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Umuarama, domingo, 20 de junho de 2010

Gralha-Azul

por Ney Souza Lima

Nasci entre os galhos da araucária nos braços da mãe natureza, aqui na terra de muito pinhão no útero do Aqüífero-Guarani conheço o Parque Nacional de Ilha Grande o clima o relevo a argila e o Arenito Caiuá vi na história o índio Xetá e o Kaigang e as paisagens no varjão, do Rio Paraná andei caminhos trechos estradas e trilhos extinta, nos limites da serra do mar sou Gralha-Azul, e do Paraná eu sou o Símbolo e para os bichos e as aves viver é voar represento essa gente, cabocla, roxa e vermelha gente de olhos azuis na cidade, no campo africanos, escravos, heróis de pele negra personalidades, folclore, lendas e fandango eu faço parte da lenda e da realidade ave canora, ave azul, da cor da água Sete Quedas, e os turistas, Cataratas do Iguaçu e entre a mata desmatada solto meus gritos de Gralha eu vi guerras, Bandeirantes, paraguaia e Contestado até hoje tenho medo, da bala, da flecha e do machado e se eu fosse guerrear juntamente com os pássaros definindo nossas terras, exigindo nosso espaço?! o meu nome é Gralha Azul, sou Bicho do Paraná entre tropas e frio, nasci neste lugar ninguém nunca viu, em nenhum estado há ave tão interligada como sou no Paraná! carrego entre as mãos o meu livro didático com a história da minha vida, dessa gente-pássaro nas campinas só sobraram eu e a araucária preciso dela para viver e ela precisa de mim sou um só corpo com a fauna e com a flora em terras vegetadas, cheia de trilhos e nuvens passo os dias nas galhas a observar a Gaia as Araucárias novinhas, o grão que plantei a árvore nasce do solo, uma nova muda assim que o meu Paraná-uê tem que crescer no sul de uma arvorezinha destacar no mundo com as cores da Bandeira no corpo da Gralha -Azul sou Símbolo do Paraná, levo a semente faço minha trilha, nutrida de pinhão trato da família no ninho paranaense ao ouvir sonoramente o grito de alimentação... Também conhecido como Ney Poeta em São Jorge do Patrocínio, o autor teve estas linhas premiadas com o 3º Lugar da Categoria Adulto no 16° Concurso de Poesia Pinheiro do Paraná 2008. Parabéns e sinta-se sempre bem vindo, Ney!.

Ver não é o mesmo que olhar

Por Thiago Calixto

Há tempos me interesso pela temática do olhar, cujo movimento nesta senda remonto conscientemente à minha primeira leitura da obra “Orwelliana” intitulada 1984 (entretanto finalizada em 1948, reverso este que tem sua lógica), de caráter irônico e crítico aos regimes políticos autoritários, em especial o stalinismo (qualquer semelhança contemporânea não é mera coincidência). Um de seus termos que ganhou notoriedade foi o de “Big Brother” numa referência ao olho fiscalizador do Estado, responsável pelo controle da vida das pessoas. Da digressão retomamos ao tema mais específico, focando a importância que o olhar carrega na transmissão de palavras que darão sentidos a um sujeitinho em construção - o humano. Destarte, investido por um ato, o qual vai além da mera ação e denota satisfação, o olhar paulatinamente marca uma existência, propicia o reconhecimento, através do circuito construído entre Semelhante-semelhante a sustentar o movimento. Portanto, resta claro a Reprodução d´A Parábola dos Cegos, por Pieter Bruegel (1525/30 – 1569) – vivacidade de um desejo posto em curso também “Quando um cego guia outro cego, ambos caem no abismo.” pelo investimento escópico que nomeia, conta história, diz quem é. Curioso, mas não arbitrário é que o olhar desesperadamente agarradas ao investimento narcísico que lhes ausente não banhe de linguagem, tornando, depois de um tempo, faltou. Este objeto colorido exerce uma atração que o eleva ao patamar expressão da falta identitária que aprisiona o sujeito crescido como de fascinação, fazendo vezes de Outra satisfação. apêndice do Outro e assim na dependência daquele gozo sussurÉ mister, então, que vejam os semelhantes nas trivialidades rado em tom de coerção qualquer coisa, de preferência tudo, serve. do acordar, comer, conversar, banhar, transar e dormir para que se Esta ausência supracitada baseia minha letra quando milhões de possam sentir representados na vida sem sentido, sem lugar e sem televisores brasileiros se plugam quase que automaticamente ao Big função. E o pior é que tais semelhantes acabam por se transformar Brother, fazendo da virtualidade um lago refletor de imagens que, em Semelhantes a ponto de serem idealizados e imitados numa deixando de ser anônimas “assegura” às pessoas suas existências, cadeia que alude à Parábola dos Cegos de Bruegel.

amBIGuIDaDe
Por Ângela russi
Quem nunca brincou de cara ou coroa? É só pegar uma moeda escolher um dos lados e jogar para cima. Quando cair ou é cara ou é coroa. Quem escolheu o lado que ficou para cima é o vencedor Algumas pessoas são como moedas, têm duas faces totalmente diferentes. Dois lados de um mesmo ser humano. Pena que não dá para jogá-las para cima para ver qual dos lados exibirá. Assim seria bem mais fácil lidar com elas. Por isso é bem complicado conviver com pessoas- moedas, isto é, ambíguas. O ambíguo é mais ou menos assim: num dia chega feliz da vida, cumprimenta, conversa e até fala sobre o tempo. Em outro chega e nem olha. Talvez um bom dia rápido, carrancudo e só. Tem também o namorado ambíguo que no passado era um encanto, conquistou a garota com flores e romantismo. Isso no passado. Hoje maltrata e, ao invés de presentear reclama dos presentes que ganha e exige coisa melhor. O colega ambíguo num dia te conhece e no outro te esquece. Deve ter amnésia. Tem indivíduo que diz ‘Deus lhe abençoe’ em um dia e no outro espera que o Diabo lhe carregue. Tem gente que passa rapidinho do sorriso ao cinismo. De manhã está feliz, de tarde está emburrado. Em um momento está alegre e no outro está zangado. Numa semana é educado e na outra é revoltado. Diz que odeia amarelo e um tempo depois, lá está ele com uma roupa amarela que ofusca a visão. O que é isso? Isso é ambigüidade, também chamada de ambivalência e é enlouquecedor. Não dá para saber o que esperar ou o que virá. É complicado esperar o feliz e ver chegar o estressado. Cumprimentar o compreensivo e não receber resposta do mal-educado. Sorrir para o bacana e receber uma cantada do sacana. O mundo está cheio deles e embora haja ambíguos diferentes e para todos os gostos, eles têm algo em comum: nunca estão satisfeitos. É de pirar qualquer um. Desestabiliza mesmo. Pessoa desestabilizada fica frágil, é aí que o ambíguo toma conta e controla a situação. Neste tipo de relacionamento apenas um sempre busca agradar ao outro. Como é impossível agradar o ambíguo, não é ele quem faz esse papel, pois vive para ser agradado. Viver para agradar não é nem um pouco agradável e o desgaste emocional é grande. Obrigar-se a isso é doloroso. Porém, ambíguo esperto dá um tempo de vez em quando, faz uns agradinhos quando percebe que o outro está cansando de suas instabilidades e continua controlando a relação. Azar de quem não percebe. Quando é possível se afastar do ambíguo, beleza. Resolvido. Mas quando ele é um chefe, um parente próximo ou o amor de sua vida o negócio muda de figura. O que fazer? Nada de se jogar da ponte ou do viaduto. Se não der para aguentar, ou seja, se já estiver a ponto de se internar no hospício, fale. Toda a palavra que explica um desconforto e que não sai da boca para fora, corre o risco de ficando no corpo, adoecê-lo. Explique a ele que o modo como se comporta está enlouquecendo-o. Jogue limpo. Palavras sinceras que esclareçam é o melhor caminho. E se o ambíguo tiver poder? Poder para demitir, para querer descasar, ou para judiar? Falar ou não falar? Eis uma importante questão. Tem de escolher. O medo de magoar, de perder e da solidão muitas vezes impede um bom diálogo. Fazer o quê? Uma escolha tem de ser feita. E quando a saúde está em risco é sábio refletir o que vale mais. Para não correr riscos desnecessários no emprego é viável procurar outro e antes de descasar, tentar demonstrar o valor que dá ao relacionamento. O ambíguo pode lhe fazer sofrer? Driblar o sofrimento e proteger-se até decidir qual atitude tomar é a atitude sábia nesse caso. Infelizmente só há três alternativas: resolver, suportar ou fugir. A primeira e a última são alternativas radicais. E quem não tiver coragem nem para uma coisa nem para outra? Fazer o quê? Suportar, e que Deus o ajude. Casos extremos de ambigüidade só mesmo com intervenção divina para mudar. Psicoterapia também é um santo remédio, entretanto, tentar resolver através desses meios ainda não exclui a sinceridade. Se tudo isso falhar, jogue o ambíguo para cima. Quem sabe ele cai do lado bom ou ainda do lado que se consegue suportar?

O grotesco e o sagrado
Por Jair Junior

Monteiro solin

Ela é uma daquelas pessoas que você facilmente julgaria – caso ela aparecesse na sua vida – como necessitável. A gente está sempre precisando de alguém como ela: bunduda, linda, astuta e absurdamente sensitiva. Erótica e terna. Leopardo e joaninha num mesmo corpo de caverna clara. É daquelas mulheres que você gasta absurdos interurbanos para ouvir suas palavras ora otárias, ora geniais. Ora grotescas, ora santas. Ora inúteis, ora sábias. Bem, apresento-lhes A.S.F. Tarde de quinta-feira, sol paulistano, vento da chepa do outono. Dor paulatina e uma tuberculose crescente feito progresso. Uma herpes no seio se incendeia. A.S.F. vai ao massagista. Lá se distrai, ela valoriza as artes do corpo. Aliás, que corpo... Ela e ele formam a união de gregos e troianos. O trem treme a sua dor. Os passos pisam na sua alegria. Mas apesar de tudo, a felicidade colabora. O seu massagista, aqui tratado pelo pseudônimo de Márcio B. F. K., foi a primeira capa de uma revista de homens nus, a quarta mais vendida até hoje no Brasil. Atualmente tem os seus quarenta anos, embora muito bem conservado. Se não me engano tem uma filha, é separado. É cauto ao ponto de ter comprado um aparador de pêlos nasais

elétrico, mas tem vontade aparar outras coisas, como a cabeça da sua ex-mulher, por exemplo. A.S.F. é solteira. No primeiro dia de massagem, como Márcio percebe que A. não é uma pessoa como as outras, ele se expõe, porque é verdadeiro. Elogia as sinuosidades excêntricas e perfeitas do corpo dela. A maneira como suas estranhezas poderiam estar

tranqüilamente num outdoor ou numa novela. A.S.F. é uma espécie rara de mulher: é como uma hermafrodita absurdamente natural e comum. Um fenômeno banal. Um prodígio ordinário. Ela disse pra ele que gosta mais de mulheres do que de homens. Ele ouviu enquanto a massageava. Márcio argumentou para ela: eu tenho uma bunda linda, você não sabe quanta gente quer tocá-la. Márcio abaixa sua calça e mostra sua bunda para A.S.F. Ela vê. “É bonita sim”. E relaxa sorrindo, afinal, por mais verdadeiro, honesto e gracioso que ele seja (com toda sua virilidade de capa de uma revista para pederastas) ele é mais um homem deliciosamente especial e corriqueiro, que se encontra aos montes nesta terra. A.S.F. quer uma mulher como Penélope Cruz em filmes de Pedro Almodóvar. Ele começa a dar sessões gratuitas de massagem para ela, cinco sessões gratuitas que somam R$250,00 de “avaria”. Ela aceita, adora ser massageada e tocada, melhor ainda quando isso não custar.

Não que o toque dele seja tão interessante, mas existem lugares e maneiras de tocar em nosso corpo que se fosse a mão de nossa mãe o fazendo, sem que víssemos, sentiríamos o mesmo que ao ser massageado por um ex-capa de G Magazine, altamente arrebatado. O sol quase cinza de escórias da chuva, quase amarelo de promessas do verão , enraíza seus nervos na tarde desta sexta. É possível ver o inverno saindo detrás do horizonte, feito um moleque pulando um muro. O oriente dá fisgadas no ocidente e nos pulmões de A.S.F.. Uma onda bizarra se levanta na praia, mais um passo e o contentamento de tão contente se tornaria coisa nenhuma. Um naco de eternidade nos olhos da moça. Eis que um dia ela deita em sua maca, e depois de muito tempo sendo massageada (seu sutiã que esconde uma feia herpes), começa a sentir no ar um forte cheiro de sexo (de lubricidade, sensualidade, de volúpia, de pênis intumescido de selvageria harmônica), cheiro este que não é o seu. Ela estranha. Mas entende. Esse homem é assim. Tantos homens são assim. A tuberculose assoviava no seu peito e um arranha-céu era erguido no seu coração. O cheiro vai debelando cada vinco do ambiente feito maré que aos poucos engole uma ilha. Num dado minuto, a sala está transbordando Márcio B. F. K. e seu amor guloso. Eis que num momento ele brada: eu não agüento mais!!! “Não consigo mais me policiar, você tem que ir embora daqui, não vê o que está causando?” A.S.F. desce da maca, veste suas roupas, diz: ok, eu compreendo. E sai do consultório com a leve impressão de que não havia compreendido nada. Tosse, vai ao mercado, tem fome. (solin_jc_1@hotmail.com)