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Ser como criança, uma lição a não

se esquecida por gente grande
Há seis anos, no segundo semestre de 2010, eu iniciava meus estudos
em teologia na FTSA. Vim logo após a conclusão de minha licenciatura
em filosofia, pela UEL. Amo estudar, e dou muito valor ao saber. Porém,
dentro de pouco tempo me peguei frente a uma grande tentação: a
soberba do conhecer. Ela chega sorrateira, exigindo credenciais.
Como discípulos de Jesus, o nosso desafio é integrar as pessoas na
nova dinâmica proporcionada pelo evangelho. Porém, às vezes nos
pegamos como aqueles que impõem barreiras. Não que nos tornemos
pessoas más e repugnantes, mas sim que passamos a reproduzir valores
tidos por normais em nosso trato com as pessoas – a partir de nossas
escalas de valores sociais, econômicos, denominacionais, educacionais,
etc.
A gente cresce, e entra no mundo da gente grande. Porém, o mundo da
gente grande, em nome de suas credenciais e escalas de valores, nos
faz colocar barreiras em lugares em que o evangelho nos convida
a construir livre passagem. O evangelho invade o mundo da gente
grande e nos desafia a viver segundo uma nova lógica: a lógica da vida
daqueles que entram no Reino de Deus.
Nesta noite eu gostaria de conversar um pouco com vocês, futuros
teólogos e teólogas, sobre esse desafio a nós dirigido pelo evangelho,
tendo como pano de fundo o episódio desse encontro de Jesus com as
crianças. Talvez um alerta: “o saber é muito bom, mas pode
ensoberbecer; e quando nos ensoberbece, levantamos inúmeras
barreiras”. Para vocês eu gostaria de em poucas palavras falar no
seguinte tema: ser criança, uma lição a não ser esquecida por gente
grande.
Transição: para tanto, eu gostaria de olhar para cada personagem, e
observar como o relato estrutura a relação entre eles, identificando

3 – os filhos eram vistos como bênção para o casal. Comecemos pelas crianças… As crianças Sobre ser criança no tempo de Jesus: “como todos os meninos de Nazaré.7 – a declaração diária de fé de Israel. Vamos ao primeiro grupo que interage com as crianças… A multidão . mas sua vida era especialmente dura e difícil” (PAGOLA. A mulher estéril sentia-se humilhada por sua condição. e a infertilidade como maldição/vergonha. os primeiros a sofrer as consequências da fome. Salmos 127. e andando pelo caminho. O AT traz uma valorização dessa personagem: Deuteronômio 6. e ao levantar-te”. pois a fertilidade feminina era vista como bênção de Deus. poucos chegavam à idade juvenil sem ter perdido o pai ou a mãe. Transição: no relato as crianças não são sujeitos de ação. da desnutrição e da enfermidade.18 – por toda Bíblia encontramos Javé como aquele que tem um carinho e cuidado especial com os órfãos (crianças em situação de vulnerabilidade). As crianças eram sem dúvida valorizadas e queridas. Nestas aldeias da Galileia. Entretanto. Por outro lado. pois “herança do Senhor são os filhos”. e ao deitar-te.o desafio que a posição de Jesus deixa pra nós. as crianças eram os membros mais fracos e vulneráveis. Jesus viveu os primeiros sete ou oito anos de sua vida sob o cuidado da mãe e das mulheres de seu grupo familiar. um grupo que possui um valor especial no âmbito familiar. mas que é ao mesmo tempo vulnerável. continha um compromisso didático com as gerações futuras: “tu as inculcarás a teus filhos. pois Javé “faz justiça ao órfão…”. também as órfãs. mas objeto da ação dos outros três personagens. e delas falarás assentado em tua casa. A mortalidade infantil era muito grande. Deuteronômio 10. o Shemá. 2014: 67).

Quem eram estas pessoas? – pela distinção que o texto propõe. . Transição: a multidão não era o grupo de discípulos mais próximos a Jesus. Tocar nas pessoas era um traço significativo da atuação de Jesus. “a reação dos discípulos. Frente a esta iniciativa de aproximação das crianças interpõem-se um segundo grupo: os discípulos… que infelizmente não se apresentam como o modelo de ação. mães. 2014: 68). avós.) ansiosos que Jesus tocasse/abençoasse suas crianças. reflete a atitude normal naquela sociedade” (PAGOLA. Os discípulos Diante deste movimento de aproximação de crianças. não faziam parte do grupo mais próximo. os discípulos são os que reagem da forma menos esperada: repreendiam os que ansiavam por aproximar suas crianças de Jesus.O texto não diz quem trazia as crianças (o verbo está conjugado na 3ª pessoa do plural). Por onde Jesus passava as pessoas ficavam maravilhadas com tudo o que viam Deus fazer por seu intermédio. Todavia. Queriam de alguma forma integrá-las naquilo que Deus estava fazendo em Jesus. talvez o povo que o recebia nas aldeias e parava para ouvir e ver o que Deus estava fazendo através dele. A atuação de Jesus despertou naquelas pessoas o desejo de aproximarem suas crianças desse homem. Não era normal um varão honrado acolher crianças – os discípulos não eram maus. O desejo de que tudo aquilo que estava acontecendo por meio Dele também alcançasse suas crianças. os discípulos. mas quero aqui utilizar “multidão” para me referir ao grupo dessas pessoas que traziam suas crianças para serem tocadas por Jesus. Embora as crianças tivessem valor. parentes. procurando afastar as crianças. Podia ser gente simples das aldeias por onde Jesus passava (pais. esse valor restringia-se mais ao ambiente doméstico. etc. Diversas narrativas de milagres mencionam o toque de Jesus em pessoas que necessitavam da intervenção de Deus – para alguns era uma das poucas oportunidades de ser tocado por um homem cheio de Deus. simplesmente reproduziam uma prática social comum.

Jesus veio para acolher a todos. Mas também gostaria de observar a atitude de repreensão dos discípulos à luz da parábola que Lucas coloca nos vv. de seus créditos acumulados. A forma de ver dos discípulos… talvez condicionada por uma falta de visão crítica de sua prática à luz do evangelho. Ou elas seriam demasiado insignificantes para o Mestre lhes dar atenção. Nesta parábola o fariseu representa alguém que se orgulha pelas suas “credenciais”. em uma . “Jesus adotará perante as crianças uma atitude pouco habitual neste tipo de sociedade. mas podemos imaginar duas opções: 1. Não era normal que um varão honrado manifestasse para com as crianças essa atenção e acolhida que as fontes cristãs destacam em Jesus. Aquela seria uma interrupção de menor valor no programa do Mestre. 9-14. 2014: 68). a parábola do fariseu e do publicano. em contraste com outras reações mais frequentes” (PAGOLA. vendo”). Porém. mas sim ser uma denúncia àqueles que fazem de sua vida religiosa uma carta de crédito diante de Deus. Jesus estava demasiadamente ocupado para ter trabalho com as crianças. O texto não quer diminuir o valor de uma vida vivida em conformidade com a vontade de Deus. Será que Jesus estava em um momento de descanso entre suas viagens? 2. – Assim: quais eram as credenciais daquelas crianças? Qual sua importância para interromper o programa do Mestre? Transição: a repreensão dos discípulos era fruto de uma forma de ver (“e os discípulos. A acolhida das crianças pode ser situada dentro do âmbito maior da atuação de Jesus. Os discípulos se tornam repreensíveis… Jesus Vamos olhar para a atitude de Jesus a partir de dois pontos de vista: Contexto histórico A atitude bondosa e não convencional de Jesus.Mas a pergunta que nos intriga é: por que impedir? O texto não responde.

286). Desafios Agora.)? – Não! A resposta a esta pergunta encontra-se no versículo seguinte: “quem não receber o reino de Deus como uma criança”. p. que mérito tinham estas crianças que as tornava aceitas por Jesus? – Nenhum! Elas não estavam ali por seus méritos. negar) para elas! Contexto literário Jesus promove uma ressignificação do acolhimento e presença das crianças. o reino de Deus é das crianças simplesmente por que são crianças (inocentes. 2516). – Não criem embaraço (impedir. quais as implicações do acolhimento e também da ressignificação deste acolhimento das .46-48. “em contraposição ao fariseu jactancioso de 18. em 9. mas pela gratuita acessibilidade a elas aberta por Jesus. enquanto um ser vulnerável não era nada contraditório no contexto maior da atuação. Assim. um senso de admiração e sem insígnias de realização. retornando a nossa questão de abertura. p. – Essa é a lógica que deve reger a vida e os relacionamentos daqueles que entram no Reino de Deus. Sobre as crianças Jesus diz: “porque dos tais é o reino de Deus” (v. Na linha narrativa de Lucas Jesus já havia tomado uma criança em seus braços. ou valor social que as credenciava. mas de mérito. um espírito de dependência. Jesus deu ênfase acentuada na recepção daqueles considerados de menor valor: doentes.sociedade marcada pelo valor das credenciais pessoais. os discípulos deveriam se dirigir a Deus como se fossem uma criancinha: com espontaneidade. mulheres… e crianças. A acolhida da criança. reter. Jesus chama as crianças para junto de si.9-14. inculpáveis. e faz delas uma lição pedagógica constante para os discípulos: “elas encarnam espontaneamente a atitude fundamental para entrar no reino de Deus” (Bíblia do Peregrino. O texto não fala de infantilidade. As portas do reino não se abrem para quem se comporta diferentemente” (Comentário São Jerônimo. À luz daquele contexto. etc. No contexto literário.16). endemoninhados.

Porém. Elas seriam um lembrete constante da fonte que dinamiza a vida dos que entram no Reino de Deus. mesmo que venhamos a esquecer. denominacional. Jesus ainda continua dizendo: “deixem vir a mim as criancinhas”. hoje.). Porém. por um espírito de dependência. por parte de Jesus. pastoral e comunitária? Uma comunidade acolhedora: os discípulos já haviam visto Jesus acolher inúmeras pessoas de valor social menor aos olhos de um judeu do século I. por um senso de admiração e sem insígnias de realização. Uma pastoral do acolhimento passa pela adoção de novas práticas. que nos são possibilitadas apenas pela crítica do evangelho à nossa atuação pastoral. Ser criança no mundo de gente grande: Jesus não apenas acolhe aquelas crianças. porém questionável à luz da prática de Jesus. mesmo assim. Quais são os grupos. para nossa vida acadêmica. Quais são as atitudes convencionais à nossa sociedade que temos validado em nossas práticas pastorais? (valor social. Como somos cabeça-dura. vamos esquecer muitas vezes dessa lição. que reconhecemos como gente de valor à luz do evangelho mas que são excluídas do nosso acolhimento comunitário? Uma pastoral do acolhimento: imperceptivelmente os discípulos integraram em sua prática um modelo social válido em seu contexto. econômico. acadêmico. . não conseguiram perceber a abertura que a atuação de Jesus poderia possibilitar às crianças.crianças. A atitude de Jesus frente às crianças não era uma atitude convencional. Uma vida marcada pela espontaneidade. etc. mas também confere um novo significado a sua presença no meio dos discípulos: a presença delas deveria sempre remeter à gratuita acessibilidade aberta por Jesus.