Seminário Internacional – Ciência de Qualidade para Todos Relatório do Seminário – Documento Final I.

Objetivo

Propiciar um espaço de intercâmbio e de reflexão, visando à identificação de interfaces e a construção de consensos necessários para contribuir na elaboração de políticas públicas que assegurem o início de um processo inovador, permanente, comprometido e de longo prazo no Brasil. Espera-se, ainda, que, a partir de estudos sobre o impacto da educação científica para o desenvolvimento, seja reforçado o comprometimento de todos os atores envolvidos na definição e implantação de políticas públicas integradas de Educação, Ciência e Tecnologia. II. Metodologia

O Seminário se desenvolveu com a utilização de uma metodologia que favoreceu a troca de experiências entre os participantes e foi caracterizada por dois momentos distintos: a) sessões plenárias, nas quais, a partir de relato de conferencistas, se estimulou o debate e a troca de informações, com o objetivo de favorecer a identificação de soluções aplicáveis à realidade brasileira; b) reuniões em pequenos grupos, cujo objetivo foi o aprofundamento do debate e a formulação de sugestões. As sessões plenárias contaram com exposições sobre: Importância da educação científica para o desenvolvimento e inclusão social: a experiência do Reino Unido (Mike Watts); Educação Científica: as experiências da América Latina (Beatriz Macedo), da Finlândia (Pirjo Linnakylä), do Reino Unido (Mike Watts) e da Espanha (Mercedes Martinez Aznar); Políticas Públicas em Educação Científica: no México (Concepción Ruiz Ruiz-Funes), na Argentina (Graciela Merino) e no Reino Unido (Hector Munro) Nas reuniões em pequenos grupos, a partir de estímulos fornecidos pelo introdutor ao tema e pelo debatedor, foram analisados três temas que constituem os eixos centrais para a busca de uma ciência de qualidade para todos: a ciência nas escolas e em espaços alternativos (Introdução ao tema: Luis Carlos de Menezes, debatedor: Antônio Carlos Pavão); a formação de professores (Introdução ao tema: Nélio Bizzo, debatedor: Deise Miranda Vianna); e instrumentos para difusão e popularização das ciências. (Introdução ao tema: Marcus Vale, debatedor: Henrique Lins de Barros).

Para cada um destes temas, a partir dos insumos oferecidos pelo introdutor ao tema e pelo debatedor, acrescidos da experiência de cada um dos participantes, foram produzidos os resultados. III. Resultados

De uma forma sintética, os resultados alcançados pelos grupos de trabalho são apresentados a seguir: 1. Breve diagnose da situação atual 1.1. No que se refere à Ciência nas Escolas e em Espaços Alternativos: baixa cooperação entre escolas e entre estas e a comunidade; falta de divulgação sistematizada das experiências bem-sucedidas; baixo ou inexistente envolvimento entre C&T e meio ambiente; inexistência de mecanismos legais que sistematizem as relações entre C&T e a mídia; escassos mecanismos de estímulo à manutenção de bolsistas em museus e centros de ciência; espaços escolares inadequados para o ensino-aprendizagem das ciências. 1.2. No que se refere à formação de professores para o ensino de ciências Formação inicial e continuada: O modelo dominante mostra-se inadequado e ineficiente, o que pode ser constatado ao se analisarem as concepções trabalhadas e as demandas da atividade docente nos diferentes contextos escolares. Questiona-se se o perfil esperado – cujos constituintes incluiriam ceticismo, criticidade, criatividade, autoconfiança e entusiasmo – está sendo atingido. Em relação ao Estágio em Ensino, pergunta-se: onde o retorno da universidade para a escola, espaço de desenvolvimento das respectivas atividades? Existem constatadas lacunas na formação inicial e continuada diante do contexto atual. A elevada evasão nos cursos de formação inicial merece especial atenção por parte de seus responsáveis. A despeito dos lamentáveis diagnósticos fartamente difundidos na literatura especializada, entende-se que as experiências positivas aguardam resgate e difusão. As condições de trabalho que os docentes possuem estão aquém das expectativas criadas desde a formação inicial. Não se identificam estímulos institucionais para a formação continuada. Constata-se uma desarticulação entre a formação inicial e a continuada, que precisa ser superada.

2

Observa-se imenso contingente de professores de ciência, especialmente no segmento de 5ª a 8ª série, sem formação adequada para o desempenho de suas atribuições. 1.3. No que se refere à difusão e popularização de ciência: Necessidade de que as atividades de difusão e popularização de ciência sejam acompanhadas e avaliadas: Indicadores ⇒ de mérito - análise dos projetos ⇒ de resultados – análise de desempenho Fontes de financiamento: mapear, em detalhe ,quais, onde e como; Sustentabilidade dos projetos: como fazer? Não valorização das atividades de difusão, extensão e educação científica nas instituições de pesquisa e universidades; Como promover a participação das diferentes esferas administrativas: inserção dos Estados e municípios; Como articular e integrar os diferentes atores: questão do arranjo institucional; Como ‘garantir’ a continuidade das políticas, programas e ações; Necessidade de que a difusão e a popularização da ciência seja também direcionada para diferentes grupos e setores marginalizados: e.g., trabalhadores e terceira idade; Necessidade de criação de um banco de dados que aproprie as experiências de êxito em difusão e popularização da ciência; Necessidade de realização de pesquisas para saber como ocorre a aprendizagem em Museus e Centros de Ciência; Necessidade de que a difusão e a popularização da ciência incorporem e tratem da questão do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável; Necessidade de que as universidades venham a ter uma ação mais efetiva na formação e capacitação de recursos humanos para difusão e popularização da ciência. Por exemplo, a abertura de cursos de pósgraduação e especialização; É fundamental a definição de uma política editorial para a difusão e popularização da ciência; As crianças são vetores importantes para difundir ciência e tecnologia. É necessária a presença da educação científica desde o nível fundamental; É importante que as universidades venham divulgar suas pesquisas como instrumento de difusão e popularização da ciência. Por exemplo: ‘dias de portas abertas’; Necessidade de maior clareza sobre a questão conceitual: Qual o objetivo da difusão e popularização da ciência? despertar vocações; promover a educação científica; buscar apoio político para C&T; buscar apoio da sociedade para C&T; democratizar informações; desmistificar C&T; socializar os resultados das pesquisas desenvolvidas pelas universidades e que contribuam para a melhoria da qualidade de vida.

3

O quadro institucional atual caracteriza-se pela criação de um lócus para difusão e popularização da C&T no âmbito do MCT com as seguintes prioridades: 1. Apoio a centros e museus de ciência; 2. Maior presença da C&T na mídia; 3. Colaboração com a política educacional (MEC); 4. Semana Nacional de C&T; e 5. Apoio a eventos. 2. Recomendações principais

2.1. Para a área de ciência nas escolas e em espaços alternativos MEC, MCT, MinC e Secretarias de Educação e de Ciência e Tecnologia devem estimular as escolas a desenvolver projetos científicos entre si, referenciados nos problemas da comunidade; O MCT deve instituir um periódico – de livre distribuição – que divulgue as experiências exitosas de difusão das ciências e tecnologia realizadas em todo o País; Envolver o Ministério do Meio Ambiente no trabalho de difusão da C&T, mobilizando as unidades de conservação ambiental no grande esforço nacional de popularização da Ciência; Criar mecanismos legais e institucionais que obriguem as Rádios e TV’s reservar espaços nobres em sua programação diária para a difusão da C&T; MEC, MCT, MinC e Secretarias de Educação devem estabelecer fontes de recursos que possibilitem instituir bolsas de estágio em centros de ciências e museus. As Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, bem como as de Ciência e Tecnologia (onde houver), devem estimular as escolas a reservar o espaço devido no currículo para a construção científica; As Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, bem como as de Ciência e Tecnologia (onde houver), devem estimular as escolas, centros de ciências e museus a incorporar as ciências humanas no processo de difusão de ciência e tecnologia; Secretarias e escolas devem investir em meios interativos eletrônicos de aprendizado, instalando equipamentos e capacitando os professores a utilizá-los de forma pedagógica; As Secretarias Estaduais e Municipais de Educação devem estimular as escolas a estabelecerem parcerias públicas e privadas para utilização de espaços culturais e tecnológicos. Estabelecer política de financiamento (MinC, MCT e MEC) para estruturação de “Casas de Ciências”, com profissionais tecnicamente capazes e politicamente comprometidos com a difusão do conhecimento científico socialmente referenciado em todos os municípios; Financiar projetos escolares de difusão de C&T referenciados nos problemas da comunidade.

4

2.2. Para a área de formação de professores Desenvolver e implantar estratégias, ações, políticas públicas e institucionais que sejam capazes de: induzir/valorizar um novo modelo de formação de professores que considere: ⇒ as exigências de perfil de formadores, formandos e egressos; ⇒ a articulação entre formação inicial e formação continuada; ⇒ a valorização equânime das dimensões ensino/pesquisa/extensão; ⇒ a imprescindível vivência interdisciplinar intrínseca à formação inicial; ⇒ a observância efetiva das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena (Resolução CNE/CP 1, de 18 de fevereiro de 2002); ⇒ a incorporação das dimensões humanista e cultural imprescindíveis à formação do educador; ⇒ o perfil esperado do futuro licenciado – constituintes explicitados em consonância com demandas educacionais, culturais, ambientais, científicas e tecnológicas, levando em conta: • a efetiva diferenciação, de acordo com a especificidade da atuação – primeira fase do Ensino Fundamental, segunda fase do Ensino Fundamental e Ensino Médio, • a preparação para o trabalho com os Portadores de Necessidades Especiais, ⇒ a necessária reflexão sobre a relação Teoria/Prática, na perspectiva destacada por Paulo Freire: “A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação Teoria/Prática sem a qual a teoria pode ir virando blablablá e a prática, ativismo.” “(...) na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática.” (Pedagogia da Autonomia); ⇒ a necessária significação da própria atuação: “O de que se precisa é que, em sua formação permanente, o professor se perceba e se assuma, porque professor, como pesquisador.” Paulo Freire (Pedagogia da Autonomia); ⇒ a vivência crítica do contexto escolar desde o princípio do curso visando: • eliminar o distanciamento entre o centro formador (CF) e a escola; • quebrar o círculo vicioso e implantar/implementar um círculo virtuoso CF↔escola↔CF; [neste sentido, uma proposta de Formação de Professores que integra formação inicial, formação continuada e estágios, facilitando a interação Centros Formadores e Escolas, foi apresentada pelo professor Luis Carlos de Menezes, e é a seguir esquematizada.]

5

Proposta de Formação de Professores
CF

Formação de tutores especializados para acompanhar a escola e subsidiar o CF

Assessoria e capacitação aos Professores Escola

⇒ o ciclo de retroalimentação ....↔extensão↔pesquisa↔ensino↔..., com ênfase na questão do papel do Estágio; ⇒ a preparação para a exigida transposição didática; ⇒ a significação da formação em relação à futura atuação: autonomia na formação para formação da autonomia. garantir fomento para a Pós-Graduação em Ensino de Ciências e para a pesquisa colaborativa, ⇒ facilitando a articulação orgânica entre Pós-graduação, Formação Inicial e Formação Continuada e ⇒ valorizando a inclusão dos gestores como público-alvo; garantir fomento para que professores da Educação Básica possam: ⇒ participar de cursos de formação continuada, ⇒ participar de Programas de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e ⇒ atuar como supervisores de formação inicial; garantir fomento para o aporte de novas tecnologias nas escolas; instituir mecanismos governamentais de indução e de avaliação de processos institucionais (sob responsabilidade das Instituições de Ensino Superior – IES) de formação; estimular a adoção, por parte das IES, de processos seletivos que respeitem fundamentalmente o papel da educação básica, invertendo a lógica perversa que situa a escola como agente adestrador para a realização de provas das IES, difundindo toda experiência que já esteja implantada nessa perspectiva; instituir/intensificar campanhas de valorização do professor; fortalecer parcerias entre as instituições acadêmicas (Institutos de Pesquisas e Universidades) e órgãos governamentais responsáveis pela educação, formal e não-formal (escolas, museus e centros de ciência),

6

com o objetivo de integrar a pesquisa, o ensino, a extensão e a difusão das ciências. estimular a produção e utilização de materiais de apoio didáticopedagógico estruturados, centrados no aluno e que integrem a dimensão do desenvolvimento profissional do professor. reconhecer, valorizar e disseminar experiências bem-sucedidas de formação de professores desenvolvidas no País. 2.3. Para a área de Instrumentos para Difusão e Popularização da Ciência Quanto à questão conceitual: houve consenso de que a difusão e popularização da ciência deverão: ⇒ Ter, por objetivo, a conscientização da sociedade, de forma que a mesma venha a participar, de maneira consciente e informada, das decisões sobre o futuro. ⇒ constituir-se instrumento para o avanço da democracia. ⇒ incorporar as dimensões humana, cultural e artística. ⇒ contribuir para o estabelecimento de uma cultura científica na sociedade. Indicadores: assunto relevante, mas que necessita de maiores discussões. Financiamento: viabilizar diferentes fontes de financiamento. Estabelecimento de um efetivo diálogo e interação entre as políticas de educação (MEC) e de difusão e popularização da ciência (MCT). Sustentabilidade: financiamentos de longo prazo. Extensão universitária: modificar os mecanismos de avaliação das atividades de ensino e extensão: e.g. bolsa de extensão e atividade de ensino. Viabilização de um arranjo institucional que promova a participação e a integração de diferentes atores: criação de um Fórum Nacional de Popularização da C&T. As atividades de divulgação científica devem incorporar as áreas de arte, cultura e ciências humanas e sociais. Continuidade das ações: fortalecimento das instituições públicas e Museus e Centros de Ciência é uma questão e obrigação de Estado.

3.

Considerações de ordem geral a busca de uma ciência de qualidade para todos é muito mais do que um programa ou projeto. Essa busca deverá se constituir um movimento que congregue toda a sociedade e não apenas cientistas e professores, com o objetivo maior de produzir mudança cultural e comportamental, que facilite o alcance de novos patamares de desenvolvimento com reflexos na melhoria da qualidade de vida da população; a abordagem integrada e articulada na formulação e implementação de políticas públicas para o ensino de ciência, formação de professores, difusão e popularização da ciência é considerada como um aspecto inovador que deve ser preservado e fortalecido;

7

partilhar recursos e responsabilidades entre os diferentes atores envolvidos no processo de ensino e difusão científica; todo o esforço de difusão do conhecimento científico deverá enfatizar, prioritariamente, os problemas que afetam a comunidade, na qual se inserem; as políticas públicas devem garantir a sustentabilidade institucional e financeira das ações empreendidas e promover políticas de interação permanente entre centros de formação, escolas, museus, centros de ciência e comunidade, para reforçar o ensino de ciências, a formação docente e a divulgação científica.

8

Comissão de Sistematização do Documento Final:

Adriana Depieri – Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT Ary Mergulhão Filho – UNESCO Brasil Deise Miranda Vianna – Universidade Federal do Rio de Janeiro e Sociedade Brasileira de Física Francisco Potiguara Cavalcante – Ministério da Educação – MEC Hildo Cezar Freire Montysuma – Relator do Grupo sobre Ciências nas escolas e em Espaços Alternativos/Secretaria de Estado de Educação do Acre Ildeu de Castro – Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT Luis Carlos Menezes – Universidade de São Paulo – USP Nélio Bizzo – Universidade de São Paulo – USP Paulo Edler – Responsável pela integração do documento Paulo Egler – Relator do Grupo sobre Instrumentos para a Popularização e Difusão de Ciências/Academia Brasileira de Ciências – ABC Ricardo Gauche – Relator do Grupo sobre Formação de Formação de Professores de Ciências/Universidade de Brasília – UnB

9