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FACULDADE CÁSPER LÍBERO

As vanguardas artísticas
História, conceito e análise
Ana Beatriz Pereira;
Beatriz Fontes Jacinto;
Maria Allice Freire;
Matheus Cornely Sayão;
Stephanie Sampaio Shih;
2os anos de Jornalismo A e C

SÃO PAULO
2016

INTRODUÇÃO
A palavra vanguarda, segundo o dicionário Pribériam da língua
portuguesa, significa:

1. Primeira linha de um exército, de uma esquadra, etc.,
em ordem de batalha ou de marcha. ≠ RETAGUARDA
2. Parte da frente. = DIANTEIRA, FRENTE
3. Agente, grupo ou movimento intelectual, artísticoou político
que está ou procura estar à frente do seu tempo, relativamente
a .ações, .ideias ou experiências.

A Vanguarda europeia foi um período de transformações artísticas, que
atingiram o campo das artes plásticas, literatura, música, arquitetura e cinema,
com propostas específicas, mas com traços semelhantes, como o sentimento
de liberdade de criação, desejo de romper com as vertentes do passado e a
expressão da subjetividade. Esses movimentos surgiram na Europa do século
XX, no período entre a Primeira Guerra Mundial. Paris era o grande centro
cultural europeu na época, de onde as novas ideias artísticas surgiram e se
espalharam para o resto do mundo ocidental. Os mais conhecidos movimentos
da vanguarda europeia foram: o Futurismo, o Cubismo, o Expressionismo, o
Dadaísmo e o Surrealismo.
No Brasil, a Semana de Arte Moderna (1922) marcou a vinda das
vanguardas. Neste marco do movimento modernista registrou-se a participação
de diversos setores de atividade artística. Pode-se destacar a presença de
"Mário de Andrade, e Oswald de Andrade na Literatura", "Heitor Villa Lobos na
Música", "Di Cavalcanti e Anita Malfati na Pintura", "Victor Brecheret na
Escultura" etc., que ao longo da década de 20 formaram a frente do
Modernismo, batalhando para implantar uma mentalidade de vanguarda
artístico-cultural no país.

EXPRESSIONISMO
1.1) O que foi
A primeira vez que o conceito de “expressionismo” foi empregado foi em
1911 na revista alemã Der Sturm, no entanto, antes já havia sido utilizado pelo
pintor Julien-Auguste Hervé, em 1901, nomeando um conjunto de quadro, por

ele pintados (Micheli apud Julius Elias, 2004). Posteriormente, ainda de acordo
com Mario de Micheli (2004), no entanto, o termo foi usado com maior potência
e insistência pelo pintor alemão, Max Pechstein. Quando questionado se uma
de suas telas era impressionista, Pechstein respondeu: “Não, é expressionista”.
A intenção era marcar uma oposição ao impressionismo francês - um
movimento que diz respeito a emoções e sentimentos que eram considerados
muito limitados. A vanguarda também foi uma resposta ao anseio generalizado,
uma vez que a relação da humanidade com o mundo se tornava discordante.
Desta forma, pode ser considerada uma vanguarda que defende a expressão
do que é irracional e também das paixões e impulsos mais profundos. É
necessário frisar que, nesta vanguarda, não há preocupação com a
objetividade da expressão, a preocupação em si é que se expila as reflexões
individuais e, assim, o mundo no expressionismo não é reproduzido e, sim,
recriado.

Ao

negar

o

caráter

positivista

nega,

consequentemente,

o

impressionista, o expressionismo também nega o naturalista. A ideia é romper
com a noção de que a realidade deveria ser olhada do exterior, o
expressionismo pregava exatamente o contrário. Para o artista desta
vanguarda [a expressionista], a realidade era interior, como uma experiência
íntima; Micheli diz: “trata-se de pressionar a realidade para que dela brotasse o
latente secreto. Neste pressionar encontra-se a origem típica da deformação
expressionista (...)” (MICHELI, 2004).

Pode-se dizer que o expressionismo estava intimamente ligado às questões
do capitalismo ascendente e à burguesia e de como o avanço industrial
impactava a cidade e as relações humanas, principalmente os grupos já
fragilizados, sendo assim, as obras sempre eram caracterizadas pelo feio e um
agressivo quase que violento. O expressionismo é, portanto, mais que uma
forma de expressão, tratou-se de um movimento que nasceu como
manifestação e reação à falsa miragem do positivismo que vigorou na

sociedade europeia desde o século XIX. No livro As vanguardas artísticas, de
Micheli, o Expressionismo foi considerado uma arte de oposição porque se
afirmava e se realizava contra o racionalismo burguês“que dava um colorido de
espiritual entusiasmo à sociedade burguesa em sua fase de prepotente
desenvolvimento econômico” (MICHELI, 2004).

Na Alemanha, o Expressionismo tomou forma como em nenhum outro
país da Europa. Foi no ano de 1906 que pintores alemães organizaram um
grupo chamado Die Brücke (A Ponte). O grupo esperava uma ruptura completa
com o passado e traçou objetivos que colocavam a arte como crítica social; a
volta às artes gráficas (com ênfase na xilogravura) e figuras deformadas que
seriam postas em tons contrastantes e fortes. Os artistas: Müller, Kirchner,
Nolde e Pechstein participaram do grupo. Outro importante grupo do
Expressionismo Alemão foi Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), que surgiu em
1911 e era composto por intelectuais como o Paul Klee, Alfred Kubin e
Kandinsky.
A grosso modo, expressionismo refere-se a forma de arte criada pelo
impacto da expressão em prol dos valores humanos. Deve-se lembrar que na
pintura, no teatro e literatura a vanguarda se fez presente e entre seus
precursores estavam Pablo Picasso, Edvard Munch, George Grosz, Vincent
Van Gogh, Érico Heckel, Francisco Marc, Paulo Klee e Max Beckmann. E
também os representantes brasileiros devem ser mencionados: Cândido
Portinari que foi responsável por retratar a migração do povo nordestino para
os centros urbanos, Anita Malfatti, Lasar Segall e Osvaldo Goeldi (autor de
diversas gravuras) e as peças teatrais de Nelson Rodrigues.
O expressionismo ultrapassou os limites programáticos que alguns
artistas propuseram. Micheli conclui, “o movimento expressionista, em seu
conjunto não foi um movimento ‘formalista’, mas de ‘conteúdos’, e, pelo menos
em parte dele, alguns dos motivos de fundo da história do nosso tempo tiveram
um eco ardente” (MICHELI, 2004).

1.2) Características estilísticas formais
Por ser uma pintura que expressa os sentimentos mais profundos humanos,
as cores utilizadas são vibrantes e simbólicas. Retrata as mazelas humanas prostituição, ciúmes, medo, solidão, sofrimento - de uma forma plástica e é
tudo isso que torna a interpretação da obra mais clara. Também existe uma
preocupação com a saída do que está no psicológico para a obra, tornando, às
vezes, a técnica violenta na pintura, isto é, o artista empasta os tons e ao
lançar na tela provoca explosões de texturas novas, fugindo do belo e da
polidez. Os artistas recusavam e evitavam qualquer resquício de delicadeza. A
intenção também era “chocar o ‘burguês’ em sua complacência real ou

Se esta vanguarda diz respeito às mazelas humanas e como os sentimentos lidam com elas. não fala. durante o fim do século XIX e o início do XX.. em 1916. ouve o mundo mas não sopra sobre ele.) O olho do impressionista somente ouve. por vezes. Belle Époque (“bela época”) foi a expressão amplamente utilizada por alguns analistas e estudiosos para se referir a esse período. Na América Latina. cômica. inicialmente. Por demais ouviu calando-se. e supremacia da burguesia nas grandes cidades. 1. não acolhe a pergunta não responde. trágica e. E eis que o expressionista reabre a boca do homem. o homem. O termo é resultante da euforia burguesa. 2013). A intenção era o enfrentamento aos fatos de revolta e tristeza da existência sem colocar sobre estes sentimentos uma película de falsidade e hipocrisia. Eram os artistas que defendiam a subjetividade e o irracionalismo.imaginada” (GOMBRISCH. se ganha voz no período pós-Primeira Guerra Mundial como ferramenta de denúncias sociais. marcada pela crença no positivismo. Hermann Bahr. a vanguarda também ocorreu e como forma de manifesto político.. É uma vanguarda que.3) Contexto histórico O expressionismo se desenvolve com intensidade na Alemanha. Pouco se importavam com a verossimilhança da composição de suas telas. 2004). inclusive nos momentos que os valores humanos não importavam. se opôs ao impressionismo em um ensaio que diz: O impressionismo é separação do homem de seu espírito (. no progresso. . Contestavam com os padrões impostos de leveza e questionavam a falácia da felicidade – que não combinavam nem um pouco com a europa pré I Guerra Mundial – próprias dos impressionistas. Consideravam os ideais da beleza e da harmonia uma “recusa a ser sincero” (GOMBRISCH. a pasta pigmentada grossa de tinta e os traços delineados tornam a obra sombria. agora quer que o espírito responda (MICHELI. 2013). Uma vez que o homem da época burguesa só é ouvido. ascensão do capitalismo.

Munch revela sua consciência e subjetividade social. e da Primeira (1905/1906) e da Segunda (1911) Crise do Marrocos. e recebe influência de diversos pintores. estudou em Oslo. quase que um sofrimento. Internacionalmente. e também pela própria história de vida conturbada. explorando cada vez mais a mão de obra operária e fazendo com que as cidades se superlotassem. O resultado dessas crises não podia ser mais drástico. tudo isso se deu a partir de 1840 com o início da industrialização. Com certeza é um artista de muito dom e é considerado o “pai do expressionismo”. a Alemanha se deparou com uma crise econômica e social. É visto como uma das influências mais significativas sobre o desenvolvimento do expressionismo europeu alemão. Sua arte tortuosa. vai à Paris para aperfeiçoar suas técnicas artísticas. O expressionismo surge no contexto de que a burguesia se recusava a enxergar as maiores vítimas dos desastres que aconteciam. o cenário político e social da época não condiziam a tal bela época que era falada. uma vez que a burguesia era a única que desfrutava de privilégios. a população cresceu e migrou das áreas rurais para as industrializadas.do último império do kaiser alemão Guilherme II. é formada pelas mazelas da burguersia e pelos conflitos de seu tempo. principalmente depois das condições do Tratado de Versalhes.4) Principais expoentes Edvard Munch (1893-1944) Foi um pintor e gravador nascido na Noruega. Havia um aumento da desigualdade entre os ricos e pobres já que as fábricas e seus donos que possuíam o capital. uma corrida bélica que culmina na 1ª Guerra Mundial (1914-1918). a Europa enfrenta fortes tensões e instabilidade políticas. Com o fim da Primeira Guerra. suas angústias e anseios da humanidade. Começou a estudar a pintura na Noruega em 1880. causando um isolamento político no Império Alemão. 1. . Em suas obras. Na primeira metade do século XX. foi um período de várias crises .Contudo.

ela evidentemente se expressa. menos aos dois homens em pé que podem. tudo se abalou e o grito que provocou isso. A figura se contorce pelo efeito de suas emoções internas. onde além de exposições. A dor se espalha pela Alemanha e a dor do grito se espalha pela obra toda.Em pouco tempo pôde se apresentar no Salão dos Independentes de tão emblemático que foi. como as largas pinceladas em cores quentes que contrastam com o azul frio do rio. fazia também cenários. serem identificados com a burguesia que não se preocupa com o sofrimento. . Na sua famosa obra. passou a morar na Alemanha. é como se o grito ecoasse na tela. a pintura é carregada dos mais característicos traços expressionistas. A fase que Munch se muda para uma casa perto de Oslo é muito lembrada porque em suas obras retrata a sua condição de deterioração e sua queda na saúde física. uma das pinturas mais populares de todos os tempos. A cena se passa no pôr-do-sol de Oslo. as mãos no rosto e boquiaberta deixam claro que existe uma angústia e um desespero. A figura evidenciada no primeiro plano é andrógena e vestida de preto. possivelmente. pelos possíveis sentimentos causados nas mazelas da Alemanha em crise e também pela dificuldade de viver naquela situação. A partir de 1907. “O Grito”. Como tudo está representado de maneira torta. Munch se revela e coloca em discussão a obra mais importante do movimento.

também seguiu os caminhos de desenhista. começa a trabalhar com gravuras em madeiras. naturalizado alemão. novas realidades. O grupo que integrou com Blaue Reiter e tem uma arte que está ligada à essência do que representa. não só à aparência. de tal maneira que a natureza possa. Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938) Filho de um professor de desenho. 2004). Em 1898. por isso define que o artista deve ser um médium entre o ser e a natureza. É conhecido por ter sido um dos fundadores do grupo expressionista Die Brucke (A Ponte) e foi neste período de fundação do grupo que seus quadros ousados de paisagens e nus tomam forma. gerar fenômenos novos. 1907) Paul Klee (1879-1940) Foi um pintor e poeta também. novos mundos” (MICHELI.(O Grito. depois de visitar uma . 1893) (A criança doente. através dele.

Em suas obras. embora o tom seja quase único. suas linhas eram violentas. isso pode ter vindo de sua doença respiratória que o levou a morte. inclusive. talhou em madeira. Uma de suas obras que merece destaque é “Três banhistas” (imagem ao lado) que retrata três mulheres em cores como a da imagem de Matisse. Trabalhou com pesadelo e decadência. Kathe é adepta do expressionismo alemão. Em 1929. em acabamento irregular. ao mesmo tempo que as mulheres parecem submersas num outro universo. foi a primeira mulher a integrar a Academia de Belas Artes da Prússia. Ao longo de suas coletâneas artísticas. quando se mudou para Berlim. figuras que tinham os detalhes sexuais demarcados. o ódio e a trevolta não estavam presentes. em ângulos agudos e quebradiças. O fundo é um mar que. as linhas cortantes e as zonas quebras podem ser vistas desde 1910. como os fauvistas e também foi influenciado pelas obras de Matisse. talvez porque o caos urbano causasse essas sensações nele. Käthe Kollwitz foi pintora. não curvilíneas como do outro artista. no entanto. suas obras se tornaram mais geométricas e as linhas pareciam mais grosseiras e com um ar ofegante. Ernst.exposição de xilogravuras. As cores que utilizava eram primárias. desenhista. algumas pinceladas dão um ar de frescor. num tom amarelado que chega ao marrom e evidencia toda a energia que a peça pretende transmitir. artista gráfica e escultora expressionista. Käthe Kollwitz (1867-1945) É também importante ressaltar uma mulher no movimento. davam lugar para melancolia e quase que um suspense em suas . “A Dança”.

em Nova Iorque (usa cores mais pálidas. suas dores também se aproximam da dor dos oprimidos. 1910. Sobreviventes. Principais obras: Necessidade (1901) (ao lado). Se identifica profundamente com os oprimidos. A análise que será realizada se volta à segunda obra com maior precisão. A chamada da morte (1934). O trabalho de Matisse atingiu o seu ápice em relações de forma e conteúdo em duas pinturas imensas produzidas para serem expostas em conjunto: “A Dança” (1909-1910) e “A Música” (1910) . As obras foram extremamente julgadas. seu trabalho era caracterizado pela melancolia e tensão.5) Análise de obra A obra “A dança” (Henry Matisse. mais clássica. representando-os em suas obras. e os representa em suas obras quase sempre monocromáticas. o Palácio Trubetskoy. quase parecidas com tom pastel e é menos detalhada). por ser uma mulher. isto é. 102 ¹/² x 154’’) está disponível em duas versões. 1. faz uso de uma paleta cromática fauvista.uma curiosidade é que ambas foram encomendadas pelo russo Sergei Shchukin para serem expostas em sua mansão.obras. . A segunda versão é de 1910 e se encontra no Museu Hermitage. quando as cores estão em intensidade. A primeira (de 1909). atualmente no Museu de Arte Moderna. refletindo a perda familiares na Primeira Guerra Mundial. Grande parte de suas gravuras tinha como tema as figuras de mães que protegem seus filhos.

As cores foram extremamente limitadas nesta peça artística: verde escuro e vigoroso. o azul também é profundo no céu e as figuras humanas estão nas cores de vermelho-tijo. foram cor intensa. Matisse descobriu Cézzane ao comprar uma versão de “As banhistas” (1899) e teve uma reação peculiar com o estilo em que pessoas estavam nuas numa mesma paisagem. como se ocorresse uma coletânea de peças nuas no mesmo fundo. ainda assim. já que as poses frontais estáticas das figuras . com grandes lembranças. As figuras humanas estão quase que no primeiro plano antes do céu e da terra e parecem gigantes. lembrando um marrom alaranjado. o universo árcade foi transportado para a vanguarda europeia. Por mais que as cores pareçam um “borrão”. atribuída à arte grega. as personagens dançam levemente em um ambiente que é visivelmente “fresco”. foram isoladas contra razões de delineadas. logo já se pode lembrar das pinturas gregas de vasos em cerâmica. O que ocorre é uma exploração de linha-cor-espaço de forma permanente em um grupo de pinturas em que essas figuras. tudo isso é nítido porque as cores até provocam uma vibração nos olhos de quem observa. Esta dança parece ter movimento porque os contornos modelam e delineam os corpos. De uma forma muito sutil e. ainda assim. A questão expressionista sobre a “violência” nas obras se manifesta na Dança quando as personagens estão unidas mas parece haver uma emoção que exala nesta união. quando alocada ao lado de “A Dança” se torna um contraste perfeito para a violência dos personagens dançantes. por diversas vezes. este “transporte” também pode ser visto na “Música” que. Ao analisar visualmente “A Dança”. justamente essa ideia surge porque os tons são constrastantes e.quando expostas no Salão de Outono de 1910 em Paris porque as personagens estavam nuas. já conhecidas. de uma maneira harmoniosa. por isso a origem desta obra foi.

como se elas fossem para o infinito com os pés saindo do chão. não pode ser definido de forma única e concreta. Em relação às cores. poesia e dança. no entanto. isso ocorre principalmente com a do meio e a da esquerda do observador. esse estilo trabalha com a representação de um objeto de maneira . aparentemente estava em um “ir e vir”. A dançarina do meio continua o movimento da dançarina anterior ao inclinar sua cabeça para frente e. dando a sensação de impulsão. A impressão de movimentação também é confirmada no corte das figuras. a beleza está na no conjunto da musicalidade. isto é. na margem e assim dão a impressão de não estarem estáticas. é cíclico. como se a dança não tivesse coreografia a ser cumprida. a anatomia das personagens estimula o impacto e a dança que acontece com tanta lucidez que se piscarmos a imagem não é estática. As curvas dos corpos ao mesmo tempo são quase que arremessadas na tela.1) O que foi O cubismo. porém as cores transmitem a sensação. assim. As personagens também tocam nos limites físicos da obra. relembrando a violência expressionista porém fazem muito bem um movimento rítmico de curvas. Diferentemente de muitos estilos artísticos. esta cor também é responsável pela imagem ser energética. Os corpos não são belos. quando cortada. um movimento cheio de complexidade.dispostas e isoladas cria um clima de saída da transe da dança que é explícito na pintura de forma simples. CUBISMO 2. Na pintura é até possível perceber que existe uma música e uma poesia ao fundo. não se sabe muito bem onde. como a cabeça da dançarina superior da direita que. o azul é como o “rumo” das personagens. O tom de tijolo prende o observador ao corpo das personagens. palavra que advém do francês cubisme (cubos). a visão se “contenta” com as marcas fortes e se choca com elas.

. uma realidade autêntica” (MICHELI. o cubismo teve suas bases moldadas por uma forte influência de Paul Cézanne e suas composições mais geometrizadas no Pós- Impressionismo. “Eles procuravam fazer uma pintura com um rigor poderoso. Esse movimento teve o pintor espanhol Pablo Picasso como um de seus maiores representantes. um dos precursores do estilo. Ainda na definição do cubismo. em meados de 1907 e 1914. 2004). e coube a um artista mais suave e metódico apresentar as telas de Cézanne as perguntas que esperavam a formulação. em relação a influência de Cézanne. desconstruindo qualquer noção de profundidade e fundamentando-se principalmente no desmembramento dos objetos. por esse motivo. antes mesmo das obras mais famosas da vanguarda. realizado anualmente desde 1903) de Paris em 1908. que fez uma alusão ao modo do artista francês Georges Braque. Uma das coisas que mais impressionava. do autor Mario De Micheli. quase agressão. Inicialmente. No livro As Vanguardas Artísticas. Stangos descreve a parceria de Picasso e Braque sob a influência de Cézanne. é claro. 2004). Georges Braque e foi em consequência de sua colaboração com Picasso que o cubismo nasceu” (GOLDIN. Esse é o verdadeiro início do cubismo” (MICHELI. a definição de cubismo se dá pela arte que “confere à natureza.abstrata e inverossímil em relação à realidade e. claras. Cézanne ainda deixou alguns ensinamento como: “as formas geométricas são calmas. “reduzir tudo a contornos geométricos ou cubos” na exposição Salon d’Automne (Salão de Outono. Figuras e perspectivas são limitadas à formas geométricas. Somente a construção e a corporeidade dos objetos lhe interessavam” (MICHELI. 1991). podemos considerá-lo uma arte inovadora. cansada de sua realidade precária. que foi o precursor do estilo juntamente com o francês Georges Braque. Esse artista foi. O nome cubismo surgiu por meio da interpretação do crítico da arte moderna Louis Vauxcelles. Os marco entre o espaço e formas se perde. 2004). Picasso tinha abordado Cézanne [no quadro les demoiselle d'avignon] com um espírito de anarquia. Micheli atenta à importância da estrutura na obra. imóveis.

o movimento surgiu como forma de indagação em relação à cultura que existente até meados do século XX. sendo uma criação conjunta entre Pablo Picasso e Georges Braque. os pensadores e artistas da época passaram a sentir a necessidade e mudar a visão em relação ao que se sabia a respeito da sociedade. O cubismo teve início no ano de 1907. Há também Menina com . Tinham então o desafio de solucionar a questão da identidade cultural e criar referências para um novo conceito estético.2) Contexto histórico As vanguardas artísticas desenvolveram-se em um período de política instável na Europa. de Picasso. 1994). Entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. A agitação e a incerteza do futuro preocupavam os europeus. A cor. era menos importante do que a as formas. No desenvolvimento da vanguarda. Optando por tons mais neutros e pastéis. é possível encontrar muitas telas em que os objetos (ou o objeto). que não tinham perspectivas diante das tecnologias que estavam sendo criadas. os artistas tiveram quadros que se assemelham muito no que diz respeito ao estilo e a técnica. então. com Freud provando o inconsciente humano. foram fundamentais para a criação de novas ideias e padrões artísticos. criticando a arte conservadora tradicional. como dito anteriormente. de Braque. e a mudança de pensamento. possuem apenas uma cor. destacando então a volumetria. com variação em sua tonalidade. O cenário cultural e artístico refletia o contexto social em que estavam inseridos. como em O Poeta. marcada por muitos massacres e diversos avanços tecnológicos. Com isso. Revoluções no campo da física. com a teoria da relatividade proposta por Einstein. desestabilizaram o pensamento que a sociedade tinha como referencial. a fim de produzir uma espécie de de pintura mais conceitual” (STANGOS. e também no campo da psicologia. Nikos Stangos diz que “a cor e sua urgência fauves de sua maneira anterior foram sacrificadas.era como seus quadros transmitiam a sensação de solidez. A virada do século. 2. e O Violino e o Cântaro.

O próprio Picasso se posicionava contra esse pensamento. retratavam exatamente o sentimento da época. com o uso de novos meios e novas tecnologias no processo de criação. Essas contradições. Acontecia o que foi definido anteriormente como a busca por propósitos que pudessem ressignificar a vida e a sociedade. Era preciso entender e se acostumar com as mudanças que estavam acontecendo. não era encontrada no resultado final dos quadros.Bandolim. a agitação e o caos presentes no cotidiano de cada um. Com o objetivo de questionar o mundo real. do pintor espanhol. com a velocidade. Entretanto. tanto no campo artístico quanto na vida em si. Naquela época. por outro lado.3) Características estilísticas formais Ao analisar uma obra de princípios cubistas. não acreditava em um tipo de cientificismo cubista. Micheli sugere uma influência de novas ideias influenciadas pelas pesquisas no campo da matemática e da geometria para o surgimento da expressão cubista. ou seja. O choque que os observadores sentiam ao conhecer o novo estilo e o ponto de vista criado pelos artistas poderia ser uma forma de evidenciar a dúvida e a angústia dos europeus em meio a tantas revoluções. Os artistas intuitivamente passaram a se preocupar com novas medidas do espaço e da dimensão. existiram algumas divergências neste ponto. de caráter voltado ao mundo urbano. o idealismo e o espiritualismo ressurgiram como uma crítica aos ideais positivistas. 2. Por este motivo é que leva o nome de arte moderna. e Mandora do francês. Ainda em As Vanguardas Artísticas. os artistas passavam a representar suas próprias ponderações sobre a situação em que se encontravam. é possível notar um distanciamento grande da linearidade e formatos sinuosos de qualquer estilo . Como parte da corrente do modernismo e da nova doutrina que vinha sendo criada. As obras. muitos outros artistas como Braque e Fernand Léger afirmavam justamente o oposto. apareceu como tentativa de explorar uma diferente cultura no mundo artístico. entretanto como observamos na semelhança dos estilos de Picasso e Braque.

É possível dividir o cubismo em duas fases: analítico e sintético. questionando os conceitos de estética anteriores. Os artistas queriam retratar um objeto e mostrando todos seus pontos de vista e angulações em momentos variados. Agora. Formas geométricas.antecedente. leques e jornais. Micheli afirma então que para o artista cubista. As obras representam momentos de experimentação e desconstrução. de Pablo Picasso. apesar de já se manifestar em anos anteriores. 1991) O estilo trabalha no campo das ideias do que das imagens. traços retilíneos. pode ser dizer ser o mais intelectual e descompromissado do cubismo. les demoiselles d'avignon. Vale ressaltar que essa fase é muito marcada pela obra de Braque. dentro da mesma obra. dando às produções artísticas dessa vanguarda em questão um aspecto único. “Foi nos arranjos de instrumentos musicais. deslocamento de espaço e proporção. cálices. É nessa fase que os quadros tendem a ser monocromáticos e procuram valorizar a representação dos objetos por todos os seus ângulos e pontos de vista. de acordo com os quais o artista via seu modelo ou objeto de um único ponto de vista estacionário. em uma descrição da obra do que é considerado uma das primeiras obras cubistas. porém. que muitos críticos convencionaram ter se iniciado em 1909. mínimas e intensas. com os limites em sobreposição. Segundo Nikos Stangos. no livro Conceito da arte moderna: “Desde o início da Renascença. os artistas tinham sido guiados pelos princípios da perspectiva matemática e científica. é como se Picasso tivesse andado 180 graus em redor de seu modelo e tivesse sintetizado suas sucessivas impressões numa única imagem” (GOLDING. sendo necessário chegar à uma estrutura interior. As formas apresentadas são compactas e densas. e pouco trabalho de profundidade marcam o cubismo. não há verdade no realismo. leva esse nome por ser puramente a análise de um objeto. O primeiro. o que demonstra o desejo dos pintores da época em inovar a arte de forma transformadora. objetos da experiência cotidiana que .

Também se preocupava em solucionar o problema da perspectiva dentro das obras. uma nova dimensão do espaço pictórico. 2004). Um importante pintor dessa fase foi o espanhol Juan Gris. 2004). Paul Cézanne. a partir de 1912. mais caligráfico. uma sobreposta a outra.. podendo explorar novas proporções e contornos. “Nascia. o uso da cor já passa a ter mais importância. e depois fundido em uma única imagem “simultânea” (STANGOS. é uma síntese do objeto representado. assim. que explorava melhor o uso das cores e criava quadros que mais se assemelhavam a colagens de fotografias.. além de nuances policromáticas mais evidentes. resumindo sua essência em uma ou toda sua parte mostrada em todos os seus lados. 1994). O cubismo sintético (também conhecido como cubismo de colagens).evocam imediatamente a sensação tátil através de valores associativos. fazendo com que os cubistas voltassem sua atenção a ele. em favor de um espaço evocativo (. estender-se” (MICHELI. propondo que os objetos não deveriam se limitar a um único ponto de vista. foi um grande contribuinte para o surgimento do cubismo. Buscava obstinadamente uma pintura mais concreta e definida. .técnica de colagem em uma superfície plana -. Dessa forma. Esse processo é explicado como uma forma de “estabelecer um confronto direto entre a consistência objetiva do quadro pintado e a instantaneidade de um objeto qualquer” (MICHELI. enfim do espaço material. a finalidade dos artistas era demonstrar a realidade das figuras tanto na pintura quanto no objeto colado. o papier collé . que Braque pôde controlar e explicar melhor as pressões e contrapressões do espaço cubista” (GOLDING. Nas colagens. o sentido de uma nova dimensão que excluía a ideia da distância. como diz Stangos “diferentes aspectos e pontos de vista de um objeto podiam ser mutuamente sobrepostos de um modo mais livre. pseudônimo de Juan José Victoriano González.) no qual os objetos podiam se abrir. havia a retratações de elementos do cotidiano para dentro das telas. No cubismo sintético. do vazio e da medida. pintor impressionista francês. a saber. 1991).

1 2 (1) Georges Braque – Garrafa e Peixes / (2) Pablo Picasso – Les demoiselle d'avignon 2. mas da arte como um todo na primeira metade do século XX. é o grande protagonista não só do cubismo.4) Principais expoentes Pablo Picasso Pablo Ruiz Picasso é o primeiro nome que vem a mente quando falamos em cubismo. tendo contribuído servido de inspiração para o simbolismo e surrealismo. na cidade de Málaga. Artista espanhol que viveu até os 92 anos. de acordo com as cores utilizadas em sua obra. na França. 1907) foi o marco de ruptura da composição tradicional na pintura. Podemos dividir sua trajetória na arte em duas fases. gravurista e pintor. Georges Braque Nascido em 13 de maio de 1882. Georges Braque foi escultor. Sua obra Senhoritas de Avignon (Les Demoiselles d'Avignon. Além disso. nascido em 25 de outubro de 1881. Picasso foi um artista mais objetivo que subjetivo. a favor da arte concreta e da representação do real do que do mundo abstrato. na cidade de Argenteuil. É considerado o maior . o aspecto eclético do artista afirmava a contemporaneidade dos estilos que o envolviam. a fase Azul e a fase Rosa.

cartas. nascido em 23 de março de 1887. quase matemáticas. Juan José Victoriano González. Pablo Picasso é um dos mais conhecidos na história da arte. com linhas retas mas também curvas. Por esse motivo. pintor e escultor. entretanto. 1912). é o Retrato de Pablo Picasso (Portrait of Pablo Picasso. Desenvolvendo a técnica da colagem. uma vez que foi um dos inventores da vanguarda. na França. 2. Um tema bastante comum em suas obras é tecnologia e sua velocidade. Segundo Micheli. tudo para atingir novas dimensões. Juan Gris Pintor e escultor espanhol. tendo ganhado maior destaque principalmente no cubismo sintético. Braque estampava suas telas com recortes de publicidade de jornais. Suas obras valorizam principalmente as formas geometrizadas. foi no cubismo que Léger obteve destaque. o quadro escolhido para análise é Guernica. a vida agitada e o dinamismo de espaços urbanos. criador e maior desenvolvedor da vanguarda cubista. conhecido como Juan Gris. Seu estilo marcou sua época e prevalece até hoje como marca registrada do artista. Um de seus quadros mais conhecidos. variando a cada década. Seu estilo contava com influências do fauvismo. Fernand Léger Juler-Fernand-Henri Léger. em que o cubismo analítico é percebido na desconstrução da composição que foi uma homenagem a Picasso. é o artista que se liberta com maior desenvoltura e antes que qualquer outro das leis do cubismo integral. seu maior instrutor. nasceu em 4 de fevereiro de 1881 em Argetan.destaque do cubismo em seu país. Apesar de não ter um único estilo. tem um estilo característico em suas obras cubistas.5) Análise da obra Por ter sido o idealizador. Foi também um dos desenvolvedores do cubismo. E não poderia ser menos. além de ter preferência por cores primárias. uma das obras de . e outros elementos como pigmentos de areia e madeira.

A pintura é um óleo sobre tela. à esquerda do espectador. No primeiro retângulo. Os combatentes leais ao governo de esquerda (republicanos) contavam com o apoio da União Soviética. no que pode ser uma alusão a Pietá. Para produzir a pintura Picasso utilizou uma técnica de colagem de papéis e objetos. Guernica ajuda a transmitir a atmosfera da guerra e as consequências envolvidas. mas como recurso estilístico para representar a dor e o sofrimento sentido pela população da cidade. a pintura retrata o bombardeio a cidade Basca de Guernica. é possível perceber uma mãe que chora a morte do filho. feito por um ataque aéreo alemão. Desenha e pinta a obra criando a impressão de colagens e criando sobreposição de planos. Em abril de 1937. os espanhóis passaram a ter confrontos em diversas regiões do país. O tom monocromático não se limita apenas a uma marca da vanguarda. Do ponto de vista técnico. As imagens que compõem a cena são notáveis representações cubismo trazem ao observador toda agonia o horror passado na cidade. realizado a partir de 36 fotos que retrataram as consequências do que foi considerado o primeiro grande bombardeio moderno. O bombardeio de Guernica ocorreu em 26 de abril de 1937. Após um fracassado golpe militar contra o governo do socialista Francisco Largo Caballero. No entanto ele não utiliza a colagem propriamente dita. a capital ainda não havia caído e o general decidiu optar por um alvo mais fácil: o norte espanhol. no norte da Espanha. apenas simula da técnica. Já as forças de Franco. em um ataque que resultou em mais de 300 mortes. produziu a pintura. Pintado em 1937. Desde o início. em 1936. juntamente . tropas do general Francisco Franco não desistiram de tomar o poder. tiveram auxílio da Itália fascista de Benito Mussolini e da Alemanha nazista de Adolf Hitler. A tela é construída a partir de quatro retângulos verticais e um triângulo central. que inicialmente foi exposta num espaço reversado a República Espanhola na Exposição Internacional de Paris. As fotografias divulgadas pelos jornais da época marcaram profundamente o artista que. Franco havia tentado conquistar Madri. após diversos estudos preliminares. onde durante a Guerra civíl espanhola.mais conhecimento do artista. Divididos. os nacionalistas.

com aquela publicação. além de exaltar o militarismo e suas guerras. nessas ações. O segundo retângulo traz a agonia do cavalo iluminado pela da luminária acima. a solução para o extermínio do padrão vigente . sempre evidentes. o autor intencionava combater o moralismo. parecendo pedir socorro.com o touro de feições humanas. Os dois lhos. no que parece ser um lembrete das obras egípcias.1) O que foi A vanguarda artística e cultural denominada Futurismo nasceu no dia 20 de fevereiro de 1909. a partir do texto “Manifesto Futurista” publicado pelo poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti no jornal francês Le Figaro. O terceiro traz o rosto de duas mulheres aterrorizadas e o quarto retângulo traz a figura de um homem com os braços para cima. Através de um discurso ideológico. seja entre os animais ou entre as pessoas. Ele via. marcam a arte angular cubistas. em que se pode entender as personagens em diversos ponto de vista ao mesmo tempo. FUTURISMO 3.

o Futurismo surge no período pré Primeira Guerra Mundial. Segundo Mario De Micheli (2004. Os elementos primordiais utilizados na criação das obras eram a ação e o movimento. tendo como local de origem a Itália. p. para que. O movimento ganhou força na Itália. pudesse ser consolidado um novo elo com o futuro e a modernidade atrelada a ele – as máquinas. 2004. em seu livro As Vanguardas Artísticas. porque seus artistas buscavam se opor a todos os aspectos vigentes no país e na Europa – desde padrões artísticos a sistema político operante. a Itália era. os meios de transporte inovadores. em seu lugar. 202) Após seu início na literatura. Marinetti pretendia fazer isto a partir do total rompimento com o passado e tudo que a ele estivesse relacionado. Micheli (2004. na arquitetura e no design. do anarco- . como o avião e o carro eram na época. art nouveau e simbolistas”. palco principal da vanguarda porque foi onde o Anarquismo – sistema mais distante possível da monarquia. a missão dos artistas italianos que surgissem era a de “subverter esses personagens acadêmicos. na escultura. desde os primórdios. 3. Segundo o crítico de arte. seguidos por seus desdobramentos – que muitas vezes se inter-relacionavam –. as grandes cidades e o progresso. Dessa forma. a velocidade. 201). 203) afirma que. “Nasce como antítese violenta não só em relação à arte oficial. nasce como aspiração à modernidade”.2) Contexto histórico Como a maioria das vanguardas artísticas europeias. por ter sido desenvolvido num país no qual o Anarquismo teve grande sucesso e repercussão. como na pintura. “muitos futuristas provinham do Anarquismo. p. o desenvolvimento do início do Futurismo é dado exatamente dessa forma. (MICHELI. a partir do século XIX. o movimento se desenvolve em outras áreas da arte.na sociedade da época – pré Primeira Guerra Mundial. dannunzianos. considerada berço do Futurismo. p. Estado em vigor naquele período – ganhou mais força. a velocidade do movimento. mas também ao verismo humanitarista – isto é. repercussão e adesão. além do fato de este estar no Mediterrâneo. a falta de temor e a vontade de se atrever.

Que a arte literária esqueça a trituração de coisas mortas e viva com o seu tempo. a hélice. Era claro que. Segundo Micheli. como a defesa da indústria. mais tarde. 206) Com o decorrer dos acontecimentos históricos. a primeira a qual o movimento exaltou e prelúdio à Primeira Guerra Mundial – a qual a Itália passou a fazer parte em 1915. em que se encontrou a aplicação do vapor. p. (MICHELI. “A exaltação da máquina. sem sombra de dúvida.. 2004. um dos elementos essenciais do impulso revoltoso e antiburguês. também do comunismo. . passasse a embasar o Fascismo ao lado da burguesia. o Fascismo. das máquinas e do progresso. o movimento artístico passou a ser um grande apoiador fascista. (MICHELI apud PAPINI. Para contextualizar a sociedade do início do século XX. Marinetti. o futurismo teve uma concepção política aproximativa de cunho republicano. o gás. o movimento encontrou muito apoio na classe trabalhadora italiana. um momento determinante para que o Futurismo. Os expoentes consideraram o combate uma grande hora futurista. exaltava o nacionalismo e as guerras. Com ideais semelhantes. p. e pensamentos de repúdio aos socialistas – acreditavam eu eles eram preguiçosos porque lutavam contra o capital e não trabalhavam para que a sociedade se modernizasse a nível ideal de um futurista –. Micheli cita um trecho de Giovanni Papini. portanto. as quais. que constituiu. 204) Ademais. por conta de os ideais futuristas irem contra os da burguesia. mas sim com outra ideologia que estava ganhando muita força no cenário político italiano. em L’esperienza futurista: Estamos no século em que se descobrem novos mundos e planetas. a fotografia. alguns anos depois.. o clorofórmio. além do nacionalismo”. a eletricidade. De início.sindicalismo e. a galvanoplastia e mil outras coisas admiráveis que permitem ao homem viver vinte vezes mais e vinte vezes melhor do que no passado. típico daquele período. anarcóide e de clara tendência socialista. de fato. na publicação do Manifesto de 1909. os futuristas passam a se identificar não mais com o Anarquismo. passaram a ser características básicas das ideologias do Partido Nacionalista Fascista. foi o apoio à Guerra da Líbia. 2004. um escritor italiano.

da velocidade acabou identificando-se com as teses da mais ativa e desabusada burguesia do Norte. mas outros. até mesmo. consequentemente. p. Alguns expoentes voltam vitoriosos. principalmente os que passavam por intercâmbios culturais em outros países europeus – em especial. queria a intervenção na guerra. com a eclosão da guerra. por razões evidentes. surgida no fim dos anos 1880. 211) 3. Eles se inspiravam em muitas características do estilo artístico. 2004. 2004.” (MICHELI. A técnica do pontilhismo divisionista. a qual. Marinetti. os expoentes e seus seguidores migram para outros movimentos e alguns passam. foi outra inspiração na construção da identidade do Futurismo. a perda numérica de artistas futuristas. a aventura figurativa do futurismo podia ser considerada concluída. O que veio depois não teve nem a importância nem a força do primeiro futurismo. Dessa forma. devidamente absorvida.” (MICHELI. como Umberto Boccioni não – o artista morreu em combate ao cair do cavalo. como ativistas do nacionalismo ufanista característico desse período histórico italiano.do modernismo.3) Características estilísticas formais O Impressionismo influenciou os artistas futuristas italianos. o Fascismo já está consolidado no Estado e o Futurismo já não tem mais a função de expor seus ideais políticos. p. a França. foi utilizada por . (MICHELI. 208) Os futuristas não permanecem apenas na ideologia teórica e levam os preceitos futuristas à prática. Além da vanguarda da Belle Époque. principalmente nas características rápidas pinceladas que causavam o efeito de movimento nas pinturas impressionistas. é exaltado pela mídia italiana nacionalista. a atuar no âmbito político. Por esses diversos motivos. leva à baixa de obras de grande expressão desenvolvidas após a Guerra. 2004) A partir desse ponto. o Divisionismo italiano. da mesma forma que D’Annunzio e Mussolini. alistando-se no exército italiano para lutarem na Grande Guerra. por outro lado. “Portanto. de fato.

a fé religiosa predominava. O Futurismo. seus próprios expoentes acabaram deixando o movimento pelo fato de o mesmo ter perdido parte de sua coesão ideológica. O Concretismo. Carrà é um exemplo. de museus e da hegemonia da Igreja – em 1909. 3. defendeu a glorificação das guerras – para ele.artistas como Giacomo Balla e Umberto Boccioni. que explorava especialmente a interação entre o espaço e o movimento. Mesmo assim. considerado o maior teórico futurista. muitos futuristas migraram para outros estilos artísticos. Exatamente por se opor às regras vigentes na Europa no início do século XX. é um exemplo. o Futurismo deixou um legado para outras vanguardas que vieram em sua frente. rompimentos como esses eram comuns. ela ainda tinha grande poder de Estado e. Com suas iniciais premissas futuristas. da mesma forma que o Dadaísmo. Único escultor futurista. Marinetti. na sociedade. por exemplo. para imprimir sentimentos em suas pinturas. chegou a redigir um manifesto. passou a apoiar o Fascismo e a permanência no movimento se tornou insustentável para os artistas que ainda idealizavam o Manifesto.4) Principais expoentes Fillipo Tomaso Marinetti . Tais premissas. Ademais. não tardou a acontecer a decadência do movimento. o artista tratou das concepções acerca da estética do movimento. no cenário pós Primeira Guerra. única maneira de higienizar o planeta –. Boccioni. visando alcançar a total ruptura com a moral. no Manifesto Futurista. “Pintura e Escultura Futurista – Dinamismo Plástico” – nele. Com isso. acabaram por se mesclar ao surgimento do Fascismo. que se inspirou no pós-Modernismo e na quebra de paradigmas. o patriotismo e o feminismo. o libertarismo. ele se interessou pela metafísica e sua ausência de conectividade com o real. Depois de defenderem a Itália após o fim da guerra. surgido na metade do século XX. defendia ainda o fim de bibliotecas.

nascido no extremo sul. tem como principais obras a escultura “Formas Únicas de Continuidade no Espaço”. ele pode ser considerado o pai do Futurismo. Milão. em Quargnento. Durante um período residindo em Paris. quando se tornou admirador de Marinetti. Quando retornou à Itália. Filho de italianos. Carlo Carrá Admirador de Filippo Marinetti. em Reggio di Calábria.Autor do Manifesto Futurista. nasceu no dia 11 de fevereiro de 1881. fixou-se na cidade “berço do Futurismo”. Conheceu Boccioni na Academia de Belas Artes de Brera. em 1916. em Roma. Considerado o teórico mais importante do movimento. no Egito. o poeta e ativista político Marinetti nasceu no dia 22 de dezembro de 1876. na Itália. Apesar de não ter agregado pinturas e esculturas ao movimento. de 1913. mas. Ele morreu no dia 2 de dezembro de 1944 em Bellagio. faleceu em combate. Boccioni alistou-se como voluntário ao exército italiano. estudou em Paris. em Pádua e em Gênova. Marinetti alistou-se ao exército e se filiou ao Partido Nacionalista Fascista. uma comuna italiana. em Alexandria. no dia 19 de outubro de 1882. na Itália. Umberto Boccioni Pintor e escultor italiano. Grande apoiador do Fascismo – e de seu nacionalismo ufanista – e de Benito Mussolini. estudou avidamente o Impressionismo. Ainda muito jovem frequentava o estúdio de Giacomo Balla. na França. O pintor. de 1910. numa queda de cavalo em Verona. ao contrário do poeta. e a pintura “A Cidade que Sobe”. em 1909. . cidade italiana. Após sua publicação no Le Figaro. o artista publicou inúmeros ensaios e textos que defendiam as guerras e o fim do academicismo. com os ideais de mudar o pensamento sistemático da sociedade europeia no cenário antecedente à Primeira Guerra Mundial. Assim como Marinetti.

aproximando-se da Arte Metafísica.influenciado pelo Divisionismo. característicos do início do movimento. usava diversas técnicas de pontilhismo. Giacomo Balla Pintor e professor de arte. o Manifesto dos Pintores Futuristas. Durante a Guerra. mas se afasta do Futurismo. por meio da qual era possível o uso da mágica e de elementos desconexos. nasceu em Turim. ao estudar em Paris no ano de 1890. Após conhecer Marinetti. no dia 3 de abril de 1966. é claramente visível a influência dos ideais anarquistas. Balla morreu em Roma. Numa de suas obras mais famosas. na IItália. “O Funeral do Anarquista Galil”. como a máquina. Falece. torna-se apoiador do Partido Nacionalista Fascista. trabalhava com a pintura e as técnicas divisionistas. “A Velocidade em Motocicleta”. na Itália. na Itália. teve contato com o Impressionismo. é uma de suas principais obras. Balla passa a mesclar. Boccioni e Russolo. 3. no entanto. assina. em suas obras. o Futurismo e passa a focar em criações abstratas que fizeram parte do movimento. Como muitos artistas das vanguardas modernas. a velocidade e o movimento. No dia primeiro de marco de 1958. junto a Carrà. em Milão. assim como Carrà. Mudou-se para Roma em 1895 e. Em 1910. essencial para dar a sensação de movimento e velocidade às criações. que destaca as principais características estéticas futuristas. de 1913.5) Análise de obra . no dia 18 de julho de 1871.

de acordo com o afastamento de um mesmo ponto. as meias-luas em formação ondular e a linhas radiais não vão acabar nunca. meias-luas e linhas) vão aderindo tons mais claros. as formas (espirais. As formas se cruzam e aumentam ainda mais a sensação de movimento. A ausência de fim talvez seja exatamente o segredo para que tenhamos a sensação de movimento. de que elas perpetuarão nesse movimento infinito pelo espaço – espaço esse completamente irreal e vago. agilidade e velocidade. Se observar por muito tempo. Amsterdã. A sensação de que os espirais. que os olhos humanos não poderiam mais acompanhar. poderia ser em qualquer lugar. 1913. a obra pode nos levar a um certo delírio . A beleza da obra está na sensação de profundidade e infinitude do espaço – a seleção e aplicação de cores monocromáticas permitem que esse seja o efeito sob o espectador. transmitindo uma sensação clara de desaparecimento – mas some não por acabar. Stedelijk Museum.70 x 1m. porque não importa onde e sim o que está acontecendo.Giacomo Balla. da mesma forma que as linhas continuam irradiando em 360°. nada está parado – os espirais continuam a girar e as ondas continuam a propagar. A forma como. Têmpera. Automóvel correndo. 0. mas sim por ficar tão rápido. aquarela. tinta sobre tela.

um automóvel em plena função. passa rapidamente pelo olhar. quando você olha pela janela e. a cor ou até mesmo o espectro. nos leva a uma agitação mecânica. Podemos ouvir o cheiro da fumaça. tudo se fragmenta ao nosso redor e a obra parece nos levar de volta para aquela viagem. As rodas giram – assim como os espirais – e. O Futurismo não se tratava exatamente do futuro. não dá tempo de reconhecer a forma. Diante do movimento. dentro dele. a estrada passa fragmentada sob nossos olhos. forma sobre forma. o ruído dos motores girando. tudo que está muito perto de você. da agilidade e do movimento.perturbador – o exagero de informação. mas sim do progresso – da velocidade. . o Futurismo diz respeito ao que seus expoentes tinham como ideal para o futuro. Numa única obra é possível ver a admiração que se tinha pelo desenvolvimento industrial.

DDAA A DDD DD AA DDD D AÍÍS ÍA ASMM M OOOAM ??? ? ????? ?Dadá é umm ?tóópicoo p?orqque nna v?enrdqa?dde mDadá nnã?oó é tóóp?ico neenh?um .

Em Manifesto Dadaísta. Não reconhecemos nenhuma . ela só existe subjetivamente. pelo menos. objetivamente. Jornalistas cultos ali vêem uma arte para os bebês. toda construção converge para a perfeição que entedia. para todos. histórica ou psicológica. do dadaísmo é o rompimento com as formas de arte e de vida tradicionais: dddada ddda á d d á dndáãã od dsssd iid gdsg ándiifiif cicasd fdndanand d d aa (TZARA..1) O que foi A principal. Acredita-se ter encontrado a base psíquica comum a toda a humanidade? A tentativa de Jesus e a Bíblia ocultam sob suas asas amplas e benevolentes: a merda. os animais. O cubo. foi uma escolha aleatória e descriteriosa do poeta e ensaísta romeno Tristan Tzara (1896-1963).. produto humano relativo. para cada um. ruidoso e monótono. O nome do movimento. O primeiro pensamento que vem a essas cabeças é de ordem bacteriológica: encontrar sua origem etimológica. [. 1918). e a mãe. deleitar ou maltratar as individualidades servindo-lhes os doces de auréolas santas ou os suores de uma corrida ondulante pela atmosfera. em uma certa região da Itália: DADÁ. A crítica é portanto inútil. a ama de leite. ideia estagnada de um pântano dourado. outros santos Jesuschamandoascriancinhas do dia.. por decreto. Não se constrói sobre uma palavra a sensibilidade. Aqueles que pertencem a nós preservam a liberdade. nem alegre nem triste. Um cavalo de madeira. por exemplo. e sem o menor caráter de generalidade.. A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma. Vemos nos jornais que os negros Krou chamam a cauda de uma vaca sagrada: DADÁ. de uma desconfiança em relação à comunidade. Tzara discorre acerca do Dadá em si e da relação deste movimento para com as outras vanguardas e a arte em si.4.] Assim nasceu DADÁ: de uma necessidade de independência. porque ela está morta. Uma obra de arte jamais é bela. Se o consideramos fútil e se não queremos perder nosso tempo com uma palavra que não significa nada. a volta a um primitivismo árido e ruidoso. nem clara nem escura. uma dupla afirmação em russo e em romeno: DADÁ. e provavelmente única regra. os dias.

enquanto o cubismo. O expressionismo. “O expressionismo acaso atendeu nossa espera por uma arte que queime a essência da vida na carne? Não! Não! Ns ãcã ds oa”goãsa (TZARA. defende a liberdade desmedida do indivíduo. já que. o abstracionismo construtivista têm uma base positivista. das vanguardas. o imediatismo. Entretanto. não é uma razão ordenadora. de acordo com os próprios dadaístas. Apesar de estar sendo descrito em um artigo nomeado As Vanguardas Artísticas. 2004). o dadaísmo coloca-se como o ato extremo do antidogmatismo e da negação: da arte como sistema. in MICHELI. que. coloca-se sobre a base contrária” (MICHELI. mais importante do que o resultado de uma obra ou do que a obra em si. como o expressionismo. em sua potência de negação das estéticas conservadoras e dos valores sociais estabelecidos. o dadaísmo. o futurismo. sendo alvo de duras críticas por parte dos dadaístas. enquanto movimento. o único aspecto formal do Dadá é não ter aspecto formal. Esse pensamento reflete-se em sua produção desartística. 1918). 1918). Os motivos de natureza plástica que interessam aos demais artistas não interessam nem um pouco . é a abolição da lógica (TZARA. uma busca de coerência estilística. Já estamos fartos das academias cubistas e futuristas: laboratórios de idéias formais (TZARA. tinha uma proposta semelhante: “De fato. a aleatoriedade. Assim. não foi executada de forma que eles entendessem como plena e satisfatória. 1921. O dadaísmo.teoria. distanciando-se delas. é o gesto. os dadaístas frequentemente usaram métodos artísticos e literários intencionalmente incompreensíveis. Dadá constrói-se em oposição a tais vanguardas. a espontaneidade. Quanto ao aspecto teórico. 1918). um módulo formal que presidem à “criação” da “obra” dadá. 2004). “De fato. para eles. O pintor e poeta alemão Hans Arp reflete acerca do dadaísmo: “aquilo que nos interessa é o espírito dadaísta e nós éramos todos dadaístas antes da existência de dadá” (ARP. criando místicas performances teatrais e organizando escandalosas exposições. Os aspectos formais e estéticos dadaístas não estão delimitados como de outras vanguardas ou movimentos artísticos. de si próprio. o fazer. Talvez.

francesa. não criam obras. um “festa sem sentido” . os artistas se impregnam do Dadá. da supremacia do caso sobre a regra. Juntos. roupas e máscaras cubistas. 1 2 (1) Fountain. quase dois anos após o início da Grande Guerra. As apresentações contavam com diversos tipos de música. portanto. a violência rompente da sua presença irregular entre as “verdadeiras” obras de arte” (MICHELI. a afirmação da força virtual das coisas. 2004). mas fabricam objetos. Ao procurar no dicionário francês-alemão a palavra referente a . abolição da memória: DADÁ. A data de fundação do Cabaret é o marco da data de nascimento do movimento dadaísta. na Suiça. pois é ele a expressão máxima de que tudo o que faz sentido naquele momento está esvaziado de todo e qualquer sentido. Eles. 1918). como russa. abolição dos profetas: DADÁ. O que interessa nessa “fabricação” é sobretudo o significado polêmico do procedimento. durante reuniões informais. pelas mãos de jovens refugiados de diversos países europeus. No contexto de ǝpɐpılɐuoıɔɐɹ irracional que a Guerra provoca. em Zurique. holandesa. Marcel Duchamp (1917) O mito do Dadá nasceu em fevereiro de 1916. abolição da arqueologia: DADÁ.aos dadaístas. tipos diferentes de danças. os jovens não-artistas decidiram abrir um clube. abolição do futuro: DADÁ” (TZARA. É a total descrença: “DADÁ. Marcel Duchamp (1917) / (2) Detalhe de Fountain. que seria chamado de Cabaret Voltaire.

descobriram acidentalmente a palavra Dada. t t Ae dA oAto AAtA o bbt sd s urrd O Dadá é a AAA rtee r A r doaAo . O novo movimento incorporou novidades como o conceito de simultaneidade. e que mais tarde se tornaria a música concreta. mas. e por isso não se importava com os acontecimentos concretos dentro dela e em decorrência dela. como dito anteriormente.é a ciência de que o mundo é feito de . a política. Berlim. na provocação. O Dadaísmo não é um movimento homogêneo e organizado. ou música de ruído. Colônia. no barulho. enquanto a palavra do homem do absurdo é o talvez. Talvez porque o dadaísmo fosse. Entretanto. como é de se esperar o observar a produção desartística do Dadá. a prática de recitar vários poemas ao mesmo tempo. mas no gesto de fazê-la. isto é. mas também não afirma.chanteuse (cantora em francês). enquanto o homem do absurdo não nega. composto por fragmentos e pinceladas dispersas que. corrente filosófica posterior ao dadaísmo cujo preceptor foi o argelino Albert Cami Camus. no sentido específico do termo.ou desmovimentos . A palavra do dadaísta é o não. e o bruitisme. a lógica e a moral comum” (MICHELI. não consistia na obra em si. É certo que a preocupação dadaísta. sem nenhuma consideração para com a história. ao mesmo tempo que distancia. De acordo com Mario de Micheli. no distúrbio. Nova York e Paris. sim. autor do livro “As Vanguardas Artísticas”. inaugura-se uma galeria chamada Dada e o movimento se expande e se firma como forma de protesto contra uma civilização incapaz de evitar a guerra. Em 1917. uma contestação à própria política. comum a todos os jovens. 2004). não interessava muito ao “grupelho de intelectuais” que formaram o movimento mais subversivo da história da Arte e das Letras. também. Os artistas do Cabaret Voltaire consideravam o movimento anterior. o Dadá alcançou expoentes em Barcelona. O que relaciona ambos os movimentos . aqueles não eram jovens politicamente ativos no sentido convencional. no ruído.t mas atrita em relação à Filosofia do Absurdo. na época. regrado e delineado com clareza. une artistas como os do Cabaret. pragmático demais. Em pouco tempo. uma revolta que exigia uma adesão completa do indivíduo às necessidades da sua natureza. “Uma revolta que era. na polêmica. ao passo que o dadaísta nega. o Futurismo.

mais próximas de Fernand Léger que de Pablo Picasso. interessando-se pelo movimento das formas. que se esvazia de qualquer valor ou sentido que a sociedade atribui. Em 1917. 1916. de índole satírica. a arte de Duchamp abriu caminho para movimentos como a pop art e a op art das décadas de 1950 e 1960. Colaborou também com Tristan Tzara na revista Dada. produtos industriais sem função artística.despropósitos. em Zurique. gRANDES EXPOENTES DO dADÁ FORAM: Marcel Duchamp (1887-1968) Pintor e escultor francês. adepto do irracional e do onírico e do inconsciente. Francis envolveu-se sucessivamente com os principais movimentos estéticos do início do século XX. o artista se concentrou nos engenhos mecânicos do dadaísmo. As formas e as cores foram tornando-se mais discretas em sua produção. como cubismo. a falta de crença na humanidade ou na existência. Francis-Marie Picabia (1879-1953) Pintor e escritor francês. Ernest esteve envolvido em outros movimentos artísticos. surrealismo e dadaísmo. abandonou a abstração pura que praticara por anos e criou pinturas baseadas na figura humana. foi rejeitado ao enviar a uma mostra um mictório de louça que chamou de "Fonte". antes mesmo do surgimento do Dadá. e que. adquiriam a condição de objeto de arte. são exuberantes nas cores e sugerem formas metálicas que se encaixam umas nas outras. até que. demonstrando seu desprezo pela arte tradicional. por volta de 1916. criando . O experimentalismo e a provocação o conduziram a idéias radicais em arte. com a superposição de formas lineares e transparentes. após leve intervenção e receberem um título. Reinterpretou o cubismo a sua maneira. como pintar bigodes na Mona Lisa. Criou os ready mades. Suas primeiras pinturas cubistas. Max Ernest (1891-1976) Pintor alemão. Depois de 1927. Fez também interferências.

composições que sugerem a múltipla identidade dos objetos por ele escolhidos para tema. No dadaísmo. como a madeira de veios salientes. Como o artista não tinha controle sobre o quadro que estava criando. que consiste em aplicar uma folha de papel sobre uma superfície rugosa. e esfregar um lápis de cor ou grafita. Inventou técnicas como a decalcomania e o frottage.técnicas em pintura e escultura. de modo que o papel adquira o aspecto da superfície posta debaixo dele. o frottage também era considerado um método que dava acesso ao inconsciente. Man Ray (1890-1976) . contribuiu com colagens e fotomontagens.

Era um experimentalista por excelência e investia grande parte de seu tempo no laboratório fotográfico para pesquisar. usando muitas vezes distorções de corpos e formas. não simplesmente jogando elementos aleatoriamente na produção. . sua grande paixão. e é o pioneiro da desconstrução da fotografia com a transformação de fotos tradicionais em criações de laboratório. reconstruir e testar métodos em busca de aperfeiçoamento. elaborada. mas não com a intensidade com que produziu fotografia. tentando sempre uma aproximação entre fotografia e pintura. Dadaísmo e Surrealismo. sempre brincando com uma consciência por trás das coisas em busca da metáfora. dedicou-se à pintura e ao cinema também. Com ligações que passam pelo Cubismo. é o artífice da foto criativa. construída ou improvisada. fundou o Dadá nova iorquino. Ray foi uma espécie de artesão conceitual. cujo nome de registro era Emmanuel Radnitzky. Junto de Duchamp.Fotógrafo americano.

O que leva uma estudante de arte a optar pela L.O. de Leonardo da Vinci. L. zomba com a produção daVinciana. senão das produções artísticas. como obra representativa do movimento dadaísta? A Mona Lisa de Bigodes.. mas.O. ironiza a arte. uma negação da tradição. debochando da obra.O. em seus modestos 4081cm² de área.O. O desrespeito do artista para com a pintura a qual se apropria é claro logo no título: L. é um retrato conservador de uma mulher. Ele se apropria do maior símbolo do que era arte. ou melhor: um anti-gesto em direção a arte.O.O. lida em francês. soa como “Elle a chaud au cul”. ou a Mona Lisa de Bigodes. Mede apenas 77cm × 53cm e.H. em uma das pinturas. o ato maior de desprezo em relação à comunidade e às regras que esta defende de forma sistemática. A Gioconda..: sigla que.H.O.Q. obra acima retratada.H. Duchamp é um iconoclasta. traz em si a melhor concepção de uma importante técnica renascentista: o sfumato. francês que revolucionou a arte com seus ready mades. e. Está em exposição no Museu do Louvre. e clama autoria. por conseguinte.H. é uma intervenção de Marcel Duchamp.Q. entendo que tão importante quanto a análise em si é a justificativa da escolha de tal obra. é a síntese de tudo o que o Dadá representa: um gesto.Q.H.O.Q.O. para entender o que é L. com toda a produção artística tradicional. não é Mona Lisa. ou Mona Lisa del Giocondo.H. A atitude beira a infantilidade. O que Duchamp faz é o que meu primo de 13 anos faria se pudesse acessar a obra com uma caneta permanente nas mãos: um bigode e uma barba rabiscados na mulher. uma das maiores atrações do museu parisiense.O.Q.L. que em português seria “Ela tem fogo no rabo”. Vulgariza o sacro.. L.O.Q. visto que Duchamp toma a Mona Lisa como símbolo de tal fazer artístico. e se coloca nas paredes de concreto como se põe o sorriso nos lábios de Mona Lisa: timidamente. precisamos entender quem Mona Lisa é. Marcel Duchamp (1919) Para analisar uma obra. mais conhecidas de toda a história: A Gioconda. . Cospe nos conceitos tradicionais de arte. como é mais conhecida.O. desenha bigodes e barba sobre a tela. pintado à óleo sobre madeira de 1503 a 1506.

É também. aqui estamos nós analisando e aqui está o Dadá sendo analisado como arte. que dá a volta e pega o próprio rabo. ele debocha. ou análise? Estaria a arte tão presa aos moldes tradicionais que seríamos incapazes de simplesmente olhar além? Ou de. É irônico que. como vanguarda. Os valores sociais caem todos por terra no dadaísmo. sem sombra de dúvidas. político. tudo isso é negado e questionado no Dadá e. Talvez. ao passo que o Dadá nega a noção de arte e de vanguarda. não olhar? . simplesmente. Valores quanto ao que é belo. arte. uma subversão de gênero: uma mulher de semblante sério e elegante passa a carregar. Falhou o dadaísmo como dddd deãseAd ssdAemmAef dr oebã s dvgdvA it rA i bdnmoã es nvt d ettoga f ta ãoed t ou falhamos nós ao interpretar o que dizia o mito do Dadá? Seria algo que sequer cabia alguma interpretação. ironia cíclica. no alto da face. quando Duchamp coloca bigodes na mulher que é o símbolo de tais valores. a ironia dadaísta seja um grande ouroboros artístico. certo.Ele deslegitima a arte como ela se manifestava e os valores sociais em voga à época da obra. errado.o bigode. um símbolo masculino . muitos dos quais se sustentam ainda até hoje. feio.

Q.O.H. (1919) SURREALISMO 5. entrelaçamento dos contrários e de todas as contradições.O. Marcel Duchamp segurando sua obra L.1) O que foi O Surrealismo foi a vanguarda que surgiu no período pós Grande Guerra. alarido de dores crispadas. crítico e artista plástico (às vezes). 1918).“Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ. O poeta André Breton (1896-1966) foi o principal responsável pelas delimitações do que poderia ser chamado Surrealismo. dos grotescos. das inconseqüências: A VIDA” (TZARA. foi responsável pela escrita do Manifesto Surrealista. O . Poeta. Sua proposta era a tentativa de prosseguir com a libertação da arte em uma época na qual a tendência estava sendo se agarrar às estruturas nacionais e às noções tradicionais de ordem.

não podemos nos esquecer da Revolução Russa e o socialismo soviético.movimento surrealista foi amplamente associado às artes plásticas. nesse sentido. Mallarmé e Rimbaud: Poe é Baudelaire surrealista é surrealista na aventura. 5. (BRETON. .2) Contexto histórico Após a primeira guerra mundial. apresentar uma solução para o avanço das ideias comunistas. Por outro lado. mas também abarcou o teatro. Breton já identifica características do surrealismo no movimento literário romântico e no simbolismo. das identidades. a literatura e o cinema. tendo dado ao subtítulo de sua peça. não esconde sua admiração por Apollinaire no Manifesto Surrealista. A crença no potencial da revolução. Dentre os românticos. na moralidade. Les Mamelles de Tirésias. dentre os simbolistas. A tendência à busca por uma base ou estrutura sólida para recuperar a autoestima gerou um contratempo aos avanços propostos pelos movimentos vanguardistas. É o berço dos movimentos de extrema-direita que temos aqui. e seus ideais eram expressivamente opostos à proposta modernista de uma maior liberdade formal. a partir do próprio modelo. 1924) O nome foi uma homenagem à Apollinaire. Baudelaire e de Poe. o mundo estava envolto ainda em uma tensão política e em uma crise. Rimbaud é surrealista na forma como viveu. Mallarmé é surrealista quando está confinando. o subtítulo um drame surréaliste ao invés do convencional surnaturaliste criado por Gérard de Nerval. este sendo incapaz de. além de seus avanços em relação ao enfrentamento da extrema pobreza. Nesta última categoria. o primeiro a ter utilizado o termo “surrealismo. Breton. também. e além. gerava uma crise no mundo liberal. o espanhol e amigo de longa data de Salvador Dali. Mas anteriormente. Luís Buñuel é lembrado por conta de seu clássico filme Um Cão Andaluz.

tentou ir ainda mais adiante que Dadaísmo. A proposta era atentar-nos ao paradoxo oferecido pela política dita paternalista que por um lado oferecia o cuidado. As imagens bizarras e a fluidez do inconsciente propunham um choque contra a ideologia. mas de uma tentativa de luta contra a fragilização e o desejo de retorno à ordem por conta da instabilidade política do período pós primeira guerra mundial. garantias e a não necessidade de confronto direto com os problemas da sociedade. Tomado pela busca de uma liberdade formal encabeçada pelo modernismo. Mas junto disso. herdeiro do dadaísmo. também. 5. nesse sentido. após o lançamento de sua tese Sobre a psicose paranóica e suas relações com a personalidade. o Surrealismo é. mesmo abordando. trazia uma perda maior da liberdade. levando a importância de obras como A Interpretação dos Sonhos e o aumento da importância do movimento psicanalítico. está pensada nos limites da realidade realizável. o Surrealismo. Jacques Lacan. uma vez que. Com isso. Inspirado por uma crítica à racionalidade burguesa. foi procurado por Salvador Dali para ser o braço científico que oferecesse legitimidade à proposta surrealista. mas por outro. a pesquisa experimental. O Surrealismo. a forma das obras surrealistas.Em 1921. ao explorar a lógica do sonho. tal como os dadaístas. nasce não só do descobrimento do inconsciente. o impossível. . a liberdade só é possível dentro de um sistema de valores. com intuito de sacudir por completo a sociedade. da possibilidade de se expressar e de ser quem você era. aproximando-se mais da noção de Hegel a respeito da liberdade.3) Características estilísticas e formais O Surrealismo pode ser visto como herdeiro do trabalho freudiano dentro das artes. tendo sido elaborado por pessoas desse meio. na qual a pura liberdade é vista como pura abstração. para ele. Esse traço característico da produção surrealista gera a aproximação entre esses artistas e a psicologia. para provar como o medo da ascensão da direita autoritária era bastante presente. Freud publicava um dos seus mais famosos livros: Psicologia das Massas e a Análise do Eu.

por excelência. a libertação sexual é importantíssima e caminha ao lado da libertação formal “nos limites do realizável”. dos processos de condensação e de deslocamento) na sua forma. Por conta disso. A ideia é “exprimir. por exemplo. mas sem sucesso. Pensamento ditado na ausência de qualquer controle exercido pela razão. André Breton travou uma grande luta para dissociar o nome de Salvador Dali do Surrealismo. Mas a paranóia crítica é quase especificamente utilizada por Salvador Dali. uma técnica de pintura baseada na associação interpretativa dos momentos de delírio: A técnica consiste no artista invocar um estado paranóico (medo de que o eu esteja sendo manipulado.. seguindo os mesmos princípios racionais da psicose dentro da visão psicanalítica.. Dali. Para a maior parte dos surrealistas. fora de toda a preocupação estética ou moral” (BRETON. de modo que a subjetividade se torna o aspecto primário da obra de arte. 1924). Segundo Breton (1924). seja ele . tendo se posicionado contra os republicanos durante a Guerra Civil Espanhola. O resultado é uma desconstrução do conceito psicológico de identidade. a forma de produção é o automatismo psíquico.) ela tende a destruição da sociedade capitalista”. verbalmente ou por escrito.Para os surrealistas havia uma indissociação entre liberdade de espírito e liberdade social. metafórico e metonímico (equivalentes. Ao desenvolver-se dentro das regras da psicose. O mote é a fantasia do sonho ou da alucinação como um espaço no qual o homem exprime seu desejo. foi um apoiador da ditadura fascista do General Franco. O Surrealismo é. Salvador Dali. Junto disso. estabeleceu a técnica chamada paranóia crítica. consecutivamente. a verdadeira função do pensamento. direcionado ou controlado por outros). Apesar dessa característica ser parte descrita no próprio manifesto. “a arte está ligada à atividade social revolucionária (. O marxismo e a crítica aos valores burgueses são parte do que é considerado o belo no surrealismo. o principal expoente do Surrealismo.

com seus Valéry. se remete aos escritos de Lacan sobre a permanência de características da fase perversapolimorfa da criança na fase adulta. Sua ruptura com o movimento dadaísta é marcada pela frustração de seu Congresso internacional para a determinação das diretas e a defesa do espírito moderno. por exemplo. o artista se viu mergulhado nos ideais Marxistas e participou durante um bom tempo do Partido Comunista Francês. André Breton foi o responsável pela criação do movimento surrealista nos anos 20. ele lança em Outubro o Manifesto Surrealista. O surrealismo e a pintura (1928- . Criando o manifesto. Em O sono. tendo sido responsável por obras como o Manifesto Surrealista (1924). posteriormente. Apollinaire e Vaché foram importantíssimos para seu interesse pelo simbolismo e. em que temos um rosto erguido por várias muletas. sua entrada no dadaísmo. Pensemos aqui. novamente. 5. nomeada fetichismo. pela literatura romântica e simbolista.4) Principais expoentes André Breton Durante sua formação e sua encontros juventude. foi um dos defensores do automatismo psíquico como forma de produção no surrealismo não só na arte plástica. O corpo descentrado é uma experiência que. tem a ver com o desejo pelas partes. Breton é o grande ensaísta do Surrealismo. impedido pela oposição de Tristan Tzara. Essa característica. em Um Cão Andaluz.obsceno ou não. Após escrever. entre 1923 e 1924. no rosto de O sono de Dali ou na mão que é passeada. Além da psicanálise de Freud. de Salvador Dali. Tendo um profundo interesse por doenças mentais. a irracionalidade da obra garante a lógica surreal dos sonhos. seu livro Clair de terre. por exemplo. tendo aplicado a técnica em seus poemas. tal como um animal de estimação.

Clair de terre (1923-24) Joan Miró Ele é um dos participantes de longa data do movimento surrealista. tendo feito parte dele desde o primeiro ano. faz com que. que ocorre a partir de 1920. uma colagem surrealista que misturava texto com imagem. ou melhor. às características quase essenciais de suas obras: .1965) e Do surrealismo em suas obras vivas (1953). em 1924. primeiramente. Em relação ao seu estilo. Entrou em contato com as tendências modernistas. Formou-se pela Real Academia Catalana de Belles Arts de Sant Jordi. Seu encontro com André Breton. Miró lance duas pinturas já dentro da linguagem do surrealismo: Maternidade e O Carnaval de Arlequim. através do cubista Pablo Picasso. Além disso. suas principais obras são: Poeme (1924). A categoria de pintura mais famosa de Miró é geralmente debatida entre entre três: Números e constelações em amor com uma mulher.

tendo estas trazido o interesse de Federico Garcia Lorca e Luiz Buñuel. sem dúvidas. tendo sido amplamente acolhido pelo establishment e se tornado o rosto do movimento em qualquer associação rápida sobre o surrealismo. o futuro diretor de cinema surrealista e seu colaborador. Último acesso em 18/11/2016 . fazia pinturas de inspiração cubista. o mais famoso dentre os surrealistas.Sua carreira artística pode ser caracterizada como uma experimentação persistente e um flerte de longo tempo com a não objetividade As expressivas formas biomórficas. Em 1926 foi expulso da Real Academia por se negar a fazer os 1 Retirado do link http://www. (tradução do autor)1 Salvador Dalí Salvador Dali é.org/artist-miro-joan. Já nessa época.theartstory. Em 1922. formas geométricas e objetos semi-abstraídos de Miró são expressas em vários meios. desde cerâmicas e gravuras até grandes instalações de bronze. Salvador Dalí se muda para Madrid e vai estudar na famosa Real Academia de Belas Artes de San Fernando.htm.

demonstrava perfeito enquadramento com o modelo acadêmico de pintura. Apesar de seu uso inicial do automatismo psíquico. de modo que a subjetividade se torna o aspecto primário da obra de arte.exames finais de seu curso de pintura. Dali foi a Paris. Seu quadro Cesta de pão. Após sua expulsão. Dali substituiu esse método e foi responsável por desenvolver a paranóia crítica. pintado para seu exame final na Real Academia. de uma vez por todas. Suas principais obras são: A Persistência da Memória (1931). uma técnica de pintura baseada na associação interpretativa dos momentos de delírio: A técnica consiste no artista invocar um estado paranóico (medo de que o eu esteja sendo manipulado. Lá conheceu Pablo Picasso e pintava obras que iam desde as características vanguardistas às características mais acadêmicas. O resultado é uma desconstrução do conceito psicológico de identidade. Foi com a mudança para Paris que Salvador Dali começou a participar. Sono (1937) e A Face da Guerra (1940). do movimento surrealista. direcionado ou controlado por outros). René Magritte .

separando o homem de seu traje a partir de um simplesmente deslizamento da cabeça à direita ou esquerda do corpo. Magritte havia sido. onde estudou por dois anos. A multiplicidade de técnicas para além do automatismo de Breton. fazendo a realidade e o inconsciente caminharem paralelamente. é uma ótima obra para pensarmos a respeito.e apenas uma obra por vanguarda. Uma vez que este trabalho requer a análise de uma . mas da quantidade. com o descentramento das partes dos corpos. apresenta uma escassez que qualquer uma obra pode apresentar para o conjunto do trabalho. tornou-se amigo de Breton. 5. designer de cartazes e anúncios e. Seu estilo era uma espécie de surrealismo com características realistas. empurra ao mesmo tempo elementos irracionais. . até mesmo. Magritte começou a fazer da pintura realmente seu ganha pão. muitas vezes. Éluard e DuChamp. de Salvador Dali. ao escolher qual será a pintura. as principais características do surrealismo: Virgem Juvenil auto sodomizada pelos chifres de sua própria castidade. Após ter se mudado para Paris em 1927.Em 1916. trabalhado em uma fábrica de papéis de parede. Seus homens de chapéu coco permeiam quase todas as suas obras. fazendo com que precisemos sair. em um processo que chamamos dissimilitude. já tendo desde 1926 começado a produzir as obras de arte surrealistas. ingressou na Académie Royale des Beaux-Arts.5) Análise da obra Há uma certa dificuldade ao analisar uma obra surrealista. não na questão da qualidade. de maioria realista na questão da nitidez. trabalhando. muitas vezes. Sua obra. em Bruxelas. além de uma fortíssima influência da pintura metafísica de Giorgio de Chirico. antes disso. Após um contrato com a Galerie la Centaure na Bélgica. senti-me na obrigação de escolher alguma obra que sintetizasse.

. Esses chifres. o que temos são objetos fálicos que se dirigem à sodomização da virgem. frutos do próprio descentramento da personagem. temos o sujeito descentrado. Por outro lado. já no título. Não é à toa que Salvador Dali acusa. uma característica da permanência da perversão que estabelece o que chamaremos fetichismo. são o que causaram. a sodomização de ser causada por um objeto da própria personagem descentrada: sua castidade. à essa imagem? Duas características bastantes presentes tanto na tese de doutorado de Jacques Lacan quanto na psicanálise freudiana se fazem presentes. Primeiramente. em primeira instância – se pensarmos a dinâmica na imagem como potencialidade de seus objetos – a violação da virgem.Virgem Juvenil auto sodomizada pelos chifres de sua própria castidade O que nos interessa. no primeiro olhar.

por exemplo. há um objeto . um objeto a . mas com a ruptura que esse falo parece estar fazendo antes mesmo de atingir o que seria. . na obra. Note.ou a barra de ferro . Quando observamos o aumento do diâmetro da circunferência da perna mais próximo de seus finais. por detrás de todo relacionamento com a totalidade de algo. não no ato potencial de encontro da figura fálica com a bunda da virgem. interessantemente. Note que a textura dos objetos fálicos é a mesma textura das “pernas”. então. Mas vamos. Não se trata. No caso dos sonhos.que em sua ausência a totalidade não se torna desejada. a castidade . de uma sodomização estritamente dita.ou. então. seu objetivo final. a existência de permanências da fase perversa-polimorfa na fase adulta.é destruída pelo seu próprio chifre antes do ato da sodomia. A sodomização está. A estrutura da obra desvia a atenção da barra de ferro a partir do erotismo na posição da virgem. Nesse sentido. aqui. A tese lacaniana é a de que esse descentramento prova. das coxas. lemos as pernas ao mesmo tempo tendo uma dimensão fálica. na verdade. para nós. O chifre rompe uma barra de aço sob a qual a virgem está debruçada e que a sustenta frente à queda de uma janela. Os descentramentos apresentam. onde está a sustentação do corpo do desejo. aparentemente. na verdade. também. Os próprios chifres são feitos. extensões que faziam. Ou seja. entre o pequeno objeto e o corpo que o sustenta. sabendo que o normal é esse diâmetro reduzir. parte da própria personagem antes do seu descentramento. que são essas pernas outros objetos fálicos. esse objeto não é capaz de ser desejo por si só sem que esteja inserido dentro de um corpo – pense aqui. o objeto a é capaz de se sustentar sozinho. Ao mesmo tempo. melhor. que o desejo sempre parte de uma partícula que se relaciona com a totalidade da Coisa. o objeto a são as coxas.Esses “chifres da castidade” são. Há uma relação cíclica. ao que interessa: qual a importância desse descentramento? O descentramento é uma repetição constante durante os sonhos. O ponto é: “não há sodomia”. então. Nesta pintura de Dali. na pequena pinta na maçã esquerda do rosto de Marilyn Monroe.

especificamente. Mario de. destrói a barra de sustentação (ou a castidade) da virgem. A interpretação dos sonhos. 1981. As Vanguardas Artísticas. a castidade rompida (ou a barra de ferro) retira a sustentação da virgem. São Paulo: Martins Fontes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. FREUD. Psicologia das massas e análise do eu. Sigmund. Não é esse. toda a fantasia e todo o desejo perdem a sustentação. através de uma escolha fetichista que descentra todo o corpo da personagem. no momento em que se tenta desfrutar diretamente da coxa da virgem. A História da Arte. L&PM. . o paradoxo que tínhamos abordado ao falar sobre a relação entre esse pequeno objeto desejado e a totalidade do corpo? No momento em que o chifre (o falo) se dirige para a coxa (o objeto a). Referências GOMBRICH. separá-las. MICHELI. Sigmund. 2012. no momento que se dirige às coxas. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. FREUD.Mas o centro da análise está nos dois destinos do “chifre da castidade”: tanto o destino que pretende. ao tocar as duas coxas. Ernst Hans. Em outras palavras. quanto o destino que. descentrando-a. 2004. Rio de Janeiro: Imago 18. 1996. derrubando-a da janela.

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