MARIA DE LOURDES BACHA

A Teoria da Investigação de C.S.Peirce

Mestrado Semiótica PUC-SP 1997
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MARIA DE LOURDES BACHA

A Teoria da Investigação de C.S.Peirce

Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob orientação do Prof. Dr. Breno Serson.

PUC - SP 1997
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Banca examinadora Orientador Prof. Dr. Breno Serson Prof. Dr. Ivo Assad Ibri Profa. Dra. Soraya Maria Ferreira Vieira

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RESUMO

Esta dissertação tem como objetivo estudar a Teoria da Investigação (inquiry) de C.S.Peirce.

Para Peirce, a investigação começa a partir de um estado de dúvida incomodo paralisante, no qual não se consegue escolher entre dois cursos de ação.

A dúvida, da qual a investigação parte é uma dúvida real, genuína, e não simplesmente uma dúvida metodológica, um "faz-de-conta".

A investigação científica constitui um esforço para colocar fim à dúvida e voltar a um estado de crença. A verdade seria, então, um estado de crença inatacável pela dúvida. A investigação tem por objetivo único o acordo de opiniões.

A Teoria da Investigação também pode ser chamada de Teoria do Método Científico. Para Peirce, somente o método científico pode nos levar à verdade, em longo prazo, num longo percurso, que constitui o processo dinâmico da investigação. Este processo está sujeito ao erro, ao acaso, mas também é passível de auto-correção.

A Teoria da Investigação se baseia em alguns pontos da teoria peirceana que são: a teoria da verdade (que depende de um critério de convergência e no acordo de opiniões de uma comunidade); a concepção de realidade (que tem suas bases na teoria da cognição e que por sua vez tem suas bases na teoria das categorias); a teoria pensamento-signo (que implica na continuidade, na semiose, na terceiridade); a doutrina do falibilismo; do senso comum, e a teoria dúvida - crença.

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Ao Waldemir, com saudades

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AGRADECIMENTOS

AO MEU ORIENTADOR PROF. DR. BRENO SERSON, AO PROF. DR.IVO ASSAD IBRI, A PROFª. DRª. CECÍLIA ALMEIDA SALLES, AOS MEUS FILHOS ANA E JÚLIO, ÀS COLEGAS SUSANA E JORGINA. ESTE TRABALHO CONTOU COM A COLABORAÇÃO DA CAPES.

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ÍNDICE

INTRODUÇÃO .......................................................................................................................008

Capítulo I. FUNDAMENTOS DA SEMIÓTICA PEIRCEANA ...................................................015 1. Introdução .................................................................................................015 2. O lugar da Semiótica na filosofia peirceana ..........................................018 3. O inter-relacionamento das Ciências Normativas: A Estética, a Ética e a Lógica .....................................................................................032 4. O escopo da Semiótica peirceana ............................................................053 5. As divisões da Semiótica. .........................................................................063

Capítulo II. A TEORIA DA INVESTIGAÇÃO .......................................................................072 1. Introdução ...................................................................................................072 2. A questão do método em Peirce .................................................................078 2.1. O anti-cartesianismo peirceano .........................................................083 2.2. O método científico .............................................................................099 2.3. Evolução dos conceitos peirceanos a partir das inferências para tipos de raciocínio e finalmente para estágios da investigação. ...................................................................................116 2.3.1. Abdução .....................................................................................122 2.3.2. Dedução......................................................................................137 2.3.3. Indução ......................................................................................144 2.3.4. Relação entre abdução, dedução e indução e as categorias ..152 3. A lógica da Investigação. ............................................................................160

CONCLUSÕES .......................................................................................................................168

BIBLIOGRAFIA .....................................................................................................................187
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INTRODUÇÃO
De acordo com Murphey1, a Teoria da Investigação foi desenvolvida por Peirce, entre 1870 e 1872.

Um dos pontos mais importantes da Teoria da Investigação está na concepção peirceana de ciência, ligada a um “processo socio-histórico de investigação”. 2

Para Peirce há duas concepções tradicionais de ciência. A primeira, caracterizada como um corpo sistemático e organizado de conhecimento, seria “um corte superficial capturando principalmente os remanescentes fossilizados da ciência”. A segunda seria “um corte mais profundo”, caracterizada como um método do saber. A segunda visão seria a mais certa, podendo, no entanto, ser comprometida por uma concepção metodológica individualista e por vezes não suficientemente dinâmica.3 A Teoria da Investigação parte de um dos pontos-chaves da teoria peirceana, que é a rejeição aos "apriorismos" ou a rejeição à tradição fundacionalista. Segundo Peirce, é muito
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M Muphey, (1993) The Development of Peirce's Philosophy. p. 159. (MS 614.7 e CP.7.49,7.60, 7.61, 7.87) C. Delaney, (1993), Science, Knowledge and Mind- A study in the philosophy of C.S.Peirce ,p.13 e C. Stewart, (1986) "Social and Economic Aspects" Transactions of the C.S.Peirce Society, vol.XXII p. 501. 9

diferente partir daquelas coisas das quais nós não duvidamos, o que não quer dizer que existam verdades ou certezas absolutas. Todo conhecimento tem início nas percepções recebidas pelos sentidos, mas estas percepções em si mesmas não constituem conhecimento nem podem ser premissas para o conhecimento. A rejeição peirceana aos “apriorismos” pode ser expressa na frase: "Não bloqueie o caminho da investigação". O que Peirce quer evitar é dogmatismo e ceticismo.

Peirce acreditava, por um lado na inexorável marcha da ciência para a verdade, e o método científico seria aquele método que inevitavelmente levaria à verdade em longo prazo, por outro lado nenhuma teoria, nenhum conceito, nenhum sistema de idéias traduz verdades finais.

A filosofia evolucionista de Peirce embute a idéia de aprendizagem e ciência pressupõe evolução. Aquilo que é verdade hoje, pode se mostra falso no futuro e, se o campo observacional aumentar, algumas teorias podem se mostrar incompletas ou falsas.

Entretanto, guiados por nossas crenças e empregando métodos de investigação que não sejam apropriados, poderemos chegar a uma opinião errada, já que todas as teorias científicas são falíveis e seus resultados devem ser submetidos à crítica

Para Skagestad, a Teoria da Investigação de Peirce reconcilia alguns conflitos ou discrepâncias entre religião, darwinismo e ciência. Ela é vista como um "socialismo lógico", por Murphey, para quem o pesquisador peirceano é um membro de uma comunidade que devota sua vida à busca desinteressada da verdade. A descoberta da verdadeira estrutura da realidade, por intermédio da ciência, seria "um dever religioso".

Todas as investigações levadas a cabo, em longo prazo, com a adoção do método correto devem levar às mesmas conclusões, "a conclusão em qualquer departamento da ciência é essencialmente a mesma." A Teoria da Investigação aponta quais deveriam ser os princípios guia para aquele investigador que acredita existirem coisas reais e, cujo objetivo é a descoberta das propriedades daquilo que é real. Adotar o método da ciência é simplesmente
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C.Delaney (1993), op.cit. p.14.

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adotar a hipótese da realidade e sua adoção pode ser justificada pelo fato de que leva ao conhecimento da realidade. A hipótese realista é fundamental para o método da ciência.

Se nós adotamos a hipótese da realidade - e, realidade, para Peirce, é algo externo e estável, e tudo aquilo que está fora do alcance da investigação não é real, - estamos nos compromentendo com uma busca única e desinteressada da verdade, estamos aptos a sacrificar opiniões em curto prazo pelo consenso estável e duradouro, o que pressupõe uma visão realista contra a visão nominalista da realidade. A realidade é a causa final da investigação porque reflete a fixação das crenças sobre as quais a investigação se apoia.

De acordo com Peirce, os três estágios da investigação são: abdução, dedução e indução. Esta distinção é que fundamenta a Teoria da Investigação, formalizando um ciclo; abdução, dedução, indução, nova abdução...

A Teoria da Investigação está inserida na terceira divisão da semiótica, a metodêutica, na qual está concentrado o objeto deste estudo. A Semiótica Peirceana se divide em:

1. Gramática Especulativa ou Gramática Pura, 2. Lógica Crítica ou Lógica propriamente dita, 3. Retórica Especulativa ou Metodêutica.

A Gramática Especulativa constitui a teoria geral da natureza e significado dos signos sejam eles ícones, índices ou símbolos; a Lógica Crítica classifica os argumentos e determina a validade e o grau de força de cada um, e a Metodêutica, que estuda os métodos que deveriam ser perseguidos na investigação, exposição e aplicação da verdade. Cada divisão depende da precedente. (CP 1.191)

Segundo Serson (1996: b), a Metodêutica pode ser vista por dois ângulos:

1. O primeiro, ligado à teoria geral da investigação e aos métodos científicos e, 2. O segundo, o retórico, que é a arte de conduzir um raciocínio, um convencimento que permite explicar como é que se dá a construção do convencimento quando dois
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interlocutores ideais ou duas inteligências científicas ao conversar possam provar alguma coisa uma para a outra.

Por outro lado, sendo a investigação uma atividade voltada a um fim, este fim não pode se resumir à ação, mas este fim é uma busca do "admirável", o “summum bonum” da investigação. Esta dissertação foi dividida em três capítulos. O Capítulo I tem como título “Fundamentos da Semiótica Peirceana”. O principal objetivo deste capítulo consiste na apresentação de algumas idéias sobre a Semiótica peirceana e suas divisões que são a Gramática Pura, a Lógica Crítica e a Metodêutica.

Este capítulo foi dividido em cinco itens. O primeiro item do Capítulo I procura mostrar resumidamente a importância da Lógica ou Semiótica na obra de Peirce. A concepção peirceana de Semiótica é de uma Lógica que leva em consideração todos os possíveis tipos de signos e seus específicos modos de ação.

No segundo item do Capítulo I, a Semiótica será contextualizada no corpo da arquitetura filosófica de Peirce, utilizando-se o diagrama da classificação das ciências, no qual os princípios da interdependência de cada ciência são exibidos. No item 3 do Capítulo I, procura-se mostrar o inter-relacionamento das Ciências Normativas, isto é, como se relacionam a Estética, a Ética e a Lógica ou Semiótica. A Lógica ou Semiótica, como a ciência do raciocínio e do pensamento deliberado, extrai seus princípios da Estética e da Ética. A Lógica estabelece as regras que deveriam ser seguidas para o raciocínio, mas precisa recorrer ao propósito ou meta que justifique estas regras. 4 Este tópico será retomado posteriormente no contexto da Teoria da Investigação. No quarto item do Capítulo I são apresentadas algumas idéias sobre o escopo da Semiótica peirceana.5 A Semiótica estuda todas as espécies de signo e, além disso, é a ciência normativa dos métodos de investigação inteligente e do raciocínio em geral.

4 5

Idem, op.cit. p.121. N .Houser (1990) "O escopo da semiótica peirceana", p.207-214. 12

Para Peirce, todo pensamento ou representação cognitiva é um signo, sendo o signo peirceano uma relação triádica complexa envolvendo o signo, objeto e o interpretante. Em função desta relação triádica os signos podem ser classificados de várias maneiras, três das quais são resumidamente apresentadas neste capítulo.

No quinto item do Capítulo I são apresentadas as três divisões da Semiótica. A Gramática Pura, que estuda o que deve ter o signo para incorporar qualquer significado, a Lógica Crítica ou Lógica propriamente dita que estuda as condições de verdade das representações e a Metodêutica que é a ciência que estuda as condições pelas quais um signo gera outro, e especialmente um pensamento dá origem a outro. (CP 1.444) O Capítulo II tem como título "A Teoria da Investigação" e foi dividido em cinco itens. O primeiro item do Capítulo II explica em linhas gerais a concepção peirceana de ciência como um processo sócio-histórico de investigação, subentendendo uma comunidade de pesquisadores que, num determinado tempo, com unidade de propósito, torna o resultado da investigação mais do uma simples somatória de resultados individuais.

O segundo item do Capítulo II, se refere à questão do método, discutindo a visão anticartesiana de Peirce, sua rejeição à tradição fundacionalista e oposição às idéias de certeza e verdade absolutas. A análise destes pontos é feita a partir dos textos conhecidos como a "série da cognição": 1. “Questões Referentes a Certas Faculdades Reivindicadas pelo Homem” (CP 5.213-63), 2. “Algumas Conseqüências das Quatro Incapacidades” (CP 5.264-317) 6 e
3. “Fundamentos para a Validade das Leis da Lógica: Outras Conseqüências das Quatro

Incapacidades”. (CP 5.318-57).

A análise das idéias peirceanas sobre o método científico, sobre a concepção de investigação e sobre a teoria dúvida-crença, é feita a partir de uma série de seis artigos denominada "Lógica da Ciência", que são os seguintes:
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Os textos 1 e 2 foram publicados em C.S.Peirce,(1990), Semiótica, São Paulo: Perspectiva. p 242-282. 13

1. “Fixação das Crenças” -1877 (CP 5.358-87),

2. “Como Tornar Nossas Idéias Claras” -1878 (CP 5.388-410), 3. “A Doutrina dos Acasos” - 1878 (CP 2.645-60), 4. “A Probabilidade da Indução” -1878 (CP 2.669-93), 5. “A Ordem da Natureza” -1878 (CP 6.395-427) e, 6. “Dedução, Indução e Hipótese” -1878 (CP 2.619-44).7

Estes artigos têm como principal característica a insistência de Peirce quanto à concepção de realidade independente do que pensamos, a apresentação de uma nova abordagem para a justificativa dos métodos de investigação e regras de inferência, e a distinção entre observação e raciocínio como ênfase para o teste das hipóteses.

A evolução dos conceitos peirceanos a partir das inferências para tipos de raciocínio e finalmente para estágios da investigação também é discutida neste capítulo. Sua análise se baseia principalmente no texto "Tempo de Colheita", do livro A Assinatura das coisas de M. Lúcia Santaella.

Resumidamente, se pode dizer que no início de seus trabalhos, Peirce considerava que todas as formas de inferência poderiam ser reduzidas ao silogismo Bárbara (CP 2.620), mas a noção peirceana de inferência evoluiu, e as inferências passaram a ser três tipos distintos e irredutíveis dos argumentos ou raciocínio.8 Inicialmente, Peirce incluía a analogia como o quarto tipo de raciocínio, mas posteriormente acabou reconhecendo que a analogia combina as características da indução e da retrodução. (CP 1.65)

Ainda dentro do Capítulo II, são apresentadas as principais idéias peirceanas que caracterizam cada um dos três estágios da investigação. A abdução, a primeira etapa, é o processo de geração de hipóteses. A dedução, que é a segunda etapa, consiste em traçar imaginariamente todas as conseqüências necessárias que se seguem à adoção da hipótese. A terceira etapa, que é a indução, consiste em testar a hipótese e suas predições dedutivas, comparando-se os resultados experimentais obtidos com as predições originais.

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Os textos 1, 2 e 6 estão traduzidos em C.S.Peirce, (1972), Semiótica e Filosofia, São Paulo: Cultrix. B. Serson, (1992), La théorie sémiotique de la cognition chez C.S.Peirce, tese de doutoramento, p.64-91. 14

O item 5 do Capítulo II discute a lógica da investigação, vista como um ciclo abdução/ dedução/indução. Quando fatos surpreendentes que são observados, ou diferenças entre as previsões e os resultados obrigam a reformulação da hipótese original ou ao seu abandono ou a conseqüente formulação de hipóteses inteiramente novas, então se reinicia o ciclo como nova abdução/dedução/indução/nova abdução...Toda a idéia da investigação, no contexto da metodêutica, é mostrar como se encadeia este ciclo de abdução/dedução/indução/nova abdução...

O capítulo Conclusões faz uma junção de todos os pontos discutidos anteriormente, procurando mostrar como questões fundamentais da teoria peirceana (a concepção de ciência, de verdade, evolucionismo, teoria da realidade, idealismo objetivo, as categorias, o interrelacionamento das ciências normativas) estão implicadas na Teoria da Investigação. A partir desta análise procura-se mostrar qual seria o “summum bonum” da investigação. A investigação, mesmo sendo lógica, ainda assim ela implica numa escolha ética, e numa busca do fim último admirável. ***

As obras de Peirce são citadas obedecendo às abreviações comumente aceitas entre os estudiosos.

CP HP MS N NEM PW W SL R

Collected Papers Historical Perspectives on Peirce’s Logic of Science. Manuscritos da Houghton Library Harvard University Charles Sanders Peirce: Contributions to The Nation. The New Elements of Mathematics The Correspondence between Charles S.Peirce and Victoria Lady Welby. Writings of Charles S.Peirce. Studies in Logic by Members of John Hopkins University Reasonings and The logic of Things - The Cambridge Conferences.

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Capítulo I - FUNDAMENTOS DA SEMIÓTICA PEIRCEANA

1. Introdução:

"Dada a pergunta: Em que medida é admissível existir aparência no mundo moral?, a resposta deve ser sumária: na medida em que a aparência for estética, isto é, uma aparência que não quer passar por realidade e tampouco quer que esta a substitua.” (SCHILLER, 1991:140)

Os primeiros contatos de Peirce com a filosofia deram-se na adolescência com a Lógica de Whateley, e mais tarde através das cartas de Schiller e das obras de Kant, de quem ele saberia de cor a Crítica da Razão Pura. (CP 1.44)

Mas, diferentemente de Kant, Peirce concebeu a Lógica como uma lógica da ciência, como a arte de entender os métodos de investigação utilizados pelas mais diversas ciências. Segundo Santaella (1994:105), a Semiótica ou doutrina dos signos, da qual Peirce foi o moderno fundador, aconteceu, na sua vida, como uma conseqüência de sua investigação dos mecanismos de pensamento e raciocínio que dão suporte aos métodos através dos quais as ciências conduzem suas investigações.
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Peirce é um filósofo sistêmico e sua filosofia busca respostas harmônicas para uma série de questões entre as quais o estatuto do cosmos, a questão da temporalidade, a questão do conhecimento, a questão da crença e da dúvida, a questão da interioridade e exterioridade, a dicotomia sujeito-objeto, as condições de possibilidade do pensamento, do real, do imaginário.

Peirce levou para a Filosofia o espírito da investigação científica, assumindo que as disciplinas filosóficas são ou podem se tornar também ciências. Para tal, propôs aplicar na Filosofia, com as devidas modificações os métodos de observação, hipótese e experimentos que são praticados nas ciências. Para Peirce, o caminho para a Filosofia deveria ser feito através da Lógica, isto é, através da Lógica da ciência. “Peirce era uma espécie de filósofo que era, em primeiro lugar um cientista e uma espécie de cientista que era em primeiro lugar, um lógico da ciência.” (FISCH, apud SANTAELLA, 1985:26) 9.

Portanto, sendo antes de tudo um cientista, seu interesse em Lógica era primeiramente um interesse na Lógica das ciências e, entender a Lógica das ciências era, em primeiro lugar, entender seus métodos de raciocínio.

Durante 60 anos de sua vida Peirce lutou pelo reconhecimento da Lógica como ciência. Segundo Santaella, tudo o que Peirce fez, todas as atividades científicas que praticou tinham a Lógica como mira, e, ao se aprofundar no estudo da Lógica, acabou se deparando com sua insuficiência ou incompletude. “Esta incompletude está no cerne de sua concepção de signo. Todo signo, por fatalidade congênita, está destinado a ser incompleto” (SANTAELLA, 1994:155).

Mas à medida que constatava a incompletude da Lógica, Peirce trouxe a Estética e a Ética para ajudá-lo naquelas tarefas teóricas que a Semiótica não podia realizar por si mesma. Primeiramente Peirce concebeu a Lógica propriamente dita como sendo um ramo da Semiótica. Mais tarde concebeu uma concepção mais ampla da Lógica. Mas do fato de que todo raciocínio e todo pensamento se dá em signos, não havendo pensamento ou raciocínio

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L. Santaella, (1985) O que é Semiótica, p. 26. 17

possível sem signos, a Semiótica, como estudo de todos os tipos possíveis de signos, nasceu como uma conseqüência natural das descobertas peirceanas em Lógica.

Fazendo uma divisão cronológica na obra de Peirce, podemos distinguir segundo Murphey10, quatro fases :

1. a primeira, englobando os primeiros escritos e tendo sofrido grande influência da lógica kantiana, iria de 1857 até 1865-66. 2. a segunda, que começaria com a descoberta da irredutibilidade das três figuras silogísticas, pode ser estendida até 1869-70. 3. a terceira, que inaugura a descoberta da lógica dos relativos, continuaria até 1889. 4. a quarta, que começa com a descoberta da quantificação e a teoria dos conjuntos continuaria até a morte de Peirce. Estas fases não devem ser tomadas como sistemas distintos e sim como diferentes revisões dentro de um único sistema arquitetônico. A partir de 1900, Lógica e Semiótica se tornaram sinônimos para Peirce11:

A Lógica não é senão outro nome para a Semiótica (PEIRCE, CP 2.227). A Lógica será definida aqui como Semiótica formal. Uma definição de signo será dada que não tem nenhuma referência ao pensamento humano, não mais do que teria a definição de uma linha como o lugar que uma partícula ocupa, parte por parte, durante um lapso de tempo (PEIRCE, NEM 4:20). A Lógica, em sentido geral, é, como entendo haver demonstrado, apenas outra denominação da Semiótica, a quase necessária ou formal doutrina dos signos (PEIRCE, CP 2.227).

Segundo Santaella, a Semiótica está colocada bem no coração do conjunto da obra de Peirce. A Semiótica peirceana não é uma ciência teórica nem uma ciência aplicada, é uma ciência formal e abstrata, num nível de generalidade ímpar.12 À medida que harmonizava as Ciências Normativas, a concepção de Lógica de Peirce foi adquirindo contornos mais amplos, podendo-se distinguir para ela dois sentidos:

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M Muphey, (1993) The Development of Peirce's Philosophy. p. 3. Por outro lado Houser, na Introdução de The Essential Peirce, aponta outras divisões cronológicas da obra de Peirce, tais como a de Max Fisch e Deledalle, p.xxiii 11 C.S Peirce,(1972) Semiótica e Filosofia, p. 93, L. Santaella, (1992) op. cit. p.49 e B. Serson (1996) Introdução à Semiótica de C. S. Peirce, p. 17-18. 12 L. Santaella (1992) "Signos de Todas as Coisas", op. cit. p.43-57. 18

No sentido mais estreito, é a ciência das condições necessárias para se atingir a verdade. No sentido mais amplo, é a ciência das leis necessárias do pensamento, ou melhor (o pensamento sempre ocorrendo por meio de signos), é Semiótica geral que trata não apenas da verdade, mas também das condições gerais dos signos... também das leis de evolução do pensamento, que coincide com o estudo das condições necessárias para a transmissão de significado de uma mente a outra, e de um estado mental a outro (PEIRCE, CP 1.444).

Na última década de sua vida, Peirce estava trabalhando num livro que se chamaria “Um sistema de Lógica, considerada como Semiótica”.13

2. O lugar da Semiótica na filosofia peirceana.

Embora Peirce considerasse toda e qualquer produção, realização e expressão humana como sendo uma questão semiótica, a Semiótica é apenas uma parte do seu conjunto filosófico, que, por sua vez, é também parte de um sistema ainda maior, “um gigantesco corpo teórico”, o que pode ser percebido através da análise de seu diagrama de classificação das ciências.

Antes de iniciar a análise do diagrama das ciências, é interessante ressaltar que a concepção de ciência de Peirce é bastante diferente dos seus contemporâneos.

A concepção de ciência de Peirce tem grande abertura, permitindo as liberdades de criação e descoberta, e “não há nada mais deliberada e naturalmente liberal do que a concepção peirceana das ciências” (SANTAELLA, 1992:29). “Distender o arco na direção da verdade, com atenção no olhar, com energia no braço” (PEIRCE. CP 1.235)

Para Peirce, a finalidade da ciência seria aprender a lição que o universo tem a ensinar. Ciência, portanto, não se confunde com conhecimento acumulado.

Cientista, para Peirce, será aquele movido pela sede da verdade. (CP 7.609) A ciência é “um modo de vida”, a vida dedicada à busca do conhecimento e devoção à verdade, não a

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L .Santaella (1985) op. cit. p.26 19

verdade como cada um a vê, mas a devoção à verdade que não se é ainda capaz de ver, mas se está lutando para obter. 14

Não é o conhecimento, mas o amor ao conhecimento que caracteriza o cientista. (CP
1.44) Espírito científico é aquele que aprende com a experiência. Os “genuínos homens da

ciência“ são aqueles movidos pelo desejo efetivo e sincero de aprender.

A vida da ciência consiste no desejo de aprender. Se este desejo não é puro, mas está misturado com o desejo de provar a verdade de uma opinião definitiva ou de um modo geral de conceber as coisas, ele vai inevitavelmente levar à adoção de um método errôneo (...) (PEIRCE, CP 1.235).15

Peirce desenvolveu um diagrama das ciências, no qual divide as ciências em ciências da descoberta, ciências da digestão e ciências aplicadas (CP 1.180 e CP 1.203-83).

As ciências da descoberta, das quais a Semiótica faz parte, serão privilegiadas neste trabalho. Elas se dividem em três grandes classes:

1. Matemática, 2. Filosofia e, 3. Ciências Especiais.

Segundo este diagrama, quanto mais abstrata for a ciência, mais ela será capaz de fornecer princípios para as menos abstratas. “É por isso que o diagrama da classificação é um esquema similar a uma escada de degraus, onde cada degrau é, ele mesmo uma escada de degraus” (SANTAELLA, 1992: 120).

A classificação das ciências de Peirce não é um esquema linear, mas uma série de escadas relacionadas numa forma tri-dimensional, de forma a exibir as relações de dependência entre as ciências. É baseada na lógica dos relativos e na forma diagramática de pensamento, mostrando os efeitos concebíveis de uma ciência, ou em outras palavras. seu

14 15

C. Eisele (1987) Historical Perspectives on Peirce's Logic of Science p. 804 e L.Santaella, (1992) op.cit. p.108. Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “The life of science is in the desire to learn. If this desire is not pure, but is mingled with a desire to prove the truth of a definite opinion, or of a general mode of conceiving of things, it will almost inevitably lead to the adoption of a faulty method (...)” (CP 1.235) 20

significado pragmático, que segundo Peirce seria uma das formas mais completas de se entender uma ciência. 16

Sendo as ciências interdependentes, este diagrama mostra os princípios de sua interdependência. A classificação das ciências de Peirce, segundo Santaella (1992:28), explicita as relações de interdependência de uma ciência para com as outras, indicando os escalonamentos em níveis de abstração através dos quais as ciências mais abstratas funcionam como fundamentação para as menos abstratas, na medida em que é das mais abstratas que as mais concretas tomam emprestados seus princípios, ao mesmo tempo em que é com dados fornecidos pelas ciências menos abstratas que as ciências mais gerais se abastecem.

A classificação das Ciências não é um sistema fixo e rígido porque está sempre em evolução. Sua imagem é de um continuum tridimensional, onde pontos poderiam ser acrescentados ou tirados em qualquer localização.17

Peirce reconhecia que as ciências não podiam ser rigidamente definidas; suas linhas de demarcação não tinham grande importância, de forma que novas ciências pudessem emergir, ou aquelas que se tornassem obsoletas poderiam ser retiradas do diagrama. O importante é que a classificação deveria ser capaz de incorporar estas mudanças.

Fundamental para Peirce era a ordenação das ciências com relação às categorias. Existe dentro de sua classificação uma lógica ternária e os números 1,2,3 indicam não somente a ordem, mas são indicadores de um conteúdo lógico-relacional, de tal forma que, onde o número 1 estiver, há relação com a primeira categoria, a Primeiridade, que é a categoria da qualidade, sentimento, acaso, indeterminação. O número 2 indica relação com a segunda categoria, a Segundidade, que é a categoria do existente, da ação, do aqui e agora, da dualidade. O número 3 está relacionado com a terceira categoria, a Terceiridade, que é a categoria da continuidade, da lei, da generalidade, do crescimento e da evolução.

Para Peirce, todas as ciências são observacionais, a diferença entre elas reside no modo de observação empregado em cada uma delas. 18
16 17

B. Kent (1987) op. cit. p. 47,139, 141-139 Ver B.Kent, (1987) op.cit. p.145 e L. Santaella, (1992) op.cit.p.118-121. 21

No diagrama peirceano, a Matemática é a ciência mais genérica e abstrata e não depende de nenhuma outra ciência (CP 1.53). No entanto todas as outras ciências dependem da Matemática, seja implícita ou explicitamente, já que os problemas matemáticos aparecem em todas as ciências e na vida quotidiana, pois sempre temos que estabelecer conseqüências de estados gerais de coisas. Conseqüentemente, todas as ciências têm um conteúdo matemático, ou algum ramo para o qual a Matemática é chamada.19

A Matemática é a grande ciência do geral, da generalidade. A Matemática constrói relações possíveis dentro de uma sintaxe, com a qual é coerente sem se preocupar com a realidade. As estruturas matemáticas não necessitam ter aplicação. Para Peirce, as verdades matemáticas são verdades necessárias, isto é, a Matemática chega a conclusões derivadas necessariamente de suas premissas. (CP 1.633)

A Matemática é uma ciência que constrói seus objetos na forma de hipóteses, e delas extrai conseqüências necessárias, sem lidar, contudo, com questões de fato. (CP 4.232)20 Embora a necessidade teórica esteja relacionada às conclusões matemáticas, isto não significa infalibilidade.

Certamente, acredito que a certeza da Matemática pura e de todo raciocínio necessário se deve à circunstância de que ela se relaciona com objetos que são as criações de nossos próprios espíritos... (PEIRCE, CP 5.166).

Ao mesmo tempo a Matemática requer “certo vigor do pensamento, o poder de concentração da atenção de forma a manter na mente uma imagem altamente complexa.” (CP 2.81) No texto "Reason's Conscience"21, Peirce explica que o matemático não se fia em nada, ele simplesmente estabelece o que é evidente e mostra as circunstâncias que tornam isto evidente.

18 19

C.Eisele (1985) "Laws of Nature" op.cit. p.851. idem p.881. 20 ver I. Ibri (1992).Kosmos Noetós: Arquitetura Metafísica de Charles S. Peirce. p 3 e S. Rosenthal, (1994) Charles Peirce's Pragmatic Pluralism, p. 21-25 21 C.Eisele, (1985) Op. cit. p. 845. Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: "The mathematician does not rely upon anything. He simply states what is evident, and notes the circunstances which make it evident." 22

A Matemática não é uma ciência positiva pois “constrói no seu interior as hipóteses com as quais opera, independente do universo dos fatos”. As teorias matemáticas são meras possibilidades. (CP 1.248) O falso e verdadeiro na Matemática tem a ver somente com suas próprias regras e não com o mundo. “As hipóteses da matemática pura são puramente ideais na intenção, e seu interesse é puramente intelectual” (PEIRCE, CP 5.126).

A Matemática não necessita suporte experimental para suas conclusões, que são baseadas em coisas hipotéticas. A Matemática parte “de uma hipótese, cuja verdade ou falsidade nada tem a ver com o raciocínio; e naturalmente, suas conclusões são igualmente ideais” (CP 2.145). Isto não significa, entretanto, que não dependa da observação (CP 3.427).

Em outra passagem do texto "Reason's Conscience", Peirce observa que o interesse do matemático se concentra na forma das conclusões necessárias e tudo aquilo que não está relacionado com as conclusões necessárias, inclusive as relações, é considerado pelo matemático como estranho à matemática. Somente algumas poucas relações entre os indivíduos do universo imaginário do matemático são consideradas, somente as que levam à conclusão necessária, sem o que não terão para ele nenhum interesse.22

A Matemática está engajada em descobertas. A descoberta ocorre através da observação de um diagrama geométrico ou uma disposição de símbolos algébricos, representando os elementos formais do universo descrito na medida em que há regularidades.
23

A Tarefa do

matemático é a de moldar uma hipótese arbitrária e a partir dela deduzir as conseqüências necessárias através do raciocínio diagramático. (CP 1.443) A natureza diagramática do raciocínio matemático foi descrita por Peirce como a sua primeira descoberta real a respeito de procedimentos matemáticos24.(CP 2.778)
A primeira coisa que descobri foi que todo raciocínio matemático é diagramático e que todo raciocínio necessário é matemático, não importa quão simples ele possa ser. Por raciocínio diagramático, quero significar raciocínio que constrói um diagrama de acordo com um preceito expresso em
22

idem p. 849, Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte:: “Now the mathematician's whole interest is in the forms of necessary conclusions; and whatever does not concern them is regarded by him as foreing to mathematics, it is the same in regard to relations. Only a few relations between the individuals of his imaginary universe are noticed at all by the mathematician , and as to those few, what he cares for is the presence (or absence) of an unbroken rule as to the identity of objects in different sets of objects between which the relation subsists. If there is no such rule, which might serve as the means of drawing some necessary conclusion, he will regard the relation as having no mathematical interest.” 23 B.Kent (1987) op. cit. p. 147 e Santaella (1992) op. cit. p. 119. 24 NEM 4.49 Ver S. Rosenthal, (1994) op.cit. p. 23/24 23

termos gerais, realiza experimentos sobre esse diagrama, nota seus resultados e os expressa em termos gerais. Esta foi uma descoberta de importância, mostrando tal como ela o faz, que todo conhecimento vem da observação. (NEM 4:47)25

Existe outro elemento importante da Matemática, no seu elemento dedutivo e necessário, pois é a ciência das conclusões exatas a partir de hipóteses. Suas demonstrações tem uma infalibilidade teórica, e quando submetidas à crítica matemática adequada, não podem ser geralmente postas em dúvida.

O procedimento do matemático é primeiro, afirmar sua hipótese em termos gerais; segundo, construir um diagrama, seja um arranjo de letras e símbolos com o qual "regras" convencionais ou permissões de transformação estejam associadas, seja uma figura geométrica, a qual não apenas lhe dá segurança contra confusões em relação a todo e alguns, mas também coloca um ícone diante dele de cuja observação será detectadas relações entre as partes do diagrama diferentes daquelas que foram usadas na sua construção. Esta observação é o terceiro passo. O quarto passo reside em assegurar a si próprio que a relação observada seria encontrada em toda representação icônica da hipótese. O quinto e último passo está na afirmação do assunto em termos gerais. (PEIRCE, NEM 3:749)

No entanto, como uma ciência heurística, as descobertas da matemática ocorrem através da observação de diagramas. Para desenvolver e descobrir relações, os matemáticos utilizam as regras gerais de seus postulados. Sendo puramente hipotética, todo o seu raciocínio é dedutivo e definitivo, pois cada etapa do raciocínio matemático consiste na aplicação de uma regra, daí suas conclusões serem uniformemente universais, isto é, quando estabelecidas de forma abstrata e generalizada, devem ser aplicáveis a quaisquer diagramas construídos de acordo com os mesmos preceitos. (CP 5.147-148). 26

Dentro do diagrama das ciências de Peirce, a ciência que ocupa o segundo lugar é a Filosofia.

A segunda classe é a Filosofia, que lida com verdades positivas, pois de fato, satisfaz-se com observações tais como as que são pertinentes à experiência normal e diária de todo homem, e nas mais das vezes, em toda hora consciente de sua vida (PEIRCE, CP 1.241)

A Filosofia tem apenas a Matemática como ciência mais abstrata. Dela retira seus princípios. Enquanto a Matemática estuda aquilo que é logicamente possível, a Filosofia como
25

L.Santaella (1993 b) op.cit. p. 140. 24

ciência tem como função descobrir “o que é realmente verdadeiro, limitando-se, porém, à verdade que pode ser inferida da experiência comum que está aberta a todo ser humano a qualquer tempo e hora” (SANTAELLA, 1994:113).

A Filosofia peirceana é uma filosofia científica, que também deve empregar métodos de observação, hipótese e experimento como qualquer outra ciência. A Filosofia tem um caráter observacional porque visa examinar e compreender tudo o que se oferece à nossa experiência.27

Já expliquei que, por Filosofia, entendo aquele departamento da Ciência Positiva, ou Ciência do Fato, que não se ocupa em reunir fatos, mas simplesmente com aprender o que pode ser aprendido com essa experiência que nos acossa a cada um de nós diariamente e a todo o momento. (PEIRCE, CP 5.120)

Para Peirce, as questões relativas às leis da natureza ou à classe geral de regularidades da natureza também são questões filosóficas. Por outro lado, fica difícil trazer nossa atenção para aqueles elementos continuamente presentes na nossa experiência, podemos apenas contrastá-las com estados imaginários de coisas, o que torna a observação filosófica bastante difícil.28 A Filosofia tem três grandes divisões:

1. Fenomenologia 2. Ciências Normativas 3. Metafísica.

A Fenomenologia tem por função fornecer o fundamento observacional para as outras disciplinas.29

A Fenomenologia trata das Qualidades universais dos Fenômenos em seu caráter fenomenal imediato, neles mesmos como fenômenos. Destarte trata dos Fenômenos em sua Primeiridade. (PEIRCE, CP 5.122)

Para melhor entender a idéia peirceana de Fenomenologia, seria necessário esclarecer o que Peirce entendia por fenômeno (“faneron”). (CP 1.280-7 e CP 1.186) Para Peirce fenômeno é
26 27

Ver B. Kent (1987) op. cit. p. 142, I. Ibri (1992) op.cit. p.2/3 e L. Santaella (1992) op.cit. p 118. B .Kent (1987) Op.cit. p. 145. 28 C. Eisele (1985) op.cit. p. 885. 25

tudo o que está diante de nossa mente, pode ser um sonho, uma sensação, pode ser uma presença física ou pensamento, não se restringindo a algo "que se pode sentir, perceber, inferir, lembrar, ou a algo que podemos localizar na ordem-espaço temporal que o senso comum nos faz identificar como sendo o „mundo real‟.” (SANTAELLA, 1995:16)

A Fenomenologia não é uma ciência da realidade, nada diz sobre o que é, nem sobre o que deve ser; apenas constata e classifica os fenômenos, ficando restrita às suas aparências. Peirce sempre enfatizou que a Fenomenologia necessita utilizar o raciocínio dedutivo da Matemática, embora ela não faça nenhuma tentativa de determinar se o que está investigando corresponde a algo real. (CP 1.284).

Para Peirce, a observação fenomenológica não requer habilidades especiais (CP 5.41), ela requer em primeiro lugar apenas uma “capacidade de ver o que está diante dos olhos, tal como se apresenta sem qualquer interpretação”, em segundo lugar dar atenção aos aspectos de incidência notável e, finalmente ter capacidade de generalizar, ou seja, torná-lo geral e pertinente a todo fenômeno. Resumindo: “ver, atentar para, generalizar”. A simplicidade destas idéias caracteriza um dos traços mais importantes da filosofia peirceana: “o cotidiano, o imediatamente experienciável, o senso comum.” (IBRI, 1992: 6)

A Fenomenologia constitui a base fundamental de toda a filosofia peirceana. Para Peirce, a primeira instância de um trabalho filosófico é a fenomenologia, sendo a criação das categorias, uma das funções do filósofo.

A Fenomenologia ou doutrina das categorias tem por função desenredar a emaranhada meada daquilo que, em qualquer sentido, aparece, ou seja, fazer a análise de todas as experiências é a primeira tarefa a que a filosofia tem de se submeter. Ela é a mais difícil de suas tarefas, exigindo poderes muito peculiares de pensamento e habilidade de agarrar nuvens, vastas e intangíveis, organizá-las em disposição ordenada, recolocá-las em processo. (PEIRCE, CP 1.288).

Assim, a Fenomenologia, como base fundamental para qualquer ciência, observa os fenômenos, analisa-os e postula as formas ou propriedades universais desses fenômenos. É através da Fenomenologia que se chega às categorias peirceanas: a Primeiridade, Segundidade

29

B. Kent (1987) op. cit. p. 146/148 , L. Santaella, (1985) op.cit. p.43, L. Santaella, (1992) op.cit. p. 131. 26

e Terceiridade. (CP 5.43, CP 1.357). Os fenômenos aparecem primeiro como liberdade, em segundo como alteridade e, em terceiro, como ordem.

Insatisfeito com as categorias aristotélicas e as kantianas, que considerava não formais e universais, Peirce dedicou grande parte de sua existência à elaboração, aperfeiçoamento e ampliação das suas categorias universais. Depois de muitos anos de estudo Peirce chegou à conclusão de que só há três e não mais do que três categorias, que são pontos para os quais todos os fenômenos tendem a convergir: Primeiridade, Segundidade e Terceiridade ou Acaso, Existência, Lei.

As categorias correspondem aos três modos de ser e aparecer. A Primeiridade é um modo de qualidade, que na interioridade corresponde à unidade e na exterioridade à diversidade. A Segundidade corresponde ao modo de reação, que na interioridade corresponde aos fatos do passado e na exterioridade ao não-eu. A Terceiridade corresponde ao modo de ordem, que na interioridade se refere à permanência e na exterioridade à regularidade.30

Algo considerado em si mesmo é uma unidade. Algo considerado como um correlato ou dependente ou como um efeito, é segundo em relação a alguma outra coisa. Algo que, de algum modo, traz alguma coisa; para uma relação com outra é um terceiro ou meio entre as duas. (PEIRCE, MS 1660).31

A Primeiridade (CP 1.300-316) está ligada às idéias de acaso, indeterminação, frescor, originalidade, espontaneidade, potencialidade, qualidade, presentidade, imediaticidade, mônada.

A Segundidade (CP 1.317-336) está ligada às idéias de força bruta, dualidade, ação e reação, conflito, aqui e agora, esforço e resistência, díada.

A Terceiridade (CP 1.337-349) está ligada às idéias de generalidade, continuidade, crescimento, representação, mediação, tríada. É justamente a terceira categoria que vai corresponder à definição de signo genuíno como um processo relacional entre três termos

30 31

I. Ibri, (1996 b) “Introdução à Filosofia Kósmos e Psyché”, curso ministrado no espaço Solaris, anotações em aula. Traduzido por L. Santaella, (1993b) A Percepção - uma teoria semiótica, p. 36. Ver N.Houser (1992) "Trichotomic" in The Essential Peirce, p. 280. 27

(signo, objeto, interpretante), sendo próprio da ação do signo gerar ou produzir outro signo, processo este que Peirce definiu como semiose.32 A segunda divisão da Filosofia se refere às Ciências Normativas, que investigam “as leis universais e necessárias da relação com os Fenômenos com os Fins, ou seja, talvez, com a Verdade, o Direito e a Beleza” (CP 5.121).

As Ciências Normativas são assim chamadas porque tem como função compreender os fins, normas e ideais que regem o sentimento, a conduta e o pensamento humanos. As Ciências Normativas tratam das leis da relação dos fenômenos com os fins, isto é, tratam dos fenômenos em sua segundidade. (CP 5.123) A tarefa das Ciências Normativas é descobrir como Sentimento, Conduta e Pensamento devem ser controlados, supondo-se que estejam sujeitos “numa certa medida”, e apenas em certa medida, ao autocontrole, “exercido por meio da autocrítica e a formação propositada de hábitos, tal como o senso-comum nos diz que eles, até certo ponto, são controláveis” (MS 655:24) 33.

As Ciências Normativas não estudam os fenômenos como aparecem, porque esta é a função da Fenomenologia, mas sim em que medida eles agem sobre os homens e os homens sobre eles. “Normativo é, assim, o estudo do que deve ser; o que exclui de seu campo tanto a compulsão incontrolada, quanto o determinismo rígido.” (SANTAELLA, 1994:120).

As Ciências Normativas são constituídas por proposições provisórias e não por crenças ou modos de ação. (CP 1.635). É a ciência que estuda o que deveria (CP 1.281) e não o que precisa ser. (CP 2.156)

Para Peirce, as Ciências Normativas teriam como tarefa o exame de leis de conformidade das coisas aos fins, estudando o que deve ser, estudam os ideais, sendo, portanto puramente teóricas e positivas. As Ciências Normativas tratam dos fenômenos em sua Segundidade. “Uma Ciência Normativa é aquela que estuda o que deve ser.“ (SANTAELLA, 1994:120). A Ciência Normativa não é uma prática, nem uma investigação conduzida com vistas à produção de uma prática. (PEIRCE, CP 5.125)
32 33

As idéias peirceanas sobre signo serão retomadas posteriormente no item 4. Apud L.Santaella, (1992) Op.cit. p.126. 28

Segundo Peirce, as Ciências Normativas tem três características (CP 5.126):

1. a primeira se refere a que as hipóteses, das quais procedem as deduções da ciência normativa, obedecem ao “intuito de conformar-se” à verdade positiva do fato; 2. a segunda é que o raciocínio das Ciências Normativas não é puramente dedutivo como o das matemáticas. Suas “análises peculiares dos fenômenos”, análises que se deveriam pautar pelos fatos da fenomenologia de um modo pelo qual a Matemática não se pauta, separam as Ciências Normativas da Matemática de forma bastante radical; e 3. a terceira é de que existe nas Ciências Normativa um elemento íntimo e essencial que são suas apreciações peculiares, relacionadas à conformidade dos fenômenos com fins que não são imanentes nesses fenômenos.

As Ciências Normativas se dividem em: 1. Estética 2. Ética 3. Lógica ou Semiótica. (CP1. 191):
A Estética considera aquelas coisas cujos fins devem incorporar qualidades do sentir, enquanto que a Ética considera aquelas coisas cujos fins residem na ação e a Lógica, aquelas coisas cujo fim é o de representar alguma coisa. (PEIRCE, CP 5.129).

As inter-relações entre a Estética, que é a ciência do que é admirável em si, sem qualquer razão ulterior, a Ética, que é a ciência da conduta auto-controlada e deliberada e a Lógica, como a ciência do pensamento auto-controlado deliberado (CP 1.191) serão aprofundadas no item 3.

Por fim, como última divisão da Filosofia vem a Metafísica, que depende da Semiótica ou Lógica. A Metafísica é a ciência da realidade. Para Peirce, real34 é aquilo que existe independentemente do que pensamos a seu respeito (CP 5.405), pois “vivemos num mundo de forças que atuam sobre nós, sendo essas forças, e não as transformações lógicas do nosso próprio pensamento, que determinam em que devemos por fim acreditar”. (PEIRCE, apud

29

SANTAELLA, 1985:39) O real é aquilo que não é o que eventualmente dele pensamos, mas que permanece não afetado pelo que possamos dele pensar (PEIRCE, CP 8.12). Essa definição deixa clara porque a Metafísica comparece como resultante e não como antecedente de toda a sua filosofia peirceana. A Metafísica peirceana se fundamenta na conduta humana diante do mundo, nos “tipos de fenômenos com os quais a experiência do homem está tão saturada que ele, usualmente, não lhes dá atenção particular” (CP 6.2)35 .

A Metafísica consiste no resultado da aceitação absoluta dos princípios lógicos, não meramente como regulativamente válidos, mas como verdades do ser (PEIRCE, CP 1.487).

A Metafísica relaciona-se com a categoria da Terceiridade pelo seu caráter generalizador
(CP 1.501). Mas ao se afirmar que a Metafísica trata as coisas como elas são, deve-se ter em

mente que tais afirmações tenham passado antes pela Lógica para a constatação de que sejam verdadeiras (CP 1.550, 2.37, 3.454). Finalmente, a terceira grande classe das ciências são as ciências especiais.36 Enquanto as observações da Filosofia se voltam para os fenômenos que são comuns, familiares a todos, as ciências especiais descobrem novos fenômenos.

Já as ciências especiais, que cobrem todas as ciências específicas existentes e por existir, através de treinamento especial, instrumentos especiais, ou circunstâncias especiais, investigam eventos particulares passíveis de experiência e inferem a verdade que é usualmente apenas plausível, mas não obstante passível de teste (SANTAELLA, 1992:141).

Para Peirce, nas ciências especiais os fatos são confrontados com as teorias, porque é objeto destas ciências conectar os fenômenos especiais que elas descobrem com as experiências gerais derivadas de outras fontes (CP 8.113)37.

34

Há diversas passagens que tratam da noção de real: CP 1.578, 3,161, 5.405, 5.408, 5.503, 6.495, 7.339, 8.12. A este respeito ver J. Smith, (1983), "Community and Reality", The Relevance of Charles Peirce, p.39/41 e S.Rosenthal (1994) op. cit. 2/3. 35 I. Ibri (1992) op.cit. p.24; B. Kent (1985) op.cit. p.181/184. 36 B. Kent (1985) op.cit. p.184/191. 37 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte:"In the special sciences facts are set over against theories, because it is the business of those sciences to connect the special phenomena which they discover with the general experience they derive from other sources." (Peirce, CP.8.113) 30

As Ciências Especiais apelam para a Lógica, como também nas questões mais gerais e abstratas requerem as concepções da Metafísica. Para Peirce, aqueles que negligenciam a filosofia também fazem uso de teorias metafísicas tanto quanto os outros, só que “rudes, falsas e mundanas”. Há aqueles que acham que escapam dos erros metafísicos se não derem atenção à metafísica, mas desde que todas as pessoas devem ter concepções das coisas em geral, é muito importante que estas sejam cuidadosamente examinadas (CP 7.579). Também a Matemática é grande fonte de princípios para as Ciências Especiais, mesmo que não dependam diretamente da Matemática, dela recebem princípios no que se refere a rigor científico.38

Peirce dividiu as Ciências Especiais em físicas (em cujas bases estão ações dinâmicas) e psíquicas (em cujas bases estão ações signicas). As ciências físicas se “caracterizam como as ciências das coisas como tal” incluem a Física, Astronomia, Química, Biologia, Geologia, etc. As ciências psíquicas são “as ciências das coisas governadas pelo intelecto. O termo psíquico não deve ser, portanto, tomado num sentido restrito, mas como sinônimo de vida inteligente” (SANTAELLA, 1992:142). As ciências psíquicas englobam a Psicologia, Psicanálise, Lingüistica, História, Crítica da Arte, Literatura, etc. Mas esta divisão das ciências especiais não se baseou somente nas diferenças entre seus objetos, porque Peirce acreditava que a natureza do objeto está sempre em mutação. Estas diferenças se baseiam nas orientações básicas que o cientista adota, correspondendo a tipos intelectuais de cientistas muito distintos: “se a orientação dirige-se primariamente para a causação eficiente, então a ciência é física, se ela está direcionada para a causação final, então é psíquica” (SANTAELLA, 1992:145). Isso não impede que conceitos semióticos sejam usados nas ciências físicas, assim como há conceitos físicos que são usados nas ciências psíquicas. As ciências especiais lidam com fenômenos particulares. Enquanto as ciências físicas estudam o universo material e os fenômenos tal como eles ocorrem, as psíquicas investigam os processos e produtos de mentes humanas e outras inteligências.

38

idem p.185. 31

Embora sua tarefa seja descobrir fenômenos previamente desconhecidos, as ciências especiais "lidam com o existente, tanto no seu nível dinâmico (Segundidade), quanto no seu nível de generalidade ou tendencialidade (Terceiridade” (SANTAELLA, 1992:148).

3. O inter-relacionamento das Ciências Normativas: a Estética, a Ética e a Lógica ou Semiótica.39
Este item pretende analisar resumidamente os principais pontos que levam ao entendimento das inter-relações das Ciências Normativas. Como é que se inter-relacionam a Estética, Ética e a Lógica?40 Como é que a condição do bem ético condiciona por sua vez o bem lógico e como é que o bem estético condiciona o bem ético?

Nas considerações de Peirce sobre as Ciências Normativas estão inter-relacionados o seu pragmatismo, as suas categorias e sua teoria da evolução cósmica. Em suma, Peirce retoma de um lado o tema platônico o Belo, o Bom e o Verdadeiro e de outro, o tema das três Críticas de Kant. Para o desenvolvimento deste capítulo podem-se destacar três textos de Peirce: “Os três Tipos de Bem”(CP 5.120-150), “O que é Pragmatismo?”(CP 5.411-437)41, e “Ideais da Conduta”.(CP 1.591-615). No texto “Os Três Tipos de Bem”, Peirce ao colocar os problemas da Estética, da Ética e da Lógica, aponta para alguns vetores da interdependência entre Verdade, Virtude e Beleza, isto é, as razões pelas quais o Belo se torna admirável. No texto “O que é Pragmatismo?”, Peirce explica como a Lógica depende da Ética, isto é, como o significado de um conceito tem influência sobre a conduta. A Ética como ciência geral da conduta está sob a Segundidade na sua dualidade entre conduta e fins da conduta. Mas é a conduta que revela a conseqüência prática do conceito. Este texto mostra como é que
39

Este capítulo é muito importante dentro do contexto do trabalho. o inter-relacionamento entre a Estética, Ética e Lógica ou Semiótica vai ser retomado posteriormente nas Conclusões. 40 Ver B. Kent (1985) op.cit. 149/174. 41 Os textos "Os Três Tipos de Bem" e "O que é Pragmatismo" foram publicados em C.S. Peirce, (1990) op.cit. p 197-209 e 283-299 respectivamente. "Ideais da conduta" foi publicado em Trans/Form/Ação, (1985), n.8, 79-95. 32

se dá a ação, que é Segundidade como reflexo do plano de conduta, a relação entre o autocontrole da lei, o autocontrole lógico e o autocontrole ético ou autocontrole da conduta. “Ideais da Conduta” mostra como o Belo da Primeiridade pode estar contido no interior da inteligência, porque o Belo admirável implica juízo e emana de um sistema, envolvendo uma forma de propósito. Este texto mostra a Ética, como o vínculo entre a Estética e a Lógica.

Inicialmente é necessário entender a verdadeira natureza das Ciências Normativas, evitando concepções errôneas, como alerta Peirce. Segundo ele, o principal, senão o único problema da Ciência Normativa é dizer aquilo que é bom e aquilo que é mau, logicamente, eticamente e esteticamente; ou seja, qual grau de excelência atinge uma dada descrição dos fenômenos (CP 5.127).

A Estética peirceana é uma ciência, enquanto que o Belo é um traço real do mundo. Numa visão mais estreita o Belo, ou a Estética seriam concebidos como sendo exclusivamente relativo ao gosto humano, mas Estética não pode ser confundida com teoria da arte. Peirce faz uma clara distinção entre sensibilidade artística, apreciação estética e estudo científico do Belo.

Portanto, faz sentido buscarmos a caracterização do que seja verdade estética como o limite de uma investigação indefinidamente controlada. Por outro lado, a Ética também não pode se confundir com a moral, com o certo e errado, como também não se pode dizer que a Lógica lidaria apenas com o raciocínio humano. Para Peirce o conceito de “mind” não é predicado exclusivo do ser humano. Pensamento existe na natureza, pensamento também existe nos processos naturais, que são processos intencionalizados, que almejam determinados fins. Este conceito de "mind" como pensamento, como razoabilidade implica sempre em generalização, implica a conduta do particular em função de um sistema, que contribui para um sistema geral, implica em crescimento em aperfeiçoamento, adaptabilidade, ou "amorosidade".

Peirce entendia a relação entre as Ciências Normativas num sentido amplo, bastante diferente do sentido cartesiano. Segundo Peirce, uma "estreiteza sutil" atravessa a concepção
33

de Ciência Normativa em quase toda a filosofia madura, relacionando-a exclusivamente com o espírito humano (CP 5.128).

Segundo Peirce, a inclusão da Estética entre as Ciências Normativas é um assunto que alguns lógicos se recusam a reconhecer (CP 5.129), confessando que suas idéias a este respeito estavam menos amadurecidas do que aquelas referentes à inclusão da Lógica como uma Ciência Normativa.

O próprio Peirce chegou a dizer em uma passagem que "era um perfeito ignorante em estética” (CP 5.111), e que não "se sentia autorizado a ter nenhuma opinião segura sobre ela" (CP5. 129), mas acreditava ter “certa capacidade para o prazer estético"(CP 5.133). Para Parret42, muitos estudiosos e comentadores de Peirce concentram o entendimento da Estética de Peirce em seu status entre as Ciências Normativas, ou na idéia de um julgamento estético e classificação dos fins. No entanto, Peirce quer que a Estética seja uma ciência exata ou empírica, guiada por uma motivação arquitetônica tricotômica (PARRET, 1992). Além disso, as idéias de Peirce sobre Estética nos mostram como podemos e devemos criticar "o clássico ideal grego do belo, a aproximação cognitivista radical do sentimento estético e uma concepção puramente representativa do signo estético". Parret (1992) também critica a visão do belo como kalos; ou seja, o fim último como harmonia e integração perfeita, o que Peirce enfatiza não é a perfeição harmônica, mas a ligação do Belo com o admirável, o alvo final do amor criativo, a evolução agaspática.43 Segundo Santaella (1994:13), muitos comentadores alegam que não há uma teoria estética na obra de Peirce. Isto seria um equívoco pois não apenas há uma teoria estética, como também essa teoria tem coerência e relevância para a discussão de questões que estão sendo debatidas contemporaneamente. Segundo a autora, a Estética passou a ocupar um lugar proeminente na arquitetura filosófica de Peirce, a tal ponto que, sem a compreensão aprofundada do papel fundamental por ela desempenhado como alicerce da Ética e, por extensão, da própria Lógica ou Semiótica, não é possível entender o pragmatismo peirceano.
42

H. Parret (1992), “Fragmentos peirceanos sobre a experiência estética”, Face-Revista de Semiótica e Comunicação, vol.3, n.2.,jul/dez, p.219 34

Calabrese em "Peirce's Aesthetics From a Structuralistist Point of View"44 faz uma análise das abordagens sobre a Estética peirceana, dividindo-as em duas tradições: a primeira relacionada com crítica de arte e a segunda com a idéia de experiência de beleza. Segundo Calabrese, há duas correntes: na primeira alguns comentadores tais como Smith (1972), Zeman (1974) e Deledalle (1979) começam suas análises a partir da classificação dos signos, e chegam à idéia do que é objetivamente admirável, acreditando na existência de um signo estético específico: o objetivamente admirável dependeria de certa propensão de certo fenômeno transformado em signo.

outra corrente como Hocutt (1962), considera o belo como kalos, tentando encontrar um esquema lógico para a experiência estética em Peirce a partir de quatro passos lógicos: 1) o objeto estético é um ícone, 2) o valor do objeto estético depende da harmonia de suas qualidades intrínsecas, 3) o intérprete ou leitor do signo responde a uma emoção ou sentimento e 4) quando a emoção ou sentimento é repetido é chamado de "sentimento de beleza".

O inter-relacionamento das Ciências Normativas pode ser visto ou, categorialmente ou, através da sua posição hierárquica na classificação das ciências ou, com referência à questão pragmática, mas é fundamental que esta análise seja inserida na cosmologia de Peirce.

Do ponto de vista categorial, Estética, Ética e Lógica são governadas pelas três categorias (CP 5.132). Assim a “Estética considera aquelas coisas cujos fins devem incorporar qualidades”, portanto está dentro da Primeiridade. A Ética “considera aquelas coisas cujos fins residem na ação”, portanto está sob a Segundidade e a Lógica considera “aquelas coisas cujo fim é o de representar alguma coisa”, portanto sob a Terceiridade. As três Ciências Normativas correspondem às três categorias, que no seu aspecto psicológico aparecem como Sentimento, Reação e Pensamento (CP 8.256).

43 44

Ver o texto peirceano "Evolutionary Love" publicado em Houser (1992), op. cit. p.353-371. O. Calabrese (1994) "Peirce's Aesthetics From a Structuralist Point of View" em Peirce and Value Theory, p.143 - 151. 35

Para Peirce, o que é esteticamente bom deve ser definido na categoria da Primeiridade: a qualidade de sentimento, totalidade, imediatidade, presentidade, ou seja, o bem estético não depende de nada, ele se justifica por si mesmo, é incondicionado.

Um objeto para ser esteticamente bom deve ter um caráter holístico, deve conter a idéia de unidade, deve ter “um sem número de partes de tal forma relacionadas umas com as outras de modo a dar qualidade positiva, simples e imediata, à totalidade dessas partes; e tudo aquilo que o fizer é, nesta medida, esteticamente bom, não importando qual possa ser a qualidade particular do total.” (CP 5.132) Dessa definição decorre que não existe melhor ou pior em estética, mas tudo o que pode haver são várias qualidades estéticas, isto é, “simples qualidades de totalidade incapazes de corporificação completa nas partes, qualidades estas que podem ser mais determinadas e fortes num caso do que no outro.” (CP 5.132).

A afinidade da Estética com a Primeiridade também poderia ser explicada pela idéia de que pessoas experienciam uma forma estética "simplesmente na sua apresentação" (CP 5.36) e Primeiridade é aquilo que "está presente para o olhar do artista." (CP 5.44). Em outra passagem, Peirce define a Estética como a teoria da formação de hábitos de sentimento. (CP
1.574).

Para Parret45, existe um "paradoxo de Primeiridade" em relação à Estética peirceana, porque ela é um primeiro quando enfatiza a qualidade, mas também é último enquanto ideal, e esta incompatibilidade só se resolve na Metafísica que explica que "o belo, ou aquele que é admirável na sua apresentação é degradado em sua dignidade própria, se não for reconhecido como sendo um caso especial do idealmente belo (fine) em geral". Segundo Calabrese46, a experiência estética peirceana é uma forma de raciocínio, pois o homem é pessoa e condição, e destes elementos de humanidade surgem três impulsos: o primeiro cria as leis, o segundo cria os casos, mas eles só podem conviver frente ao terceiro,

45 46

H.Parret (1992) op. cit, p.218. Idem p. 147. 36

que cria beleza. Assim, fica evidente que Peirce liga a experiência estética ao raciocínio, já que ela é claramente uma terceira atitude.

Passando agora para a análise categorial da Ética, esta como verdadeira ciência dos fins, está marcada pela Segundidade. De acordo com Peirce, seria passada para a Ética a tarefa de testar se o ideal estético pode ser estabelecido como o fim último para o qual toda atividade humana deveria ser dirigida. (CP 5.136)

Do mesmo modo que a Estética não está preocupada com o que é belo ou não é belo, mas com o que é admirável por si só, a Ética não se preocupa diretamente com o que é certo ou errado, mas sim com aquilo que deveria ser alvo do esforço humano. O bem ético, por estar sob a segunda categoria envolve uma dualidade entre o plano e o fim da conduta. A Lógica considera “aquelas coisas cujo fim é o de representar alguma coisa” (CP
5.130). A Lógica é a ciência dos signos (CP 1.204)

O âmago da Lógica reside na classificação e na crítica dos argumentos, que são três: abdução (hipótese), dedução (necessidade), indução (probabilidade). Nenhum argumento pode existir sem que “se estabeleça uma referência entre ele e alguma classe especial de argumento”.

O raciocínio é construído para um particular e generalizado para todos. O pensamento não se fixa na particularidade de um elemento, mas nas propriedades gerais que valem para todos. Assim, a “Lógica é coeva do raciocínio” e raciocínio, na medida em que depende do raciocínio necessário, leva à percepção da generalidade e da continuidade e como tal se encontra sob a Terceiridade (CP 5.128-130).

A lógica e as outras ciências normativas são ciências positivas - ainda que indaguem não só o que é, mas o que deveria ser - pois afirmando a verdade positiva e categórica são capazes de mostrar que o que consideram bom, realmente o é; e a razão certa, o esforço certo com os quais elas lidam derivam este caráter de fato categórico positivo (PEIRCE, CP 5.39)47

47

R. Bernstein (1990) “A sedução do Ideal”, Face-Revista de Semiótica e Comunicação, vol..3, n.2. jul/dez, p.195-206. 37

Por outro lado, de acordo com o diagrama da classificação das ciências a Estética, a Ética, e a Lógica mantêm uma relação hierárquica entre si: 1. Estética, 2. Ética e 3. Lógica.

A Lógica é dependente da Ética, que por sua vez é dependente da Estética. Esta dependência fica clara quando se entende que a Estética na concepção peirceana é aquela ciência preocupada com o que deveria ser o telos supremo da vida humana: “o estado de coisas que é admirável por si só, sem relação com qualquer razão ulterior”. (CP 1.611).

A Estética é a ciência geral do admirável. O admirável é uma meta, um ideal que “descobrimos porque nos sentimos atraídos por ele como tal”, é o “fim último em direção ao qual o esforço humano deve se dirigir”. Trata-se do ideal supremo para o qual nosso desejo, vontade e sentimentos devem se dirigir, não importando para onde ele conduz, o summum bonum, que não necessita justificativa ou explicação. 48

Mas quais são as condições desta meta última? Peirce responde que é a essência da razão em si, que nunca alcança completude total e deve estar sempre em "um estado de insipiência, de crescimento (...), a criação do universo que está em processo até hoje e que nunca terminará é o próprio desenvolvimento da Razão". (CP 1.615) Este “summum bonum” é absoluto, é aquele que seria perseguido em todas as circunstâncias possíveis (CP 5.134). O único mal seria não ter um fim último (CP 5.133). Peirce acrescenta que não pode existir um ideal mais satisfatório do que o desenvolvimento da razão, a razão sendo compreendida em sua totalidade, e o ideal da conduta seria tornar o mundo mais razoável.

Segundo Santaella (1994:109), a Estética de Peirce satisfaz as condições sonhadas por Schiller de amalgamar razão e sentimento, conciliando os rigores do pensamento às liberdades do espírito, integrando intelecto à ética e à estética.

38

A Ética está submissa à Estética, por isso o bem ético aparece como uma espécie particular de bem estético, ao mesmo tempo em que o bem lógico é uma espécie de bem ético.
A Ética, como ciência normativa não diz respeito aos princípios de justiça, e menos ainda, à justiça de qualquer lei específica; nem diz respeito aos valores de vários tipos de conduta, nem a questões especificamente morais... (SANTAELLA, 1992:125).

É a Ética que define o fim e, portanto, é impossível ser racionalmente lógico exceto em bases éticas (CP 2.199). A Ética deve apelar para a Estética para ajudá-la a determinar o summum bonum (CP 1.191). A Ética é mais do que simplesmente prática, porque ela envolve a teoria de conformidade da ação com o ideal, o summum bonum. A Ética é uma Ciência Normativa “par excellence”, porque um fim está ligado a um ato voluntário de uma forma primária (CP 5.130). A Ética pergunta para que fim todo esforço deve ser dirigido. (CP 2.199).

A Lógica ou Semiótica, que é a terceira divisão das Ciências Normativas, depende da Estética e da Ética. Segundo a concepção peirceana, a Lógica se ocupa do raciocínio como uma forma de atividade deliberada ou conduta, e tem com objetivo especificar e discriminar boas e más formas de raciocínio. “Raciocínio é necessariamente um ato voluntário sobre o qual podemos exercer controle.” (PEIRCE, CP, 2.144).

A Lógica segundo Peirce, não só estabelece regras que deveriam ser, mas também é a análise das condições de obtenção de algo que tem propósito como um ingrediente essencial. A Lógica é “o estudo dos meios de atingir a meta do pensamento e é a ética que define a meta” (CP 2.198) 49

A Lógica apela para a Ética para seus perceptos (CP 1.191). A conexão vital da Lógica e da Ética tem sido posta de lado pelos lógicos. Segundo Peirce, a fim de bem raciocinar “é absolutamente necessário possuir não apenas virtudes como as da honestidade intelectual, da sinceridade e um real amor pela verdade, o estudo da ética permite uma ajuda do todo indispensável para a compreensão da lógica” (CP 2.82).

48 49

CP 1.191, 1.573-575, 2.116, 5.566 e 6.290. Ver R. Bernstein (1990), op.cit. p. 190. 39

Peirce entende o pensamento como uma operação lógica, como uma relação que se opera por mediação, desenvolvimento ou processo. A dependência da Lógica sobre a Ética também pode ser expressa da seguinte maneira:
Pensamento é uma forma de ação e raciocínio é um tipo de ação deliberada; chamar um argumento de ilógico, ou uma proposição de falsa é um tipo específico de julgamento moral (PEIRCE, CP 5.130)

Por outro lado, a escolha entre duas condutas deve levar ao bem estético. Assim, o fim último da ação deliberadamente adotada, ou seja, razoavelmente adotada, “deve ser um ideal admirável”. A admirabilidade, portanto "é um estado de coisas que razoavelmente se recomenda a si mesmo em si mesmo, a parte de qualquer consideração ulterior” (CP 5.130).

O admirável em si é qualidade que é, ao mesmo tempo componente básico e efeito total. A apreciação da qualidade estética está acima do entendimento ou “a qualidade estética é a impressão total e inanalisável de uma razoabilidade que se tornou exposta numa criação. É puro Sentimento (feeling), mas um sentimento que é a Marca de uma Razoabilidade estética que é criativa.” (PARRET, 1990:221)50

O próprio Peirce confessa numa passagem que demorou a entender o interrelacionamento da Lógica, Ética e Estética:

Não foi senão depois disso que obtive a prova de que a lógica deve estar fundada na ética, da qual ela é um desenvolvimento mas elevado. Mas mesmo então, por algum tempo, fui tão imbecil a ponto de não ver que a ética, do mesmo modo, está fundada sobre a estética, pela qual, desnecessário mencionar, eu não quero significar leite e água e açúcar (PEIRCE, CP 8.225).

Mas o admirável que é um fim último, que é um fim que se auto-justifica e se recomenda a si mesmo, não pode estar no interesse do indivíduo, no particular. Ele aponta para uma transgressão do individualismo. Peirce propõe uma socialização do pensamento científico, considerando seu objeto um bem a ser compartilhado por toda inteligência em busca da verdade.51

50 51

H.Parret, (1992), op.cit., p. 217-228. L. Silveira (1997) "Subsídios para um retrato de Charles Sanders Peirce", em O sujeito entre a Língua e a Linguagem, p. 87-92. 40

O fim último não pode depender dos caminhos particulares que acidentalmente o agente percorreu. O fim último não depende de contingências. Esse fim último, capaz de ser perseguido no curso indefinidamente prolongado de uma ação, deve ser imutável, sem o que não seria um fim último. É necessário que esteja em concordância com o livre desenvolvimento da qualidade estética do próprio agente, ao mesmo tempo em que não tende a ser perturbado pelas reações sobre o agente proveniente do mundo exterior pressuposto na própria idéia de ação (CP 5.135-6).

O homem correto é o homem que controla suas paixões, e as faz conformar-se com os fins que ele está deliberadamente pré-preparado para adotar como fins últimos. Se fosse da natureza do homem sentir-se totalmente satisfeito com fazer de seu conforto pessoal seu objetivo último, não se poderia culpá-lo mais por isto do que se culpa um porco por comportar-se da maneira como o faz. (PEIRCE, CP 5.130)

Deste ponto de vista, aquilo que é moralmente bom surge como uma espécie particular daquilo que é esteticamente bom. Portanto para se conhecer aquilo no que consiste exatamente o bem lógico é necessário primeiramente analisar a natureza do bem moral e do bem estético. Daí, se esta linha de raciocínio estiver correta, decorre que:

[...] o bem moral será o bem estético especialmente determinado por um elemento peculiar que se lhe acrescentou; e o bem lógico será o bem moral especialmente determinado por um elemento especial que se lhe acrescentou (PEIRCE, CP 5.131).

Por outro lado, a questão do pragmatismo é fundamental no entendimento de como a Lógica se relaciona com a Ética. A essência do pragmatismo consiste exclusivamente em sua concebível influência sobre a conduta (CP 5.412).

É necessário entender, portanto, que todo objetivo que puder ser perseguido de modo consistente, coloca-se tão logo que seja adotado de uma forma decidida, além de toda crítica possível, pois “um objetivo que não puder ser perseguido e adotado de forma consistente é um mau objetivo e não pode ser chamado propriamente, de forma alguma, de fim último.” (CP
2.133).

Pois sendo as Ciências Normativas em geral a ciência das leis de conformidade das coisas com seus fins [...] é exatamente neste ponto que começamos a entrar no caminho que nos leva ao segredo do pragmatismo. (PEIRCE, CP 5.129-130)
41

Dessa forma, o problema da Ética será determinar qual fim é possível, e esta é uma questão fundamental para o pragmatismo, pois o agir é o modo como a interioridade do conceito se faz existência concreta.

Pois se o significado de um símbolo consiste em como, poderia levar-nos a agir, é evidente que este como não pode referir-se à descrição dos movimentos mecânicos que o símbolo poderia causar, mas deve ser entendido como referente a uma descrição da ação como tendo este ou aquele objetivo. A fim de compreender o pragmatismo, portanto, o bastante para submetê-lo a uma crítica inteligente, cabe-nos indagar o que pode ser um fim último, capaz de ser perseguido no curso indefinidamente prolongado de uma ação. (PEIRCE, CP 5.135)

A filosofia pragmática de Peirce desenvolveu-se, em grande parte, em oposição ao espírito cartesiano.52 Peirce rejeita a idéia cartesiana de que a filosofia deve começar com a dúvida universal, ou de um ego isolado como fonte principal de significado e verdade, isto é que, o último teste da certeza deve ser buscado na consciência individual. Peirce também rejeita a idéia de que a inferência depende sempre de premissas indubitáveis.

Filósofos das mais diversas facções propõem que a filosofia deve ter como ponto de partida um ou outro estado de espírito em que homem algum, e menos ainda um principiante em filosofia, realmente se encontra. Um deles propõe que comecemos por duvidar de tudo, e por dizer que só há uma coisa de que não podemos duvidar como se duvidar fosse tão fácil como mentir (PEIRCE, CP 5.416).

Peirce rejeita aquelas dúvidas que não são verdadeiras, “recusem-se os faz-de-conta”
(CP 5.416). Recusar os “faz-de-conta” significa recusar aquilo que contradiz nossas

verdadeiras crenças. A dúvida verdadeira é um estado muito desconfortável, com reflexos imediatos na conduta, porque as crenças é que determinam o modo como agimos, como nos conduzimos, e quem faz a análise desta conduta e de seus fins é a Ética

É da Ética que devemos partir, se a ação ou conduta é o fenômeno que aparece, porque não há como duvidar daquilo que de fato não duvidamos, porque não conseguimos, não há materialização da dúvida na conduta. (IBRI: 1996 a)

A crença não é um estado momentâneo, ela dura muito tempo e só é abalada pela experiência, “a crença é um hábito da mente” A crença não é um modo momentâneo da
52

O espírito anti-cartesiano de Peirce vai ser aprofundado no próximo capítulo. 42

consciência (CP 5.417). Daí resulta a noção de verdade, como um estado de crença inatacável pela dúvida, “a ação do pensamento é excitada pela incitação da dúvida e cessa com o atingir da crença; e, assim o chegar à crença é a função única do pensamento” (CP 5.394).

Há uma relação entre crença e verdade como um ponto para o qual tende uma crença indefinidamente. “Este conceito envolve uma idéia metafísica de evolução de crescimento de signo, de crescimento da Terceiridade, crescimento da Razão” (IBRI: 1996: a). Quando se diz que alguma coisa é verdadeira, significa que nela acreditamos, significa que nossas crenças são permanentemente reforçadas através de nossas experiências, isto é, não encontramos nenhuma experiência que invalide o que consideramos verdadeiro. É a conduta que mostra se houve mudança de crença ou não. O sentido da crença é o modo como a conduta se mostra.

O agir se faz segundo as crenças, o modo exterior de ser revela a estrutura do meu modo interior de crer. O sentido da crença é o modo como eu me manifesto e este modo exibe as conseqüências práticas do conceito. Toda crença é conceitual. (IBRI: 1996 a)

Para Peirce, as crenças são dotadas de três propriedades: em primeiro lugar, as crenças são algo de que estamos cientes; em segundo lugar aplacam a irritação da dúvida e, em terceiro lugar envolvem o surgimento, em nossa natureza, de uma regra de ação, ou digamos com brevidade, o surgimento de um hábito (CP 5.397).

Já a noção de dúvida real é totalmente contrária a de crença. A dúvida não é um hábito, mas uma privação de um hábito e tem uma condição errática que precisa ser superada por um hábito. Dúvida gera angústia, aflição, porque a Terceiridade foi quebrada, daí ser um estado desconfortável. “A dúvida não é uma questão de vontade, de volição, é uma questão de conduta” (IBRI, 1996a).

Como, entretanto, a crença é uma regra de ação, cuja aplicação envolve dúvida posterior e posterior reflexão, constitui-se, ao mesmo tempo, em ponto de escala e novo ponto de partida para o pensamento (PEIRCE, CP 5.397).

Se o conceito tem significado, estamos preparados para agir segundo ele, para interagir existencialmente, isto é, o conceito só tem significado se tiver efeito na conduta. Significado envolve alguma referência a propósito. "O que o hábito seja depende de quando e como ele nos leva a agir" (CP 5.400). O agir está ligado às conseqüências experienciáveis do conceito,
43

na medida em que sai da interioridade, da mera possibilidade. Assim, a diferença entre os dois conceitos se refere aos diferentes modos de como eles afetam a nossa conduta. 53

Assim, nosso agir tem referência exclusiva ao que afeta os sentidos, nosso hábito tem o mesmo alcance de nosso agir, nossa crença o mesmo de nosso hábito, nossa concepção, o mesmo de nossa crença [...] Meu único desejo é o acentuar a impossibilidade de abrigarmos uma idéia relacionada com alguma coisa que não sejam imagináveis efeitos sensíveis das coisas. Nossa idéia a respeito de algo é nossa idéia a respeito de seus efeitos sensíveis... (PEIRCE, CP 5.401).

Peirce se angustiava com a interpretação dada ao seu Pragmatismo. Pragmatismo não é utilitarismo e ação não é a meta da vida, porque dizer que vivemos simplesmente da ação como ação, não levando em consideração o pensamento que ela carrega, "seria dizer que não existe algo que se possa chamar de propósito racional" (CP 5.429). O fim último não é ação.

Pragmatismo só é ação na medida em que esta ação vincular outro pensamento mais aperfeiçoado, na medida em que a idéia leva a outra idéia, que tenha passado pela existência, envolvendo aprendizagem, veracidade, plausibilidade e verificação. (IBRI, 1996a)

O pragmatismo peirceano embute três idéias: a relação necessária entre interioridade e exterioridade, entre o geral e particular e entre o existente e não existente, e "se imaginarmos ser coisa diversa, estaremos incidindo em engano e tomando erradamente uma sensação que acompanha o pensamento como parte integrante do próprio pensamento” (CP 5.401). Não se pode fazer uma cisão entre o mundo teórico e o mundo prático, que é o mundo da conduta, da ação.54

[...] isto é, o teor racional de uma palavra ou outra expressão reside, exclusivamente, em sua concebível influência sobre a conduta da vida; de modo que, como obviamente nada que não pudesse resultar de um experimento pode exercer influência direta sobre a conduta, se se puder definir acuradamente todos os fenômenos experimentais concebíveis que a afirmação ou negação poderia implicar, ter-se-á uma definição completa do conceito e nele não há absolutamente nada mais. (PEIRCE, CP 5.412)

Esta definição de pragmatismo explica como é que a Lógica depende da Ética, na medida em que uma teoria só é verdadeira se mostra reflexos na conduta, e o plano da conduta

53

Para Santaella (1993:24), “o Pragmatismo é um teorema semiótico, porque a Semiótica é a ética do intelecto e a ética é a estética da ação.” 44

é o da existência, da Segundidade, da alteridade. Uma mera possibilidade, um primeiro que não se existencializa, não se faz segundo não tem significado possível, não tem realidade, não tem sentido.55

Ora, assim como a conduta controlada pela razão ética tende a fixação de certos hábitos de conduta, cuja natureza (para ilustrar o significado, hábitos pacatos e não irrascíveis) não depende de nenhuma circunstância acidental, e nesse sentido pode-se dizer que ela está destinada; do mesmo modo, o pensamento controlado por uma lógica experimental racional, tende à fixação de certas opiniões, igualmente destinadas, cuja natureza será a mesma ao final, por mais que a perversidade de pensamento de gerações inteiras possa provocar o adiamento da fixação última. (PEIRCE, CP 5.429)

O pragmatismo peirceano não pode ser entendido sem as três categorias, o fim é algo que dá sua sanção à ação, pertencendo, portanto à terceira categoria, a do pensamento, mas o pensamento envolve ação, assim a Terceiridade é um ingrediente fundamental da realidade. O ser concreto do pensamento (Terceiridade) é dado pela ação (Segundidade), do mesmo modo que a ação é governada pelo pensamento.

Essas três ciências normativas correspondem às minhas categorias [...] A verdadeira natureza do pragmatismo não pode ser entendida sem elas; o pragmatismo não toma a reação como sendo o tudo da coisa; mas considera o fim como ser-tudo e o fim é algo que dá a sua sanção à ação. É da terceira categoria. (PEIRCE, CP 8.256)

Segundidade é a categoria da efetividade, daquilo que se atualiza. Entre o que é possível (Primeiridade) e a mediação da Terceiridade, interpõe-se aquilo que é responsável pela realização concreta. Toda ação supõe fins, mas os fins sendo gerais estão no modo de ser do pensamento e esse fim, ou aquilo que é o bem supremo, consiste num processo de evolução.

Conseqüentemente, o pragmaticista não faz com que o summum bonum consista na ação, mas faz com que consista naquele processo de evolução pelo qual o existente chega cada vez mais a corporificar aqueles gerais a cujo respeito ainda há pouco se disse que estavam destinados, que é aquilo que tentamos exprimir ao chamá-los de razoáveis (PEIRCE, CP 5.433).

54

Para alguns comentadores tais como J.Stuhr (1994) "Rendering the World more Reasonable: The Practical Significance of Peirce's Normative Science", p. 3-16 e Krois, J.M "C.S.Peirce and Philosophical Ethics", p. 27-36, Peirce separa a prática da teoria. 55 I. Ibri, (1996) “Estética, Ética e Lógica - As relações entre as Ciências Normativas na Filosofia de C.S.Peirce, anotações em aula. 45

Por outro lado, quando uma pessoa afirma algo e se comporta de acordo com o que afirma, isto é admirável. É esta a relação do pragmatismo com a Estética.

Uma pessoa que estrutura uma determinada teoria cujas conseqüências práticas ela realmente vivência, isto é admirável. Quando se fala que uma pessoa é verdadeira significa que ela tem um modelo de conduta e segue aquele modelo. Na nossa vida, é difícil admitirmos distanciamento entre teoria e fato (IBRI, 1996 a).

Nós fazemos planos, prevemos nossa conduta, mas depois que ela se realiza fazemos uma autocrítica para verificar se a conduta está de acordo com nossos fins. Fazemos permanente esta auto-correção dos nossos projetos e das nossas previsões.

Entre as coisas de que o leitor, como pessoa racional que é não duvida, é que não apenas tem hábitos como também pode exercer certo autocontrole sobre suas ações futuras... (PEIRCE, CP 5.418)

O hábito só se constitui quando a pessoa passou por situações semelhantes onde exerceu o autocontrole, sendo assim essa reflexão subsequente é um preparo para a ação futura. “Ora, o pensamento é uma espécie de conduta que se acha em larga escala submetido ao autocontrole” (CP 5.419).

Peirce conclui que o autocontrole lógico é muito semelhante ao autocontrole ético. O modo como tomamos decisões, o nosso pensamento judicativo é submetido ao autocontrole, da mesma forma como controlamos nossa conduta. Um experimento pode ser uma operação do pensamento, com uma intencionalidade e uma racionalidade embutida. Isso remete à idéia da Terceiridade como um sistema ordenador, o autocontrole da Segundidade real.

O autocontrole consiste em primeiro comparar as ações passadas com padrões: segundo na deliberação racional que concerne a maneira como a pessoa vai agir, o que é em si mesmo uma operação complicada, e terceiro na formação de uma resolução, uma forte determinação ou na modificação de um hábito. Para a compreensão e resolução de nossos problemas é necessária reflexão e análise, significa ação judicativa. A conduta é fato. O modo como agimos é uma concreção dos nossos planos. O que legitima nossas crenças é a conduta. Toda crença influi na nossa maneira de nos
46

comportarmos. Portanto, a Ética como ciência da conduta legitima a Lógica. Também do ponto de vista categorial não há "lógica possível sem fato e não há lógica do fato sem o fato".

No entanto, a única conduta que está sujeita ao autocontrole é a conduta futura, e os resultados experimentais são os únicos resultados capazes de afetar a conduta humana, pois "um fenômeno experimental é o fato afirmado pela proposição de que a ação de certa descrição terá certa espécie de resultado experimental" (CP 5.427).

Só o fato muda a conduta, só a experiência pauta a conduta. Esta é a relação entre Segundidade e Terceiridade, entre pensamento e ação. Os propósitos aparecem no nosso modo de agir, isto é, nós agimos segundo determinados planos, segundo determinados propósitos. Não há Terceiridade sem Segundidade, não há idéia de lei sem efeito de continuidade.

[...] a posição de que a terceira categoria - a categoria do pensamento, representação, relação triádica, mediação, Terceiridade genuína, Terceiridade enquanto tal, é um ingrediente essencial da realidade, e, todavia por si mesma não constitui a realidade, uma vez que esta categoria (que naquela cosmologia surge como e elemento do hábito) não pode ter um ser concreto sem a ação, como um objeto separado sobre o qual operar seu controle, assim como a ação não pode existir sem o ser imediato do sentimento sobre o qual operar. (PEIRCE, CP 5.436)

Em "Ideais da Conduta", Peirce argumenta que todo homem tem certos ideais de conduta. Em primeiro lugar, certos tipos de conduta, quando o homem as contempla têm certa qualidade estética. Em segundo lugar, o homem se esforça por moldar seus ideais, consistentemente com cada outro, pois inconstância é odiosa para ele. Em terceiro lugar, ele imagina quais conseqüências acarretariam seus ideais, e se pergunta que qualidades estéticas estas conseqüências teriam (CP 1.591).

Segundo estes ideais, as pessoas são levadas a pretender que sua conduta se conforme, pelo menos a uma parte destes ideais, formulando então certas regras de conduta. Estas regras mobilizarão algumas forças levando a pessoa a considerar como agir. Esta resolução é da natureza de um plano. Um plano é um diagrama, é um esquema geral de ação, não para uma ocasião específica, mas para aquelas ocasiões em que aparecer um estado de coisas semelhante, embora toda pessoa que vive em contato com a realidade sabe que o futuro contém erraticidade.
47

Em contato com o real, a pessoa obtém o significado dos fatos e de suas próprias ações para corrigir sua conduta a cada instante face à alteridade, face ao erro. O futuro contém certa acidentalidade com a qual terá que programar sua conduta futura, já que não existe saber absoluto, e as previsões devem ser feitas por meio de alguma coisa verdadeira e real.

Há um elo entre elaborar um plano e efetivamente cumpri-lo, este elo se chama vontade, volição. Nem sempre fazer um plano significa que este plano será materializado na ação. A única forma de saber a eficácia do plano é através da ação, porque a ação é uma passagem necessária para correção, para o aperfeiçoamento. O mundo da existência virá fatalmente denunciar o erro. A ação é o modo particular do geral, é a Segundidade embutida na Terceiridade. Assim, o agir se transforma na concretude do pensamento, envolvendo volição. Uma ação gera conseqüências diante das quais, as pessoas estão sempre se perguntando se a conduta foi conforme a resolução, se a conduta concordou com as intenções gerais. A pessoa pode ir mais longe ainda indagando se a conduta concordou com os ideais, o que será seguido por um novo juízo acompanhado por sentimento, seguido por um reconhecimento do caráter aprazível ou doloroso deste sentimento. (CP 1.597) Por outro lado, o homem vai periodicamente rever seus ideais, pois a “experiência de vida está contribuindo com exemplos mais ou menos elucidativos, que são sumarizados primeiro, não na consciência do homem, mas nas profundezas de seu ser razoável. Os resultados vêm à consciência mais tarde”. (CP 1.599).

A idéia de autocontrole do plano para ação futura só é possível diante da continuidade. O homem está a todos os momentos operando racionalmente os fatos da experiência, procurando a partir deles uma projeção para o futuro. Um plano de conduta significa balizar a ação futura com base na experiência passada.

Para Peirce os principais elementos da conduta moral são: 1) o padrão geral mentalmente concebido antecipadamente; 2) o agente eficiente na natureza interna, o ato, e 3) a comparação subsequente do ato com o padrão. (CP 1.607)

48

Mas todos estes elementos estão representados no raciocínio e, portanto, há um paralelismo perfeito entre conduta e raciocínio. Desde que a descrição dos fenômenos da conduta controlada seja verdadeira, então o “raciocínio é apenas um tipo especial de conduta auto-controlada” (CP 1.610). Mas ao desenvolver sua cosmologia é que Peirce consolida as inter-relações das Ciências Normativas. Sua cosmologia é uma doutrina de como deve ser a estrutura do universo, explica que relações têm esta estrutura com nosso mundo interior, com nossa lógica, com nosso pensamento e com nosso sentimento.

Peirce percebeu que não era possível construir um amálgama entre a Estética, Ética e Lógica sem resolver alguns problemas tais como, em primeiro lugar, situar o homem no universo, ou seja, desenvolvendo uma teoria de mundo. 56
A condição inicial, antes da existência do universo, não foi um estado de um ser puro abstrato, ao contrário foi um estado de simplesmente absolutamente nada, nem mesmo um estado de vazio, pois mesmo o vazio é alguma coisa. Se vamos proceder de modo lógico e científico, devemos, a fim de considerar todo o universo, supor uma condição inicial na qual o universo completo foi não existente, e, assim um estado de absoluto nada. (PEIRCE, CP 6.217)

O evolucionismo peirceano pode ser visto como uma teoria de um mundo cuja direção indica a passagem da desordem para a ordem, onde coexistem ordem e desordem Lei e Acaso. A ordem surge da liberdade como uma tendência à aquisição de hábitos. E a tendência à aquisição de hábitos é uma tendência da mente. 57 A tendência para generalização consiste na primeira e fundamental lei da ação mental. Idéias tendem a se reproduzir. Há várias formulações de Peirce para a lei do crescimento da mente (CP 6.21).

O caminho da Lógica vai do vago ao definido. A ordem aparece como uma tendência do universo a adquirir hábitos. O que é uma lei da natureza? É um hábito adquirido. Se o universo adquire hábito ele deve ter um substrato mental. Aquisição de hábito é a característica mais fundamental da mente.

56 57

I. Ibri (1992) op.cit. p. 73. I. Ibri (1994) Kosmos Poietikos - Criação e Descoberta na Filosofia de Charles S. Peirce, p. 3. 49

Peirce entende os sistemas lógicos naturais como sistemas de mesma natureza que o nosso pensamento. Pode-se pensar o mundo, ou certa ordem geral da natureza ou certos sistemas de ordenação como tendo estruturação lógica similar à lógica de nosso pensamento, o que permite representar com verossimilhança sistemas da natureza, pois nós temos uma estrutura racional que é assim porque foi adestrada pela natureza, a forma racional do homem é hereditária da forma racional da natureza.

A primeira coisa que demanda nossa investigação é que a conduzamos para uma idéia clara e distinta do que são hábito e aquisição de hábito. Podemos unicamente aprender isto estudando estas coisas onde as vemos em formação na mente humana. Ao fazê-lo, não estou receoso de especializar demais e de assumir que o universo tem caracteres que pertencem apenas ao protoplasma nervoso em um complicado organismo. Pois devemos lembrar que o organismo não fez a mente, mas apenas a ela se adaptou. Adaptou-se por um processo evolucionário tal, que não está longe de ser correto considerar que a mente humana constitui o organismo (PEIRCE, NEM 141)58.

Representar com verossimilhança não significa verdades finais ou teorias finalistas, porque para Peirce nenhuma teoria, nenhum conceito, nenhum sistema de idéias é final ou traduz verdades finais. O mundo contém acidentalidade, contém acaso. Mas pode-se dizer que há um movimento que se dirige para o crescimento e aprendizagem.

Para Ibri (1996a), a filosofia peirciana é um grande convite ao abandono do antropocentrismo e do logocentrismo da palavra. É um convite a olhar a natureza e nela descobrir outras formas de diálogo, que não a mera palavra.

Portanto, é através do raciocínio correto que se chegará ao objetivo último, que é o ideal da conduta. Para um autor como Peirce este objetivo último não pode estar na ação, como também não pode ser qualidade de sentimento finita. Peirce se opõe à idéia de o homem só possa agir pelo prazer, porque a ação que ser refere ao prazer não deixa espaço para a distinção entre o certo e errado. Este objetivo último é o admirável.

O objeto admirável que é admirável per si deve, sem dúvida, ser geral. Todo ideal é mais ou menos geral; ele deve ter unidade, porque é uma idéia, e unidade é essencial a toda idéia e todo ideal. (PEIRCE, CP 1.613)

58

Apud I. Ibri (1992) op. cit. p. 87. 50

O objetivo último deve ser além de geral, deve trazer a idéia de continuidade, de infinitude. Peirce retoma a idéia platônica do verdadeiramente Belo, que é uma combinação entre sensibilidade e razão para encontrar as formas verdadeiras das idéias divinas.

Eu não posso ver como alguém possa ter um ideal mais satisfatório do admirável que o desenvolvimento da Razão assim entendido. A única coisa cuja admirabilidade não é devida a uma razão além é a própria Razão, compreendida em toda sua plenitude, tanto quanto possamos compreendê-la. Sob esta concepção, a idéia de conduta será executar nossa pequena função na operação da criação por dar uma contribuição para tornar o mundo mais razoável, sempre que estiver ao nosso alcance fazê-lo. Em lógica será observado que conhecimento é razoabilidade; e o ideal do raciocínio será seguir os métodos que devem desenvolver o conhecimento mais rapidamente... (PEIRCE, CP 1.615)

No Verdadeiro se encontra simultaneamente a suprema Beleza, o supremo Bem e a suprema Virtude. Segundo Ibri (1996a), esta Beleza, que vai aparecer depois de longa construção, é o Belo, que vai emanar depois de construída a inteligência, construindo concomitantemente a conduta, a Ética que é a ciência da escolha do que fazer, como se conduzir. A estratégia inteligente para atingir determinadas metas veio da Lógica. Depois disto é que emana a Beleza, mas este Belo não é um Belo aparente, mas sim um Belo processual ao longo da descoberta do Universo, das idéias de crescimento, evolução, relação homem-natureza, da própria idéia de Deus. A solução para a questão da inter-relação entre a Estética, a Ética e a Lógica está na evolução da Terceiridade, isto é aquilo que consideramos razão, que não é tão somente razão lógica, mas razão ética, a razão razoável. A razoabilidade não pode ser assumida tão somente pela Lógica. A Lógica dá as estratégias verdadeiras para se atingir determinados fins, mas é a Estética que vai dizer que fins são estes e quais qualidades têm estes fins, principalmente o fim último é que vai ser respondido pela Estética.

Se a Lógica fornece a estratégia, a Ética cuida da adequação da conduta a determinada estratégia, só que de certa forma, a Ética já aparece antes, permeando a escolha da estratégia.

Por outro lado, o amálgama entre razão e razoabilidade está no crescimento da generalidade. Deste amálgama entre Lógica e Ética surge a admirabilidade, certa qualidade estética que emana de um grande sistema, de uma operação conjunta entre a escolha, o porquê
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da escolha da conduta e a estratégia para atingir a meta. O critério de escolha é aquilo que transgride o exercício do poder e resgata a liberdade de todos, é essa admirabilidade, que é admirável por si mesma. Não tem outra justificativa, não precisa. Ela guarda o caráter de Primeiridade da Estética. Não depende de uma justificativa, de uma causa ou condicionante ulterior. Ela simplesmente irá bastar-se, mas é um Belo que emana da razão razoável ou da razoabilidade inteligente.

A admirabilidade que Peirce coloca é uma Terceiridade razoável, é uma admirabilidade totalmente dizível. Não é só uma qualidade do ver, do plástico, mas uma qualidade do inteligente, do processual, do que é sistêmico, porque o sistêmico envolve uma intencionalidade. Intencionalidade envolve conduta, conduta envolve escolha. A escolha envolve caminho do cosmos, onde o universo se faz nesta direção e não na outra. Esta admirabilidade está contida no conceito de agapismo, de amor evolucionário. 59

A própria Beleza, na obra de Peirce, quando ele propõe a relação Belo, Bom e Verdadeiro, é uma construção. A Beleza não é tão somente aquela qualidade primeira, que aparece fenomenologicamente, mas é aquele Belo que está oculto num sistema e que só pode percebido ao nível do entendimento, ao nível da inteligência.

4. O escopo da Semiótica peirceana.
“A Semiótica peirceana é, antes de tudo uma teoria sígnica do conhecimento que, desenha, num diagrama lógico, a planta de uma nova fundação para se repensar as eternas e imemoriais interrogações acerca da realidade e da verdade.” (SANTAELLA, 1994:119).

Conforme foi visto anteriormente no item 3, a Semiótica corresponde à terceira divisão das Ciências Normativas, sendo portanto uma ciência teórica e positiva, que se baseia na observação e também no pensamento diagramático.

Pelo fato de pertencer à segunda divisão da Filosofia também é caracterizada pelo dualismo próprio das Ciências Normativas, aquele da relação do fenômeno aos seus fins. Por
59

I. Ibri, (1994) op. cit. p.138. 52

ser a terceira ciência, seu fim específico é o pensamento. Sua finalidade última é o estudo da formação de hábitos e pensamentos que sejam consistentes com o ideal lógico, que por sua vez é definido pelo ideal ético, servindo finalmente ao ideal estético que é o crescimento da razoabilidade concreta. A Semiótica é a porção central do edifício filosófico peirceano.

É graças ao estudo da dinâmica e da evolução de toda forma concebível de signo de uma simples qualidade considerada como signo até a complexa estrutura da indução quantitativa, signo do método científico/estatístico - que Peirce formula sua lógica ou Semiótica. Esta se constitui na teoria geral dos processos inteligentes e na ciência dos métodos de pesquisa válidos para todas as ciências. Adicionalmente, permite a fundação de uma metafísica “científica” que ajuda os cientistas de todos os campos a formular suas hipóteses de trabalho (SERSON, 1996:48)

É uma teoria geral de toda forma de investigação inteligente, fundamentando diretamente e ao mesmo tempo uma teoria geral dos processos cognitivos, uma epistemologia e uma metodologia científica.

Ao se propor como uma teoria geral e abstrata de todos os tipos de signos que são possíveis, existentes ou não, estudando „seus modos de significação, denotação e de informação e o todo do seu comportamento e propriedades‟, a Semiótica acaba chegando a um sistema classificatório, altamente rigoroso e logicamente alicerçado, dos tipos fundamentais de signos e das combinatórias possíveis entre esses signos (SANTAELLA, 1993:12).

No seu sentido mais amplo, a Semiótica é uma ciência que trata não só dos símbolos, mas de todas as espécies de signos, das relações triádicas autênticas, representações, de todas e quaisquer formas de linguagem. É a ciência da Terceiridade. A Semiótica é o estudo abstrato de todos os possíveis tipos de signo, seus modos de significação, de denotação e de informação, e o todo de seus comportamentos e propriedades, na medida em que não são acidentais (MS 634:14)60

Para Santaella (1985:14), a Semiótica é a ciência que tem por objeto de investigação todas as linguagens possíveis, ou seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenômeno de produção de significação e de sentido Daí seu campo de indagação ser muito vasto. Neste contexto, vida é uma espécie de linguagem do mesmo modo que todos os sistemas e formas de linguagem tendem a se comportar como se
60

L. Santaella, (1992) op.cit. p. 132. 53

fossem sistemas vivos, ou seja, eles se reproduzem, se readaptam, se transformam e se regeneram como as coisas vivas. A Semiótica cobre o que se denomina vida e seus dois ingredientes fundamentais: energia (que torna possíveis os processos dinâmicos) e informação (que comanda, controla, coordena, reproduz e, eventualmente, modifica e adapta o uso de energia).

Fisch (apud SANTAELLA, 1992:48) nos dá uma explicação sobre a serventia de uma teoria geral dos signos.

[...] ela nos dará um mapa tão completo e tão detalhado a ponto de podermos localizar qualquer campo de pesquisa altamente especializado em relação a quaisquer outros; ensinará rapidamente como passar de um campo a outro e como distinguir campos ainda não explorados daqueles já longamente cultivados. Fornecerá enciclopédias e dicionários e os materiais para as introduções à Semiótica. Aperfeiçoará as habilidades expositivas dos especialistas cujos relatórios e comunicações são ilegíveis àqueles que não compartilham da mesma especialidade. Assim, a comunicação entre especialistas em campos semióticos não-adjacentes, será grandemente aperfeiçoada, assim como entre semioticistas e não-semioticistas, ou entre semioticistas e pessoas que ainda não se reconhecem como tal. Seremos então capazes de localizar pesquisas em progresso, visto que nos serão fornecidas perspectivas sobre modos de ver e avaliar seus resultados. Mas por um bom tempo ainda, a teoria geral dos signos irá requerer revisões continuas à luz de novas descobertas. (FISCH, apud SANTAELLA, 1992:48)

Segundo Buczinska-Garewicz (apud SANTAELLA, 1992:53), a Semiótica além de ser uma filosofia dos signos lidando com a essência genuína do signo, é também uma disciplina filosófica capaz de explicar e interpretar todo o domínio da cognição humana, além de ser uma teoria do conhecimento e ao fornecer as categorias para a análise da cognição realizada. É também uma metodologia.

Reforçando esta análise, Santaella (1992:53) enfatiza que a Semiótica de Peirce é uma disciplina cientificamente concebida e não-antropocêntrica, tendo nascido no contexto de Lógica das ciências. Por outro lado, embora sendo uma teoria do conhecimento “capaz de explicar e interpretar todo o domínio da cognição humana”, ela não esta limitada às semioses humanas. Ao contrário, ela nos fornece elementos para descrever e compreender semioses de qualquer natureza, pois a semiose não é privilégio do homem.

54

Segundo Serson (1995:51), a Semiótica, no seu conjunto, é, portanto ao mesmo tempo a ciência normativa dos métodos de investigação inteligente e do raciocínio em geral e a ciência que estuda os signos de todas as espécies, sua condições de significação e de correspondência com seus objetos, isto é, condições de verdade. Para Peirce, todo pensamento ou toda representação cognitiva é um signo. Não temos poder algum de pensar sem signos. (CP 5.264) Não há raciocínio possível, nenhum pensamento, nenhuma linguagem seria possível sem o uso dos signos.

O terceiro princípio, cujas conseqüências nos cumprem deduzir, é que, sempre que pensamos, temos presente na consciência algum sentimento, imagem, concepção ou outra representação que serve como signo. Mas segue-se de nossa própria existência (o que está provado pela ocorrência da ignorância e do erro) que tudo o que está presente a nós é um a manifestação fenomenal de nós mesmos. Isto não impede que haja um fenômeno de algo sem nós, tal como um arco-íris é simultaneamente uma manifestação tanto do sol quanto da chuva. Portanto, quando pensamos, nós mesmos tal como somos naquele momento, surgimos como um signo. (PEIRCE, CP 5.283)

Ao longo de sua extensa obra, Peirce elaborou várias definições para signo. A definição citada abaixo faz referência à posição e ao papel de cada elemento da tríade (signo-objetointerpretante), como também a forma de relação ordenada num processo lógico:
Em sua forma genuína, a Terceiridade é a relação triádica existente entre um signo, seu objeto e o pensamento interpretante, em si mesmo um signo, considerado como constituindo o modo de ser de um signo. Um signo se coloca a meio, entre o signo interpretante e seu objeto (PEIRCE, CP 8.332)

Na relação triádica entre signo, objeto e interpretante, todos tem natureza sígnica. Esta relação, que não é uma relação triádica simples, mas é um complexo de relações triádicas, pode ser pensada de três modos diferentes, dependendo da ênfase que é colocada sobre cada um dos correlatos; assim, se o signo é enfatizado, a relação é de significação ou representação. Se o objeto é posto em evidência, a relação é de objetivação. Enfim, se o interpretante é enfatizado, tem-se uma relação de interpretação.

Um signo é qualquer coisa que está relacionada a uma Segunda coisa, seu Objeto, com respeito a uma Qualidade, de tal forma a trazer uma Terceira coisa, seu Interpretante, para uma relação com o mesmo Objeto, e isso de maneira tal a trazer uma Quarta para uma relação com aquele Objeto da mesma forma, ad infinitum. Se a série é rompida, o Signo, nesse ponto perde seu caráter significante perfeito. (PEIRCE, CP 2.92)
55

Há também nesta relação triádica um esquema de um processo de continuidade, que Peirce denominou de semiose, explicando que nenhum interpretante pode ser tido como absoluto ou definitivo. “Faz parte da própria forma lógica de geração do signo que ela seja a forma de um processo ininterrupto, sem limites finitos.” (SANTAELLA, 1994:31)

Assim, o modo de ação típico do signo é o do crescimento através da autogeração. O signo, por sua própria constituição está fadado a germinar, crescer61, mas daí decorre sua natureza inevitavelmente incompleta, porque o signo está ligado ao objeto não em todos os aspectos, senão seria o próprio objeto. Da alteridade do objeto decorre a incompletude do signo. O signo só pode representar o objeto e referir-se a ele. (CP 2.230).

Mas é em função desta diversidade entre signo e objeto, que Peirce introduz a noção de experiência colateral - ”uma familiaridade com algo a fim de veicular alguma informação ulterior sobre esse algo” (CP 2.231). A definição de signo de Peirce é extremamente ampla: “qualquer outra coisa que qualquer coisa possa ser, ela também é um signo”.62 Peirce inclui sob o termo signo "qualquer pintura, diagrama, grito natural, dedo apontando, piscadela, mancha em nosso lenço, memória, sonho, imaginação, conceito, indicação, ocorrência, sintoma, letra, numeral, palavra, sentença, capítulo, livro, biblioteca, e, em resumo qualquer coisa que seja, esteja ela no universo físico, esteja ela no mundo do pensamento, que - quer corporifique uma idéia de qualquer espécie (e nos permita usar este termo para incluir propósitos e sentimentos), quer esteja conectada com algum objeto existente que se refira a eventos futuros através de uma regra geral - leva a alguma coisa, seu signo interpretante a ser determinado por uma relação correspondente com a mesma idéia, coisa existente ou lei." (MS 774:4)63

Assim, qualquer coisa desde que seja interpretada em função de um fundamento que lhe é próprio, como estando no lugar de qualquer outra coisa. O fundamento do signo está no seu poder de gerar outro signo como seu interpretante.

61 62

L. Santaella, (1996 b) "Semiosphere The Growth of signs" em Semiotica, vol.109, n1/2.p.178 L.Santaella, A Teoria Geral dos Signos Semiose e Autogeração p. 22. 63 L. Santaella, (1997) "Roteiro para Leitura de Peirce", em O Sujeito entre a Língua e a Linguagem, Série Linguagem, n.2 p. 93-114. 56

Um signo, ou representâmen, é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é cria na mente dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado denomino interpretante do primeiro signo. O signo representa alguma coisa, seu objeto. Representa esse objeto não em todos os seus aspectos, mas com referência a um tipo de idéia que eu, por vezes denominei fundamento do representâmen. (PEIRCE, CP 2.228)

Portanto, a relação sígnica pressupõe algo que pode desempenhar o papel de um signo, isto é, uma potencialidade sígnica - forma, essência, qualidade. Qualquer coisa pode ser um signo, mas para seja um signo deve ter algum caráter em virtude do qual possa funcionar como signo, deve existir algumas condições necessárias para que um signo possa funcionar como signo:

Segundo Serson (1996:70), o signo deve ter certas qualidades ou caracteres que nos permitam ser distinguí-los de outros objetos; o signo deve ser afetado de certa maneira pelo objeto que ele significa; enfim, a terceira condição é que o signo se dirija por si mesmo a um interpretante mental: não é suficiente que ele seja afetado e esteja em relação com um objeto, mas é necessário que esta relação seja tal que conduza também a mente a entrar em relação triádica com o signo e o objeto. Resumidamente, de acordo com Santaella (1997:106), podem-se extrair os seguintes pontos da definição de signo: 1. o signo é determinado pelo objeto, isto é, o objeto causa o signo mas, 2. o signo representa o objeto, por isso mesmo é signo; 3. o signo representa algo, mas é determinado por aquilo que ele representa; 4. o signo só pode representar o objeto parcialmente e 5. pode, até mesmo, representá-lo falsamente; 6. representar o objeto significa que o signo está apto a afetar uma mente, isto é, nela produzir algum tipo de efeito; 7. esse efeito produzido é chamado de interpretante do signo; 8. o interpretante é imediatamente determinado pelo signo e mediatamente determinado pelo objeto , isto e, 9. o objeto também causa o interpretante, mas através da mediação do signo;
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10.o signo é uma mediação entre o objeto (aquilo que ele representa) e o interpretante (o efeito que ele produz), assim como 11.o interpretante é uma mediação entre o signo e um outro signo futuro. O signo tem dois objetos, que são: objeto imediato e objeto dinâmico. O objeto imediato está indicado ou representado no signo, é o modo como o objeto dinâmico se apresenta. O objeto dinâmico é o objeto fora do signo, que determina o signo e ao qual ele se aplica, isto é, aquilo a que o signo se refere. O objeto dinâmico é aquele que vai se desvelando ao longo do tempo. O conceito de objeto dinâmico e imediato traz a noção de evolução, de crescimento, gerando significação.

O signo tem três interpretantes; imediato, dinâmico e final. O interpretante imediato é aquele que o signo está apto a produzir como efeito. O interpretante dinâmico é o efeito que o signo efetivamente produz na mente de um intérprete. O interpretante final é o efeito que o signo produziria em qualquer mente, por uma semiose levada a efeito a longo prazo, é aquele a que se chegaria numa opinião definitiva. (CP 8.184) O interpretante final é aquilo que vai aparecer quando soubermos tudo sobre o objeto, no final da investigação, é a crença final para onde tende a evolução da nossa investigação, aquela crença que não será removida. 64

A idéia de interpretante final está implicada na cosmologia peirceana. No processo evolutivo, a representação final coincide com o próprio objeto, e o interpretante final coincide com o próprio objeto porque a estrutura do objeto está toda desvelada, ele não objeta mais. Os signos podem ser divididos em três formas: quanto a sua natureza material própria, quanto a sua relação com o objeto e quanto a sua relação com o interpretante.

A primeira divisão é aquela que leva em consideração o signo em si mesmo: sua qualidade em si, independente de qualquer outra coisa, isto é o signo na sua Primeiridade.
Em si mesmo, um signo ou tem a natureza de uma aparência e eu o chamo quali signo, ou é um objeto ou acontecimento individual e eu o chamo sin-signo...ou como terceira hipótese, o signo tem a natureza de um tipo geral e eu o chamo legi-signo. (PEIRCE, CP 8.332)

Portanto, o signo pode ser:
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1. Quali-signo: algo que se apresenta como mera qualidade 2. Sin-signo: algo singular ou conjunto de singulares, numa relação existencial com seu objeto, seu segundo. 3. Legi-signo: algo de natureza geral, tendo o caráter de uma lei governando a ocorrência de particulares, através da mediação para um terceiro, o interpretante. (CP 8.333, 2.244-46)

Quando o signo é considerado na sua relação com o objeto, isto é, na sua Segundidade, aparece uma nova tríade: Ícones, Índices, Símbolos: 1. ícone: se o signo for um quali-signo, mera qualidade na sua relação com o objeto ele será um ícone, isto é, um signo que pode representar seu objeto em função de suas qualidades, qualidades que ele possuiria do mesmo modo, se o objeto existisse ou não. Tratando-se de qualidades, a única relação que ele pode ter com aquilo que o torna presente é de semelhança. “Um Ícone é um Representâmen cuja Qualidade Representativa é uma sua Primeiridade como Primeiro”.(Peirce, CP 2.276)
2.

índice: se o signo for um sin-signo então ele estará conectado existencialmente a algo também singular ou conjunto de singulares, seu objeto está fora do signo e é diferente dele. Neste caso, o signo funciona como um índice desse objeto do qual o sin-signo indicial é uma parte. “Um Índice ou Sema é um Representâmen cujo caráter Representativo consiste em ser um segundo individual”. (Peirce, CP 2.293)

3. símbolo: se o signo for uma lei, um legi-signo, governando portanto a existência de particulares, em relação ao objeto ele será um símbolo, ou seja, algo que se constitui como signo porque é usado e entendido como tal através de uma lei ou convenção da qual é portador.
Um Símbolo é um Representâmen cujo caráter representativo consiste exatamente em ser uma regra que determinará seu Interpretante. Todas as palavras, frase, livros e outros signos convencionais são Símbolos. (PEIRCE, CP 2.292).

Quando o signo é considerado em relação à sua Terceiridade, ou a seu interpretante, obtém-se uma nova tríade: Termo, Proposição, Argumento.
64

Este conceito é de grande importância e será retomado no próximo capítulo, dentro da teoria do inquiry. 59

Com respeito a sua relação para com o interpretante, o signo será um Rema, um Dicente ou Argumento. Essa divisão corresponde à velha divisão, Termo, Proposição, Argumento, modificada de modo a se tornar aplicável aos signos de modo geral. (PEIRCE, CP 8.337).

1. rema: quando se trata de um quali-signo icônico, esse signo se apresentará para ser interpretado como uma possibilidade. Sendo a relação de comparação estabelecida, uma relação de semelhança de duas qualidades, o signo só pode funcionar como uma hipótese interpretativa. “Um Rema é definido como signo representado por seu interpretante como se fosse um traço ou marca (ou sendo-o, efetivamente).” (PEIRCE, CP 8.337) 2. dicente: no caso de um sin-signo indicial, por se tratar de um existente relacionado a outro existente ele se apresentará como um signo de fato:
Defino um Dicente como signo representado em que seu interpretante como se estivesse em relação real para com seu objeto (ou como estando em tal relação se for asseverado). (PEIRCE, CP 8.337)

3. argumento: quando se trata de legi-signos simbólicos, o interpretante que este signo estará apto a produzir é chamado argumento, sendo que as regras interpretativas para a produção do interpretante já estão inclusas no próprio signo, assim a ordem lógica das relações das premissas é que dá o sustento ao interpretante.
[..].defino um argumento como signo que é representado em seu interpretante não como signo daquele interpretante (a conclusão) - para o que seria preciso apresentálo ou defendê-lo -mas como se fosse um Signo do Interpretante, ou talvez, como se fosse um signo do estado do universo a que se refere no qual as premissas são aceitas sem discussão. (PEIRCE, CP 8.337)

Por sua vez os argumentos se dividem em abdução, dedução e indução. (A questão dos argumentos será retomada no próximo capítulo, quando será exposta a segunda divisão da Semiótica que tem por escopo estudar os argumentos.) Estas três tríades, combinadas segundo os princípios semióticos e faneroscópicos que envolvem a prescissão, dão origem a dez classes de signos (CP 2.227-273), que por sua vez

60

dão origem a sessenta e seis classes de signos.(CP 8.344). Apesar de sua importância, deixarão de ser examinados detalhadamente porque fogem ao escopo deste trabalho. Segundo Santaella (1993:13), além de ser uma ciência dos tipos possíveis de signos a Semiótica se constitui em uma teoria da significação, uma teoria da objetivação e uma teoria da interpretação, que pode ser explicada pela relação triádica entre o signo, objeto e interpretante. 65

1. Da relação do signo consigo mesmo, isto é, do exame da natureza do seu fundamento, ou daquilo que lhe dá capacidade para funcionar como tal---uma qualidade, sua existência concreta ou seu caráter de lei--- advém uma teoria das potencialidades e limites da significação.

2. Da relação do fundamento com o objeto--- ou aquilo que determina o signo, e por isso mesmo, vem a ser aquilo a que o signo se aplica--- com todas as implicações ontológicas aí subentendidas extrai-se uma teoria da objetivação, que estuda os problemas relativos à realidade e referência, verdade e ficção, mentira e decepção. 3. Da relação do fundamento com o interpretante deriva-se uma teoria da interpretação, com as implicações quanto aos seus efeitos sobre o intérprete, individual ou coletivo.” (SANTAELLA, 1993:13)

Como uma teoria da significação, uma teoria da objetivação e da interpretação, a Semiótica peirceana pode fornecer sustentação a qualquer estudo sobre método, principalmente para os casos de ciências humanas, cujos objetos de estudo são fenômenos de natureza interpretativa e comunicativa.

5. As divisões da Semiótica

A lógica é a ciência das leis necessárias gerais dos Signos e, especialmente, dos Símbolos. Como tal tem três departamentos. Lógica obsistente, lógica em sentido restrito, ou Lógica Crítica , é a teoria das condições gerais da referência dos Símbolos e outros Signos aos seus Objetos manifestos, ou seja, é a teoria das condições de verdade. Lógica Originaliana, ou Gramática Especulativa, é a doutrina das condições gerais dos símbolos e outros signos que tem o caráter significante. É deste departamento da lógica geral que nos estamos agora ocupando. Lógica Transuasional, que denomino de Retórica Especulativa é, substancialmente, aquilo que é conhecido pelo nome de metodologia ou,

65

Ver também Santaella, (1992) op.cit. 158-160. 61

melhor, metodêutica66. É a doutrina das condições gerais da referência dos Símbolos e outros Signos aos Interpretantes que pretendem determinar... (PEIRCE, CP 2.93)

A Semiótica, portanto, se divide em: 1.Gramática Especulativa ou Gramática Pura. 2.Lógica Crítica ou Lógica propriamente dita 3.Retórica Especulativa ou Metodêutica Em outra passagem, Peirce argumenta que do fato de que todo pensamento é realizado através de signos, a Lógica pode ser vista como a ciência das leis gerais dos signos. A Lógica tem três ramos: A Gramática Especulativa, ou a teoria geral da natureza e significado dos signos sejam eles ícones, índices ou símbolos; a Lógica Crítica classifica os argumentos e determina a validade e o grau de força de cada um, e a Metodêutica, que estuda os métodos que deveriam ser perseguidos na investigação, exposição e aplicação da verdade. Cada divisão depende da precedente. (CP 1.191)

A base lógica para esta divisão da Semiótica está nas categorias e na própria definição de signo. Sendo o signo peirceano aquilo que, “de certo modo e numa certa medida intenta representar alguma outra coisa, diferente dele, seu objeto, produzindo, como fruto dessa relação de referência, um efeito numa mente potencial ou real”, portanto podem existir:67

1. estudos cujo objetivo é o signo em si mesmo, suas potencialidades, e sua natureza interna, 2. as relações de referência do signo aos objetos que ele intenta representar, incluindo-se aqui necessariamente as verdades ou não destas relações. 3. a eficácia comunicativa do signo.

O primeiro ramo da Semiótica, a Gramática Especulativa ou Gramática Pura está sob a égide da Primeiridade, que “determina o caráter das coisas a partir de sua aparência.” O segundo ramo, a Lógica crítica, está sob a Segundidade, “que determina as condições de

66

L. Santaella (1993 b) op.cit. p.179 revela que Peirce, exercitando sua terminologia, atribui vários nomes à metodêutica: retórica formal (CP1.559), lógica objetiva (CP 1.444, 2.111-118, 3.430), lógica dos símbolos (CP 4.9), lógica intencional (CP 4.8), lógica de auto-aconcselhamento (4.116) e teoria da investigação. (CP2.106). 67 B. Kent (1987) op.cit.185/190, L.Santaella, (1993b) op.cit. p. 21/170. 62

referencialidade dos signos”, e o terceiro ramo, a metodêutica, está sob a Terceiridade, que “determina o tipo de interpretação dada às coisas, a partir da mediação”.

Deve-se ressaltar a influência, porém, não só das categorias, mas também da lógica triádica interna dos signos. Assim, se o signo é algo que se refere a uma outra coisa diferente dele, seu objeto, para um interpretante, então a primeira divisão da Semiótica corresponde ao exame do signo em si, a segunda divisão corresponde ao estudo do seu objeto e a terceira ao estudo do seu interpretante.

A primeira divisão da Semiótica é a Gramática Especulativa, que tem por função estudar a “fisiologia dos signos de todos os tipos”, investigando sua natureza e significados e determinando as condições a que devem se conformar para serem signos.

O primeiro é chamado por Duns Scotus de grammatica speculativa. Podemos denominá-lo gramática pura. Sua tarefa é determinar o que deve ser verdadeiro quanto ao representâmen de toda inteligência científica a fim de que possa incorporar um significado qualquer (PEIRCE, CP 2.229).

A Gramática Especulativa é a ciência das “condições gerais para os signos serem signos ou a doutrina das condições gerais dos símbolos ou outros signos para terem um caráter significante”. (HOUSER, 1990:209).

Existe uma tendência em se confundir a Semiótica apenas com sua primeira divisão, ou seja, aquela que classifica, descreve e analisa todos os tipos possíveis de signos.

Segundo Houser, (1990:210) o semioticista ao estudar Gramática Especulativa, estuda a natureza intrínseca dos signos e da ação dos signos, examina a relação sígnica, a natureza dos correlatos da relação sígnica, as famosas tricotomias peirceanas dos signos, e suas dez ou possivelmente sessenta e seis classes de signos.

A Gramática Especulativa é a teoria geral da representação e dos vários tipos de signos que são responsáveis pelo andamento dos processos de semiose. “Sua tarefa consiste em descobrir o que deveria ser verdadeiro dos signos utilizados por toda inteligência capaz de

63

aprender pela experiência, afim de que estes possam receber uma significação.” (SERSON, 1996:56)

Segundo Houser (1990:210) o objeto da Gramática Especulativa é a representação. Ela diz quais são as condições necessárias e suficientes para que qualquer coisa seja uma representação, como também qual a natureza da relação de representação e quais são as diferentes espécies básicas de representação. A segunda divisão da Semiótica é a Lógica Crítica ou Lógica propriamente dita, correspondendo ao sentido mais estreito da Lógica.
O segundo ramo é o da lógica propriamente dita. É a ciência do que é quase necessariamente verdadeiro em relação aos representamens de toda inteligência científica a fim de que possam aplicar-se a qualquer objeto, isto é, a fim de que possam ser verdadeiros. Em outras palavras, a lógica propriamente dita é a ciência formal das condições de verdade das representações. (PEIRCE, CP 2.229).

Segundo Santaella68, a Lógica crítica ocupa justamente o coração da Semiótica, que por outro lado, é o próprio coração da Filosofia peirceana. A Lógica Crítica começa onde acaba a Gramática Pura, cujas classificações terminam no signo argumental. Para Houser (1990: 211), o semioticista, que estuda Crítica, estuda a relação dos signos com seus objetos, em particular as condições de referência eficaz dos signos aos seus objetos significados. Um dos principais focos da Crítica está na concepção de verdade. O que queremos dizer por verdadeiro? Como a veracidade de um signo é dependente de seu objeto?. Do ponto de vista da complexidade o signo mais complexo é o legi-signo-simbólicoargumental, neste ponto, a Gramática Especulativa cede lugar à Lógica Crítica, que tem por finalidade estudar as diferentes espécies de argumento, incluindo a determinação da validade ou força de cada um dos argumentos, passando a lidar com a estrutura do raciocínio. A Gramática Especulativa "se constitui num verdadeiro manancial de idéias originais de onde é gerada uma teoria dos mecanismos de raciocínio e procedimentos metodológicos cuja coerência e riqueza são indiscutíveis”. (SANTAELLA, 1993:21)

68

L. Santaella (1992) op.cit. p. 135/137,B. Serson (1996) Op.cit. p. 47/60l. 64

Estudando o raciocínio, que sempre se dá em signos, Peirce chegou à conclusão de que existem três tipos de raciocínio ou métodos de investigação69: abdução, dedução e indução.“A divisão de toda inferência em Abdução, Dedução e Indução, quase pode ser apresentada como sendo a Chave da Lógica”. (Peirce, CP 2.98). A abdução70 se refere ao processo a partir do qual é gerada uma hipótese plausível a respeito de um fato ainda sem explicação. A dedução é o processo de inferir as conseqüências necessárias de uma hipótese, e a indução pode ser (simplificadamente) o processo de se testar uma hipótese. Os três tipos de raciocínio são fundamentais para se entender os procedimentos dos métodos científicos.

O Pragmatismo também estabelece relações entre os três tipos de raciocínio, podendo ser visto como “um método de análise filosófica de sistemas teóricos”. Abdução é o processo de formação de uma hipótese explanatória, a indução nada faz além de determinar um valor, e a dedução meramente desenvolve as conseqüências necessárias de uma hipótese pura. “A Dedução prova que algo deve ser; a Indução que mostra alguma coisa é realmente operativa; a Abdução simplesmente sugere que alguma coisa pode ser.” (PEIRCE, CP 2.98)

Os três tipos de raciocínio estão implicados na máxima do pragmatismo e para Peirce, um exame atento para a questão do pragmatismo mostra que ele nada mais é do que a lógica da abdução.

Isto é, o pragmatismo propõe certa máxima que, se sólida, deve tornar desnecessária qualquer norma ulterior quanto à admissibilidade das hipóteses se colocarem como hipóteses, isto é, como explicações dos fenômenos consideradas como sugestões auspiciosas... (PEIRCE, CP 5.196).

O pragmatismo atribui uma regra à abdução, impondo um limite sobre as hipóteses admissíveis (toda hipótese deve ter conseqüências práticas), o que de certo modo afeta a dedução, isto é, destrói premissas da dedução. No pragmatismo está o ponto de convergência ou união das idéias do método. Neste contexto há três observações que podem ser feitas:

69 70

A teoria da investigação vai ser retomada no próximo capítulo. Segundo Santella, (1993 b:202), “se tomarmos como base os conceitos peirceanos, por volta de 1902, quase se pode afirmar que a abdução é a questão central da metodêutica.” 65

1. afetar as premissas da dedução não é afetar a lógica da dedução, 2. o pragmatismo é a lógica da abdução e, 3. o pragmatismo é a doutrina de que toda concepção é uma concepção de efeitos práticos concebíveis. (CP 5.196):
Admitindo, então, que a questão do Pragmatismo é a questão da Abdução, consideremo-la sob esta forma. O que é uma boa abdução? Como deveria ser uma hipótese explanatória a fim de merecer a classificação de hipótese? Naturalmente, ela deve explicar os fatos. Mas que outras condições deve preencher para ser boa? A questão da excelência de alguma coisa depende de se essa coisa preenche seus objetivos. Portanto, qual é o objetivo de uma hipótese explanatória? Seu objetivo é, apesar de isto estar sujeito à prova da experiência, o de evitar toda surpresa e o de levar ao estabelecimento de um hábito de expectativa positiva que não deve ser desapontada (PEIRCE, CP 5.197).

Aparece um fato, levanta-se uma hipótese. Se a hipótese for verdadeira, o fato será explicável. Portanto há necessidade de investigação para daí se tirar conseqüências. Também ao estabelecer uma a uma relação necessária entre o particular e o geral, o pragmatismo traduz, implicitamente, a condição de possibilidade do argumento indutivo. “Assim, a validade da indução depende da relação necessária entre o geral e o singular. É exatamente isto que constitui a base do Pragmatismo.” (PEIRCE, CP 5.170). Portanto, uma hipótese para ser admissível tem que ser verificada experimentalmente, na medida em que é possível tal verificação. Toda a lógica da indução está contida naquilo que Peirce entende por verificação experimental. A verdade ou falsidade de uma hipótese não está relacionada apenas a ser capaz de ser diretamente percebida, mas sim nas suas conseqüências. Para muitas teorias, as conseqüências podem não ser experienciáveis agora, e somente poderão se tornar experienciáveis no futuro. Mas, uma teoria pode ser dita verdadeira quando ela é aproximadamente verdadeira. “[...] sendo nossas idéias mais ou menos vagas e aproximadas, o que pretendemos dizer quando afirmamos que uma teoria é verdadeira é que é muito aproximadamente verdadeira”. (CP 5.199), ou numa outra passagem sobre o significado de um conceito:
[...] indaguemos o que pretendemos significar ao dizer que uma coisa é dura. Evidentemente, que ela não será riscada por muitas outras substâncias. Toda a concepção dessa qualidade assim como a de qualquer outra, confunde-se com seus imaginados efeitos. Não há absolutamente nenhuma diferença entre uma coisa dura e uma mole enquanto não forem submetidas a um teste. (PEIRCE, CP 5.403)

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Isto significa que na ausência de um teste real, não há como determinar o significado de um conceito. Para Peirce, um conceito só é realmente significativo quando se coloca no âmbito de uma experiência concebível, possível, “[...].é outra forma de se dizer que aquilo que chamamos de significado de uma proposição abarca toda dedução necessária e óbvia que dela resulte.” (CP 5.165).

Para Peirce, nenhuma hipótese fica totalmente resolvida, há sempre um resquício de incerteza, certa erraticidade no tempo. Existem campos onde a experimentação é muito precária, onde a própria experiência pode modificar o objeto. As nossas representações não dão conta porque o mundo contém erraticidade, acaso. Tudo aquilo que contem liberdade não pode ser previsto nos mínimos detalhes. A teoria da hipótese ou da abdução tem despertado enorme interesse para análise dos raciocínios imprecisos ou incertos e para a lógica da descoberta.

Assim, a discussão quanto à força do argumento pertence à Lógica Crítica, que foi, num primeiro estágio, desenvolvida como uma teoria unificada da abdução, dedução e indução.

[A Lógica Crítica] toma as partes constituintes dos argumentos e investiga as condições às quais os símbolos e outros signos devem se conformar para terem alguma condição para se aproximarem da hipótese de razoabilidade do universo; ela averigua as condições necessárias para a estabilidade das crenças expressas pelas asserções. Ela estuda as ‟relações perceptíveis entre fatos possíveis‟ e lança luz sobre a natureza da confiança que deve ser conferida aos vários tipos de raciocínio (...). As conclusões de cada um dos tipos distintos de raciocínio oferecem diferentes medidas de segurança. “(KENT, APUD SANTAELLA, l992: 135)

A terceira divisão é chamada Retórica Especulativa ou Metodêutica (nome que Peirce escolheu em lugar de Metodologia), está fundada na Lógica Crítica, estudando as condições gerais da relação dos símbolos e outros signos com seus interpretantes.

O terceiro ramo, imitando a maneira de Kant de preservar velhas associações de palavras ao procurar nomenclatura para novas concepções, denomino retórica pura. Seu objetivo é o determinar as leis pelas quais, em toda inteligência científica, um signo dá origem a outro signo e, especialmente, um pensamento acarreta outro. (PEIRCE, CP 2.229).

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Para Houser (1990:209), a Retórica Especulativa ou Metodêutica é a ciência que estuda as condições necessárias da transmissão de significados pelos signos de mente em mente, e de um estado de mente a outro. É a doutrina das condições gerais de referência dos símbolos e outros signos aos interpretantes que eles visam determinar.. A Metodêutica tem dois ramos: “um ligado à teoria geral da investigação, aos métodos de investigação e outro, retórico, isto é, a arte de conduzir um raciocínio, um convencimento porque permite explicar como é que se dá a construção do convencimento quando dois interlocutores ideais ou duas inteligências científicas ao conversar possam provar alguma coisa uma para a outra.” (SERSON, 1996b)

A Metodêutica é a teoria dos métodos de investigação, para os quais, a Lógica Crítica ao examinar o valor e força de cada tipo de argumento ou raciocínio funciona como uma espécie de alicerce. A Metodêutica estuda os argumentos já encadeados na Teoria da Investigaçãohipótese, dedução de todas as conseqüências possíveis, experiência, nova hipótese, e assim por diante, num ciclo.

Segundo Santaella (1994:166), a Metodêutica nasceu como conseqüência necessária da descoberta peirceana de que os tipos de raciocínio se constituem também em tipos de métodos empregados pelas ciências, e da descoberta subseqüente de que esses mesmos métodos se constituem em estágios de toda e qualquer investigação científica, na seguinte seqüência: abdução, ou descoberta de uma hipótese; dedução, ou extração das conseqüências da hipótese, indução ou teste da hipótese.

A tarefa da Metodêutica é estudar a ordem ou procedimento apropriado a qualquer investigação, este estudo teórico é que vai propiciar o poder de auto-correção aos métodos, quando empregados incorretamente. “Com a teoria, livramo-nos da escravidão do método, pois somos colocados em estado de prontidão para criticá-lo e submetê-lo a uma constante revisão” (SANTAELLA, 1996:136).

A Metodêutica está relacionada com a Terceiridade, principalmente com a relação triádica do signo, cuja função básica é tornar as relações eficientes através da formação de hábitos que se transformam em leis. Este processo é dirigido pela função do autocontrole.
68

A Metodêutica engloba o exame geral das condições apropriadas para a investigação. Os métodos baseados na experiência, sem um estudo teórico podem levar a enganos porque não tem auto-correção que assinale suas impropriedades. Somente a aprovação deliberada está sujeita à constante crítica e re-exame.

A confiança no método está ligada à disposição de perseguir a crítica, pois somente a crítica incessante, não só do indivíduo, mas de uma comunidade de investigadores pode ir corrigindo o método, já que a verdade funciona como uma meta que pode ser aproximada, mas não de forma completa. 71

Esta idéia remete à máxima de pragmatismo: o princípio pragmático é uma aplicação especial do método científico. O pragmatismo, como um princípio regulativo da Lógica, prescreve quais hipóteses devem ser examinadas e pode ser entendido como “uma máxima lógica para servir de guia das investigações” (CP 5.18) Apesar de tudo, o pragmatismo não resolve nenhum problema, apenas mostra que pretensos problemas não são problemas reais.

Assim, combinando uma teoria unificada da inferência, que é o segundo ramo da semiótica, com uma teoria sígnica do conhecimento, que é o primeiro ramo da semiótica, Peirce foi capaz de configurar uma teoria geral da cognição e de localizá-la dentro de uma teoria geral de explicação científica. 72

71 72

B. Kent,(1987) op. cit. p. 178. L. Santaella (1997) op. cit. p. 110. 69

Capítulo II. A TEORIA DA INVESTIGAÇÃO

1. Introdução:
Por conseguinte, eu pergunto como você sabe que a verdade “a priori” é certa, sem exceções e exata? Você não o pode saber pelo raciocínio. Pois ele estaria sujeito à incerteza e à imprecisão. Então, deve-se considerar que você o sabe “a priori”; isto é, você toma juízos “a priori” para sua própria avaliação, sem críticas ou credenciais. isto é barrar a porta da investigação (Peirce, CP,1.144).

Contrastando com algumas concepções tradicionais de ciência do final do século XIX e início do século XX, que são baseadas em um conjunto estático de proposições, tais como a geometria euclidiana ou a mecânica newtoniana, a concepção de ciência de Peirce está ligada a um “processo socio-histórico de investigação”. Este processo tem uma estrutura específica da qual resulta uma visão diferente para a estrutura lógica da ciência e suas condições de possibilidade. 73 Para Peirce há duas concepções tradicionais de ciência. A primeira, caracterizada como um corpo sistemático e organizado de conhecimento, seria “um corte superficial capturando

70

principalmente os remanescentes fossilizados da ciência”. A segunda seria “um corte mais profundo”, caracterizada como um método do saber. A segunda visão seria a mais certa, podendo, no entanto, ser comprometida por uma concepção metodológica individualista e por vezes não suficientemente dinâmica.74

Peirce achava que os cientistas, assim como os lógicos deveriam "mirar dois alvos principais": o grau de segurança, como aproximação da certeza de cada tipo de raciocínio e a extração da possível e esperada "uberty", ou seja o valor em produtividade de cada tipo. (CP 8.384)75

Peirce propõe então uma definição para ciência como "um modo de vida", baseando-se na sua própria experiência como cientista e em seu conhecimento de história da ciência:
A ciência deve significar para nós um modo de vida cujo único princípio animador é encontrar a verdade, que persegue este propósito por um método bem respeitado, fundado em profundo conhecimento daqueles resultados científicos já estabelecidos por outros dentro do que esteja disponível, e busca cooperação na esperança de que a verdade seja encontrada, se não pelas atuais investigações, ainda que finalmente por aqueles que vêm depois deles e que farão uso de seus resultados. Não faz diferença quão imperfeito possa ser o conhecimento de um homem, quão sujeito a erro e preconceito, do momento em que ele se engaja em uma investigação dentro do espírito descrito, aquilo que o ocupa é ciência... (PEIRCE, CP 7.54-55) 76

Peirce estende esta definição para todas as ciências. Assim na perspectiva peirceana, quando se fala em ciência de modo geral ou quando se fala de uma ciência em particular, subentende-se uma comunidade de pesquisadores, num determinado período de tempo, com uma unidade de propósito e de método, que torna o resultado mais do que uma simples somatória de resultados individuais. Neste contexto fica claro o sentido sócio-histórico da investigação, que pode ser evidenciado na seguinte passagem:

73

(MS 614.7 e CP.7.49, 7.60, 7.61, 7.87) C. Delaney, (1993), Science, Knowledge and Mind- A study in the philosophy of C.S.Peirce ,p.13 e C. Stewart, (1986) "Social and Economic Aspects" Transactions of the C.S.Peirce Society, vol.XXII p. 501 74 C.Delaney (1993),op.cit. p. 14 75 L. Santaella (1992) op.cit. p. 97. 76 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte:“Science is to mean for us a mode of life whose single animating purpose is to find out the real truth, which pursues this purpose by a well considered method, founded on thorough acquaintance with such scientific results already ascertained by others as may be available, and which seeks cooperation in the hope that the truth may be found, if not by any of the actual inquiries, yet ultimately by those who come after them and who shall make use of their results. It makes no difference how imperfect a man knowledge may be, how mixed with error and prejudice, from the moment that he engages in an inquiry in the spirit described, that which occupies him is science...” (CP7.54-55) 71

[...] se tivermos que definir ciência, não no sentido de abarrotar um arquivo [...] mas no sentido de caracterizá-la como uma entidade histórica viva, devemos concebê-la como aquilo com o qual homens como eu tem se declarado ocupados. (Peirce, CP 1.44)77

Assim, se um homem tem sede de aprender e compara suas idéias com resultados experimentais a fim de corrigir suas idéias, esse homem será reconhecido pelos cientistas como tal, não importando que seu conhecimento seja pequeno. (CP 1.44)

Destes pontos resultam os principais traços da análise lógica do método científico, que serão desenvolvidos nos tópicos a seguir: a questão do método em Peirce, o anti-cartesianismo peirceano e a lógica da investigação. No modelo de investigação de Peirce, apresentado no seu texto a “Fixação das Crenças”,78 a investigação é a luta pela estabilização da crença. A investigação começa pela dúvida, mas não a dúvida de Descartes, e sim uma dúvida genuína e específica, que gera um estado de desconforto. A partir de um estado de dúvida desconfortável, o homem, seja ele cientista, investigador ou mesmo no dia a dia, luta para obter uma nova crença, esta luta Peirce chama de investigação.

O estímulo da dúvida leva o esforço por atingir um estado de crença. A esse esforço denominamos Investigação, embora se deva admitir que, por vezes, tal designação não se mostra muito adequada. O estímulo da dúvida é o único motivo imediato do esforço por chegar à crença. É certamente convenientíssimo serem nossas crenças tais que nos orientem devidamente as ações, de sorte a satisfazermos nossos desejos; e essa reflexão nos levará a rejeitar toda crença que não pareça ter-se estruturado de forma a assegurar este resultado. Isso só ocorrerá, entretanto, se uma dúvida substituir aquela crença. Com a dúvida o esforço começa e tem fim quando cessa a dúvida. Conseqüentemente, a investigação tem por objetivo único o acordo de opiniões.” (PEIRCE, CP 5.374)

Dúvida, para Peirce, é uma questão muito séria, a dúvida genuína não tem “gênese téorica, ela tem gênese na experiência”. Isto não quer dizer que não possamos duvidar teoricamente. A mera especulação teórica não tem o estatuto da dúvida genuína, não abala a crença e não muda nosso modo de agir. A visão peirceana de dúvida e crença está fundamentada no pragmatismo.
77

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “... if we are to define science, not in the sense of stuffing it into an artificial pigeonhole where it may be found again by some insignificant mark, but in the sense of characterizing it as a living historical entity, we must conceive it as that about which such men as I have described busy themselves” (CP 1.44). 78 “Fixação das Crenças”-1877 (CP 5.358-87), a análise deste texto vai ser retomada no item 2.2 deste capítulo. 72

A dúvida teórica não tem a força compulsiva da dúvida instaurada pelo fato, isto é, a dúvida que surge ao colocar em crise uma teoria na qual nós cremos. A dúvida legítima é aquela que efetivamente abala uma crença, ou seja a crença não é mais operativamente guia de conduta habitual. (Ibri, 1997)

Nossas crenças guiam nossas condutas, então nossa conduta habitual é balizada pelas nossas crenças, quando este balizamento se vê abalado pela dúvida, o hábito tende a se romper. Duvidar realmente é incorporar a dúvida na conduta, pois a dúvida real incomoda os hábitos de ação, perturba e intranqüiliza, gera angústia de dualidade lógica e obriga a mente e o espírito à solução da dúvida, ou seja, a voltar a um novo estado de equilíbrio, onde se adquire novos hábitos que possam balizar a conduta diante da alteridade. Assim, segundo Peirce, o fim da investigação é a concordância de opiniões, embora este fim não seja definitivo, ele recupera e estabiliza a crença. "A investigação científica é crítica, coletiva, falível e contínua." (Bernstein, 1990:196) Não se pode estar certo de que uma comunidade chegará a uma conclusão inalterável sobre dada questão. Mesmo que chegue não se pode esperar unanimidade completa ou consenso, para toda e qualquer questão, mas tudo que podemos esperar é que tal conclusão possa ser substancialmente alcançada para algumas questões particulares com que nos ocupamos em nossas investigações. (CP 6.610) Crença e dúvida são modos de ação. As ações tendem a se repetir criando hábitos, e a dúvida é a privação de um hábito. Os hábitos influenciam a natureza dos pensamentos futuros, ou seja, o hábito envolvido numa crença é a expectativa de que certos efeitos a serem produzidos pelo objeto da nossa investigação sejam significados da crença.

Investigar é tornar uma crença cada vez mais determinada. As crenças indubitáveis assim o são porque são indeterminadas. Quanto mais determinada uma crença mais ele pode ser assaltada pela dúvida. Compreender uma crença é expô-la a uma variedade de situações ainda não determinadas. Para Peirce, a crença não é uma simples fórmula verbal, é a conclusão de um processo inferencial que envolve a vida ativa e sensória do homem. (SANTAELLA, 1993:64)

73

A investigação corresponde à determinação da crença, sendo para isso necessários os métodos. Peirce privilegia o método da ciência que apresenta dois aspectos básicos: de levar ao estabelecimento de teorias amplamente aceitas e o de nos forçar a olhar a permanência externa das coisas.

Para aplacar nossa dúvida, faz-se necessário, por conseguinte, que se encontre método por força do qual nossas crenças passem a ser determinadas não por algo humano, mas por algo externo e estável - por algo que nossa reflexão não tenha efeito.(...) O algo externo e estável a que nos referimos não seria externo no sentido indicado, caso sua influência atingisse um único indivíduo. Devemos dispor de algo que afete ou possa afetar todas as pessoas. E embora as maneiras de afetar sejam necessariamente tão diversas quanto às condições individuais, o método deve ser tal que a conclusões últimas de todas as pessoas sejam as mesmas. Tal é o método da ciência. (PEIRCE, 5.384).

Portanto, no método da ciência, mais tarde chamado pragmático, nossas crenças são determinadas por algo externo independente de nossas fantasias, sendo que os resultados a que chegamos devem atender à realidade e ser também submetidos à crítica dos outros.

Mas como é que uma grande variedade de observações e processos pode levar a uma conclusão que seja aceita por todos aqueles que a compreendem? Para Peirce, quando diferentes pesquisadores concordam com um resultado final, isto não é simplesmente um fato bruto. Ao contrário há convergência de opiniões, observações, idéias e pontos de vista. A explicação para isto está contida na sua teoria da realidade, como resultado final da investigação. A realidade não é só alguma coisa que tem correspondência com o mundo, mas é aquilo a que se chega ao acordo final da investigação. 79

Do fato de que o real permanece inafetado pelo que pensamos (CP 8.12); do fato de que o real é independente do que dele se possa pensar (CP 5.405); do fato de que uma comunidade de investigadores utilizando um método correto chegará a uma opinião com a qual todos concordarão (opinião esta cujo objeto é o real e que não depende das opiniões individuais CP 5 407), emergem três idéias: 80

79

(CP 1.420, 2.5661, 4.580, 5.453, 5.467, 5.528, 6.327) Ver S .Rosenthal (1994) op. cit p. 10-11 e Smith (1983) op cit p. 42-43. 80 (CP 4.61, 6610, 5.407. 2781, 5.311, 4.547) 74

1.a realidade tem uma espécie de independência com relação àquilo que está sendo pensado e representado. 2.a realidade está essencialmente relacionada com o pensamento e as idéias 3.a idéia de realidade é a resultante final da investigação.

Neste contexto Peirce faz a seguinte suposição:

Suponha que nossa opinião com referência a uma dada questão esteja completamente estabelecida, de tal modo que mesmo que se a investigação for levada adiante, ela não nos ofereça mais surpresas neste ponto. Então poderemos dizer que alcançamos o perfeito conhecimento sobre essa questão. (Peirce, CP 4.62) 81

A investigação tem, portanto uma estrutura lógica e seu objetivo é o conhecimento do real. Por outro lado, a crença tende a se fixar gradualmente por influência da investigação (CP 2.693), ou seja a longo prazo o processo de “inquiry” tende a convergir para o limite e estabilização da crença.

A idéia de ciência como uma atividade na qual se engaja uma comunidade de pesquisadores e a concepção de realidade como opinião final obtida no processo do “inquiry” podem ser analisadas como recíprocas. Ou segundo Peirce:

Não há como escapar da admissão de que o fim último da investigação - o essencial, não fim ulterior - o molde segundo o qual tentamos formar nossas opiniões, não pode ser ele próprio da natureza de uma opinião. Pudesse ele ser concebido, deveria ser como uma imagem insistente, não se referindo a mais nada, e naquele sentido concreto. (Peirce, CP 8.104) 82

Segundo Serson (1993:1) a Teoria da Investigação é fundamentada na distinção entre abdução, dedução e indução, “repousando precisamente sobre a formalização de um ciclo comum a todo processo de aquisição de conhecimento: abdução/dedução/indução/abdução.”

81

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: "Suppose our opinion with reference to a given question to be quite settled, so that inquiry, no matter how far pushed, has no surprises for us on this point. Then we may be said to have attained perfect knowledge about that question."(CP 4.62) 82 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: "There is no escaping the admission that the ultimate end of inquiry -- the essential, not ulterior end -- the mould to which we endeavor to shape our opinions, cannot itself be of the nature of an opinion. Could it be realized, it would rather be like an insistent image, not referring to anything else, and in that sense concrete.”(CP 8.104). 75

Por ser extremamente geral, a teoria geral da investigação pode descrever, em um plano estritamente lógico, tanto um sistema cognitivo biológico ou artificial (perspectiva cognitiva), como também uma comunidade científica trabalhando com um método estabelecido (perspectiva epistemológica). (SERSON, 1993:1)

2. A questão do método em Peirce.
“Enfim, a questão do método está no coração da obra de Peirce, e se ignorarmos este coração, sua obra não funciona.”(SANTAELLA, 1993 b:20)

A discussão da questão do método em Peirce está intimamente ligada às indagações sobre sua fundação epistêmica, sendo para isso fundamental entender sua visão anticartesiana.

Descartes inaugura uma filosofia rigorosa à luz da ciência com base na nossa racionalidade, que é um alicerce seguro. Devemos abandonar velhas crenças e vamos começar abandonando a mais básica delas, isto é, começamos duvidando da própria existência. Por outro lado, se existo como ser pensante, devo ter uma causa para existir, ou seja, meu eu requer um criador, então Deus existe porque eu existo, porque ele é o meu criador.

Segundo Descartes, Deus ilumina minha mente para que eu tenha idéias verdadeiras, já que idéias claras e distintas são verdadeiras e Deus na sua bondade não deixa que eu me engane. Esta é a condição de verdade para Descartes. As verdades surgem com idéias claras e distintas, porque Deus ilumina nossa mente e não deixa que ela seja iludida pelo demônio. O critério de verdade cartesiano depende de Deus.

Então, em primeiro lugar admitimos uma entidade metafísica, Deus, para que ela legitime a condição de verdade, ou seja, a lógica depende da metafísica. Descartes introduz de maneira definitiva na filosofia a idéia de sujeito, com o método da dúvida. O Cogito é a descoberta do eu. Ele pretende que o método da dúvida seja realmente método e leva esta dúvida ao ponto radical de modo que ele passa a duvidar da sua própria existência.

76

Para Descartes a alma, o espírito, a mente nada tem a ver com a matéria. Peirce tem uma posição diferente, ele retoma a idéia de cosmologia. Para Peirce, natureza e mente são cosubstanciais. Pensamento, signo, construção simbólica, existem tanto na interioridade como na exterioridade, e o fundamento do mundo é justamente a idealidade. Matéria, para Peirce é uma espécie de “mente exaurida, cansada, que tem hábitos enraizados e alto grau de uniformidade”. 83

Na cosmologia de Peirce, a ordem surge da desordem, o cosmos surge do caos e lei surge do acaso. Acaso é primeiro, onde não havia lei, só havia acaso puro. Cosmo é um sistema de hábitos. A natureza tem a tendência de adquirir hábitos, mas esta tendência de adquirir hábitos é uma tendência típica da mente. (CP 6.102)

Nós observamos esta tendência na mente humana, nós temos esta tendência de adquirir hábitos, portanto a natureza tem um substrato mental. A substância primária da natureza é mente. Peirce, portanto rompe a dualidade mente-matéria, que seriam substâncias inconciliáveis, e introduz o idealismo. Tudo é idealidade, mundo é idealidade, mundo e idealidade são consubstanciais. Hábito é aquisição ao longo do tempo e a natureza adquire hábitos na forma de leis. Terceiridade é hábito. A própria idéia de hábito implica a idéia de repetição, de contínuo. Em "Reason's Conscience"84, Peirce critica a narrativa que Descartes faz no "Discurso do Método", a respeito do dia em que resolveu duvidar de tudo e, acabou descobrindo que só havia uma coisa da qual não podia duvidar: só não podia duvidar de que duvidava. Este foi, segundo Peirce, o erro central de Descartes. Além disso, havia várias outras coisas das quais Descartes não poderia duvidar, isto é, bastaria testar a si próprio para verificar que algumas de suas dúvidas eram puramente imaginárias. Para Descartes, as crenças básicas são indubitáveis, verdadeiras e auto-evidentes.

Para Peirce o critério de indubitabilidade não é apropriado, como também não é apropriada a “crença comum” de que uma demonstração deve se apoiar em certas proposições últimas e absolutamente indubitáveis. Este critério tem se mostrado particularmente frágil e de
83 84

I.Ibri, (1996 a)"A Física da Physis", Revista HYPNO : Reflexões sobre a natureza, Educ - Palas Athena, n.2.p.23-31. C. Eisele, (1985) op.cit. p. 829 77

vida curta e muito do que tem sido considerado indubitável num determinado dia tem sido provado falso na manhã seguinte. (CP 5.514)
Meu ensaio original, escrito para uma revista popular mensal, assume por nenhuma razão melhor do que essa que a verdadeira investigação não pode começar até que um estado de dúvida verdadeira comece e acabe tão logo a crença seja atingida, aquele da "estabilização da crença", ou em outras palavras um estado de satisfação, é tudo no que consiste a verdade ou o alvo da investigação. (PEIRCE, CP 6.485)85

Peirce mostra que razão e instinto não são inseparáveis como quer Descartes. Essa rejeição de Peirce ao cartesianismo está na base de suas teorias da ação mental, dos signos, da cognição, da investigação científica e dos métodos.

Para Santaella (1993 b:23), a herança cartesiana não é algo de que podemos nos descartar, e deve ser encarada de frente, sob pena de cairmos no outro extremo, do anarquismo metodológico e desprezando ensinamentos lógicos que podem guiar os passos do investigador.

Peirce, portanto, rejeita a tradição fundacionalista da busca dos fundamentos seguros nos quais se constrói toda a estrutura do conhecimento humano. Peirce parte do princípio de que o problema filosófico consiste em explicar como este conhecimento é possível.

Segundo P. Skagestad, (1981), The Road Of Inquiry-Charles Peirce's Pragmatic Realism,.p.18-19, a rejeição fundacionalista é um marco revolucionário na epistemologia. De um lado, deve-se descartar a esperança cartesiana de encontrar alguma garantia absoluta para a validade de nosso conhecimento. Esta garantia não pode ser encontrada. Por outro lado não se pode chegar nem ao ceticismo de Hume, nem ao de Descartes.

Descartes expõe o método da dúvida como o método correto para se chegar à certeza, usa a dúvida como método, é um cético metodológico: começar duvidando de tudo para chegar à certeza absoluta, chegar à verdade.

85

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: "My original essay, having been written for a popular monthly, assumes, for no better reason than that real inquiry cannot begin until a state of real doubt arises and ends as soon as Belief is attained, that "a settlement of Belief," or, in other words, a state of satisfaction, is all that Truth, or the aim of inquiry, consists in. " (CP 6.485) 78

Hume não é um cético metodológico, ele realmente duvida. Ele entra profundamente na especulação cética, tanto que se declara angustiado, confessando que perdeu sua autoidentidade. Hume mina o que Kant mais tarde vai chamar de “bases dogmáticas da filosofia”. Hume vai minar a idéia dogmática de contínuo, de continuidade, o contínuo da temporalidade real, da espacialidade real, das predicações reais. O que Hume vem minar é a idéia de que estas regularidades permaneçam regularidades. Esta tal regra que se supõe que exista, é razoável acreditar que ela permanecerá no futuro como regra? Como poderemos saber se o sol nascerá amanhã?

Esta questão é importante, porque ela questiona todo nosso saber, toda a estrutura íntima do nosso saber. Quando questionamos a validade daquilo que observamos, ontem e hoje, com relação a não ser válido para o futuro, estamos questionando fundamentalmente a básica estrutura do saber, estamos questionando se é possível conhecer alguma coisa. Estamos admitindo que pelo menos as coisas do passado eu posso conhecer, mais conhecer o passado será sinônimo de conhecer? Podemos subtrair do conceito de conhecer a idéia de predizer? Hume colocou uma questão muito difícil: como é que provamos a continuidade da ordem na natureza, como é que nós temos a certeza de que esta ordem natural permanecerá no futuro? Esta é a questão da causalidade. O que eu observo ser causal vai permanecer causa no futuro? Este é um problema da indução, porque é um problema da causalidade. A partir da observação de casos particulares pode-se generalizar, isto é indução. Hume mina isto, ele indaga como é que de uma observação de casos particulares eu construo uma regra geral? Para Hume, esta regra geral só tem fundamento psicológico. Os fatos induzem esta regra geral.

Para Peirce, ceticismo total é tão impossível como certeza absoluta. Sua resposta para o ceticismo está no pragmatismo, o conceito assume significado quando acarreta uma totalidade de experiências. O conceito assume significado quando molda a conduta.
Nada é vital para a ciência, nada pode ser. Suas proposições aceitas, entretanto, não são mais do que opiniões, e toda a lista é provisória. O homem científico não está minimamente atado às suas conclusões. Ele não arrisca nada por elas. Ele está pronto a abandoná-las tão logo a experiência a elas se oponha [...] Não há, portanto, nenhuma proposição em ciência que responda à concepção de crença. Mas em questões vitais é bastante diferente. Devemos agir em tais questões, e o princípio sob o qual estamos dispostos a agir é a crença. (Peirce, CP 1.635-36) 86

86

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “Nothing is vital for science; nothing can be. Its accepted propositions, therefore, are but opinions at most; and the whole list is provisional. The scientific man is not in the least 79

Para Peirce, os métodos são adotados para minimizar as surpresas e reduzir o erro, conforme a seguinte passagem do texto "Reason's Conscience"87:
O modo mais lógico de raciocínio é o método que enquanto alcança alguma conclusão nos garante contra surpresas, ou, se você preferir o método que enquanto nos traz tanto quanto mínimo possível de surpresas, produz o máximo de expectativas... (R 693 p.166)88

Hookway em "Truth and The Aims of Inquiry"89, observa que para Peirce não há verdades que não possam ser conhecidas por aqueles que conduzem ou praticam corretamente seu raciocínio. Exercer o autocontrole sobre o raciocínio não pode ser diferente da adoção do método científico. Peirce tinha confiança na sua justificativa da indução e acreditava que mais cedo ou mais tarde todos reconheceriam que as hipóteses são produzidas e testadas experiencialmente e que o progresso científico requer uma fonte confiável de hipóteses e meios eficientes para testá-las. (NEM iii 211)

Santaella, em "Metodologia Semiótica" aponta quatro níveis dos quais depende a compreensão da concepção que Peirce tinha de método. O primeiro nível, cronologicamente mais antigo, está nos artigos anti-cartesianos, (que são discutidos no item 2.1 deste capítulo). O segundo nível está na lógica crítica, ou estudo dos tipos de argumento (ver item 4 do capítulo I). O terceiro nível lida especificamente com a questão da metodologia, que é discutida no item 2 deste capítulo e o quarto nível é o pragmatismo, como ponto de convergência e união das idéias de método. O pragmatismo permeia todo o pensamento peirceano, e ao longo deste trabalho são feitas inúmeras referências a ele.

wedded to his conclusions. He risks nothing upon them. He stands ready to abandon one or all as soon as experience opposes them (...) There is thus no proposition at all in science which answers to the conception of belief. But in vital matters, it is quite otherwise. We must act in such matters; and the principle upon which we are willing to act is a belief.” (CP 1.635-36) 87 Apud C. Hookway, (1992) “Truth and The aims of Inquiry” em Peirce, p. 67. 88 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “The most logical way of reasoning is the method which while reaching some conclusion will the most ensure us against surprise, or, if you please the method which while leading us as seldom as possible into surprise, produces the maximum expectation, or again, which leads us by the shortest cut to maximum of expectation and the mimimum of surprise.” (R693p.166) 89 C. Hookway, (1992), op.cit. p. 41-79. 80

2. 1. O anti-cartesianismo peirceano90
"Se os termos 'verdade' e 'falsidade' usados por você forem tomados em
acepções que sejam definíveis em termos de dúvida e crença e de curso da experiência (tal como, por exemplo, eles o seriam se você definisse 'verdade' como uma crença para a qual a crença tenderia se tendesse indefinidamente para uma fixidez absoluta) muito bem; nesse caso, você só estaria falando de dúvida e crença. Contudo, se por verdade e crença você entender algo que não seja de modo algum definível em termos de dúvida e crença, neste caso estará falando de entidades de cuja existência você nada pode saber, e que a navalha de Ocam eliminaria de imediato. Os problemas seriam muito simplificados se, em vez de dizer que deseja conhecer a’verdade’, você dissesse simplesmente que deseja alcançar um estado de crença inatacável pela dúvida". (Peirce, CP 5.411).

O anti-cartesianismo de Peirce foi discutido principalmente em um conjunto de ensaios que fazem parte de uma série conhecida como “cognition series”, e foram publicados entre 1868 e 1869 pelo The Journal of Speculative Philosophy: 1. “Questões Referentes a Certas Faculdades Reivindicadas pelo Homem” (CP 5.213-63), 2. “Algumas Conseqüências das Quatro Incapacidades” (CP 5.264-317) 91 e, 3. “Fundamentos para a Validade das Leis da Lógica: Outras Conseqüências das Quatro Incapacidades”. (CP 5.318-57)

Os títulos destes artigos lembram as querelas medievais e na verdade os artigos foram escritos na forma de querelas, abrindo com a lista das questões em disputa, procedendo com os argumentos pró e contra, e finalizando com as conclusões do autor para cada questão.
92

Houser

inclui entre os textos da série cognitiva a resenha do livro de Fraser "As obras de

George Berkeley" e "On a new class of Observations suggested by the principles of Logic"(Ms1104).

90

B. Serson, (1997) “On Peirce‟s Pure Grammar as a general theory of Cognition: From the thought sign of 1868 to the semeiotic theory of assertion”, Semiotica, 113-1/2. P.107-157, C. Hookway, (1992), op.cit. p.41-77, Delaney (1993) "The Critique of Cartesian Epistemology" The relevance of Charles Peirce, p. 85-129, e H.B. Garewicz, (1994), "Peirce and Descartes", Living Doubt, p.151-155. 91 Segundo Murphey, a teoria das categorias seria parte da teoria da cognição. Segundo ele, os textos “Questões Referentes a Certas Faculdades Reivindicadas pelo Homem” (CP.5.213-63), “Algumas Conseqüências das Quatro Incapacidades” (CP.5.264-317) “Fundamentos para a Validade das Leis da Lógica: Outras Conseqüências das Quatro Incapacidades”. (CP.5.318-57), conhecidos como a série da cognição, na verdade, seriam destinados a um trabalho maior da qual o texto "New List of Cathegories" seria apenas um dos capítulos. 92 N. Houser, (1992) The Essential Peirce-Selected Philosophical Writings, Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press, p. 83/108. 81

A crítica de Peirce não é dirigida somente a Descartes mas ao cartesianismo. Esta rejeição é conseqüência de uma busca de uma fundação epistêmica a que as ciências já estavam apontando na segunda metade do século passado. Peirce inclui nesta controvérsia os empiristas ingleses, cujas doutrinas tendiam para o nominalismo. Há alguns trechos que podem ser lidos como respostas a Hume, já que para Peirce o "espírito do cartesianismo" significava o "espírito do nominalismo". (CP 5.264, 5.310).

De forma simplificada, a fonte do cartesianismo está na intuição e seu alvo sendo o conhecimento certo e seguro. Dada qualquer proposição se ela for original, imediata e não determinada (não necessitando de demonstração) é possível se chegar a partir dela à certeza do conhecimento. É interessante observar que a existência da intuição, para Peirce, envolve a existência de um objeto transcendental, o que seria uma falácia levando ao nominalismo. Esta negação peirciana também pode ser vista como um ataque ao empirismo inglês, para quem a existência da intuição era um axioma.

Para Peirce nada mais inadequado do que fundar o conhecimento na intuição, o que significaria depositar na consciência individual a certeza do conhecimento. Peirce acredita na transcendência dos interesses individuais.

A filosofia de Descartes começa com a dúvida que é algo que Peirce não aceita, para quem a filosofia deve começar com as crenças, porque só conseguimos nos livrar das crenças pela experiência. As crenças nos foram impressas no espírito pela experiência, não nos livramos delas por um ato de arbítrio, não podemos acreditar em coisas falsas.

Como a filosofia de Peirce é evolucionista, ele acredita que a verdade é atingível num processo a longo prazo, a "verdade é alguma coisa que resiste a ser durante muito tempo ignorada". À medida que se reconhece a natureza evolutiva da realidade, se reconhece a incompletude do conhecimento. O espírito da ciência anima aqueles que dão suporte à teoria do falibilismo, segundo a qual nosso conhecimento nunca é absoluto, mas navega num “continuum” de incerteza e indeterminação. (CP1.135, 1.170-75).

A verdade, para Peirce, consiste na existência de um fato real correspondente a uma proposição verdadeira, verdade esta que é perseguida tanto pelos indivíduos como pelas
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comunidades. A comunidade pode ser tanto presente como futura, pode ser real ou ideal. Comunidade seria um conjunto de indivíduos unidos pela prática da ciência, colaborando na busca da verdade ou do conhecimento. (CP 2.647-658)

O primeiro artigo da série da cognição "Questões Referentes a Certas Faculdades Reivindicadas pelo Homem" desmonta implacavelmente os argumentos nos quais se funda o cartesianismo, cujo núcleo está no conceito de intuição e introspecção. Para Peirce, a realidade é independente de nossas opiniões, mas ela afeta nossos sentidos de acordo com leis regulares , assim através da percepção podemos estabelecer pelo raciocínio como as coisas são realmente e verdadeiramente.

Neste artigo, Peirce enumera sete capacidades mentais que a filosofia cartesiana atribui aos homens, e para cada uma delas pesa os argumentos a favor e contra, concluindo que a faculdade em questão pode ser reduzida a algo mais simples.

As faculdades questionadas neste artigo são as seguintes: 1) se através da simples contemplação de uma cognição independentemente de qualquer conhecimento anterior e sem raciocinar a partir de signos, estamos corretamente capacitados a julgar se essa cognição foi determinada por uma cognição prévia ou se refere imediatamente a seu objeto; 2) se temos uma autoconsciência intuitiva; 3) se temos um poder intuitivo de distinguir entre os elementos subjetivos de diferentes tipos de cognições; 4) se temos algum poder de introspecção, ou se todo nosso conhecimento do mundo interno deriva da observação dos fatos externos; 5) se podemos pensar sem signos; 6) se um signo pode ter algum significado uma vez que, por definição, é o signo de algo absolutamente incognoscível e 7) se há alguma cognição não determinada por uma cognição anterior. Para Peirce o termo “intuição será tomado como significando uma cognição não determinada por uma cognição prévia do mesmo objeto” e, conseqüentemente determinada por algo fora da consciência. A crença na intuição e na certeza que ela acarreta produz um abrigo seguro contra a indeterminação, o provisório, o erro. Até então, a intuição era tomada como um sinônimo de inspiração na qual repousavam os poderes humanos da descoberta. Para Peirce há, portanto, uma diferença entre ter uma intuição e pensar que ela é intuitiva, como também é impossível distinguir uma cognição derivada de uma intuitiva.
83

[...]. a questão consiste em saber se estas duas coisas, distinguíveis no pensamento , estão de fato, invariavelmente conectadas, de forma tal que podemos sempre distinguir intuitivamente entre uma intuição e uma cognição determinada por uma outra [..] Neste caso, eu diria que tivemos um poder intuitivo de distinguir uma intuição de outra cognição. Não há evidências de que temos esta faculdade, exceto que parecemos sentir que a temos. (PEIRCE, CP 5.214)

Por outro lado, não temos uma autoconsciência intuitiva. Para Peirce a autoconsciência é a recognição de interioridade privada (sei que eu existo). Esta autoconsciência é distinta da consciência em termos gerais, do sentido interno e da apercepção. Esta autoconsciência é inferencial, isto é, só temos consciência do mundo exterior, que existe como algo diferente do eu, quando erramos. Com respeito ao poder intuitivo de distinguir entre os elementos subjetivos de diferentes tipos de cognições, para Peirce, embora haja distinção entre os diferentes objetos ou conteúdos da consciência, isto não serve como prova de que somos capazes de distinguí-los intuitivamente. Para ele a habilidade humana de diferenciar crenças e conceitos, do imaginado e do real, foi tomada como evidência de que temos uma faculdade intuitiva. Esta questão é uma preparação para se entender a questão da introspecção, isto é, só conhecemos nosso ego individual através de referências a partir de fatos externos. A autoconsciência e nosso conhecimento do mundo interior só podem ser explicados por uma teoria inferencial alternativa.

Para complementar esta questão Peirce introduz a teoria dos signos. Não há inferência possível sem signos.
Da proposição de que todo pensamento é um signo, segue-se que todo pensamento deve endereçar-se a algum outro pensamento, deve determinar algum outro pensamento, uma vez que essa é a essência do signo. Portanto, dizer que o pensamento não pode acontecer num instante, mas que requer um tempo, não é senão outra maneira de dizer que todo pensamento deve ser interpretado em outro, ou que todo pensamento está em signos. (PEIRCE, CP 5.215)

Esta afirmação implica a continuidade anterior e posterior dos signos (Terceiridade) contra a imediatidade e instantaneidade (Primeridade) do fundamento da intuição no conceito de Descartes. Em Descartes, a intuição é intelectual, se intuir pensando. Intuição tem um sentido técnico de uma cognição ou percepção imediata, sem mediações, Primeiridade.
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A questão referente ao significado de um signo já que por esta definição, ele é o signo de algo absolutamente incognoscível, é resolvida por Peirce através da conclusão que, embora a verdade das proposições universais e hipotéticas não possa ser conhecida com certeza, ela provavelmente poderá ser conhecida por indução. Aqui Peirce começa a insinuar algumas idéias a respeito da importância do método científico na fixação das crenças.

Peirce sustenta que toda cognição é determinada por outra, atacando o postulado aristotélico-cartesiano de que as premissas primeiras (originárias) são indemonstráveis. Para Peirce a certeza intuitiva é psicológica e não lógica, ele mostra que as cognições intuitivas não podem ser tomadas como sinônimo de certeza e infalibilidade. Nós podemos ter intuições, mas nunca poderemos ter certeza de que essas intuições são originárias. Peirce rejeita a dúvida total, a certeza, a clareza, o método, a verdade, o incognoscível como origem.

Peirce introduz a doutrina do falibilismo, segundo a qual nosso conhecimento envolve a nossa tendência ao erro, envolve certa indeterminação diante do objeto. Assim, nossas verdades não são verdades finais, porque verdade é uma propriedade da teoria. Portanto, falar em verdade final é um absurdo diante de um objeto que não é final, diante de um objeto que está evoluindo. As leis vão sendo formadas pela aquisição de hábitos, mas há sempre um resíduo de acaso. A diversidade cresce, e o universo se complexifica.

O objeto da teoria é profundamente dinâmico e quanto mais vivo, maior grau de erraticidade, menos submetido à lei, embora não seja possível a vida sem lei, nenhum sistema vivo sobrevive sem hábito, sem estar submetido a regras de conduta, sem organização. A verdade é sempre evolucionária, porque o objeto é dinâmico, ele cresce, ele se modifica, tem graus variáveis de erraticidade.

Peirce inclui o papel da dúvida na investigação, estabelecendo as bases para a criação de um novo método. Isto é desenvolvido no segundo artigo “Algumas Conseqüências das Quatro Incapacidades”.

A passagem seguinte Peirce resume o que entendia por cartesianismo:
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1. “O cartesianismo ensina que a filosofia deve começar com a dúvida universal, ao passo que o escolasticismo nunca questionou os princípios fundamentais. 2. Ensina que a comprovação final da certeza encontra-se na consciência individual, ao passo que o escolasticismo se baseou no testemunho dos doutos e da Igreja Católica. 3. A argumentação multiforme da Idade Média é substituída por uma linha singular de inferência que freqüentemente depende de premissas imperceptíveis. 4. O escolasticismo tinha seus mistérios de fé, mas empreendeu uma explicação de todas as coisas criadas. Todavia, há muitos fatos que o cartesianismo não apenas não explica como também torna absolutamente inexplicáveis, a menos que dizer que “Deus os fez assim” há de ser considerado como explicação." (Peirce, CP 5.264)

Peirce refuta o cartesianismo não para voltar ao escolasticismo, mas para atender às exigências da ciência e da lógica modernas estabelecendo que “não podemos começar uma investigação a partir da dúvida completa", porque nenhuma investigação parte do nada. Alem do que não podemos começar pela dúvida em parte porque é impossível psicologicamente, em parte porque não há intuições ou premissas originárias e em parte porque o senso comum nos diz que não duvidamos daquilo que de verdade não duvidamos. “Não pretendemos duvidar filosoficamente daquilo que não duvidamos em nossos corações.” A dúvida real é um estado doloroso e desconfortável.

A dúvida cartesiana é irreal, não passando de mero formalismo, o mesmo formalismo que aparece na noção de verdade cartesiana, "tudo aquilo de que eu estiver claramente convencido é verdadeiro”. Para Peirce quem está realmente convencido não precisa de raciocínio e não exige comprovação de certeza. Pelo contrário, a verdade depende de uma comunidade de investigadores e não de um indivíduo isolado e fechado em suas certezas. A certeza não deve ser processada nas verdades individuais. “Em ciências em que os homens chegaram a um acordo, quando uma teoria é trazida à baila, considera-se que ela está em prova até que este acordo seja alcançado.“ (PEIRCE, CP 5.265)

Assim, a filosofia deveria imitar os métodos das ciências, adaptando-os às suas necessidades e natureza. As ciências que obtêm resultados confiam na multiplicidade e na variedade dos argumentos e não numa única cadeia de argumentos como propõe Descartes.

Por outro lado, supor algo inexplicável como originário só pode ser feito através do raciocínio em signos, mas a única justificativa para uma inferência a partir de signos é que a conclusão explique o fato. Supor que o fato seja absolutamente inexplicável é não explicá-lo
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e, por conseguinte, esta suposição nunca é permitida. A crítica ao espírito cartesiano resultou em quatro incapacidades:
1. “Não temos poder algum de Introspecção mas sim, todo conhecimento do mundo interno deriva-se, por raciocínio hipotético, de nosso conhecimento de fatos externos. 2. Não temos poder algum de Intuição mas, sim, toda cognição é determinada logicamente por cognições anteriores. 3. Não temos poder algum de pensar sem signos. 4. Não temos concepção alguma do absolutamente incognoscível “ (PEIRCE, CP 5.264)..

Dessa forma, Peirce ataca o Cogito de Descartes, isto é, o eu penso como um ponto original e fundamental para se chegar ao conhecimento do mundo, negando que todo conhecimento inferido e derivado necessita ser justificado por uma dedução lógica a partir de um conjunto de premissas que são elas próprias intuições.

Um sujeito individual não pode alimentar a expectativa de que tenha condições de atingir qualquer certeza, como a teoria da intuição nos leva a supor. A certeza, sempre provisória, é uma questão coletiva, há uma comunidade de pensamento. A continuidade das idéias não pode ser limitada às idéias de um único indivíduo. O eu que aparece é uma fonte de erro e só pode ser explicado pela suposição de que existe um “self” que é falível. (CP 5.234)

Para Descartes todo conhecimento teria seu início nas percepções recebidas pelos sentidos. Mas, para Peirce percepções por si mesmas não constituem conhecimento e não podem servir de premissas para inferir conhecimento. Aceitar a primeira proposição de que não temos poder introspectivo, sendo nosso conhecimento do mundo interior derivado de hipóteses a partir do conhecimento de fatos externos, significa ter de abandonar os preconceitos arraigados e crenças numa autoconsciência intuitivamente acessível.

Peirce está, portanto, preocupado em evitar o dogmatismo de que certas crenças estão, em princípio imunes à discussão e críticas, como também evitar o ceticismo.93

Para Peirce, a cognição só pode existir num processo contínuo. A continuidade é expressada nas formas das inferências válidas que são três: dedução (é o raciocínio
93

E. Saporiti,(1995) A Interpretação, p 18-24. 87

necessário), indução (o raciocínio procede como se todos os objetos dotados de certos caracteres fossem conhecidos) e hipótese ( ou abdução, que é a inferência que procede como se todos os caracteres necessários para a determinação de um certo objeto ou classe fossem conhecidos). A cognição não tem início numa intuição mas é o resultado de uma inferência que ocorre num processo cuja origem e cujo fim não se pode precisar. Embora, posteriormente Peirce mude sua maneira de pensar, na época em que escreveu este artigo, ele acreditava que toda inferência tem a forma de um silogismo padrão resultando nos três tipos de raciocínios possíveis: hipótese, indução e dedução. Do fato de que não temos poder algum de pensar sem signos, decorre que em qualquer momento que temos um pensamento, estará presente na consciência algum sentimento, imagem ou concepção, ou outra representação que serve como signo.
Ora, um signo tem, como tal, três referências; o primeiro, é um signo para algum pensamento que o interpreta; é um signo de algum objeto ao qual, naquele pensamento é equivalente; terceiro, é um signo, em algum aspecto ou qualidade, que o põe em conexão com seu objeto. (PEIRCE, CP 5.283)

Dessa forma o pensamento-signo se refere a algo exterior, quando uma coisa real é pensada, mas sendo o pensamento determinado por um pensamento precedente do mesmo objeto, ele só pode se referir à coisa exterior, denotando este pensamento prévio. Peirce retoma a negação da cognição originária na postulação de que não há pensamento ou cognição ou signo que não seja precedido por um pensamento anterior. Pensamentos são eventos, cada pensamento é um evento no tempo, portanto aqui se evidencia a posição de Peirce com respeito à concepção de instantaneidade e imediaticidade legadas pela tradição aristotélico-cartesiana. Para Descartes imediaticidade significava contato direto da mente com o objeto da compreensão, produzindo certeza e infalibilidade. Para Peirce, significava que na imediaticidade e na presentidade, o pensamento nada significa, pois o pensamento em si mesmo não pode ser diretamente conhecido. Pensamento é um processo ininterrupto em uma relação de três elementos: signo, pensamento, objeto, ou pensamento precedente, ao qual o signo se segue e pensamento subseqüente.
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A presentidade não tem valor intelectual, sendo assim, os conteúdos da consciência não são conhecidos em si mesmos, mas apenas através da ação mental. Daí decorre que não há conhecimento sem interpretação, visto que todo conhecimento é condicionado pelos fatores anteriores a ele no processo de cognição e só se revela no momento em que é interpretado num conhecimento subsequente.94 Ao dizer que “não temos concepção alguma do absolutamente incognoscível”, o que está sob ataque é o conceito kantiano de “coisa-em-si”. Peirce argumenta que a nossa concepção de alguma coisa está ligada a concepção desta alguma coisa como objeto possível de conhecimento, portanto o conceito de coisa em si incognoscível é auto-contraditório.

Nós chegamos agora à consideração do último dos quatro princípios cujas conseqüências vamos traçar, a saber, que o absolutamente incognoscível é absolutamente inconcebível. De que com respeito aos princípios cartesianos as verdadeiras realidades das coisas não podem ser nunca ser conhecidas de qualquer maneira, muitas pessoas competentes estão há muito convencidas. Daí, a irrupção do idealismo, que é essencialmente anti-cartesiano, em todas as direções, seja entre os empiristas (Berkeley, Hume), ou entre os noologistas (Hegel, Fichte). O princípio que agora é trazido à discussão é diretamente idealístico, porque desde que o significado de uma palavra é a concepção que ela transmite, o absolutamente incognoscível não tem significado porque nenhuma concepção a ele se liga. É, portanto, uma palavra sem sentido e conseqüentemente, tudo que seja significado por qualquer termo como „o real‟ é cognoscível até certo ponto e, assim, é da natureza da cognição, no sentido, objetivo do termo. (PEIRCE, CP 5.310) 95

Para Peirce, a qualquer momento nós estamos de posse de certas informações, de cognições que foram logicamente derivadas por indução e hipóteses de cognições prévias, que são menos gerais, menos diferentes, e das quais nós temos uma consciência menos vívida. Estas, por sua vez, foram derivadas de outras ainda menos gerais, menos diferentes e menos vívidas e assim por diante até voltar ao primeiro ideal, que é bastante singular e bastante fora da consciência. Este primeiro ideal é a “coisa-em-si” particular. “Não existe como tal, isto é,

94

Existe consenso entre os comentadores de Peirce que estes textos, embora da juventude, cujos conceitos vão sendo amadurecidos, já deixam evidentes alguns pontos muito importantes na obra de Peirce: o falibilismo, o pragmatismo, sua teoria da percepção, o conceito de signo triádico. 95 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “We come now to the consideration of the last of the four principles whose consequences we were to trace; namely, that the absolutely incognizable is absolutely inconceivable. That upon Cartesian principles the very realities of things can never be known in the least, most competent persons must long ago have been convinced. Hence the breaking forth of idealism, which is essentially anti-Cartesian, in every direction, whether among empiricists (Berkeley, Hume), or among noologists (Hegel, Fichte). The principle now brought under discussion is directly idealistic; for, since the meaning of a word is the conception it conveys, the absolutely incognizable has no meaning because no conception attaches to it. It is, therefore, a meaningless word; and, consequently, whatever is meant by any term as "the real" is cognizable in some degree, and so is of the nature of a cognition, in the objective sense of that term.” (Peirce, CP 5.310) 89

não existe a coisa que é, em si mesma, no sentido de não ser relativa à mente, embora coisas que são relativas à mente sem dúvida existem à parte desta relação.” (CP 5.311)

Assim, as cognições que nos encontram através desta infinita série de induções e hipóteses são de dois tipos - verdadeiras ou falsas, ou cognições cujos objetos são reais e aquelas cujos objetos não são reais. O real é definido na seguinte passagem:

O real, então, é aquilo no qual, mais cedo ou mais tarde, a informação e o raciocínio resultarão finalmente, e que é, portanto independente das minhas e das suas fantasias. Assim, a verdadeira origem da concepção de realidade mostra que esta concepção implica essencialmente a noção de uma COMUNIDADE, sem limites definidos e capaz de um aumento de conhecimento indefinido. (Peirce, CP 5.311) 96

A ignorância e o erro só seriam eliminados numa situação em que a identidade do ser humano fosse consistente com suas ações e o seu pensamento. Esta identidade estaria expressa na conformação de seus pensamentos e ações aos da mente divina. Este seria o papel portanto da investigação - a de fundir o individual com a comunidade e aquele estado ideal da informação completa, que seria a realidade, depende da decisão final da comunidade. (CP 5.317) No terceiro texto da série cognitiva, “Fundamentos para a Validade das Leis da Lógica”, Peirce continua suas críticas ao ceticismo absoluto, dizendo que não existem céticos absolutos. O ceticismo absoluto é auto-contraditório porque todo exercício da mente consiste em inferências e, embora existam objetos inanimados que não tem crenças, não há seres inteligentes nestas condições. (CP 5.318) Há razão para se creditar que a ação da mente se assemelha a um “movimento contínuo”. (CP 5.319) Em “Fundamentos para a Validade das Leis da Lógica”, Peirce desenvolve algumas questões sobre a indução perguntando que magia é esta que permite que se examine uma parte de uma classe e dela se possa conhecer o todo. Ele questiona como se pode conhecer o futuro pelo estudo do passado e para Peirce isto não seria uma intuição intelectual.

96

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “The real, then, is that which, sooner or later, information and reasoning would finally result in, and which is therefore independent of the vagaries of me and you. Thus, the very origin 90

Peirce introduz algumas idéias sobre a indução, relacionando-a com sua cosmologia e evolucionismo. Na verdade, parece haver certa conexão física entre nossos órgãos e a coisa experienciada, entre nosso conhecimento prévio e o que aprendemos desta maneira. É uma faculdade que o homem tem. (CP 5.341) Só assim as induções são verdadeiras, e são explicadas pelo fato de que o mundo e o homem têm a mesma natureza, só assim se explica esta tendência de fazermos mais freqüentemente boas induções do que más. (CP 5.353)

Peirce pergunta a que se deve esta faculdade? A resposta para esta questão está, sem dúvida, num certo sentido, na seleção natural, já que esta faculdade é absolutamente essencial para a preservação da raça. Mas como isto é possível? Como explicar que fatos de certa espécie possam ser verdadeiros quando mantém relação com outros que são verdadeiros? A validade da indução e da hipótese é dependente de certa particular constituição do universo.

Quando se acredita na evolução natural, pode-se pensar que o homem teve uma derivação natural. Parece plausível dizer que nós herdamos estas faculdades de uma matriz, que é a natureza. Assim não é à toa que nossa inteligência tem alguma afinidade com as formas naturais. Mas se acreditarmos numa derivação evolutiva das nossas faculdades, haveria um real muito antigo, sem a presença do ser humano. Em “Fundamentos para a Validade das Leis da Lógica”, Peirce retoma a questão kantiana "como são possíveis os juízos sintéticos a priori?". Para Peirce, a questão dos juízos sintéticos e do raciocínio sintético antecede a pergunta kantiana de como são possíveis os juízos sintéticos a priori. A resposta peirceana para esta questão está ligada à sua idéia de “continuum”, de permanência. Os juízos sintéticos são possíveis porque há leis gerais que são reais, por exemplo, as leis da natureza. (CP 5.348) Para Peirce toda inferência provável é inferência das partes do todo e é essencialmente inferência estatística. A validade da indução está ligada não ao fato de se poder dizer que a generalidade da indução é verdade, mas, que a longo prazo tende para isto.

of the conception of reality shows that this conception essentially involves the notion of a COMMUNITY, without definit limits and capable of an indefinite increase of knowledge.” (CP 5.311) 91

Outra questão relativa à validade da indução diz respeito a que desde que algo seja real, segue-se necessariamente que uma sucessão suficientemente grande de inferências das partes do todo vai levar ao conhecimento do todo.

Para Peirce, a validade da indução é um bom argumento em favor da teoria da realidade e da lógica. Existe um sentimento que é rigidamente requerido pela lógica, que nega o subjetivismo e está a favor da necessidade lógica de completa auto-identificação com os interesses da comunidade:

Nós estamos na condição de um homem numa luta entre a vida e a morte, se ele não tiver força suficiente ser-lhe-á totalmente indiferente como ele age, tal que a única suposição sobre a qual ele pode agir racionalmente é a esperança do sucesso. Assim, este sentimento é rigidamente demandado pela lógica. Se o seu objeto fosse qualquer fato determinado, qualquer interesse privado poderia conflitar com os resultados do conhecimento e, portanto consigo próprio, mas quando seu objeto é de uma natureza tão ampla quanto a comunidade possa se tornar, é sempre uma hipótese não contraditada por fatos e justificada por sua‟indispensabilidade‟ para tornar qualquer ação racional. (Peirce, CP 5.357) 97

O quarto texto da série cognitiva é a resenha de "As obras de George Berkeley", na qual Peirce analisa a questão dos universais, e declarando-se realista, em oposição ao nominalismo.

Para Peirce o realismo está implicado na prática científica. Adotar o nominalismo é barrar o caminho da investigação (CP1. 170), o caminho seria adotar a continuidade para escapar desta situação ilógica.

Por outro lado, para os nominalistas toda generalização é mera matéria de conveniência, só existem fatos particulares. As leis, a teoria são apenas invenções para lidar com fatos particulares. Mas para o "homem científico", as leis realmente operativas na natureza são reais. Peirce, ao indagar se os universais são reais, argumenta que esta questão se torna transparente quando se considera o que seja o real. Peirce divide os objetos, de um lado, em
97

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “We are in the condition of a man in a life and death struggle; if he have not sufficient strength, it is wholly indifferent to him how he acts, so that the only assumption upon which he can act rationally is the hope of success. So this sentiment is rigidly demanded by logic. If its object were any determinate fact, any private interest, it might conflict with the results of knowledge and so with itself; but when its object is of a nature as wide as the community can turn out to be, it is always a hypothesis uncontradicted by facts and justified by its indispensableness for making any action rational.” (CP 5.357) 92

ficção e sonho e de outro lado, em realidade. Os primeiros só existem na medida em que alguém os imagine; os últimos possuem uma existência que independe da mente. (CP 8.12)

Este ponto é fundamental para a distinção entre o que é real e o que é criação da mente. A realidade tem permanência e alteridade diante da mente. O real não é afetado "por aquilo que possamos pensar dele." A questão, portanto, está em que existe algo fora da mente, que influi diretamente sobre a sensação e através da sensação, sobre o pensamento, porque está fora da mente e é independente do modo como a pensamos. O traço fundamental da realidade é estar aí, permanecer sendo, ser independente, é a alteridade, a característica de ser outro.

O realismo de Peirce vê o real como um objeto da opinião verdadeira. Dizer que os objetos reais são externos à mente e agem sobre a mente é significante e verdadeiro, porque uma análise pragmática mostra que a longo prazo as opiniões tendem para um acordo sobre a realidade de tais objetos.

Peirce apresenta sua concepção de verdade a partir da definição de real. Também enfatiza que, apesar dos erros, há possibilidade de que a longo prazo se chegue à verdade.

Esta concepção da realidade é tão familiar que não é necessário que eu me demore sobre ela; mas a outra, ou a concepção realista, ainda que menos familiar, é ainda mais natural e óbvia. Todo pensamento e opinião humanos contêm um elemento arbitrário, acidental, que depende das limitações das circunstâncias, poder e inclinação do indivíduo; um elemento de erro, em suma. Mas a opinião humana tende universalmente, a longo prazo, para uma forma definida que é a verdade. [...] Existe, portanto, para toda questão, uma resposta verdadeira, uma conclusão final, para a qual a opinião de todo homem constantemente tende. (Peirce, CP 5.311)

Para Peirce, o erro ou a vontade arbitrária podem adiar este acordo geral, mas a opinião final é independente de tudo que é arbitrário e individual no pensamento. A verdade não é uma questão individual, a verdade tem um sentido coletivo. Portanto esta teoria da realidade é contrária àquela da “coisa-em-si” kantiana. É de Kant que deriva a idéia de que a linguagem substancia o pensamento, o que ele chamou de passo copernicano. Estava na essência da filosofia kantiana considerar o objeto real enquanto determinado pela mente.

Portanto, realidade para Peirce é "uma coisa que existe independentemente de toda relação com a concepção que dela tem a mente". Aquilo que existe tem persistência,
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existência e permanência. Devemos observar que o "exterior" significa apenas aquilo que é independente de todo fenômeno imediatamente presente, isto é, de como possamos pensar ou sentir, assim como o "real" significa aquilo que é independente de como possamos pensar ou sentir. (CP 8.13) Para Peirce, não somente as cognições devem conter termos gerais, como também estes termos devem permanecer vagos, para assumir seu papel como signo, ou seja, um signo só pode funcionar como signo somente se for capaz de ser interpretado e esta interpretação deve ocorrer na forma de outro signo (CP 5.287).

Assim, a generalidade dos termos nunca pode ser exaurida pela própria enumeração dos particulares. A vagueza, ou seja, a capacidade indefinida para futuras interpretações é essencial para a significação. Então esta concepção de realidade é inevitavelmente realista porque as concepções gerais entram em todos os juízos e, portanto, em todas as concepções verdadeiras, "por conseguinte uma coisa no geral é tão real quanto no concreto." (CP 8.14)

A teoria realística é "altamente prática e de senso comum", pois o realista não irá perturbar a crença geral por meio de dúvidas inúteis e fictícias, pois um consenso ou opinião comum constitui realidade. O realista também não separa a existência fora da mente e o ser da mente, pois quando uma coisa está numa relação tal com a mente individual que a mente a conhece, ela está na mente, e o fato dela estar na mente em nada diminui sua existência externa. (CP 8.16)

A independência da verdade com relação à opinião individual se deve ao fato de que a verdade está predestinada a aparecer no final da investigação. (CP 5.494)

Já o último texto incluído na série da cognição "On a New Class of Observations...", é um texto muito pequeno, tem apenas três páginas. Peirce começa este artigo com a divisão entre as duas classes de representações mentais: Representações Imediatas ou Sensações, completamente determinadas ou objetos individuais do pensamento e Representações Mediatas ou Concepções, que são parcialmente indeterminadas ou objetos gerais .

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Peirce apresenta uma discussão sobre as sensações, se opondo à existência de sensações originárias sem quaisquer relações gerais entre elas, embora observando que muitas vezes não é possível estabelecer completamente as diferenças entre elas. Sensações diferentes se parecem umas com as outras, diferentes sensações também diferem em intensidade, mas há outra diferença entre elas, irreconciliável com seu caráter individual, há uma incerteza quanto ao seu julgamento, um provável erro. Mas este erro provável na verdade determina a relação entre duas sensações.

Este é um ponto importante para a visão peirceana de ciência da observação, já de acordo com sua classificação das ciências até a matemática é uma ciência da observação:

Nas leis destas relações de intensidade entre diferentes sensações há uma imensa pesquisa, um ramo da ciência. Existem não somente relações entre sensações, mas elas são o ponto de partida mais tangível e natural. (PEIRCE, MS1104) 98

Para finalizar esta análise dos textos anti-cartesianos é apresentado o resumo feito por Haak99, em "Descartes, Peirce and the Cognitive Community", entre as principais diferenças entre Descartes e Peirce: Descartes
1. Método da dúvida

Peirce
O método da dúvida é impossível, a dúvida não voluntária requer uma razão específica e deve começar com as crenças que nós temos. Orientação para a comunidade. Define verdade e realidade via acordo intersubjetivo. Indivíduo como "locus" de ignorância e erro. Auto-consciência aprendida via interações com os outros. Todo pensamento feito através de signos. Falibilismo. Nenhuma intuição infalível Não há premissas primeiras indubitáveis Capaz de vários argumentos; continuidade do conhecimento. Não há incognoscíveis, Idealismo.

2.Individualismo Certeza da auto-consciência. Rejeição da tradição, autoridade.

3. Busca Dogmática da certeza. Cadeia de inferências.

4. Inexplicáveis (Deus assim fez) Realismo

98

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “In the laws of these relations of intensity between different sensations there is an immense research, a branch of science. There are not only the relations between sensations but they are the most tangible and the natural starting point.” (MS 1104) 99 S.Haak, Susan (1993)," Descartes, em Peirce and the Cognitive Community", em The relevance of Charles Peirce. 95

2.2. O Método Científico.
“Desde o momento em que me senti com capacidade de pensar até agora, decorridos cerca de quarenta anos, ocupei-me diligente e incessantemente, do estudo dos métodos de investigação, tanto dos que têm sido e vêm sendo observados, como daqueles que deveriam ser observados” (Peirce, CP 1.1)

As idéias peirceanas sobre método científico, sobre investigação, e sobre a questão da dúvida formam uma série chamada “A Lógica da Ciência”, composta de seis artigos publicados originalmente na “Popular Science Montly”, a saber: 1. “Fixação das Crenças” - 1877 (CP 5.358-87), 2. “Como Tornar Nossas Idéias Claras” - 1878 (CP 5.388-410), 3. “A Doutrina dos Acasos”- 1878 (CP 2.645-60), 4. “A Probabilidade da Indução” - 1878 (CP 2.669-93), 5. “A Ordem da Natureza” - 1878 (CP 6.395-427) e 6. “Dedução, Indução e Hipótese” - 1878 (CP 2.619-44).

Estes artigos têm como principal característica a insistência de Peirce quanto à concepção de realidade independente do que pensamos; a apresentação de uma nova abordagem para a justificativa dos métodos de investigação e regras de inferência, e a distinção entre observação e raciocínio como ênfase para o teste das hipóteses.

Se Descartes se propunha a fornecer um "Discurso do Método - Para bem conduzir a Própria Razão e Procurar a Verdade nas Ciências”100, a proposta de Peirce não era muito diferente. À semelhança de Descartes, Peirce reconhecia a necessidade de um método para se chegar a crenças confiáveis, sendo a dúvida o ponto de partida. Mas a concepção peirceana da dúvida é muito diferente daquela de Descartes. "Há três coisas que não podemos jamais esperar obter pelo raciocínio, a saber: certeza absoluta, verdade absoluta e universalidade absoluta" (Peirce, CP 1.141)

100

R. Descartes, (1996) "O discurso do método", p. 61-127. 96

No primeiro artigo desta série “Fixação das crenças” 101, Peirce retoma a crítica à dúvida cartesiana e apresenta seu método de investigação. A investigação ou a luta pela crença também surge de uma dúvida, mas muito diferente da dúvida cartesiana.

Crença e dúvida são dois estados da mente que estão vinculados à ação. O sentimento da crença indica que foi estabelecida em nossa natureza uma tendência que determinará nossas ações, de forma mais ou menos segura. A dúvida, ao contrário, paralisa a ação. A dúvida é uma ruptura de um hábito de ação que a crença estabeleceu. (CP 5.372) Dúvida e crença tem significado na conduta. A dúvida é um estado de espírito incômodo em que temos dificuldade de escolher um caminho de ação. “De modo geral sabemos quando é de nosso desejo formular uma pergunta ou formular um juízo, pois há diferença entre a sensação de duvidar e a de crer”. (Peirce, CP 5.753).

Mas há uma diferença de ordem prática entre a dúvida e a crença: nossas crenças orientam nossos desejos e dão contorno a nossas ações. “O sentimento da crença é indicação mais ou menos segura de se ter estabelecido em nossa natureza uma tendência que determinará nossas ações.” A ação é determinada pela crença, portanto a crença estabelece uma relação entre conceito e a ação. Crer em algo não significa que seja verdade, muitas vezes a humanidade acreditou em coisas que a história posteriormente revelou serem falsas. No entanto, quando cremos em alguma coisa, cremos como sendo verdadeira e esta crença determina nosso modo de agir.

A dúvida paralisa a ação. Peirce vincula crença e dúvida à ação. A dúvida é ruptura de um hábito de ação e a crença estabelece um hábito de ação. Quais são os efeitos, as conseqüências práticas da dúvida e da crença? Este vínculo entre pensamento, conceito e conduta é fundamental na filosofia peirceana. É a espinha dorsal do pragmatismo, pois condensa o compromisso entre a razão prática e a razão teórica, isto é, não há cisão entre o prático e o teórico, ou seja, o senso comum da conduta humana é tomado como objeto filosófico e a filosofia deixa de ser mera especulação teórica.

101

C.S. Peirce, (1972), Semiótica e Filosofia, p.71-92. 97

Há muitas dúvidas que são teoricamente formuladas e que não tem reflexo nenhum na conduta. As dúvidas reais são aqueles estados de espírito nos quais temos dificuldade de escolha de um caminho, de um modo de ação.

A pessoa tem um hábito e age segundo ele. Este hábito se configura em uma determinada crença para produzir determinados fins. De repente acontece algo que faz a pessoa questionar determinada crença ou determinado hábito. Este é um estado incômodo, porque a pessoa por um determinado espaço de tempo deixa de agir e se for pressionada, incômodo aumenta.

Em certo estágio de vida, um hábito que foi rompido enseja uma reflexão e uma revisão de coisas que eram anteriormente tomadas como verdadeiras e que não mais se apresentam como verdadeiras, mas que ensejam as descobertas de outras verdades. Mas qualquer que seja o processo, seja de reflexão, seja de busca de outra situação de equilíbrio, é um processo incômodo. Uma vez rompida uma crença ou um hábito, nós nos colocamos imediatamente em busca de outro. 102

É a este compromisso entre discurso e ação, que Peirce chama atenção como um critério de significação. O discurso só tem significação quando tem compromisso com a conduta. Às vezes acreditamos em algumas coisas, mas não aparecem circunstâncias nas quais a crença pode ser mostrada. “O agir não é positivo por si mesmo”, a ação não é boa em si mesma como finalidade. Nós perseguimos um estado de crença a partir de um estado de dúvida, porque desejamos agir, queremos voltar a agir porque estávamos paralisados pela dúvida.

A ação é importante do ponto de vista reflexivo, isto é, o único jeito de derrubar uma crença e mostrar que ela não é verdadeira é colocá-la como ato, observando suas conseqüências e as conseqüências só aparecem na sua particularidade, na sua contingência. É preciso circunstancializar um estado de coisas onde seja possível o agir. Não é um agir imediato, não como um fim em si mesmo, mas um passo do pensamento e da significação. O estado de crença é um estado necessário porque nos leva a agir.
98

Tão logo alcançamos uma crença, sentimo-nos satisfeitos, seja esta crença falsa ou verdadeira. Se nós cremos e sabemos que cremos, não temos consciência de ela possa ser falsa. Se for crença, deve ser verdadeira, não importa que depois ela se mostre falsa. Naquele momento, nem o indivíduo nem a comunidade tem meios de saber se é falsa. Ninguém acredita no falso. A crença é tomada como verdadeira, seja ela revelada ou não como verdadeira.

A crença se cristaliza quando não há nenhum fato que a coloque em questão. No âmbito da crença e da dúvida não é possível abstrair o sujeito, o problema de acreditar ou duvidar é um problema nosso, é um problema de significação, que não tem nada a ver com o real. O real é independente daquilo que dele pensamos.

A expectativa de que no futuro esta crença, que agora tomo como verdadeira, passará no futuro pelo crivo do verdadeiro e do falso, pressupõe que o estado de coisas sobre o qual eu tenho uma opinião e creio permanece independente de minha opinião, permanece sendo o que é, independente daquilo que eu hoje dele penso. Esta permanência no futuro é que vai balizar efetivamente a verdade ou falsidade da crença. O conceito de real está implicado nesta expectativa futura de balizamento do verdadeiro e do falso da crença atual. A investigação começa porque as crenças que até aquele momento guiaram nossos atos começam a se tornar insatisfatórias, gerando um estado de dúvida que é desconfortável. “O estímulo da dúvida leva a esforço para atingir um estado de crença. A esse esforço denominamos investigação". (PEIRCE, CP 5.374)

A investigação, que é uma luta pela crença também nasce da dúvida, mas de uma dúvida genuína e específica, "o simples colocar uma proposição em forma interrogativa não estimula o espírito a correr atrás da crença". (CP 5.376). Da dúvida nasce a investigação, que gera nova crença, de onde nasce nova dúvida, gerando outra investigação e assim por diante... A dúvida genuína não pode ser criada por um simples esforço de vontade, mas deve estar circunscrita pela experiência. (CP 5.498)

102

I. Ibri (1997) “Crença, Verdade e Interpretante Final”, anotações em aula. 99

[...] a genuína dúvida nada menciona a respeito de começar a duvidar. O pragmatista sabe que duvidar é uma arte que tem que ser adquirida com dificuldade; e suas dúvidas genuínas irão além das de qualquer cartesiano. Ele perceberá que o de que ele próprio não duvida sobre assuntos cotidianos, não é matéria de dúvida para qualquer homem maduro. (PEIRCE, CP. 6.498)

Peirce reconhece três modos através dos quais as dúvidas nascem, ou por meio de experimentação imaginária (aspecto que foi se tornando cada vez mais importante na sua concepção do papel da dúvida na investigação) ou quando dois hábitos de ação entram em conflito e, ou quando tropeçamos em fatos brutos, fatos externos e inesperados. 103

O objetivo de uma investigação é recuperar o estado de calma que caracteriza a crença. Não é através da introdução de termos tais como verdade, conhecimento absoluto, que se determina a verdade ou falsidade de alguma crença. “A conclusão verdadeira continuaria a ser verdadeira, ainda que não nos sentíssemos inclinados a aceitá-la”. (CP 5.365)

Os hábitos estabelecidos como guias para ações influenciarão a natureza dos pensamentos futuros. Hábitos diferentes levam a modos diferentes de ação. Os hábitos envolvidos numa crença são a expectativa de que os efeitos esperados da investigação são os efeitos daquilo que as crenças significam. A crença envolve certa inércia, uma tendência para a continuação de um “status quo”, uma vontade de continuar agindo da mesma forma. 104

Cremos no que supomos ser verdadeiro e vamos agir segundo estas crenças. As crenças moldam o nosso modo de agir. Se verdade tem um sentido coletivo e verdade não é uma questão pessoal, então a crença seria verdade final, seria representação perfeita? A resposta para esta questão é não, porque o saber é sempre provisório, mas o fato de ser provisório não quer dizer que ele seja falso, porque verdade e falsidade é uma questão da nossa representação. Por que não podemos dizer que uma crença é falsa? Porque não temos razão para duvidar. A questão da crença é a seguinte: se acreditamos em alguma coisa, então agimos segundo esta crença.
103 104

L.Santaella, (1993b), op.cit. p. 64. E.Saporiti, (1995) A Interpretação, p. 20-30. 100

Não basta só o discurso, é preciso que os efeitos desta crença se materializem na experiência. Se nós sabemos algo, nós sabemos sobre o futuro, então se nós fazemos uma previsão e o resultado ocorre mais ou menos como nós prevemos, não temos como duvidar da nossa teoria ou da nossa crença. Então vamos agir segundo a crença, até que esta previsão seja contrariada pelo curso dos fatos.

Esta é uma questão importantíssima para a ciência, já que as teorias científicas tem significado porque se balizam na conduta do mundo. O modelo da ciência é um comprometimento do discurso com a ação, é uma relação profunda entre o dizer e o conduzir, aqui está implicado o pragmatismo.

Em ciência, podemos não encontrar solução para um determinado problema durante gerações. Muitas vezes um pesquisador inicia uma investigação sabendo que durante sua vida poderá não concluir o trabalho que iniciou. (CP 7.185)

Para Peirce a decisão sobre a verdade ou falsidade de alguma crença só é possível através do conhecimento, e esta decisão não é imediata. Investigar é interrogar e tentar obter respostas, é tornar uma crença cada vez mais determinada. Os "seguidores da ciência" podem esperar que os processos de investigação levem, a longo prazo, a uma solução correta, mesmo que de início os resultados sejam diferentes. "Mas na medida em que cada um aperfeiçoa o seu método e seus processos, verificar-se-á que os resultados caminham conjunta e continuamente para um centro comum” (CP 5.377).

Peirce distingue quatro métodos para fixação das crenças: o método da tenacidade, o da autoridade, o método “a priori” e o método da ciência. Ele tece críticas aos três primeiros, privilegiando o método da ciência, que apresenta dois aspectos básicos: levar ao estabelecimento de teorias amplamente aceitas e nos forçar a dar atenção à permanência externa das coisas.

Os quatro métodos apresentados podem ser resumidos da seguinte forma:

101

1. o método da autoridade, pelo qual uma instituição tem poder para criar, ensinar ou reiterar um conjunto de doutrinas, ao mesmo tempo que os dissidentes são condenados ao silêncio ou penas exemplares (CP 5.379-381), 2. o método da tenacidade, pelo qual qualquer resposta que se queira pode ser adotada sem qualquer questionamento (CP 5.377) , 3. o método “a priori”, pelo qual se adota uma resposta que geralmente é a mais agradável à razão (CP 5.382) e, 4. o método da ciência, é o método tal que as conclusões últimas das pessoas sejam as mesmas.

O Método da ciência não é uma exclusividade dos cientistas, é um método de fixação das crenças diante do real, existe uma interação com algo externo e estável.

O método da tenacidade fecha os olhos àquilo que possa abalar a crença porque o estado de crença é um estado confortável e o indivíduo se nega a abdicar deste estado. Este método de fixar a crença é incapaz de sustentar-se na prática, porque o problema de fixar a crença se transforma na fixação da crença simplesmente no indivíduo e não na comunidade. Na verdade o método da tenacidade significa o ocultar-se, “anestesiar-se” da experiência, embora haja evidências de que possamos estar errados. Mantemos, por conveniência, tenazmente, a mesma crença embora tudo evidencie que devamos mudar. O método da tenacidade atinge mais o indivíduo, os pequenos grupos. Quem adota o método da tenacidade, acaba se tornando autoritário. 105

O método da autoridade impõe uma verdade por conveniência. Uma sociedade que tem determinado fim a ser atingindo, ela simplesmente inventa razões para torná-los aceitos, encontrar uma razão que leve a determinado fim, que na verdade já está estabelecido. Inventa um discurso que justifique os fins. Do ponto de vista da racionalidade, é uma crueldade inaceitável.

Para Peirce o método da autoridade é imensamente superior mental e moralmente ao da tenacidade, porque ele é superior em eficiência. “Seu êxito é proporcionalmente maior, e, em
102

verdade, ele tem, repetidamente produzido imponentes resultados”. A história nos revela que crenças coletivas foram estabelecidas pelo método da autoridade, com sucesso. O praticante do método da autoridade, também de certa forma adota a tenacidade. É preciso cautela quanto ao acordo geral que é dado pelo método da autoridade, que é aquele método onde ninguém questiona aquilo que é tido como verdadeiro. É um método dogmático que, historicamente conglomerou grandes comunidades em função de determinados interesses. O método “a priori” no fundo é um método dedutivo, onde a partir de determinadas premissas se deduz determinadas conclusões, que não são necessariamente verdadeiras. Serão adotadas necessariamente como verdadeiras, desde que se admitam as premissas como verdadeiras. Por exemplo: Descartes admite Deus como criador, protetor da consciência da criatura. Esta consciência tende a crer numa idéia, quando esta idéia aparece luminosamente, revelando uma luz natural, Deus garante que a criatura não se engane. Aqui não há nenhum confronto da experiência com os fatos.

Esta é uma construção transcendental, no sentido de transcender qualquer confrontação com os fatos e se baseia, em princípio, em uma tendência do espírito. Afirma que há uma tendência do espírito a crer em idéias claras e distintas, revelando a presença de divindade iluminando o espírito. Dada uma idéia clara e distinta e, dado um método lógico dedutivo, chega-se a outras conclusões, que são verdades “a priori”, independentes de qualquer experiência e antecipam qualquer experiência. Qual a garantia do verdadeiro? Simplesmente a inclinação do espírito. Para se investigar questões metafísicas deve-se supor uma lógica que seja independente da estrutura de qualquer ciência. Pelo método “a priori” chega-se a conclusões fáceis. Algumas idéias claras e distintas se mostraram posteriormente grandes falsidades, no confronto com os fatos. A questão do “a priori” é uma questão complicada na filosofia de Peirce, porque ele é totalmente avesso aos “apriorismos”. Como é que sabemos que proposições “a priori” são verdadeiras?

105

I.Ibri (1997) “Crença, Verdade e Interpretante Final”, anotações em aula. 103

Portanto, voltando à escolha do método, o método da ciência é o único que permite que tenhamos nossas opiniões coincidindo com os fatos. O fundamento do método científico é o permanente conflito com o fato. Nem o método da tenacidade, que evita o fato bruto, nem o “a priori” tem este confronto. O método da autoridade, o método da tenacidade e o método “a priori”, todos entram em conflito com a hipótese da realidade. Quanto aos dois primeiros, a verdade é determinada pelo desejo de um indivíduo ou grupo. O terceiro método, “a priori”, apresenta consenso, mas que não resulta da ação externa da realidade. A noção de realidade é expressa na seguinte passagem:
Há coisas reais, cujos caracteres independem por completo de nossas opiniões a respeito delas; esses reais afetam nossos sentidos segundo leis regulares e conquanto nossas sensações sejam tão diversas quanto nossas relações com os objetos, poderemos, valendo-nos das leis da percepção, averiguar através do raciocínio, como efetiva e verdadeiramente as coisas são: e, todo homem, desde que tenha experiência bastante e raciocine suficientemente acerca do assunto, será levado à conclusão única e verdadeira. (PEIRCE CP 5.384)

A realidade das coisas está sujeita às seguintes propriedades: 1. Não depende do desejo ou opinião de indivíduos ou grupos de indivíduos; 2. Será objeto de consenso entre as pessoas que tem suficiente experiência e conduzem as investigações de forma correta; 3. De fato, este consenso não é limitado a uma particular comunidade, mas pode incluir qualquer agente racional; 4. O consenso resulta da ação da realidade externa sobre nossos sentidos e nossas opiniões 106 No segundo texto desta série "Como Tornar Nossas Idéias Claras"107, crença e dúvida são definidos como modos de ação. As ações tendem a se repetir formando hábitos. A dúvida, portanto é a privação do hábito.

Segundo Peirce, quando Descartes se propôs a reconstruir a filosofia, ele passou do método da autoridade para o método “a priori”. Caberia à própria consciência oferecer-nos as verdades fundamentais e decidir do que fosse agradável à razão, assinalando como condição
106 107

C.Hookway (1992) op. cit. p. 44. C.S. Peirce (1982) op.cit. p. 49/70. 104

de verdade, o serem claras as idéias. Mas nunca ocorreu a Descartes uma distinção entre uma idéia aparentemente clara e realmente clara. Ao confiar na introspecção, Descartes não percebeu que a “maquinaria do pensamento só pode proceder à transformação do conhecimento, mas nunca originá-lo, a menos que seja alimentado por fatos da observação”. (CP 5.392)

Este mergulho na interioridade para ampliação do conhecimento não é reconhecido por Peirce. Algumas “idéias claras” que tomam conta do espírito, aquelas “idéias claras” que são apenas criação da interioridade sem correspondência com o fato, podem depois se mostrar falsas.

Segundo Peirce, o pensamento teórico, especulativo não tem força, não tem potência compulsiva para instaurar a dúvida, nem para abalar ou fixar uma crença. “A ação do pensamento é excitada pela incitação da dúvida e cessa com o atingir a crença; e, assim, o chegar à crença é função única do pensamento,” (CP 5.394), mas não existe regra lógica para se conjecturar.

Peirce valoriza extraordinariamente o aspecto experiencial da representação, isto é, o estatuto da experiência tem uma importância elevada na sua filosofia. Sua filosofia dá à experiência o estatuto de agente do pensamento, a experiência é o sujeito do pensamento, é o agente que obriga a pensar e compele a pensar de certo modo. Peirce nos convida a pensar qual é, verdadeiramente no dia-a-dia, o papel da experiência, que nos leva a mudar determinadas concepções que estavam cristalizadas e, que nós tomávamos como verdadeiras e que agora estão abaladas. Pensamento se concretiza na ação, o agir é o pensar, o agir é o lado exterior do pensamento. Aquilo que não se exterioriza continua sendo mera potencialidade, vagueza, mera possibilidade de ser. Falta experiência para que o pensamento tenha potência. A mais radical experiência é a alteridade.

Prever a conduta é romper a força bruta, a experiência de alteridade. Mas esta força bruta é superada quando aponta para a necessidade de uma mediação frente à alteridade. Conhecer é prever a conduta, mas é a alteridade que dá a forma da mediação, num esforço de diálogo, de observação. Diante do conhecimento, existe a possibilidade de se utilizar a mediação como forma de poder.
105

Do momento que acreditamos num acordo de opiniões, nós não colocamos em dúvida a crença, porque não conseguimos gerar uma dúvida real. Aquela crença que se mostrou operativa não foi demovida porque efetivamente não se concretizou uma experiência capaz de mudá-la. Dúvida e crença têm um ponto de contato, que é saber ou não saber como agir. No texto “Como tornar claras nossas idéias”, Peirce apresenta uma definição de crença, segundo três propriedades: crença é algo de que estamos cientes, crença aplaca a irritação da dúvida e crença envolve o surgimento, em nossa natureza, de uma regra de ação, um hábito. (CP 5.397) Nós podemos estar cientes daquelas coisas nas quais acreditamos, podemos tomar consciência lógica de nossas crenças. O conceito de hábito como regra de ação, que Peirce apresenta aqui transgride a conotação psicológica, é uma definição lógica.

Como, entretanto, a crença é uma regra de ação, cuja aplicação envolve dúvida posterior e posterior reflexão, constitui-se, ao mesmo tempo, em ponto de escala e novo ponto de partida para o pensamento. Tal a razão por que eu me permiti chamarlhe pensamentos em repouso, apesar de o pensamento ser, essencialmente, ação. (PEIRCE, CP 5.397)

Pensamento é ação e o remate final do pensamento é a volição, exercício da vontade, da qual o pensamento já não faz parte, isto é, ter um plano sem um ato volitivo para colocá-lo, introduzi-lo num teatro de reações, torna o plano simplesmente possibilidade. Por outro lado, construída a mediação, para colocá-la em prática, é necessário novamente um ato de volição.

Para Peirce, sendo a essência da crença a criação de um hábito, então diferentes crenças se distinguem pelos diferentes tipos de ação a que dão lugar. Este é um critério de exterioridade, a crença como estrutura lógica, conceitual, como regra, só pode ser conhecida como modo de ação a que dá lugar, isto é o pragmatismo. Este é um critério de separação de conceitos, mesmo que eles tenham nomes diferentes, se observarmos seus modos de ação, é isto que vai distinguí-los. Idéias que não geram ação nenhuma não tem significado, como idéias.

Peirce também chama atenção neste texto para a diferença entre a complexidade do objeto e a confusão lingüística, “interpretar erroneamente a sensação produzida por nossa própria obscuridade de pensamento, tomando-a como uma característica do objeto pensado, sem perceber que a obscuridade é puramente subjetiva.” (CP 5.397) No mundo da ciência tem
106

que haver uma interação entre a estrutura do objeto e a estrutura lingüística. Outro ponto importante se refere à atenção que se dá à linguagem em detrimento da atenção que se dá às coisas “[...] uma coisa significa apenas os hábitos que envolve” (PEIRCE, CP 5.400)

Os hábitos por sua vez são regras de ação, a caracterização de um hábito depende de como ele possa nos levar a agir. O significado do pragmatismo não tem uma conotação utilitarista, mas sim está em dar ao que é “tangível e admissivelmente prático o papel de raiz de qualquer efetiva distinção” (CP 5.400) A ação é o significado exterior do pensamento desde que a ação conduza a outro pensamento. “O pensamento é geral e se existencializa na particularidade da ação.” (Ibri, 1997)

Assim, nosso agir tem referência exclusiva ao que afeta os sentidos, nosso hábito tem o mesmo alcance de nosso agir, nossa crença, o mesmo de nosso hábito, nossa concepção o mesmo de nossa crença... (PEIRCE, CP 5.401)

Peirce acentua a impossibilidade de se abrigar uma idéia relacionada com alguma coisa que não seja os imagináveis efeitos sensíveis das coisas. As nossas idéias a respeito de algo são sempre nossas idéias acerca de seus efeitos sensíveis. Portanto, se imaginarmos de forma diferente, "estaremos incidindo em engano e tomando erradamente uma sensação que acompanha o pensamento como parte integrante do próprio pensamento".

Dúvida e crença - as palavras comumente empregadas - relacionam-se com debates religiosos e outros de grave caráter. Aqui, entretanto, eu me valho delas para aludir ao início de qualquer indagação - não importa quão simples ou quão significativa - e a sua solução.” (PEIRCE, CP 5.394)

Para Peirce, a dúvida genuína, real é muito diferente da dúvida geral e genérica.

A hesitação fingida, fingida por mero passatempo ou por um propósito elevado, desempenha papel importante no desenvolvimento da investigação científica. Seja qual for sua origem, a dúvida estimula o espírito a desenvolver atividade que pode ser ligeira ou acentuada, calma ou turbulenta. Imagens atravessam rapidamente nossa consciência, uma se confundindo necessariamente com a outra, até que , por fim, terminado tudo - numa fração de segundo, numa hora ou após longos anos decidimo-nos sobre como agir em CIRCUNSTÂNCIAS como as que deram motivo a nossa hesitação. Em outras palavras, alcançamos uma crença. (PEIRCE, CP 5.394)

107

É no texto “Como Tornar Nossas Idéias Claras” está contida a primeira enunciação da máxima do pragmatismo108 :

Considerar que efeitos - imaginavelmente possíveis de alcance prático - concebemos que possa ter o objeto de nossa concepção. A concepção desses efeitos corresponderá ao todo da concepção que tenhamos do objeto. (PEIRCE, CP 5.402)

Alcance prático é aquilo que possa afetar nossa conduta. Peirce usa os conceitos de peso e força para explicar o que seja o pragmatismo: o significado destes dois conceitos é dado pelos efeitos que eles produzem. Assim, dois conceitos ou hipóteses que impliquem os mesmos condicionais são idênticos, ou duas hipóteses explicando precisamente as mesmas observações são sinônimas. 109

Nós podemos nos enganar, podemos ter crenças coletivas absolutamente equivocadas, mas não indefinidamente porque se o real está lá, e se ele for realmente independente do que dele pensamos, independente da representação que dele fazemos, o real irá se impor, se tiver permanência e independência. Esta é uma questão de harmonia entre condutas, entre a minha conduta e o mundo, e não somente uma relação intersubjetiva. O real é que dá forma à representação e esta representação não é arbitrária. A opinião que será, afinal, sustentada por todos os que investigam é o que entendemos por verdade, e o objeto que nesta opinião se representa é o real (PEIRCE, CP 5.407).

O terceiro texto da série Lógica da Ciência, "A Doutrina dos Acasos"110 discute a continuidade como um ferramenta da lógica.
E se encontrará em todas as partes que a idéia de continuidade é uma poderosa ajuda para a formação de concepções verdadeiras e frutíferas. Por seu intermédio, as maiores diferenças serão demolidas e resolvidas em diferentes graus e sua incessante aplicação do maior valor para ampliar nossas concepções. (PEIRCE, CP 2.646) 111

108 109

Ver Ibri (1992), op. cit, capítulo 6 sobre o significado da máxima do pragmatismo. M. Murphey, (1993), The Development of Peirce's Philosophy, p. 158. 110 N. Houser. (1992) op.cit. p. 143/153. 111 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “And it will be found everywhere that the idea of continuity is a powerful aid to the formation of true and fruitful conceptions. By means of it, the greatest differences are broken down and resolved into differences of degree, and the incessant application of it is of the greatest value in broadening our conceptions”.(CP 2.646) 108

A idéia de probabilidade pertence essencialmente a um tipo de inferência que é repetida indefinidamente. Para Peirce, a teoria das probabilidades está relacionada com a ciência da lógica quantitativa. Só há duas possíveis certezas com relação a uma hipótese: a sua veracidade e sua falsidade.
Tendo determinadas premissas, um homem chega a determinadas conclusões e no que concerne somente a esta inferência, a única questão prática possível é se esta conclusão é verdadeira ou não [...] Mas a longo prazo há um fato real que corresponde à idéia de probabilidade e é um dado modo de inferência algumas vezes bem sucedida outras vezes não e aquilo numa razão finalmente fixada. (PEIRCE, CP 2.650)112

No quarto texto da série "A Probabilidade da Indução", Peirce continua com a questão da teoria das probabilidades, fornecendo regras para o cálculo da probabilidade de múltiplos eventos. Peirce compara a visão conceptualística (que se refere às probabilidades como eventos) com a materialista (que toma probabilidade como a freqüência relativa dos casos favoráveis). Peirce distingue então dois tipos de raciocínio: 1). Explicativo ou analítico ou dedutivo e, 2). Amplificativo, sintético ou indutivo.

Peirce reforça a idéia de que "crença tende a se fixar gradualmente sob influência da investigação", (CP 2.693), conforme a passagem abaixo.

Como todo conhecimento provém da inferência sintética, nós devemos inferir igualmente que toda certeza humana consiste meramente em sabermos que os processos pelo quais nosso conhecimento tem sido derivado são tais que devem geralmente levar a conclusões verdadeiras. Embora uma inferência sintética não possa ser de maneira alguma reduzida à dedução mesmo que a regra da indução que a apoia a longo prazo possa ser deduzida do princípio de que a realidade é somente objeto da opinião final para a qual poderia conduzir a investigação suficiente. Que a crença tende a se fixar sob influência da investigação é, realmente, um dos fatos dos quais parte a lógica. (PEIRCE CP 2.692-93) 113

112

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “Having certain premises, a man draws a certain conclusion, and as far as this inference alone is concerned the only possible practical question is whether that conclusion is true or not (...) But in the long run, there is a real fact which corresponds to the idea of probability, and it is a given mode of inference sometimes proves successful and sometimes not, and that in a ratio ultimately fixed.”(CP 2.650). 113 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “As all knowledge comes from synthetic inference, we must equally infer that all human certainty consists merely in our knowing that the processes by which our knowkledge has been derived are such as must generaly have led to true conclusions. Though a synthetic inference cannot by any means be reduced to deduction, yet that the rule of induction will hold good in the long run may be deducted from the principle 109

No quinto texto da série Lógica da Ciência, "A ordem da natureza"114 Peirce retoma a idéia de que a indução deveria ser explicada pela teoria das probabilidades. Por outro lado ele também volta à questão de como o homem está capacitado a entender o mundo, sendo esta capacidade resultante do processo evolucionário. Este é um ponto importante para a compreensão do processo de formulação de hipóteses, que será abordado posteriormente quando se for desenvolver o processo abdutivo.

"Se pudéssemos encontrar qualquer característica do universo, qualquer maneirismo nos caminhos da Natureza, qualquer lei aplicável que fosse universalmente válida, tal descoberta seria de uma ajuda singular para nós em todos os nossos futuros raciocínios, que mereceria um lugar de destaque nos princípios da lógica. Por outro lado, não há nada desta espécie para se descobrir, mas que toda regularidade descoberta tem uma amplitude limitada, isto novamente será de importância lógica. Que tipo de concepção deveríamos ter do universo, como pensar do conjunto de coisas, é um problema fundamental na teoria do raciocínio." (PEIRCE, CP 6.395427)115

Esta capacidade humana resultante da seleção natural vai ser fundamental para garantir o sucesso do raciocínio abdutivo na seleção das hipóteses. Portanto, o final da investigação resultaria em descobrir a estrutura final do universo.

Finalmente no último texto desta série "Dedução, Indução e Hipótese" (CP 2.619-2.641) Peirce discute as três formas de raciocínio como formas de argumentos silogísticos: regra, caso e resultado.

As inferências podem ser classificadas em dedutivas ou analíticas e sintéticas. Entre as inferências sintéticas podemos distinguir a indução e a hipótese. As principais distinções entre a indução e a hipótese podem ser resumidas na seguinte passagem:

that reality is only the object of the final opinion to which sufficient investigation would lead. That belief gradually tends to fix itself under the influence of inquiry is, indeed, one of the facts with which logic sets out.” (CP 2.692-93) 114 N.Houser (1992) op. cit. p. 171/185. 115 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “If we could find out any general characteristic of the universe, any mannerism in the ways of Nature, any law everywhere applicable and universally valid, such a discovery would be of such singular assistance to us in all our future reasoning that it would deserve a place almost at the head of the principles of logic. On the other hand, if it can be shown that there is nothing of the sort to find out, but that every discoverable regularity is of limited range, this again will be of logical importance. What sort of a conception we ought to have of the universe, how to think of the ensemble of things, is a fundamental problem in the theory of reasoning.” (CP 6.397) 110

A indução ocorre quando generalizamos a partir de certo número de casos em que algo é verdadeiro e inferimos que a mesma coisa será verdadeira do total da classe. Ou quando verificamos que certa coisa é verdadeira, na mesma proporção de casos e inferimos que é verdadeira, na mesma proporção, para o total da classe. Hipótese ocorre quando deparamos com uma circunstância curiosa, capaz de ser explicada pela suposição de que se trata de caso particular de certa regra geral, adotando-se, em função disto a suposição. Ou quando verificamos que sob certos aspectos dois objetos mostram forte semelhança e inferimos que se assemelham fortemente um ao outro sob aspectos diversos (PEIRCE CP 2.624)

A indução é a inferência da regra (premissa maior) a partir do caso (premissa menor) e do resultado (conclusão), enquanto a hipótese é a inferência de um caso a partir de uma regra e um resultado. A dedução é a inferência de um resultado a partir de uma regra e um caso.

Peirce usa o seguinte esquema para explicar a dedução, indução e hipótese:
Dedução Regra: todos os feijões deste pacote são brancos. Caso: estes feijões são deste pacote. Resultado: estes feijões são brancos. Indução: Caso: estes feijões são deste pacote. Resultado: estes feijões são brancos. Regra: todos os feijões deste pacote são brancos. Hipótese Regra: todos os feijões deste pacote são brancos. Resultado: estes feijões são brancos. Caso: estes feijões são deste pacote. (PEIRCE, CP 2.623)

Esta distinção entre dedução, indução e hipótese ainda seguia o esquema kantiano. Posteriormente Peirce vai ampliar esta distinção.

A análise desta série de textos mostra que uma das razões do ataque de Peirce ao cartesianismo está na introdução da hipótese como um dos tipos de inferência juntamente com a indução e a dedução. A compreensão do que é inferência para Peirce leva-nos à compreensão da inclusão da hipótese como uma inferência. A inclusão da hipótese como um terceiro tipo distinto de inferência reside no fato de que não se pode chegar indutivamente às conclusões de uma inferência hipotética porque sua verdade não é suscetível de observação direta em casos singulares.
111

Quando elaboramos uma conclusão dedutiva ou analítica, nossa regra de inferência é que os fatos com certo caráter geral são, invariavelmente ou numa certa proporção dos casos, acompanhados por fatos de um outro caráter geral. (...) Mas a inferência sintética se baseia numa classificação dos fatos, não conforme seus caracteres mas sim, conforme a maneira de obtê-los. Sua regra é a de que certo número de fatos obtidos de um dado modo em geral irão assemelhar-se, mais ou menos, a outros fatos obtidos de idêntico modo; ou experiência cujas condições são as mesmas terão os mesmos caracteres gerais. (PEIRCE, CP 2.692)

Do fato de que todo conhecimento provém da inferência sintética, pode-se inferir que "toda certeza humana consiste meramente no fato de sabermos que os processos a partir dos quais se derivou nosso conhecimento são tais que devem geralmente, conduzir a conclusões verdadeiras." (CP 2.693).

2.3. Evolução dos conceitos peirceanos a partir da inferência para tipos de raciocínio e finalmente para estágios da investigação.
Santaella (1992), no capítulo "Tempo da Colheita", faz um excelente resumo sobre o percurso evolucionário das idéias peirceanas sobre os três tipos de argumentos ou inferências, que passam pela coincidência com os três tipos de raciocínio até chegar aos três estágios da investigação científica.116

Resumidamente, se pode dizer que no inicio de seus trabalhos, Peirce considerava que todas as formas de inferência poderiam ser reduzidas ao silogismo em Bárbara (CP 2.620), mas a noção peirceana de inferência evoluiu, e as inferência passaram a ser três tipos distintos e irredutíveis dos argumentos ou raciocínio.117 Inicialmente Peirce incluía a analogia como o quarto tipo de raciocínio, mas posteriormente acabou reconhecendo que a analogia combina as características da indução e da retrodução. (CP 1.65)

Segundo Santaella (1993 b:74) a inferência peirceana é uma função essencial da mente cognitiva e o pensamento em todos os níveis apresenta um padrão semelhante aos de três tipos de processos: hipótese, indução e dedução. Assim a vida do pensamento, em todos os estágios e situações, é uma questão de formação e/ou exercício de certos hábitos de inferência.
116

D. Anderson, (1987) "Scientific Creativity" em Creativity and The Philosophy of C.S.Peirce, p.12/53. 112

Para Peirce, a inferência é um ato voluntário que culmina na “adoção controlada de uma crença como conseqüência de um outro conhecimento”. É um processo causal que “cria” ou “produz” crença ou sua aceitação na mente de quem raciocina. (CP 2.442, 2.44 e 5.109) As inferências tem três níveis: o do raciocínio, consciente e articulado, e das inferências informais do dia-a-dia, sem apoio do controle lógico e aquelas que estão totalmente fora de nosso controle lógico (inconscientes e incontroláveis). Em 1866, em “A Lógica das Ciências; ou Indução e Hipótese”, Peirce introduz o termo hipótese ao lado da indução, contrariando “a certeza vigente na época” de que só há dois tipos de argumentos: dedução e indução. Posteriormente, Peirce reconhece a hipótese como uma inferência ampliativa diferenciando-a da indução.

Já em 1867, Peirce mostra a correlação das três formas de inferência com as três figuras do silogismo. Ao negar a intuição cartesiana, Peirce resolve o problema das premissas. Assim a hipótese é responsável pelos julgamentos perceptivos e pela introdução de premissas menores em geral. A introdução de uma nova afirmação universal, servindo como premissa maior pode ser vista como resultado da indução, sendo que dedução responde, então, pelas conclusões derivadas.
118

As inferências eram ordenadas segundo seu grau de certeza, sendo

sua ordem a seguinte: dedução, indução e hipótese.

Segundo Santaella (1993b: 97), a teoria da cognição, a que Peirce chegou em 1868-69 e, que se completou na Teoria da Investigação, de 1877-78, juntava a crítica da doutrina da intuição com a postulação de novas fundações para a investigação, com base na concepção inferencial da mente cognitiva apoiada na teoria do pensamento-signo.

Somente após a descoberta da Lógica dos relativos é que Peirce concebe os três tipos de inferências como tipos distintos e irredutíveis de raciocínio ou argumento.

O raciocínio é de três tipos. O primeiro é necessário, mas ele só pode nos dar informações concernentes à nossa própria hipótese (...) O segundo depende das probabilidades (...) O terceiro tipo de raciocínio tenta o que “il lume naturale” (...) pode fazer. Ele é realmente um apelo ao instinto. (PEIRCE, CP 1.630)
117 118

B. Serson, (1992) La théorie sémiotique de la cognition chez C.S.Peirce, tese de doutoramento, p. 64-91. L. Santaella (1992) op.cit. p. 87. 113

Entre 1890 e 1900, Peirce introduz novas modificações substituindo hipóteses ou inferência hipotética por abdução. Daí para frente, as três espécies de inferências tornaram-se os três estágios da investigação científica, conectados como um método; a inferência começou a ser tratada principalmente como processo metodológico.

O uso da palavra abdução não é original em Peirce, mas ele foi o primeiro autor a empregá-la no contexto científico. Peirce traduziu a “apagoge” de Aristóteles como abdução, ou seja, aceitação ou criação da premissa menor como uma solução hipotética para um silogismo cuja premissa maior não é conhecida e cuja conclusão nós achamos ser um fato(“we find to be a fact”). (CP 7.249) Anderson119 enfatiza dois pontos com relação a esta questão. Em primeiro lugar, a abdução não é um argumento necessário, mas sim provável (Terceiridade) ou possível (Primeiridade). Na abdução a aceitação da premissa menor e do silogismo é provisória, o que leva ao segundo ponto, ou seja, a abdução foge do sentido puramente silogístico e dedutivo do raciocínio.

Este ponto é crucial para a explicação peirceana da abdução como método e como forma lógica, pois à medida que Peirce se afasta das idéias aristotélicas sobre a abdução, a abdução passa a consistir no exame de uma massa de fatos que sugerem uma teoria. (CP 8.209). A seguinte passagem mostra a autocrítica120 que Peirce fez em 1902, a respeito de como se deu a evolução de suas idéias quanto aos três estágios da investigação.

Devido ao excessivo peso que pus sobre considerações formalistas, caí no erro (...) de designar o sinônimo que, então, usava para abdução isto é, hipótese como um modelo de indução levemente semelhante à abdução, mas que deve mais propriamente ser chamado indução abdutiva.... Isso funciona como uma ilustração instrutiva tanto dos perigos quanto dos poderes do meu método heurístico (...). Vi, primeiramente, que devem existir três tipos de argumentos estritamente relacionados às três categorias; e os descrevi corretamente. Subseqüentemente, ao estudar um desses tipos, descobri que, além da forma típica, havia um outro, que se distinguia da forma típica por estar relacionada àquela relação categorial que distingue a abdução. Apressadamente, identifiquei-o com a abdução não tendo tido a cabeça clara para ver que, embora estivesse relacionada àquela categoria, não o estava no modo
119 120

D.Anderson (1987), op.cit. p.15. L. Santaella (1992), op.cit. p. 93. 114

preciso no qual as divisões primárias dos argumentos deveriam estar. Esta é a forma de erro a que meu método de descoberta peculiarmente tende. Percebendo-se que uma forma tem relação com uma categoria, fica-se incapaz, por certo tempo, de atingir clareza suficiente de pensamento para se ter certeza se a relação é precisamente da natureza requerida.

Embora haja algumas confusões na diferenciação entre abdução e indução, pode-se dizer que Peirce nunca teve nenhuma dificuldade para diferenciar abdução e dedução, por serem dois tipos diferentes de raciocínio, explicativo e ampliativo respectivamente. As confusões sempre estiveram na separação entre indução e abdução. O próprio Peirce admite que "confundiu, de certo modo hipóteses e indução em quase tudo que publicou antes do começo do século". (CP 8.227) Numa outra passagem Peirce afirma que, quando após sucessivas tentativas, finalmente consegui esclarecer o assunto, os fatos demonstraram que a probabilidade propriamente nada tinha a ver com a validade da abdução, a não ser de uma maneira duplamente indireta. "(CP
2.102) .
Nada tem contribuído mais para as atuais idéias caóticas ou errôneas da lógica da ciência do que a incapacidade em distinguir as características essencialmente diferentes dos diferentes elementos do raciocínio científico; e uma entre as piores dessas confusões, também uma das mais corriqueiras, consiste em juntar abdução e indução (freqüentemente misturadas também com dedução) como um argumento simples. (PEIRCE CP 8.228).

A indução, de qualquer classe que seja não pode jamais originar idéias novas. Pode apenas confirmar ou não as hipóteses. Só a abdução introduz idéias novas, sendo a única forma de raciocínio propriamente sintética. Assim sendo, ela é meramente preparatória, é o primeiro passo do raciocínio científico, é o mais ineficiente, mas o único responsável pelas descobertas com que o homem explora e explica o mundo. A indução é o mais eficaz dos argumentos e o passo conclusivo do raciocínio científico.
A abdução inicia-se dos fatos sem, em princípio, ter qualquer particular teoria em vista, embora ela seja motivada pelo sentimento de que uma teoria é necessária para explicar os fatos surpreendentes. A indução busca uma teoria, a indução busca fatos. (PEIRCE, CP 7.217-8).

Para Peirce, a retrodução e a indução voltam-se para lados opostos. Na retrodução, a ordem é da experiência para a hipótese (CP 2.755). Por indução pode-se concluir que os fatos
115

similares aos fatos observados são verdadeiros em casos não examinados. Por hipótese se conclui a existência de um fato bastante diferente de tudo o que foi examinado, do qual de acordo com leis gerais, algo observado resultaria necessariamente. A indução é o raciocínio do particular para a lei geral, a hipótese do efeito para a causa. A indução classifica, a hipótese explica. (CP 2.636)

A indução infere a existência de um fenômeno tal qual foi observado em casos similares, enquanto que a hipótese supõe algo diferente daquilo que foi diretamente observado e freqüentemente algo que nos seria impossível de observar diretamente. (CP 2.640). A indução é um tipo de inferência mais forte do que a hipótese. As hipóteses podem ser provisórias e inferir fatos não diretamente observáveis. (CP 2.642)

A essência da indução está no fato de que ela infere de um conjunto de fatos outro conjunto de fatos similares, enquanto que a hipótese infere de fatos de um tipo para fatos de outro. Portanto, uma das diferenças entre hipótese e indução está na impossibilidade de se inferir indutivamente conclusões hipotéticas. (CP 2.642).

Outra distinção apresentada por Peirce entre indução e hipótese se refere às diferenças psicológicas e fisiológicas no modo de se aprender fatos. Indução infere uma regra, mas a crença de uma regra é um hábito, e evidentemente um hábito é uma crença ativa. Toda crença é da natureza de um hábito, então a indução é a forma lógica que expressa o processo fisiológico de formação de hábito. (CP 2.643)

A hipótese substitui uma complicada massa de predicados ligados a um tópico por uma única concepção. Há nesse processo uma excitação que denominamos emoção, daí podermos dizer que a hipótese produz o elemento “sensual” do pensamento e a indução o habitual. (CP
2.643).

Numa outra passagem (CP 2.643) Peirce afirma que um dos méritos da distinção entre os tipos de raciocínio está no fato de que algumas ciências apresentam o predomínio de algum destes tipos, por exemplo as ciências classificatórias como botânica e zoologia seriam puramente indutivas, enquanto que outras como geologia e biologia seriam ciências de hipóteses.
116

Segundo Santaella é muito comum que comentadores extrapolem os limites da abdução confundindo-a com a indução abdutiva, uma espécie de indução vaga121, já que a indução abdutiva (CP 6.526) consiste em testar uma hipótese de que S é P, observando-se se S tem caracteres peculiares a P. Para Sebeok (1991:47) testar uma hipótese, bem como a identidade de uma pessoa (através de um conjunto de pistas a partir da aparência física do indivíduo ou dos padrões de fala e coisas semelhantes) sempre envolve certa dose de adivinhação, razão pela qual Peirce chamou-a 'indução abdutória' (ou, em outras ocasiões, modelação especulativa.

A teoria dos três tipos de inferência foi o caminho que Peirce encontrou para a questão dos métodos das ciências. Sendo assim, a palavra investigação não é usada para designar a descrição de algum fenômeno mental, mas sim pelo fato de que algumas de nossas atividades são guiadas por signos e símbolos, que podem ser submetidos a uma crítica lógica,
[...] o fato de a regra da indução sustentar-se a longo prazo pode ser deduzido do princípio de que a realidade é apenas o objeto da opinião final à qual conduziria uma investigação adequada. (PEIRCE, CP 2.693)..

2.3.1. Abdução: A abdução é o “primeiro degrau do raciocínio científico” (CP 7.218). A abdução tem a ver com a geração e recomendação de hipóteses explicativas. No que diz respeito ao método científico, a abdução é “meramente preparatória.” “Abdução é o processo de formação de uma hipótese explanatória. É a única operação lógica que apresenta uma idéia nova...” (PEIRCE, CP 5.171)122 A abdução está sujeita a algumas condições, ou seja, a hipótese não pode ser admitida, mesmo enquanto hipótese, a menos que se suponha que ela presta contas dos fatos ou de alguns deles. Mas o estímulo para advinhar foi derivado da experiência. A ordem vem da experiência para a hipótese.. (CP 2.755)
121

L. Santaella (1992), op. cit. p.97 cita como exemplo o texto de Umberto Eco "Chifres, Cascos, Canela, Algumas Hipóteses Acerca de Três Tipos de Abdução", em que o autor confunde a abdução com outros tipos de argumentos. 117

A forma da inferência, portanto, é esta:
Um fato surpreendente C é observado; Mas se A fosse verdadeiro, C seria natural. Donde há razão para suspeitar-se que A é verdadeiro. (CP 5.189)

Antes de se explicar as características principais da abdução é interessante entender a visão peirceana do que significa uma hipótese:

Por hipótese eu entendo não meramente uma suposição sobre um objeto observado (...) mas também qualquer outra verdade suposta da qual resultariam tais fatos como foram observados (...). O primeiro impulso de uma hipótese e sua acolhida quer como uma simples interrogação ou com algum grau de confiança, é um passo inferencial que eu proponho chamar de abdução. Isto incluirá a preferência por uma hipótese com relação a outras que explicassem igualmente os fatos, sempre que esta preferência não seja baseada em algum conhecimento prévio imperando sobre a verdade das hipóteses, nem em qualquer teste de qualquer das hipóteses após terem sido admitidas em prova. Eu chamo tal inferência pelo nome peculiar de abdução porque sua legitimidade depende de princípios diferentes dos outros tipos de inferência. (PEIRCE, CP 6.526)123

Numa outra passagem, Peirce explica que a hipótese pode ser definida como um argumento que se desenvolve a partir da suposição de que um caráter do qual se sabe que envolve necessariamente certa quantidade de outros caracteres, pode ser provavelmente predicado de qualquer objeto que possua todos os caracteres que se sabe envolvidos por esse caráter.” (CP 5.276)

Cabe à abdução estudar fatos e projetar a teoria que os explique. A justificativa da abdução decorre do fato de ser o modo como se deve chegar à "compreensão das coisas algum dia". Para Peirce, ninguém é louco para negar que a ciência efetuou muitas descobertas verdadeiras, contudo, cada um dos itens singulares da teoria científica que estão hoje formados deve-se à abdução. (CP 5.172)124

122 123

idem p. 221. Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “By a hypothesis, I mean, not merely a supposition about an observed object, as when I suppose that a man is a Catholic priest because that would explain his dress, expression of countenance, and bearing, but also any other supposed truth from which would result such facts as have been observed...(...) The first starting of a hypothesis and the entertaining of it, whether as a simple interrogation or with any degree of confidence, is an inferential step which I propose to call abduction. This will include a preference for any one hypothesis over others which would equally explain the facts, so long as this preference is not based upon any previous knowledge bearing upon the truth of the hypotheses, nor on any testing of any of the hypotheses, after having admitted them on probation. I call all such inference by the peculiar name, abduction, because its legitimacy depends upon altogether different principles from those of other kinds of inference.” (CP 6.526) 124 ibidem p. 221. 118

Peirce distingue dois momentos na fase abdutiva125: o primeiro momento é simplesmente a origem de todas as conjecturas que podem compor a lista de possíveis explicações para o fenômeno em questão, não é nada mais que simples advinhação.
“A abdução, ao fim das contas, não é senão conjectura”.(PEIRCE, CP 7.219). “A sugestão abdutiva advém-nos como num lampejo. É um ato de introvisão (insight), embora de uma introvisão extremamente falível.” (Peirce, CP 5.181)

O primeiro momento da abdução é um momento heurístico, em que certas idéias se associam na mente de maneira incontrolável. (CP 6.302) Este primeiro momento também é caracterizado por um aspecto criativo que Peirce considera como uma habilidade natural instintiva, que não pode ser reduzida a procedimentos ou fórmulas restritivas. Segundo Sebeok a abdução “é um instinto que confia na percepção inconsciente das conexões entre os aspectos do mundo, ou usando um outro conjunto de termos, é a comunicação subliminar de mensagens.”126

Esta faculdade pertence, ao mesmo tempo, à natureza geral do instinto assemelhando-se aos instintos dos animais, na medida em que estes ultrapassam os poderes gerais de nossa razão e pelo fato de nos dirigir como se possuíssemos fatos situados inteiramente além do alcance de nossos sentidos. Assemelha-se também ao instinto em virtude de sua pequena susceptibilidade ao erro, pois embora, esteja mais freqüentemente errado do que certo, a freqüência relativa com que está certo é, no conjunto, a coisa mais maravilhosa de nossa constituição. (PEIRCE, CP 5.173).

Numa outra passagem Peirce enfatiza a afinidade genética entre a mente humana e as leis da natureza:
É certo que a única esperança de que o raciocínio retrodutivo possa alguma vez alcançar a verdade está no fato de que pode haver alguma tendência natural de acordo entre as idéias que se apresentam à mente humana e aquelas que dizem respeito às leis da natureza. (PEIRCE, CP 1.81) 127

125 126

C. F. Delaney, op.cit. p. 15. T. Sebeock, (1991) “Você conhece meu método” em O signo de três , p.23. 119

Este instinto que explica porque as pessoas fazem suposições corretas de modo tão freqüente, é descrito como “uma salada peculiar...cujos elementos-chave estão em sua falta de fundamento, sua ubiqüidade e sua confiabilidade”(Ms 692:24)128.

Olhando, através de minha janela, nesta linda manhã de primavera, vejo uma azaléia em plena floração. Não, não! Eu não vejo isto, embora seja essa a única maneira que eu tenho para descrever o que vejo. Isso é uma proposição, uma sentença, um fato; entretanto, o que percebo não é proposição, sentença, fato, mas apenas uma imagem, a qual torno parcialmente inteligível por meio de uma enunciação do fato. Essa enunciação é abstrata; o que vejo, porém é concreto. Realizo uma abdução quando procuro expressar em uma sentença algo que vejo. A verdade é que todo o edifício do nosso conhecimento é uma estrutura emaranhada de puras hipóteses, confirmadas e refinadas pela indução. O conhecimento não pode avançar nem um pouco além do estágio do olhar que observa despreocupado se não se fizer, a cada passo, uma abdução. (PEIRCE, Ms 692)129

Assim se todo conhecimento depende da formulação de uma hipótese, no entanto, de um fato real, apenas se infere um pode ser (pode ser e pode não ser). Porém, observa-se que freqüentemente resulta ser positivo, o que torna este fenômeno "o mais surpreendente de todos os prodígios do universo”. (CP 8.238)
“...seja como for que o homem tenha adquirido sua faculdade de adivinhar os caminhos da Natureza, certamente não o foi através de uma lógica crítica e autocontrolada.” (Peirce, CP 5.173)

Por outro lado, não é possível entender a abdução sem nos remetermos à cosmologia peirceana. Quando Peirce diz que o homem tem um certo instinto130 para a verdade, significa que a mente humana, como resultado dos processos evolutivos está predisposta a fazer suposições corretas sobre o mundo. Este instinto é uma faculdade que dirige a mente em direção ao verdadeiro mesmo à luz do acaso e do erro.

127

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “It is certain that the only hope of retroductive reasoning ever reaching the truth is that there may be some natural tendency toward an agreement between the ideas which suggest themselves to the human mind and those which are concerned in the laws of nature.” (CP 1.81) 128 C. Eisele (1985) op.cit. p. 899. 129 idem p.20 130 “Instinto é uma espécie de fio permeando as inferências da vida, ligando analogicamente o homem a todas as outras formas vitais, inclusive vegetais. (...) Nos seres humanos, não apenas algumas ações primitivas, reflexos são insitintivos, mas também o são alguns tipos de crenças (...) Além disso, todos os instintos tem caráter de hábitos, sendo por implicação interpretantes num processo sígnico” (Santaella, 1993 b:104) 120

A conecção entre abdução, instinto e o processo de evolução é um ponto crucial na teoria peirceana. Para Ibri, 131se nós formos entrar no mérito do instinto, nós temos que entrar no mérito da idéia da própria evolução do organismo humano, da própria evolução do homem.

Como foi que o homem foi levado a adotar aquela teoria como verdadeira? Você não poderá dizer que aconteceu por acaso, porque as teorias possíveis, se não estritamente inumeráveis, excedem de qualquer modo, um trilhão ou a terceira potência de um milhão; e, portanto, as chances são esmagadoramente contra uma simples teoria verdadeira, em vinte ou trinta mil anos durante os quais o homem tem sido um animal pensante, ter passado pela cabeça de qualquer homem. Alem disso, você não pode seriamente pensar que todo pinto que é chocado tem de investigar todas as possíveis teorias até que ele tenha a boa idéia de bicar algo e comê-lo. O pinto, diria você, bica por instinto. Mas se você é levado a pensar que toda galinha é dotada de uma tendência inata para uma verdade positiva, por que pensaria que só ao homem esta dádiva é negada? (PEIRCE, CP 5.591)

Peirce sustenta que a habilidade do pintinho ciscar a comida é em todos os aspectos semelhante à inferência abdutiva, porque ele escolhe enquanto cisca sem raciocinar, ele não o faz deliberadamente.

Nossa capacidade de adivinhação corresponde aos poderes musicais e aeronáuticos dos pássaros, isto é, tal capacidade está para nós como aqueles poderes estão para eles, o mais elevado de nossos poderes simplesmente instintivos. (PEIRCE, CP 7.48)

Comparando a capacidade de abdução do homem com os poderes musicais e aeronáuticos dos pássaros, Peirce comenta que há suficiente afinidade entre a mente de quem raciocina e a natureza para tornar válidas as hipóteses, quando são confrontadas com a observação através da comparação. (CP 1.121)

Para Peirce, de acordo com a doutrina das possibilidades, seria praticamente impossível supor a causa de qualquer fenômeno como puro acaso. Assim, não pode haver nenhuma dúvida de que existe uma afinidade entre a mente humana e a natureza. Considerações sobre a estrutura do universo não deixam dúvidas acerca do fato de que a mente do homem, tendo se desenvolvido sob a influência das leis da natureza, e por esse motivo, de certo modo, pensa naturalmente segundo o padrão da natureza. (CP 5.604, e 7.39) Este é um dos fatores de sobrevivência do homem. O evolucionismo torna-se central na lógica da investigação de Peirce. É a "âncora mestra da ciência" (CP 7.220).
131

I. Ibri, (1996) “A abdução e o evolucionismo”, palestra ministrada na Puc. 121

É evidente que, a menos que o homem tenha tido uma luz interior que tornasse suas suposições muito mais verdadeiras do que seriam por mero acaso, a raça humana teria há muito sido exterminada, devido a sua absoluta inépcia nas lutas pela existência... (PEIRCE, MS 692)132

Os elementos da hipótese já estão em nossas mentes, mesmo antes que tenhamos consciência deles, "mas é a idéia de reunir aquilo que nunca tínhamos sonhado reunir que lampeja a nova sugestão diante de nossa contemplação”.(CP 5.181)

Parece-me que a formulação mais clara que podemos fazer a respeito da situação lógica - a mais livre de toda a mescla questionável de elementos - consiste em dizer que o homem tem uma certa Introvisão (insight), não suficientemente forte para que esteja com mais freqüência certo do que errado, mas forte o suficiente para que esteja , na esmagadora maioria das vezes , com mais freqüência certo do que errado, uma Introvisão da Terceiridade , os elementos gerais, da Natureza. Denomino-o de Introvisão porque é preciso relacioná-la com a mesma classe geral de operações a que pertencem os Juízos Perceptivos. (PEIRCE, CP 5.173)

Peirce descreve a abdução como um instinto racional, “spontaneous conjectures of instintive reason” (CP 6.475), enfatizando ao mesmo tempo sua natureza racional e instintiva (capacidade de adivinhar a hipótese correta). O momento do “insight” é instantâneo, mas o processo de construção e seleção das hipóteses é consciente, controlado, voluntário, deliberado sujeito à crítica e autocrítica.

A abdução não necessita de razões, porque simplesmente apresenta sugestões, ela sugere que alguma coisa pode ser. (CP5.171). O homem não consegue dar uma razão precisa para as suas melhores conjecturas (CP 5.173), por isto Peirce qualifica como mágica esta faculdade. (CP 6.476) Em outras passagens ele usa os termos “il lume natural”, luz natural, luz da natureza, “insight” instintivo. (CP 5.604, 6.477, 1.80).

Segundo Peirce os processos pelos quais temos intuições sobre o mundo dependem dos julgamentos perceptivos, que permitem a dedução de proposições universais. Os juízos perceptivos são juízos impostos em termos absolutos à nossa aceitação através de um processo no qual somos incapazes de controlar e, por conseguinte criticar. (CP 5.157)

132

T. Sebeok, (1991) op.cit. p. 22. 122

A inferência abdutiva se transforma no juízo perceptivo sem que haja uma linha clara demarcação entre eles: ou em outras palavras, nossas primeiras premissas, os juízos perceptivos, devem ser encarados como um caso extremo das inferências abdutivas, das quais diferem por estar absolutamente além de toda crítica. (PEIRCE, CP 5.181)

Para Peirce, os julgamentos perceptivos são resultado de processo não suficientemente consciente para ser controlado, ou melhor, não controlável e, portanto não plenamente consciente. Tanto o julgamento perceptivo como a abdução são igualmente falíveis, embora o, julgamento perceptivo, mesmo sendo falível é indubitável.
A inferência abdutiva se dilui no julgamento perceptivo sem qualquer linha de demarcação mais clara entre eles, ou, em outra as palavras, nossas primeiras premissas, os julgamentos perceptivos, devem ser encaradas como um caso extremo de inferências abdutivas, das quais diferem por estar totalmente à margem da crítica (PEIRCE, CP 5.181).

Por outro lado o julgamento perceptivo tem algo de insistente, compulsivo que somos obrigados a reconhecer enquanto que o abdutivo nasce em momentos mais soltos, mais lúdico, e por isso mesmo são destituídos de certeza. Por isso nossas abduções devem ser submetidas à crítica, o que não acontece com os julgamentos perceptivos. Outra diferença, portanto, entre os juízos percetivos e as inferências abdutivas é que os primeiros não estão sujeitos à análise lógica. Peirce também chama a abdução de argumento originário: uma abdução é originária quanto ao fato de ser o único tipo de argumento que começa com uma nova idéia. Portanto é à abdução que Peirce atribui o poder heurístico originário.

O processo de formação de hipótese se confunde com o processo de formação de juízos. Mas a hipótese uma vez formada é a expressão lógico-verbal de um processo inferencial sob controle, isto é, os elementos já estavam na mente (“um momento de reflexão mostrará que muitos fatos estão já presumidos quando se formula a indagação lógica”), mas não na forma como foram combinados.

Quando alguém contempla um estado de coisas surpreendente desconcertante (frequëntemente tão desconcertante que não pode estabelecer definitivamente o que é este caráter desconcertante) ele pode formulá-lo em um julgamento ou em vários julgamentos aparentemente conectados; finalmente, ele freqüentemente deverá arriscar uma hipótese ou um julgamento problemático, como mera possibilidade, da
123

qual ele ou percebe completamente ou suspeita que o fenômeno desconcertante seria 133 uma conseqüência necessária e provável. (PEIRCE, CP 8.229)

É importante ressaltar que Peirce formula a abdução como uma inferência que deve ser posterior a algum estado da mente, “mas defini-la como formulação inferencial é função da dedução e da indução, (...) nem a dedução, nem a indução contribuem com o menor item positivo à conclusão de uma investigação. Elas tornam o indefinido definido; a dedução explica; a indução avalia”. (CP 6.475)

Para alguns comentadores a abdução ao ser relacionada com instinto, não teria forma lógica, e sendo o instinto uma questão psicológica, Peirce estaria confundindo lógica com psicologia. Para Anderson
134

que faz a defesa desta questão, a abdução é da mesma natureza

do instinto (CP 5.173), é um ato de introvisão (“insight”) (CP 5.181), mas mesmo assim possui uma forma lógica perfeitamente definida. (CP 5.188).

Segundo o autor acima, a abdução é paradoxalmente intuitiva e discursiva, instintiva e inferencial, podem ter um caráter de “insight” e originativo e, ainda assim ter forma lógica. Esse instinto não é um mecanismo que determina nossas adivinhações específicas, mas é uma habilidade que nos permite adivinhar corretamente. 135

Para Santaella (1993 b: 104), no processo de raciocínio, uma proposição é inferida de outra, de acordo com algum hábito mental. Se os instintos são hábitos, podem ser interpretantes num processo de tradução sígnica, então a teoria do instinto é compatível com a teoria inferencial da ação mental e, contrariamente ao individualismo da intuição ao modo de Descartes, os instintos são coletivos, sociais, hábitos vivos.

133

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “When one contemplates a surprising or otherwise perplexing state of things (often so perplexing that he cannot definitely state what the perplexing character is) he may formulate it into a judgment or many apparently connected judgments; he will often finally strike out a hypothesis, or problematical judgment, as a mere possibility, from which he either fully perceives or more or less suspects that the perplexing phenomenon would be a necessary or quite probable consequence.” (CP 8 229) 134 D. Anderson, (1986) "The Evolution of Peirce's Concept of Abduction", Transactions of the Charles S.Peirce Society, vol XXII,n.2 p.145-64 e R. Roth, (1988) "Anderson on Peirce's Concept of Abduction: Further Reflections", Transactions of the Charles S.Peirce Society, vol. XXIV, n.1 p.131/139, P. Forster, (1989) "Peirce on the Progress and Autorithy of Science", Transactions of the Charles S.Peirce Society, vol. XXV, n.4, p.421-452. 135 CP 7.220; 6.530; 5.591; 5.604; 6.476. 124

Por outro lado é necessário enfatizar a distinção feita por Peirce entre abdução e intuição (CP 5.213). Ao contrário da intuição, a abdução tem lugar em “media res”, sendo influenciada por pensamentos prévios, necessitando uma determinada experiência e um problema a ser resolvido, para ter início. (CP 2.755)

O segundo momento da abdução leva em conta o fato de que poderão surgir várias hipóteses que podem explicar os fatos. Quantas hipóteses podem ser levantadas sobre um determinado fato? Inúmeras, mas a grande pergunta é como é que se dá o processo de formação de hipóteses, ou seja, que interação existe na mente humana com o objeto investigado. O que faz com que o homem levante algumas hipóteses alternativas para as quais a história tem mostrado que uma delas se mostra aproximadamente verdadeira?

Portanto, das inúmeras hipóteses levantadas deveremos selecionar algumas. É interessante ressaltar que da mesma forma que, no primeiro momento da abdução há necessidade de um instinto natural, no segundo momento também este instinto é necessário para se fazer a escolha certa.

Considere-se a multidão de teorias que poderiam ter sido sugeridas. Um físico depara-se com um novo fenômeno em seu laboratório. Como é que ele sabe se as conjunções dos planetas têm algo a ver com isso, ou se isso é assim, porque talvez, a imperatriz viúva da China, no mesmo momento há um ano atrás, pronunciou alguma palavra com um poder místico, ou se o fato se deve à presença de algum espírito invisível? Pense-se nos trilhões e trilhões de hipóteses que se poderiam formular e das quais apenas uma é verdadeira; todavia, após duas ou três, no máximo uma dúzia de conjecturas, o físico dá, bastante aproximadamente, com a hipóteses correta. (PEIRCE, CP 5.172)

A seleção das hipóteses está sujeita a algumas regras. A primeira regra diz que aquela hipótese que parecer mais simples deve ser levada em consideração em primeiro lugar. (CP 6.532) A hipótese mais simples para Peirce seria aquela mais fácil e natural, aquela que o instinto sugere que deveria ser a preferida. A simplicidade natural está ligada àquelas hipóteses que se recomendam a si mesmas, isto é, aquelas que são mais facilmente compreensíveis em termos de aptidão, de razoabilidade e de bom senso (CP 7.220).

A regra da simplicidade traz algumas vantagens, entre elas a de que as hipóteses mais simples são as mais fáceis para se começar, o que permite investigar com mais eficiência,
125

como também determinar o melhor modo testá-las e de deduzir suas conseqüências. Assim se estiverem erradas podem ser eliminadas com menos despesas do que outras. (CP 6.532)

Mas a principal justificativa deste critério reside no fato de que a ênfase não está colocada em um investigador individual e sim numa comunidade. O critério de simplicidade pode ser também inserido num contexto mais amplo do que Peirce chamou de "economia da pesquisa", no artigo "A Note on the Theory of The Economy of Research", de 1876, (CP 7.139-161).

Sob a designação geral de economia da pesquisa, Peirce organiza alguns princípios que regulam o segundo momento da abdução referente à escolha de hipóteses: economia de dinheiro, tempo, pensamento e energia. (CP 5.600).

O termo economia abrange todos os recursos humanos que são escassos, e que são investidos em diligências cognitivas. Deste conceito de economia, resultam algumas regras para a seleção de hipóteses:

1. A primeira regra envolve o custo para a verificação da hipótese e é uma aplicação do principio geral que diz que "se uma hipótese pode ser experimentada com o menor gasto de qualquer espécie, esta deverá ser a escolhida." (CP 7.230) Neste contexto, deve ser descartada aquela hipótese que no menor intervalo de tempo possa ser reputada falsa. 2. A segunda regra é um corolário da primeira, recomenda que se dê preferência àquela hipótese que requerer o menor trabalho para testá-la. (CP 7.93) 3. A terceira regra recomenda que se dê preferência àquelas hipóteses que minimizem o número possível de explicações. Nesta terceira regra considera-se também que a hipótese a ser escolhida é aquela, que ao se mostrar falsa, deixe resíduos para a próxima etapa. (CP 7.221). 4. A quarta regra estabelece a preferência para aquela hipótese que alargue o campo de visão da investigação, ou que jogue luz quanto a veracidade ou falsidade das questões (CP 7.221)

Este conjunto de regras permitirá ao investigador realizar uma análise de custo benefício de todos os caminhos a serem percorridos, considerando-se que os recursos são escassos, que
126

o número de possíveis explicações pode ser considerável, como também o custo do processo de verificação pode ser alto. O critério de economia deve sobrepujar quaisquer outros, mesmo que haja outras considerações sérias. (CP 5.602)

Para Peirce há vários tipos de hipóteses explanatórias:

1. aqueles que, quando a hipótese é levantada, referem-se a fatos não observados, mas que são passíveis de serem observados; 2. as hipóteses que são impossíveis de serem observadas; 3. as hipóteses que se referem a entidades que, no presente estado de conhecimento, são tanto fatualmente quanto teoricamente não observáveis. 136

Os critérios peirceanos para escolha de hipóteses são construídos em termos sociohistóricos, isto é, uma hipótese deve ser preferida não somente em seus méritos intrínsecos e de verdade, mas também em termos do papel que possa representar no processo de investigação a longo prazo, como também do ponto de vista da comunidade de pesquisadores. Segundo Peirce, são necessárias algumas considerações para se determinar a escolha de uma hipótese: deve ser capaz de explicar os fatos surpreendentes; deve ser capaz de se submeter ao teste da experiência e finalmente, sendo uma hipótese, deve se levar em conta o princípio da economia de pesquisa. Para Peirce, a teoria da economia de pesquisa parte da pressuposição que o objeto da investigação é o estabelecimento da verdade. (CP7. 157)

Mas, a fim de que o processo de formular uma hipótese conduza a um resultado provável, Peirce recomenda que sejam seguidas as seguintes regras:

1. A hipótese deverá ser claramente colocada como uma pergunta antes de ser testada. Em outras palavras devemos tentar predizer quais serão os resultados da hipótese (a predição a partir da hipótese pertence à fase dedutiva); 2. O aspecto em relação ao qual são observadas semelhanças deve ser tomado aleatoriamente, não considerar apenas um tipo particular de predição no qual a hipótese seja boa;
136

CP 6.488, CP 5.547, CP 6.259. 127

3. Tanto os fracassos como os sucessos devem ser honestamente anotados, os procedimentos devem ser claros e imparciais. (CP 2.635) Portanto, a abdução pode ser entendida num contexto de eficiência, como um modelo para explicação da escolha de uma dada hipótese colaborando para tornar a investigação convergente com a verdade no menor tempo possível. A abdução seria apenas uma condição necessária para a investigação ter início. 137
Uma abdução é um método de formar uma previsão geral sem qualquer garantia positiva de que vai obter êxito, seja naquele caso especial ou usualmente, sua justificativa estando no que seja a única esperança possível de regular nossa futura 138 conduta. (PEIRCE, CP 2.270)

A significação de uma hipótese é a soma de todas as suas conseqüências experienciáveis, isto é, o que ela pode implicar na indução. Portanto o pragmatismo concerne as regras lógicas que governam a admissibilidade das hipóteses enquanto hipóteses.139

Peirce considera o pragmatismo como a lógica da abdução, então neste contexto indaga o que deve ser uma boa abdução, ou como deveria ser uma hipótese explanatória a fim de merecer a classificação de hipótese? A resposta está contida na seguinte passagem:

Naturalmente ela deve explicar os fatos. Mas que outras condições deve preencher para ser boa? A questão da excelência de alguma coisa dependa de se essa coisa preenche seus objetivos. Portanto, qual é o objetivo de uma hipótese explanatória? Seu objetivo é, apesar de isto estar sujeito à prova da experiência, o de evitar toda surpresa e o de levar ao estabelecimento de um hábito de expectativa positiva que não deve ser desapontada. Portanto, qualquer hipótese pode ser admissível, na ausência de quaisquer razões especiais em contrário, contanto que seja capaz de ser verificada experimentalmente, e apenas na medida em que é passível de uma tal verificação. É esta, aproximadamente a doutrina do pragmatismo. (PEIRCE, CP 5. 197)

Por outro lado, a função de uma hipótese é explicar fatos, sob este ponto de vista o pragmatismo vai atuar como fator de escolha e decisão entre hipóteses alternativas ou concorrentes, posteriormente por um processo indutivo irá transformar “o meramente
137

N. Rescher, (1978) Peirce's Philosophy of Science-Critical Studies in His Theory or Induction and Scientific Method, p. 48. 138 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “An Abduction is a method of forming a general prediction without any positive assurance that it will succeed either in the special case or usually, its justification being that it is the only possible hope of regulating our future conduct rationally.” (CP 2.270). 139 B. Serson, (1996) op. cit. p. 24. 128

hipotético em meramente possível”. Em resumo, das hipóteses à crença numa teoria, há a passagem necessária do possível para o provável.

Do ponto de vista do pragmatismo, o mais importante sobre uma hipótese se relaciona com suas conseqüências, uma hipótese só tem sentido se dela pudermos derivar alguns efeitos, se a hipótese for verdadeira ela não será derrubada pela dúvida nem ao ser testada será surpreendida por experiências conflitantes.

Peirce também usa o termo retrodução como sinônimo de abdução. Segundo ele retrodução, que para Aristóteles era “apagoge” foi mal interpretada em virtude de uma deturpação em seu texto e é geralmente traduzida nesta forma errônea. (CP1. 65) Retrodução é definida como:
Retrodução é a adoção provisória de uma hipótese em virtude de serem passíveis de verificação experimental todas as suas possíveis conseqüências, de tal modo que se pode esperar que a persistência na aplicação do mesmo método acabe por revelar seu desacordo com os fatos, se desacordo houver. (PEIRCE, CP 1.68).

Ou esta outra definição:

A função da retrodução não é diferente daquelas variações fortuitas na reprodução que representavam um papel tão importante na teoria de Darwin. Na realidade, de acordo com ele, cada passo, na longa história do desenvolvimento do moner para o homem, foi dado daquela forma arbitrária e sem lei. Seja qual for a verdade, ou, o erro que possa haver naquilo, é indubitável, eu acho, que cada passo no desenvolvimento de noções primitivas para a ciência moderna foi, num primeiro momento, mera especulação, ou ao menos mera conjectura. Mas o estímulo para a adivinhação, a sugestão da conjectura derivou-se da experiência. A ordem da marcha da sugestão, em retrodução, é da experiência para a hipótese. (PEIRCE, CP 2.755)
140

Rescher141 distingue abdução de retrodução, para ele o trabalho hipotético-indutivo da investigação é dividido em duas fases:
140

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “The function of retroduction is not unlike those fortuitous variations in reproduction which played so important a r“le in Darwin's original theory. In point of fact, according to him every step in the long history of the development of the moner into the man was first taken in that arbitrary and lawless mode. Whatever truth or error there may be in that, it is quite indubitable, as it appears to me, that every step in the development of primitive notions into modern science was in the first instance mere guess-work, or at least mere conjecture. But the stimulus to guessing, the hint of the conjecture, was derived from experience. The order of the march of suggestion in retroduction is from experience to hypothesis”. (CP 2.755) 141 N. Rescher, (1978) op.cit., p.8 e 41. 129

1. abdução: elaboração de hipóteses provisórias de possíveis explicações para a solução de problemas científicos e, 2. retrodução: onde há um afunilamento das possíveis alternativas e aquela que de fato é correta aparece como candidata ótima, consiste na eliminação de hipóteses com base em dados observacionais. O que a abdução tem de poderoso, "o quase raciocínio" responsável por todas as descobertas, ela tem também de incerto e limitado, visto que não possui qualquer força probativa. (CP 8.210) A conclusão de uma hipótese é problemática ou conjectural. (CP 5.192) Peirce enfatiza esta característica da abdução ao usar expressões tais como: adivinhação (“fair guess”), um “insight” extremamente falível, "não suficientemente forte para que esteja com mais freqüência certo do que errado".142 Ou então ele afirma categoricamente que não há segurança no que diz respeito à abdução/retrodução:
Retrodução não propicia segurança. A hipótese deve se testada. Este teste, para ser logicamente válido, deve começar honestamente não como a Retrodução começa com a análise dos fenômenos, mas com o exame das hipóteses e o conjunto de todos os tipos de conseqüências experienciáveis condicionais que poderiam seguir à sua verdade. (PEIRCE, CP 6.470).143

Por outro lado, segundo Santaella (1993 b: 95), a abdução sendo o tipo mais frágil de argumento lógico, serve com perfeição às necessidades da arte, pois esta não tem nenhum compromisso com a verdade da ciência. No seu núcleo central ela se refere ao ato criativo de invenção de uma hipótese explicativa, sendo conseqüentemente, “o tipo de raciocínio através do qual a criatividade se manifesta na ciência e na arte, do que decorre que é aí, justamente nesse ponto de encontro, onde os caminhos de ambas se cruzam.” Analisando a abdução do ponto de vista da criatividade, Anderson em "Scientific Creativity"144 mostra que existem diferentes níveis de criatividade na abdução. Embora Peirce tivesse interesse por toda a gama de abduções, ele tinha especial interesse pelo aspecto abdutivo "como único tipo de raciocínio que fornece novas idéias", particularmente ligado à
142 143

CP 2.623, CP 5.181, CP 5.173. Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “Retroduction does not afford security. The hypothesis must be tested. This testing, to be logically valid, must honestly start, not as Retroduction starts, with scrutiny of the phenomena, but with examination of the hypothesis, and a muster of all sorts of conditional experiential consequences which would follow from its truth” (CP 6.470) 144 D. Anderson (1987), op. cit. p. 12-53. 130

criatividade científica, ou seja, o que levaria cientistas como Copernico, Kepler, Newton a serem particularmente criativos? Esses são os exemplos de abdução mais criativa, constituindo teorias evolucionárias, que mudaram de forma radical o padrão de explicação da realidade.

Mas é possível admitir que nem todas as abduções são originais, ou seja, uma pessoa pode ter uma abdução que já ocorreu para outra, embora a abdução seja criativa "não quer dizer que já não tenha ocorrido antes." Há o caso também de abduções que ocorrem a duas ou mais pessoas mais ou menos no mesmo espaço de tempo. (CP 2.714)

Existe também uma forma de abdução que Peirce chama de indução de caracteres que é criativa no sentido de ser sintética e inteligente, mas não gera uma nova idéia. (CP 2.626, 2.629,
2.632)
Hipótese tem sido denominada indução de caracteres. Um número de caracteres pertencentes a certa classe são encontrados em um certo objeto, daí se infere que todos os caracteres daquela classe pertencem ao objeto em questão. (PEIRCE, CP 2.632). 145

Peirce afirma numa passagem que a abdução é o tipo mais importante de raciocínio. (NEM 3.206) Pode-se dizer que a importância
146

da abdução não se restringe ao nascimento

das hipóteses de uma investigação, mas suscita outras questões tais como a teoria da percepção (CP 5.181), tem um papel importante na memória (CP 2.265), é essencial para a história (CP 6.606 e 2.714), além de ser a essência do pragmatismo, que Peirce vê como a lógica da abdução (CP 5.195-205)

2.3.2. Dedução: A segunda fase da investigação consiste na análise das hipóteses independentemente das evidências a favor ou contra, na tentativa de gerar todas as conseqüências experienciáveis necessárias e possíveis. A dedução tem a ver com a elaboração lógica das hipóteses.
145

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “Hypothesis has been called an induction of characters. A number of characters belonging to a certain class are found in a certain object; whence it is inferred that all the characters of that class belong to the object in question” (CP 2.632) 146 L. Santaella (1993 b) op cit p.113. 131

A primeira coisa que deve ser feita, assim que uma hipótese for adotada, é traçar suas conseqüências experimentais necessárias e prováveis. Esse passo é a dedução. (PEIRCE, CP 7.203)

A dedução tem a ver com a elaboração lógica das hipóteses, a dedução prova que "algo deve ser" a partir do "pode ser" da hipótese. (CP 5.171)
O terceiro modo elementar de raciocínio é a dedução, da qual a garantia é que os fatos apresentados nas premissas não poderiam sob quaisquer circunstâncias imagináveis serem verdadeiros sem envolver a verdade da conclusão, que é, portanto aceita com modalidade necessária. Mas embora necessária em sua modalidade, não 147 se segue que a conclusão seja certamente verdadeira. (PEIRCE, CP 2.778.)

A dedução envolve duas etapas148:

1. Explicação, ou seja, a análise lógica das hipóteses representando-as da forma mais distinta, compacta e consistente possível e, 2. Demonstração, ou seja, derivar certas previsões experienciáveis que possam ter influência em sua veracidade. (CP 6.471)

A dedução realiza, em primeiro lugar, a coligação simples dos diferentes juízos perceptivos em um todo copulativo, e a seguir, com ou sem a ajuda de outros modos de inferência, é inteiramente capaz de transformar esta proposição copulativa de modo a colocar algumas de suas partes numa conexão mais íntima. (CP 5.193) É apenas na dedução que não existe diferença entre um argumento válido (se possui a espécie de força que professa ter) e um argumento forte (a questão da força diz respeito somente à grandeza de seu efeito). (CP 5.192)

A dedução é um raciocínio necessário, do tipo silogismo em Bárbara, embora não redutível a este silogismo. Nesse aspecto Peirce critica Kant acusando-o de negligência

147

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “The third elementary way of reasoning is deduction, of which the warrant is that the facts presented in the premisses could not under any imaginable circumstances be true without involving the truth of the conclusion, which is therefore accepted with necessary modality. But though it be necessary in its modality, it does not by any means follow that the conclusion is certainly true.” (CP 2.778) 148 T. Shanaghan, (1986), "The First Moment of Scientific Inquiry", Transactions of the Charles S.Peirce Society, vol XIII, n.2, p.112-121. Neste artigo Shanaghan desenvolve alguns pontos referentes à abdução tais como o instinto e seu valor adaptativo, sinequismo, leis da natureza e o pensamento de Deus. 132

cometida em relação à lógica das relações por ter imaginado que todo raciocínio necessário fosse do tipo silogismo em Bárbara.

Nada poderia estar mais ridiculamente em conflito com fatos que são bem conhecidos. Pois se esse tivesse sido o caso, qualquer pessoa com uma boa cabeça lógica seria capaz, instantaneamente, de ver se uma dada conclusão derivava ou não das premissas dadas; e, além do mais, o número de conclusões a partir de um pequeno número de premissas seria muito moderado. (PEIRCE, CP 4.417)

A dedução é o raciocínio da matemática: dada uma série de premissas, segue-se necessariamente tal conclusão. A dedução principia de uma hipótese, cuja verdade ou falsidade nada tem a ver com o raciocínio, assim obviamente suas conclusões são igualmente ideais. (CP 5.145)

Um argumento obsistente, ou dedução, é um argumento que representa fatos nas premissas, de tal modo que se vamos representá-los num diagrama, somos compelidos a representar o fato declarado na conclusão; destarte, a conclusão é levada a reconhecer que, independentemente de ser ela, reconhecida ou não, os fatos enunciados nas premissas são tais como não poderia ser se o fato enunciado na conclusão ali não estivesse; quer dizer, a conclusão é sacada com reconhecimento de que os fatos enunciados nas premissas constituem um índice do fato cujo reconhecimento é assim compelido. (PEIRCE CP 2.96)

Portanto, uma das principais características da dedução está no fato de que se for corretamente empregada, a partir de premissas verdadeiras não poderá levar a conclusões falsas. Sendo verdadeiras as premissas, a conclusão deve ser verdadeira. Por outro lado isto não significa que o raciocínio dedutivo seja infalível, pois para Peirce todo raciocínio é falível.
Dedução é o modo de raciocínio que examina o estado de coisas colocado nas premissas, que elabora um diagrama desse estado de coisas, que percebe nas partes desse diagrama, relações não explicitamente mencionadas, que se assegura, através de elaborações mentais sobre o diagrama, de que essas relações sempre subsistiriam, ou pelo menos subsistiriam num certo número de casos, e que conclui pela necessária, ou provável, verdade dessas relações. (PEIRCE, CP 2.96)

O raciocínio dedutivo é o raciocínio necessário. O objetivo do raciocinar dedutivo é descobrir algo que não sabemos, a partir da consideração daquilo que já sabemos. Assim, o raciocínio será procedente se for levado a efeito de tal forma que nos conduza de premissas verdadeiras à conclusão verdadeira. (CP 5.365)
133

Segundo Peirce, partimos de um estado de coisas hipotético, “definidos certos aspectos abstratos", a dedução tira as conclusões necessárias. Admite-se a hipótese e daí se verifica o que dela decorre. Não devemos nos preocupar com a possibilidade de nossa hipótese se adequar ou não ao estado de coisas hipotético do mundo externo. Se a hipótese está certa ou não, nossa inferência será válida, apenas se houver realmente tal relação entre o estado de coisas suposto nas premissas e o estado de coisas enunciado na conclusão. (CP 5.161)

O fato de isto ser ou não realmente assim é uma questão de realidade, e nada tem a ver com o modo pelo qual estamos inclinados a pensar. Se uma dada pessoa é incapaz de ver a conexão, mesmo assim o argumento é válido, desde que essa relação de fatos reais realmente subsista. (PEIRCE, CP 2.110-2.266-2. 649)

Para Peirce, todo raciocínio necessário, sem exceção, é diagramático, isto é, construímos um ícone de nosso estado de coisas hipotético e passamos a observá-lo. (CP 5.162)

Realizamos um plano de investigação e não apenas temos de selecionar os traços do diagrama, mas também introduzir as abstrações adequadas. Raciocínio diagramático significa o raciocínio que constrói um diagrama de acordo com um preceito expresso em termos gerais, realiza experimentos sobre esse diagrama, nota seus resultados e os expressa em termos gerais. (MS 1.147)
Nós formamos na imaginação uma espécie de representação diagramática, isto é, icônica dos fatos, quase um esqueleto (...) Este diagrama, que foi construído para representar intuitivamente ou semi-intuitivamente as mesmas relações que são abstratamente expressadas nas premissas, é então observado e uma hipótese se segue de que haja uma determinada relação entre algumas de suas partes ou talvez esta hipótese já tenha sido sugerida. Para testá-la, vários experimentos são feitos sobre o diagrama, que é mudado de vários modos. Este é um procedimento extremamente similar à indução, do qual no entanto difere amplamente, já que não tem a ver com um curso de experiência, mas se é possível ou não imaginar um estado de coisas. Então sendo uma parte da hipótese de que somente uma limitada espécie de condição pode afetar o resultado, a experimentação necessária pode ficar completa rapidamente e se vê que a conclusão é compelida a ser verdade pelas condições de construção do diagrama. (PEIRCE, CP 2.778)149

149

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “We form in the imagination some sort of diagramatic, that is, iconic representation of the facts, as skeletonized as possible (...) This diagram, which has been constructed to represent intuitively or semi-intuitively the same relations which are abstractely expressed in the premisses, is then observed , and a hypothesis suggests itself that there is a certain relation between some of its parts -or perhaps this hypothesis had already been suggested. In order to test this, various experiments are made upon the diagram, which is changed in various ways. This is a proceeding extremely similar to induction, from which however, it differs widely, in that it does not deal with a course of experience, but with whether or not a certain state of things can be imagined . Now since it is part of the hypothesis that only a very limited kind of condition can affect the result, the necessary experimentation can be very 134

O pragmatismo também está implicado na dedução, pois a idéia de significado envolve a idéia de dedução, "aquilo que chamamos significado de uma proposição abarca toda dedução necessária e óbvia que dela resulte."150 Pode-se dizer, portanto, que uma outra maneira de se dizer a máxima do pragmatismo seria que o significado de um conceito é o conjunto de suas conseqüências dedutivamente extraídas. A dedução é o estágio da investigação que começa com uma hipótese e a torna mais precisa ao lhe dar uma definição pragmática, ou seja, numa dada situação ou contexto de fatos a dedução fornece o significado da hipótese demonstrando suas conseqüências necessárias. (CP 7.203)151

Peirce enfatiza que o fato do pragmatismo impor um limite sobre as hipóteses admissíveis faz com que ele afete a dedução, mas isto não quer dizer que afete a lógica da dedução.

Assim, a máxima do pragmatismo, se verdadeira, recobre totalmente toda a lógica da abdução. Resta indagar se esta máxima não pode ter um efeito lógico ulterior. Se tiver, de alguma forma deve afetar a inferência indutiva ou dedutiva. Num certo sentido ela deve afetar a dedução. (PEIRCE CP 5.196)

No texto "A Tricotomia dos Argumentos" (CP 2.266-270), Peirce divide e classifica a dedução em necessária e provável. (CP 2.266-270) As deduções necessárias são aquelas que não se relacionam com qualquer relação de freqüência, mas afirmam (ou os seus interpretantes afirmam por elas) que de premissas verdadeiras invariavelmente se produzirão conclusões verdadeiras. Uma dedução necessária é um método de produção de símbolos dicentes através de um diagrama. (CP 2.267) As deduções necessárias podem ser corolárias (ilativas) ou teoremáticas. Uma dedução corolária é a que representa as condições da conclusão em um diagrama e retira da observação desse diagrama, tal como ele é, a verdade da conclusão. Uma dedução teoremática é aquela que, tendo representado as condições da conclusão num diagrama e, através da observação do diagrama assim modificado afirma a verdade ou conclusão. (Peirce, CP 2.267)

quickly completed; and it is seen that the conclusion is compelled to be true by the conditions of the construction of the diagram”. (CP.2.778) 150 C. S. Peirce (1990), op. cit. p. 217. 151 D. Anderson (1987) op. cit. p.51-52. 135

Peirce chega a dizer que sua primeira descoberta real em procedimentos matemáticos foi a distinção entre dois tipos de raciocínio necessário: o corolarial e o teoremático. (NEM 4:49), que ele julga também de extrema importância para a teoria da cognição (NEM 4:56).
Há dois tipos de dedução; e é verdadeiramente significante que tenha cabido a mim descobri-los.(...) Toda dedução envolve a observação de um Diagrama (seja ótico, tátil ou acústico), e tendo delineado o diagrama (pois eu mesmo sempre trabalho com Diagramas Óticos) , pode-se encontrar a conclusão representada nele. Evidentemente, um diagrama é necessário para representar minha afirmação. Meus dois gêneros de Dedução são 1º aqueles nos quais qualquer diagrama de um estado de coisas no qual as premissas são verdadeiras representa a conclusão ser verdadeira; tal raciocínio chamo de corolarial porque todos os corolários que diferentes editoras adicionaram aos Elementos de Euclides são dessa natureza, 2ª espécie. Ao diagrama da verdade das Premissas, algo mais tem de ser adicionado, o que é usualmente um simples pode- ser (May-be) e, então, a conclusão aparece. Chamo isto de raciocínio teoremático porque todos os teoremas importantes são desta espécie. (PEIRCE, NEM 3.869)152

É necessário imaginar algum esquema ou diagrama, na geometria uma figura compostas de linhas, na álgebra um arranjo de letras, algumas das quais repetidas. Este esquema é construído para se conformar às hipóteses estabelecidas em termos gerais na tese do teorema. Pensar em termos gerais não é suficiente. É necessário que algo seja feito. Na geometria, as linhas subsidiárias, na álgebra as transformações permitidas. Então através da faculdade de observação, algumas relações são percebidas. Mas estas relações poderão ser usadas em todos os casos possíveis? O mero raciocínio corolarial às vezes nos dá esta segurança. Mas geralmente é necessário desenhar esquemas auxiliares para representar possibilidades alternativas. O raciocínio teoremático invariavelmente depende de

experimentos sobre esquemas individuais. Em última análise, a mesma coisa é válida para o raciocínio corolarial, neste caso as palavras servem como esquema. Neste contexto, pode-se dizer que o raciocínio corolarial ou filosófico é o raciocínio com palavras, e o raciocínio teoremático ou matemático é o raciocínio com esquemas construídos. (CP 4.617).

152

L. Santaella (1993b) op. cit. p. 139, S. Rosenthal (1994) op. cit. p.24-25, K. Ketner, (1985) "How Hintikka Misunderstood Peirce's Account of Theorematic Reasoning" em Transactions of The Charles S.Peirce Society, vol XX1, n.3, p.383-406. 136

Para Hintikka153, a possibilidade de generalizar a distinção geométrica para todos os raciocínios dedutivos é o que justifica o orgulho de Peirce com esta descoberta. No entanto, para Hintikka esta generalização só serve para formulações da teoria da quantificação. Ketner154 concorda com Hintikka quanto à importância da descoberta peirceana, mas discorda quanto às razões desta. Para Ketner, a verdadeira importância da distinção corolarial/teoremática está na contribuição que ela dá quanto a mostrar que a matemática e a lógica são observacionais, experimentais, ciências que confirmam hipóteses, nas quais se faz uma hipótese e sobre a qual se observa e experimenta diagramas de acordo com um método distinto. Rosenthal155 discorda dos dois autores acima mencionados. Para ela, embora o raciocínio teoremático envolva a introdução de novos postulados, ele deveria ser entendido como uma construção criativa para a descoberta daquilo que já contido nesta construção.
Mas quando é o caso de se demonstrar um teorema principal você freqüentemente necessitará um lemma que é uma proposição demonstrável sobre algo fora do assunto da investigação e, mesmo que o lemma não deva ser demonstrado, será necessário introduzir a definição de alguma coisa que a tese ou o teorema não contempla (PEIRCE, CP 7.204).156

As deduções são prováveis porque são as premissas que tornam a conclusão provável e não porque a conclusão em si mesma expresse um julgamento de probabilidade. "Deduções Prováveis ou, mais precisamente, Deduções de Probabilidade, são Deduções cujos Interpretantes as representam como ligadas a razões de freqüência." (PEIRCE, CP 2.268) No texto "Uma Teoria da Inferência Provável" (CP 2.694-754), as deduções prováveis foram dividas em deduções simples (“probable deductions proper”) e deduções estatísticas.157 As deduções prováveis constituem os casos mais simples, empregam

153

J. Hintikka, (1983) "C.S.Peirce's First Real Discovery and Its Ccomtemporary Relevance", em The Relevance of Charles Peirce. 154 K.Ketner (1985). op. cit. p. 409. 155 S. RosenthaL (1994) op. cit. p.24-25. 156 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “But when it comes to proving a major theorem, you will very often find you will have need of a lemma, which is a demonstrable proposition about something outside the subject of inquiry; and even if the lemma does not have to be demonstrated, it is necessary to introduce the definition of something which the thesis or the theorem does not contemplate” (CP 7.204). 157 L.Santaella, (1993 b) op. cit. p. 139. 137

freqüências associadas às premissas e chegam a conclusões tal como: se a proporção p de M's é P's. S é um M. Então se segue que dada a probabilidade p, S é um P. (CP 2.265)
Uma Dedução Provável Propriamente Dita é uma dedução cujo interpretante não representa sua conclusão como certa, mas sim que raciocínios exatamente análogos conduziriam na maioria das vezes partindo-se de premissas verdadeiras, a conclusões verdadeiras, no decorrer do tempo. (PEIRCE, CP 2.268)

Já a dedução estatística requer amostra maior, que obedeça à lei dos grandes números, a proporção de r dos M's é P's, Si, Sii, Sii, etc. são numerosos conjuntos tirados aleatoriamente dentre os M's. Então, provavelmente e aproximadamente, a proporção r dos S's é P's. (CP 2.700). "Uma dedução estatística é uma Dedução cujo interpretante a representa como ligada a razões de freqüência, porém vendo nela uma certeza absoluta". (PEIRCE, CP 2.268)

Deve-se fazer uma distinção entre a noção puramente mecânica de uma explicação dedutiva158 em que a conclusão é tirada diretamente das proposições sem "o uso de qualquer outra construção do que aquela sugerida pelo enunciado das proposições" ou daquele processo mais criativo que é extrair alguma conclusão surpreendente de premissas, "experimentando imaginativamente a imagem das premissas."

A inclusão de probabilidades na dedução trouxe uma relação bastante forte entre a dedução e a indução. A dedução estatística e a indução dependem dos mesmos princípios de igualdade de razões e, portanto sua validade é a mesma.(CP 2.703)

Para Peirce, a validade da dedução foi devidamente explicada por Kant: Este tipo de raciocínio tem a ver exclusivamente com PURAS IDÉIAS vinculadas primariamente a símbolos e derivadamente a outros signos de nossa própria criação, e o fato de que o homem tem o poder de explicar seus próprios significados torna a dedução válida. (CP 6.474).

2.3.3. Indução:

A operação de teste de uma hipóteses por experimento, que consiste em observar que, se verdadeira, observações feitas sob certas condições deveriam apresentar determinados resultados, e então sendo estas condições preenchidas, e observando os

158

NEM 4:228, 4:38. 138

resultados, e, se forem favoráveis estendendo certa confiança à hipótese, eu 159 denomino indução (PEIRCE, CP 6.256)

A indução é o terceiro estágio da investigação. É o teste que levaria à confirmação ou não das hipóteses através de experiências futuras. A hipótese de realidade torna a validade da indução uma questão real. Segundo Santaella (1993; 120) "o privilégio que Peirce deu ao método da ciência está profundamente ligado ao problema da indução, pois a hipótese central desse método é a hipótese da realidade, postulada na permanência ou insistência do real".
Pelo contrário, o único procedimento correto para a indução, cuja tarefa consiste em testar uma hipótese já recomendada pelo procedimento retrodutivo, é em primeiro lugar receber suas sugestões da hipótese, tecer previsões da experiência que faz condicionalmente, e então testar o experimento e ver se ele se comporta com o que havia sido virtualmente previsto pela hipótese. Ao longo da investigação é bom ter em mente somente aquilo que nós estamos tentando obter naquele particular estágio do trabalho ao qual chegamos. Quando chegamos ao estágio indutivo nós vamos conhecer quão verdadeira nossa hipótese é, e que proporção de suas antecipações será verificada. (PEIRCE CP 2.755)160

Na indução parte-se de uma teoria, dela se deduz predições de fenômenos e se observa esses fenômenos a fim ver quão perto eles concordam com a teoria. (CP 5.170) Assim a indução pode levar a três tipos de situações: 1. a hipótese é sensivelmente correta, 2. a hipótese requer alguma modificação ou, 3. a hipótese deve ser rejeitada.(CP 6.472) Inicialmente, Peirce concebia a indução como a inversão de uma dedução estatística. Como foi mencionado no item 3.2, a dedução estatística tem a seguinte forma:
Se p% dos M's são P's. S é um conjunto numeroso tomado randomicamente, entre os M's Portanto, provavelmente e aproximadamente p% dos S's são P's.

159

Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “The operation of testing a hypothesis by experiment, which consists in remarking that, if it is true, observations made under certain conditions ought to have certain results, and then causing those conditions to be fulfilled, and noting the results, and, if they are favorable, extending a certain confidence to the hypothesis, I call induction.” (CP 6.526) 160 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “On the contrary, the only sound procedure for induction, whose business consists in testing a hypothesis already recommended by the retroductive procedure, is to receive its suggestions from the hypothesis first, to take up the predictions of experience which it conditionally makes, and then try the experiment and see whether it turns out as it was virtually predicted in the hypothesis that it would. Throughout an investigation it is well to bear prominently in mind just what it is that we are trying to accomplish in the particular stage of the work at which we have arrived. Now when we get to the inductive stage what we are about is finding out how much like the truth our hypothesis is, that is, what proportion of its anticipations will be verified.” (CP 2.755) 139

E a indução, como inversão da dedução estatística pode ser ilustrada da seguinte forma:
S é um conjunto numeroso, tomado randomicamente entre os M's. p% dos S's são P's Portanto, provavelmente e aproximadamente p% dos M's são P's (CP 2.758).

Posteriormente no artigo "A Doutrina da Necessidade Examinada" (CP 6.35-65), Peirce desenvolve o caráter autocorretivo da inferência indutiva, as inferências resultantes de processos de amostragem são tidas como provisórias e experienciais. 161.
Amostra aleatória e predesignação de caracteres amostrados deveriam ser sempre trabalhadas no raciocínio indutivo, mas mesmo quando não são alcançadas, ao ser honestamente conduzida, a inferência retém algum valor. Quando não podemos assegurar como a amostra ou o caracter selecionado da amostra foram obtidos, a indução ainda conserva sua validade essencial, que minha presente avaliação mostra ter. (PEIRCE, CP 6.42)162

Em outra passagem, Peirce define um argumento oriundo de uma amostra aleatória (randômica) como um método para determinar qual proporção de elementos de uma classe finita possui uma qualidade prédesignada pela seleção de casos dessa classe, de acordo com um método, que a longo prazo, apresentará um caso com a mesma freqüência de qualquer outro. Ele conclui que a razão encontrada para essa amostra permanecerá a mesma a longo prazo, o que torna evidente sua justificativa. (CP 2.269)
A indução é o modo de raciocínio que adota uma conclusão como aproximada por resultar ele de um método de inferência que, de modo geral, deve no final conduzir à verdade [...] Tudo o que a indução pode fazer é determinar o valor de uma relação. (PEIRCE, CP 1.67)

Assim, a indução pode ser definida, em termos precisos como a inferência virtual de uma probabilidade. Peirce enfatiza que a própria noção de probabilidade não pode ser definida sem a idéia da indução, e alerta para a imprecisão da idéia de probabilidade, que exige "no seu uso, toda a precaução do pragmatismo". (CP 2.101)

161 162

L. Santaella (1993b ), op. cit. p. 122. Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “But in so far as these conditions are not known to be complied with, the above figures cease to be applicable. Random sampling and predesignation of the character sampled for should always be striven after in inductive reasoning, but when they cannot be attained, so long as it is conducted honestly, the inference retains some value. When we cannot ascertain how the sampling has been done or the sample-character selected, induction still has the essential validity which my present account of it shows it to have.” (CP 6.42) 140

A justificativa da indução reside no fato de que ao seguirmos firmemente este método, devemos descobrir, a longo prazo, como é que o problema realmente se apresenta. (CP 5.170) A verdadeira validade da indução é que é um método para se chegar a conclusões, que a longo prazo, seguramente vai corrigir qualquer erro temporário.
A verdadeira garantia da validade da indução é que é um método para se chegar a conclusões que, se persistido durante tempo suficiente, corrigirá seguramente qualquer erro referente à experiência futura no qual possa nos levar temporariamente. (PEIRCE, CP 2.769)

E isto não se deve a qualquer necessidade dedutiva, mas porque é manifestadamente adequada, com a ajuda da retrodução e das deduções de sugestões retrodutivas para descobrir quaisquer regularidades e seus desvios podem ser matematicamente determinados. (CP 2.769). Em outra passagem Peirce afirma que a validade da indução depende da relação necessária entre o geral e o singular, o que constitui a base do pragmatismo. (CP 5.170)

É interessante observar que para Peirce, a abdução é um método de formar uma predição geral sem nenhuma certeza positiva, mas é a indução, "que a partir de experiências passadas nos encoraja fortemente a esperar que ela seja bem sucedida no futuro." (CP 2.270)

O conceito de indução está ligado às relações entre amostra e universo, do ponto de vista qualitativo e do ponto de vista quantitativo à auto-correção do processo indutivo.
163

O

erro que pode aparecer está associado à amostra, mas a investigação a “long run” poderá corrigi-lo. No entanto, se persistirmos nesse método, a longo prazo, chega-se à verdade, ou a um ponto sempre mais perto da verdade, a respeito de qualquer questão.
A verdade é que a indução é o raciocínio a partir de uma amostra obtida aleatoriamente de todo um lote a ser amostrado. Uma amostra é aleatória desde que seja obtida mecanicamente, artificialmente ou psicologicamente, de tal forma que a longo prazo qualquer indivíduo do lote total tenha a mesma chance de ser escolhido que qualquer outro. Entretanto, julgar a composição estatística do todo a partir da amostra é julgar através de um método que será correto na média com o correr do tempo e pelo raciocínio da doutrina do acaso será correto mais freqüentemente do que estará longe de sê-lo. (PEIRCE, CP 1.93-4) 164

163

A questão da auto-correção do método científico está ligada ao processo de indução (Ver CP 2.588, 2.703, 2.729, 2.776, 2.781, 5.384, 5.385, 5.582, 5.590, 6.40 e 6.41) 164 Tradução nossa, a citação completa original é a seguinte: “The truth is that induction is reasoning from a sample taken at random to the whole lot sampled. A sample is a random one, provided it is drawn by such machinery, artificial or physiological, that in the long run any one individual of the whole lot would get taken as often as any other. Therefore, judging of the statistical composition of a whole lot from a sample is judging by a method which will be right on the 141

Se a conclusão da investigação for errada, ela será corrigida pela aplicação continuada do método e deverá se confrontar com o curso posterior da experiência, sofrendo assim, um processo auto-corretivo. Portanto, para Peirce o método indutivo utilizado nas ciências leva inevitavelmente à verdade, por ser auto-corretivo.

Um argumento oriundo de uma amostra aleatória é um método de determinar que proporção dos membros de uma classe finita possui uma qualidade pré-designada, ou virtualmente pré-designada, pela seleção de casos dessa classe de acordo com um método que, a longo prazo, apresentará um caso com a mesma freqüência de qualquer um outro, e concluindo que a razão encontrada para essa amostra permanecerá a mesma a longo prazo. (PEIRCE, CP 2.270)

Do ponto de vista do evolucionismo peirceano, um hábito é uma regra geral de conduta, e sua aquisição é um processo de generalização da natureza do processo indutiva. A indução é a forma lógica que expressa o processo fisiológico de formação de um hábito. (CP 2.643)

A indução também é definida como um argumento estatístico, que leva a uma conclusão provável, e, portanto tem a característica adequada para lidar com aqueles objetos sujeitos ao acaso.

A indução pode ser definida como um argumento que se desenvolve a partir da presunção de que todos os membros de uma classe ou agregado possuem todos os caracteres que são comuns a todos aqueles membros da classe a cujo respeito isto é conhecido, tenham ou não seus membros tais caracteres; ou, em outras palavras, aquilo que se pressupõe ser verdadeiro de toda uma coleção aquilo que é verdadeiro de certo número de casos nela tomado ao acaso. Isto poderia ser chamado um argumento estatístico. (PEIRCE, CP 5.275).

Para Peirce, a indução tem três momentos165: 1. Classificatório: em que idéias gerais são relacionadas a objetos da experiência; ou os objetos da experiência são atados às idéias gerais. 2. Comprovação (Probation)- em que estas idéias são testadas com respeito às conseqüências experienciáveis. É nesse momento que o investigador vê preenchidas as condições de predição.
average in the long run, and, by the reasoning of the doctrine of chances, will be nearly right oftener than it will be far from right. (CP 1.93-94) 165 T. Shanaghan, op. cit. p. 451 e L.Santaella, (1993 b), op. cit. p.146. 142

3. Sentencial- em que o investigador avalia cada comprovação isoladamente, depois suas combinações então faz uma auto-avaliação dessas avaliações, passando então ao julgamento final do resultado total. (CP 6.468-73)

Nas conferências de Lowell, em 1903 Peirce apresenta a distinção entre três modos de indução: a indução rudimentar ou crua, a indução qualitativa e a indução quantitativa. 166

O primeiro e mais fraco tipo de indução é aquele que presume que a experiência futura com respeito a uma dada questão não será diferente do que ocorreu no passado. Como exemplo, Peirce explica que se até agora nenhum poder de clarividência foi claramente estabelecido, então se pode presumir que não existe tal tipo de coisa. (CP 2.756)

A indução rudimentar ou crua está relacionada com a generalização empírica de fatos do dia-a-dia, baseando-se na ausência de fatos contrários, por exemplo, afirmações do tipo: todos os cisnes são brancos, ou os trovões são sempre precedidos por raios. 167

É a única forma de indução que conclui uma proposição logicamente universal. Segundo Peirce, é possível dizer que a indução crua é o único tipo de indução capaz de inferir a verdade a partir de uma proposição universal, mas isto seria apenas uma forma de ver a questão, já que qualquer proposição concernente ao caminho geral da futura experiência pode ser encarada como universal, porque o que é denominado indução completa não é o raciocínio indutivo, mas sua dedução logística. (CP 2.757)

Embora seja a forma mais frágil de indução não pode ser dispensada nos assuntos práticos.

A indução crua pode ser exemplificada na prática de generalizar sobre a tendência dos eventos futuros a partir da experiência passada. A fraqueza óbvia deste tipo de método está no fato de que se sua conclusão for entendida como indefinida, ela será de pouco uso, enquanto que, se for tomada de modo definido, ela está apta, a qualquer momento, a ser aniquilada por uma simples experiência. (PEIRCE, CP 2.757)

166

Segundo Santaella, (1992) op. cit. p. 94, Peirce chegou afirmar que descobriu mais oito formas de indução além das formas lógicas, mas que seriam utilizadas exclusivamente por pensadores que não são adestrados em lógica. 167 Idem p. 3. 143

Para Peirce a indução rudimentar tem pouca importância para a ciência, principalmente porque sua característica auto-corretiva está condicionada às observações realmente feitas. Se faltarem algumas observações, não há garantias de que não se chegará a uma falsa crença no final da investigação. O método corrigiria a si mesmo desde que a série de experimentos não fosse descontinuada, ou se subseqüentemente se começasse outra série. (CP 7.215) As duas formas de indução mais usadas em ciência são a quantitativa e a qualitativa. A indução quantitativa é por Peirce vista como um poderoso instrumento na investigação. É a forma mais forte de indução e corresponde à inversão da dedução estatística.

A indução quantitativa investiga a questão sugerida pela retrodução "Qual é a real probabilidade de que um elemento de certa classe experiencial S's tenha certo caracter P? Isto é obtido coletando-se uma "amostra justa", que leve em conta a proporção de elementos que possuem tal caracter pré-designado P. (CP 2.758) A indução então presume que o valor da proporção entre os S's da amostra, daqueles que são P, provavelmente se aproxime, com certo limite de aproximação, do valor da real probabilidade em questão. (CP 2.758) A indução quantitativa depende da possibilidade de se encontrar uma amostra representatativa, isto é, os elementos que a compõem devem ser escolhidos como possuidores daquele caracter condicional, embora sua escolha não possa ser influenciada pelo fato de terem ou não o caracter conseqüente. (CP 8.237)

Numa carta a W.James (1909), Peirce diz que a indução quantitativa é a espécie mais perfeita de indução.168

A terceira forma de indução constitui a indução qualitativa, consiste em se estabelecer, a partir de uma amostra uma avaliação para total da classe após uma qualificação própria com o auxílio da doutrina do acaso. (CP 7.120) A indução qualitativa testa uma hipótese pela amostragem das predições possíveis, neste caso as predições não são feitas com base em amostras aleatórias ou randômicas.

168

apud L. Santaella, (1993 b) op cit. p.238. 144

A indução qualitativa é considerada por Peirce em geral, como de maior utilidade do que os outros tipos de indução, embora intermediária entre eles à segurança e valor científico de suas conclusões. Consiste naquelas induções que não são baseadas nem na experiência sobre uma massa, nem numa coleção enumerável de elementos de valores evidenciais iguais, mas numa experiência nas qual os valores relativos das evidencias de diferentes partes tem que ser estimados de acordo com o sentido das impressões que elas produzem sobre nós. (CP 2.759)

A indução qualitativa consiste em primeiro deduzir da hipótese retrodutiva o maior numero de predições condicionais que possam ser convenientemente levadas a teste, com a condição de terem tal nível ou tipo de verdade para assegurar sua verdade. Ao denominá-las predições, Peirce deixa claro que não se trata de relacioná-las com eventos futuros, mas devem anteceder o conhecimento de sua verdade para o investigador. A validade da indução qualitativa depende de que o investigador siga um método racional e decisivo. Pode trazer economia principalmente no início da pesquisa. (CP 2.759)

Todos os tipos de indução constituem processos para se testar hipóteses já levantadas, qualquer que seja o tipo, a estrutura lógica é a mesma - inferir a partir da amostra para o todo, portanto a amostra tem grande importância e deve ser colhida de acordo com um método, que se aplicado indefinidamente resultaria a longo prazo na extração de qualquer conjunto tão freqüentemente quanto qualquer outro conjunto de mesmo número. Para Peirce a amostra randômica garante este resultado. (CP 7.217)

Portanto o investigador agora prossegue no caminho para estabelecer a verdade ou falsidade das hipóteses averiguando quais devem ser:

1. consideradas como provadas, ou 2. no caminho de serem provadas, ou 3. não merecedoras de maiores atenções, ou 4. sujeitas a receberem algumas modificações à luz dos experimentos, ou 5. se deveriam receber modificações definitivas à luz de novos experimentos e serem indutivamente reexaminadas ou
145

6. finalmente aquelas que embora não sejam verdadeiras apresentam alguma analogia com a verdade de tal forma que os resultados da indução possam ajudar a sugerir uma hipótese melhor. (CP 2.759)

2.3.4. Relação entre abdução, dedução e indução e as categorias:

A relação entre as categorias e a abdução, dedução e indução é uma questão polêmica. O próprio Peirce, numa passagem do texto "Os Três Tipos de Bem” 169, confessa ter mudado de opinião sobre esta relação:

Com referência às relações destes três modos de inferência com as categorias e no tocante a certos outros detalhes, confesso que minhas opiniões têm oscilado. (PEIRCE, CP 5.146)

Há uma passagem no artigo "Minute Logic" (CP 2.96) onde Peirce faz uma explícita correlação entre: 1. abdução com originalidade e ícone e, portanto Primeiridade; 2. dedução com obsistência e índice, isto é, Segundidade e 3. indução com transuação e símbolo, ou seja, Terceiridade.

A passagem em questão é transcrita a seguir:

O argumento é de três tipos: Dedução, Indução e Abdução (geralmente denominado de adoção de uma hipótese). Um argumento Obsistente, ou Dedução, é um argumento que representa fatos nas Premissas, de tal modo que, se vamos representálos num Diagrama, somos compelidos a representar o fato declarado na Conclusão: destarte, a Conclusão é levada a reconhecer que, independentemente de ser ela reconhecida ou não, os fatos enunciados nas premissas são tais como não poderiam ser se o fato enunciado na conclusão ali não estivesse: quer dizer, a Conclusão é sacada com reconhecimento de que os fatos enunciados nas Premissas constituem um Índice do fato cujo reconhecimento é assim compelido. Todas as demonstrações de Euclides são deste tipo. A Dedução é Obsistente quanto ao fato de ser o único tipo de argumento que é compulsório. Um Argumento Originário, ou Abdução, é um argumento que apresenta fatos em suas Premissas que apresentam uma similaridade com o fato enunciado na Conclusão, mas que poderiam perfeitamente ser verdadeiras sem que esta última também o fosse, mais ainda sem ser reconhecida: de tal forma que não somos
169

C.S. Peirce (1990), op. cit. p. 207 146

levados a afirmar positivamente a Conclusão, mas apenas inclinados a admiti-la como representando um fato do qual os fatos da premissa constituem um ícone.(...) Uma Abdução é Originária quanto ao fato de ser o único tipo de argumento que começa com uma nova idéia. Um Argumento Transuasivo, ou Indução, é um Argumento que emerge de uma hipótese, resultante de uma Abdução anterior, e de previsões virtuais, sacadas por Dedução, dos resultados de possíveis experimentos, e tendo realizado os experimentos, conclui que a hipótese é verdadeira na medida em que aquelas predições se verificam, mantendo-se esta conclusão, no entanto, sujeita a prováveis modificações que se seguiriam a futuros experimentos. Visto a importância dos fatos enunciados nas premissas depende do caráter de predicabilidade dos referidos fatos, que eles não poderiam ter se a conclusão não houvesse sido hipoteticamente sustentada, eles satisfazem a definição de um Símbolo do fato enunciado na conclusão. (PEIRCE, CP 2.96) 170

Numa outra passagem do texto os "Três Tipos de Raciocínio" (CP 5.171), Peirce diz que a "Dedução prova que algo deve ser", portanto ligada à necessidade da Segundidade. Já a "Indução mostra que alguma coisa é realmente operativa", seria o would be da Terceiridade e a "Abdução simplesmente sugere que alguma coisa pode ser", o may be, a possibilidade da Primeiridade. 171

Em outro texto, ao diferenciar abdução e indução, Peirce argumenta que as hipóteses fornecem o elemento sensual ("sensuous element") do raciocínio, portanto um primeiro, enquanto que a indução fornece o elemento habitual, a noção de hábito da terceiridade, já que indução é a forma lógica que expressa o processo fisiológico de formação de hábito. (CP 2.643)

Peirce atribui somente à abdução um poder heurístico originário (CP 5.171). Parece não haver dúvida quanto à importância que Peirce dava à criatividade científica (CP 1.46) e neste contexto, a relação da abdução com a Primeiridade fica bastante clara quando se compara algumas idéias típicas de Primeiridade (frescor, novo, original, espontâneo, livre... CP 1.357), com algumas passagens que falam sobre abdução. (A abdução formula hipóteses explanatórias para fatos que permanecem inexplicados, CP 2.777), o termo abdução indica as operações pelas quais teorias e conceitos são engendrados (CP 5.590), é a única operação lógica que apresenta uma idéia nova (CP 5.171 ), existe um elemento de liberdade e de criatividade na forma como as idéias se associam na mente (CP 6.302).

170

os grifos e negritos são meus. 147

Anderson em "Scientific Creativity"172 faz uma análise bastante interessante sobre a correspondência categorial com a abdução. Para ele, a chave para se entender a investigação está nas categorias. Assim, se pensarmos a abdução como uma forma de raciocínio, ela é essencialmente um terceiro, mas sendo o primeiro estágio da investigação científica e fazendo parte da metodêutica, é um primeiro de um terceiro.

Por outro lado, a primeiridade da abdução está ligada ao modo de autocontrole. Em primeiro lugar, sendo o primeiro raciocínio está ligado ao sentimento, que é a primeira das categorias da consciência (CP 2.643), o que caracteriza o fato da abdução ser a forma lógica mais fraca de argumento, além do que a abdução exibe um tipo de liberdade que não é próprio aos outros dois tipos de raciocínio, sendo a dedução e indução mais sujeitas a regras e formas (CP5.188).

Em segundo lugar, a abdução também é mais livre no sentido de que é um processo até certo ponto livre do trabalho da própria pessoa que raciocina, no momento em que está sob influência das idéias (MS. 442). Ambos os aspectos da liberdade, do ponto de vista do agente e do processo, são indicativos de sentimento - um agente do sentimento que é impresso na consciência pela imaginação é pouco sujeito às regras da inferência, além do que os sentimentos se forçam (“insist upon”) o agente.

A abdução busca uma teoria (CP 7.218), isto é, na abdução quem raciocina deve deixar que as idéias ou fatos da percepção gozem de liberdade, ou seja, o autocontrole começa somente no momento em que a pessoa se abre para as idéias. As hipóteses são meras possibilidades.
173

Peirce justifica estas idéias em "Humble Argument" em que ele descreve o

surgimento das hipóteses, como um devaneio, um jogo livre de sentimentos e idéias, com infinitas possibilidades:

Existe certa ocupação agradável da mente que, por não ter um nome distinto, eu infiro não ser comumente praticada como deveria; se adotada moderadamente digamos, uns cinco a seis por cento da vida consciente de alguém, talvez num passeio - ela é bastante refrescante para compensar os desgastes. Por não envolver nenhum propósito senão o de deixar de lado todo propósito sério , tenho algumas vezes me inclinado a considerá-la como um devaneio, mas com alguma qualificação,
171 172

C. S. Peirce, "Possibility, Impossibility, Possible".(CP 6.364) D. Anderson (1987) op.cit. p.41-50. 173 D.Anderson (1987) op. cit. p.42-43. 148

mas para um estado da mente antípoda ao vazio e falta de sonhos, tal designação seria inadequadamente dolorosa... Ela é de fato Puro Jogo. Mas o Jogo, nós sabemos, é um exercício vivo de nossos poderes. O Jogo Puro não tem regras, exceto esta genuína lei da liberdade. (PEIRCE, CP 6.458)

Peirce desenvolve esta idéia de devaneio como um estado da mente em que desfilam perante nós os três elementos da experiência, subsumidos às três categorias: o primeiro evidencia as meras qualidades na sua diversidade; o segundo, a existência das coisas na sua particularidade e o terceiro, aquele aspecto de ordenação, permanência e regularidade das coisas maravilhamento. (CP 6.458)
174

Para Staat, no artigo "On Abduction, Deduction, Induction and the Categories”

,

Peirce é bastante claro quanto à relação da Primeiridade com Abdução e claramente o termo qualidade é sugerido como correlato da natureza hipotética do raciocínio abdutivo.

Para Staat, a escolha da seqüência abdução, indução e dedução ou abdução, dedução , indução vai determinar a relação categorial mas esta escolha depende da perspectiva em que se coloca a questão:

1. do ponto de vista das inferências, a seqüência abdução, indução, dedução apresenta grau de certeza crescente e simultaneamente "uberty" decrescente; 2. do ponto de vista da Teoria da Investigação a seqüência seria abdução, dedução, indução, isto é, em primeiro lugar a hipótese, depois a formulação das condições de aceitação das hipóteses e finalmente o teste destas conseqüências de tal forma que novas hipóteses possam ser sugeridas, obviamente resultando num novo ciclo de investigação.

Por outro lado, Staat enfatiza que a abdução não pode ser estudada sem se entender o pragmatismo peirceano, já que "a questão do pragmatismo não é nada mais do que a lógica da abdução". Assim, a questão sobre o que seria o pragmatismo leva à pergunta sobre o que é a Lógica da abdução. Esta pergunta por sua vez remete à Teoria da Investigação, em que abdução, dedução e indução são explicadas em termos de modos da realidade,

174

W.Staat (1993), "On Abduction, Deduction, Induction and the Categories", Transactions of The Charles S.Peirce Society, Spring. Vol.XXIX, n.2.p.225/236 149

respectivamente - “can be- real- possibility" da Primeiridade, os existentes da Segundidade e o "would be" da Terceiridade.

Dado que o conhecimento não pode mais ser visto como um conjunto de proposições verdadeiras, mas sim como um processo, a epistemologia de Peirce é dinâmica, então o contexto da investigação determina a seqüência abdução, dedução e indução. Mas esta mesma seqüência pode ser considerada para a representação do processo de crescimento do conhecimento, como aparece nos trabalhos da maturidade de Peirce.

As mudanças que ocorreram nos trabalhos de Peirce são particularmente importantes para o contexto da abdução, dedução, indução no que diz respeito à correspondência categorial, à medida que Peirce não mais tratava a lógica como a disciplina fechada, mas sim como um processo dinâmico da investigação com uma essência semiótica e também Peirce deixava de considerar as formas de raciocínio como estritamente silogísticas.

Staat se diz cada vez mais convencido de que a seqüência categorial para as três fases da investigação é abdução-Primeiridade, dedução-Segundidade e indução-Terceiridade.

Ele conclui seu artigo argumentando que, do ponto de vista da Teoria da Investigação de Peirce, deveríamos atribuir a categoria do "would be", ou Terceiridade à representação completa da investigação, ou seja, a abdução, indução e dedução consideradas em conjunto. Se nós entendermos a indução como posterior à dedução e abdução, então ela está relacionada à Terceiridade e da abstração da Terceiridade chega-se à Segundidade da dedução. Segundo ele, a partir de 1896 não há mais dúvida quanto à Primeiridade da Abdução. No artigo mencionado, Staat cita outros comentadores175 que apresentam opiniões diferentes. Apel, Bense e Parret consideram abdução relacionada com a Primeiridade, mas a indução estaria relacionada com a Segundidade e a dedução com a Terceiridade. Para estes autores a indução ao "determinar o valor de uma relação" (CP 1.67) estaria relacionada à Segundidade-já que "a concepção de relação procede da consciência dupla ou sentido de ação e reação." (CP 1.376-379), como também a indução seria da ordem da experiência

175

Apud W. Staat (1993) op. cit. p. 227-229. 150

observacional, cuja estratégia corresponde à Segundidade, enquanto que a dedução seria da ordem do pensamento e, portanto corresponderia à Terceiridade. Para Apel176 a teoria da realidade de 1868 parece concentrar todo o processo de “inquiry” na representação conceptual do real por meio das inferências racionais (Terceiridade). A teoria do índice de 1885 trouxe o contato denotativo com fatos existentes encontrados na verificação experimental (Segundidade).

Continuando, Apel argumenta que a teoria icônica dos predicados perceptuais tornou possível, pela primeira vez, introduzir na estrutura da representação conceptual a comparação quantitativa do conhecimento formulado na linguagem e as características do que é real, e mais do que isto, tornou possível levar em conta sua percepção inicial como uma função da informação empírica. Mesmo o entendimento antropomórfico de próprio mundo, a que Peirce se refere repetidas vezes, a "afinidade da alma humana à alma do universo"177, como o horizonte heurístico de todas as hipóteses, deve ser baseado na função icônica, a cognição concebida em termos semióticos.

Para Apel, na teoria peirceana é possível relacionar as três espécies de inferências às ocorrências naturais percebidas pelos sentidos-as categorias. A ênfase da Primeridade na representação icônica resultou numa nova visão da inferência abdutiva. Se o homem tem o poder de explicar seus próprios significados através de símbolos, o que torna a dedução válida178, a dedução não teria nada a ver com a experiência de realidade, já que a dedução meramente envolve as conseqüências necessárias de pura hipótese. (CP 5.171) O contato da indução com a realidade é a "indicação" ou a "denotação" dos fatos encontrados, pois como Peirce sugeriu, em 1883, a indução serve unicamente para avaliar hipóteses já existentes seja confirmando-as ou estabelecendo sua falsidade.179

Segundo Staat, há ainda outra linha de comentadores, tais como o autor americano O'Donnell e o italiano Ponzio180. Para O'Donnell, a indução traz os habituais elementos do
176

K. Apel, (1981) CHARLES S. PEIRCE From Pragmatism to Pragmaticism, Amherst: University of Massachusetts Press. p. 104. 177 CP 5.47, 5.212, 5.536 e 6.477. 178 CP 6.474. 179 CP 5.171, 5.145 e 6.475. 180 apud W. Staat (1993) op. cit. p. 229. 151

pensamento ou da Terceiridade e a dedução está relacionada com os elementos de rotina da Segundidade. Para Ponzio, na dedução, sendo as premissas aceitas, a conclusão se impõe compulsoriamente, e portanto relaciona-se com a Segundidade, enquanto que na indução, a conclusão não é imposta pelas premissas, estando sujeita a modificação e portanto está ligada à mediação da Terceiridade. Por outro lado, segundo Ibri 181 podemos associar dedução com lei (Terceiridade), já que a dedução tem o caráter de uma inferência necessária, "observa-se por diversas vezes que o universo da lei, ou seja, o universo da terceiridade real configura-se como uma potencialidade cujo tecido lógico é a necessidade", como é explicitada nesta passagem:

Concebemos usualmente que a Natureza está perpetuamente efetuando deduções em "Bárbara". Esta é a nossa metafísica natural e antropomórfica. Concebemos que há Leis da Natureza que são suas regras ou premissas maiores. Concebemos que Casos surgem sob estas leis; estes casos consistem na predicação ou ocorrência de "causas" que são os termos médios dos silogismos. E, finalmente, concebemos que a ocorrência destas causas, em virtude das leis da Natureza, resulta em efeitos que são as conclusões do silogismo. (PEIRCE, CP 2.713)

Peirce mostra que a lei em si mesma não é um argumento dedutivo, mas dela participa como sua premissa maior e sob esta ótica, então a regra ou lei poderia se traduzir como causa formal do silogismo.
182

Kruse, no artigo "Indexicality and the Abductive Link"

sugere que "há certo sentido

no qual a indexicalidade é a função semiótica mais fundamental, baseada na relação singular entre a função indexical dos signos e o modo de inferência que Peirce chama de abdução". Para Kruse, a idéia de abdução como "a única operação lógica que apresenta uma idéia nova, relacionada a uma capacidade instintiva do homem para escolher a alternativa mais correta que explique alguns fatos surpreendentes", está relacionada ao processo de interpretar índices cuja relação com seu objeto dinâmico é ainda desconhecida e portanto relativa à Segundidade. Por outro lado, para Ibri183, conquanto parecesse não haver quaisquer regras que condicionem a formulação de uma hipótese explicativa, o processo pelo qual surge uma nova
181 182

I. Ibri, (1992), op. cit. p. 116. F. Kruse, (1986) "Indexicality and the Abductive Link", Transactions of The Charles S.Peirce Society, vol XXII, n.4, p.435-448. 183 I. Ibri, (1992) op. cit. p.118. 152

idéia está subsumido à terceira categoria. Para Ibri, esta explicação está contida na cosmologia peirceana: o evolucionismo configurou o crescimento da terceiridade sob a forma de aquisição de hábitos, ou seja, na forma de generalizações de natureza indutiva. Todavia na natureza modal da abdução existe uma intencionalidade que evidencia um paralelo entre o caráter originário das representações e aquele do próprio universo.

Não tenho sido bem sucedido em persuadir meus contemporâneos a crer que a Natureza também efetua induções e retroduções... Assinalo que a Evolução , onde quer que ela ocorra, é uma vasta sucessão de generalizações, pela qual a matéria está se tornando sujeita a leis cada vez mais elevadas; e aponto para a infinita variedade da natureza como testemunho de sua Originalidade ou poder de Retrodução. (PEIRCE, NEM 344)184

Nesta mesma linha de raciocínio, Kapitan185 em "In What is Abduction Inference Creative?" também relaciona a Terceiridade com abdução, como a "hipótese H que explicará o fato surpreendente C", segundo um determinado repertório, ou seja, um ”insight” direto dentro da Terceiridade.
186

Turrisi em "Peirce's Logic of Discovery”

argumenta que se podem reduzir todas as

formas lógicas abdução, dedução e indução a combinações de Terceiridade na concepção de inferência; combinações de Segundidade na concepção de alteridade e combinações de Primeiridade na concepção de caráter. Todas as formas lógicas, assim como todas as formas de existência real e todos os elementos do julgamento perceptivo consistem em última análise em formas das três categorias. Finalmente, para Santaella187, a correspondência entre as categorias só fica esclarecida quando se tem em mente o processo evolutivo do conceito de inferência e a refuncionalização do papel lógico que cada um dos tipos passou.

[...] antes de 1900, os modos de inferência estavam relacionados com as categorias à luz do grau de certeza de cada um desses modos, na seguinte ordem decrescente: dedução (terceiridade), indução (segundidade) e hipótese (primeiridade). Quando foram concebidos como estágios da investigação, a relação passou a ser: abdução (primeiridade), dedução (segundidade) e indução (terceiridade), visto que se trata
184 185

Idem, os grifos são de Ibri. T. Kapitan, (1990), "Peirce's Logic of Discovery", Transactions of the Charles S. Peirce Society vol. XXVI, n.4, p. 499512. 186 P. Turrisi, (1990), "Peirce's Logic of Discovery", Transactions of the Charles S. Peirce Society vol. XXVI, n.4, p. 465-497 187 L. Santaella, (1993b) op.cit. p. 88. Ver item 2.3 deste capítulo. 153

aqui não mais do grau de força de cada um dos argumentos lógicos, mas da sua ordem de interdependência no processo. (SANTAELLA, 1993 b: 88)

3. A Lógica da Investigação:
“Apenas ressalto que, apesar do muito que se possa aprender por outras formas quanto ao método de abordar um problema incomum, algo pode ser acrescentado a esse conhecimento se levar em consideração a teoria geral de como a pesquisa deve ser realizada.” (PEIRCE, CP 2.106) 188

Um dos textos peirceanos que trata da Lógica da Investigação é o "Lógica de 1873" (CP
7.313-326). Este texto começa trazendo algumas distinções entre crença e dúvida, que

merecem ser analisadas face à importância da teoria dúvida-crença no contexto da investigação.

Dúvida e crença são dois estados da mente que podem ser distinguidos pela sensação imediata. Quase sempre sabemos quando estamos em dúvida e quando estamos convencidos. É a mesma diferença entre vermelho e azul, entre prazer e dor (CP 7 313).

Mas existe uma diferença fundamental de ordem prática entre dúvida e crença. Quando nós acreditamos, há uma proposição de acordo com certas regras, que determina nossas ações. Portanto, se conhecermos a crença na qual acreditamos, o modo como nos conduziremos pode ser deduzido. Já a dúvida tem efeito diferente, a dúvida nos faz hesitar.

A dúvida viva é a vida da investigação, quando a dúvida cessa, a investigação deve parar. (CP 7.314) Dessa concepção de investigação, nasce o desejo de se chegar ao acordo de opiniões com respeito a uma conclusão, acordo este que seja independente de todas as limitações individuais, independente de caprichos, de tirania, de acidentes... (CP 7.315).

Mas este acordo de opiniões através da investigação é bem diferente dos outros tipos de acordos. Na investigação não fixamos a resposta para uma questão, ao contrário, começamos com várias opiniões, que vamos mudando até que possamos estabelecer alguma conclusão, que dependa unicamente da própria natureza da investigação.

188

Traduzido em C.S.Peirce (1990) op. cit. p. 35. 154

O argumento básico da teoria dúvida-crença é o seguinte: o conhecimento das leis que governam o comportamento das coisas tem pelo menos um efeito prático, que é o de permitir predizer quais experiências sensíveis receberemos de um objeto em conseqüência de nossas ações. Assim, se desejarmos obter determinadas experiências, então o conhecimento daquelas leis nos permitirá moldar nossas ações para atingir um fim desejado.

Segundo Peirce, se deixarmos duas mentes conduzirem independentemente uma investigação, levando suficientemente adiante este processo de investigação, elas chegarão a um acordo tal que nenhuma investigação futura poderá perturbar. (CP 7.319). Chegar a um estado de crença estável, que permaneça a longo prazo é o objetivo da investigação. Mas isto só é verdadeiro para investigações que forem levadas a cabo em concordância com regras apropriadas. Portanto, devemos encontrar regras para conduzir bem a investigação. Esta é uma tarefa para a lógica como doutrina da verdade e sua natureza da maneira pela qual é descoberta. (CP 7.321.) É a lógica que descobre as regras para se conduzir a investigação com sucesso.

A verdadeira investigação começa com a dúvida genuína e termina quando esta dúvida cessa. Assim o fundamento racional para se dar preferência a um método se refere à sua força para fixar crenças e este método é o método da ciência.
189

Toda investigação pressupõe a

passagem de um estado de dúvida para um estado de crença, há, portanto uma sucessão de tempo nas mentes que estão aptas a inquirir.

Durante o processo de investigação, elementos de pensamento vêm à mente. Estes elementos, que não estavam presentes no momento em que a investigação começou, Peirce os denomina de sensações. (CP 7.325)

Toda mente capaz de investigar tem que ser capaz de sensações, daqui resulta a distinção entre boa e má investigação. Determinados pensamentos são produzidos por pensamentos prévios, e a faculdade de produzir determinados pensamentos a partir de outros

189

ver item 2 deste capítulo, "A questão do método". 155

deve ser própria da mente que investiga para a qual esta sucessão de idéias no tempo é essencial. A Lógica da Investigação pode ser entendida como um “mapa” a ser seguido em todos os tipos de pesquisa. É constituída por um ciclo que começa com a abdução/ dedução/ indução/ nova abdução..., estes três estágios da investigação são harmonicamente e interdepentemente ligados, de forma que do nascimento das hipóteses, de sua seleção nas considerações de economia, dos métodos de construção teórica e do teste comprobatório das hipóteses delineia-se a investigação, sem que nos esqueçamos dos erros, acertos, sucessos e fracassos deste processo.

Toda a idéia da Metodêutica consiste em explicar como as etapas da investigação se encadeiam. As etapas da investigação são as seguintes:

1. juntar e considerar fatos que não nos haviam ocorrido (que Peirce chama de interessante coligação dos fatos). 2. experimentar, observar e analisar, 3. generalizar os resultados obtidos. (CP 7.276-7).

A investigação, portanto, começa na observação de um fato surpreendente. Este fato é analisado em todos os seus aspectos na busca de alguma hipótese que o explique. Surge então uma conjectura, que fornece uma explicação, ou seja, levanta-se uma hipótese que o explique. A explicação deve ser tal que leve à predição dos fatos observados, seja como conseqüência necessária, seja como prováveis em determinadas circunstâncias. A hipótese adotada deve ser plausível em si mesma ou tornar os fatos plausíveis. (CP 7 202)

A hipótese remove o estranhamento dos fatos, colocando-os numa forma ou aspecto sob os quais eles se assemelham a outros que nos são familiares. Qualquer proposição que tenda a esclarecer os dados de forma diferente pode ser chamada de hipótese.190
190

Segundo Peirce, em “Valid Hypotheses and Miracles”, para grande parcela dos antigos filósofos, o conhecimento em parte se deve aos sentidos em parte à razão, para outros, no entanto, o conhecimento é derivado exclusivamente dos sentidos enquanto uns poucos acreditavam que já nascemos com o poder de conhecer. Peirce discorda da primeira opinião e concorda em parte com as duas últimas. Para Peirce, o fato de nosso conhecimento estar fundado na observação é verdadeiro no sentido que tudo depende dos perceptos, isto é, do conhecimento direto das coisas percebidas. Para Peirce, além dos perceptos a crítica lógica não pode ir. Segundo ele, a psicologia prova que os perceptos são eles próprios 156

Quando surgem fatos contrários a nossa expectativa, somos obrigados a procurar uma explicação. Tal explicação será uma proposição hipotética que deve nos permitir prever, em circunstâncias semelhantes, fatos surpreendentes semelhantes, seja como conseqüência necessária, seja como conseqüência muito provável. Toda teoria científica deve começar por este momento hipotético, relacionando experiência prévia e previsão. (SERSON, 1993:9)

O que é então a abdução? É o processo de levantar hipóteses. As hipóteses são construídas e selecionadas na abdução. Peirce chama de fantástica essa nossa capacidade de levantar hipóteses.

Levantamos algumas poucas hipóteses, dentre as centenas que podemos levantar, e a história tende a mostrar que dentre estas, alguma se mostra verdadeira. Que direcionamento é este que a mente humana tem em direção à verdade, que faculdade e esta que nos leva a descobrir o verdadeiro? Alguns autores acham que a lógica da descoberta é uma questão de psicologia, para Peirce esta solução passa pela cosmologia. 191

Há uma doutrina puramente lógica de como a descoberta deve ocorrer (...). Atualmente, apenas os métodos podem fortemente chamar atenção; e eles têm vindo em tal quantidade que o próximo passo será certamente encontrar um método para descobrir métodos. A fim de cobrir todas as possibilidades, isso deveria estar fundado numa teoria geral dos métodos para se atingir propósitos em geral; e isto, por sua vez, deveria vir de uma doutrina ainda mais geral da natureza da ação teleológica, em geral. (PEIRCE, CP 2.105-107)

Uma hipótese H é verdadeira se submetida, tanto quanto possível, à investigação relevante, de tal forma que uma comunidade de pesquisadores a reconheça como verdadeira para um conjunto de evidências e argumentações disponíveis para aquela comunidade. Ou seja, H será considerada verdadeira se não puder ser demovida pela dúvida. Embora as hipóteses sejam criadas na imaginação elas descobrem relações surpreendentes, porque a "conclusão nos ilumina irresistivelmente" (MS 453)

operações mentais e diferentes das impressões dos sentidos. Nossos perceptos e observações diretas são relacionados exclusivamente às circunstâncias que os cercam e não às ocasiões futuras em que poderíamos estar em dúvida como agir. Conseqüentemente os fatos observados não contem neles mesmos qualquer conhecimento prático e para obter conhecimento é necessário adicionar dados àqueles da percepção. Perceber é estar diante de algo, naquele ato de estar, enquanto acontece. Assim, qualquer proposição que adicionada aos perceptos tende a esclarecer os dados de forma diferente pode ser chamada de hipótese. 191 I.Ibri (1996 c) “Abdução e Evolucionismo”, palestra proferida na PUC, anotações de aula. 157

É a adoção da hipótese que vai nos permitir passar para os outros estágios da investigação. A seguir, o investigador vai indagar da plausibilidade desta explicação. Começa o processo de verificação que se divide em dedução e indução. As hipóteses construídas e selecionadas na abdução devem passar pelo processo de verificação, que é fundamental para aceitação dessas hipóteses, mas a verificação se dá segundo algumas regras, porque o teste das hipóteses é dispendioso, envolvendo tempo, energia e dinheiro, daí que somente algumas hipóteses podem ser testadas.

A verificação começa com o exame cuidadoso da hipótese e um levantamento das conseqüências experienciáveis que se seguiriam de sua verdade, isto é, deduzo da hipótese aquilo que ela necessariamente acarreta. Deduzir todas as conseqüências experienciáveis é o segundo passo da investigação, a dedução.

Quando uma hipótese explanatória, capaz de ser testada, for escolhida, o investigador dela extrai predições virtuais. Uma predição virtual é uma conseqüência experimental deduzida da hipótese selecionada e escolhida entre possíveis conseqüências,

independentemente de ser conhecida, ou acreditada, de ser verdadeira ou não. Ao ser escolhida, o investigador se encontra em estado de ignorância quanto a se irá comprovar ou refutar a hipótese (CP 2.96). Se a hipótese estiver correta, todas as suas predições serão confirmadas.

Tendo sido sugerida uma teoria na abdução, cabe agora à dedução obter desta teoria uma multiplicidade de conseqüências que nos permitem prever se nós realizarmos certos atos, nós nos confrontaremos com certas experiências. (SERSON, 1993:9)

O raciocínio da dedução é diagramático, e a experimentação feita na dedução através dos diagramas é imaginária, sendo um diagrama um ícone de relações, que reúne simultaneamente todos os elementos em um único sistema. Assim, na dedução pode-se perceber diagramaticamente ou esquematicamente todas as implicações da hipótese. A fase dedutiva termina nas predições observadas que foram extraídas das hipóteses explanatórias.

Como é que se pode comprovar uma hipótese? A hipótese tem que ser testada experimentalmente para se saber se é verdadeira. Aqui começa a indução. A dedução só tira
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da hipótese uma conseqüência necessária e observável, para que a indução ao testá-la, legitime a hipótese. O que tem a indução de especial? Observando fatos isolados e particulares, nós generalizamos. Examino alguns fatos e digo que esta estrutura de fatos vai permanecer no futuro. A indução difere da dedução porque sua força depende, em parte, da linha de conduta escolhida pelo pesquisador, o que afeta a indução porque está relacionada com o curso da experiência.

A indução começa com uma operação de classificação, passando à comprovação, que é o momento em que o pesquisador percebe se foram ou não preenchidas as condições de predição. É na fase de comprovação que entram as três espécies de indução crua, qualitativa e quantitativa.

Na indução o pesquisador verifica se as conseqüências observáveis preditas realmente ocorrem. Desta avaliação o pesquisador poderá aceitar, ajustar, modificar ou rejeitar a hipótese. Após a verificação, se a hipótese não for aceita, então o ciclo recomeça. Há necessidade de uma nova abdução e assim por diante, ou um fato novo pode aparecer, requerendo uma nova hipótese e, de novo o ciclo recomeça. Se outros fatos surpreendentes forem observados (fatos que não foram previstos pela dedução) ou se existirem diferenças entre as previsões e os resultados obtidos pela dedução, então pode haver necessidade de reformulação da hipótese original ou a hipótese original pode ser abandonada e haverá necessidade de formulação de hipóteses novas, recomeçando o ciclo, nova

abdução/dedução/indução... Para Peirce esta é a estrutura de toda investigação, tanto da ciência, quanto da vida quotidiana. Nós operamos na vida quotidiana com estes mesmos três estágios de raciocínio. No quotidiano, acontece um fato surpreendente, para ser explicado este fato levanta-se uma hipótese da qual decorrem algumas conseqüências, vou verificar estas conseqüências, se elas se confirmarem, a hipótese é verdadeira. Santaella (1993b: 145) resume a lógica da investigação da seguinte forma: A fase abdutiva pode ser considerada como o primeiro estágio da investigação científica na medida em que é responsável pela geração original (primeiro passo) e recomendação (segunda passo) de uma hipótese explanatória. No segundo estágio dedutivo, a hipótese selecionada é
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examinada e suas conseqüências derivadas. Este estágio também tem duas partes: a primeira consiste na análise lógica para explicar a hipótese e torná-la tão perfeitamente distinta quanto possível. A “explicação” é seguida da “demonstração”, quando o pesquisador examina mais aproximadamente as considerações já introduzidas ou envolvidas na explicação a fim de derivar suas conseqüências experimentais. Tendo isso sido conduzido suficientemente, a pesquisa entra no terceiro estágio, aquele de se verificar se as conseqüências estão de acordo com a experiência, e julgar se a hipótese está sensivelmente correta, ou se requer alguma modificação não essencial, ou se deve ser inteiramente rejeitada. (CP 6.472) Este estágio indutivo, conforme foi visto anteriormente tem três fases após o que o pesquisador passa o julgamento final dos resultados obtidos. (CP 6.464-73). Um dos melhores exemplos do que seja a lógica da investigação é o caso de Kepler192, em “De Motibus stellae Martis”, é um exemplo que chega bem perto do ideal peirceano de investigação científica.

Kepler iniciou com o registro de um grande número de observações das posições aparentes de Marte, em tempos diferentes. Os dados pareciam estar de acordo com o sistema ptolomaico e copernicano, mas Kepler começou a suspeitar haver no modelo copernicano algo mais do que só uma descrição dos fatos. O modelo sugeria que o Sol poderia ter algo a ver com o movimento dos planetas. Perseguindo esta hipótese, ele foi buscar uma explicação. Acabou descobrindo que a teoria conflitava com os fatos, mas sem descartá-la acabou modificando-a, primeiro desistindo de uma parcela do sistema ptolomaico, com isto chegando a uma teoria que se ajustava aos fatos.

Não escolheu esta verificação pelo fato dela proporcionar um resultado favorável. Kepler não sabia que o resultado seria favorável. Escolheu-a porque era a verificação que a Razão exigia que fosse aplicada. Se este caminho for seguido, só permanecerão de pé aquelas teorias que são verdadeiras. (PEIRCE, CP 2.97)

Em cada etapa de sua longa investigação, Kepler tinha uma teoria aproximadamente verdadeira, que ele ia modificando, após “cuidadosa e judiciosa reflexão, de maneira a tornála mais racional ou próxima do fato observado.”

192

Ver CP 1.71-78. Este texto está traduzido em C.S.Peirce, (1990) op.cit. p. 7. 160

Assim, nunca modificando caprichosamente sua teoria, pelo contrário, tendo sempre um motivo sólido e racional para qualquer modificação que fizesse, tem-se que quando ele finalmente procede a uma modificação - da mais notável simplicidade e racionalidade - que satisfaz exatamente as observações, essa modificação firma-se sobre uma base lógica totalmente diferente da que apresentaria se tivesse sido feita ao acaso, ou de outro modo que não se sabe qual seja e se tivesse sido encontrada para satisfazer as observações. Kepler demonstra seu aguçado senso lógico no detalhamento do processo total através do qual ele finalmente chega à verdadeira órbita. (PEIRCE, CP 1.74)

Para Santaella (1993 b: 205), o exemplo de Kepler é instrutivo de dois modos diferentes. Primeiro porque mostra que o modelo indutivo das teorias científicas com meras generalizações pode ser inadequado, pois precisamos de algumas hipóteses que nos digam o que e sob quais condições fazer a observação. Em segundo, mostra que nem sempre o teste das teorias consiste numa tentativa de refutá-las, mas pelo contrário, trata-se de “um meio de se chegar a uma teoria melhor.” Apenas uma modificação pode ser suficiente para que o conflito entre os fatos e a teoria seja removido.

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CONCLUSÕES:
“É fundamentalmente a este ser real que Peirce se refere em sua famosa tríade semiótica: Signo, Objeto, Interpretante. A esta exterioridade sempre desafiadora, que denominamos Mundo, Natureza sedutoramente convidativa à decifração pela ciência, produção infinita de arte no dizer de Schelling. Aquilo que é geneticamente admirável, que se apresentou para o olhar de Platão no Teeteto, que despertou nostalgia em Schiller em Os Deuses da Grécia, que sugeriu a Einstein cavalgar um raio de luz para vê-lo de modo diferente.” (Ibri, 1996 a)

Nos capítulos iniciais procuramos contextualizar a Teoria da Investigação no interior da Semiótica peirceana, tomando-se como ponto de partida o diagrama de classificação das ciências de Peirce. Este diagrama serve como um mapa para se entender as intricadas interconexões entre as ciências na visão peirceana.

Procuramos mostrar também que uma metodologia semiótica nos moldes peirceanos consiste em usar a própria definição de signo ou forma lógica de pensamento como um modelo epistemológico ou como um mapa orientador que serve para qualquer espécie de investigação. Esta especificação nasce da concepção de semiótica peirceana como uma lógica que leva em consideração todos os tipos possíveis de signos e seus específicos modos de ação ou semiose.
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A Semiótica, além de ser a ciência de todos os tipos de signo é também, como conseqüência da relação triádica signo-objeto-interpretante, uma teoria da significação (da relação do signo consigo mesmo), uma teoria da objetivação (da relação do signo com seu objeto) e uma teoria da interpretação (da relação do signo com seu interpretante).

Cada signo diz respeito a certo tipo especial de raciocínio. É um postulado da Semiótica peirceana não existir mecanismo de raciocínio possível, e conseqüentemente, método de investigação que prescinda do uso de signos.

Por outro lado, da própria vagueza e falta de precisão do signo, decorre uma lógica que pode tratar de problemas de indeterminação e incerteza, o que coloca a Semiótica em sintonia com a ciência contemporânea. Para Peirce, "todo avanço importante no campo da ciência tem correspondido a uma lição de lógica." (CP 5.365)

A Teoria da Investigação de Peirce procura entender e avaliar o funcionamento do processo lógico do investigador científico. Qualquer investigação envolve uma reflexão autocoerente sobre como pensamentos e argumentos devem ser ordenados em busca da verdade.

A Teoria da Investigação, da qual o pragmatismo é parte fundamental, inclui a teoria do pensamento-signo, a teoria da realidade e a teoria dúvida-crença, ao mesmo tempo em que exclui a intuição, a introspecção e os incognoscíveis.193 Segundo Santaella, a teoria da cognição desenvolvida por Peirce, e que se completa na Teoria da Investigação reúne a crítica à teoria da intuição e postula a fundação para a investigação com base na concepção inferencial da mente cognitiva, apoiando-se na teoria do pensamento-signo. O caráter dinâmico de pensamento194 é um de seus traços mais marcantes da visão peirceana. Pensamento é um processo dialógico, em que se estabelece um diálogo interior entre diferentes temporalidades ou fases do eu. O movimento do pensamento consiste em colocar argumentos contra ou a favor, pesando cada um deles, analisando-os, para então se tomar uma posição. A partir de uma nova posição, começamos novamente a levantar
193 194

H. Murphey, op. cit. p. 159. L.Santaella, (1993 b) p.175. 163

argumentos e assim caminhamos para frente e para trás, até que alguma solução seja encontrada que leve em conta os méritos de cada possibilidade. A habilidade para imaginar situações diferentes, para ser sensível a objeções, constitui a verdadeira força do pensamento.

O raciocínio não é só uma questão de se extrair inferências a partir de experiências passadas. É uma visão criativa de inúmeras possibilidades, incluindo a previsão de conseqüências futuras, não apenas aquelas mais óbvias, mas também aquelas possibilidades mais abrangentes e de longo alcance.

A doutrina dos signos é, portanto, essencial para a compreensão da visão do pensamento como um diálogo interior. “Pensamento dialógico é pensamento diagramático, que o raciocínio leva às últimas conseqüências” (Santaella, 1993 b:176) Portanto, a doutrina dos signos é base para os processos conscientes de pensamento, aqueles que se submetem à ação do autocontrole.

O propósito dos signos, que é o propósito dos pensamentos, é dar expressão à verdade. A lei sob a qual um signo deve ser verdadeiro é a lei da inferência; e os signos de uma inteligência científica devem, sobre todas as outras condições, serem supridos pela inferência (PEIRCE, CP 2.444).

Pensamento sob autocontrole é a marca do pensamento científico, sem essa função o exercício da ciência seria impossível. Na obra de Peirce, “quando os tipos de raciocínio passaram a ser vistos como os estágios da investigação, forma-se então um todo harmônico...:” (Santaella, 1993 b: 198) A Teoria da Investigação, ao mostrar como se deve conduzir uma investigação (isto é, como se encadeiam os três estágios abdução, dedução e indução) utiliza tudo aquilo que foi estudado pela Lógica Crítica, quando trata do grau de validade e força de cada um dos argumentos, mas tendo ido anteriormente buscar seus fundamentos na Gramática Pura.

Do ponto de vista da doutrina dos signos, a Teoria da Investigação pode ser pensada como um processo triádico de interpretação de signos guiada pelo objetivo de se conhecer o caráter real dos objetos dos signos.

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A necessidade da Metodêutica como estudo dos procedimentos apropriados a qualquer tipo de pesquisa se justifica, pois métodos baseados na experiência, sem este estudo teórico, estão fadados a equívocos, pois se forem aplicados erroneamente não poderão se autocorrigir.195 A Teoria da Investigação também pode ser chamada de Teoria do Método Científico.

A Teoria da Investigação parte de alguns pontos chaves, dos quais o primeiro é a rejeição peirceana aos “apriorismos” e à tradição fundacionalista.

Berkeley e Hume mostraram que todo o edifício do conhecimento humano, de acordo com a tradição fundacionalista, estava construído sobre areia e poderia desabar a qualquer momento. O ponto de partida para estes filósofos é uma concepção de conhecimento que requer fundações seguras.

Peirce aceita os argumentos de Berkeley e Hume, mas rejeita tanto suas premissas como as conclusões. Peirce parte do princípio de que, de fato, temos conhecimento e o problema filosófico consiste em explicar como este conhecimento é possível. Portanto, para Peirce, o ponto de partida é muito diferente: começar daquelas coisas das quais não duvidamos é muito diferente de começar de certezas absolutas. Partimos das nossas crenças, e da definição de crença como aquilo em função do qual o homem está preparado para agir. As crenças são tratadas como uma disposição para a conduta. A posição de Peirce é contrária àquela de "certos filósofos imaginaram que, para começo de uma investigação bastaria colocar por escrito ou oralmente, uma indagação, e chegaram a recomendar que iniciássemos nossos estudos questionando tudo..." Embora

Peirce considere Descartes o pai da filosofia moderna, Peirce é totalmente anti-cartesiano, não só pelo início de uma filosofia a partir de um ceticismo metodológico, mas também pelo critério de verdade e veracidade que aparece no cartesianismo. Para Descartes, a crença é firmada com base no que os homens encontram no próprio espírito. Descarte começa duvidando de tudo para livrar-se do “espírito maligno do engano”. Ele quer começar por um ponto indubitável e acaba começando pela certeza da existência, mas
195

B.Kent (1987), op.cit.p.178. 165

Descartes nunca duvidou da existência de uma linguagem através da qual ele duvida e que tem significado para outras pessoas. A dúvida, portanto não é cabal.

Para Peirce não se pode duvidar do conceito de existir, não se pode reduzir o saber a zero. É uma ilusão cartesiana reduzir o saber a zero, e partir de uma certeza absoluta. Peirce é totalmente avesso a este início de filosofia, que é um duvidar acadêmico: por uma decisão, passo a duvidar.

Isto não é possível na prática científica. Na prática científica ninguém duvida por uma questão pessoal, duvidar é um evento extraordinariamente complicado para o espírito, uma operação complicada entre sujeito e objeto. Crer ou duvidar não é uma decisão unilateral.

Segundo Peirce, existe uma idéia comum de que uma demonstração deve se apoiar em certas proposições últimas e absolutamente indubitáveis. Peirce recusa esta idéia de último e indubitável, para ele a pretensão de verdades últimas beira a “comicidade”.

Na verdade, para que uma investigação atinja um resultado inteiramente satisfatório basta começar a partir de proposições inteiramente isentas de dúvida, “não recaindo qualquer dúvida sobre as premissas”. Mas partir de proposições das quais não se duvida não significa partir de verdades últimas.

A investigação começa a partir de um estado de dúvida incomodo paralisante, no qual não se consegue escolher entre dois cursos de ação. Esta dúvida da qual começa a investigação é uma dúvida real, genuína, e não simplesmente uma dúvida metodológica, um "faz-de-conta." Deve existir uma dúvida viva e real, sem o que toda discussão será vazia. Uma dúvida gerada por um fato que contradiz o que a crença previu, ou um fato novo que nenhuma crença, nenhuma teoria dá conta.

Se o fato for previsível, a teoria dá conta. Se o fato não é previsível, está no universo da possibilidade, é como se fosse um jogo de dados, é aleatório. Ser previsível é estar contido numa teoria operativa.

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A investigação começa, portanto, a partir de uma dúvida genuína. O objetivo da investigação é recuperar o estado de calma e equilíbrio que caracteriza a crença. A decisão quanto à verdade e falsidade de uma crença se coloca, para Peirce, em termos do que está disponível ao conhecimento do investigador.

A investigação tem por objetivo único o acordo de opiniões. Para Peirce, não deveria haver nem subjetividade nem opinião pessoal implicada na investigação. A investigação deve levar a um acordo de opiniões e, quando Peirce fala em crença, ele está se referindo à crença coletiva, o que dá sustentação à investigação é o acordo de opiniões. Segundo Peirce, nossas investigações começam carregadas de crenças, mas também com a esperança de que nossas hipóteses sejam comprovadas. A dúvida surge necessariamente no decorrer da pesquisa e não antes que ela se inicie. Que o acordo de opiniões seja o único objetivo da investigação constitui proposição muito importante, pois o papel fundamental da investigação é fundir o individual com o coletivo. Peirce é totalmente avesso a qualquer individualismo.

Havendo acordo de opiniões, há certa universalidade da experiência, o que afasta fantasma do relativismo sofista, no qual o homem é a medida de todas as coisas . Se isto fosse verdade nenhuma ciência seria possível, nenhum acordo de opiniões no qual toda ciência se baseia seria possível, porque visão de mundo e juízo de mundo seria tão somente uma questão de idiossincrasia, cada um teria seu mundo dentro de si, intransmissível. Que há acordo de opiniões, isto é um fato, a ciência é um fato. (Ibri, 1997).

Mas a preocupação de Peirce não é o sujeito individual. A crença coletiva é para aqueles que crêem uma verdade. Buscamos não apenas uma opinião, mas uma opinião verdadeira, que é de certa maneira este acordo de opiniões. Este acordo não é tão somente um acordo opinativo, mas um acordo em torno do verdadeiro. Pode-se então, perceber a relação entre crença, dúvida e acordo de opiniões verdadeiras, embora para Peirce não exista algo que seja verdade última, verdade final. A relação entre crença e dúvida é um problema coletivo, é um problema de conhecimento coletivo, que é efetivamente o estatuto do conhecer. Evidentemente tudo aquilo que se aplica à coletividade também pode ser aplicável ao individual.

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Para Peirce há dois modos de bloquear o caminho do conhecimento: presumir a impossibilidade de conhecer a verdade ou assumir que a verdade já é conhecida.

A crença coletiva só pode evidentemente ser rompida por uma dúvida de fato, gerada não por um discurso, mas por uma experiência de fato. A experiência só vai abalar uma crença se estiver em desacordo com o que o meu saber prevê. É assim que se dá a ruptura de crença: o fato entrou em conflito com a previsão, e instaura a dúvida. Passa a existir um conflito entre o evento previsto e o evento ocorrido, ocorre uma desarmonia de eventos.

O fato contesta a previsão da teoria. A substância da crença é uma teoria. Crer em alguma coisa significa fazer da minha teoria o objeto da minha crença. Quando mudamos de uma crença para outra? O que faz com que mudemos de crença? O que nos faz mudar é a experiência, são os fatos e não o arbítrio das nossas idéias.

A experiência é o agente que nos faz pensar, o agente que provoca o pensamento. Existe um mundo que resiste ao nosso pensamento e nos obriga a pensar diferentemente, que nos obriga a corrigir concepções e nos obriga a duvidar e a crer. Por detrás de tudo isto está o real, a realidade. O real não é só uma palavra, existe o objeto que permanece indiferente ao que dele pensamos, que permanece indiferente aos nossos atos de vontade.

Esta é a condição de verdade. Se a representação não se balizar por algo fora dela, como é que se pode definir verdade? A verdade é um acordo de opiniões, mas o que sustenta o acordo de opiniões é o real. Realidade é externa à mente humana e algo que esteja fora do alcance da investigação não é real. (CP 5.311)

Este é um ponto muito importante, porque para algumas correntes filosóficas, nós é que criamos a realidade, a realidade é constituída pelo nosso pensamento. Mas é nossa idéia de mundo que condiciona nossas condutas, existe certo arbítrio na formulação de idéia de mundo. Portanto, está excluído destas filosofias certo diálogo com o mundo, está excluída uma visão da alteridade do mundo, da alteridade da nossa experiência.

Para idealistas como Berkeley e Fichte, o mundo é o que acontece dentro de mim. Não existe mundo externo. Mas para Peirce, "o que afeta o espírito é suscetível de ver-se
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transformado em motivo de esforço mental”, e este objeto que afeta o espírito, é compreendido como mundo externo, mundo real.

Para Skagestad (1981:49), a concepção de significado e o realismo estão no coração da Teoria da Investigação. O realismo peirceano pode ser caracterizado como a doutrina de que os universais são reais. “Ora, por qualquer que seja a maquinaria através da qual possa ser realizado, é certo que, de algum modo, e num sentido verdadeiro e apropriado, as ideais gerais, de fato, produzem efeitos físicos estupendos” (PEIRCE, apud Santaella 1993:193)

Quando o objeto apresenta uma radical alteridade e liberdade, nós não conseguimos pensar, não conseguimos reduzir sua conduta nenhuma representação. Aqui está embutida a idéia peirceana de que os universais são reais, isto é, dizer que a linguagem, o pensamento e o conhecimento requerem “ordem no mundo”. Isto significa uma posição realista, as leis como entidades gerais, como regras, são reais, isto é, existe um mundo que contém regras reais.

Da doutrina de que a ciência progride assumindo que existem leis da natureza, que estas leis são reais, Peirce chega à conclusão que o nominalismo tem impedido o progresso da ciência, bloqueando a investigação, ao “proibir a investigação da realidade implícita no fenômeno.” Existem filosofias que dizem não acreditar em leis da natureza. As leis da natureza seriam simples palavras que nós criamos, são determinadas regras que nós inventamos para lidar com os fatos. Para estas filosofias o mundo é desorganizado e nós é que organizamos o mundo segundo nossa linguagem.

No entanto, muitos que defendem estas idéias são flagrados fazendo planos para o futuro. Para Peirce, fazer planos para o futuro revela uma crença na continuidade das regularidades e a continuidade das regularidades se chama lei. Ao formular planos para o futuro, estes planos só são possíveis de serem realizados, desde que as regularidades do passado permaneçam regularidades no futuro. Não é possível fazer nenhuma previsão se o objeto não estiver submetido a determinadas leis.

Para o ser humano é angustiante não poder fazer previsões. O que significa não conhecer? Significa que o objeto não está submetido a nenhuma regra, não é redutível a teoria nenhuma, não é redutível à previsibilidade. Se tudo fosse aleatório, a vida não seria possível.
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Por isso não se pode dizer que lei é uma invenção nossa, não se pode dizer que é a inteligência humana organiza a experiência e que a linguagem humana dá ordem à experiência ou o que ordena o mundo é a linguagem humana. O mundo não é um aglomerado de fatos, mas é também uma relação ordenada destes fatos e esta relação é real, não é uma invenção da nossa linguagem. Aliás, a linguagem só é possível porque a relação é real. A linguagem não pode dar gênese a esta relação. Esta relação real, na sua universalidade, é a condição de possibilidade para o pensamento e para a linguagem. As filosofias que defendem o contrário se embaraçam diante da alteridade do objeto, porque se o objeto obedece à gramática da linguagem, à ordenação da linguagem, ele não tem alteridade, então estamos no universo da ficção e não no mundo. A primeira distinção básica entre ficção e real está na alteridade do mundo. É crucial reconhecer a impotência dos nossos pensamentos e da nossa linguagem em dar formas às coisas. Criar condições de significação para nós não significa ordenar as coisas. As coisas têm uma ordem que é delas. O discurso pode desacreditar a lei, mas a conduta revela a crença na lei, temos que nos fiar na conduta que revela a crença. Neste caso a filosofia se torna um jogo de faz-de-conta. Peirce se insurge contra o vício de se desligar a filosofia da vida comum. Só que a vida está impregnada de especulação, de desafios ao imaginário e ao hipotético, a tudo aquilo que tomamos como cabais, definitivos, desafio ao senso comum. Devemos observar a alteridade como espelho e buscar a verdade. A distinção entre realidade e ficção é fundamental. Há uma grande distância entre a ciência e a literatura. Há uma grande diferença entre um discurso que lida com a realidade, com o real e um discurso que lida com a ficção.

É da natureza da ficção o desacordo de opiniões, e nem há porque haver acordo de opiniões, e quando há acordo é mero acidente. O universo do discurso artístico é o universo da liberdade, que não tem outro condicionando seu modo de ser. Em torno do discurso artístico não cabe verdade, cabe tão somente discussões, a natureza do discurso artístico favorece o desacordo de opiniões. O acordo aí é meramente acidental, porque não há nada fora do discurso capaz de balizar o que se chama de verdadeiro. (IBRI, 1997)

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Já a natureza do discurso científico implica o acordo de opiniões. Sem acordo de opiniões não há ciência. No mundo da ciência, a experiência efetivamente feita baliza o acordo de opiniões. Não há verdade nem falsidade no discurso da arte, mas isto é essencial no discurso da ciência.

Quando se diz que uma determinada teoria funciona, significa dizer que o que ela prevê dá certo, isto é, os fatos combinam com a previsão. Uma experiência pode fugir a uma previsão por um erro de medição, um erro de constituição da própria experiência. Peirce, como cientista, tem consciência de que as noções de experiência, de reprodutibilidade de fenômenos e repetições experiências são complicadas porque o observador não consegue realizar as mesmas observações, “mesmo as observações que fiz ontem não são as mesmas que fiz hoje”(W1 :55).

Este é um dos problemas mais sérios da indução: quantas experiências serão necessárias para que aquilo se instaure como fato notável e não só como fato acidental? Eliminados todos os fatores possíveis de erro, ou conhecendo o erro provável da experiência, assim mesmo ela pode se mostrar discrepante da previsão. As conclusões tiradas sobre as amostras são generalizadas para o todo, através da indução as propriedades da amostra são generalizadas para o todo. Obviamente, atrás da coleta da amostra, há toda uma teoria das probabilidades e estatística. A investigação científica é uma atividade voltada para um fim, este fim é a descoberta da verdade. Este é um elemento muito importante, porque a própria validade da indução está relacionada com as previsões, mas não como base para ação, mas com a validade do método científico como um caminho para a descoberta da verdade. Para Peirce, a ciência progride por convergência em direção à verdade no sentido absoluto de correspondência com a realidade. A tese de convergência é freqüentemente tratada juntamente com a tese de auto-correção do método científico, dentro da teoria lógica de inferência estatística, de acordo com a qual as inferências estatísticas são auto-corretivas, a longo prazo. Por outro lado, a convergência não pode ser explicada pelo acaso. Existe uma força no crescimento da inteligência e esta força é de tal ordem que alguém, em algum momento iria
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conjecturar a respeito de uma determinada condição da experiência. Para Peirce o fato de que um determinado cientista tenha feito uma descoberta não é tão importante. O importante é que, em algum momento, algum outro também chegaria a esta descoberta. A experiência é sempre particular, mas ela pode acontecer para diversos sujeitos. A descoberta da verdadeira estrutura da realidade, através da ciência, seria um “dever religioso”. Todas as investigações levadas a cabo, a longo prazo, com a adoção do método correto devem conduzir às mesmas conclusões, “a conclusão em qualquer departamento da ciência é essencialmente a mesma.” “Buscamos não apenas uma opinião, mas uma opinião verdadeira, que além de ser um acordo de opiniões, seja uma opinião verdadeira”. Quando atingimos um estado de crença, nós nos sentimos completamente satisfeitos, seja esta crença verdadeira ou falsa. Nós só cremos naquilo que tomamos como verdade, embora no futuro a crença possa se mostrar falsa.

Isto não quer dizer que uma vez atingida a crença, ela se constitua em verdade final. Basta perguntar a uma comunidade científica se isto que eles agora tomam como verdadeiro é a verdade última? Se a teoria na qual eu creio funciona, por mais esforço que se faça não há como duvidar dela. Isto não quer dizer que não se possa admitir que amanhã a teoria se mostre falsa. À medida que aumenta o espectro e o horizonte da experiência humana, aquele modelo antigo que era aplicado, pode estar incompleto.

Para Peirce a crença é verdadeira, senão não seria motivo de crença. Há uma equivalência entre crença e verdade. Crença é sempre verdade para nós e quando atingimos um estado de crença estamos satisfeitos seja ela verdadeira ou falsa. Ela é verdadeira para nós, embora possa se mostrar falsa futuramente. Porque você acredita nela? Porque não consigo duvidar, só vou duvidar quando a crença efetivamente se mostrar falsa. Quem é que denuncia a falsidade de uma crença, aquilo que instaurou a crença, o fato.

Se as nossas crenças são para nós verdadeiras, é muito importante refletir sobre o fato de que as nossas crenças moldam nossas ações. As nossas ações são balizadas, dirigidas, moldadas por aquilo que consideramos verdade. As falsidades não moldam nossas ações, se crença tem equivalência com verdade e crença molda conduta, verdade molda conduta. Então,
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há uma relação íntima entre aquilo que consideramos verdadeiro e o modo como nós nos conduzimos.

Este é um dos pontos mais importantes que ilustram a íntima relação entre razão teórica e razão prática em Peirce, entre ética, como a ciência da conduta e a lógica, como a ciência do verdadeiro. Esta relação entre crença e verdade é extraordinariamente importante, como é também a relação entre crença, realidade e conduta.

Ao adotar a teoria dúvida-crença, Peirce consegue enquadrar toda sua Teoria da Investigação num contexto evolucionário: as crenças podem ser encaradas como ajustamento a hábitos. Quando este ajustamento falha, ele acarreta a dúvida. É o ajustamento de um organismo com capacidade de corrigir seus padrões de ação pela experiência, que torna possível explicar do ponto de vista evolucionário e da seleção natural porque o homem é tão admiravelmente constituído.

Para Peirce, a ciência não é um caminhar sobre um leito de pedras, mas sim sobre um pântano (CP 5.589). Contra o dogmatismo e o ceticismo, ele propõe sua doutrina do falibilismo e sua doutrina do senso comum.

As investigações lógicas de Peirce são dirigidas para mostrar quais devem ser os princípios guia para aquele investigador que acredita existirem coisas reais e cujo objetivo é a descoberta das propriedades daquilo que é real.

Adotar o método da ciência é simplesmente adotar a hipótese da realidade e sua adoção pode ser justificada pelo fato de que leva ao conhecimento da realidade. A hipótese realista é fundamental para o método da ciência.

Para Peirce, a investigação científica é uma espécie de atividade humana sujeita à adaptação, é um esforço para colocar fim à dúvida e voltar a um estado de crença. A verdade seria aquele estado para o qual nossas crenças tenderiam indefinidamente, isto é, para um estado de crença inatacável pela dúvida.

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Se nós adotamos a hipótese da realidade, estamos nos comprometendo com uma busca única e desinteressada da verdade, estamos aptos a sacrificar opiniões a curto prazo pelo consenso estável e duradouro. A aceitação deste critério para avaliação do método pressupõe uma visão realista contra a visão nominalista da realidade e também contra o ceticismo, "faz emergir uma nova concepção de raciocínio em termos de algo que deve desenvolver-se estando de olhos abertos, com manipulação de coisas reais, em vez de manipulação de palavras e fantasias". (CP 5.363)

Quando avaliamos uma ação com respeito a uma intenção, supomos que a intenção seja boa. Quando testamos nossas intenções com nossos ideais, assumimos que nossos ideais sejam válidos. Isto também acontece quando adotamos a hipótese da realidade e queremos o estabelecimento de nossa opinião tal que corresponda à verdade.

Podemos, então, estabelecer padrões para serem usados na avaliação do raciocínio. Estes padrões seriam os fins últimos da conduta. A caracterização do objeto de pesquisa será obtida pela aplicação da teoria geral da deliberação, que pode ser vista como um caso especial de conduta.

Para ser racional é necessário ter preocupações altruístas. Assim, nós procedemos de uma discussão sobre o que é admirável, para uma consideração do que pode ser adotado como fim da conduta incondicionalmente e, daí para uma especificação do que pode ser adotado como o padrão final para direcionar nossos raciocínios e nossas investigações.

O padrão para a investigação é o mesmo do inter-relacionamento entre a Lógica, Ética e Estética. A Lógica ou Semiótica, como a ciência do raciocínio e do pensamento deliberado extrai princípios da Estética e da Ética. As Ciências Normativas fornecem um padrão que pode ser adotado incondicionalmente tanto para nosso raciocínio autocontrolado como para nossas investigações. Como a Lógica depende da Ética, então uma decisão que envolve o querer (volição) condiciona o saber. Por isso, antes de conhecer é necessário ter a vontade de conhecer. Mas o saber não é condição “sine qua non” para a escolha de uma conduta admirável.

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Quando um agente exerce o autocontrole, ele o exerce de forma variada e complexa, que só é unificada na busca de um fim último. Quando o agente reflete sobre o fato de que suas ações são unificadas por um objeto guia, que pode ser sustentado sob determinadas contingências, isto é o admirável “per se”.

Para se entender as implicações da Ética e da Estética sobre a Lógica, deve-se buscar a unidade na vida .Está unidade também está nas conquistas do homem de ciência. Esta unidade está no ideal estético,196 na admirabilidade da conduta, que é a qualidade estética da conduta.

Mas é o Belo que aparece na conduta, não é o mesmo Belo das belas formas, das belas cores. É um Belo aprisionado a uma temporalidade, é um Belo que não se revela na imediatidade, só se revela no tecido do tempo. Só a temporalidade revela a beleza de uma conduta. O Belo tão somente como aparência é dado na imediatidade. A contemplação de uma conduta só é possível no tempo, só então podemos traçar um diagrama daquilo que foi exibido temporalmente.

Existe um Belo que não aparece de modo imediato. Aprendizado e ciência requerem tempo. O Belo que aparece não é garantia do Belo que é revelado depois. A conduta moral não é só um conjunto de regras contingentes.

Na própria questão da dúvida e da crença, já se pode perceber uma análise e reflexão sobre conduta ética: A decisão de se manter estavelmente na crença antiga, muito embora todas as evidências apontem para uma ruptura da crença e necessidade da busca de um estágio de equilíbrio, portanto uma nova crença é uma questão ética.

A reflexão ética também passa pela escolha do método, quantas vezes a escolha do método não tem como objetivo o ocultar-se, o fugir da experiência, embora haja evidências de que estamos errados, mantemos por conveniência tenazmente, a mesma crença embora tudo nos mostre que devemos mudar.

196

I.Ibri, (1997) “Crença, Verdade, Interpretante Final”, anotações em aula. 175

A escolha do método (que não o método da ciência), pode indicar uma decisão moral de nos mantermos no quadro teórico de uma crença cristalizada da qual o sujeito, seja ele individual ou coletivo não quer abrir mão.

Esse esconder-se da realidade significa esconder-se da falta de harmonia entre o que a crença prevê e o que efetivamente ocorre. Para Ibri (1997), nestes casos ocorre uma crise da representação, uma crise semiótica. Os estágios de dúvida e os estágios de manutenção indevida da crença, são estágios de crise semiótica, onde cessa o processo de semiose, de geração contínua da representação, da representação cognitiva, da representação epistemológica e do conhecimento.

Para controlar nosso raciocínio e dirigir nossas investigações, adotamos métodos, métodos estes que só se justificam se realmente contribuírem para o crescimento do conhecimento. Isto significa que os métodos devem ser compatíveis com os nossos fins. Se nosso propósito for somente uma aplicação prática da Teoria da Investigação, nós estamos arriscados a nos desapontarmos.

À luz dessa discussão sobre o fim último da deliberação auto consciente pode-se indagar se o fim último para a investigação pode ser diferente do autocontrole do raciocínio, já que para Peirce o autocontrole do raciocínio não é diferente da adoção do método científico.

Uma das respostas pode ser encontrada na própria natureza da ciência proposta por Peirce. A ciência não é um corpo de verdades estabelecidas certificadas, nem um conhecimento sistematizado. Também para o "homem científico" que a adotou como modo de vida distintivo, o objetivo crucial para o controle crítico do raciocínio, à luz do objetivo último, é a descoberta da verdade, qualquer que ela seja. Para Peirce,197 todos os grandes cientistas foram movidos pela devoção à busca da verdade pela verdade, assim o cientista se vê contribuindo para o crescimento do conhecimento que transcende tudo o que conseguiu ou vai conseguir.

197

C. Hookway (1992) op. cit. p. 68. 176

O "homem científico" não tem como objetivo último ganhar dinheiro, ou melhorar de vida, ou beneficiar seus colegas. (CP 1.45) O homem prático e o cientista têm motivações muito diferentes. Para o cientista a “realidade é sagrada, bonita, e eterna”. (CP 5.589) O verdadeiro investigador perde completamente de vista a utilidade daquilo que procura. Portanto, a atividade científica requer uma verdadeira “elevação de alma”. Em algumas passagens Peirce fala de normas, “código de honra” (MS 615:14), “fatores morais” (CP 7.87). Entre os “fatores morais” estão o “amor à verdade”, o “senso de comunidade” e o “senso de confiança”. Na questão do “amor à verdade”, Peirce se refere ao genuíno amor à verdade e a convicção de nada além da verdade tem longa duração. (CP 7.87) Peirce não está se referindo nem à falta de propósito, nem a falta de interesse, ele está ciente de que há vários tipos de interesse que podem motivar uma investigação, mas ele fala num sentido normativo. Peirce tem consciência de que além dos motivos puramente cognitivos há outros como fama, dinheiro, bem estar social.

Do ponto de vista do senso de comunidade, Peirce explora um sentido de autosacrifício, comparando a comunidade científica a uma colônia de abelhas, enfatizando o trabalho em benefício de um objetivo maior.

Do ponto de vista do senso de confiança, está implícita a auto-correção, como guia de ação na aplicação indefinida da metodologia científica, levando ao sucesso a longo prazo. Também está implícito o reconhecimento de um “interesse supremo” e a esperança na continuidade da atividade intelectual. Dado o seu pragmatismo, não é surpreendente que estes fatores morais estejam contidos na prática científica. Os princípios da “economia de pesquisa” também têm um sentido moral e poderiam ser analisados como o melhor retorno cognitivo para nossos investimentos.

Peirce vê o conhecimento e a realidade como totalidades admiráveis. Se o conhecimento é possível, então é possível encontrar no universo um todo admirável estruturado. O conhecimento é que vai nos colocar numa relação de harmonia com nossas experiências e a estrutura do cosmos.
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Desde que somos parte da realidade, nossa habilidade para conhecer a verdade se torna simplesmente um aspecto do caráter admirável da realidade. A questão é superar o particular, transgredir a particularidade, atingir a “verdadeira universalidade, o poder é dissolvido, onde a inteligência pode ser exercida em permanente questionamento sempre direcionado para o geral, universal”.
Onde há poder, há indivíduos movidos por determinados interesses. Este interesse está sempre extraordinariamente regulado à Segundidade das coisas. O interesse do poder é sempre o interesse do particular, é um descontínuo na generalidade, pois nenhuma pluralidade eqüivale a um contínuo (IBRI, 1997).

Para Peirce, está, “sem dúvida em lamentável estado de espírito a pessoa que admite a existência de uma coisa chamada verdade, distinta da falsidade simplesmente pelo fato de que, se agirmos fundados nela, de olhos abertos, chegaremos ao ponto desejado e não nos perderemos e que, não obstante convencida disso, ousa desconhecer a mesma verdade e busca evitá-la.” Há um elemento de admirabilidade que está na gênese do trabalho de lógica. Em “Reason's Conscience”, Peirce mostra como o conhecimento permite unificar a multiplicidade da experiência. Assim, se nossas previsões se mostram diferentes do previsto, isto mostra que a experiência não foi unificada. O conhecimento envolve uma multiplicidade unificada de opiniões e experiências. A própria realidade é por si mesma racionalmente ordenada. Portanto, o interesse científico está concentrado em descobrir o que nós chamamos de generalidade, racionalidade ou lei e que são verdadeiramente independentes do que qualquer um de nós possa pensar.

Um homem é levado a procurar a crença para se livrar da dúvida, mas se esta busca for guiada apenas por aquilo que leve à satisfação imediata, ele vai se desapontar inevitavelmente a longo prazo. Seus critérios não deveriam ser dominados apenas por uma satisfação imediata individual, mas sim de conformidade com aquelas normas que levam à satisfação duradoura, à busca da verdade. Perseguir a verdade é uma questão de vontade, portanto descobrir o verdadeiro envolve uma questão ética, de volição, é preciso agir, é preciso escolher um caminho. Quando se

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escolhe um caminho, esta escolha envolve uma questão lógica, que é a de traçar a melhor estratégia para se atingir um fim.

Para Peirce, o custo de termos um objetivo último é o desdém aos ganhos individuais. A totalidade das ciências funciona com uma substância ética, o indivíduo se vê como parte de um todo, suas ações só tem valor quando contribuem para o bem do todo.
Tendo escolhido o método científico, trabalhará e lutará por ele, não se queixando dos golpes que deva suportar, (....) e se empenhará por fazer-se o cavaleiro e campeão digno da chama de cujos esplendores retira sua inspiração e sua coragem. (PEIRCE, CP 5.247)

Portanto, encontrar o verdadeiro, é investigar o admirável, é aquele Belo que aparece na temporalidade. É o Belo que eu descubro heuristicamente como verdadeiro. A verdade não aparece contemplativamente, a verdade aparece na investigação. “Ao fim e ao cabo da investigação, algo espreita e recompensa e tem uma beleza, que é o supremo encontro entre nosso espírito e a inteligência da divindade. Este é o Belo em si, o Belo absoluto que independe de aparecer nas coisas belas” (IBRI, 1997). O método e a concepção sobre a qual se funda o método permanecem em harmonia. Na filosofia peirceana não existe estranhamento entre sujeito e objeto. Sendo parte da natureza, a mente humana emergiu do mesmo processo evolutivo observado na natureza, mente e cosmo são conaturais. À luz do evolucionismo, o homem e a humanidade se desenvolveram sob a Natureza. Quando o homem surgiu a Natureza já estava organizada.

O surgimento do homem, o crescimento da inteligência humana e das nossas faculdades se dá à luz de uma estrutura cosmológica. A substância última e primeira do mundo é mente, não existe a dicotomia cartesiana entre mundo material e pensamento, existe sim substância mental no mundo que é da mesma natureza da nossa mente. Na verdade, nós podemos errar e erramos muito, mas a verdade vai surgir porque ninguém permanece indefinidamente no erro, e o real acaba se impondo de maneira correta. Esta é uma visão evolucionária.

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Neste contexto, a investigação nunca é completamente fechada (CP 7.185). Dessa unidade genética entre homem e natureza, decorre a harmonia que deve existir entre a teoria e o fato, portanto o objeto último da investigação seria conhecer “um fragmento do pensamento divino“, conhecer os desígnios do “geômetra divino”, porque o fundamento último da realidade é mental.

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