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Umuarama, domingo, 13 de junho de 2010

Das copas do mundo de futebol que ocorreram durante minha vida só não me recordo de 1970 e 1974, pois era muito pequena. Minha recordação mais remota é de ouvir aquela música que dizia: “A taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa”. Em 1978 já prestei mais atenção. Torci e fiquei chateada sem entender na época como era possível o Brasil ser considerado “campeão moral” se a campeã era a Argentina. Em 1982 foi muito diferente, eu era fanática pela seleção brasileira e fã incondicional do Zico. Sofri, chorei, fiz promessa, mas não teve jeito, a seleção perdeu. Por um bom tempo fiquei chateada. 1986, México, a música na TV era “Mexicoração”, me lembro do Zico perdendo o pênalti. Não o culpei, todo mundo erra, eu dizia, e, não poderia falar outra coisa, era sua fã. Em 1990 não dei muita bola para a Copa. Eu tinha um bebê e minha prioridade era outra. Já em 1994 estava passando por um luto e torcer para ganhar me fazia esquecer a perda. Depois do jogo do tetra a dor assumiu seu posto novamente e tive de lidar com ela. Na copa de 1998 quem curtiu e se chateou mais foram meus filhos. Em 2002 foi muito legal, era aniversário de uma prima que havia nascido na Copa de 94 e festejamos com ela o penta. Em 2006 foi péssimo. Eu estava em tratamento e nem o hospital enfeitado de verde e amarelo me animou.
2010, Copa do Mundo na África do Sul, começa tudo de novo. A expectativa, o sair do trabalho correndo para assistir aos jogos, TVs por todos os lados para que não se perca nenhum lance. Afinal outra Copa só daqui a quatro anos. Quatro anos. Por que quatro anos? Para não enjoar? Para demorar e a gente dar mais valor? Para manter a ansiedade? Quatro anos. Muita coisa acontece em quatro anos. Um amigo, na Copa de 82, me disse que o ideal seria dois anos entre uma copa e outra. Infelizmente ele não chegou assistir a nenhuma mais. Entre a Copa do México em 86 e a da Itália em 90 eu me casei e me tornei mãe. É uma grande mudança na vida de uma mulher. Um ciclo se fechou para mim e outro se abriu. É interessante observar as mudanças pelas quais se passa. Olhar o passado como retrospectiva pessoal através das Copas do Mundo de Futebol me trouxe muitas lembranças. Como eu, sei que cada um ao olhar seu passado vê coisas que pareciam ser para sempre não fazerem mais parte da vida atualmente e o que era impossível, ser parte do seu cotidiano hoje. Estes são os ciclos. Toda vida humana é feita deles. Esta é a vida. Não há períodos predeterminados para que um ciclo termine e outro comece. O tempo é muito

Com estes não há quem possa

Por Ângela russi

relativo. O que comanda os ciclos são as mudanças internas do ser humano. Se apegar ao presente e não largar de jeito nenhum é sofrimento dia após dia. Relembrar dores e ainda pior, amargar saudade é obstáculo para seguir adiante. Se deixar levar pelos acontecimentos ou equilibrar-se entre um e outro nem sempre traz felicidade. O mais saudável é reconhecer quando um ciclo termina e aceitar as mudanças trazidas com ele, pois quando chega o seu final tudo se transforma em história. Ciclos já têm em seu nome a ideia de fugacidade. O que é permanente é chamado de eterno, perpétuo, perene. O amor para ser verdadeiro tem de ser eterno. O crime deve ser castigado com prisão perpétua. O sentimento que é valorizado é o perene. Acabou não tem valor, não tem graça, não era de verdade. Assim é o pensamento de muita gente, porém há coisas que passam pela vida da gente e não ficam porque não devem ficar. Amizades que foram presentes e transformaram-se em ausência saudosa cumpriram seu papel e se foram. Amores que não conseguiram ser para sempre foram eternos enquanto duraram. Alguns relacionamentos aprofundaram-se, outros apenas marcaram para ficar na lembrança. Talvez lembrança boa e daí saudade. Talvez má e então que bom que passou. Seja boa ou má, passou. Não há como segurar o passado. Prendê-lo na memória para fazê-lo presente é desgastante e doentio e essa combinação só pode dar errado. .Copa do Mundo de novo, o que mudou nesses últimos quatro anos? Quantos ciclos foram fechados para você? Casou? Descasou? Concluiu graduação? Mudou de emprego? Perdeu quem amava? Encontrou quem vale a pena? Mudou de vida? Não aconteceu nada diferente? A vida continua a mesma? Impossível. Tudo muda, tudo se transforma. Mesmo que exteriormente tudo pareça igual dentro da gente há mudanças a cada dia. Um dia elas serão tantas que precisarão mudar algo maior, fora da gente. A cada quatro anos renova-se a esperança no país do futebol. Espera-se que o título venha e que o caneco seja nosso. Ganhará ou perderá? Quem sabe? Um ciclo se fechará para a seleção brasileira. Será que ela está pronta para o novo ciclo? Continuará na lembrança do penta ou adentrará na alegria do hexa? Porém, longe da África, no dia a dia é com a gente mesmo jogar o jogo da vida. O título de campeão pode não ser visto, mas é ganho a cada fim de ciclo por quem aceita iniciar outro. O prêmio é a taça da maturidade e esta é daqueles que vivem e deixam viver. Com estes não há quem possa.

Jardim de dentes
Por Jair Junior Monteiro Solin Juraci deveria parar de beber, mas não consegue. “Estou ficando com uma barriga enorme. Pernas magras, braços magros e uma barriga enorme”. Anormal. Mas ao sair do batente, o que fazer? Vai para o bar e bebe. Vai para o bar e bebe, bebe e vai para o bar. Não há mais nada o que se fazer. “Ta bom aqui”, diz. Apaixonado por tudo isso (o que é isso tudo?), Juraci cede. “A gente se adapta a ver nas catástrofes algo de revolucionário”. Cede tudo, relaxa nessa coisa invertebrada. “A fossa é um lugar onde depois das folias, não fica sujeira”. Celine Dion vai ter gêmeos. (...) Quando visitei minha mãe, na velha cidade que tenta se des-subdesenvolver, algumas araucárias perdidas entre tantas sibipirunas, ela perguntou: “que barriga é essa?”. Embaraçado, disse que estava inchada. Mas era uma deliciosa mistura de cevada, lúpulo, cana e delicado desespero coagulados dentro de mim. Um silêncio mortiço tomou conta do espaço. Do espaço sideral. A calada. Sala oca, cala-a-boca, música de caminhão depois da vidraça. “Como é o nome daquela flor que a gente assopra e ela se desfaz?”, perguntei pra quebrar aquela paz dura. Ela não tinha idéia. Minha mãe estava aprendendo a mexer no computador, ligou a máquina e digitou no Google: como é o nome daquela planta que assopra e ela se desfaz?” O computador disse que é dente-de-leão. Se é verdade ou não, pouco importa. Era dente-de-leão entre nós dois e aquele silêncio que parecia possuir um coração próprio. O interdito caminhava entre nós feito um general. A planta inteira é usada como diurético, purificador do sangue, laxativo e para facilitar a digestão e estimular o apetite; pode também ser utilizada em casos de obstipação. Além disso, contribui para aumentar a produção de bílis por isso é adequada para os problemas de fígado e vesícula biliar. A raiz é indicada para reumatismo. Faz-se óleo de massagem, também para artrite. Ela ficou orgulhosa de aprender tanta coisa. Ainda me disse que numa brincadeira entre as crianças portuguesas o dente se chama o-teu-pai-é-careca? “Também é quartilho, taráxaco ou amor-dos-homens”, acrescentou ela deslumbrada com o último nome como se o amor dos homens fosse realmente como um dente-de-leão que ao toque do vento se tornasse um talo sem graça, um bocado de quiçaça, uma coisa desapaixonada. Isso parecerá tão grego e deselegante: mamãe se jogou na frente de um trem quando foi pra São Paulo na casa do tio Flávio e do tio Michel depois de comer um pastel de carne com queijo. Me deixou uma carta dizendo que estava enjoada de viver e que o mar não estava e “nem estará tão cedo” pra peixe. Entendi. A gente tem que entender, senão explode. Pra fingir que sua ida não era algo tão sério e importante, ela acrescentou no
Nan Goldin

é moleza. Bem perigoso. Tenho uma filha, se chama Clara, mas Clara não é clara, engravidei a empregada lá de casa, que é negra. Clara saiu mais ou menos preta, mais ou menos branca. Tem três aninhos, é linda, lembra meu pai: traços padrão com sutilezas esdrúxulas. Comprei pra ela um vestido estampado com violetinhas que ficou uma graça. Eu e Aletéia não namoramos, mas somos amigos. Bons amigos que se respeitam, embora ela tenha dito que eu levo jeito pra pederastia. A essa altura da vida, a gente leva jeito pra muita coisa e todo machão fica meio veado um dia. Será que num determinado momento da vida serei síndico de um prédio de 16 andares? Talvez eu seja síndico. Amanhã levarei Clara para praia. Vamos pra Guaratuba, ela vai ficar louca quando ver o mar: aquela coisa grande e sem fim. Juraci acende um cigarro, suspira: “unf...”. Olha pelo vitrô. O mundo parece realmente grande. Mas será que é? No prédio da frente uma mulher debruça na janela e cantarola algo. Clara sonha no quarto. Juraci amasseta a bituca numa fresta do vitrô, senta-se no sofá, liga a televisão. Lá embaixo, na calçada, a vida.

rodapé da carta: “sabia que a Celine Dion vai ter gêmeos com 43 anos?” Ri. Ela apreciava Celine Dion. Fui num cirurgião plástico, pedi para que fizesse uma lipoaspiração em mim. Ele me elogiou, disse que estou bem, mas eu insisti. Este é um mundo onde a barriga é uma enfermidade. É claro que isso é um embuste, mas a gente acaba crendo. Comprei na época uma daquelas camisetas agarradinhas, mas fiquei com vergonha, não pega bem um quarentão de baby-look. É ridículo. Além do mais, minha barriga voltou. Papai se divorciou da mãe quando eu tinha quase trinta. Ele foi viver com uma cantora noturna que atendia por Dolores Rosas By Night. Era uma vagabunda intelectual, dizia minha mãe. Mas tinha uma voz bonita. Sei porque papai ouvia muito no rádio, ficou célebre, mas eu soube que já morreu também. Endividou-se com a dona do Place Palace Rouge e levou uma facada na vagina. Presa no quarto ela teve uma hemorragia feia e padeceu. Pobre papai, ele nunca teve sorte, mas era lindo. Um homem lindo. Era lindo papai. “Fiado tem limite”, alegou a dona do Place Palace Rouge a Dolores enquanto enfiava a faca (dizem as más línguas). Deve estar presa. Mexer com isso não