-11-5

Edição

Centro de Estudos Ibéricos R. Soeiro Viegas, 8 6300-758 Guarda www.cei.pt

O Centro de Estudos Ibéricos respeita os originais dos textos, não se responsabilizando pelos conteúdos, forma e opiniões neles expressos. A opção ou não pelas regras do Novo Acordo Ortográfico é da responsabilidade dos autores.

neles expressos. A opção ou não pelas regras do Novo Acordo Ortográfico é da responsabilidade dos
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neles expressos. A opção ou não pelas regras do Novo Acordo Ortográfico é da responsabilidade dos
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2016

fotografia sem fronteiras

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Poéticas do olhar: imagem e cultura territorial

Rui Jacinto

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Melhor portfólio

Tema 1

Paisagens, biodiversidade e património natural

19

20

Imagens premiadas

Tema 2

Espaços rurais, agricultura e povoamento

65

66

Imagens premiadas

Tema 3

Cidade e processos de urbanização

109

110

Imagens premiadas

28

Património natural, paisagens e biodiversidade

Helena Freitas

72

Espaços rurais, agricultura e povoamento

Teresa Pinto-Correia

118

Uma Região de Cidades

José António Bandeirinha

Tema 4

Cultura e sociedade: diversidade cultural e inclusão social

149

150

Imagens premiadas

202

Legendas

159

Conhecer, amar e cuidar: às vezes, há (a) casos assim

Clara Almeida Santos

30

Imagens a concurso

74

Imagens a concurso

121

Imagens a concurso

161

Imagens a concurso

5
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í n d i c e

50

Fotografia de paisagem: uma retórica contundente acerca da natureza

Caio Maciel e Priscila Vasconcelos

95

E no interior do Estado do Rio de

Janeiro ainda se dança o fado

João Rua

136

A cidade e suas contradições

Sandra Lencioni

185

Cultura, imagens e paisagens

Maria Tereza Duarte Paes

54

Imagens a concurso

99

Imagens a concurso

139

Imagens a concurso

190

Imagens a concurso

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Poéticas do olhar: imagem e cultura territorial

Rui Jacinto *

“As imagens são mediações entre o homem e o mundo. O homem «existe», isto é, o mundo não lhe é acessível imediatamente. As imagens têm o propósito de lhe representar o mundo. Mas ao fazê-lo, entrepõem-se entre mundo e homem. O seu propósito é serem mapas do mundo, mas passam a ser biombos. O homem, ao invés de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver o mundo em função de imagens. Cessa de decifrar as cenas da imagem como significados do mundo, mas o próprio mundo vai sendo vivenciado como um conjunto de cenas.” (Flusser, 1998: 29)

como um conjunto de cenas.” (Flusser, 1998: 29) eografia e imagem: cultura visual, memória territorial .

eografia e imagem: cultura visual, memória territorial. O homem sempre recorreu à imagem para (d)escrever o mundo que o rodeia e imaginar o lugar que nele pensa ocupar. A sua relação com território também se constrói a partir de imagens pois

“os mecanismos da aculturação e da alienação impõem aos homens uma certa imagem dos lugares onde vivem, do seu espaço, da sua região. E essa imagem, aceite, recalcada ou recusada, constitui um elemento essencial das combinações regionais, o laço psicológico do ho- mem com o espaço, sem o qual a região seria apenas a adaptação de um grupo a um meio, ou um encontro de interesses dum espaço dado” (Fremont, 1980: 109). Num tempo onde o real e o virtual cada vez mais se (con)

fundem, a geografia vivida resulta da incorporação de sinais e a apropriação de imagens que os lugares emitem.

É por tudo isto que “todos os lugares começam por ser

nomes, lendas, mitos, narrativas. Não existe geografia que nos seja exterior. Os lugares – por mais que nos sejam desconhecidos – já nos chegam vestidos com as nossas projecções imaginárias. O mundo já não vive fora de um mapa, não vive fora da nossa cartografia interior” (Mia Couto, Interinvenções: 78).

A história da arte ensina-nos que, apesar das mudanças ocorridas, na forma e no conteúdo, as imagens continuam

a ter uma tremenda importância social. Nos tempos mais

recentes, o desenvolvimento científico conferiu-lhes um papel novo e acrescido, pois, em muitas circunstâncias, são a única possibilidade de acedermos a certos processos, fenómenos, objetos, lugares, rostos. O enorme inves- timento feito nas técnicas de fabrico e de reprodução de imagens decorre deste facto, evolução que ditou o progressivo distanciamento entre as imagens e o olhar, ao ponto de, hoje, não vermos o que vêm os olhos humanos, mas o que é construído em computadores. A imagem,

por este facto, está mais ausentes de referências corpóreas diretas, deixou de ser um registo passivo, quando passou

a criar objetos específicos, como aconteceu com a foto-

grafia. A evolução da imagiologia (médica, de satélites, digital, etc.), nascida no final do século XIX, obriga a novas confianças, deixando que se instalasse a dúvida se podemos “acreditar em formas das quais só conhecemos

imagens, intimamente herdeiras das máquinas de visão” (Sicard, 2006: 18). Tal como o mapa não é o território também a imagem se distanciou da coisa representada, tornando legitima à pergunta se ainda podemos acreditar nelas, se continuam testemunhas fiéis e credíveis do que temos por evidente.

Uma vez captada, a fotografia, desterritorializa-se, emigra dos lugares para se tornar memória dessa ausência. Em- bora se compreenda que quando “A raiz da paisagem foi cortada./ Tudo flutua ausente e dividido,/ Tudo flutua sem nome e sem ruido” (Sophia de Mello Breyner Andresen; Coral), o cordão umbilical que liga a fotografia ao lugar nunca é definitivamente rompida pois o leve rasto de luz que a tocou perpetuará sempre uma indelével relação com as primordiais origens. Por isso “uma determinada

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foto não se distingue nunca do seu referente (daquilo que representa)”, mesmo quando tudo parece que “flutua au- sente e dividido”, “sem nome e sem ruido”, como acontece com as imagens dos lugares mais remotos, sujeitos a pro- fundas transfigurações. Mesmo quando impercetíveis, as

e cinematográfico, Les Archives de la Planète, cuja direção científica entregou, em 1912, ao geografo Jean Brunhes, iniciativa que terminou com a grande crise financeira de 1929 (Gaspar, 2013: 29).

marcas que as ligam aos territórios donde emanam, fazem

A

cultura territorial, que continua a ser uma aposta

com que “toda a fotografia é um certificado de presença.

da

Geografia, só é plena quando complementada com

Esse certificado é o gene novo que a sua invenção intro- duziu na família das imagens” (Barthes, 1980: 98).

uma sólida cultura visual, alicerçada em imagens, sejam

desenhos, mapas ou fotografias. A geograficidade latente nas imagens não nos é indiferente, das que captamos às

relação intima entre Geografia e fotografia radica na

mútua necessidade de espaço e de tempo para se materia- lizarem, na história paralela, desde os tempos modernos, quando a primeira emerge como ciência e a segunda surge

A

captadas por outros, pois é através delas que se alimenta a memória e aumenta o património visual. Os suportes usa- dos para as adquirir e fixar acabam por invocar a singula- ridade do tempo, que oscila entre a velocidade excessiva

como uma inovação técnica que rapidamente se popu-

da

máquina fotográfica ou a demorada paciência da escri-

larizou. Como sugere o étimo das duas palavras, ambas prosseguem o objetivo comum de (d)escrever, cumplicida-

ta

para enganar a memória, na tentativa de encontrar “na

e do desenho. Continuamos a recolher e criar imagens

de

que leva, no caso da geografia, à “descrição da terra” e,

imensidão extensa e lenta da diversidade os pontos de

no da fotografia, a “escrever com a luz”. A viagem é, por isso, uma causa igualmente comum, vital à geografia e à fotografia, obrigando-as a caminharem juntas e a terem

de cumprir a profecia de Padre António Vieira quando

vaticinou, nos seus Sermões, que “a geografia do mundo melhor se aprende vista no mesmo mundo que pintada no mapa”.

A associação da fotografia ao progresso científico da Geo-

grafia é tão forte que num congresso da União Geográfica

Internacional, realizou em 1904, em Washington, foi aprovada “a proposta do geomorfólogo alemão Albrecht Penck para se promover um levantamento fotográfico

da superfície da Terra. Esta iniciativa “viria a originar

o Atlas phographique des formes du relief terrestre, da autoria de Jean Brunhes, Émile Chaix e Emmanuelle De Martonne, cujas primeiras lâminas foram apresentadas por De Martonne no X Congresso Internacional de

Geografia, Roma 1913”. Sucederam-se outros projetos de envergadura, como o iniciado em 1909, pelo banqueiro Albert Khan, que patrocinou o levantamento fotográfico

referência vivos e densos necessários à cristalização, re- cordação e fortalecimento das recordações. A substância das recordações é aquilo que deslumbra o espirito depois

de abandonada a geografia” (Onfray, 2009: 52).

“Pretendemos examinar imagens bem simples, as imagens do espaço feliz. Nessa perspetiva, nossas investigações mereceriam o nome de topofilia. (…) O espaço percebido pela imaginação não poder ser o espaço indiferente entregue à mensuração e à reflexão do geómetra. É um espaço vivido. É vivido não em sua positivi- dade, mas com todas as parcialidades da imaginação. (…) Mas as imagens não aceitam ideias tranquilas, nem sobretudo ideias definitivas. Incessantemente a imaginação imagina e se enriquece com novas imagens. É essa riqueza do ser imaginado que gosta- ríamos de explorar.” (Bachelard, 2005: 19)

Poética do Olhar: observar, ver, imaginar. As novas tec- nologias proporcionam imagens cada vez mais sofisticadas que nem sempre são as mais esclarecedoras, impactantes ou apelativas. Mesmo em tempos de aparatos e de aparências, os recursos técnicos, os métodos e as possibi-

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lidades imagéticas atuais não são as únicas variáveis que influenciam um resultado mais satisfatório. A riqueza do- cumental, estética e o valor patrimonial de cada imagem, além do respetivo conteúdo, da informação esclarecida e

da carga emocional que incorporam, dependem da inten-

cionalidade, subtileza e sensibilidade do olhar de quem,

naquele preciso instante, faz o disparo. A sensibilidade

(artística, geográfica, etc.) de quem elabora o discurso visual plasmado em cada imagem continua a ser decisiva. Hoje como ontem, na era do analógico, a relevância do olhar do fotógrafo é equivalente à observação arguta e

à sensibilidade apurada do geógrafo, de quem depende

a qualidade das anotações e dos desenhos deixados nos velhos cadernos de campo.

A experiência mostra-nos que pode bastar uma única

imagem para ter um impacto tocante, profundo e de- molidor. Foi suficiente uma fotografia para causar uma emoção generalizada, como aconteceu recentemente, com aquele menino refugiado, prostrado inerte ao sabor das ondas numa praia da Grécia, como a do rapaz sírio, na ambulância, com o olhar perdido no infinito, ferido numa guerra donde não podia escapar. Estas imagens arrasadoras, repetidas até à exaustão nas redes sociais e

nos meios de comunicação social, cujos gritos lancinantes calam tão fundo quanto efémeros e passageiros são os seus ecos iniciais. A comoção desencadeada parece esgotar-se na voracidade mediática que parece viver da banalização

da dor a que nos habituaram, que nos anestesia e torna

insensíveis perante a incapacidade de encontrar soluções justas e rápidas.

As imagens, nestes como em muitos outros conflitos ante- riores, também entram em combate, despertam consciên-

cias, alertam para os horrores da guerra, sensibilizam para sofrimento de milhões de pessoas desesperadas, votadas

ao mais completo abandono. Quando as imagens carre-

gam este significado adquirem vida própria, assumem um poder real e inesperado, dão visibilidade a causas, pessoas

e territórios esquecidos e abandonados. Nestas situações,

a imagem desperta consciências, ajuda a integrar perife-

rias, desoculta pessoas e territórios olvidados, disputa o

espaço mediático às imagens banais e coloridas impostas pelos poderes e pelo turismo.

A fotografia, por fornecer retalhos estáticos do passado,

mostra-se incapaz de retratar o presente na sua plenitude,

de mostrar a dinâmica subjacente ao movimento do

mundo. Contudo, são imprescindíveis para o ler e inter- pretar para além das aparências, caso o leitor conjugue

imaginação e sensibilidade com capacitação assertiva. O primeiro passo é não ser ingénuo para acreditar que uma fotografia, por mais rigorosa, clara e evocadora que seja, mostra sempre toda a verdade. Tem de superar a instável confiança, por vezes cega, que nela possa depositar

se pretende aceder ao que ela realmente esconde, aos

segredos e detalhes que nos escapam ao primeiro olhar, suscetíveis de nos emocionar quando os desvendamos. O

fascínio da fotografia está na capacidade de nos continuar

a surpreender, o que acontece quando não nos limitarmos

a ver e a observar, mas recorremos a imaginação com o

exato entendimento que a “imaginação é a capacidade de fazer e decifrar imagens” (Vilém Flusser).

“A fotografia não se limita a reproduzir o real, recicla-o, o que constitui um processo chave de uma sociedade moderna. As coi- sas e os acontecimentos são submetidos, sob a forma de imagens fotográficas, a novos usos, recebem novos significados que estão para além das distinções entre o belo e o feio, o verdadeiro e o fal- so, o útil e o inútil, o bom e o mau gosto.” (Sontang, 1986: 153)

Transversalidades: um atlas visual do mundo. Uma qualidade importante da fotografia é ser “uma escrita tão forte porque pode ser lida em todo o mundo sem tradução” (Sebastião Salgado). Os segredos contidos

nesta linguagem também ajudam a explicar a vitalidade e

o crescimento do projeto “Transversalidades – Fotografia

sem Fronteiras” que superou as melhores expetativas, na

edição de 2016, indo além do âmbito inicial estritamente transfronteiriço. Os resultados quantitativos e qualitativos alcançados atestam a maturidade e a valia da iniciativa:

foram submetidas cerca de 700 candidaturas (mais do dobro da edição anterior) e a sua penetração alcançou mais de 30 países. Embora predominem concorrentes de Portugal (30%) e do Brasil (28%), é relevante a presença da América Latina (16%), sobretudo da Argentina com 7%, e dos Países de Língua Portuguesa, especialmente Moçambique. O concurso mobiliza predominantemente jovens (mais de 40% dos concorrentes tem menos de 30 anos), equilibrado em termos de género (mais de 40% dos concorrentes são do sexo feminino) e regista uma elevada taxa de participação de profissionais ligados ao ramo e às artes (fotógrafos, fotojornalistas, jornalistas, designers e outras, etc.).

* CEGOT – Universidade de Coimbra.

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As sete centenas de participantes, provenientes de quase todos os continentes, asseguram uma representatividade

geográfica alargada. É possível, a partir de imagens oriun- das de lugares e países bem distintos, lançar múltiplos olhares sobre pessoas, territórios e paisagens, contemplar

a partir desta mostra a riqueza e a diversidade natural,

humana e cultural do planeta. O projeto Transversalida- des, como testemunha o espólio visual reproduzidos nos

catálogos já editados, já transcende um simples concurso de fotografia. Estruturado a partir de quatro coordenadas fundamentais - património natural, paisagens e biodiver- sidade; espaços rurais, agricultura e povoamento; cidade

e processos de urbanização; cultura e sociedade: diver-

sidade cultural e inclusão social – coleciona um acervo documental que constitui um pequeno observatório que progride, a cada ano, para um pequeno atlas visual do mundo em mudança.

Referências:

Armand Fremont (1976; 1980) - A região, espaço vivido. Almedina, Coimbra. Gaston Bachelard (1957; 2005) – A Poética do Espaço. Martins Fontes, São Paulo. Jorge Gaspar (2013) – Fotografia e paisagem. In Transversalidades 2013. Fotografia sem fronteiras. CEI, Guarda, pp.: 27-31. Muchel Onfray (2007; 2009) – Teoria da viagem. Uma poética da geografia. Quetzal, Lisboa. Monique Sicard (1998; 2006) – A fábrica do olhar. Edições 70, Lisboa. Roland Barthes (1980; 2010) - A Câmara Clara (Nota sobre a fotografia). Edições 70, Lisboa. Sebastião Salgado (2013) – Da minha terra à Terra. Editora Schwarcz, S. Paulo. Susan Sontag (1973; 1986) – Ensaios sobre fotografia. Publicações Dom Quixote, Lisboa. Vilém Flusser (1983; 1998) - Ensaio sobre a fotografia. Para uma filosofia da técnica. Relógio de Água, Lisboa.

tranversalidades

melhor portfólio

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I melhor portfólio Arturo López Illana Espanha Lalibela 1 *( 1 ) Lalibela (Etiópia), 2014

I melhor portfólio

Arturo López Illana Espanha

Lalibela 1

*(1) Lalibela (Etiópia), 2014

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I melhor portfólio Arturo López Illana Espanha PÁGINA 16 Lalibela 2 6.4.1.4. *( 2 )

I melhor portfólio

Arturo López Illana Espanha

PÁGINA 16

Lalibela 2 6.4.1.4. *(2) Lalibela (Etiópia), 2014 Lalibela 3 6.4.1.3. *(3) Lalibela (Etiópia), 2014

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2014 Lalibela 5 6.4.1.6. *( 5 ) Lalibela (Etiópia), 2014 Lalibela 6 6.4.1.2. *( 6 )

Lalibela 6 6.4.1.2. *(6) Lalibela (Etiópia), 2014

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tema 1 paisagens, biodiversidade e património natural

tema 1

paisagens, biodiversidade e património natural

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

20 transversalidades 2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras
João Pedro Costa Portugal Apartamento de Cegonhas 115.1.2.1.jpg *( 7 ) Penedo Gordo, Beja (Portugal),

João Pedro Costa Portugal

Apartamento de Cegonhas

115.1.2.1.jpg

*(7) Penedo Gordo, Beja (Portugal), 2016

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

prémio tema

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras João Pedro Costa , Portugal 115.1.2.2.jpg Hotel de

João Pedro Costa, Portugal 115.1.2.2.jpg Hotel de várias estrelas *(8) Lagos (Portugal), 2016

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 23 João Pedro Costa , Portugal 115.1.2.5.jpg Perigo de

João Pedro Costa, Portugal 115.1.2.5.jpg Perigo de explosão *(9) Odiáxere, Lagos (Portugal), 2016

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras João Pedro Costa , Portugal 115.1.2.3.jpg Vista sobre

João Pedro Costa, Portugal 115.1.2.3.jpg Vista sobre o mar *(10) Cabo Sardão, Odemira (Portugal), 2016

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 25 João Pedro Costa , Portugal 115.1.2.6.jpg Embalados pelo

João Pedro Costa, Portugal 115.1.2.6.jpg Embalados pelo mar *(11) Cabo Sardão, Odemira (Portugal), 2016

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras João Pedro Costa , Portugal 115.1.2.4.jpg Porto seguro

João Pedro Costa, Portugal 115.1.2.4.jpg Porto seguro *(12) Lagos (Portugal), 2016

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

menções honrosas

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natural, paisagens e biodiversidade menções honrosas 27 Nima Nima , Irão 178.1.2.2.jpg Espíritos Lake *( 13
natural, paisagens e biodiversidade menções honrosas 27 Nima Nima , Irão 178.1.2.2.jpg Espíritos Lake *( 13

Nima Nima, Irão 178.1.2.2.jpg Espíritos Lake *(13) Noshahr (Irão), 2015

Julio, Espanha 13.1.2.2.jpg Perdido en Islandia *(14) Stokksnes (Islândia), 2016

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

Património natural, paisagens e biodiversidade

Helena Freitas *

natural, paisagens e biodiversidade Helena Freitas * edição do Catálogo e a Exposição do Concurso

edição do Catálogo e a Exposição do Concurso Transversalidades, lançado pelo Centro de Estudos Ibéricos, uma parceria entre as Universidades de Coimbra e Salamanca e a Câmara Municipal da

Guarda, é a oportunidade para uma breve reflexão sobre

“Património natural, paisagens e biodiversidade”, um dos temas propostos. O conjunto de fotografias a concurso

é ilustrativo da abrangência de olhares que podemos ter

sobre os territórios e a sua diversidade, expressão de uma natureza que se deixou fertilizar pela actividade humana

e que desvenda esta relação na exuberância das suas paisagens.

A diversidade biológica ou biodiversidade, pode definir-se

como a variedade de seres vivos e das suas componentes ecológicas, ou seja, os milhões de plantas, animais e microrganismos, bem como os genes, os ecossistemas

e as paisagens que integram. A diversidade específica

os ecossistemas do mundo? Desde logo porque a biodi-

versidade é a matéria-prima dos sistemas ecológicos e a sua perda manifesta-se na degradação inexorável destes sistemas naturais que suportam a vida na Terra. As zonas

húmidas, as florestas, os recifes de coral, a tundra, as pradarias, os estuários e o oceano aberto, garantem um conjunto de bens e serviços essenciais à Humanidade; dos alimentos à água, a madeira ou a caça, a purificação do

ar e da água, a decomposição dos resíduos, a renovação

do solo e a sua fertilidade, a polinização das plantas, a es- tabilização do clima, o suporte à diversidade das culturas

humanas, a beleza estética e o incalculável contributo para o bem-estar humano.

Apesar de todo este valor, a verdade é que se degrada- ram as condições ambientais para responder a todas as necessidades básicas da população da Terra em alimento, energia e água. Esta degradação ao nível local, regional e

global, a par da perda efectiva dos recursos, vai reduzindo

representa todas as espécies que existem, e expressa a

a

capacidade de responder a essas mesmas necessidades.

gama de adaptações evolutivas e ecológicas das espécies a

O

reconhecimento deste problema e a urgência em travar

ambiente particulares. Existirão entre 10 a 30 milhões de

a

perda da diversidade biológica, conduziu à afirmação de

espécies no mundo, conhecendo-se, de facto, cerca de 2

compromissos políticos e sociais à escala global, regional

milhões. Na verdade, podemos dizer que temos sobretudo

e

nacional, com o intuito convergente de impulsionar a

informação sobre os locais onde foram identificadas, e

conservação e a gestão inteligente dos recursos naturais

talvez sobre algumas das suas características, mas o que

 

da

Terra. Mas a pressão que existe hoje sobre estes

realmente sabemos sobre a maioria destas espécies é muito pouco.

recursos, em especial sobre a água, os alimentos e o solo,

tenderá a agravar-se com a evolução demográfica, admi- tindo-se uma duplicação das necessidades alimentares em

O

planeta perde biodiversidade todos os dias, e em todos

2050. O uso agrícola representa já cerca de 40% de toda

os

grupos e níveis de organização. A título de exemplo,

a

superfície do planeta, pelo que entrará em conflito com

cerca de um terço das árvores da Amazónia e um terço das espécies dos recifes de coral devem extinguir-se nas próximas décadas. Porque nos devemos preocupar com esta perda de biodiversidade que acontece em todos

outros usos, tais como a conservação das áreas protegidas,

as florestas tropicais ou as florestas geridas para a produ- ção sustentável de matéria-prima.

Portugal tem recursos naturais excepcionais, que justifi- cam políticas integradas e uma visão estratégica de longo prazo. O país deve apostar na ecologia e no desenvolvi- mento sustentável; na valorização ecológica do território, das áreas protegidas aos solos e aos rios, e assumir um compromisso inequívoco pela educação e pela ciência, pilares estruturantes de uma prosperidade

O país beneficiará sempre com boas políticas de conserva- ção da natureza, das paisagens e da biodiversidade, com a valorização dos recursos naturais, com o ordenamento do

* Professora Catedrática da Universidade de Coimbra. Coordenadora do Centro de Ecologia Funcional.

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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território, com a organização de uma floresta produtiva e variada, com a pujança dos sistemas agrícolas de tipologia diversa, com a requalificação dos cursos de água e dos am- bientes costeiros, e promovendo os consumos de proximi- dade, e uma utilização mais eficaz dos recursos. Portugal beneficiará ainda com um combate activo à fragmentação

e uma abolição progressiva das fronteiras virtuais que tanto têm condicionado o progresso, inviabilizando

soluções articuladas entre freguesias, municípios e regiões,

e inibido a aposta nas políticas públicas integradas que o país tanto precisa.

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 3.1.1.5.jpg João Pedro Rosa Ganhão , Portugal Fluidos
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 3.1.1.5.jpg João Pedro Rosa Ganhão , Portugal Fluidos

3.1.1.5.jpg João Pedro Rosa Ganhão, Portugal Fluidos *(15) Praia da Samoqueira, Sines (Portugal), 2016

13.1.1.2.jpg Francisco Manuel Duarte Mendes, Portugal Confronto entre o real e o imaginado #2 *(16) Grândola (Portugal), 2015

o real e o imaginado #2 *( 16 ) Grândola (Portugal), 2015 Abedin , Irão 48.1.2.3.JPG
o real e o imaginado #2 *( 16 ) Grândola (Portugal), 2015 Abedin , Irão 48.1.2.3.JPG

Abedin, Irão 48.1.2.3.JPG No Comment 3 *(17) Kermanshah (Irão), 2016

Francisco Manuel Duarte Mendes, Portugal 13.1.1.3.jpg Confronto entre o real e o imaginado #3 *(18) Grândola (Portugal), 2015

116.1.2.4.JPG Mahmoudreza Golchinarefi , Irão Miniature mountains *( 19 ) Chabahar (Irão), 2016 56.1.2.2.jpg
116.1.2.4.JPG Mahmoudreza Golchinarefi , Irão Miniature mountains *( 19 ) Chabahar (Irão), 2016 56.1.2.2.jpg

116.1.2.4.JPG Mahmoudreza Golchinarefi, Irão Miniature mountains *(19) Chabahar (Irão), 2016

56.1.2.2.jpg Fernanda Carvalho, Portugal Sem título *(20) Atacama (Chile), 2014

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 31 Julio , Espanha 13.1.2.1.jpg Entre Cascadas *( 21
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 31 Julio , Espanha 13.1.2.1.jpg Entre Cascadas *( 21

Julio, Espanha 13.1.2.1.jpg Entre Cascadas *(21) Bruarfoss (Islândia), 2016

Julio, Espanha 13.1.2.5.jpg Aurora Azul *(22) Kirkjufell (Islândia), 2016

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 48.1.2.6.jpg Abedin , Irão Sem título *( 23

48.1.2.6.jpg Abedin, Irão Sem título

*( 23 )

48.1.2.6.jpg Abedin , Irão Sem título *( 23 ) João Carlos Alves Flambó , Portugal 110.1.2.1.jpg
48.1.2.6.jpg Abedin , Irão Sem título *( 23 ) João Carlos Alves Flambó , Portugal 110.1.2.1.jpg

João Carlos Alves Flambó, Portugal 110.1.2.1.jpg Carrilheiras de Barroso 2016 *(24) Parque Nacional Peneda-Gerês (Portugal), 2016

Agustin Navarra, Argentina 20.1.2.5.jpg San Isidro Salta *(25) San Isidro Salta (Argentina), 2015

120.1.2.2.jpg Sofia F. Augusto , Portugal Assentamentos (II) *( 26 ) Alturas do Barroso, Boticas
120.1.2.2.jpg Sofia F. Augusto , Portugal Assentamentos (II) *( 26 ) Alturas do Barroso, Boticas

120.1.2.2.jpg Sofia F. Augusto , Portugal Assentamentos (II) *(26) Alturas do Barroso, Boticas (Portugal), 2015

130.1.2.3.jpg Susana Cristina Rodrigues Gasalho, Portugal Declives *(27) Munnar (Índia), 2014

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 33 Juan Carlos Casañ Núñez , Portugal 138.1.2.1.jpg Vinhas
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 33 Juan Carlos Casañ Núñez , Portugal 138.1.2.1.jpg Vinhas

Juan Carlos Casañ Núñez, Portugal 138.1.2.1.jpg Vinhas do Douro *(28) São João da Pesqueira (Portugal), 2015

Susana Cristina Rodrigues Gasalho, Portugal 130.1.2.1.jpg Geografias toldadas pelo Homem *(29) Munnar (Índia), 2014

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 38.1.2.4.JPG Juan Pablo Troncos Gálvez , Perú La
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 38.1.2.4.JPG Juan Pablo Troncos Gálvez , Perú La

38.1.2.4.JPG Juan Pablo Troncos Gálvez, Perú La cordillera Negra *(30) Huaraz (Perú), 2016

176.1.2.5.jpg Verónica Chaves Quesada, Costa Rica Camino a la libertad *(31) A Coruña (Espanha), 2015

Camino a la libertad *( 31 ) A Coruña (Espanha), 2015 Maireth , Venezuela 169.1.2.4.jpg Bajo
Camino a la libertad *( 31 ) A Coruña (Espanha), 2015 Maireth , Venezuela 169.1.2.4.jpg Bajo

Maireth, Venezuela 169.1.2.4.jpg Bajo las nubes *(32) Mérida, Mucuhíes (Venezuela), 2016

Fatemeh Sharifi Farzaneh, Irão 81.1.2.1.jpg Living in Salt *(33) Hoze soltan salt lake (Irão), 2015

102.1.2.1.jpg Pedro Vaz de Carvalho , Portugal “Fajã de vida” *( 34 ) Ilha de
102.1.2.1.jpg Pedro Vaz de Carvalho , Portugal “Fajã de vida” *( 34 ) Ilha de

102.1.2.1.jpg Pedro Vaz de Carvalho, Portugal “Fajã de vida” *(34) Ilha de S. Jorge, Açores (Portugal), 2015

143.1.2.2.jpg Manuel Adrega, Portugal Recantos paradisíacos *(35) Sintra (Portugal), 2016

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 35 Moreira , Bélgica 82.1.2.1.jpg Quebra-mar *( 36 )
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 35 Moreira , Bélgica 82.1.2.1.jpg Quebra-mar *( 36 )

Moreira, Bélgica 82.1.2.1.jpg Quebra-mar *(36) Praia da Aguda, Arcozelo, Vila Nova de Gaia (Portugal), 2015

Manuel Adrega, Portugal 143.1.2.4.jpg Malhada do Ouriçal *(37) Sintra (Portugal), 2016

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 119.1.2.4.jpg Jhon Walter Garay Falcon , Perú Espejo
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 119.1.2.4.jpg Jhon Walter Garay Falcon , Perú Espejo

119.1.2.4.jpg Jhon Walter Garay Falcon, Perú Espejo de Agua *(38) Alcas (Perú), 2015

117.1.2.4.jpg Monica Beatriz Almeida Ardila, Colombia Fuente de Vida *(39) Páramo de Santurban (Colombia), 2015

de Vida *( 39 ) Páramo de Santurban (Colombia), 2015 Roberto Conde Álvarez , Espanha 124.1.2.1.jpg
de Vida *( 39 ) Páramo de Santurban (Colombia), 2015 Roberto Conde Álvarez , Espanha 124.1.2.1.jpg

Roberto Conde Álvarez, Espanha 124.1.2.1.jpg Carpetania *(40) El Escorial (Espanha), 2015

Juliano Pinheiro Campos, Brasil 33.1.2.1.JPG Açude azul *(41) Itapajé/Ceará (Brasil), 2014

37.1.2.3.jpg Dmitrii Vasilev , Russia Hidden lagoon *( 42 ) Hong Island (Tailândia), 2014 113.1.2.3.jpg
37.1.2.3.jpg Dmitrii Vasilev , Russia Hidden lagoon *( 42 ) Hong Island (Tailândia), 2014 113.1.2.3.jpg

37.1.2.3.jpg Dmitrii Vasilev, Russia Hidden lagoon *(42) Hong Island (Tailândia), 2014

113.1.2.3.jpg Jaime Dantas, Brasil Rio Potengi *(43) Natal, Rio Grande do Norte (Brasil), 2016

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 37 Rui Neto , Portugal 195.1.2.4.jpg Hipnose *( 44
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 37 Rui Neto , Portugal 195.1.2.4.jpg Hipnose *( 44

Rui Neto, Portugal 195.1.2.4.jpg Hipnose *(44) Pateira de Fermentelos (Portugal), 2016

Ana Isabel Freitas, França 2.1.1.1.jpg Margens *(45) Pinhão (Portugal), 2015

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 77.1.2.3.jpg José Costa Pinto , Portugal Floresta
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 77.1.2.3.jpg José Costa Pinto , Portugal Floresta

77.1.2.3.jpg José Costa Pinto, Portugal Floresta encantada *(46) Vale do Rio de Mouros, Condeixa-a-Nova (Portugal), 2016

8.1.2.5.jpg João Maia, Portugal Pequena Cascata *(47) Mondim de Basto (Portugal), 2015

Pequena Cascata *( 47 ) Mondim de Basto (Portugal), 2015 Ricardo Veras , Brasil 87.1.2.4.JPG Lagarto
Pequena Cascata *( 47 ) Mondim de Basto (Portugal), 2015 Ricardo Veras , Brasil 87.1.2.4.JPG Lagarto

Ricardo Veras, Brasil 87.1.2.4.JPG Lagarto teiú *(48) Canela/RS (Brasil), 2013

Martin Makaryan, Arménia 85.1.2.2.jpg One view *(49) Geghard (Arménia), 2016

155.1.2.4.JPG Diorgenis Lima Ribeiro , Brasil Salinas de Mara *( 50 ) Moray (Chile), 2014
155.1.2.4.JPG Diorgenis Lima Ribeiro , Brasil Salinas de Mara *( 50 ) Moray (Chile), 2014

155.1.2.4.JPG Diorgenis Lima Ribeiro, Brasil Salinas de Mara *(50) Moray (Chile), 2014

107.1.2.3.jpg Morgana Narjara dos Anjos, Brasil Catimbau *(51) Vale do Catimbau (Brasil), 2016

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 39 Alfredo Mateus , Portugal 103.1.2.2.jpg Buracas do Casmilo
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 39 Alfredo Mateus , Portugal 103.1.2.2.jpg Buracas do Casmilo

Alfredo Mateus, Portugal 103.1.2.2.jpg Buracas do Casmilo *(52) Casmilo (Portugal), 2016

Soleyman Mahmoudi, Irão 92.1.2.6.jpg Destroy *(53) Baneh City (Curdistão), 2016

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 56.1.2.6.jpg Fernanda Carvalho , Portugal Sem título *(
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 56.1.2.6.jpg Fernanda Carvalho , Portugal Sem título *(

56.1.2.6.jpg Fernanda Carvalho, Portugal Sem título *(54) Atacama (Chile), 2014

183.1.2.2.JPG Pablo Luis Cura, Argentina El rey en las alturas *(55) Paso de Jama (Argentina), 2015

rey en las alturas *( 55 ) Paso de Jama (Argentina), 2015 Maria da Cruz Barradas
rey en las alturas *( 55 ) Paso de Jama (Argentina), 2015 Maria da Cruz Barradas

Maria da Cruz Barradas, Espanha 128.1.2.4.jpg Esqueletos das árvores *(56) Dedvlei (Namibia), 2015

Eduardo Lima Ribeiro, Brasil 129.1.2.1.jpg Deserto de Sal *(57) Salar de Uyuni (Bolívia), 2014

184.1.2.1.JPG Marcelo Guastella , Argentina Rinconada *( 58 ) Jujuy (Argentina), 2016 180.1.2.3.JPG Francisco
184.1.2.1.JPG Marcelo Guastella , Argentina Rinconada *( 58 ) Jujuy (Argentina), 2016 180.1.2.3.JPG Francisco

184.1.2.1.JPG Marcelo Guastella, Argentina Rinconada *(58) Jujuy (Argentina), 2016

180.1.2.3.JPG Francisco Picchetti, Argentina Tierra, agua, cielo *(59) Inca Cueva (Argentina), 2016

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 41 Verena Fuchs , Portugal 185.1.2.3.jpg Fairy Tale Castle
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 41 Verena Fuchs , Portugal 185.1.2.3.jpg Fairy Tale Castle

Verena Fuchs, Portugal 185.1.2.3.jpg Fairy Tale Castle *(60) Mourão (Portugal), 2015

Diego Vieira Nigro de Almeida, Brasil 186.1.2.5.jpg Santuário *(61) Parque Nacional do Catimbau, Buique - PE (Brasil), 2015

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 15.1.1.6.jpg Ali Ahmadi , Irão Sem título *(
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 15.1.1.6.jpg Ali Ahmadi , Irão Sem título *(

15.1.1.6.jpg Ali Ahmadi, Irão Sem título

*( 62 )

171.1.2.1.jpg Sahar, Irão Reflction *(63) Chalus (Irão), 2016

Sahar , Irão Reflction *( 63 ) Chalus (Irão), 2016 Alexey , Rússia 111.1.2.1.jpg After *(
Sahar , Irão Reflction *( 63 ) Chalus (Irão), 2016 Alexey , Rússia 111.1.2.1.jpg After *(

Alexey, Rússia 111.1.2.1.jpg After *(64) Kalampaka (Grécia), 2014

Maria de Fátima Matos Barros, Portugal 36.1.2.3.jpg Habitat Rural na mão do homem - Louredo *(65) Amares (Portugal), 2016

44.1.2.3.jpg Giuseppe Mario Famiani , Itália Noite Magic Castle *( 66 ) S. Alessio Siculo
44.1.2.3.jpg Giuseppe Mario Famiani , Itália Noite Magic Castle *( 66 ) S. Alessio Siculo

44.1.2.3.jpg Giuseppe Mario Famiani, Itália Noite Magic Castle *(66) S. Alessio Siculo (Itália), 2016

58.1.2.2.jpg Diogo Candeias, Portugal Céu Alentejano *(67) Odemira (Portugal), 2015

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 43 Silvia Rodrigues do Nascimento , Brasil 152.1.2.1.JPG O
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 43 Silvia Rodrigues do Nascimento , Brasil 152.1.2.1.JPG O

Silvia Rodrigues do Nascimento, Brasil 152.1.2.1.JPG O olhar pela janela: série magia *(68) Camaragibe (Brasil), 2016

Diogo Candeias, Portugal 58.1.2.1.jpg Alentejo *(69) Cercal do Alentejo (Portugal), 2015

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 154.1.2.3.jpg Kevin Contreras Jara , Chile Grande *(
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 154.1.2.3.jpg Kevin Contreras Jara , Chile Grande *(

154.1.2.3.jpg Kevin Contreras Jara, Chile Grande *(70) Antilhue (Chile), 2016

46.1.2.3.jpg Amir, Irão Cair *(71) Tehran-Firoozkooh (Irão), 2014

Amir , Irão Cair *( 71 ) Tehran-Firoozkooh (Irão), 2014 Raquel Fernandes , Portugal 127.1.2.6.jpg Destas
Amir , Irão Cair *( 71 ) Tehran-Firoozkooh (Irão), 2014 Raquel Fernandes , Portugal 127.1.2.6.jpg Destas

Raquel Fernandes, Portugal 127.1.2.6.jpg Destas tardes *(72) Segura (Portugal), 2016

Emiliano Dantas, Brasil 142.1.2.4.jpg Três tons *(73) Itajuípe (Brasil), 2015

149.1.2.1.jpg Mariana Muraoka Martin , Brasil Trabalho em equipe *( 74 ) São Paulo (Brasil),
149.1.2.1.jpg Mariana Muraoka Martin , Brasil Trabalho em equipe *( 74 ) São Paulo (Brasil),

149.1.2.1.jpg Mariana Muraoka Martin, Brasil Trabalho em equipe *(74) São Paulo (Brasil), 2015

60.1.2.2.jpg Andrea Porras Carrillo, Colombia Sativa *(75) Bogota (Colombia), 2016

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 45 Lucia Macarena , Uruguai 148.1.2.5.jpg Hojas de otoño
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 45 Lucia Macarena , Uruguai 148.1.2.5.jpg Hojas de otoño

Lucia Macarena, Uruguai 148.1.2.5.jpg Hojas de otoño *(76) Piriapolis (Uruguai), 2015

Andrea Porras Carrillo, Colombia 60.1.2.4.jpg Allium Cepa *(77) Bogota (Colombia), 2016

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 166.1.2.2.JPG Adriane da Silva Gomes , Brasil Gafanhoto
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 166.1.2.2.JPG Adriane da Silva Gomes , Brasil Gafanhoto

166.1.2.2.JPG Adriane da Silva Gomes, Brasil Gafanhoto *(78) São Lourenço da Mata (Brasil), 2016

172.1.2.4.jpg Maria Pia Eyquem Duce, Chile Consecuencias *(79) Reserva Huilo Huilo, Región de Los Ríos (Chile), 2016

) Reserva Huilo Huilo, Región de Los Ríos (Chile), 2016 César Torres , Portugal 112.1.2.2.jpg A
) Reserva Huilo Huilo, Región de Los Ríos (Chile), 2016 César Torres , Portugal 112.1.2.2.jpg A

César Torres, Portugal 112.1.2.2.jpg A dama de verde *(80) Viana do Castelo (Portugal), 2016

Adriane Da Silva Gomes, Brasil 166.1.2.5.JPG Inseto *(81) São Lourenço da Mata (Brasil), 2016

105.1.2.6.jpg Tamara María Blazquez Haik , México Cocodrilo *( 82 ) Toluca (México), 2014 173.1.2.1.jpg
105.1.2.6.jpg Tamara María Blazquez Haik , México Cocodrilo *( 82 ) Toluca (México), 2014 173.1.2.1.jpg

105.1.2.6.jpg Tamara María Blazquez Haik, México Cocodrilo *(82) Toluca (México), 2014

173.1.2.1.jpg Sergio Alberto Becerril Robledo, México La danza de las luciérnagas *(83) Nanacamilpa, Tlaxcala (México), 2014

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 47 Paula Fernanda Robles Ramos , Colômbia 12.1.2.4.jpg El
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 47 Paula Fernanda Robles Ramos , Colômbia 12.1.2.4.jpg El

Paula Fernanda Robles Ramos, Colômbia 12.1.2.4.jpg El escondido *(84) Medellin (Colômbia), 2016

Tamara María Blazquez Haik, México 105.1.2.1.jpg Jaguar *(85) Ciudad de México (México), 2015

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 144.1.2.1.jpg Ramin Rabiei , Irão Bird *( 86
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 144.1.2.1.jpg Ramin Rabiei , Irão Bird *( 86

144.1.2.1.jpg Ramin Rabiei, Irão Bird *(86) Sea (Irão), 2015

178.1.2.3.jpg Nima, Irão Cisnes lago *(87) Fereydunkenar (Irão), 2015

, Irão Cisnes lago *( 87 ) Fereydunkenar (Irão), 2015 Ramin Rabiei , Irão 144.1.2.2.jpg Lake
, Irão Cisnes lago *( 87 ) Fereydunkenar (Irão), 2015 Ramin Rabiei , Irão 144.1.2.2.jpg Lake

Ramin Rabiei, Irão 144.1.2.2.jpg Lake *(88) Sea (Irão), 2015

Nima, Irão 178.1.2.1.jpg Santo Lake *(89) Noshahr (Irão), 2015

170.1.2.1.jpg Luís Álvaro Soares da Veiga Pereira de Bulha , Portugal Pintassilgo *( 90 )
170.1.2.1.jpg Luís Álvaro Soares da Veiga Pereira de Bulha , Portugal Pintassilgo *( 90 )

170.1.2.1.jpg Luís Álvaro Soares da Veiga Pereira de Bulha, Portugal Pintassilgo *(90) Faro (Portugal), 2016

170.1.2.5.jpg Luís Álvaro Soares da Veiga Pereira de Bulha, Portugal Pernilongo *(91) Faro (Portugal), 2016

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 49 Rosa , Espanha 121.1.2.2.jpg Gile meno turtle sanctuary

Rosa, Espanha 121.1.2.2.jpg Gile meno turtle sanctuary *(92) Isla Gili Meno, Bali (Indonésia), 2015

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

Fotografia de paisagem:

uma retórica contundente acerca da natureza

Caio Maciel * e Priscila Vasconcelos **

Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre. Foi difícil fotografar o sobre. (Manoel de Barros, poeta, 2000)

fotografar o sobre. (Manoel de Barros, poeta, 2000) uando formulamos um pensamento na perspectiva da paisagem,

uando formulamos um pensamento na perspectiva da paisagem, imagem geossimbólica que extrapola o lugar, não queremos sempre compartilhar pacífica e passivamente um ponto de vista, mas muitas vezes seduzir, atestar ou contra- por. A força da fotografia de espaços naturais inscreve-se nesta realidade, conformando uma retórica contudente acerca da natureza, principalmente na sociedade atual na qual a imagem ganhou lugar central no cotidiano (MAR- TINS, 2008).

A tradução de pensamentos e intenções em imagens e narrativas referenciadas geograficamente coloca a foto- grafia da paisagem no contexto de uma geografia social

e política. Com efeito, valores simbólicos e estéticos são

socialmente produzidos, supondo interesses diferenciados

e escolhas políticas (CASTRO, 2002).

As estratégias identitárias, que apelam à biodiversidade como uma marca local, precisam de uma expressão arrebatadoramente eficiente e não é daí senão que nasce a potência da imagem, em geral, e da fotografia de paisagem, em especial, como o que pode ser visto em um

único golpe de vista. A foto com eficiência geossimbólica é aquela que capta tal concisão comunicativa, seja em pla- nos panorâmicos ou em imagens de detalhes, recorrendo

a um sem número de técnicas que concatenam luz, cor, ângulo e perspectiva.

Para Joël Bonnemaison, um geossímbolo pode ser definido “como um lugar, um itinerário, uma extensão que, por razões religiosas, políticas ou culturais toma aos olhos de certos povos e grupos étnicos uma dimensão simbólica que lhes conforta em sua identidade” (BONNEMAISON, 1981, p. 249 et. seq.). Nesta concepção, uma perspectiva etno-paisagística seria construída pela transformação de elementos da natureza e do território em ícones e símbo- los culturais. Entretanto, existe uma tendência no mundo contemporâneo a valorizar globalmente certas paisagens como formas eco-simbólicas, como demonstra a questão de sua eleição em patrimônio público e bem cultural ou natural (DONNADIEU, 1994, 1999; CORBAIN, 2001; MENESES, 2002). Portanto, a paisagem tout court é frequentemente condensada por geossímbolos que “falam” em nome de uma causa (pessoal ou coletiva), de uma identidade, de uma cosmovisão.

Ao ser incubido de fotografar a paisagem amazônica, no início dos anos 1970, momento marcado pela abertura da região amazônica por intervenções infra-estruturais e políticas de povoamento do Estado brasileiro, o fotógrafo George Love encontrou como estratégia fazer fotografia áerea. Para ele a paisagem amazônica representava uma ‘imensidão’, ‘uma área muito grande’, ‘missão de fotografar a Terra’ (CANJANI, 2015). ele fez uma escolha de escala geográfica que comunicou sua percepção de paisagem amazônica como aquela que se perde de vista. Para além do sujeito George Love, essa percepção de fazer fotogra- fias da paisagem amazônica como imensidão se tornou um eco-símbolo construído sob a ideia coletiva de uma vasta região biodiversa desconhecida, com vastas planí- cies verdes as vezes entrecortadas por rios, prais fluviais e aluviões, econtros de águas etc.

A fotografia de paisagem, uma sucessão de instantes ne-

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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refletiam o que ele sentia em relação à paisagem, e ele

cessários ao processamento da imagem pelo pensamento

perseguia tecnicamente o resultado mais proximo de seus

e

experiência, o conhecimento, a atividade, a emoção e os

pelo coração, estabelece conexões plausíveis com a

“devaneios materiais”. Os elementos mais evidentes na superfície terrestre poderiam ser vistos tal qual instruções

valores daquele que vê e quer transmitir uma ideia ou im-

da

realidade que respaldariam as “convicções do coração”

pressão. Não se trata de um flash mecânico, e sim de um

e,

no sentido inverso, essas crenças também orientariam a

insight para o qual concorrem um contexto sócio-cultural

compreensão do universo.

e uma habilidade visual longamente exercitada, de modo

a encontrar, selecionar, ordenar e reforçar argumentos

emoldurados por uma leitura de mundo permanente- mente questionada pelo olhar. Assim, a expressividade

da fotografia de paisagem reside na identificação, eleição

e aprimoramento de geossimbolismos contundentes, ela

é o visível tornado visto, ou seja, condensado de forma

incisiva.

Entretanto, o átimo que separa o mecanismo biológico

da visão dos filtros culturais de uma tradição-destino não

pode ser comparado a mera impressão fotográfica de con- tornos e cores, luz e sombra. Problematizando o visível, há na percepção das paisagens, para além do império das

formas, um quê de verdade onírica profunda, originária daquilo que Gaston Bachelard alcunhou de “devaneios materiais” que antecedem a contemplação:

Sonha-se antes de contemplar. Antes de ser um espetáculo

consciente, toda a paisagem é uma experiência onírica. Só olhamos com uma paixão estética as paisagens que vimos

antes em sonho [

que se povoa de impressões, é uma matéria que pulula (BA-

CHELARD, 1997, p.5).

]

Mas a paisagem onírica não é um quadro

É o que podemos vislumbrar no trabalho do fotografo

americano Ansel Admas, que passou muitos anos de sua vida fotografando o Yosemite e alguns Parques Nacionais nos EUA. De suas incurções pelos espaços de intenso domínio da natura natureza, ele foi capaz de gerar foto- grafias aclamadas pelo publico, como a foto Monolith, the Face of Half Dome. Ansel considerava que suas fotografia

À parte as dificuldades de se trabalhar a “imaginação ma-

terial” de um objeto complexo como a paisagem em sua totalidade – e que é mais diretamente forma que substân- cia – fica demarcada a importância que assumem certos aspectos da psicologia do inconsciente na valorização ou esquecimento da imagem.

Deste modo, logra-se pensar que num contexto de busca

de “argumentações impressionadoras” na produção

fotográfica, a força expressiva da paisagem fotografada

também residiria n’o que se pode e se quer mostrar em um único golpe de vista, significando o movimento ativo

de condensação de sentidos, valores e percepções em ima-

gens de forte conteúdo simbólico – e que depende, além do mais, do caráter esperado da audiência, isto é, daquilo

que pode ser apreendido pelos interlocutores.

A noção de retórica, enquanto negociação da “distânica”

entre os homens a respeito de algo, transparece com clareza neste processo:

Na comunicação simbólica o que está em jogo não é uma transferência de informação, mas um contato que permite aos indivíduos sentirem-se próximos porque partilham os mesmos saberes, têm as mesmas atitudes e se projetam no mesmo futu- ro; o sinal pode também lhes lembrar o quanto eles diferem, porque não aderem aos mesmos valores (CLAVAL, 1999, p.70).

A dinâmica do todo e da parte é onipresente na cognição

e desenho de uma realidade que se deseja revelar através

da fotografia de paisagens, que em muitas situações

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

destaca o patrimônio natural e a biodiversidade dos espaços retratados. A par de características objetivamente comprováveis, presentes no mundo material, esta marcha

é também dependente de condições gerais (psicológicas,

sócio-culturais, políticas etc) que permitem o apelo a um imaginário específico em vistas da aquiescência do públi-

co ao qual se direciona o discurso.

Que faz a geografia? De um modo geral, ela se desenvolve visualmente – cartas, mapas, modelos, fotografias, descri- ções, etc. Isto é, quer fazer ver alguma coisa que do ponto de vista dos conhecimentos anteriores ou especializados mostrar-se-ia em dispersão e sem nexo. Assim, o discurso geográfico é espetáculo 1 , theoria no sentido original do termo (BERDOULAY, 1988, p.23). O que Vincent Berdulay quer ressaltar com o recurso a esta ideia é a construção e o arranjo da informação com o apoio da vi- sualização, processo tão caro aos geógrafos. Ao nosso ver,

o

papel da imagem se avoluma nesta concepção, dado que

o

vigor da figuração paisagística decorre justamente da

sua capacidade de colocar uma cena sob os olhos – mas não uma cena qualquer, e sim uma “vista”, “perspectiva” ou “representação” metafórica, simbólica. Essas cenas

sob os olhos nos propicia a experiência de pensar com as imagens, numa espécie de pedagogia visual geográfica (GOMES e RIBEIRO, 2013).

Este recurso à visualização também faz parte do conhe- cimento vernacular do espaço, afinal muitos fotógrafos de paisagens não são geógrafos acadêmicos, entretanto, podem esboçar uma aptidão nata para a geografia. São “geographer-to-be”, segundo Sauer (2000). Existe, nesse caso, uma atração pelas coisas do espaço, um desejo intui- tivo em conhecer os lugares e entendê-los.

O geógrafo e o “geógrafo-por-ser” (geographer-to-be) são viajantes de fato quando podem, na imaginação, quando não há outro meio. Não são daquela classe de turistas que são guiados por profissionais do turismo pelas rotas das principais

excursões com suas atrações estreladas, nem se hospedam em grandes hotéis. Quando estão de férias podem passar longe dos lugares que se supõe que devem ser vistos e passar por atalhos e lugares desapercebidos onde desfrutam de um senti- mento de descoberta pessoal. Gostam de andar a pé, fora das estradas, e lhes agrada acampar no fim do dia. Até mesmo o geógrafo urbano pode ter a necessidade de escalar montanhas desabitadas. A vocação geográfica se fundamenta em observar e pensar sobre o que há na paisagem, no que foi chamado tec- nicamente o conteúdo da superfície terrestre. Por isso não nos limitamos ao que é visualmente observável, mas procuramos registrar o detalhe e a composição da cena, fazendo perguntas, confirmações, itens ou elementos que são novos ou que desa- pareceram. Este estímulo mental devido à observação do que compõe a cena pode derivar de uma característica primitiva de sobrevivência quando tal atenção significava evitar o perigo, a privação, ou perder-se. (SAUER, 2000, p 140)

Assim, no processo de realização da fotografia da paisa- gem, ao passo que estamos inseridos na lógica de pensar com as imagens, ativamos a retórica para comunicarmos uma “imaginação material”. No caso da geografia, o jul-

] pode arrastar

uma multidão de vieses ideológicos através das escolhas dos termos, dos recortes territoriais, das categorias sociais, dos temas de estudo, até mesmo dos métodos e técnicas” (BERDOULAY, op. cit., p.21). Percebe esse autor que

toda a atividade científica, seja por suas funções sociais ou dimensões discursivas, se encontra imbricada com a ideologia, e que na retórica dos geógrafos tal imbricação transparece no privilégio a algumas figuras, como a meto- nímia.

gamento de Berdoulay é que o discurso “[

Existem muitas formas de pensamento figurado passíveis de serem consideradas como partícipes de uma retórica da paisagem, aglutinando-se em torno da metaforização das relações entre o homem e a natureza. A retórica da paisa- gem reflete, portanto, a ação de um sujeito sobre o outro por meio da palavra e, sobretudo, através da imagem,

expressando e assimilando os sentidos conferidos na rela- ção homem-espaço pelo imaginário coletivo e individual. Daí ser preciso recorrer à força do exemplo, concentrando a atenção sobre alguns tropos que têm se mostrado mais importantes nos estudos geográficos. Dentre todos, as fotografias de paisagens são decididamente exemplos de metonímias geográficas (MACIEL, 2004 e outros). Primeiro porque a paisagem tem permanecido, no pen- samento geográfico, como um instrumento capaz de sinte- tizar uma diversidade que lhe é superior, condensando-a em temas representativos de um todo maior. Tal poder de remeter das partes ao todo e vice-versa é justamente o que caracteriza o procedimento metafórico denominado genericamente de metonímia. É o que se pode e se quer mostrar em um único golpe de vista.

Ao mesmo tempo, tais metonímias, enquanto ferramentas

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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de conhecimento, jamais se mantêm imutáveis frente às “demandas” do mundo que se abre permanentemente à nossa vista. Quando essa interação é interrompida, esta- mos diante de um pensamento alienado da realidade, ou seja, do preconceito em sentido pejorativo, que é profun- damente danoso ao avanço de qualquer forma de saber.

Dito de outra maneira, somente o recurso ao poder cria- tivo da comunicação – sobretudo da retórica, que trans- forma sentimento em sentido, imagem em linguagem – permitir-nos-ia penetrar nos códigos de pensamento e processos de simbolização paisagística, de modo a com- preender como as pessoas construiriam suas geosofias, suas visões ou conhecimentos espaciais de mundo, em diálogo com o imaginário geográfico mais geral e através do aprimoramento e acomodação dos cenários imaginados às fisionomias observáveis.

* Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGG-UFRJ) e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universida. ** Doutora em Geografia pela Universidade Federal de Pernambuco (PPGEO-UFPE).

1 Espetáculo, segundo o “Dicionário Houaiss de Antônimos e Sinônimos” (2003) pode significar, dentre outras possibilidades: apresentação: exibição, função, show; visão: cena, cenário, paisagem, panorama, perspectiva, quadro, vista; encenação: cena, montagem, peça, representação.

Referências:

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2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 20.1.2.2.jpg Agustín Navarra , Argentina Cotideanidad *(
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 20.1.2.2.jpg Agustín Navarra , Argentina Cotideanidad *(

20.1.2.2.jpg Agustín Navarra, Argentina Cotideanidad *(93) Iruya (Argentina), 2015

126.1.2.3.jpg Mário Delgado, Portugal Recolha dos animais *(94) Penacova (Portugal), 2015

Recolha dos animais *( 94 ) Penacova (Portugal), 2015 Maria Alexandra A. Viegas Abreu Lima ,
Recolha dos animais *( 94 ) Penacova (Portugal), 2015 Maria Alexandra A. Viegas Abreu Lima ,

Maria Alexandra A. Viegas Abreu Lima, Portugal 187.1.2.3.jpg O valor da água *(95) Vale de Zat, Alto Atlas (Marrocos), 2016

Emiliano Dantas, Brasil 142.1.2.1.jpg Travessia pelo rio seco *(96) Itajuípe (Brasil), 2015

157.1.2.3.jpg Wilber , Colombia Nuestra Venecia - Serie *( 97 ) Nueva Venecia, Magdalena (Colombia),
157.1.2.3.jpg Wilber , Colombia Nuestra Venecia - Serie *( 97 ) Nueva Venecia, Magdalena (Colombia),

157.1.2.3.jpg Wilber, Colombia Nuestra Venecia - Serie *(97) Nueva Venecia, Magdalena (Colombia), 2015

123.1.2.4.jpg Rui Ribeiro, Portugal Río San Juan - hora de lavar *(98) Río San Juan (Nicarágua), 2015

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 55 Marisa Ferreira Rodrigues , Portugal 11.1.2.6.jpg Sem
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 55 Marisa Ferreira Rodrigues , Portugal 11.1.2.6.jpg Sem

Marisa Ferreira Rodrigues, Portugal 11.1.2.6.jpg Sem título

*(99)

Rui Ribeiro, Portugal 123.1.2.3.jpg Río San Juan - hora de navegar *(100) Río San Juan (Nicarágua), 2015

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 163.1.2.4.jpg Daniel Camacho , Portugal Imerso *( 101
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 163.1.2.4.jpg Daniel Camacho , Portugal Imerso *( 101

163.1.2.4.jpg Daniel Camacho, Portugal Imerso *(101) Lago di garda (Itália), 2015

157.1.2.5.jpg Wilber, Colombia Nuestra Venecia - Serie *(102) Nueva Venecia, Magdalena (Colombia), 2015

- Serie *( 102 ) Nueva Venecia, Magdalena (Colombia), 2015 Daniel Mastandrea , Argentina 21.1.2.3.jpg Navegando
- Serie *( 102 ) Nueva Venecia, Magdalena (Colombia), 2015 Daniel Mastandrea , Argentina 21.1.2.3.jpg Navegando

Daniel Mastandrea, Argentina 21.1.2.3.jpg Navegando en el lago *(103) Potrero de los Funes (Argentina), 2015

Paula Louise Fernandes Silva, Brasil 177.1.2.4.jpg Prosa na Lagoa *(104) Roteiro, Alagoas. (Brasil), 2015

10.1.1.1.jpg Hugo Jorge Pires Ferreira , Portugal À espera *( 105 ) Praia de Mira
10.1.1.1.jpg Hugo Jorge Pires Ferreira , Portugal À espera *( 105 ) Praia de Mira

10.1.1.1.jpg Hugo Jorge Pires Ferreira, Portugal À espera *(105) Praia de Mira (Portugal), 2015

14.1.1.3.jpg Leticia Bombonati, Brasil Imensidão *(106) Recife (Brasil), 2015

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 57 Osmar Pereira Oliva , Brasil 1.1.1.2.jpg Banho de
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 57 Osmar Pereira Oliva , Brasil 1.1.1.2.jpg Banho de

Osmar Pereira Oliva, Brasil 1.1.1.2.jpg Banho de rio I *(107) Januária - MG (Brasil), 2015

Raphael Alves, Brasil 4.1.1.1.jpg Gente vs Água #1 *(108) Manaus (Brasil), 2015

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 34.1.2.1.jpg Carlos Manuel Afonso Pereira , Portugal
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 34.1.2.1.jpg Carlos Manuel Afonso Pereira , Portugal

34.1.2.1.jpg Carlos Manuel Afonso Pereira, Portugal Captura dos Atuns no Tanque *(109) Olhão (Portugal), 2014

32.1.2.5.jpg Rafael Souza, Brasil Pão de cada Dia *(110) Pantanal Sul Matogrossense (Brasil), 2015

Dia *( 110 ) Pantanal Sul Matogrossense (Brasil), 2015 Michelle Vázquez Corona , Jalisco 133.1.2.3.jpg
Dia *( 110 ) Pantanal Sul Matogrossense (Brasil), 2015 Michelle Vázquez Corona , Jalisco 133.1.2.3.jpg

Michelle Vázquez Corona, Jalisco 133.1.2.3.jpg Pescadores de Matarrayas *(111) Nayarit (México), 2015

Michelle Vázquez Corona, Jalisco 133.1.2.4.jpg Pescadores de Matarrayas *(112) Nayarit (México), 2015

34.1.2.4.jpg Carlos Manuel Afonso Pereira , Portugal Trabalho em equipa *( 113 ) Olhão (Portugal),
34.1.2.4.jpg Carlos Manuel Afonso Pereira , Portugal Trabalho em equipa *( 113 ) Olhão (Portugal),

34.1.2.4.jpg Carlos Manuel Afonso Pereira, Portugal Trabalho em equipa *(113) Olhão (Portugal), 2014

159.1.2.3.JPG Jaqueline de Arruda Campos, Brasil O porto seguro *(114) Praia Barra de Tabatinga, RN. (Brasil), 2016

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 59 João Coutinho , Portugal 98.1.2.2.jpg Vidas Salgadas *(
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 59 João Coutinho , Portugal 98.1.2.2.jpg Vidas Salgadas *(

João Coutinho, Portugal 98.1.2.2.jpg Vidas Salgadas *(115) Costa da Caparica (Portugal), 2015

João Coutinho, Portugal 98.1.2.3.jpg Recolher as Redes *(116) Costa da Caparica (Portugal), 2015

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 116.1.2.1.JPG Mahmoudreza Golchinarefi , Irão Slush
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 116.1.2.1.JPG Mahmoudreza Golchinarefi , Irão Slush

116.1.2.1.JPG Mahmoudreza Golchinarefi, Irão Slush coating *(117) Chabahar (Irão), 2015

48.1.2.5.JPG Abedin, Irão No Comment 5 *(118) Kermanshah (Irão), 2016

, Irão No Comment 5 *( 118 ) Kermanshah (Irão), 2016 Maria Alexandra A. Viegas Abreu
, Irão No Comment 5 *( 118 ) Kermanshah (Irão), 2016 Maria Alexandra A. Viegas Abreu

Maria Alexandra A. Viegas Abreu Lima, Portugal 187.1.2.5.jpg Agdal *(119) Vale de Zat, Alto Atlas (Marrocos), 2016

Paula Louise Fernandes Silva, Brasil 177.1.2.5.jpg A sede da Caatinga *(120) Belo Monte, Alagoas. (Brasil), 2015

83.1.2.4.jpg Susana Girón , Espanha Trashumancia_04 *( 121 ) Provincia de Ciudad Real (Espanha), 2014
83.1.2.4.jpg Susana Girón , Espanha Trashumancia_04 *( 121 ) Provincia de Ciudad Real (Espanha), 2014

83.1.2.4.jpg Susana Girón, Espanha

Trashumancia_04

*(121) Provincia de Ciudad Real (Espanha), 2014

80.1.2.2.JPG Vânia Fernandes, Portugal Aprendizagem *(122) Deserto do Gobi (Mongólia), 2014

1 I património natural, paisagens e biodiversidade

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1 I património natural, paisagens e biodiversidade 61 Ricardo Jorge Martins Cunha dos Santos Rei ,
1 I património natural, paisagens e biodiversidade 61 Ricardo Jorge Martins Cunha dos Santos Rei ,

Ricardo Jorge Martins Cunha dos Santos Rei, Portugal 168.1.2.2.jpg Equilíbrio de Forças *(123) Serra da Estrela (Portugal), 2015

Susana Girón, Espanha 83.1.2.2.jpg

Trashumancia_02

*(124) Procincia de Jaén (Espanha), 2015

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 93.1.2.6.JPG Walter Gómez Urrego , Colombia ST 006

93.1.2.6.JPG Walter Gómez Urrego, Colombia ST 006 *(125) Tabio (Colombia), 2016

Urrego , Colombia ST 006 *( 125 ) Tabio (Colombia), 2016 Susana Girón , Espanha 83.1.2.1.jpg

Susana Girón, Espanha 83.1.2.1.jpg Trashumancia _01 *(126) Provincia de Jaén (Espanha), 2015

tema 2 e spaços rurais, agricultura e povoamento

tema 2

espaços rurais, agricultura e povoamento

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

66 transversalidades 2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras
Teo Liak Song Malásia Housewife with kids 12.2.1.3.jpg *( 127 ) Padang (Indonésia), 2016 2

Teo Liak Song Malásia

Housewife with kids

12.2.1.3.jpg

*(127) Padang (Indonésia), 2016

2 I espaços rurais, agricultura e povoamento

prémio tema

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2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras Teo Liak Song Malásia Going to work 12.2.1.2.jpg

Teo Liak Song Malásia

Going to work 12.2.1.2.jpg *(128) Padang (Indonésia), 2016

to work 12.2.1.2.jpg *( 128 ) Padang (Indonésia), 2016 After work 12.2.1.4.jpg *( 129 ) Padang

After work 12.2.1.4.jpg *(129) Padang (Indonésia), 2016

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2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras Teo Liak Song , Malásia 12.2.1.1.jpg Chit Chat

Teo Liak Song, Malásia 12.2.1.1.jpg Chit Chat *(130) Padang (Indonésia), 2016

2 I espaços rurais, agricultura e povoamento

menção honrosa

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rurais, agricultura e povoamento menção honrosa 71 Amitava Chandra , Índia 58.2.2.6.jpg Y e l l

Amitava Chandra, Índia 58.2.2.6.jpg Yellow-ecstasy *(131) Madhabpur in w-bengal (Índia), 2014

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

Espaços rurais, agricultura e povoamento

Teresa Pinto-Correia *

rurais, agricultura e povoamento Teresa Pinto-Correia * screver sobre os espaços rurais da Europa hoje em

screver sobre os espaços rurais da Europa hoje em dia é escrever sobre espaços em transição. E como tal, espaços em mudança, que não voltarão a ser o que eram até agora, mas que ao mesmo tempo esperamos que preservem

a sua autenticidade e a sua integridade. As trajectórias

de mudança são múltiplas e complexas, levando a uma

crescente diferenciação entre vários rurais. Nos espaços rurais periféricos, tais como este nossos do Sul, estas

transições são particularmente acentuadas. São espaços vulneráveis, sem uma vocação produtiva competitiva face

à globalização de pessoas e mercados, mas de uma diver- sidade incomparável e também por isso sempre muito

valorizados. E é difícil saber para onde vão, neste processo

de transição. Habituámo-nos a uma representação do

rural como um universo imutável, onde o tempo parecia parado e os hábitos e práticas se mantinham. E ao urbano como espaço dinâmico, criativo e de inovação. Mas os limites confundem-se e as características misturam-se. E levantam-se novas questões de gestão do rural, do papel da agricultura e da sua integração territorial, da nova composição das comunidades rurais, do papel de cada uma destas pessoas e de como se relacionam e ocupam o território.

O espaço rural muda como resultado das mudanças na

agricultura, que desde há séculos constrói a paisagem e cria a identidade do rural. Em geral, as características

da paisagem rural europeia são hoje o resultado de um

turas. Instalam-se novas formas de agricultura especiali- zada, enquanto áreas que anteriormente eram produtivas, são abandonadas. A agricultura tornou-se cada vez mais dependente de um mundo globalizado e orientada para o mercado, enquanto as práticas agrícolas se desligaram da comunidade rural e das preocupações sociais no território. Simultâneamente, o espaço rural muda também como resultado duma crescente urbanização, que levou e leva ainda à concentração da população nas áreas urbanas, mas também ao alastrar de modelos urbanos de vida, mes- mo em espaços que normalmente se consideram profun-

damente rurais. E também cada vez mais, o espaço rural muda como resultado das novas funções que a sociedade espera do rural e dele usufrui, ou seja, o rural como espaço residencial, de recreio e actividades de ar livre, turismo, identidade cultural, conservação da natureza e perserva- ção dos recursos naturais. Tal como tão bem descrito pelo geógrafo australiano John Holmes, o espaço rural deixou de ser exclusivamente um espaço de produção, para passar

a ser também, e em múltiplas combinações, um espaço

de consumo e um espaço de protecção. As mudanças na agricultura intensificaram a produção agrícola onde possí-

vel, em espaços agro-industriais especilizados, e deixaram espaço excedentário para outras funções; as mudanças nas expectativas e práticas da sociedade, criaram novas pressões sobre esse espaço. O próprio espaço é objecto de consumo, pela sua paisagem e pelas actividades e pelos serviços que esta suporta e enquadra. E paradoxalmente, este consumo não constrói nem mantêm a paisagem nem

tempo onde a agricultura era de longe a mais importante

o

património rural que aprecia, justamente o que faz é

função e factor de construçao e de mudança da paisagem.

consumi-los, como um recurso disponível. E o espaço rural

Mas mesmo a própria agricultura muda. As tendências de

é

ainda objecto de protecção, pela consciência dos limites

mudanças na agricultura são várias, e podem ser de inten-

e

fragilidades dos recursos naturais e da natureza. Num

sificação, especialização, concentração, marginalização, extensificação, racionalização do trabalho e das infraestru-

contínuo, perdem-se práticas, diluem-se saberes, perdem-se pessoas, surgem novas procuras, chegam novas pessoas,

renovam-se as antigas práticas com novas motivações, criam-se novos hábitos, introduzem-se novas práticas. A paisagem tem uma certa resiliência, e em muitos casos parece manter-se, mesmo se as novas funções não corres- pondem à estrutura existente. Neste desencontro entre estrutura e função, acontece também que a paisagem se desintegra e perde a sua qualidade intrínseca. E assim, as novas formas de ocupação do rural resultam em trajectó- rias complexas para cada tipo de espaço rural, trajectórias que ainda não conseguimos bem entender e muito menos conseguimos prever.

Face à transição ou múltiplas transições em curso, urge reflectir sobre para onde queremos ir. Que visão temos para os nossos espaços rurais no futuro? Muitos dos espa-

ços rurais e da paisagem rural tal como os conhecemos hoje irão desaparecer, novos serão criados, todos sujeitos

a factores de mudança com que nem sonhávamos há

uns anos atrás. As políticas públicas actuam de forma descoordenada e mesmo por vezes contraditória, sem que se entenda qual é a política para o rural, e que entidade

defende o rural de uma forma integrada. Os efeitos são por vezes inesperados, e frequentemente problemáticos.

Paradoxalmente, e mesmo registando a mudança, as co- munidades que vivem no espaço rural e que o apreciam, raramente discutem qual o futuro que gostariam de ter nesse espaço, o que consideram aceitável ou inaceitável, o que poderá ser sustentável ou não. Para as áreas urbanas,

recentes ou históricas, as visões para o fututo estão fre- quentemente na agenda, nos média e no debate público

e académico. Mas não para o rural. Talvez esta aparente

ausência de interesse se deva ao facto da imagem do rural

continuar a ser uma imagem do passado. Ou ao facto da

* ICAAM, Universidade de Évora

2 I espaços rurais, agricultura e povoamento

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mudança ser tão rápida e em tantas direcções diferentes, que é difícil saber como a compreender e analisar. O que

é um facto é que não há uma voz do rural, que todos reco-

nheçam, tanto os que lá vivem como os que o observam do exterior. E que as comunidades locais e outros agentes do rural continuam hoje, muito frequentemente, como meros espectadores de um espaço rural em mudança extremamente rápida, sem que se criem mecanismos de governança para fazer face às questões e incertezas que daí resultam.

Estratégias mais sofisticadas são necessárias, de forma a transformar as transições em curso em oportunidades

e criar novas narrativas do que o rural também pode

ser, para além do que já foi. Debater e criar visões para

o futuro desejado, em cada espaço com características

diferenciadas e uma comunidade específica, pode ser um caminho que permite avaliar as oportunidades e as ameaças, mais do que evitar os impactes negativos. Um debate organizado e participado sobre o futuro do rural, da agricutura em relação com o seu teritório, e de todas as outras actividades e funções que o rural suporta hoje em dia, pelas pessoas que vivem e usam esse território. Como processo partilhado, que seja inclusivo e integrador, e que envolva vários tipos de actores a várias escalas de gover- nança. O processo terá que ser contínuo, com soluções construídas mas também adaptativas, Num mundo em constante mudança e incerteza, o caminho a seguir não pode ser definido desde o início, mas sim que ser sucessi- vamente redefenido. Assim, para estes espaços rurais em transição, o caminho poderia não ser unicamente o resul- tado de vários factores de mudança actuando simultanea- mente, mas um caminho traçado em conjunto através de uma estratégia local construída pelos interessados.

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 9.2.2.1.jpg Felipe Tomás Jiménez Ordóñez , Espanha
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 9.2.2.1.jpg Felipe Tomás Jiménez Ordóñez , Espanha

9.2.2.1.jpg Felipe Tomás Jiménez Ordóñez, Espanha Palomar I *(132) Alhambra (Espanha), 2015

9.2.2.4.jpg Felipe Tomás Jiménez Ordóñez, Espanha Palomar V *(133) Alhambra (Espanha), 2015

, Espanha Palomar V *( 133 ) Alhambra (Espanha), 2015 Tiago Costa Gomes , Brasil 101.2.2.1.jpg
, Espanha Palomar V *( 133 ) Alhambra (Espanha), 2015 Tiago Costa Gomes , Brasil 101.2.2.1.jpg

Tiago Costa Gomes, Brasil 101.2.2.1.jpg

O cão, a menina e o Sertão

*(134) Umirim, Ceará (Brasil), 2016

Leonice Seolin Dias, Brasil 72.2.2.6.jpg

O resultado da queima da cana-de-açúçar

*(135) Martinóplis, São Paulo (Brasil), 2015

28.2.1.1.jpg Pedro Gonçalo Jerónimo de Jesus Caiado , Portugal Sem título 1 *( 136 )
28.2.1.1.jpg Pedro Gonçalo Jerónimo de Jesus Caiado , Portugal Sem título 1 *( 136 )

28.2.1.1.jpg Pedro Gonçalo Jerónimo de Jesus Caiado, Portugal Sem título 1 *(136) Arrouquelas, Rio Maior (Portugal), 2015

16.2.1.1.JPG Iolanda Veiros, Portugal Solitária *(137) Mogadouro (Portugal), 2016

2 I espaços rurais, agricultura e povoamento

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2016 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 75 Nestor Toscanelli , Argentina 94.2.2.5.JPG Provecho del
2016 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 75 Nestor Toscanelli , Argentina 94.2.2.5.JPG Provecho del

Nestor Toscanelli, Argentina 94.2.2.5.JPG Provecho del Sol *(138) Sanford (Argentina), 2016

Luiz Rodolfo Simões Alves, Portugal 1.2.2.1.JPG No topo da serra com vista para o mundo *(139) Aigra Velha (Portugal), 2016

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 71.2.2.1.jpg Hélder Miguel da Rocha Coelho , Portugal
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 71.2.2.1.jpg Hélder Miguel da Rocha Coelho , Portugal

71.2.2.1.jpg Hélder Miguel da Rocha Coelho, Portugal Bairrada I *(140) Anadia (Portugal), 2016

92.2.2.1.jpg Jorge Barros, Portugal Energia da natureza *(141) Adaúfe (Portugal), 2016

Energia da natureza *( 141 ) Adaúfe (Portugal), 2016 Jessyca Fabyola Ribeiro Ataliba , Brasil 73.2.2.2.JPG
Energia da natureza *( 141 ) Adaúfe (Portugal), 2016 Jessyca Fabyola Ribeiro Ataliba , Brasil 73.2.2.2.JPG

Jessyca Fabyola Ribeiro Ataliba, Brasil 73.2.2.2.JPG A cidade perdida dos Incas *(142) Machu Picchu (Perú), 2014

Bahram, Irão 13.2.2.4.jpg Respeito *(143) Ramsar (Irão)

52.2.2.4.jpg Sandro Malveiro , Portugal Destinos *( 144 ) Flores, Açores (Portugal), 2016 32.2.2.1.jpg João
52.2.2.4.jpg Sandro Malveiro , Portugal Destinos *( 144 ) Flores, Açores (Portugal), 2016 32.2.2.1.jpg João

52.2.2.4.jpg Sandro Malveiro, Portugal Destinos *(144) Flores, Açores (Portugal), 2016

32.2.2.1.jpg João Filipe Gonçalves, Portugal Casa da Fazenda *(145) Curral das Freiras (Portugal), 2015

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2015 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 77 Rita Brito , Portugal 23.2.2.2.JPG Estrada de
2015 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 77 Rita Brito , Portugal 23.2.2.2.JPG Estrada de

Rita Brito, Portugal 23.2.2.2.JPG Estrada de Primavera *(146) Ourique , Alentejo (Portugal)

Patricia Sánchez Maldonado, Espanha 6.2.2.6.JPG Serpiente negra *(147) Villarino de los Aires (Espanha), 2016

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 46.2.2.3.jpg Hossein , Irão Farmer *( 148 )
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 46.2.2.3.jpg Hossein , Irão Farmer *( 148 )

46.2.2.3.jpg Hossein, Irão Farmer *(148) Mashhad Road (Irão), 2015

2.2.2.5.jpg Alan Sinhue Herrera Villalobos, México Al corazón de la sierra 5 *(149) Sierra de Puebla (México), 2016

de la sierra 5 *( 149 ) Sierra de Puebla (México), 2016 Antonio , Espanha 37.2.2.6.jpg
de la sierra 5 *( 149 ) Sierra de Puebla (México), 2016 Antonio , Espanha 37.2.2.6.jpg

Antonio, Espanha 37.2.2.6.jpg Paisajes de ensueño *(150) Córdoba (Espanha), 2016

Antonio, Espanha 37.2.2.4.jpg Pequeños seres III *(151) Córdoba (Espanha), 2015

51.2.2.3.JPG Chow Fun Kau , Hong Kong, China Living in rice fields *( 152 )
51.2.2.3.JPG Chow Fun Kau , Hong Kong, China Living in rice fields *( 152 )

51.2.2.3.JPG Chow Fun Kau, Hong Kong, China Living in rice fields *(152) Congjiang County, Guizhou (China), 2015

00.0.0.0. Chow Fun Kau, Hong Kong, China

Living in rice fields *(153) Congjiang County, Guizhou (China), 2015

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2015 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 79 Maria Elizabeth Pierella , Argentina 65.2.2.3.jpg
2015 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 79 Maria Elizabeth Pierella , Argentina 65.2.2.3.jpg

Maria Elizabeth Pierella, Argentina 65.2.2.3.jpg Enlazados *(154) Puno (Perú), 2015

Boris Antonio Mercado Mar, Perú 85.2.2.2.jpg Pacha *(155) Huancalle, Cusco (Perú), 2014

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2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 8.2.2.5.jpg Ricardo Alfredo Kleine Samson , Argentina
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 8.2.2.5.jpg Ricardo Alfredo Kleine Samson , Argentina

8.2.2.5.jpg Ricardo Alfredo Kleine Samson, Argentina Arreando a la invernada *(156) Volcán Tromen (Argentina), 2016

8.2.2.2.jpg Ricardo Alfredo Kleine Samson, Argentina Arreando el piño *(157) Trashumante, Chos Malal (Argentina), 2014

piño *( 157 ) Trashumante, Chos Malal (Argentina), 2014 Vasco da Assunção Ribeiro Morais , Portugal
piño *( 157 ) Trashumante, Chos Malal (Argentina), 2014 Vasco da Assunção Ribeiro Morais , Portugal

Vasco da Assunção Ribeiro Morais, Portugal 3.2.1.2.jpg Cercado *(158) Outeiro, Viana do Castelo (Portugal), 2015

Vasco da Assunção Ribeiro Morais, Portugal 3.2.1.4.jpg Aprumar o pêlo grosseiro *(159) Outeiro, Viana do Castelo (Portugal), 2015

11.2.1.3.jpg Vítor Nuno Gomes Pinto Ferreira , Portugal Rapa das Bestas - 3 *( 160
11.2.1.3.jpg Vítor Nuno Gomes Pinto Ferreira , Portugal Rapa das Bestas - 3 *( 160

11.2.1.3.jpg Vítor Nuno Gomes Pinto Ferreira, Portugal Rapa das Bestas - 3 *(160) Morgadans, Galiza (Espanha), 2015

11.2.1.1.JPG Vítor Nuno Gomes Pinto Ferreira, Portugal Rapa das Bestas - 1 *(161) Morgadans, Galiza (Espanha), 2015

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2015 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 81 Mercado L. Agustín , Argentina 21.2.1.5.jpg Trashumancia
2015 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 81 Mercado L. Agustín , Argentina 21.2.1.5.jpg Trashumancia

Mercado L. Agustín, Argentina 21.2.1.5.jpg Trashumancia 5 *(162) Neuquén (Argentina), 2015

Mercado L. Agustín, Argentina 21.2.1.2.jpg Trashumancia 2 *(163) Neuquén (Argentina), 2015

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2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 10.2.1.3.jpg João Vasco Santos Ribeiro , Portugal
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 10.2.1.3.jpg João Vasco Santos Ribeiro , Portugal

10.2.1.3.jpg João Vasco Santos Ribeiro, Portugal Periferias #3 *(164) Agualva (Portugal), 2016

10.2.1.4.jpg João Vasco Santos Ribeiro, Portugal Periferias #4 *(165) Agualva (Portugal), 2016

Portugal Periferias #4 *( 165 ) Agualva (Portugal), 2016 Gislaine Milani , Brasil 18.2.1.3.JPG A Vida
Portugal Periferias #4 *( 165 ) Agualva (Portugal), 2016 Gislaine Milani , Brasil 18.2.1.3.JPG A Vida

Gislaine Milani, Brasil 18.2.1.3.JPG

A Vida sem Barreiras

*(166) Fazenda Boa Esperança, Aguanil (Brasil), 2015

Gislaine Milani, Brasil 18.2.1.2.JPG

O Bem da Vida

*(167) Fazenda Boa Esperança, Aguanil (Brasil), 2015

2.2.1.2.JPG Bruno Andrade , Portugal Matança *( 168 ) Dornelas (Portugal), 2015 32.2.1.1.jpg Vitor Pina
2.2.1.2.JPG Bruno Andrade , Portugal Matança *( 168 ) Dornelas (Portugal), 2015 32.2.1.1.jpg Vitor Pina

2.2.1.2.JPG Bruno Andrade, Portugal Matança *(168) Dornelas (Portugal), 2015

32.2.1.1.jpg Vitor Pina, Portugal Tosquia 1 *(169) Boliqueime (Portugal), 2015

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2015 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 83 Rui Monteiro Matos , Portugal 31.2.1.2.jpg Triade
2015 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 83 Rui Monteiro Matos , Portugal 31.2.1.2.jpg Triade

Rui Monteiro Matos, Portugal 31.2.1.2.jpg Triade I *(170) Seia (Portugal), 2015

Guilherme Limas, Portugal 15.2.1.4.jpg Heróis da Serra *(171) Serra do Caramulo (Portugal), 2014

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2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 91.2.2.2.jpg Yaryna Puzyrenko , Ucrânia Towers and cows
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 91.2.2.2.jpg Yaryna Puzyrenko , Ucrânia Towers and cows

91.2.2.2.jpg Yaryna Puzyrenko, Ucrânia Towers and cows *(172) Ushguli (Georgia), 2014

85.2.2.4.jpg Boris Antonio Mercado Mar, Perú Pacha *(173) Patacancha, Cusco (Perú), 2014

, Perú Pacha *( 173 ) Patacancha, Cusco (Perú), 2014 Boris Antonio Mercado Mar , Perú
, Perú Pacha *( 173 ) Patacancha, Cusco (Perú), 2014 Boris Antonio Mercado Mar , Perú

Boris Antonio Mercado Mar, Perú 82.2.2.6.jpg Pacha *(174) Huancalle, Cusco (Perú), 2015

Carlos Alirio Meneses Cordero, Colombia 48.2.2.3.JPG Cañicultor *(175) Enciso (Colombia), 2016

22.2.1.3.jpg António José Cunha , Portugal Malhada do Centeio *( 176 ) Paredes do Rio,
22.2.1.3.jpg António José Cunha , Portugal Malhada do Centeio *( 176 ) Paredes do Rio,

22.2.1.3.jpg António José Cunha, Portugal Malhada do Centeio *(176) Paredes do Rio, Montalegre (Portugal), 2015

2.2.1.4.jpg Bruno Andrade, Portugal Feno *(177) Dornelas (Portugal), 2015

2 I espaços rurais, agricultura e povoamento

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2015 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 85 Jorge Filipe Ascensão , Portugal 27.2.1.2.jpg Gerações
2015 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 85 Jorge Filipe Ascensão , Portugal 27.2.1.2.jpg Gerações

Jorge Filipe Ascensão, Portugal 27.2.1.2.jpg Gerações *(178) Serra da Estrela (Portugal), 2015

Jorge Filipe Ascensão, Portugal 27.2.1.6.jpg Os fugitivos *(179) Serra da Estrela (Portugal), 2015

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2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 9.2.1.1.JPG José António Rodrigues de Almeida Pereira ,
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 9.2.1.1.JPG José António Rodrigues de Almeida Pereira ,

9.2.1.1.JPG José António Rodrigues de Almeida Pereira, Cabo Verde Caminhos da seca *(180) Interior da Ilha de Santiago (Cabo Verde), 2016

7.2.1.2.jpg Reza Alavi, Irão The Driver *(181) Palangan, Kurdistan (Irão), 2014

The Driver *( 181 ) Palangan, Kurdistan (Irão), 2014 Albino Mahumana , Moçambique 19.2.1.2.JPG
The Driver *( 181 ) Palangan, Kurdistan (Irão), 2014 Albino Mahumana , Moçambique 19.2.1.2.JPG

Albino Mahumana, Moçambique 19.2.1.2.JPG Agricultura-base do desenvolvimento *(182) Mabalane, Gaza (Moçambique), 2015

Cristian Ferrari, Brasil 6.2.1.1.jpg Buena Vista *(183) Local (Brasil), 2016

50.2.2.1.jpg Yander Zamora , Cuba Retrato de familia *( 184 ) Ciénaga de Zapata, Matanzas
50.2.2.1.jpg Yander Zamora , Cuba Retrato de familia *( 184 ) Ciénaga de Zapata, Matanzas

50.2.2.1.jpg Yander Zamora, Cuba Retrato de familia *(184) Ciénaga de Zapata, Matanzas (Cuba), 2016

50.2.2.2.jpg Yander Zamora, Cuba La competencia *(185) Ciénaga de Zapata, Matanzas (Cuba), 2016

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2016 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 87 Harold , Argentina 95.2.2.5.jpg Sem título *(
2016 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 87 Harold , Argentina 95.2.2.5.jpg Sem título *(

Harold, Argentina 95.2.2.5.jpg Sem título

*(186)

Anderson Stevens, Brasil 43.2.2.5.jpg Ensaio do Sertanejo Pernambucano *(187) Serrita, Pernambuco (Brasil), 2015

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 45.2.2.5.jpg Afshin Azarian , Irão Handmade craft *(
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 45.2.2.5.jpg Afshin Azarian , Irão Handmade craft *(

45.2.2.5.jpg Afshin Azarian, Irão Handmade craft *(188) Dargh (Tajiquistão), 2016

45.2.2.4.jpg Afshin Azarian, Irão Cleaning potatoes *(189) Dargh (Tajiquistão), 2016

Cleaning potatoes *( 189 ) Dargh (Tajiquistão), 2016 Daniela , México 99.2.2.2.jpg Los tres *( 190
Cleaning potatoes *( 189 ) Dargh (Tajiquistão), 2016 Daniela , México 99.2.2.2.jpg Los tres *( 190

Daniela, México 99.2.2.2.jpg Los tres *(190) Cauca (Colombia), 2014

Mahmoud Reza Moeinpour, Irão 66.2.2.5.jpg Grandpa *(191) Harijan (Irão), 2016

59.2.2.2.jpg J. B. César , Portugal Giestas no campo *( 192 ) Travancas, Chaves (Portugal),
59.2.2.2.jpg J. B. César , Portugal Giestas no campo *( 192 ) Travancas, Chaves (Portugal),

59.2.2.2.jpg J. B. César, Portugal Giestas no campo *(192) Travancas, Chaves (Portugal), 2016

25.2.1.5.jpg Pedro, Portugal Os Convivas *(193) São Domingos (Portugal), 2015

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2015 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 89 Gabriel , Colombia 37.2.1.4.jpg La Huida *(
2015 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 89 Gabriel , Colombia 37.2.1.4.jpg La Huida *(

Gabriel, Colombia 37.2.1.4.jpg La Huida *(194) Guainía (Colombia), 2014

Sasan Amjadi, Irão 64.2.2.2.jpg Resting *(195) Babol,Village Chopan Kola (Irão), 2014

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 93.2.2.3.jpg António Jorge Feio Bacelar Vilar , Portugal
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 93.2.2.3.jpg António Jorge Feio Bacelar Vilar , Portugal

93.2.2.3.jpg António Jorge Feio Bacelar Vilar, Portugal Ruralidade da Gente Marinhoa *(196) Murtosa (Portugal), 2016

00.0.0.0. António Jorge Feio Bacelar Vilar, Portugal Ruralidade da Gente Marinhoa *(197) Murtosa (Portugal), 2016

da Gente Marinhoa *( 197 ) Murtosa (Portugal), 2016 Micael Luz Amaral , Brasil 5.2.1.5.jpg Longevo
da Gente Marinhoa *( 197 ) Murtosa (Portugal), 2016 Micael Luz Amaral , Brasil 5.2.1.5.jpg Longevo

Micael Luz Amaral, Brasil 5.2.1.5.jpg Longevo *(198) Caetanos, Bahia (Brasil), 2015

Mahmoud Reza Moeinpour, Irão 66.2.2.3.jpg Bread for life *(199) Bavan (Irão), 2015

38.2.1.1.JPG Ágda Nara Tavares Bandeira , Brasil Olhares *(2 00 ) Cuncas (Brasil), 2016 3.2.2.2.jpg
38.2.1.1.JPG Ágda Nara Tavares Bandeira , Brasil Olhares *(2 00 ) Cuncas (Brasil), 2016 3.2.2.2.jpg

38.2.1.1.JPG Ágda Nara Tavares Bandeira, Brasil Olhares *(200) Cuncas (Brasil), 2016

3.2.2.2.jpg Vera Silva Cachão, Portugal A tradição *(201) Serra da Arrábida (Portugal), 2016

2 I espaços rurais, agricultura e povoamento

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2016 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 91 Laura Moura , Portugal 70.2.2.6.JPG Primeiro andar
2016 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 91 Laura Moura , Portugal 70.2.2.6.JPG Primeiro andar

Laura Moura, Portugal 70.2.2.6.JPG Primeiro andar 3 *(202) Outeiro Seco (Portugal), 2016

Gi da Conceição, Portugal 60.2.2.3.jpg Fome *(203) Bordonhos (Portugal), 2016

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 10.2.2.3.JPG Sofia Salazar Chavarro , Colombia Fachada
2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 10.2.2.3.JPG Sofia Salazar Chavarro , Colombia Fachada

10.2.2.3.JPG Sofia Salazar Chavarro, Colombia Fachada *(204) Ulloa (Colombia), 2016

78.2.2.3.JPG Elizaveta, Rússia O solitário cabra (The goat loner) *(205) Gorskino aldeia, região de Kemerovo (Rússia), 2014

05 ) Gorskino aldeia, região de Kemerovo (Rússia), 2014 J. B. César , Portugal 59.2.2.1.jpg Erva
05 ) Gorskino aldeia, região de Kemerovo (Rússia), 2014 J. B. César , Portugal 59.2.2.1.jpg Erva

J. B. César, Portugal 59.2.2.1.jpg Erva no recreio *(206) Lagarelhos, Chaves (Portugal), 2016

Yander Zamora, Cuba 50.2.2.5.jpg Guajiro en su casa *(207) Ciénaga de Zapata, Matanzas (Cuba), 2016

1.2.1.2.jpg João Manuel Pereira Pinto , Portugal Praça *(2 08 ) Carrazeda de Ansiães (Portugal),
1.2.1.2.jpg João Manuel Pereira Pinto , Portugal Praça *(2 08 ) Carrazeda de Ansiães (Portugal),

1.2.1.2.jpg João Manuel Pereira Pinto, Portugal Praça *(208) Carrazeda de Ansiães (Portugal), 2015

47.2.2.5.jpg Anderson José de Andrade, Brasil Um povo de fé *(209) Sítio Sobradinho-Salgadinho-PE (Brasil), 2016

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2016 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 93 Hossein , Irão 46.2.2.1.jpg Passenger *( 210
2016 2 I espaços rurais, agricultura e povoamento 93 Hossein , Irão 46.2.2.1.jpg Passenger *( 210

Hossein, Irão 46.2.2.1.jpg Passenger *(210) Northern Iran’s Paths (Irão), 2015

Cesar Lafalce, Argentina 34.2.2.2.jpg Crisálida *(211) Mendoza (Argentina), 2016

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

2 0 1 6 I fotografia sem fronteiras 57.2.2.1.jpg Joana Barrelas , Portugal Equilíbrio *( 212

57.2.2.1.jpg Joana Barrelas, Portugal Equilíbrio *(212) Lago Inle (Myanmar), 2015

, Portugal Equilíbrio *( 212 ) Lago Inle (Myanmar), 2015 Joana Barrelas , Portugal 57.2.2.3.jpg Rua
, Portugal Equilíbrio *( 212 ) Lago Inle (Myanmar), 2015 Joana Barrelas , Portugal 57.2.2.3.jpg Rua

Joana Barrelas, Portugal 57.2.2.3.jpg Rua *(213) Lago Inle (Myanmar), 2015

Maria Victoria Glanzmann, Argentina 4.2.2.3.png Juego *(214) Tocaña (Bolívia), 2015

2 I espaços rurais, agricultura e povoamento

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E no interior do Estado do Rio de Janeiro ainda se dança o fado

João Rua *

Estado do Rio de Janeiro ainda se dança o fado João Rua * sta narrativa retrata

sta narrativa retrata uma vivência, desde o início dos anos 2000, numa localidade do Norte do Estado do Rio de Janeiro, onde se notaram grandes transformações num quadro rural muito tradicional, até recentemente. As

mudanças que vivenciamos acentuaram-se quando ainda se anunciava a grande transformação para a região: a pro- dução de petróleo e a dependência aos royalties recebidos por sua exploração, nas águas profundas confrontantes a essa localidade, em finais dos anos oitenta do século XX.

Quissamã, municipalidade de cerca de 20.000 habitan- tes, vem, desde o século XVIII, sendo identificada pela agroindústria do açúcar, que deu ao lugar certo destaque principalmente durante o império brasileiro. Hoje em dia vive dos royalties do petróleo e (minoritariamente) da agroindústria que domina sua paisagem. Os extensos canaviais, as grandes casas senhoriais, o orgulho da afro- descendência da maioria de seus habitantes e os traços deixados pela escravidão, constituem forte matriz cultural à qual se sobrepõe a dinâmica extrativista do petróleo. Assim, pode-se dizer que a marca mais tradicional de Quissamã é a paisagem herdada da plantation canavieira que controlava a apropriação do espaço, deixando ao campesinato, com algum grau de autonomia, apenas as áreas periféricas â atividade principal.

Entretanto, as formas de sociabilidade desse mundo rural se referiam e, numa certa medida ainda se referem, a esti- los de vida, concepções de mundo, processos de decisão e modalidades de trabalho que têm se elaborado e modifi- cado em interações dos atores locais (em sua heterogenei- dade) e outros de escalas supralocais, em nível regional, estadual, nacional e internacional, em jogos de poder bastante assimétricos. Isso se manifestou, fortemente,

durante as transformações técnicas e jurídicas que mati- zaram a sociedade brasileira a partir dos anos 50 do século

XX. Essa relação multiescalar (nacional-local) não alte-

rava o fato das grandes plantations de açúcar funcionarem

como unidades econômicas, sociais, culturais e políticas bastante singulares. Nelas se combinavam os grandes cultivos com as lavouras destinadas ao abastecimento ali-

mentar da família do proprietário das terras e das diversas famílias de trabalhadores residentes no domínio. Este correspondia ao que se denominou complexo rural onde

se localizavam as residências dos grandes proprietários e

dos trabalhadores-moradores, as atividades agroindustriais

e onde se exercia a vida familiar cotidiana.

A principal norma nesses domínios era a lealdade ao pa-

trão, a quem deviam a casa de moradia, o trato de terra para os cultivos, a água e a lenha para o uso doméstico,

a ajuda nos diversos momentos de necessidade e com

quem eram estabelecidas relações de compadrio, que

selavam os compromissos e atingiam até mesmo a esfera

da política, já que os trabalhadores-moradores e suas

famílias também eram clientes do voto. Aí se percebia a

hierarquia constitutiva de engenhos, usinas, fazendas de açúcar, café ou gado. De um lado, a família do chefe da unidade agroindustrial, seus ascendentes e descendentes, eventualmente indivíduos agregados por laços de amizade

e compadrio, vivendo na casa-grande; de outro, a multi-

plicidade de famílias de trabalhadores que residiam em casas diminutas de pau-a-pique (às vezes nas antigas sen- zalas onde tinham sido alojados os escravos na época da escravidão) de aspecto miserável. De um lado, os campos

a perder de vista, cultivados com a lavoura comercial sob

o controle do grande proprietário; de outro o cultivo de alimentos em minúsculos pedaços de terra, cedidos pelo dono apenas para uso.

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transversalidades 2016 I fotografia sem fronteiras

Em Quissamã, tal panorama se manteve até recentemente. Foi levemente “arranhado” pela crise de 1930, quando diversos grandes proprietários perderam suas terras para a

onipresente usina (dona da maior parte das terras e con- troladora do fluxo de cana para ser comercializada); foi, de alguma maneira atingido pelo processo de desruralização

e urbanização que vem dos anos 1950. No entanto, tal pa-

norama só foi seriamente alterado quando das mudanças ocorridas dos anos 1960 em diante, as quais provocaram

a maciça expulsão da mão-de-obra. Se em outras áreas do

país isso levou a alterações drásticas no padrão tecnológi-

co, em Quissamã foram encontradas maneiras de reter os trabalhadores próximos aos ex-domínios, o suficiente para serem utilizados sempre que se precisasse.

Como veremos num depoimento mais à frente, é impor- tante focar aquele quadro para compreender como as mudanças nele ocorridas são percebidas por alguns dos sujeitos que dele participaram integrados ao princípio ordenador que concentrava tanto poder nas mãos de poucos. As práticas de recrutamento e administração das plantations tradicionais tornaram-se ineficazes, ou mesmo contraproducentes devido a efeitos combinados da evolu- ção dos mercados internacionais das lavouras comerciais, da possibilidade de emigrar para as metrópoles que se

industrializavam, do fortalecimento do sindicalismo rural

e da implantação de um novo padrão legal e institucional. Além disso, a ampliação dos serviços urbanos, particu- larmente saúde e educação, mas também os transportes entre as localidades tornaram-se importantes elementos de desmonte do complexo rural e de aceleração do êxodo

e das transformações a partir daí observadas.

Resumidamente, pode-se dizer que às crises da exportação respondiam fórmulas particulares de relacionamento en- tre patrão e moradores que, ao baratearem a mão-de-obra, permitiam manter os lucros daquele que só viu seu poder ser erodido pela emigração de trabalhadores e pela im- plantação da legislação trabalhista no campo. Com isso o

conjunto de participantes das plantations tradicionais se viu na contingência de gerenciar, muito desigualmente, os recursos materiais e simbólicos de que dispunha, a reconversão de suas posições, de suas práticas e de sua percepção do mundo. Os trabalhadores passaram a ter de assumir os custos materiais de sua reprodução social.

Dona Joana, de presumíveis 80 anos de idade, filha de escrava, moradora da senzala da antiga fazenda Macha- dinha, assim nos relatou esse processo em novembro de 2001: “ah, era muito bom morar aqui na fazenda até uns quarenta anos atrás. Tinha tudo! Depois a coisa foi fican- do ruim, muita gente foi embora. A nós deixaram ficar aqui mas só morando. Nem água e lenha a gente tinha mais, tinha de comprar ou buscar longe. Fora do corte da cana ficou difícil. Só pegando biscates na cidade. Agora já está um pouco melhor – tem cesta básica, ajuda da prefeitura, médico toda a semana, a criançada tem praça pra jogar bola. Se não fosse isso acho que já tinha todo mundo ido embora”.

Aí se percebe tanto a visão idealizada do passado, que esconde a violência das relações existentes entre os pa- trões e os empregados-moradores, como o assistencialismo que caracteriza as relações no presente. Pode ser também evidência de uma certa “competição” com alguns traba- lhadores da cidade no mercado de trabalho local e que, com isso, podem ter engrossado o forte movimento emi- gratório de origem rural e urbana, anterior aos anos 90.

Dona Joana vivia e vive na senzala onde seus ante- passados viveram como escravos. Não tem qualquer aparelho eletrodoméstico – “só um bico de luz”, mas acha a televisão “uma coisa linda”. Não sabe ler nem escrever mas é o depositário da tradição cultural afro-brasileira, conduzindo os diversos rituais e tentando passar para os mais jovens a dança do jongo, utilizada em alguns desses rituais. Quando perguntada como via a modernização de Quissamã, não se fez de rogada e falou: “Agora está

muito melhor. A vida está mais fácil”. Não percebia que poucos, como ela, vivenciaram os três momentos a que se referiu indiretamente: o da fartura sob a proteção do “bom patrão”, o da penúria, quando não compreende por que pioraram tanto as relações com o “bom patrão” e, em 2001, quando disse que estava tudo melhor por que aten- dida pelo “novo bom patrão” – o assistencialismo oficial.

É nesse sentido que a memória se torna um excelente re-

curso para a manutenção de “espaços de resistência” pois facilita lidar com a dimensão objetiva dos fatos mas tam- bém com o lado subjetivo dos indivíduos que constituem os diferentes grupos sociais. Situações conflituosas, jogos de poder e processos como o de construção da identidade territorial e do “sentido do lugar” são melhor percebidos quando se utiliza a memória, e sua capacidade de ir ao passado e retorno ao presente, para descortiná-los.

Outra visão desse quadro é apresentada por José Carlos, 19 anos (em 2003), morador da senzala de Machadinha, que trabalhava eventualmente para a prefeitura e cortava cana. Estudava no 5º ano noturno da escola de Machadi- nha. Tinha bicicleta, ia a Macaé (cidade de porte médio,

mais próxima) com alguma frequência “ver as meninas”, não gostava das coisas antigas e nem dançava o fado (ma- nifestação folclórica local). Também não participava das cerimônias religiosas que considerava “coisa de velho”. Cortava cana desde criança. Quando perguntado sobre

o que achava da modernização de Quissamã, respondeu

que “melhorou muita coisa, mas falta muito. Não há onde se divertir. Só os bares e o futebol. Bom são os shows de verão na praia. É de graça e não perco um. Às vezes vem uma discoteca pra cidade mas é muito caro. Mesmo assim eu vou”. Vê televisão no bar do local onde mora.

Cristiano tinha 9 anos (em 2004) e também vivia na senzala da Machadinha desde que nasceu. Estudava no 4º ano da escola municipal local. Gostava da escola. Disse que a merenda era boa. Ganhava uniforme e o material

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