FAAC – FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO

DCSO – DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

UNESP – UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO”

Jornalismo Colaborativo: uma análise sobre o conteúdo colaborativo
do Overmundo. Gleice Bernardini

Bauru 2009

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Gleice Bernardini

Jornalismo Colaborativo: uma análise sobre o conteúdo colaborativo
do Overmundo.

Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada junto ao Curso de Comunicação Social habilitação em Jornalismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita” Unesp, como requisito parcial para a obtenção do título de bacharel em Jornalismo.

Orientador: Prof. Dr. Ricardo Luís Nicola

Bauru 2009

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Gleice Bernardini

Jornalismo Colaborativo: uma análise sobre o conteúdo colaborativo
do Overmundo

Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada junto ao Curso de Comunicação Social habilitação em Jornalismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita” - Unesp, como requisito parcial para a obtenção do título de bacharel em Jornalismo.

________________________________________ Prof. Dr. Ricardo Luís Nicola Orientador

COMISSÃO EXAMINADORA

_______________________________________ Profa. Ms. Vanessa Matos dos Santos Unesp - Bauru

________________________________________ Prof. Dr. Pedro Celso Campos Unesp - Bauru

Bauru, 13 novembro de 2009

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DEDICATÓRIA

Ao Major (in memoriam)

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AGRADECIMENTO

Tantas pessoas, pouco espaço. E um problema: memória curta. Caso eu esqueça e não cite alguém que me perdoem. Pode ser clichê, mas é essencial: agradeço á Deus. Deu-me a dádiva da vida, me deu o presente de ser quem sou e ter a família que tenho. Aos meus pais, Gerson e Ângela, que me proporcionaram as condições para chegar onde estou. À minha mãe, minha base, meu alicerce, meu tudo. Às suas noites de sono perdidas, horas passadas no sofá me esperando chegar. Às suas preocupações, orações e ajudas. Agradeço ao meu irmão, Geferson, que me ensinou o caminho, me levou e me buscou muitas vezes nos vestibulares e aulas. Agradeço aos meus amigos, presentes e ausentes. Da infância, da escola, do cursinho, das baladas, faculdade e trabalho. Compreensivos ou não, cada um a sua maneira contribuiu para eu chegar até aqui. Emprestaram-me ombros, ouvidos e idéias. Sou hoje um conjunto dos pedacinhos de cada um. Enfim, agradeço a todos aqueles que de alguma forma, e que não me lembro agora, não por arrogância, mas por memória fraca mesmo, me ajudaram, me ensinaram, caminharam comigo. Obrigada!

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(...) as sociedades que fazem perguntas e conseguem respondê-las são mais saudáveis do que aquelas que simplesmente aceitam o que lhes é imposto por um espectro estreito de especialistas e de instituições. Chris Anderson.

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RESUMO
Esta monografia tem por objetivo analisar a reconfiguração do jornalismo a partir da participação direta do público em geral na criação e publicação de notícias em um site de conteúdo colaborativo jornalístico. O objeto de análise é o site colaborativo Overmundo, com recorte na editoria Overblog, sendo utilizada a análise do conteúdo colaborativo enviado pelos cidadãos-repórteres no período de 15 a 30 de junho de 2009. Como suporte metodológico para a análise dos artigos selecionados, quanto à seleção e construção das notícias, utilizamos obras teóricas com os preceitos de Web 2.0 e cibercultura, através de conceitos e estratégias pregadas por autores da área da comunicação na rede mundial de computadores. O desenvolvimento da monografia teve apoio da observação do canal colaborativo e entrevista com o coordenador responsável pela edição da produção dos usuários do Overmundo. A pesquisa aponta que os cidadãos-repórteres adotaram os critérios clássicos do jornalismo, como a novidade e a notoriedade das personalidades envolvidas nos fatos e os artigos exploram o caráter informativo. Ficou demarcado também a alteração dos papéis dos jornalistas passando a serem organizadores dos fluxos de informação, e que o conteúdo produzido pode ser considerado como conteúdo colaborativo jornalístico.

Palavras-chave: Cibercultura, webjornalismo, conteúdo colaborativo, Overmundo.

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ABSTRACT

This work aims ate analyzing the reconfiguration of journalism by the direct participation of the public in the creation and publication of news in a site of colaborative journalistic content. The object of analysis is the site Overmundo, mre specifically the section Overblog, being used the analysis of colaborative context sent by citizen-reporters in the perid between june 15 and 30 of 2009. As for the methodological support for the analysis of the selected articles, in relation to the selection and construction of news, we used theoretical works about the Web 2.0 and cyberculture, through cocepts and strategies defended by authors of the area of communication in the world wide web. The development of this work was supported by the observation the colaborative channel and an interview with the cordinator who is responsible for the edition of the production Overmundo’s users. The research clains that citizen-reporters adopted the classical criteria of journalism, such as news and notoriety of the personalits involved in the facts and the articles explored an informative character. The alteraton of the role of journalists was also remarked, onde they became organizers of the flow of information, and that the content which is produced may be considered as collaborative jornalistic content.

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SUMÁRIO
Introdução 1. Definições e conceitos 1.1 Ciberespaço: O que é? 1.2 Características da cibercultura 1.2.1 Interatividade 1.3 Cibersociedade 1.3.1 A febre dos blogs 2. Vários nomes para um mesmo conceito 2.1 Ciberjornalismo 2.2 Jornalismo open source ou participativo 2.2.1 Legislação e direitos autorais 2.3 Jornalismo colaborativo 2.4 Conteúdo colaborativo 3. Overmundo 3.1 A análise do Overmundo 3.1.1 Os números da análise do Overmundo 4. Considerações Finais 5. Referências 6. Apêndice 6.1 Entrevista com Viktor Chagas 7. Anexos 7.1 Matérias com repercussão na grande imprensa 7.2 Matérias sem formato jornalístico 8. Glossário 12 14 16 20 23 26 30 34 39 42 47 51 54 59 70 76 91 95 99 100 104 105 114 118

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LISTA DE FIGURAS
Figura 1 Figura 2 Figura 3 Figura 4 Figura 5 Figura 6 Figura 7 Figura 8 Figura 9 Figura 10 Figura 11 Figura 12 Figura 13 Figura 14 Figura 15 Figura 16 Figura 17 Figura 18 38 38 62 63 65 66 67 67 68 69 69 85 86 87 87 88 89 90

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LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 Gráfico 2 Gráfico 3 Gráfico 4 Gráfico 5 Gráfico 6 Gráfico 7 Gráfico 8 Gráfico 9 72 78 79 80 80 82 83 84 86

LISTA DE TABELAS
Tabela 1 Tabela 2 Tabela 3 81 83 84

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INTRODUÇÃO
A internet, como é conhecida a rede mundial de computadores alterou profundamente as práticas sociais. Com o desenvolvimento de novas tecnologias de informação e comunicação, na década de 1970 houve um grande avanço criando-se novos tipos de interação entre os indivíduos e o meio sócio-cultural, além de novos formatos e suporte comunicacionais. Começam a existir novas possibilidades de relações humanas que antes eram somente encontradas em nosso cotidiano nos meios de comunicação de massa como o Rádio e a TV, e ainda assim, muitas vezes de forma superficial. Dentre estas, intrigou-nos a forma de produção de conteúdo que este meio de comunicação agora trabalha, isto é, multidirecional e sem filtros, num sistema definido por Lévy (1999). A web, agora com uma forma de mais fácil utilização, permitiu a inserção de novos usuários. Esse fenômeno ficou conhecido como Web 2.0. E é nessa nova plataforma que o jornalismo é transferido para a rede, criando assim o jornalismo digital. Como salienta Henry Jenkis em seu livro Cultura da Interface(2008), “palavras impressas não eliminam as palavras faladas”. Assim, cada nova forma de comunicação que surgiu obrigou as demais a conviverem harmoniosamente. O autor deixa claro que os meios já existentes não estão sendo substituídos, mas, transformados pelas novas tecnologias, agregando-as conforme suas necessidades. Muda-se o meio, muda-se também a forma de fazer jornalismo. A web, com sua característica interativa, altera o modelo comunicacional um – todos do jornalismo tradicional e passa para uma estrutura todos-todos (Pierre Lévy, 1999). Estas transformações podem ser vistas em blogs, listas de discussão e códigos abertos, que possibilitaram ainda a interação entre os usuários e as mídias e ofereceram ferramentas para a participação dos sujeitos na produção de notícias. Cria-se, assim, o jornalismo digital participativo que utiliza a interatividade, possibilitada pela internet, para que ocorra a participação ativa do usuário na criação e recepção de notícias.

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E é sob esse viés que esta monografia se articula: destacando conceitos e definições, no primeiro capítulo sobre o surgimento da internet, conceitos sobre cibercultura, cibersociedade, ciberusuário, etc. Parte-se no segundo capítulo para uma discussão sobre o jornalismo na rede. No que tange à pesquisa específica sobre o jornalismo colaborativo, discute-se como a cibercultura e as novas tecnologias influenciaram a produção do ciberjornalismo e/ ou como os veículos de comunicação se relacionam com o público, uma vez que o sistema todos – todos aliado aos novos dispositivos tecnológicos (mp3, máquinas fotográficas digitais, aparelhos celulares, entre outros) potencializaram a produção de conteúdo na Web transformando os leitores em co-autores na produção de conteúdo jornalístico. Porém, estudos que analisam “o quê” e “como” os cidadãos-repórteres produzem informação na rede ainda são muito recentes. Nesse sentido, são poucas as teorias existentes e o tema ainda é muito pouco abordado pelos acadêmicos. Após um estudo teórico sobre jornalismo digital iremos analisar nosso objeto de estudo, o site colaborativo Overmundo, tendo como recorte a editoria Overblog e analisando o material enviado pelos usuários no período de 15 a 30 de junho de 2009. Iremos verificar se esse conteúdo colaborativo, ou seja, produzido por pessoas comuns, sem formação jornalística, e que recebeu críticas e/ou sugestões para ampliação ou correção dos fatos relatados, pode ou não ser considerado como um conteúdo jornalístico em relação aos critérios de noticiabilidade empregados. A prática do jornalismo open-source, participativo, colaborativo e conteúdo colaborativo; suas características, suas diferenças, seus desafios, oportunidades e experiências serão abordados no segundo capítulo, destacando, também, a definição conceitual que o jornalismo colaborativo assumirá neste trabalho. E no terceiro capítulo, utilizando os conceitos de noticiabilidade e valores-notícia, através de uma revisão dos conceitos adotados pelos estudos de comunicação, faremos a análise do conteúdo selecionado. Por fim, no último capítulo, faremos a apresentação e discussão dos resultados encontrados.

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1. DEFINIÇÕES E CONCEITOS

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1. DEFINIÇÕES E CONCEITOS

Este capítulo tem como objetivo conceituar e trazer uma base dos conceitos utilizados posteriormente no decorrer dessa monografia. Expondo de forma sucinta o surgimento da internet, seus avanços tecnológicos, a relação da internet e o jornalismo, iremos definir cibersociedade, cibercultura e cibercidadão segundo os parâmetros a serem utilizados na pesquisa. Para tanto, citaremos os conceitos de interatividade e o início do ciberjornalismo na internet: os blogs.

A internet, conhecida como a rede mundial de computadores, e denominada Web1, permitiu muitos avanços em vários meios da sociedade. Desde o seu surgimento, na década de 1970, nos laboratórios das universidades, a web passou por atualizações em seus formatos e interfaces para melhor atender os anseios de uma comunidade que migrou para o chamado meio online. O que só era possível de entender por especialistas da informática, os chamados nerds e hackers, tornou-se disponível para todo o público em geral, de uma forma mais clara, com interface convidativa, e mais rápida. Esse fenômeno, que permitiu a inclusão e a criação de novos usuários, ficou conhecido como Web 2.0. O pesquisador Joel Minusculi (2009) em sua monografia explica que a idéia de compartilhamento de informações entre pessoas na Web é debatida desde a sua criação “quando Tim Berners-Lee propôs em 19892 um sistema de informação elaborado de documentação e colaboração entre investigadores e cientistas do
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É importante lembrar que web e internet não são a mesma coisa. Apesar de serem usados muitas vezes como sinônimos, seus respectivos conceitos são bem particulares. Enquanto a internet é uma grande rede de redes de informações, que gerencia a ligação entre os computadores em escala global, a web (World Wide Web) é uma das muitas maneiras de acessar e organizar as informações que circulam dentro da grande rede mundial de computadores. A web suporta três principais funcionalidades (http, url e html) que são linguagens (protocolos), que permitem traduzir informações dos computadores (em código binário) nos navegadores (em interface gráfica nos browsers). Outras linguagens são o e-mail, o FTP e o p2p – estes últimos não sofreram grandes mudanças ao longo do tempo, pois sua função não é tão complexa quanto a parte visual da web.

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O texto original da proposta pode ser encontrado no site de Tim Berners-Lee, no endereço: http://www.w3.org/History/1989/proposal.html

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Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN, na Suíça). (p. 23)”. Deste momento em diante, vários pesquisadores da área se empenharam para desenvolver sistemas no protocolo Web. Esse desenvolvimento das tecnologias, tanto de informação como de comunicação, na década de 1970 proporcionaram avanços e novos tipos de interação entre os indivíduos e o meio sócio-cultural, criando dispositivos informacionais, como cita Lévy (1999) “independente da mídia, da modalidade perceptiva em jogo ou do tipo de representação transportada pelas mensagens”. Já o “dispositivo comunicacional” de Lévy “designa a relação entre os participantes da comunicação”.

1.1- Ciberespaço: o que é?
O termo “ciberespaço” foi criado por William Gibson, em 1984, para seu romance de ficção científica Neuromante, sendo designado como o universo das redes digitais onde ocorreriam batalhas e conflitos mundiais definindo-se novas fronteiras econômicas e culturais. André Lemos, em seu livro Cibercultura (2007), parte da idéia que:
O ciberespaço é a encarnação tecnológica do velho sonho de criação de um mundo paralelo, de uma memória coletiva, do imaginário, dos mitos e símbolos que perseguem o homem desde os tempos ancestrais. Nos tempos imemoriais, a potência do imaginário era veiculada pelas narrações míticas. Eles agiam como um verdadeiro media entre os homens e os seus universos simbólicos. (p. 128).

Ou seja, o ciberespaço é a denominação de um “mundo paralelo”, a fantasia de uma segunda vida criada e manipulada, como um avatar3, onde se podem realizar as fantasias e desejos que no “mundo real” não seriam possíveis. O autor diz ainda que o ciberespaço é resultado das relações entre tecnologias informacionais de comunicação e a sociedade, citando essa relação como a “gênese da cibercultura”, pois, esse encontro modificou as dinâmicas sociais. Modificando profundamente as práticas sociais de comunicação, a internet desencadeou, na década de 1970, um forte desenvolvimento das tecnologias de
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Representação pictórica de si mesmo que o internauta http://www.dicionarioinformal.com.br/definicao.php?palavra=avatar&id=18986

usa

em

ambientes

virtuais.

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informação e comunicação, o que proporcionou vários avanços e a criação de novos tipos de interação entre os indivíduos e o meio sócio-cultural, além de novos formatos e suportes comunicacionais. Assim, podemos verificar, através deste meio, diversas possibilidades de relações humanas que antes só eram encontradas em nosso cotidiano e, raramente, nos meios de comunicação de massa como a TV e o Rádio. Entre as relações de maior influência está a relação entre o media e o público, pois, a característica interativa da Web vai além do modelo comunicacional um - todos, até então utilizado, passando para uma estrutura todos - todos (Pierre Lévy, 1999).
A imprensa, o rádio e a televisão são estruturados de acordo com o princípio um-todos: um centro emissor envia suas mensagens a um grande número de receptores passivos e dispersos. [...] O ciberespaço torna disponível um dispositivo comunicacional original, já que ele permite que comunidades constituam de forma progressiva e de maneira cooperativa um contexto comum (dispositivo todos-todos). (p. 62/63).

Fica evidente assim um dos papéis do ciberespaço: uma alternativa para as mídias de massa clássicas, como a TV, o Rádio e o Impresso devido à liberdade de se expressar e difundir a versão dos fatos, inclusive com imagens (fotos e vídeos) e sons, sem a intermediação dos media, e pode ocorrer a comunicação de via dupla, modelo todos - todos, enquanto que nas mídias tradicionais a comunicação fica, na maioria das vezes, restrita ao modelo um – todos. É o que Lemos (2007) procura evidenciar em seus trabalhos, citando o ciberespaço como um “hipertexto mundial interativo” onde cada pessoa, sozinha ou em grupo, pode modificá-lo, alterando, adicionando ou retirando partes, “como um texto vivo”. O autor expõe a idéia de que o ciberespaço é formado como um grande aglomerado de redes, sem núcleo, vários conjuntos unidos por suas comunicações. Como exemplo, para desenvolver sua teoria, utiliza a imagem de um rizoma como sendo a rede descentralizada, se ramificando e crescendo “de acordo com a dinâmica de suas conexões” (p. 136) diferentes das “ramificações arborescentes” que possuem uma hierarquia e um sistema centralizado.

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Assim, o ciberespaço, comparado ao rizoma pelo autor, forma conexões, ramificando suas estruturas e “caracterizando-se como sistemas complexos e autoorganizantes”. (p. 136). Isto nos deixa cada vez mais claro que o ciberespaço é um conjunto de redes, onde uma rede é unida à outra pelas comunicações que se estabelecem entre si. Estas são feitas por um meio de comunicação interativo através dos usuários. O mesmo que ao ler um livro na rede, navegar através delas – pelos seus hiperlinks, hipertextos, links etc – visualizar imagens, vídeos, sons, dar download – baixar – ou upload – deixar disponível na rede - está modificando, ampliando ou reduzindo partes desse universo, “um espaço sem dimensões, um universo de informações navegável de forma instantânea e reversível (André Lemos, Cibercultura, p. 128)” caracterizado como parte principal da cibercultura atual. Qualquer pessoa do mundo, ligada a rede e a qualquer horário, pode se comunicar com qualquer outra pessoa e/ou instituição para que se coordenem, troquem, incluam, excluam, consultem e juntem conhecimento em uma memória comum, armazenada num disco virtual ou num computador de acesso liberado a todos. Segundo Lévy, “o termo especifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo”. (p. 17). No ciberespaço perde-se a idéia de integridade do documento. Assim como num jornal impresso a matéria é divulgada por inteiro numa única página ou segue uma seqüência em que não se perde o início e o fim, no ciberespaço isso deixa de ser uma norma. O uso de hiperlinks4 faz com que o usuário tenha mais liberdade para a navegação e a leitura. Esse uso faz que com se remodele a estrutura de navegação, pois se pode começar a ler do meio, do fim, do início ou de onde se desejar, sem que se perca a noção do fato noticiado, tornando-se o fundamento da rede. À medida que os usuários adicionam – postam - conteúdos e sites novos, esses passam a fazer parte da rede, ao mesmo tempo em que outros usuários descobrem
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Palavra, expressão ou imagem que permite o acesso imediato à outra parte de um mesmo, ou outro documento, bastando ser acionado pelo ponteiro do mouse. http://dicionario.babylon.com/Hiperlink

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o conteúdo e se conectam a ele, fazendo novos hiperlinks ao documento anterior, criando novas conexões. Estas associações fortalecendo-se em função da repetição ou da intensidade, ou seja, acontecendo cada vez com mais freqüência e mais rapidez, faz com que a rede de conexões e a atividade coletiva de todos os usuários cresçam. Como qualquer outro meio de comunicação, o ciberespaço também passou por muitos avanços e acabou sendo dividido em Web 1.0 e Web 2.0. Essa divisão não é muito explícita, porém fez-se mais para conhecimento acadêmico e como forma de facilitar o estudo. A Web 1.0 trabalhava com o modelo um – todos. Devido ao seu caráter experimental e a grande desconfiança exercida pelos meios de comunicação tradicionais, o que se fazia era apenas “copiar” o material (notícias, matérias, documentários, vídeos) feitos para as mídias e “colar” na rede. Ou seja, um editor - seja de um site de notícias ou site pessoal - colocava o conteúdo num site da Web para que muitos outros lessem, mas a comunicação terminava aí. Não era possível dar a sua opinião do fato noticiado, não havia um intercâmbio de informação. O usuário apenas recebia a informação e não podia comentá-la o que fazia com que a Web fosse apenas mais um meio de se informar, mas não de opinar e interagir. Devido a esse modelo, a rede não foi tão utilizada. Porém, com a implantação da Web 2.0 esse cenário se reverteu. O novo modelo, criado com a inserção de ferramentas que não apenas permite que “outros” comentem e colaborem com o conteúdo publicado como também permite que os usuários dêem suas opiniões, ou, se não satisfeitos, que eles mesmos, montem seu próprio conteúdo para a rede. Esse é o ponto evidenciado pela pesquisadora Carine Roos (2009) em sua monografia sobre as percepções dos jornalistas sobre as mídias sociais:
Um dos princípios fundamentais da Web 2.0 é uma arquitetura de participação, que prevê a incorporação de recursos de compartilhamento e interconexão nos serviços oferecidos pelos websites. Essa arquitetura visa aproveitar a “inteligência coletiva” gerada pelos usuários dos serviços. Outro princípio é que os serviços se tornam melhores na proporção em que são usados por mais pessoas. (ROOS, 2009 apud TRASEL, 2007, p. 51).

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A Web 2.0, enfim, proporcionou a abertura necessária para que ocorresse a passagem do jornalismo para a internet modelando o webjornalismo que veremos adiante.

1.2- Características da Cibercultura
André Lemos (2003) cita sua definição de Cibercultura “como forma sócio-cultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônica que surgiram com a convergência das telecomunicações com a informática na década de 70”.(p. 12). Podemos dizer, então, que o fenômeno da cibercultura não é algo que se criou do dia para a noite, mas, foi surgindo com os avanços tecnológicos, naturais e esperados pela população que busca modificar, melhorar ou mesmo criar novas técnicas e aparelhos que alterem e melhorem suas vidas. Para Lévy (1999) cibercultura, “especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço”. (p. 17). Esses avanços e técnicas criados podem ser observados nos blogs, listas de discussão, fóruns e códigos abertos, que visam a interação entre os usuários e os media e oferecem ferramentas para a participação dos sujeitos na produção de notícias, ou seja, a forma de produção de conteúdo na Web passa a ser multidirecional e sem filtros. André Lemos (2003), demonstra uma visão neutra sobre a Cibercultura, tentando apenas mostrar os lados sobre o assunto, sem apoiar ou criticar, se atendo em evidenciar uma “fenomenologia do social”, ou seja, citando os lados positivos e negativos das “tecnologias contemporâneas”. Ele cita ainda que já vivemos a cibercultura, não é o futuro, mas o nosso presente nos cartões inteligentes, celulares, palms, pages, voto eletrônico, imposto de renda via rede, entre outros. Ela é “a cultura contemporânea sendo conseqüência direta da evolução da cultura técnica moderna” (p. 12), o que confirma o já citado anteriormente.

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Demonstra-se assim que a cibercultura não é um acontecimento que teve um marco inicial e nem que terá reversão, pois, é uma série de formas de apropriações sociais midiáticas referente à informática e tecnologia, como, por exemplo, a microinformática, a internet e suas práticas sociais, o webjornalismo, as ciências da computação, etc. Como cita Lévy (1999), essa “nova conjuntura espaço-temporal”, cria uma nova visão para o tempo real, o “espaço de lugar”, ocorrendo a desmaterialização do lugar, somos como viajantes do espaço, sem local marcado, sem terra. Só através da Cibercultura se pode ter essa “ampliação das formas e comunicação sobre o mundo”. (p. 14) Porém Lévy (1999), deixa claro que a cibercultura não vem para democratizar a cultura ou para diminuir as distâncias entre as mídias e a sociedade, ou seja, não é ela que vai resolver os problemas sócio-econômico-culturais dos países. “Não há mídia totalmente democrática e universal (a mídia impressa é lida por uma minoria e metade da população mundial nunca utilizou um telefone)”(p. 15). Mas essa mudança traz melhorias. A população mundial sofre atualmente com o aumento excessivo de informações, cada vez sendo mais veiculadas com maior rapidez, num maior fluxo, e num tempo menor. Na maioria das vezes se torna impossível acompanhar. O autor assim defende a luta pela garantia do acesso a todos, e esse acesso através do ciberespaço pode ser o caminho. Tanta diversidade faz com que a oferta por notícias aumente e ocorra assim uma maior cobertura e melhor interpretação de um mesmo fato que pode ser coberto e divulgado por vários meios e muitos sites, cada qual contendo um fato novo, e a mais, uma outra visão, outra análise ou interpretação, sobre o ocorrido. Em Cibercultura (1999), Lévy define essa nova forma de divulgação dos fatos como algo que preza não só a publicação, mas a atualização constante, agregando mais qualidade nos meios digitais. Essa peculiaridade define “a notícia em tempo real como verdadeira notícia” (p. 54), pois, divulga o fato assim que ele ocorre e pode ir sendo modificada, acrescentando detalhes ou corrigindo possíveis erros. Essa é a nova tendência na internet, a criação de sites segmentados, e especializados, por assuntos ou regiões, como o caso do site Overmundo, trata-se de cultura fora do circuito e da grande mídia, cuja análise veremos mais adiante.

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Ainda sobre Lévy (1999), podemos demonstrar que ele trata a cibercultura como uma,
(...) expressão da aspiração de construção de um laço social, que não seria fundado nem sobre links territoriais, nem sobre relações institucionais, nem sobre as relações de poder, mas sobre a reunião em torno de centros de interesses comuns, sobre o jogo, sobre o compartilhamento de saber, sobre a aprendizagem cooperativa, sobre processos abertos de colaboração. O apetite para as comunidades virtuais encontra um ideal de relação humana desterritorializada, transversal, livre. As comunidades virtuais são os motores, os atores, a vida diversa e surpreendente do universal por contato. (p. 130).

A forma de compartilhar conhecimento, de se aprender cooperativamente, colaborando, trocando e criando informações em conjunto é a própria cibercultura. E para que isso exista é necessário que se crie uma pluralização de vozes, é preciso que o público construa isso, ou seja, contribua ativamente na rede. As novas tecnologias apenas impulsionaram essa cultura em rede e no ambiente colaborativo, não a criaram e é desta forma que devemos prosseguir para o desenvolvimento dessa cultura. André Lemos (2005), em seu livro Cibercultura, estabelece três “leis” fundadoras da cibercultura: 1- Liberação do pólo de emissão – com as novas ferramentas digitais, avanços tecnológicos (invenção de novas máquinas), novas vozes e discursos ganharam espaço no ambiente comunicacional (comunicação um – todos / todos – todos); 2- Princípio de conexão em rede - “tudo comunica e tudo está em rede” ou “a rede está em todos os lugares” e o computador é a própria rede, interatividade e compartilhamento, o ciberespaço e a cibercultura se misturam ao universo; 3- Reconfiguração – o “novo” não significa aniquilar o “velho”, mas reconfigurar as dinâmicas e práticas sociais, recriar, ampliar, recompor. Sobre as “leis”, a primeira da “liberação do pólo de emissão” foi a que ocasionou um grande impacto sobre o jornalismo na Web, pois, é ela que implementa a alteração das vozes, ou seja, altera o fluxo de comunicação na sociedade de massa. Antes ocorria o processo unidirecional, com mensagens sem retornos, apenas “coladas”

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das mídias tradicionais, sem meios de alteração ou intromissão, agora o novo método é a comunicação multidirecional, todos se comunicam, comentam, criam a notícia em conjunto. As demais, não menos importantes, ampliam a explicação da primeira. O “princípio de conexão em rede” evidencia que cada vez mais estamos online, conectados ao ciberespaço, construindo conhecimentos, trocando informações, nos “equipamos” com um “arsenal tecnológico” para sempre estar recebendo ou transmitindo informação. Atualmente é quase impossível encontrar alguém que não tenha um celular, e que o mesmo seja utilizado apenas para fazer e receber ligações. O mesmo acontece com Ipod’s, mp3 players, câmeras digitais, aparelhos de gps, etc. Cada vez menores cada vez com mais funções. Essa necessidade de receber e enviar informações através desses novos meios é uma característica dessa cibercultura. Ninguém quer ficar de fora, todos querem permanecer conectados, em todos os lugares, estar sempre informado sobre o que está acontecendo no mundo. Essa “reconfiguração” é uma ampliação da segunda lei porque nos mostra que o que era utilizado não deve ser esquecido ou ignorado, apenas renovado. O modo como nos comunicávamos, como nos informávamos, como recebíamos e transmitíamos informação apenas sofre uma modificação, não se extingue. Assim, as mídias tradicionais não devem ser deixadas de lado, ao contrário, deve andar lado a lado, em paralelo, com os novos meios. O ciberespaço deve ser uma ampliação do espaço real, e a cibercultura uma extensão de nova cultura atual.

1.2.1 - Interatividade
A interatividade no ciberespaço é a peça vital para que ocorra o processo de comunicação todos – todos. Esta se iniciou de forma moderada a exemplos da interatividade nas mídias tradicionais. Ao ler uma matéria com a qual não se concordava ou que se desejava mostrar outros pontos de vista, acrescentar fatos, ou relatos que foram presenciados, ou mesmo opinar, criticar ou elogiar o jornalista ou o meio, a única forma encontrada foi o e-mail.

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O e-mail foi, e ainda é, muito utilizado como ponte entre o público e os media, em enquetes, antigas cartas do leitor, resposta a uma matéria com erros – as erratas -, ou mesmo com críticas e sugestões de pauta, perguntas aos jornalistas, convites etc. Nicola (2004), em seu livro Cibersociedade deixa clara essa visão:
O e-mail é a forma encontrada pelo ciberleitor para interagir com o jornalista, e representa uma ponte cada vez mais estreita entre ambos. Os editores encontraram nessa interação a saída para a reformulação do design da página e do provável índice de audiência das colunas cibernéticas. (p. 64).

O autor mostra que o e-mail também serviu de forma para medir audiência, uma forma de resposta do público ao veículo, quanto mais e-mails as mídias recebiam maior era a aceitação, eles acreditavam. E utilizavam essa forma para ver a aceitação de mudanças em suas páginas, como novas colunas, editoriais, etc. Mas essa comunicação não se deu do dia para a noite, aliás, seus usuários sofreram muito ficando muitas vezes sem respostas para seus e-mails. Pode-se dividir a interatividade no ciberespaço em seis fases: Na primeira fase, os usuários enviavam e-mails às redações digitais e não obtinham resposta, apenas a disponibilização do seu conteúdo editado em um espaço definido para os leitores tal como em seções de cartas das mídias impressas. Esse panorama só se modificou com a Web 2.0, denominada como início da segunda fase. Com ela, o usuário teve a oportunidade de escolher mais caminhos para se comunicar. Além dos e-mails que começaram a ser respondidos, muitas vezes até pelos próprios jornalistas responsáveis pela matéria, outras vezes por pessoas contratadas para apenas fazer essa comunicação. Na terceira fase nas páginas da web, começaram a surgir novas aberturas para a comunicação público – media, como os fóruns, os debates, bate – papos com jornalistas e enquetes com famosos, na busca de promover o veículo e atrair a atenção do público. Os espaços para comentários, que eram mostrados logo abaixo da matéria, os formulários para sugestões, críticas a serem enviadas as redações digitais surgiram na quarta fase, a exemplo dos blogs que viraram mania na internet. Muitas vezes esses comentários eram respondidos pelos jornalistas também.

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Já na quinta fase, o usuário ganha a liberdade de produzir uma matéria com o apoio e auxilio do jornalista, ou até mesmo, como veremos adiante, de fazê-la sozinho, postando, além de conteúdo escrito, vídeos, fotos e sons. Nasce aí o webjornalismo colaborativo com base na interatividade entre medias e usuários na chamada sexta fase, ou fase atual. Atualmente o cidadão-repórter, como é denominado o usuário engajado na interação com os media, pode usar e abusar dos meios tecnológicos e de comunicação para se fazer visto (posts, comentários, sugestões, pautas, matérias) e ouvido (vídeos, sons, fotos, ilustrações, animações). Nesta fase não há mais papéis definidos para emissores e receptores, todos constroem de modo interativo uma história. Para confirmar o que acabamos de citar, nos baseamos na pesquisa de Joel Minusculi (2009) sobre a reconfiguração da imprensa no webjornalismo participativo que cita Alex Primo (2007) sobre a definição de interatividade, onde a expressa como “a medida da habilidade potencial da mídia em permitir que o usuário exerça uma influência no conteúdo e/ou na forma da comunicação mediada” (p. 37). Alex Primo (2007) defende a interatividade em vários níveis, tais como: • interatividade de transmissão - o usuário escolhe que fluxo de informações em mão única quer receber (não é possível fazer solicitações); • interatividade de consulta - o usuário solicita informações em um sistema de mão dupla com canal de retorno; • interatividade de conversação - o usuário produz e envia suas próprias informações em um sistema de duas mãos; • interatividade de registro - o sistema registra informações do usuário e responde às necessidades e ações dele. Portanto o que podemos verificar dessa análise até esse momento é que a abertura no processo de comunicação, fazendo com que ocorresse a mudança do padrão comunicacional de um –todos, para todos – todos, com o uso da interatividade entre usuários e medias, a abertura do código HTML e WWW para que os usuários

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pudessem também interagir e interferir na construção do ciberespaço com a criação de novos hiperlinks, blogs, sites, etc., explicam essa nova forma de comunicação mundial atual. O modelo tradicional está aprendendo, com duras quedas, que precisa conviver com as mídias colaborativas. Ou seja, o mundo que conhecemos ganha novas formas e aspecto de ciberespaço onde nossa cultura sofre alterações e se transforma em cibercultura. E para que essas mudanças funcionem de forma harmoniosa, a sociedade também deve se adequar. É o que iremos tratar no próximo tópico, a cibersociedade.

1.3- Cibersociedade
Steve Johnson (2001), em seu livro Cultura da Interface, define assim a nossa sociedade atual:
Vivemos numa sociedade cada vez mais moldada por eventos que se produzem no ciberespaço, e apesar disso o ciberespaço continua, para todos os propósitos, invisível, fora de nossa apreensão perceptiva. (p. 20).

Ou seja, apesar de cada vez mais nos moldarmos pelo que acontece em rede, o ciberespaço continua como em paralelo com o espaço real. Não vemos o ciberespaço como algo inerente em nossas vidas, algo que não se pode desconectar, ainda estamos online ou offline. Mas o que se espera com esse estudo é demonstrar que essa barreira online, offline se tornou cada vez mais uma linha muito tênue, difícil de ser separada. Esta sociedade, denominada cibersociedade, vem se desenvolvendo desde a implantação da internet, onde adquirimos a cultura de absorver, produzir e interagir com informações existentes na rede, até mesmo como forma de fugir da manipulação das mídias tradicionais. Esse processo de democratização da informação, com a descoberta da liberdade de expressão em um meio onde todos se tornem “visíveis”, transformou a sociedade. Porém, essa sociedade ainda se encontra restrita, limitada, devido à falta de estrutura e de acesso à informação por parte de todos. Lemos (2007) evidencia essa vivência entre um paralelo ciberespaço – espaço real, onde o “tempo real”, aquele em que ocorre a comunicação instantânea e o “espaço

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físico” – nossa casa, escritório etc., criam uma contradição, devido ao “imobilismo” – estamos sentados em frente a uma tela e o “nomadismo” – viajando, vagando de lugar em lugar na rede. O autor nos denomina como “nômades, cowboys do ciberespaço” que viajam no mundo utilizando as “máquinas de comunicar (computadores portáteis, celular wap, pagers, palm computers, celulares) (p. 121)”. E deixa claro ainda que o espaço físico de nada conta e sim o ciberespaço com o qual nos identificamos, ou seja, meu email, minha home page, meu MSN etc. O que faz com que entendamos que não importa onde estamos, mas como nos comunicamos, isto nos transforma, a forma como nos comunicamos, quais a tecnologias que usamos, quanto mais meios mais conectados, mas cibercidadãos somos. Sobre essa interação meio e sociedade, ou melhor, ciberespaço e cibersociedade, André Lemos (2007) utiliza-se dos textos de Lévy (1991) e define o “grande hipertexto” partindo de princípios abstratos, como: • • Metamorfose – a rede em contínua e incessante construção e renegociação; Heterogeneidade – grande diversidade e diferentes qualidades de nós, laços e conexões; • Multiplicidade – organização fragmentada da rede, toda parte tem o todo em si; • • • Exterioridade – cada conexão depende da outra além dela mesma; Topologia – a rede não está no espaço, é o espaço; Mobilidade – a rede não possui um centro, mas vários, os chamados “pontos luminosos móveis” por Lévy. Esses princípios, utilizados pela sociedade, nos colocam em constante mutação com o meio. Nos tornamos pequenas redes moveis, pois acumulamos, criamos e dissipamos conhecimentos através das interações com outras redes, ou seja, outros cibercidadãos. Essa comunicação pelo computador nos dá uma maior autonomia para se ler, interpretar, editar, redigir e agir na rede da maneira que considerarmos mais adequadas.

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A rede, ou, as redes, que visitamos, as quais percorremos nessa nossa viagem como cowboys do espaço, nos dão informações necessárias para nos comunicar e viver no espaço real. Cada indivíduo comunicando-se de um lado, sozinho em um quarto ou em grupo numa biblioteca, formando milhares de pontes de conhecimento, faz com que estejamos a sós, no real, mas que formemos uma multidão no virtual. Não que essa comunicação tenha obrigatoriamente necessidade de ser feita em particular, que seja pessoal, pode ser feita em grupo, mas é o que geralmente ocorre. Ficamos conectados às outras pessoas pela internet, marcamos encontros online, pelo MSN5, pelo Twitter6, etc., para, em grupo, gerar o conhecimento. Mas, Lemos (2007) deixa claro, em seu livro Cibercultura, que essa comunicação não pode abolir a comunicação direta, a convivência familiar, com os amigos, na escola, no trabalho, os encontros nos bares, o papo na esquina, os livros etc. O autor confirma que o conhecimento trazido pela mídia, principalmente a web, tem um grande valor, pois, é nela que se encontra o fato mais recente, a cobertura diária, os acontecimentos políticos, sociais, econômicos e culturais da atualidade, porém, esses fatos nos são mostrados sem um grande aprofundamento nos dando a falsa sensação de saber de tudo mas apenas sabemos tudo de uma certa maneira. Por isso para se ter uma conclusão sobre o assunto devemos ler vários pontos de vista e interpreta-los conforme nossa visão. Não estamos pregando aqui que só devemos nos comunicar por meio de aparelhos transformando-nos em uma sociedade fria e sem contato físico, pelo contrário, essas novas formas de comunicação vêem para “aquecer” esse contato, tornar-nos mais próximos uns dos outros. Portanto, concordamos com LÉVY (1999, p. 203) quando ele argumenta que a tecnologia reconfigura a mediação nas sociedades contemporâneas “o ciberespaço é justamente uma alternativa para as mídias de massa clássicas. De fato, permite que os indivíduos e os grupos encontrem informações que lhes interessam e também que difundam sua versão dos fatos (inclusive com imagens) sem passar pela intermediação dos jornalistas. O ciberespaço encoraja uma troca recíproca e
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MSN Messenger. http://dicionario.babylon.com/MSN%20Messenger#!!9G2CGKRAUE http://www.twitterbrasil.org/2009/02/17/o-que-e-o-twitter/

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comunitária, enquanto as mídias clássicas praticam uma comunicação unidirecional na qual os receptores estão isolados uns dos outros”. Assim, o que caracteriza o cibercidadão é essa vontade de compartilhar, de se comunicar, de interagir com os demais. E para tanto, segundo Nicola (2004):
Ele se familiariza rapidamente com os processos de edição e, se estiver descontente com a desatualização do site jornalístico, recria o seu próprio, ou, como ocorre freqüentemente, até desenvolve um jornal digital comunitário utilizando sites hospedeiros. (p. 17).

Mas o autor cita que há três tipos de interagentes, o ciberleitor, o cibercidadão e o cibernauta, e cita suas diferenças:
O ciberleitor abastace-se de informações e estabelece um distanciamento com a mídia, ao contrário do cibercidadão, que se informa e, concomitantemente, integra-se ao universo cibernético, compreendendo-o como “partícipe da vida digital”. (NICOLA, 2004, Cibersociedade, p. 83).

Ou seja, o ciberleitor apenas retira o conhecimento do ciberespaço, não se envolve, não se manifesta, não se propõe a uma interação propriamente dita com o meio, não quer aparecer,
Portanto, o ciberleitor possui uma interação imediata com os textos digitais, verbais e não-verbais; em geral quando navega pelos compartimentos on-line, mantém-se exclusivamente à caça de conteúdos. Já o segundo [cibercidadão] é um usuário preocupado em engajar-se nas questões sociais e procura interagir com os demais usuários por meio dos debates em listas de discussões, CI’s, newsgroups, etc; o terceiro [cibernautas] está despreocupado com o aprofundamento dos conteúdos do mundo digital e apenas acompanha o ritmo da internet em sua grade de convergência midiática: texto, som e imagem; ele está sempre procurando aplicativos e outros produtos de marketing. (NICOLA, 2004, Cibersociedade, p. 123).

Assim temos, resumindo, a figura do cibercidadão engajado na comunicação, preocupado com a troca de conhecimentos, a fim de criar e corrigir possíveis erros na comunicação e do cibernauta que somente navega, como o “cowboy” de Lévy, buscando novas técnicas e novidades apenas para satisfação própria completa o cenário dos integrantes da cibersociedade, onde ambos não apenas retiram o conhecimento mais ajudam a fazê-lo.

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Trataremos aqui, nessa pesquisa, apenas os aspectos do cibercidadão, visto seu caráter de engajamento com a comunicação. Lemos (2003) manifesta claramente a existência desse novo usuário:
(...) não é difícil checar, a partir de levantamentos empíricos, a existência de um novo tipo de usuário das redes digitais de comunicação, um usuário a um só tempo emissor e receptor, um usuário que busca o equilíbrio da interação e cujo foco central é, efetivamente, o do compartilhamento e o da colaboração. Este usuário não teria outra condição de agir, senão através do não-lugar que é o ciberespaço. (LEMOS, 2003 apud LÉVY, 1991, p. 200).

Steve Johnson (2001), o descreve como o usuário que se manifesta pelo puro prazer de se comunicar como um amante, que se comunica “por puro amor pela coisa (p. 61)”, explica que a palavra “amador” é derivada do latim “amator” que vem de amar. E o autor ainda usa como exemplo os blogs amadores que estão ganhando espaço na grande mídia e a atenção do público. Por fim, Jenkis (2008), em Cultura da convergência, traz uma discussão acerca desse conhecimento compartilhado e público. À medida que aprendermos a viver nessa cultura do conhecimento, poderemos nos antecipar nas discussões entre a separação de esfera pública midiática e esfera pública periférica. Esse debate envolve toda a sociedade de massa e em rede e potencializa a comunicação entre essas esferas – pública midiática (os meios de comunicação tradicionais) – e – pública periférica (as novas formas de comunicação na rede) e esta centrado tanto em como sabemos e como avaliamos o que sabemos quanto na informação em si. As maneiras de saber podem ser distintas e pessoais, diferenciando quanto aos tipos de conhecimento que acessamos, mas, à medida que o saber se torna público, que o saber se torna parte da vida de uma comunidade, essas contradições na abordagem devem ser minuciosamente examinadas e diligentemente trabalhadas.

1.3.1 – A febre dos blogs
Os primeiros hiperlinks a utilizarem a simplicidade da manipulação e divulgação de fatos, possibilitando que qualquer pessoa seja um produtor de conteúdo, foram os weblogs, fotologs, entre outros gêneros “logs” multimídias. Com a facilidade de manipulação desses sistemas, um dos fatores responsáveis pela popularização e expansão da prática nesses ambientes virtuais, as redes sociais, comunidade e

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fóruns (qualquer meio projetado para comportar e registrar o envio de informações por vários usuários ao mesmo tempo) inspiram e instigam as pessoas a debaterem assuntos, de forma a complementar e ampliar conteúdos. A partir de 1999, na internet, começa a tomar forma uma modalidade de site cujo estilo era mais livre, cujos textos eram curtos e rápidos, como pequenos relatos, cujos autores, os cibercidadãos, não temiam expor suas opiniões e deixá-las aberta à discussão. Nasciam os blogs, ferramentas constituídas de hiperlinks com código aberto a interação e manipulação dos usuários, que, apesar de, em princípio, terem sido vistas como meros diários virtuais pessoais, por contar com pequenas passagens do dia-a-dia do autor, ganharam, aos poucos, a percepção de sua potência para outros fins como, por exemplo, canal de notícias, espaço de discussão política e meio de análise e críticas aos demais meios de comunicação. Os blogs são produzidos por pessoas interessadas em assuntos quaisquer, atualmente se tornaram especializados e segmentados, para que outros que compartilhem do mesmo interesse também se manifestem através dele. Luciano Santa Brígida e Marcos Barbosa (2009), em seu artigo sobre os blogs cita Mayfield (2008) para salientar que o autor,
(...) os classifica como uma mídia social, isto é, um meio que, junto com fóruns, wikis e outros compartilham de características comuns como: a participação, isto é, o encorajamento dado pelas mídias sociais aos seus usuários para que participem com contribuições e feedbacks; a abertura, que diz respeito à cultura de não coibir o acesso à informação, havendo poucas barreiras aos conteúdos; a conversação é a capacidade das mídias sociais agirem como uma via de mão dupla, diferente dos meios de comunicação de massa que permitem pouco feedback da audiência; a comunidade corresponde à potencialidade da formação de comunidades centradas em torno dos interesses afins dos participantes; e a conectividade que trata do uso de hiperlinks para outros sites, fontes ou pessoas. (p. 5).

O que antes era utilizado apenas como um diário virtual, o blog, hoje é usado na divulgação de assuntos variados, de fora da grande mídia ou mesmo aprofundamento das notícias veiculadas na imprensa, meio para protestos, críticas, debates, ações sociais e comunitárias e surge atualmente com uma grande, e importante, ferramenta para a coberta jornalística hiperlocal, divulgando fatos ocorridos que atraem apenas um pequeno público ou um público especializado e que não têm espaço na mídia devido aos critérios de noticiabilidade agregados pelos

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meios. Com isso, viu-se nos blogs uma abertura ideal, devido ao seu caráter aberto a resultados: quem lê também opina e mostra se o blog tem audiência ou não, se é confiável ou não, se tem engajamento ou não, para se fazer essa nova forma de jornalismo. Chris Anderson (2006) trata dos blog como não só uma nova forma de fazer jornalismo ou comunicação, mas como um mercado, um nicho que está evoluindo e criando uma nova cauda longa. Fala também da falta de credibilidade enfrentada pelos blogs, pois quando se lê uma notícia em um portal ou site noticioso sabe-se a procedência, é confiável, pois foi escrita por profissionais, o que não acontece com os blogs que muitas vezes podem ter comentários ou mesmo posts anônimos. O autor salienta que quando a informação não tem mais alguém que seja responsável por ela, ela pode se tornar não confiável, isto depende do modo que ela é divulgada. A grande quantidade de blogs, sendo escritos em primeira pessoa, prezando mais pela interpretação, análise, crítica e impressões pessoais ocasiona essa descrença no público-leitor. Sobre os blogs, Anderson (2006) diz,
Nenhum deles é absolutamente credenciado, confiável e fidedigno. Os blogs são uma forma de Cauda Longa e é sempre um erro generalizar sobre a qualidade ou natureza do conteúdo na Cauda Longa – ela é, por definição, variável e diversa. Mas, em conjunto, os blogs estão se revelando tão fidedignos quanto a grande mídia ou até mais confiáveis. Apenas é necessário ler mais de um deles para decidir. (p. 67).

A primeira informação é a que fica? Não mais. Na era do conhecimento o que se preza é o conjunto. Não se deve acreditar em tudo que se lê. Para saber, realmente, o que aconteceu devemos verificar a informação divulgada. O trabalho antes feito pelos jornalistas e que o público apenas recebia inerte em sua poltrona agora passa a ser feito também pelo cibercidadão que, a fim de consumir notícias e de repassálas em seu blog, tem que fazer a checagem do fato para que não torne seu meio de comunicação algo visto como sem credibilidade. Esse trabalho de checagem e de produção de notícia, como dito anteriormente, é feito por vontade própria, o que falta agora é vontade por parte dos profissionais em abrirem espaço para que os “amadores”, os cibercidadãos, pratiquem essa função.

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Estamos na aurora de uma era em que a maioria dos produtores, em qualquer área, não será remunerada. A principal diferença entre esses amadores e seus colegas profissionais é simplesmente a lacuna cada vez menor nos recursos disponíveis, para que ampliem o escopo de seu trabalho. Quando as ferramentas de trabalho estão ao alcance de todos, todos se transformam em produtores. (ANDERSON, 2006, p. 71).

Observa-se assim que, cada vez mais, os blog desenvolvam uma formação de nichos em uma sociedade consumidora de informação, onde a demanda se torna cada vez mais específica e fiel. Quem lê o blog, acredita nele e o segue, postando comentários e sugerindo pautas. Foschini e Taddei (2006), em seu livro sobre blog Conquiste a rede salienta que além de ser um site atualizado regularmente com estrutura cronológica, nos blogs é possível publicar materiais (vídeos, textos, áudios) que se aproximam da definição do ato de reportar. Assim, o que se conclui é que quem tem o poder de decidir a forma que irá consumir e que também tem a liberdade de participar da produção da informação a ser consumida é o leitor. A chamada cultura do “Faça você mesmo!” foi potencializada pela internet e ganhou ares de ordem na abertura do pólo emissor para o receptor, reconfigurando o papel do jornalista como um mediador da informação e tradutor da sociedade. O papel do jornalista que era baseado em recortar fatos, analisá-los e divulgá-los aos receptores, fazendo uma conexão (realidade – público), está evoluindo para uma mediação do diálogo, premissa essencial para o ciberjornalismo. Em resumo, o que se pode verificar é que o ciberespaço permite a combinação, e é formado, por vários meios de comunicação, variando em graus de complexidade mas é uma grande concentração – o correio eletrônico, o hiperdocumento compartilhado, os sistemas avançados de troca de informações e conhecimento, as teleconferências, os programas de edição, enfim os vários mundos, redes, virtuais de multiusuários.

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2. VÁRIOS NOMES PARA UM MESMO CONCEITO

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2. VÁRIOS NOMES PARA UM MESMO CONCEITO

No segundo capítulo, veremos, em particular, o surgimento do webjornalismo, jornalismo open source, colaborativo e conteúdo colaborativo aliado às invenções tecnológicas de capturação (mp3, máquinas fotográficas digitais, aparelhos celulares, entre outros). Identificaremos também as principais características da legislação e dos direitos autorais no jornalismo digital, seu conceito e mudanças ocorridas a partir da Web 2.0.

Os nomes são vários – webjornalismo, ciberjornalismo, jornalismo eletrônico, jornalismo digital, jornalismo online, entre outros – mas todos buscam identificar, cada qual com a sua especificidade, a utilização das novas tecnologias de informação e comunicação atuais aliadas às antigas rotinas da produção jornalística de informação. O jornalismo no ciberespaço foi fortemente modificado devido aos avanços tecnológicos e suas invenções (câmeras digitais, gravadores, mp3 players, etc) que auxiliaram e otimizaram o processo jornalístico de checagem dos fatos e divulgação. Essa checagem feita de forma mais rápida faz com que cada vez mais notícias sejam veiculas num período menor de tempo. A cibercultura influenciou essas mudanças, modificando a forma de comunicação, alterando o processo comunicacional das mídias tradicionais, mass medias, de um – todos, para o novo processo de todos – todos. E a cibersociedade também aproveitando dessas alterações tomou seu espaço transformando de vez esse cenário, fez o uso da sua voz e não mais ficou como mera receptora de informações, invertendo papéis e criando também informação. O ciberleitor e o cibercidadão ocuparam seus lugares e no ciberjornalismo participam cada qual com sua função ajudando a formar de vez esse novo cenário do jornalismo atual. Por mera questão metodológica, o termo “ciberjornalismo” ou “webjornalismo”, atualmente “jornalismo digital” se refere às práticas da produção do jornalismo no

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ciberespaço, na web. Práticas que se modificaram com a passagem dos meios tradicionais para o meio interativo devido à utilização das novas “leis” da cibercultura. Essas “leis”, que já vimos anteriormente, e que fizeram com que as técnicas jornalísticas sofressem uma nova configuração, porém, o prefixo “ciber” não aparece apenas para indicar que o jornalismo na web é feito com o computador mas para deixar claro que o processo de produção jornalística foi alterado e com ele surgem novas funções aos jornalistas e leitores. Os demais termos apenas definem questões quanto à participação da

cibersociedade no processo de produção de notícias e outros conteúdos e a segmentações a que não nos ateremos nessa pesquisa. O importante é que fique claro quanto à nomenclatura webjornalismo, ciberjornalismo e jornalismo digital que são equivalentes em sentido, ou seja, é o jornalismo feito na grande rede mundial de computadores, assim online. No que refere-se à participação do cibercidadão no meio jornalístico como forma de colaboração no processo de produção de notícias podemos verificar que segundo Foschini e Taddei (2006) existem quatro subdivisões quanto a essa participação da cibersociedade:
• Jornalismo participativo – Ocorre, por exemplo, nas matérias publicadas por veículos de comunicação que incluem comentários dos leitores. Os comentários somam-se aos artigos, formando um conjunto novo. Dessa forma, leitores participam da notícia. Isso é mais freqüente em blogs. Jornalismo colaborativo - É usado quando mais de uma pessoa contribuiu para o resultado final do que é publicado. Pode ser um texto escrito por duas ou mais pessoas ou ainda uma página que traga vídeos, sons e imagens de vários autores. Jornalismo código aberto - Surgiu para definir um estilo de jornalismo feito em sites wiki, que permitem a qualquer internauta alterar o conteúdo de uma página. Também pertencem a esse grupo vídeos, fotos, sons e textos distribuídos na rede com licença para serem alterados e retrabalhados. Jornalismo grassroots - Refere-se à participação na produção e publicação de conteúdo na web das camadas periféricas da população, aquelas que geralmente não participam das decisões da sociedade. Quando elas passam a divulgar as próprias notícias, causam um efeito poderoso no mundo da comunicação. Quem usa esse termo defende a idéia de que o jornalismo cidadão está diretamente relacionado à inclusão dessas camadas no universo criado pelas novas tecnologias de comunicação. (p 19/20)

Essas divisões foram criadas para um melhor entendimento e para tornar mais fácil o estudo sobre essa participação da cibersociedade no processo jornalístico. Porém,

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para esta pesquisa, apenas nos ateremos à participação que visa a colaboração, ou seja, que influi no processo final da notícia. As demais modalidades serão vistas nos sub-capítulos a seguir para mero entendimento da pesquisa que segue. Sobre a informação veiculada na internet, no meio jornalístico profissional, o que nos fica evidente é que esses meios se tornam formadores de informação na esfera pública visto que “escolhem” os fatos a serem “recortados” e que ganharam visibilidade na agenda pública. Essa mediação feita entre a realidade e o público, por esses veículos, começa a perder força com a entrada do usuário engajado e com interesse em divulgar fatos além de noticiabilidade nacional, ou seja, começa a ocorrer a valorização do local. Essa barreira entre mídia e público, que agora começa a cair, é citada por Alex Primo e Trasel (2006) em seu artigo sobre webjornalismo participativo e a produção aberta de notícias. O artigo explica que antigamente, no modelo de Web 1.0, a distinção entre autor e leitor na web estava “borrada”, pois, os primeiros jornais na web mantinham o mesmo modelo do jornalismo tradicional com suas “barreiras entre redação/edição de noticias” bem demarcadas, ou seja, mantinham o velho modelo de emissor – mensagem – canal – receptor, onde o leitor (receptor) não possuía nenhuma liberdade nem abertura para interagir com o meio. Mas, o internauta não permanece por muito tempo nessa posição passiva, “a leitura do hipertexto demanda que o internauta assuma uma postura ativa na seleção dos links que apontam para diferentes lexias na estrutura hipertextual, o que o convertia necessariamente em coautor [...] (p. 2)”, assim, o internauta começa a ganhar ferramentas para participar do processo de criação criando “debates em torno do sistema produtivo e dos próprios ideais jornalísticos (p.2)” O fato, seguindo os padrões comunicacionais tradicionais, seguia o fluxo saindo do emissor ao meio para chegar através dele ao receptor, no caso, o público, como era denominado no sistema um – todos.

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Figura 1: Modelo antigo de emissão de “cima para baixo”, caracterizado pelo controle da organização dos meios. Toda notícia é filtrada através de uma organização para a audiência. (Bowman; Willis, 2003, p. 10)

Com a web, esse processo se modifica e passa a seguir o método todos – todos, ou seja, a notícia não mais sai, somente, da mídia e dos meios de comunicação de massa, mas também é enviada pelo público. Na internet, o público troca opiniões com os media o que agrega mais qualidade ao que é divulgado.

Figura 2: Novo modelo de emissão caracterizado pela troca de conteúdo entre os envolvidos. Nesse sistema a web é um intermediário da comunicação entre as extremidades. Fonte: Interpretação do autor.

Desta forma, o jornalismo torna-se uma prática comunitária, feita de pessoas e pelas pessoas, estas organizadas viram dispositivos de coleta de dados para a difusão de informações que dizem respeito a sua realidade, baseadas em seus contextos culturais. Essa é a realidade que se vê hoje na web, que as audiências, o público, se convertam em participantes, através do desenvolvimento de ferramentas para formar criadores em seu ambiente online. Visão salientada por Jenkis em seu livro Cultura da Interface (2008):
A expressão cultura participativa contrasta com noções mais antigas sobre a passividade dos espectadores de mídia como ocupantes de

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papéis separados, podemos agora considerá-los como participantes interagindo de acordo com um novo conjunto de regras, que nenhum de nós entende por completo. (p. 28).

2.1- Ciberjornalismo
O jornalismo utilizou-se da rede para aumentar e agilizar a sua atuação na sociedade. O jornalista dos meios tradicionais encontrou na web uma forma dinâmica de trabalho, em que poderia colher, desenvolver e publicar informações com mais dados, uma maior facilidade, maior análise e até mesmo um conteúdo melhor. Surgiu, assim, o webjornalista, o profissional do meio multimídia. A prática do webjornalismo ocorre há um pouco mais de dez anos. Nesse tempo houve muitas mudanças em relação ao modo como ele foi sendo feito. Iremos destacar três fases do jornalismo digital que consideram principalmente o uso da tecnologia e o produto final: A primeira fase foi a de transposição dos meios impressos para o digital, ou seja, as notícias que seguiam o padrão e diagramação do jornal tradicional foram “coladas” na web, a chamada fase do “ctrl C + ctrl V”. Os webjornais apresentavam poucos, ou muitas vezes nenhum, recursos interativos para com o leitor, quando existiam era apenas o e-mail, o menu de navegação entre as editorias, os fóruns e as enquetes. O padrão do jornalismo impresso foi mantido na segunda fase, mas, novos elementos de interatividade foram adicionados, como o uso de hipermídia, listas de últimas notícias, animações, ilustrações e matérias relacionadas. Nesse período também começa a surgir o material exclusivamente online, como um bônus para a versão impressa. Esse material muitas vezes era formado por matérias relacionadas, saiba mais e curiosidades. Já na terceira geração sim, as publicações online agregaram a hipermídia à produção do texto, utilizando cada vez mais a interatividade, a hipertextualidade e as multimodalidades permitidas pela convergência das mídias digitais (uso de vídeos, fotos, sons, animações em 3D, menus interativos, jogos para entender o assunto etc.). É nessa geração que esse conteúdo começa também a se transpor para outras plataformas como celulares etc.

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A quantidade de conteúdo produzido nessa fase é muito grande criando assim a necessidade de se avaliar o que se lê antes de descartar ou de tomar como verdade. Esse “excesso” de informação se dá devido a não se ter mais o problema do espaço – na web o espaço é virtualmente ilimitado – não há mais o produto físico, a informação não ocupa lugar, físico ou material, e assim o fluxo se torna maior. O webjornalista pode, enfim, trabalhar de forma tranqüila quanto ao tamanho da matéria, pois pode ir distribuindo os fatos entre os parágrafos e criando hiperlinks entre matérias para complementar seu texto, alterando o antigo modelo da “pirâmide invertida”. Com as informações dissolvidas entre os hiperlinks, as informações ficam mais bem discutidas e exemplificadas, há um número maior de links entre matérias, o que ocasiona uma maior navegação do usuário no site. O novo modelo utilizado, sem a necessidade do lide, é a “pirâmide deitada”. As matérias fazem “pontes” entre si, e o ciberleitor tem liberdade para navegar e ler como quiser. Perde-se a característica de início e de fim da noticia, que agora é formada por vários links que se completam, mas, que, sozinhos, também não se dão por vazios. O webjornalismo se diferencia do jornalismo tradicional pela: • distribuição – mais fácil acesso à notícia e maior facilidade de acesso para todos os públicos, • • personalização - o papel ativo do utilizador – o ciberleitor faz o seu conteúdo, periodicidade - fim da lógica de “uma edição, um produto” – as notícias são postadas a todo momento, minuto a minuto, • informação útil - prática e objetiva – pequenas matérias que informam com vários links para o aprofundamento. Esse novo jornalismo tem como característica a: - Multimidialidade/Convergência - uso de vários formatos midiáticos (áudio, texto e som) em suas narrativas jornalísticas, e a convergência devido aos avanços tecnológicos que possibilitaram distribuir e circular informações em novos formatos e plataformas;

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- Interatividade – estimulam a participação do usuário na produção e análise do conteúdo divulgado; - Hipertextualidade – é a abertura para o usuário incluir novos elementos, através dos links, nas matérias do webjornalismo; - Customização – que define estruturas, listas de interesse; configura as notícias de acordo com as necessidades e interesses do usuário; - Memória – com espaço ilimitado, os sites otimizam o arquivamento e armazenamento de conteúdos que podem ser utilizados como bancos de dados ou material de pesquisa; - Instantaneidade – através das atualizações dos conteúdos em tempo real. A Web é um suporte para a produção de informação. Com ela, as rotinas produtivas, a seleção de notícia, a apuração dos fatos, a edição e a escrita ganham novas configurações, mas não perdem os critérios ou padrões essenciais do jornalismo. O webjornalismo, numa estrutura hipertextual e rizomática, reconfigura o fazer jornalístico, como Brambilla (2006) sustenta:
A alteração mais visível fica por conta da perda da linearidade contida na informação veiculada nos media tradicionais. Para se ler um jornal não linearmente corre-se o risco de se perder o sentido da notícia. No ambiente digital, a notícia é naturalmente alinear por atender à estrutura do hipertexto (p. 37).

Essa não linearidade decorrendo do processo de produção na web segue a lógica da pirâmide deitada, que conta com quatro níveis de leitura: - A base – lide – responde o essencial: O quê, Quando, Quem e Onde. - Explicação - responde ao Por quê e ao Como, completando o essencial.

- Contextualização - oferece mais informação sobre o lide – formato textual, vídeo,
som ou infografia animada. - Exploração - liga a notícia à home ou a links relacionados.

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Os processos de leitura, escrita e até mesmo de navegação na web são considerados como interação, que pode ser dividida em vários níveis: - interatividade de transmissão – o usuário apenas escolhe a quantidade de informação que quer receber. Não há possibilidade de se fazer solicitações sobre o assunto que quer receber; - interatividade de consulta – o usuário solicita as informações. Há uma troca, abrese um canal de comunicação entre os media e o usuário; - interatividade de conversação – o usuário produz e envia suas próprias informações; - interatividade de registro – o meio registra informações sobre o usuário e responde às necessidades e ações dele. Ou seja, no ciberespaço a produção jornalística passou por várias transformações. Entre perdas e ganhos podemos dizer que muito se agregou à profissão de jornalista – novas tecnologias, novos processos de escrita, novas técnicas, etc. As inovações mais marcantes foram o uso da interatividade, a abertura da produção pelo usuário, o envio e o recebimento de informações pelos leitores, que fez com que a cobertura jornalística fosse maior e mais bem detalhada. Essa interação ganhou vários nomes, variando conforme a participação do usuário no processo de comunicação. É o que veremos a partir de agora.

2.2 – Jornalismo open source ou participativo
A tendência das audiências participantes também chegou ao jornalismo digital. Através das ferramentas desenvolvidas para o uso no meio online, o jornalismo se encontra em uma nova dinâmica. Brambilla (2006) fala sobre o surgimento de uma nova forma de jornalismo, o open source. Este “tende à descentralização do trabalho – geográfica e mesmo local, não se restringindo mais às redações – e à personalização tanto dos processos quanto dos produtos informativos (p.74)”. Ou seja, esse novo jornalismo não está apenas nas mãos dos jornalistas, é feito fora das redações, é aberto para novos produtos e produtores.

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O chamado jornalismo open source se desenvolveu devido à abertura dos conteúdos e formatos feitos na web. Deu-se uma liberdade para que os usuários pudessem “interferir” no processo de produção das notícias, de forma que essa interação gerasse lucros para todos os envolvidos, diminuindo os custos para a busca da informação que seria trazia até os meios pelos usuários. A informação jornalística pode enfim ser produzida com a troca de conteúdos através das redes de cooperação, ou melhor, no ciberespaço, entre media e público. BRAMBILLA (2006) cita que,
(…) permitir que várias pessoas (não apenas os jornalistas) escrevam e, sem a castração da imparcialidade, dêem a sua opinião, impedindo assim a proliferação de um pensamento único, como pode ser aquele difundido pela maioria dos jornais, cuja objectividade e imparcialidade são muitas vezes máscaras de um qualquer ponto de vista que serve interesses mais particulares que apenas o de informar com honestidade e isenção o público que os lê.

A primeira vez que o cidadão tomou voz praticando o jornalismo participativo foi nos atentados do World Trade Center em 2001. Mas, Foschini e Taddei (2006) demarcam que essa modalidade foi impulsionada ganhando força somente anos depois nos atentados de Londres, em 2005, onde momentos depois da tragédia “imagens dos momentos terríveis começaram a aparecer em moblogs, blogs atualizados diretamente pelo celular (...) (p. 14)”. Pessoas comuns, amadores, ou mesmo jornalistas e fotógrafos que estavam no local enviaram imagens mostrando o ocorrido. Este fenômeno, a informação instantânea, é a maior característica do jornalismo open-source. As notícias que eram feitas por jornalistas para os usuários começaram a ser feitas com a participação dos mesmos. Os relatos, a parcialidade, a visão in loco dos acontecimentos foram muito valorizados. E o público que era o alvo, para quem se dirigia a notícia, começou a produzir as notícias. FOSCHINI e TADDEI (2009) salientam que o termo “jornalismo cidadão” foi utilizado em todo o mundo, incluindo o Brasil, para classificar a produção de notícias feita por colaboradores, e completa:
Ele não exclui a produção dos jornalistas profissionais, acrescenta a ela a contribuição de cidadãos jornalistas, leigos que são testemunhas

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de fatos importantes, gente que está no lugar certo e na hora certa para cobrir um evento, especialistas que podem falar melhor sobre determinado assunto e ainda todas as vozes que simplesmente desejam se manifestar. (p. 10).

O jornalista possui as técnicas da escrita, mas muitas vezes um especialista pode conseguir explicar melhor um assunto do que o profissional da informação. Ou um amador, que estuda por hobbie, pode saber particularidades sobre determinados fatos que enriquece o produto jornalístico. Essa integração entre o jornalista e o público pode alterar a agenda midiática porque não mais somente os media são responsáveis pelos fatos divulgados, mas o público o influencia mostrando o que quer ver e discutir. As notícias tornam-se como produtos públicos, tanto na elaboração como na distribuição e no consumo. A informação passa a ser produzida por milhares de pessoas em conjunto, todos com os mesmos direitos, sem que haja uma hierarquia, todos voluntários do bem comum. Porém, a mídia ainda vê com maus olhos essa participação do usuário. Ela tenta barrar ou ao menos impor limites à participação do público, que mantém uma batalha para manter seu direito de participação contra os meios “proibicionistas” que tentam a todo custo impedir a participação não autorizada e os “cooperativistas” que tentam controlar as participações, dando pequenas aberturas. A participação é algo irreversível. Ou nos acostumamos e a utilizamos como ferramenta para melhorar nossa produtividade ou iremos ficar lutando numa guerra perdida. BRAMBILLA (2006) é otimista quando se refere ao jornalismo open source, destaca que essa nova técnica provoca “uma instabilidade em um modelo restritivo” que integra os pólos, emissor (jornalistas) e receptor (público/usuário). Com isso no “jornalismo open source, o sujeito que lê é o mesmo que escreve as notícias, compartilhando as responsabilidades e tendo no envolvimento pessoal sua principal moeda de troca (p. 9)”. O grande foco do jornalismo participativo é o hiperlocal. Enquanto a grande mídia divulga as notícias de impacto nacional e mundial, se concentrando nos

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acontecimentos das metrópoles e das grandes cidades, o jornalismo participativo se ocupa em tratar os fatos corriqueiros do dia – a – dia. Trazendo o foco para perto do ciberusuário, é notícia o que ocorre nas pequenas e médias cidades, os problemas sociais menos tratados, acontecimentos fora do eixo cultural, manifestações sem grandes repercussões, cobrança dos direitos e leis etc. O cibercidadão coleta, reporta, analisa e dissemina essa informação com a intenção de tornar públicos os acontecimentos que ele considera relevantes e necessários para uma discussão social. E entende-se que essa notícia no jornalismo open source é livre para ser manipulada, lida, alterada, ganhando comentários ou mais informações, corrigindo inverdades que possam ter sido relatadas, ser interpretada, analisada, distribuída e credenciada para qualquer propósito, para um melhor entendimento do fato noticiado. Qualquer pessoa pode escrever, ler, distribuir, redistribuir e utilizar as informações participativas, esse é o papel do colaborador – pessoa sem formação jornalística que escreve e publica notícias. O colaborador serve de voluntário produzindo o que deseja, quando e como desejar. Foschini e Taddei (2006) concordam e confirmam essa visão demonstrada sobre o jornalismo digital, e complementam:
Ele [o Webjornalismo Participativo] não exclui a produção dos jornalistas profissionais, acrescenta a ela a contribuição de cidadãos jornalistas, leigos que são testemunhas de fatos importantes, gente que está no lugar certo e na hora certa para cobrir um evento, especialistas que podem falar melhor sobre determinado assunto e ainda todas as vozes que simplesmente desejam se manifestar (FOSCHINI E TADDEI, 2006, p. 10).

Portanto, o jornalismo atual precisa levar em conta essa nova perspectiva. O jornalismo participativo pode ser feito de duas maneiras, dependendo do nível de colaboração, que pode ser parcial ou total. No nível parcial podemos citar o exemplo do jornal sul coreano OhmyNews, uma das primeiras experiências de jornalismo colaborativo no mundo. Com sua fundação em 2000, exerce a filosofia de que “todo cidadão é um repórter”. A participação pode se feita por qualquer pessoa através de

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envio de notícias. As noticias passam por uma edição, feita por jornalistas, e se publicadas o cibercidadão recebe uma pequena quantidade de dinheiro como forma de recompensa. Já a participação no nível total o cibercidadão tem total liberdade e acesso ao “código-fonte” do site, ou seja, ele faz a pauta, colhe os dados, escolhe as fontes, escreve a notícia e a posta, sem nenhuma intromissão de outras pessoas no processo. Exemplos desse modelo são o WikiNews, o Brasil Wiki e o Overmundo, este último é o objeto de nossa pesquisa. A única forma de seleção feita nesses sites, na maioria das vezes, é um cadastro inicial para ser colaborador. A colaboração é espontânea, mas, podemos notar que existem três aspectos essências para que ela aconteça: 1- A passagem dos mass media para o ciberespaço – um espaço aberto, começando pelo código, interagente e participativo e com um leitor de perfil “ativo”. 2- Liberação do pólo emissor – muito estudada pelos comunicadores. Possibilitou a multivocalidade na rede devido os cidadãos ganharem acesso/ferramentas/tecnologias para produção e veiculação de conteúdo; 3- A ubiqüidade7 – a perda de noção dos limites temporais e geográficos que ocasionou a mudança na concepção e relação do mundo. Com isso a colaboração se faz cada vez mais presente no webjornalismo. A produção coletiva transforma o público que vira co-autor da notícia e modifica os papéis dos media que passa a mediador, além de produtor e agora também receptor de conteúdo. Esta transformação é uma reorganização do processo comunicacional onde o desequilíbrio é causado pelo interagente, o colaborador, que une em si as funções de emissor e receptor, o que antes eram dois lados, agora se torna uma coisa só.

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http://pt.wiktionary.org/wiki/ubiquidade

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Mas, mesmo em um ambiente colaborativo deve se seguir regras, assim como no meio jornalístico. A notícia é feita em conjunto mas às fontes e as referências devem ser citadas como em toda obra.

2.2.1 – Legislação e direitos autorais
Com os avanços tecnológicos, as mudanças no processo de produção jornalística, a interatividade e a participação do usuário na construção da notícia começam a surgir muitas dúvidas referentes aos direitos autorais e legislação sobre produtos e notícias, o que faz com que seja mais do que necessário, uma revisão atenta às leis de direitos autorais. JENKIS (2008) diz que “os juizes sabem como agir com pessoas que têm interesse profissionais na produção e distribuição de cultura; mas não sabem o que fazer com amadores”. (p. 250). A produção em comunidade traz muitas dúvidas sobre quem é o autor, como citar, como fazer referência ou mesmo o que pode e o que não pode se fazer em um texto na web. Com isso, está surgindo o resgate da autoria anônima, de assinaturas coletivas e licenças livres como o Creative Commons8 e o copyleft9, em oposição aos direitos autorais e o status da propriedade intelectual. Como cita Lévy (1999), “nem a responsabilidade individual nem a opinião pública e seu julgamento desapareceu no ciberespaço”. (p. 128) por isso devemos nos atentar para não infringir leis e normas. As leis que valem no meio eletrônico são as mesmas que se aplicam aos demais meios de comunicação. O que vale, então, é o bom senso para ajudar a verificar o que é proibido ou não, como, por exemplo, conteúdo racista, preconceitos raciais ou religiosos, assuntos considerados crimes, boatos e fofocas, sem averiguação, dados confidenciais ou sigilosos de pessoas ou empresas, conteúdo pirata ou ilegal etc. Resumindo, assuntos e ações considerados sujeitos a punições no mundo real também vale para o virtual. Mesmo os blogs sofrem as mesmas restrições legais que qualquer outro meio de divulgação. Os textos são lidos por milhares de pessoas, as quais podem também

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É um projeto sem fins lucrativos que disponibiliza licenças flexíveis para obras intelectuais. http://www.creativecommons.org.br/ 9 Publicação gratuita, mas somente liberada pelo período desejado pelo autor. http://www.copyleftpearson.com.br/

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dar sua opinião. Tanto o texto como os comentários são de responsabilidade do dono do blog. Assim, bom senso e autocrítica são fundamentais. A autoria de textos, tanto no meio virtual ou não, possui uma aura sagrada, já que um texto de sucesso garante ao autor um lugar de destaque diante do público. Assim, com a liberdade de alteração, redução e ampliação dos textos colaborativos, todos se tornam um pouco autores, porém, essa autoria deve ser citada quando feita referência ao texto em outros locais. Como na vida real, a citação da referência e a autoria, na web é um dever. Existem vários tipos de licenças e registros autorais. Cabe a cada autor decidir qual quer usar, e aquele que irá utilizar o produto protegido, entender e respeitar. As licenças mais flexíveis criadas a partir do advento da internet foram as Creative Commons. - Creative Commons Um projeto de licenciamento baseado integralmente na legislação vigente sobre os direitos autorais. As licenças permitem que os autores gerenciem seus direitos, autorizando à coletividade alguns usos sobre sua criação e restringindo outros. Existem vários tipos de licenciamento, desde mais restritas até mais amplas. A licença mais utilizada do Creative Commons não permite o uso comercial da obra. O selo Creative Commons estabelece os termos de uso das obras de forma que apenas alguns direitos ficam reservados. As licenças podem ser combinadas entre si: • Atribuição - permite que outros copiem, distribuam, exibam e interpretem a obra e trabalhos derivados dela com a condição de se creditar a autoria. • Uso não comercial - permite que outros copiem, distribuam, exibam e interpretem a obra e trabalhos derivados dela apenas para fins não comerciais. • Não a obras derivadas - permite que outros copiem, distribuam, exibam e interpretem apenas cópias idênticas à obra, mas não permite trabalhos derivados dela.

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Compartilhamento pela mesma licença - autoriza a distribuição de trabalhos derivados da obra com a condição de se ter uma licença idêntica à que governa o trabalho. - Copyleft A licença copyleft10 é uma licença que preza a liberdade do usuário frente ao conteúdo. Segundo o site da Free Software Foundation11, “O copyleft diz que qualquer um que distribui o software, com ou sem modificações, tem que passar adiante a liberdade de copiar e modificar novamente o programa. O copyleft garante que todos os usuários tenham liberdade.” – ou seja: se você recebeu um software com uma licença livre que inclua cláusulas de copyleft, e se optar por redistribui-lo modificado ou não -, terá que mantê-lo com a mesma licença com que o recebeu, o que o torna como uma licença viral, comumente chamada no meio online, pois, se propaga como um vírus que vai se ‘reproduzindo’ e se ‘alastrando’ por todo ciberespaço. Assim, um documento criado a partir das modificações de outro documento com copyleft deve manter a licença copyleft. O copyleft obriga o usuário a deixar bem claro no documento reproduzido quem é o autor original, seja colocando o seu nome em algum lugar, seja inserindo o nome na capa do documento, conforme a importância da reprodução ou o número de cópias realizadas. No caso de serem realizadas modificações/alterações no documento original o copyleft especifica que deve ficar bem perceptível qual o conteúdo original e quais as modificações realizadas pelo segundo autor. A licença do copyleft também tenta evitar que uma terceira pessoa tente aplicar uma licença copyright a conteúdos copyleft, ou seja, os conteúdos livres sempre vão ser livres, seguindo essa licença. O fato de um texto, um programa, ou qualquer obra ser copyleft não quer dizer que ela seja grátis. Pode se cobrar por conteúdos copyleft, sendo cobrado pelo autor original ou pelos secundários, isto é, cobrando-se pelas alterações feitas no produto original. O copyleft simplesmente estabelece a liberdade de reprodução do

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Copyleft - http://www.gnu.org/copyleft/ - site em inglês. http://www.fsf.org/ - Site do Software livre – em inglês.

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conteúdo, em outras palavras, pode-se vender um documento copyleft, mas quem compra o documento pode copiá-lo à vontade. O símbolo do copyleft é o símbolo do copyright invertido, assim como a palavra que é um trocadilho com copyright, e cuja tradução aproximada seria “deixamos copiar”, ou “cópia permitida”. O termo vem de um trocadilho em inglês, que substitui o right direita, em inglês - de copyright ’por left - esquerda, em inglês. O duplo sentido do termo está no fato de que a palavra left é o verbo leave (deixar) no passado, tornando copyleft um termo próximo a ‘cópia autorizada’. Outro trocadilho intraduzível brinca com a famosa frase ‘Todos os direitos reservados’, que sempre acompanha o símbolo. Para o copyleft, All rights reserved torna-se All rights reversed, -‘Todos os direitos invertidos’. A licença foi criada para proteger o sistema GNU12 (sigla de Gnu is not Unix, típica piada de informatas, mais conhecidos como geeks), garantindo que nenhum comerciante usasse a arquitetura desenvolvida pelo GNU em nenhum programa pago. Invertendo as regras do direito autoral - o copyright -, em que o usuário deveria pagar uma porcentagem do valor do produto ao criador ou revendedor - valor do produto -, o copyleft assegura que qualquer um pode ter acesso àquelas informações, desde que cite a fonte original. Um exemplo de sistema operacional gratuito no mercado, é o Linux, desenvolvido pelo finlandês Linus Torvalds. O ideal do copyleft é que o conhecimento não pertence a ninguém. Todo conhecimento vem de outros conhecimentos anteriores e é uma cópia em maior ou menor grau de outras idéias. Portanto, restringir a cópia não faz sentido e só atrasa a geração de novos conhecimentos. - Copyright©

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GNU - um projeto criado por Richard Stallman, que visava desenvolver um sistema operacional que fosse tão eficiente quanto seu concorrente (Unix), e que fosse de acesso livre para seus usuários.

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A licença copyright13 é exatamente o contrário da copyleft. Criada antes da copyleft, ela visa a proteção do direito autoral limitando a reprodução, a execução, a modificação, a divulgação em público e até mesmo a venda da obra, produto, etc. Muitas vezes direitos autorais e copyright se confundem, pois, ter direito sobre a obra não é necessariamente ter posse da mesma e restringir que não seja divulgada ou utilizada em outras pesquisas para a formação de outros conhecimentos. Assim, a copyright muitas vezes é utilizada de forma errônea como meio de manipulação e de cerceamento da construção do conhecimento. Quem não cumprir com as exigências estabelecidas pelo copyright está sujeito a punições legais, podendo ser acusado de crime de direito autoral. Toda e qualquer obra sob a licença paga e recebe um valor sobre o produto, com isso, seu uso é restritivo. Deve-se comprar o produto licenciado para se fazer uso do mesmo e ainda sim seguindo as regras impostas pela licença. A maioria dos produtos são licenciados pelo copyright, somente com o surgimento da internet e das comunidades colaborativas que se criou novas licenças.

2.3 – Jornalismo colaborativo
Um celular com câmera, uma câmera digital ou uma simples filmadora pode tornar qualquer cidadão um colaborador. Qualquer pessoa na hora e no local certo pode utilizar as ferramentas do jornalismo para produzir notícia. Esse é o conceito do jornalismo cidadão também conhecido, e é o termo que será utilizado nessa pesquisa, como jornalismo colaborativo. Esse jornalismo é uma ferramenta que a cada dia tem sido mais aproveitada pela grande mídia e que agora começa a ganhar prestígio e reconhecimento.Yuri Almeida (2009) explica que o jornalismo colaborativo surgiu de uma idéia de abertura:
A base filosófica do jornalismo colaborativo é movimento do software livre14 iniciado em 1984, por Richard Stallman, como contraponto ao
Copyright - http://www.copyright.gov/ e http://pt.wikipedia.org/wiki/Direito_autoral#Copyright_.22.C2.A9.22 - site em inglês. 14 Software livre - A proposta do software livre era de abrir o código-fonte para a análise e modificação por parte de qualquer utilizador, aprimorando desta forma, a usabilidade do programa.
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software proprietário, que “aprisionava” e “restringia a liberdade” dos usuários. [...] Além dos aspectos tecnicistas, o movimento trouxe consigo a luta pela liberdade, compartilhamento de conteúdo e a colaboração como processo produtivo, em substituição ao individualismo15. (p. 27).

Abrir o código fonte significa, no jornalismo, liberar espaços para que o usuário dê a sua colaboração, seja para a elaboração da pauta, a divulgação de imagens feitas pelos cidadãos-repórteres16, a produção de matérias etc. Foschini e Taddei (2006, p. 19) afirmam que existem vários nomes para a mesma prática do Webjornalismo Participativo e que “muita gente confunde jornalismo cidadão com jornalismo cívico ou o jornalismo feito pelos veículos de mídia com o enfoque nos interesses do cidadão”. O webjornalismo participativo se refere aquele em que o usuário dá a sua colaboração, participação através de notícias, envio de imagens, vídeos, sons, animações etc., já o jornalismo cívico é uma vertente do jornalismo que enfoca a fiscalização dos direitos dos cidadãos, o cumprimento das leis etc. Nicola (2004) evidencia que esse tipo de webjornalismo está em fase de crescimento:
O número de sites comunitários jornalísticos amplia-se numa velocidade surpreendente, e essa é uma tendência do mercado editorial cibernético. As empresas jornalísticas necessitam investir nessa característica local do público on-line, somando a ela os recursos dos portais, o conteúdo das notícias e os aparatos multimidiáticos da rede. (p. 66).

É uma tendência dos últimos anos e que atualmente toma o foco das discussões sobre os rumos do jornalismo e novas tecnologias na produção jornalística. Sua popularidade se dá devido à abrangência de seu conteúdo, como foco principal no hiperlocal. A grande diferença do jornalismo colaborativo é que nele o usuário não sugere idéias e pautas e sim envia imagens, produz notícias, faz vídeos etc. No jornalismo
Editorial da revista Comciência - http://www.comciencia.br/reportagens/softliv/softliv5.htm Refere-se aos colaboradores dos jornais open source, não está associado à profissionalização dos colaboradores. Por cidadão-repórter entende-se os usuários que produzem informação sobre acontecimentos locais e globais.
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participativo, o cidadão atua com sugestões, comentários, no máximo, envia algum complemento à matéria, ou seja, sua participação é limitada, ele se torna co-autor, diferente do colaborador que atua como produtor ativo. O termo “cidadão jornalista” pode ser aplicado tanto para os que criam os próprios espaços online ou participam de comunidades de terceiros. Mas, quem são os cidadãos jornalistas ou cidadãos repórteres como também são conhecidos? Foschini e Taddei (2006) em seu livro Conquiste a Rede, informam que são vários os seus perfis. Citaremos alguns: • Publicador – possui páginas pessoais (blog, flog, vlog) ou produz podcasts com notícias, independentemente do assunto abordado. • Observador – vira fonte da noticia por acaso, está pronto para registrar eventos imprevisíveis. • Militante – É o cidadão jornalista que defende uma causa ou dedica-se a um assunto com paixão. Ex: torcedores de times de futebol, defensores de partidos políticos ou de causas como ambientalismo e a defesa de minorias. Pode se dedicar também aos fatos de sua comunidade, seja ela um prédio, um bairro ou uma associação. • Comentarista – É o cidadão jornalista que se manifesta nas páginas existentes da web, deixa comentários em blogs, flogs, vlogs, fóruns, comunidades ou em portais da grande mídia.

Editor - Seleciona notícias e participa de comunidades ou sites colaborativos, sugerindo links para a grande imprensa ou de páginas pessoais.

Todos esses perfis são apenas definições para se explicar diferentes formas de colaboração/participação, podendo-se combinar entre si, ou seja, um colaborador pode ser editor, publicador e comentarista ao mesmo tempo, por exemplo, sem que isto interfira na sua colaboração, aliás, só vem a acrescentar. Para os autores Taddei e Foschini (2006), “Os profissionais da comunicação têm agora milhares de aliados na tarefa de apurar fatos, conhecer novidades, reunir e comentar informações” fazendo a cobertura hiperlocal dos fatos onde os meios de

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comunicação não conseguem chegar, auxiliando assim para uma maior e melhor cobertura e divulgação dos acontecimentos. Os grande meios de comunicação se preocupam mais com os fatos e acontecimentos de repercussão nacional e global, deixando de lado uma infinidade de assuntos com grande conteúdo noticioso de caráter local ou hiperlocal, ás vezes por falta de tempo ou mesmo por falta de público, já que esse meios visam atingir um maior número possível de pessoas com suas notícias. Então, os conteúdos colaborativos feitos pelos cidadãos-repórteres ganham qualidade e visibilidade por divulgar esses fatos “esquecidos” ou “deixados de lado”. Já a qualidade desse conteúdo fica por conta da quantidade de colaborações existentes nele e nas referências utilizadas e creditadas. O colaborador ganha espaço na web conforme a qualidade de suas colaborações e a veracidade da informação divulgada e pode se tornar uma grande fonte de produção de conteúdo.

2.4 – Conteúdo colaborativo
Antes de falar sobre conteúdo colaborativo e o conceito de comunidades que esse conteúdo gera vamos tratar sobre as mídias sociais. Entendemos como mídias sociais os ambientes públicos, aberto a todos ou restritos com necessidade de cadastramento, onde se produz e compartilha o conteúdo. Esses ambientes geram a possibilidade de um diálogo público, com troca de materiais como vídeo, imagem, slides, texto, sons etc., e não apenas são entendidos como as redes sociais, como Orkut e Facebook. Estamos falando de sites comunitários como Digg, Twitter e nosso objeto de pesquisa o Overmundo. As mídias sociais que geram um conceito de comunidade colaborativa podem ser entendidas como, por exemplo, o YouTube e o Flickr que veiculam vídeos e fotos, o Digg em que se pode publicar artigos de outros sites e votá-los para um rankeamento das melhores informações – mais confiáveis –, o Twitter, que permite uma troca de conhecimentos, links para vídeos, fotos, sons, postagens de notícias e um feedback com diálogos pessoais e o Overmundo – que iremos analisar no

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próximo capítulo. Já o Orkut é entendido apenas como uma rede social de relacionamento, sem um grande poder de veiculação de conhecimento. Então podemos entender o conceito de comunidade colaborativa como o do software livre. Com muitas pessoas analisando os erros, eles podem ser resolvidos de uma maneira melhor e de uma forma mais rápida e prática. Por isso, hoje existem comunidades que são automoderadas, ou seja, os usuários através de suas participações, indicam ao sistema quais os usuários e os perfis de usuários aceitos na comunidade. Esses são exemplos de conteúdo colaborativo que ultrapassa os limites da exibição de textos, fotos e animações, permitindo uma maior interação entre o usuário final e o serviço. Atualmente, boa parte dos grandes websites de sucesso não produzem seu próprio conteúdo (Youtube, Flickr, Wikipedia, del.icio.us, etc), essa função fica por conta dos usuários que além de contar com uma grande quantidade de opções de material já publicado para consultar, ainda podem gerar o conteúdo e participar da comunidade. Assim, a função dos proprietários dos sites está se restringindo a apenas administrar a comunidade criada – ou seja, cadastrar os usuários e criar seus perfis – e aos usuários cabem produzir e manipular os conteúdos – auto-regulam o que é permitido publicar, o que se pode ou não pode fazer no site, as regras de postagens, criam um rankeamento dos melhores conteúdos, exigem a expulsão dos usuários que não respeitam as regras etc. Há uma quantidade enorme de projetos de conteúdo colaborativo na web para vários segmentos – para fotos, vídeos, planilhas, textos, diários, piadas etc., e esses conteúdos são responsáveis por boa parte do tráfego da internet no mundo. Os usuários podem criar diários pessoais (blogs – mas nem todos os blogs são diários pessoais), álbum de fotos e até mesmo um canal de televisão online, a exemplo dos vídeos do Youtube. Porém dentro do jornalismo colaborativo as opções com conteúdo colaborativo, ou seja, sem vínculo com algum grande grupo de mídia e sem a interferência de jornalistas é muito pequena no Brasil. Ainda existe a idéia de que para o jornalismo

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colaborativo existir deve se ter à interferência de um profissional da área o que daria credibilidade ao material publicado. Os canais de jornalismo colaborativos existentes, no país, são dos grandes grupos de mídia e subordinados ao editorial e à política da empresa, sendo publicado somente o que é de interesse deles e não da população, o que cria a falsa impressão de liberdade e interação entre o usuário e o media. Segundo uma pesquisa realizada pela “empresas de pesquisas GlobeScan e Synovate” verificou-se a preocupação dos brasileiros com as empresas de mídia,
[...] avaliou a opinião de 11.344 pessoas em 14 países e comprovou que 80% dos brasileiros se dizem preocupados com a propriedade das empresas de mídia e acreditam que esse controle pode levar a “exposição das visões políticas” de seus donos no noticiário. 43% dos entrevistados acham que a cobertura do noticiário pelos órgãos públicos brasileiros é “pobre”17.

E ainda constatou que os brasileiros têm interesse em participar do processo de decisão sobre o que vai ser notícia, “74% disseram que gostariam de “ser ouvidos” na hora da escolha das notícias. E tem mais: 52% disseram que a liberdade para informar os fatos de forma honesta e verdadeira é importante para garantir uma sociedade justa. 18 Verificamos que o brasileiro quer mais controle em suas mãos quando o assunto é notícia, ele quer poder opinar mais sobre o que ele quer ler, ver e ouvir. Isso explica o sucesso de comunidades como o Twitter, o Digg, e o Overmundo, e de sites como YouTube, Flickr, entre outros - o poder está nas mãos do usuário, ele faz o que quer. O que incentiva o colaborador? Segundo Mário Cavalcanti (2008), “ao encontrar uma matéria que lhe parece improcedente, ele chama para si o dever de publicar, naquele mesmo espaço, a versão que lhe parece correta (p. 35)”, através dos comentários ou se o veículo permitir – com o uso de software livre – altera a própria matéria, apagando os erros, os fatos inverídicos e postando os fatos como ocorreram.
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Observatório da Imprensa. Pesquisa mostra a divisão da opinião pública mundial sobre a liberdade de imprensa e a informação. http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id_blog=2&id=%7B08474AFD5F25-4A69-AAFD-4AE77B2C892A%7D 18 Observatório da Imprensa. Pesquisa mostra a divisão da opinião pública mundial sobre a liberdade de imprensa e a informação. http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id_blog=2&id=%7B08474AFD5F25-4A69-AAFD-4AE77B2C892A%7D

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O autor explica que o interessante no jornalismo colaborativo é chamar a participação das pessoas, transformando o seu dia-a-dia em matéria, seu bate papo no botequim, uma fofoca do salão de beleza, um acontecimento do trânsito, uma alteração nos serviços públicos etc. Em seu livro Eu, mídia (2008), Mário Cavalcanti incentiva o uso do colaborativo no jornalismo e defende essa visão de comunidade e liberdade ao usuário para criar e produzir conteúdo, trazer o local para a web, fugindo do nacional e mundial, uma tendência que o colaborativo trouxe e que ganha cada vez mais espaço. Diz também que essa prática da colaboração não é novidade, o que se torna novidade é ele ser feita de forma tão aberta e o público não ser mais utilizado como apenas fonte, mas agora, como criador e editor de conteúdo. As fotos de flagras, vídeos amadores, cartas dos leitores que antes eram usadas em caráter emergencial, quando faltava a oficial, ou apenas como meio de ilustrar, agora se torna parte do conteúdo jornalístico cotidiano. A colaboração com interferência dos meios de comunicação sempre foi bem vinda e aceita, podemos, agora, fazer o mesmo com o conteúdo colaborativo, é uma questão de tempo, “Isso não implica que haverá uma “profissionalização” do jornalismo participativo, mas sim a elaboração de uma “arquitetura de participação”, com regras e hierarquias”. (p. 91). (CAVALCANTI, 2008). Os jornalistas serão mediadores da sociedade, não deixarão de produzir conteúdo mais irão produzir um conteúdo mais especializado, analisado e crítico, o feijão-comarroz, o dia-a-dia, o cotidiano será dos usuários. Os sites de conteúdo colaborativo geram uma idéia de comunidade, devido a esse caráter de democracia social existente, ou seja, todos criam as regras que serão cumpridas por todos e de conhecimento de todos, porém essas “comunidades” colaborativas podem ser formadas de várias formas. Sobre as comunidades colaborativas, iremos destacar algumas formas existentes: • Aberta comunal – os integrantes da comunidade são responsáveis pela administração do ambiente. Pode ou não haver um moderador para gerenciar os membros e possíveis intervenções de caráter emergencial;

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Aberta exclusiva – um grupo de integrantes tem o privilégio de criar o conteúdo e os demais atuam sobre o conteúdo secundário como os comentários; Fechada – somente um grupo pode ler, editar e publicar conteúdo, ex: blogs com senhas; Parcialmente fechada – algum privilégio dos citados acima na categoria “fechada” é liberado para os demais internautas.

Podemos ver que há grandes diferenças entre essas comunidades. O modelo que veremos mais a fundo é o aberta comunal que é o modelo no qual se enquadra o nosso objeto de pesquisa, o projeto Overmundo. Mas, isso, veremos no capítulo a seguir.

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3. OVERMUNDO

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3. OVERMUNDO
Nesta terceira parte da monografia iremos realizar a pesquisa. Utilizando os conceitos citados até o momento, veremos a aplicação do jornalismo colaborativo no site Overmundo, nosso objeto de estudo. Vamos analisar o conteúdo colaborativo do Overmundo segundo os critérios de noticiabilidade, ou seja, as escolhas dos temas, relevância da notícia, seu conteúdo, seu formato – seguindo os critérios jornalísticos -, seu caráter, atualidade, fontes etc, para enfim, concluir adiante, sobre as mudanças e os impactos da colaboração no jornalismo.

Em um primeiro momento, foi necessário entender a dinâmica do Overmundo, através do funcionamento das ferramentas utilizadas pelos usuários para cadastro, acesso e publicação de conteúdos. Para isso foram analisados conceitos técnicos e utilizados conceitos de interação, cibercultura, web 2.0 e o próprio webjornalismo participativo. Também foi aplicada a técnica da observação participante, para uma maior aproximação com o objeto de estudo, com a intenção de melhor compreender a lógica de funcionamento como um usuário da comunidade colaborativa virtual. Lévy (1999) explica o conceito de comunidade virtual como,
Uma comunidade virtual é construída sobre as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de cooperação ou de troca, tudo isso independentemente das proximidades geográficas e das filiações institucionais. (p. 127).

O que é justamente o que ocorre como o Overmundo, seu foco é muito bem definido, sendo uma comunidade para divulgação de manifestações da cultura brasileira fora do circuito midiático. E Lévy (1999) prossegue:
(...) o ciberespaço é justamente uma alternativa para as mídias de massa clássicas. De fato, permite que os indivíduos e os grupos encontrem as informações que lhes interessam e também que difundam sua versão dos fatos (inclusive com imagens) sem passar pela intermediação dos jornalistas. O ciberespaço encoraja uma troca recíproca e comunitária, enquanto as mídias clássicas praticam uma comunicação unidirecional na qual os receptores estão isolados uns dos outros. (p. 203).

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O que o autor explica, veremos na prática com nosso objeto de pesquisa, uma comunidade colaborativa, sem intromissão de jornalistas no conteúdo, onde os jornalistas “apaixonados” pela cibercultura e pelo jornalismo, não encontrando uma brecha nos meios clássicos, também utilizam o site para divulgação de seus conteúdos. Nessa análise sobre o exercício do colaborativo, iremos verificar a utilização das bases do jornalismo - credibilidade, identificação, proximidade, atualidade, novidade, apuração e verdade – que são os nortes para o jornalismo, seja ele feito num modelo linear, unidirecional, como nas mídias clássicas, em que um fala e muitos escutam, modelo um - todos, seja num modelo rizomático, pluridirecional, em que já não é mais possível separar emissores e receptores, como no modelo todos – todos utilizado no webjornalismo participativo. O Overmundo19, objeto de estudo desta monografia, é um projeto que foi lançado em 2006, com o objetivo de criar novos canais de difusão e produção cultural brasileira e das comunidades de brasileiros no exterior, com foco em seus aspectos que não costumam receber cobertura da grande mídia. Pode ser classificado na categoria “aberta comunal” visto que após um rápido cadastro no site pode-se publicar conteúdos colaborativos nas editorias Overblog seção destinada a reportagens, entrevistas e críticas que versem sobre a produção cultural brasileira, o Banco de Cultura - destinado à difusão online de obras culturais (músicas, poemas, narrativas, teses, filmes, fotografias etc.) produzidas no Brasil ou por brasileiros no exterior; o Guia - para dicas de lugares, atividades, comidas, festas e eventos regulares da vida cultural das cidades de todo o Brasil; a Agenda programas e eventos do calendário cultural em todo o país; o Observatório - espaço para comentários editoriais da Equipe Overmundo, alimentado com posts sobre novidades no site, discussões sobre cultura, reflexões sobre as tendências da chamada web 2.0 etc; Fórum de Ajuda - para tirar dúvidas específicas e o Overmixter - um site para remixes de músicas que congrega remixes e samples

19

Projeto Overmundo – http://www.overmundo.com.br/

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licenciados sob licenças Creative Commons. Essa iniciativa é uma parceria do Overmundo com o CCMixter20.

Figura 3: Home do Overmundo. http://www.overmundo.com.br/

O site só existe a partir da colaboração de seus usuários que o alimentam com textos, músicas, vídeos, discussões e comentários. Para publicar, basta fazer um rápido cadastro, com informações básicas, mas, o número do CPF é imprescindível, pois ele é checado no site da Receita Federal, porém, se você não possuir CPF pode se cadastrar como estrangeiro e postar sua colaboração em uma das seções do site. Por isso, foi classificado na categoria aberta comunal, onde os integrantes da comunidade administram a comunidade e o gerenciador – equipe editorial – apenas se manifesta em ocasiões emergenciais como, por exemplo, postagens ilícitas.

20

As informações sobre o que é, como é feito, como cadastrar, etc foram retiradas de: http://www.overmundo.com.br/estaticas/ajuda.php

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Figura 4: Página para registro de novo colaborador. http://www.overmundo.com.br/registro/registro.php

Hoje, o site é administrado pelo Instituto Overmundo21, mas foi criado pelo Movimento Núcleo de Idéias, formado por Hermano Vianna, José Marcelo Zacchi, Ronaldo Lemos e Alexandre Youssef, por meio de patrocínio da Petrobrás através do Programa Petrobrás Cultural e incentivo fiscal do Programa Nacional de Apoio à Cultura/Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet – do Ministério da Cultura. Porém, os coordenadores do site procuram deixar claro que não há vinculo nenhum com o governo fora esse incentivo e que o site não é um órgão público e sim uma organização não-governamental sem interferência de seus patrocinadores. Assim como é definido em seu editorial:
O Overmundo é um site colaborativo. Um coletivo virtual. Seu objetivo é servir de canal de expressão para a produção cultural do Brasil e de comunidades de brasileiros espalhadas pelo mundo afora se tornar
21

. Instituto Sociocultural Overmundo é uma associação sem fins lucrativos dedicada à promoção do acesso ao conhecimento e à diversidade cultural em todo o Brasil. Sua missão é promover o acesso ao conhecimento e à diversidade cultural no Brasil, por meio de práticas inovadoras em comunicação, propriedade intelectual e tecnologia. Site: http://www.institutoovermundo.org.br/

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visível em toda sua diversidade. Para funcionar, ele precisa da comunidade de usuários sempre gerando conteúdos, votando, disponibilizando músicas, filmes, textos, comentando tudo e trocando informações de modo permanente22.

Não existe uma interferência por meio da equipe que coordena, modera e administra o site no conteúdo que é publicado, a menos, é claro, que esse conteúdo seja depreciativo e/ou ofensivo, assim sendo, a equipe deleta o conteúdo e entra em contato com o colaborador. A equipe editorial do Overmundo cita que nenhuma equipe de jornalistas, por maior, ou melhor, que seja consegue cobrir, filtrar e relatar todos os acontecimentos do país. E seguindo projetos online como a Wikipedia e os blogs, deixa claro seu desafio:
Seguindo esses exemplos, lançamos o desafio: todo (a) cidadã (o) brasileiro pode aqui contribuir para promover todos os aspectos da nossa produção cultural que lhe interessem. O Overmundo, por uma questão de princípios, não funcionará sem a colaboração de muita gente. Quanto mais, melhor23.

É essa colaboração que faz com que o site se mantenha e, em momentos de perigo, como divulgação de conteúdo impróprio, se manifesta e faz com que a rede editorial entre em ação para manter a integridade do site. Essa equipe possui vínculo com o site, porém não recebe nada em troca. O site é aberto para colaborações autorais, até prefere que assim seja, e salienta que se for citar artigos, ou utilizar qualquer outro material de outro autor, que o faça citando todas as fontes e links. A equipe responsável pelo site dá dicas e auxilia o usuário a fazer os créditos do conteúdo. O projeto trabalha com o software livre, sob licença CC-GNU-GPL24, isso significa que todo o código do site também é aberto à colaboração de usuários e interessados, tornando possível compartilhar experiências em sua utilização e até mesmo no desenvolvimento de sua documentação. Ainda há liberdade de ler e utilizar obras postadas no Overmundo sem se ter um cadastro no mesmo; somente para votar, comentar e postar colaborações existe a
Sobre o Overmundo. Disponível em <http://www.overmundo.com.br/estaticas/sobre_o_overmundo.php>. Acessado em 10 ago de 2009. 23 Sobre o Overmundo. Disponível em <http://www.overmundo.com.br/estaticas/sobre_o_overmundo.php>. Acessado em 10 ago de 2009.
24 22

Licença Creative Commons. Mais dúvidas rever cap. 2 sobre direitos autorais.

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necessidade de se registrar. Cada registro se transforma em um perfil – página pessoal, como do Orkut, Twitter – com informações sobre o colaborador, suas colaborações, comentários, colaboradores favoritos e espaço para fotos.

Figura 5: Página de perfil do colaborador. http://www.overmundo.com.br/perfis/gleice-bernardini

Para colaborar, existem duas formas: postar o conteúdo na “Edição Colaborativa” ou publicar diretamente. Na primeira, a colaboração vai ficar visível nas primeiras 48 horas apenas em “Edição Colaborativa”. Já na outra maneira, ela ficará visível entre as “Colaborações recentes”. Na editoria “Edição Colaborativa”, o usuário poderá fazer alterações em seu texto durante ás 48 horas, e também acompanhar as sugestões recebidas, podendo utilizá-las ou não. Depois desse período, o material será publicado definitivamente, ficando visível mais 48 horas na editoria “Colaborações recentes” - espaço em que se pode encontrar as colaborações publicadas diretamente no site.

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Nesta seção, também, qualquer colaborador pode ajudar a editar o material. Ao clicar em “Edição colaborativa” aparecem todos os conteúdos disponíveis para edição. A colaboração fica disponível para ser lida e logo abaixo se abre o espaço “sugestão de edição” e “comentário”. Já em “Colaborações recentes” aparecem todas as colaborações enviadas nas últimas 48 horas. Todas as editorias são divididas pelas segmentações do site – “overblog”, “banco de cultura”, “guia” e “agenda”, porém nesta monografia nos ateremos apenas ao “Overblog”. Todas as colaborações – desde o início – podem ser encontradas no site, pois são armazenadas e de fácil acesso ao usuário. É possível consultá-las ao clicar em “colaborações recentes” ou “overblog” na barra de tarefas do site onde aparecerão as colaborações do dia e uma janela para se procurar/pesquisar outras colaborações. Há ainda as opções para pesquisa por estado, município, categoria e ordenação. O layout utiliza a lógica de apresentação de um blog, em que cada notícia é exibida no formato de postagem.

Figura 6: Detalhe da ferramenta Pesquisa de colaborações>Categoria.

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Figura 7: Detalhe da ferramenta Pesquisa>Ordenação.

O site ainda tem um sistema de ranking, denominado overpontos – quanto mais overpontos uma colaboração tiver mais destaque terá no site, aparecerá na home em primeiro lugar. É um recurso para manter o site sempre com novidades, nunca estático - também evitando que as matérias de maior destaque ganhem sempre mais votos. Mas, o site também oferece a opção de ver os conteúdos ordenados por tempo de publicação.

Figura 8: Detalhe da home mostrando o rankeamento do site.

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O envio das colaborações é feito através do preenchimento de campos que serão disponibilizados acessando o link “publicar colaboração”, o que levará a uma escolha de seções que se deseja postar. Cada seção, como explicado anteriormente, também vem com uma breve explicação abaixo para que não haja dúvidas nem postagens indevidas ou em lugares errados. Ao se escolher a seção, aparecerão os campos a serem preenchidos como mostrado na figura abaixo.

Figura 9: Página para postar nova colaboração. http://www.overmundo.com.br/overblog/envia_noticia.php

A colaboração depois de pronta aparece – tanto na “edição colaborativa” como “colaborações recentes“ – com título em fonte maior e cor cinza, nome do colaborador em azul com identificação de localização, data e hora da postagem, quantidade de votos recebidos e de comentários. A foto vem logo abaixo (caso tenha) seguida de legenda, dentro de caixa de texto cinza, texto e tags em azul. Ao se passar com o mouse por cima da foto aparecerá o crédito da mesma. E ao lado a imagem de quantos overpontos o conteúdo recebeu. Para o usuário, o site disponibiliza abaixo do conteúdo as ferramentas de enviar, versão para impressão, receber avisos de comentários, adicionar às colaborações favoritas e alerta, que é o

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botão que aciona a equipe para verificar se há algo ofensivo e/ou ilegal na postagem. Além de, é claro, link para comentar. Todas as ferramentas apresentaram um bom funcionamento, apenas a “receber avisos de comentários” e “adicionar às colaborações favoritas” não abrem novas janelas, mas possuem as opções de desabilitar, ou seja, cancelar os avisos e remover das colaborações favoritas. Já o espaço para comentário possui botões para negrito, itálico, link e fechar tag, um espaço de 5000 caracteres com contador e link para ajuda na utilização dos botões – que se abrirá em nova janela.

Figura 10: Detalhes da Barra de ferramentas.

Figura 11: Detalhe do espaço para comentários.

De forma geral, a página é harmônica e explicativa, dividida em blocos de informações, links e cores leves. Na parte superior vem o cabeçalho com nome do site, saudação e patrocínios, seguido da barra de ferramentas onde se localizam os links para as seções e ajuda. Logo abaixo, o link do site e campo para procura de tags seguidos pelas colaborações que são divididas nas seções e categorias já mencionadas. Do lado direito, apresenta-se “meu painel” com as opções “publicar colaboração”, “edição colaborativa” e “colaborações recentes”. Abaixo, o link para pesquisa de colaborações, “nuvem de tags”, “observatório” e “rede overmídia”25, e
25

http://www.institutoovermundo.org.br/projetos/overmidia/

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na parte periférica do site, o usuário pode encontrar os links “sobre”, “termos de uso”, “privacidade”, “créditos”, “expediente” e “bugs26”. Cada link ou botão vem seguido de um botão de ajuda e uma explicação, facilitando muito o trabalho para o usuário. A estrutura do Overmundo é basicamente reativa, pois são disponibilizados ao usuário formulários predefinidos, com campos fixos e sem a possibilidade de alteração do sistema. Também é oferecida ao usuário somente uma lista de opções, como uma das categorias de classificação do conteúdo ou os hiperlinks que determinam as escolhas do usuário para a chegada ao caminho final - a publicação do conteúdo. Além disso, a possibilidade de interferência nas informações geradas por outros usuários é pequena, já que diretamente não é possível editar o conteúdo gerado por outras pessoas, o que deixa claro o controle do colaborador-produtor. Somente é possível editar o conteúdo através de sugestões na seção “edição colaborativa” e por determinado tempo. Mesmo assim, o colaborador-produtor do conteúdo escolhe ou não utilizar a sugestão. As demais interações com o material postado só podem ser feitas, em menor escala, através do link “enviar comentário” disponível nas páginas de cada colaboração. Os mesmos seguem a lógica das postagens ao se apresentarem em forma cronológica, e, além de atualizar o conteúdo - outras pessoas podem discordar, retificar ou mesmo complementar em um espaço à parte - servem de meio para divulgação e discussão do fato. Enfim, podemos a partir de agora analisar o Overmundo segundo sua estrutura e conteúdo no respectivo período selecionado.

3.1 – A análise do Overmundo
A notícia é a base do jornalismo, sem ela não existe jornalismo. Ao analisá-la, espera-se conhecer mais a fundo o modo como ela é feita nesta nova forma de jornalismo – o colaborativo. Há muito, já foi pesquisada a noticiabilidade dos massmedia, que foi tema de diversas pesquisas acadêmicas, contribuindo para a compreensão do “fazer” jornalismo e o papel que este desempenha na sociedade. A
26

Erro no sistema. http://www.overmundo.com.br/estaticas/reportar_bug.php

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partir de agora, com a nova realidade da comunicação - o jornalismo colaborativo – deve-se novamente voltar-se às pesquisas e análises para que se possa entender como se dá essa noticiabilidade também no meio digital com a colaboração do público leitor. Sendo assim, a análise dos critérios utilizados pelos cidadãosrepórteres, para definir o que é notícia auxiliará nas respostas sobre “o quê” e “como” os usuários estão produzindo conteúdos noticiosos, após a criação e utilização das novas tecnologias de informação e comunicação e dos canais emissores, potencializados com a internet. Para tanto, buscamos analisar os critérios de seleção e construção dos conteúdos colaborativos publicado no período de 15 a 30 de junho de 2008, publicadas na seção “Overblog” do site colaborativo Overmundo. Nicola (2004) destaca que o texto para o ciberespaço deve ser curto devido à falta de tempo do ciberleitor:
Convencionou-se apostar na precisão informativa com brevidade – características que pontuam o texto jornalístico na rede digital, pois a velocidade de leitura, segundo pesquisas, é 25% menor em relação à da página impressa. Além do mais, o usuário comporta-se com um ansioso diante da tela e se impacienta ao ler textos prolixos. As alternativas indicam uma fragmentação textual da matéria, tendo como critério um total de no máximo quinze linhas. Os títulos deveriam ser escritos numa linguagem dinâmica, forte e que procurasse a todo custo uma aproximação aos critérios internacionais de expressão. (p. 47/48).

Assim verificaremos nas colaborações se os textos produzidos pelos cidadãosrepórteres seguem esse padrão ou se, se afastam muito dessa lógica textual.

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Tamanho do texto
12 10 Quantidade de colaborações 8 6 4 2 0 1 4 4 4 10 7

6 3

6 6 3 1 3 1

1

2 0

2 2

2

1 1 1 1

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 22 26 30 58

Quantidade de parágrafos

O que podemos verificar, dentre as 74 colaborações analisadas no período escolhido, é uma grande diferença entre os tamanhos das colaborações, tendo em média 6 parágrafos, com mínimo de 1 e máximo de 58 parágrafos, o que para um texto no ciberespaço é considerado exageradamente demasiado. A solução para textos muito grandes desse tipo seria dividí-los em vários links fazendo com que o ciberleitor navegue entre as páginas e que ele decida até quando e onde quer ir e saber. Considerando que cada parágrafo é formado com uma média de 8 linhas, com mínima de 1 e máxima de 20, podemos verificar que as colaborações médias são formadas por 48 linhas. Assim, se confirma a teoria descrita por Nicola (2004) que os textos para a web devem ser pequenos para não cansar o ciberleitor e fazer com que ele abandone a leitura no meio do texto. Para Lévy (1999) o que se destaca no ciberespaço não é a espetacularização e sim, a nova tendência, o conteúdo colaborativo, feito por todos, passado de mão em mão, criado junto na comunidade.
Não se pode compreender ou apreciar o que se desenrola no ciberespaço a não ser pela participação ativa, ou então ouvindo as narrativas de pessoas integradas em comunidades virtuais ou

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“surfando na Net” e que contarão suas histórias de leitura e escrita. (p. 203).

Isto evidencia a escolha do site Overmundo como um modelo de comunidade que gera seu próprio conteúdo colaborativo e que se destaca pela escolha de temas fora do foco central da grande mídia – a cultura fora do grande eixo Rio - São Paulo e fora do grande público, a cultura gerada no dia – a – dia, mas que não aparece nas mídias tradicionais devido ao pouco público atraído por essas manifestações culturais, as chamadas culturas de nicho que Chris Anderson tanto divulgou em seu livro A cauda longa (2006). Assim, quando as pessoas começam a captar, descrever e alimentar redes de informação com dados, elas passam a ser não mais só receptoras mas também produtoras de conteúdo. Essa função, sendo explorada pelos meios de comunicação, como um canal de relacionamento entre as audiências e uma nova fonte de comunicação e de informações para os jornalistas gera a importância de ser analisadas, para que se possa entender essa nova configuração. Num primeiro momento, se fez necessário o uso da revisão bibliográfica para identificar informações relevantes já publicadas sobre o assunto e para se buscar um aporte teórico para confrontar o objeto de estudo com os critérios de noticiabilidade e verificar as hipóteses. Para tanto, foram observados os conceitos inseridos na Construção Coletivo do Conhecimento (LÉVY, 1999) e Interação (PRIMO, 2006). Para se avaliar as informações enviadas pelos cidadãos-repórteres do Overmundo foi utilizada a análise de conteúdo. De acordo com Herscovitz (2007), a análise de conteúdo condiz com a proposta desta monografia, pois:
A Análise de Conteúdo pode ser utilizada para detectar tendências e modelos na análise de critérios de noticiabilidade, enquadramento e agendamentos. Serve também para descrever e classificar produtos, gêneros e formatos jornalísticos, para avaliar características de produção de indivíduos, grupos e organizações, para identificar elementos típicos, exemplos representativos e discrepâncias e para comparar o conteúdo jornalístico de diferentes mídias em diferentes culturas. (p. 123).

Desta forma, as páginas referentes às colaborações enviadas entre os dias 15 e 30 de junho de 2009 foram armazenadas em computador pessoal, para preservar as

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informações de qualquer mudança ou edição, as quais estão expostas ao estarem no meio online27. Analisar as condições de produção é um dos caminhos para entender a definição dos critérios de noticiabilidade no jornalismo colaborativo. Portanto, ao se identificar os critérios de seleção e a construção operada no processo comunicativo será possível ter ciência da reconfiguração ou não que a colaboração dos cidadãosrepórteres causou nos critérios de noticiabilidade do campo informativo contemporâneo. O conteúdo recolhido do Overmundo durante o período estipulado foi analisado segundo critérios quantitativos e qualitativos. Em um primeiro momento, foi realizada a contagem total de notícias enviadas pelos leitores, também foram extraídos fragmentos que chamaram a atenção por fugirem dos padrões jornalísticos tradicionais, e feita uma análise do conteúdo produzido pelos usuários do canal. O processo de imersão no Overmundo deu-se através do cadastro no canal participativo como um usuário comum. Com isso, foi criada uma conta de acesso através do cadastro e preenchido um perfil pessoal, antes mesmo do período de análise do conteúdo relacionado. Porém o cadastro só foi feito como meio para liberação das ferramentas de colaboração e para assim se ter a liberdade de testálas e verificar suas funcionalidades, pois, não há interferência no objeto estudado, ou seja, não há uma participação nem colaboração no site. A atuação da pesquisadora se deu apenas na observação e análise do conteúdo sem qualquer tipo de intromissão. Duarte (2006, p. 62) detalha que a observação participante é uma “técnica qualitativa que explora um assunto a partir da busca de informações, percepções e experiências de informantes para analisá-las e apresentá-las de forma estruturada”. Sendo assim, ela foi aplicada para um contato direto com os responsáveis pelo recebimento, edição e publicação do conteúdo gerado por usuários do Overmundo,

27

Mesmo fechada para alterações após o período de 48h, as matérias poderiam ser excluídas ou sofrer alterações caso tivesse algum conteúdo ofensivo e/ou inapropriado segundo o já explicado no capítulo anterior sobre a ferramenta “alerta” onde a equipe editorial tem a liberdade de alterar ou excluir a colaboração caso se enquadre em conteúdo fora da proposta ou inadequado.

75

para comparar a realidade evidenciada na análise do conteúdo e a mudança pessoal dos responsáveis do canal. Como método de enriquecimento da pesquisa procurou-se ouvir o coordenador e responsável editorial pelo do site Overmundo, Viktor Chagas. Obtivemos assim respostas de caráter editorial, sobre a coordenação e o trabalho dos jornalistas do Overmundo28. O modelo de entrevista semi-aberta foi utilizado, por “tratar da amplitude do tema, apresentando cada pergunta da forma mais aberta possível (...) conjuga a flexibilidade da questão não estruturada com um roteiro de controle.”(DUARTE, 2006, p. 66). Ou seja, as perguntas foram formuladas a partir das evidências expostas na análise preliminar dos dados recolhidos nas páginas do Overmundo. E as respostas ajudaram a elucidar as questões assim como as informações obtidas no site. O que podemos evidenciar do relato de Viktor Chagas, sobre o Overmundo é que a interferência por parte da coordenação é praticamente nula, pois, “todos os conteúdos são autorais e, mesmo no caso do processo de Edição Colaborativa do site, os autores têm a palavra final sobre suas colaborações. Contudo, todas as colaborações estão sujeitas a um mecanismo de moderação descentralizado, em que a comunidade pode apontar irregularidades (violação de direitos autorais, ofensas, spam) e mesmo prezar pela organização do conteúdo (é possível p. ex. alertar conteúdos fora da proposta editorial do site ou publicados em seção errada).”29 Desta forma, o trabalho dos jornalistas, da coordenação do site visa “fomentar a participação da comunidade, seja buscando estimular o debate, seja buscando novas parcerias para troca e compartilhamento de idéias e conteúdos. Além disso, a Equipe Overmundo é ainda responsável pelo desenvolvimento de novas funcionalidades para o site, planejamento e gestão dos conteúdos, e, claro, a administração de alertas, feitos pela comunidade”30. Os métodos aplicados neste estudo ainda são considerados experimentais no meio acadêmico, pois não há uma metodologia consolidada ou um consenso sobre esse
28 29

A entrevista completa, com perguntas e respostas está no Anexo, item 6.1. Em entrevista por e-mail. 30 Em entrevista por e-mail.

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tema ainda recente e pouco explorado que é o conteúdo colaborativo feito no jornalismo participativo.

3.1.1 – Os números da análise do Overmundo.
No Overblog, seção escolhida para ser o foco da pesquisa desta monografia, existe publicadas, até o momento, quase 8 mil colaborações31. O período que iremos analisar, de 15 a 30 de junho, consiste em 74 publicações nesta seção. A escolha pela seção Overblog se deu devido à sua proximidade com um blog realmente, e também pelas diretrizes editoriais do site que recomenda que nessa seção sejam postados materiais como entrevistas, reportagens e críticas sobre cultura. Isto nos aproxima a um conteúdo jornalístico, podendo, então, em meio a esse panorama, confirmar ou não nossa hipótese. No jornalismo tradicional existem dois elementos textuais essenciais para determinar se um fato será ou não noticiado, a novidade e a potencialidade do fato reter a atenção dos leitores. No que se refere aos critérios de noticiabilidade no Brasil, em especial, podemos acrescentar mais três elementos: a personalização - uso de personagens que aproxime a realidade do receptor, a dramatização - adoção de estados emocionais e a dinamização – constatação de uma ação ou acontecimento. Esses elementos textuais que visam determinar se um fato pode ou não ser notícia, são os chamados valores-notícia que TRAQUINA (2005) descreve ser os “óculos” dos jornalistas, ou seja, meio que serve para o jornalista ver o mundo e o construir. No jornalismo colaborativo essas noções de noticiabilidade como a atualidade, a notoriedade, personalização, dramatização entre outros também é levada em conta, pois sofre grande influência do jornalismo tradicional. E é isto que iremos analisar para possíveis conclusões. Para Traquina (1993) os valores-notícia podem ser divididos em dois gêneros, seleção – refere-se aos critérios adotados na seleção dos fatos para um produto jornalístico. Esse gênero subdivide-se em:
31

Dados obtidos no site http://www.overmundo.com.br e confirmados em entrevista por e-mail com Viktor Chagas.

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-

Critérios substantivos: o acontecimento em si; Condições de produção: relacionado à construção narrativa de um fato como notícia.

Listamos abaixo os valores-notícia de seleção propostos por Traquina (1993, p. 67) e que serão adotados nesta pesquisa: -

Morte, Notoriedade das pessoas envolvidas, Proximidade geográfica e cultural, Relevância para o público, Novidade (ineditismo), Atualidade, Notabilidade Inesperada/Excepcional, Conflito/Infração, Escândalos.

No conteúdo do período analisado, nota-se a predominância de critérios de noticiabilidade relacionados à novidade dos temas e à notoriedade das pessoas, instituições e variados temas – relativos à cultura - envolvidos em um acontecimento. Dá-se um grande destaque para a divulgação de eventos, boletins sobre eventos já ocorridos ou em ocorrência, obras e ações pessoais. Para explicar, a notoriedade é entendida, na monografia, como a aclamação das pessoas envolvidas em determinado fato e novidade como uma surpresa, algo que não foi citado ou ocorreu anteriormente. Os critérios menos citados como morte, refere-se a uma homenagem ao maestro Silvio Barbato, vítima do desastre aéreo 447, e o escândalo e o conflito fazem referências as questões locais cujas colaborações são críticas opinativas.

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Critérios de Seleção
18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 1 8 6 4 2 8 11 17 17 Morte Notoriedade Proximidade Relevância Novidade Atualidade Notabilidade Conflito Escandalo

Além do gênero de seleção, há também o gênero de construção, que inclui: Simplificação - os fatos de forma objetiva, Amplificação - captação da atenção do leitor, geralmente com frases de efeito, Relevância - informação útil, Personalização - utilização de personagens, Dramatização - exploração do conflito, Consonância - conexão entre o fato noticiado e a realidade do público.

No período analisado também houve um empate nos critérios de construção. Das 74 colaborações, 21 utilizavam a amplificação, ou seja, formas de captar o leitor com a utilização de frases de efeito, com frases imperativas e de acusações e 21 utilizaram a personalização, o uso de personagens para aproximar o fato do leitor, para a construção narrativa. As demais se dividiram entre: 15 colaborações construídas com o recurso da simplificação, o fato de forma objetiva e concisa, que segundo Traquina diz respeito aos fatos sem “complexidade”, capazes de serem expostos de forma objetiva e de fácil compreensão, e 17 sob a relevância, informações úteis, na maioria das vezes se aproximando da utilidade pública. Os gêneros de dramatização e consonância não foram citados devido à dramatização não ser encontrada nenhuma colaboração que se encaixasse e consonância ser enquadrada como um gênero que esteve presente em todas as

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postagens, pois, todas as colaborações tratavam de fatos que interessavam os leitores, fatos do cotidiano, ou seja, o fato noticiado já faz parte da realidade do usuário não sendo necessário criar mecanismos para que o mesmo seja incluso na vida do leitor.

Critérios de Construção
25 20 15 10 5 0 Simplificação Amplificação Relevância Personalização 15 21 17 21

Fora esses valores-notícia propostos por Traquina (1993) iremos acrescentar mais oito critérios (gênero, abrangência, lide, fontes, recursos visuais, uso de links, tags e repercussão na grande mídia) para aprimorar a compreensão da produção colaborativa de notícias. Esses critérios foram elaborados a partir da análise do período selecionado e a freqüência de determinados fenômenos, bem como alguns elementos clássicos do jornalismo em suas rotinas de produção.
Uso de gêneros

O uso de gêneros nas colaborações pode ser destacado e separado nas distinções de gênero opinativo e informativo. O gênero informativo apenas traz os fatos sem uma interpretação ou uma análise dos mesmos. Já o opinativo é um texto mais pessoal, pois, além de informar agrega a opinião do produtor da matéria. No material analisado deu-se grande ênfase para as colaborações de cunho informativo, o que surpreendeu muito por se tratar de textos produzidos por ciberusuários e não por jornalistas.

80

Gêneros

40

34

Opinativo

Informativo

Abrangência dos fatos

O jornalismo colaborativo está ganhando espaço na mídia, principalmente web, devido a sua abrangência hiperlocal/local/regional, ou seja, as colaborações não relatam fatos ou acontecimentos de notoriedade nacional e sim fatos ocorridos perto do colaborador. São pequenos acontecimentos, eventos comunitários que ao ocorrerem próximos ao colaborador lhes dá uma maior autoridade para tratar do assunto, pois, ao ser testemunha do fato, o conhece com mais riqueza de detalhes e pode assim divulgá-lo com mais prioridade. O que foi evidenciado com o resultado que mostra que 52 postagens, das 74, são de conteúdo local, 16 nacional e apenas 6 estudais.

Abrangência
60 50 40 30 20 10 0 Local Estadual Nacional 6 16 52

81

Temas freqüentes

Seguindo à risca a linha editorial do site, todas as colaborações enfocavam cultura como tema de suas matérias. Mas como cultura abrange uma grande quantidade de enfoques, dividimos e contabilizamos os temas mais freqüentes em relação à cultura. Temas Arte Cinema Comida Festas Futebol Leis culturais/ Direitos Literatura Mídia Música Teatro 15 3 1 6 1 2 12 11 20 3

Música foi o tema mais freqüente nas colaborações, com 20 matérias, divulgando novas bandas, novos álbuns ou shows e festivais, ou mesmo discutindo e analisando a música atual, os rumos e as diferenças musicais de gerações passadas. Logo depois vem Artes, que englobou pinturas, cartuns, quadros e artistas plásticos. Com 15 colaborações, pode se perceber que o tema tem grande relevância entre o público, seguido de Literatura, com lançamento de livros, publicações, entrevistas com escritores e sinopses e/ou resenhas literárias, com 12 e Mídia, com 11 postagens sobre internet, televisão, meios digitais, novas mídias e tecnologias. Divulgação de eventos e festas, peças teatrais, cinema aparecem com menos freqüência nas colaborações, apesar de serem temas de grande conhecimento dos cidadãos-repórteres, não são muito discutidos, respectivamente com 6, 3 e 3 matérias. O site apresenta também discussões de caráter cívico, além do cultural, com 2 críticas aos direitos culturais do cidadão. E em último lugar, para grande surpresa, apenas uma colaboração sobre futebol, a grande paixão nacional, e uma

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matéria sobre comidas típicas do Brasil, matéria feita por uma jornalista e publicada em uma revista de cultura32.
Uso do Lide

Há seis perguntas básicas que devem ser respondidas para a elaboração de um texto jornalístico - “o quê?”, “quem?”, “quando?”, “onde?”, “como?” e “por quê?” – o chamado lide. São elementos considerados básicos e que servem para contextualizar e informar as circunstâncias dos fatos na notícia. O mesmo se aplica ao webjornalismo, para que se faça um texto dinâmico e objetivo. Nas colaborações, essas perguntas não foram respondidas com muita freqüência, às vezes, por mero descuido por parte do produtor da matéria, às vezes por desconhecimento ou, ainda, por não se encaixar no formato utilizado da colaboração. Muitas colaborações apresentavam as seis perguntas respondidas, porém, dissolvidas durante todo o texto ou quase que no final do conteúdo.

Uso do Lide

25

Sim Não 49

Das matérias que apresentavam o lide, algumas tinham com um outro problema, o mesmo estavam incompletos. Dos 25 textos com o lide, apenas 13 traziam as seis perguntas respondidas. As perguntas “como?” e “por que?” , foram as que por mais vezes deixaram de ser respondidas. Cada pergunta ficou sem resposta respectivamente, 12 e 8 vezes, fazendo, muitas vezes, que o texto ficasse “manco”, faltando detalhes ou mesmo informações importantes para o entendimento pleno da
Matéria “Brasil no Papo” publicada na revista Almanaque Brasil, edição de junho, feita pela jornalista Natália Pesciotta, citada também no item “Repercussão na grande mídia”.
32

83

informação passada. Outras vezes, passava-se desapercebido sem essas informações, porém, para um jornalista acostumado a escrever diariamente, utilizando essa técnica, somente com o passar de olhos já se detectava a falta desses elementos elucidantes.

Presença do Lide
Completo Incompleto
Uso de fontes

13 12

O uso das fontes no conteúdo colaborativo ficou disperso e, por muitas vezes, oculto. Ás vezes, o colaborador entrevistou ou ouviu alguém para redigir sua matéria, porém não explicitou essa informação no conteúdo, ficando oculto ou subentendido, o que dificulta essa verificação. Mas, partindo do principio de que o autor utiliza as fontes para reforçar seu ponto de vista, então, podemos concluir que em 35 matérias o cidadão-repórter conversou com uma fonte para construir a sua matéria, pois deixou evidente essa busca pela fonte. Os outros 39 textos adotaram a própria mídia tradicional como fonte, ou declarações de personalidades e especialistas a estes veículos, ou ainda escreveram segundo seus conhecimentos ou pesquisas. Isto mostra um grande equilíbrio em relação ao uso das fontes por parte dos cidadãos-repórteres que, se não conhecem a necessidade da utilização de fontes, ao menos vão buscá-las para confirmar suas posições diante dos fatos relatados.

Uso de fontes

39

35

Sim Não

84

Uso de recursos visuais

Fotos e ilustrações nas colaborações serve para auxiliar o entendimento do fato e mesmo para ilustrar e tornar mais agradável a leitura. É um recurso muito utilizado nas mídias, em geral, e que foi bem explorado pelos cidadãos-repórteres. Com as novas tecnologias – câmeras digitais, celulares com câmera, filmadoras, etc – e o barateamento destas invenções, o uso de fotografias se tornou popular, o que fez com que qualquer pessoa se tornasse um fotografo em potencial. É só ter uma câmera, ou celular com câmera, e estar no lugar certo e na hora certa que se pode ter uma bela fotografia, registrando um momento marcante e/ou importante fato a ser noticiado, o que não aconteceu muito com as fotografias utilizadas no site. Na maioria das vezes as fotografias foram utilizadas como um meio de ilustração da matéria e não de complementação, a não ser em alguns exemplos como a foto da matéria “Cabo frio por todos os ângulos”, onde o uso das fotografias se fez fundamental para agregar qualidade à colaboração.

Recursos Visuais

21 Foto 41 Ilustração Nenhum

12

Com foto/ilustração Sem foto/ilustração

Presença de Recursos Visuais 53 21

Das matérias que apresentam foto, 44 foram ilustradas com apenas uma foto, 2 com duas fotos, 3 com três fotos e há apenas 1 exemplo de matéria contendo respectivamente quatro, cinco, seis e setes fotos cada uma.

85

Figura 12: Exemplo de matéria com uso de recurso visual (fotos). http://www.overmundo.com.br/overblog/cabofrio-por-todos-os-angulos

Uso de hiperlinks

Um detalhamento do direcionamento dos hiperlinks - para onde apontavam - indica que das 35 colaborações com links, apenas uma apresentava um link que apontava para uma página dentro do próprio Overmundo, as demais, 34 matérias, tinham seus links que apontavam para sites que auxiliavam na compreensão do fato abordado,

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como blog do autor, site oficial do evento, comunidade, fóruns, páginas de redes sociais etc, todos de domínio fora do Overmundo. E não apresentavam hiperlinks, 39 colaborações. A presença de hiperlinks variou de apenas 1 até a presença de 10 links por colaboração, onde muitas das vezes o link era um endereço de e-mail do autor, cidadão-repórter. De todos os links analisados apenas o que levava a uma página dentro do próprio Overmundo, na seção “Banco de cultura” apresentou como destino um arquivo de som ou imagem. Era um vídeo de uma música e logo abaixo o link com ferramentas para se fazer o download da canção. Todos os demais, encaminham o usuário a sítios com textos.

Uso de hiperlinks

39

35

Sim Não

Figura 13: Detalhe de matéria com uso de hiperlinks.

87

Figura 14: Na esquerda, matéria com uso de hiperlink com destino dentro do Overmundo. Na direita, matéria de destino do hiperlink. Na esquerda: http://www.overmundo.com.br/overblog/divagacoes-incompletas. Na direita: http://www.overmundo.com.br/banco/no-shopping

Uso das tags

As tags nas colaborações do Overmundo são praticamente obrigatórias. Ao se postar uma colaboração já se apresenta um espaço para que o usuário coloque as palavras que ele queira que sirva de tag. Isso facilita na utilização da ferramenta de procurar colaborações, porque faz com que se apresente um maior número de opções de texto, auxiliando o processo de busca. E através das tags pode-se navegar e conhecer mais sobre o assunto pesquisado.

Figura 15: Detalhe da ferramenta Tags.

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Repercussão na grande imprensa

Verificamos, após toda a análise, que algumas colaborações além de publicadas no Overmundo, repercutiram nas mídias tradicionais ou, mesmo, na grande imprensa, sendo publicadas também em outros sites ou almanaques. Um dos exemplos é a matéria “Brasil no Papo”, que foi postada no site Overmundo e no site do Almanaque Brasil, além de sair na versão impressa da revista33.

Figura 16: Exemplo de matéria com repercussão na mídia. http://www.overmundo.com.br/overblog/brasil-nopapo-1

Outra matéria que obteve uma grande repercussão, por seu conteúdo, foi a matéria “Quem vai segurar o chororó da Fenaj?”, cujo colaborador faz uma crítica ferrenha
33

http://www.almanaquebrasil.com.br/sem-categoria/saiba-mais-especial-junho-de-2009/

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aos sindicatos dos jornalistas por eles defenderem a obrigatoriedade do diploma. Essa crítica foi alvo de muitas manifestações de oposição por partes dos colaboradores do site, que gerou além de outras matérias – que não foram analisadas por não se enquadrarem no período selecionado – também discussões no fórum do Overmundo e até mesmo o colaborador foi chamado para dar entrevistas para outros sites sobre essa colaboração.

Figura 17: Exemplo de matéria com repercussão na mídia. http://www.overmundo.com.br/overblog/quem-vaisegurar-o-chororo-da-fenaj

A matéria “Cabo frio por todos os ângulos”, já citada, inclusive com foto da matéria, no item “uso de recursos visuais” também teve destaque na mídia, servindo de pauta para matérias de jornais locais. No total, 7 das 74 colaborações, ou foram publicadas em outros veículos além do Overblog, ou tiveram uma grande repercussão na mídia sendo utilizadas como pauta para matérias posteriores. Nas colaborações analisadas, apenas 4 não se enquadravam em nenhum formato jornalístico, fugindo totalmente a qualquer modelo existente. Assim, os classificamos

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como apenas uma postagem, um “desabafo” do usuário que viu no Overblog, um modelo de blog realmente, postando seu texto e 1 colaboração que seguiu a forma de uma propaganda, divulgando um site de otimização de sites para blogs. Nas demais colaborações, encontramos uma grande quantidade de formatos, então, podemos dizer que 70 colaborações podem ser entendidas como, além de um conteúdo colaborativo, um conteúdo jornalístico.

Figura 18: Exemplo de matéria sem formato jornalístico. http://www.overmundo.com.br/overblog/otimizacao-desites-para-blogs

Após a análise de todas as colaborações, verificamos que não houve a presença de nenhum arquivo de som, vídeo ou animação nas colaborações, retirando a citação do link para o arquivo de vídeo, do período em questão. Isto sugere que a trasmidialidade ainda é pouco utilizada pelos cidadãos-repórteres, seja devido a desconhecimento, seja por falta de recursos.

91

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O jornalismo se transforma novamente, e em meio a essas mudanças e transformações de estruturas e valores, surge como forma de democratização dos meios, o cibercidadão, interessado, não mais em ser mero receptor de notícias, ele quer agora participar da produção de notícias. E são esses novos modelos de produção, de conteúdo, de difusão de mensagens e, principalmente, a criação do jornalismo colaborativo que atuam como os novos desafios, e oportunidades, para os mass media. Como o já citado anteriormente por vários autores, essas mudanças são uma forma de reorganização da informação, pois, os dispositivos da comunicação, os modos de conhecimento e os gêneros da cibercultura irão influenciar os meios existentes, forçando-os a mudar e encontrar um ‘nicho’ específico dentro desse novo panamora existente. É por essa “reorganização” que o jornalismo está passando, e dela sairá renovado porque o jornalismo sempre esteve associado à tecnologia, e, todavia, às alterações nas suas práticas, desenvolvendo linguagens, criando novas técnicas e formas de transmitir as informações a cada novo invento tecnológico e meio de transmissão de dados. Ou seja, o jornalismo, como nenhuma outra profissão, passou por tantas mudanças e transformações, alterações no modo de produzir e nos meios de produção e divulgação. O jornalismo digital e o colaborativo são apenas novas mudanças de meio de divulgação e produção que devem ser agregadas. Como toda mudança, no início, é estranhada, porém com o tempo vê-se os benefícios. Assim, a possibilidade da participação dos cidadãos na produção de notícias não implica o fim do jornalismo, mas, uma oportunidade de potencializar a atividade jornalística. Esta relação entre mass media e as mídias colaborativas, pode ser chamada “metaforicamente, como o mutualismo, onde ambos buscam manter a sua existência

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e os seus proveitos, em uma protocooperação contínua” como conclui ALMEIDA (2009) em sua monografia também sobre jornalismo colaborativo. O que falta aos jornalistas é deixar de lado a descrença e começarem a agir nesse novo panorama estabelecido, utilizando as novas práticas comunitárias e as novas tecnologias existentes para fazer um jornalismo mais interativo e transmidiatico. Essa trasmidialidade é a ferramenta que pode ajudar, e muito, o trabalho do jornalista. Ele tem apenas que enxergar no cidadão-repórter um aliado, alguém com quem ele pode contar para auxiliar na produção de fatos e não como uma ameaça ao seu emprego. Esse é o principal trunfo do jornalismo digital participativo, poder contar com os colaboradores, fazendo interações mais profundas, trocando conhecimento e informação, é isto que o diferencia do jornalismo tradicional. O jornalismo digital participativo cria novos mecanismos de produção de notícias, onde o ciberleitor além de receptor se torna emissor de informação. Isto não é uma ameaça aos meios tradicionais, pelo contrário, é um avanço no modo de se fazer jornalismo. Mais pessoas produzindo, mais notícias, com mais espaços para ser divulgadas as notícias, aumenta assim, não só a produção mais também a abrangência. Os colaboradores passam a serem vistos como mais uma opção na oferta de notícias, criando um novo relacionamento do público com a mídia. O que antes era descartado por ser um fato local ou hiperlocal, sem muita repercussão ou público, passa a ser noticiado por quem se interessa pelo fato. E melhor, a noticia é produzida por quem realmente esteve lá, presenciou e sentiu o fato. Passando uma maior credibilidade. Os jornalistas mudam de função, mas não deixam de produzir matérias, porém, agora, também se tornam mediadores dos debates públicos e “responsáveis pelo desenvolvimento de novas funcionalidades”34, “planejamento e gestão”35 dos conteúdos enviados pelos cidadãos-repórteres. No Brasil, o jornalismo digital participativo começa a ser mais explorado pelos meios de comunicação, porém, ainda é pouco estudado pelos meios acadêmicos. Desta forma, podemos ver esta monografia como uma maneira de contribuir para os
34 35

Parte da entrevista de Viktor Chagas por e-mail (e-mail: ) Viktor Chagas em entrevista por e-mail.

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estudos das práticas colaborativas, pois, é utilizada para analisar aspectos operacionais, positivos e negativos de uma experiência participativa. Assim concluímos, do período analisado, do site Overmundo com recorte na editoria Overblog, onde se teve maior colaboração dos cidadãos-repórteres através do envio de matérias, entrevistas, críticas, reportagens, etc, que os conteúdos colaborativos postados no site podem sim ser utilizados tanto como fontes e pautas para matérias jornalísticas tanto como a própria colaboração pode ser entendida como um conteúdo jornalístico. Para evidenciar a conclusão relembremos casos citados no capítulo 3, item 3.1.1 – os números da análise do Overmundo, matérias que foram postadas tanto no Overblog como em outros sites, ou mesmo na mídia impressa. Além de matérias que tiveram repercussão na mídia por tratarem de casos de extrema relevância, seja servindo como pauta para outras matérias, “Cabo frio de todos os ângulos”, seja a própria colaboração que serviu de material para debate – “Quem vai segurar o chororó da Fenaj?”. Toda a análise e seus números comprovam que as colaborações, em sua maioria, se constituem de gênero informativo, abrangência local, tratando de novidades ou divulgando e dando crédito às pessoas que contribuem e faz ações para melhoria do bem estar social. Mesmo nos quesitos mais jornalísticos como presença de lide, uso de recursos visuais, de fontes e hiperlinks, o conteúdo analisado apresentou uma significativa quantidade positiva, em muitas das vezes, referentes à presença e utilização dessas ferramentas. Com certeza, não podemos dizer que todo o material pode ser considerado como conteúdo jornalístico, mas, pelos menos uma parte dele, e as demais podem servir ao menos de pauta. Nesse sentido, também, separamos as colaborações que em nenhum formato jornalístico se enquadrou. Desta forma, a presença do cidadão-repórter na produção de conteúdo colaborativo no webjornalismo é uma ferramenta positiva, que deve ser agregada e muito utilizada pelos meios de comunicação, pois, seu conteúdo produzido apesar de não possuir as técnicas conhecidas, pelos jornalistas profissionais formados, são de

94

muita valia e garantem uma pluralidade nos debates públicos sobre o jornalismo online colaborativo.

95

5. REFERÊNCIAS

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99

6. APÊNDICE

100

6. APÊNDICE
6.1 Entrevista com Viktor Chagas

Meu recorte dentro do Overmundo é o overblog, onde acredito que exista um maior número de postagens e que o conteúdo se aproxime mais com um conteúdo jornalístico. Assim, gostaria que as perguntas fossem respondidas com base nessa seção do site. (Se fosse possível, gostaria de obter números sobre quantidade de material postado).
Os números que se referem à quantidade de material publicado no Overmundo em cada seção e por estados brasileiros podem ser obtidos na própria interface do Overmundo. Hoje, p. ex., no Overblog são cerca de 8 mil colaborações publicadas.

1. Como surgiu a idéia do Overmundo?
Neste link <http://www.overmundo.com.br/estaticas/sobre_o_overmundo.php>, você pode encontrar maiores detalhes. O Overmundo surgiu a partir de uma demanda da Petrobras para que os projetos patrocinados pela empresa pudessem ganhar uma circulação maior, mesmo após esgostadas as tiragens físicas de alguns deles (CDs, livros etc.). Os quatro idealizadores do projeto Overmundo (Hermano Vianna, José Marcelo Zacchi, Ronaldo Lemos e Alexandre Youssef), então, já com o patrocínio da própria Petrobras, desenvolveram a idéia de um site colaborativo focado na cultura brasileira.

2. Há alguma forma de interferência (alteração, exclusão, confirmação de veracidade) da produção do Overmundo no conteúdo postado pelos colaboradores?
Não há, em princípio, nenhuma interferência nos conteúdos postados no site. Todos os conteúdos são autorais e, mesmo no caso do processo de Edição Colaborativa do site, os autores têm a palavra final sobre suas colaborações. Contudo, todas as colaborações estão sujeitas a um mecanismo de moderação descentralizado, em que a comunidade pode apontar irregularidades (violação de direitos autorais, ofensas, spam) e mesmo prezar pela organização do conteúdo (é possível p. ex. alertar conteúdos fora da proposta editorial do site ou publicados em seção errada).

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3. Se não há interferência, qual o trabalho da equipe editorial e coordenação?
Fomentar a participação da comunidade, seja buscando estimular o debate, seja buscando novas parcerias para troca e compartilhamento de idéias e conteúdos. Além disso, a Equipe Overmundo é ainda responsável pelo desenvolvimento de novas funcionalidades para o site, planejamento e gestão dos conteúdos, e, claro, a administração de alertas, feitos pela comunidade.

4. Por que um rankeamento do conteúdo? Isso não retrai a colaboração? (um colaborador se sente desprezado ou não se sente bom para colaborar, pois seu material não obtém uma pontuação boa.).
Em qualquer veículo de mídia, os conteúdos são ranqueados/hierarquizados. Num jornal, a manchete tem mais valor e consequentemente mais exposição que uma nota de uma coluna no fim da página. Numa revista, a matéria de capa idem. O que o Overmundo propõe é que esta edição - geralmente legada a uma equipe editorial centralizada - seja feita pela comunidade, de forma colaborativa, através dos votos de cada um.

5. Vocês, da coordenação, deixam bem claro no seu editorial que o foco do site é a publicação de conteúdo cultural, como é feita essa verificação para que não haja conteúdo fora da linha editorial?
Através do mecanismo de Alerta, que expliquei anteriormente. Mais informações em <http://www.overmundo.com.br/estaticas/ajuda_nova.php#cat6>.

6. Algum conteúdo do Overmundo já foi divulgado na grande mídia?
Sim. Vários. Geralmente, os conteúdos que circulam no Overmundo são conteúdos que estão nos veículos de mídia regional e que, muitas vezes, não têm acesso à mídia nacional, cujas principais pautas se concentram no eixo Rio-São Paulo. O Overmundo surgiu com o grande objetivo de que esses conteúdos que circulam em âmbito regional possam ser alçados a uma vitrine nacional. Por isso, não é raro que matérias e produtos que circulam pelo site ganhem, logo depois, os holofotes da mídia nacional. Não temos controle sobre todos os casos em que essa repercussão se dá. Mas lembro que o primeiro caso de que temos notícia foi nossa primeira manchete no Overmundo, sobre um produtor de filmes pornográficos na Amazônia (Antônio Snake), que foi parar no Jô. E o

102

último caso foi o de uma matéria sobre um documentário curiosíssimo no Tocantins, que logo em seguida virou pauta do jornal O Globo.

7. O Overmundo ao mesmo tempo em que propõe um canal aberto para receber informações, fecha a possibilidade dos usuários interirem no conteúdo de terceiros após a publicação – a qual só pode ser feita através de comentários ou envio de e-mail para o colaborador responsável ou a equipe do site com alerta. Isto não é uma maneira de controlar a informação mantendo a divisão de posições – produtor e consumidor – ou é uma forma de dar qualidade ao produto?
Quando se pensa em modelos de internet colaborativa, há experiências diferentes, com propostas diferentes. Blogs são um tipo de ferramenta. Wikis são outro. E assim por diante. Acreditamos que o modelo do Overmundo é um modelo particular, e que, portanto, não é mais nem menos descentralizado que outros, apenas diferente, e, dessa forma, se constitui, como toda a internet colaborativa, em uma experiência viva, moldada com respeito à comunidade. O grande diferencial do Overmundo, nesse sentido, é sua linha editorial. Ferramentas da chamada web 2.0 costumam ser meras ferramentas, não têm uma proposta editorial com foco definido como o Overmundo, que se concentra em temas relacionados à cultura brasileira e à cultura produzida por brasileiros

Seguindo essa lógica, as colaborações propostas pelos autores são colaborações autorais, não verbetes de enciclopédia. São textos, muitas vezes, escritos em primeira pessoa. Um mecanismo de wiki, que possibilitasse a qualquer um a alteração desses textos, simplesmente não faria sentido nessa experiência. Também por esse respeito ao autor e à comunidade, o Overmundo não permite a alteração das colaborações após a sua publicação em definitivo no site, uma vez que esta colaboração já recebeu votos e foi apreciada por uma série de outros colaboradores.

8. Você considera o conteúdo do Overmundo como um conteúdo jornalístico?
Em algumas instâncias, sim. Em outras, não. Depende, é claro, da seção específica em que se foca o seu olhar (no Banco de Cultura, por exemplo, os conteúdos são produtos culturais e não artigos) e da definição de jornalismo com que se trabalha. Se é possível, por exemplo, considerar jornalística uma matéria escrita em primeira pessoa, que fala sobretudo de um gosto particular do autor e que tem no autor sua fonte primária, nesse caso, este conteúdo

103

que circula no site é jornalístico. Mas estamos menos preocupados com essa definição do que com o acesso à informação sobre a produção cultural em si.

9. Acredita no jornalismo colaborativo como meio de ajuda na realização do trabalho do jornalista? Como e por que?
Não entendo exatamente o que você aponta como um "meio de ajuda". Acredito particularmente que o jornalismo cidadão/jornalismo colaborativo/jornalismo participativo/jornalismo opensource/jornalismo público/jornalismo cívico seja um modelo alternativo ao do jornalismo tradicional. Este trabalha com experts, aquele com experts locais. Cada um atende a uma necessidade específica. Se quero saber sobre a Guerra no Iraque, talvez o melhor seja procurar um grande jornal ou um grande portal de conteúdo. Se quero saber sobre um projeto de capacitação para tocadores de pífano no interior do Piauí, talvez os grandes jornais e grandes portais tenham pouco a me oferecer.

10. Sobre o conteúdo colaborativo, você acredita que ele não é mais utilizado devido à falta de credibilidade que se atribui a ele?
Qualquer fala nesse sentido seria meramente especulatória. Entendo que haja críticas no sentido da confiabilidade e da credibilidade de conteúdos produzidos de forma colaborativa. Mas entendo também que essas críticas desconsideram o potencial efeito de mecanismos de controle difusos e descentralizados, que legam à comunidade a responsabilidade sobre os laços de confiança e credibilidade estabelecidos por esses conteúdos.

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7. Anexos

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7. Anexos
7.1 Matérias com repercussão na grande imprensa
“Brasil no Papo” – 17/06/2009

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Matéria Brasil no Papo <http://www.overmundo.com.br/overblog/brasil-no-papo-1>. Acessado em 12 de Agosto de 2009.

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Continuação da matéria “Brasil no Papo” – 17/06/2009

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Continuação da matéria Brasil no Papo < http://www.overmundo.com.br/overblog/brasil-no-papo-1 >. Acessado em 12 de agosto de 2009.

107

“Cabo Frio por todos os ângulos” – 26/06/2009

38

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Matéria Cabo Frio por todos os ângulos < http://www.overmundo.com.br/overblog/cabo-frio-portodos-os-angulos >. Acessado em 12 de agosto de 2009.

108

“Nervoso é simples!” – 18/06/2009

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Matéria Nervoso é simples! < http://www.overmundo.com.br/overblog/nervoso-e-simples >. Acessado em 12 de agosto de 2009.

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Continuação da matéria “Nervoso é simples!”

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Continuação da matéria Nervoso é simples! < http://www.overmundo.com.br/overblog/nervoso-esimples >. Acessado em 12 de agosto de 2009.

110

Matéria “Quem vai segurar o chororó da Fenaj?” – 29/06/2009

41

41

Matéria Quem vai segurar o chororó da Fenaj? < http://www.overmundo.com.br/overblog/quem-vaisegurar-o-chororo-da-fenaj >. Acessado em 12 de agosto de 2009.

111

Matéria “Revitalização do Porto, IPHAN e Morro da Conceição” – 30/06/2009

42

42

Matéria Revitalização do Porto, IPHAN e Morro da Conceição < http://www.overmundo.com.br/overblog/revitalizacao-do-porto-iphan-e-morro-da-conceicao >. Acessado em 12 de agosto de 2009.

112

Matéria “São Mateus e Rodrigo Campos perto do Rio” – 17/06/2009

43

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Matéria São Mateus e Rodrigo Campos perto do Rio < http://www.overmundo.com.br/overblog/saomateus-e-rodrigo-campos-perto-do-rio >. Acessado em 12 de agosto de 2009.

113

Matéria “Software livre pode facilitar a produção cultural” – 23/06/2009

44

44

Matéria Software livre pode facilitar a produção cultural < http://www.overmundo.com.br/overblog/software-livre-pode-facilitar-a-producao-cultural-1 >. Acessado em 12 de agosto de 2009.

114

7.2 Matérias sem formato jornalístico
Matéria “A importância da mídia independente” – 30/06/2009

45

Matéria A importância da mídia independente < http://www.overmundo.com.br/overblog/aimportancia-da-midia-independente >. Acessado em 12 de agosto de 2009.

45

115

Matéria “Divagações incompletas” – 25/06/2009

46

46

Matéria Divagações incompletas < http://www.overmundo.com.br/overblog/divagacoes-incompletas >. Acessado em 12 de agosto de 2009.

116

Matéria “Joycircunvuluçõesbabélicas” – 15/06/2009

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Matéria Joycircunvulaçõesbabélicas < http://www.overmundo.com.br/overblog/joycircunvulucoesbabelicas-bloomsday2009 >. Acessado em 12 de agosto de 2009.

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117

Matéria “Otimizações de sites para blogs” – 25/06/2009

48

48

Matéria Otimização de sites para blogs < http://www.overmundo.com.br/overblog/otimizacao-desites-para-blogs >. Acessado em 12 de agosto de 2009.

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8. GLOSSÁRIO
Creative commons – licença aberta com apenas alguns ou nenhum direto
reservado.

Copyright© – licença com todos os direitos reservados. Digg™ – uma rede social de compartilhamento de arquivos dividido por temas onde
o usuário pode inserir textos e links de interesse geral ou especifico. Vem do inglês ‘dig’ que significa cavar.

Flickr© – site característico de hospedagem que permite compartilhar imagens
fotográficas, vídeos e documentos gráficos.

Hiperlink – sinônimo de link, significa qualquer coisa que se coloca em uma página
da web e que, quando clicada com o lado esquerdo do mouse, abre uma página diferente, ou um lugar diferente, da internet.

Home page – conhecida também como página inicial. É a primeira página que
veremos quando abrimos um site.

MSN© – programa de troca de mensagens instantâneas, criado pela Microsoft©. Orkut© – um site de relacionamentos onde cada pessoa possui um perfil, podendo
adicionar amigos, mandar mensagens, depoimentos, classificar o nível de amizade e interagir com outros usuários.

Overmundo – site de conteúdo colaborativo onde cada pessoa pode criar um perfil
e postar conteúdo sobre cultura.

Software livre – programa desenvolvido com ferramentas para que ocorra a
interatividade entre o usuário e o meio.

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Tag – palavra selecionada dentro do texto podendo ser hiperlink ou apenas uma
explicação da palavra. Vem do inglês rotulo, etiqueta.

Twitter™ – site com aparência de microblog onde cada pessoa possui um perfil e
uma página de recados onde vai enviando pequenos recados para sua lista de “seguidores”.

Web – uma das redes dentro da Internet. Vem do protocolo WWW (World Wide
Web).

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