“É difícil perceber quando a comédia

humana parecerá engraçada outra
vez”
0È5,2/23(6 

Escritores e intelectuais comentam o ataque ao Charlie Hebdo pondo a
tónica no ataque à liberdade de expressão.

Salman Rushdie, que viveu anos refém do fundamentalismo islâmico,
após a edição em 1989 de Versículos Satânicos, respondeu no próprio
dia, quarta­feira, ao atentado na redacção do Charlie Hebdo. “Ponho­me
do lado do Charlie Hebdo, como é dever de todos, para defender a arte da
sátira, que foi desde sempre uma força da liberdade contra a tirania,
desonestidade e estupidez”, escreveu em comunicado.
Nos dias seguintes, outros escritores e intelectuais deram voz à sua
leitura dos acontecimentos. A condenação é inequívoca, tal como a noção
de se ter vivido um ataque à liberdade de expressão, pilar determinante
da civilização. Escreveu­o, por exemplo, o escritor peruano Mario Vargas
Llosa, nobelizado em 2010: “Até agora matavam pessoas, destruíam
instituições, mas o assassinato de quase toda a redacção do Charlie
Hebdo significa porém algo de mais grave: o desejo de que a cultura

renunciar a um dos princípios mais fundamentais da cultura da liberdade: o direito à crítica”. acima de tudo. dos direitos humanos. sapatos tradicionais do norte de África. tolerância. O escritor inglês Ian McEwan inicia um texto publicado no Guardian apontando na mesma direcção. escreveu no El País. o desenhador de Astérix que. o nome de Uderzo. tem que ser morta? Isto é insanidade!”. o grito: “Também eu sou um Charlie”. mundo fora. ou seja. declarou. a partir desse momento. portanto. berço da liberdade. Entre os milhares de cartoonistas que. a por limites à liberdade de expressão. “Como pôde alguém fazer algo tão chocante? Como podem pessoas que se dizem seres humanos assassinar gente que nunca conheceram mas que disse qualquer coisa de errado e. que comece a praticar a censura. Este é o diagnóstico.  Unidade nacional não é "França para os franceses" . prazer e. enquanto Ideiafix nos lança um olhar triste. O cartoon está a gerar alguma controvérsia. O outro cartoon é mais eloquente quanto aos seus sentimentos que as palavras ditas ao Le Figaro. aos 87 anos. afirmou Massoud Hayoun. “Assassino e auto­santificado. "O cartoon ilustra um sentimento anti­imigração latente na sociedade francesa". As acções a tomar perante ele surgem depois  ­ no texto de McEwan e nos restantes que foram sendo publicados. expressaram com a sua arte os sentimentos suscitados pelo assassinato dos seus colegas de profissão. No balão. destaca­se. pelo simbolismo. renuncie a exercer esses valores. Um dos cartoons mostram Astérix e Obélix curvando­se em homenagem aos assassinados e depositando uma rosa no chão. estabelecer temas proibidos. da democracia. obviamente) já fora de cena (apenas os pés sobrevivem no enquadramento). liberdade de expressão”. Astérix dispara um soco que lança no ar o assassino (presuminos. Nunca se mostrou envergonhado na proclamação da sua lista de ódios: educação. jornalista americano da Al­Jazeera. abandonou a sua reforma para criar dois cartoons. no homem esmurrado por Astérix. o islamismo radical tornou­se um pólo de atracção global para psicopatas. publicados no Le Figaro. com o seu autor acusado de racismo por ter desenhado duas babuchas.ocidental. pluralismo.

 Acrescentava que “respeito pela religião” se tornou uma expressão codificada para “’medo da religião’”. Bernard­Henri Lévy defende que não se deve exigir aos muçulmanos franceses que se justifiquem perante o atentado. erradicando dessa maneira. sátira. Salman Rushdie. que aponta como precisamente o contrário do “França para os Franceses” tornado slogan pela Frente Nacional de Marine Le Pen: “A unidade nacional é a ideia que faz com que os franceses tenham compreendido que os assassinos de Charlie não são os muçulmanos. cáustico. uma forma de governar que não caia em nenhuma das armadilhas em que os Estados Unidos estiveram quase a perder­se depois do 11 de Setembro de 2001”. uma forma medieval de insensatez. dirige­se depois aos que sintam tentados . mas estes devem ser incitados a “manifestar que se sentem irmãos dos seus concidadãos assassinados. Ian McEwan. um desrespeito corajoso”. O texto de Lévy tem o tom de um verdadeiro manifesto. a religião. e de uma vez por todas. "Estamos perante o momento churchilliano da V República”. a mentira de que existe uma comunhão de espírito entre a sua fé e a dos autores da matança”. um patriotismo sem Patriot Act. antes de reclamar uma linha de acção distante da praticada pelos Estados Unidos dirigidos por George W. composta por quem confunde o Corão com um manual de torturas”. sim. como todas as outras ideias. crítica e. vê alguns “frágeis raios de luz” nas multidões “serena e determinadas” reunidas em várias cidades francesas ou na esperança de que “o repúdio generalizado perante estes assassinatos possa ter um efeito unificador”. declara. “A França pode – e deve – erguer diques que não sejam os muros de fortaleza acossada”.O filósofo e escritor francês Bernard­Henri Lévy acentua no New York Times a gravidade excepcional do ataque terrorista. E concluía: “As religiões. merecem crítica. Exorta os cidadãos (“temos de vencer o medo e armarmo­nos contra a obsessão com o outro e a lei da suspeita generalizada”) e apela à “unidade nacional”. escrevera que a “quando combinada com armamento moderno. Classificando os cartoonistas do Charlie Hebdo como “correspondentes de guerra” (“agora sabemo­lo”). escreve: “É o momento de rompermos com os discursos apaziguadores que nos servem há tanto tempo os tontos úteis de um islamismo dissolvido na sociologia da miséria”. mas sim uma ínfima fracção dos muçulmanos. escreve. naquela que considera uma “noite negra para a liberdade da mente”. que. torna­se uma ameaça real às nossas liberdades”. Bush no pós­11 de Setembro: “A França deve ­ e pode – pôr um prática um antiterrorismo sem poderes especiais.

 Escreve: “aqueles que pensem em incendiar uma mesquita devem considerar que a forma mais eficiente de oprimir ou assassinar muçulmanos será juntando­se ao Isis ou a uma das suas organizações associadas”. Há uma conversa civilizada a fazer”. Também Ian McEwan põe a tónica na liberdade de expressão. recorda como Voltaire tentou mobilizar os seus concidadãos contra as perseguições da Igreja Católica na antecâmara do Iluminismo escrevendo “temos que ter o riso do nosso lado”. no auge das perseguições. a atitude do Islão mainstream perante a apostasia mantém­se nebulosa. Dartnon escreve que esta semana. “Na próxima semana”.  COMENTÁRIOS 2VFRPHQWiULRVDHVWHDUWLJRHVWmRIHFKDGRV6DLEDSRUTXr . por exemplo. No New York Review of Books o historiador Robert Dartnon.a ceder à retórica xenófoba da Frente Nacional. mas é difícil perceber quando é que a comédia humana parecerá engraçada outra vez”. ofício a que se entregavam os cartoonistas do Charlie Hebdo. A sátira e o riso que ela provoca. “os quiosques estarão cheio de um ressuscitado Charlie Hebdo. o riso foi drenado de Paris. afirma. Depois de Charlie Hebdo o debate deve ser “reavivado”. especializado na França do século XVIII. prossegue. Mas seria depois o mesmo Voltaire. ter por título “enfrentar o ódio com o riso”. não são alvo de grande destaque em qualquer dos textos – apesar de o de Ian McEwan. a constatar “este não é o tempo para risos”. conclui. “Infelizmente para o pensamento livre no Ocidente.