You are on page 1of 292

Sinopse

:

Introdução
A senhora Rose Lens fechou os olhos. Arfava. A
respiração a enchia de vida exterior. As cigarras
dividem a madrugada em finas fatias de desespero. O
mar ao longe. Parece aqui. Dentro do quarto. Nos
pensamentos relativos ao momento imediato
imprimiu-se um colorido digressivo. No pio da ave
noturna há um desenho aos pés de uma freira. O raio
em que nasce o cântico das contrações retroage à
madrugada em que uma menina saiu à luz. Ouviu os
morcegos, céleres; lágrimas ambíguas brilharam em
seus olhos. As reminiscências levaram o corpo quieto
na cama para as praias da adolescência, povoadas de
gaivotas. O pulsar do colchão de molas ateara um
rubor vivíssimo às partículas de pó. Um arrepio na
parte de dentro das coxas. O que se leva do mundo?
Nada – pensou ao levar os dedos. O gatinho sobe na
cama e se aconchega no corpo quente para
atravessar com ela a passagem escura como a
madrugada perto do amanhecer e, mesmo antes do
sol, pelo sol redimida.
Houve um momento em que o mundo se desligou

da noite. O primeiro efeito foi a perda do contraste das
estrelas em relação ao céu preguiçosamente
amanhecendo. Logo a azáfama dos passarinhos. O
espaço entre os galos se alarga. Uma e outra revoada.
E outra mais.
Fez-se uma daquelas ocasiões especiais em que
o minuto que passou pouco apresenta em comum
com o atual e o seguinte terá igualmente atributos
peculiares, distando uns dos outros não o período de
tempo que os separa mas todos os séculos
culminantes no Juízo. O gato se agita e ergue os olhos
para o teto como se visse os pássaros de um súbito
bando. Ela ensaia um sorriso traduzido pelas primeiras
luzes do dia a tangenciar o monte diante do qual o
mar bramia seu misterioso refrão de louvores
metálicos.
Por um instante o sol emprestou à varanda do
prédio em frente um amarelo vivo na sequência do
canto dos pardais, salpicado de curruíras. Na altivez
barulhenta de um adejo, o ônibus se aproxima da
cidade.
Um vento com letras passa pela casa. A mulher

escuta o motor e a mudança da marcha. A janelinha
enquadra um rosto de homem, de um homem jovem,
primeiro de perfil - nariz ligeiramente arrebitado,
labios inconfundiveis, a testa larga reluzente da
lampadinha do bagageiro; depois o contorno frontal
ovalado, jovial, curioso e, voltando-se todo em
seguida, até o perfil do outro lado, para reter o hibisco
no jardim. A silhueta da janela oposta, em voz
feminina, fez a pergunta e, após os segundos de
praxe, quando ao olharmos um estranho decidimos se
nos é simpático ou desagradável em sua extroversão,
responderam.
- Talvez vinte minutos, não mais.
O rapaz no onibus passa os dedos das duas maos
pelos cabelos volumosos. A mulher na cama sente
uma arrepio no alto da cabeça. O silencio intensifica
os sons do vizinho – pessoas e portas e vozes. O
gatinho entra nas cobertas e ronrona.
O ângulo da luz matinal concedeu um brilho
azulejado à sacada do prédio em frente. Onde refletia
o sol, surgiu a intensidade da paleta da senhora Lens
ao contornar seus desenhos de dourado. Tanta luz não

podia mais ser apenas registrada. Decidiu dar-se o dia.
Descansaria. Descansaria na praia.
A rua está vazia. Uma música ao longe estranho
incenso tornou-se de beleza pairando como os
hipérbatos. O ar estava quieto em suspenso mas as
ramagens balançavam como ao vento, devido aos
passarinhos. Em fração de segundo se despegam.
Adiantando-se a hora, a nova posição do sol no céu
subtraiu o fulgor da varanda, ofertando-o ao resto do
mundo.
Erguendo a cabeça, a senhora Lens saiu de seus
pensamentos para a contemplação da circunferência
incandescente - um gesto orgulhoso da manhã - em
contraste com uma mulher mais e mais humilhada,
doente, melancólica. Sonolência mórbida. Peito
oprimido. Os intestinos trancam a emoção num
desconforto que parece a estar inchando. Os lados da
cabeça se revezam em aura na disputa do lugar em
que deverá sofrer sua crise diária de enxaqueca. A
natureza ao redor em sua eflorescência se mostra
indiferente aos males dos seres humanos. Lá fora as
pessoas caminham indolentes pelo calor.
Seu porte em casa é como se estivesse num salão

de festas. A solenidade que empresta ao ato de sentar
ou apanhar alguma coisa no chão ou no alto do
armário, só de camiseta. A maneira de segurar o
pincel e monologar. Seminua diante de seus
rascunhos, a poucos vê e para tantos vive.
Uma cidade muito pequena cultuada por artistas
por causa da lenda de sua salgada tranquilidade. Ruas
onde andara com a menina agora notada, pois
cresceu. Não há de ser um sinal que Rose
envelhecera.
- Bom dia, senhora Lens - alto, magro e com uma
expressão bondosa e sexual, o homem hipnotizou as
pontas prateadas pela soma de tecido e sol. Quantos? - perguntou.
- Um só - disse ela. - A Michele ja foi.
Presente e passado estão para se encontrar no
futuro e o acorde de pão quente que chega pelo ar
pelo ar chegará ainda e o amargo da boca desfeito
pelo dentifrício se converterá em si mesmo quando
ela acordar trêmula e molhada com a imagem do
estranho no dia do aniversário de Michele.
Pôs o pó na cafeteira. O cheiro forte de perfume

no banheiro indicava que a filha tinha ido para a
escola. E essa blusa jogada na porta do quarto.
Sobrepõe a peça na blusa que ela própria vestia. O
mesmo número. Mas a menina tem postura e nunca
reclamou de dor nas costas; suas pernas são firmes e
ela não herdou o arco; porém as pernas de Rose,
ligeiramente tortas, são também bem torneadas,
pelos agachamentos constantes no ateliê.
A idéia ocorreu quando ela estava colocando a
roupa na máquina. Os vizinhos da frente tinham
acabado de mudar, a casa estalava de nova. Não
tinham filhos e saíam toda noite; estavam justamente
chegando, trajados a rigor. Fazia aquele silêncio
insuportável quando o que se contempla está perto e
longe demais. Ela imaginou que do outro lado havia
um bosque muito verde; que ao crepúsculo os dois
sentavam debaixo de uma canafistula; e dentro do
bosque um lago refletia o fogo no horizonte. Num de
seus arroubos sexuais, Georges tinham dito que daria
o céu se ela quisesse. Ela pensou que o céu não
adiantaria muito ao lado de um homem sempre
embriagado, mas um lugarzinho onde pudesse
trabalhar em paz, se refugiar, com certeza cairia

muito bem.
- Sim, sim, vou providenciar o estúdio para a
minha gatinha - disse ele. - Só porque ela tem essas
pernas gostosas – completou, alisando-a, quase
babando.
Ela caminha em torno da mesa azul de fórmica,
nessas pernas. Há um volume escuro na grossura das
coxas, da parte externa do joelho até quase a virilha.
A água ferve. Ela se sentou com um ranger de cadeira
nova. No caderno de receitas ao lado do forninho,
escreveu algo que agora cobre e recobre diversas
vezes.
Num canto do terreno, havia o fícus, baixo, da
altura da cerca. Na temporada, quando não estava
chovendo, suas folhas eram alaranjadas de poeira,
pois parte da rua de terra se transportava para elas
até a próxima chuva, antes da qual seus pais vieram
fazer a única visita depois que a filha casou. Além da
má impressão que esse pó grosso causara, havia as
poças e os buracos em que se formavam, que os dois
ou três dias entre uma e outra chuva não eram
suficientes para secar.
Não bastasse, quando o taxi parou, e o motorista

perguntou se a casa era aquela, o velho demorou a
responder e precisou reouvir a pergunta com a
memória de retrospecto, curta e precisa, pois junto à
voz da pergunta ouviu-se a do trovão e ele teve um
estremecimento. A mãe de Rose olhou para ele com
um misto de piedade e vergonha, e antecipou-se
dizendo que sim era aquela a casa. O cãozinho como
sempre ouviu primeiro a buzina, as palmas e, com os
latidos, as luzes da sala e da varanda se acenderam
quase simultaneamente. Ato contínuo, o cachorro
pulou a muretinha para o jardim onde começava a
trilha até a porteira, correndo com saltos que o faziam
quase horizontal, parecendo por fração de segundo
uma espécie de cobra voadora.
O senhor e a senhora Lens tinham acabado de
jantar (nessa época ainda jantavam juntos) e
enquanto arrastavam as cadeiras para receber os
visitantes, outro relâmpago rasgou a escuridão e Rose
pensou que assim que o pai entrasse ela precisaria
distraí-lo e confortá-lo, como quando era menina; mas
ele mal entrou, o blusão de couro escorrendo pelo
assoalho, levou a filha para um canto e sequer
precisaria, pois ela sabia que ele ia falar sobre poeira,

poças, barro, distância da capital, quedas de energia
(no próximo raio todos se tornaram sombras de lá
para cá rumorejando no súbito silêncio negro do
século retrasado) e, o que ele não ia falar, era um
lugar descampado e sem para-raios.
- Não tem sequer uma igreja por perto - disse a
mãe ao substituir o marido junto à filha.
– Nós não vamos à igreja, mãe.
A mulherzinha (a mãe de Rose era pequena)
arregalou os olhos como se tivesse sido ofendida pela
filha e ela jamais teria oportunidade de perguntar se
ficou mesmo ou talvez se desculpar por ter sido tão
franca, pois os pais faleceram na mesma semana, um
mês após a visita.
Mas naquele momento, como resposta à reação
da mãe, Rose perguntou, com um singelo desafio no
olhar meigo: - Ele ainda bate em você? Não parou,
mesmo doente?
Porque a mãe justificara a ferida no lábio com
uma queda na cozinha. Sabe-se lá. Pode ter sido
mesmo. Ou uma mordida do amante.
Dia após dia, a senhora Lens se afastava do
tempo de resgate que foi seu namoro com Georges, a

página em branco que então preenchia, como todo
novo amor, e entrava mais e mais nessa vida madura
e lastimosa que decorre da sabedoria.
Não almoçavam mais pjuntos, não faziam mais
nada juntos, exceto dormir.
Se ele tinha outras mulheres, isso era relevado no
mundo dos homens. Morador que não gosta da casa,
mas é proprietário e sente-se no dever de zelar pelo
imóvel. Ela esmaga a casquinha de pão quando torna
a trazer à mente que certas preferências do marido
tinham mais a ver com uma vontade real de
machucar. Contudo, se fosse diferente, gentil como como era mesmo o nome dele? - enfim, como aquele
rapaz - Reinaldo? – decerto não teria lhe dado a
mínima.
Ainda na noite anterior mesmo, ouviram-se gritos
no quarto e tinir de copos à cabeceira, queixas
chorosas.
- Cale a boca!
Pulsos arroxeando. Uma janela se abriu lá fora e
os corpos se estenderam nos lençóis amarrotados.
Precisa sair logo antes que a vizinha apareça para
ficar de conversa mole, sondando. Ameaçada, projeta

em George sentimentos como os da mulher estuprada
que, ao se tornar roteirista, violentará as moças de
seus filmes. Notou com um olhar transversal que eram
nove horas, horário nobre da manha, quando o sol
ainda não está quente demais, mas já queima o
bastante para eliminar a palidez; depois da
caminhada, ela entrará no estúdio para continuar os
trabalhos pendentes – é preciso continuar, continuar
sempre – o croqui das mulheres caminhando na praia
ou o esboço essencial da mulher esperando, sentada
junto às ondas, ou o quadro que fixou um olhar
definitivo sobre a névoa matinal das praias em
novembro.
Está de shorts e blusinha, descalça, os cabelos
presos para cima - minitorre revolta ao sol obliquo.
Acima de seu ombro direito na parede o telefone azul
de cuja mudez depende o bem-estar do resto da
manhã, eventualmente do resto do dia. O sorriso no
rosto não diz nada sobre nada, se de fato é um
sorriso. Entra no banheiro e dá de cara consigo
mesma no espelho do armarinho. Mal se olha, como
se faz com estranhos ou com aqueles que de quem
não se gosta.

O processo de deter os pensamentos é demorado,
mas aos poucos parece conseguir. Sua irmã é quem
estava certa, insistiu até o fim com ela para que
desistisse do casamento. Quando vinha visita-la, a
caçula também costumava sair para a praia depois
das nove e antes das nove e meia, com essa luz
triangular e crescente pela porta entreaberta
dourando seus cabelos ruivos. Rose achava uma cena
tão bonita que chegava a encostar-se à pia, como
agora, para contemplá-la.
A senhora Lens chorou.
Por quanto tempo vivera assim? Porque casou
praticamente por isso. De onde tirou preferir a
continência, força que nunca teve e decerto não tinha
agora. Pois seu ventre queimava. Passava dias e dias,
perdia a noção de cor e não se concentrava na
música, que era antes o que a inspirava para pintar.
Tudo agora é dispersão. Estímulos físicos sem outro
objetivo, fantasias, sensações, espelhos.
Quando, no fim da rua paralela à principal, ao se
virar à direita e ver o rio, é audível o rumor do
comércio, os carros com autofalantes, o motor de um

carro a dez quilômetros por hora (que será a
patrulhinha), um dia ela pegou a rua que ligava essas
duas, no outro sentido, que ia dar nos últimos
casebres e, passando além, a mata, antes da qual
havia sacos de cimento que viraram pedras, telhas e
tijolos servindo de vasos para ervas daninhas e
ocultos por toda parte frutinhos de tangará que aos
montes se agarraram na sua roupa e na sua pele e ela
ignorou ao continuar entrando pelo meio do esqueleto
do que deveria um dia ser talvez uma escola, a pé,
pois nesse dia já abandonara a bicicleta por se sentir
ridícula ou exuberante demais sobre o selim,
facilitando muito as coisas para o pescador, ou talvez
marido de uma apanhadora de conchas, ou um
forasteiro de butuca.
Quando entrar por aquela porta cerca de onze e
meia, meio-dia, correrá perigosamente nas escadas
para o ateliê. Sairá aliviada e perplexa para fazer o
almoço.
Na verdade, há quanto tempo teve uma
sequencia decente de criação? Nos lápis nem pega
mais; tampouco no buril. Acabou envolvida pelos tons
sombrios e se deixou arrastar por uma crise de nervos

que a jogou na cama em frangalhos.
Flor cujo viço está prestes a morrer, dela o marido
cuidou com zelo de jardineiro. Embora gozasse com as
floradas novas e os brotos, ele não deixara de
dispensar gratidão à planta que definhava para dar
lugar àquelas geradas da eflorescência anterior.
Esteve à sua cabeceira com gentilezas de comerciante
que lesa os clientes, de médico que assedia a
paciente. A senhora Lens tinha pavor desses rasgos
de bondade. Nos filmes de terror o recanto bucólico
sempre antecede as orgias de sangue.
Era ainda bela a sua mulherzinha, serviria ainda
por um bom tempo. Quanto às outras, está no homem
ter muitas mulheres como está presa no ramo da
planta atual a que germinará no futuro.
Assim pensa George Lens entre Rose e a Zona
Vermelha; entre as jovens frescas da noite e a mulher
de 45 anos.
E, como um jardineiro que ao cuidar das novas
plantas não percebe o arbusto seco reflorescendo, não
perceberá o olhar do amor no aniversário de Michele.
Durante a primeira parte da manhã, talvez uns
quarenta minutos, ela permaneceu diante do espelho.

Está sentada, ereta, com as mãos na região lombar.
Olha para as mesmas mãos no reflexo. Percebe os
resíduos da tinta na pele como uma roupa encardida.
Produzira-se em seus quadros um
amadurecimento semelhante a partir da mudança da
metrópole para a vila de pescadores, do qual agora
duvida.
Era a mesma época do ano. Impressionou-a o
tamanho da árvore à beira da estrada, a sombra que
fazia, a grossura de seu tronco. Prove – disse George.
É ácido... – disse Rose.
- Dizem que espíritos maus habitam o
tamarindeiro - a advertência só fez aumentar o
fascínio da mulher e, ao longo dos dias, vira e mexe
estava por ali, sobretudo bem cedinho, olhando o
nascer do sol no mar raso e límpido, sob a copa, a
bicicleta entre as coxas, um pé descalço sentindo a
raiz na sola e o outro apoiado no pedal esquerdo,
observada pelo menino cuja a mãe se impressionara
como ele nunca mais perdeu a hora da escola.
Estica-se para trás, alonga, geme. Olha para o
ombro esquerdo. Nítido, cheio. Abre as palmas diante
dos olhos. Leu as manchas de sua pele por onde

correm as veias azuis. Passará algum dia essa
compreensão a uma tela, em simbiose a que alguns
chamarão estilo.
O terral varre o vilarejo para desespero das
donas-de-casa obrigadas a levar uma segunda e
terceira vez a última vassourada pela porta. Tarefa
que pode esperar, decide a senhora Lens ao entrar no
banheiro. Pedirá uma ou duas quentinhas para o
almoço. Possivelmente Michele nem vem.
Quando tinha onze, doze anos, na passagem
evidente da infância para a adolescência, Michele
cozinhava e, quando não, ia ela mesma à mercearia
ou ao restaurante pegar marmita. Isso passou. Quase
teve uma data para passar: o dia da primeira
menstruação. Nunca mais quis saber de trabalho
doméstico, aliás a partir de então não parava mais em
casa.
Certa tarde ela voltou para casa com os olhos
vermelhos e cheirando a cigarro. Não dissera à mãe
sobre a menarca. Uma coisa Rose atribuiu a choro e
outra imaginou que era fumaça do cigarro de George,
pois pai e filha almoçaram juntos. Estava falante e de
bom humor, o que nunca foi uma característica da

menina. Depois, quando atendeu o telefone, Rose
entrou no quarto com o pretexto de pegar alguma
coisa no armário. A menina estava deitada de lado,
olhando para uma foto do casamento dos pais na
cabeceira e a mãe balançou a cabeça quando viu que
ela, Rose, tinha se virado para ver alguma coisa justo
no momento em que clicaram. Ficou tentando lembrar
o que desviou sua atenção, mas se perdeu pensando
no casamento e saiu sem que a menina sequer tivesse
percebido que ela entrara.
Pelo resto da vida, aquela manhã será guardada,
peremptória, numa memória fragmentada e dolorosa,
como cochonilhas num vidro de álcool, esperando
para ser estudada e ensinar uma última lição.
A senhora Lens passou no rosto o creme
hidratante que já usara no pescoço, desviando dos
fios dos fones. Procurou a região entre os seios e
depois massageou em torno dos mamilos. Separou as
roupas sobre a cama. A bermuda floral que a deixa à
vontade sem constrangimentos e a blusa verde sem
mangas. O ônibus passa. Passam tantos ônibus
interestaduais nesse horário. Um suspiro sacodiu seu
corpo quando atravessava para a rua da praia. Foi

esse corpo, o porte e alguma outra coisa que ele não
saberia dizer, o que chamou a atenção de Gerard, ao
despontar na paisagem que mudava lentamente ao
zumbido do motor.
Minutos depois, as cores da bermuda balançavam
vivas quando ela deu uma corridinha para atravessar
a rodovia sob a longa e gutural buzina de
cumprimento ou tortura. Salvo erro, foi um primeiro
momento, quando ele percebeu que os seios eram
pequenos e que, pelo quadril largo e a cintura fina,
poderia ter um filho dele, se algum dia viesse a querer
um filho. Que os cabelos eram escuros e lisos, de
comprimento médio. E que usava óculos.
A grama deveria estar mais verde e nítida onde
Rose começou o alongamento, um pouco antes de
onde a areia começava. Não tem dinheiro para mudar
as lentes e não vai pedir a Georges. Encostou o queixo
no peito olhando dentro do decote. Nesse caso,
pensou, é melhor mesmo não ver direito. Nos vinte
segundos que ficou assim, teve certeza de não devia
fidelidade ao marido infiel mas pensou que talvez
George fosse necessário para que ela pudesse ser
plenamente, com suas melhores virtudes nascidas do

sofrimento e de grandes alegrias por contraste,
eternizadas é claro em suas telas. Em torno, o cheiro
de mato era como o cheiro de um paraíso adulterado.
Então ela ficou reta, girou os ombros e deslizou
uma mão e depois outra ao lado do corpo que invadira
Gerard. Levantou o ombro direito e abaixou o outro,
depois inverteu, segundo a lógica dos renascimentos e
das associações. Eram onze horas. Esticou os braços
para frente, as mãos entrelaçadas, e assim os esticou
também para cima, com as palmas viradas como São
Sebastião em algumas imagens, cujas flechas sao os
olhos negros e tristes semelhantes a gotas,
impregnando-o de cada uma daquelas mulheres que a
senhora Lens será. Ele dá especial atenção à cintura
fina e aos quadris largos e instintivos, às coxas e os
problemas da costureira, às luas serenas sem sombra
de academia, destacadas nos frisos sobrenaturais dos
shorts.
Deve ter acordado e dormido de novo pelo menos
umas sete vezes, cada uma mais dolorida que s outra,
sem contar a boca com gosto de sotao, antes do
despertar definitivo. Numa dessas vezes, em que o
ônibus deixava estrada e mais estrada para trás, um

sol tímido se arriscava em finos feixes e espíritos do ar
se alimentavam dos pensamentos dos passageiros,
depositando em suas mentes a conjectura que não
saberão definir.
- Agora estamos mesmo chegando! – disse a
antiga silhueta transformada agora em uma moça
muito morena e queimada, ao lado de um possível
namorado entediado, cujas mãos não sossegavam.
O ônibus encostou sob a marquise da loja de
venda de passagens, que servia também de terminal.
Segundos antes, ponto após ponto de referência,
Gerard se exaltava em arroubos de lugares novos. A
cidade subia por seus nervos e músculos. Levantou-se
e, agarrado à guarnição do bagageiro, deu o impulso
com que ficou diante da mochila emborcada. Com os
braços levantados puxou-a para si e antes que o peso
se fizesse inteiro sobre ele, deixou-a cair na poltrona
vazia. Precisa ter sido uma escolha certa ou logo não
haverá mais tempo para escolha alguma. Porque
estarei morto, pensou ao abrir o zíper num
estremecimento dos nervos.
Foi então envolvido pelo cheiro de roupa
misturada com desodorante, sabonete recém-aberto e

pasta de dentes. Esticou as mangas da blusa de lã
que, embora fininha, decerto não irá precisar numa
cidade litorânea, pelo menos não tão cedo. O calor do
tecido em suas palmas é quase o de um corpo de
mulher e pensa em como era linda, não, isso não era,
mas havia alguma coisa, alguma coisa diferente.
A música que ainda tocava superpunha uma nova
alma sobre a antiga. Encheu o peito. O mar lhe faz
bem. Amanhã bem cedo dará um mergulho, nadará
um pouco. Quem sabe ainda hoje. Fechou os olhos.
Melodia lisérgica de não-usualidade. Pensar na mulher
provocara a fraqueza dos profetas. Não se atém à
música ou ao céu ou o mar entrevisto. Passeava
ousadamente pelo medo da realização das coisas
muito desejadas. Pensa na mulher e pensa que sentiu
algo muito parecido quando se espreguiçou ao
acordar na poltrona com um frio na barriga. Mancha
de luz se derramando pelos telhados, o sol
impossibilitava a fixação no descanso verde de uma
árvore, na sensualidade de tijolos vermelhos ou na
liberdade do azul no céu ou mar.
Tirou os fones e lembrou que minutos antes,
talvez uma hora, até mais, passando por uma casa,

ouvira vozes que se aproximaram e se afastaram em
seguida.
- Estou indo agora, acho que me atrasei um pouco
- dissera a voz de menina.
- Onde você estava? O banheiro estava molhado e
tinha uma blusa jogada na porta do quarto.
Rose não iria se aborrecer, não hoje. Disse que
estava tudo bem. Que ia à praia.
- Como assim vai à praia, mamãe?
De biquíni e toalha, pela trilha. De short e
camiseta (na verdade já estava pensando na bermuda
floral e na blusa verde cavada).
- A senhora não tinha prometido dar um jeito na
minha calça para a festa?
Claro. Só não tinha marcado horário.
– Mas o aniversário é sábado, sabia?
Claro. Nesse dia deu à luz uma criança.
A adolescente deu de ombros. A mãe estava
mesmo ficando cada dia mais estranha. Deve ser a
idade.
Na idade dela, pensou Rose, já teria dado eu
mesma um jeito na calça. Ou poderia usar uma calça
velha, o que naturalmente Michele não faria.

A filha não fez questão de dissimular o olhar que
percebeu estrias na senhora Lens, discreta ao notar
seios e culote brotando descontrolados em Michele. Tudo bem, mãe. Boa praia.
Só faltou dizer "Papai não vai gostar quando
souber".
- Obrigado, querida. Boas aulas.
Os sons de um concerto marcaram no ônibus a
distância da casa.
Eca, mãe, que música horrível, resmunga a
menina ao sair. Quando você tiver a própria casa
poderá ouvir músicas lindas em todos os aposentos.
Quando tivesse a própria casa, pensou Michele,
seria mesmo sua, não dependeria de um homem.
Porque era filha e porque era fase. Porque o pai
tinha algo que ela. Porque descobriu.
As vozes ecoam em Gerard como se tivesse
passado não de ônibus mas a pé. Então lembrou. De
seu sonho?
Não. Acontecera.
Houve sim a noite no ônibus.
Com licença, disse a jovem. E de fato aquela
mão. Está ele pensando em um sonho?

Não. Ali, de seu descuido. De seu sono ou o quê.
São os tempos. É a noite. O aconchego de um ônibusleito.
Diálogo de pele, arrepio, contração sob o
cobertor. Então os dedos se insinuaram enquanto
vigorava a lei dos olhos fechados.
Ela entrara na segunda parada e, como não
estava ali quando o ônibus chegou, saiu antes da
ultima. Há um rio correndo por dentro da cidade, ela o
cruza pela ponte.
Segunda parada. O motorista ticando os bilhetes
dos passageiros que entram. Num contraponto aos
caras grosseiros da rua, o passageiro com aspecto
sonhador.
Não será doentio, pensou ela. Dar-lhe-á algum
conforto. Parece triste e tenso.
Ele estava realmente tenso. Era a terceira vez que
partia de uma situação estável para um recomeço. Na
primeira, casou-se. Tinha 17 anos incompletos. O
plano era envelhecerem juntos num sítio. Cachorro e
gato e verde manchado de flor. Hoje tem trinta e
cinco.

Com vinte e poucos estava separado. Um homem
jovem, simpático e bonito. Decidiram civilizadamente.
Os avós cuidariam dos netos para a filha estudar. Ele
mandaria dinheiro tão logo pudesse. Pegou o ônibus à
meia-noite. Partiu da roça e foi para a capital.
E agora estava largando um emprego estavel
para uma aventura. Em comum com as vezes
anteriores, o alivio. A cena conhecida abandonada em
favor de uma nova. De uma peça inteira.
O roçar de braços o despertou. Nem mesmo ele
poderia jurar, caso a reencontrasse, que não dormia. E
caso eles se reencontrassem mesmo? Eram
cidadezinhas pequenas e próximas.
Nem se reconheceriam.
Por que não? - pensou, desejando que sim. O sol
nasce ao longo do horizonte no mar e traz de volta a
emoção de primos adolescentes em ferias na casa de
praia dos avos. Que tempo maravilhoso! Como o
mundo era diferente...
Não havia sedução, mas momento; não vergonha,
mas encanto. Os avós eram as pessoas a quem ele
mais amara e também o amavam de modo especial, o

que gerava em meus primos grande inveja e criava
grandes dificuldades para Gerard no dia-a-dia.
Entre as primas, só uma se unia a esse
sentimento e exatamente ela se recusava a participar
das brincadeiras menos infantis. As outras se
tornaram jovens mais bonitas, gentis e educadas, e de
algum modo passaram a participar também dos
benefícios do amor dos avós.
Mas eram idosos e tinham severos princípios.
Estava fora de questão um primo e uma prima
namorarem. Um dia, falando de outro casal, os adultos
conversavam na sala, cheios de censura, quando os
netos chegavam da piscina. Há um amor lícito que é
puro e um ilícito que - dizia um dos tios, que também
era pai - de tão impuro nem devia ser mencionado.
Era como se os dedos fossem daquela prima.
Tinham nadado e voltavam para casa. Ventava.
Quando ele acordou da sesta, um sol tímido se
arriscava no quarto em finos feixes. No quarto ao lado,
as meninas. Uma delas na porta entre os quartos. O
dedo indicador direito encosta nos lábios dela, que
emitem um sopro inaudível e inequívoco. A malha
cúmplice da camiseta. O sombreado em alguma parte

da calcinha. A porta se fecha e ela se aproxima. As
gotas poças e nas latas vazias. Escorrendo no vidro.
Quando de novo deram conta das coisas ao redor, o
céu se abrira. As primaveras estavam mais vivas.
Homem e mulher não. Menino e menina. Coisas
que so acontecem nas praias anteriores aa
adolescencia e após a segunda parada se um onibusleito, no silêncio das reputações.
Gerard deixa o olhar em uma réstia de luz entre
as cortinas do lado esquerdo de quem entra pelo
corredor até que pouse no perfil da jovem, dir-se-ia,
sim, adormecida. Todavia, de quem são esses dedos?
Há algo que se possa fazer no entorno de um gozo
que não se consumará nem na verdade deve se
consumar?
Agora são todos. Pressionam, diminuem o aperto,
veementes, suaves. Detém-se no pulsar que ignora as
fases primárias do desejo e as complementares, do
repouso.
Com frequência tocada, ela agora toca; ele nada
fazia, se integrava. A mão dentro do cobertor desafia
a lã e descobre uma borda no ritmo do vento por uma
fresta do vidro da janelinha. Ele olha para as cores

ensombrecidas do mato à beira da estrada carrapicho, picão, poaia, imagina: caules cujos
cilindros eretos e pilosos acompanham a
circunferência terrestre soprando folíolos e vagens por
todo o movimento dos ponteiros do tempo.
Tardou o necessário. Ele ouvia o motor retilineo, o
sopro do freio, os murmurios da noite e o som tedioso
do trafego de uma estrada reta. Depois uma voz que
esta se fazendo familiar. Um acento. Um resquicio de
voz, fragmento de fragmentos. Um pronúncia
incomum, um jeito de falar.
- Bom dia - disse ela assim que pisou na terra que
ladeia o asfalto.
- Bom dia, senhorita.
Vista pelo velho sob o pé de tamarindo, o ser que
desceu do ônibus parecia um anjo, as vestes
molhadas de azul.
A senhora Lens passava os dedos pelos cabelos.
Tinha saído do mar e caminhava de volta para a
toalha estendida na areia agora mais quente, silício
agarrando-se em seus pés que afundavam nas
crateras personalizadas pelo recorte das solas, vistos

de cima assemelhados a um animal perdido
procurando seu lugar no mundo – os dedões como
antenas mal chegando a pousar e os outros dedos
brigados uns dos outros; as unhas em textura de
infinitesimais linhas cruzadas em vermelho sobre
vermelho e tristeza sobre tristeza.
Ela enfim desistiu e alguns fios castanhos
permaneceram fora do casual rabo-de-cavalo de
elastiquinho rosa. Num mesmo movimento a mão
desceu até a flanela fina na caixa dos óculos na toalha
e ela se entreteve a limpar as lentes. De longe o viu e
teve um ligeiro tremor.
Ele conversava com um homem que ela julgou
conhecer, um senhor mulato, de uns sessenta anos,
forte, lábios grossos, que fazia pequenos serviços para
Georges, como trazer resmas da gráfica e capinar a
frente da casa.
- Senhor Gerard? Muito prazer. Sou Cronelin, o
jardineiro da pousada. Seja bem vindo.
Ele sorriu, agradeceu e respondeu: - Prazer.
Pareceu que ele a viu por cima do ombro do
jardineiro. Que ele a continuou vendo. Que ele a veria
sempre.

Ele devolveu o sorriso que ela pensou em dar.
Caminhou ereto apontando plantas e flores com o
queixo, indagando. A respiração movia o peito largo.
Deve nadar muito, pensou Rose.
Ela viu que as mãos dele estiveram todo o tempo
ao longo do corpo. Fizeram um gesto ou outro, não
mais. Gestos lentos.
Na época, chovia mais do que normalmente.
Naquela noite houve uma tempestade localizada,
inclusive com granito, mas passou logo. Não foi
necessário o estado de atenção da Defesa Civil.
Nem parecia, mas aproximava-se o Natal.
Ele não demorou nada para arrumar as coisas no
quarto, como se estivesse atrasado para um encontro,
e saiu em direção do lugar em que havia visto a
mulher. Teve dificuldades de se orientar. O sol
vermelho buscava seu próprio reflexo na linha do
horizonte. Logo logo sóis estariam se unindo no
oceano. Chegou ao lugar, marcado pelo imenso pé de
tamarindo, quando o sol encontrou seu duplo e a noite
começou a cair.
Não havia ninguém.

PRIMEIRA PARTE
A orla marítima de Celba lembra escrita cursiva
no diário de uma adolescente. Impressiona os que
chegam com a rodovia. O terral sopra à tarde,
balançando as buganvílias, sem amenizar o calor ou
dispersar os marimbondos. Quando a pessoa desce do
ônibus, entra numa aura de eras dissolutas. Da
estudante à vendedora de balcão, da filhinha de papai
à fugitiva, da turista adolescente à radicada madura,
as mulheres dali tem essa essência que as resume. Os
homens olham uns aos outros com um sorriso
inequívoco quando as veem passar.

A produção cafeeira era escoada no trapiche.
Chegava de canoa pelo rio Ikon'ya e ia, do
ancoradouro de Celba, em pequenas embarcações,
para a capital. No século XIX, o tráfico negreiro fez a
riqueza dos vendilhões cujos filhos e netos se
tornariam os senhores do povoado. Hoje, a principal
fonte de recursos é não a pesca, nem o artesanato de
conchas, mas o turismo. A maioria dos habitantes vive
em função da temporada. Uns poucos são indiferentes
a esses verões e a temporada os incomoda. Era o caso
da senhora Lens. Com inspiração no cenário da vila
ela produzia mais a partir do outono, quadros que a
crítica acreditará brilhantes. O brilho literal Gerard viu
do ônibus quando chegava. Qualquer pessoa veria.
Aos olhos da distância há um lirismo que se perderá
no dia-a-dia, não de todo: porque Celba não depende
da pesca ou do turismo mas da luz.
Essa vizinhança de nativos em seus casebres e
donos de mansões para aluguel acrescentou à
atmosfera maledicente da cidade pequena a perversa
liberalidade da metrópole. Na época, Celba contava
com menos de dez mil habitantes. Mas há qualquer
coisa na comunidade que a faz parecer maior do que

realmente é. O mundo que constitui cada pessoa
interfere nos outros mundos, como transmissão de
rádio. As pessoas ficam muito parecidas.
Ninguém ali considera mais trabalhar para viver,
mas, como a senhora Lens pensou logo no final da
primeira, esperam a temporada como quem torce por
números de loteria num universo de bilhetes
premiados.
Quando os turistas chegam à praia muito cedo,
passam todos os dias barquinhos com dois homens a
pouca distância dos recifes. Verificam a rede,
curvando-se para o espelho. À direita de quem chega
ergue-se o monte Ājiā. Uma falésia surge na
proximidade do verão. É onde a praia começa ao sul,
suavizando a rocha na areia escura. Para onde quer
que se olhe, montanhas ou mar. A chuva amaldiçoada
por todos costuma sumir por longos períodos e as
grandes tempestades anunciadas são mais barulho,
eletricidade e redemoinhos e as pessoas voltam para
as ruas e para o comércio. Junte-se à névoa turquesa
uma sensibilidade nervosa e aí está o principal efeito
em Gerard, semelhante ao que habitou em Rose

tempos atrás, quando ela chegou.
Há oito anos. Veio a convite de um amigo com o
qual terminará por casar, de nome Georges. Quer uma
dieta de peixe nas férias e acaba fazendo do peixe,
sobre a mesa da casa de tijolos vermelhos, a base de
seu cardápio para o resto da vida e as ruas da vila
passaram a fazer parte dela, especialmente as trilhas
do bosque e o caminho alternativo para o lago. Não
raro ela passava com um sorriso, como se houvesse
pessoas ao redor e ela precisasse manifestar o que
sentia sem dizer palavra, como quem diz “Olhem para
esses recantos e soltem a imaginação”, como um
anátema incorporado à sua pintura.
Em seu primeiro quadro, as cores vivas da subida
do Ājiā, o verde da vegetação rasteira em meio aos
pastos e o azul profundo dos abismos derramavam-se
surreais sobre a serpenteante rodovia, confundindo
quem olhava, criando uma insegurança entre
percepção visual e abstração de um sentimento
possível, como se os fótons gritassem na retina. Ela o
pintara “en plein air”. Decidiu, num dia em que
Georges disse que ia demorar. Precisava fazer alguma
coisa. Passou na loja recém-inaugurada, e comprou o

kit com pincéis, paleta e diluentes. Usou a caixa como
cavalete. O motorista esperou-a numa sombra entre a
praia e o vale. Agora ali é a última parada do ônibus
que vem de Haght’anak.
Gerard está parado diante do restaurante.
Cabisbaixo como se analisasse a alma em sua sombra
e visse em nuances de negro as oscilações de seu
caráter, alheio ao rumor dos carros – motores,
marchas, canos de descarga. O olhar e a sombra
unidos muito além das pessoas ao redor e do céu
acima. Deixara para trás na capital o banco e o
emprego de caixa e uma vida lasciva testemunhada
pelo apartamento oferecido aos funcionários no prédio
da agência central. Nada diferente de qualquer de
seus novos objetivos de vida. Decidira não mais se
casar, sequer ter outro relacionamento estável. Mas
era como se o prazer não satisfizesse mais a partir do
momento em que se tornasse alguma coisa
conhecida.
Alguns minutos depois, com o embrulho no colo,
as mãos de Gerard estavam crispadas no telefone e
seu olhar no laço de presente poderia ser confundido
com seu jeito natural e trágico de olhar. Fica ali,

ouvindo a voz do marido, “Alô! Alô! O que é?”, sem
responder ou desligar e tampouco disfarçar, mas
pensando que poderia estar colocando a vida de mãe
e filha em perigo, pelo que desligou, segundos antes
do homem lançar o celular da mulher pela janela do
carro. A reação dela é uma confissão, os olhos muito
arregalados e a voz aprisionada no ar. Fora isso, tudo
seria normal para quem estivesse vendo: o marido
deu seta com extrema prudência, a menina procurou
com a língua o sorvete que lhe chegava aos dedos, e
a mulher poderia estar paralisada, por exemplo, como
alguém que tem fobia de automóvel e espera a cada
instante um acidente.
Quando o ônibus encostou, eram dez horas pelo
relógio do homem no guichê. Para chegar a ver o
mostrador no pulso, ele precisou puxar um pouco para
cima a manga comprida da camisa muito branca e
bem passada. Gerard passou por ele e de passagem
perguntou onde ficava a pousada tal. O homem
respondeu, apontando, e Gerard agradeceu e seguiu.
Caminhou uns cinco minutos, perdendo a visão
anterior do mar, substituída por casas rústicas de

madeira escura com detalhes verde-água e amarelo
nas jjanelas, portas e calhas,
Diante dele, a mulher se balança lenta ao
caminhar, se abaixa uma ou duas vezes e bate a areia
dos tornozelos. A mão esquerda rege uma orquestra
invisível, os dedos se contraem e relaxam antes de ela
apanhar a sandália, e a outra. O letreiro antecede o
prédio da pousada. É cedo. Sente-se bem na
cidadezinha. O ar salino não é pegajoso como em
lugares semelhantes. As ruas estreitas parecem
guardar a cada curva uma revelação. O feriadão
estava cheio de turistas.
O sobrado em que a pousada ficava se aproximou
no tempo, como zoom em uma foto, como num filme.
Gerard entrou, subiu um dois degraus. A porta bateu.
Ele se virou na direção do som, suas mãos pousadas
na madeira de carvalho. Pisca num quase sorriso e
entra. O computador fica do lado esquerdo na parede
oposta à janela, onde raios refulgem no jorro da Fonte
Sarracena. A impressora e o fax numa mesa menor de
fórmica. Em determinado momento um fantasma
passou pela janela da cozinha. Ele se move
lentamente, quase que uma imobilidade sonora, um

vídeo cuja imagem travou mas o som continua
normal. Há cinco ou seis vasos de ikebana. O
fantasma brota de um deles. São três passos da mesa
até o raque. Gerard puxa a cadeira com a mão
esquerda e senta, a mão direita direto no mouse com
o frêmito lateral devidamente correspondido pelo
cursor. Sombras oscilam nas paredes como notas do
mais triste violino.
Como se tivesse surgido do nada, exatamente
assim (isso sempre o impressiona), Silvia disse que
era só uma opinião, mas é o que achava. Era uma
mulher sofrida, não há dúvida; ninguém abandona a
medicina assim, da noite para o dia. Precisou reler as
mensagens anteriores para entender do que ela
falava. O monitor é negro, brilhante, os cantos
arredondados. É a primeira vez que ele está usando
mouse e teclado sem fio.
Gerard analisava o avatar vestido de branco,
como se quisesse criar uma legenda para a foto. Ela é
linda, pensou ele, desenhando as palavras com os
lábios, mas tem um ar, não sei, pesado, melancólico.
Ainda há pouco, no banho após nadar, pensava
justamente na beleza de Silvia em seu jaleco

encorpado, suave ao toque, azul no cinto das costas e
na gola.
Do outro lado da tela, distante cem quilômetros
de Celba e mais perto do que a telefonista, a mulher
soltou os cabelos negros que caíram à altura dos
ombros. Médica, não mentira. Chegou a ser a mais
jovem infectologista do Centro Médico de Haght’anak.
Na época, ainda morava com os pais e levava cerca
de uma hora e quarenta ou um pouco mais de casa
até o hospital. Muitas vezes ela escutava o ônibus
assim que fechava o portão e precisava correr pela
rua vazia da madrugada para alcançá-lo na parada
seguinte. Invariavelmente, dormia na viagem,
acalentada pelo som do motor e o balanço contínuo
interrompido apenas quando o freio pneumático
inspirava algum evento em seus sonhos, como o
bocejo de um dragão ou um grito de socorro; então
despertava para a paisagem na janela, um cavalo, um
menino atrás de uma bola, as vendinhas de beira de
estrada. Se alguém perguntasse, os colegas diriam
que era uma moça tranquila, profissional competente,
dedicada, cumpridora dos horários. Aliás, Gerard, em
certo momento da conversa, achou que ela sofria

justamente por causa da correção, da integridade e da
competência. Talvez um caso de assédio moral, visto
ou sofrido; talvez cansaço e sono, o estresse para
cumprir o que dela se esperava; talvez colegas
invejosos ou chefes vorazes. A verdade é largou tudo,
não, porque passou num concurso público e esperava
a qualquer momento ser chamada. O pai não
estavam de todo frustrado porque havia a perspectiva
da estabilidade de um cargo no Estado e voltou com a
mesada. E a senhora Lens costumava dizer que
conhecia as pessoas certas que poderiam transferi-la,
de qualquer lugar em que estivesse, para Celba. E as
amigas estariam perto uma da outra pelo resto da
vida.
Trabalharia quem sabe no hospital municipal.
Conviver com tamanha incidência de contágio levaria
ao esquecimento de si mesma. Pensava nisso
insistentemente apesar da ressalva de Rose de que o
lugar era perverso e as pessoas, traiçoeiras. Mas ela é
infeliz no casamento e claro que isso reflete na sua
avaliação da cidade do marido.
“Lembrei-me que vou ter que dar um telefonema”
- leu Gerard na tela. “Mais tarde nos falamos”.

A senhora Lens passou por ali no caminho de
volta. Gostava do silêncio que permanecia depois de
tanto tempo, mesmo com a fama da cidade. Há oito
anos, havia um prédio pequeno onde a pousada
funcionava, exalando os vapores das cidades de onde
chegavam os turistas, que na época nem se poderia
chamar assim, porque vinham a trabalho, caixeiros
viajantes por exemplo. Havia uma cortina branca na
recepção, atrás do gerente. O senhor Omar, sim, o
senhor Omar. Um homem bonitão.
Ela era muito boba, não compreendia que cedo ou
tarde teria de avaliar um homem não só pela
aparência física ou pela capacidade de se tornar bom
provedor; teria de levar em conta as afinidades que,
em último caso, são uma garantia de que o
relacionamento não vai se desvirtuar. George também
era bonito. Ainda é.
Os traços pouco mudaram e tudo mudou.
Lembra-se da noite anterior e não sabe mais o
que fazer para evitar a aspereza diária. Os beijos pelo
menos são cada vez mais raros. Nem a preliminares
ele se dá mais. Apenas a rasga com sildenafila.

No recém-inaugurado shopping enforcam o
feriado no cinema ou na praça de alimentação. A
parede lateral da igreja, plúmbea, está rachada e
cheirando a urina. Há pedaços verdes de uma velha
rede no chão. Maços de cigarro amassados. Guimbas,
seringas. Esticam-se as sombras de prédios e pessoas.
Aqui um homem foi morto por nada. Ali está o navio,
tão pequenino e inocente assim ao longe. Nos
telefones públicos em frente ao posto o entardecer
inspira jovens turistas a enaltecerem Celba para seus
familiares.
- É um lugar muito bonito. Um povoadinho bem
legal.
- Se cuida. Dizem que aí rola muita droga.
O rapaz sorriu fazendo sinais para a namorada.
Beijam-se. Mal podem esperar a noite e quem sabe
não esperem mesmo. Os velhos fios de cobre sobre
suas cabeças transmitem confissões.
Gerard entra novamente na pousada. Dois carros
passam após ter ele atravessado a rua.
Uma estrela desponta e depois outra, desenhadas
pela lembrança da moça do ônibus. A inspiração não é

tão firme como entre os dedos dela. Nem sabe se
poderia, caso precisasse, manter. Era ainda novo,
deve ser resquício das drogas. Outra estrela. A
pracinha do cemitério. Gerard lembrará um dia,
quando sua memória subitamente voltar. Dava para
ver jazigos de sua janela.
Desde que acordou de manhã, esteve andando de
um lado para outro e em cada canto do quarto
encontrava alguma coisa com que estivera lidando –
um caderno, um mouse, um pente de memória - e
deixara nos lugares mais estapafúrdios; mas ainda
não se preocupava com isso porque pensava que é
um tipo de esquecimento normal de quem está
fazendo muitas coisas ao mesmo tempo. Preocupavase sim com a ereção matinal, que havia falhado. Se é
boa como agora, passa a precisar de uma boa mulher
com urgência antes que aconteça o pior; se não
houvesse ou não fosse tão boa, pensaria que se uma
boa mulher aparecesse, aconteceria o pior. Foi
guardar o leite que acabara de comprar e quando
abriu a porta da geladeira ali estava a carteira, como

se sorrisse, como se o esperasse e dissesse
“Achou”!...
A mulher da praia aparecerá na sequencia, com
seus quadris comestíveis tal a maciez deduzida de
sutil penumbra ocultando a cicatriz.
Um dia, caminhando pela sala, mexendo com
umas caixas com contas de luz, de água e de gás,
Rose sentiu a dor pela primeira vez. Ficou preocupada.
A náusea, os vômitos, e agora isso. Evitava o médico,
porque nunca se sentia confortável em roupas
íntimas, nem mesmo com Georges. Esperou que um
dia coincidisse de estar com Silvia e a amiga a
encaminhou a uma colega.
- Quando sentiu a dor, o que a senhora estava
fazendo?
- Era uma dor incapacitante?
- A senhora fuma?
- É sedentária?
Afinal a médica optou pela cirurgia. Deu tudo
certo, a cicatrização foi rápida, mas Rose tinha muita
dor de cabeça no pós-operatório e faltava confiança
quando ia se abaixar. O ateliê foi uma terapia

também nesse sentido, ensinou-a a conviver com
esses pequenos desconfortos da vida.
No dia em que aquele ônibus chegou, Sarita, a
empregada da senhora Lens, passando do andar de
cima para a cozinha, registrou o momento em que ela
tirava os óculos, que penderam em seu peito quando
a voz grave atendeu ao telefone. Ela chegara em casa
pensando se Michele estaria. Na sala, cujas paredes
mantém uma tonalidade íntima entre o amarelo e o
vermelho, nuances quentes acolheriam quem
entrasse. Lâmpadas alógenas focalizam os quadros:
Goya, criança e animal; abstrações de Mondrian; uma
foto de Evgen Bawcar; e o “Vinhedo Vermelho". Na
parede oposta o autorretrato da senhora Lens,
implacável em seu nicho sobre a lareira, colocado ali
no transcurso da vaidade juvenil, na inconsciência da
passagem do tempo. As almofadas de cetim
espalhadas pelo carpete à espera de que a senhora
Lens se estendesse. Deve ter dormido. É, está
dormindo. Chega a ressonar. A luz de cima reflete em
seus dentes, o rabo de cavalo confunde-se com o
tapete.

Ainda estava deitada, quando o telefone tocou. O
short azul de seda mista ondulou. Ao andar pelo
tapete, seus pés pequenos o marcavam.
- Como você está?
Era bom ouvir a voz de Silvia.
- Há quanto tempo! O que tem feito?
Silvia queria falar antes do que gostaria de fazer. Quero te ver, ir a Celba.
A senhora Lens respondeu animada que, claro, lhe
daria muito prazer.
- O George não vai achar ruim?
- O George não vai achar nada.
Ela pergunta quando Silvia está pretendendo
viajar.
- Um pouco antes da exposição.
- Quando você vai para os Estados Unidos?
Podemos ir juntas.
- Sim, vamos juntas.
E as coisas?
Iguais.
Você precisa tomar uma decisão.
- Não é nada trágico.
- Ele a maltrata?

Maltratá-la seria estar consciente de que ela
existia.
Silvia se pergunta como Rose pôde casar.
A senhora Lens pensava que o noivo era apenas
um homem rude. E pensou que poderia dar um jeito
nisso, que podia ensiná-lo.
Bobagem, as pessoas não mudam.
Quem dera ele fosse um homem rude.
- E a menina?
- Está bem de saúde. Sabe como são os
adolescentes. Fui ter uma conversa ela, achei que
estava exagerando na maneira de se vestir, com
biquínis minúsculos, shorts enfiados e – A senhora
fala como se eu fosse uma predadora — dissera
Michele na ocasião. – É exatamente o que está
parecendo! – Fale pela senhora, mamãe! Silvia
lembrou que elas também haviam sido adolescentes.
– Faz tempo...
– Nem tanto.
A senhora Lens estava feliz. Para quando devia
esperar Silvia? - Segunda à tarde? Tudo bem -disse. Michele estará na escola e George no trabalho.

- Será bom rever você - disse Silvia. - Tenho
novidades.
– Alguém?
– De certa forma.
– Como assim?
Quando chegasse, conversariam.- Mas você sabe
-adiantou Silvia -que eu tenho um computador em
casa.
Vadia... Silvia dissera que ia comprar um para
trabalhar!
- Dá trabalho lidar com eles – Silvia gargalhou. –
Ainda ontem eu vi que está havendo no Palácio das
Convenções ...
- um congresso sobre internet, eu sei, eu fui...
- Mentira! que legal!
- Um cara falou sobre venda pela internet. Pode
acreditar?
- É, eu vi na matéria. Navegador em português
para mim vai ser uma boa. Desisti de aprender inglês.
– E o melhor é que vai ter internet via cabo. Aí
poderíamos estar no telefone e no computador ao
mesmo tempo.

A senhora Lens não entendeu direito a vantagem
que seria estarem juntas de duas formas sem que em
nenhuma delas poderiam se tocar. Nas pausas, podia
ouvir o refrão do mar, sempiterno.
Também o escutava Gerard ao desligar o
computador.

O gerente da agência tentou de tudo para que ele
não se demitisse. Disse que tirasse uns dias de folga
para refletir, mas não teve jeito. Era um homem de
uns cinquenta anos, vendendo saúde, mas alguns
funcionários do banco sabem que nem sempre foi
assim. Quando foi nomeado, ao contrário, vivia de
licença. Eles sabem a volta por cima que ele deu.
Seu tom de voz com Gerard era paternal. - Aqui
você tem uma carreira, ótimo salário, plano de saúde,
chance de crescer.
Um dia olhou para a mesa de Gerard e o viu, o
braço apoiado numa planilha. Seu olhar estava longe,
tal qual uma estátua que o escultor tivesse
interrompido para descansar um pouco antes de dar o
toque final, e nesse intervalo morreu e a estátua ficou
lá, sem expressão, abortada, vencida.

Nesse dia desistiu de tentar e providenciou que as
contas de Gerard fossem feitas de forma generosas, e
permitiu que o Aviso-Prévio fosse cumprido – pelo
dinheiro a mais e também tempo para ir antes àquela
praia e antecipar algumas providencias. Quando deu
vinte e nove dias, Gerard colocou na mochila a última
camiseta, dobrada e cheirando a amaciante, e depois
de duas ou três tentativas o fecho-éclair passou pelo
defeito e fechou. Gerard segurou para sentir o peso e
era o peso do mundo. E foi se deitar, com uns
barulhos estranhos nos intestinos. Acordou às dez
horas e pegou o ônibus da meia-noite, que saiu dois
minutos atrasado.
A senhora Lens passou a mão direita no quadril. A
dor se tornava crônica. O vento erguia as cortinas que
no fim da lufada voltavam a se aquietar. Por cima dos
óculos, olhava lombada por lombada a imaginar se de
um ou outro teria a resposta, o segredo de não sentir
mais dor. Descalca no tapate, os dedos grenás do
esmalte que não deu certo. Esse feixe luminoso
tocando de raspão o móvel do telefone, tal qual uma
varinha de condão. O falatório dos adolescentes à

janela. Respirou fundo antes de ouvir a voz de Silvia
novamente.
Falando em homem, Silvia perguntou como
estava o Jeferson.
Jeferson?
- Aquele de quem você me falou uma vez, o da
festa. Havia esquecido?
Ah.
-Há quanto tempo não nos vemos!
Mas a senhora Lens existia, estava ali, longe ou
perto, Silvia sabia, e bastava saber.
Mas a senhora Lens sente a falta física das
pessoas.
Silvia não tem ninguém de quem sentir falta.
-Eu gostaria de não sentir.
Rose preferia, por exemplo, nem ter dado à luz.
Ou, pelo menos, não casado.
E por que não se separava?
-Michele o adora.
-E Michele te adora?
- Claro que não. Mal me suporta. E só suporta
porque precisa.
O silêncio que se fez era para Rose imaginar a

cara que Silvia fazia e imaginar tão bem que
emendou:
- E minha filha, Silvia. Não pediu para vir ao
mundo.
- Droga, nem você!
Precisavam mesmo conversar. Os filhos crescem e
será tarde. A senhora Lens bem o sabia. A gratidão
dos filhos não deveria ser suficiente para encher a
vida dos pais. Rose era jovem, atraente. Silvia devia
estar brincando.
- Não estou, ora! trinta e quantos?
- Quarenta e cinco.
Silvia estava nessa faixa e se sentia desejável.
- Você tem tempo para isso.
O mal das mulheres casadas é não se permitirem
ter tempo.
Na verdade George era bom com a senhora Lens.
- Na verdade é um canalha.
Era bom com ela: o que fazia fora não podia
mudar isso.
- Mas muda - disse Silvia.
- A menina o adora - respondeu Rose.
Assim voltaram ao princípio.

A senhora Lens não podia afastar a filha do pai.
- Sabe - disse Silvia – O mais curioso é que às
vezes te invejo.
Realmente estava brincando.
- É verdade. Você está num contexto normal, em
que as mães são dependentes e as mulheres se
sacrificam.
Estão excitadas. Perdem todo pudor entre si. Uma
como a outra. Uma nos olhos da outra. Tão distintas.
- Sim, tenho inveja da normalidade - disse Silvia,
pensando para ela as portas estão sempre abertas.
Nunca uma fila de banco. O que sabe do sistema de
Saúde ou como funciona a Educação é só informação.
Nunca procurou emprego. Vive uma vida separada da
vida.
Michele chegava da escola.
- Vou ter de desligar - diz a senhora Lens.
Estaria esperando a amiga.

Desde que se levantou da frente do computador,
Gerard esteve buscando coisas na embriagada visão
enganosa que se tornara sua memória. Descendo,

passou por um homem grande (a quem a ameaçou
dizer bom dia porém o cumprimento morreu sufocado
em sua voz baixa e murmurada), barrigudo, em cujo
calção havia indecentes bolas vermelhas. Assim que
saiu do prédio, surgiu o mar. Embora de não mais que
um lance de vinte degraus, parecia outro mar sob
essa nova perspectiva, aberta, à qual se juntavam as
primeiras banhistas, uma das quais emprestou seu
corpo para a Silvia de sua imaginação.
Era uma mulher jovem, mais jovem que a Silvia
real, o que ele compensava com um detalhe ou outro,
como o tamanho e a firmeza dos seios, a
circunferência das coxas, e até os mais ou menos dois
centímetros de maiô na cava.
O caminho até o calçadão é de terra e grama rala
em que se pisa mandrágora, mandacaru e uma
espécie de caesalpinia e com dez passos ele o
percorre, respirando fundo no décimo e alongando os
braços e pernas. Silvia vai um pouco adiante, à
esquerda, pacificada em sua inconsciência, sem
chegar a entusiasmá-lo – nada que se comparasse à
mulher entrevista da janelinha. Ainda assim, doutora
Silvia - fascínio apegado ao título ou ao jaleco que

agora deve ter ficado ficou no quarto de hotel ou
quem sabe sequer ela trouxe de Haght’anak.
Surgiu uma amiga e se juntou a ela, quem sabe
aquela que Silvia costuma apresentar como vítima do
marido. De biquíni azul. Já mergulhou, pois água
escorre dos cabelos escurecidos que, levando para um
lado e inclinando a cabeça, ela torce tal qual o faria
com a canga amarrada à cintura.
Gerard deixou as duas se afastarem sem maiores
dramas. Pegou o canhoto da passagem no bolso,
desamassou-o e ficou olhando, absorto. Como
conhecesse da mulher, ao contrário de Silvia, apenas
a aparência física, segundo os perfis dos instantâneos,
deslocava-a do desejo para a memória básica e desta
para a saudade, colocando-a assim ao norte de seu
amor.
Adormeceu. Acordou onde a formação rochosa
começava, entre as praias do Diabo e a de São
Martinho. O ruído que o arrancou do sono e o
devolveu ao mundo era um bando de adolescentes na
rua da praia. A empregada que lavava uma janela, ao
ver o grupo, comenta alguma coisa para dentro do
apartamento. A resposta é sussurrada embora

ninguém pudesse ouvir. A mulher de dentro, que,
enquanto o frango assa, varre a sala, foi madrinha de
Michele. É amiga de Sarita.
- Hoje em dia os filhos são tiranos- disse com a
voz modulada e firme de quem sabe o que esta
falando.
-Ou talvez os pais tenham medo de impor limites
e perder amor.
- Amor que nada. Esses meninos só amam a si
mesmos.
- E nem da para chama-los de "meninos".
Os Lens de fato não perceberam que a filha se
tornava mulher. O pai antes da mãe, e depois da coisa
consumada. Esperava um filho homem. Ignora a
criança pequena e da maior sente raiva. Na
jovenzinha todavia presta atenção. Ela demonstra
alegria com o súbito pai. Um silêncio pairou de uma
hora para outra.
Às 09h50min horas, Georges estava chegando ao
escritório. Para isso tem de passar o aquele trecho do
calçadão, mas por dentro, na parte interna da
avenida. Costuma tomar café ali de manhã, e de noite
uísque. Na noite anterior, naquele mesmo lugar, ficou

cismado com um colega que falou alguma coisa sobre
as “filhas da temporada”. Vou ficar calado, pensou,
lembrando-se da noite anterior...
- Michele, eu disse que precisava do carro hoje.
Papai vai à zona de novo?
A cara de George se fecha. Se Michele tornasse a
falar assim ele a rebentaria.
Mas ela fala a verdade, como eles ensinaram.
A mão desce e surge Joana. Um filete em seus
lábios treinados.
- Pode bater, isso, me bate, me mata.
A senhora Lens interfere. Sabe o peso daquela
mão.
George manda a mulher não se meter. - Não
ouviu o que ela falou?
Rose pondera que nada justifica a violência. Lembre-se de como odiou seu pai.
Ele se lembra e odeia a mulher. Era para isso que
desabafava! para ela usar as palavras dele contra ele
mesmo!
- Ora, e logo quem vem falar em família...
O pai de Rose era patético, não se importava com
ela, por isso não lhe dava disciplina e fazia todas as

suas vontades.
Michele sai sem que percebam. Meneia a cabeça
e se afasta. Preferia mesmo sair a pé na chuva. Mexia
com o seu metabolismo.
Na rua, algazarra. Na direção da turma o
professor Delano teve um instante de
estremecimento. Todos o cumprimentam, devolve a
saudação. Evita o olhar de Michele. Segue para a casa
da diretora.
Na sala vazia, o atrevimento de um colega. O
professor chegou e os ameaça. Mandou o rapaz para
a secretaria
Devia comunicar ao doutor Georges?
O vento redemoinha no pátio.
Não seria preciso, respondeu Michele. Ela faria o
que Delano quisesse.
O sinal de saída, o burburinho no pátio, o prédio
vazio.
Menina má. A mesa. A mão. Boa menina. Nascida
de um delírio anterior. Está à vontade. O som se
repete.
Há uma forma de escapar do castigo.
No depósito dos produtos de limpeza, ela saberá

o que fazer; embora o professor continue dando
ordens. Melhor assim. Pode abreviar o desfecho .
Então Delano não tem mais o que dizer. Ela sempre
leva a melhor contra as amigas. O primo de Keshia
uma cobaia feliz.
Desde aquele dia Delano a teme muito mais do
que deseja.
Nos dias seguintes, ela sonhou. A lousa cresce,
ele a segura e é quente quando lança de si e ela,
estremecendo, boceja.
Michele não se envergonhava. Dava graças por
ter um lar e não ser maltratada como tantas meninas
de Celba, sem chance de brincarem de médico, nas
ruas atendendo a anúncios, trocadas por droga
quando não por comida. Violentadas por autoridades e
caminhoneiros, viciadas em crack, grávidas, mortas.
Michele sabe se defender.
Liana escorria pela toalha, os vira de longe. Tinha
uma espécie de orgulho de Michele, a menina que
Liana mesma fora um dia.
O professor passou.
O céu se abrira. Gerard viu as meninas que

passando arquejavam no falar ininterrupto. De perfil
sonhador a primeira tem os cabelos presos e enormes
brincos. A blusa tom sobre tom em pouco tecido.
Nuvens passam e continuam a passar. Quando o luar
incide sobre a pele da segunda, uma tonalidade mais
escura, leitosa, surge do meio do decote. Longos
cabelos negros colocam a terceira na cena, num
vestido preto de alças largas. Quando caminham, as
pernas próximas se juntam. Destacando-se, reinou a
presença de Michele captada no limite do pudor sob a
lua.
Havia uma noite em cada mes fora da temporada
que Ikonya ficava em festa. Armavam-se
barraquinhas, como uma quermesse. Música e
bandeirinhas. Na última dessas noites antes de
Michele partir para Hatknak, Georges convidou Rose
com a maior boa vontade mas ela estava com
enxaqueca. As meninas iam à frente. Colares de
lâmpadas no pescoço da noite, cores do vento. O
baticum tradicional de músicas de festas ao ar livre.
Cabelos loiros a essa luz se tornam brancos mas um
branco jovem, lunar, dramático. Fábio se aproximou
de uma das barraquinhas e com voz adocicada fez

um elogio à mulher que vendia churros, tentando
ignorar a vastidão do decote. Ela respondeu que seu
nome era Sonia. Ele continuou falando, sublinhando
as palavras com sinais correspondentes, até que os
olhares se cruzaram. Foram dançar na pista
improvisada na praça. Michele chegou. Quedou
parada um bom tempo. Depois se virou e saiu,
andando quase correndo pela noite estrelada azul,
bebendo no gargalho após jogar fora num rasgo o
copo de papel com a propaganda da loja de uma das
barraquinhas. Não passou um minuto e do outro lado
sentado na mesinha defronte da igreja estava o pai
com uma mulher. Michele solta um grito e toma uma
terceira direção. Droga, droga, droga. Ah sabe do
que? eu vou é dançar.
Melhor mesmo, disse Keshia. Vamos?
No galpão que fazia as vezes de boate no ritmo de
um bate-estaca da moda, há uma luz branca, forte,
sobre elas que quando erguem as mãos dá ideia de
que estão submersa nas cores noturnas com os
copos de papel. De repente Michele gritou que ia
embora.
- Deixa disso – disse Keshia.

- Vou sim não quero mais ficar.
Com suor escorrendo pelo decote amolecido,
tomou a direção do estacionamento, empurrando as
pessoas dançando, mas de súbito desvia e continua
no sentido de onde está Fabio. A mulher se espanta
com a repentina intrusa pegando no braço que
julgava seu pelo resto da noite, no mínimo, e imagina
algum tipo de resistência uma vez que ele, mesmo
pulando na dança ensandecida, mostrou clara
hesitação.
No caminho de casa as cruzes sobrepostas se
enraizavam no asfalto vindas dos postes passando
segundo a velocidade dos veículos.
Tornará a tomar esse caminho no dia seguinte,
quando sair com Keshia da praia noturna. No começo
da noite, Gerard se aproximou do grupo adolescente.
- Oi – cumprimenta. Pergunta se pode passar no
cigarro partilhado. Eles disseram que tudo bem,
chegasse mais.
Michele estava sentada nos calcanhares. As
ondas nos joelhos. Os pelinhos oxigenados, claros,
reluzentes, ornam as pernas amarronzadas. Gerard
segura a fumaça. Não deve permanecer mais que o

necessário. Tem de subir e esperar a Silvia.
A jovem pergunta seu nome. Ele responde e
devolve a pergunta. Ela responde. Sorriram.
Conversam.
Há nas cidades uma migração interna para os
bairros da moda, e como são feios os bairros da moda!
Agora com os prédios históricos ameaçados será triste
o fim de capitais como Haght’anak. Não demora, aqui
mesmo em Celba, será tudo apartamentos.
O passo da menina é lento. Gerard acompanha.
Naquele momento, Georges procura Rose pela
casa.
- Viu onde deixei as chaves?
Estão sozinhos; ele a empurra para o quarto. Pede
desculpas pelo que disse sobre o pai dela; jura que a
ama.
Seria diferente com outro? Tudo é sempre igual
com os homens. Tudo se repete.
Coisa horrível – Keshia sorri sem alegria. É
desumano o agrupamento demográfico, a poluição.
Gerard concorda. E a solidão, a solidão das cidades.
Silvia está online. Que barulhinho irritante,
resmunga um hóspede.

O hotel é um exemplo do que dizem. A
desproporção das escalas.
Keshia diz que queria ser arquiteta.
Bem, tem todo o tempo e oportunidade. Porem
não sabe que tipo de arquiteto existirá quando ela for
adulta.
Igual a Gerard: O homem está preparado para os
mundos abertos pelo computador? Não sabemos
como será o relacionamento entre homem e
tecnologia.
Ou poderemos chamar a isso conspiração. Basta
olhar a pele rosada da menina, nem assim menos
branca, o sangue espalhando-se discreto, cheio dum
pudor inócuo enquanto a seiva derrama além dos
muros os cachos das buganvílias, ali chamadas
“primaveras” - linguagem do final do ano que é
também o início dos dias abertos para as estudantes,
também finlandesas, com o uso não funcional
explorando muito além do que a comunidade aceita crescendo nesse ritmo, imparável.
Nômade e primitivo, ele escuta o sussurro de
Keshia após a palavra, e estremece a cada vez que a
voz repete “Gerard”, como se não fizesse parte da

mobilidade lenta e rósea do crepúsculo.
- Tecnologia de ponta supõe pessoas de ponta e
não existem, Keshia, jamais existirão.
Havia esse ponto em comum entre eles. Não fora
por esse intercurso, o fato de terem se conhecido não
teria qualquer importância, não nos esqueçamos. - Do
que? - perguntará Rose um dia.
- De que era uma menina doce, intensa demais
para sua idade. Intensa demais para qualquer idade.
Mas ainda estavam se vendo pela primeira vez,
vigiados sutilmente, trocando impressões sobre essas
coisas circunstanciais que são tudo enquanto se está
vivendo, pelo que, ouvindo, concluiu Michele, as
coisas mais importantes são sempre vividas depois,
em retrospecto, quando são.
- Eu acho que deve ser produzida uma nova
consciência por causa do mundo conectado. Literatura
sem editores não é algo revolucionário?
Havia essa ansiedade entre eles, lembrará Gerard
por um átimo de segundo, quando Sarita, um dia,
imitar a fala de Eduardo, que os apresentou; mas uma
ansiedade serena, porque não era um temor de
alguma coisa, mas a certeza de alguma coisa,

lembrará Keshia nesse mesmo dia futuro, alguma
coisa que ainda não se mostrou ou definiu.
Aos poucos se afastam do resto do grupo. Ela
pinga colírio e oferece. Ele agradece e devolve o
frasco. Os dedos se tocam.
Viram primeiro luzes azuis. Giravam em torno de
um eixo também azul, mais claro, e dessas bolas
luminosas surgem notas de piano seguidas por um
violino ao fundo, que, salvo erro, vinha nas ondas.
Ouviam as próprias vozes, como se não fossem as
próprias vozes, como se estivessem fora de seus
corpos. E, todavia, eram os corpos. Seus corpos, com
absoluta certeza.
- Você então chegou ontem?
Ele começou a rir. - Não lembro – disse. O riso ora
crescendo ora diminuindo, mas sempre ali, fixo nos
lábios casados com os olhos vermelhos.
- Ontem foi quinta-feira. Nas quintas-feiras
acontecem as melhores coisas de minha vida.
- É um tipo de superstição?
Keshia tinha estendido a toalha fina com que
costumava se secar quando caía no mar e depositou
ali sua bolsinha de crochê, que devolvia nas bolinhas

um luar sangrento. O celular escorregou pela
abertura, e depois dele a gambiarra de tocar as
teclinhas, que também tinham luz própria.
Eles tinham fumado havia uns cinco minutos e
cada mudança de posição transformava o mundo.
Gerard se ajeita de novo, com as pernas cruzadas, as
panturrilhas na areia fria. Keshia tem trancinhas por
toda a cabeça. Culminavam com elásticos coloridos
nas pontas, combinando com o esmalte. Estava
bastante maquiada mas só dava para ver isso bem de
perto. Quando falava franzia o cenho como se
estivesse cantando.
Quando saía para encontrar Michele na praia,
Keshia abaixou-se para beijar o avô que via televisão,
viu um par de sandálias debaixo do sofá e tirou as que
calçava, colocando essas outras, continuando até a
porta pulando numa perna só.
- Você não para mais em casa, menina. – disse o
avô.
Suas saídas da neta eram sempre para encontrar
Michele, que, mesmo assim, quando ia a certos
lugares, preferia que a amiga não fosse. Para Keshia,
estava tudo bem. Gostava de ficar em casa. Mas

estava feliz de ter saído naquela noite. De estar
conversando com o rapaz.
Num passe de mágica, segurou um porta-fotos
com divisões de plástico. Enquanto as imagens
desfilavam diante dela, aureolada pela lua, Keshia
falava com desembaraço tal que Gerard não se
surpreenderia se aparecesse alguém e dissesse
“Corta”. Mas de repente se calou e ele não sabia mais
se tinha sido ela ou se ele é quem se calara,
interrompendo a conversa. Fez um esforço e se
alegrou por se lembrar do que falavam.
- De um jeito ou de outro, você vai dar uma bela
arquiteta.
- Mas sabe - disse ela, com o deleite do peito
revelado pelos olhos ardidos. – Às vezes me pego
pensando na escolha da Michele.
A amiga ganhava um dinheirinho, uma boa grana
na verdade. Não dependia dos pais, que nem sabem
que ela faz isso, e está realizada. Gerard perguntou o
que ela fazia. Keshia respondeu que Michele fazia
umas coisas na máquina da empregada. É uma
máquina industrial, que o pai dela deu para Dona
Sarita. E todo mundo sempre tem algum servicinho

desses. Colocar botão, zíper, fazer bainha. E ela é boa
com isso. E acho que é feliz com esse trabalho.
Quando o sino bateu dez horas, Keshia e Gerard
estavam diante do mar. Ela o olha com um olhar
cruzado extensivo como o das pombas.
- Sabe quem eu encontrei num ônibus municipal
em Haght’anak? - sem esperar resposta, Keshia
completou: - A própria princesa. De ônibus, imagine.
Indo trabalhar.
Fez-se silêncio e depois sorrindo olhando-a nos
olhinhos apertados Gerard disse que ela era uma
menina muito madura.
- Imagina... –desdenhou ela. – Apenas leio os
jornais de domingo.
Gostava do que qualquer jovenzinha costuma. De
dançar e paquerar; estudar e chocolate; de pensar em
sexo e projetar o futuro; festinhas e perfil social. O site
no GeoCities nada era senão um tipo de atualização
diária como a que Anne Frank consagrou. Fitas VHS
ainda eram cinema.
E havia a inquietação. O desejo de se apaixonar e
o medo de ter filhos. De não saber combinar as
roupas. De espinhas. Do peso. A vergonha de ser

diferente e a ignorância quanto às doenças
sexualmente transmissíveis. O velho conflito de
gerações.
Gerard a olhou mais demoradamente quando ela
se distraiu com uma mariposa. Mas do que realmente
ela gostava?
- Adoro música e pintura. Minha mãe é pianista e
estou começando. A mãe de Michele é pintora, faz
quadros lindíssimos.
- E você?
Gerard era muito ligado em tecnologia, amava
computadores, trabalhava com computadores,
inclusive em casa.
Keshia perguntou quantos anos ele tinha.
Ele disse 28. Tinha 34.
E ela? - Dezenove.
Keshia tinha 16.
A equipe de reportagem saiu da cidade. Georges
estará no noticiário da noite e no suplemento de
domingo. Criara uma menina com liberdade e senso
de responsabilidade, o que seria impossível numa
cidade grande - dirá na entrevista.

- O pai de minha melhor amiga apoia a idéia de
ela estudar em Hainktagnak – diz Keshia, a voz
abafada pelo motor do carro da TV, bem quando o
carro quicou por causa de um buraco no asfalto.
Georges não vai gostar nada quando souber que
Michele se hospedou com Silvia. Puta que o pariu! Na
casa daquela vadia? Que tipo de mãe era a senhora
Lens afinal?
- Silvia é uma mulher de bem, responsável,
temente a Deus.
- As mulheres da Zona também.
Isso George deve saber bem o quanto.
Keshia conta a Gerard como o pai de sua amiga
pregava a beleza da serenidade e do amor, tanto nas
suas obras como nas que aceitava bancar como
editor. Mas ela própria não gosta de ler, confessa.
Gerard comprará o jornal na quente e bela manhã
de um domingo abençoado. Levou a mão ao bolso de
trás para pegar a carteira enquanto analisava a foto
que mostrava um homem moreno e entroncado,
vestido de modo simples. Jeans e camiseta. Nenhuma
garrafa visível. Estava com o braço apoiado na mureta
da varandinha. Ali, quando estendia a rede porque

sozinha, a senhora Lens se acomodava no linhão
como numa placenta.
- Um dia te levo lá, Gerard – disse Keshia em
meio a um sorriso de lábios e trancinhas.
O monte domina a paisagem. A praia noturna.
Quase madrugada. O tempo se firmara sem abrir.
O casal – é o que parece para um carro que passava
na rodovia - procura em vão uma estrela na fumaça. Seria bom que a gente fosse assim toda hora, sem
efeito.
- A Michele está de olho em você.
Gerard a encara espantado.
- Ela tem essa tendência, sabe, de se interessar
por rapazes bem mais velhos.
- As meninas querem se provar, saber seus
limites. Se elas podem seduzir um homem. Ou é pela
estabilidade financeira, pelo carro, para não terem de
depender da mesada dos pais.
Ela suspirou. Seus seios adultos.
Gerard não deixará que ela concilie o sono
naquela noite. Tal um grilo para quem está insone.
Michele se reaproximando diz “Gerald”.

- Gerard – corrigiram Gerard e Keshia ao mesmo
tempo, ensaiados e indignados.
- Ah sim, pois é. Gerard. Venha na festinha de
meu aniversário.
Só não esperasse muita coisa. Era apenas uma
reunião para os amigos mais íntimos.
Ele se sentia honrado.
Elas riram por dentro, mas até acharam bonito
aquele jeito solene.
- Nos vemos amanhã então.
O sorriso meigo de Keshia se afastou com
Michele.
– Ah! – lembrou Michele. - É a casa em frente ao
parque de diversões, das buganvílias vermelhas. Não
tem como errar. De uns cinco, seis metros, as
sandálias no cascalho, Michele quase gritava. - É só
perguntar pela casa do editor. Todos conhecem.
George era conhecido. Poucos gostavam dele,
mas todos gostavam de dizer que era um velho
amigo.
Joana não. Dizia a mesma coisa sinceramente,
com orgulho.

- Sempre o amarei – repetia para as outras. –
Sempre.
Sentada na beira da cama, ela olhava o nada
além do retângulo da janela aberta para a noite
quente. Tinha 28 anos que pareciam 40 e poucos.
Estava magérrima, as olheiras enegreciam hora a
hora, envelhecia um ou dois anos cada mês. Pensando
bem, talvez olhasse para o calendário à esquerda da
janela, com uma data marcada com um círculo
hesitante. Talvez por isso se lembrasse do dia em que
conheceu George.
Em seu corpo nu respingou o mergulho
espalhafatoso do filho da patroa de sua mãe e ela deu
um grito.
- Vou falar para tua mãe!
- E você acha que minha mãe vai fazer o quê?
Ela ficou choramingando cheia de tristeza porque
sabia que a mãe não podia mesmo fazer nada, mas
quando eu crescer...
Quando cresceu um pouco, na adolescência, leu o
primeiro livro de Georges Lens e depois todos,
incluindo os de outros autores que ele editava.
Conhecia os projetos da editora e tudo.

Antes da peixada em que a mulher chamada Rose
apareceu, andava fazendo roupinhas de crochê.
Contava histórias para as amigas, cheias de rosa e
azul como as roupinhas.
Quando Gerard a olhar pensará como é franzina,
como suporta.
Ela nunca pensou assim, pelo menos até quando
Georges sumiu pela primeira vez. Pelo contrário, antes
se achava forte, capaz de superar qualquer coisa. Em
menos de dois meses, não tinha dinheiro para o
apartamento e as amigas lhe disseram que
aproveitasse, era um ponto ótimo, logo se pagaria e
ainda teria muito lucro, embora talvez não desse mais
tempo de fazer tricô, nem na verdade ia querer fazer,
garantiram.
Mas no dia em que viu reviu Georges; e se
arrependeu da decisão.
O senhor Lens chegou da capital com Rose lá
pelas oito e meia da manhã. Passaram antes no
supermercado, que era do mesmo dono da antiga
mercearia, o único comércio de Celba quando o
povoado se separou de Ikonia. Ele colocou frutas, pães
e frios na cestinha e antes de entrar na água chamou

um caranguejinho de “brother”. Disse que o mar ali
era sempre assim, raso e cristalino. Ficaram um
tempão mexendo nas conchas, deixando os
caranguejinhos e lagartas cerdosas passearem nas
mãos, o que Rose achava sexy mas pensava ser
perigoso, pois sempre ouviu falar de graves urticárias
causadas por essas espécies.
- São outras – disse Georges. - São as espécies de
megalopigídeos.
Depois ficou mais no fundo e disse para Rose ir
ter com ele, assim aprenderia rápido a nadar. Ela
simplesmente foi, embora nunca tivesse antes
entrado no mar. Depois, saiu, ajeitando a parte de
cima do biquíni, como se nunca tivesse feito outra
coisa na vida além de nadar e sair do mar.
Joana, que fazia isso o tempo todo desde menina,
achou que ela tinha jeito.
- Parece uma sereia – disse, chegando por trás de
Georges.
- Sai daqui – respondeu ele, com os olhos
arregalados, diretos nos grandes seios.
- Não saio. Gostei dela.
- Sai. Depois eu passo lá – respondeu ele,

retomando o controle.
Dois meses e três dias depois do casamento,
Georges apareceu outra vez. Disse que voltaria a
pagar o aluguel, que não queria que ela se expusesse
mais. Ela disse que não precisava, estava se virando.
Ele não insistiu.
- Mas mesmo assim quero que você esteja
disponível, não é sempre que eu posso avisar.
Um dia ela resistiu a se colocar de um jeito que
ele gostava, ou se colocou sem o entusiasmo
costumeiro. Ele pensou que era uma espécie de
desprezo; mas não. Só que ela perdera o ânimo.
Perdera o ânimo para tudo. Sentia-se mal, fraca.
Abandonada.
Quando a cidade estiver chocada com um pacto
de morte, por exemplo, ela terá inveja. Se Georges
propusesse, ela teria topado. De certa forma, ele
propôs.
Ele detestava essa nova Joana, choramingas.
Como todas, gosta é disso, ser fodida e apanhar de
seu homem; depois fingem que são santas desviadas.
Agora George bebe a terceira dose enquanto faz
contas e pesquisa na internet para atualizar as

citações de seu nome. Ouve uma cópia da entrevista.
E esse pessoal nem sabe o grande amante que sou.
Rose sucumbira depressa e não é para qualquer um
fazer com que uma prostituta se apaixone. Nem
sabem que as mulheres sempre pedem mais, tudo, ou
piedade.
Olha para o teto. Grita. – Michele! Preciso
trabalhar!
As meninas começaram a arrumar as camas,
rindo a cada frase, numa das quais se torna evidente
o que a amiga estava imaginando, que era questão de
oportunidade Michele avançar no motorista da
editora. Isso não vai dar certo, adverte Keshia.
- As coisas sempre podem ou não dar certo; mas
não dá pra não fazer o que se tem vontade por causa
disso.
- É uma filosofia de vida muito perigosa - disse a
amiga ao colocar com dificuldade a fronha no
travesseiro.
Essa mordidinha no próprio lábio inferior é típica
de Michele. Keshia empurra a cama de solteiro que
veio do outro quarto, trazida pelo tal homem, para
junto da cama de Michele, que fica imitando a voz do

homem:
- Olhem como sou forte!... Olhem como sou
forte...
Keshia levanta o travesseiro pelas duas pontas da
fronha e desce na cara da outra. Elas gargalham e
assim ficam gargalhando um bom tempo. Pára, pára,
cala essa boca. E riam
No mesmo dia, em Ikon’ya, olhos grandes
acompanham grandes botões. Uma lógica nem tão
passiva, densa, úmida, feminina, escura, subterrânea.
Rubra imobilidade de uma silhueta unida à outra,
lenta. Cati sabe mas é como se não soubesse que os
pés descalços de um homem vistos de cima incluem
calor de mata em relevo acidentado. Céu e fogo.
Victor está quieto. Poderia ser um filme. Sombras.
Música de fundo calma, não triste. Logo Cati não está
mais ali. Reaparece por segundos e depois a
vermelhidão da sala vazia exceto pela blusa grossa
sobre o fino hijabe.
Quando Victor tornou a vê-la, ela estava deitada
no sofá vermelho, largada como um poodle, a cabeça
caída, e ao lado, um nível abaixo, ele estava estendido

no que parecia ser a parte de baixo de uma bicama. A
poeira do aposento levava a crer que não havia se
passado muito tempo depois que – as marcas no chão
denunciavam – foi arrastada até ali. Na parede oposta,
um pouco mais ao alto, uma estante sobre a qual
falara o porteiro, dizendo que se ele quisesse podia
ficar, caso viesse realmente a alugar a quitinete – o
que na prática já acontecia. Era um pouco mais larga
e um pouco mais alta do que a da sala e estava com
mais poeira porque o quarto não estava taqueado.
Ela está acordando. Talvez nem tenha chegado a
dormir.
Puxou a caixa de papelão que estava à frente.
Dentro, o controle remoto, de um tipo bem antigo,
branco; dois rolos de papel higiênico, um pano que
podia ser de prato ou um guardanapo, e as latas de
conserva e de refrigerante, uma das quais ele pegou e
puxou o anel de abertura fazendo com que o líquido
borbulhante.
- Já acordou?
- Não dormi. Hoje é aniversário da filha do patrão.
Não quer vir comigo?
- Não posso - disse Cati. -Tenho de me apresentar

na imigração.
Ela estava com um pouco de fome, ele também. Acho que por isso também não dormi.
- Eu trouxe pão e queijo.
Olham-se direto de repente. Podem ver os olhos
um do outro com clareza igual com que veem a lua,
que sobe e cresce.
A luminosidade das tardes havia sido resgatada,
ou nasceu. A mulher aceitou cada sugestão do
empregado do marido. Ele era tão infantil e adorável.
Tinha tanta idéia. Nos primeiros dias, ela evitou
qualquer tipo de assunto em que ele pudesse de
súbito disparar a pergunta “Quantos anos você tem”.
Depois, não teria mais ligado, porém ele nunca
perguntou.
Nem mesmo quando os braços Gerard estavam
abertos num ângulo de noventa graus, uma das mãos
segurando o pescoço da mulher. O sulco medial
continuava na linha alba, formando um animal novo,
uno.
Ela fala pouco. Às vezes não fala. Então, quando
quis falar com tanta solenidade, ele pensou o pior,

mas era apenas para dizer que ele consultasse um
médico conhecido dela. Fazia anos e anos que Gerard
não ia.
Com que então ela se preocupava. Mas no fundo
ele acreditava que passados os meses entre a
marcação e a consulta, ela teria se esquecido. Mas
não. E teve mesmo que ir.
Chamam-se “pacientes” porque olha, pensou, é
preciso muita paciencia. Antes de entrar no
consultório, passou por umas tantas atendentes que,
se dependesse delas, estaria curado (pensava em
exacerbação sexual, não em bobagens como
esquecimentos). Uma judiou tanto mais tanto que ele
pensou Eu mereço. E murmurou entredentes quando
ela saiu da sala: - Estou pagando...
Esses exames preliminares nada acusaram.
Dentre as queixas, como chamavam - o
entrelaçamento mórbido dos nervos, a rigidez das
faces, os tremores que incapacitavam para o trabalho
- e, Ah doutora, ia esquecendo, agora a abstinência
provocou algo diferente: não consigo levar um
raciocínio até o fim, começo a frase e no meio já
esqueci sobre o que era.

- Mas lembra de que desde a adolescência sofre a
síndrome de abstinência.
- Não dá pra esquecer isso – respondeu Gerard. –
E as coisas remotas são mais vívidas.
- Por exemplo?
- Desculpe... De que mesmo estamos falando?
Não perguntará pela casa de ninguém, decide
Gerard. Sairá cedo e descobrirá sozinho onde fica a
casa. Aproveita e assim conhece a vila. A cadência do
mar envolvia a todos no abraço da noite. Volta para a
pousada. Deita-se. Ainda rolava de um lado para outro
quando amanheceu.
O pátio interno da pousada retém a noite,
impressão seguramente provocada pelo jantar,
comida abundante a que não estava acostumado, pois
nunca jantava, só lanchava bobagens que não davam
o sono que cortaria o barato de sair à noite.
Rose estava inquieta e perdera a última coisa que
havia restado, o sono. Ficou andando a esmo no
terraço, pisando o tapete amarelo de flores de acácia
como se fosse ginkgobiloba. Desde que Georges
nunca está em casa, que anda com outras sem fingir

inocência – ultimamente com essa talzinha –, a
senhora Lens não tinha desejo senão de definhar
como de fato definhava.
Gerard apertou os olhos enquanto se encolhia
debaixo das cobertas. Conforme despertava, o
universo ia se renovando na consciência da hora em
que estaria na casa de Michele. Uma menina atraente.
Simpática, mas nem tanto. A simpatia de Keshia
decerto os faria irmãos, como costuma acontecer. Ela
não teria desejado isso. Mas Michele sempre leva a
melhor com os rapazes e ela estava mesmo
engordando, não sabia mais o que fazer a respeito. A
senhora Lens costumava dizer “Não Keshia, imagine,
você está linda” – mas a senhora Lens é muito gentil.
Não dá pra acreditar em tudo o que diz com seu belo
sorriso nos lábios.
Gerard pensa que o sorriso de Michele sem
dúvida lembra alguém. Mas é não é tão nova.
Para Rose, para quem será um motivo, não
importará que idade tenha agora ou daqui a quinze
anos. Sublimação: por isso começou a pintar. Não
imaginara chegar tão longe com a pintura ou com o
amor.

Imaginou o desdém com que Silvia trataria esse
tipo de relacionamento. Amava Silvia. Admirava-a. Seu
coração sentiu-se feliz quando ela ligou. Alegrou-se
por sua disposição de ir a Celba. Era bom conversar
com ela. Mas cumpria guardar segredo. Aliás, não
estava certa se já não tocara no assunto ao telefone.
-Leite! Olha o leiteiro!
A imagem imediata é a de uma jovem de cabelos
cacheados. Usou bobe para conseguir esse efeito.
Leva pendurada ao pescoço, por meio de fita grossa
vermelha de cetim, uma caixa retangular de madeira
cujos lados têm cerca de seis centímetros de altura.
Rose sabe porque falou com ela quando o efeito da
bebida começou. Era réveillon. Uma festa temática.
Foi convidada por um uma espécie de assessor do
embaixador, se bem se lembra. Um cara de todo
desagradável. Então começou a beber e logo ficou
claro que não estava acostumada.
Nos anos quarenta a mocinha teria feito sucesso.
Fez sucesso ali, na última década do século, com sua
fantasia. Além dos cigarros, vendia chocolates e
venderia o que mais colocasse na caixa. A fita era
vermelha, brilhante, e a saia de tule rodada e cheia,

combinando com seu rostinho. Quanto mais se
lembra, mais Rose fica confusa, porque é uma noite
esquecida. Lembranças se encaixam como peças de
um puzzle que sombras de sonho chegando do nada
apagaram.
Para a senhora Lens não era importante decifrar o
mistério pois as coisas que se mantém num plano
indefinido não exigem atitude. O que não se define
não exige que mexa esses pés que entram em casa,
que tudo o que fazem é entrarem e saírem de casa
por essa porta segura. Fez um último esforço
desleixado para ligar a mocinha ao grito do leiteiro.
Vendedoras de cigarro, até onde sabe, não gritavam
nos cabarés.
O homem que aparecerá depois na festa
continuará, graças a Deus, sem nome e envolto em
sombras. Foi não mais que uma troca de olhares,
pensou, quando na verdade nem isso, pois ela
tampouco se lembra do olhar.
- Obrigado, Sr. Matias! Bom dia!
As luzes amarelas pelo basculante do prédio ao
lado da embaixada, o cheiro do rapaz surgido do
nada, sua gentileza como quem não estivesse fazendo

o que estava fazendo, cheiro de homem sem a quebra
de tensão dos desodorantes, misturando-se às luzes
do caminhão da empresa de energia, cujo motor foi
substituído pelas vozes dos eletricistas que
reconstituíam a rede. O estranho levou a mão ao seio
que não esperava acolhedor. O caminhão religou o
motor e ela teve uma vaga noção do frio do granito.
Ou as escadas para baixo - exceto se alguém subisse,
mas agora é mais fácil torcer para que não aconteça
do que parar.
Quando ela colocou o leite na mureta da varanda,
estava chuviscando e Gerard caminhava na
luminosidade baça da manhã.
- Bom dia - disse Cronelin.
A bruma o envolverá quando sair por essa porta
e entrar na luz do dia com direção à casa de Michele.
Os homens estarão em seus postos na obra da
pousada. O mestre de obras, os pedreiros e serventes,
e também os carpinteiros, bombeiros e ladrilheiros e,
claro, os pintores. Vai ficar bonito quando acabarem.
Será um bom lugar para se viver. Keshia e Michele
virão visita-lo, gostarão do lugar, virão ser aconselhar
e sentirão a paz que não sentem em suas casas.

A casa batida pelo sol, campestre e dramática,
parecia maior. Acontece, com esse tipo de casa. Numa
casa assim se encontrou pela primeira vez com a
mulher do banqueiro.
Ela disse que não era sem-vergonhice, que ela
não devia ter casado e restou esse arranjo. Num único
instante, caminhando para a casa do aniversário, ele
entendeu o quanto a vida deveria mudar com sua
mudança de cidade, o mundo continuar crescendo e
ele junto. Quis não pensar na mulher e tentou
lembrar-se do rosto de um dos rapazes da noite
anterior na praia, com Keshia e Michele. Pelo menos o
que os apresentou. Precisava de um parceiro de
xadrez. Caminha integrado à paisagem, aos reflexos
do mar na manhã. Era como se sempre tivesse vivido
ali, como as árvores.
Na véspera da viagem para Celba, porém, a
mulher o esperava na casa de campo nos arredores de
Haktnak. O rosto muito pálido ainda mais pela
maquiagem de alto contraste. Os olhos negros, de
sombra pesada nas pálpebras e abissal rímel nos
cílios, puxados pelo lápis, gotejavam como a cara de
uma boneca triste desenhada por uma criança. Em

torno do pescoço uma echarpe de seda, quente,
alaranjada. O vestido cai como cairia o lençol de um
falso fantasma ainda que o tecido seja escuro e nem
tão leve. A luz no corredor, que parecia vir dela
mesma, misturava-se à palidez como uma nuvem.
- Não podemos continuar assim - disse GerardPrecisamos de um pouco de paz.
Ela o encarou, severa mas não zangada. O branco
dos olhos está vermelho, o nariz está entupido e ela
funga.
Ele a olhou. Ela estava com a cabeça levemente
inclinada para a esquerda. Cabelos espessos como um
capacete ou gorro sobre o olhar que atento a
escutava. As mãos para trás em sinal de respeito à
dor, apertando-se uma à outra pelos dedos grossos e
suados. A janela atrás dele dá para uma escola que o
recreio tornou insuportavelmente ruidosa. Ele vira o
rosto como se quisesse entender as vozes infantis.
Ele suspira e, quase numa extensão de seu
suspiro, a voz da menina entra pela porta que acabou
de bater. Ambos se viram em direção a ela, que lhes
sorri. O uniforme não está visível sob o casacão,
sequer a gola, oculta pelo cachecol. Quando o

elevador se fecha, a sombra da menina perde a
nitidez embora permaneça bem recortada abaixo dela,
como uma cidade duplicada nas águas do rio que a
corta.
A corridinha é sentida no andar de baixo pelos
empregados. A menina passa pela mão e estende a
caixa ao homem. É um presente, diz ela. Mas as mãos
dele continuam para trás, como que presas.
- Um presente? – diz ele.
- Sim - ela responde, e lança um olhar suplicante
para sua oferta.
Por cima do ombro da menina, a mulher olha a
caixa com expressão indecifrável. Gerard repete “um
presente” com voz monótona e impassível. Por fim as
mãos se libertam em direção à caixa e a esquerda
sobe ato contínuo ao rosto da menina. A textura dos
cabelos é a mesma. Ficam assim, pelo menos um
minuto.
Então a menina faz sinal de quem quer contar
algo. Ele se abaixa e lhe oferece o ouvido. Ela
aproxima os lábios e ele escuta: “Meu pai voltou”.
Como que ensaiados, os dois olham para o vozerio à
janela. Um dia claro como só o sol de inverno.

- Eu sempre soube que esse dia ia chegar. Não
achei que fosse doer tanto.
- Não sou promíscuo.
Ela não respondeu e esse silêncio se misturou às
fachadas altas das casas de tijolos aparentes, vítreas
e metálicas, brancas. O bramido do mar se
intensificara depois da ressaca. Um dos rapazes, até
onde se lembra, era louro e tinha jeito de surfista. A
cabeça da mulher está levemente inclinada para a
esquerda. A janela da parte oriental dava para a
rodovia. Ela diz que ele amanhã estará no ônibus
passando por ali.
- Talvez eu venha e fique na janela para te acenar
– disse ela. E, quase sem interromper a frase: - Acho
que ele sabe... Acho que disse para ela.
O último vizinho que disse a Gerard sobre a
localização da casa foi muito preciso e agora não há
mais como errar e Veronica, a mulher do banqueiro,
desapareceu quando surgiu o muro vermelho, com o
número. O portão de madeira com jeito de lar. As
buganvílias nas paredes. Uma atmosfera feérica
luzindo nos cachos das flores, nos pardais adejando

após se banharem na areia e os galhos verdes que
modificavam a cor da parede de segundo em
segundo.
Ele suspira e, quase numa extensão de seu
suspiro, a voz de Sarita soa com pequena diferença
em relação às palmas. Ela sorri.
- Entre, por favor.
Michele jogou as sacolas no sofá e tirou a jaqueta.
A inclinação do sol riscou a cama numa sombra fina,
subitamente sumindo no clarão que se seguiu. A mão
delicada, firme, num inchar de veias, puxou a cortina
apenas para vislumbrar coisa alguma e em seguida
fechá-la de novo trazendo de volta a ondulação da
cortina rente ao assoalho. É dali que Michele costuma
admirar as rosas no meio das primaveras vermelhas.
Gerard viu a janela iluminada no sobrado.
George escutou os passos da filha no quarto de
cima.
- Sobre o que você queria tanto falar, Michele? –
perguntou Keshia.
- About men.
Gerard via os movimentos do pequeno vulto na

janela, primeiro a silhueta, depois o corpo pequenino
em tom sobre tom, luzente nos ombros. Michele
desliga o telefone e chega ao parapeito, olhando pela
abertura o movimento na praia – um Chevrolet
amarelo, o caminhão do gás, um personagem
masculino avançando em passos largos e
cronometrados pela estradinha, e cabras passando
por ele, que por um momento perde as pernas na
mancha esbranquiçada. Ela nem dormiu, pensando
naquele rapaz, comparando-o a seus amigos. Ajoelhase na cama, à janela. O homem sai pelo outro lado, as
pernas definidas de novo, contornadas de ouro contra
o sol
Dedilhou a franja com dedos hábeis. O corte curto
do cabelo contorna dois círculos, um maior; uma linha
os liga e esboça a orelha. A unha brilha em verde
quando coloca o rímel no pincel. Desviou os olhos do
espelho para a escada, o pai passou dizendo alguma
coisa que ela não entende. Ela responde com um
murmúrio que ele não entende. Ela ergue o indicador
e aponta. A ponta desse dedo toca o meio do lábio
inferior e tudo em que toca vira luz.
- Devo ser charmosa na festinha, pai?

- Não - respondeu ele. - Seja apenas você mesma.
Os dois riem juntos. Não sabem exatamente do
que.
Ela balança os ombros e onde estava preso o
vestido cai. Prende o ganchinho sob o coque.
Não acredito, ele está olhando para meus seios.
George subiu com passos pesados ecoando na
escada. Ela acompanha com os olhos. A abertura dos
lábios é pequena, mas ainda reflete espanto. Sentouse na cama, à luz do banheiro. O vidro da janela a
reflete. Abriu o presente quadrado e ficou balançando
a cabeça com um longo sorriso. Ao lado da assinatura
redonda no cartão, desenhada, havia em caneta verde
o desenho de um rosto chorando.
Cerca de dez e meia, quando o celular registrava
mais uma ligacao de casa, a senhora Lens tirou o
vestidinho pela cabeça e entrou na água. Quando
estava saindo, dá com o cachorro do vizinho, que
começa patear a espuma e a barriga de Rose que,
rindo e dizendo “Não, não”, pisa a areia endurecida. É
como se o bicho quisesse lhe contar algo que tinha
descoberto. Ela se concentra em pensar no tempo que

gastou para sair de casa feliz consigo mesma e
aprender a não permitir que se torne um tempo
perdido por causa das patas de um cão.
- Mas ele é tão fofinho, eu sou tão fofinho, Meus
Deus - diz Rose, apertando o focinho.
Gerard ainda estava parado em frente ao portão,
o mar quebrando na praia cinzenta, quando se
lembrou de que, ao vir, caminhou um trecho por
dentro da água e barra da calça começou a pesar e,
ao dobrar o debrum, ele tonteou ao se por de novo
ereto. Vinham na sua direção as apanhadoras de
conchas.
- Viu que corpo horrível? Ela se acha muito
gostosa, mas está cheia de celulite.
A senhora Lens mergulhou, saiu, pôs o vestido e
recomeçou a caminhar no sentido da pousada.
Procurou-o pela aglomeração formada em torno do
telefone. A princípio, como deveria dissimular a busca,
mas logo simplesmente vasculhava, sem maiores
pudores, a aglomeração de jovens, para lá e para cá,
falando alto. Deu por si imaginando um quadro. Usaria
cores vivas. Mas depois o quê? Uma foto não tem
movimento. E o que um estudo da cena deveria conter

para determinar o som? Os grandes pintores se
debruçaram sobre essa questão, certamente. Sentiu o
quanto era medíocre, o quanto não sabia nada acerca
de seu trabalho. Sentiu vergonha de se achar uma
pintora, de falar em exposições e até dos elogios que
recebia. Porque se havia algo que admirava numa
pessoa era o desembaraço no trabalho, a
competência. Ficava embasbacada diante de uma
caixa de banco ou de uma atendente no comércio.
Essas sim eram artistas. Continuava seu lento
caminho ao longo do qual por um tempo haveria as
suas pegadas que, entretanto logo seriam
desfiguradas por outras e outras e à noite a espessa
areia registraria de seus pés não mais que a vida
registraria de sua existência, um amontoado, disforme
como sua visão de qualquer coisa. Se ao menos o
tivesse visto. Teria dado decerto outro rumo aos
pensamentos. Mas não. Em nenhum dos jovens o
porte austero, hirsuto. Ele usava óculos? As pernas
eram compridas? Os ombros realmente largos? O
quão grossas eram as coxas? Peludas? Precisava
desses elementos para compor sua figura, e dela
precisava para compor seu sonho, mais real do que a

própria realidade. Tirou de novo o vestidinho e lançou
de qualquer jeito na areia, onde aterrissou sem peso,
como seu sonho.
Correu é mergulhou, demorando quinze segundos
para sair mais à frente numa explosão de ar e cabelos
que antecedeu uma braçada firme, outra agora.
Começa a nadar em direção ao fundo.
Daqui dá para ver caso apareça.
Gerard tinha desistido, pois não estava
conseguindo. Carregou pelo trajeto todos os assuntos
possíveis para conversas de festa, com tanta
lembrança e ansiedade, mas não deu, não deu, não
conseguiu. Era assim nas suas idas ao playground do
prédio de sua infância. Analisava as brincadeiras dos
coleguinhas pela janela antes de descer e só descia
quando decorara cada movimento, cada expressão,
cada frase após cada expressão e movimento.
Solitárias tardes de sua infância. Sempre olhando em
redor para ver se não havia uma menininha vigiando,
sobretudo depois que uma lhe deu um tapa por uma
razão que não poderá lembrar. Qualquer outro
coleguinha deveria devolvido a agressão. Ele,

perplexo, não reagiu. Desconta agora nas relações
sexuais. Portanto quando a moça dizia que ele tinha
pegada, ele entendia o que ela estava dizendo.
Levou mais um tempo tentando, primeiro pela
terra batida, depois pelas ondas, mas não conseguiu
se fixar em nada, estava condenado a entrar na
festinha completamente nu.
Nem parecia que minutos antes, ao sair da loja,
estava tão animado. O reflexo na montra brincava nas
cores da frutaria em frente até voltar a ser peças de
bicicleta numa vitrine. Ele deteve o pedal e a corrente
girou no vazio. Está ereto e olha para frente de um
nível superior. Segura o guidom com a autoridade de
quem tem consciência de tudo. Chegou a sorrir, o que
indicava que chegou a sonhar. Mas enfim retoma
agora o sorriso quando Michele o cumprimenta.
- Oi! – exclamou ela. - Já chegou!
Cedo, parecia.
- Não, imagine, tudo bem, assim haverá mais
tempo para a gente se conhecer.
Então percebeu que era exatamente o que ele
queria, precisava - conhecer outras pessoas, outro
modo de vida, ter direito de melhorar, de errar de

novo no processo do acerto. Seu corpo repercutia os
passos e pneus de bicicleta, gaivotas e veículos, toda
a palpitação da manhã subindo para o meio-dia.
Suspeitava ter de passar por cada situação que se
apresentasse. Estava cada vez mais quente, mas
havia um frescor ao redor que absolvia o calor,
embora não para as mulheres passando na rua de
terra com sombrinhas coloridas que os braços fortes
de donas-de-casa dividiam com as sacolas de
compras. Tudo era testemunho da nova realidade:
tanto ele, o estranho, quanto os jovens que o
aceitavam como um igual, sim, tudo real como as
sombras que embaixo de cada um se abrigavam da
canícula.
Viu chegarem outras meninas de bicicleta, Keshia
entre elas. Alguns rapazes depois, espinhas no rosto e
corpos fortes, sovados. Ainda úmidos de mar.
Surfistas. Chegados diretos de uma outra vida.
Aproximou-se da menina que parecia uma espécie de
líder (chamava-se Sara). Foi a forma encontrada para
se forçar à iniciativa.

– Sim – respondeu ela. – Eu moro naquela casa –
apontou. Somos amigas desde que cheguei. – Me
enturmei bem rápido. Você também vai, fica tranquilo.
Aos poucos, tudo se tornava familiar e ele se
acalmava.
A mulher se aproximava sem que ele a
reconheça.
Alguém diz que pena que o mar estava tão
pequeno.
- E aí, Michele? – disse outra voz masculina. - Vai
pegar onda depois do almoço?
Ela estava pensando em ir sim, lá no monte.
- E aí? – saudou Fabio.
- Grande Michele! – disse outro.
Como ela se sentia com dezesseis?
Mais velha.
Estava linda, disse Keshia.
Michele sorriu e virando-se cumprimentou outro
recém-chegado. Oi, Richard. Oi. Beijinhos. Feliz
aniversário. E aí, muita onda? Para uma bodyboarder
como ela sempre tem. Vocês é que são felizes,

bodyboarders, diz Fabio. Mas felicidade não é uma
onda, replica outra menina. Ele relanceia os olhos para
seu decote.
- Felicidade é morar em Celba.
- O quê?
Eduardo só podia estar brincando. Gargalhadas.
Um movimento redondo move um saiote para os lados
e Gerard desviou o olhar como que surpreendido. A
mão boba o toca, encosta e se recolhe. A semelhança
de um dos rapazes - o que estava junto às escadas
quando houve a queda de energia - com o gerente da
pousada era notável. O homem, na noite anterior,
olhando para todos os lados, de passagem
recomendou que aquele problema com o terceiro
terminal fosse logo resolvido.
- Não se preocupe. – dissera Gerard. - É um erro
210, uma tecla presa.
- Mas o que me importa o que seja? Conserte.
Não havia teclado de reserva no almoxarifado,
mas Gerard acabou de ver teclados numa estante da
casa, logo acima do inesperado violoncelo. Keshia
disse qualquer coisa, não, era piano. Enfim. Delano
havia presenteado Michele na época em que a idéia

era seduzi-la de formas convencionais. O babaca.
Quanto ao violoncelo, Keshia explicará que era da
própria senhora Lens, que começara a aprender antes
de se tornar pintora. Todo homem é igual, pensa.
Inclusive o pai dela. Keshia jamais diria isso na cara.
Tinha medo. De perder a amiga, de perder as
perspectivas das tardes no casarão, de ser injusta.
Sentira o toque da mão do primo de Ikonya. Claro que
pode ter sido casual. E quem acreditaria se eu
dissesse, eu, a gorda, e ele o primo bonito e bonzinho,
estudioso?
Michele está falando: - Ainda bem que vou
estudar em Haktnak no ano que vem.
É que ela tinha ficado muito sofisticada para uma
vila de pescadores, argumenta alguém.
Gerard pensou no pai dela. Não deveria ser tão
mais velho. Compartilharia vivências. Quem sabe
gostasse de xadrez. Pensava a respeito quando a viu...
Ao caminhar por aquele pequeno trecho, a
senhora Lens arrebatou mundos para que servissem
de passarela.
Estremeceram. A respiração em suspenso. Suas
próprias vidas.

- Oi, senhora Lens!
O cumprimento de Keshia ecoa em Gerard. A sala
é escura, fria, acolhedora. A trança de cabelos limpos.
Multiplicava-se nos ombros uma energia cheia de
remorso. As linhas dos muros estão muito brancas por
causa da luz do meio-dia. O beija-flor toca e toca seu
bebedouro vermelho. Ele lhe lança um olhar extinto.
Grossura de lábios rubra de zínias. Ela vai falar. Ele
tonteia.
- Oi, meninas!
Silenciosos os passos leves mal tocam o passeio
sinuoso.
Ele deixa os braços esticados ao longo do corpo
porque as mãos tremem. Sol a pino e a divindade
seminua ao longo de um sonho que se confunde com
a grama e o mar misterioso. O olhar de Gerard não
contém dúvida, ela será sua.
Contudo, é casada.
Não haveria mudança.
- Ainda nem começou a fazer o almoço – diz
Michele nem tão baixinho assim.
Num mesmo olhar ela examinava o rosto dele, o
jeans, os sapatos de camurça, a camiseta de malha, a

mão grande quase tocadas pela mão de Michele –
então é isso?
Os outros em torno, com caras sonsas. Beefy se
sentou e colocou os braços no braço da
espreguiçadeira de alumínio. O tecido da cadeira é
áspero.
Gerard se acalmou, mas sentia ainda o sangue
vivo, correndo como quem foge da cena de um crime.
Como o pecado nas veias. A boca está seca, a cabeça
dolorida. A aura de um derrame deve ser assim. O pai
de Michele não é mais o parceiro de xadrez. Se fosse
vivo, era o rival. Ela disse é a casa do editor, como
quem fala de alguém vivo.
Mas talvez fosse divorciada.
– Meu pai chegou. Está uma fera com você, e com
razão.
O rosto de Rose se avermelhou, abandonando
qualquer máscara social. Ao responder, porém, não
respondia a alguém de seu tamanho, falou com uma
menininha, com a menina que ela própria tinha sido
um dia, a que fez o desenho para a freira do colégio. O
tom da não acompanhou a cor do rosto e a frieza do
olhar. Ela tomava as próprias decisões, disse. A filha

teria de se acostumar com isso. - Seu problema
Michele é que você fica tempo demais sem fazer
nada. Quando a pessoa está ociosa sobra tempo para
cuidar da vida dos outros – Gerard ouvia, encantado.
As coxas da mulher são grossas, porém de modo
algum musculosas.
- Você é minha mãe, não “os outros”.
De repente, Michele se lembrava. Quem dera se
lembrasse todo o tempo; quem dera a respeitasse.
Era a mãe.
Mais uma razão para Michele não falar desse
jeito, sobretudo na frente dos amigos.
Era ele um amigo dela? Não faz sentido. Parecia
tão sóbrio, centrado, respeitador, generoso...
Keshia interrompe: - Senhora Lens, esse é o
Gerard.
É claro que era ele. A postura ereta, a serenidade,
a certeza dos que sabem sobre o que estão falando.
Mas ele ainda não falou. Um amigo das meninas,
então? Um pervertido? Há tanto desse tipo hoje em
dia, homens feitos que só andam com adolescentes.
Aí dizem que amam uma dentre elas quando o
inevitável acontece. Ou é que Michele mesmo tão

nova é bem mais madura que moças de sua idade?
Ora, sabe-se a maturidade que querem... Não, ele
não. Não com aquele olhar gentil e tímido sem
subserviência.
Desconhecia esse poder do desejo, o de capacitar.
Tem convicção de que, se fosse para o ateliê naquele
exato momento, registraria algo para a posteridade.
Se acalmou. E nem imaginou qualquer tipo de
apaziguamento, exceto o do poder criador.
O aperto da mão da mulher permanecia na mão
de Gerard, sino que continua vibrando. Confessa o que
não deveria ser confessado. As consciências
arrebatadas, as musicas lentas que deixariam de
dançar, o banho de mar a dois, as viagens, a emoção
erótica, o carinho, a amizade – tudo estava no contato
das mãos e após.
Um trovão se arrasta circunspecto no ar.
A revista que Gerard pegara na mesa afinal
desliza entre seus dedos, como se tivesse adormecido,
ou morrido. Rose é claro perceberá. Ela esteve parada
diante dele no segundo do trovão. Ele estava sentado,
a boca à altura dos seios dela, o nariz na direção do
meio deles. É um limite, talvez tenha pensado. Uma

experiência extrema, um limite, um modo drástico de
sobreviver.
- Não reparem a bagunça, meninos – disse a
senhora Lens.
Mas a bagunça é a plenitude da intimidade de
alguém, pensou Gerard.
- Você não devia fumar aqui, Eduardo.
- Eu não devia fumar em lugar algum, senhora.
O espelho exibia Gerard para ela sem que
precisasse olhá-lo diretamente. Georges é sempre
eficiente nesse tipo de coisa. Sabe decorar uma casa
como ninguém.
Gerard havia se levantado, tímido e constrangido,
como se os seus pensamentos estivessem sendo
transmitidos ao vivo para o mundo. O ruído de um
novo caminhão no asfalto defeituoso diante da casa
de certa forma evocou o trovão. Um casal vinha do
alpendre e se desamassava entre as manchas de luz
no vestíbulo. Oi, Senhora Lens, disse a menina. Oi,
Gek. Oi, senhora Lens, ouviu Rose na mesma
entonação, numa voz mais grave e fugidia. - Oi, Beefy.
Como está sua mãe?
Beefy é um rapazinho adorável do tipo que as

mães querem para filho ou genro e as mulheres para
marido – jamais para amante segundo o novo
entendimento de Gek, que afetará para ela o conceito
como um todo. Fez dezoito anos havia duas semanas
e era disputado pelas empresas de tecnologia da
região. Gostava de atravessar as noites na internet e
dormir o dia inteiro, a princípio apenas nos finais de
semana, mas logo qualquer dia, o que naturalmente
teria um efeito negativo futuro; enquanto os pais
moravam nos condomínios de luxo, e ainda depois,
quando no apartamento menor e distante da praia
havia abundância de comida, ele manteve-se
estafermo e sereno. Mas logo sua dedicação à
empresa tornou-se louvável na proporção da
dificuldade dos novos tempos. Trabalha agora com
processos computacionais que otimizam a informação.
- Não, não tem nada a ver com o trabalho desse
cara – disse para Sara, os dois mirando Gerard com
desdém e interesse nos olhares. – Nada a ver. Tem de
ter o diploma ou no mínimo estar fazendo a faculdade.
A silhueta do monte se fez discernível quando
Gerard desviou os olhos para a janela. Era a primeira
vez que via a descida de sua chegada de ângulo

quase lateral, que induz a se pensar na grandiosidade
de Deus, na pequenez dos homens. Acabará se
acostumando, com a frequência à casa de Rose após
as viagens a Haght’anak, quando trará pincéis para
aquarela e até trinchas e brunidores e perderá esse
espanto. Na páscoa, terá se tornado um costume
semanal.
A senhora Lens se permite um olhar de esguelha,
como se desconfiasse do espelho. É um homem
bonito. Nem tanto, mas másculo e simpático. Há uma
sombra sob seus olhos. O meio-dia não é mais
opressor porque recebe o desejo crepuscular que o
habita.
Na janela a vegetação às margens do rio provoca
um efeito quente de saturação que a vivifica, como
costumava acontecer, para Keshia, nos quadros da
senhora Lens.
- Olá, muito prazer – disse ela estendendo a mão
para Gerard. Como quem diz uma coisa qualquer a
qualquer pessoa. - Você é daqui de Celba?
O assoalho reluzia sob a mulher. Ali ela pisará. Ao
longe continua roncando a tempestade. No trovão a
palavra. Muito prazer.

Só agora escuta a música que tocava quando
entrou. Está com uma leve taquicardia, mas diferente.
Tocou o vão da garganta com três dedos de carícia.
Dó. Lá menor. Parte de mim.
George Lens pergunta onde a senhora Lens
estivera, se é que não a incomoda em perguntar. Meu
Deus, onde esse homem estava? Ela responde que o
melhor lugar para estar num dia lindo assim era
naturalmente a praia e não sentado aí como você
nesse sofá encardido sempre atrás de jornais que
citem seu nome.
- Você precisa voltar a ir - diz ela olhando na foto
um homem que não conheceu quando o conheceu
nem estava com ela quando se casou.
O charuto recende por toda a sala. A senhora
Lens tossiu. Da copa, entrando na sola, cozinha, a voz
a perturbou.
- E o almoço de Michele?
Rose caminhou até a pia. - Michele não sentirá
fome tão cedo, está entretida com as amigas.
Mas o próprio George estava com fome.
Ah.
Perturbou-se porque não era a voz de um inimigo.

George havia desaparecido e surgiu o jovem e
promissor crítico literário, seu primeiro namorado
realmente a sério, que lhe acendeu de modo tal a
sensualidade a ponto de cometer loucuras.
A voz se tornou o sussurro de amor que a
penetrara na noite da embaixada, quando havia era
noiva, quando era virgem, quando não era George (a
única vez que não).
Afinal, quem é esse George Lens, perguntou-se
Rose quando o casamento foi marcado. Mais, decerto,
que um profissional competente e um cidadão
respeitado. E quem era ela, perguntou-se Georges no
mesmo dia. Mais, decerto, que a jovem não muito
bonita, mas que, gostosa, enlouquece os homens.
Ela o observa. Está entrando na cozinha e ele na
copa. Apoiada na pia, as mãos na quina úmida - a
primeira vez que George teve oportunidade, quando
no Natal eles ficaram a sós na hora tirar o peru do
forno, as mãos dele entraram por debaixo da
camiseta. Não que fosse uma carícia enlouquecedora,
mas Rose permitiu. Aquele rapaz inteligente e
independente a poderia logo levar, e ela enfim não
teria mais de dar satisfações de tudo aos pais. Quem

sabe se estabelecesse por si mesma mais facilmente
com a pintura. Se tivessem problemas conjugais,
sairia do casamento sem depender de pensão e
reconhecida.
Ao toque dos lábios de George porém deixa de
pensar. Sente-se segura com os pais na sala. Tiveram
de parar, mas foi um primeiro contato. A senhora Lens
passa as batatas que acabara de descascar para uma
tigela, junta duas colheres de margarina, uma de
fermento e um punhado de farinha de trigo. Havia
sido despida e agora era deitada sobre a cama.
Obteve a brandura desejada da massa depois de
passar de uma para a outra mão e com as duas para o
prato. Não tem jeito. Não consegue fazer o refogado
como a mãe. Com George está agora não apenas
livre, mas apaixonada. Um estado que muda do dia
para a noite nas mulheres e será assim. Há reflexos
nas azeitonas e a cor da salsa está viva. A senhora
Lens seca as mãos no pano de prato cujo bordado
jamais terminou, gritando de dor e de prazer. George
vira para o canto e dorme.
Nesse mesmo dia à noite, uma bela noite de
verão, depois da chuva e, portanto, livres da

possibilidade de cair um temporal, nesse dia
aconteceu algo que - não logo, mas depois – deixará
Gerard preocupado. A lavadeira veio pegar a roupa
suja e ele perguntou o nome dela, e ela respondeu e
ele perguntou se ela lavava a roupa de toda a cidade –
repetirá para si mesmo depois a frase, “Sônia, você
lava a roupa da cidade toda?”, vermelho de vergonha.
Como se tivesse sido a pergunta mais normal e
cabível do mundo, a moça deu sem problema a mais
simples resposta:
-Não de toda a cidade, mas de muita gente.
-As dos hóspedes do hotel, as do hospital, as de
famílias maiores, como os Lens?
- Os Lens não são uma família grande, são só os
três mesmo. Hospital? Eita! É uma empresa que lava!
Mas as dos Almeida, dos Rocha e dos Lens, sim sou eu
quem lava. Às vezes pego roupas de hóspedes do
Grande Hotel. Quero dizer, nós, porque minha irmã me
ajuda. Trabalho lá de arrumadeira nos feriados.
Pensando ainda, ao vê-la de novo, nas
construções “sou eu quem lava” e “não são uma
família grande”, ele a beijou na segunda vez que ela
veio.

- Por favor, vou ser despedida...
-Fica tranquila, teremos cuidado.
E ela obedeceu. Dormiu logo e profundamente
enquanto ele abria a trouxa na sala e procurava a
blusa que a mãe de Michele estava usando quando
dançaram. Se ficasse com a peça, a lavadeira poderia
ser prejudicada, portanto fez de tudo para guardar o
cheiro. Depois se aproximou do velho piano e seu
toque na guarnição lateral foi uma carícia. Sol dentro
do campo harmônico de Dó. Lá menor. Ao se virar
para a janela, um sino tocou em algum lugar.
Deixando a comida em repouso, a senhora Lens
foi para o chuveiro. Relaxante. Quem pode subsistir
com esses nervos? A calcinha sai como se não
quisesse, mas se rendendo passa pelos mundos
fúlgidos de tons e semitons. Gerard estremece e
engole em seco. Era mulher casada e mãe de uma
amiga.
A luz chega filtrada pelo basculante. Som de
pássaros tão perto. Estão tristes. Por que alguém usa
uma atiradeira? O corpo do pardal jazia ontem no
chão de terra batida, agora está enterrado. A senhora

está mesmo louca, dissera Michele. Fazer velório pra
bicho. A voz da filha some na ducha quente.
- Olha - diz Michele segurando o CD. - Conhece
este?
O rapaz olha a capa, ouve os primeiros acordes e
os gritos do banheiro. - Quem, por Deus, pôs
“Yesterday”?- a voz da senhora Lens ecoa num tom
desconhecido dos convidados. -Já disse que não
colocassem esse disco! - no banho, ameaça levar a
mão mas recua. Não sabe o que fazer com essa
lembrança de que os Beatles eram agentes.
O apagão, as escadas.
Diga que estava bêbada se isso a conforta.
Poderia ter sido diferente. Ter ao menos um nome
para lembrar, um telefone para não precisar apenas
lembrar quando se separasse de George. A mão está
ali mas não para delícia e sim se proteger. Diz que
não. Por favor pare. Mas agora não tem volta. Entra
numa região de sombras. E ela sequer acredita no
ontem. As pernas tremem sob a água. Não acreditava
nem no ontem nem no amanhã e o hoje era um
detalhe inquietante.
Gerard a vê, ouvindo de muito longe o chuveiro.

Gotas impetuosas, grossas. Uma ducha excelente.
Tinha de admitir que para esse tipo de coisa George
era eficiente. Pode apostar que sim. A água escorre
pelas suas costas, entre suas coxas. Gerard gostaria
de ser essas gotas, envolto na saudade que não tem
destinatário.
É como estar na tempestade. Como há uns cinco
anos ou mais, quando Georges pela primeira vez com
uma menina. Ficou sob a chuva forte, chorando. Gotas
grandes, maiores, sólidas. O banheiro é verde, suas
costas rosadas e fortes. Esfrega agora a parte de
dentro das coxas, mais e mais forte, como se
expulsasse a dor junto com a água. Vez por outra o
acrílico acompanha o pranto. As mãos espalmadas
abarcam toda a perna em movimentos sem fim,
crescentes, amargos de cólicas e cansaço. Deixou-se
cair no piso frio, sangue aguado pelo ralo, joelhos
dobrados, o frio por debaixo, a imagem de moça e
banheiro dobrada na trama requintada dos ladrilhos.
Tira a franja reluzente do rosto num suspiro mais
fundo.
Volta a si com o ruído da reunião de aniversário,
que só cresce, que não cessa.

Quando era bem jovem, esse tempo passou,
Gerard costumava ser arredio a festas. E dias
importantes da vida não ficavam registrados por
celebrações. Talvez o dia mais significativo de sua vida
tinha sido quando completou trinta anos. Não saberá
dizer a razão. Uma espécie de marco. Estava num
quarto de hotel. Um vulto de mulher contra a janela.
Movendo a cabeça, muda a luz da tarde. Está nua e a
nuca a revela. Nesse dia entendeu: ela era parte de
algo chamado A Mulher. Como presente de
aniversário, ganhou essa co.preensao. Do parapeito
por uma fresta entre dois prédios vê o mar.
- Quando casei, eu tinha trinta anos – disse a
mulher. – Era antes do banco. Mas ele tinha algumas
empresas.
- Você pretende me dar alguma de presente?
- Dou a você coisa melhor: eu própria, de corpo e
alma.
Ele se aproximou e ficou junto dela à janela.
Um homem lá embaixo interrompe seu caminho
para apanhar o embrulho que a moça de azul deixou
cair. Inclina-se com a reverência da adoração. Sou eu,
pensou Gerard.

Tarde agradável. Nem fria nem quente. A
dimensão onde calor e frio se estabelecem substituída
pela ausência de temperatura dos sonhos. As plantas
na varanda têm o verde indizível dos sonhos coloridos
que indicam a estada em outra realidade, não a
manifestação natural, em preto e branco, do
subconsciente.
A mulher sai da janela, procurando alguma coisa.
É morena. Asiática. Dir-se-ia bonita. Uns 35 anos. A
toalha branca com o símbolo enrolada sobre um resto
de bronzeado adolescente. Tomará uma ducha. Dizem
que quartos de hotel são impessoais. Não é verdade
sempre. Não é o caso agora. Ele também é parte, mas
não do que se pode chamar O Homem. Não se pode
chamar de nada. Um nada cumprindo seu papel. Nada
de que se orgulhar ou se envergonhar. É quem lava os
pratos e apaga as luzes. Vê se a porta está trancada e
tenta no final ler, nos rostos que se inclinam
procurando alguma coisa, se afinal ficaram satisfeitas.
Não deu tempo. Ela sumiu no banheiro. Chove na
varanda de seu aniversário.
Na varanda da casa da senhora Lens, um maiô

branco está agora estendido ao lado do vestidinho
com que ela entrara. Gerard endireitou-se e esticou o
pescoço. Há um corredor de luz no percurso de seus
olhos cansados. Necessitava de óculos, mas era o
bastante para intuir. Gerard e a senhora Lens são um
só por conta da luz que dali emanava. Não há mais
qualquer ruído de festa. “-Olá, muito prazer” – diz a
luz. “– Você é de Celba?”
A senhora Lens enxugava o joelho que se ferira
na pedra quando subiu, rodeando o arranhão. Gerard
imagina onde. Possivelmente nos mariscos da maré
baixa. E deduz que ela esteve não longe da pousada.
Uma pessoa simples. Os ricos não tomam banho por
ali. Ao contrário. O lugar se enchia de filhos de
pescadores, pessoas em geral de cor, não raro
estrangeiros, e às vezes claramente doentes. Na tarde
do que dia em que chegou esteve ele próprio ali,
sentado com as ondas se derramando pela parte
escura da rocha. É fundo. Mesmo na maré baixa, é
fundo. Ela deve nadar bem.
A voz de Keshia assustou-o como outro
relampago: - Puxa, olha as glicínias que a mãe da
Michele plantou!

Quando ele entrou, olhou o relógio, não as horas,
mas seu próprio reflexo no vidro A aura da senhora
Lens ofuscava a primavera das meninas pela sala.
Gerard sorriu, sentindo-se privilegiado.
Mas por que, pensou o senhor Lens, esse idiota
está com essa cara abobalhada?
A segunda noite de insônia é pior que a primeira;
caso se consiga dormir, é um sono melhor do que o
habitual. O segundo dia de fome é mais fácil de passar
do que o primeiro; e a refeição, quando se consegue
uma, é melhor que uma das três a que qualquer um
tem direito por dia. Não é diferente com o desejo.
Quanto pode ser mais produtivo sem o
apaziguamento? A ideia da sublimação se cristalizava
em Rose e agora Gerard pensava que, em algum
momento se tem de dormir, por forte que a pessoa
seja, em algum momento terá de comer. Portanto, é
melhor parar por aqui. É melhor esquecer. Foi só uma
tentação previsível para provar que estava no
caminho certo ao decidir pela mudança de cidade.
Em seu quarto, Michele trocava o vestido de

viscose por uma javanesa. Verifica o caimento no
espelho. Keshia amarrava os cadarços do tênis bege.
Diz que tem medo. - Medo do quê, Keshia?
Não saberia dizer. Medo do mundo. Quando era
pequena tinha um amigo invisível. Jamais teve amigo
melhor
Michele a olha com pena e pergunta se nem o
Eduardo.
Eduardo era um idiota.
Mas gostava de Keshia.
- Sei - disse Keshua - do que ele gosta em mim.
- Normal.
Aquele Gerard, ele é um cara de quem Keshia
poderia ser amiga e até mais, disse ela, a serio mas
com senso de humor raro. Não pensava só em sexo.
- Como voce sabe?
Elas mal o conheciam, ponderou Michele.
- E é muito velho.
- Estamos crescendo, Michele.
Os pais dela já haviam notado?
- O que?
-Que estamos crescendo.
Michele se aproxima da janela e olha o céu.- E

pais notam alguma coisa?
Uma nuvem passa e tapa o sol.
Michele diz que seu avô notara. Keshia também
sentia falta do avô de Michele, ele era uma gracinha,
uma fofura.
-Minha mãe não achava.
- É porque era filha.
- Eu gosto de meu pai.
- Olha, Michele. É pra você.
- Ah não precisava!
Tudo o que Keshia dava e fazia para Michele era
de coração
- Pára de chorar, vai.
Keshia enxuga as lágrimas.
- Lembra o dia em que a gente se conheceu? Eu
te admirei tanto. Você era tão forte.
Michele apenas murmurou. -Às vezes.
Brincavam e se divertiam. -Lembra?
-Era tempo de brincar e se divertir. A gente
cresce.
- Eu não queria. Os homens são maus.
- Sempre há cavalheiros.
Quanto Michele crescera? Ela já...?

– A Sarah ficou sozinha com os meninos, Keshia –
respondeu Michele. - Precisamos descer.
Sarah recebeu um telefonema do cantor do trio
elétrico no dia anterior. Fez uma cara de enfado
quando atendeu embora o trabalho estivesse indo
melhor do que o esperado e esse era o momento
perfeito para crescer e fazer novos clientes. Disse
“Alô” grampeando uns papéis.
- Lembra-se de mim?
- Claro – disse ela com um olhar distante e
esquivo. Seus dedos são longos e ela segura o
telefone com não mais que dois.
Seu cabelo atual faz o estilo rapazinho ainda que
ninguém a ligue com essa expressão. Usa brincos
dourados bem pequenos.
- É que eu quero mudar de casa. Sabe como é,
me adequar aos novos tempos. Dinheiro não é
problema.
Ela acendeu um cigarro com a cabeça imóvel
inclinada na direção da voz. – Sim – disse ela. –
Podemos ver isso.
Ele continuava falando, dizendo como gostaria

que a casa fosse, e ela balançava a cabeça como se
ele estivesse na frente dela. Sim, queria dizer. Fale
duma vez. – Eu te ligo.
- Ah, tá – concordou ele. Encostou o violão no
telefone e dedilhou.
Ela revirou os olhos como a morrer. Balançou a
cabeça e ainda balançava quando desligou no
instante em que o homem entrou no escritório.
Também tinha um monte de papéis nas mãos.
- Vamos? – disse o homem, se aproximando e
entregando os papéis. – Olha aqui, a propriedade
partilhada que você pediu a Deus.
Ela concordou com um hunhun inaudível. O último
botão da blusa não está na respetiva casa, o que faz o
conjunto de mulher e roupa lembrar a foto da capa
duma revista de moda. Não mexe um músculo do
rosto. Parece uma boneca.
- Mas não se sobrecarregue. Ninguém ganha com
isso.
- Alguém reclamou?
O homem coloca a carteira no bolso interno do
paletó e continua olhando sobre a mesa, como se
procurasse alguma coisa. Sorri quando a escuta e diz

que não, imagina, todos só tem elogios para você. O
olhar de Sara ainda é impassível, um tanto
apalermado. Ele agora está sorrindo francamente. O
rosto dela contornado pelo sol exige grande atenção
caso insistam em definir como o de um rapazinho,
sobretudo quando assim de costas.
- Nunca ninguém reclamou de nada. Ele está
completamente satisfeito com o trabalho de Sarah.
- Você foi bom comigo, não quero te decepcionar.
Ele a olha nos olhos e diz que, caso ela precise,
estará na sala de reunião. Sozinho, explica. Depois diz
que, se ela sair antes, por favor desligasse as luzes e
os computadores.
Ela faz que sim com a cabeça, e continua fazendo
mesmo quando ele já entrou e fechou a porta da sala
de reunião atrás de si.
Duas horas e pouco depois, no carro que
estacionou em frente ao prédio de fachada em
mármore e porcelanato, o homem se despede com
não mais que um olhar. Ela aceitou o olhar e depois
abaixou o seu para os pés nas sandálias, sem
movimento do rosto, e depois de novo para ele, sem
piscar. Seus lábios são grossos e o batom pouco se

destaca a essa luz. O rosto enquadrado na janela, o
vidro fechado, com duas linhas prateadas. O mesmo
brilho das portas envidraçadas do hall. Uma levíssima
ruga no pescoço é o único sinal de que ela está viva,
mais que o próprio branco reluzente dos olhos.
– Tchau – ela diz.
– Tchau – ele repete.
Ao chegar à porta da sala para pedir à filha que
arrumasse a mesa, não a viu, meio coberta ela estava
junto à cortina sob o bandeau à esquerda, ao lado de
Gerard.
- A senhora quer ajuda?
Rose respondeu que se ela pudesse achar Michele
para pôr a mesa, ficaria grata. Keshia disse: - Ah, não,
senhora Lens: é aniversario de Michele. Deixe-a
conversando com o Gerard. Eu arrumo a mesa pra
senhora.
Era muito gentil a Keshia.
Alguns instantes depois de quando entrou, a
majestade do caminhar anunciou a proximidade que
trêmulo Gerard esperava. A filha não percebeu,
preocupada estava com uma reaproximação entre

Keshia e Gerard. O sol próximo do zênite.
- O que é zênite, Fabio?
- O ponto mais alto que o sol alcança, eu acho.
- Eu acho que você só está querendo é se mostrar
com essa novidade de ficar dizendo palavras difíceis.
A vila impregnada de alvura. A cordilheira limpa
das nuvens que ali se haviam agrupado pela manhã.
Agora Gerard, caminhando ao lado de Eduardo,
praticamente presta uma consultoria, explicando com
gestos o que acontece nesse caso, como se houvesse
um monitor diante deles, como se tivesse aberto a
torre. Então (virou de ponta-cabeça o teclado sem fio
invisível) tem de ver se a chavinha está em on, se a
porta está comunicando, se a pilha está boa.
Na mesa do jardim, debruçado com Victor sobre
uns originais, Georges olhava por cima do ombro do
rapaz. Atrás dele, Sara executava uma coreografia
colorida e alucinada contra a parede vítrea da sala,
como uma desmiolada marionete pecadora ao ritmo
repetitivo das estacas no ponto arranhado do vinil.
Seus quadris se moviam femininos e enfatizavam.
- Essas crianças... – disse Georges.
- Que crianças? – perguntou Victor levantando a

cabeça ovalada, como se apertada pelo torno divino
no dia de sua criação.
Naquele lugar, sem ninguém dali a umas quatro
horas, à noitinha, o som da chuva haverá regredido
até não mais que o crepitar, no piso resinado
reluzente, das grossas gotas da calha.
Georges então sugeriu: - E se déssemos para que
dois ou três amigos de Michele leiam? Para testar a
aceitação.
- Não sei se eles seriam uma audiência desejável.
Sequer leem livros de bolso.
Georges tamborilava no vidro. – Isso é
preconceito, meu jovem.
- Pode ser. Quem, por exemplo?
- Aqueles dois ali, por exemplo.
Fábio havia se aproximado de Sara em mímica
grotesca dos passos e gestos da moça. Falavam e
riam tão alto que dava para ouvir às vozes, mas não
para entender as palavras.
- Meu Deus... Sara então, ela tem péssimo gosto
para tudo.
- Está vendo? De novo... Preconceito...

Victor é um homem simples e tranquilo. Cumpre
seus deveres e pouco espera da vida e possivelmente
por isso encontra a paz em tudo. As pessoas confiam
nele e o manipulam sem constrangimento. Não se
importa. Precisa de um mínimo para a subsistência.
Menos ainda se presta a mágoas. É o que decidira
quando estava no portão e tocou a estridente
campainha e o grafite o transportava para longe. Que
falem. Não preciso deles.
Isso foi antes de entrar. O risco do que ainda não
chegara a ser, ruma rachadura do muro da casa,
termina na cor de um abandono. É fantástica a luz de
Celba ao meio-dia! Respirou fundo de pé ante o
portão, ouvindo latidos que ecoavam como se um fio
os ligasse e fizesse vibrar em sua alma uma estranha
liberdade.
- Olá Victor, disse a senhora Lens quando ele
entrou.
- Olá – respondeu ele, esticando os lábios ainda
mais do que seu costume.
- Como vai a Cati? Ela não vem?
Não, Cati não poderia vir. Mandara cumprimentos.
Ninguém notou o brilho malévolo no olhar de

George, exceto Gerard, desde então mais atento ao
marido.
O olhar de Victor não se alterou quando viu
Michele. Desejou felicidades e toda paz. Que seus
melhores desejos se cumpram, disse.
Quando Fabio pegou o violão mais tarde talvez
estivesse movido tanto pelo filé e pela sávia quanto
pela produção de hormônios. Olhou para Sarah,
dedilhando.
Era a mais velha do grupo de amigas, olhar
perdido e lábios impudentes. Comera pouco, rainha
neutra. Pelo menos uma música dançante, quem a irá
tirar? Esse rapaz talvez? O pai? Ela. Tão linda. Eduardo
se perde em pensamentos. Ainda será minha ruína.
A senhora Lens saberá durante a dança. Gerard
fará a manutenção dos computadores da pousada.
Acrescenta à sua graça o exibicionismo. Seus cabelos
reluzem. Uns hospedes dirão a Gerard que na época
em que ela chegou eram bem escuros, quase pretos.
Segundo uma mulher do segundo andar, que hoje tem
cerca de trinta e cinco, trinta e sete anos (portanto, na

época uns trinta), disse que estava na praia no dia em
que ela chegou, e podia jurar que o futuro marido se
encontrara com a amante, aqui mesmo, disse, neste
hotel.
Tons mais e menos e escuros desenham as
metades de seu rosto. As pregas do vestido induzem,
como as notas musicais que flutuam. Ele a tomará?
Sim. Os dedos se tocam, e as palmas. Tão perto e
nada de que se envergonhar no ritmo seguro da
transitoriedade. Envolveu-a num abraço menos
formal, duradouro, amparado mais pela memória do
que pela esperança. Tinha sido feliz por algum tempo.
George é um sujeito atraente, sem sonhos (como
ela acreditava o homem ideal), mas cheio de projetos.
Mais hoje mais amanhã irá levá-la para a cama. Em
que momento deixara de levá-la para dançar? Gerard
tem uma quebra mais suave nos quadris, resolvia o
segundo seguinte em passos imprevistos. Um casal
qualquer parece ter ido para o fícus, ah como ela
gostaria.
Então, oficialmente, você é o novo chefe de
manutenção da pousada - ela disse - e ele respondeu
que agora, fora da temporada, sou pouco mais que

um caseiro. No fundo nem tinha vocação para
administrar.
- E qual é a sua vocação?
- Lidar com computadores, acho – há anos que
eu...
Oh não, não parecia ter idade para
Verdade, de certo modo, tinha participado da
primeira conexão comercial dial-up.
- O que dizer?
Acesso à internet pela rede pública de telefonia..
- É mesmo! Estava falando com uma amiga! Isso
logo logo será passado não é?
O corpo desprezado, do qual tinha ela desistido,
fluiu para dentro da presença de Gerard, que a
cercava em vagas. O remoto mar não termina.
Era como se não conseguisse desvincular a
mulher do mar.
Ao olhar pela janela, a senhora Lens perguntou se
Gerard saberia dizer se ela estava nos planos da
prefeitura.
Ele pigarreou e começou a responder.
Aos poucos ela ia se acostumando com a voz
dele, seu timbre, quase na mesma proporção que ele,

ao contrário, quanto mais se ouvia, mas se achava
estranho e tinha vergonha, de estar em público, onde
todas as vozes estão falando e rindo dele, de um
sapato sujo, de um cheiro de corpo sob o braço, ou
simplesmente pela sua estranheza, essa mesma que
mais a excitava, como agora, se ao menos, se ao
menos nada, mulher, pelo amor de Deus se controle,
pelo amor de Deus se controle.
- Você quer dizer “exposições”?
- Soube que a pousada é parte de uma proposta
curatorial, disseminar a idéia de hostels com um viés
artístico, ligada ao Centro Cultural.
Ela estava sabendo mais do que ele.
Ele praticamente não respira. Entende agora que
seu coração não tem nada, que a alteração que o
médico do banco descobriu não devia ser nada, todo
seu problema era de fundo emocional. O aperto no
peito que vem com uma sufocação na garganta, a
sensação de desmaio iminente.
- Ah, sim, deve ter a ver com os projetos das
residências.
Ele tinha ouvido falar, mas estava longe de saber
do que se tratava.

Ela lera em algum lugar. Como o artista se
apropria da circunstância. Como um albergue, o
sentido social por detrás da pousada, preços baixos ou
até gratuidade, na verdade uma espécie de escambo,
o jovem trabalhar para pagar a hospedagem.
Sim, ele agora lembra. Esse trabalho pode estar
ligado aa musica, às artes plásticas...
Isso.
- Meu próprio emprego tem a ver com isso – disse
ele.
Pouco depois ela se afastou, porque precisava
preparar o ateliê e também para não dar na vista. Ele
a olhava e guardava detalhes, evitando fixar os olhos.
Percebe agora que a sala é ampla e em alguns pontos
tem quês de dourado, embora as paredes sejam
verdes como o mar de novembro. Como o tempo
passa. O ano estava terminando. Um novembro raro,
fresco para os padrões do litoral sul da região sudeste.
Quando tornar a pensar naqueles dias, não se
lembrará do tédio que sentia pouco antes de chegar a
Celba, no ônibus, não se lembrará do cansaço, da
apatia. Não era um dia importante, por ser uma
guinada na vida. A guinada era um mal necessário.

Quisera, antes, que não tivesse sido necessária.
Quisera ainda estar casado, em paz. Esse tipo de vida
errante sempre foi o oposto de seus desejos mais
íntimos e, todavia, é pelo que será lembrado por
alguém que eventualmente pense nele.
Cerca de duas horas da tarde, almoçaram. A sala
impregnada da opção pelo sol da manhã na procura
da casa. Esperavam que Keshia trouxesse sorvete e
café. Gerard levantou-se e colocou o blusão no
espaldar da cadeira em que a senhora Lens sentara
durante o almoço, ato que de todos, inclusive de si
mesmo, passou despercebido, mas não dela.
Com a bandeja, Keshia pensava. Por que os
homens de fora acham mais bonitas e cultas as
meninas de Haght’anak? Por que generalizam e
quando pensam em nativas de Celba imaginam-nas
fazendo sexo com turistas por dinheiro?
Mas Gerard, que gerara esses pensamentos, não
a viu. Está perguntando à senhora Lens de que tratam
suas pinturas. Nos hálitos, gosto forte de café. Vozes
vinham da cozinha e da sala de estar, música de dois
ou três pontos da casa. A perspectiva da chuva
determinava a hora da tarde. As mãos de Rose estão

suadas. O pescoço de Gerard está teso.
Ela diz que os quadros tratam de sua alma.
As meninas ainda tomavam sorvete, rindo muito.
Esplendor amarelo quebrado por vultos esverdeados.
George saíra para uma reunião inadiável. A sombra da
senhora Lens se encontra na parede com os dedos
levados à quina do quadro. Sua palma direita se apóia
na parte mais alta do sofá. Sombras se interligam pela
sala. Em alguns pontos da parede o amarelo brilha
tanto que é quase branco. Keshia se refugiará no
banheiro para chorar por Michele e Gerard. De lá
escuta a onda que quebra e os últimos pássaros do
dia.

Gerard abriu o portãozinho dos fundos da casa de
Michele, pelo qual se cortava caminho, passou para
fora e tornou a fechá-lo com um ruído enferrujado e
queixoso. A tarde escoava como a luz dum quarto
entreaberto que será fechado em seguida. Há um
tapete de cascalho no caminhozinho que dará no
asfalto. Caminhava devagar, saboreando os passos.

Um viço do cenário proporcional ao ângulo de descida
do sol. A vermelhidão espraiada no casario. O
incêndio no horizonte. A música que atrás permanece,
mais e mais baixa, em determinados momentos
substituída pelos insetos e pássaros vespertinos. A
intuição do desejo não satisfeito é sempre profética.
As silhuetas dançantes no janelão da frente ainda o
alcançavam, se despediam, mostravam o caminho.
Quando entrava na pousada, no meio da primeira
escada, ele escutou a voz da mulher do banqueiro,
castigada, em uma tênue espuma de memória. - Eu
te esperarei de novo e sempre você me atará e
desabotoará lentamente os botões da minha blusa
branca de florzinha, e desafivelará o cinto de minha
bermuda e o aproveitará e quem sabe me pergunte se
eu estou sofrendo bastante com a tortura. “Não fale
assim”, dissera Gerard, as lágrimas represadas na
borda do olho. “Não fale assim”, repetiu quando as
lágrimas transbordaram.
Estavam no canto da festinha da filha de
Veronica. Dezesseis velinhas. Cones coloridos de papel
brilhoso são toda a cor que a sala ebanizada aceita.
- Parabéns, querida, dizem os tios. Parabéns.

A fumaça sobe do bolo. Revelado agora pelas
luzes que se acendem, Gerard após o sopro se torna
fumaça e escapa pela grande janela aberta na noite.
- Senhor Gerard! Correspondência para o senhor!
Foi a primeira vez que ele sentiu a ausência, o
vazio da memória, palpável, como a quebra da ligação
que todo ser humano sadio tem com a vida exterior. A
voz vinha de um lugar desconhecido, de uma época
em que Gerard não viveu. O porteiro contará para
Cronelin sobre a máscara amarga que era aquele
rosto.
Mas passou.
Porque logo Rose chegará e tornará a chegar
exuberante ao sol de meio-dia, com um vestidinho
sobre o maiô branco, as pernas muito iluminadas
abaixo e acima dos joelhos mais escuros, como
manchas do teste de Rorschach. Ela é relativamente
alta, da altura de Gerard. Ele abaixou-se para tirar-lhe
as sandálias e a vendará a seguir. Depois a atará no
mesmo lugar que as capas e blusões estavam
pendurados. “É melhor parar”, pensa. “Ela não é esse
tipo de mulher, isso não vai acontecer”. Mas era tarde
demais e precisou terminar. Depois respirou fundo,

soltou os ombros, encheu o peito e debruçado no
parapeito ficou olhando as primeiras estrelas no céu
ainda avermelhado.
Do outro lado da rua, entre dois limoeiros, erguiase uma casa branca, que o pai de Sara construiu
praticamente sozinho, conforme prometeu à esposa
que faria. A casa estava vazia. O telefone toca e toca
e toca, repercutindo a impaciência de quem liga. Ela
abriu a porta, entrou. A janela enquadra a intensa luz.
-Alô?
Eduardo chega por trás, a camiseta fina e
canelada não lhe proíbe os seios, que toma nas mãos.
Não era seu estilo, ser tão direto. O susto de Sara se
misturou à aragem que dava vida às cortinas brancas
- ondas como as lá de fora, incessantes.
O interlocutor era um homem de mais idade.
Eduardo sente a voz dele no tecido da saia crepe,
macia, gostosa, nos dedos.
Sara. A mais velha entre as meninas. Ajoelhada
no sofá. O telefone a imobiliza quanto a uma
improvável resistência. Sente o elástico correndo, mas
era como se nada sentisse.
A voz não ouvida faz recomendações. As coxas se

acomodam aos movimentos. A casa está praticamente
na areia. Alguém se aproxima da água, mergulha.
- Sim, papai, estou escutando, pode ficar
tranqüilo.
Era algo engraçado de se ouvir, pensa o homem,
mas no fundo gosta de ser avô mesmo naquelas
condições. Era antes culpa da temporada, do turismo,
da política local, da economia nacional. Era uma boa
menina no fundo.
- Não se preocupe, papai - diz sem saber direito
sobre que estao falando.
Eduardo se apressa. As pernas são da senhora
Lens, a nuca é de Michele. Com Keshia será diferente,
não um momento que se esgote. O bebê dorme
tranqüilo no quarto.
Os dois escutam os passos e quando a porta dos
fundos se abre estão conversando no sofá. A babá é
filha da vizinha.
- Oi, Brenda – disse Sara quando a menina se
aproximou.
A janela onde do outro lado havia uma silhueta,
agora está vazia. Gerard dormiu direto desde cerca de
meia-noite porque estava com náusea e o remédio

tem esse efeito colateral de produzir sono pesado.
Porque não era ainda temporada ainda e tampouco os
dias iguais e mornos do resto do ano em que nada
acontece. Acharia muito que fazer assim que
levantasse, mas sentia os olhos pesados e se sentia
todo lento, cansado. Não tinha vontade de terminar de
arrumar as coisas, preparar os dias seguintes, e
lembrou o quanto detestava, nos outros, a preguiça.
Nos grandes centros as lojas estavam cheias, pois
era a 4ª quinta-feira de novembro. O tipo de coisa que
o levou a querer largar tudo e sair da capital. Mas,
quando finalmente se levantou e saiu para o dia,
seguindo a trilha dos noticiários das horas cheias, viu
moças arredondadas em trajes sumários dispondo
conchas ao lado dos vinis do hippie cuja verdadeira
mercadoria estava sob a toalha ou em alguma árvore
próxima.
Era ainda noite, as primeiras horas da quintafeira, e não havia indícios de que aquela noite seria
diferente. A senhora Lens tinha medo. Do futuro, de
não ter a segurança material a que se afeiçoara, e as
comodidades (sobretudo em relação à pintura). Medo
do próprio George. Ela era apenas uma mulher. Uma

dona-de-casa, fiel e dependente.
A aparição do marido transtornará a disposição
dos móveis, o céu à janela e a consciência de onde
estavam as coisas. Que seja rápido. Quando ele se
aproxima, o hálito impregnado pelos resquícios da
festinha da filha acrescido da aguardente barata da
zona vermelha, a mulher não pode recusar com, por
exemplo, uma enxaqueca.
Tenta sentir no contato daquelas mãos o de
outras. Nada que fosse imperceptível, mas George
estava por demais bêbado e concentrado em si
mesmo. Ela observa os dedos curtos e abertos, escuta
a voz repulsiva. George se recusara a usar óleo e de
repente ela gritou. Para ele funcionava como senha.
E ela queria levantar cedo, tinha tanto para fazer.
Lutando contra a realidade, deixa que Gerard a
beije no pescoço, com delicadeza. O cálido
cumprimento desceu, rodeou-a, voltou. Beijos flanam
ora com um leve estalo de lábios ora com toques de
língua. Era ainda Gerard a quem a senhora Lens
desgrenhava os cabelos. E de repente, na janela
aberta, o sol. Um pouco à esquerda, o “Giuventu”. Mas
Gerard estava decerto ainda com as meninas.

Não fez amizade com elas logo no seu primeiro
dia?
George tirara o restante da roupa da mulher com
volúpia, pressionando-a para que caísse na cama. Se
apoiou sobre um dos joelhos. Uma vela acesa
provocaria a mesma dor. Mas desse contato nasceu
calor, luz; comunicou-se prazer. É o que basta para
suportar o que não é prazer. Oh sim, Gerard estava ali.
Outra virilidade ela viu diante de si e devia sofrê-la
para dar prazer a quem amava. Fechou os olhos.
Sentou-se nas pernas de Gerard, latejando.
Ajudada pelas mãos que a erguiam, movimentava-se
como aqueles que caminham na direção da
tempestade.
Gerard fizera do passeio matinal um ritual
sagrado. Via a senhora Lens e entregava seu melhor
olhar. Mas era ainda um olhar de temor. Temia a
felicidade. Que consciência difícil de suportar. Temia a
realização de seus melhores desejos, e passara a vida
se sabotando. Então lhe ofertava os sonhos de futuro
que podiam resgatar - agora quase sabia – a ambos.
Era também sua bondade restaurada, porque ao longo

da vida ele vinha desvirtuando o caráter, com
persistência macabra.
- Se eu tivesse essa determinação para coisas
boas...
E o que vai ser agora? – se perguntou, olhando
em torno, como se cada objeto guardasse um pedaço
de sua vida inútil. Porque ainda estava pesado, lento,
pouco antes de se levantar. Preciso sair e vê-la, orou,
é a minha salvação.
Tinha a boca com gosto de festa. Não bebia e
comeu moderadamente, mas ainda assim os ruídos do
mundo pareciam mais altos; o ritmo da vida,
descompassado. Dormira com as janelas abertas, o
que nunca fazia (para preservar seu bem mais
precioso, a sua solidão, o único lugar em que seu
verdadeiro eu ainda habitava). O incômodo, porém,
vinha de dentro. Resolvia-se, de certo modo, fora,
curava-se na imagem da senhora Lens; ela
materializava seus códigos mais íntimos e antigos.
Mas a ferida estava aberta dentro dele, fedia como o
cheiro do cigarro de algum vizinho, um odor de morte
espalhado pelo ventilador de teto, impregnando os
cantos em torno, o lugar dos espíritos.

Agora acordara. Levantou e saiu.
Um fio de música crescendo conforme a paisagem
veloz no céu azul de brancas nuvens imóveis exceto
por imperceptíveis mutações refletidas no assento
iluminado e aquecido. Dança de sombras na guarnição
cinza azulada quase tão comestível quanto a maçã do
adesivo da mochila sobre o assento. O auge da luz
torna mais negra a parte externa do retângulo da
janela visto de dentro, de onde surge a linha de um
pescoço se movendo no ruído ritmado de ferro contra
ferro, de borracha contra vidro, de poliéster deslizando
em couro, num crescendo. Música obediente a dedos
invisíveis, os dedos de Gerard, que buscam os seios
sugeridos quando o perfil se recorta nos campos
apressados. Perfil de estátua, dir-se-ia, e olhos de
mulher, verdes, alagados, transbordantes e, a
propósito, enfatizam a cor dos campos como depois a
silhueta será enfatizada pela estátua que introduz
vagão e mulher na cidadezinha, quando se juntam ao
verde outros tons na passagem da praça em que a
outra havia sido congelada na pedra, mas se movia na

névoa por causa do avanço do trem, de certo modo
viva como Silvia, cuja felicidade eram os dedos
invisíveis iluminando a silhueta em face que,
inclinada, aceita o sol que escapa do monte – nos
cabelos, amarelo vívido; nos lábios, vermelho
afogueado – tudo tornado negro e noutro átimo de
novo tocado pela luz, como uma lascívia emprestada.
O queixo é uma linha leve de sombra semelhante às
linhas das maçãs do rosto, de curva mais acentuada;
os olhos são plenamente negros nas curvaturas
brotadas e riscadas no calor da luz e em outros
prazeres no fluido espectro da paisagem à janela,
comprovando Newton numa contínua rajada.
O pé descalço inquieto sobre o couro azul, o hálux
girando em torno de seu eixo, se contraindo e
expandindo proporcional à ousadia imaginada, no balé
dos dedos visíveis e invisíveis. Dissera que Rose não a
esperasse, não queria incomodar.
Quando ela se levanta, o sol escurece e o brilho
da guarnição se define como o limite que realmente é.
Ultimamente, sempre se sente como se estivesse fora
de si mesma, como se fosse personagem de romance.
A bruma a envolverá quando ela sair e entrar na luz

que ainda molhava as poltronas. Cantarolava baixinho
tentando impedir que a felicidade partisse,
inutilmente.
Silvia descera do trem às dez horas do um dia
claro e quente que se seguiu a um denso nevoeiro.
Vestia uma saia rodada que fazia com que tivesse a
idade que nunca deixou de acreditar que ainda tinha.
Mal descera e já estava perguntando para a primeira
pessoa que passou como chegava a casa do editor
(porque o terminal saíra do centro da cidade). E
disseram, com a simpatia que os nativos guardavam
para os turistas. Não havia muitas árvores por ali.
Não havia taxi. Ventava. A cidade estava ainda mais
feia. É que o mar não estava ainda visível. Os gritos
rimados do vendedor de pamonha fizeram-na chorar.
Quando viam que Silvia chegava, as meninas
correram para recebê-la, devoradas pelo motorista do
opala amarelo. Souberam que era ela quando viram
ao longe a placa vermelha. Tia Silvia. Adorada e
invejada, exemplo, referência. Contou-lhes os últimos
anos, que as pessoas meio que achavam que ela
enlouquecera com a história de largar a medicina,
como os pais estavam desgostosos embora fizessem

tudo para disfarçar.
- E a senhora não liga?
- Ligar eu ligo. Fico triste por causa deles. Mas
tenho de viver a minha vida – disse Silvia, num tom
professoral que lhe caía como uma luva.
Michele a observava com dissimulado desdém.
Pelo menos era o que parecia a Keshia. Silvia ouvia e
cantarolava.
– Que lugar lindo!
– Que linda a senhora está nessa!
A foto tinha passado muito depressa e ela não
tinha visto direito. De qualquer forma, Michele achava
mesmo que Silvia era linda. Não tanto pelo físico, mas
por uma espécie de aura que possuía. Nesse ponto,
mãe e filha concordavam plenamente.
- Como ela está linda – disse Rose se
aproximando.
O motorista permaneceu com a cabeça meio
abaixada, como se orasse.
- Você está tremendo - disse Silvia.
A abstinência é cruel. Estava tentando largar.
A amiga lhe pede o braço.

Rose murmura. - Que coisa boa...
Um sorriso triste. Silvia e suas soluções para tudo.
Para os outros, não para si mesma.
Tudo tão difícil, tão difícil.
Abraçam-se.
A senhora Lens quebra o silencio. - Conheci um
rapaz, um homem jovem.
Havia um som no fim do silêncio, anterior às
palavras. Lá no finzinho, possivelmente uma cigarra.
Uns seis, sete anos mais moço. A expressão dele
é tão pura, transmite tanta compaixão.
Estavam falando de religião?
- Olha que é quase - diz Rose.
Um casal passa em frente à janela, vultos na noite
quente de Celba.
Silvia também se aproximara de um rapaz,
também um homem mais jovem.
- Sim, você começou a falar no telefone. E aí?
- E aí é aquela coisa: pelo computador a gente diz
o que pessoalmente não diria e escuta o que quer. Até
que um dia ouve enfim o que não quer: ele está
apaixonado por outra.

A gargalhada de Silvia nem soa irônica. Os dedos
ainda massageiam em torno do pulso de Rose, sobem
com pressão acentuada do polegar ao longo do feixe
nervoso.
Quanto a Rose, quase nem fala com seu rapaz. Se
o gume está afiado, é preciso menos força. - Mas o
vejo diariamente. Saber que passará por aquele
trecho de praia é reconfortante.
- Que maravilha, minha amiga...
- Que nada – respondeu a senhora Lens. - Se ele
fosse o que eu penso que é, não se sentirá atraído por
uma mulher como eu.
Silvia repreendeu a amiga. Disse-lhe que não
dissesse bobagens. Era cruel consigo mesma. O que
adianta levar uma vida saudável, caminhar, nadar,
alimentação natural, se a pessoa é amarga e vive se
diminuindo?
É apenas um murmúrio: - Sou mulher casada…
Recosta o rosto nas mãos fechadas, os cotovelos
na janela. Separar-se? Tinha medo. De apanhar, de
morrer, da pobreza, da velhice.
As coisas são assim?

Podem perfeitamente ser. Rose se apavora em ter
de descobrir.
- Nesse caso, por Deus, a separação não é mais
uma alternativa, é pura sobrevivência.
No dia em que ela e Silvia viajariam, Michele
desceu as escadas na pedra antes do jardim, leve, mal
tocando os degraus, até parar no meio das flores
amarelas que de um e doutro lado caíam, como se ela
fosse uma delas, brotando de uma saia xadrez, pronta
a ser colhida no período dali ao crepúsculo. O volume
e a sombra se movimentam o bastante para se
gastarem de tal modo que o toque cinza daquela tinta
se tornasse cinza quase creme como um quadro muito
tempo às intempéries – onde as flores já não parecem
flores e onde as roupas nos varais se transformariam
em outra coisa ao ter envelhecido. Vivas portanto
sujeitas à morte, como qualquer roupa, ou flor, ou
menina.

No primeiro dia oficial da temporada chegaram
belos primos ricos de primeiro e segundo grau de
Keshia e Michele, os que ensejavam coisa mais séria,

como amizade, e o que era cobaia. Um sax tocava na
noite quando elas voltavam de uma reunião no clube
com os primos, uma festinha de despedida para
Michele.
Silvia fala com Rose na varanda.
- Conheço teu estranho – disse. – Conheço Gerard.
SEGUNDA PARTE
O quarto está imerso numa luz avermelhada que
contraria a lógica do azul noturno e frio. Ele abriu a
porta e ao sair esbarrou na vassoura da arrumadeira e
se desculpou. Ela piscou de um modo teatral e, não
menos, ele leva a mão ao rosto, tapando o olho
esquerdo, como se a cabeça doesse. Vozes passam e
se perdem. Carros que iniciam o dia. A menina da
limpeza põe os cabelos atrás da orelha com dois
dedos castos.
Parou diante do oceano. Fazia ainda o friozinho da
madrugada. Acabara de assinar o aviso-prévio na sala
austera do RH da rede de pousadas. Iriam dispensar
os três empregados temporários e ele era um deles.
Cronelin perguntou se ele estava bem e mal esperou a

resposta para tranquiliza-lo e dizer que daria tudo
certo. Próximo à casa da costureira havia cheiro de
omelete e ele pensou em passar no bar para tomar
um café, mas a possibilidade de encontrar Georges
Lens fez com que desistisse da idéia.
Pensou que talvez fosse melhor voltar para
Hatknak. Não podia dizer que Celba foi uma
experiência de todo ruim. Sentiu uma fisgada no
ouvido esquerdo. Uma otite, só faltava essa.
As conversas dos transeuntes se juntaram num
amálgama sonoro que, dependendo do estado de
espírito, pode ser enlouquecedor. Respirou fundo.
Endireitou-se. Havia novas turistas nesse trecho da
praia.
Pergunta a dois homens que vinham em direção
contrária se é véspera de feriado. Um deles,
mascando um chiclete diz que não sabe; o outro, com
má vontade diz que não é, sem qualquer convicção.
Um volume agitou-se como uma calopsita em seu
calção enquanto um caminhão sacudia longas tábuas
mal amarradas pela estradinha que ia dar na praia
pelo outro lado.

Longe ainda, num ângulo lateral, Gerard se faz
perguntas. A areia úmida repete o corpo de bruços na
areia. Conforme ele se aproxima, verifica pelo suor
que ela tem cerca de meia hora de exposição ao sol. O
sorriso é de alívio mas não pode se mexer agora. Um
espairecimento banal deve aliviar. Olhou o céu, o sol,
o reflexo nas águas. Trágico, irônico, injusto.
A senhora Lens se espantara, sustentando os
seios para cima, ao ver que Michele saíra de casa logo
cedo após a chegada. A luz batia na parede em que a
cama estava encostada, manchando de um desejo
prateado a marca do travesseiro onde cabeça alguma
havia se recostado naquela noite.
Estava preocupada. Pensa que o sol de Celba não
será mais o mesmo após o regresso da filha. Ficou ali
parada, lembrando-se de todos os dias em que veio
chama-la para a escola, sempre rechaçada com
súplicas de mais cinco minutos que se transformavam
em dez e em quinze. Até o dia em que, do nada ela,
acordou e saiu sozinha, embora estivesse longe de ter
se tornado um hábito. A buganvília batia lamentosa na
própria janela.

Michele passara três anos estudando em
Haght’anak sem vir visita-la. Apenas cartas lacônicas.
Deixara a casa de Silvia, nada pessoal, só queria
independência, morar sozinha, estava trabalhando
numa agência de viagens, merecia privacidade. Sim, a
senhora Lens se espantara, essa menina não deveria
estar cansada da viagem e só acordar lá pelo meiodia? Apenas amanhecera.
Saiu como se a pudesse encontrar na varanda.
Falou com o vizinho, sem qualquer alteração na voz. O
de sempre, que calor, deve chover mais tarde.
Espelhos brônzeos se separam. Mal respirando,
Gerard hesita entre passar e parar. Não quer mais
saber, está cansado. Não é esse tipo de pessoa. Ah,
no final das contas a mudança não tinha adiantado,
pelo contrário, com a agravante que perdera a
condição material, a renda e o status, o que implicava
também na perda de todo o resto.
Soube que o banqueiro respondia ações no
âmbito cível e criminal pela falência. As obras de arte
sobre as quais chegara a conversar com a senhora
Lens tinham sido confiscadas. Valiam em torno de

quarenta milhões. O homem chegara a ser preso por
lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta. Gerard não
entende por que está pensando nisso agora. Talvez
porque Veronica tivesse dito que, quem sabe, passaria
uns dias em Celba.
Logo a imagem se desvanece no rosto de Michele.
A mãe ainda pensa como a filha viverá com um
corpo de mulher feita numa cidade como Celba.
Sentara-se à mesa envidraçada da sala de jantar para
fazer umas contas após apanhar números e máquina
de calcular no aparador em liberdades de musselina e
sandálias. Acende-se com o clique da lâmpada. Gerard
não podia ajudá-la, trabalhar com ela? Lembra que
tinha pensado isso antes, mas não por que deixou de
pensar. Morde a maçã que pegara na fruteira.
A presença de Michele e o som que fez romperam
o laço que prendia Gerard à sua solidão. Ela porém
não falara, sonhava. Durante as eternidades que
precederam seu despertar, habitou soberana a
existência de Gerard. Trêmulo, ele postou a sombra
sobre o rosto para reduzir o tormento; mas, a face

esquerda pousada na areia, ela apenas sorria de olhos
fechados.
Gerard percebeu a uma distância razoável o pai
de Beefy, virou-se e caminhou na direção do mar. O
homem costumava dar sua corrida mais tarde, porém
pelo jeito aquele ia ser um dia peculiar. Encontraramse onde a areia esfriava. Cumprimentam-se.
- Olhe, Gerard, acredite, não é nada pessoal. Vai
haver mesmo uma contenção de despesas - fez uma
pausa em que esperava que Gerard dissesse qualquer
coisa como “Tudo bem”, mas Gerard não disse nada e
ele continuou: - Acredite, gosto de você - nesse
momento, deu uma olhada para a mulher deitada e foi
o único momento em que recebeu a atenção plena do
outro.
Resmungou alguma coisa que Gerard não ouviu,
mas entendeu e continuou o discurso até que enfim
desejou sorte ao ex-funcionário e logo voltou à sua
corridinha numa passada típica de patrões.
Gerard esperou que sumisse na distância e voltou
lentamente, como quem não tem qualquer pressa,
para perto do corpo estirado de bruços. Eram poucos
os que caminhavam aproveitando o melhor sol da

manhã. O céu era daqueles típicos do verão no litoral,
as nuvenzinhas imóveis no azul intenso, chapisco no
firmamento.
Uma vez disseram que Michele tinha chorado
durante uma aula, o que pareceu a todos tão estranho
que pensaram que estivesse doente e chegaram a
chamar o médico. Depois, o assunto morreu, como
acontecia com a maioria dos assuntos que não se
desenvolviam para finais mais ou menos trágicos. E
assim Gerard não chegou a saber o que acontecera.
Mas Michele chorando, mesmo numa imagem
evocada à força, era algo que impressionava.
O sorriso onírico foi substituído agora por um
relaxamento dos lábios. A expressão não é
interrogação, vergonha ou susto. De repente, os olhos
se abriram.
Ele gostaria de fugir do lugar comum. Mas não
podia. Ia dizer os adjetivos cabíveis. Mas, ao agacharse, disse apenas “Quando você chegou?”
- Beije-me - disse ela.
Não houve mais palavras. E mesmo assim, e
mesmo assim, e gaivotas rasantes, e carros algures, e
o fluxo muito forte. Mas tinham alternativa. Enquanto

ela falava soltou os cabelos de Gerard e abriu o zíper
de sua calça. Virou-se e esperou.
Como assim?
Precisa mais do que, babaca? Entretanto o
respeita por esse escrúpulo. - Anda.
Todos com mais ou menos jeito o faziam, com
mais ou menos dor.
A idéia que ela teve de dormir na praia. Ele ter
alongado a caminhada além do limite que se
impusera. Como se ela estivesse esperando.
Como tia Silvia diz, o que tem de acontecer
acontece.
Ora Gerard eu não sou virgem. Ora Gerard eu sou
maior. Ora Gerard eu sou dona do meu nariz. Ora
Gerard que bobagem.
Ele dirá que ela só se tornou mulher no corpo, não
sabe nada. É uma menina. Aí ela dirá que Gerard além
de estranho é dramático (como se fossem defeitos
graves e similares). Que assim acabará
enlouquecendo.
O comércio já estava aberto. Os civic, ômega e
blazer se juntavam a pessoas com camisas de flanela

no final da primavera, todos passando solenes como
se tivessem um mesmo e irreversível nobre destino.
Eram quase dez horas, mas poderia ser qualquer hora
naquele canto de praia, quase entrando no mato.
Com os dezesseis que acabara de completar
quando chegou a Haght’anak, Michele era menina
estudiosa, cheia de planos de realização pessoal,
pouco ligada em companhia masculina. Durante
algum tempo pensou até pudesse ter algum
problema. Mesmo quando os meninos a levavam para
trás da escola ou nadavam com roupas de baixo
estavam basicamente brincando. Mas pouca graça
achava nas brincadeiras dos meninos e quis estar com
um homem de verdade, proteção e dependência.
Queria achar esse homem para que pudesse
abandoná-lo.
Mas Michele muda. Escorpiana de boa cepa como
diriam seus avós, estava agora com dezoito anos, não,
dezenove; Gerard não conciliava essa idade, que
concluía de uma conta simples, com seus ardores. É
uma mulher experimentada, quase vulgar. Um carro
passou ao longe na estrada de terra, levantando
poeira. O ruído do motor registra a distância em que

se perde. Ao som, Michele ainda o olhava.
Quando se fez silêncio novamente, ajoelhara-se,
agarrando-o pelos cabelos, num impulso. Subiu,
depositando a língua nos lábios dele. A mão direita
entrou pela camiseta branca, buscando os cabelos do
seu peito, que puxou. Ele deveria ter dito que ela se
enganara, se enganara duplamente, não a desejava e
se desejasse não seria assim. Teria dito se tivesse tido
tempo – se já sua própria mão não a buscasse.
Teve porém de deter-se no barbante.
Eram jovens, sadios, solteiros. Por que não
poderiam? A letra queimada do letreiro de néon,
readquiriu função com a nuvem que escureceu a
manhã. Precisava consertar aquele A.
Conquanto o sol subisse e trouxesse a perspectiva
de visitantes mesmo àquela parte da praia, estavam
resolutos.
- Vem - disse ela arfando, súplice e autoritária.
Chegara de Haght’anak numa calça de gabardine
cintura alta grudenta de aperto e suor, a camiseta
curta também molhada e ao abrir a porta havia rancor
na musica do CD ao deparar com Eduardo, a quem
telefonara para informar a hora de sua chegada – ali

estava ele, Eduardo, não o seu mensageiro. O
canalha.
Eduardo pede perdão. Diz que não sabe o que deu
nele.
- Posso compreender - diz a senhora Lens. - Mas
gostaria que isso não se repetisse.
Não, é claro. Ele dá a palavra. “Só queria dizer
que”, a senhora Lens espera que ele complete, “a
senhora é atraente demais”, e ele diz que “a Michele
chega por volta de onze e meia”. A senhora Lens
agradeceu e o despediu. Quando ela saiu, antes que
Michele entrasse, tornou a pensar na filha. Uma
mulher decerto.
Uma mulher com Gerard na praia.
Resfolegando entre o gozo e o pavor, urrou.
Gerard ia perguntar se está machucando. Ela começa
a ouvir a voz e tapa-lhe a boca numa ginástica
precisa. Abre-se mais e come areia em seus
transportes. Puxa os cabelos dele e com a outra mão
dita o ritmo. Ele não pode evitar esse fogo, essa dor
no peito, essa respiração entrecortada. Afasta-se
bruscamente e lança à nuca de Michele um olhar que
era como um olhar que ela visse.

Estremece ainda quando fala.
- Sim - responde ela, como se o olhasse. – Sim.
É claro que ela se casaria.
Gerard deixou Michele dormindo em casa e foi
comprar pão bem cedinho. O trânsito não é caótico,
mas deve-se ter cuidado ao atravessar a rua. Saíra de
mansinho pelo corredor nem estreito nem largo oculto
pela penumbra de um prédio nem alto nem baixo e
então deu na entrada de um prédio nem luxuoso nem
simples demais.
Em meio à tempestade de verão que marcava o
último dia do mês, em meio ao rebentar dos raios, a
energia elétrica em piques mal perceptíveis, mas
suficientes para desregular o relógio e reiniciar o
computador, Michele andou e apressou o passo até
chegar ao quintal, na manhã de sua noite de núpcias,
os músculos do braço de Gerard vibrando a cada
golpe da enxada.
- Precisa mesmo fazer isso agora?
Preparava um jardim. Será aqui. Será assim. Ia
descrever, mas foi deteve interrompido pela língua
áspera de tabaco.

Desde quando ela fumava e por que escondida?
Ela seguiu beijando sem se importar com o sabor
que emanava ou com o jardim futuro ou com o que
Gerard estava pensando. – Tudo bem – disse ele. - Vá
na frente.
- Eu espero. Vamos juntos.
Entraram pela pequenina porteira de pinus
escuro, e ainda mais escura a ripa enviesada de
eucalipto, agora não tão firme, fixada na alvenaria
triste de tempo que sem dúvida assistira eventos tão
ou mais emocionantes e secretos. Ele soltou o
ganchinho como um ensaio e ela passou – ele teve
essa delicadeza e quem sabe tenha sido esse o
momento em que ela se dispôs, para sempre, pois
sempre dizia que os homens de hoje não mais
cavalheiros. É preciso prestar atenção para ver
quando aparece um, pensava. Vale a pena.
A primeira visão da casa é a de um lugar onde a
paz se faz possível – clara, ensolarada, a fileira de
choupos (que nas cartas ela chamará de “álamos” e
ele de “populus” e isso a partir de dado momento será
o único tipo de coisa em que não combinarão). Dentro,
sombras perfeitamente guardadas no pó oculto exceto

pela nota amarga ancestral pairando úmida.
O corpo bronzeado se deslocava de modo quase
imperceptível de um lado para o outro sob a luz
amarela do abajur. Crescendo e diminuindo no ritmo
dos lábios entreabertos que inspiram o movimento de
Gerard.
O quarto ficou muito bom. Não dá para dizer que
é a mesma casa. Ela fechou a janela com um
sorrisinho malicioso. Disse: - Lembra quando viemos
ver a casa? Eu pensava É muita casa para pouco
homem.
Ele não respondeu, só devolveu o sorrisinho. Mas
é claro que lembrava. Imagine, ver uma casa com a
mulher e o sogro, esse sogro. A vida é irônica,
definitivamente a vida é irônica.
A primeira silhueta é a do pai, como guia numa
caverna, por aqui, cuidado, rangidos, madeira
vibrando, estalando, passos, passos, sombras em
sombras como uma seleção ampliada em edição de
imagens, criaturas da penumbra.
Ah!, exclama Gerard, e a luz toma o ambiente ao
abrir ele as portas em par, a mão esquerda
ligeiramente mais rápida (mais tarde terá essa

consciência quando estiver explorando o grande –
maior do que imaginara quando primeira vez a viu e
até mesmo quando a reencontrou na praia, pois era
muita a tensão estar de todo consciente, ou pelo
menos levar em conta a consciência– corpo bronzeado
e liso exceto pelos arrepios e pela relva curta e
perfumada, nada ornamental, como as flores dos
álamos. Então ele sorrirá como quem sonha, mas
agora apenas abre as portas, e os corpos das jovens
estão ensolarados (pois Keshia os acompanhara).
Ele entra e faz um comentário qualquer a
respeito de Deus, da criação, fez-se a luz; e Michele
levantou as mãos à altura dos ombros, quase tocando
os fones de ouvido, as palmas para cima. Georges a
olhou estranhando um dos termos que ela usou, como
assim, pai, todo mundo fala assim, mas Georges não
entendeu, não conseguia saber a relação entre “foda”
e o Senhor que fez a luz e viu que era boa.
E como não seria boa aqui agora um pouco de luz
pois elas estão subindo as escadas no escuro, e
repetirão a cena uma vez quando Keshia vier passar
um final de semana com Michele e, por óbvio, com
Gerard. Nesse dia igualmente estarão como agora

doidas por um banho e cair na cama depois da
balada, para Keshia sempre um acontecimento, pois
não estava acostumada.
Mas, quando estavam dando uma olhada no
imóvel, o máximo da realização desse desejo de deitar
foi a bicama de solteiro (provavelmente o pedreiro
passava uma ou outra noite), no canto direito do
quarto onde a luz desenhava dois shorts e duas
camisetas inquietas.
- Por que não dormimos aqui esta noite? – sugeriu
Michele.
- Todos na bicama? – perguntou Georges.
Andaram e andaram pela propriedade. Michele
estava encantada. Keshia não parava de dizer que
legal, que bacana, vocês vão ser felizes. Georges
estava certo de que seria um bom investimento, logo
Michele vai querer ir para o Canadá, como vive
dizendo, ou quem sabe o casamento nem dure, o que
seria o normal. Acompanhando a tênue curvatura da
cerca, os vizinhos não queriam perder nenhum
detalhe. Em algum momento Keshia teve vontade de
chorar, provavelmente chegou a derramar uma ou
lágrima. E parece que eu cheguei aqui ontem, pensou

Gerard. Tanta coisa e parece que foi ontem.
Para Keshia era comovente ver Michele e Gerard
juntos. Sempre torceu pela amiga.
- Vocês se dão tão bem que até parecem irmãos.
- Não venha com essa, não temos nada de
irmãos, eu hen.
Às seis da manhã as amigas estavam despertas,
prontas para curtir melhor o dia especial. Foi a hora
que o amigo disse que passaria para levar a
encomenda.
Na manhã seguinte, Georges se aproximou de
uma lápide coberta de mato. Michele o observava da
janela, pensando na mãe de seu primeiro namorado.
O pai sentou-se no gesso junto à pedra e ficou
lendo a inscrição como se estivesse no cinema.
Michele espera paciente afinal se chegou até ali é o
mínimo. O rapazinho aperta o gel do tubo na direção
adequada. Com a mão direita na mesma posição em
que seguraria um buquê, Georges arranca o tufo de
mato na falha de cimento entre o túmulo e a pedra
Confortável com as mãos espalmadas contra a
parede, Michele se inclina e se for preciso pode
descer até o assoalho Ah, querida, murmura Georges,

como eu te amava, gostaria tanto que Michele fica
impaciente porque o rapaz sequer segura seus
quadris e quando o faz lembra esse tipo de
cumprimento que ela odeia quando alguém deposita a
mão na mão da outra pessoa como se fosse um tipo
de hóstia. Com as costas da mão grande e peluda o
pai alisa o nome na lápide da maneira como faria se
fosse o próprio rosto, suspira, aperta os lábios e
balança a cabeça de lutador que diz tudo bem às
instruções de seu técnico entre os rounds
Definitivamente esse menino é só um rostinho
bonito, mas agora Michele tem de ir adiante, por isso
prefere homens experientes a esses imberbes que
ostentam seja lá o que for Um feixe atravessou os
choupos e passou rente à cabeça do pai morrendo no
matinho ao lado da grande pedra arredondada e a
imagem do pai sentado no túmulo foi se afastando
para o outro como se o espírito da morta tivesse
estado ali e agora precisa voltar para o nascer do sol
O filho da mulher até que tenta e até que é bem
dotado mas até isso acontece, não sei vou aguentar
até o fim mas ela sabe que sim aguentará porque é
como quando se olha muito para o sol, a visão

embaça – ela passa a ajudar embora saiba que nesse
caso é praticamente uma masturbação para ele que
não merece mas enfim O espírito da mãe do rapaz
subiu e pairou primeiro entre as árvores depois sobre
os montes, a linda paisagem do lugar com que tanto
sonhara e o amante conseguiu para ela, Georges a
amava de verdade, pese as brigas eventuais e a falta
de jeito costumeira E mesmo assim quando o
rapazinho a guia pela lateral das coxas pode se dizer
que aí (por mais tímida que seja) há um tipo de
pegada e, imagine, esse estalo foi mesmo a mão dele
em mim? Mas afinal - pergunta Keshia, da varanda
ao lado da janela em que Michele estava debruçada.
Para uma primeira vez não foi ruim. Conta mais, pede
Keshia. Acho que não vai dar, papai está vindo de seu
culto, que culto, a visita ao túmulo da amante, é claro,
ah vai dizer que não é bonito um amor assim, que
bonito pensando bem estou no controle, e isso não
deixa de ser seu valor, vou ditar o ritmo e pelo menos
Olhe o Gerard! dançando com uma vassoura, pode?, é
muito louco, nada, ele estava mesmo é varrendo, só
fez isso agora para disfarçar, escutei vocês disse
Gerard E o rapazinho simplesmente parou, inclinado

sobre, e só ela mexia, e esse silêncio tao próximo é
Aliás, disse Gerard, escutei também o que você estava
contando antes, ei, imagine, nunca pensei que fosse
te ver ruborizar um dia, não estou ruborizada, então
tudo bem O rapazinho estava ali pronto mas
longânime e ficou assim um ou dois minutos ela
dançando sua dança e ele um cavalheiro que guia
mas permite improvisações da dama porque afinal é
uma dança a dois e Georges entrou e foi direto para o
aparelho de som e apertou o stop e num ruído seco o
aparelho engoliu a música e tudo silenciou e eles
pararam (porque as moças já estava meio que
dançando com o homem e a vassoura) mas Michele
continuou, a mão direita por cima e a esquerda por
baixo e o rapazinho, que súbito tinha uma aparência
de homem feito, pôs uma das mãos à altura do
latíssimo dorsal, e Michele tornou a espalmar as
mãos na parede, e como num acordo nem ela se
mexia demais nem ele permanecia totalmente
parado, movendo também a mão direita, cruzando-a
para substituir a outra - Por que o senhor fez isso perguntou Keshia tímida e choramingas. Michele
permanecia calada, longe E a sombra de um músculo

se destacou na coxa mais ereta quando ela sentiu a
mão do homem (porque agora era um homem feito)
abarcando seu seio nem rude nem gentilmente, e a
cada movimento ficava mais baixa em relação ao
corpo dele, um prumo improvável Aqui é roça, Keshia,
disse Georges, mas há vizinhos, aqui também é
preciso que Michele soltou um grito guardado parecia
há milênios, que se fosse naquela dimensão de tempo
teria acordado não só a vizinhança mas toda a região
e premia o homem com um gozo mas do que
merecido, até porque recompensava-se também Tudo
bem - disse Georges vou por a música de novo, mas
um pouco mais baixo. - Que música, perguntou a
Michele mais inclinada e o homem reajeita as mãos
sobre ela, na nuca, e as mãos dela também se
reajeitam em seus próprios joelhos sombrios ela vai
se soltando até se deixar e Ela repete para o pai que a
olha esquisito: - Que música?
Há goteiras no casarão. Talvez ela gostasse do
som, pois nunca mandou consertar. Os trabalhadores
do moinho passam o tempo todo. Chegam e partem
da estação ferroviária, que fica a uns dez, quinze

minutos a pé.
- Mas eu não acho mais que é muita casa para
pouco homem – disse Michele sem tirar do rosto o
sorrisinho. – Juro que não acho.
Penumbra matinal na casa incensada, um bolo
fumegante entre céu e mar. Manhã agradável que dá
vontade de viver, de se perder no peso frio do vento,
viajar nas vozes dos vizinhos, esquecer onde estava.
Essa mão, esse dedos, esse dedo, o lugar desejado, o
que há de diferente? Há alguma coisa diferente. O
lugar exato, quem diria, pensava que ele fosse um
nerd. Essa outra mão não deixa dúvida. Michele chega
a ouvir o vento na superfície da lagoa, como o epílogo
de Bell Jarr.

Quatro anos tinham se passado depois disso. Eles
são a mesma silhueta trêmula contra a lâmpada da
mesa. O eco que nasce sob os pés dos dois é um só,
propagando-se pelo piso.
Tinham acabado de voltar do restaurante minutos
antes. Era para ser uma reconciliação, mas as coisas
não pareciam ir tão bem. Quando chegaram, ainda na

cozinha, Gerard foi colocar na geladeira um pedaço do
peito do frango. Michele estava recostada na parede
azul da sala, olhando para ele com o misto de raiva e
respeito que não podia mais suportar.
- Acho que acabou o nosso tempo – ela dissera.
Ela estava com uma camisa branca de gola alta, os
cabelos compridos agora cacheados caindo sobre os
ombros. – Acontece com todo mundo.
A verdade, concluía ela, era que ele tinha um tipo
de inveja de seu trabalho, ela era uma mulher
realizada, bem resolvida financeiramente, e ele
continuava perseguindo sonhos distantes, que
possivelmente só acalentava pelo fato de serem
distantes. Quando balançava a cabeça, as pontas dos
cachos luziam, determinando a intensidade da energia
das palavras. O quanto, num crescendo, tornavam-se
definitivas.
- A gente viveu um tempo maravilhoso. Por que
não podemos ficar com essa lembrança?
Passou por ele com passos duros ainda mais
duros por causa das botinhas. Abaixou-se no lavador
de louças e empurrou o prato e o copo de seu almoço.
A cozinha se alonga numa espécie de copa, onde a

mesa de madeira bege brilha que parece de espelho.
Há um vaso com uma rosa não no centro, um pouco
para direita, empurrado quando ela foi escrever ou ler
alguma coisa de manhã.
Ela apertou o botão da água com força que se fez
ouvir do lado de fora, assustou o gato, que olhou
desconfiado como se seus olhos atravessassem a
parede. Ele a olha de costas. Uma calça comprida
preta que enfatiza o quanto Michele em nada lembra a
menina com alguma tendência a engordar. Ela se
virou de súbito, a camisa branca marcada pela
referência dos mamilos. Ela o encara. Ele abaixa os
olhos, mas não acolhendo as, antes enrijecendo os
músculos da face e cerrando os dentes. O som da
água faz pano de fundo a todos os pequenos ruídos
que eles emitem.
Ele se virou de costas e o olhar dela quedou
abandonado, solitário. Ele mexia nuns copos que dera
para ela num dia dos namorados. Ela foi atrás. Ele
sentia o hálito quente na nuca quando ela tornou a
falar. Porque ela não podia ficar solitária e portanto
não podia deixar de falar. Ele tinha começado a abrir
o notebook sobre a mesa, mas ela disse “Não, não,

não, imagine que vai começar a fazer alguma coisa
aqui na minha cozinha”.
- Você teve tempo se sobra ao longo da vida de
ter seu próprio escritório.
- Como seu pai.
O olhar reativo não foi de raiva, não raiva de
Gerard. Estava mais do que na hora de crescer. Aliás,
estava mais do que na hora de Gerard crescer
também. Porém o único crescimento ali era o da sua
exaltação, que transbordava pelos gestos. O telefone
azul mal teve tempo de começar a tocar e ela tirou do
gancho. “Alô!”. Ela escutava e respondia com
monossílabos e ele largou o notebook e foi atrás dela.
Passou por um quadro com toques verdes num tom
geral amarronzado.
- Quem é? Algum novo namoradinho?
A partir dali começaram a falar quase em
simultâneo e não é mais possível reproduzir. O gato se
afasta da parede.
- A questão é que...
- Não, não, não...
- É minha colega, trabalha comigo, o que você
quer?

- Sua colega...
- Sim!
São quase da mesma altura, mas agora ela
parece maior. Olha direto nos olhos de Gerard. Fuzila-o
com seu meio-sorriso devastador. Passa por ele como
se o atravessasse. Parou na mesa diante do notebook.
Não havia mais ele nem ela, mas uma forma
sobrenatural de vida que se nutria de desavença.
Então ela se virou, os olhos percorreram um arco
completo que abrangeu do piso branco ao teto,
retornando aos olhos do marido, os cachos cada vez
mais desgrenhados e reluzentes.
O telefone torna a tocar. Ele atende. Escuta algo
que o retira da atmosfera. Michele percebeu e
materializou em traços suaves o novo momento. Eles
se olham em silêncio e ele desliga o telefone. As
sombras na parede se acompanham. Ele torna a
mexer nos copos. Abre e fecha de novo o notebook.
Um homem e uma mulher não podem passar de um
ponto determinado. Além disso, começa a loucura; a
loucura começa onde termina a audição. Porque
quando recomeçaram a falar não era mais um com o
outro.

Os olhos dela estavam vermelhos. Havia soluço
em todo seu rosto. Os cachos por um instante de
aquietaram e pararam de brilhar. Ele pegou a
mochila, que estivera num canto aguardando o final
feliz do jantar. Já devia ter largado essa mochila. Já
devia ter comprado um carro e começado a guardar
no carro suas coisas. Se tivesse de sair como agora
seria mais elegante, não seria assim patético. Afinal
estava se aproximando dos quarenta anos. Quarenta
anos! Ela o observava quieta porém não impassível,
os olhos muito vermelhos, caídos.
Num último momento, em que os olhos de
Michele refletiam seus movimentos de saída, ela se
antecedeu e postou diante dele, “Depois de tudo vai
embora de novo?”, disse. E estalou a mão direita no
rosto do marido. Passados alguns segundos, ia repetir
o movimento, ele a conteve. Segurou-lhe o pulso, que
começou a tremer. Com a outra mão, ele a segurou
pelo pescoço, mas era como segurar o vento. Ela
agarrou-o pelos ombros, apertou-o, “Acha que sou
mulher de levar para jantar e ir embora sem resolver a
questão?”.

Gerard aliviou o aperto. Mas ela continuou
falando, as palavras embebidas em cuspe. “É o que
você acha? Está muito enganado!” Ele ergueu os
ombros e suas mãos a soltaram e se enraizaram na
cintura de Michele, no corpo que agora sabe que é
bem grande, apenas para afastá-lo de si o lapso
necessário. Virou-a e Michele acotovelou a mesa
reluzente com golpes simultâneos. Ela riu sorriso
típico de espanto, diz para ele parar, virando-se e
ficando rosto com rosto não para um beijo, e,
entretanto é o que está acontecendo, “Pare!”, “Não!”,
e quando os cotovelos caem de novo na mesa, o
vestido é levantado por perfeito vento silencioso –
“Não, eu disse não!” – garante ela virando e, ficando
novamente de frente, “eu disse não!”, ouviu-se um
novo estalo de sua mão no rosto dele, de uma espécie
diversa de bofetada, ilustrou inequivocamente o que
ela dissera.
Ficaram sem se ver até o dia que se
reencontraram casualmente no hotel.

A casa continuou ali. Às vezes habitada; outras,
vazia – mas não com algum tipo de exclusão ou
renúncia, mas uma solidão altiva, quase soberba.
Em torno, os vizinhos (enquanto houve vizinhos)
sempre viam um curió que pulava pequenininho nas
folhas multicores esparramadas. No começo da
primavera, a caesalpinia floria por uma ou duas
semanas. A bauínia, Sarita, quando eles se mudaram,
mandará recado, que ele tome muito chá. Quando
tem gente morando, as portas da casa nunca estão
fechadas.
A senhora Lens admirou longamente a porta de
cerejeira escurecida com losangos, trabalhados em
relevo, na primeira visita que fez na qualidade de
sogra.
- Que surpresa boa, entre, vou chamar Michele.
Nesse dia, ela se adiantou no limiar com menos
graça que a corriqueira.
- Então, mãe, o que a senhora achou? Nem
parece aquela casa né?
- Fiz o cappuccino que a senhora gosta – disse
Gerard. – Vamos para a mesa.
Michele apresentará a disposição dos aposentos

na casa e dos móveis nos aposentos e das coisas nos
móveis. A senhora Lens se impressionou com a
televisão enorme, pois nunca vira uma de tela plana.
Também olhou com espanto para o fogão de
acendedor elétrico, auto-limpante.
- Tudo bem que não é nenhuma novidade pra
você, filha, mas pra mim é como se tivesse sido
inventada ontem.
Então Michele se lembrou com quem estava
falando. - É que a senhora sempre teve empregada; e
nós, nunca teremos.
Quando Gerard estiver sem emprego e morarem
na casa da senhora Lens, Sarita os servirá. Michele
soh voltarah a mexer com costura apos aa segunda
separacao.
- Obrigado – dirá um dia Gerard quando a velha
senhora passar a xícara. – Você sempre lembra de
tudo.
O que, pelo momento, foi uma fala ironica,
dramatica.
De resto, quando foram para a sala tomar cafe e
Michele fumar perto da varanda, foi impossível não
notar a funcionalidade da sala iluminada por lâmpadas

frias. Paredes bege. Estantes, livros, CDs e DVDs.
- Coisas que estão destinadas a um fim próximo,
se a senhora não sabe.
Atrás da mesa do computador caía a cortina
transparente, antes da persiana. Do lado esquerdo,
um movelzinho guardava jornais e revistas. Decerto
ele não escuta música em aparelho de som. E livros,
lerá? Decerto se mantém informado, nada mais. Seja
como for, George lê tanto, se mantém por dentro de
tudo, adora música, e daí? Noutra parede, a do sofá
branco, há almofadas compradas à mãe de Maria das
Dores, que trabalhava para a pousada e continuou
fazendo trabalhinhos para Gerard.
- O rapaz é tão bonito e simpático, acho que vai
se dar mal metendo-se com aquela família – disse a
costureira assim que soube do noivado.
A mae nao concordou de todo. Disse: - Nunca se
sabe, minha filha. O ser humano sempre surpreende o
ser humano.
Na entrada, um cabideiro ao lado do visitante.
Cheiro bom de lar. A filha conseguiu. Um aroma
gostoso vindo do carpete felpudo onde Michele
tomaria gosto de se estender para ouvir como se

fosse uma coisa hereditária.
Os moradores da Travessa das Cores não tem
outro assunto além de Fabio. Ninguém acreditava
sequer que ele ia manter seu emprego sabe Deus
como conseguido. Agora as pessoas têm de lidar com
o fato de que ele alcançou o sonho de muita gente.
Andava de lá para cá na vila todo metido, sem camisa,
resolvendo uma e outra coisa ostensivamente. O voo
para o Canada está marcado para o dia 10, um
sábado.
Tentou nesses dias falar com Sarah, em vão.
– Ela não quer te ver – disse Gek.
Ele ia manifestar a exaltação numa resposta, mas
se conteve.
- Diga que quero que ela vá comigo.
Seria inútil.
- Apenas diga.
Gek dirá, mas será inútil.
Ela trabalhava com Fábio no cartório de imóveis e
testemunhou todas as reprimendas que ele sofreu por
causa dos games em hora de expediente. Também se
candidatou a uma das vagas. A outra foi dada a uma

moça de Ikonya, jovem robusta e maternal, muito
morena. Usava roupas largas a partir dos quadris, mas
sempre muito decotadas, dava para ver toda a
estrutura óssea de seus ombros quando ela abaixava.
Caminhava com passos largos e lentos.
– Vocês são patéticos – disse Gek, tentando
endurecer a voz que choramingava. – Mas essa
necessidade de ter uma menina do lado é pura
fraqueza – concluiu, visualizando as nádegas da tal
Cristine.
Fábio de novo esteve para dizer que ela não se
metesse que apenas desse o recado, que fizesse com
que Sara aparecesse, mas de novo se conteve e nada
disse, mas apenas:
- Estarei amanhã o dia inteiro nesse endereço.
Gek pegou o cartão, que brilhou um segundo ao
sol. Aproximando-o dos óculos, ela viu o logo do hotel
e pensou Você realmente não espera que eu faça isso,
não é, seu idiota? Ele continuava olhando para ela,
com pressa de sair do cartório, mas sem aparentar,
como se tivesse todo o tempo do mundo para
examinar cada expressão facial do ciúme de Gek. Ela
colocou o cartão no sutiã e passou em seguida a alisar

a parte de trás da saia com mãos inquietas.
Você não acha realmente que eu vou fazer isso...
De algum modo, o casamento de Michele pairava
sobre todos como uma advertência, talvez um
conselho, uma ameaça branca. A vida começara.
Em casa, Gek passou, desfilando, pelo corredor
que ia para seu quarto, com dois quadros da senhora
Lens de cada lado.
Quando a praia estava cheia, Gerard nadava no
lago. Estimava que tinha uns quatro a cinco metros de
profundidade. Águas claras e mornas. Ao redor da
casa, a cordilheira geralmente enevoada. São oito
horas da noite. O primeiro dia de sol do verão. É a
primeira vez que vem ali sozinho.
O ranger de uma porta. O sussurro do vento. O
silêncio, o vento e a porta são tua voz. Gerard
perguntou a si mesmo por quanto tempo suportaria. A
senhora Lens respondeu que um sonho é feito da
mesma substância de que a realidade se nutre.
- Não acorde – disse ela numa lufada quente; não acorde...

Certa noite, ao voltar para casa, escutou as vozes
de um adulto que ralhava com uma criança. - Porque
aqui não é Hatknak!
Gerard não sabia do que se tratava, mas era uma
frase precisa.
Tinha sido um longo dia. Quando o carteiro
passou, ele foi perguntar.
Eram de fato pai e filho. – Boa gente – garantiu. O
homem é viúvo. Enterrou a mulher aqui mesmo na
propriedade.
- Mas o senhor não se importa isso, não é, senhor
Gerard?
- Não me importo.
- Não tem medo, não é?
- Ah, claro.
- É que o pessoal daqui é meio bronco, o senhor
entende.
- Sim claro. Está tudo bem.
Depois de nadar, voltava e caminhava pela
propriedade e vez por outra parava junto ao túmulo e
descansava na lápide fria.
Um dia, ao telefone, disse que sim, já cheguei,
estou aqui, estamos em baixo, no quintal. Era a

segunda vez que Keshia vinha passar o final de
semana. O caseiro ainda ao telefone confirmou,
vendo, o que ouvira, que Gerard já tinha chegado. O
homem abriu a porteirinha e o cão se imiscuiu, indo
direto para as moças sentadas na mureta, ah que
gracinha, e fizeram festas na cabeça e Michele chegou
mesmo a meter a mão entre os dentes do animal
balançando e balançando o imenso focinho à maneira
de Gerard um dia com a vassoura.
Gerard e o caseiro foram ao encontro do mesmo
abraço.
As meninas pareciam concentradas brincando
com o cachorro. - Quem é? – perguntou Keshia. - O
caseiro. – Charmoso – disse Keshia. - É mesmo, mas...
- Ah, é lindo, másculo. –É mesmo, mas... – Não seja
estraga-prazeres. – É impressão minha ou você está
ficando muito assanhada? – É impressão – disse
Keshia, rindo. - Não te convido mais, hen?
Elas conversavam com umas das mãos apoiadas
no pelo negro, liso, cheiro típico de pet bem cuidado.
Estavam sentadas na muretinha e a muretinha não
estava longe do túmulo, daria para ver a cruz se
virassem o rosto para trás. A blusa de Michele é preta,

o decote em V fundo, dava para ver o biquíni preto por
baixo. O cabelo é natural, está preso num coque
despojado, casual, desses que as mulheres fazem em
segundos para conforto no calor. Os cabelos de Keshia
agora são lisos e estão muito bem escovados, o
xampu cheira de longe.
-Sinto saudades de tuas trancinhas.
-Mentirosa...
O caseiro viu o quanto eram bonitas e deve ter
comentado com Gerard em algum intervalo dos
assuntos de encanamento, horta, capinar a entrada e
em torno do túmulo, a vinha, enfim. O homem falava
alto, gesticulava, as amigas começaram a rir e só
então o caseiro olhou para Keshia detidamente.
- Ela também é filha do senhor Lens?
- São amigas.
- É uma bela idade – diz o caseiro, estendendo a
mão.
- Prazer – diz Keshia.
- Prazer – diz Michele.
- Vamos - diz o caseiro ao cachorro depois de uma
última olhada. O cão imediatamente se aproximou,
balançando. Saem pela porteirinha.

Michele diz para Gerard que ele está ficando igual
ao pai dela, dá muita confiança aos empregados.
Gerard responde que ele é mais que isso, é um amigo,
e amigo do teu pai antes que você nascesse. Amizade
é tudo o que importa na vida, concluiu, entrando em
casa, resmungando.
Michele e Keshia se entreolham, perplexas.
Gerard tirou a camisa e se jogou na cama. Pensa
no menino que corria atrás das coleguinhas, mas não
é capaz de compreender o homem que se casou.
Porque a compreensão da loucura acaba se tornando
a própria loucura.
Fazia quase um ano que tinha reencontrado
Michele na praia. De repente inspirou, falou sozinho,
descobriu que, pronto, era isso. Decidiu. Não
importava quem dissesse o que. Até porque ninguém
precisava saber.
Só quer ter paz, pensa enquanto se aproxima da
casa.
Sarita passou por ele em sentido contrário. Quem
pensa estar enganando? Cortejar uma mulher
casada... Devia dizer a ele o quanto a senhora é

decente e boa. Diria “Olha, esquece isso, deixe-a em
paz”. Mas no fundo experimentava certa simpatia pelo
sentimento de Gerard, embora fosse ser fiel ao senhor
George, que a tirou da rua.
No ano 2000, quando as pessoas enfim estavam
aliviadas quanto ao bug do milênio, Gerard morava na
zona rural de Haiktanak, num apartamento alugado
por quatorze dólares por mês. Depois de tudo,
precisava sair de Celba. Ficou um ano sem internet,
por opção. Trabalhava então como cuidador de pets,
uma profissão que esteve na moda por volta dessa
época. As pessoas iam sair de noite, ou viajar, e
precisavam deixar seus animaizinhos com alguém,
então chamavam o cuidador, que ficava com eles,
passeava-os no caso dos cães, limpava as caixas de
areia no caso dos gatos, dava comida aos peixes etc.
Percebeu um dia que nunca na vida tivera tanta paz;
todavia, vivia aflito porque não tinha vida afetiva ou
sexual. E um dia se perguntou se eram coisas
excludentes, ter paz e se relacionar.
Essa foi a época das cartas. Nunca escreveu
tanto, a ponto de desenvolver uma bela caligrafia.

Nunca leu tanto. Consumou o desejo de viagens reais
quando à estação Kamata no último dia do inverno.
Estava certo de que, após resolver as coisas
referentes à estada e se despedir da moça que viajara
no mesmo avião(ainda não sabia bem de que
maneira), as cerejeiras representariam um novo
começo.
O homem que foi bom com Joana no princípio não
haveria de ser indiferente com o que se passa. Achava
um pouco de exagero pois sua aparência não estava
tão má assim; mas é melhor pagar logo esse médico
logo.
desenvolver
Michele odeia Cati quando são apresentadas. Irase contra o pai. Não sua mãe, que sequer se sentiu
traída.
desenvolver

As faixas paralelas que no pavimento da rua lá
embaixo advertem e orientam em branco refletivo
sobre fluxos e faixas de pedestre. Fazem imaginar
uma outra via, suspensa e transparente como uma

camada. A palavra “bus”, alongada para caber,
funcionava como um plano de fundo bloqueado. É
uma ilusão mas tem um peso relevante no olhar de
Joana. Parados esperando para atravessar, os
passantes parecem bolas amassadas como o globo
nos polos; mas apresentando, proporcionalmente, um
achatamento maior. Ossos de corda coloridos quase
circulares. Ela rapidamente sai dali e pega o elevador
para descer. Aproveita que está atrasada para o
médico e se impõe a pressa. Sua imagem serena e
desesperada entre os caixilhos do espelho. Cansada e
envelhecida.
Ela não escuta o tranco do térreo que vibra em
seu corpo. Cumprimentou com a cabeça a senhora
que entrou sem esperar resposta. Por que tinha de
mostra interesse, aceitar a ajuda de Georges, o
dinheiro dele para a viagem, o dinheiro dele para a
consulta, ela não precisa de médico, com certeza não
preciso, pensou, olhando a rua iluminada. O fim será
a melhor coisa de sua vida.
Procurou não deixar evidente seu estado terminal,
mas a gerente deve saber que todos que sentam
naquela cadeira estão. Joana desviou o olhar para o

terninho da mulher, elegante e sóbrio, seu tipo de
roupa, o tipo que seria o seu num mundo perfeito. Não
faz idéia do que sejam juros de mora e não entende
por que não pode fazer um novo empréstimo.
- Mas e se hipotecar o apartamento?
- Você já hipotecou, senhora.
Joana respira fundo e pede alguns dias. Dá para
ver pelo vidro as caixas de papelão empilhadas na
sala atrás da mesa, após os reflexos retos, prateados,
agudos, as lâmpadas da sala de espera. O olhar da
gerente fez um percurso redondo para retornar para
Joana. Quando ela saiu, a mulher tornou a olhar para a
tela, respirou fundo e apertou os lábios. Nessas horas
se lembra por que teve de abandonar escrúpulos para
conseguir aquele cargo.
A definição dos dedos que seguram o telefone é
magnífica, o médio destacando-se com sua unha sem
esmalte e, todavia rosada, de um vermelho
desmaiado. Estudante, 25 anos, discreta, alto nível.
Não, é só isso. Ou melhor, espere. Inocente. Coloque
“Inocente”. Viu que o assoalho precisava ser
encerado, talvez até colocar sinteco de novo. Na
verdade tinha de voltar a varrer a casa, não dava para

usar o como desculpa e não cumprir suas obrigações
de mulher. Então caiu em si que não podia mais.
Estremeceu. Nem isso ela podia mais, pensou com
terror.
Caminhou para o lado da janela, evitando-a dois
passos antes. Agradeceu à atendente antes de
desligar. Talvez seja o último raio de sol esse que
umedece seu lábio inferior.
George tinha coisas novas na cabeça. Enquanto
Joana se trata, experimentará parte das fantasias com
sua mulher.
Não estava mais dando certo, pensa a senhora
Lens, estirada na cama. Não estava dando certo.
Deixara de ser um período produtivo. À janela,
percebe que Gerard se aproxima.
Entre George e Gerard, Joana havia desenvolvido
os sintomas. Embora a janela esteja fechada, pode
sentir a vida dos animaizinhos da noite. Vela agora o
sono dele. Uma mulher de sorte essa mulher: amada
assim por este e tendo naquele o provedor. E se de
George relevava a violência, condenou em Gerard a

demasiada ternura.
E o que a mulher dele diz?
- Ela não sabe - disse ele.
Joana olha um o fio que corre da cortina antes de
responder.
Ah sabe sim é claro que ela sabe. Meu pobre
amigo...
Amanhece. e o cheiro de pão é o cheiro de Celba.
Joana trouxe três. Gerard não se levanta. Não tem
motivos.
- Deixe de bobagem.
- De onde vem essa música?
Passos no quarto. Gerard não sabia que ela tinha
irmãos menores. Que ela precisava fugir do mais
velho que não dormia. Que raramente dormia. Ela
tampouco imagina as agruras de ser filho único e no
fim ser desprezado por essa única mãe.
Então ofereceu o colo para que Gerard dormisse.
A possibilidade de estar infectado inexistia para
George apesar de saber o estado de Joana. Passou a
encontrar amantes de nível superior, da capital, por

outras razões. Porque ela estava ficando feia, porque
estava ficando chata.
Uma dessas mulheres era resoluta e ainda seria
mais. Ele não tem culpa de ser como é. Não pediu
para existir.
Victor não estranhava que a namorada não o
acompanhasse quando ele ia a Celba levar
manuscritos. “Você trabalha demais, Victor. Podemos
pegar uma praia depois. Podemos ver o pôr-do-sol”.
O vapor de água orvalha os ladrilhos e o corpo da
mulher pouco a pouco se revela entre dois blocos de
vidro batido isolando o som do chuveiro e o calor onde
ela se move. Dá a impressão que o corpo e não a
água era a fonte do calor. A água escorre pelo corpo
de Cati, ela balança a cabeça e abre a boca, como se
gozasse. Há um filete de água em sua orelha qual um
brinco prateado. Uma cachoeira de espuma desde seu
ombro direito, descendo pelo meio dos seios. Cada
fricção na cabeça representa um balanço de seus
seios, que se beneficiam do fato de não serem
grandes (nem pequenos).
Na sala, Georges faz a ligação e espera. O pé
mexe sem parar, num sapato de marca. A porta faz

grande estrondo quando destrancada e outro quando
aberta.
- Desculpe, querido. Demorei, né?
Cati olha para ele com admiração e orgulho.
George chegou a escrever um livro a cada quinze dias
e os críticos consideravam bons livros, como agora
consideram os de Victor.
Foi a época em que conheceu Rose. No dia em
que sentiu o cheiro de um amaciante que ela não
usava, a senhora Lens disse a si mesma que o homem
de negócio matou a criatividade do marido. Culpou as
leis do País, a economia, a burocracia.
Ou, como Cati acreditava, ele precisa de uma
nova musa.
Georges é levado pelos olhos de Cati como nunca
antes. Pela sua boca, pelo seu pescoço, pelo início de
seus seios. Ao chegar em casa à noite, fica andando
no terraço. Pensa a respeito sem se dar conta. No som
da voz. Nos movimentos de seus lábios e da língua
fugidia.
Depois do jantar, passam no guichê e assinam
uma folha. A pele da mão de Cati é lisa porém os nós
salientes em se tratando de uma mulher jovem, o que

não lhe retira em absoluta a graciosidade quando
pega a caneta.
A vozes no vagão nada mais são senão um tipo
de som de fundo como o zumbido de uma estação. As
pessoas em suas janelas perdidas ao som do alto
falante didático e monótono.
O casario passara e as casas que apareciam
estavam isoladas no fundo verde da paisagem.
Georges se levantou e pegou a maleta no bagageiro.
Os pardais piavam e cantavam junto ao trem. Um
deles subiu e pousou na estrutura externa da janela.
Foi um homem parecido com quem ela sonhou
noite passada. Ombros estreitos, troncudo, forte. Um
terno de cambraia semelhante a uma armadura.
Cabelos curtos não penteados, penteados com a mão.
É uma manhã fria, de novo. Quando se imagina que o
inverno está passando.
Em dias assim se acentua em Georges o desejo
de uma companheira com quem partilhe tudo, como
um cansaço. Uma mulher que o receba e se tornem
uma carne quente e una mas também possam depois
calarem juntos nesse silêncio posterior que é tudo e
que mulheres costumam matar com palavras.

Há em Cati muito das coisas que Georges pensa.
Há em Cati um pouco do que houve na chuva que caiu
na noite anterior, na lama que deixou pelas ruas para
os lados dos pescadores, dos hotéis baratos.
As catadoras de conchas bebiam cerveja no bar
ao lado do prédio amarelo. Quem esse rapaz está
procurando em meio ao cheiro de peixe que ao de
esgoto se mistura, ouvindo o tilintar do boteco? Ele
não soube a resposta e ficou ali parado perto do mar
que quebrava nas pedras.
A rodovia ilumina a sala em intervalos de
regulares rugidos e ali está ela, sentada, inerte,
vencida, quase sem força sequer para lembrar. Um dia
ele a viu e ela o viu chegar. Eram então inocentes. Ela
caminhava como a mulher de um sonho, ele achava sequer lembra do que se trata, mas na época não
pensava noutra coisa – mulher de sonho, mulher de
sonho. Depois ele chegara para abrir o coração,
confessar tudo, cada detalhe. Só não o fez porque se
deu conta de que não sabia que detalhes eram esses.
No inicio da tarde do dia em que chegara para
assumir os computadores da pousada, ele viu a

mulher pela primeira vez. Se Deus tivesse aspecto
humano, Deus mesmo, não seu Filho, seriam as
feições daquela mulher. Se tivesse um corpo seria seu
corpo. Passeava à beira do mar. No momento em que
ele pousou nela o olhar, desencadeando aquele fogo,
a senhora Lens encheu os pulmões do ar salino. Seios
discretos nas fronteiras em V. Ônibus adiante, o
ângulo de visão apresenta uma mulher na casa dos
quarenta, porte exuberante. Erguem-se montes
cobertos por névoa floral. Ele retém a imagem nos
minutos em que está no ônibus depois de tê-la visto e
antes de saltar. Chegara enfim.
Ela pensa: nunca nos encontramos. Pensa: como
é possível, se ele é toda minha vida? Pensou que tipo
de loucura estava aí embutida. Porque no dia em que
ele chegava, num arroubo incomum, ela decidiu que
iria à praia, não queria saber de nada, iria à praia,
descansaria na praia, quem sabe tivesse um insight
redentor. Não ia pensar se a filha tinha ou não ido à
escola, o que iria fazer para o almoço, se estava
faltando óleo, café, trigo ou farinha de milho. Então
saiu e foi caminhando ao som dos pardais, passando
pela gente indolente de sua cidadezinha. Era ainda

uma mulher atraente, havia muito indícios. Por
exemplo, o avô de Keshia costumava olhar para ela de
um jeito diferente, ele, um escritor, portanto um
observador. O pianista, o pianista da orquestra
sinfônica, imagine, quando vinha para os finais de
semana, só faltava devorá-la com os olhos. E até o
leiteiro! Sim, ela ainda era jovem, ainda era bela.
Silvia é que tinha razão.
Por que então está assim, largada sozinha na
sala, vencida? Não deveria estar no ateliê,
trabalhando nas flores de seu tamarindeiro, fazendo o
retrato do pescador para o centro cultural? Não devia
dar sequencia à natureza-morta das flores? ter pedido
que o motorista encomendasse outras cores? É que as
coisas simples para o resto da humanidade não são
simples para os artistas, gostava de pensar. Porque há
um compromisso com a posteridade. Era um absurdo,
mas gostava de pensar. É o que ainda compensa tanto
sofrimento sem motivo. Mas pela morte dos pais, por
exemplo, não sofria. Descansaram, pensava.
Às vezes parece que está enfeitiçada. O
casamento da filha deveria ter acabado com essa
história. Georges dava o que ela pedia. Amor, prazer,

fidelidade, são coisas relativas.
Mas está ali, sozinha, pensando nele, em Gerard.
O tempo que se perde com uma fantasia... Mulher de
sonho, lembrava Gerard na sala de seu
apartamentinho de subúrbio. Mulher de sonho...
A moça da limpeza procurava a chave certa da
porta onde são guardados os produtos. Colocou-os no
carrinho que então vai empurrando para o
apartamento 411. No 410, um notebook aberto diante
de um rosto tenso. Backspace, delete e barra de
espaço. “Estou deixando o emprego. Precisamos
conversar a respeito”. Nunca foi bom com palavras. A
moça da limpeza abre as janelas e a cortinas sobem
sobre ela. O homem saiu, ela escuta e corre, entra no
quarto ao lado. Vai ao banheiro, tira as toalhas
molhadas. Não pode evitar com o canto de seus olhos
ver uma coisinha aqui e outra ali. Uma senhorinha
passa pelo corredor, falando no celular.
O homem está agora num taxi. Sol por todos os
lados. Seu jeito amável é quase feminino. Não sabem
do que é capaz quando se zanga. A mulher da
limpeza pensa nele. Foi só aquele segundo, mas

causou-lhe impressão. Não tem culpa se enxerga tudo
com o canto dos olhos. “Nós só fazemos brigar. Não
faz sentido viver assim. Somos melhores do que esse
destino”. Os hospedes não deviam se expor assim.
Ou talvez seja a hospedagem em si. Mesmo na prisão
ela tinha mais privacidade.
O carro à frente do taxi freia e freia de novo. Na
via expressa o zumbido de sempre, impessoal, até
subitamente acontecer algo. O homem chega à janela
e fica olhando. O carro à beira da avenida é puro ferro
retorcido. E esse outro, que vinha em direção oposta,
chegou a capotar. Nesse momento, nasceu alguma
coisa dentro dele, uma urgência.
O zumbido é mais alto no ônibus. A respiração de
Sonia embaça o vidro. Tem de fazer as compras e
ainda voltar ao trabalho antes que dê a hora. As luzes
se acendem lá fora no momento em que na bolsa o
celular dá seu irritante sinal de vida.
- Daqui a pouco você liga. Não quero saber dele.
Não, não tenho ninguém, quem ia querer uma mulher
na minha situação? Não é o fim do mundo. Logo vai
ter progressão do regime e estarei em casa. Mãe,
preciso trabalhar e depois tenho aula. Tudo bem, mãe.

Tudo bem. Também te amo – desliga. O hortifrúti à
frente, todo cores. Ela põe o celular na bolsa e entra
no mercadinho.
Mais tarde, quando entra no quarto o homem está
numa posição. Caminha um pouco e, desse ângulo
seguinte, vê que a esposa na tela está na mesma
posição. A mão no queixo, o cotovelo na coxa,
curvados. Nossa, pensa, não quero terminar assim.
Estava com vinte e cinco anos. Mantinha o sorriso
simpático em qualquer situação, mesmo aquelas em
que era mais antipática. Seu gênio horrível. Mas o
homem viu pureza estampada.
Ele a acompanhou rua acima. Ela manteve o
vagar do passo na escada. Quando ele fecha a porta,
sons de pano se juntam aos gritinhos de crianças e
latidos. Ele viu arrepios amarronzados como grãos
maiores de areia submersa que se levanta em nuvem,
aos pés do banhista. É tarde, e ela se deu conta que é
impossível que termine a tempo.
Na nuvem azul, o carro da polícia chegou. A
sirene chicoteia o ar calmo de uma noite igual a todas.
Lá no fundo da rua vazia, um guarda acompanha a
mulher, levando-a pela algema. A guarda à frente

confere as coisas de sua mochila. Ela se vira e seus
cabelos tapam a metade esquerda de seu rosto.
Todas as cores se tornam azul num átimo e voltam a
ser o que são. Ela enfim vê o homem na entrada do
motelzinho.
- O que aconteceu? – pergunta Sarita à policial
como se falasse com uma velha amiga. Depois entra
em casa, quase gritando, falando com uma velha
amiga: - Dona Rose!...
Rose está deitada e portas batem repetidas
vezes. George está saindo, naturalmente para
encontrar a moça doente. Que relacionamento eles
tem, ela não pode entender. Antes foi Michele, entrou
saltitante e saiu. Saiu ao pai, melhor para ela. Tenho
medo de pensar se Gerard está em casa. Me conforta
que esteja. Agradecia então a Michele por não ser fiel.
Naquele mesmo dia, Fabio aproximou-se de uma
forma diferente. Disse a Michele que havia muito mais
coisas envolvidas do que apenas sexo. Que ela fazia
parte da vida dele de um modo essencial. Podia largar
tudo, ir com ele para o Canadá.
Michele retrucou: – Bobagem. Eles precisam, diz
ela, de gozo imediato, não o zênite das coisas.

Na mesma mesa, Sara contorcia ligeiramente o
corpo para olhar o palco e sorria. Seu cabelo curtinho
louro sob as luzes da boate. As manchas que
impedem o cantor de vê-la mais que alguns segundos
são as cabeças dos casais. Nem parece o mesmo
homem do trio. É outro tipo de música, outra voz,
outro tudo. Ela sorriu de novo e abaixou a cabeça,
coquete. A sobrancelha arqueada e bem feita. O
batom discreto, vermelho pálido. Pó de arroz, decerto.
Tão linda. Ele, ao contrário, é muito feio. Tem seu
encanto mas, esteticamente falando, é muito feio. Mas
essa gravata lhe caiu bem. Sara nem sabia que ainda
se usava black-tie.
Do palco, parece que a rosa está imersa no abajur
quadrado da mesa. Parece que está sobre a cabeça
dela, como uma tiara. O cantor canta na direção dela,
fala com ela, implora, no fundo exige, mas ela faz que
não sabe. Eduardo se contorce para o outro lado,
para falar com o sujeito da outra mesa, que num
primeiro momento mal o escuta, mas depois cai em si
e atende a súplica, diz que tudo bem, quando saírem
passam lá e a gente resolve.
- Mas está mais caro – diz o rapaz. – Sabe como é,

a inflação atinge todo mundo.
Os olhinhos do cantor são pequenos e ainda
menores porque apertadinhos. Aproveita as manchas
para piscar. Sara está toda derretida. Se alguém
estivesse prestando atenção, estranharia. Eduardo
especialmente estranharia. Podia jurar que tinha sido
sexualmente perfeito. Podia jurar que então agora, em
condições melhores, será mais que perfeito.
Quando Sara acordou no cheiro forte de
amaciante, lentamente olhou para si mesma, nua sob
os lençóis, depois para a bandeja sobre a cômoda, de
onde se erguiam gloriosos dois sucos de laranja (o
resto estava oculto, mas ela sabia que os hotéis da
região servem café, pão, leite, duas ou três frutas da
estação, biscoito e doce) – e uma rosa semelhante às
que havia sobre a mesa; depois se sentou e esticou o
pescoço no sentido de seus sapatos de salto junto ao
par de botas marrons, cano longo. A voz masculina
não parava com a cantoria, ele nasceu para isso, é
pura vocação.
Ela leva a esquerda ao rosto, balança a cabeça. A
luz da manhã entra pela janela e doura a parte direita
de seu corpo, como se ela estivesse nascendo ou

renascendo. Ele abre a porta do banheiro e antes de
sair de todo lança o mesmo olhar do palco. Para ele, é
a sequencia normal; para ela, parece que não. Ficam
se olhando durante quase um minuto, ao fim do qual
passa uma nuvem diante dos olhos do cantor.
Enquanto ela descia as escadas vermelhas, colocava
os sapatos de salto. O eco dos passos é mais intenso
quando chega ao hall.
Quando tinha dezesseis anos, com um vestido
longo e largo, Cat abordava as pessoas na avenida
dizendo como eram bons os filmes da trilogia das
cores, mas as pessoas passavam por ela se dignando
no máximo a uma olhadela no DVD entre seus dedos
brancos e carnudos, sem escutar nada do que ela
dizia, pois todos tinham fones de ouvido. Então ela
desceu as escadas da estação do metrô quase
correndo, segurando na grade para virar à direita com
os nós dos dedos acentuados, com aquele jeito blasé
que a isolava ainda mais ao se juntar à questão de
raça e religião, mas ela não ligava, dispensando o
prazer exterior das amizades, impondo-se esse limite
de contato humano, a vida de ambulante.

Nesse mesmo dia Victor bateu à porta do amigo.
Na verdade é a entrada do prédio mas acontece que
ninguém atende ao interfone. Então ela chegou por
trás com seu olhar severo, pronta a brigar por
qualquer coisa. – Ah, você mora aqui. É que estou
procurando...
O irmão de Cati colocava pregos numa cadeira,
junto à janela da sala. Não pensa “fui terminar assim,
eu, um engenheiro”. A irmã sim pensa. Num mundo
ideal ele teria sido um homem respeitável.
- Olá - disse numa outra língua quando ela gritou
seu nome ao entrar.
- O que é? Como assim, um policial? Por que um
policial me procuraria?
O quadro atrás dele mostra a torre Eiffel e
pessoinhas andando em torno. Ela entra em seu
quarto e fica ouvindo atrás da porta. Estão falando
pelo interfone.
- Ah, é você. Sobe.
O sorriso do irmão é franco. Sente muita falta de
falar com as pessoas. Nunca se adaptou. Ela sim. Sai
do quarto. Como assim, sobe? Quem é ele? Que tipo
de amigo? Você tem amigos policiais? Parece um

policial. Os olhinhos de Cati piscam rapidamente.
Sombras, lápis, rímel e tudo. Uma típica estrangeira
por quem os nativos costumam se interessar, não a
sério, mas ela está bem adaptada, sabe se defender.
Um dia, ela entrou no elevador onde estava um
casal. Nunca os viu, que se lembre. Fez-se um silêncio
que se podia pegar - uma imobilidade perfeita, de foto
ou frame. O telefone está tocando.
Alô, oi, como vai, sua irmã, o que houve, claro,
ela pode ficar na minha casa o tempo que precisar,
fica tranquilo, cuido sim (Cati sempre disse ao irmão
que sabe cuidar de si mesma). Abraço.
Era pouco mais de meio-dia, ela não entende de
imediato as batidas em código. Seus olhos grandes
maiores; sua pele clara e a parede; um reflexo borrado
no verniz do armário. Ela abre a porta e dá as costas
como quem diz “você”.
- Não vou contigo, vá embora.
Chegaram na casa de Victor no fim da tarde.
Antes estiveram uma hora ou duas no banco à beira
do lago. O vermelho faz todo sentido, aquece tudo.
Um belo casal, dir-se-ia. Um casal muito bonito. De
noite, deitaram juntos.

-Pode dormir na minha cama - ele dissera. - Não
se preocupe, você já deixou muito claro que não sente
nada por mim.
De manhã ele foi trabalhar; saiu bem cedo como
sempre. O relógio do celular tocou umas dez vezes na
função soneca antes que ela acordasse. Agora ela
pensa Meu Deus, foi há dois anos, só dois anos.
O marido, o homem de cujos lucros, para irritação
de Cati, a senhora Lens participava, Georges está no
trabalho, dando duro, e graças a ele a mulher está
agora em casa numa tarde de terça.
A campainha tocou duas vezes compridas. Quem
pode ser, numa tarde de terça?
Foi nesse dia passou a esperar. Olhando os dois
homens, os dois jovens, esses dois lado a lado
emoldurados pela porta. Nao eram os dois homens, os
dois jovens. Eram o dia seguinte. Tentou ouvir.
Encontraram-se por acaso, vindo.
Eduardo queria o endereço de Michele. Ganhara
um computador do pai para fazer os trabalhos da
escola. Nao era imaginável que se interessasse por
algo além de surfe, mas sim. A senhora Lens guardou,
não devolveu aquele olhar do rapaz. Ah, disse

Eduardo, agora estava super a fim, adorando.
- Como assim, estava? Não está mais?
Duas apanhadeiras de conchas passam e olham
para os rapazes e murmuram entre si. Como é
possível? Ela não se enxerga?
Todos estão imersos pela sombra da nuvem que
passou no céu movendo a cena.
Eduardo falou sobre os travamentos e como o
disquete foi apagado, com gestos exaltados, como se
a coisa estivesse acontecendo ali mesmo. Disse que
tinha perdido tudo – trabalhos de um semestre na
faculdade. Em torno deles as ondas gritavam.
Eduardo fala como se falar fosse a coisa mais natural
do mundo, como se as palavras pairassem na voz
como a corrente de aguas rumoreja. Gerard o
interrompe com entonação de quem sabe o que está
falando e Eduardo se tranquiliza, o alívio estampado
em seu rosto, mas não, ela não está olhando para
mim, está olhando para ele...
-Dá para recuperar sim fica tranquilo. O novo
sistema operacional tem esse recurso. Vou à sua casa
mais tarde se você não for sair.
Ela podia convidar Gerard para trabalhar com ela,

por que não?
Ele entrega uma revista. Tem uma bela
reportagem sobre Morandi. Como ele sabe? Oh sim,
morrer na casa em que nascemos, pintar flores, ter
uma vida pacífica, reclusa. Oh sim...
- Dá uma olhada – disse ele, com um meio sorriso
cheio de significados.
Ela agradece, obrigado Gerard, você é um amor,
mas ambos entenderam outra coisa. Por isso Gerard
desistiu da confissão. Ambos sabem.
Agora ha ruídos de passos sobre pedrinhas em
torno do carpete.
- Vamos - disse Gerard para Eduardo.
- Foi uma bela coincidência te encontrar aqui.
Vamos... Deixo você onde quiser.
- Tchau, Eduardo - disse a senhora Lens. Obrigado de novo, Gerard. Uma delicadeza ter se
lembrado.
Deitada a sós ela pensa que Gerard era realmente
gentil. Por que Michele não usufruía do amor de um
marido assim? será que desconfiava de alguma coisa?
Não. Teria vindo agredi-la à menor suspeita.

Eduardo e Keshia. George e Cati. Gerard. Era o
tipo de noite em que ela costumava se levantar
tateando e buscava o interruptor do abajur da sala,
ligava para Silvia ou recebia ligação dela. Hoje, de que
falariam? Silvia e Victor. Jeferson. Em noites como
aquela conseguia rememorar. As luzes, as pessoas
engalanadas, o apagar das luzes – imagens
atualizadas de um ficar inesperado. Jamais antes nem
depois – um rapazinho gentil que tratou-a como igual,
ela, entrada nos trinta. A escada na penumbra de um
mundo indiscernível. Rose e Jeferson. Sente os dedos
másculos e agora a própria masculinidade. O que é
isso, sou noiva.
Victor andara perdendo noites e noites de sono
numa novela sobre seu relacionamento com Cati.
Ninguém dava a mínima e ela menos que todos. Para
a senhora Lens, Victor era a prova de que o pólo
literário de Celba podia ter sido uma realidade. Se não
houvesse dinheiro desviado. Se só dependesse de boa
vontade e talento.
Mas tem dias que Victor se sente cansado demais.
Georges porém possui energia inesgotável.

Diuturnamente os dois, como criaturas invisíveis,
pairam sobre vales de suor e vertigens. Se Cati pode
ficar com ambos, terá o melhor de cada um deles. Ela
vasculha todas as possibilidades. Uma divindade
animal que aceita o sacrifício dos melhores pedaços e
queima o resto.
No primeiro encontro com Silvia, Victor se queixa.
Por que escolhemos sempre as pessoas erradas?
Pelo menos encontrara em Georges um amigo.
- Apesar de medíocre, Victor é uma ameaça – diz
George com os seios de Cati nas mãos – troféus e
algemas. Ele é uma ameaça porque tem um estúpido
estilo.
Isso o incomoda mais do que os processos.
Cati está perto de fazê-lo esquecer, com a doença
de Joana, toda a miséria de depender de prostitutas. E
isso para o que uma mulher de verdade pode suprir.
Braços abertos cuja sombra na parede lembra águia e
abutre e, na escuridão, a voz entre sussurros de gozo,
planeja o futuro.
Réstia da luz do dia por sobre o casario de onde

se destaca a morada branca com detalhes em tijolos
vermelhos. Victor é um ponto diante do portal.
Confunde-se com a sombra do muro às onze horas.
Tinha ido discutir com George títulos da nova coleção.
Lembra que a vila estava quase oculta na bruma.
Pernas pressionadas num beijo sob o fícus. Logo a
treva oculta as partes visíveis do rosto de Victor.
- Bebemos muito talvez – diz Silvia.
Um só rosto úmido de orvalho e cabelos
entrelaçados.
- Como vai, senhora? – cumprimentara ao entrar.
- Muito bem – respondera Silvia, avaliando o seu
sotaque.
- Obrigado - disse ele. - Gentileza.
- Não - disse ela. – É verdade.
Victor era muito talentoso
Uma nuvem passa enquanto ela pergunta num
canto se ele já tinha se relacionado com uma mulher
mais velha.
Ele tem namorada.
Ela sabe. E sabe outras coisas sobre eles, sobre
ele e Cati.
- O quê? – se espanta Victor.

- Pergunte a seu patrão.
Estava insinuando?
Afirmando.
- Oh não chore.
Silvia não queria que ele se magoasse mas não
teve escolha. Um rapaz tão correto. Não podia permitir
que continuassem a enganá-lo assim. Deixe-me
consolar você.
O cheiro dela. Esse perfume.
Não. A morte, somente a morte.
Cálida a mão que o toca, sabe das coisas. - Não
fale assim, não pense mais nisso.
Silvia.
Pele, carnes, ruído de tecido, peso do tempo.
Escureceu. A luz do poste é quebrada no alto do
muro. O que resta se dilui entre as folhagens.
Centro do decote, joelhos que sentem a terra fria,
por que ela fazia isso?
Precisava de uma razão? Pois bem. Se estivesse
certo queria morrer com ele.
- Quero um consolo também - disse ela.
Victor tenta afastá-la. - Deixe-me em paz.

Não. Morreriam satisfeitos.
Ela fala sério?
A casa de George tem um quê de tétrico.
Então é realmente isso o que quer?
Michele esteve olhando pela fresta da cortina até
esse momento e viu quando Silvia se abaixou. Cheiro
forte que anuncia aparição. Victor se rende. Pede que
ela continue.
Eles não mereciam. George e Cati não mereciam
a dor de Victor.
- Não pare repetiu.
É uma noite limpa, linda, é uma Celba de paz que
eles vêm pela janela da pousada, poucos minutos
desde a saída da casa dos Lens. O efeito do corpo dela
é devastador. Enganam as roupas discretas e escuras
que usa.
O inferno espreita quando na bruma o portão
rangendo se abre.
Eram dedos finos e hábeis de quem digitava bem.
Doutora competente. Na madrugada sombria a língua
fria como o mar de Celba. Triste ainda, extenuado, ele
sentiu o bloco de notas forçando o bolso.
Súbito outro barulho, uma porta.

Assusta-se.
Ao discernir os vizinhos de quarto se pergunta por
que está alterado. Apenas alguns minutos: não mais
que alguns minutos.
Gerard foi receber o Fundo de Garantia e viu
quando subiram. Não sabia como se sentir a respeito.
Chegou a encostar o nó do dedo na madeira, mas
houve batida.
Michele passa em frente ao hall e segue seu
caminho.
Caso prestassem atenção perceberiam que a
cidade estava mais quieta do que costume na
temporada. Caso tivessem acompanhado os
noticiários.
Houve enchentes nas províncias vizinhas. A
cidade estava isolada. Mas os sons são os sons de
sempre, a música dos cafés e o ruído dos geradores,
bombas d água, pessoas, televisão. Não som de rua
ou pneus sobre a rodovia nem ecos residuais de
motores.
Caso tivessem prestado atenção teriam
percebido. Victor porém estava totalmente absorto e
Silvia não estava ali, como nunca está em lugar

nenhum – se parecia livre era exatamente por isso.
Literatura de terceira, pensa Vitor. E a vida não
acontece sem um monitor na frente de Silvia. Vida de
que Cati transbordava. A lembrança dói.
Cati, por quê? Ele a amava tanto, tinha feito tudo
por ela.
Cati e George juntos, a união de seus fracassos,
perdedor em todas as áreas.
- Mas nada impede que você mantenha os planos
originais de Georges. Escreva as novelas, erga o pólo.
Eu te darei uma força.
Casar com Cati não fazia parte do projeto.
Ao escutá-la dizer isso, Victor se livra das
resistências com horror.
Todos irão se lembrar de que era novembro,
poucos saberão que a causadora foi Cati, ninguém
mais ouvirá falar dela.
A cada rosto de Silvia, Victor vê o futuro próximo
que jamais a assustou. Agora ela está assustada.
Mãos trêmulas, língua áspera, odores fortes.
Pensamento e comportamento se haviam desligado
um do outro e os dois de Victor.
Ela não sabia que um escritor podia ser assim.

Ao longo da noite, por causa dos tempos
condenados, Victor pediu que ela sentasse e
levantasse, levantou-lhe os braços e segurou-lhe os
pés, mandou-a se mexer e parar de se mexer, e agora
por favor deite-se.
Então ela lembrou-se de que não gostava de
obedecer.
- Pare!
- É patológico, doutora?
Ah Cati, como a teria feito feliz, pensou ao ouvir
a outra voz.
- Está me machucando.
Silvia só queria de novo estar sozinha. Ansiou
desesperadamente prazeres anteriores, estar em
sossego, sem perturbação além do barulhinho do
messenger; mas é tarde demais, está mesmo
machucando e não é o que ela estava querendo, não
mesmo, que pensamento vulgar, nada mais tem a ver
com o outro Victor, o idealizado, talvez até verdadeiro
um dia.
Quieta.
Os corpo desenvolverão hediondos odores.
Michele vira o bastante em casa para prever

aquelas coisas e viu mais ao segui-los. Mas não o
brilho da lâmina, a sombra do braço. Alguém ouve o
grito, mas melhor fingir que não. Silêncio agora. O
ônibus de Haiktanak . Silêncio de novo.
- Foi tenebroso, horrendo, bem que papai sempre
desconfiou que eram loucos.
Michele saiu da missa de moto no começo do
sermão.
Gerard deseja saber aonde e encontrar quem.
O sino havia tocado. Joana se levantou da cama,
olhou-se no espelho. Mais magra, mais pálida, perdera
mais cabelo. A maconha controlava um pouco a
morbidez da quimioterapia, mas as vontades de
vomitar chegaram súbitas. Seu fornecedor, um jovem
de 20 anos, havia sido preso, estuprado na cadeia e
se suicidara. A irmã de Joana, surpreendida fumando,
assustou-se e tentando fugir foi baleada. As
lembranças se mesclam ao alívio na fumaça.
Desde o final da tarde até o amanhecer mantevese sentada, jogada na poltrona junto à janela. Então
se levantou e lavou a boca. Os olhos encharcados e
vermelhos. Do líquido lacrimal insistente brotaram

lágrimas de verdade. Leva a mão à gaveta, apanha o
permanganato e se perde na contemplação do
vidrinho.
Sarah vai deixar a cidade em definitivo. Tinha
ganhado muito. Teve namorados: homens como o
cantor, meninos ricos da cidade e amou alguns
nativos, como Eduardo. - Vamos - disse ao motorista.
-Estou um pouco atrasada.
Todos viram o táxi pegar a rodovia.
Eduardo pensa se ela sentirá saudades, ao ver o
carro sumindo.
Sarah pensa se Eduardo sentirá saudades, ao velo mais e mais pequenino.
Que jamais volte, pensa Keshia.
Queria ter sido como ela, pensa a senhora Lens;
não, não queria.
Que bunda!, pensa George; que peitinhos!...
Depois daquele dia, um céu rosado ou o assombro
do amanhecer remetiam Michele às descrições sutis e
refinadas de cenas diárias de uma vila de pescadores
nos poemas de Silvia. Lera a obra dela, a pequenina

obra, três livros com edição do autor. Parece que há
em Celba algo que incita à formação de escritores.
Mas Silvia não era de Celba.
Amara o que aquela mulher tinha a dizer sobre
um mundo de noite de núpcias que se prolongam
além do jardim. O pacto suicida a impressionara.
Temeu ficar na capela onde eram velados os corpos.
A vila estava luminosa depois de dois dias de
chuva. A senhora Lens os escuta os turistas indo para
a praia, separados um grupo do outro por uma
posição dos ponteiros e um movimento de luz na
janela. As cores nos quadros retém a novidade. O azul
é aromático; o vermelho incendeia. Um novo
autorretrato será terá um fundo claro e fará dois
estudos do Cristo.
O que se mostrou além da sonolência após o
almoço supõe um tempero especial. Não podia evitar
a visita da filha com o marido e sonhar não é fácil,
sequer desejável.
O que se mostrou além do estrépito noturno recua
ante a notícia do bebê.
Talvez traga, como a própria Michele um dia, um

pouco de alegria à sua existência silenciada. Quem
sabe um neto ajude também a suportar a tragédia de
Silvia, em grande medida sua tragédia também.
Ele estava sentado sozinho à mesa num canto.
Em torno dele, os rostos dos que o julgam, como se
cada um de seus movimentos e expressões
contivessem o seu pecado. No tampo da mesa,
envernizado de velho, as ranhuras da madeira cheia
de inquietas sombras. Começa a sentir o cheiro de seu
suor quando a professora chega. Senta a seu lado.
- Você sabia que a mulher do editor está tendo
um caso? - a voz é baixa e parece confiável.
Ele pede licença e se levanta.
Ela o segue pela rua escura. As lâmpadas dos
postes multiplicam-se nas poças. Casas, oitões
desolados e cornijas conversando com a chuva.
- Por favor, me deixe sozinho, tenho uma
entrevista.
- À noite?
- É. Num jornal.
- Os jornais vão acabar.
- Enquanto não acabam.

Aperta o passo e se afasta. Quem dera houvesse
mesmo a entrevista. Está ficando sem ter o que
comer. E Michele fazendo pós e depois doutorado.
Andou sem rumo e de repente estava ali. Bateu,
lembrando-se do primeiro dia.
Desabafou acerca do desemprego com toda
volúpia da confissão que reprimia.
A senhora Lens finalmente fala. Ele não precisava
se preocupar. Ela falaria com conhecidos. - Enquanto
isso por que você não trabalha comigo?
É que era exaustivo ser agente de si mesma. Está
quase chorando. Ficou resolvido assim.
Que constrangimento! – exclama Michele ao
saber.
Gerard não tinha amor próprio? Como ela poderia
ficar excitada junto de alguém que trabalha para a sua
mãe? Talvez sentisse pena deles, ou inveja.
Havia anoitecido.
Disse a Gerard que iria à casa de Keshia. Ele sabia
que não. O que não sabe é que, como o tempo e o
mar estivessem muito parecidos com o do dia em que
ele ali chegara, as ondas deslizavam direto para
dentro das suas roupas, por causa da noite, dos

tempos, dos braços comuns às poltronas, tudo se
repetindo na janela de onde Keshia vê a amiga, e os
dedos que se insinuam agora são os dele, porque é
ela agora quem precisa de conforto, pois Eduardo foi
atrás de Sarah, só pode ter ido, e o sonho do estranho
passou a ser tudo, mesmo quando não era mais um
estranho e dali não viria mais nada.
A alameda sombria parece sacudida pelo terral,
esvoaçam os cabelos de Michele. Seu ambiente.
Aperta os olhos. Está escuro, não se lembra dessa
árvore. A cidade está crescendo. Tantos prediozinhos
em construção. O barulho do mar. O mar. Crespo,
marrom. Os amigos de George bebem e tocam os
copos num brinde à filha que acaba de passar. Os
postes se acendem no som surdo e a luz desenha as
anfractuosidades no shortinho.
- Ah mas com uma filha dessas...
George sai do bar. Persegue Michele de longe por
um caminho conhecido. Ela entra na casa. Olha
detidamente para Joana.
E o que Michele esperava? Que ele fosse fiel a
uma mulher que ama outro homem?
Michele corre até a janela e vomita, e torna a

vomitar.
Sai e vai ao caixa eletrônico. Georges ainda a
observa.
Pensa na criança. Pensa em como se sentiria
acerca de tudo quando acordasse na manhã seguinte.
Perplexa esteve sentada na cadeira do quarto de
Joana em absoluto desconforto que agora cobra seu
preço em câimbra.
Então por isso. Que amasse sua mãe, os homens
são assim mesmo. Mas sua mãe corresponder, era
impossível. E como Joana, uma puta, foi a escolhida
para a confissão?
Nessas paredes sujas. Nesse lugar infecto.
Então derramou uma lágrima.
O mar. As ilhas ao longe. Um barco. Pescadores
que voltam, turistas que deixam a praia. Nas pedras
mais alguns. Batem fotos. Um tira fotos do barco. Não
vê a hora de fazer um álbum na internet. Movimento
continuo mas ainda lento. Comentam. Quando chegar
a alta temporada. É só um comentário não uma
profecia, todavia há um certo respeito religioso, um
solene silêncio dos que escutam. Então pensam. O

quanto será bom, o quanto revigorante, o quanto de
sexo para compensar um ano enfadonho. A pousada.
Os sonhos, assim que entram. Toda vontade se reduz
agora a um banho quente, tirar esse sal, comer
alguma coisa.
Num entardecer assim agradável Eduardo não
costuma parar para pensar com que roupa sairá,
calçou as sandálias e vestiu uma camisa colorida. Mas
andava cuidadoso. Demorou-se diante do espelho.
Que bom se Keshia percebesse a mudança. Deu por si
com semelhante desejo sequer ligado a sexo. Depois
de um tempo amante de Sarah um rapaz precisa de
sossego. Uma renda, não mais depender dos pais,
sustentar uma mulher. E que mulherzinha adorável
Keshia daria. Fofinha. Por ela valeria a pena deixar de
lado a idéia de ir embora. Valeria a pena voltar.
Terá ela sentido sua falta?
Uma inclinação do sol ao voltar para casa da loja
de roupas em Ikon’ya onde estava estagiando fez com
que Keshia sentisse necessidade de ficar só e pediu à
mãe que a deixasse viajar para a casa da avó. Era
uma casa muito simples, a senhora dormia numa

esteira, havia a mesa, duas cadeiras, um ventilador,
quase nada, mas tudo de que ela precisava. O quarto
que a senhora mantinha ali para a neta, era lugar
santo para as duas. Paredes de pureza tal que
acalmava e inspirava como se o efeito do mar matinal
fosse entorpecente. Após três ou quatro noites, sentiuse refeita para voltar. Chegaram praticamente juntos.
- Oi Eduardo. Entre. Mas não diga que esteve aqui
na frente de Dona Rose, ela pensa que Michele vai
dormir hoje aqui.
Tudo bem.
Que ele por favor esperasse um instantinho que
ela ia se trocar.
Eduardo sorriu imaginando coisas.
Com súbita piedade Joana encarou Michele. O
vento levanta a cortina e surgem as luzes e os efeitos
das sombras. Anoitecer de novembro. O sino da igreja
sela a hora em que Michele pensa Não sou melhor
que ela.
Os olhares se sustentaram até Michele se cansar
e baixar o seu. Mal se sustentava nas pernas...
- Ele veio aqui hoje. Eu só queria que ele ficasse

com nosso filho.
-E ele recusou.
- Não acreditou que é o pai.
E ela nem tentou chantageá-lo...
Cheia de ímpetos de decência, Michele se
ofereceu para cuidar do irmãozinho como um
irmãozinho do filho não-nascido. Poderiam adotá-lo, se
Gerard assim o quisesse.
Por um momento esqueceu...
Rose desceu as escadas que vinham do terraço.
Sarita olhou para ela sem fazer perguntas e ela não
precisava responder para que a empregada soubesse
qualquer coisa que desejasse saber.
Ficou na varanda, olhando a bauínia e a magnólia
na calçada, visíveis a partir de certa altura sobre o
muro e desde um interstício na alvenaria. O relógio de
pulso estava dando a hora cheia. Foi presente de
Georges. “Para você não chegar mais atrasada em
nossos encontros”, dissera ele.
Abriu uma das folhas da porta e ouviu os
passarinhos de galho em galho piando como a recebêla. Retirou a manta num mesmo momento que

chicoteou o pó que a cobria e um rosto apareceu no
cavalete. Olhando direito, o rosto de Gerard era o
rosto da própria senhora Lens.
Uma obra-prima de sutileza, conforme Silvia
dissera poucos dias antes da tragédia.
- Aposto que Georges nem imaginaria - dissera a
amiga – Um pecado perfeito – concluiu com dolorosa
admiração.
“Acho que estou precisando um novo marchand”,
murmurou de si para si. Os quadros atingiram outro
nível. Não sabia se eram quadros melhores. Mas, do
ponto de vista dos apreciadores de arte, dos
verdadeiros diletantes, sem ligação com a questão do
mercado, como era ela mesma, sim, melhoraram,
melhoraram muito.
E a senhora Lens diria mais: não apenas atingira
outro nível no sentido do resultado. Tinha agora mais
prazer no trabalho. E ainda mais: antes, nos hotéis,
tinha certo constrangimento em colocar “artista
plástica” no formulário de hóspedes, como aconteceu
quando elas foram para os Estados Unidos, lembra?
Agora não, pelo contrário, sinto-me à vontade para
escrever “artista plástica”, sinto-me feliz e orgulhosa.

- Saudades, querida – murmurou Rose. - Tanta
saudade...
O caminho da arte mercantilizada, inútil,
hipocritamente o abominava, porque precisava de
independência financeira tanto quanto de se
expressar. Seu rosto no de Gerard oculto alinhou rugas
de expressão e um olhar desolado passou por seus
dilemas de menina. As indagações que fazia Michele,
também a senhora Lens fazia e — como é mesmo que
se costuma dizer? — Onde errara?
- Meu Deus... – orou. - Onde está minha filha?
A aragem vespertina desliza pelo tecido leve da
blusa. Que anda fazendo uma jovem tão doce, com
esse estremecimento de bondade, uma criatura da
grama que arde na canícula?
O desconhecido, cheio de braços, mãos e tórax,
se dirigiu a Michele com sussurros obscenos e súplicas
ávidas. Ela se deixou apalpar em silêncio. Ele a leva
para trás do parque de diversões e agora mostrar-lheá, porque ela quer que ele mostre. Pensará que a
forçou. O destino do homem. A sina do macho. A
satisfação de que precisa.

De tudo que poderia ser atribuído a Michele
ninguém pensaria na capacidade do gesto generoso
após o qual saiu pela orla em final de temporada
andando contra o sibilante vento vespertino. À perda
do amor de Gerard que julgava uma posse análoga à
casa, roupas e carro, seguiu-se despojamento. Faz
muito calor. Sofrem as plantas nos jardins; definham
como enfermos terminais. As bicicletas derrapam na
areia e os rolamentos sobrecarregados não resistem,
enchem as oficinas.
- O calor torna os pneus sensíveis - explicava o
mecânico para uma turista.
Lembrou então Michele de dias semelhantes de
sua infância - em especial aquele em que George
bateu na senhora Lens enquanto as flores se
alquebravam sob sol implacável deslumbrante. Uma
semana depois, choveu depois de meses e Michele
presenciava, como voltasse o pai de uns dias fora,
escondida, pela fresta da porta, as lágrimas de
Georges ajoelhado diante da senhora Lens, pedindo
que ela o perdoasse, que ele jamais faria aquilo
novamente. Chorou tanto que foi consolado por sua

vítima.
O monte coberto pelas nuvens reinava absoluto.
O curso do rio retomou volume e corria do lado leste
da cordilheira. Naquela noite – isso Michele não sabia
com certeza mas podia imaginar – Georges possuiu a
senhora Lens e lhe disse palavras de amor, prometeu
mudar e ser um bom marido, foi a bebida, a maldita
bebida... A senhora Lens fez que acreditou e na
verdade gostaria de acreditar, mas a bebida, pensou,
não modifica a essência das pessoas.
Após ter sumido um tempo enorme, voltou a ser
ouvido o barulho do mar. Ao sul da foz onde se
traficavam escravos, negocia-se cocaína em casas
humildes. Quando ela acorda pela manha, há silêncio
na casa. Michele, menina de seus oito anos, saiu com
seu cão pela praia, esta mesma praia. Não havia
vento como agora.
As manhãs da vila eram guardadas num espelho.
A roupa ainda não tirada dos varais não
tremulava assim, estalando como uma fogueira.
No antepenúltimo dia de seu aviso-prévio, Gerard
Lange decidiu que precisava ver a mãe, ajustar essa

conta com o passado. Não tinha recebido nada do
acerto com o banco, apenas o salário do mês anterior,
do qual restara quase nada. Era uma viagem
relativamente longa, e não tinha onde ficar, não seria
barato, sobretudo considerando que em seguida teria
de fazer outra, para terra prometida, a tal praia. O
departamento de pessoal tinha avisado que haveria
trâmites burocráticos para a liberação do dinheiro e
que, portanto, só cairia na conta dia 7, dois dias
depois do dia do pagamento dos demais funcionários.
Ainda assim, manteve a decisão. Fez contas e viu que,
se fosse e voltasse no mesmo dia (nas mesmas vinte
e quatro horas), dormindo duas noites dentro do
ônibus, e fizesse uma única refeição na cidade do
irmão (com quem a mãe decidira morar), sim, o
dinheiro daria.
Entrou no ônibus olhando para os dois lados,
deleitando-se com o cheiro imóvel das poltronas na
velha penumbra pronta para deslizar em direção a um
novo mundo. Um homem escolhia os passos, pesado,
ao subir os três degraus do veículo e depois uma
mulher com uma trouxa, seguidos de uma
adolescente, decerto filha. Com eles, a imemorial

inveja da segurança e do conforto que ele acreditava
nunca ter experimentado. Em cada luz do terminal,
em cada parente esperando para o adeusinho, seu
mundo agonizante morria um pouco mais, fantasiando
o toque de carinho e um apaziguamento adequado do
desejo, a expressão da necessidade e sua satisfação
personificadas no mesmo feminino fantasma.
Entrando no cantinho de seu lugar após ter
conferido o número da poltrona, pensou que era
questão de tempo ficar como a mãe e, então, como se
faz para manter a ideia de deixar de sobreviver?
A lua seguia o ônibus nas ruas que perdiam
movimento e largura conforme apareciam as casinhas
dos subúrbios, onde parecia haver, sempre,
comportamentos sexuais impróprios, de um filho ou
uma prima, e aversão e culpa, que Michele jamais
manifestará, há que ser dito isso a seu favor,
conforme disse a senhora Lens, preocupada, ao
consultar seu neurologista no dia seguinte ao que
Gerard encarou-a e aproximou os lábios como se fosse
beijá-la.
- Esse meu sobrinho é muito jovem – disse ela
distraída com a flor na mesa do médico.

- Não é assim tão raro - disse o médico, distraído
com o botão da blusa.
- É comum perder seguidamente o fio de um
raciocínio?
- Por que a senhora não diz para seu sobrinho vir
me consultar?
Ele está sentado num canto do café no terminal
rodoviário. Usa uma camisa social listrada azul e preta
com uns quadradinhos, muito bem passada, ele
mesmo passa, é muito bom nisso. Um pouco acima de
sua cabeça há um vaso com uma flor vermelha cuja
sombra oscila manchando a xícara. O primeiro gole
quente se apega à língua e ele só tem esse momento
para pensar o que fazer. Ela não pode ficar à mercê de
meu irmão, pensa, mas sabe que não pode fazer
nada. Então pensou que, assim que a visse, de cara ia
dizer: “Se você queria me chamar de outro nome, por
que me batizou Gerard”?
O policial levava Cati e os dvds pelo braço. “Certo moça, venha comigo, fique boazinha e venha
comigo”. Lado a lado, poderiam estar de mãos dadas
e talvez tenha sido o que o motorista pensou, Quase

atropelei o casal de namorados.
O policial entre duas ocorrências precisa escolher
uma e é no átimo de sua escolha que a moça escapa
pelo meio dos carros, pensando em como chegou a
esse ponto. Não quer mais essa vida, simplesmente
não quer mais essa vida.
As experiências drásticas levam para outra
dimensão, ilumina lugares antes escuros.
- Hei, volte aqui, quando eu te pegar você vai se
arrepender! - as palavras do policial pisam o asfalto
como os passos, ecoam e se perdem, projetam suas
sombras abaixo como o corpo colorido que cavalga
despedaçados sonhos.
Cati escapa pela avenida, a respiração
entrecortada; tacos de botas longas, pelo menos fez
bem em comprar esse modelo, pensa ao dobrar a
esquina. Quando o perseguidor dobra também a rua,
não há nada a ver exceto a multidão que se
comprime.
O irmão de Cati faz as malas lentamente.
- Você não precisa vir comigo. Eu fui deportada,
não você. Eu cuido de mim mesma.

O som do interfone sempre a assusta. Sobe.
- Quem é? - o irmão pergunta, mas já sabe.
- O que ele quer aqui?
- Eu falo com ele, vá para o seu quarto.
No canto esquerdo do quarto há tipo um fuste.
Quando ela olha, o tempo não passou e desde a era
gótica, abrigava o que ela deveria ser de acordo com
sua educação e, agora, segundo o amor.
Ao som da fechadura corresponde um rosto
incompleto. O olhar duro, não, é só o olhar amoroso
de um irmão.
- Eu falei para você ficar longe dela.
- Vou passar meu último dia com ele - diz Cati, se
interpondo.
Ela e Victor descem correndo as escadas. As
sombras de um e de outro se cruzam, atravessadas na
sombra do corrimão. Antes de saírem se olham num
mesmo pensamento.
“Para onde ainda não sei. Mas cuidarei dela como
você pediu”, diz a última frase da carta.
Foi numa sexta-feira à tarde. O lamento do vento
era quente e mais pungente do que de costume. Após

ouvir da arrumadeira o recado da filha, Rose termina
de lavar a louça de uma refeição rápida, enxuga as
mãos num pano de prato que retirou do varalzinho
dos fundos e entra de novo na cozinha apenas para
cruzá-la em direção à sala. Olha para cima, para baixo
e para os lados; inspeciona tudo com olhos
apressados mas cuidadosos. Sei que vou me
arrepender depois, pensa; mas nunca mais terei um
pretexto assim. Enfim sai de casa no momento em
que o sol colocava uma aura quase sonora nas plantas
da varanda. Aos passos se junta o ferro rugoso da
fechadura e logo depois a porta bate e ela estava no
meio do vento.
Mas, quando chegou, o ar estava parado.
Ao ouvir as batidas na porta, Gerard largou o
notebook na mesa da sala e se aproximou. Quase em
contato físico, em notas de olores, desfaleciam.
Refeito da surpresa, ele precisará de um repertório de
expedientes. Não se deixou trair exceto pelo brilho em
seus olhos, mas a senhora Lens não o podia ver, cega
pelo brilho dos próprios olhos.
Parecia que ia chover de novo. O dia reflete nosso
espírito. A senhora Lens acredita que sim. Chove e a

chuva nos penetra. O calor acalora os ânimos.
- Então Michele não vem mais hoje?
Gerard imagina que não, ela costuma dormir na
casa de Keshia quando vai lá à noite.
- Espero que não seja mesmo nada - disse a
senhora Lens.
Não era nada. - Talvez o cachorro.
O cachorro?
- Michele comprou um filhote. A senhora quer ver?
Ela diz que está com pressa, deixou tintas
expostas.
Mas se Michele deixou recado, é provável que
tenha mudado de idéia, que volte logo. Por que ela
não espera um pouco?
- Realmente estou com pressa - a desculpa
morreu sua na quando sentiu o pingo da chuva.
Concedeu. Entrando, agradeceu as flores que ele
enviara no seu aniversário.
- Foi só uma lembrancinha - disse ele, e ela
arrematou sem pensar, por alguma associação de
idéias: – Lembra-se do dia em que você chegou?
Como poderia esquecer? – Eu vi a senhora pela
janela do ônibus – confessou. Uma flor, pensou,

olhando os cachos pendentes da primavera, que
luziam. - Uma flor — deixou escapar, constrangido e
realizado.
— As flores estão destinadas ao sacrifício por
alguns momentos de beleza — disse a senhora Lens,
enrubescendo. — O que sequer é meu caso.
Chovia que nem se ouvia tão fininha era a chuva.
Por trás da senhora Lens, pela janela entrava a noite.
Como Sílvia costumava recomendar na época do ICQ,
depositara seu segredo num poema. O caderno aberto
perante a senhora Lens.
Então soube. Por meios enviesados, é verdade.
Que seria ela a sua vida. E por outro lado não seria.
Porque estavam proibidos um ao outro e só teriam um
ao outro daquele modo etéreo e inexorável.
– Quem é a bem-aventurada musa? — perguntou
a senhora Lens, rezando.
Por que ele ainda a olhava assim? Não era
preciso, ela se entregaria. Ainda bem que escovara os
dentes e fizera bochecho antes de sair.
Mas o tapa no genro negou tudo quando,
sentados no sofá, ele aproximou os lábios dos seus.
Ela se levantou, passou por ele e o quarto

mergulhou por segundos na treva mística que
antecede o êxtase do sexo e as mortes delirantes. As
pernas se liquefaziam na tormenta que durava todo
esse tempo, tirante as tréguas. Chegou à escrivaninha
e a impressão era a de que ele e não ela havia
entrado num quarto estranho, que ele e não ela
entrara por último e, quando ela apertou o interruptor
do abajur como quem tira um riff na guitarra de um
músico famoso, gerou um súbito dourado na pele de
seu braço direito, o mesmo dourado que na testa e no
pescoço se tornava em insights de quase puro branco
no recorte do perfil – a porta bateu primeiro, depois o
clique e depois ela pensou que estava feito.
Viu o assoalho quase vermelho. Três dedos de
cada mão apoiados no vidro do tampo, ligeiramente
dobrados nas pontas, as unhas cortadas rente. O
vestido vermelho, o abajur amarelo, a pele dourada e
todo o resto negro. O som do relógio só agora ficou
nítido, no exato instante em que ela soltou o ar.
Antes de dizer que não havia jamais na vida feito
algo assim, ela tinha se virado e é desse jeito que ele
a vê ao ouvir as palavras.
- Nunca entrei no quarto de outra pessoa, quero

dizer.
As curvas da luz no rosto dela dançam conforme
vai se virando, somem no triângulo entre os ombros e
pescoço, e ele percebe o quanto ela emagreceu. Ela
continua falando enquanto caminha no sentido da
estante, nem um nem outro saberiam dizer falando o
que. As costas nuas, coluna e trapézio sombreados.
Quando torna a se virar para ele, estão praticamente
encostados. A melodia forte e a postura de modelo
tinham desaparecido.
- Sou muito boba - disse ela.
- Por que a senhora está chorando?
- Só você não sabe.
Ela recua um pouco e encosta na lombada de
alguns livros. Ele torna a avançar e diz que sim, ele
sabe.
Anoitecera. Sabe-se que anoiteceu também por
sons, que podem ser os do vizinho ou de um sino. O
próprio silêncio da noite tem propriedades diversas,
como um bronze surdo, uma vela, o movimento da
estrada e o tráfego da cidade se sobrepondo ao
tilintar de talheres e as vozinhas dos bebês. A
corridinha para lá e para cá do cachorrinho no vizinho

de porta (porque com certeza seu dono chegou de
mais um dia de trabalho). A luz de cima ricocheteia
onde em certa época Gerard deixou crescer costeletas
espessas junto ao lóbulo da orelha preso direto ao
rosto. Ela abre a boca e fica tipo bicando com a língua,
a mão em sua nuca guiando ou pelo menos tentando
ou fingindo que está.
De um rosto e outro rosto à mancha tornada
rósea escuridão num átimo. Dos lábios abertos,
contato espantado, leve, toque e recuo, virá a
umidade que irá provocar a paixão esquecida por uns
dias, adormecida – sequer restrita aos momentos
solitários, mas restritas a momento algum – cujo sono
é leve, circular, desde que a situação se crie, como foi
o caso – e a pontinha da língua é o mundo que cresce
segundo os gemidos – vida que se exibe tanto num
como no outro, num diálogo que se apodera aos
poucos de um assunto, análise primeiro lógica e
depois empurrada para regiões ininteligíveis, também
em negror avermelhado, também em fluida mistura, e
todavia não tinham certeza, porque eu faço qualquer
coisa por você, ainda que não dá para confiar em tudo
o que é dito nesses momentos em que a base das

costas está apoiada na estante, no espaço que antes
dois ou três livros ocupavam, um pouco mais apoiada
agora, talvez um ou dois livros a mais, dói um pouco,
incomoda o tecido torcido do vestido bem no ossinho,
entende agora porque eu estava chorando, por que eu
sempre choro, néctar da fruta proibida, agora eu sei,
ou melhor eu acredito, porque saber saber não é
possível, justo ele que não crê mais em nada, justo
ele, mas a mão não está mais sob seu domínio, soltouse sob o vestido vermelho, sentiu o elástico que os
dedos agora pressionam nem dá para saber direito em
que sentido, entretanto a situação é nítida, nos
mínimos detalhes, arrepios, sinais, sardas junto ao
sulco, na cintura, porque não há mais nada exceto
uma certa friagem acentuando o ardor das coxas nuas
na prateleira, e a primavera – porque era primavera e ele estava untado de certeza, embora há pouco não
acreditasse sequer que isso era possível – se um dia
foi possível, deixara de ser quando ele se casou com
Michele, portanto ele não acreditava mais que ainda
pudessem terminar juntos, terminar juntos algum dia,
sabe-se lá, quanto mais isso, quanto mais isso, quanto
mais esse instante passando brusco à invectiva da luz

amarela sob a qual a coxa exposta se divide tal qual a
fatia perfeita de um fruto róseo, macio e de aparência
tão compacta que a luz permanece mesmo em meio a
tantos movimentos.
Ela não pisca, estafada, como quem vai desabar,
sabendo talvez que ainda que desabasse não cairia,
que apesar da pressa das pessoas na rua quase
sempre existe ou seria possível existir o refúgio seguro
de um quarto como esse, o que faz lembrar que ele é
casado, e com quem é casado, e que decerto não
pretende deixar de ser, e que ela é casada, e não sei
bem se isso é uma preocupação ou um alívio ou pura
e simplesmente o ir e vir das estações, dos gostos,
dos deuses e das idolatrias, do ritmo, da música das
plataformas que pára um segundo quando a conexão
cai mas sempre retorna e mais bela após cada
interrupção por causa de algo similar à saudade, e
melhor ainda caso venha após a parada quando um
dos dois dirá “acho que vem alguém” e afinal
percebem que era só um gato – um simples tremor na
estante e outro na mesa, a mão em torno do mamilo e
o polegar o esbofeteando sem parar, tome e tome e
tome, depois a língua substituindo o polegar na

tortura.
Nesse momento ela pôde enfim olhar para ele. Se
conhecem a tanto tempo e é o primeiro momento em
que pode olhar para ele, sem medo, e não apenas
sem medo, mas como olharia para uma pintura, uma
pintura sua, e nem é uma metáfora assim tão forçada,
pois esse Gerard de algum modo é mesmo criação
sua, indefeso diante dela, quase que como se fosse
um bebê, quase que como se estivesse dormindo –
retirando o mamilo da aréola suavemente como o frio
o faria e sugando a segurança oferecida, os lábios
regulando os batimentos cardíacos, e a mão direita
dessa falsa mãe quase desapareceu nos cabelos de
um filho que se mostra rebelde, que saiu de seu
controle e da paz de sua contemplação, descendo, e
mais um pouco, e ela não pode mais olhar para ele,
como sempre, e como nunca.
- Sou velha pra você.
- Não há mais desejável entre as jovens.
– Pare... Sou mãe de...
– Não fale mais, senhora...
O mundo na mesa de centro. O vidro reflete o
rosto. O tecido da saia tão leve. Não foi preciso pouco

mais que um sopro. Joelhos firmes e coxas retesadas.
As costas da perna direita estão manchadas pela luz
morna que define pontos estratégicos em que um
homem se perde e encontra. A alma ali refletida. Ela
parece indolente, apenas parece.
Não são homem e mulher; nem animais nem
seres civilizados.
Fizeram o necessário, agora a melhor parte. Tão
sobremodo simples! Partes sombrias a expõem mas
não importa mais. Submissa porque ainda insatisfeita.
A sala ampla amplamente iluminada. A lâmpada um
sol outrora impiedoso. A luz delineia caminhos, as
ladeiras que sobem e as que descem, as trilhas de
terra batida. Essa subida em especial se beneficia de
tanta luz, depois uma descida íngreme.
Alguém está escutando os sons da noite, os
chilreios, as pedras e as folhas? As moças que passam
são nativas. O carro é o carro do dono da padaria. A
rua está mais escura do que de costume.
A senhora Lens está perfeitamente acomodada à
nova nudez. A gentileza convive em Gerard com
determinação que pode passar por grosseira, como
quando lhe levantou as pernas pelos tornozelos. Que

seja. Não tentará adaptar a realidade à imaginação.
Se for assim então que assim seja plenamente. A casa
e as horas. Ondas nas falésias. A pele mais grossa dos
calcanhares.
Os contornos são fugidios, o assoalho de quando
em vez estremece – ou não será o assoalho. Não
cronologia, mas fragmento. Não a idéia absoluta, mas
algum tipo de aproximação. Sou uma mulher perdida,
pensa. Se eram dois pontos e se o rosto que ela via
hesitando entre dizer algo e não dizer, se esse último
Gerard nascera do primeiro – o estranho do hotel e o
amigo da filha –, então o ciclo perfeito se fechara.
Não se brinca com essas coisas impunemente.
Eis as mãos da dona-de-casa que jamais deixou
de ser. Calosas. Encardidas. Enrugadas de água. As
impressões digitais raspadas por produtos de limpeza.
Casa que era, de tão sua, seu prolongamento: sua
habitação, seus sonhos, seu ser, tudo passava pelas
paredes de sua casa. Era do lar. Teria sido ainda que
não fosse artista. Gostava de trabalhar, odiava não ter
o que fazer. Ninguém poderá dizer que foi por isso, por
ócio. Tudo começou por causa do trabalho. Ela precisa
demais de seu trabalho, não saberia viver de outra

maneira. Quase estava se apaixonando por si própria
quando se apaixonou por Gerard.
Chega afinal o momento. O mar à janela. Gerard
na loucura de contemplar. Não saberia dizer se foi
destino ou a vontade que dobra o destino.
Fantasiaram a tal ponto, com a solenidade da terra em
sua órbita? Choram.
Coberta, dizem na roça, bem se lembra das férias
de infância – coberta, aquecida, luzente, molhada,
derramando-se no ajustamento perfeito entre dia e
noite, entre treva e luz derramando-se, como a manhã
amanhã no horizonte de que essa exclamação é
prenúncio.
Um giro seguido do beijo mais longo. Agora é
questão de tempo. Do máximo de tempo possível, ela
espera. No silêncio refeito santificam o mundo.
Um pelo outro sim, mas o gozo é sempre solitário.
Ao longo da rua, reina a adequação de tudo. As
casas com os vidros batidos e escuros e um recorte de
janelas qual o de igrejas, cada qual tem seu poste e
relógio de energia. Um sedã estacionado em frente.
Mais ao lado o pedreiro logo montará em sua bicicleta
por todo o dia encostada à mal-acabada alvenaria.

Descansará diante da tv. O vidro do relógio de luz no
poste de Gerard gira com a velocidade de uma
geladeira esquecida aberta.
- Meu amor. O que será de nós?
O mundo aos olhos deles renasce, desse orgasmo.
Gek fala de uma cabine telefônica. É um beco.
Essa nuvem cinza é fumaça misturada com poeira
grossa. Dois carros estacionados no cascalho cobertos
de pó. Alguém sai de um deles, duas outras pessoas
entram no outro. Ela fala lentamente, com um sorriso
inexpressivo todavia lembra de fatos de sua infância
que deveriam ser comoventes.
Seu irmão do outro lado interrompeu os
devaneios e perguntou o que ela queria, se estava
sem dinheiro de novo, tentando evitar a parte
constrangedora em que ela dirá que o salário de
professor é ridículo e ela precisa fazer isso ou aquilo
que naturalmente seu salário não cobre. Por que
preciso de uma razão para te ligar? Não posso falar
com meu único irmão?
A questão é que ela não é a única irmã. A questão
é que ele tem uma irmã que é doce e muito simpática,

agradável, e outra que procura ser assim por causa do
dinheiro para drogas e outra que vive drogada e ainda
outra que se encontra imediatamente após o efeito e
em tese não deveria ser falsa ou atribuir isso a um
vício mas ainda assim mente e demonstra um amor
que não sente.
- Ah, então tudo bem, eu devia lembrar que você
não se importa mesmo comigo.
Ela largou o telefone sem sequer bater o
auscultador, que ficou pendurado como o badalo do
relógio que a partir daquele momento passaria a
marcar o tempo que ela iria levar para entrar na casa,
brigar com o homem com quem estava morando e
chegar no hall acarpetado de vermelho como o
corredor no qual o acaba de sumir, com sua camisa
muito branca e engomada contrastando com o verde
escuro do champanhe na bandeja, no final visível que
é na verdade um virar à esquerda diante da última
porta, a frontal, quase no mesmo tom de vermelho
que o carpete como as demais, numa das quais ela
entrará, certificando-se primeiro que o garçom
efetivamente sumiu e depois de que alguma outra
pessoa não esteja saindo de outra das portas; quando

tiver certeza de que não, justo aí o garçom esticará o
pescoço a tempo de ver o casaco escuro atravessar a
segunda porta à esquerda, contando do elevador.
Nesse momento ela levantará a sobrancelha
esquerda quase em circunflexo ao responder quem
era, sim, ela mesma.
O garçom bate na porta do quarto no final do
outro corredor. Michele agradece e pede que ele deixe
a água mineral na mesa. Abre a caixa de remédio,
destaca dois da lâmina, coloca na boca e engole com
o primeiro copo, enche outro que bebe num mesmo
gole, sôfrega. Sai, fecha a porta e refaz o caminho do
garçom até o elevador. Logo está na rua.
O rumor no escritório de George Lens entrou
pelos ouvidos de Michele. Vozes, uma impressora,
pequenos ruídos que lembram a parte rítmica de uma
canção em fone de ouvido deixado sobre uma mesa.
Um ventilador, um ventilador de teto. Um
estremecimento escrupuloso a sacudiu, seu coração
disparou. Estremeceu novamente e a isso ninguém
chamaria de escrúpulo.
O que é isso, esse prazer súbito de
arrependimento?

Michele, a implacável.
Georges não estava em sua mesa. Ela viu a
garrafa de uísque e um copo pela metade.
- Oi, minha linda filhinha – disse ele, vindo do lado
da janela, santificado por uma aura de luz. - O que faz
por aqui?
Ela o encarou. Ele não merecia morte de mártir.
Imaginou-se órfã. Difícil imaginar.
É tão fácil para a mãe de Keshia arrancar
melodiosos sons das teclas, provocam arrebatamento;
e tão fácil para sua mãe fazer desenhos límpidos, que
transmitem emoção genuína. Michele nunca teve
qualquer queda para a arte. Não há arrebatamento ou
emoção nos passos dessa filha que se aproxima da
mesa de trabalho do pai. Abriu a gaveta. Pegou a
arma sem dizer palavra diante de um George atônito.
O Merkur Bay atracara no dia anterior, soberbo, o
casco cinza, puxando para o prateado. O vozerio dos
pescadores saindo para o mar se mistura ao dos
marinheiros, saindo dos botes. Os filamentos
amarelados brilham e rebrilham no bulbo. Há
lágrimas nos olhos de Gerard. A senhora Lens pediu

licença e foi ao banheiro.
Diante do espelho se recompôs. O sutiã não será
necessário. Quisera que dali não se movesse mais,
bela imagem congelada. Está sentada na beira da
cama, só o pé esquerdo sobre o assoalho. Vidros
batidos, escuros. Recorte de janelas qual igrejas. Cada
casa com seu poste e cada poste com seu relógio.
Depois que se reviram na sala, não falaram, num tipo
de silêncio que não pode ser quebrado.
Dois dias depois, sob as orações do pastor, o
corpo de George Lens baixava à sepultura. O mar se
esticava em ondas amanteigadas a quebrar miudinho
na areia, diálogo de homens educados pausando entre
as frases e silenciando à espera da réplica, às vezes
esticada numa explicação, outras monossilábicas. A
senhora Lens colocou as suas mãos pequeninas,
unhas cortadas rente, nas palmas que Gerard em
concha lhe oferecia. Dava-lhe toda a vida pelos olhos
para que ele a possuísse inteira e para sempre quando
se soltassem.
Quando a música voltou a crescer, a igreja surgiu,
uma catedral. O padre é o mesmo do casamento.
Minha filha, diz, mas diz para nada.

Michele não voltou para o hotel. Passou a noite
sozinha, sentada perante o oceano. O reflexo do sol na
maré a surpreende. Entrará no carro e partirá sem
destino. Na estrada da vila a letreiro de néon sem
falhas ainda estava acesso embora já fosse manhã. As
pessoas iam de lá para cá pela extensão da praia.
Os vizinhos viram Keshia chegar. Alguém dissera
que tinha ido ao médico, mas ninguém foi confirmar.
Pôs pela primeira vez o vestido azul que comprara no
natal. Chegou a rir, nervosa, ao se olhar no espelho.
Seu avô descobrirá à noite os medicamentos para
emagrecer. Chamará Keshia para uma conversa séria
e, diante dos argumentos dela, tentará fazê-la crer
que pode ser amada. - Você não precisa disso.
Ela sabe que sim, não era mais uma menina. Eles
conversaram bastante, ela chorou, ele se
compadeceu, mas não teve coragem de avançar o
bastante com o assunto. De repente o silêncio era a
imobilização da vida e do mundo, não havia como
mudar as coisas. Ela ainda fez um mingau de fubá
para ele, e o cheiro ficou por mais de uma hora na
cozinha, chegava aos quartos quando um galo

precoce cismou de cantar.
Quando ela fez dezessete anos, fez uma reunião
só para os amigos mais chegados e nessa noite, uma
ou duas vezes, sentiu-se incomodada com os olhares
de Beefy. Da primeira, ela disse que iria pegar mais
refrigerante; na outra, levantou para acender a luz. Se
houvesse uma terceira teria que dizer alguma coisa,
mas não houve.
Beefy lembra que no começo foi pura criancice.
Coisa idiota. Ela adormecida na poltrona da frente do
trem, ele soltar-lhe um dos seios e fugir. Nunca vira
um desses tão de perto. Ela só deu pela coisa quando
a voz anunciou a estação. Foi rápida ao se recompor
mas estava irreversivelmente devastada. Muitas
viagens comuns, referências. Dias, horários. Jamais
devia ele ter contado ao primo de Keshia, pois o rapaz
nunca foi um primor de discrição e boas idéias.
Agora é tarde, muito tarde.
Ela percebeu o roçar na parte de trás do vestido
quando o trem saiu da última estação antes da cidade
onde o médico clinicava. Ouvia as aves mesmo em
meio ao ribombar ritmado nos trilhos, escuta inclusive
o próprio coração. Os olhos desconfortáveis atrás da

máscara de meia, Beefy viu o terror no rosto dela.
Uma após outra as casas passam à janela. O tecido
não pára. Quem disse que ela estava tão gorda? As
dobras do vestido se sobrepõem.
No futuro mal se lembrará de como chegaram ao
lavatório do corredor, lembra apenas das outras mãos.
Tampouco sabe se o primeiro saiu ou está num canto
observando. Não há espaço para sonho no cubículo,
apenas para sudorese e mal-hálito.
O auge não interfere como deveria, como Michele
ensinou.
A tarde cai nos vales. Rocio nas árvores. Sua
idiota, quem manda ser romântica num mundo
desses? Quem manda ser gorda? Sua vaca. Atenda
seu amo.
Despede-se de uma vida que não se renovará
quando o segundo sai do trem e o primeiro enfim fala
e, chorando, pede desculpas. Ele quer que ela
reconheça a voz, mas ela não reconhece. Não
reconhece a própria voz, acha que é a voz do
tamarindeiro.
O rapaz depois foi à casa dela, pediu para ela
passar um terno. Outra vez convidou-a para ir ao

cinema. Repetiu o convite, uma duas vezes. Às vezes
ela aceitava. Ele via as comédias românticas que
detestava, inutilmente, porque ela jamais ria.

Quando Rose punha o CD, ouvia os pardais. A
música se sobrepôs num belíssimo efeito que causou
estranhamento e provocou um sorriso. Estamos em
março. Celba torna a se esvaziar. A mulher está
estendida sobre o sofá, muito magra, pálida, dava
para ver o caminho das veias azuis. Abeirando-se da
cama, Gerard sentou-se. Ela murmurou o nome dele
com o fio de voz que lhe restava. Por que o amor deve
morrer? Como uma mulher pode ser amada assim e
morrer?

- Eu não quero morrer - diz.
Ela pede que ele não a olhe dessa maneira. —
Deixe-me numa clínica.
— Ficaremos aqui.
Apertou-lhe as mãos.
Onde estavam?
- Em casa.
- As petúnias floriram?
- No Natal. Estavam lindas. Brancas e lilases.
- O açafate também?
- Sim. Lembra estrelas violáceas.
– E os beijinhos?
– No mesmo canteiro em que estão as boasnoites. Parecem uma mesma espécie de flor.
– Seria o “beijo-de-boa-noite”, a flor favorita de
Proust...
Ela fez menção de sentar. Deram as mãos e ele a
abraçou, acarinhando um arrepio nas costas lívidas.
Olharam-se. Porque as flores comuns - pertencentes
mais ao tempo do que ao espaço que as guarda - são
impressões humanas sempre perfectíveis ao longo da
vida, o feixe luminoso atravessou o quarto, passando
entre eles. A cabeça dela pesava, a visão estava

turva, a respiração falhava em intervalos suaves,
como pálidas promessas; e, se o amor, a glória e o
prazer são ávidos fulgores necessariamente efêmeros,
se a luz declina e o dourado na margem do limbo das
folhas arrefece, estavam juntos e, por agora, isso
bastava.
— E a caliópis?
— É a bordadura amarela do quintal.
— Nossa casa... - disse Rose.
A paisagem é de súbito iluminada e de súbito a
esverdeada indicação de arestas recorta a pequena
encosta ao lado da casa vizinha. A rodovia traça o
prateado contorno da varanda enquanto a porta do
carro é aberta manchada pelas luzes da lanterna. A
mulher desce precedida pelas grossas pernas em sutil
equilibro no imenso salto pontiagudo vistas num
relance em toda exuberância pelos segundos que
ficaram expostas. O motorista que ela ultrapassou um
minuto antes se toca de longe ao vê-la caminhando
sob os faróis que indicam o caminho para a garagem.
Ela desvia e depois de três degraus de escada o hall
se acende. A porta da frente se abriu, ela entrou e a
porta se fechou de novo. Sentou-se na sala. Brilho

difuso de um perfil de boneca entristecida, o olhar
distante entre as notas girando em setenta e oito
rotações de melancólica ebonite.
— Nossa casa – disse Gerard.
A senhora Rose Ponce fechou os olhos.

Epílogo
O prédio é antigo, uma construção de adobe. Os
corredores de clorofórmio evocam decadência e
serenidade. Quando alguem sai para o gramado, o
toldo azul clarinho de um pano mais que grosseiro,
velho, desfiando, retira artificialmente a solenidade do
lugar. Uma folha caiu na abaulada e ali ficou, um
presságio, caso alguém assim o quisesse. Como
sempre, ao se aproximar a pascoa, ele olhava pela
janela e via as meninas chegando para a aula e
pensava para onde deveriam ir para passar o final de
semana e que tipo de família tinham e se amavam os
pais e gostavam da companhia deles no domingo
santo. Nesses dias doía a ausência da mãe, morta no
dia anterior. Doía porque ele lembrava. Na maior parte
do tempo não doía. Ela o mandara para a casa de um
tio dizendo que iria alguns dias depois, pois tinha de
trabalhar, mas no sábado à noite avisava que
aconteceu uma coisa, não podia ir.
Caso continuasse lembrando, como um adulto,
saberia a razão de sua mãe e possivelmente a

perdoaria, mas a lembrança era interrompida e as
meninas continuavam chegando para a escola, com os
grossos cadernos debaixo do braço, entre risos e
gritinhos, como se do nada houvesse chegado com
elas um bando de pássaros invisiveis, e ele, muito
tímido, quase desviava o olhar; mas a timidez não era
mais poderosa que isso que se chamará mais tarde
desejo.
Após o abafamento iluminado da tarde, como
estivesse escuro e ventasse, pressagiando a
tempestade, as meninas chegavam com capas
plásticas e guarda-chuvas coloridos e suas faces
vívidas e pálidas ocultavam mundos que ele desejaria
recusar, pensando no quanto o fizeram sofrer com o
velho jogo de atração e desdém. Quão eram
impiedosas! Mas isso ele não chegará a recordar e
nada concluirá acerca da luminosidade.
- Poderíamos ter sido felizes...
As palavras tem o mesmo cheiro dos corredores.
A voz é pastosa e nítida e apesar da distância ele
parece saber o que está falando.
- Estará falando de mim? – espanta-se Michele. Mas como, se amava minha mae?

- Poderia ter aprendido a deixar de amar – disse
Sarita.
A empregada está mais lenta e pesada, porém
mantém a precisão dos movimentos. Para Michele
sempre será uma mulher sábia, a única pessoa a
quem ela ouve. - Poderia ter aprendido a amar você. A
gente aprende ou desaprende qualquer coisa.
Ele olhou a mulher como se estivesse olhando o
nada, como se olhasse qualquer outra pessoa ou
coisa.
Às vezes todos saiam e a casa ficava vazia por
um dia inteiro, às vezes mais. A ex-esposa do
banqueiro levará quase um ano antes de saber onde
ele estava. Coincidiu que o advogado dela era o
mesmo que cuidava dos assuntos de George, ainda
que aos poucos todas as questões se extinguissem
naturalmente, como uma chama quando não há mais
o que queimar. Às vezes todos voltavam ao mesmo
tempo e a casa renascia. Uma vez a impressão é que
estavam dando uma festa.

De um canto do salão, a mulher olhou para
Michele como se a estivesse procurando. Era elegante
e simpática e, pelo vestir, muito rica. Aproximou-se,
efusiva.
- Até que enfim a encontrei! - os perfumes se
misturam ao aroma adocicado do ponche. - Que bom
que você veio!
Uma menina segue a senhora como um
cachorrinho. É jovem, talvez uns dezesseis anos, não
mais que dezessete. Um vestido evasê rosa, delicado,
fiel às formas mas discreto. O sorriso permanente de
adolescente que ignora o que está por vir. Ela está de
casamento marcado, imagine, a minha menina.
Só os mais próximos sabiam que a menina não
era filha deles, embora costumassem dizer que ela se
parecia com o pai, referindo-se ao advogado.
Em meio a um borrão de cores, calor de velas e
desejos de buffet, Sarita se aproximou de Michele
- Como ele está, minha filha?

Na saída do elevador uma sala-de-estar. Um sofá

verde-claro acompanha a curvatura da mesa de
centro onde se destacam flores naturais. Ela demorou
a encontrar o lugar, que lhe parece ideal para todas as
necessidades e conforto do marido. O médico procura
ser discreto ao observar suas reações. O corredor é
amplo e longo. Os passos ecoam e só então ele
percebe que ela está de salto. Não imaginou que
usasse. Foi uma noite muito agradavel. Então é
possível a amizade entre um homem e uma mulher.
Ainda assim o médico, gozando de plena saúde, com
um ótimo salário e a aparência decantada entre as
mulheres, sente inveja do miserável paciente. E ela
sente inveja da moça com quem um dia o médico
acabará casando. Passa a mão no rosto dele antes de
abrir a porta. O médico sorriu.
No quarto com Gerard, ela aceitou a primeira
investida. - Mas você não se cansa nunca? Talvez seja
vontade de ir banheiro. Talvez seja um tipo de tédio.
Na segunda investida, ela fez uma massagem. Ele
ficou calmo e satisfeito. Depois moveu-se e sorrindo
voltou para seu canto.
Aproximou-se da janela iluminada pela luz súbita
e ziguezagueante dos raios. Pode ver o chão de folhas

e esses devem ser os passos da menina. Pega o
fragmento de unha e o sente entre os dedos. Michele
coloca as mãos nos ombros dele, e as mãos
escorregam até o peito.
O beijo chega ao alto da cabeca no momento em
que a manga se espatifa. Os cheiros de manga e
clorofórmio não se misturam. Nem o que ela sente
nos cabelos dele, o xampu que comprara um dia
antes. E pensar que, como o avô, Gerard não gostava
de trovões e ia para dentro com antecedência
paranoica.
Na cadeira alta, se estivesse tudo bem, ele
deveria manter a postura. Esse jeito descuidado diz
que não está. Olhos perdidos não como quem sonha.
Calado costumava ser mas não assim. Isso sequer é
silêncio. Os braços pendidos parecem imitação de
bizarra ave. Michele acertou o apartamento na
tesouraria e voltou para o quarto entre a gente de
branco, cumprimentando a todos como alguém da
casa. Passa pelo janelão da sala de espera e se
assegura de que será um lindo dia de sol.

O leque de Sarita, deitada na caminha de
acompanhante, distribuía pequenas luzes na luz
interna maior, artificial e desencantada, mas agora
reluz ao sol na janela. Foi ela quem deu a idéia de ler
para ele. Michele achou uma ótima ideia, mas
nenhuma das duas tem mais certeza.
A menina da limpeza, no quarto ao lado, o
apartamento do velho polonês, podia ouvir
perfeitamente mas não entende do que falam. O caso
desse senhor é diferente. Por exemplo, ele é
inofensivo, mas não parece ser o caso do homem ao
lado, o marido da jovem senhora. Pelo contrário, e
muito ativo e animado.
- Eu também – diz Gerard.
Uma eternidade depois, Michele diz que sim, você
também era uma pessoa muito boa, e também um
personagem.
Meu Deus... É uma pessoa. É....
- Eu te adoro. Então você é uma pessoa. Um
homem maravilhoso.
Outra eternidade e ela entendeu que não haveria
mais nada. Que havia sido tudo.
Ele pensou tanto nisso mas é ela quem

testemunha. Para ele nem está acontecendo. Sofreu
por minha mãe . Agora nao. Não sofre. Não sabe de
nada.
Num dia e horário definidos, que Gerard não será
mais capaz de lembrar, ainda que tenha sido um dos
momentos mais importantes de sua vida, nesse
momento de dedos e cheiro, nesses corpos, fugindo
de toda a clareza em nome da verdade, nesse horário,
em que havia um sol a pino, oprimidos pelo calor e
pela chuva espreitando do negror que ameaçava no
horizonte, entraram no hotel, e isso em si não foi o
que deveria perdurar.
Porque agora a conhecia o bastante para estar
calmo, para acalentar a ideia de presente, pura e
simplesmente entrar no hotel e garantir o quarto
apenas como abrigo e, ato contínuo, voltar à rua.
Porque se conheciam, ele sabia que ela passava por
esse tempo em que o que se celebra não é a memória
mas o ter do que se lembrar.
Ele cumprimentou o atendente do restaurante
self-service e agora ela sabe que nesse dia ele comeu
arroz e feijão, filé de frango e fritas (que ela

aconselhou que ele trocasse batatas cozidas, mas ele
disse "Só desta vez") e um suflê que soube estranho
como as coisas belas da vida costumam ser.
Sentaram-se.
Na rua ainda estava muito calor mas eles
sentiam a súbita amenidade de um dia de Maio, o
primeiro dia frio do outono, ainda tímido enquanto
prenúncio, por exemplo, da geada nos campos e da
neve no Sul e em Celba e Icoknia será um dia ameno,
quase frio, que regressará quase igual no começo de
outubro.
- Você precisa caminhar um pouco mais depois
que a gente comer - disse ela. -São no mínimo
cinquenta minutos por dia. Claro que eu vou com
você. O que eu faria sozinha no hotel? Sim, te esperar.
Não, que esperar. Vou ficar com você o tempo todo.
Ela falava e a fila de clientes aumentava diante
da comida, crachás após crachás marcavam o tempo
com o ponteiro do relógio, pelo que ele entendeu que
não precisaria consultar o celular no bolso para saber
a hora e reteve a mão que já segurava o telefone
quando saíam para a caminhada já de tarde, horário
típico da chuva de verão que entretanto se mantinha

em algum outro lugar em torno, no negror acumulado
no horizonte sem linha da metrópole.
Ao longo de toda a noite sucumbiram seguidas
vezes, quase uma só, ao desespero que se pode
chamar desejo. Diante dela um atalho sinalizado pela
imagem do médico, a quem ela evitava para que ele
não se desiludisse. Uma versão feminina dele próprio,
de Gerard. Noite dum futuro próximo desse tempo em
que o vira surgir do nada e se aproximar sorridente
para dar um tapa no baseado. E agora casados (ou
como ela costumava dizer – não sem crueldade: ele
viúvo da mãe dela e amante da namorada de seu
medico).
Ela tem andado depressa, falando sozinha.
Precisa se acalmar. Ajoelha-se no sofá. Uma das mãos
sobre o encosto, a outra numa das almofadas em suas
coxas. Essa mão acaricia agora os próprios pés.
Respira fundo. Sou ruiva. Sou cheirosa. Ultrapasso
freqüentemente o limite. Leva o dedo aos lábios, de
leve. Adoro essa música. Adoro qualquer música, se é
a música que está retardando o destino.

Não devia, mas dormiu com o marido. Quer dizer,
com o outro. O que não existe. Olhos e rictos e logo o
deleite que sobe pela barriga e chega ao cérebro mas
cujo centro é no purgatório dos pontos de uma
acupuntura feita para a língua que lambe a cria. Esse
homem. Ela o fitará e desviará o olhar para um
pardalzinho na calçada. Ela, até então a predadora.
Nem teve tempo de colocar a camiseta. Não se sente
culpada. Tudo estava destinado àquele dia e àquela
exposição de meia hora, desde a umidade. O mamilo
apontando o futuro que sem maiores dramas ela sabe
que não haverá.
Então ela percebe que faz muito amanheceu.
Um dia chegou a pensar, malgrado todos os
acontecimentos, que era uma mulher de sorte. As
mãos dela, hoje atarefadas e calosas, são também as
responsáveis pela terapia das carícias - hábeis com
fechos-éclair, sabem ficar espalmadas na parede, em
quartos de hotel da cidade acinzentada ou na última
casa à esquerda depois do moinho, atrás da fileira de
choupos amarelos - arrepios nos braços e as mãos
suadas enquanto o rio corre ao lado da parede escura

de limo.
Ah, menina — disse ele num tom melancólico ao
qual se seguiu a risadinha interrompida e dividida em
duas risadas menores de menino. Menina, menina —
disse ele — e, todavia, não se lembrará do nome
quando pensar nela dias depois e ainda não terá
certeza quando tornar a vê-la, identificando-a antes
pela luz e pelos dedos. Menina, menina — ela se
recosta e as mãos sentem a cintura fria entre o cós
da saia e o início da blusa desprendida.
Depois ele dormiu. E sonhava, murmurando, até
que dá por si e o silencio envolve de novo o aposento.
Não importa. Nada mais importa. São perguntas de
uma criança. As coisas são o que são e o passado não
pode ser mudado.
Mãos trêmulas. O suor frio. A desordem da mente
oca, sem seu habitante mas num corpo sadio, ainda
sadio. O sulco no decote escurecendo e clareando. A
sombra na parede se transformou nele próprio e o
espelho mostrou do outro lado do quarto a copa da
árvore e o balé da cortina. A inquietação do ventilador
de teto em reflexos no metal do freezer. O segredo

das coisas: são, em silêncio. Ela inclusive. Dormindo.
O braço esquerdo dobrado sob o rosto. A mão
esquerda sobre os cabelos. Vou esquecer isso
também?, pensou. Esse cheiro, vou esquecer? Desce
as escadas pensando onde poderia ir. Atravessou a
rua pensando que estar vivo pode ser coisa de mais
uma fração de segundo.
O mato crescera em torno do prédio branco
amarelado rachado em todas as direções. Apenas uma
casa permaneceu de pé. A mó e a pedra continuam
ofegando sobre o bronze desbotado do corpo inclinado
sobre a máquina e o ganido de um cão selvagem.
Veias saltadas azuis nas mãos calosas. Nuvens sem
pressa num céu de chumbo. A porta rangia e rangia
como se tivesse toda a eternidade para ranger. A letra
treme no papel de seda colocado sobre o ultimo
capítulo. “Lembra aquele dia no álamo?”
Quando ler ele pensará Como esquecer?
As goteiras podem ser ouvidas nos intervalos das
hélices do cata-vento. Os cereais costumavam ficar
num monte à esquerda, de onde os trabalhadores do

moinho viam as casas lá embaixo enquanto seus
passos ecoavam no tablado e sonhavam com as
mulheres que estendiam as roupas nos varais. A
moça, que um dia foi a filha em ferias e depois a
herdeira era uma dessas. Shorts de tecidos
encorpados, blusas cavadas, biquini visível.
As cordas que um dia prenderam sacos nos
caminhões balançam nas traves qual pêndulos
Lembranças realçadas pela ruína. A sombra da hélice
girante ainda se projeta no alto da parede lateral em
que na safra o café era secado fazendo as vezes de
um fantasma impiedoso.
Longe ainda o mesmo horizonte azul no começo e
fim dos dias avermelhado para além da linha dos
montes lembrando uma dessas lavadeiras num
momento de repouso ou sensualidade.
Com a cabeça enrolada numa toalha Michele se
sentou e colocou o envelope na mesa e outra bala na
língua e chupou. O trem negro metálico atravessa a
paisagem desbotada pela neblina precedido pelo apito
que antigamente alertava os passageiros. Ela olha
pela janela por olhar, pelo hábito.
Gira o pé sob a mesa e o movimento repercute na

curva da coxa quase encostada na parte de baixo do
tampo, em sutil escurecimento na altura do tensor da
fáscia, no limite da bainha da perna direita do short.
Ouve vozes e palmas na porteirinha. Logo o amigo
está dentro da sala. Oi, como vai, estou bem, levando,
sabe como é, imagina, tudo bem, e você, como está,
com saudades, não paro de pensar em você desde
aquele dia.
- Sei como é - respondeu ela.
E o rapaz continuou falando sozinho olhando para
ela súplice como um cachorrinho sem dono, mas ela
não mais ouvia não mais ouvia porque lembrava...
Ela acabara de perguntar para o gerente do hotel
se havia mensagens e como sempre a resposta foi
negativa. Tinha de assinar um papel e a caneta
falhava e ela sacudiu quando outra mão apareceu
vinda de trás e outra caneta surgia do nada. Ela olhou
para trás e ele disse “Olá, como vai?” e, inclinando o
rosto com um meio-sorriso, ela o abraçou em meio a
sons de alegria e não deixava de abraçar, com
intensidade tal que a mae que esperava para ser
atendida tapou os olhos de sua menininha. Logo
Michele puxou-o pela mão que lhe dera a caneta

(abandonada agora sobre o balcão), olhando rindo
para trás uma ou duas vezes, os oculozinhos de lentes
grossas que ele não conhecia escondendo os olhos
puxados e brilhantes. Então sumiram pelo hall (a bolsa
fazendo companhia aos óculos), enquanto a
atendente gritava “Senhora, senhora”, mas ela se
perdeu com ele por uma porta de vidro, e a mãe disse
“Deixe-a, eu a conheço há muitos anos, o que você
precisa saber”, “o nome completo, a cidade de onde
veio”, “eu termino”, disse a amiga (que agora também
é mãe), até porque ela decerto não vai lembrar agora
de onde veio e de fato ela sabia apenas que (“ele é
bonito”, disse a menininha) estavam ali diante um do
outro de novo (“homens bonitos não são confiáveis”,
disse a amiga com a cara mais séria).
Estavam se beijando como sempre, espere,
espere um pouco, escute, ele se solta, vai para um
canto da sala, junto à janela por onde a luz azulada da
manhã encontra o tecido estampado do sofá – ela
corre atrás e o segura pelo braço, deu certo uma vez
na praia, e a outra no álamo, deu certo uma vez – ela
faz força e ele se desequilibra e cai, ela junto, os dois
no tapete, ela rindo, rindo...

- Pare! - ao grito ela pára. Olha para ele como um
cachorrinho sem dono. – Desculpe - diz ele
- Tudo bem...
E ela de novo pula no pescoço dele, os dois meio
sentados, tudo isso num salão do hotel, mais
reservado que os demais, mas ainda assim um salão
de hotel. “Não, não”, diz ele, quase caindo por cima
dela, já deitada, não, ele a segura pelos dois braços e
a vira, agora sim, pensa ela, graças a Deus, ele a
aperta contra si e a imobiliza dizendo “Escute, estou
indo embora, estou partindo, vou deixar o país”.
- Como assim? - ela faz força para se livrar, as
respirações entrecortadas se cruzam em algum ponto
que no ar indica destino. – Como assim?
- Vou embora.
- Não.
- Não posso mais morar em Celba, nem em
Ikon’ya, nem em qualquer lugar do País, preciso
recomeçar noutro canto, estou sufocado, vou para o
Japão.
Estava muito frio para aquela época do ano,
Michele vestia uma blusinha azul agora toda
amarfanhada, do jeito discreto que lã se amarfanha.

Nalgum lugar lá fora corre um rio. Não, me solta, não,
não, me solta, Calma, se acalme, Você não vai, você
não pode me deixar, Mas foi você que me deixou, foi
você que me deixou...
- Fui eu...
O amigo não entende.
- Você o que? - por um minuto o amigo entendeu
que era ela que não parava de pensar nele, mas logo
entendeu que não, então o que? - Você o que?
Ela olhou o amigo e, não mais conseguindo
segurar a lágrima, calou-se pensando Fui eu...
A vida financeira de Gerard estava caótica. Tinha
alguns planos que julgava realistas, porém a vida
tratou de desmentir essa ideia ponto por ponto. A vida
afetiva igualmente destruída pela série de loucuras. A
princípio, sequer lia as cartas. Pensou em queimá-las
mas guardou numa caixa de sapatos dentro de uma
gaveta. A caixa encheu mas não chegou a
transbordar, como no começo dava essa impressão. E
quanto menos Michele escrevia, mais ele sentia falta
dela. Preciso revê-la, pensou. Decidiu.
Ela escutou pela porta entreaberta os passos
largos no corredor ressoando com a entonação de

uma voz triste. Ele se aproxima e a enlaça com o
braço esquerdo em seu dorso e sem perder tempo a
direita por baixo do vestido vermelho desbotado. Eles
são a mesma silhueta trêmula contra o abajur, a
mesma sombra sobre a colcha e os enormes
travesseiros, o eco que nasce sob os pés dos dois é
um só se propagando pelo assoalho. Ele ergueu os
ombros e suas mãos enraizadas no corpo que sabe
agora é tão grande se soltaram apenas para afastá-lo
de si o lapso necessário, e ela precisa acotovelar o
colchão com dois pequenos golpes simultaneos
movendo as franjas de chenille. Ela riu sorriso típico
de espanto e diz para ele parar, virando-se e ficando
rosto com rosto, não para um beijo e entretanto é o
que está acontecendo, pare, não, e uma vez que os
cotovelos são recolocados na colcha, o vestido é
levantado num perfeito e silencioso vento, não, eu
disse não, garante ela virando e ficando novamente
de frente, eu disse não! – e o estalo de sua mão no
rosto dele ilustrou o que ela dissera.
Lendo o que acabara de escrever, ela preenche os
silêncios quase gritando, me perdoe, eu não sabia,
pensei que era diferente, que você não me amava,

que queria apenas, o que eu mesma queria, eu não
sabia, repetindo em outras palavras o que dissera,
gritando, naquele dia, à porta do boxe do chuveiro,
misturando as palavras à ducha forte e quente, eu não
sabia, não sei ainda, podemos falar sobre isso, o vulto
dela embaçado do outro lado do acrílico em meio à
fumaça com o cheiro característico de sauna
acrescentado ao cheiro de corpo, uma parede de água
entre eles, e assim continuaria ao longo do tempo até
que um dia ele oferecesse a caneta em substituição à
que estava falhando, naquele hotel. Agora ela precisa
se bastar e pensar que ele chegará no meio da noite
estão ele e a noite em dois dedos que se revezam, ali
e na carta recebida. Relê: “Acho que estou doente”.
Quando amanheceu ela já estava esperando o
ônibus. Na viagem ela chegou a pensar no pior sem
sequer saber o que pudesse ser o pior. Uma coisa era
igual: corria para ele, esvoaçante. Em nenhum
momento tomou conhecimento do que se passava à
sua volta até chegar ao hospital. Ele havia falado
antes “delegacia”, o que só a confundiu mais, mas
sem abandonar o caminhar balouçante a que o

vestido de organza curto ditava o ritmo. Já tinha
chovido, anoiteceu estrelado e voltou a chover.
De onde as mãos dele sabem aquelas coisas, se
está tão mal?
Estava quase irritada quando o viu. Foi o olhar do
medico. Tentou antes se acalmar do que entender.
A delegacia estava vazia exceto por ele, o
delegado e um auxiliar. Nada que devesse estranhar.
Daquela vez na Argentina, quando pediu para dormir
numa cela por causa do frio, quando era mochileiro.
Tinha o que, uns quinze anos? Lembranças mais
nítidas conforme mais remotas. Vultos guardam a
porta atrás do vidro batido. Na segunda resposta o
homem perguntou o que havia tomado. Se estava de
gozação. Gerard endireitou-se na cadeira, não de todo
desconfortável. É só uma questão de postura, sempre
pensou que tudo é questão de postura. Tornou a olhar
o homem que o encarava e lhe pareceu que havia
uma espécie de compaixão em seu olhar duro. Pensou
até em dizer que não estava querendo se fazer de
vítima, mas entendeu que não faria diferença.
- Sim – disse - na capital, em Hattanak. O senhor
conhece?

Quando parou de chover, o reflexo da janela
agora silenciosa misturava-se ao ruído enferrujado da
porta aberta.

O primeiro dia das férias do médico, e ele
inventara de procurar emprego na capital. Significa
que tem outra, uma namorada de verdade, nao uma
esposa casual e dispersa como eu. Mas não. Telefonou
para ela, deu o nome dela no hospital, apenas ela está
ali, e na condição que é sua, oficial, sem bricadeira.
Nesses momentos queria pedir ajuda a mae. Se
tivesse viva, ela saberia o que fazer. Era meio
tresloucada mas saberia. Oh Meu Deus o que importa.
Importa é que ele não corre perigo.
Transbordando em lágrimas invisiveis, Michele se
inclinou e levou os braços para o abraço. - Querido —
diz ela. - Meu eterno menininho.
- Querido - ela vai dizer, mas se interrompe. Ele
não tem mais medo dos raios. - Então fique ai, se
assim prefere. Se ao menos pudesse ver o que ele vê.
A menina se abaixa e estica as meias com os

longos dedos ágeis e descansados de quem nunca
lavou o prato que comeu. - Pelo menos isso, Michele costumava dizer Sarita - Pelo menos isso.
- Foi aqui – diz Michele entredentes numa sutil
curva dos lábios.
Sarita cochichou com ela em resposta e depois
disse: - O que aconteceu em seu primeiro dia na
cidade?
Como ele olhasse para Sarita com a doce
expressão alienada de uma criança que nao sabe o
que dizer, ela disse: - Tudo bem. Chega mais. E,
olhando no fundo dos olhos de Gerard:
- Meu nome é Eduardo. Essa é Michele.
Depois, olhando nos olhos de Keshia, cheios de
lembranças:
- E essa é a Keshia, sua melhor amiga.

FIM
Haght’anak
Beefy
Gek

Fábio
Eduardo
Keshia
Michele
Leiteiro
Cronelin
Christine