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A

GERAÇÃO

DE

70

GOMES LEAL

POEMAS
ESCOLHIDOS
(ANTOLOGIA)
Décimo segundo volume

I ,
II

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C íRCULO DE LEITORES

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Capa de: Alllunes
Impresso e encadernado por Prilller Porluguesa
110 mês de JUllho de mil novecenlos e oitellla e oilo
Número de edição: 2279
Depósilo legalllúmero 20363/88

C LARIDADES DO SUL

HINO AO SOL
«Vous, prêtes! qui murmurez, vous
portez ses signes SUl' tout votre
corps: "votre tonsure" est le disque
du "solei I" J vatre "étoile" est son
zod i a q ue, vos "chapellets" sont
l'embléme des astres et des planétes.»
Les RI/il/es, VOLNEY

Eu te saúdo ó Sol, belo astro amigo!
(Tão pontual há tantos centos de anos)'
Mais reluzente que um broquel antigo,
Mais dourado que ceptros de tiranos:
Ave, heróica luz! viva e sonora,
Vestindo o mundo, enquan to aos céus erguidos,
As florestas extensas dão gemidos,
E o duro mar se chora!
Eu te saúdo, ó astro das batalhas!. . .
Porque através das cruas dissensões,
Douras o pó que se ergue das mortalhas,
E levantas os nossos corações! . . .
E por isso, ainda hoje, e eternamente,
Os românticos te hão-de a ti saudar,
E os tristes sempre irão à luz poente,
Ver-te morrer no mar.
Tu és a Voz, a Cor, as Harmonias
Acordam com as tuas claridades:
És quem benze as aldeias e as cidades,
E quem fazes cantar as cotovias :
És quem inspira estranhas teorias,
És forte, são, consolador, e bom.
Tem a lua silêncios e elegias:
Mas tu a Cor e o Som.

templos levantados. E que incitas os tigres carniceiros A beber nos caudais! Desde a Caldeia às ermas solidões. . Glória. d a Paixão. E as tuas funerais solenidades À ideal palpitação das asas? . o lírio amado. nome cabalístico. astro caro dos valentes .nas ervas reluzentes ­ Os que morrem. Agni. E velhos ritos bárbaros sagrados. . . . Baal. vencidos combatentes.8 GOMES LEAL Eu te saúdo. E hoj e Cristo . Que alegras as sonoras capitais: Que dás valor nos campos marciais. . ó astro dos guerreiros! . . a pomba. A espada inda na mão! . . E o amor n o qual o coração abrasas. D a Força. E a ideia extravagan te? Ave! pois. Tens tido cultos. Eterno confessor d e madrigais. A frecha de ouro em corações ardentes. E alegres. E força e amor aos aldeões trigueiros. Vida. . Vai e beij a . Quem con tará. Apolo (invocações). ó luz. Que desgelas os densos nevoeiros. Astro amigos das lutas e da Acção! Ave! e em dias crus de expiação. Quem nos livra das flechas do pecado? Quem faz na íntima terra o diamante? Quem gera o monstro.teu nome oculto e místico Fere inda os corações. sensuais religiões: Tu fos te Mitras. tuas bondades? .

e m lagos sonolentos. os cânticos do Sul.. As nossas i lusões vão-se nos desalentos! .. M I ST IC I SMO HUMANO «Sunt lacrimae rerum VIRGÍLIO . Os reis ressonam nas devassas festas: Já os fru tos do Mal estão crescidos: 6 Sol. há muito que tu já nos crestas ! E aos nossos ais o Céu não tem ouvidos! Há muito j á que o Olimpo está vazio. imensa e azul. vaga. .POEMAS ESCOLH IDOS 9 À JANELA DO OCI DENTE «o mundo oscila. . Apenas. E Satã dorme em cima do Evangelho. sobre o mundo eterno e aflito. A s vezes vem a névoa à alma satisfeita. E como a folha morta. Fausto rebusca o x do infinito. E no seio de um astro imenso e frio É morto o Deus do Testamento Velho. à noite. e desfeita . . » A alma é como a noite escura. C omo os cantos de amor serenos das ceifeiras Que cantam ao luar.» LUTERO Os deuses ou são mortos ou caídos) Quais duros aldeões dormindo as sestas) Ou andam) pelos astros perseguidos) C horando os velhos tempos das florestas. E cai sombria. e miúda. Tem o vago. pelas eiras . . o sinistro.

Tão tristes como a lua e o espinho dos martírios. o tronco. E a Natureza tem como um sabor de beijos. E recortar o azul das noites consteladas! .lO GOMES LEAL Tem um poder imenso as Coisas na tristeza. E . os beijos do luar. E que através do azul parecem cair lírios . O lírio. Outra vez sob o Sol . Não entra o vício aqui com beijos dissolu tos. . . às longas ven tanias.é o azul. . . Estremecer. a árvore que dá sombra. seios fortes e amantes. . erva ou alfombra. a planta. ramo ou flor. Sim! pelo claro azul dessas noites serenas. A rosa que perfuma.É tudo o que nos cerca . Morrer é livramento! . Vão cansados depois. os jasmins vacilantes. a flor. nas brisas mensageiras. Homem! conheces tu o que é a natureza? . . oh deve saber bem Sentir-se dilatar na Natureza mãe! Ser tronco. à branca luz dos mirtos siderais. E os que ·viram passar serenos os seus dias . . À calma do meio-dia . Que foram já. Que obriga a soluçar a alma de desejos . a flor das laranj eiras. . Tranquilos sobre a eira. Quando a brisa baloiça a s folhas inquietas. . A folha. na encosta. o escuro . talvez. Da bem-amada ao pé. À doçura da lua. descansarem felizes. Que segredos dirão. nem os choros dos l utos. E que hoje. Que o segador trigueiro entoa as cantilenas. e dormiam as ses tas . É o cipreste esguio. É a floresta espessa esguedelhada aos ventos. através das florestas. entre as ervas nas leivas. entre os ramos e as seivas. Noivam os rouxinóis e se abrem as viole tas. . o cedro duro. . . Cheio o peito de sol. no meio das raízes! . às nocturnas geadas. os ramos friorentos. . . Nem as lendas do mal. . . E curvados s e vão. nuvem. a madressilva. .a sua eterna crença Em frutos ressurgir à natureza imensa.

aos nevoeiros. à lua das marés. Que vivem sob o sol. Vem a doce mulher buscá-lo nos atalhos. E os q u e andam pelo mar. por mim. não terei u m astro bom nos Céus . Feliz o semeador que vive entre o s arados. . C ujo olhar. O campo.POEMAS ESCOLH I DOS Conversam sobre o amor e os gozos ideais Do tempo . E morrem uma noite. é tranquilo e consola. O lírio um seio bom . e os frios escarcéus. E que inda a fron te mal me obscureça a mágoa . . com ela. En tre os cantos do vento. E ntre os rijos irmãos h umildes e trigueiros. . E debaixo do céu teciam longas danças. E u . Que seus olhos leais tinham a cor de amoras. à chuva. II . Pelas murtas. E ntre as ondas e o Céu. Ninguém virá. Entre o azul. não terei os consolos do lar. . ó mar. O mbro a ombro o abismo . trigueiros e contentes. E descanta. Nem do estio a doçura imensa do luar. . Meus filhos não irão jamais colher os ninhos.abismo sempre aos pés Que dormem à poesia. esperar-me nos caminhos. e não irei j amais. à noite na viola !. Sozinho passarei. longe dos povoados. olhos fitos nos céus. o escuro. . como a l ua. à tarde. clementes. Deixando uns olhos bons e meigos a chorá-los! . D e inverno. Nem uns olhos leais que chorem pelos meus. . Como espelhos de amor já sejam rasos de águ a ! . Ao pé da amante meiga e de compridas tranças! . que a falar corriam breve as horas. E quando à noite finda os suarentos trabalhos. nostálgicos. aos teus embalas. às tardes outonais. . .e as violetas curvadas São os olhos talvez das doces bem-amadas . os lentos bois. . . . N o lago sonolento a flor d o nenúfar Talvez é u m coração que abre para chorar. chorando.

12 GOMES LEAL A B ELA FLOR AZUL «Quem saberá sigl/ora onde terá nascido esse belo lírio branco?» VELHA COMÉDIA ITALIANA Eu não sou o fatal e triste Baudelaire. nas rochas construídos. . E. Que vamos admirar na angústia dos poentes . Às contorções do vento. O que fazeis de pé. Tudo o que existe ou foi. morre para nascer. Que ontem tinhas no baile e que trouxeste ao seio. Mas analiso o Sol e decomponho as rosas. . Grandes salas feudais com telas d e parentes. E. . à chuva enegrecidos. Na campa dão-se bem as plantas graciosas. E a todos cobrirá o místico cipreste! . As rijas e imperiais dálias gloriosas. . como entre os nevoeiros. o belo do medonho. Quem sabe o que serei. a alma antiga ainda em vós palpita. a flor pálida e azul n o meio. n a floresta harmónica das Coisas. um dia. N o entanto. Levantei-a dum chão onde passara a Peste.a Vida q ue é um sonho! A flor da podridão. . . Evocando a emoção das crónicas guerreiras. ó minha Esfinge. E o lírio q ue parece o seio da mulher. q uando deixar de ser! A Morte sai da Vida . . PALÁCIOS ANTIGOS A Antero de Quental Bons castelos leais. Os antigos heróis e as sombras dos guerreiros? Uma grande tristeza enorme vos habita! .

gotas de luz coalhadas. Tenho ouvido também naufrágios. . Mas nunca vi carnagens. 13 . Tudo dorme na paz das coisas silenciosas . A parasita hera avassalou os muros! Aninha-se o bolor nos cantos mais escuros. mas compridas lembram as das panteras tratadas e polidas. desse facadas. ao vento. entre os arbustos. . a rir. onde não h á rosas.tão róseas. Tenho lido em viagens caçadas a leopardos. são frias como hienas de garras afiadas . . uma flor. e as trepadeiras.POEMAS ESCOLH I DOS E mau grado o destroço.Como um desejo bom nas almas devastadas Cresce. mas nunca vi ninguém. como fazem teus dardos. a erva. e a víbora crotal. derrocadas. E nos velhos j ardins. . no peito das sacadas. Teus lábios d e coral e as pérolas dos dentes mordem mais que as serpentes. CRISÂNTEMOS MADRI GAL BIZARRO As tuas mãos pequenas.Só resistindo ainda aos séculos inj ustos Uma Vénus de pedra espera. q ue. Tuas unhas deveras .

e já vermelho Faz das suas misérias um resumo. FRANCISCO MANUEL Alguns dormem. debruçados. gritarei. nas mesas. Ou tros contam seus casos desgraçados. as lágrimas em fio. Um deles al to. Depois conta que o pai ético e velho Lhe está para morrer. mal vestido. tapara tua boca. lançando fumo Dum cachimbo de gesso enegrecido. morta. E então. J unto aos restos de um vinho já bebido. uivarei. . . .. gargalhando: Meu bem. Um tenta levantar um outro a prumo Sobre os ombros. Qual remorso mordente de tanta frase louca. . por ti passando. e um calvo. que um crisântemo abrindo verei. outro azul . Conta histórias de amor. con tinua rindo num rir fero e espontâneo. ." . . os crepitantes frios Me açoutam as vidraças . chorarei.14 GOMES LEAL Ah! . suavemente .. lastima a vida. passou o estio! - NA TABERNA A João de Deus «Vejo apontar o inverno. E sobre as vinhas pede um bom conselho. .. em teu crânio. magro.

. como os lobos pelos montes. o mau sustento Tem quebrantado muito aquelas frontes. Nalguns extinguido. Como a um sono que tira maus cuidados . Dos q ue vão. De ninfas. sem prazer. E tornando-os mais frios do que o mar. de boscagens. Alguns vivem nas neves. Noite velha ouve-se o vento Bater na antiga porta carcomida. a neve. nas montanhas: Outros o rio tem por seu vizinho. de paisagens. Com um ar de q uem trata com senhoras. velha. prados. - Beber a s suas lágrimas com vinho. de águas. 15 . E com a Fome travam más campanhas. e fei to errar. mesmo. A casa de j a n tar toda pintada E o estuque cheio de aves. E todos . E em muitos esmagado o pensamento. o frio. enegrecida Do fumo. habituados.POEMAS ESCOLHIDOS A casa é escura. .tem o ar triste e mesquinho. as fontes Da j ustiça e do bem. No mundo. a fome. E o senhor Glória pega n uma noz. . Deram três horas No bom relógio antigo dos avós. Tem uma forma antiga e recatada. E o egoísmo dos filhos e do Lar Banido o dó das lástimas estranhas. A SESTA DO SENHOR GLÓR IA É no fim do j antar.

em baixo. da varanda. um cão grave e profundo. Diz coisas aos burgueses. Um sisudo criado at�ás. E a o lado. .16 GOMES LEAL De envolta com seus goles de Madeira. Mais que assaz conhecido da Virtude. Duas pastoras falam com poesia. u m filho rúbido.O senhor Glória aspira o seu café . de pé. Contempla. de pé. Numa vereda de álamos umbrosos. olhos dormentes. coragem. fé ardente. Do seu cunhado Aleixo de Miranda. Que a hora d e j antar era ao meio-dia! Belos tempos . Muito tempo assim ficam nesse estado De santa sonolência e beatitude. o senhor Glória. Contempla u ns restos.pensa ele .de virtude. Com um ar meio cómico e boçal. o senhor Glória fala. De glória. Confidentes fiéis dos seus amores. Saboreia a senhora o seu café . De singeleza e paz . amor. . Enquanto. E isto acorda-lhe os tempos virtuosos . De longas procissões e de saúde. os bons pastores. Que outrora hão já sorrido aos seus parentes. Lá fora. na parede. chocarreiro. num poleiro. um papagaio. que inda estão num prato. No colo da matrona dorme um gato' No melhor sono cómodo do mundo. Quando tem digerido e bem jantado. De vez em quando fala menos mal: . No entanto. Parece um pregador sobre a cadeira.vida contente! .

Faz lembrar este astro extinto e frio a gélida extensão duma estepe funérea. solitário. séria. Deita a cabeça.POEMAS ESCOLHIDOS E o senhor Glória. do aspectro dum planeta e o fan tasma dum mundo. imóvel. não ouve os ais que nos consomem e a ruína estagnou-lhe o sangue nas artérias. q ue ela espalha nos céus e sobre o mar profundo. sem trinos de ave. errante. Há milhões de anos já que. d e sombra tumular. de cripta. de pensar prostrado. varrida por atroz. O papagaio ri no seu poleiro. H á milhões de anos já que esse alvej ante rastro. bosque. não é mais q ue o lençol do cadáver dum astro. de mármore. flor. como o vulcão dum astro extinto e sem cratera. Dessas mansões sidéreas onde paira. A LUA MORTA Almas sentimentais e ingénuas do lirismo. há milhões de anos j á que a antiga lua é morta. aqui. varrida pela mão duma peste maldita. em torno à nossa esfera. lá dentro. Lembra as praças e os cais duma horrenda cidade. num travesseiro. E a senhora sorri para o criado. nem voz do rio! 17 . Paira nela um atroz silêncio de orfandade. Reina uma assolação sinistra. muito antes de nascer o primitivo Homem. o morro globo gira. frio espectro de luz que arrasta o seu sudário! H á muito é morta j á . q ue cantais do luar a luz que vos conforta. remoto cataclismo.

nesses bosqu es sem voz e noites sempiternas. sombrio. Tu quiseras sarar as aflições internas.Finalmente. e. Descansa. porém! Como uma vil lanterna. nessa imóvel região. nem movimento. Para essa sombra vã . que corta o azul dos céus como um batel fantasma.essa cidade morta? E. repousar nessa paz imóvel e uniforme.18 GOMES LEAL Que cataclismo atroz. nos faz erguer as mãos. que deus negro irritado fez cair sobre este astro o açoite dos furores? Quem transformou em pedra este astro fulminado? Quem gelou seus vulcões. que irrisória emoção. . cÍa Vida soluçante ver quebrar-se o rumor nesse silêncio enorme. como em vast a cripta os membros dum gigante. Tu q uiseras cruzar .' . no entanto. os tristes sorrirão e dirão: . sem dó. excêntrico.como uma branca estátua? No meio dos rosais ou dos· mirtais floridos. sem ar. serras. que aos astros pouco importa. mar. alma humana! eterna atormentada! tu quiseras ver perto a morta nau errante. Homem. ou negro deus perverso este astro converteu em sombra inerte e fátua? Que látego. fustiga esse universo. enternecidos. nem vento! . e o faz errar nos céus . onde não sopra um ai. . e. morrendo. bosques e flores? Que catástrofe a ntiga. o Sol regelará no Oriente. com seu porão sem voz.tu. seus mastros de brilhante. T u q uiseras . quiseras abordar à estranha nau gelada. um dia. nem folha. ou sobre o mar do Norte o espectro dum navio. a quem nada pasma! nesse barco espectral. nesse cataclismo e horror da noite e terna. enfim. chorando.

As camélias dos seus vasos Olham voltadas o azul. melancolias. . Como saudades de beijos .POEMAS ESCOLHI DOS TARDE DE VERÃO Trepam-lhe pelas janelas Jasmins. U ma violeta esfolhada Chora um amor num j ardim. Lá den tro das gelosias Volteiam como desejos . Sátira ri nas florestas. entre as giestas. E à luz dúbia dos ocasos Ensanguentados do Sul. Perfumes. 19 . Nadam no q uarto perfumes De óleos. Jaz a o pé do seu bordado Um cofre de filigrana. E escuta-se. Uma vareta quebrada Ri. E soltam-se as bambinelas Em pregas indiferentes . Com olhos de porcelana. Riem q uadros sensuais Nas largas tapeçarias. num leque de marfim. Os lírios que são uns ais Suspiram melancolias . E um mandarim espantado. . . cheirosas serpentes. A voz rítmica das águas. . pomadas cheirosas: Um colar mostra os seus lumes: Voam aves gloriosas. Níobe soluça mágoas.

olha. E ao pé dum Cristo chagado Morrem. Passo a vida a fazer e a desfazer quimeras. Assim eu sou moço velho. nada. Uma másc'ra de veludo Olha idiota no espelho. . E em minha alma. nas j arras. nada vê . faz as verdes . o VISIONÁRIO OU SOM E C OR A Eça de Queirós Eu tenho ouvido as sinfonias das plantas. ó minha amada! Como a máscara no espelho Eu olho e não vejo . . em cima. flores. alheia a tudo Junto dum missal já velho. Um cravo murcha-lhe ao pé.20 GOMES LEAL Num álbum perto olvidado Há uns idílios de amores. Olha. Eu sou um visionário. . um sábio apedrej ado. pasmada. Enquanto o mar produz o monstro azulej ado E Deus. . . Mas. Olhos vazios de espanto. primaveras. Ri-se uma Vénus a u m canto.

. e Lei omnipotente! E enquanto o lírio incensa e azula-se o luar. I mpassível talvez. . Que as plantas musicais dão aos astros e aos Céus. Embriagam-me o Sol e os cânticos do dia . j'ai vu l'Esprit dos Choses. A espada da Teoria. ouvindo as melodias. N ão mataram em mim o antigo sentimento. o austero Pensamento. Eu amo divagar. na floresta imensa das Teorias.mas. Procuro em toda a parte a música das cores. em baixo. surdamente. Tudo é Matéria. Ah! eu vej o Jesus no coração das rosas ! Só eu oiço as leais flores melodiosas! E o lírio é para mim a hóstia onde está Deus. E erro como estrangeiro ou homem doutras eras. II <<J'ai vu ·les Especes et les Formes. Bem sei! . BALZAC Bem sei que a planta engana e a Natureza mente. E que a pérola sai das infecções do Mar. Talvez por um contrato irónico lavrado Que fiz e já não sei noutras subtis esferas. E obedecendo ainda a meus velhos amores.POEMAS ESCOLHIDOS 21 Sobre o mundo onde estou encontro-me isolado. E que a flecha do Sol nos pode assassinar. Força. Que a Peste torna o azul sereno e resplendente. A terra cria a flor que me há-de envenenar.» Serafita. . E nas tintas da flor achei a Melodia.

22 GOMES LEAL III «o yermelho deve ser como o som duma trombeta » . . nem sei se amor lhe inspiro. gritos no carmesim . a núpcia sagrada. A Lira pelo tempo há muito engrinaldada. soa como um clarim. UM CEGO. no ar. . .' E é já velha a união. gémeas do violino. IV Mas aquela q ue adoro. a hierática duquesa. Tem notas marciais. Mas a luz desse olhar sonoro e radiante Eleva como a Cor. I rmãs do oboé. Se a terra. A teatral camélia.. Seu amor é um céu católico e distante . Alucina-me a Cor! A Rosa é como a Lira. . ensanguentada. soa como a Beleza! Nunca lhe ousei falar. brota a flor que não inspira. A magnólia é uma harpa etérea e perfumada. Mas quando enfim morrer. a larga flor. . M uitas vezes. E o cacto. . em vez do meu amor. como um suspiro Meu seio florirá. H á plantas ideais d u m cântico divino. Há gemidos no azul. Nobre como as reais senhoras de Brabante. . . a branca enfastiada.. Como a hei-de pintar igual e semelhante. Se não há Som nem Cor em toda a Natureza! Seu colo tem do lírio a rígida firmeza. às vezes. . perpassa a nota alada Como a perdida cor dalguma flor que expira . vermelha. então. Entre a cor que nos prende e a nota que suspira.

ninguém lerá no crânio Se eu fui mouro ou j udeu. . . coçando a calva. Longe do mundo avaro e as suas vistas! Com uma virgem .» Quando eu morrer. .flor dessas montanhas Entre os mil sons das árvores estranhas.e sabem ver os imortais artistas Teriam novos tons. . como os grandes fantasistas. 23 . A cor dos meus calções. Se prezava o conhaque ou o Madeira. novas imagens. As grandes. num ermo. límpidas paisagens.POEMAS ESCOLH I DOS Numa flor que porá talvez sobre a j anela. bambus . . E i r sozinho habitar entre o s selvagens. Que sofrer foi o meu ! . E os sábios não dirão. os ásperos trapistas. . Se eu fui Pope ou Camões. vastas. E ouviria. Dormiria e m seus braços nus. . Como uma sinfonia obscura de terror. Ninguém dirá s e era trigueiro o u louro. Como. QU. . Sinto o desejo intenso das viagens . Tintinar-lhe as argolas do nariz. A SELVAGEM Às vezes. FALSTAFF MOD ERNO «ln vino veritas. Uma flor rubra e negra. entre uns beijos voluptuosos. fora feliz! . lustrosos. em forma duma estrela. Dos coqueiros.

. Tu virás à j anela. E em coifa de dormir. o nada. E não conseguirás verter um pranto Da tez no teu cetim . O que importa Roa a terra mais um! Depois da morte. por epitáfio: Maldita indigestão! Mas que ideias tão negras! . Não me estragueis o rum ! NEVROSE N OCTURNA Bela! dizia eu. . Enquanto o s gordos padres irão lentos. U ma espécie do jogo das caveiras Dos coveiros do H amleto. Ressonando em latim. Se. . . E o meu magro esqueleto. Ou se fazia sol ou aguaceiros No dia em que nasci . para um país polar. bocejando. . . Bela! como uma estátua e gélida como ela. Ninguém. Os anos jogarão com os mais crânios. o meu enterro Pela manhã. por um silêncio amigo.24 GOMES LEAL N ão saberão dizer se foi a pipa O hotel em que vivi. dirá que funda mágoa Minou meu coração. 6 minhas lágrimas. como um navio à vela. E eu mandarei pôr. sair. como um sepulcro antigo. após a doida orgia. Bela! dizia eu. mulher.

aonde colos nus luzem palidamente. dizia eu. N evada como um pé curto. como na treva o brilho dum carbúnculo. Bela! como um perdão ao pé do cadafalso. como uma mesa lauta para um fes tim pagão: a Forma. o coveiro. desfiando. as plantas tropicais. como um azul polar. o Som. Bela! Bela! Bela! Bela! como o sorrir vermelho dum rainúnculo. a ladainha . fria como O luar sobre o dorso luzente e excepcional dum peixe. Bela! dizia eu. Bela! como o sentir as espirais do gozo num fundo sensual de sombras perfumadas. dum perfil virginal. Bela! e solene. como no seu jardim. branco. na sombra dum esquife! Bela! como um espelho esférico. Bela! como. como nocturna flauta. no mar. como o tranquilo sono. fugitivo através das grandes ervas claras. e a Cor. 25 . vegetativo e sério. que entreviu Ann Radcliffe.Dor. aos clarões dum céu calamitoso. Bela como um calado e longo cemitério. sim.POEMAS ESCOLHIDOS Bela! dizia eu. como uma flor aquática do Mar. Bela! dizia eu. como arrasta a cauda da serpente. direitas como espadas. Bela! como o luzir do orvalho nas searas. Bela! como o sentir a seda dum vestido arrastar. Bela! dizia cu. ágil como um jaguar. B ela! como os portais e as torres ao abandono saxónias. ao luar. assim me inspire o Fado e Satanás me deixe! Bela! dizia eu. descalço. polido. fri a como o marfim . em que se vê vagar.

cheia d e transparências: mas sem um grande quid. Bela! dizia eu. como uma Feiticeira da Tessália. E os meus olhos no quarto erraram novamente. a crispação da Dor! . Bela! dizia eu. o germinar dos goivos. fumando. em que se escuta. e as várias coisas mil que. terrestres e de horror! . Bela! como o silêncio algente e tumular. voltou-se. Bela! concordo eu. . sobre um divã azul. Bela! como arrendado e flamej ante altar. Bela! dizia eu . Olhavam-me animais de olhos surpreendentes. sobre o leito. Tomavam Som e Cor as proporções do Sonho. nisto. Desfilava-me em torno um batalhão medonho de monstros anormais. fatídicos de ver! à hora em que o burguês profunda o labirinto das mil complicações do deve e do há-de haver. a invencível mulher que me inflamava o peito. em que cismava assim. ao baço candeeiro. perseguir a nebulosa Ideia. . evocando a ensaguentada lua. .26 GOMES LEAL Bela! como a expressão das notas de Méhul. ao fundo. infernais. levemente. . . Mas. de escamas reluzentes. então minha nevrose armou um largo cinto de monstros colossais. E foram-se cravar num pente de metal. . Bela! como uma flor num muro de cadeia. Bela! como a sonhar. a luminosa esteira azulada e sem fim duma comprida rua. no outono. vinham-se reflectir sobre um espelho oval destacando da cor branca do travesseiro. por todas as potências celestes. onde se vão unir os corações dos noivos. Bela! como. E.

POEMAS ESCOLHIDOS 27 Sim.o perfume subtil que completa as flores: . onde vão reconcentrar-se as cores do vivo sol do Amor despótico e cruel: . beij a o capitel. os lábios roxeados. sem um rasto deixar na vasta natureza: . . divinas. que é como a estagnação das Coisas Insensíveis. sem a qual a argila humana passa. no seu negro cabelo esplêndido e azulado . Por isso.velmen te! . fazê-Ia ressaltar como uma mola de aço! Quero vê-Ia quebrar essa monotonia de linhas ideais. a Dor. M eu peito junto ao seu colo d e neve. gama final na música da graça: ." Parisilla. à sensação estranha do meu braço: e quero. . nisto rudemente.a Dor. Eu perdia-me . seus olhos inj ectados terem a fulva cor quimérica da opala. . Quero vê-Ia tremer. . prostrou-me o plúmbeo sono invicto. foco. ah! invenci. . pesado. em várias gradações. Mas. BYRON Do pôr do Sol àquela luz sagrada. ó hora doce e breve! . .a Dor. e a cabeça caiu-me. . último tom na escala da Beleza: a Dor. na tenaz sinis tra do Desgosto. Numa contemplação vaga e elevada . Quero sim! quero ver! . impassíveis: coagi-Ia a sair da gélida apatia. eu quero ver como o seu belo rosto se crispa.a voluta ideal que. fazendo exclamações eufónicas na sala: e.. . R O S A M í STICA «Hour of lovc.

. É noite: e. Do mar se ouvia a grande voz chorada. Ela. então: . sobre os tanques chora a água . escuta os galanteios dos barões. M e disse. .28 GOMES LEAL Nessas almas se erguiam. E então perguntei-lhe. os rouxinóis lembram o céu . N uma cadeira de espaldar dourado.. . de anéis de pedras finas preciosas a Senhora D uquesa de Brabante. sob o azul morno e calado. na sua mão macia e cintilante. Recorda o senhor Bispo acções passadas. como deve Erguer-se uma alma à Luz afortunada. Falam damas de j óias e cetins. . Oculta mágoa vela o seu rosto de um solene véu. baixo e brando: Em que m undos de luz é que caminhas? Que torre está tua alma arquitectando? . Ao luar. .Estou cismando No que dirão. travando as suas mãos das minhas. ingénua. no ar. Tratam barões de fes tas e caçadas à moda goda : aos toques dos clarins. A SENHORA DE BRABANTE A Alberto Osório de Castro Tem um leque de plumas gloriosas. Cantando. concebem os j asmins e os corações. Palpitavam as pombas no ar leve. Mas a Duq uesa é tris te. as andorinhas .

. enfezado. . . .POEMAS ESCOLH I DOS D izem as lendas que Satã vestido de uma armadura feita de um brilhante.· pelas noites que os cravos vêm abrindo . todo disforme. Cantando. a transcendente Dama de Brabante. sobre os tanques chora a água . Oculta mágoa vela o seu rosto de um solene véu. Dizem que o ouviram ao luar nas águas. . . . malquisto. S a t ã cantara a s suas tranças pretas. no escuro. . excêntrico. os rouxinóis lembram o céu . passeando errante. . ousou falar do seu amor florido à Senhora Duquesa de Brabante. . . . E m vão tentam barões. C antando. excepcional. e lindo. O que é certo é que a pálida Senhora. Ao luar. e os seus olhos mais fundos que as raízes! Mas a Duquesa é triste. mais 'louro do que o sol. Sempre a Duquesa é triste. D izem mais q u e n a seda das varetas do seu leque ducal de mil matizes . 29 . sobre os tanques chora a água . É um filho horroroso e j amais visto! Raquítico. com mil discursos. tem um filho horroroso . desenrugar a fronte da Duquesa. e uivos de animal! Parece irmão dos cerdos ou dos ursos.:.. o s rouxinóis lembram o céu. Oculta mágoa vela seu rosto de um solene véu. tirar de uma viola estranhas mágoas. marmóreo. e de quem cora o pai. aborto e horror da brava Natureza . Ao luar. pêlos de fera. .

Num tapete chinês aveludado. Cantando. FANTASIAS Tenho. A mágoa lhe arranca gritos que a ninguém mais deu! Ao luar. os rouxinóis lembram ° céu . Chama os nomes mais ternos ao aborto . . sem trégua. a mãe! . . rindo. barões. distantes. pelas estradas. hinos. Com flores ideais e extravagantes. e os meus ins tantes Passá-los. sobre o esquife d o disforme morto. China. meu lírio amado! .. erguendo os braços . Riem-se os padres. em alto choro. . Pelas arcadas do palácio retinem festas. nos pátios. .30 GOMES LEAL Ora o monstro morreu. Só chora o monstro. em voo arrebatado. chora. Riem-se nobres e peões nas ruas. E levar-te. sobre os tanques chora a água . Só. Riem nobres. a teus pés . . ou ° Irão. a mÍsera mulher. . . . os truõeS também. a triste mãe o quer! Só ela chora pelo mqrto! . . nos terraços . junto ao seu j azigo. Riem. desejos delirantes � De a todos te roubar. . Passeia o duque. ouvindo os sinos . Riem aias. . . . À Í ndia. grave e encruzado. Mesmo assim feio. vilões. às vezes. . Riem-se os monges pelo claustro antigo. Riem vilões trigueiros das charruas. Aos países fantásticos. O próprio pai se ri.

o mar unido. . E somente Satã é u m pseudónimo.ó pomba minha! Mais leve do que a asa da andorinha. S e u antigo esplendor e sorte dura. Comeríamos os dois arroz cozido . eu e tu . Ai! quem mais do que tu terá sofrido. Ó Anjo expulso. Nos bairros tortuosos dos Judeus. . É o autor do Remorso e do Pecado. Ele é o Velho Mal. Olhando o mar sereno. . E teve essa ideal melancolia! .POEMAS ESCOLH I DOS 31 Nossa vida seria . Tem-lhe sido incons tante e vária a sorte. Deus adorado e m Delfos. . e forte. . Quando andava entre os povos da Escritura. por Francfort. e escarnecido. Que foste mais fulgente do que o dia! . Jerónimo. . . No tempo em que era belo. O morcego da Bíblia. mais e m Gnido. grande. . nas horas calmosas. triste. o Orgulho. . . . e o cão danado Que espancava de noite S. E. Fez a guerra dos as tros contra Deus. o Enfado. Embalados num j unco d e bambu! A B I O GRAFIA DE SATÃ A Trindade Coelho Eu vou contar a grande lenda escura Do fulminado trágico da Luz . Andava roto e pobre. E comprava os juízes de Jesus.

Aquela luz que cai magoada e triste. E quantos longos séculos carpiste. envergonhado. E. Quem dirá os espinhos que cingiste. . Fez-te sonetos lúbricos o Aretino. Quem pesará teu cálix de agonias . Deixaste envenenar-te Daniel. Tentas as filhas sensuais de Loth. Eu sei que fos te tu que.32 GOMES LEAL Já Vieira contra ti. E que andavas n o mundo. Tomás contou o teu destino. cheio dum pavor trágico e escuro. Eras às vezes místico e profetico. . confessor. na noite derradeira. Foi Ele que abrasou na carne. . Ó grão crucificado de ironias! . E S. . E as aventuras célebres da noite. Tu fos te sábio. . Fez dos seus crus libelos um açoite. E és t u mesmo que escolhes a figueira. um dia. Fazes de Roma toda uma fogueira! . Foi amigo de Nero e de Caim. Em Delfos desvendavas o futuro. igrejas. E que era o teu catarro a voz do vento. Já doentio. Pregou na catedral de Alexandria. Tentaste a castidade de Raquel. catedrais. natural de Iscariote. e desdentado. E o mocho que adej ava escuro e tétrico Nos conventos. Eu sei que hoj e estás morto ou retirado. e médico Nos tempos legendários. . Em Sodoma. A tribo s ensual de Benjamim. Era pai dum senhor de Normandia. medievais. . Ó corvo escuro e mau do firmamento! . A Judas. . . perdendo o tino. impuro. calvo. um dia.

Corrompeu os conselhos areopágicos. Fazia a voz. E vinha discutir com S. Ao homem tinha uns ódios velhos. trágicos. . . à s noites.POEMAS ESCOLH I DOS Ia tentar o asceta à sua cela. Dava. a Estrela. nos bíblicos tempos da Judeia. Explicava os segredos da Escritura. Aos Magos escondeu . n o mundo disfarçado. E . E andava disfarçado em sentinela. Andava a intrigar Cristo com Caifás. Como os deuses. o Bom. Quem apagava as luzes. entre as lentas procissões. às vezes. Nos claustros escuros do Ocidente. então. . nas horas d o poente. . Guardando o Justo. . piedosas! . E vagava. l uminosas. Era mulher nas lendas monacais: O u tras vezes gigante e corcovado . . E era ele o que andava entre as pelejas . nas formas de animais. Nas regiões serenas. o Resplendente . Encontra-se inda os seus lúcidos rastros. Tomava. E cantava. Tem no rosto o descor dum fulminado. Ó constelações felizes. num tom dogmático. Clemente Com a bulha invisível de corcéis . Tomás. . A gande luta bíblica dos astros? . Inda. E benzia as prostradas povoações . . Quando oravam nos templos os fiéis. chorais. . de repente. I niciava os sábios da Caldeia. austera e dura. ordens e a tonsura. nos céus. E era ele. . . pelos seus mágicos. E fazia roubar. silenciosas. 33 . uma ideia. As hóstias consagradas nas igrejas. Fazia distrair a S .

contra Deus. o Eleito. . . a humana lista. numa trapeira. Doce e alegre. Exposta todo o dia à soalheira. altivo e só. Nasceu entre as demais constelações? Comandava as fla mantes legiões? E seria seu pai Leviatã? . eternamente. Vejo. . todo o dia. passar as cavalgadas. Não errava inda Pã pelas florestas. onde as pombas deixam rastos . Á pis não inventara suas festas. Pára. Fumando o meu cachimbo. Professo o culto só do iar niente. . . Os en terros e as lentas procissões. Deitado. . o Evangelista Não se acha mais o seu lugar no Céu. É que segundo. . Nas vizinhanças límpidas dos astros . dormindo. E não ladrava Anúbis no Egipto. . Como na era feliz das serenadas.34 GOMES LEAL Nasceu nas doces. . . E góticas varandas recostadas . Com os tranquilos modos dum sultão. . . E onde passo. neste ponto. Quem sabe se do velho C aos nasceu? . Nesses tempos do exílio a s penas mestas J úpiter não sofrera inda proscrito. . Das graves casteiãs nos seus balcões. num colchão . aqui. puras regiões? Ah! quem dirá onde nasceu Satã? . a lança enrista. a vida inteira. N a posição imóvel dum vidente. em baixo. ÁGUA-FURTADA DUM ORIGINAL Eu moro. . Só quando.

. Defron te. sem razão nem senso! . onde no fim . E onde pus um retrato de Traj ano. Que me acompanha a rir d a vida inteira. E dois frades j ogando o bofetão.' M ais ao pé. E servis de cortina e bambinelas . E tristes quais sul tanas desprezadas. . . E uma Bíblia mui velha. e m nuvens d e ouro. 6 Musas que inspirais o s meus sonetos ! Qual foi o deus. Como um Marte do Papa aj uda à missa. Sofrendo como César de calvícia. Nas paredes es tão frases simbólicas. onde o sol brilha e reluz! . Que vos criou ao seu fiat lux? Sois vós que me escondeis. chinelo mouro. num grande pé. tenho as cartas de namoro. . E aqui e ali borrados a carvão: U ma Vénus com ar de grandes cólicas. . . E vós teias d e aranhas. E dum truão a loura cabeleira . Um santo dumas barbas apostólicas. E as vizinhas que estão tomando o sol A espreitar-me se põe entre as janelas ! . ri. envolto num lençol. 6 sebentas d o estudo empoeiradas. A quem o Grão-Senhor não deita o lenço ! . . A que pus uns bigodes com cortiça. A l i tenho u m cachimbo d e cigano. . . E vestido com ar de mandarim. . qual caracol. uma caveira. Tendo.POEMAS ESCOLH IDOS 6 filhas do sPleen malfadadas V ãs poesias. Quando e u declamo. sinistra. inquietos Tecidos. . ó astros dos meus tectos. S e pinta o Padre Eterno. 35 . . . Sobre uns versos que fiz a uma Felícia. Dentro dum casacão diluviano.

. . . . E tem deixado cá para a trapeira Duas vezes fugir o seu canário! .Onde tu sabes que eu moro Eu acho os astros dum ouro Já bastante mareado! . Nas vizinhanças límpidas dos astros. Nenhum deles vale a trança Dos teus cabelos compridos! . uma vizinha costureira. Onde as penas das pombas deixam rastros . Que faz dos sinos único regalo . BILHETE D UM ESTUDANTE Daquele esguio telhado . E canta. . E toda a noite can ta como um galo. Que canta a manhã toda e a tarde inteira. E goza da união dum saltimbanco. . E onde passo dormindo a vida inteira. Ao som das cambalhotas do palhaço. Que anda pintado de vermelho e branco. . . E assim eu vivo só numa trapeira. . Doce lírio. . .36 GOMES LEAL Ao lado mora-me um vizinho manco. . . I mita o som dos sinos indiscretos. numa voz que abala os tectos. Exposta todo o dia à soalheira. Defronte. . que treme a um vento vário . Por isso meu peito lança Ao teu telhado gemidos. Toda a noite o sineiro tem secretos Desej os de espreitar como é que eu passo ! .

Na mortalha dum cigarro. . Que tomo o sol às esquinas. À noite. e o Filinto! E . E desafio as estrelas. alegre e faminto. fei to mendigo. no meu caminho.Dar-te-ia. minha amada. . Servindo de lacre o Sol.Não tenho nada comigo! Sou u m deus. Encontrar Minerva amante. E as M usas cheias de vinho. Por que empenhei a batina.Ninguém me estende o seu braço! Quer-me por força o destino Comendador ou palhaço.Ó minha Musa divina! Não fui ontem à escada. . M as sou um prédio em ruínas. Como um barco sem amarra. Navego. roto e contente. M eus deuses são Vico e Dante! E gosto.POEMAS ESCOLHIDOS Se eu fosse Deus.Fragilidades do barro! Envio sempre um soneto. túrgidas velas. Satã me esfole! Uma cartinha fechada.· 37 . sobre a guitarra. . Triunfo. . Divago. sob este azul clemente. . . flor amada. POST-SCRIPTUM Desculpa-me. .Odeio um lente . Vago sem norte e sem tino. E a cabelo louro ou a preto.

Te lembram . Fronte grega. . . de tristeza. . o rosmaninho. Tem uns gestos de deusa que caminha. Segue-a sempre u m lacaio. . inda a giesta. E m e faz sonhar sonhos desmanchados. meus sentidos.38 GOMES LEAL A LADY Aquela que me tem. acaso. . e tristemente. meus cuidados . lentamente . como um guerreiro Cheio de sangue .. Se. . como as ladies de Van Dyck . presa Minha alma. Ao verde campo. Vinha descendo o Sol. . E umas mãos. . Se. Tomás de Carvalho Quando eu morrer. Seus doces olhos castos e velados Têm um ar. E ponho no bigode cosmétique. e as joviais cantigas Da aldeia i nda apagar os teus pesares . se acaso inda prezares Aquelas nossas digressões antigas . . É uma altiva e olímpica inglesa. . agora. HUMORISMO M í STICO Ao Dr. e te vais sentar no banco À s tardes . . . . . . j unto às tílias do caminho! . Nunca tipo ideal de mais pureza Vi nos góticos quadros mais prezados . atrás do campanário . infinito. . e um ar grande de Rainha. . . . acaso. A laranj eira e o grande muro branco. aquele nome solitário Que eu fui gravar um dia no pinheiro. É por ela que eu morro. . . .

a quem Tanta vez tu ves tiste com as tranças . Planta-a dentro dum vaso predilecto. sobre a sacada . à cova. j unto às tílias do caminho! . Lembrar-me-á a giesta. . à luz . . o rosmaninho. . . Ali se encerra O que amaste ! . aquele nome o tronco duro Inda o guardou fiel. lançando à terra As folhas virginais dos malmequeres. no velho banco. E nessa cova então bela e dourada. À s tardes ..POEMAS ESCOLH IDOS Se. . . . o meu espaço! E. Sem ser as meigas pombas e as crianças!. S e acaso inda t e lembras desse. vier alguém. . Toma cuidado nela . M ais que a ideal palpitação das asas. . Entre os outros. . . acaso. . C uriosas de amor. meu bem! ouvir teu pranto. . e a laranj eira . . . e. E e u não passei por este vale escuro C omo uma ave lúgubre e estrangeira! . . E eu gozarei como u m prazer secreto. ai! não vás como as mulheres. . Lembrar-me-á o teu ósculo primeiro. Que nessa Oor ocultarei minha alma. .Como a nossa união antiga e calma Colhe tu uma Oor branca e raiada . . E . A laranj eira e o grande muro branco. . nem o encanto! . . ao sentir-me regar pelo teu braço . S e acaso aquele fogo e m que te abrasas Inda não se apagou! . . Ser-me-á doce. . . meu azul. E quando Íamos fal ar. . . Sentindo a tua mão pequena e amada! Será esse o meu gozo derradeiro! O meu sol. . e m que e u j azer..

fugindo. Oh como é bela! e como a fico a olhar. . . Oh como é bela! Tem na luz do olhar Quais violetas quando as fecha o sono. Um rei das lendas. E ambos. em galeões à vela. n o seu pensamento. Sobre a garupa dum cavalo escuro ! . . Eu amo vê-la. Como e u quisera. . Ou que o seu quarto se inundou de luz. Juan. palpitante o seio. Dos seus cabelos desatando a fita!.e que vontade intensa ! Só pelo brilho dessa longa trança.. . nos sonhos dela. Como eu quisera ser. . Como eu a. Pirata mouro. Como e u quisera . . Não sei que doce e lânguido abandono. Ser o rei bardo no rochedo duro.sigo nos seus gestos vários. aquele ninho cheio Da doce voz dos joviais canários! . . Com minaretes sob o céu do Irão! . . . sedutora e bela.40 GOMES LEAL ROMANTISMO Quando ergue o transparente da j anela. Ser cavaleiro de invencível lança. o fatal D. Não sei que vago que nos faz cismar! Como eu a espreito. Longos cabelos sobre os ombros nus. Naquele quarto. recortar o vento. Lembram-me a s virgens que d o austero Ermita Vinham as noites de orações tentar. Ou rei normando duma ilha imensa!.

POEMAS ESCOLHIDOS

S e me morresse, que comprido choro!
Como vergara sob a cruz de Malta!
Como eu deitara a minha taça de ouro,
Por causa dela, duma torre alta! . . .

E assim por ela fico preso, enquanto
O Sol se esconde no Ocidente triste . . .
U m cravo murcha, numa j arra, a um canto,
E as aves voam, debicando o alpiste.

41

A FOME DE CAMÕES

(POEMA EM 4 CANTOS)

CANTO PRIMEIRO

A TRAGÉDIA DA RUA
Quando no mundo o Génio abandonado
expira à fome e ao frio, i ndignamente,
um lívido remorso ensanguentado
sacode o mundo tenebrosamente.
C omo o arrepio dum terror sagrado,
alguma cousa grita intimamente:
como uma voz terrível que suspira
nas cordas vingativas duma Lira.
E essa Lira é só feita de ameaças.
Essa Lira é só feita de vinganças.
Essa Lira só fala de desgraças,
de antigos crimes, de cruéis lembranças.
Essa Lira espedaça e quebra as taças,
cala os festins, e faz parar as danças,
e essa Lira ai! da trágica inocência
é a Lira terrível da Consciência.
E a Lira diz: O que fizeste, ó mundo!
das grandes almas únicas, sagradas,
das grandes fron tes d um sonhar profundo
que eram as fron tes as mais bem-amadas?
O que fizeste desse abismo fundo
de vontades mais rij as do que espadas,
desses simples e santos corações
que faziam chorar as multidões?
O que fizeste dessas línguas de ouro
que sabiam pregar como os profetas?
Como enxugaste o seu comprido choro?
Como arrancaste as pontiagudas setas?
O que fizeste, ó mundo! do tesouro
que vós homens mortais chamais poetas:
mas cuj o nome de harmonias belas
só o sabem as Cousas e as Estrelas?

atrás dum baluarte. os seus crânios quebraste. ouve-a intimamente. numa contínua música inflexível. até que enfim vencido nesta liça o mundo clama: «Faça-se a Justiça!» Era uma noite lívida e chuvosa. ermas as calçadas. . nem gritos de facadas . indefinidamente. ó mundo! guarda-o na lembrança. . . ou pelo Sol-poente. Nada cortava a solidão brumosa. Das nuvens colossais acasteladas somente a meia lua silenciosa. Quem é que cruza à chuva e à ventania.46 GOMES LEAL Deitaste ao lodo. à rua. à meia-noite. nas convulsões do amor. na cegueira! As suas cinzas espalhaste ao vento! Profanaste os seus louros na poeira! E repousam sem l ástimas nem lousas os que viam as lágrimas das Cousas! . o pai dos párias? Ou és tu Fome ou Vício. como um navio que perdeu as velas. numa alta torre. e aviltamento esses que adora a Natureza inteira. Porque eu. Por isso m e ouvirás em toda a parte como um soluço e um grito vingador. Ouve-a na sombra. Eu sou a Lira. e a minha voz Vingança! E o mundo escuta. Na paz. nem ais de amor. se o vento dobra o canavial flexível. que sem guia. ou levantando o estandarte da guerra. ermas as ruas. esmagaste entre as pedras o talento. escutarás a minha Dor. boiava em morto céu ermo de estrelas. entre os festins. as ruas solitárias? És tu santa Miséria. ouve-a 110S sonhos. que de dia foges da luz do Sol. a voz da Lira a protestar terrível.

nem a sina imoral sinistra e crua da história diabólica da Rua. como uma sina má. provocar o Deboche e os estrangeiros à baça luz dos tristes candeeiros? 6 Destino! ó Destino! eu sei a história de muitas das tragédias soluçantes. o rico trapo. de muito nome que esqueceu a Glória. Direi o I ncesto a amamentar os filhos. e o Parricida a esvaziar quartilhos . limpando as lágrimas internas. com o um fósforo risca a treva densa. e do Farrapo. mortuárias. con tarei os cruéis temperamentos. do Leque. passo a passo. Um dia acenderei a selva escura das almas que sufocam à nascença.POEMAS ESCOLH IDOS vais nas noites sem lua. do amor do Charco. fazer um toast à Morte nas tabernas. E com a ponta dum brilhante duro marcar-te-ei ó trágica Doença que vais. U m dia eu contarei a estranha lenda ó D estino! dos teus encantamentos. do O uro e do Veludo. nem a farsa de sangue a toda a hora. de muitos prantos que caíram dantes! Sei que riscam teus dedos Oamej antes. 47 . das noites só riscadas de amargura. e que nada há maior e mais escuro do que brilhante e o bronze do teu muro! Mas não quero contar o drama agora do Brilhante. a tua senda ó M iséria! e direi os teus tormentos . muita memória. do histrião. da meretriz que no bordel descora. do sapo. Para que a alma da Ralé aprenda. seguirei.

mais profundos que os bastos arvoredos: direi sonhos. da Espada que tilinta na bainha. o Azul almeja. do Egoísmo solitário. ó tragédia da Rua e os teus segredos. porque é eterno e lívido o mistério da Morte. pedindo esmola à sua irmã rameira. das misérias do Cancro e do Veludo. como a agulha da torre duma igrej a . enquanto o J usto expira no grabato. . e do Brilhante das lágrimas mortais do eterno Entrudo. como uiva à lua a lúgubre cadela. da Virtude embrulhada em seu sudário. do Leque. " do Luxo. U m dia cantarei a ladainha da Desgraça e da Forma triunfante. nas manhãs geladas. a Fome da mansarda na janela.48 GOMES LEAL Um dia evocarei os teus mistérios. Por que há lágrimas do berço ao cemitério. Um d i a esfiarei todo o rosário da Inocência e da Fome aventureira. do Génio soluçante na trapeira. da Batina. a " Inveja ululando contra a presa. da Fome que ergue as mãos e se definha. São eternos os almejos. Por que tem muito que cantar o império e o inferno da Carne e dos desejos. desejos quase etéreos. desejos que têm asas nos degredos. e o Crime dando bailes de aparato. e o Suicídio. mais funestos que os tristes cemitérios. o Tédio bocejando à lauta mesa. d uma alma que ama o Azul. Descobrirei as contas da Avareza junto ao esquife duma virgem bela. da Máscara que ri e passa avante. espedaçando o crânio nas calçadas.

Porque a Morte em nós ceifa uma ruína. do negro sangue que te agita as veias.POEMAS ESC O LH IDOS há lágrimas no Amor e até nos beijos. ai! tanto chora o actor como o comparsa. lágrimas e penas e n tre os motins e os frenesins das ceias. Porque há bastantes corações vencidos. do Génio morto à fome. inexorável. e esta mulher que ri com tanta graça. engana. Porque há remorsos. e é uma esfinge cada face humana. Sim. porque a eterna Máscara domina. soluça. Porque nesta funesta e eterna farsa. fazer chorar o choro masculino do Génio coritra a noite do Destino! 49 . um abandono nobre como um enterro numa rua pobre! Porque ninguém conhece onde termina o trejeito que ri. conto a história funesta. indignamente. l ágrimas mortas que se congelaram. sinis tros ais e íntimos gemidos lágrimas mudas que se não choraram. procissões serenas. altos desejos que não mais voaram. prantos comuns e de grotescos traços n as misérias dos reis e dos palhaços. numa miséria. Quero narrar o que é o inarrável! fazer sentir o que jamais se sen te. mais monstruoso do que um sonho ardente. há soluços que não são ouvidos. é talvez uma lágrima que passa! M as agora eu só conto o Irrevogável. Porque tem muito que cantar as cenas ó Rua! das estranhas odisseias das tuas festas. q uando nos rouba na asa desumana.

portanto. a mão recusa-se a suster o passo dos transeuntes raros. H oj e pois triste. Este vulto. a chuva. O' calçadas fatais ! nas enxurradas vai m uito fel de lágrimas choradas. curva-o o cansaço. é um guerreiro trágico e proscrito. Para o Vulgo porém vil inclemente. sobranceiros. . . que caminha al tas horas.50 GOMES LEAL o Génio é um arcanj o refulgente que enrista a lança contra a escura Sorte. . ao frio das nortadas. É Camões a que a Sorte vil mesquinha faz em noites de fome torturadas. e o Destino esse cego antigo e forte. no seu peito deixando um vácuo fundo. M as não estende o valoroso braço. vagar errante como os vis rafeiros . é Cámões que de fome se definha nas ruas de Lisboa abandonadas. os aguaceiros. . o seu amparo e seu bordão no mundo. mais cruel para os artistas. O' lágrimas! . . que ou trora trabalhou entre os guerreiros. O' ruínas! . o seu fiel amigo. O' Capitais! O' Capitais egoístas! d uras velhas mais duras que o granito! há caso mais sublime às vossas vistas que mais vos deva merecer um grito. ele o velho cantor de heróis guerreiros! . faminto. tenta esmolar também pelas esquinas. tem no seu gesto uma expressão potente. Morreu-lhe o escravo. morreu-lhe o humilde companheiro an tigo. Cospem-lhe a neve. . . . velho. mais negro. abandonado e vagabundo. . e a fronte tem com um luar maldito. O' glórias! . sem abrigo. que diz: eu q uero! e empalidece a Morte. A Fome rói-o.

e ensanguentou os olhos das janelas. e como a moça que um amante beija avermelham-se os vidros duma igreja. os vis riachos. a m úsica dos carros chiadores que chegam das aldeias retiradas . dramático. correm ralhando. e as alegrias dos galos com as notas cristalinas dos sinos com estranhas sinfonias. Reco'm eçam as pombas seus amores sobre as brancas igrejas penduradas. os lodosos veios. a palpitar. . infinito. as gelosias. os cavalos remordem os seus freios. vão passando aldeões para os mercados. Dos pássaros retinem os gorj eios nas árvores. precipitados. e trigueiros. Começam-se a ouvir as matutinas m úsicas da cidade. como as grandes estátuas dolorosas. Assim a noite vaga. as bandeiras . nas glórias. os beirais. Começam-se a ouvir esses rumores das capitais egoístas acordadas. até que o sol jorrou pelas vielas.POEMAS ESCOLH I DOS m ais sagrado. como um espectro que dissipa o dia. O sol lava de glórias as colinas as torres. e atrás dos lentos carros os boieiros vêm sombrios. na agonia dos mártires das noites trabalhosas. que mais abale os nobres peitos francos que um Génio pobre e de cabelos brancos !? . o Génio continua à ventania a errar pelas ruas silenciosas. 51 . nas pontas dos eirados. graves. e nas torres dos astros companheiras. ao sol.

que vão beber a rios como a mares. singulares. e as cantigas. em cima tendo os astros por j uízes. os bois. os fenos. que ele escu tara. como um sombrio coração que dorme. os trágicos vestidos. como aroma dos tempos revolvidos. das grandes selvas. e pelas noites imortais. nem gemidos! Só sente uma saudade estranha. às louras raparigas nas cearas! Lembram-lhe a Índia. eternas ! o luar nas figueiras das cisternas . as mulheres ideais que o Amor inspira! Rotos. à chuva. sombras e palmeiras quando o sol desce as íngremes ladeiras. as árvores de frutos venenosos. os templos monstruosos. misturar sua vida e acerbas dores com as almas das plantas e das flores! Para o velho cantor eram fugidos ai! como luz que para sempre expira.52 GOMES LEAL Somente ao Génio uma tristeza enorme entenebrece todos os ruídos. recomeçando as horas das fadigas. dizendo adeus ao sol no horizonte. entre as raízes. com seus deuses terríveis. recordam-lhes os épicos carvalhos a sombra. as sestas tão amigas ! Fazem lembrar-lhe as curvas dos a talhos. pelas luas claras. os gentis palmares ! Lembram-lhe os tigres ruivos. E ele quisera achar-se em alto monte. acabar os seus dias infelizes : na boa terra M ãe deitar a fronte e entre as vegetações. que já não tem nem sonhos. os belos tempos jovens e luzidos . a fon te. . a ermida. Os aldeões tisnados dos trabalhos. informe. as bastas selvas. sequiosos.

e ri contente. A tarde chega. I rrompe a lua sobre a verde crista d u m monte ao longe. como a visão dum sonho torturado. dá-me abalo». a chava-se hoj e numa rua. pobre. C i ngiu o braço ao Génio moribundo. velho. ó velho. deixando ao vento as ondas do cabelo. hirto e sem fala. N es te momento uma mulher gigante. disse a mulher. tão magra como a Sombra. e no lajedo. « O teu semblante. ó tris te. ergue a cabeça pálida e abatida. uma guarida. chegou-se ao Génio hirto e abandonado. que o coração con trista. a Sorte crua. A Morte que passava em seu cavalo deu-lhe um sorriso lívido e profundo. pálida e triste. não dormirás à lividez da lua e terás leito onde acabar a vida. Ó mundo. q ual saudade errante.POEMAS ESCOLHIDOS posta de parte. empoeirada a lira. A noite vem. ó mendigo. o seu semblante toldado dum desgosto imenso e belo.te-ão. «Não é vulgar no mundo! Dize-me pois que coisas tenebrosas te h ão cavado essas rugas dolorosas !» S3 . ao frio. o Génio cai enfim. Se a Sorte te esmagou. e moribundo! Sem ousar mendigar. que em breve vai findar a tua peça!» A mulher aj udou a levantá-lo. para a essa. faminto. como um vadio. q u e pareceu sair dum pesadelo. o belo sol fugiu. como um cadáver que se deita à vala. vaga nas ruas da Cidade egoísta. E d isse-lhe: «Bem perto desta rua dar.

errando. malditas flores ! Sei os soluços dos compridos ais! Sobre o deserto pálido das Dores.54 GOMES LEAL «Eu fui». disse a Sombra magra e triste. chorei com fome. ninguém como eu peregrinou j amais! E pelas noites regeladas. «Cala-te. cruas. e terrível l utei contra inimigos! Sentei-me no castelo derrocado. como andorinhas sobre as catedrais! Conheço o aroma das . no deserto solar. entre as ruínas! «Ninhos fizeram no meu peito amores. pelas ruas! « Porém que porta negra agora abriste? Que aspecto é este morto e desolado? Acaso o inferno depois disto existe? Acaso é pesadelo desmanchado?» «Cala-te ! » . desgraçado!)) E com sorriso de expressão fatal a Sombra concluiu: «E' o hospital!)) . «um malfadado cantor de heróis e feitos dos antigos! Amei tudo que é grande e desejado. ó Génio imenso. qu is expirar-lhe. um dia. o Génio disse. cruzei os p'rigos! E com saudade enfim destas colinas.

que a alma sabe que não torna a vê-lo?!» . na vasta enfermaria. e u m soluço através d uma ruína. Um marmóreo suor frio cintila sobre a fronte do Génio. «ó mulher triste! que me olhas com teus olhos impassíveis. uns olhos. severa. ao magro peito já cingiste uns braços que enfim caem insensíveis. hirta. A lâmpada vacila. J unto do leito uma mulher estranha.CANTO SEGUNDO NO GRABATO DO HOSPITAL É alta a noite. com grandes olhos tristes e parados. diz-lhe o Génio. sobre a pupila treme-lhe um pranto à luz baça e sombria. e q ue até às entranhas te gelaram? «J á conheceste as grandes despedidas as despedidas sepulcrais. O Génio vai morrer. eternas? Já sabes quanto dói irem-se as vidas. num rosto amado. são frios os seus olhos encovados. alguns braços de irmão que te apertaram. trágica a postura. ou o sangue das lágrimas internas. formas. mais triste do que o luto duma sina. um cabelo. como imagem de antiga sepultura. na agonia. con templa-lhe o suor frio que o banha. morrer no mundo alguém? Acaso viste as lágrimas da morte irremissíveis! Acaso. Como um sol que se põe numa montanha. e almas que nos foram ternas? Sabes o fel das lágrimas vertidas. como um pranto. e a braça-o com seus braços descarnados. «Já viste».

terríveis como pálidas verdades. e da miséria desolada. Desci contigo ao reino dos espantos ! . cintilantes.56 GOMES LEAL «Ai! sim». e um suspiro vibrou profundamente dolorido. na palidez. «Ah! já sei quem tu és». desses loucos e estranhos viaj antes que andam à busca duma flor fatal. nos l ábios desbotados. «Tu és 'a Musa que apregoa a fama. no vasto dormitório. no seu olhar parado. neste sonho da vida transitório. calcadas como lírios numa estrada. e ao luar me falaste de tristeza. a Mulher diz com voz gelada que pareceu sair dentre saudades. ou nos gelos. e gentes falecer que ninguém viu. «Eu cruzei já os reinos e as cidades do luto. o Génio leu. o Génio clama na rápida centelha dum delírio. todo o luto e terror do seu Passado. nem tornará a ver!» E con tinuou a olhá-lo fixamente com o seu olhar trágico e marmóreo. duma flor de tons ricos. a um raio azul da lua! «Foste tu que inspiraste sempre os cantos que eu dediquei à Glória e à Na tureza! Ah! foste tu que me enxugas te os prantos. Como através dum sonho incoerente. a Musa meu amor e meu martírio! Foste tu "que acendeste em mim a chama! Nessas pálpebras roxas como um lírio. duma camélia azul e boreal: até que morrem numa praia nua. e vi mágoas. vej o a Musa dos génios desgraçados! «Tu és a Musa sim desses errantes e tristes peregrinos do Ideal.

«Mas hoje gela-me o suor na testa e convulsa-me o corpo um calafrio. amor. As cristalinas lágrimas brilhantes tenho aparado nesta magra mão. e a desolada e lívida expressão dos seus gestos. das Origens. pelas florestas. das Cousas. como folha que vai numa lagoa. do germinar dos lírios e arvoredos. nos últimos instantes. como as cordas que estalam duma lira!» «Não sou a Musa». Como a través dum sonho incoerente. Desejo. e andei errante pelo mundo à toa. com o seu olhar trágico e marmóreo. todo luto e terror do seu Passado. continuou a olhá-lo fixamente. e um suspiro vibrou profundamente dolorido. debruçar-me do abismo nas vertigens. no seu olhar parado. neste sonho da vida transitório. e fiz aos astros soluçar as virgens. «Não! Mas tenho visto os prantos dos amantes. apanhar boas-noites e giestas! «Contigo eu devassei esses segredos. o Génio leu. sonho. nas pontas dos rochedos. Contigo fui. das raízes. e escutado os seus últimos segredos ! » E.POEMAS ESCOLH I DOS Con tigo à tarde fui pela devesa! Contigo à noite fui. cerrado os olhos com meus frios dedos. 57 . disse a Sombra. nada me res ta! Nada sacQl'de meu cadáver frio! Contigo não i rei pela floresta! Não mais irei contigo pelo rio! porque o sopro vital em mim expira. no vasto dormitório.

para não mais voltar! Vai dissipar-se tudo. do fim da tarde o fumo azul dum lar! Já sinto flutuar-me o pensamento como uma flor aquática num mar. sentindo teus espinhos! «Mas hoje mocidade. o Génio brada. e com saudade lembram-me as tardes que ia nos caminhos. tudo se foi. lírico e pequeno amando o riso.58 GOMES LEAL «Ah! já sei quem tu és». a Sombra disse. como ao vento. e o sol amigo! És o Amor desolado como um trena. «e não empunho espada. Tu és uma saudade aos pés calcada. da tragédia da Vida malograda. o lírio dum desgosto estranho e mesto. o campo. nascido da Beleza. «Conheço-o agora em teu olhar funesto. vida alento. irmão das Graças. e na expressão sinistra do teu gesto. terrível como o açoute dum castigo. És o sinistro e monstruoso Amor! «Mas não és esse Amor doce e sereno. sem piedade! Como eu cantei meus sonhos infelizes! Como eu te amei ao sol da mocidade! Como inda sinto as pontas das raízes do amor que alimentei. que abriste no meu peito. irmão da Pena». o Amor antigo. Leio-o na tua fronte amargurada. . pensando em ti. tu és a prole da Lágrima e da Dor. mas tenho visto a tenebrosa cena. e empunhando na dextra ensanguentada um ramo de ciprestes e uma espada! «Como eu sofri das largas cicatrizes. Tenho visto a b lasfémia que condena. e nas páginas do livro dos meus ais a Sombra pôr o triste nunca mais!» «Não sou o negro Amor.

mas a Glória do génio amaldiçoado. que esmagaram os pés das procissões! 59 . mais negras do que o rosto dum guerreiro. as desveladas noites soluçantes. e morre!» E con tinuou a olhá-lo fixamente com o seu olhar trágico e marmóreo.POEMAS ESCOLH I DOS a l ágrima que queima ensanguentada. «Tu és a velha Glória. num doloroso e lívido arrepio. à hora derradeira! Glória! nome vão. a lágrima que gela e q ue não corre. como os bicos agudos do espinheiro. «Deves ter visto as penas penetrantes. o Génio leu. «Conheço-te afinal». neste sonho da vida transitório. todo o l u to e terror do seu Passado. com a blasfémia e a lágrima maldita! « I lusão! I lusão! sonho que encerra em si a pobre humanidade inteira. num grande brado o Génio diz. no vasto dormitório. e as tristes magras mãos febrecitantes q u e te buscam a ti. como um desejo que estacou. Como através dum sonho incoerente. como pálidas flores das ilusões. e um suspiro vibrou profu ndamente dolorido. no seu olhar parado. a Glória das lágrimas da H istória! És a Glória do génio e do soldado q u e expira soluçando e sem memória. num derradeiro esforço de ansiedade e de desdita. louros que faz buscar a morte e a guerra nuvem que foge. e só palpa a lívida caveira. como um cadáver que rej eita o rio. ii q uem a Terra busca.

60 GOMES LEAL «Glória! nome vão! sonho e quimera. ao vento frio duma tremenda e lúgubre procela. e ou tra vez. numa lua sossegada. H armonia longínqua. branca e bela. eras tu. como a chuva que molha uma bandeira !? «Glória! esfinge eterna que dominas com teu olhar profético do I ncerto. e que de repente nos fulmina e estala. num zimbório. e foi aquela santa energia. por que nos gelas do Destino à beira. íris triunfante de vistosas cores. mas que perto. Estendias-me a mão. nesses olhos leio! . entre o assobio do nordeste e das ondas. que hoj e já fugiu. nuns campos entre ninhos. sonho de estio entre luar e flo res ! Ó giesta gentil da Primavera. fundo. foi esse teu olhar que hoje desmaia. e me rasguei nas lanças dos espinhos ! Como eu vi teus acenos no horizonte a ensinar-me as veredas e os caminhos! Como eu te vi um dia numa ponte. Bem te vi. como um conviva que morreu na sala! «Como eu te procurei por vale e monte. a galopar nas pedras duma estrada! «Vi-te ainda outra vez. que nos fazes sonhar verdes colinas na poeira da areia do deserto. verme luzente que vagueia na hera. marchando entre ruínas. que exausto e salvo me atirou à praia! «Mas só hoj e te vejo claramente! Só hoje. cremos ouvir. amendoeira da manhã de amores.

pálido. «pender muita cabeça venerável. q u e eu lancei no abismo do insondável. doente. nenhum alento me comove o seio! Podes levar. nem Glória». foi isto que ganhou meu estro escrito! a agonia e o s uor num mundo ingrato. «A Fome me conduz para o infinito! A Fome é meu final. . ó nuvens peregrinas. o Génio clama dando um grito. sítios onde passo traçam sulcos de sangue na memória. horas da mocidade já fugidas! i lu sões ó princesas perseguidas galopando em fan tásticas colinas. m ui to crânio de génio. o meu poente! Foi isto que ganhou meu braço ardente. Sombra inclemente! Já muito tarde o teu auxílio veio! D esalentado. ó Sombra! o teu tesouro. florestas. como um soluço último estridente. desilusões. ideal recebei meu adeus no hospital ! » «Como t u . tenho visto». muito nome. à tarde. funesta é minha história! M ais duro e horrendo o peso do meu braço! Não colho os louros.POEMAS ESCOLH IDOS Tardaste muito em vir. Não vale tanto suor teu verde louro !» «Não sou Amor. M ais terrível. disse a Fome. .» «A Fome !». purpurinas vegetações. e a enxerga dum grabato! «6 ilusões. A h ! mil vezes terrível é meu nome tenebroso e profundo! . nem Musa. Eu sou a Fome. ó brancas catedrais de pedra erguidas com as santas. «nem talentos faço. M uitos que a glória cega e que consome 61 . a Sombra disse.

q uando um génio como tu. do Espanto: mais acima das Dores e dos Pesares.62 GOMES LEAL d uma selvagem sede insaciável. pedir j ustiça ao pranto de Camões . inda tremente logo que expires. acima irei das nuvens e dos ares dos astros. e têm-me dito os ú ltimos segredos. que num grabato derramou a glória! « Mas. e hoj e estão nas raízes. se acaso na terra e sobre os mares ninguém avaliar este teu pranto. no leito mata ao abandono a geração escrava. corre um remorso. e aos astros a lágrima marmórea. como um calafrio. com suas bocas lívidas de lírio. da J us tiça sublime ao trono santo. ó Génio. tenho cingido como a tristes noivos. sem confortos. Porque quero levar como presente aos príncipes. mas outros para mais mortal martírio. e entre os goivos! «Muitos tenho apertado entre meus dedos que se hão finado num febril delírio. cúmplice sombrio. pelo universo. Dormem alguns à sombra de arvoredos. ninguém lhe importa em seu desprezo fundo onde estão os seus ossos sobre o mundo! «Gigantes crânios de candente lava têm repousado no meu magro peito! Bem lindos corpos onde a morte crava seus dentes. «Por isso eu vim colher-te. dos planetas.» . que se gela nas pálpebras dos mortos. aos povos absortos. dormem sob o céu perfeito! M as. a lágrima de mármore imponente. às solenes e e ternas regiões.

como um frio protesto contra o mundo. 63 .POEMAS ESCOLHIDOS D izendo isto a Sombra descarnada d ebruçou-se do Génio sobre o leito. lágrima que i nfunde pávido respeito. C amões morria já: hirta e gelada a Fome lhe cruzou as mãos no peito: e a lágrima marmórea. então colheu do rosto moribundo. regelada.

Calam barões falando de corcéis. emudece a fala. e as damas com as mãos cheias de anéis. em seu corcel sombrio: figurou-se-lhes a Febre. . e este pedido os lábios não me cres ta! Para u m Génio de que hoje nada resta. ao longe. os barões. hirto e solene. como um quadro antigo. seu ar hostil é como de inimigo. como ao ver u m remorso. para u m Génio da fome consumido. o Passamento. venho pedir a esmola dum lençol ! » O lúgrebe pedido n u m momento fez em todos roçar um calafrio: figurou-se-lhes o gesto macilento da Morte. E o velho disse: «Estranho é meu pedido! Estranho sim! no meio duma festa: mas venho por u m morto protegido. touros. e a Doença e m seu catre húmido e Crio. Pelos copos espumam os licores. seu porte triste pelos peitos cala. Os risos param. ou u m castigo. e de amores : e riem dentre as suas pedrarias marquesas que hoje estão em galerias . Nisto um estranho velho entra na sala. A Gula e a C arne ali gozam a par: fala-se em caças.CANTO TERCEIRO o LENÇOL DO GÉNIO o conde Vimioso em seu solar dá uma ceia a nobres e senhores. Estalam as risadas pelo ar. um Génio infeliz! um apagado sol. e os cavaleiros perderam os sorrisos zombeteiros . e as damas.

um Génio inCeliz? um portador. pela sala estalou. «Zombai)). flores. se com seu canto consolou as almas . «Ah! que servem andar como Caróis. . o velho disse. como um insulto e a Colha dum punhal. nas ricas pedrarias. q u e coma o louro e as triunCantes palmas! . n u m canto heróico. plumas. de irónico respeito. bom velho honrado. depois num rir. d u m Génio pobre e que morreu d e Come!)) E o velho riu: «Ah ! de que serve. e desmaiava o busto grego e belo da mulher por quem todo se incendeia. dos amantes. mais brancas do que os vossos diamantes! Zombai ao pé dos vinhos. . original e novo? Se com os prantos destes rouxinóis 65 . das baixel as lavradas. intrépido. . «altos senhores! e magníficas damas cintilantes. é certo. Um riso irresistível o mnipotente. como Moisés a conduzir um povo.POEMAS ESCOLH IDOS Porém o Conde dominando o gelo do terror que estragava a sua ceia. que comparais ao sol já apagado!?)) Todos riram. . dos licores. . alvoroçando as almas para os sóis. . O rude velho trágico. deixou passar aquele vendaval. desta cousa tão cómica e sem nome . bronco e terrível. animal. com um riso que tem do orgulho o selo bradou ao velho cujo sério odeia: «Que génio é esse então. de lira!? de que serve dos Prantos no deserto um instrumento que uns sons doces tira?! Um Génio é lava que importuna ao perto. os longos braços encruzou no peito. e um grande crânio que o talento inspira. impassível.

do injusto. que trazes. sombrio. me comovo. imponentes. . com um grande ar todo solene e frio: «Antes de tudo dir-me-ás primeiro. com um sorriso cáus tico. na lembrança. » E o velho sorriu amargamente. no mar ilimitado. Foi poeta. miudamente. e às preciosas damas. entre as telas de parentes! «Ele. cantou esses combates. ou cavaleiro! «E narra-nos depois. piedosos sempre às dores: narra-nos essa história surpreente desse géni. aos cavaleiros e senhores. talvez vos choque e às almas verdadeiras que não façam crescer as sementeiras ! » E o velho riu .o infeliz. naufrágios. bradou-lhe secamente. peão. Só nunca conseguiu ser um toureiro! . e os embates terríveis do que é frágil e mudável! Cas tigou com a sátira os dislates do arbitrário. «As glórias d o Passado dos heróis e dos feitos doutra idade nos castelos. hoj e fazem sorrir a mocidade! As glórias de avós só tem o lado poético de dar solenidade e grandes tons magníficos. a mim. se és fidalgo. e das forças do insondável da eterna Dor. O Conde então. o Génio. » . nas salas. num riso superior em que se sente uma alma forte que j amais faliu.66 GOMES LEAL que alvoroçam e turbam. com mais respeito que a dos pares de França . . e miserável. como vejo. dos homens. que ao presente te escutam. e esses horrores. filósofo. e guerreiro.

ignóbil. dura. abafavam o riso em transparentes lenços lacerados entre os dentes. mais o soluço H umano. o velho ergueu-se em toda a majestade e b radou numa voz terrível. Duq uesas louras. monstruoso. com belas mãos. maldito tudo quanto é grande e insano! Que sobre o mundo horrível. Toda a sonora e ampla sala ecoou com as risadas. que fez cessar de pronto a hilaridade. indigna Humanidade mil vezes infeliz! se a Criatura sempre se risse assim do que é sublime ou q uando o mundo se infamou num nime! «Ah ! infeliz mil vezes! se o que é nobre e o que é infame. maldita a Alma e a lágrima da Lira. delicadas. maldita a Dor. ansioso gelo eterno! «Maldito fosse tudo o que suspira. pelo tom nunca ouvido de amargura: «Ah ! infeliz. onde gira 67 . tranças cor de amora. sob o Azul sagrado que nos cobre tivesse o mesmo aplauso vitorioso! Maldito e excomungado fosse o pobre! e maldito o Destino criminoso! por trabalhar ainda para o mundo com um suor inútil e i nfecundo! « M aldita fosse a Vida e o ardente beijo do Amor que produziu a Criação. a Ânsia. e a Aspiração! Despenhada mil vezes sobre um brejo de i nsondável miséria e humilhação o m undo se abismasse num inferno do i mplacável. Viam-se rir as bocas cor de aurora das magníficas damas decotadas. macias.POEMAS ESCOLH I DOS De novo tudo riu. maldito o Sonho e as asas do Desejo maldito o Pranto.

esse que já entrou no bosque denso. penhasco alcantilado e voz do sino. cintilantes. sabei antes que eu sou só um plebeu vil que trabalha. pensamentos. Vegetações. e da rosa. o vulto imenso o herói cantor vencido pela morte esse que me perturba. ainda rindo. q uando penso no implacável da tirana Sorte. da sombra. e meus irmãos chamei ao bosque e ao monte. que em breve vão deitar na escura vala. . esse. divinas. e seu destino. raízes. antes de ouvirdes os funestos dramas da fome. a intuição da Natureza rumorosa da flor. que já partiu o muro brônzeo e forte. . horrorizai-vos. q uanto a mim. a chorar sobre as glórias e as ruínas! «Mas o Génio infeliz.68 GOMES LEAL a serpente da Ideia no oceano da treva. Nos desertos castelos do Ocidente. e amei tudo o que é j usto e que é potente. e maldizendo! «Agora. nuvens. e que saio das ondas da canalha! «Senti também em mim o fogo ardente da Lira perpassar-me pela fronte. também eu fui sentar-me nas colinas. e células. e rio cristalino. o derradeiro homem horrendo expirasse.. e cujos belos olhos têm mais chamas do que os olhos dos rígidos brilhantes. florestas. Como o Sol pai das plantas. ó altas damas magníficas. só de eu falar. a musa. às nuvens cor de sangue do horizonte. treme-me a fala!» O velho então contou a trabalhosa lenda do Génio. ventos.

o m inério que crêem que só dorme. tem voz. toda essa santa N atureza enorme. e vagou na torrente da Paixão. Como feridos rouxinóis cantando. chora e se lamenta! Mas que o Génio no meio disto tudo sofre mais. é astro. todo esse vasto Todo verde e belo. E c uidavam ouvir os mil chorosos e soluçantes ais. barões. foge líquido e corrente. em corpo e alma se resume. brilha ou que tem lume. passa curvado num pesar profundo.POEMAS ESCOLH I DOS tudo que tudo que tudo que tudo que tudo que tudo que tudo que ou fundo é vida que tem alma e sente. porque entende estes lamentos ! Ele traduz a Dor disso que é mudo. quando deixou prender seu forte coração nos sorrisos dum gesto puro e brando. longinquamente. e resume os gerais desolamentos! Não tendo contra a Sorte u m outro escudo que não sejam seus fortes pensamentos. religiosamente. os sentidos gerais misteriosos das palavras do velho estranho e ardente. é belo como o sol na alfombra e triste como a voz da Sombra. tudo isso belo ou feio que se ostenta. os moluscos e a larva humilde e informe. é asa e corta o ar luzente. é flor suave e tem perfume. tem alma. o l u ar como a folha dum cutelo. as heras nas ruínas do castelo. 69 . das subterrâneas Cousas infelizes: os ais da planta e os choros das raízes! Ele pintou depois o Génio. sentindo em si o mal de todo o mundo! E todos escutavam silenciosos damas.

Depois pintou o horror da tempestade e o assobio dos ventos nas procelas. Barões e cavaleiros comovidos enxugavam as lágrimas a ocultas. pondo-o nas' rochas trágico e proscrito. . violentas do plebeu calavam pelos peitos. no mistério do olvido. os espantos. E as palavras sentidas. e sentiam-se ouvir como os tormentos dos grandes corações santos desfeitos . açoutado do vento do Destino: e o seu rude pesar fundo e divino da grande viuvez do ente amado. e as pálidas senhoras soluçantes alagavam com prantos os brilhantes. os ventos. um navio sem mastros e sem velas. como soldado. mais gelados que os leitos funerários! Desenhou-o depois triste e exilado. solitários. E o Génio do mar na imensidade. Parecia-se sentir as suarentas e desveladas noites sobre os leitos de amantes separados. das tragédias. e esses gemidos e essas sagradas lástimas inultas. por todo o mundo errante peregrino. E todos escutavam. entre as ondas.70 GOMES LEAL os seus versos rezavam da aflição. surpreendidos. salvando o grande livro dos seus cantos. desgraças e dos brados dos tristes corações despedaçados. de braços levantados ao I nfinito. essas desgraças bárbaras sepultas. vagando como herói. dos naufrágios a lúgubre verdade. à fria claridade das estrelas.

71 . no fundo duma lúgubre enxovia. essas desgraças bárbaras sepultas nos mistérios do olvido. o desfazer das tábuas dos navios: as fundas despedidas. o Desespero torvo e macilento. quebrado. Desenhou os carvalhos formidáveis em l úgubres lençóis. mesquinhas. no declinar da vida.POEMAS ESCOLH I DOS D epois mostrou-o pálido. surpreendidos. irmão magro e infernal do Desalento. procurando outros países. E do plebeu nas frases singulares sentia-se o glacial dos luares frios. e os pesares dos adeuses nos cárceres sombrios. preso pela Inj us tiça. e o Génio atravessando a névoa densa. esses gemidos e essas sagradas lástimas inultas ! Barões e cavaleiros comovidos enxugavam as lágrimas a ocultas. envergonhado. e da Neve as ladainhas. sobre os gelos os grandes miseráveis. em a ti tudes trágicas. E todos escutavam. com o um espectro lívido que passa: as lágrimas da Fome e da Doença. E sempre! sempre a Fome! e os I nfelizes! Depois narrou a rude luta imensa com todas as potências da Desgraça. os rugidos dos ventos pelos mares. Depois contou as noi tes inarráveis da Miséria. e Cobardia. rasgando a eterna noite. e um vento a soluçar como um açoite do Des tino. Pintou ao fundo trágico e assentado. na mísera masmorra húmida e fria. e as pálidas senhoras soluçantes banhavam com seus prantos os brilhantes. as andorinhas fugidas.

que o cantor. seu abrigo. e ao vento. fria e fatal a desolada lágrima final ! Quando acabou. à luz do sol. que j á de nada servem nestas horas ao que morreu. onde vai terminar muito aparato. uma geena. Pintou depois. «altas senhoras! as vossas belas j óias preciosas. e sem fala. velho. ai! depois. sem fala. e os soluços e as lágrimas que exala a Dor nos corações muito abalados. e o Génio inda mais triste e no abandono da força desse servo. o velho disse. Desenhou esse hospício. faminto à chuva. «Guardai». nestas horas lutuosas. pelas névoas cruas. dos amigos. e as damas atiravam soluçantes. pedindo suplicante à turba e ao mundo esmola para um Génio moribundo. no frio travesseiro dum grabato.72 GOMES LEAL e o mendigar do escravo sobre a praça. chorando. e do trono. hirto. e essa cabeça pálida. dos nobres. serena. sem sono. sentia-se n a sala o ruído dos choros sufocados. sem vossas mãos piedosas . às plantas do plebeu os seus brilhantes. Prendei-as novamente às tranças louras. a ú l tima cena e da tragédia o derradeiro acto. Pintou a morte desse escravo amigo. dobrado. os convidados. em pé. hirto. pelas ruas. O Conde estava em pé. e depois . carece só da esmola dum lençol!» . E o terrível guerreiro do inimigo pintou em noites lívidas. para ir en terrar-se.

«esse talento esse crânio q u e as lágr-imas arderam. as quais araram. barões vai embrulhar o corpo de Camões !» E novamente as l á grimas correra m. Quando soar teu sino funerá rio e no teu crâ n i o a campa rasa caia. como caem as lágrimas intern as nas funerais separações eternas. Porém o Conde ) deteve e bradou: «Que nome é o teu. as cores novamente se perderam. ou como um ven to de areal que passa: este crâneo chorai. e os convivas em pé se levant aram: os lacaios o passo suspend eram. as l ágrimas do a ba � dono e da desgraça . chorai damas.POEMAS ESCOLH IDOS 73 o Conde d e u uma ordem. b arões. desgostoso e solitário. Ao pegar.lhe no rosto macilen to d o plebeu a s lágrimas correram. muitas damas mimosas desmaiaram. « Eu ch oro». " homem singular. onde se esconde 1m peito que é mais nobre do que o meu? )or que reinos cruza ste? Dize aonde I I I . bradou ele. e o velho ia a sair. e este lençol sabei damas. ' e que em p ré mio do génio que trabalha s ó teve por e s mola esta mortalha ! «Este lençol v a i ser o teu sudário ó grande Gén i o ! que rolaste à praia da Morte. num choro fundo a maior a l m a q u e deitou o mundo! « Essas faces cho rai. de cuja taça as lágrimas de s angue se entornaram. as q uais co mo ca rvoes rubros queimaram. Num momento um nítido l ençol paj ens trouxeram . . m ais branco do que a lua que desmaia. os soluços d e n o vo rebent aram.

dum modo que sacode os corações . e deixou ver a atlética figura. num grito. estranho e novo: «Sou o Pranto do Povo e volto ao Povo! » .74 GOMES LEAL aprendeste. E então. de sorte que pareceu ter-se elevado. bradou num ai. em toda a altura do seu corpo potente e agigantado. num tom terrível de amargura. ó fantástico plebeu! a falar das estranhas aflições. ?!» o velho então ergueu-se. que deixou todo o mundo alvoraçado. . .

e onde ele desvelava insónias cruas no meio de milhões de espadas nuas.CANTO QUARTO A LÁGRIMA DE MÁRMORE Essa lágrima imóvel que se gela sobre as pálpebras roxas dos finados. no cume inacessível das montanhas?! Dirá ela um desejo que já houve. que ama tudo que é gélido. . cheio de dor e aspirações estranhas. triste como flor onde não chove. riram da triste oferta nunca ouvida : outros tiveram um horror absorto ao verem uma lágrima dum morto ! Lembrou-se então dum Príncipe potente que vive num país todo de gelo. e expirou e morreu num mundo falso como um amor ao pé dum cadafalso ! ? . . inclemente. e frio como a folha dum cutelo. que nos remove até ao mais profundo das entranhas. num desdém fino e profundo. de inauditas ou Íntimas desgraças. todo cheio de mármore e ouro belo. e que eu já vi rolar funesta e bela nas faces de dois entes bem-amados. . Quando a fome colheu do moribundo a lágrima de mármore dorida. o que é que ela nos diz? que nos revela de progundos desej os decepados. que são as flores fúnebres das Raças?! o que é que ela nos diz. !'vIas alguns . pôs-se logo a caminho pelo mundo e foi vendê-la aos Príncipes da Vida. Penetrou no palácio refulgente.

nem narizes. Fugiu logo d o lei to insuportável. . Das visões no terrível desvario via da Morte o ú ltimo trej eito: e as caveiras sem olhos. Deixa-a ficar que causará espanto ao meu povo selvagem tenebroso. de todos os sinis tros infelizes! E a lágrima implacável e severa acusava-o de todos os seus crimes dos seus instintos trágicos de fera. e assim lhe ensine num terror mortal como é que gela a lágrima final ! » Porém da noite no silêncio frio quando o C ésar dormia no seu leito esta lágrima ao Príncipe sombrio infundia-lhe um trágico respeito.76 G O M ES LEAL Quando o César cruel viu esse pranto de que fostou seu génio monstruoso à Sombra disse: «Acho um secreto encanto neste gélido objecto curioso! . ou na mina bronzeada tinham morrido esquálidos de fome: via os prantos da plebe esfarrapada q ue num suor estéril se consome: e os clamores formidáveis . e das almas viris. De manhã chama a Sombra miserável e en trega-l ha. lhe grita. . e por todo o palácio vaga errante. «esse implacável . com mão febrecitante: «Leva daqui» . sublimes. justiceiros. a q uem seu braço sem cessar enterra pela entranhas húmidas da terra! E o Déspota na lágrima parada lia a lenda de todos que sem nome sobre a neve. . fortes. . dos irmãos e dos Pais que ele prendera. dos mortais que dobrava como vimes. dos prantos de milhões de mil mineiros! .

mostravam. Acusava-lhe a alma. que é mais frio que um brilhante. porque de prantos tenho um cemitério no gelo excepcional do meu império !» Lembrou-lhe então à Fome ir ofertá-lo de Roma ao mais sinistro inquisidor. com blasfémias. e no futuro não me tragas jamais estes espelhos dos que morreram contra os Evangelhos !» 77 . a fixidez da lágrima impassível olhava-o como um olho frio e informe. j usticeiras os braços calcinados das fogueiras. Como uma pedra que o abismo some faz e que ela se suma. E ao bandido lembravam-lhe as torturas dos que vira morrer nos seus flagícios. e à Sombra grita com sorriso duro: « Podes levar a lágrima sem nome. Penetra cheia dum mortal terror. Envia de manhã chamar a Fome. Quando o sicário a viu sentiu abalo e d isse à Fome: «Eu gosto desta flor q u e floresce nos mortos. e acusava-o de tudo que há de incrível. e en tre inj úrias. antro disforme. como lírios q u e gelaram nos olhos dos martírios!» Porém da noite no silêncio enorme. de todas as sinistras criaturas a quem passara a esponj a dos suplícios. e esconde-a bem no antro mais abscuro. E as disformes e enérgicas figuras. e estendia-lhe então num sonho horrível de eternos prantos um gelado mar como uma imóvel solidão polar. gritavam-lhe os seus vícios.POEMAS ESCOLH IDOS tormento. D eixa à porta o seu pálido cavalo.

inconsoláveis lágrimas de gelo! Levantou-se o banqueiro torturado e mal a aurora avermelhou a terra. e na alcova a porei. a lágrima impassível fixa.78 GOMES LEAL Quando a Fome largou os dois sicários foi procurar o rei dos mais banqueiros. disse à Sombra: «Confessa-me o que encerra esse impassível pranto amargurado que não sei o que tem me gela e aterra. e lívido. todos choravam. E num estar imóvel e profundo. a Sombra disse. como a fome vil te aperta. tendo eu só nestas salas cem figuras das mais ricas marmóreas esculturas?» «Não 'sei». É que esse pranto foi talvez o grito do Génio contra o injusto dos destinos. aterrado. Quando o banqueiro viu a estranha oferta disse num tom irónico e orgulhoso: «A vida dum poeta é pobre e incerta! Mais mesquinho o seu pranto angustioso! Con tudo. recorda-lhe os prantos que no mundo · fizera derramar a sua usura. que era também senhor dos usurários. e nada a Glória!» Porém. E as suas salas tinham cem figuras das mais raras e nuas esculturas. dura. de noite no silêncio fundo. como um espectro duma sina escura. neste pesadelo. como memória de que vale tudo Ouro. É que o Génio é o açoute do Infinito . cujos navios. O palácio valia os mil erários dos príncipes mais ricos estrangeiros. guardarei este pranto curioso. muito grandes assassinos. eram aos milheiros. «Teem-me dito o mesmo. chamou a Fome.

a face de rubor coberta: «Eu amei dum poeta a fronte amada! Ai ! quem dera essa lágrima gelada! «Porém nada te dou. sem estribos. da I nveja. que nenhum pranto dum estranho anseia. dum rosto santo bradou. humílimo planeta grão de areia presa do Tempo e insaciável Guerra e onde a raça dos mortais ondeia. mais acima dos astros. e vai levá-la ao trono da Justiça!» Então a Sombra abandonou o mundo. longe de Besta de Ouro e Vício imundo. 79 .POEMAS ESCOLHI DOS contra os crimes. e mesmo sob os goivos mortuários regela ainda as almas dos sicários! » Depois disto ninguém mais quis o pranto! Todos riam do estranho dessa oferta. do Desdém. e os grandes desatinos. Quando ela con templou em baixo a terra. perto do abismo do insondável fundo. e da Cobiça.comove a aterra. Sobe acima do azul que a todos cobre. Sobe acima da Dor que é grande e nobre. mais além do Egoísmo. e ergueu-se logo acima das esferas. onde têm corpo as l úcidas quimeras: montada num cavalo horrendo e feio. acima dos Desprezos. ela que nada já. para longe dos Tempos e das Eras. por que sou pobre. Uns fugiam da Fome com espanto. sentiu brotar no seco coração a rubra e estranha flor da I ndignação. Ou tros julgavam-lhe a razão incerta. Uma virgem. sem rédeas. porém. a ti que és pobre como eu sou também. e sem freio.

das ilusões e dos sorrisos falsos. das grandes solidões das neves calmas. e através sempre! sempre! do gemido do Génio eternamente perseguido. i a ainda indignada do abandono em que se afunda o Génio inconsolável. assim ela implacável. Como os nordestes varrem pelo outono as roseiras. Mal a viu a J ustiça disse: «6 Fome que é que trazes da sombria Terra? Trazes um ai do que morreu sem nome? Sonho de virgem que teu braço enterra? Trazes um riso que o infeliz consome? Úl timo beijo em que um amor se encerra? Trazes um grito. cadafalsos. Eu trago-te este pranto de agonia. a través das e ternas despedidas. replicou sombria a magra Fome. «Eu trago-te esta lágrima tão fria como o gume da Espada j usto e santo .80 GOMES LEAL Ela através passara de almas. um desalento fundo? Trazes um pranto de que riu o mundo?» o «Trago mais que isso». através das blasfémias e dos ais. das glórias. através das galés. dos crimes . das jovens mães cruéis infanticidas. e de todos os crimes e desgraças que são os fru tos trágicos das Raças. e dos mártires lúgubres descalços. vidas. Por isso quando foi perto do trono da terrível Justiça. dos incestos. apresentando o pranto. tinha varrido toda a piedade contra a dura e egoísta Humanidade. da Imutável. dos triunfos. dos hospitais. . Ela através passara dessas almas aonde em prantos se escreveu jamais. e das palmas.

q u e não destruo ó mundo. por tudo que há de j us to e de terrível. ó insensível. para um dia lavrar tua sentença! Quero tê-lo ante mim. por minha espada. que só o q uis uma mulher no mundo! Ao acabar ergueu-se ferozmente a Jus tiça em seu trono. toda essa tragédia tão sem glória. e febre ardente do Belo. a história da lágrima marmórea. seu destino. comovida. e força de meu braço. q uero-o eu. sucintamente. por esta lágrima caída. e esse pranto tão triste e tão profundo. seu génio. na presença! Quero tê-lo de noite. e pelo Espaço. q uer de dia. pela Dor. N arrou toda essa vida descontente. por ter havido uma mulher que quis u m desolado pranto de infeliz! «Mas já que o não q uiseste ó Terra fria. pranto que clama um grito de vingança ! » A Fome então narrou. com o um sonho constante em que se pensa! Quero ter esta lágrima sombria. pranto que gelou como uma esperança. por tudo que há de santo e de implacável. pelo pranto que cai no I nvisível. por mim. pelo Céu. e de gravar-se na memória. de contínuo. planeta! essa vida miserável. como lembrança: para lembrar-me de que sou Vingança! 81 . e clamou com um brado omnipotente tal que as origens abalou da Vida: «Eu j uro pelo sangue do inocente.POEMAS ESCOLHIDOS e que a ti mesmo causará espanto. e o soluço que rola no insondável.

. de que vós. Eu não sei se entendestes o sentido oculto e justo desta alegoria. porque o vosso peito bateu nas pedras. não tivestes nem louros. ah! como um grito. na terra. para provar que se não verte em vão a lágrima. Aceitai nesta lágrima o respeito. inglórios. esquecidos.82 GOMES LEAL «Quero tê-lo ante mim. na sede de Justiça que os consome! Quero tê-lo ante mim. dentre as nuvens de ouro. que me recorde os tristes que sem nome hão estendido os braços no I nfinito. e o Génio irmão do espírito dos astros refulgente e que a Jus tiça sopra a sua ira nas cordas vingadoras duma Lira. nem mortalha! Aceitai nesta lágrima o protesto de mui tas gerações de rebelados contra o abandono insólito e fu nesto do mundo silencioso aos vossos brados! Em vez do riso. ó tris tesl tristes I que haveis ido transidos repousar na vala fria. sois meus filhos ! » Assim disse a Jus tiça. do inocen te: que a na tureza é mãe. insulto. e que vos prove desta espada os brilhos. vós q ue encontrastes só riso e desdouro! e que em vez do festim do que trabalha. como prei to crânios de lava que não orna o louro! e enfim morrestes. se fiz ond ular bem a vosso ouvido os tenebrosos sons desta agonia? E vós. E desde então ante ela jaz o pranto eternamente. ó Poetas. e do doesto. como o aOito brado do Génio que morreu à fome. sem um pranto a lágrima aceitai deste meu canto! Acei tai es te can to.

acima de Ódios.POEMAS ESCOLHIDOS aceitai nossos pêsames irados. 83 . aprende-o! Doravante não mates mais o Génio que irradia! Não se ergam nunca mais ao céu distante. sabe-o bem! fixa e brilhante. a l ágrima marmórea ante a Justiça. e neste canto. e Cobiça. Prantos. contra ti. magros braços de agonia! Porque hoje. está clamando e bradando noite e dia. ó mortas existências ! os protestos de muitas Consciências ! E tu. ó mundo.

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TROÇA À I NGLATERRA .

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a tiracolo. um pingo de sangue. por séculos de séculos. Muitos punhos fechados se têm erguido contra a birbante e ven truda Baleia dos l\tIares : grande coro de doestos se tem levantado contra a rapinante Grã-Bretanha: mas no meio de toda esta vozearia universal. e o seu barrete de dormir . e vai casquinando. que são: a bolsa. que lhes faça espirrar grossa sangueira das ventas saxónicas. e o chasco. e os sarcastas da raça latina. no seu aprumo altaneiro. pela pos­ teridade fora. do que a alentada murraça dum car­ rej ão. a chufa. A sá tira . . Que os satíricos. pois. uma botij a de cerveja. chapeirão de largas fi tas brancas. como tinha Aquiles. em vez dum só. como vingança.que eles afiem as sua garrochas! Esta é a nossa. e a in­ separável maleta de couro.S I M PLES PALAVRAS Não somos dos espíritos cipres­ tais q ue entendem que só deve ser pernlitida. ou auroras : e molesta-os mais. e retinindo metalicamente.esses louros descendentes dos sa­ xões e dos piratas normandos . E porq u e a sá tira é uma garrocha que fica perduravel­ mente espetada na cachaceira dum paciente.têm dois calcanhares vulneráveis. a chora­ minga. a Bíblia.que atravessam o Universo com maciças sapatas impermeáveis de três solas. o epigrama. Os picarescos ingleses . a chocarrice. ordinaria­ mente. façam o m esmo . e a vaidade. O que é patusco e trágico. que contém. que faz rir. horrendo capacete de cortiça. a sátira de R eine só não esque­ ce. um bombardeamento de di­ tos argutos e chistosos. tornam-os vermelhos como lagostas. pingando.

de especiarias. de fina pele! Sonhei ontem contigo. Sim: vi-te em carne e osso. . . para o meu caso pouco importa! Suponhamos que és vivo! Foste o rei da bambocha . ao l usco-fusco. Porém. e de bem bom marfim! Viveste a rebolar-te na enxurdeira da orgia do palácio.palreiro. a rir. na caça activo. mais os teus . das sombras funerais do ossuário. mas muito as louras damas da Bretanha. bambus. entre os dândis. teu papá. E eu disse ao louro rei: . louras.Tu que atrelaste ao teu carro. todo casquilho. alegre rei frascário! Vi-te surgir de noite. Rica terra de raras pedrarias. mirando o vestuário. todo i nteiro. hoj e estás morto numa tumba morta. esse bordel. a mesa. . e a ser lascivo. de elefantes. Foste tu. Não digo mais . . pais. .e regiamente amas te a estúrdia. rei bon vivant. sei que não foi cruel. o barbeiro.honesta gente! que inglesando nos foram Bombaim.rei folião! louro rei caçador. rei patusco. · a aperaltar-te. lépido.AO REI CARLOS DE INGLATERRA INTRODUÇÃO Patusco rei inglês . a borga enfim. que Deus lá tenha! amaste pouco as guerras e a campanha. que viveste a fazer a digestão. e filhas. se acaso lá da tumba aonde baixaste . os maridos. E até narram que a tua j ardineira . as damas. Como el-rei.

d izendo meigas expressões em i. . garanhão. isso que vós não tendes. negras. que muito bem bebia! Sim. e d e repente vê-se entre mimosas chinesas fabulosas. . porém. Era um cura roliço e espadaúdo. à freguesia. S u põe a gente que é sultão e grita: 89 . num barco de bambu cheio de rosas. .esses odres e louros bigorrilhas: I lustres borra chões da I l ha escura! n ão é mau . e vê cem bailadeiras. sobre o rio Amarelo. . rosto da cor da porcelana chin. repimpado e com ar de mandarim . de quando em quando. T e m u m contra. falando do poeta Manin-Fá .POEMAS ESCOLHI DOS sonhas nos pífios beberrões das ilhas. . e rescendendo as mãos a flor de chá! . e cachaçudo. e o meu cura proibiu. grácil e linda como um colibri. . Sonha a gente que é turco entre palmeiras. olh ando a lua sobre o rio santo. com sobrolhos pin tados a nanquim. sabe bem fan tasiar fumando. u m certo contra . fantásticas. a Fantasia. para o tecto. vindas do Mar Azul. envolto em seu roupão e de chinelo . num sermão.um contra traiçoeiro. trigueiras. Atira a gente as espirais de fumo. louras.a Fantasia. .dai licença . E quão bela há-de ser uma chinesa. ouve a surra que eu dou nas malhas podres dos teus fiéis patrícios . . para o tecto a mirar. frascário. de Pequim. cor de açafrão. sem rumo. da Núbia.

. o cicerone' ri-se a c�da tombo. tossir Elvira. que vou contar. essa de rir frecheiro. em rimas. nesta carta. pátria de John Buli marau e astuto. Para onde vais. de trança cor do luto.90 GOMES LEAL «Traze. . a filha das folias da Noite. Ventrudo John Buli que o tolo admira. Acendi o meu charuto . . eunuco! a sul tana favorita. na borracheira imerso. .que um raio parta! Vem dum sonho que tive. O céu nega-te o sol . Se trepas a algum monte. e tez que imita a flor do pessegueiro . E montado a cavalo ou em jerico. n a tua tris te e nevoenta ilha parece uma candeia. Pus-me a fumar e a pôr o sonho e m verso. e eis que em vez da sul tana ou da rainha dos nossos sonhos entra o carvoeiro. . Tudo isto que aqui digo vem a pêlo do birbante saxão . Babilónia de rolhas de cortiça. a troça chocarreira caminha atrás de ti. essa que é rara como a Sulamita. sujo e perverso. um pesadelo.e a lua. e que à M ignon os laranjais prateia . Vi em sonho a Justiça escaqueirar esse país corrupto. essa sereia que fez amar Romeu. . . porque será q ue o mundo te chasqueia? . retine à porta a campainha. tocando bombo. . . . » Nisto. . vai a Galhofa atrás: «arre burrico!» a zabumbar-te o lombo. Acordei . Sodoma de carvão. ou ribanceira.

vermelhas. damas sentimentais de magras pernas. . com um pandeiro. vinde às j anelas escutar. ou nas corridas? . faz riso e gáudio ver e ouvir cantando o pirata normando da torva tasca a rebolar no chão! Se Homero. que tiram matemáticas medidas. Com essas caras d e feições tristonhas. nos salões. Principio: 91 . ó miss glaciais do Norte. . Martinho. e das névoas e ternas. às brisas.mil alfaiates. se S adi celebrou os rouxinóis. mas porque é que imi tais uns bonifrates nos centros. o báquico varão . o borracho! Pelas tripas. . . . ladies. E como vós bebeis! ' . semelhais umas cómicas cegonhas que entram pelas bebidas. de S. o violino. . e sobre eles bordou áureo discurso. s e H ugo idealizou o burro e o sapo.POEMAS ESCOLH I DOS Vós tendes . de olhar frio! Rapaz! Traze charutos . se o Heine fez a epopeia do urso . o canto do estrangeiro . farto de cantar heróis. mas bisonhas. virgens de olhos azuis que dão a morte. . Ouvi meu canto. faz dançar John Bull . . e essas pernas compridas.. que à luz d a lua que prateia a escarpa não vibra a lira.ó saxões! . e Tasso aos olhos verdes do seu gato cantan tes rimas fez . . Com três mil pipas! Por Noé. por q u e é que inda ninguém cantou o inglês? Portanto. . . a harpa. com rico ouro francês. fez um poema à rã e mais ao rato.

João. a grande Besta estranha. está sentada num pavilhão à beira-mar. Miss vaporosas ingerem sanduíches. mas de tão nobre raça virtuosa e metodis ta. bom proveito lhe faça! como escorre u m capinha um vil papista. em frente do mar azul. aprendeu a somar. Suspiram os bambuais. É no seu vasto porto. e açúcares de beterraba. que cantou S. JOHN BULL (com um metro. É inglesa de lei. A BALEIA (a cabeça fora de água. que a livro do papismo. Apesar de ser peixe. sensitiva.A BEBED E I RA DA BALEIA SONHO É no Oriente. que o sol clareia. e o II/r[. cingida de diadema. coalhado de velas. esta honesta baleia nunca vista . É um tipo de lad)' cor-de­ -rosa. e um pandeiro) Graciosa imperatriz do rico Oriente! aqui tendes à vista. disenteria ao sultão. Sou eu que guardo a loura e virgem Grã-Bretanha. cantando) Sou a grande Baleia. . ladeado de dois leopardos de ouro. os sábios da Alemanha. mimada. em vossa frente. Aprumados dândis. faço febre ao chinês. o hig-life. rajás faustuosos. conversam sobre a Jashioll. e soma como um anjo! Agora vai cantar. plantadores de chapéus claros. que beberrica o lago do Niassa. em Bombaim. . . A imperatriz do Oriente. Em torno do pavilhão ladies mimosas. que falam de fundos. rindo com as ladies.

um cálix de Xerez. nem bebeu mais cerveja! A IMP ERATRIZ Que linda voz. corro já. . que génio. dê-lhe depressa um copinho do tinto! L ORD SALISBURY Mylady. . . corro já. Tudo.POEMAS ESCOLH I DOS A IMPERATRIZ DO ORIENTE Que gracinha que tem! Como é mimoso este peixinho inglês . que cabeça! Que contralto distinto! . ó Salisbury. Corro apesar de velho melhor que os vosso pajens. Tudo. ó Salisbury. Corro apesar de velho melhor do que um petiz. . as rolhas. Vamos. e os couros do País! A BALEIA o Papá pode ter mais templos pontiagudos. a protestante igreja . Mylord. L ORD SALISBURY il1ylady.os saxões cabeludos conquistou mais regiões. . Vamos. tudo farei pelo algodão da Pátria. seja gracioso! Dê-lhe. tudo farei pelo carvão da Pátria. mas não possui S. e as ferragens! 93 . . Paulo. Mas ninguém como nós . A E uropa pode ter troféus e mil escudos .

T u pediste a bolsa e a vida à heróica raça abatida donde brotaram gigan teso j'vlas ela . Tudo. a Baleia aguerrida que h u milhei Portugal. .1. corro já. tudo farei pelo aumento da Pátria. Corro apesar de velho melhor que u m ra paz novo. Vamos.ylad)l. .94 GOt-. j\1)1lord. e ao sol a pinó./lES LEAL A BALEIA Normandos e saxões. Ninguém como nós sabe o amor das virgens l o u ras.se lüi vencida limpa ficou como dantes! . PORTUGAL Pira t a de unha compri d a ! V e l h a m ã e d e rapinantes! . e a beber e a cantar sobre as naus vencedoras cruzaram todo o mar. e o aroma excepcional que há no q ueij o londrin o ! A IMPERATRIZ Que deleite! Que voz! Minha alma adej a n o espaço azul e franco. o seu destino. traga. mais os seus navegantes . ao sol. numa b a nd ej a u m capinha d o branco! LORD SALlSBURY jl. raças conq uis tadora s . . à l u a . . e o chouriço do Povo l A BALEIA Sou a grande baleia. u n i ram certo dia.

My/ord.' . . os teus avós. . . ó pássaros bis naus. Nem rol has.(ylord. o que é que pensa deste mastim que ladra? Que d i rá Lord Fife? . nem algodão. vós. Dê-me. q u e ou eram fracos. O que ouvi eu? Nossa bandeira achavascou o ingra to. Raça d e louros mara u s ! N e tos d e ruivos chatins ! Nossa bandeira inviolada não a sujou teu carvão. rou báveis nossos marfins. os corsários. LORD SALISBURY Graciosa senhora. e m charros navios maus. u m cálix d e Madeira. D e ti não q u eremos m a is nada . .. ou zotes.POEMAS ESCOLHIDOS Em catraias. . . rapinavam povos vários . eu tenho u m fla to ! 95 . e ordinários barcos d e mesquinhos lotes . m i l h a fre de unha afi a d a ! Branca ficou nossa espada. mas d e preto o coração. Sem detença corro a mand ar-lhe a esq uadra! A I M P ERATRIZ Que u l traj e ! . iV. Semente de sala frários ! Família de galeotes! E n q u a n t o que a s nossas naus iam do globo aos confins.

Pall Mali Gazette em punho. há-de morrer fanqueiro. em prosa e versos bisbórrias. . . que John Buli nunca será guerreiro. Vou-te dizer. ainda q u e este alvi tre o teu orgulho choque? . à coke. a i d e m i m . Pois bem. . senhora. ao metro. sanguessugas . sobre a bela esguichar. espadanar quisera u m repuxo d e flores. primorosa fera. d ama do Nevoeiro.96 GOMES LEAL JOHN BULL S e nos chamam. a marrado ao balcão. e possuis muito bom carvão de Enquan to à gentil Besta. estoque. será. q u e encan ta estes senhores. q uer manej e espadim. nunca mais esses perversos m e compram as peúgas! U M P OETA SATÍRICO (cerimonioso. Corteja correctamente) Desej a s meu alvitre francamente. (Cumprimentando) Tens Mylady porém muito dinheiro. !vi as é fo rça convir que do seu canto o m u n do está farto! E está tão gorda essa louçã guerreira que faz lem brar boj u d a cervejeira com as ânsias de parto. mais ao bok. sinceramente. i mperatriz do Oriente. Nasceu. . ou coisa que l á toque: q uer lance o torpedeiro. espadagão. mas mordaz.

oh. mas sem tabefes? . leitor. e sem cansei ras. . Pois . como César ruir nações i n teiras.não nas páginas da Glória m a s no Deve e Há-de Haver. Dizem bem alto que se lê n a História que a tua fa ma se acha gravada . as belas. I m peratriz-Milhão dengosa e esquiva. que essas tuas vit9rias tão famosas as compraste com l i bras esterlinas. e chefes . a e s calar bastiões. a trepar serras. tropas.POEMAS ESCOLHIDOS D e ti. que neste verso extraordinário cito um autor reles. no Livro Caixa . senhora. s e pode. e m santa paz. em vista d i s to . . N ã o têm razão porém estes birbantes! Supinos melcatrefes ! . princesa din heirosa. . por que há-de u m mortal expor-se a guerras. Dizem também san'a façais bilontras. . . dizem que és pirata. consente q u e t e oferte . com ar brigão e ges to d e faiante.ó dama airos a ! este livrinho do João Félix Pereira ' . pois sabe que o grande Ovo do Universo roi reito para os Félix. . .mas das de prata. . 97 . Não supunhas. céus! não de brilhante linguinha de mulher . sim . esquecendo que és dama e aristocrata. arrogante. u m a linguinha. ó graciosa dama da Jarreteira. C onsente. p a r a os heróis. gas tando as louras. q u e tinha a bela Angot que foi peixeira . . que tens a língua pitoresca e viva. . e nem tudo são ros as. . más-línguas viperinas ! pois que a Beleza e a Glória tem seus contras. e vibras. . e as meninas . a p erder o nariz.

com as belas gentis d e louras tranças . . . e fei tos em estilhas! Não têm razão porém esses cretinos. Contam q u e há velhos nobres debochados. . . q ue . . que. com libras de ouro às pilhas. seriam pelo raio escaqueirados. h á gargalheira. que ainda hoj e não sabem fazer bifes? . e mais as filhas . pretos cativos. dizendo: «Vinde a nós. fantas ias de bode . exaustos j á dos gozos do adul tério. tão broncos. sedutor. açoites. s e acaso estivessem em Sodoma. e o champanhe francês. do Porto antigo. Ralé d e canibais. trocista e a migo das ostras e do amor. quando Loth saiu quase em camisa. Ros na-se mais que h á nobres d e I ngla terra. segundo um jornal sério.entre criança s . à pressa. h á surra. h á sarrabulho. como os velhos bestiais da an tiga Roma. :E Byron talvez. q ue n u trem contra o rico um ódio velho nos ligados tigrinos: pois os nobres só cumprem o Evangelho. primitivos. e nas regiões dos negros q u e dominas. mil caprichos suínos . que é o rei dos rebeldes descontentes. bou vivaut.98 GOMES LEAL Dizem também más-línguas q u e és negreira. sangueira e mais sangueira! Pois bem. e chacinas. ó pequeninos ! » Tens tido bons poetas eminentes. . vão cevar em prostíbulos londrinos. . Mas q ue mais q uer a bestial senzala d e borrachões patifes? . tão lanzudos.

apanhou. Também fulo e irritado. ao luar. . mais as rainhas. . o amarelo chinês quase feroz. estúrdio. . ele que é brando. como os réis. . . ser l ibertino. . Narram. . e compõe. que um pontapé naquele sítio dói !'. e acanhado. país cercado dum estranho nimbo. e um tanto descortês. .POEMAS ESCOLHIDOS depois de Shakespeare é quem levan ta. da prosa do algodão o nome inglês. . casto e encruzado. suas glórias destrói . 99 . sonetos meigos em papel de arroz . . meio poeta e insana. . e irmão dos Sóis. e onde o imperador fuma cachimbo. . com que braveja e grita. quiosques triunfais com campainhas. e telhados que imitam pára-sóis. vinolento. E é força concordar que tem razão. Também s e queixa a extravagante China. e habita. n o seu recto pontapés dum cocheiro português. repimpado em divãs de antiga porcelana . e a ter trovões na voz. que fuma em altas torres de marfim donde ouve os rouxinóis. bisneto do Luar. certo dia. Também s e queixa o chin. como um raio que risca a treva e espanta. que por lião ser discreto. chegando à cor do rubro-alaranj ado. tímido. Daí vem todo o fel que ele vomita sobre a lusa nação: vem toda a sanha que o abespinha e irri ta. porém.

estranguladamente: «Schoking! schoking! schoking ! » . oferte com mesuras. um tesouro! para curardes vossas borracheiras. . u m cofre raro d e marfim e ouro. capazes d e abrasar as couraças guerreiras . todo cheio d e sodas. mil gentis maneiras . (Grande salsada entre as miss e as ladies. j urando pela Bíblia de Confúcio. e desmaiam. é por t u lhe haveres feito guerra i nj usta pelo comércio do ópio que os assusta. pelos m anes de Fó. nem m aior bigorrilhas do q u e tu! E a razão porq u e o chino barafusta e em guinchos se desa ta.) . . bravej a· e disparata que n ão há como tu maior pirata. . Gritos.1 00 GOMES LEAL Também a China ingra ta. Não tem razão porém este bargante marau amarelado! pois teu ópio não é tão inclemente. e com mil curvas. . do a l to d e q uiosques d e bambu. jlatos. Velhas donas ululam. e mais d e Yu . tão Nero e desalmado q u e faç a adormecer e m a te gente. e chiliques. consenti que eu às vossas formosuras. visto que todo é falsificado ! (Cumprimentando as ladies inglesas) Enquanto a vós . que no peito acendeis tições e chamas.ó timidas madamas ­ Myladies fei ticeiras. . o l e n to ópio que adormece e mata. .

. Esgotarei a veia em mil raros caprichos. e põe a coroa do Oriente n a cabeça . . donde passe revista aos paxás e aos sultões . ó gentis! O que importa um demente lá porque vibra o metro? Portugal já não tem garra. Atirarei ao mar da Turquia o turbante . Ál bion será o mundo alcouce e montureira. Do U rso do Norte a pele há-se ser meu tambor. arrancarei as penas. O pescoço da Europa há-de ter gargalheira . ao pôr do Sol. Foi um leão lambaz . fareis um cadze-nez para eu me abafar. q uando quiser caçar. E a China m e fará um cachimbo perfeito de porcelana azul para eu fumar visões. imperatriz do Oriente! Mão fraca e feminil. Decifrarei do Pólo o glacial mistério. China e Japão. Espanha. e dente. Saquearei. Porei numa gaiola a águia da Alemanha. águia da França. . Deixa sentar-me aí. Levantarei Sodoma'. com que hei-de rabiscar meus bilhetes de amor. e formarei de toda a Turquia um terraço.hoj e é um branco espectro. fumar e ser feliz! .POEMAS ESCOLHI DOS A 101 BALEIA Calmai-vos. Todo o Oriente será o meu macio leito! . para nos ombros pôr. De Lisboa farei um oriental mirante. dá-me cá esse ceptro! (Senta-se no pavilhão. pilharei. cidades às centenas. . Ébria de­ pois. Só quase nada. um passo. músculo.) Eis-me na Ásia enfim . dos sedosos rabichos. onde hei-de. E vós. Escorcharei a pele aos teus leões. e a ti. começa a tresloucar. Farei de toda a I rlanda um branco cemitério. . . arrasarei Paris. .

A Europa. ó N a ções ! Arpéus à Besta ovante! A s u a hora soou no lívido quadrante. o cão. Alçaste a voz tão forte q u e me irritei enfim ! Portugal. virá trazer-me a coroa. capital da grande ilha saxónia. meu irmão! A FRANÇA Eis-me aqui! Eis-me aqui! A favor do Direito. depois de mil fadigas.essa negra . vai tocar-lhe o seu hino de morte. a trança esparsa. E. . A ESPANHA Foste tu que chamas te? Eis-me aqui. ó monstro. serei a ventruda e feroz Besta de Ouro. farei a mons t ruosa e imoral Babilónia. com o ouro d e mil cidades inimigas . onde me rolarei. E . em cristalino choro. o seu dourado nimbo . para servir d e escudo. Emboca o teu clarim. entoando canções originais e toscas. . PORTUGAL Acordai. após tanto labor. mand arei levantar um templo ao Mau Ladrão. a Á frica . D e Londres. . e o s u l tão d e i tará tabaco em meu cachimbo. aqui está o meu peito. A JUSTIÇA Volta ao teu nada.1 02 GOMES LEAL Sim.há-de enxotar-me as moscas. Vinde arrancar da fera o calhau-coração. como no enxurro.

O U RSO DO NORTE Venho a uivar e a rugir. . e charruas. . E agora n unca mais os pífios .) JOHN BULL Coitadinha. para afiar melhor a minha aguda espada! A ESCÓCIA Corri. . para estripar à bicha a carniceira entranha. . . toda esbofando. a descer a montanha. . para ouvir o seu berro estrugir as colinas. Os BÓERES Deixamos nossos bois.POE MAS ESCOLHI DOS A IRLANDA Demorei-me ao sopé duma rocha escalvada . deixei minhas ruínas. comprarão o s meus queijos ! 1 03 . morreu! Os povos triunfantes cevaram seus desejos. para ver o seu sangue empapar estas ruas! A ITÁLIA Deixei o meu bom sol. os tunantes . . (A Baleia é morta. . porq ue aspirei no ar um bafo de carnagem . O Urso do Norte põe a coroa do Oriente na cabeça. relvados. galgando a estepe e a vargem.

que meteu medo a sete. oh ricos filhos! farei esperma ce te. morreu às mãos de vis caudilhos ! Porém se o seu olhar já não tem brilhos. ai.que pena. Jesus! . .1 04 GOMES LEAL Morreu. nem pasmo e terror mete . da cabeça. . . e esta cabeça. (Chorando) as barbas servirão para espartilhos.

F I M DE U M MUNDO (SÁTIRAS MODERNAS) .

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Faz. . caruncho . . certo ar numa tragédia histórica! IVI ATRIMÓNIO exprime hoje uma farsa legal: a o peração subtil. assim mundo também . Façamos tua autópsia. como quem fura um odre .DÍSTICO Como um cirurgião que retalha a escapelo um ventre escultural. . e belo. é a a rte de iludir o Código Penal. nada mais! A H O NRA que floriu. com teu bom tom. M ENTI RAS SENTI M ENTA I S A Max Nordau o Século vai findar na orgia e na demência. económica. contudo. procissão de imbecis atrás de filarmónica! . eu te hei-de retalhar nos teus milhões deitado. . . carcaça linda e podre! .peito imoral e amado ­ corpo todo de azul e de lama estrelado. ó louca decadência! Não me enganas a mim. que repete. . elim inando o Amor. e esgares de coco te gentil de frases passionais. em salões. comercial. triplica o Capital. numa era pré-histórica. GLÓRIA. . . . . entulho . cisterna vã. . que o eco torna eufónica: é u m véu cor-de-rosa a alindar rapinagem. Reina o luxo e o cancã. Caem bancos aos pares . pó . gentil. e os farrapos banais dessa tua elegante e Jlompadoul" retórica. j eitos de lupanares ! Teus brados de amor pátrio. . que. são lixo . l ácteo.

. . sangueiras. reduzes a mulher a mártir ou bacante! .1 08 GOMES LEAL LIBERDADE és ainda uma lírica imagem ! . . gabando o teu civismo a cidadãos ingratos. tavolagens ! . como te entendem bem. Equivales a cada u m poder morrer de fome. porém com pesos falsos. vasta e escarlate bandeira ! tornas heróis rufiões. e no outro Pilatos . sob uma carruagem! . sonata extasiante. I GUALDADE. que mascára bordéis. . brasão de entes humanitários. a um bom sol. polés. não se dana e não q uebra a corrente! DESINTERESSE. com dois pratos. desleal balança. . no enxurdeiro. monstros canhões. pelourinhos. . que se volve mais tarde em cutelo ou baraço. chibatas. . Fazes bem. tribunais. saxónios. tu vais à trapeira indigente. volata azul. . RELIGIÃO. na africana gente. . cadafalsos ! . a palavra cantan te. freio só de ignorantes descalços: em teu nome o Europeu rouba as hordas selvagens. lançar uma migalha ao cachorro esfomeado. . calvários. por um j uro atrasado ! . AMOR. . marau comediante enluvado. senhores de roça vis . Cruz erguida em tições. . invento alegre de acrobatas! lembras-me sempre a mim patíbulos. . tens den tro de um Jesus. JUSTIÇA. AMOR DA PÁTRIA. ante nós. na Europa os milionários! CARIDADE. amLos de ouro de lei. lá. e piratas que cobiçam corais de uma ilha estrangeira! FRATERNIDADE. seus trastes pões ao sol. . CIVILIZAÇÃO ah! que ridentes miragens desenrola. .

calão que oculta actos imundos. ser o anzol traiçoeiro. . fica bem na oração de um tribuno violento. . o político anzol com q ue s e pescam fundos ! SENTIMENTO. ou crachá . ESMOLA. e mil naus de alto lote. com ruídos de tambor e toques de trombetas. sobretudo quando há um tio excepcional que nos lega uma herança. como o rei. Canta árias passionais . . em feira. a criança. e tem sempre a lembrança de enviar aos jornais retrato e biografia. . . tenor cheio de melodia. que ao senhor dá a uva e ao escravo o bagaço. quer dizer o horror às palhas da enxovia . que tanto tangem Nero e Judas de Iscariote. e expõe como leões. . . expressão sonora com que engraço! tem um contra porém . contudo. o dentista. convencional conforme as zonas ou os mundos. VIRTUDE. . flor que o hig-life hoje planta e m gazetas. É. . que mascara ambição de ouro. PAZ. à vozearia. o coveiro ! . um cartaz com grossas letras pretas. FAMÍLIA lembra o pai. H UMANIDADE. . e lê-se em folhetins dos jornais. dia a dia! . . balões com melinite.POEMAS ESCOLH I DOS ALTRUíSMO. o histrião. . . MORAL. DEDICAÇÃO repele uma suspeita má. PROBIDADE. código vão feito por impotentes. moça ideal que morreu de anemia. som de flautim fei ticeiro. visão cor-de-rosa e que enternece a zote! corresponde a ter dez milhões de combatentes. causa terna emoção. lembra a esposa. emprego. 1 09 . . que só cumpre o mortal quando já não tem dentes! .

Por isso hás-de rolar. . . com teu vidrado olhar sobre o tonel boj udo. aroma subtil e doido n o a r disperso. . cevado a grunhir n a matéria. I . alfa e ómega enfim deste imoral entrudo. té que esverdeia enfim numa soberba essa! . cheia de andrajos és a rameira . expressão que é a chave de tudo. . nevrose do cetim. rojando cetins. . o veludo. mas. ALCOOLISMO. mola real desta cómica peça. se en­ contram em todas as montras dos bOlllevards. aos ervaçais do abismo. Es te tipo de mulher é o de uma célebre princesa parisiense. verdadeira desequilibrada. . frieza ou mau temperamento. em diversas posturas. É no homem o horror de fenecer depressa. OURO. . na mulher um ardil de arranj ar casamento.1 10 GOMES LEAL CASTIDADE. vampiro! os bairros da NIiséria. a galdéria . cancro que mina e rói assim como o alcoolismo. Tudo é mentira em ti. L ux o . envenenas. mais que a Sífilis e o Ouro apodrece o universo. teu cinismo! . uivo choroso e agudo . vertigem que persegue o moral desde o berço. CARTA A U MA GENT I L CANALHN (AUTÓPSIA DE U MA PRINCESA) Princesa de alto nome! de nome brasonado. Eis a tua au tópsia ó mundo actual. fim de SéCIIlo. LUXÚRIA de olhal' verde. Se a Consciência acusa a hora há-de chegar. cadáver falso e vil. . caudas espasmo mudo! . a esmeralda. . cujas fotografias. . EGoíSMO.

. por esposo. ves tida d e maillot. ó flor real ! . à guitarra e ao piano. e o mimo loiro e a graça de seis louros bebés . dançando onde se ri . . que a Ralé. se do Destino a força fizer que um filho teu te veja . em romaria. . de camélias no fraque. e a atracção do atoleiro ! Tu tinhas um solar de larga escadaria. bacante. torcida e m mil pos turas . um lírico cigano. a d ançar o cancã toda a feudal nobreza da lança e mais da Cruz! Mas que dirás. danças n a brasserie. decaída princesa. em t i vê. .E tu. pelos doidos cancãs e os sujos estribilhos das canções dos cafés.ó vil comborça! seminua. .e deixaste o teu lar e os braços dos teus filhos. pedras d a cor das estrelas . . teus pés mignons beijar. . a bailar. . Ele tange rabeca o musical Cabinda. . aonde a turba dos fidalgos ia. Não foi por negra fome. (o esjJeclro descamado) ou a ânsia de Dinheiro . . III . . . . .foi o amor do deboche. .' Com teu pandilha amante. .mas a tudo preferiste o vício das vielas e a lama do tmttoá. . Pois bem: filha de um século absurdo e extravagante! repara bem.' Tu tinhas. cetins. chateaux. . de seios leves. . matas de caça. . cem palácios. corres a Europa toda. mulher. loura canalha linda ! . Tinhas jóias. nus . todo o ano. . um príncipe de raça.POEMAS ESCOLHI DOS o teu brio e pudor arrojas te ao enxurdeiro .

os insectos brilhantes. a oiro e a malaquita . os teus lábios sensuais. ao Sol-pôr. na trapeira. . e amontoar COUPOIlS. voluptuosa a fumar a aérea cigarrilha. .1 12 GOMES LEAL e ouvindo as troças vis. . Quem poderá cuidar que entre aromas tão gratos. atraindo. Deitada num divã. pó-de-arroz . . ou trincando bombolls . . o u perlando o sorrir dos teus lábios. . . . CARTA A U M M O NSTRO L I NDO (AUTÓPSIA DE UMA l'vIUNDANA) Monstro de oiro e cetim. como as flores tropicais de aromas excitantes. que matam. com lornhão. . teu aroma é veneno. . . toda gaze e escumilha. quais pomos putrefactos do lago de Asfaltita? . de dentes lampejantes. suave. . POST-SCRIPTUM Mulher. riem de ti! Só eu choro a cegueira dos teus gozos falazes! Antes fosses a chã e humilde costureira. olhar verde e sereno! . ocultam a traição. . dois cravos. . as galhofas impuras de um doido boulevard? . quem poderá cuidar que esse olhar de aço brilha como um gume de algoz! . pensas só em cuspir em corações escravos. vê florir os lilases! . que à tardinha. . . vermelhos como cactos. Cavalgando o Sultão que tem jarretes bravos.

. . por chie. trespassado num lenho. fazes aos rouxinóis paródias nos teclados do passional piano. . teus cães. Fes tejas porém mais teus líricos canários ! . guerreando os heróis . Não te abala do C risto o idealismo estranho. As crianças p'ra ti são bebés de capela. e usas pôr-lhe. prosaico achas porém que sirvam vulgarmente a funções maternais! . se e u não vira esses teus. nos saraus que dás. . E mais que eles. 1 13 . um Revoltado n u . perfeitos. Teu esposo escolheste-o entre os partidos vários . . mulher. . mais u m chie mundano. umbela. Fitas-lo para ver. A ancestral Amazona ampu tava u m dos peitos. . . nus. cabelos em anéis. . . nem Magda que o u ngiu num perfumado banho .inda a mais loura e bela ­ cotão ou serrad ura. és igual ao crocodilo untuoso. e e m seguida o devora! Se é certo que tu tens. que atrai j unto aos j uncais o viajeiro piedoso . uma gaze prudente. Se choras. sob um véu transparente glândulas mamais . que Deus. . . nem seu suplício cru. tão lácteos. de graciosa figura .POEMAS ESCOLH I DOS Se sorris. cuidaria. . teus trintanários: amas teu espartilho. teu sorrir lembra o olor venenoso da tropical flora. garganteando trinados. que deviam ter dentro . . E . que para heróicos fei tos amputaras os dois. olhos azuis. Não vês na Arte o ideal de anseios tressuados . . . porque o Ouro tem brilho.

. . . a lady assassina. . porque não tens castelo. Enoj ado d e ti. tens. . . és o fru to repugnante de um século gafado! Em vez de coração. Teu canto musical de melodioso amavio lembra um poço entre flores: pois quanto mais vazio mais sonoro eco tem. . os vitrais e as rosáceas . POST-SCRIPTUM o sol tombando doira os templos e as bandeiras. Mas matas lentamente o triste a quem fascina o amor das tranças belas . d a alta torre de Nesle. Não os tens por paixão. à lua ensanguentada. num sachet galante: um misto desse pó diabólico e elegante da lama do Chiado. . Não lanças teus leais amantes d a esplanada. . nas floridas acácias ! . . porque és fri a e correcta: mas sim por que no hig-life e a roda mais selecta é mui chic o adultério! . como a amante real . . e faz-te frio a espada do Código Penal.l l4 GOI'vIES LEAL Tens amantes aos cem : mas com arte secreta de elegância e mistério. . E apraz-me ver beij ar-se as pombas prazenteiras. . Mais vil do que Macbeth. não te turba a paixão: mas a ânsia feminina das rendas de Bruxelas. Monstro moderno . J amais um dia aflou teu peito lácteo e frio afecto por ninguém . olho as verdes ladeiras.

santa Í ndia chorada . Mas j á fulgem. Vamos na grande nau. . ao zéfiro abanando o leque da ramada. Eis as Indias! Hurrah! O sonho sai da bruma. a s cúpulas distantes. O sol há-de raiar com seu rútilo escudo. . Eis as Índias! Hurrah! Avante para o Sol . . ó rãs. a flora estranha e quente. e bandeiras . . glaucas ervas do mar e o marítimo funcho . . A grande não lá vai. Já vemos terra perto. escorpiões. salpicados de espuma. J á recortam o azul os palácios indus. . . . . Avançam para nós coros de bailadeiras. Nós vamos para a Aurora . chatas rãs coaxai ! . Esfu zia no cais u m chuveiro d e luz. ao sol. Toda a podre madeira o dente do caruncho. largos ombros . . Enquanto vós uivais como lobos na neve no silêncio cavado e o ermo dos escombros. B abujai a peçonha e o próprio pus em tudo. à lua das marés. imos buscando a Ideia. coaxai n o lodo contra o barco! Todo o sapo quer brejo. Avanç� m para nós.POE MAS ESCOLH IDOS I IS «TOAST». e as árvores gigantes. zimbórios todos de ouro. . À I DEIA A Valentim Magalhães Caluniadores chatins. peito são. destemidos e bravos. Vós. . . . cabelos aos tufões. Voam aves do mar aq uáticas estranhas . ó víboras daninhas. Lá vem o Samorim sob o seu pára-sol . sapos. Lassos dos temporais. palanquins. Dama branca do mar. e toda a rã quer charco. q uais reis escandinavos. A fauna é desusada. nós vamos para o Sol. . filas sacerdotais.

um pascácio. um conselheiro Acácio. fru to de horas risonhas. borrados a carvão. nunca foi Conselheiro. e hoj e a terra o esconde. contém mil carantonhas. . Leitor! se tu não és um bolónio. à luz de um pUllch azul. acabou em visconde. tremo. saúde e pintos. Fez-se um dia azeiteiro. partiu A HOIPa do Crente. .mas naturais. eu desfaleço e gemo. . de chambre e de chinelos . . N eles encontrarás. l i pos piramidais desta época distintos. por uma Desdémona. e. se dobra o sino. O outro valsava bem. . matuta neles bem. e quando rufa o bombo . São dois. o PAPÁ HUGO Se Orfeu foi o inventor da Cítara cantante. vibrantes quais monos de estudantes.1 16 GOMES LEAL CARICATURAS A CARVÃO A Celso Hermínio Leitor: esta secção. depois de bom poeta . um plebeu. Quando ele a Lira tange. HERCULANO E GARRETT O primeiro. o Papá retumbante acrescentou à Lira um badalo e um tambor. q ue fariam sorrir talvez o rei de Tule. com seus fatos singelos. . Cantou o lírio e a ' anémona. . Adeus. três riscos só . aspiro a ser maj or.

Ama o incenso e o latim como um ventrudo abade. BAUDELAIRE . no coro está talvez a cantar ladainhas. ó rei da Lira al tíssima ! » Mas ele. diria Horácio: «Dá cá um beijo. A hebraica Sinagoga. E m noites d e prazer.'. . e sem os bichos. e destrói santos nichos. Mas agora fez mais . . dançando numa essa fandangos de sabá. feito frade. clorótico: «Não to dou que o não quer a Maria Santíssima!» 1 17 . viu nele o Pai Noé . . . . aos lumes de um tocheiro. Vendo-o. ó Paulo. das dalmáticas e as naves.POEMAS ESCOLH I DOS ZOLA Grande cirurgião. Seu bisturi certeiro vale um bom marmeleiro. corta. . eis el-rei Baudelaire ! . rasga. Seu riso faz lembrar a Macbeth da peça. Gosta das arquitraves. e as brancas Ca tedrais de heráticas linhas . com u m gesto algo dolelúe e exótico. esse hino dum coveiro. Com seu queixo rapado. sem a arca. espostej a. o cantor do azulado Palácio! . que ou tro dilúvio afoga. E agora. . lhe diria. PAULO VERLAINE Eis Verlaine. salmeava a Carcaça. HUYSMANS Este não é ateu. .

como Eneias o pai. Os U LTRA-RoMÂNTICOS Leitor: eis os borrões de mil heróis magriços. Que crimes. hatshis. que pagodes. que barbaças jagodes. . fende o raio um solar. . o láudano. como os fez Capendu . . De repente arde a selva e o autor que a flama ateia salva a princesa Ideia. a morfina. Não há ta!! . . . . Mascarados ladrões do meio de ruínas. Têm até muito açúcar na urina! . Ideia em postas. o autor papa o seu bife. Montépin. Quem ali dorme a sesta vê um Fa uno esfaquear a D. Por estas más acções d a sua dura entranha. doentes. . Agora eis uns carões de homens magros.1 18 GOMES LEAL MALLARMÉ Eis o escuro cantor da enigmática Floresta! . . . pondo a infeliz às costas! . e que sicários vis! . . e matou-o em Paris. .. a cordata Alemanha declarou guerra à França . e Radcliffe. roubam louras meninas. com bigodes postiços. que visconde atroz! . . Os DEcADlsTAs . que homens 10uros Jatais. Dizem lá dentro ter reservatórios largos de venenos amargos. TERRAIL Ah. que ingerem ópio. . com ar de dor de dentes.

dera donas e archeiros. . . . SOARES OE PASSOS Nlagro. sóbrio. mostrando um pé mignoll. manso telhudo. 1 19 . o Azul . soluçou o Adeus e expirou boticário. era a imagem de um monge' Seu canto aéreo. . . o nariz de UlIl judeu. sob as rendas da saia. . TEÓFILO BRAGA Magro. carpiu com voz divina. e grave. vê este em toda a parte na terra. modesto. . trepou a uma colina. eis um sábio de arromba!. não por noiva ducal . Se fosse um bom senhor de castelos roqueiros. o mar. . pálido.POEMAS ESCOLHIDOS DÉROULEOE Poeta e militar. ao pôr do Sol. mas por velho alfarrábio. Um dia. com cravos no decote. Como o espectro de Enghien que via Bonaparte. Os seus versos marvócios não inspiram consórcios. ao longe. . doeu como um flautim por luar solitário. como um sonâmbulo sábio. põe-se a pé. e u m sorrir bonachão que na face se espraia. A sua Nlusa foi uma loura cocote. e induzem ao himeneu. Mal no beiral a pomba arrulha . GUSTAVO DROZ De charuto na boca eis Droz. não atraem à valsa. de roupão de veludo. . .

É o Ramalho d 'As Falpas. míope e magro. mui seraficamente fala com toda a gente. . . GUILHERME DE AZEVEDO Como Byron coxeava. Palpita este áureo pó até sobre os escândalos. na gruta. Jaime e A Judia. beirão. ralado de saudade da estúrdia mocidade.em certa conj un tura e eis que esbelta figura. com bigodes do Cid . alto. criou o Rosalina. Abri um largo abraço ao saudoso Proscrito tombado do I nfinito. em Camaxide. Dois filhos ele tem que o indígena aprecia: O D. à noite.1 20 GOMES LEAL RAMALHO ORTIGÃO Chamei pelo Diabo . . seu estilo. semelha a chuva de ouro em que Jove desceu . mui gentil nas escarpas. Lembra o anj o Gabriel. cantou a Via Láctea. na trapeira: e morreu em Paris. o monóculo em riste. com chiste. e até paguei-lhe um bok . . me surgiu. TOMÁS RIBEIRO Membrudo. I rónico e franzino. de smoking. e é mais rico que os sândalos e os sublimes charões do Palácio do Céu. que a Virgem lhe inspirou. EÇA DE QUEIRÓS Al to. em que ia ouvir cantar a sua lavadeira.

. sidéreas. . depois do papá H ugo. que matou D. . João q uando o viu em bambochas . .POEMAS ESCOLH I DOS 121 GUERRA JUNQUEIRO M agro. errante e sem galochas. eis o vate assassino.esse I mortal pagão. . e o seu queixo rapado. mau grado o esplendor. M ascarou-se de dândi e aos corações pôs j ugo. o seu estro é forçado. . de nariz aquilino. Mas. a senhoras feudais de compridos narizes . . Dizem coisas bibliais. apostólicas. e usam sobrepelizes . 1 EUGÉNIO DE CASTRO Se deixasse de usar o estilo babilónico. em vez de Baudelaire . . ceroulas nem · calções. baixo. e bastante católicas. I Alusão ao Judeu Errante da Parvónia. seria um belo e eufónico vate como Catulo . cuja ú nica originalidade consiste no nome que se deram. e alfim de um decadista . que não têm suspensórios. mordaz. São o s decadistas portugueses. imita um sacristão. Os N EFELIBATAS2 Agora eis os borrões de uns tipos merencórios.

as Memórias de Um Burro. a beber e a sorrir. entre leais pipas velhas como arcas. berrava satisfeito: «Belas.1 22 GOMES LEAL FIALHO DE ALMEIDA Macilento. neste mundo casmurro. sem cor. . Dramaturgo e poeta. gardénia ao peito. é fluente repucho de contos primaciais. de casa ao sair. barba em ponta. - . sobre o Pégaso alado. gorducho. vadiando à gandaia. luneta. de humor face to e vário. . GERVÁSIO LOBATO M uito chiste e bom sal. E. seu estro e o seu pincel traçam finos retratos. a li bar. Boémio original de cabelo anelado. liró. que nunca fez canções ao pôr do Sol e à tília. o Oceano vem da gota. Tremei pais de família!» D . GUIMARÃES FONSECA Alma de ouro e folião. Era um autor frascário. boutades. Cantou o amor e a olaia. e as cãs dos Patriarcas. paradoxos. JOÃo DA CÂMARA Olho negro e subtil. este doutor saiu de Oliveira de Frades. agora nós . o roble da bolota. linfá tico. Se Brama veio do Ovo. um dia. Mas. rabiscou. baixa às vezes de Azul ao José {ios Pacatos.

FERNANDO LEAL Lembrava o d'Artagnan . com estro e sem dinheiro. TOMÁS DE MELO Poet a pelo amor. sob um pálio de anil. Porém s e a peça.nestes tempos realistas um blasé de valsistas. seria. Tinha estro e alma.POEMAS ESCOLH I DOS SOUSA MONTEIRO Para a cena escreveu o Auto dos Esquecidos. o andante. come arroz de caril. um dia. fidalgo e cartazeiro. em Sevilha se achou. . . forçoso é ' de convir: foi uma bela bisca atirada aos vindouros! MARCELINO MESQUITA Dramaturgo de truz. em versos tão brunidos. Mas hoje é como nós . . bravo. . sécias e horizontais de cabelos cor de oca. e louco . goiabas e cajus. tão ricos e orientais. D. que um saloio os crê mouros . num jumento. a infeliz. estúrdio. Com seu ar petulante. . E às brisas soluçou esta tétrica fala: «Três camisas na mala! Ceroulas um par só . e esse no pensamento!» 1 23 . na pátria dos rajás. . Agora sério aljim. e um soco dele escachava ao meio o queixo a um Ferrabrás. não faz chorar nem rir. outrora. valente paladim das princesas à coca.

Este espalha. chinelas de Fernandes . falava de avoengos. hás-de só tanger bois! . com brasões imperiais no almanaque de Gota. tange a flauta de prata à Dama do Luar. À s vezes. . e ia . OLAVO BILAC Rothschild da Rima. EDUARDO V IDAL Rouxinol reformado. gemia na guitarra. à batota. por pândega. nua. com farda de major. em concha de pérola. exclamou: «Vai prà Alíàndega! No Parnaso. . outras. numa saudosa mata. . encaixado em lençõis. Grosso como uma pipa.1 24 GOMES LEAL D. em vez de tanger lira. Qual borracho de Azul. Luís DE ALMEIDA Poeta e mili tar. no Parnaso. já pegou de um ripa de escachar Gutenberg e até mesmo o Deslandes. compunha cançonetas à roxa Aurora e ao amor. às mãos-cheias. vibrantes melopeias de um alegre hallali numa floresta cérula. aos pés da Concha. anda de fato rico. . . um nadinha. . . Outrora. vai em burrico. » FERNANDES COSTA Poeta e oficial. Mas Apolo irritado. Toldado pelo amor e o sumo bom da parra. de lunetas. Com gestos solarengos.

. com largos copos. Caça o gamo e o veado. como eu. . lança a este lado as vistas: ei-Ios. imita a Grã-Bertanha! . que espetam no Chinês trinta naifas de ponta!. . coisa estranha. Mas agora. borrachos filan tropos uivam brindes à Paz.POEMAS ESCOLH I DOS RAFAEL BORDALO Depois de desenhar coisas que admira o celta. Pesca Á lbion Portugal. erraste! Vai caminha maldito! Aslzavero da jarra!. bigode em flecha arqueado. CARLOS D E BRAGANÇA É louro. trocam toasts sem conta. que ao vê-Ia Palissy bradaria: « És um barra! Malfadado mortal. o cerdo. berrantes como um toiro . leitor. tranças luzindo ao sol. marialvas com bouquets. E nisto. bailões fadistas. no meio de lorettes. . Os Esp A VENTOSOS Eis uns landaus que vão com banqueiros ventrudos. com o cloreto de oiro . . alegre e rei. o que é que perpetraste? Mortal. Atrás vão uns tafuis. Os CONGRESSISTAS DA PAZ Leitor: eis um pagode em que. EI-Rei pesca o atum. mundanas de veludos. fez uma j arra esbelta. Pinta e pesca também. . sem errar tiro algum. 1 25 . com ruidosas toilettes. D . o j avali.

sua bolsa a indigência. . O cretino mondongo ri dele. Moisés de vara mágica. Quão bíblico seria. com fogos de Bengala e aos lumes do magnésio! . e tem o queixo longo. DUQUESA DE PALMELA Chapéu baixo. sério. . dentista.1 26 GOMES LEAL FONTES Acrobata. velhacaz. calvo. vão ter paternos guanos. . assombrara Faraó . sem chegar-lhe à craveira. e nitrato de sódio. . leitor! Eis uma nobre dama. . os rouxinóis saúdam Vossa Excelência!» LUCIANO CORDEIRO É baixo. . Aos seus pequenos pés. com valor maior do que o seu queixo. fará o que Sansão fez com certa caveira . em atitude trágica. conselheiro. À formiga tem ódio . mágico e equ ilibrista. em bando os corações.em saltos de trapézio. . ELVINO D E BRITO Eis o luso Vixnu. pastéis. contra eles. as rosas dos pianos. bifes. por desfecho. As próprias flores de alma. em mesuras selectas murmuram os poetas: «Senhora. protege o milho e a alface. Com amorável face. tenor. O seu sorriso chama. é pai da couve e a flor! . vinho. Mas ele.

Fica-lhe bem na trança a cor do boné frígio. fazia rapapés. é pálida. CLÁUDIA CAMPOS Talento fino. Como ninguém. . uma turquesa estranha. à galhofa. vil palhaço de esq uinas. e ó milagre! ó prodígio! . e o arrebol . É magra. Dilui na meia-tinta do sonho a realidade. pois q ue j an ta ó mísera e mesquinha! a brisa da tardinha. Amava muito o luxo e os seus cavalariços. e do sorriso o choro. N unca teve derriços. às gebadas. - CAIEL Tem do génio o esplendor na mágica pupila. Em vez de ser marq uês antes fosse só Marques ! I Alusão a uma obra da autora. aos labéus. torcia-se em risadas. Cortejava as meninas. . É alta. 1 27 . coupés. e distinta. que é um bife assaz magro e assaz louro. . Sua nomeada é filha de haver favorecido os quiosques e parques. À s churas. o lírio deu à luz uma grossa montanha! I PEDRO DE ALCÂNTARA Era um magro histrião. . Ceava no Bragança e passeava em . aos socos e empuxões. como ela. e.POEMAS ESCOLH I DOS D . burila a frase que é. U M CERTO MARQUÊS J amais provou senão carne da rabadilha.

O mundo inda o verá . ao léu. . pintado. . havendo chuva. MARIANO DE CARVALHO Sorrindo. destingia . tem navalha na língua. veio este da botica.o infeliz! . é fadista torrente. .por esta pátria ingrata ir empenhar a prata. em vez de arroio . e. rapando fome e frio. mandava Deus ao Diabo. . em busca de uma nota. ARROIO Nesta terra em que o sol dá seu sangue às roseiras. . o duque preto e triste como o rei Belchior. Como ministro. . Distribui tudo aos pobres. leitor. foi um hábil prestímano. . e fica em pêlo. antes no prato arraia! RESSANO GARCIA Eis um Graco! .. a sua alma. como animal. e risca como um faia. em vez de ser mansinha água corrente. . Se arroio. é o Sansão das carteiras. e um chapéu de coco ao Montepio. eternamente a chupar um cigarro. como carvalho . . . se Adão veio do barro. Na ritual procissão chamada Corpus Christi. um Catão de heróicas fibras nobres.1 28 GOMES LEAL UM CERTO DUQUE Tinha o bigode cor de um crepe de viúva. bímano. ó Ceus! . an tes fosse bolota.da muita água ao cabo.

. Papa o seu bife. j a mais sonhou de amor! . Uma saia. . LUCIANO DE CASTRO Como César. mas para os bons pudim. com pena assaz caseira. Beijoca d a Fervença dele ocupa-se a Imprensa. sem repouso trabalha este heróico plebeu para um sublime fim. a fateixa. Que luta tão patética com o défice trava. 1 29 . Conspícuo fundador do Banco Hipotecário. E. D e Paris. Azedo é para os maus . j am ais cantou o Azul. DUQUE DE ÁVILA Enrolado ao pescoço um cache-nez de lenda. da barca da Fazenda ele foi o timão. assombro da Aritmética. . O que o move? . . a âncora. e egrégio funcionário. . e não existe porém! . . . . toma banhos de praia . . lê. a barba ruiva. essa bíblica ténia . Não sei porque mistério e incógnito segredo. d e Berlim. um tanto já grisalha. à sombra do salgueiro. teve por nome Azedo. Nunca fez uma endecha! CONSELHEIRO CARRILHO Eis um ou tro varão. . . .POEMAS ESCOLH IDOS AZEDO GNECO Vermelho. Jamais fez uma nénia. Jamais cantou o poente este hábil Conselheiro. traçou os Anais da T01'1'eira.

. alta noite. . . marcava uma quadrilha! A U MA HORIZONTAL Mulher de tranças negras e compridas. e olhasse a Na tureza. banqueiros. .com prazer vejo que não tens dois dentes! sereia das tranças cetinosas. .1 30 GOMES LEAL AUGUSTO RIBEIRO Eis um varão maior do que o maior obelisco! Corria grave risco quem lhe trepasse a um ombro. tirando o meu chapéu . A sua rica prenda de roubar nos salões da I tália. . e de falas fingidas. . . ao ruído das orgias. Preclaro capit ão d e excelsos ratoneiros. . . maravilha . «Como está Vossa Alteza?» DUQUE DE POZZAURO Um que devera ser o Broquel da Fazenda! . . sempre inventando sensações estranhas . que. barões. toda cheirando a rosas . achincalhavas corações dolentes . condes. Mais alto é que o Hidalcão e o Ferrabrás do Egipto. leitor. . como ninguém. . Senhora d o Deleite! sempre em banhos de leite. com casquinadas frias.hoj e estás boa para assar castanhas ! O' . Quando eu o encontro. e filas melodiosas. . grito.

intenso.ante mim . místico. nas cruzes sepulcrais e as campas macilentas das tumbas alvadias. e belo. . contas d e u m colar frias! .POEMAS ESCOLHI DOS MEFIST6FELES NO CEM ITÉRIO A Visão do Cemitério I Estendeu-se . II U m silêncio glacial. a fosfórica luz. . na cinérea extensão do cemitério imenso. pesava. tão vasto como o Mundo. Era o luar da cor de um marfim velho e sério dum Cristo agonizante. num embate funéreo. 131 . dançando.e o lírio o branco mate da folha de um cutelo. que sai da podridão. e em toda a circunferência da dormente região. ansiado. Cemi tério gigante. os cravos tinham sangue . III As gotas d o luar escorriam leitentas . V A esses glaucos clarões. cavo e fundo. verde fosforescência. . IV Pairava nos cavais. alado. .um vasto cemitério .

VII Vi a s rosas gentis sugarem luxuriantes. no sangue das matanças. as chagas e as feridas. E as hortenses azuis das entranhas violáceas que apodrecera à peste. d e chofre. Dos tristes o cipreste. E eu vi/� cheio de horror . triunfais. X Vi medrar o lilás nos lábios das crianças e nas tenras mucosas.1 32 GOMES LEAL VI Abriram-se. Abriam. aos clarões do l uar. Beladonas fa tais as entranhas hiantes. as alvacentas lousas . Vi florir o j asmim nos pulmões que roera a hostil tuberculose. . VIII V i o lírio sugar a s carnes cor d e cera que ceifara a c1orose. as dálias gloriosas.a ignota e singular germinação das Cousas. IX Dos castos corações v i nascer a s acácias. e o sangue dos suicidas.

mais da pluma encarnada! . às flores tropicais das regiões mordentes. . À gangrena tirava o esbelto amor-perfeito o seu melhor veludo.em frente. XV Mellstófeles. Eis que ao longe enxerguei .num clarão de ouro . azuis . . . caprina. o senhor d a barba hostil. . . insectos faiscantes voej avam nas flores. . ao cabo . Era ele. a sagaz gargalhada . sugando à corrupção aromas estonteantes. XIV I nvadiu-me um torpor subtil e absorvente. XII Casavam-se os leais perfumes inocentes dos resedas amenos. l ânguido e estranho. XIII Moscas verdes. .POEMAS ESCOLHIDOS 1 33 XI Fabricava a camélia o cetim sem defeito naquele esgoto mudo. era ele! Escutei-lhe a ferina. e o mel dos seus horrores. rindo. que destilam venenos. o senhor Diabo.

XIX «Escalpela também o s senhores Bispos nédios. e a um gume: XVII «Visto que j á fizeste autópsias e sondagens na Carcaça modema. nas ruas de junquilhos . com seu rir semelhante a um vidro. melodiando violas! . . a um aço. . das lendas cor do lume. disseca os senhores Reis. toma um carvão e traça epifácios nas lajens. . com douradas estolas. fazendo a reverência. E assim me interpelou. Por baixo destas cruzes. mais as da áurea Regência. em santas bacanais para matar seus tédios. . dando beijos lIlignolls. dando festins patrícios. das orgias às luzes. que sobrepuj am vícios .1 34 GOMES LEAL XVI Chamou pelo meu nome o Crítico cortante. XVI I I «Faz realistas painéis. . XX «Escalpela as paixões das damas com polvilhos. . Faze a au tópsia eterna! . .

POEMAS ESCOLH I DOS
XXI

«Disseca a Pompadour, a empoada sereia,
rufiões e Rainhas.
Levanta um templo, um drama, um palácio, uma ceia,
em quatro ou cinco l inhas ! »
XXII

Dizendo isto - a rir - mil nomes designava.
E, com a adunca mão,
Mefistófeles também epitáfios riscava,
nas campas, a carvão.
XXI I I

Assim fiz. O escalpelo en terrei sem abalo,
por velha noite fora,
té que a alva raiou . Ao longe, um negro galo
anunciou a Aurora.
EPITÁFIO DE MORNY
Repousa aí deste perpétuo entrudo
luzente saltimbanco!
Nos paços, nos salões, luxuoso e mudo,
tu foste um rico álbum de veludo,
com as folhas em branco.
EPITÁFIO DE UM «MAQUERAU»
Aqui jaz um taful bandalho aristocrata
que deu em maquerau.
Traficou com o Amor como um turco pirata.
Foi rei do macadame, furtou colheres de prata .
M as contudo ninguém atou uma gravata,
como este pulha atou !

1 35

1 36

GOMES LEAL

EPITÁFIO DE UMA COCOTE
Como era bom pompear - em carros à Daumont ­
sensacionais chapéus!
Mas lá no céu cristão que falta de bom tom!
Não se usa lá carmin, pó-de-arroz, nem lorgnoll,
nem se bebe Bordéus! . . .
EPITÁFIO D E BISMARK
Ensanguentas te a Europa - e a Alemanha de guarda
puseste a este quartel.
Com sangue das nações aj untaste ouro em barda.
Agora, espectro nu, ao ver-te sem a farda
que dirá S . Miguel? . .
EPITÁFIO DE OFFENBACH
Como ninguém tiveste esse dourado nimbo
da glória popular.
Riste como ninguém. E, ou nos céus ou no limbo,
de vez em quando vem, fumando teu cachimbo,
ser rei do boulevard!. . .
EPITÁFIO DE UMA CANCANISTA
Deusa do pé subtil, com revoltas piruetas,
ganhaste a glória vã.
E agora, lá nos céus, ao som das cançonetas,
és capaz de tentar os barbados Profetas,
com saltos do cancã!
EPITÁFIO DA MONTESPAN
Quando tocar nos céus a Cólera Divina,
a biblial trombeta,
e Deus te acuse e chame infame Iv!essalina!

POEMAS ESCOLH I DOS

1 37

tu, alçando a gentil figura de vinheta. . .
increparás a Deus com voz firme e argentina
de faltar à etiqueta! .

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EPITÁFIO DE GRAMONT

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Repousa aqui Gramont, das damas paladi�o,
rival de Satanás.
Patusco, jogador, borrachão, libertino,
rou baria a mulher do próprio 'rei Pepino;
ou furtaria ao jogo os dobrões de Mandrino,
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com ar d e bom rapaz I. . . .
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EPITÁFIO DE UM GOVERNADOR' , " ,
Sob esta campa marmórea,
ei-lo o feroz, ferocíssimo .
Não dorme, não . . . Foi à Glória
catrafilar o Altíssimo.

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EPITÁFIO D E uM RE AL PAT IFE
Meu frascário taful, de rubros lábios grossos,
e luvas amarelas !
das honras virginais fizeste mil destroços,
tua alma fez lembrar o ,bordel ,de· Olivelas.
Fenda-te um raio a campa e em teus dispersos ossos
urinem as cadelas .. ,
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I.
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EPITÁFIO DA RIGOLBOCHE

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Deusa da bacanal, fos te a amáv<;I .Nap.á"
.
ruidosa do bom tom!. . .
E , se acaso, nos céus, se baila
como
cá,
I,,!,'
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decerto j á piscaste um olho a Jeová,
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dançando o cotillol!.
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I O conselheiro Arrobas, que foi' célebre pelo seu auto'f itarisino,

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1 38

GOMES LEAL

EPITÁFIO DE UM IDEALISTA
Tu que - na azul trapeira - a sonhar velhos mitos,
e o Nirvana ideal . . .
ergueste o olhar ao céu , como os heróis sânscritos,
vês acaso florir nos lagos infinitos
o lolo espiritual? . .
EPITÁFIO D E U M GATUNO
Aqui jaz um bom gatuno,
q ue das pegas era aluno,
e a que o mundo votou asco . . .
Era estrangeiro, era basco!
E quando foi a enforcar,
vendo a triste irmã chorar,
ou por costume, ou por chasco . . .
furtou o lenço ao carrasco.
Aqui jaz um bom gatuno,
que das pegas era aluno,
e a que o mundo votou asco ! . . .
E PITÁFIO D E UMA MUNDANA
Rainha dos salões, mais formosa que as lendas
feéricas do Érin!
o que te há-de afligir nestas horas tremendas
é aparecer a Deus, sem peignoir de rendas,
e sem pôr teu carmin.
EpITÁFIo DE HERCULANO
Grande homem, sem orgulho ou vão enfeite,
que depois de escrever, fizeste azeite! . . .
apesar d e te haverem sepultado
entre reis e rainhas de alto estado,
num túmulo tão gótico e tão rico,
aí ja;;;es, triste e só. . . como o Eurico!

POEMAS ESCOLH IDOS

EPITÁFIO DE NAPOLEÃO
Revolto é teu velar nessa cripta funérea,
té raiar a manhã ! . . .
Quem t e perturba assim? As derrotas d a I béria,
as chamas do Kremlin, as neves da Sibéria,
ou a trágica sombra ensanguentada e séria
do duque de Enghien? . .
EPITÁFIO DE UMA INFANTA
Jaz aqui uma linda aristocrata,
de linhagem real, que, sem bravata,
descendeu de D. Sancho, o Povoador. . .
Foi no amor assazmente democrata.
Tanto amava um barbeiro e um diplomata,
um rei como um tambor.
EPITÁFIO DE NAPOLEÃO III
Jaz aqui o histrião que enxovalhou a França,
alma de lodo e barro!
Que dirá ele a Deus, ante a horrível balança? . .
Talvez, como e m Sedan, nos campos d e matança,
acenda o seu cigano.
EPITÁFIO DE BRUMMELL
Aqui j az o gen til Brummell enfastiado,
que às ladies deu vertigens . . .
Morreu este taful canalha idolatrado!
S. Pedro, guarda o Céu, ferrolha a cadeado
bem as Onze Mil Virgens.

1 39

'" Saltava. de olhos apavorados? :. . . . Mas amou uma'. .açi)es? eNr� pU!1�ai� --:-. «Nas velhas torres. . EPITÁFIO DE UM «CLOWN» " . . co\TI burlesco Id. cetim de olhos dormentes! . '" . . Lindo e perigoso corpo conhecido pelo nome de Emma Lionna. . chorarem torvas sinos desolados ' J ' .I EPITÁFIO D E THIERS . . ' . ' Cantor do Lohengrin" compões agC{ra hinos" num lago de luar: onde ao ' som' de yiolinQs. passeiam cisnes brancos! I . ' o s Germanos e o s Francos . . . os mortos da Comuna! . . o� destin?s . " . " ! I . I ' > '" . . a gargalhar. ve'z" e eis matou-se . . ' . .d e pej o " o lírico palhaço! ' .j i . . ' ' Fizeste enternecer inimigosI . ) Ria . » II I I. . I ' I I " Com teu canto imortal apl��aste. ó Camélia de ideais cabelos. e não tens pós de dentes! I ' . Tu que venceste os magros rebe. Dorme. Que fria neve e malcriados gelos ! Tu que davas aO corpo mil desyelos" " mostras agora os . . . . .no almejo . . . feri n os! . ' . .espf:j q.. sem que o vento zuna.Jados. HAMILTON' . .em desloc. EPITÁFIq DE WAGNER . . . I . "I 'I � I " ! . .1 40 GOMES LEAL EPITÁFIO DE..·LADy. tu que honrou a FortuPíi. dentes amarelos . que escutas tu. de um ouropel devasso..

garrido embaixador.' . I . Mas. \. . �I I.I " I . geladas tábuas do teu caixão! ! .I Ligaste o nome heróico a uih palavrão eterno . com falas preciosas" das amantes reais empoadas e airosas .' . da tua vida ao cabo . se acaso Satã te emplirrou ao Inferno. uma tabacaria na Rua dos Fanq ueiros. A fonso V I . I . . I fi .. Comandou. nessas. escuta sempre as lúgubres passadas do triste prisioneiro" . ' . . � " . . " E aí. e reinos est'ntngeiros . com valor.' . nessas ' góticas. .1E . o grande feiticeiro! ! Ao mesmo tempo foi. ' Mas nunca comandou esquadra ou companhia. aí. arcadas. J " . EPITÁFIO 'DE D: FRANCISCA DE SABÓIA' Dorme Camborça. Esposa de D. . . I ' ' E�áÁFIO 'D'E' CAMBRONt. " . EPITÁFIO DE UM C OMENDADOR M orreu Comendador da Á-us tria e mais d a Hung:ria. nas lajens da prisão! ! ) I . I . q u e vocábulo então realista e moderno . I . ' . . I . todo cheirando a rosas..\ . não ouviu o Diabo ! " . inconsoladas.POEMAS ESCOLH IDOS 141 E P ITÁFIO D E RICHELIEU . " . o mestre e o alcoviteiro.' Eis o rei da Elegância e das noites viciosas.

. ó mestre ideal. com punhais nos corações sangrentos. . e espectros. reais. ladainhas. Agora temes Cristo e os seus santos hebraicos. . EPITÁFIO D E NINON D E LENCLOS Com sedas orientais. Houve uma s ó a que não deu valor: Foi à Ordem do Banho. paixões. talhas raras. preciosa beata da Bíblia GO Diabo! tu foste uma amazona e uma hábil acrobata. EPITÁFIO DE PAGA NINI Que é fei to. que linha a Cruz no cabo. do rei dos instrumentos que fazia chorar? . . e Satã dá-te i nsónias. rezas. E PITÁFIO DE LADY MACBETH 6 trágica Macbeth agi tada e sombria. . EPITÁFIO DA MAINTENON Católica pagã. . Que é fei to d o violino onde anseavam lamentos. que erravam pelo ar? . torva rainha vã! . pompeaste ouro e sardónias. enterramentos. begónias . arcebispos e laicos. sobre chão de mosaicos. silvando uma chibata.1 42 GOMES LEAL E PITÁFIO DE OUTRO Um tendeiro aqui jaz Comendador de várias ordens mil e de arreganho . que montaste o Rei Sol. Riste de padres. Tiveste azuis pavões.

que como um seco tojo. reis. diamantes e rubis. enfim. Célebre cocote também ianque. Repousa aí. Foi de nácar e ouro e esmeraldas teu leito. melodiosa e com jeito. . Abateu fêmeas. que risque a escuridão! EPITÁFIO DA RAINHA DOS DIAMANTES' Roubaste a amantes mil. que nojo. velho tambor sonoro de um palhaço de feiras! EPITÁFIO 00 REI 00 PETRÓLEO' Aquele que ganhou mais ouro do que Apeles. sem fogão e sem peles. . Mas os que fitam hoj e esse corpo perfeito. o sangue d e Duncan! EPITÁFIO OE Luís XIV Aqui jaz o Rei Sol. Caçou almas cristãs como lobos num foj o. filósofos. que o Mundo aquentou. são dois grandes buracos! EPITÁFIO OE VEUILLOT Defendeste Jesus com um rancor de mouro. que Fídias e Platão. . agora não possui nem um jósjoro reles. Mas hoj e escorre pus. ó rei das regateiras! Dorme aí. espedaçou os fracos . ó cisterna aonde o sol pôs ouro. 1 43 . Célebre milionário americano. tapam logo o nariz! . e o seus olhos.POEMAS ESCOLH I DOS não tem todo o Oceano água que lave um dia o sangue dessa mão pequenina e macia. e Gracos.

" e era irmã das cotovias . : . tu confessas.TA POB.l. a rir . aí. não sonhes. . ' . i . :I ! '! ' • JI .que o pÓ' e 'a traça. por j oveir\. . I ' \. " .ã . que viveu sempre sem casa! Fitando as nuvens e a lua. I } I.! .:. " e em asas a voar! . . ' Morreu d e penas d e amor. ! .�a. . " I ' Mas.algente. / Aqui" nesta / campa l raS<. . em manh. . GOMES' LEAL < I I. .' "" que vendia 'vibleta's .l l d o que o lameiro e os . .UM fOE.edeptC'f. I ') . Morreu d e penàs d e amo't . ' . EpITÁmd DE : UM ACROBATA ' :. 1 : • I' I. n. ' ' 1 '\ \ . no céu . . I �'1 " Jazes aí . ' em manhã de névÇlas frias. . I'.s rrias.í ' .. .R E ' . nas duras pedras da rua! . " . nas ruínas do Oriente. ' Saltando em teu corcel. traI. . .mais vil . EPI�ÁFIO DE . '. ' Repousa. que achaste os teus amantes mais vis que os teus cavalos!" . .�ei .a rocha. ' . � ". . . . 1 de tÍ"ança� pretá's. causaste mil abalos . f ) i f ) f': " .' J I � i I r ! i I . Mas hoje. onde rouqueja' o l)1a�. Sonha no mar.. " I '(1 \. i .EPITÁFIO DE . .'lixos.lsc. "" ). Re. ) Três filhas tu vendeste ao rei q uase: de ' graça: 'I Só te fal tou vender essa podre carcaça Que faz náus�as aos bichos! .1 44 / . sem do. nas almas dos galàntes. ". ( / ' i "/ I " . névoa. . . na Bretanha. .. Chateaubriand. no Ideal . às horas leais e tardas do poentç:. ' sonhava em mir'tais é'm fIor. C H�TEAUB RIAND I . . ' E)PITÁFIO DE UM . I.ALCAIOTE j i .a 'I ao� fip�'estes ondeantes . jaz um meigo sonhador.marau . .

que teve a alegre chança de ser pai de uma hebreia de tal graça. bardo heróico e leal! Pois bem. ó Santas maceradas! Cuidado. jJetit crevé. em devassos j ardins . se acaso são de prata! EPITÁFIO DE LAuzUN Repousai aqui Lauzun de famosa lembrança. EPITÁFIO DE OSSIAN Tu tens a tua campa em m�io de nevoeiros. muito gentil na dança. que em vez de deitar solas . Folião.POEMAS ESCOLHIDOS EPITÁFIO DE UM ESCROQUE Aqui jaz um marquês. j udeu de praça. . Tomavas banhos mil d e sangue de crianças. . San tas de louras tranças! Fechai os querubins! EPITÁFIO DO SAPATEIRO BARBA DÃO Aq ui jaz Barbadão. as pernas cambaleantes. leais e verdadeiros . fez a raça dos duques de Bragança. ó mãe das Dores. . e árbitro dos j anotas . correu pelos salões que as princesas de França descalçavam-lhe as botas . . 1 45 . rvl uita cautela pois. . nas tuas sete Espadas. com avós nas cruzadas. Sonha ao luar nos espectros guerreiros da raça de Morven! . nos filhos de Fingal! EPITÁFIO D E Luís XV A lenda diz que tu. . Guardai vossos anéis. que em salões foi pirata. . .

por teu real amante apanhar tua liga. com uns estores tafuis. . j ardim. aves agoureiras . gás. ó Salomão das freiras. entre j arrões e espelhos . . Agora aí a tens. lá nesse Céu distante. guarda-portão. . Sobre o teu crânio arranhas tecedeiras.1 46 GOMES LEAL EPITÁFIO DE CORA PEARL Jazes aqui loura e gentil figura. e inda mais à modista! . . Teu esposo porém foi uma outra cantiga: apanhou dois chavelhos! EPITÁFIO DE UMA BURGUESA Tu almej aste ter uma casa elegante. Salomão de Odivelas ! Em vez do coro das gentis doceiras. preclara e nunca vista! Foste uma rara e olímpica escultura. J OÃO V Repousa aí. Formosa antepassada do actual duque e estadista inglês. EPITÁFIO DE D. . EPITÁFIO DA CONDESSA DE SALISBURY' Criou-se a Jarreteira. Tem agora. mirante. fiam-te bambinelas. Lord Salisbury. Deveste muito a Deus e à Formosura . gelosias azuis. . . essa ordem nobre e antiga. piam corujas.

. onde ocultaste afectos misteriosos. n o enigmático além que anseio é que t e agita? Dançar o minuete. . . marau e jogador. os gritos arquej antes. céus. abadessas. .tvIAS ESCOLH IDOS EPITÁFIO DA POMPADOUR IVlarquesa polvilhada. entre os rosais cheirosos. e os beijos imorais dos teus milhões de amantes. Encarcerado. basílicas distantes.POE. E foi tão hábil mestre em limpar algibeiras como em cartas de amor! E PITÁFIO DE BUCKINGHAM Ó romanesco herói de romances saudosos! nessa prisão mesquinha . . lembra-te inda o sabor. EPITÁFIO DE CASANOVA Eis Casanova. dos mortos da Polónia! . Horrenda é tua insónia! Através nuvens. topete alto. d a campa. o rei de acções aventureiras. do beijo da Rainha? . ombros nus . e freiras . 1 4·7 . . a rir. . ouves. em toda a parte. Fugiu com cortesãs. ou ser a favorita de Satã ou Jesus? EPITÁFIO DE CATARINA II Tu não podes dormir sequer alguns instan tes. elegan te. seduziu carcereiras . catita.

para o lado escarrou. . Todos fogem do lívido suicida. como umas palmas.1 48 GOMES LEAL EPITÁFIO DE BERLIOZ Dorme aí. no canto teu. . Riem. Queima-lhe o sol a ossada escandecida . . e o rir de Satanás!. Seu nome é um mistério. os vãos dou tores. nem mesmo o acompanhou! . um revoltado? Não o sabe ninguém. que acompanha o pobre.. Berlioz. lameiros rosnadores. Se ele obrou bem ou mal. ninguém decida. dourando as flores. ao sol. ao ouvir. Riem. em cima até. cantor das luas calmas. impassível o Azul. Algum sábio malogrado? Um místico idealista envergonhado? Um doido. . Negam-lhe o pranto que dão 'sempre às dores as ceifeiras do Sul. E ri . Um rico mau que odeia o orgulho nobre. . EPITÁFIO D E U M DESCONHECIDO Jaz aqui ao abandono um suicidado. E o cão amigo. . passando a o pé. um triste. Nenhum nome sequer seus ossos cobre. . que nem um nome tem! Quem foi ele? . e das revoltas más! Eu ergo ao céu da Arte as mãos. Da igrej a o sino não tangeu um dobre . u m crente. Negam-lhe até seis palmos de j azida no chão do cemitério. as tragédias das almas.

por destino funéreo sentenciou Jesus. e outras amáveis fábulas. e marau. expulso.POEMAS ESCOLHIDOS EPITÁFIO DE J ESUS Teu túmulo em Salém está cheio ou vazio? Guarda o teu corpo. Mataram-o. e achou um coração. 1 49 . perdeu o raio e jaz na tumba azul do Espaço. Fez em C áprea. Acabou magro. Procônsul em Sião. Acabou borrachãq. Batalhou contra Deus. para salvar o I mpério. errante. no Azul resplandecente. tendo horror aos juízes. E P ITÁFIO DE JEOVÁ Este pomposo Ancião dos salmos e parábolas. velho. ou não? Mistério! pois ninguém o abre ou já o abriu . Na I dade Média foi o Riso independente. papel das meretrizes. Eis o Espírito Mau. poeta decadente. desde quando Magda e m lágrimas o u ngiu. entre as mãos de Tibério. EPITÁFIO DE SATÃ Eis o Rebelde antigo e o al tivo I mpenitente . um tinteiro. EPITÁFIO DE PI LATOS Eis Pôncio. e um caderno de almaço. sério. calvo. calvo. mísero ente. armado unicamente de uma pena. Quem foi ? O Homem.

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SERENADAS DE H I LÁRI O NO CÉU (FANTASIA MÍSTICA EM UM ACTO) .

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A OS MEUS A MIGOS .

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PEDRO (monologando) Estão m uito avessos os tempos! . . . . dos imorais botequins de Paris e dos teatros de bulevar. À portada escutam-se dois rePillicados truz/ truz/. Pedro boquiaberto :) Quem é que bate por acaso. Hoj e é raro: todos ( pés estão ocupados em dançar o Cancã. (Vai abrir. . mas de sorte a ver-se as figuras dos que querem entrar) . S. . . . S. birbante. . . e enganaram-se decerto batendo à porta do Céu! . com um grande mollzo de chaves que tilintam. Antigamente ainda se ouviam bastas vezes. escasseou a romagem das almas para o Céu ! . mas ainda aqui não vicej a o ervaçal. O prédio está decerto vetusto e an­ tigo. . ou algum doidi­ vanas ! . ancião de veneráveis barbas. das valsas vertiginosas. nem se cultivam as couves-lombardas! . na destra e com certo ar mazombo. . como se isso fosse porta chué de quintal ! .ACTO ÚNICO CENA I o teatro deve estar imerso numa vaga claridade. (A vermelha­ -se comicamente de cólera. . Uma larga sala. sem pagar o seu ab­ sinto . . . com todas as letras: tunante. que deve figurar a do Céu . deixando a porta mal. . . Desde que as belas do Moulil! Rouge. . Deve ser algum rei. PEDRO Quem é que bate à porta do Paraíso.. se tivesse o despejo de algum dia bater à aldrava do Céu.cerrada. . Vêm tresnoitados. E tudo isto advém da depra­ vação dos costumes. . Ah! este. inelcatréfe ! . Algum rei que morreu num baile. Muito avessos e em mui­ to mau cheiro de cristandade! . e com tamanha filáucia ! . com uma porta azul. . . Pedro. . S. . . . S. o"u algum estúrdio que rolou sob a mesa de um botequim. se lembraram de alçar as níveas pernas até à altura do nariz. tímidos truz! truz! à portada do Paraíso! . e todos os ouvidos a escutar a guitarra má­ gica do Hilário . ao fundo. . do pas de quatre. havia de lhe chamar. . está sentado numa cadeira. e dos delírios do Cancã! . meliante.

eu sou o Hilário. . . o Anjo da Guarda. por causa da minha guitarra e do meu fígado. e os coros celestiais. o seu A njo da Guarda. puxava-lhe por outro. empinando copázios. excessivamente espirituoso e com todos os requisi tos que o tornam digno de desprezar as pompas do Céu. cá nesta deliciosa Ó pera Celestial. grande tunante e birbante! passaste a vida completamente na borga e na Gandaia. Disse-lhe que ele era um moço estúr­ dio e inteligente. . e do Vinho. flores ao peito. HILÁRIO (sobraçando uma guitarra) Venerável Ancião! Venerável S . . amigo das mulheres. que tão célebre me tornei na Terra. que é cabeçudo. Rua! . MEFISTÓFELES (vestido como u m dândi. . um reles banquinho. PEDRO o quê? . . para o Céu! E eis aqui porque nós todos aqui estamos : ele. . Pois tu. porque eu pelo-me por música. e outras belas e perniciosas madamas. Pedro! Mui to conspícuo guarda-portão celes te! . Gira com Mefistófeles para o pé da rainha Cleópatra. como um archeiro do Papa! . nem tamboril. I sabel de Baviera. assestando o seu monóculo) Perfeitamente! Perfeitamente! expansivo e meticuloso bar­ queiro da Galileia . É o que eu tenho manifestado a este incomparável rapaz! . Miftstójeles. e Hilário. folgazão. nem tamborete ! . uma dobradiça. passando as noites mal dormidas. . o poeta pálido e amigo da Gandaia. Pedro.foTa da porta. S . . . enfim. em descantes e salsifrés. . e depois de todas es tas noites lu­ tulentas dos botequins. expansivo. . e enq uanto e u lhe puxava por um braço para os Estados de Satã. Vinha pedir-vos um banqu inho. muito espirituoso.1 56 GOMES LEAL CENA I I S. Mas ele não me quis ouvir. do Amor. .. com quem te hás-de deliciar às maravilhas ! . . . Messalina. e de ser um preclaro cidadão dos I nfernos! . com tricanas e loureiras. pretendes abichar um tamborete no Paraíso! . . . generoso. um tam­ borete. . N em tambor. . . com desejos de ouvir a San ta Cecília. uma tripeça. .

melopeias vagas. . S . . e de en­ guias ! . . que é da gente se estarrecer.) H ILÁRIO (rindo às gmgalhadas. que não entende senão de tainhas . PEDRO (abalado) Sempre então é verdade que este boémio doidivanas mo­ dula umas tais modinhas. . em suspiros .. e pas­ sar toda a Eternidade num interminável salsifré? . ó meu Anjo da Guarda. e posso muito bem ocupar o teu lugar no Céu! Não tenho . .) Tange a guitarra que é de endoidecer! . em enguias. com S. Se não fosse contra a religião gostava de ouvir isto! . . em melopeias. em safios. HILÁRIO Estas discussões acabam por me fazer dormir em pé! . PEDRO (colérico) Queres tu dizer. . . . Bem vês que eu agora é que tenho as chaves. Rua já meu sacripanta. . suspiros de uma alma ferida. . e em raios de lua . acaso com isto.. Pedro. S . Fora com o insolen te! . Pedro! . Pedro! as trovas do H ilário enaltecem o Amor. . Fala-lhe em tainhas. . a falar em feridas. e d e não m e privar d e tão alegre companhia! .. em rodova­ lhos. São ais sentidos.POEMAS ESCOLH IDOS 157 e u n a esperança d e o convencer. meu atrevido estudante das dúzias! . que ele punha a secar ao sol. o ANJO DA GUARDA Não. e a/lanhando as chaves) Venerável Ancião! Respeitável Apóstolo! Preclaro porteiro das Alturas! . gemidos de um coração varado por um raio de lua! . (A tira-lhe COIl1 IlIn 1I10lho de chaves. nas prateadas praias da sua Galilei a ! . . em chernes. S. . . ou na melhor maneira de consertar as redes. . . . Perdes toda a tua poesia e o teu sis tema planetário. . (Baixo a S. Que es tás tu. mas não abocanham a Religião. que eu sou um reles pesca­ dor. de chernes. .

1 58 GOMES LEAL porém uma vocação irresis tível para guarda-portão! Por­ tanto. toma-as lá. S . e depreende bem por isto. S . . . . um bocadinho. . . S. . que pretende também escalar as portas azuis do Céu! S." Cecília trazendo uma harpa de ouro. . . ilustre S. Pedro? O que é que te enfada assim? .'" C ECÍLIA Ah este moço é o Hilário.) CENA I I I Os mesmos e S. . o estúrdio boémio de cafés. Pedro! consente que ele penetre no Céu um bocadinho pois toda eu estremeço em desejos de o OUVI!". . PEDRO É o H ilário." Cecília. O demo do estudante tem não sei que magia nas pontas dos dedos. que todos os corações se diluem em risos e lágrimas? . E quem é este moço interessante. que sobraça. que se o H ilário põe nos Céus u 1J1 pé. E capaz de endoidecer as Onze Mil Virgens! . S. (Ri às casquinadas." C ECÍLIA o que é isto. com ar folga­ zão. . ninguém mais daqui o deixa sair! . . que dizem que tange tão divina­ mente as cordas da guitarra. quanto um poe­ ta é generoso! .. . preclara maestrina! . um instrumento que me é desconhecido? . S. que é capaz de fazer asnear o mais abalizado doutor da Igreja! . MEFISTÓFELES Efectivamente é assim. . o conquistador de corações. PEDRO Atentai bem.

sem o consenti­ mento de Jesus. ainda que santas.. Mal eles entram a sala ilumina-se esplendidamente. para um valdevinos como eu! ." CECÍLIA S. . hão-de sempre mostrar que são filhas de Eva! Todas morrem pela Serpente! .) o ANJO DA GUARDA (baixo a Hilário) H i l á rio. e ao Anjo da Guarda . Se acaso houver perigo. meu bom amigo! o mais d ifícil está vencido! O resto tu o conseguirás provavelmente! .POEMAS ESCOLHIDOS 1 59 Eu próprio. Mifzstófeles. que estou impaciente. Tens sido bom de mais. . se és tão ilustre como dizem na arte divina de extasiar as almas. . que sou um diabo matreiro. PEDRO (resmoneando) As mulheres. ou da Virgem Maria! s. Mas os corações bons são como a Luz . . vibra j á . ele decerto não permanecerá aqui. meu anj o da Infânci a ! . . vamos. S.douram a té as impurezas! (O Alijo retira­ -se. com solicitude. . Pedro. menos o Anjo da Guarda S.) CENA I V Os mesmos. as cor­ das m udas dessa gui tarra ! . um bocadinho só! Depois de o ter es­ cutado. . . (A bre a porta a Hilário. . Den tro dela deve existir uma alma prisioneira! .'" CECÍLIA Vamos Hilário. não escapo à fasci­ nação! . de novo acorrerei a teu lado. HILÁRIO O b rigado.

. . farei nas feiras d iscursos . . Meninas doidas d e amor fugirão com o palhaço! .) Eu moro numa trapeira. à guitarra. . . Tenho cotão n a algibeira. . e u m camelo de olhar franco. Meninas doidas d e amor fugirão com o palhaço! Aos rufas de meu tambor correrá tudo em redor! E da guitarra ao langor chorarão damas do paço! . meio mundo. Corro. . e durmo à lua na praia . (Vibra a guitarra e canta. que é uma grácil trigueira! . Sou boémio vagabundo. Ando sempre na Gandaia! Tenho u m desprezo p rofundo pelo deus Vintém i mundo . . e começarei por uns triolés folgazões ! . . Todo d e vermelho e branco. a primor! Namoro uma costureira. Canto. na alma milhões de amor! Eu moro numa trapeira. . . Canto. . . e aos burgueses mostrar ursos! . a cantar. Sou boémio vagabundo. à guitarra. . . com um gigante que é manco. . Ando sempre na Gandaia! Hei-de inda ser saltimbanco. . Hei-de inda ser saltimbanco e aos burgueses mostrar ursos! . a primor! . .1 60 GOMES LEAL HILÁRIO Vou satisfazer-vos desde já.

A I mperatriz d a Alemanha fugirá com o arlequim! Hão-de a achar numa trapeira comigo.POEMAS ESCOLHI DOS 161 Andarei cheio de anéis dados por embaixatrizes ! . A I m peratriz d a Alemanha fugirá com o arlequim! Será uma coisa estranha ver uma guerra tamanha! Vinte naus da Grã-Bretanha virão em busca de mim . Mas os teus cantos são assaz profanos ! . chorarão quais chafarizes . . . . . a o partir. . E . Hão-de a achar numa trapeira comigo. PEDRO E fectivamente! efectivamente! devo convir que a guitarra é muito s uperior ao órgão e ao saltéri o ! . Não seria melhor que tu entoasses na guitarra os salmos do rei David? . . . a tocar guitarra . . . dados por embaixatrizes! . . cujo amavio eu desconhecia ! . a tocar guitarra! . Arderá a Europa inteira com esta guerra estrangeira! Virá a Áustria sobranceira Á lbion de aguda garra . . . noventa e seis princesas filhas de reis. Canta mais que estou embevecida! . . S .1a CEcíLIA Cantas e tanges superiormente esse instrumento maravi­ lhoso. S. . . . . Andarei cheio d e anéis. . . Terei dogcar/s e corcéis. . . . . . .

Os degraus são de marfi m ! Quem m e dera lá mandar.1 62 GOMES LEAL HILÁRIO Eu prefiro o Cântico dos Cânticos de Salomão. (Tange a hmpa. M EFISTÓFELES (assestando pretenGÍosamente a monóculo a S. A s portas são d e coral." C EcíLIA Não nos detenhamos em conversações estéreis! . e entoa. . de poesia. na minha harpa dou­ rada! . . que bebia como um tonel. . que tem o nome de Beijo! S. ilustre Santa! . Hilário acede aos meus rogos! . não pode deixar de ser para mim um autor de muita au toridade! . . de vinho e de mulheres ! . como arauto do Desejo. apesar de ser um autor sagrado! . São can tos que fazem estuar os sentidos e o coração! . . um pajem de seda e ouro. S. . . . Um rei da Judeia. Respira-se ali a vida a plenos haustos. ." Ce­ cília) Coisa rara .) . . HILÁRIO (cantando) É tua boca ideal um palácio com j ardim . . com mimo e com alma! Vou também responder-vos. ." CEcíLIA Encantador. e setecentas concubinas. São cantos que falam de amor. que possuía trezentas mulheres. . É também Salomão o meu es­ critor predilecto. . . e parece que nos embriaga o cheiro das rosas de Sáron ! . . . . . deliciosamente exprimido. .

(Faz rebentar todas a s cordas da hmjJa .) . lido à luz da lamparina! Tens na voz notas estranhas. . . Parece que ouvi nas hortas um sol-e-dó. que tambem quero tro­ var nela uns elogios. Parece que estou sonhando ao luar. (Tange a guitarra. . Que pena que t u não venhas ao António das Caldeiradas! . bem o distingo! . . . na branca areia! Vou quebrar minha harpa de oiro! pois não há quem te resista . Hilário. . .) HILÁRIO Por que fizeste estalar assim as cordas da tua harpa cele­ te? . e canta sarcasticamente. . .POEMAS ESCOLHIDOS 1 63 Teu modilho terno e brando toda a minha alma clareia . lírio de folhas prateadas . ao domingo! Não há voz que mais amanse! Que chorosa cavatina! . Nisso não manifestas senão quanto és modes ta. como gentil! . . . cá a meu sabor de velho diabo liber­ tino . Tua guitarra é u m tesoiro! Foge de mim guitarrista! . . . . . Que dor aguda senti! MEFISTÓFELES D á-me cá a tua guitarra. . Teu canto abriu-me cem .portas de oiro e azul. Parece u m triste romance.

. Vou avisar as minhas companheira da tua chegada e dizer-lhes que venham extasiar-se com os teus descantes. creio. Seria o mesmo que ir a Roma. Os anjos tocam todos fora do compasso. . MEFISTÓFELES Afianço-te que não vale a pena ! . Dizes mal do Céu. . sem ter ouvido os coros celestiais! . Vai-te embora com o cão tinhoso! . . . .. O Céu não é nenhuma baiúca. . S .. de girares para outras regiões! Rua! Rua! meu estudante! . Língua da I mpostura e da Mentira! De todos os demónios tu és o mais mentiroso. Tenho escutado nas aldeias do planeta terráqueo charangas e sol-e-dós muito mais afinados que os tais coros celestiais! . nem sítio para valdevinos.) CENA V Os mesmos. Os coros das Virgens cantam todos em falsete! ." C ECÍLIA Quedai-vos aqui ainda. nem gente perdida da Gandaia! . . (Sai. HILÁRIO Sair do Céu. . garganteios. . e não ver o chinelo do Papa ! . Hilário. Isso n unca! . PEDRO Cala-te. ca­ nhoto! . É s como a raposa com as uvas ! . é tempo. Cruzes. . e trinados." Cecília já ouviu as tuas trovas. mafarrico ! . . . PEDRO Muito bem ! agora que S. .1 64 GOMES LEAL S.'" Cecília S ... e escarnicador! . que eu me não demoro m ui to . porque não podes cá morar entre os anjos! . . . menos S. zombeteiro.

meus desejos. A ESTRELA Pois então vibra-nos. em tomo de Hilário. So­ mos nós as tuas claras amigas. H ILÁRIO Ai se vos conheço meus Sonhos. rindo. sendo eu a raposa. (Ri às garga­ lhadas. que nós tantas vezes ouvimos. d evem então os anj os ser as uvas? . como outrora. tantas vezes.) . meus quebrados suspiros! . as Estrelas ! .. enquanto ele canta imitando o giro astral em volta de um sol. Não nos conheces? . Todas nós te quere­ mos ouvir! (As Estrelas repetem estas últimas palavras em coro. Ai que lindas contas de pérolas tu passavas. CENA V I Os mesmos e a s Estrelas As Estrelas vêm todas com saias de prata e ouro nas quais estão semeadas estrelas douradas. UMA ESTRELA É s tu H ilário. nas noites bondosas e macias de lua. meus solu­ ços. com os olhos alçados para nós.. e volte iam assim.) . e nas cabeças em ar de diade­ mas. e pequenos espelhos luzentes Na testa tra­ zem todas também uma estrela de cristal. lâmpadas multicores. que metem no meio. modular o teu rosário ideal e religio­ so de poesia? . ou chorando? . . .POEMAS ESCOLH I DOS 1 65 MEFISTÓFELES Se é verdadeira a comparação do teu apólogo. Depois Jazem uma grande roda. tu. novos rosários de rimas! .

.1 66 GOMES LEAL HILÁRIO (cantando às Estrelas) Sois flores . l uminares. nem esmeraldas . nem ametistas. Sois flores. . . . . . archotes. Hilário. ·ou coralinas? Sois lírios. Dá-me cá a tua guitarra Hilário! (Cantando à guitarra . . . . conservando contudo a roda. querendo dar 1lI/1. o teu canto precioso! Nós não somos preciosas gemas. . c á destes j ardins d o Céu? As vossas cores peregrinas são de opala. . o u pedras finas . em tomo de Hilário.) . devo declarar-vos que sois muito superiores à luz eléctrica. que choram noivo n o mar! (As Estrelas param os seus volteios. beijo numa) Ó minhas beldades! que dengosas e irresis tíveis sois com essas lanternas multicores na fronte. castiçais deste reino estrelado. O teu canto porém é que é um escrínio de diamantes dignos do rei Salo­ mão! MEFISTÓFELES (quebrando o circulo das Estrelas. que choram noivo n o mar! Quando vos via distantes como lágrimas brilhantes . . ou balsaminas crisântemos. . cismava e m mortas amantes. ou pedras finas . que sei eu?! . Lâmpadas. . . e então punha-me a cantar . apesar de termos as cores vivas dessas pedras. e ao bico de Auer! . . em guisa de diadema! .) A ESTRELA É incomparável. Lembrais-me uns olhos errantes . . lampadários. c á destes j ardins d o Céu? Lembrais-me uns olhos errantes .

Quem m e dera ir j á deitar. . . No tempo das minhas vaidades. com pri­ mor. todos os instrumentos de corda. . quando eu banhava o meu corpo glorioso. ao ver-vos. frecheiros .POEMAS ESCOLHIDOS 167 Ai lanternas! que olhar de olhos tão garços. '" Cecília acaba de me pintar com cores tão mágicas o encanto da tua voz. todos os dias. que me dava Herodes Ântipas. . e habi tava em palácios frescos de mármore. que venho correndo para te ouvir. . Temos o caldo entornado! . a guitarra aventureira tu rbou-se hoje . Nã9 m e importava. . à luz de tais candeeiros! Que grande incêndio em mim lavra. MARIA MADALENA S . . . . em banhos de essências e perfumarias da Arábia. eu tangia. l uzes divinas! . . Por isso é grande a minha ansiedade de te ouvir . palavra! levar vinte lamparinas! CENA V I I Os mesmos e Maria Madalena S. HILÁRIO (cantando) Loura e bela companheira da existência do Rabi. Hilá­ rio. PEDRO J esus m e valha Senhor! Aí vem Maria Madalena! Desta vez é que perco a esperança de pôr fora do Céu o Hilário . mal te vi' . .

por escadas de safiras. Dá-me suor. me cai na espalda . Nesse azul do teu olhar não há tufões . Que m e importa a loura trança que. . sem falta por tua guitarra. e Madalena entoa. que solucei no Calvário. . . . . ao desdém. faz-me frio. nem ir na esteira dos teus primores. perdia-me. . . mas acompanhar-me no teu instrumento favori to. . Teu canto tem amavio! . que eu vou forcej ar por te dar réplica . . há bonança. S e e u não fosse a planta a l ta. . que rescendem a violeta . (Hilário acompanha-a. .1 68 GOMES LEAL Jesus desceu aos abrolhos. andar perdido cem anos. . H ilário! . Mas subiu para os teus olhos. . Entorna e m roda u m luar. por mil degraus em espiras . hoje. teu canto traz-me à lembrança um sonho de ouro e esmeralda! . . Como tu cantas tão bem! Seda de Infanta ou Rainha não vale os rasgões que têm a tua capa velhinha! . Ai quem me dera viajar no mar de ouro dessa trança! Quem me dera em tais oceanos. como a nau Catrineta! MARIA MADALENA Não posso sequer acompanhar. . .) . e vontade de chorar! .

. fizeste o Tetrarea Herodes andar de beiço caído. É do teu dever agora fazer-nos ouvir o teu instru­ mento celebrado. .POEMAS ESCOLH I DOS 1 69 MEFISTÓFELES Pelo que vejo. etiq u e t as . Brilhante polido. e contu­ mélias!. a tiracolo uma guitarra. (Canta à guitarra. . Conheceste o mundo arteiro. . . e vêm tocando uns acordes suaves. Viste o Ladrão Bom.) UM ANJO (a Hilário) J á te fizemos ouvir. S. madrigais às cotovias . Faltou-te ir do Areeiro j antar na Perna de Pau! CENA V I I I Os mesmos. Depois de tocarem por algum tempo. t u do s ã o c u rvas. mandaram-me i r passear a casa das minhas tias! Se eu sou feio como os bodes ! . e o Mau .) Mandei trovas ao luar. (Os anjos trazem todos instrumentos de corda e de sopro. mesuras. por pedido especial de S. . Pedro. Vou também portanto. segundo manifestaste o desej o a S. suspendem aJanJarra." Cecília. . . M a s t u .:. fazer a Maria Madalena os meus humildes salamaleques . O maestro empunha uma batuta de ouro: os anjos mais pequenos agitam pandeiretas prateadas. . S. os nossos coros celestiais." Cecília tra." Cecília e coros dos A njos. . cá nestes salões resplandecentes do Império C e l e s t e .

) Essas mãozinhas nevadas. Anjos bons! entornai por sobre mim. por último. . e. . . a um enorme lenço cor defogo. . para se assoar. S ó não sabeis as vertigens voluptuosas do cancã! . essas mãozinhas pequenas.. . . .) . e depois continua . assentando-lhes o mo­ nóculo. (E dizendo isto. canta. . minha triste alma viúva quer ser molhada por ela!. mirando-os desde os Pés até à cabeça. . que os corações arrebata. põe-se a exibir uns passos impossíveis. Os anjos mais pequeninos tocam pandeiros de prata. são macias como penas! Dir-se-ia que estão tangendo violinos nos corações .1 70 GOMES LEAL HILÁRIO (cantando) Anjos de asas de cetim! Anjos louros. . eu não quero usar umbela. vertiginosos. Parece que estou comendo salada de camarões! (Suspende-se um pouco. vosso chuveiro de sons!. MEFISTÓFELES (chega-se para o pé dos arijos. A Virgem compõe os hinos. fabulosos do cancã. . . cravam peitos como espadas . Contra tão maviosa chuva.) Sois mimosos como as Virgens! Sois claros como a Manhã . . afagando­ -os com trqeitos caprinos de sátira.

.. desde longa data. . . PEDRO (a MefistóJeles colérico) Grandíssimo Tunante d as profundas ! . . I ndigno Sicário dos abismos! . por favor especial. S. (Para Hilário. seus valdevinos! . . C hega-te cá. e mais os meus ve­ nerandos Ascetas. que há muito deixei de a conhecer! As mulhe- . . Também e u q uero escu tar o H ilário. as Dominações. . . j á mandei b uscar o teu instrumento pre­ dilecto à Terra . CENA IX Os mesmos. JERÓNIMO Ainda não. . En traram as serpentes no Paraíso! Vou já pô-lo sem delonga. Jerónimo e os Ermitas S . MEFISTÓFELES Basta! Basta! . e por demais conheço os Santos. . . . o Altíssimo permite-te. PEDRO (levando as mãos à cabeça) Val ha-nos Deus ! . (Hilário chega-se a S. ." Cecília. os Tronos. S. . Fala-me agora alguma coisa da Terra. q uer aprender também a tocar a diabólica guitarra! .'" Ce­ cília que rebentou as cordas da sua harpa de ouro. . . no olho da rua! Rua! Rua! seus melquestrefes. . as tuas liberdades malignas. os Serafins. Valha-nos o Todo-Poderoso! Já S . Pedro! Ainda não! Pacienta um pouco ! . S . .POEMAS ESCOLHI DOS 171 S. os Arcanj os. . O que me fez proceder assim foi o desej o inocente de lhes aperfeiçoar a s u a educação infantil ! .) Estou há longos anos no Paraíso. Quero que me dês as primei­ ras instruções ! . mas j amais te permite que faltes à compostura que deves ter no Céu. e ensina-lhe a vibrar as cordas.) S.I> C ECÍLIA (a Hilário) Não vês Hilário.

. As graciosas Ovarinas parecem brancas fragatas! Têm todas cinturas finas como delgadas meninas! Têm remos de coralinas. . . . não verteriam meus olhos. e têm carinhos suáveis e �ébeis que adormentam como o ópio e o hidromel! . Jerónimo! As mulheres do meu país são formo­ sas entre as formosas. nem grisetles de Paris.) Das alfacinhas dengosas as falas sabem a mel ! . e sobre os seus seios de lava?! .1 72 GOMES LEAL res do teu país são acaso tão belas que as almas dos homens por elas ainda se deixem ten tar. serranas! Que menear de quadris tão gentil têm as tricanas! . e é tal o amor que lhes votei. velas que parecem pratas . (Canta. . HILÁRIO Preclaro S. . Não h á almeias e huris. . A elas votei sempre o meu amor os meus versos. . Das alfacinhas dengosas as falas sabem a mel! Que 'menear de quadris tão gentil têm as tricanas! . e as minhas lágrimas silentes! . lágrimas pelo Céu proibido! Vou fazer-vos o retrato de algumas das mais inolvidáveis. perdi-me por elas. . que se tivesse de voltar para elas. aos seus beijos lascivos. As graciosas Ovarinas parecem brancas fragatas! . . S e m e perdi. . . . . graciosas quais borboletas nas rosas! Suas tranças cetinosas reluzem como um broqueI. São esbeltas. que vos imitem. . . talvez. nem Andaluzas gracis.

. . . com elas todas. . Pudesse e u . cantando umas ternas modas. S . MEFISTÓFELES É certo que as mulheres do país deste estúrdia boémio têm um certo fei tiço peculiar que seduz! . . nesse instrumento uma sonolenta melo­ pei a . em farândolas voltear. . ao luar! Como se baila nas bodas. ficaria doido e absorto de amor. . . e vos entontecem. do rei Salomão as tendas. . . ao luar! . em grandes rodas. o inst rumento que as celebra é digno delas! . e há. bailar o fado. . Não h á j óias. porém. I nda que e u estivesse morto. . Parecem mouras d e lendas as graciosas Algarvias!. pudesse eu. Que lindas são a s d o Porto! Que guapas são as tripeiras! Parecem mouras de lendas as graciosas Algarvias ! . efectivamente. por estas frecheiras . JERÓNIMO o teu canto tem na realidade um amavio desconhecido. que tem tanto de sensual. . como de melancólica! . . Pudesse eu. . como elas todas. da bela Belkiss as prendas.POEMAS ESCOLH I DOS 1 73 Que lindas são as do Porto! Que guapas são as tripeiras! . ou como Jesus no Horto. Se as mulheres do vosso país são carinhosas. e aliviou muito os seus ídolos dos . . que valham tais pedrarias . que parece que está embeiçado por elas. O estudante. bailar o fado. .. . exagerou muito as suas perfeições. . . nem orrendas.

. . Eu vou pintar os seus q uadros ao vivo. Dá-nos à s vezes tareia de língua e mão . com ar terno. e canta. A s belas filhas d o Porto Têm tripas de feiticeiras! . que são caldeirões do Inferno! Têm uma saias de folhas. As alfacinhas têm olhos. . . Cuidado com a s tricanas Quem aspirar a marido ! . de escaldar! A Ovarina é uma sereia. . Têm expressões que são molhos mui pincantes . . na areia . . que das almas são escolhos! . A s belas filhas do Porto têm tripas de feiticeiras! Qualquer piloto que é torto se as vê . baila descalça. que são todas amigas da Serpente! . . . . . . . mas aos olhos dão olheiras . . que não são nada tiranas! Têm todas nas almas lhanas um estudante escondido . . que são caldeirões do I nferno!. (Tim a guitarra das mãos de Hilário. A Ovarina é u m a sereia. .) As alfacinhas têm olhos. vai direito ao porto! Aos corações dão conforto. . . . que cheira a peixe do mar! Cuidado com as tricanas quem aspirar a marido! . . . que cheira a peixe do mar! Nas noites de lua cheia. Têm umas falas maganas. .1 74 GOMES LEAL defei tos naturais de todas as mulheres.

PEDRO Não faltava mais nada para o triunfo definitivo deste es­ túrdio estudante! S. o grande doutor da Igreja. Quando elas surgem. e troca­ -a pela guitarra. S." Cecília q uebra a sua harpa de ouro. S. os anjos tocam a sua celeste fanfarra. . as Estrelas ficam 'estarrecidas. Pedro. demais a mais. C ENA X Os mesmos e as Onze Mil Virgens. com lâmpadas na mão. por causa das suas modas! Só quem não sabe das podas é que que inda cai em casar!. Eu que as tinha tão fechadas e aferro­ lhadas. seu olhar a Neve esquenta. . . . . . A graça das Algarvias parece mel e pimenta! Pudesse eu lançá-Ias todas com uma pedra. Vêm todas vestidas de branco. com uma pedra. São subtis como as enguias as suas falas macias! Se nos dão mel em fatias. e agora. a bom recado! . guar­ dião das cordeiras celestes? . . no mar! . acha no seu instrumento um fei tiço desconhecido. S. no mar! . . e flores de laranjeira cingindo-lhes as frontes. . . não po­ derás acaso dedicar umas trovas também a S. Pudesse eu lançá-Ias todas. Jerónimo. . . . Maria M adalena declara-o sublime. eis que chegam as Onze Mil Virgens! . escutando-o. . Tenho tomado mil sodas.POEMAS ESCOLHI DOS 1 75 A graça das Algarvias parece mel e pimenta! . . tu. J ERÓNIMO H i l ário. que sobre tudo versejas e improvisas. .

e em que os corações das mulheres e dos poetas se diluem em lágrimas . que prendeis as formosuras.) Virgens mais débeis que o vime. sofridas. Queremos aquelas pequenas trovas. e folgazões ! . sempre cruéis e fechadas.1 76 GOMES LEAL HILÁRIO Já estava há instan tes congitando nisto! . mas não bateu! Ficai sabendo. . ferrolhos. Não q ueremos . can tos alegres. ouvindo-te . que contra o Amor não há chaves. e mais radiantes que a Aurora! não há nada mais sublime que um lindo rosto que cora . (Cantando. . deram-me quatro facadas. pois. às estrelas. UMA VIRGEM (a Hilário) Sublime cantador. . Pedro estava dormindo. sentidas. . . e as tuas volatas que a todos extasiam.) S. Debaixo dessas j anelas. ontem à noite. Queremos. . . temos ouvido celebrar os teus acordes mágicos. porém. dori­ das. . . . sorrindo . . em que tu primas. . orgíacos. HILÁRIO Vou esforçar-me por vos comprazer! . sentado à porta do Céu. Eis que o Amor entrou sorrindo. . . PEDRO Ainda em cima deprecia a minha vigilância. nem fechaduras! s. . e os meus serViços. . . homens graves. também deliciar-nos. (Cantando. o mafarrico! .

. foste secar meu vestido. mas tu. Fui bater à tua porta. . por minha cruz! . . que lembre uma jóia oriental. vi�ando.ingrata! o pranto que em mim corria parecia um rio de prata . Mas quando. . Busquei o Amor.POEMAS ESCOLH I DOS 1 77 Mas nenhuma fez no peito o mal que. teu olhar me deu esmola. . .. . casto e infeliz . mas não me import a ! . . a o raiar d o dia. como essas! . . . com piedosa mão. As VIRGENS (em coro) Admirável ! Precioso! Bem sentido e bem exprimido! . Mendigo e canto viola. ao Sol. . me puseste fora . fui encontrá-lo à s janelas desses teus olhos. . chorando! Sou pobre. U M A VIRGEM E ntoa-nos mais outras harmonias tão delicadas e ternas. à Lua. . . às Estrelas . Faze-nos ouvir um pequeno poema. os teus olhos m e têm feito dando facadas de luz. Vinha da chuva transido. . . em que se narrem os infortúnios de u m amor íntimo. nas brasas do coração . u m dia­ mante de facetadas rimas.

O h ! que mãozinhas . não há olhar que destrince! Levava. não há olhar que destrince!. aos saltinhos. nem o próprio olhar do Lince. Seu manto. Levava. pois sua cauda. nenhuma j urará se é neve ou pluma. como o luar num terrado!. que adorariam um Vândalo . . Se é a Via Láctea. . nas mãos patrícias. . nas mãos patrícias. para beij ar com carícias. . os sapatinhos eram mais subtis que o leque! . ou espuma. . . ou astro. os sapatinhos eram mais subtis que o leque!. Cor da lua. . em suma. Parecia o Céu estrelado. . . . Nenhuma vista. se é leite. levava-a u m núbio moleque. Leque de rendas e sândalo. púrpura e arminhos. delícias para amimar com blandícias. . leque de rendas e sândalo . ou a visão de u m faquir. S e é a Via Láctea. ..1 78 GOMES LEAL HILÁRIO (cantando) O vestido de noivado da rainha de Kashmir era a diamantes bordado. o vestido de noivado da rainha de Kashmir. . Cor da lua. e m suma. não roj ava nos caminhos.

. .. . 1 79 . os seus amores tão fiéis! .POEMAS ESCOLH I DOS Eis que. tão leal e tão constante. encheu de pranto os an. no meio da boda. Pegou n o copo. que fez turbar a rainha. Era o seu primeiro amante. entrou um moço estrangeiro. com graça. . Quem era o moço viajante que fez turbar a rainha? . E . . no meio da boda. . . encheu d e pranto os anéis. a vista baça. . em língua estranha! Encheu d e pranto o vestirlo. encheu d e prantos li taça.. como a um punhal que a trespassa. entrou um moço estrangeiro . o seu passado perdido. . Calou-se a alegria doida da grande assembleia. . em roda! E a brilhante sala toda fitou o jovem romeiro. . que. chorou. brindar ao Passado vinha . Eis que. Chorou baixo. e brindou. . do seu reino distantes. em língua estranha . Tal era o moço viajante. .' . sem soltar u m gemido. . com graça. Encheu de pranto o ve�tido. num pranto sumido. e o seu lenço de Bretanha . esse brinde. E a rainha. . . a o ouvir.

. e colocam-no /l O centro. agora. PEDRO Muito bem.1 80 GOMES LEAL Saudades de amor quebrado fazem lágrimas cair! Por u m brinde ao mar passado. . Hilário! Agora que já cantaste a primor. . .'" Cecília. . antes pelo contrário. . E. como guardado e defendido por elas. como tu almej avas. UMA VIRGEM Obrigado. A s ESTRELAS (cercam-o de novo. mas. e os coros celestiais. Saudades de amor quebrado fazem lágrimas cair!. HILÁRIO Pois bem: cum pra-se então o meu destino adverso! . . MEFISTÓFELES Comida feita. . . de sorte que ele fica 110 m!!io. Hilário! . . te acompanharemos . S . amigas Estre­ las! . como da primeira vez. não te abandonaremos. é tempo de abandonares o Céu. .) I sso nunca Hilário! Jamais te deixaremos partir . . como todos convêm. . . agora que já ouviste S.. ficou de pranto alagado o vestido de noivado da rainha de Kashmir. Teu canto eterneceu-me como o per­ fume que se evola de um estimado cofre antigo. como uma melopeia amiga da infância . se te forçarem. . Adeus Virgens! adeus Anjos ! adeus claras. . e de seguires o teu destino . . companhia desfeita! . . e.

. . PEDRO (pondo as mãos nos ' ouvidos) I h ! Jesus! I h ! Jesus! I h ! Jesus! Sanctus! Sanctus! Sanctus!. . Agora é q u e S. ANJOS E nós tambem! S. Pedro dos embaraços que te criou a tua obstinação e teimosia! Dei parte do ocorrido à Virgem. Parece u m a verdadeira conspiração! . sem os Anjos. . . C ENA X I Os mesmos. . .la CECÍLIA e MARIA MADALENA E nós também! Os ERMITAS E nós também! S . Eis ela que assoma! . . e ela j á vai decidir o pleito . Pedro as ouviu tesas e boas! . O que será d o Céu sem Estrelas. sem os Santos. . . e o Anjo da Guarda O ANJO DA GUARDA Venho livrar-te S. . MEFISTÓFELES (esfregando as mãos) N unca j u lguei tão i nteressante a comédia divina! .POEMAS ESCOLHI DOS 181 As VIRGENS E nós também! OS. sem as Virgens! . .

A lua cheia desponta. Pedro te não q ueria admitir no Paraíso. que se vai prender à meia que a Virgem vem fazendo. e tange na guitarra. Essa lua semelha um novelo. uma vida dissipada e de orgias . .1 82 GOMES LEAL C ENA X I I Os mesmos e a Virgem Maria. tem os vícios e os pecados de uma vida l utulenta e de libertinagem. que ele deveria ter sabido aquilatar. As meias são p'ra Jesus. e é assaz gracioso. S. com linha feita de luz. PEDRO Santíssima Virgem ! convenho que Hilário tem grandes méritos musicais. . e insinuante . Mas. a par destas q ualidades. cercando-a.) Nossa Senhora faz meia. asfanfarras dos anjos entoam acordes religiosos. para delas fazer um piedoso uso. Pedro. A VIRGEM MARIA o teu bom Anj o da Guarda. donde pende um fio luminoso. . veio-me contar. vestida de branco. HILÁRIO (ajoelha. cho­ rando. As Estrelas formam uma grande roda. . logo que a música dos anjos cessa. O novelo é a Lua cheia. . Dize-me tu primeiro. formam outra roda envolvendo a primeira) . Hilário? . . que S . S. Mal ela assoma. As Virgens. mau grado os desej os de todos os assistentes. A VIRGEM Que tens tu a contestar a isto. Hilário. os motivos que te impelem a seres tão cruel com o meu filho Hilário? . com as suas lâmpadas acesas. . .

H ilário! . . Chora nele quando ama. . os poetas. também amei. .do mágico e inefável Ritmo. suspira os seus amores. e q uando vai arrastado para os infindáveis degredos. as Ondas. e os seus trabalhos . as Flores. na linguagel!l divina e enternecida das lágrimas. e também pequei ! Mas os meus delitos não são delitos vis: são os delitos dos aventureiros poetas ! Podem eles. chora os seus desej os. e deixaram-se encadear e vencer por uns olhos q uebrados de mul her? . os poetas. os Infelizes. . . soluça os seus crimes. também carpi .POEMAS ESCOLH I DOS 1 83 HILÁRIO Santíssima Senhora! Rainha das Lágrimas! Mãe dos Tris­ tes ! . quando peca. Com ele também ri. que é a Poesia . . . Eu apaixonei-me por esse ins­ trumento. Mas teria essa tua defesa muito mais primor. quando é feliz. tão soluçante. que pouco me lembro delas! . o Amor. Não as citarei pois. a Virtude. e julguei achar-lhe uma alma oculta e misteriosa. . as Constelações. De­ mais elas são tão poucas. . a Beleza. .) .. . . HILÁRIO Pois bem. tão lacrimosa? . e todo o infinito espiritual. balouçando-se maviosamente. A VIRGEM Defendes . . . Só me defenderei do que apodam deli tos . todo o infinito das Coisas. Por que fez Deus o Amor tão estrelado. muito bem. e a vida tão amarga. . acaso deverei eu defender-me. ao qual obe­ decem. (Canta . . citando as minhas ac­ ções boas? Não será isso em mim vaidade e vanglória? . . . a sua fome. no qual geme as suas desgraças. se fosse feita na li nguagem sonora do Ritmo . defenderei os meus pobres amigos. acaso. q uando mata. Se­ nhora! tem o povo onde eu nasci um instrumento sen timental e popular. as Estrelas . Senhora ! visto que assim o mandais. serem acusados por amarem o Sol. e as Almas . .

São irmãos das andorinhas ! . nos caminhos. como no ar os passarinhos . . nas almas ideias nobres! Seus olhos choram aos dobres de e nterro das criancinhas . . . Dão suas capas aos pobres. Nas bolsas têm raros cobres. Amam os filhos das ervas! . Rasgam os pés nos espinhos olhando as estrelas cérulas . . . . . .1 84 GOMES LEAL Os poetas são pobrezinhos! Seu pranto é c'roa de pérolas! . . . . Senhora. Amam os filhos das ervas! Cantam. . . . Mas o Amor não é pecado! . Mas o Amor não é pecado! . libertando as almas servas . Senhora. . entre as procelas. . . Viajam pelas Estrelas. o Amor. Comandam a s caravelas que tem de ouro e seda as velas! Bradam alto. . O s poetas são pobrezinhos! Seu pranto é c' roa de pérolas! Dão suas capas aos pobres! São irmãos das andorinhas! . . Cantam. . Viajam pelas Estrelas. . o Amor. . Cantam a o sol. . Amam a Mul her e a flor. e o mar. da lua ao esplendor. Seguram o Cálix d a Dor num trono de negro armado.

(S. essa alma que surj a. foliar . vigiando as balanças. risonhos. ainda que dele se tenha afastado. As VIRGENS (ajoelhando) Perdoai Senhora ! perdoai! . . esse prato abaixa-se para a terra.) S. . . Pedro positivamente que eu não me engano! (Vol­ tando-se para um dos anjos. Perdão! . . A VIRGEM Levantai-vos minhas filhas! As vossas s úplicas enterne­ cem-me! Elas provam bem. enternecendo-as. ficando o outro levantado sensivelmente. . risonhos. mas só por impulsão sublíme do Amor ideal. . (Põe as mãos suplicantes. A Virgem em seguida dirige a palavra a S. com o poder das lágrimas. Pedro. que. que é o A mor sem egoísmo. com vontade de chorar! . como os poetas. Com vontade de chorar! . sem ser por interesse pes­ soal. por gratidão própria. Miguel põe-se à direita da Vúgem. não pode ser senão do Céu! ' Mas eu quero provar a S. ou à B eleza. de abalar as almas. por amor à Carne. M iguel traze as tuas balanças que nós vamos pesar as acções boas e más do Hilário na Terra. às Formas. . . q u e vezes cantam. tocando com a destra num dos pratos.) Agora se há alguma alma no Universo. Pedro chega-se e. .POEMAS ESCOLH I DOS 1 85 Que vezes cantam. mas o Amor não é pecado! . unanimemente. Senhora. . MARIA MADALENA Que delicioso! Que melancolia! Que sentimento! Perdão Virgem Santíssima para o Hilário! . . Fogem dos males medonhos no carro de ouro dos Sonhos! E aos misantropos bisonhos. e que venha salvar o H ilário. a quem o H ilário tenha socorrido. quem assim tem o poder divino. . Pedro coloca num dos pratos desta balança todas as tuas acusações à vida dissipada do H ilário (S. .) S. . se os fazem rir. H ilário cantou o Amor. .) Perdão.

abalada de convul­ sões. a cabeça nua. abismada nestas cogitações amargas. e o prato imediatamente vai abaixo. no meu mísero lar. Cormoso. os cabelos' ao vento . . a sua glória. que se abeirava da minha solidão. radio­ so! . condoído de minhas lágrimas. nem uma côdea de pão. . de suores lívidos. de lágrimas. nem uma gota de água. num pobre catre. ficando o outro no ar. e colo­ ca-a no outro prato da balança. e. E Hi­ lário. mordida de pesadelos. . (O Anjo executa as ordens. que era o seu orgulho. nem uma acha de lenha no brasido. . e de Come. Vem. . por último. andrajosa. de misérias curti­ das. Vir­ gem gloriosa . Era a morte certa. . lendo-lhe n o olhar o reflexo d e uma alma generosa. ao canto da minha viela obscura. e se iluminaram. de lagrimas. e do meu retiro escuso. ao Crio cortante. Vinha cantando. descuidado. numa viela. o seu amor. deu-me. Minha filha morria. Todas asjanelas de choCre se abriram. cavada de Comes. escutei ao longe uma alegre serenada. . Cobrei ânimo então. tropegamente. para empenhar. e pedi-lhe esmola para salvar a minha filha. que a breve trecho talvez expiraria. Hilário vinha no meio de um alegre bando. uma noite eu mendigava. nem de beleza alguma.1 86 GOMES LEAL C ENA X I I I Os mesmos e uma Velha. não tendo ele próprio que dar. cheia de abandono. Não tinha es­ perança já da sua cura. animada a u m peque­ no bordão . descuidoso e mudo . . para a minha filha! Quando eu estava. e parecia-me que abandonada de Deus e dos ho­ mens. A VELHA Virgem radiosa e dolorosa! .) Hilário! A . tressuada de Cebres. Na minha mansarda não havia um remédio. E regressou silencioso para casa. que é o amor sem egoísmo. a sua guitarra. esmola a todos os companheiros. e. só por uma impulsão de Amor ideal. de desolação. insinuante. A VIRGEM Anjo da Guarda de Hilário! pega na guitarra dele. pediu esmola a todas as j anelas. Eu era uma velha pobre. sem espécie de j uventude.

jorram catadupas de flores. coroai Hilário. a Generosidade. Perdi a partida. com uma risada. como lIuma gloriosa aleluia. MEFISTÓFELES Boas noites a toda a Ex.) . por mais bela que pare­ ça. (As Estrelas. Hilário permanece no Céu. ou de um puro Ideal . o Desinteresse. . a arte sublime de mover as lágrimas. Virgens.POEMAS ESCOLHI DOS 187 gui tarra q u e parece t e havia perdido acaba d e t e salvar. senão quando é posta ao serviço de um nobre sentimento. as Vir­ gens coroam Hilário: os Anjos entoam mlÍsicas festivas e. Santos."''' Assembleia! Retiro-me. Estrelas. Isto prova que a Arte j amais é superior. por que tinha fatacaz pelo estudan te! . (Afunda-se pelo chão abaixo. com as rosas do Amor e da perene Mocidade! . Estou certo que se vai aqui aborrecer de morte. . por que tu representas o Amor. dos ares. os Santos. para o rez-de-chaussée do Abismo. no Céu ! Divertir-se­ -ia muito mais dando serenadas no I nferno ! . e um prolongado ruído de tantã.) . . . e tenho. na reali­ dade pena. e a radiosa Alegria! Anjos. .

. para s e salientar. . em poesia. é uma glória que eu não acho.I . quer sej a o d e u m individuo. pois a dedico. . que a sua fama deles. ou todos os meses. por os seus conterrâneos os considerarem tal. Não cogitam. ó meus amigos! a vós. tenho escrito tão pouco o q u e vós tão acremente me exprobais. Abortar todos os anos. e por que neste género. . depois de mortos. pois.es líricas desta teatral obrinha. . há cerca de mil e cem. em que é evidente a imitação e o plágio de outros poetas es trangeiros. que de contínuo me envaideceis com os vossos exa­ gerados encómios : a vós que de tal guisa tendes enaltecido o valor dalgumas composiçõ. e que todos se pavoneiam muito anchos. se diluirá toda na vasta personalidade original do grande lírico. e a té creio que Seixo de Gotães e Pico de Regalados. na Europa. ó meus ami­ gos! credora da invej a alheia! . mais ou menos avariados. Alguns de vós sabem j á de cor o vestido de noivado da minha de Kashmir . consOClOs . uma Lírica única.que criou uma Estética sua. ó meus companheiros. e m coisa d e tão pequena monta: é apenas um familiar cavaco entre amigos. . I s to que hoje sai a lume. é uma l iterária excursão nos do­ mínios da Fantasia. . pois a oferto. a Rússia. . como em todo o género de Arte. e até distrital. A I nglaterra. de que eles . esses míseros autores que tressuam noite e dia a imitar esse Céle­ bre. com tão amaras invectivas ! . Portugal. dever ser cheio de sentimento e de originalidade. e . a Espa­ nha. O Lirismo. . A vós. Hoje. agora dizer-vos o que eu há muito penso do Lirismo. .AOS MEUS AMIGOS N ã o é u m a nota erudita q u e v o u fazer. que de antemão lhe fizestes a reputação antecipada! . que todos pretendem imi tar Victor H ugo. porém. É por isso que o nosso Fado é a expressão ge­ nuinamente lírica da idiossincrasia de uma Raça: é por isso que o misterioso Corvo de Edgar Poe é a expressão saliente de um poeta singular .a potência concepcional. Ser original. deixai-me. . ou mil e duzentos ridículos escritores de versos. implica a maior das superiorida­ des . É a vós que a dedico. se ufanam hoj e de possuir o seu Victor Hugo provincial. de livros de versos banais. a vós. uma Euritmia nova. quer seja o de uma raça.

assim como ou trora o an tigo Orfeu. o troveiro nacional. Enquanto que à obra destinada a teatro. Faltam nela os Anjos. o Dante da Bes­ sarábia. em Arte. às Virgens. e as tíbias imagens reflexas e reduzidas ! . .dos velhos Mistérios da Idade Média. . . . mas sim a imagem de um ou tro. do que ser o Victor H ugo inglês. falam as Estrelas . para prod uzir arte ver­ dadeiramente original. falam os Santos. É força concentrarmo-nos muito. Quantos imitadores não tiveram H omero e Pín­ daro. falam as Virgens. às Cons telações. . que hoje sai à publicidade. a fotografia viva de um Glorioso. que nós macaqueamos. e de assaz pouco. E tinha razão! Antes possuir uma personalidade bem vincada. direi dela que é uma fan tasia. e o mais pitoresco de todos . . nos cafés. no género tão transcendente e delicado do Lirismo. e todavia. no género tão poético . . dedilhando a divina Cítara. e ser-se fecundo como a mãe das Danaides ! . assim também Hilário. dizia o incomparável. . e ganha também a sua causa. I s to que acabo rapidamente de expor é a resposta às ex­ probações que continuamente me fazeis de produzir pouco. a qual deve ser original. de que estudamos os solenes ares ao espe­ lho. para ser imperecí­ vel e inconfundível. meus amigos. É por isso. que desceu aos Avernos e defendeu a sua causa. ainda que em revolta com o Existente. talvez o último deste fim de raça. Tudo o que não for. . o H eine da Polinésia. afirmando o pres tígio su perior e transcendente da Poesia. Que humilhação o não sermos nós mesmos. porém. verdadeira­ mente original irremissivelmente morrerá.POEMAS ESCOLHI DOS 1 89 não foram senão as vis cópias. A essência moral. delicado. É porque o respeito muito: é porque o considero a forma suprema da Arte. ó meus amigos! só eles hoj e se l êem ainda! . e malicioso Musset. e o reflexo de um outro espírito. . Para mim seria menosprezo ser apenas a mera cópia. dá serenadas no Céu.e Hilário. e de q uem recitamos. que eu escrevo pouco Lirismo. tangendo a gui­ tarra mágica. Mon varre est petit.e que seria curioso ser renovado . . depois de tanto que o Pensamento Humano tem laborado! É impossível ser-se original. maisje bois dans mail verre!. especialmente. que ressuma desta peq uena fantasia mística. o Byron sueco. ainda que fosse dos mais no­ tórios e amados. aos Anjos. e amansando os Juízes e as Fúrias embeveci­ das e enternecidas. as pirotécnicas frases ! .

e o público culto e especial. meio irónico. .1 90 GOMES LEAL deste desvaneio meio sentimental. e o Belo asPirar sempre ao Bem. criado talvez com intuito de fundar no teatro um género delicado e mis­ terioso. tão ideal e elevado. q uanto à essência moral desta fan­ tasia é que o Bem deve asPirar sempre ao Belo. que gosta e se apraz com as coisas delicadas e subtis . mesmo a té quando são nacionais! G O M E S LEAL . Se acaso bem executei este tema tão superior e poético. . que arrancasse o nosso público ao seu engouement tri­ vial e banal pela Mágica. vós o direis. ó meus amigos e consócios.

A MU LHER DE LUTO .

.

esp ' ranças e visões fugiram baças. Bíblia. a t i . a t i .À M E MÓRIA DE M I N HA I RMÃ A ti. q u e tanta vez. . . . q ue talvez com deleite cruzas ligeira o Céu . . cortando aérea o Azul . alegrias doiradas. ideal encadernada e m rosas. a ti. . igual a espadas finas. cuj a saudade. como outrora a Jesus choraram as violetas na noite do Calvário . que roças tanta vez tuas tranças sedosas nos sonhos do meu leito . a t i .laranj al de quimeras talvez te lembre a hora em que o sol meigo tomba. um pranto solitário. . . neste meu coração. delgados . nas caladas "noi tes . ao morrer. a ti. . . talvez te lembre a hora em q ue os teus dedos hirtos me apertaram. como um ai de Jesus fez dobrar as boninas orvalhadas do Horto . pluma subtil d o peito d e alva pomba. a cuja morte. a t i . Sombra gentil. . osculando as anteras . . . como dos seus pombais as pombas assustadas pelo archote de J udas . punhados de glicínias . mudas. . que tanta vez desfolhas. . com tuas mãos rosadas e cetíneas.como asa de andorinha sobre os rios azuis e as baías de leite dos astros da noitinha . estátua do Pudor trazendo um lírio ao peito. pelos bosques de mirtos . crivado de facadas. a ti. . . . ou nos lagos do Céu religiosos e calados. de quem e u v i ternas pupilas pretas filtrarem. machucou no meu peito a alegria e o conforto.

Cumpro hoj e es ta missão . à lâmpada do Estudo . e sinto. a fim de que te lembre e te recorde os sonhos. E sobretudo . . de escabiosas abertas. hoj e trago aos seus ais. .em túnica de neve ­ roças por minha febre a trança de veludo. a fim d e recordar-te os colóquios amigos sobre as almas leais dos Cas tos e dos Justos. . o passo aéreo e leve. fiados às estrelas . a ti. e o céu todo açucenas. . de que há almas em estrelas desertas . a fim d e que recorde este livro de penas os dramas e as visões dos romances que amámos. escrito em largas velas. sem Deus. cheia de palmas. de goivos. nos campos. . da noite nas caladas. sem sol. À s almas que a vil Parca estrangulou. recitadas ao alvor do crescente. de cecéns.lembrar-te o sonho etéreo em que tu me trouxeste uma pena cor de ouro. quando ladrava o cão. . um ramo cor de Esp'rança. . que tanta vez . a t i dedico. a fim d e recordar-te. mansamente. à luz dos pirilampos . as nossas convicções doutrora. e a fonte entre os arbustos . este livro do além.1 94 GOMES LEAL a ti.enfim . . quanto a lua branqueava os pinheiros antigos. astro dos céus risonhos. . a fim d e relembrar-te o pavor das baladas . do violino os ais. como a pomba da Arca. sem confiança. a ti. . . . para onde tanto olhamos! . . mandando-me escrever sobre o sacro mis tério das Almas e o seu coro.

porq ue o Amor é Deus. vossos trágicos dedos ! . queimo nes te incensório. em cima destas brasas. . . alçai as magras mãos . . que afilaram histerias. 1 95 . À s almas ao abandono e agarrando-se à hera de um rochedo feroz. que rasga a Espada da Saudade . carpindo sem cessar nos lívidos rochedos. e u trago ao vosso mal das noites aziagas o meu mel da piedade! . com as unhas rasgando o magro peito intenso. . . U ivantes ba talhões de almas desesp'rançadas. Ele dará a todo o ensanguentado bando o frenesim do amplexo e os beijos siderais. como um incenso. morto nos ervaçais. U ivantes ba tal hões de almas. doce irmã das longas tranças pretas. . Desgrenhadas visões das paisagens funéreas as retorcidas mãos da febre erguei aos céus. . que faziam invej a aos lírios e às violetas. almas que uivam de tédio.POEMAS ESCOLHI DOS À s almas que a Revolta enegreceu as asas. trago um óleo com que unjo as pálpebras doridas dos prantos sem remédio. goivos fatais da his teria. Dará a uma o filho . o Amor. nos seios nus. alevantai ao Céu as mãos al ucinadas. . . E também. . a mim me fartará dos teus róseos carinhos. e ao olhar dos passarinhos . com hirta mão adunca. . a outra o noivo brando . . mostrando as chagas. trago um céu de esmeralda onde se lê Espera! em vez do amargo Nunca! E às desoladas mães e às amantes transidas.

Só tu o inspiraste. . A MULHER DE LUTO I Lá.1 96 GOMES LEAL Toma pois es te livro. . num alto penhasco enegrecido e bruto. onde os ventos da noite uivam lutuosamente vivem os dois irmãos os Laras doida vida . qual camélia na haste . Leva-o para a s regiões enigmáticas e belas. E possa ele sarar também lá. nas noites em que pende a lua enternecida. nessa velha rocha extensa e desabrida. vive a A1ulhel' de Luto. sopra um terror fatal que afasta toda a gente. . . neto dos velhos párias ! . . . os ais dos infelizes ! . - - III Lá no al tivo palácio. IV S ó e u rio das mil visões imaginárias! Só eu corro a cavalo às charnecas desertas ! Eu neto dos vilões. pois que é teu. ó j amais Esquecida! Acolhe-o. onde os corvos da noite e os mochos têm guarida. . . onde a lenda corrente faz espectros surgir nas salas solitárias. em que chorem de amor as relvas que tu pises . se ergue o al tivo alcáçar. II Lá. nas estrelas. .

como se essa partida fosse o último adeus aos loureiros e às rosas! 1 97 . numa leitosa paz. Só eu . rico. cuidam tomar a sua claridade pela luz de Dágon. às casq uinadas. pende cerrado o véu do Arqui-Ser terrível. do A lguém que guarda sempre a suprema verdade! IX Foi assim que eu sincero.ouso insultar a Morte. de degrau em degrau . alma leal. M a s ai! dos que sem norte.POEMAS ESCOLHIDOS v Só eu. calco o pó dos cemitérios . VII A C iência é a luz. XI Mais tarde. rei da infernal coorte! VIII Atrás disso q u e chama o sábio a realidade. e. ouso rir dos mistérios e das lendas que põem as turbas boquiabertas! VI S ó eu rio de Deus e dos Anjos sidéreos. sensível. lembra-me. a udaz.vaidade atroz! . azulina ignorância . solucei . fátuos.por vaidosa j actância caí na confusão da angustia intraduzível! X Mas remontemos mais. ao abandonar as colinas maviosas. céptico. filho revel das ciências libertas. Correra a minha iníància entre mil pastoris boscagens melodiosas.

as pombas e as boscagens. e apontavam-me o Céu o s dedos das folhagens! XVI Havia um vácuo em mim. achei à cotovia a voz tão afinada. . As floridas paisagens não tinham. banais rosas e espinhos ! XVI I Com desdém criticava a fátua cor das rosas. . para mim.babéis de estultícia e demência e um dia esfarrapei a batina odiada . . coitado de mim! . farto de atroz ciência. . mas. Quis abraçar. as dálias pretensiosas . . fugira-me a inocência. . . que inventara o arrulho e a a troz monotonia da cantata do amor nos sóis e nos impérios ! . . . . . autor d e tais delírios. XIV Regressei ao meu lar. jamais n a vida. nem ninhos . . Os ombros encolhia ao branco alvor dos lírios. o Céu d e u m sujo azul. sombras. Trinos dos passarinhos pareciam-me imbecis . e o meu primeiro adeus foi o da despedida! XIII Estudei e cursei Teologia sagrada. sorrindo. Li mil livros . . XV Morrera minhét irmã .1 98 GOMES LEAL XII E de certo que foi ! Jamais. risos. . Fastiavam-me os ais das rolas amorosas! XVI I I Achava banal Deus.

a fugir. toda de luto. ao meu Destino atroz. na alcantilada serra. numa ati tude ideal de tristeza marmórea. barroca is. XX vi surgir de repente a forma entressonhada. no meu cavalo negro. 1 99 . eis começo en tão a galopar. por penhas. por tormentoso algar. inóspita. cheia de ânsia e maldade. o seu busto de estátua e a face modelar. . XXI I C avalgava também com grande aprumo: Etérea. por instinto inconsciente. que eu cria repelir. séria . bravia . . . tinham um corte estranho. a fugir atabalhoadamente. há tantos anos já de cinza e derrocada! . . XXI Era ela.POEMAS ESCOL H I DOS XIX Ora.como a do Rei Macbeth parecia correr. . a forma que jamais me saiu da memória. . essa mulher que é toda a minha história: desde a cabeça aos pés. à luz da tarde aérea . um dia de h umor tristonho em que eu corria. XX IV De quem fugia assim? Ao Fado certamente. a toda a desfilada. XXV Com tal fúria corria e tal celeridade que a Ooresta também . à atroz Fatalidade. XXI I I Como um doido.

. . humilhado. rolei do meu cavalo. arremete por sarças.esse mal atroz dos meus Maiores a ePilepsia ai! me varreu como fumo. a rir. E a ePilepsia . en tre as pragas do jogo. entre a flauta. da aresta de um talude. . barrocais. . a minha inlancia incauta! . XXXI I Quando o olhar descerrei para o dia e a saúde. regelado de medo e de um convulso abalo. . febril. a prumo no seu cavalo. nem depois. convulso. toda de luto. Perdi o rumo. olhando o sol divino. com tal ataque. sobre um frio ervaçal. mais terror insensato e estúpido me mete XXV I I essa altiva mulher d e rosto mate e fino. com seu tranquilo olhar. entre a dança. irresoluto. . a passo! . na minha rósea inlancia . nas capitais egoístas . . que eu tresnoitei. . torvo como o infeliz que não tem quem o escude . por taludes a pino. Nunca ouvira tais horrores. XXIX Não rolara j amais nos meus tempos melhores. XXXI Exânime tombei. . XXX Nem depois. na vida estúrdia e lauta. XXV I I I Por que era um tal terror? Não sei.200 GOMES LEAL XXVI Quanto mais meu cavalo espumando.

entre angústias e flores. apostatando o Deus que hei incensado! III Sou o moderno Cristo. numa orgia. V Agora sou Gringoire. . o que u m dia. .POEMAS ESCOLHI DOS XXX I I I achei-me n o solar desse penhasco bruto: encontrei-me estendido ao comprido num leito. a q uem o s teus maus tratos arrancaram. o insultado histrião. um dia. 201 . . no anfiteatro! II Sou esse pregador de olhar iluminado. aos I nfernos desci dos malditos suores! . e em pé. encarnecido. IV S i m ! sou esse histrião. a Mulher de Luto. o renome. como ele também. por ti. meu diadema real e os régios aparatos ! . por ter amado ingratos. o juízo. o padre espiritista u m dia excomungado. o histrão com fome. . D. no seu chiqueiro e que a lepra consome!. Sou Job. . apupado. o grande Rei das Dores! E. como uma estátua. hirta. . rolei. Quixote. CARTA À M U LHER DE LUTO I E u sou o magro Herói infeliz de teatro. roto.

larvas. XII Mas aqui. esta existência é cheia de mil aparições. e espectros que eu evoco à trémula candeia! . qual D . . narraria aos aldeões os meus fei tos guerreiros! . Quixote. à beira dos caminhos! . . iria. ao rir dos melros na espessura. debaixo da latada. no q uinteiro plebeu. qual podre cão no esgoto! . a Viúva mal trajada! . IX Ao menos. . . a chouto. . . d a Triste Figum! mas deixassem-me o horto. XI E ao expirar. sem ninguém! . X Sentir-me-ia morrer numa paz descansada. o Oprimido. . . tendo a glória de ter defendido o menino. . afagaria a Russa . o Ancião.202 GOMES LEAL VI Antes e u cavalgasse o meu rocim. . . com meu cura. . d o poente aos raios derradeiros. conservando o meu tino. . . o meu prado. daria o úl timo pranto à bela Dulcineia e o último sorriso ao escudo de Mambrino! . . os moinhos. VII A o menos ouviria o trino aos passarinhos. e ao olor dos espinheiros. . . afinal. ai. VII Fosse e u o Campeão. e a sesta entre a verdura! . o meu galo. . cruzes. . tocheiros. os meus bois. do que aqui vegetar.

. n a areia . . . . . num terror servil. pulo. . lento berço embalando . . . aos 3óis. sem ouvir o teu nome. onde estão. ó Teodora. nessas tardes de Agosto em que há brisas afáveis? . passo dias inteiros. esbulha. . Como estão longe agora a s acácias· amáveis. mas ser homem. . . à lua. sorrir. . . XVI I I C omo estão longe agora esses céus impecáveis. que lavra. j ovialmente cavar o meu humilde hortejo . a s claras praias belas. e canto. . XIX O nde estão. mas outras. tremendo. dum castÍssimo azul. a remendar as velas? 203 . XVI Pudesse e u labutar à calma. poda. . sem razão. o u o barqueiro. XIV H orror! a isto cheguei! À s vezes cai-me o pranto sobre os fios da barba intens� e j á grisalha . XV I I Onde está. . que cruzavam gaivotas.POEMAS ESCOLH I DOS XIII Passo noites cruéis. . em que canta uma mãe . . agachado a alguma canto. XV Sou um vil animal! Sou menos que a escumalha do andraj oso vilão que anda ao mato e à charrua. a asa d o meu desejo? . . gargalho. dos carcereiros! . . pisar a esteira tua! . ceifa. às ramagens das q uais te dei um casto beijo? . pisa e malha! . .

. ou evocando um herói do pó do seu j azigo! .204 GOMES LEAL xx E onde estás t u também? Talvez devaneando nas sombras do teu parque . . ruminando o meu mal. . ruínas amarelas! . de bibes brancos . aonde me enforcar. dementado e arquej an te ! XXIV Jazo a q u i n u m covil. XXI I I Quanto a mim. p'ra não ver teu olhar de raros magnetismos ! . rolar-me. na palha estiraçado . neste antro sufocante. decifrando um ritual de velhos monges francos. . qual Jesus no seu Getsémani. . . loiras . dalgum monte nos flancos. XXVI Quero às vezes descer aos mais torvas abismos. talvez num áureo hotel da Mónaco elegante. . .. . . . ao plenilúnio amigo . . . procurando no céu um prego. ervaçais . vendo correr bebés. . sem ver águas nem sóis . ou n a Escócia sonhando! . . . . nalgum chalé em Nice. . morro aqui. . cataclismos. por te haver muito amado ! XXV C hamaste-me his trião. XXI Talvez na fria Gália. Como tu bem martelas este crânio onde há sóis. com olhar baço e airado. XXI I Talvez lendo Ossian. em torreão antigo. planetas. . . entre as estrelas. barrancos .

misturo a imprecação à infame raça Lara. . foi o querer evocar espectros. . com a prece . embalde noite e dia. ou a Freira à Bacante. . . XXX Misturo os Serafins aos demónios escravos. ou mal raia a manhã. . . n a minha dor. o Evangelista. . . . XXXII M as ninguém dá resposta à minha aguda pena! . ao Santo Assis. . baralhe Anjos da Luz com Satãs da Geena! XXXI I I E m vão. de fúria amante e rara. a este antro de pavor. a Simão Nigromante.a i d e mim ! . . ou o ritual do Altar! XXIX Misturo a virginal e gentil Santa C lara.o q ue m e trouxe aqui. a Mística à Mundana. contínuas. marcado com três cravos! XXXI Misturo a Ninfa à Deusa. a loira cortesã de coração flamante ! . o Cristo à Madalena. . que me falem de ti!. sem cessar. aos milhões. aquela a quem Satã ofereceu lindos cravos.POEMAS ESCOLHIDOS XXVI I E n o entanto . o exorcismo . confunda a Cortesã com a Mártir ideal das tenazes romanas . João. e o extático Buda com Dágon o u Satá! 205 . com a Safo pagã. XXVI I I Nestas evocações. C a tulo.

. sem tocheiros. d o trágico afamado. mas trevas interiores . o histrião dementado! Eu sou Simão. em tais dores. acorre aqui. levantada em minha alma. sobre-humanas. liturgias bárbaras. neste supremo ins tante. que quis subir ao Céu e rolou no tablado! XXXV I I Vem pois. XXXVI Aqui tens.206 GOMES LEAL XXXIV Eis-me pois a teus pés. . o Mago. . com remorsos ao menos : ver morrer D . sempre fiel . . . d o padre que descreu. sobre umas tábuas rasas. XXXV Tem dó duma alma eterna. o Doido. Quixote. perguntando por que proibiste. a teus pés. . círios. abandonada. a quem cortaste as asas! o V I ÚVO Como eu mostro em meus olhos uma Essa. ó I mpiedosa! às almas consolar as lástimas humanas? . . inda chamando a amante! XXXV I I I Dulcineia glacial. . ansiosa . sem buxo. que não temes a s brasas! acode. morrer. que já viu a seus pés uma turba luxuosa. a ver o rei Fingal. . acode aqui . . o Nigromante.

POEMAS ESCOLHIDOS

as jovens que me vêem magro e ascético,
- como o leproso da cidade de Aosta mostram-me, umas às outras, cochichando :
- É ele! É o Viúvo!
II
As andorinhas dos telhados róseos,
e dos beirais floridos - ou nos nichos
das catedrais musgosas - dos Apóstolos
nas barbas chilreando . . .
Ao verem-me enroupado em negros trajos,
silente, esguio, passar rente aos muros ,
magoadas, suspiram, dando às asas :
- É ele! É o VilÍvo!
III
As laranj eiras e as Saudades roxas,
Escabiosas de funestas cores,
teorias de ciprestes pensativos,
, amoras cor do luto . . .
mais as magnólias castas à tardinha,
suspirando, como harpas melindrosas,
queixosas gemem, meneando as folhas:
- É ele! É o VilÍvo!
IV
Eu não estou doido, não. A mão da Angústia,
tão férrea! não varreu-me todo o I n telecto.
Sim: oiço os choupos e amarelos lagos,
mais as pardas lagoas . . .
e as portas dos palácios em ruínas,
lastimosas chorando nos seus gonzos,
e o catavento à chuva rechinando:
- É ele! É o VilÍvo!. . .

207

208

GOMES LEAL
v

Como o leproso vindo das Cruzadas,
como o maldito, nas papais cidades,
como o histrião na Corte dos .Milagres,
esgueira-me entre as turbas . . .
E coço a lepra d a minha alma em luto,
que faz clamar às bordadeiras loiras,
mais aos mendigos das igrej as velhas:
- É ele! É o Viúvo!. . .
VI
Ontem entrei numa baiúca infame,
- numa taberna de bandidos reles pois que eu desci às espirais misérrimas
do lameira de Job! . . .
E até estes d e mim se condoeram,
e remexendo os sórdidos baralhos,
rosnaram baixo, meneando as frontes :
- A i dele! É o Viúvo!

MEFISTÓFELES EM LISBOA

PREGÕES MATI NAIS
Passo às vezes na cama um dia in teiro
de papo para o ar, como um madraço . . .
fumando qual filósofo ou palhaço,
sem mulher. . . sem cuidados . . . sem dinheiro!
É de manhã então que me é fagueiro
ouvir trinar no cristalino espaço
um pregão mais macio que um regaço,
que se esvai a carpir. . . como um boieiro . . .
D e manhã é que passa a leiteirinha,
com seu pregão chilrado de andorinha,
passam varinas de gargantas sãs . . .
E ao escutar tais cantantes semifusas ,
eu creio que oiço ao longe as frescas Musas,
a vender uvas e a pregoar maçãs.

H O RAS DE «SPLEEN»
Nesta cidade aborrecida e mona,
passo horas de sPleen estiraçado . . .
sobre um divã, ouvindo um mau teclado,
ou rechinar monótona sanfona.
Lem bra-me então a lrifanta Magalona,
oiço os miaus de um gato num telhado,
sigo o zu mbido de um mosquito alado,
tomo hastchiz, morfina , ou beladona.
Mas nisto, rompe o sol a névoa aquática,
vem com capa de asperges ou dalmática,
toda de oiro e rubins ensanguentados . . .

O al tar é o Sol que amolenta hostis audácias. S urge a Polícia . ais. como da Alfama a passional viola! . e as almas. . em que um doer mourisco nos desola.212 GOMES LEAL Quero então ser Grão-Turco. Bem galantes solaus também carpia Severa. Após a cavatina. . em Jralda. O Tejo é a pia d a água benta. o Amor. . Tua magia q uantas vezes não traz a Cruz e a Estola! Vai alta a lua. nem vitrais. essa Ninon de naifa e mola. . Lá d a tardinha a s nuvens violáceas são os rolos de incenso esparsos no ar . e prende. empalar os alfacinhas. nem capelas. . . Almaviva é marujo e de melenas. nem rosáceas . acaricia. E nas ventoinhas das torres. guitarras. O CONVENTO À B E I RA-MAR Plantado de roseiras e de acácias Lisboa é como um claustro à beira-mar. com furor. . ó Mouraria. . . com crepes de chorões gatos-pingados! A GUITARRA DA MOURARIA Amo a tua guitarra. com zelos de Rosina. Prisões. sob a lua. céu de açucenas . d á seis golpes na amásia. M as há sangue em teus ais ! . N ão lhe faltam nem cercas nem pomar. Almaviva.

· com lérias nos depena as magras chetas! Uma travessa e esbelta galinheira. frecheira. . J á rezo o terço e durmo raposeiras. E às Meninas da Baixa . terra da andorinha airosa. o SENHOR DA SERRA É o Senhor da Serra a alma e alegria dos romeiros que vão visitar Belas. . às gentis freiras . Ali é que a Serpente sabe tretas para a tiçar a nossa gula ansiosa! . . Limpinha vila! Construções singelas. . fora ao nariz.POEMAS ESCOLHI DOS Aqui passo entre hortênsias e alfazema. . compondo um poema. . ao paladar. . Ali. . . . q u e carpiram solaus de moiros poetas! . ao gosto. loureiros . . . ági l . . . a colarej a cor-de-rosa. j á escrevo cartinhas em latim. em que a Preguiça é céu de azul-cetim. . Penhorou-me o primor da rapariga! . E a Praça. . A PRAÇA DA FIGUEIRA Lisboa. mas onde acode o vulgo em romaria! 213 . . n a Praça d a Figueira a gente goza o Paraíso das maçãs reinetas. rouxinóis . . achei-a amável à barriga. . . cinturinha de vespa . deu um ovo de pomba ao meu petiz.

grita ele radiante. tudo é feliz! E para. canções. rir de donzelas. H á salsifrés. solidões das matas. muitos bebés têm dado a este país! MACÁRI O . Obrigado. nívea toalha es tende uma ranchada . À sombra da oliveira ou da latada. em tudo. ou panelas. com mil patranhas. prepara um almanaque e cisma à lua. odres cheios. . ferra-lhe um beijo na garganta nua. «Aleluia !». derrete as banhas. «Achei a rima enfim recalcitrante. POETA DE ALMANAQU ES N uma trapeira desabrida e crua. En tra a sopeira . pipotes. . . sopra . as festas serem gratas . das canções. . e outras coisas boémias mais estranhas. Mas a sopeira não se põe com queixas . torna a suar. Procura rima para chefe . clarões d a lua. .sua . Um sopapo pespega nas bochechas do que boscara em balde a rima em eJe . . Rosinha! Achei: "Tabefe!"» .e então. .tudo inebria. Macário entre banais teias de aranhas.214 GOMES LEAL o tropel dos carrões e a vozeria dos solaus. do cheiroso peru .

a ver navios! 215 . Outrora num cantinho de uma aldeia de amena e curta área quantas vezes o ouvi trautear uma ária. podia bem servir de lamparina. exclamo a rir. e o chapéu. ruinarias. V ej o cascatas d e oiro e de ametis tas. As botas com palmilhas dum in-fólio. catedrais. fon tes jorrando prata e pedrarias. ondas. num gáudio de estremez: « Possui tudo isto um cervejeiro inglês !» Lisboa! estás. . passam dragões com asas fan tasistas. . . musgos macios .POEMAS ESCOLHIDOS o MESTRE PRIMÁRIO Encontrei no Bairro Alto um bom velhinho. em torreões de agudas cristas. Na seca e magra coxa rota calça de reles bombazina . guerreiros. . um pobre mestre de instrução primária. no mar longínquo. . Fiquei com dó. de barretinho! M agro estava. palácios. . como eu. . sóis. regando o seu quintal. Passam nuvens errantes e vadias . o qual anda rotinho como um pária. velha a gravata . fumo e espraio. PAISAGEM DA TARDI NHA N uma casa de verdes gelosias. e amarelo como a tocha de um enterro. E ao ver todo o cenário fabuloso que disfruto do Tejo melodioso: boscagens. . que lustrara com petróleo. suj o o colarinho. . as vistas ! . .

A SENHORA DA MELANCOLIA (AVATARES DE UM ATEU) .

com sete degraus de mármore preto. em sua devoção. à Inconsolável Mãe das almas errantes e uivantes. Lis boa. este pequeno obelisco negro. das Sete Espadas. Advogada das tristezas mudas e das lágrimas que correm baixinho. Protectora dos corações viúvos e amaldi­ çoados. 2 de Janeiro de 1 9 1 0 . Mãe da Saudade e das dores irreparáveis. dedica e consagra o autor.DEDICATÓRIA À Senhora Tenebrosa. oferece. Tochafunerár-ia dos Tristes. Rainha dos Suspiros. Desgostosa e Silenciosa. dos Soluços. capa dos mendigos e dos leprosos das cidades malditas. Senhora dos Lutos e das Lágrimas. Urna lacrimal dos Vencidos.

.

Porquê tão triste assim? Não sei. quando eu ia rolar no atroz despenhadeiro dos infernos mundiais. que nos gela a epiderme e inteiriça de horror . Sim! quando ia rolar nas trevas taciturnas.I A SENHORA SILENC I O SA Quem pode I/egar a dupla vista dos Tristes? . amor mais que terreno. sal/dar o que eles sOl/dam. . . que eu vi esse perfil de H ebreia celebrada. . nem foi na Terra Santa aonde vai o romeiro. votei-lhe um culto ideal. . Muda. c/tamei-Ihe a SeI/ho­ ra da Melal/colia. Sua mágoa é um Sol que eu rasteiro e pequeno adoro no meu pó como um Pane vencido. e silel/ciosa. Senhora Minha ! qual negro vaso etrusco a raiz duma flor. ante o altar do delis Nada. calada. Estarrecido. j orrou dentro em minha alma um bálsamo fagueiro. Foi dum abismo ao pé. nem um bairro j udeu histórico e trigueiro. silencioso esse olhar floriu. I/as cOI/cavidades da Sombra? N ão foi num medieval castelo de balada. des­ gostosa. II A SENHORA DA MELANCOLIA E como ela m e pareceu tel/ebrosa. quando nada no abismo a queda m e sustinha. Quem pode fita r ou ver aquilo que e/e vêem. em pranto. quando eu sentia já esse bafo das furnas.

. atrás dum porta-cruz que insulta o povoléu. um magnetismo. Seu grande a r tenebroso e o seu olhar d e treno têm magia maior do que as nixes do Reno. DOS lIarrarei todos OS meus aDa/ares! Cavo a própria memória e entre largas palmeiras surge Jerusalém. . vejo-me centurião da Torre Antónia. Ela habita um palácio. do que as sagas da E trúria. Creio ter sido outrora um Romano e no Horto num choroso sol-posto. Será um sonho vão? Entre lanças guerreiras. o mar Morto. um fluido. em silêncio. que me rende.222 GOMES LEAL Sua melancolia a minha alma há rendido! . são desse olhar lutuoso. onde nunca o sol se ergue. Creio avistar também. errar entre oliveiras. nas solidões de Job e a triste Agar errante. . e absorto contemplando Sião. mal velada num véu. num passado já morto. É ela! É ela! É ela ! É seu rosto dorido ! Contorce as reais mãos de mármore polido! Cai-lhe o pranto em silêncio. e a água de Siloé regando as romazeiras . E mau grado entre nós haver um cavo abismo. na cara . subj uga a cada instante! III A SENHORA DAS LÁGRI MAS ADa/ar! ADa/ar! Um dia. a imagem que eu já vi. Mas já morou na treva. Josafat. a mesma imagem rara. me atrai. as sibilas de Cnido. eu um mísero albergue.

em bronze. num cerro desolado. reis . palpita? . q u er seja em carne. o atroz Campo do Oleiro. Jogava com Sejano e eu. N ão quer consolações. sofrer como em Níobe. uma cripta. Longe das mais. essa estranha figura. treme. Uma era Salomé. a rosa de Sáron que gemeu nos retiros. . grita-me ele. já vi crucificar leões. «a Amargura. » . ou tra Magda.223 POEMAS ESCOL H IDOS IV A SENHORA DOS SUSPI ROS «Beali qui /ugenl!)) Revejo-a outra vez às luzes das estrelas. mas nada igual ao horror das três estátuas belas. A certa altura. à lua que prateia o elmo das sentinelas. uiva a matilha atroz dos ais e dos suspiros! V A SENHORA DOS SOLUÇOS « Videle s i fsl d% r. e ainda a Dor que não tem nome. ao pé desse madeiro. lutuosa. Já vi o mar em fúria e a terra num baseiro. chora. A lua era bonita. <<já viste alguma vez». em mármore. Essa é como a Raquel da Judeia chorosa. cuj a pedra dá ais. derruba a mesa ao chão de oiro e de malaquita. três Es tátuas da Noite. e donzelas. a Hebreia grave e linda. e j unto a uma alta cruz ao monte sobranceiro. sim/" d% /" mea!)) Tibério discutia irritado escultura certa noite em Cápreas .

junto de César Bórgia e uma real devassa. dobra-se ao chão . era em Roma. E a baça fronte que alaga o horror e o livor da desgraça dobra .. na Judeia. . Nunca vi igual flor de cabelos castanhos! Nunca vi maior dor em olhos mais estranhos ! Nunca meu coração olvidou seus soluços!» VI A SENHORA DAS SETE ESPADAS AI/al/U! AI/al/ké! AI/al/ké! Que sacrilégio! Que sacrilégio! Ou tra noite. sobre a campa do filho arrastar-se de bruços. O Cristo estava em frente. . ao alto. eu disse. com mais melancolia. . Eu estava numa orgia. Enchi a taça de Reno e arremessei-o ao Cristo que morria. com vistas irritadas? . . a forma escultural duma mulher hebreia. O vinho purpurou-lhe o corpo níveo. Em voz febricitante. . O ultraj e era sangrento e macabra a ousadia! . . » Nada me respondeu a Sombra amada e tris te.224 GOMES LEAL «Já vi ou trora». bradei: «Que me olhas tu. corta-me o passo a Sombra. Quando enfim me escapei da bacanal u rrante. Mas minha alma gemeu: «Foste tu que reabriste o sangue que hoje cai daquelas sete espadas !» . «ó Cesar!.

. era o braço impoluto .POEMAS ESCOLHI DOS 225 VII « M I S ERERE MEl ! . . . hirta ao frio. . a dar ais . . Eis vej o sobre o altar o estranho ser de luto. » «Les Meres! Les Meres!" FAUSTO À s risadas entrei numa igreja às matinas. Prostrei-me em terra. qual triste enj ei tadinha à porta de seus pais! . . O' Mãe triste! O' Mãe terna! O' Mãe dos olhos castos! acolhe esta alma em pranto. Conservava-se ateu meu coração corrupto. a indulgência. q u e afastavam meus pés das ervas das ruínas! Era o bafo de mãe. o carinho. . . rasgado o coração por sete espadas finas. era a asa que afaga o implume passarinho. de ras tos. a mão que enxuga a testa ao menino. Chorei. Essas formas divinas não as pude fitar de rosto calmo e enxu to! Era a mão maternal.

conhecido na Europa pelo Cristo Ne­ gro da Í ndia. pelas s uas riquezas babilóni­ cas e teorias excepcionais. Avatar é u m termo extraído das l iturgias indianas. e como estas anormais. a alma humana pode reencarnar na terra. Há quem assegure também que Jesus Cristo. gabava-se de ter sido um guerreiro do tempo das Cruzadas. por u m seu sectário encoberto. a indiana Trimúrti. Expliquemos este s ubtítulo. o Mago. Apolónio de Tíana. e o famoso Cagliostro professaram doutrinas idênticas. te digo que não pode ver o reino de Deus senão aquele q ue renascer de novo. as quais nele foram denominadas lIletempsicoses. que tanto brado deu nas cortes de Luís XV e Luís XVI . ou noutro qualquer pla­ neta. filósofo grego. na verdade. porém. Vixnu é conhecido e venerado na Í ndia in teira como o deus dos /love avatares. assegurava re­ cordar-se. O Egipto adoptou da Í ndia a teoria das reencarnações.NOTA ACERCA DOS «AVATARES DE UM ATEU» A Senhora da Melancolia tem um estranho subtítulo assaz profano: A vatares de Um A teu. e que havia sido iniciado nos mistérios rituais do Egipto. o Rabi de Nazaré. Simão. haver s ido um famoso combatente na guerra de Tróia . Jesus Crichna. que sig­ nifica reencarnação. pretendera aludir a estas reencarnações sucessivas das almas. homem abastado de bens e assaz considerado no cinédrio de Jerusalém. foram as derra­ deiras encarnações de Vixnu. Segundo estas ancestrais liturgias. sendo procurado misteriosamente de noite. além de outras estranhas existências anteriores. O célebre conde d e Saint Germain. mais transparentes e claras ainda . reverenciado também sob o nome sagrado de Çákia-Mlmí. tantas vezes quantas lhe sejam necessárias para o seu depuramento espiritual definitivo. o chefe da trindade divina. não foi isento desta lei universal mística.» Se estas palavras parecerem. quando. Pitágoras. ainda obscuras ou simplesmente parabólicas. O próprio Brama. lhe disse estas decerto significativas palavras: «Na verdade. mais o famoso e celebrado Buda. chamado Nicodemo. natural de Sarnas.

ela é um preito doloroso. Basta que ele sej a um homem j usto. limpo de coração. Digo-vos porém que Elias já veio. mesmo afastado durante um largo período de tempo do ideal de Deus. o Precursor: «Se vós o q uereis bem compreender. que melhor escla­ rece ainda o s u b título.POEMAS ESCOLHI DOS 227 s ão estas que disse aos discípulos falando de João Baptista. I. Como poesia. com uma ligeira variante. A variante do autor é esta: Não é imprescindível de forma alguma que sej a um homem de génio aquele que um belo dia e n con tre a sua es trada real de Damasco. que os Apóstolos conhe­ ceram que se tratava do Baptista. cavado. tene­ broso : como filosofia. Esse regresso pode não ' . e fizeram dele tudo q uanto quiseram. dissimulado. no reinado de  ntipas. o propósito do autor. como Saulo. e confundira com ásperas palavras e prodí­ gios magníficos as imposturas dos sacerdotes de Baal. sobre a montanha do Tabor. e que haj a sempre fortemente e sinceramente aspirado ao ideal supremo da Verdade Absoluta. A tese do Goethe era esta: «que o verdadeiro homem de génio. ele é aquele Elias que há-de vir. estriba-se na mesmíssima tese do Fausto. tetrarca da Galileia. angustioso.�rguntar-nos-ão. nítida e trans­ parentemente enunciada por Jesus. Só então compreenderam que o Precursor fora portanto uma re­ e ncarnação daquele rígido. dos Saduceus. como fim i nevitável e ú nico de toda a Ciência e toda a actividade h umana». » E mais tarde ainda estas não menos sugestivas: «Elias decerto há-de vir e restabelecerá todas as coisas. e dos Mestres da Lei Mo­ salca. recto. Qual é o obj ectivo filosófico d A Senhora da Melancolia. e austero profeta Elias. regressa um certo dia sempre a ele. e aonde ali a cegueira dos seus olhos se cure e dissipe enfim. confundiria as dou­ trinas dos Fariseus. ao s udoeste do lago de Tiberíade. na extraordinária cena da Transfiguração. Ora estas finais palavras sobre as 1 eencarnações proferira­ -as Jesus. que outrora combatera intrepidamente de face as atrocida­ des do rei Acab. naquela maj estosa e poética montanha da Síria. e eles não o conhe­ ceram . sardó­ nico e incest uoso Herodes  ntipas. e do seu subtítulo Avatares de Um A teu. morto por h aver comba­ tido as impiedades daquele voluptuoso. tal como mais tarde.» Foi só então a esta teoria das reencarnações.

d ecerto. e o último que marcará o óbito e o enterro de Satanás . mas sempre ao radioso.que é um minuto apenas da" eternidade .dir-nos-ão . ao jus tificá­ tivo. . e porque elas entenebrecem a doutrina tão límpida. e tão plácida de Jesus. Daí os Avatares de Um Ateu. cuj a teoria é mais consoladora. e aburguezado dia de hoje. até que se com­ plete a espiritual perfeição. . Mas esta tese . por desnecessárias e estéreis.é como a vossa própria poe­ sia. efémero.mas numa série estirada delas. Benditas essas estranhas Camélias Azuis! As U topias n ão pertencem nunca ao estreito. do que a dos ciclos tenebrosos dos i n fernos d o Dante. uma estranha e excepcional Camélia Azul da Utopia! Que importa! .228 GOMES LEAL ocorrer numa única existência . . ao triunfal e espiritual amanhã. Esse dia será na realidade o primeiro da felicidade do Ho­ mem. tão calma. dos quais a s portas encarnadas serão fechadas para todo o sempre um dia à chave.

PÁTRIA E DEUS E A MORTE DO MAU LADRÃO .

.

L. oprimido. . vê hoj e o ímpio Mau. Fidalgos e plebeus tratados como os cães . João Baptista foi um seguI/do avalar do profeta Elias. o azorrague me dês com que ou trora no Templo z urziste os vendilhões: «Toma-o! » . Se­ gundo esta doutrina. como os superiores para evangelizarem e doutrinarem. supl ico-te ó Rabi ! que para duro exemplo. segundo os evangelistas. chorando. peq ueninos morrer sobre os pei tos das Mães. G. Os teus Padres. . as barbas arrancadas. que os povos há traído. ó filho de Adonai ! o teu servo Senhor. ó Cristus. No Cristianismo também. III E e u que amo a J ustiça e as tuas leis contemplo. e por isso é chamado o deus dos I/ove avalares. contristado. Luto. IV I A valar é um termo da l iturgia indiana. disse C ristus . H orror! II Temos visto. no fim dos tempos humanos.o SEGUNDO AVATAR' DO MAU LADRÃO I Cristus ! Cristus! Cristus! 6 grande I ncompreendido. prostrado ante o teu lenho. de joelhos. Na índia. a Cruz . os teus servos encher de Opróbio. que significa ReeI/carnação. Vixnu encarnou nove vezes. em grande turbação. . e deve reencarnar ainda uma terceira vez. não só reencarnam os espíritos inferiores para se aper­ feiçoarem. a o estalar das granadas. As Igrejas cristãs por ateus profanadas.

232 GOMES LEAL v E um certo homem entrou com passos apressados. as Teocracias. VII E este homem entrou tal e qual como a espada dum fero H uno do Norte ou Bárbaro do Sul. Pregava contra Deus. e em seguida sol tau uma frisa risada. se estavam lá maraus de bigodes suspeitos. i a espreitar por de baixo dos leitos. na nossa Capital lavada de água e luz . contra os Céus a ladrar. conquistada ao Alcorão por Lusos e Cruzados. À noite. como em todo o poltrão de fígados tigrinos . pintados d e carmim e adj ectivos bonitos. VI Ora. e em cujos templos de oiro e mármore lavrados. IX A cobardia vil era um dos seus defeitos. . Em cada Igrej a erguer um Circo e um Lupanar. VIII Desde então a C idade ouviu mil heresias da boca deste ateu. ergueu o olhar à abóbada azulada. tentavam mascarar em farsas nossos ritos. os Reis . Queria os Paços Reais tornar estrebarias. . Entrando. levantavam-se ainda os braços de Jesus. . e em toda a parte via espiões e assassinos. . . . . e a Moral em gen til cocote de Paris . tal como Satanás quando escalou o Azul. isto sucedeu pelos tempos malditos em que a falsa C iência e da Arte o verniz .

Parodiando Nero. . Era ateu e doutor. aparecia a fera. um certo ar sinistro. com fardas de ministro'. Mesmo a tentar sorrir. clamou com grande voz. C omo os ladrões. XI Tinha inveja aos Heróis q u e causam pasmo e abalo. B uscava o aplauso vil dos vis rabiscadores. a asssar conspiradores. Do Orfeu seria o bobo e do Petrónio um calo. soltando agudo grito: «Olhem quem ali vai! ! O próprio Mau Ladrão!» XIV Era ele o pífio Mau! Ressurgira do esq uife. que contemplara aflito o trágico Jesus no quadro da Paixão . notava-se em seu rosto. mas voltara outra vez a ser salteador . XII Mas inda q u e pigmeu e ridículo como era. mas deles somente era a vil paródia e o zero. . Tinha bigode e pêra. Queimaria cristãos na Praça da Figueira. da loira Radcliffe. ele tinha o Herculano à sua cabeceira. porém. . Do C alígula atroz. .POEMAS ESCOLH IDOS x Assim como Alexandre amava os bons autores. 233 . O Orangotango azul de Lúcio Cláudio Nero. rilhava muita vez o seu caseiro bife. vendo passar na rua o D itador Maldito. XIII E eis q u e u m certo rapaz. Era o rei Macbeth. mas com bigode e pêra. Caim e o Mau Ladrão. o consulador cavalo.

defendia a bandeira com seu peito. de Egas Moniz. esposa. pois que ainda não fomos destruídos pelos heróis da Europa assaz gabados. direitas. que havendo prometido aos de Castela entregar certa praça ao Rei. Paxá do Oriente. que e m Toro. teu abandono! . . III E u choro a fal ta. Cumprimentei teu sol.234 GOMES LEAL UMA PALESTRA C O M PORTUGAL ( Sátira heróica) Meu Portugal! eu já cantei plangente teus rouxinóis na balsa verdej ante . Mas agora. . . ou não pôde entregar a Cidadela. soldados valentões bem artilhados. De manhã na trapeira de estudan te. É a ausência das almas. mas que recto e leal. reclinado em sofá azul brilhante. O que eu choro e me faz soltar gemidos é a escassez fatal de homens honrados. corre a entregar-se logo e à paren tela. . prova que a honra é mais que os falsos brilhos! IV Choro a falta do alferes. ao luar do teu outono. e de corda ao pescoço. . e filhos. II E u não choro a escassez dos aguerridos. curva a cerviz. não quis. sim. dum João de Cas tro e dum Martins de Freitas. Já te cantei no bosque ao Sol-poente. honrado. só pranteio teu mal.

o pendão das Quinas. E ainda assim. Rei audaz. e exclama. entre os dentes! v Também lastimo o herói recto e bendito. heróico. ao qual gritando alguém: «Os inimigos já levam a melhor. . 235 . todo em sangue. e mutilado. Mas ele recto sempre. o esquerdo substituiu logo o direito. . trespassado de lanças. morre. ren tes: morre. calmo. prestam socorro ao infeliz que chora. a persuadi-lo contra o Rei. Fuja Senhor. qual torpe desertor. a clamar nas ânsias da agonia: «Não rendas o Castelo de Faria!» VI Lastimo Sebastião. e devagar!» VII Quantos são hoje aqueles que n a hora do I n fortúnio. forçam-no a ir ao castelo de granito do filho. faz recuar um batalhão desfei to. os Seus Fiéis. mas com honra.'». a espada ao ar: «Morramos. não q uer n unca deixar os seus amigos. para os tolos sem valor. Rei amado. que sendo preso da espanhola grei. do Azar. que na hora do assassínio viste ao lado? . ficam fiéis à Glória mal segura? Quan tos são os que vão na rua em fora. da Desventura. até que os braços decepados. herói e m perigos. . .POEMAS ESCOLH I DOS e q u e sendo-lhe um braço decepado. sempre invicto. acompanhar o humilde à sepultura? . firme à Lei. Quan tos foram Rei Carlos.

Manuel. que dos maus tratos defende sempre o amigo verdadeiro. Coutinho? . mas até uma alma linda se alevanta flor das almas cristãs. fiéis. onde encontraste além da sepultura amigo mais fiel do que um Arnoso? . . que encontrou no des terro partidários. que os seus difende. D. que exploravam tua alma e teu dinheiro. Onde encontraste o Herói. . Escribas. tanta. tão pródigo no bem como no gozo. . Rei infeliz. mas nos lances fatais. lances contrários! Qual deles mais valente ou mais fiel combateu os mações e carbonários? . como os lendários Doze Heróis de França. João? . até que o vem matar? X Mais feliz foi teu filho D . D. Qual deles mais valente e cavaleiro. os Pilatos. . e entre os Judas. XI E não s ó tal valor a Fama espanta. como o Rei 'cavaleiro e modelar. . . Esta é neta do Gama! E tanta. Constança. não só na escrita e no papel. glória a Pátria quis dar-lhe. ou o leal Couceiro? . . um peito recto e leal de Egas Moniz? . Quando soou d a trágica aventura o minuto final e angustioso·.236 GOMES LEAL VIII Tão generoso até quase à loucura. IX Com raras excepções s ó viste ingratos. até um certo vate trapaceiro. aonde encontraste ao pé. em prémio à Esprança. .

237 . Já te can tei no bosque ao Sol-poente. . . De manhã na trapeira de estudante. Paxá d o Oriente. florias. em que minha alma em flor. a sorrir. . D . ao luar do teu outono. teu abandono! . de graça soberaha. as finanças! Vou mais além no abismo das falências : C horo o défice a troz das consciências. . o Amor. só pranteio teu mal. E tu. Lírio Real. mais as lembranças dos seus fei tos audazes ou vitórias ganhas no mundo en tre esquadrões de lanças. . eu não choro entre os goivos da Oratória. reclinado em sofá azul brilhante. Mas agora.POEMAS ESCOLHI DOS à C aridade e amor dos infelizes . a Liberdade. XI I I M e u Portugal! e u já cantei plangente teus rouxinóis na balsa verdej ante . cheia da febre insana do I deal. que a entaipou n a prisão das meretrizes. as ruas da Cidade. e os Ciprestes das Cifras. MARIA PIA (Viagem à roda de u m coração) 6 piedosa Maria ! ó pálida i taliana! es tou recordando agora a loira mocidade. C umprimentei teu sol. pretendia arrasar toda a Malícia H umana. . XII M a s repito: a o evocar estas memórias dos saudosos Avós. da Justiça.

bela entre as belas. Era feliz então. . a consolar as mães e os tenrinhos infantes . . a água sentimental de teus olhos divinos! IV Recorda-me também que escrevera um planfleto. . . . a sorrir e a chorar! III las rindo e chorando. Por um pouco talvez. Mas tu. a alma e o coração como uma bofetada. Dizem alguns q u e nele eu fi z d o branco preto. com um prazer. . que nos dão ao voltar uma esquina ao Sol-pos to. . toda a mulher que chora abraça 'os pequeninos. ó piedosa Maria! V A ignomínia porém que me turvou o rosto. mas outras a chorar como em horas tocantes. Mas o que vou j u rar. é que o não leste tu . foi q u e e u . Outros que fabricara a flor da Judiaria. como o direi.238 GOMES LEAL II Nesse tempo feliz tinha o cabelo preto. ias. secreto. e como a desafiar o sol mais as estrelas. que às grades me levou de uma prisão sombria . meu jovem coração s ó tinha riso e afecto. sem raiva e sem desgosto? caluniara em ti a Mulher e a Rainha. que me assavam no espeto ! . quando começa a treva e começa a facada. que agora me escasseia e está todo a nevar . e que a Luxúria sai ao tombar da noitinha . de porta em porta. Ai! Eram da melhor água que os diamantes. às ocultas do Paço. . Umas vezes a rir com eles no regaço. . o meu bigode loiro aprumava-se ao ar.

POEMAS ESCOLHIDOS

239

VI
Como escreveria e u uma afronta directa
contra ti que eu chamava o anjo loiro do Bem,
eu que ousara pregar que "não havia um poeta,
que caluniasse nunca uma mulher honesta
fosse ela uma leprosa ou o Lírio de Betlém,
eu que cantara ao sol como um clarim em festa:
que em t i preferia à C'roa, o diadema de Mãe? . .
VII
Foi então que a o sair do meu cárcere um dia,
enchendo a alma de sol e os meus pulmões de ar fresco,
vi-te passar num carro e cheio de alegria
num arranco gentil, num gesto romanesco,
que casa tão bem com minha alma leal,
atirei-te uma flor sem temer o grotesco,
pálida rosa a abrir. .. ao teu coche real .
VIII
Era cândida a flor, era cor d a inocência ! . . .
Mas não tocou n o alvo, e rolou pelo chão.
Tu viste o gesto e a flor, e talvez que a eloquência
que tem tudo que é nobre, ou romanesco, ou santo,
fez que no gesto e a flor descobriste a intenção.
Levemente anuviou o teu olhar um pranto,
e esse pranto, talvez, verteu-o o coração! . ..
"

IX
Tempos correm depois: e eis que e m seus armazéns
os credores que ao teu pé se mostravam servis,
tornavam-se sultões em vez de joões-ninguéns,
exigiam milhões por contas de vinténs,
e em vez de buldogues, tornavam-se reptis.
6 Justiça! homens há mais ferozes que os cães !
6 Treva! há corações, piores que os teus covis!

240

GOMES LEAL
x

Caíram sobre ti os rapinantes finos,
que te haviam burlado a seu belo sabor,
e fizeram chinfrins quais badalos de sinos,
diabos teatrais com seus tantãs mofinos,
e trovões de opereta ou rufos de tambor.
Três vezes defendi-te em jornais jacobinos,
e neles chicoteei deste século o impudor!
XI
Chega a Miséria enfim . A h ! como pungir-te-ia
a nostalgia então do teu país natal,
com todo esse esplendor e toda essa magia
dos canais de Veneza ao som das barcarolas
num cenário de sonho, estranho, original,
ao ritmo das canções, das harpas, das violas,
e ao longe, mais ao longe, a Roma e o Quirinal!
XII
Como t e lembraria essa I tália amorosa,
Mãe da Arte, do Amor, da Música divina,
dessa pátria ideal que o Virgílio cantou,
em que o Tasso escreveu, padeceu, e amou,
e Rafael morreu beijando a Fornarina?
E ao alto, mais ao alto, essa voz religiosa,
que fez chorar o Azul , o excelso Palestrina!
XII
Como lembrar-te-ia a vida d e família,
cheia de Cor e Som, sem a indigência atroz! . . .
N a pátria d a Mignon, d a Laranj eira, a Tília,
a existência é suave, e suave a humana voz.
Suspira o rouxinol em luarenta vigília.
E até alguém ouviu, sob o mar da Sicília,
a rabeca gemer do queixoso Berlioz!

POEMAS ESCOLH I DOS

241

XIV
Mas em t a l forma estava o teu Deve e Há-de" Haver,
que a falência chegou, brutal, perseguidora! . . .
E t u tão piedosa e tão pronta e m valer
à criança, ao infeliz, a toda a dor que implora,
tinhas processos mil e ameaças da Boa Hora,
ar ter dado milhões a quem os queria ter!. . .
E ó piedosa Maria, enfim chegou uma hora,
em q ue tiveste até . . . de dar a alma e morrer!
XV
Ah! q uem dirá agora a trágica Odisseia,
d a tua alma ao sabor de tantas decepções,
flu tuando entre a tua e a opinião alheia,
en tre os paços reais e o uivar das multidões,
e a ver, como em tal caos, dirigir teus des tinos? . .
A sorte o decidiu. Primeiro o s maus ladrões.
Em seguida os punhais, e as bombas de assassinos!
XVI
Quem narrará depois a dor angustiosa
das d uas mães chorando os seus dois filhos mortos,
cada uma abraçada à imagem mais preciosa,
uma de olhos no Céu, outra de olhos absortos? . .
A mbas sempre a chorar, com olhos j á sem brilhos!
Ambas torcendo as mãos, sem ouvirem confortos!
Ambas bradando aos céus: «Eis aqui nossos filhos ! »
XVII
Quem poderá narrar a s peripécias duras
da Revolta a estoirar pelas praças e os cais,
a confusão no Paço e as dores e amarguras
dalguns servos fiéis, os gestos e as torturas
da mãe beij ando o filho, e as filhas mães e pais? .
U ma ao Cristo a rezar, em todas as posturas.
Outra, de olhos no chão, dando profundos ais.
.

242

GOMES LEAL

XVI I I
Mas t u sozinha a um canto: o olhar fixo e parado:
fitavas no tapete as rosas de carmim.
Pareciam-te sangue, e o teu cérebro airado
em tudo via sangue, e o braço de Caim!
De quem seria um sangue, assim tão encarnado? . . .
Tomaste u m reg;;tdor, alagaste o encerado.
Piedosamente, após , rezaste algum latim.
XIX
Dizem que estavas louca e falavas sozinha.
Sim louca de sofrer! sim louca de chorar! . . .
Ai! antes fosses t u ó mÍsera e mesquinha!
sem esposo, sem filho, e sem pátria, sem lar,
em vez de mãe sem filho, e sem c'roa rainha,
ai! antes fosses tu, uma chã pastorinha,
mulher de um pescador sobre o Tibre a cantar! . . .

o TENTADOR
ou Jornalistas fim de século

Nas histórias de heróis de boa ou má nomeada
sejam eles Orfeu, Tenório, Rocambole,
quer pertençam à História, à Taberna, à Enxurrada,
em todos se acha a lenda em fá ou si bemol.
A lenda narrar vou do Tentador sombrio.
Chegai-vos ao fogão, se sentires algum frio! . . .
Sentava-se o Dou tor numa fofa poltrona,
lendo um livro francês, mas não sei bem o qual,
em que haviam ladrões, sicários, beladona,
venenos, mil paixões, tragédias, e punhal
quando entrou, grave e loiro, um correcto criado,
anunciando romântico: «Está ali o Embuçado!»

POEMAS ESCOLHIDOS

«Não recebo ninguém sem dizer o seu nome!»,
respondeu o Doutor, com seu modo assaz frio.
«Senhor!», tornou o servo: «Ele diz que tem jome
e sede de justiçai E diz isto sombrio.»
« Manda entrar», exclamou o doutor secamente.
E rosnou lá consigo: «É um secreto agente!»
É preciso avisar o leitor que nesta era
reinavam o Terror, Mações, ou Carbonários,
dos que irrompem fatais quando ninguém espera
das ruas, dos portões, dos baús, dos armários .
O bom Terrail aqui passara maus bocados.
Mas faria um romance: A Era dos Embuçados.
Passados cinco ou seis minutos, se me lembro
da história que escutei certa noite à lareira,
em noite de trovões e chuvas de Dezembro,
o d i to Embuçado entrou, qual na toca a toupeira.
Parecia um salteador das ruas de Paris,
e nem mostrava à lua a ponta do nariz.
Quando no q uarto entrou viu-se uma ganforina
preta como um carvão, e uma floresta escura,
dois olhos, dois tições, numa face caprina,
e um sorriso infernal de feia catadura.
De modo que o Doutor, três segundos ao cabo,
dizia aos seus botões: «É tal e qual o Diabo!»
Ergueu-se cortesmente o Doutor da cadeira
e apontando o sofá ao tal desconhecido:
«A que vem, C avalheiro! a esta casa hospedeira»,
pergun tou, dando a mão, com ar grave e polido.
Com vagar repimpou-se o outro sans jaçon,
e segredou baixinho, a sorrir: «Sou maçoni»
«Eu suspeitei-o logo!», o Doutor diz rilhando
um bom charuto havano, e dando outro ao Embuçado.
E dizendo isto, à cautela, a porta foi cerrando,
não por medo aos ladrões, mas decerto ao criado.
Pois neste tempo ideal do Progresso, ó leitores,
criados há também cidadãos Redactores/

243

o rico bago!» Como outrora em Veneza aconselhava o l ago. . altas horas. e por isso. a nossa loira Mãe. um assassínio.título é dum jornal famoso e omnipotente. «derrama tanta luz hoje por toda a I béria. «O Globo q ue eu oferto ao seu génio eminente . Cantava ele solaus à s donzelas e à s luas.o Cavalheiro do Abismo! esse heróico galã das Freiras e Rainhas. «Para me entronizar em lugar tão subido estranho poder é o seu ! . «Também não sou. a Guerra. que a si venho a traído e como fascinado qual borboleta à chama e ao Sol toda a Matéria. erguendo-se de pé. ou então . gargalhou. que já não vale vintém! . o ambicioso romanesco. se me caíres aos pés. sonoras. um roubo! . como Ele. com risadas teatrais. . decerto é o próprio Deus. Satanás!» «Satanás!». começou o Embuçado. Eu mais prosaico sou : «Como. Cavalheiro q uem é? Para o império me dar do Globo. cantando o Amor e Uma Cabana!» . como ele. ávido só da Glória. metálicas.com mágoa o digo . exclama enternecido e assombrado o Doutor. o qual estava quase a tornar proporções de Belzebu. .244 GOMES LEAL «o seu génio imortal». mas a Terra estragou. .» Eu mais prático sou : «Quero Oiro. ostras cruas . Por isso aos pés lhe ponho a direcção d o Globo. sublinhando essa frase. . o frascário galante que dizem perdeu Eva.» «o Globo. com certo ar quixotesco: «Dar-te-ei o meu poder. «Não sou . . o que é que diz?». assim como tu és. . o sombrio Embuçado. à noite. Por si faria um crime. não só manchou esse brilhante. . que possuía no olhar o estranho magnetismo de prender ao seu carro as mais lindas carinhas! . . que propôs a Jesus. a Paz. mais que à Patti. .» «Não sou também. Eu mais prático sou: «Amo a rica e a mundana.

porém. então. a que ele a asa arrastava. E rosnava aos botões : «Quem será este H indu.» «Também nunca vadiei como ele no Brabante. esse boémio franco. modesto -. e presente lhe fez do imortal corpo branco da loira rapariga. Não preciso assinar portanto certamente um pacto infernal. » o Doutor que também n ã o odiava o Algarismo. nem rosas desenhei com ele numa l áj ea. com certo ar de bom tom. disse ele. «Nasci».» E sorriu-se o doutor. «pelos anos da Outorga. Papa e Envenenador. e assino a papeleta! . do Globo Redactor. esse glacial cinismo. eu saco da lanceta. Mas eu sou o Bórgia só. «Urge porém dizer o seu nome. com ar tão chocarreiro. são redes para amores! . Espantava-o. e ofertando galante dois cravos virginais à loira Santa Pelágia. que às vezes leva à Forca e outras ao Panteão.POEMAS ESCOLH I DOS 245 «Também não fui . Outros chamam-me o BOIja! «Andei na borga é certo . que o outro cuidou ver um epigrama alado. o A lemão. Jóias. Canções. abro a vei.a. sai sangue. Na estúrdia patusquei! Mas não de gorra e capa! E onde me vê aqui. Rosas. Bórgia foi m e u avô. Tenho outra orientação: «Nunca empresto dinheiro! E saio logo que entra em cena o alcoviteiro. o Embuçado aplaudiu . ó C avalheiro! Pois o que sei somente é que é o Rebuçado. E u mais prático sou: «Não perco dinheiro em flores .ele continuou . . cor dos carvões do I n ferno e pior que o Belzebu ?» Ergueu então a voz· e disse jovialmente: <<] á sei de que se trata e a sua oferta aceito. nas tabernas ceava. Meu apelido é Bórgia. que com Fausto. como ele. Está direito! M as se é urgente o pacto. com este olhar funesto. namorando a Rainha. » . . e d iabólico: Eu sou o bisneto dum Papa . . como o Fausto. .

a face terna. o Láudano. «Não com Água Tofana ou outra droga i nterna. o meu engraxador!» Na mão introduziu-lhe um rico par de notas. peitos. somos uma alma só. reis do Globo. com ar de bon vivant. e ruas! Libaremos Tokay! Lacrima-Christi! Aguardente! em chalés triunfais. aguerridos. e na mão uma pena!)) Extasiado o Doutor. ouve bem! .)) «Nunca!».246 GOMES LEAL «Enveneno também». Mas só agora o achei! Posso gritar: «Eureka!)) Desde hoje. um ar de bom rapaz. sendo eu que tudo dei. . exclamando: «Com a breca! Há muito um homem busco à luz duma lanterna. olímpico. audazes. «Serás sempre. disse traçando a perna. «Ave César/!). ao Bórgia se abraçou. e em sofás cor da noite. o outro rugiu. entre manolas nuas! Mas sendo eu do Globo o actual director. Com o Código ao pé. acho correcto e j usto: que traces num papel. Mas de forma correcta e até muito amena. Almas. a Aguarrás. com sedas do Oriente. A Beladona. gritou logo o outro sem custo! «Salve I mperador C láudio Nero Justo!» Riu-se como um palhaço e deu-lhe lustro às botas . risonho. que sou o Único Senhor. em dois irmãos unidos!» o Embuçado tossiu e bradou imponente: «Desde hoj e o Globo é nosso. grave. augusto. o Ó pio.

247 . N inguém mais conservou os seus gestos serenos! C asacas de bom tom beijavam os Decotes. beij o em flor. pondo Eva junto a Adão. recebiam à porta as cocotes gentis do C lube dos Macavencos . desfeito o seu verniz. em palestra pegada. a saia arregaçada. gentil. . Mas seus barretes frígios tombam-lhe muita vez sobre o conhaque e o anis. romântica. Foi a estopa e o morrão! Uma geral risada . caril.POEMAS ESCOLH I DOS A NOVA RIGOLBOCHE OU A DEUSA DA RAZÃO Orgia Macabra do século xx Ceia fim do século! Uma mundana ceia! Cantoras teatrais e dos melhores elencos floriam os salões. Lá fora a Lua ideal. como pálida Ofélia às lérias dum civil . Directores joviais e até dos mais moquencos. M as o Porto e o Xerez incendiando o Desejo. e tudo que era bom e ao Ventre mais importa. cavalheiros cruéis chamavam-lhes cocotes! Todas em alta voz citam heróis de Paris. . alegrou toda a sala e tranformou-a em Vénus da cancã. H avia bom Xerez. Se o Tokay e o Xerez tinham fei to Quixotes. às damas radicais. de casaca e grã-cruz. Porto. Estava-se ali bem como ao frescor duma horta ! . Os mais sóbrios Josés tornavam-se Silenos. fez que de chofre ouviu-se escandaloso beijo. Tokai. Dão vivas a Marat. deixava-se embalar pelas canções do Tejo. Trinchava-se a lampreia.

que a História Natural assinala às serpentes.248 G O M ES LEAL Enquanto ao Mau Ladrão esse obrava prodígios de eloquência labial. a sua heroicidade. . era a deusa do Mundo! Quando acabou. o Di tador em êxtase exclamou: «Viva a Rua! 6 Margarida eu quero adornar-te de flores. recitou com vigor uma ode à Dinamite! Ao findar aj untou com seu ar mais j ucundo: que amava a Margarida. toda em pé aclamou. a formiga da élite. . como as deusas pagãs. levando à fronte a mão. a Razão. E entrando u m tanto mais pelos vinhos eloquentes. e que Ela. dão palmadas febris nas panças dos ministros . Jura por Belzebu que é o senhor do Mundo. e demonstrava a fundo que ele vencia sempre os mais córneos l itígios . Ferreira da Moral com j aspeados dentes. com um gesto profundo. o excelso Bórgia. as Flores. ao pé do pai Adão. obteve estrondosa ovação. papa mil camarões com o belo apetite. como Eva. Assassinos e espiões j á estão menos sinistros! . e em pelote. somente Ela. Toda a minha alma é tua! «6 Razão! Vénus loira! ó mãe dos meus amores! ainda apenas vagia e era tenrinho infante. e flautins. E o Bórgia.e eras j á meus ardores! . E à bela Margarida expuseram-na nua. e com sistros. guitarras. com flautas. e que fora ele só que empurrara a Verdade com quatro cachações para o seu poço imundo! E o caso é que afinal a selecta sociedade. não tinha ainda queixais .

o Som! A ela eu j á rezava . inda não tinha dentes! « Por ela amei o Mau e excomunguei o Bom! Porq ue o Mau é infeliz. ordena que as m ulheres se exibam naturais. anis ! «De j oelhos todos vós . Ungi-a com Xerez. a soluçar. . glacial. como Ela. Parecia em tal festim o Conviva de Pedra. q u e cantava assaz bem. Kirie Eleyson! Kirie Eleysoll!» À s farsas m uita vez sucedem maus reversos ! As damas radicais vomitam pelo chão. como preito à Razão. um homem entrou. a Fedra: griou que amava o C antoj e não certos misteres! Sim. a Arte é ideal ! A que é vil pouco medra! Nisto. A1adeira. ó multidões uivantes! Prostai-vos a seus pés. a Cor. 249 . Ferreira da Moral. . todas nuas. Porém uma cantora. a espanhola Prazeres. de joelhos reverentes! Ela é a I deia. o Ditador das Ruas. O Bórgia. ó cocotes gentis! E por ela esquecei até irmãos e amantes! «Foi esta a deusa ideal que adorou já Paris! Coroai-a de j asmins! Dai-lhe vinhos eloq uentes. pede soda. a Forma a Luz. O Ditador. Porto. cheio já de Bordéus e dúzias de ostras cruas. porém. uma paixão!. ·sombrio.POEMAS ESCOLHI DOS «De j oelhos todos vós. e o Bom q uer o universo somente para si. um amor. . . da cor de um pimentão. numa ópera. Frio. q uer recitar mais versos. mais soda.

gentil ave de agoiro? H iena.250 GOMES LEAL o AZORRAGUE DE JESUS I o Ancião falou assim: «Maldito o homem sem brio. nobre ancião. no teu estio e inverno! Maldito sej a quem. que vai a Religião nas tascas salsuj ar. Eu sou o triste e sól O cavaleiro infeliz do elmo e a cota escura! O que foi ímpio ateu. pó! . que achincalhou Jesus quando estava a expirar. como enxovalha um templo o magro cão vadio! II «Conheço muito bem Mau Ladrão teu uivar. queres trincar? Não há carne corrupta! IV o DESCONHECIDO Mas hás tu que estás podre. tua palavra escuta! Assado sejas tu. e é terra. Tu deves ser decerto esse mastim do Averno. . filho de prostituta? Que vens aqui fazer. ó sanguessuga de Oiro! Mas hás tu. e ainda sarna no coiro! V «Perguntas quem eu sou. que a alma tens mais leprosa que Job! Sim tu com sarna na alma. sempre no fogo eterno!» o MAU LADRÃO (irónico) Quem és tu. III «Maldito sej as tu. . cinza.

E ai! achei-o! . nas neves e os destroços! Eu que q uase a expirar. toda a zona gelada! Sim fui eu que vaguei. nas bocas das cavernas ! XII « M a s q u i s voltar um d i a às regiões e m flor onde eu amara em moço. e antes foi pedra dura! VII « E u sou o que apupou o espiritual Anil! Aquele que pregou da Dúvida a cruzada! Aquele q ue escreveu nos reais paços: Nihil! VII I «Sim fui e u que cruzei. tracei nos gelos: Nada! XI « U m solitário um d i a achou meus pobres ossos q uase a en terrar-se em gelo. Ides ver uma flor! . Encontrei-o! . e rezei entre assombros. sofri. . . Arrebatou-me aos ombros levantou-me. . X «Com ele vegetei dez anos entre escombros! Com ele converti-me às regiões eternas! Com ele cri. e tinha um filho caro. . 25 1 . amei. XI «Sim com ele aprendi a s frases meigas. e rezou Padres-Nossos. ternas! Com ele me i niciei na Oração e no Amor! C horei.POEMAS ESCOLHI DOS VI « E u sou o q u e surgiu da neve e a sepultura! Aquele que morreu e ressurgiu no abril! O que enfim creu e amou. nutriu-me. . . iuvei.

fora. a esp'rança derradeira! . . . Raquel! pobre Raquel! XVI (Chega-se irritado para o pé da Deusa Razão e brada:) «E dizer que morreu duma bomba ao destroço. . dando gritos de assombro e terror. . .252 GOMES LEAL (Arregaça a longa capa que o envolve. . e cruza os braços. Depois assim fala:) XIII «Relevai a um velho este seu pranto amaro ! . Era o meu filho único. não posso ! XVII «Vai-te galdéria vil! Comborça. Pobre mãe que o gerou. Ó rábido molosso! que tanto tens sugado a infeliz pátria nossa. e em nome da Razão. O velho silenciosamente chora. Era a pomba da Arca e o ramo d a oliveira! XV «Triste destino o meu! cruel! muito cruel! para um velho que está tão perto do caixão . Coloca o cadáver dojovem sobre a banca onde está exposta a Deusa da Razão. de ti vil Meretriz! não quero ouvir. rua! . . e aparece o cadáver dum jovem horrivelmente mutilado pela explosão de uma bomba de dinamite. Todos recuam. Nada m e resta mais! Era o meu sol e amparo! XIV «Era ele a tábua única e a prancha derradeira que ainda me prendia ao meu pobre baixel . até já nem restar-lhe a magra pele e osso! .. (Voltando-se para o Mau Ladrão:) Mas tu é que és a causa. de ti Comborça nua. . .

o vil. como eu. Mandas pôr o elogio. Uma lágrima e um escárnio. q ue perdeu.' tornaste-a o alvo só da europeia troça! XIX « Perdemos. o torpe. o azorrague do mundo! 253 . um palhaço e um esqueleto. a sua honra e o dinheiro. Perdemos a vergonha e a honra dos Avós. e pagamo-lo nós! XX I I I « M as cedo. também crente profundo! Tu serás. como eu. num instante. crendo-te o salvador desta pátria do Gama. é hoje um magro espeto! XXI «Somos hoj e a galhofa e o escárnio do Estrangeiro. um entremez e um drama! XX «Somos um bobo a rir e a chorar. a Opulência e a Fama. o imundo. e trarás sobre o peito escrito: Pátria e Deus! XXIV «Tu serás. mau grado o s vis ateus expulsarás os maus. esse raro favor sai dos bolsos plebeus. na mesma hora. ó Portugal. e sendo outrora um ovo. como eu. Somos um roto H erói. o Enviado do Senhor! Tu serás. bufo e trampolineiro ! XXII «Se ainda a nosso favor alguém levanta a voz. Rigoleto.POEMAS ESCOLH I DOS XVI I I « Pretendendo provar d o teu talento a bossa. ao mesmo tempo. Somos.

que assassinastes padres. e a pomba espiritual. as carnagens lu tuosas. mas até protestantes! XXX «Por mais que uives aos céus. ou que ladres sabemos que és o Pai das extorsões erróneas e mandaste expulsar hospitaleiras madres! XXXI «Pelos partos bestiais das vossas cachimónias.254 GOMES LEAL xxv <<já lobrigo no Além esbranquiçado alvor. no bico o ramo em flor! XXVI <<já vejo Portugal com a espada da Fé! Lázaro vai quebrar a pedra do j azigo! Ao lado tem Jesus. como tu. as igrej as famosas. é que o Estrangeiro pilha incríveis honorários. mais os teus. Como tu não violará as catedrais gigantes . Por teus erros fatais pagam nossas colónias! . Lírio de Nazaré! XXV I I «Renascença vais ser. que rujas. a enterrar o carnal sonho antigo! XVI I I (Sacudindo o Mau Ladrão) «Não saqueará. não católicos só. XXIX « Miserável ateu! C hefe dos rapinantes ! foste tu. Não fará como tu. Vejo ao longe flutuar nova Arca de Noé. não vago sonho ambíguo! M as Sonho Novo. a erguer Basílicas radiosas! Sonho Novo.

al­ teia-se. Um covil de ladrões do moiro Ali-Babá.) o ANANKÉ' I O ANCIÃO (erguendo um dedo ao m) Escu ta ó Ditador a sentença funérea. . o Cristo fez n o Templo. . também outrora. descrido. agiganta-se . Parece um dos Titãs que escalaram o Olimpo. não pare­ ce o alquebrado Pai de há pouco. e repeli-lo. vou açoitar-te a pele e escorraçar-vos j á . . Para castigo vosso. . tendes fei to mais mal com a vossa alcateia que os piratas de Argel sobre os seus dromedários! XXXI I I «Lisboa j á parece a deserta Pompeia. porém. XXXIV «Mas a hora soou e o Cálix cheio está! . querem impedi-lo. . Como que cresce. Carbonários.» (Toma um azorrague dentre a capa. Todos juntos. O velho. como uma espessa mura­ lha. demagogo. e açoita com ele a multidão crapulosa. Assim. .POEMAS ESCOLHI DOS 255 XXX I I «Tu e o Bórgia intruj ão. Rochedo e lupanar de Tibério em Capreia. que eu lavro contra ti. Pregador ciprestal do Extermínio e a Matéria! I Esta palavra grega representa uma excomungação de Fatalidade. Formigas. . e de o utros para exemplo.

da Morte. pai. Não tive Esperança de Fé. a Dor. e marido.256 GOMES LEAL II Já fui também herege antes de convertido. formidável. filho. e atento presta o ouvido: V Desde hoje morder-te-á o Remorso contínuo! Desde hoje tremerás da tua sombra até! Desde hoje verás sempre o olho mau do Destino! VI E o Velho isto gritando e m nome d e I avé. ouve a minha sentença. assassino. IV Como em t i tudo é mau. és cínico. a Sombra. III Tive sempre no peito u m ídolo: A Mãe! Dava tudo que tinha ao indigente e oprimido. decerto é s um perdido! E como além de ateu. terrível. com um dedo espectral escreveu : ANANKÉ ! . tal como tu também. Dei mesmo a um pobre o leito e não matei ninguém. Mas fui recto e leal.

Francos. E nesta visão v i Portugal Triunfante. o filho de Adonai. Germanos. chorei. E então roj ei-me ao pó.POEMAS ESCOLHI DOS EPí LOGO A V I SÃO F I NAL I Ora. assaz arrependido. rijo como um martelo. olhos e pés nus . E os que haviam fugido às Eras Glaciárias Saxões . após isto. atravessar a p é todo o Ocidente e m neve. E disse-me o Senhor. . Jeová: «Não receies revelar isto não revelado! Afronta a vil Descrença e o homem do pecado! · Pois tudo isto q u e vês . depois que assaz contrito. . Teutões. rezei. . tudo sucederá!» VI E e u tive esta Visão. e em cima do seu trono os Santos Evangelhos. pecador pervertido. brilhante como um Sol. gemi. e veloz como um raio. ou como um sonho breve. servindo-o de joelhos. vi. estranhamente belo. Eloim. e exclamei soluçante: «Graças. tendo na sua destra as chaves das Nações. ir sentar-se q ual Rei sobre o trono do Oriente. prostravam-se a seus pés. . o Julgador dos M undos que sonda a alma dos sóis e os abismos profundos. recto Adonai ! graças ó meu Cristus!» 257 . II E u vi mais que esse Rei cercado de barões. Nações várias. levantar-se do Tejo um gigante imponente .

íNDICE .

. . -:--. . 38 " . . . ' " 92 " . • " . ' . . • • . ' . . • . . . . . . ' . " " " " " " " " " " " " " " " " " " . ' " " " ' . . . . . . . . . . . . . . ' " " . " " . " " . . . . . ' . . . . . . . " . Nevros e Nocturna ' Rosa Mística A Senhora de Brabante . . . " . . : . . ' . . . ' . . . . . . . " 19 20 . . . . • 131 " ' . " 14 ' ' L " " " " ' 13 " " " " . . . . . . . . . ' . . .A Tragédia da Rua . ' " . " . " " . A Biografia de Satã " . ' . . . 64 . ' . . . . . . . . . . . . . . . . ' " A FOME DE CAM Õ ES Canto Primeiro .. . " " " " " " " " . . ' . . . A Bebedeira da Baleia . . . . .. . . . . . ' . ' " ' . ' . . . . . . . . " " " . . . " " ' . ' . . . . ' . . ' . . . . . . . ' . . . . ' . . . . • • . . . . " . . ' " " " " " " . . " " " " " " . . ' . ' " . . . . ' . . . . . Ao Rei Carlos de Inglaterra . . . .. . " . . . . ' . " . . ' . « Toast» à Ideia Caricaturas a Carvão . . . ' . " " " " . . . . . " " . . . . ' . 1 55 1 88 . . . " . . . . ' . . . . .". . 1 16 . . Crisântemos Na Taberna A Sesta d o Senhor Glória ' ' A Lua Morta . . . . . ' . . . . . . . . ' 36 " 38 . . • . . . ' . • . ' " " . • . . " " " " 15 " . . ' .. . ' . . . . " . . . . . . . . . . . . . . ' . . ' " . . . ' . . . ' . . . .O Lençol do Génio . . . . " 34 . . . . . . 7 . . .. . . . . . . . . ' . 12 " " " " . . ' . . .'. . . . . . . . . ' . ' " " 17 . . . . . . . A J a'. . . . 1 15 . ' . ' . • • . . . . . . ' " . . . . . . . . . . . . " " . . Fantasias . . . . Palácios Antigos . . . . . . . . 30 " " . 28 . . ' . . . " . . . . ' " " ' . . . .. . . . . . . . . . . . ' . . . . . • ' " 107 107 1 10 1 12 . . .lela do Ocidente . . . ' . . . . . . . . . . . . . . " ' " ' " . . .I ntrodução . . . . . . . . . . . . . MlslIclsmo Humano A Bela Flor Azul . . . . .. . A Uma Horizontal " . . . . ' . ' . . . " " . . ' ' . . . " " ' " TROÇA A INGLATERRA Simples Palavras " " . . . . . " " ' . . . . . . . . . . . . . . . . . . . " " . . . ' . . 9 . . " . . ' . . . . . . . . . . . " " " . . . . . SERENADAS DE H I LÁ RIO N O C É U Acto Ú nico . . . 55 . " Aos Meus Amigos " ' 31 . . . . . " ' . . . • . . " . . 9 . ' . ' . . ' . . ' . Mefistófeles no Cemitério . ' . . . . . . . . . . . . . . ' . " " " " " " " " " " " ' " " " " " . . . . . 45 " . . . " " " . . . . 40 . . . " . ' . . ' . . . . .' Tarde d e Verão . . ' . . . . . . . . . . ' " . . Á gua-Furtada Dum Original Bilhete Dum Estudante . . " O Visionário o u Som e Cor . . . ' . . . " ' . ' . . . • ' . . " " . . . . . . . . . . ' • .. . . . ' . . . . . . . . . ' . ' " 75 . . ' . 87 88 ' . Canto Segundo . . . . . . . . . . . . " " " . . ' . " " " ' " 12 23 24 " . ' " " " " " ' " . . . . . . " " " . ' . . FalstaffModerno " . . ' . . . ' . A Lady ' H umorismo Místico . . . . . .No Grabato do Hospital Canto Terceiro . . . . . . ' . . ' . . . . . . . . ' " ' . ' " . ' " " " " . ' " " " ' . . . " . " ' " . . " " . . . . . . . A Selvagem . ' . ' . " " " " " " " " ' . . . . . . . . . . . Mentiras Sentimentais Carta a Uma Gentil Canalha Carta a Um Monstro Lindo . " " . . . . • . . . . . . . . . . ' . . . ' . ' . . " " " " . . . . . ' ." " Romantismo ' . ' ' . . . Canto Quarto . . ' . . ' . . . . . .A Lágrima de Mármore FIM DE U M MUNDO Dístico . ' .CLARIDADES DO SUL Hino ao Sol . 1 30 . . . . . ' " . . . . . . . . . . . . . . ' . . • " " . . . . . ' . . " . . . . .. . . . . . . . . . . . " . . . . . . • .. ' . . ' . .Sonho " 23 ' . 27 . . " " " . ' . . . • . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . ... . . .. . . . . . . . .. . .. 223 . . . . . . .. . . . . . . .. . .. . 222 .. . . . .. . . .... . . . A Senhora Silenciosa ... .. ... . . ... . .. . . . . . . . . . .. . . .. ... . . .. . . . . . . . . . . . ... . . . . . . . . . . . . ... .. . .. .. . 219 . . . . . ... .. . . . . . . . . . .A Visão Final .. . .. . .. . . . ... . Maria Pia ... . . . .. .. . . . . . . .. . . . . . . . 212 212 213 213 214 215 215 ... .. . . Poeta d e Almanaques O Mestre Primário . . .. . .. . .. . . . . . . .. .. . . . . . . . . . . . 225 . . ... . . . .. . . . . . D.. . . . . . . . . .. . .. O Convento à Beira-Mar . . .. . » . . . . .. . . . . . . . Epílogo . ... .... . .. . . . . . . . . PÁTRIA E DEUS E A MORTE DO MAU LADRÀO O Segundo Avatar do Mau Ladrão .. .. Macário. Nota acerca dos «Avatares de Um Ateu» .. . . . . . . . . . . . . . . . Horas d e «Spleen» . ... .. . . . . . .. . . . ... . . .. . . . . ... A Praça d a Figueira . . . . «Miserere Mei! . . . . A Senhora dos Soluços . . . .. . . ... . . . .. . . .. . .GOMES LEAL 262 A MULHER DE LUTO À Memória de Minha Irmã A Mulher de Luto . .. . . . U m a Palestra com Portugal . . . . . . . . .. . . . .. .. . . . . . . . . . .. . . . . . .. . . . . . . .. . . .. A Senhora da Melancolia . . . . .. .. . . .. . . . . . 221 .... .. . A Guitarra da Mouraria . . . .. . . . . . . . . . . . . . A SENHORA D A MELANCOLIA Dedicatória . . .. . . . O Tentador . ... . . ... . . .. . . .. . . .. . .. .. . . . . . . . .. . ... .. . . . . . . .. . . 221 223 . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . . . . . . . ... . ... . . 211 . . . . . . . . . .. . .... . . . . .. . . .. ... . . . . . .. .. .. . . . . . . ... . . . .. . .. . . . . . . .. . . . . . . . . . .. ... . . ...... . . . . A Senhora dos Suspiros . A Nova Rigolboche ou a Deusa da Razão . . . .. ... A Senhora das Sete Espadas . . . .. .. . . . . .. .. . .. ... . . . . ... .. . . . . .. . . . .. . .. . . .. . . .. .. . . . . . ... . . .. . . . . . . . . . . . . .. . . .. . . . . . . . .. . . . . . . .... . . . . . O Senhor d a Serra . .. 1 93 1 96 20 1 206 211 . ... M EFIST6FELES EM LISBOA Pregões Matinais . . .. . ... . . .. . . ... . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . . O Azorrague de Jesus . Carta à Mulher de Luto .. . .. O Viúvo .. . . . . . . . .. . .. 226 . . . . .. .. . . . Paisagem d a Tardinha . . .. . . . . . . . . O Ananké! . .. .. . .. . . .. .. . .. .. . .... . . . . . . . . . 224 . . . . . 231 234 237 242 247 250 255 257 . . . . . . . . . . . . . . . . . A Senhora d a s Lágrimas . .. . .. . .. . .. . . . .. .. .. . . . . .. . .. . .. . . .... .. .. . . . . . . . . . . . .. . . . ... . . . ... .. . .. . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . .. .. .. . . .

A GERAÇÃO DE 70 Primeiro volume «A Geração de 70» por Álvaro Manuel Machado Antero de Quental: Textos Doutrinários e Correspondência Segundo volume Antero de Quental: Sonetos Terceiro volume Teófilo Braga: História do Romantismo em Portugal I Quarto volume Teófilo Braga: História do Romantismo em Portugal II Quinto volume Oliveira M artins : Portugal Contemporâneo I Sexto volume Oliveira M artins: Portugal Contemporâneo II Sétimo volume Oliveira M artins: Oliveira Martins: História da Civilização Ibérica Oitavo volume Portugal nos Mares (antologia) Nono volume Ramalho Ortigão: Holanda Décimo volume Ramalho Ortigão: As Falpas I (antologia) Décimo primeiro volume Ramalho Ortigão: As Falpas II (antologia) DécúilO segundo volume Gomes Leal : Poemas Escolhidos (antologia) .

.Décimo terceiro volume Fialho de Almeida: Contos Décimo quarto volume Fialho de Almeida: Os Gatos (antologia) Décimo quinto volume Conde de Ficalho: Uma Eleição Perdida Décimo sexto volume Eça de Queirós: Os Maias Décimo sétimo volume Eça de Queirós: Correspondência de Fradique Mendes Décimo oitavo volume Eça de Queirós: Notas f: " - · C! f. Contemporâneas . J 1 \ 0 11 . ' � • t1 '") ri '. " 1 . I . . 1' .

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