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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por
dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

Sinopse
O narrador, autodenominado "juiz-penitente", denuncia a natureza humana paralelamente a um
penoso processo de autocrítica.

1

Meu senhor, posso oferecer-lhe meus préstimos, sem correr o risco de ser inoportuno?
Receio que não se consiga fazer entender pelo amável gorila que preside os destinos deste
estabelecimento. Na verdade, ele só fala holandês. A não ser que me autorize a defender sua
causa, ele não adivinhará que está pedindo genebra. Olhe, ouso acreditar que me tenha
compreendido: este aceno deve significar que ele se rende aos meus argumentos. De fato, lá
vai ele, apressa-se com uma sábia lentidão. O senhor está com sorte — ele nem resmungou.
Quando se recusa a servir alguém, basta-lhe um grunhido: ninguém insiste. Ser senhor do
próprio estado de espírito é privilégio dos grandes animais, Mas eu me retiro, meu caro
senhor, feliz por lhe ter prestado um serviço. Sou-lhe muito grato e aceitaria, com todo prazer,
se estivesse certo de não bancar o intrometido. É muita bondade sua. Então, vou colocar meu
copo junto ao seu.
Tem toda razão, o mutismo dele é ensurdecedor. É o silêncio das florestas primitivas, tão
pesado que sufoca. Às vezes, eu me surpreendo com o obstinado desdém que o nosso taciturno
amigo demonstra pelas línguas civilizadas. Seu trabalho é atender a marinheiros de todas as
nacionalidades neste bar de Amsterdã, a que deu o nome, ninguém sabe bem o motivo, de
Mexico-City. Não acha, meu caro senhor, que esses deveres acabam levando sua ignorância a
se tornar incômoda? Imagine o homem de Cro-Magnon hospedado na Torre de Babel! No
mínimo, sofreria uma sensação de desterro. Mas não, este não sente o exílio, segue seu
caminho, nada o atrapalha. Uma das raras frases que ouvi de sua boca proclamava que era
"pegar ou largar". Pegar ou largar o quê? Sem dúvida, ele próprio, nosso amigo. Vou fazer-lhe
uma confidência: sinto-me atraído por essas criaturas graníticas. Quando pensamos muito
sobre o homem, por trabalho ou vocação, às vezes sentimos nostalgia dos primatas. Estes não
tinham segundas intenções.
Nosso anfitrião, na realidade, tem algumas ideias, embora as alimente de modo obscuro.
Por não compreender o que se diz em sua presença, assumiu um caráter desconfiado. Daí
esse ar de sombria gravidade, como se suspeitasse, no mínimo, que há algo de errado entre os
homens.
Esse estado de espírito torna mais difíceis as discussões que não dizem respeito a seu
trabalho.
Veja, por exemplo, acima de sua cabeça, na parede do fundo, aquele retângulo vazio que
marca o lugar de um quadro retirado. Com efeito, lá havia um quadro particularmente
interessante, uma verdadeira obra-prima. Pois bem, eu estava presente quando o mestre-decerimônias o recebeu e quando ele o cedeu. Nas duas ocasiões, teve a mesma desconfiança,
depois de passar algumas semanas refletindo. Quanto a isso, é preciso reconhecer — a
sociedade arranhou-lhe um pouco a franca simplicidade de temperamento.

Bem sei que o gosto por finas roupas brancas não pressupõe obrigatoriamente que se tenham os pés sujos. mas pobre de mim. que nossa sociedade se organizou para este tipo de liquidação? Naturalmente. Duas ideias lhes bastarão para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Paris é uma verdadeira ilusão de ótica. Acho que sua desconfiança tem fundamento e dela compartilharia de bom grado se. É. Aliás. já faz muitos anos. Como dizer não? "Está bem. dissimula muitas vezes o eczema. Depois dessa forte definição. estes são muito menos modernos! Têm todo o tempo — olhe só para eles. A torto e a direito. deixando apenas um esqueleto imaculado. sou muito loquaz — e me relaciono com facilidade. esses senhores vivem do trabalho daquelas senhoras.Note bem que não o estou julgando. Não me surpreenderia. Consolo-me dizendo a mim mesmo que. Sempre me pareceu que nossos concidadãos tinham duas paixões desenfreadas: as ideias e a fornicação. como o senhor está vendo. como de costume. imagino o que dirão de nós os historiadores do futuro. Ou quase cinco milhões. De vez em quando. não. nem dos seus cais. O estilo. segundo o último recenseamento? Bem. não? Fascinante. Bem. os que matam em família. uma família. aqueles que falam de maneira ininteligível também não são puros. um magnífico cenário habitado por quatro milhões de silhuetas. acho que são mais morais do que os outros. Os holandeses — Oh. Embora eu saiba manter as distâncias convenientes. tentemos não condená-los: não são os únicos. Exatamente desde que saí de Paris. férias organizadas. Que fazem? Pois bem. eles devem ter feito filhos. mas não acredite que se empenhem muito. Quando eu vivia na França. e limpam-no." E os pequenos dentes cravam-se na carne até os ossos. esgotado. isso ocorre em toda a Europa. não podia encontrar um homem espirituoso sem que logo fizesse amizade. Pegue aí um emprego. Aliás. já deve ter ouvido falar dos minúsculos peixes dos rios brasileiros que se atiram aos milhares sobre o nadador imprudente. Vai ficar muito tempo em Amsterdã? Bela cidade. Não se deve . é esta a organização deles. estes senhores brincam de faca ou de revólver. tanto os machos quanto as fêmeas são criaturas extremamente burguesas. como a popeline. concorda? Eis um adjetivo que não ouço há muito tempo. Ah. vejo que implica com esse imperfeito do subjuntivo. por mitomania ou burrice. "Quer ter uma vida limpa? Como todo mundo?" É claro que a resposta é sim. Dito isto. afinal. Pois bem. com pequenas mordidas rápidas. Confesso minha fraqueza por esse tempo verbal e pelo belo linguajar em geral. Pois vamos limpá-lo. caro senhor. O papel o exige — nada mais – e eles morrem de medo ao disparar os últimos cartuchos. Nunca observou. em alguns instantes. meu temperamento comunicativo não o impedisse. pelo desgaste. Mas estou sendo injusto. Mas o coração tem memória e eu nada esqueci de nossa bela capital. Mas pode acreditar — é uma fraqueza pela qual me recrimino. o assunto ficará. por assim dizer. se assim posso me expressar. Às vezes. Ainda assim. que aqui vêm. mas voltemos à nossa genebra. todas as ocasiões me são propícias. Em resumo: por excesso ou falta de imaginação.

dizer que a organização é deles. Entre eles. ou no que era assim chamado até o momento em que nossos irmãos hitlerianos abriram espaço. Oh! Está ouvindo as sereias do porto? Esta noite vai haver neblina sobre o Zuyderzee. Que limpeza! Setenta e cinco mil judeus deportados ou assassinados _ é a limpeza pelo vácuo. sou um frequentador assíduo dos bares de marinheiros do Zeedijk. Repartiu-os com os pobres? Não. tenho as unhas tratadas. moro no bairro judeu. quer dizer. a julgar pela conversa. pressupõe no senhor uma certa abertura de espírito. Se quer mesmo saber. Permita-me que lhe faça duas perguntas. e só me responda se não as julgar indiscretas.. portanto. Tem mais ou menos minha idade. Além disso. todo mundo é doutor ou professor. pelo menos. Seu caminho . Portanto. Afinal de contas. o que chamo um saduceu. Vejamos. pelos ombros e por este rosto que tantas vezes me disseram ser feroz. Já vai embora? Desculpe-me se o atrasei. estou me abrindo com o senhor sem precauções. O que prova isso? Que eu também era um saduceu . O senhor possui bens? Alguns? Bom. e tem as mãos finas. À sua prosperidade. a maldade não é uma instituição nacional. Bem . primeiro o senhor. De lá. eles o irritam. Quanto a mim . não é? Mais ou menos? Excelente resposta! E também judiciosa: estamos apenas mais ou menos em todas as coisas. como as pessoas se trajam em nosso país. se não vê nenhum inconveniente. mais ou menos . não é? Mas. A única coisa simples no meu caso é que nada tenho.. Eu também sou esclarecido e. o senhor me interessa. Mas permita que me apresente: Jean-Baptiste Clamence. é o caso de saber quem vai limpar o outro. o olhar esclarecido dos quarentões que já fizeram de tudo um pouco. Finalmente. Enfim. e aceitarei. seu convite. certamente estarei aqui.. eu era advogado antes de vir para cá. Amanhã. como nas outras noites. sou juiz-penitente. Meu trabalho é duplo — eis tudo — como a criatura. O camelo que forneceu a pele do meu sobretudo sofria. sou juiz-penitente.. demonstra duplamente sua cultura: em primeiro lugar. É. e porque. Mas chega. Sem dúvida. É um prazer conhecêlo. nada reparti com os outros.. Já lhe disse. não pagará nada. Gostam de mostrar-se respeitosos. não sou médico. Sim. Mas que importa? As profissões me interessam menos do que as seitas. Está em minha casa no Mexico-City e tive imenso prazer em recebê-lo. de sarna. reconheço que não lhe adiantará muito. Adianta? Então conhece as Escrituras? Decididamente. o que. Mas. onde desfilam os bondes carregados de flores e de números tonitruantes. o gorila abriu a boca para me chamar de doutor. deixe-me bancar o detetive. O senhor é. Sim. seria mais simples acompanhá-lo até o porto. eu o divirto. encontrará as belas avenidas. não. em compensação. trazem nossa genebra... Quando a mim. julgue por si mesmo. apesar de minhas boas maneiras e de meu belo linguajar. . Se me permite. no entanto. Tenha a bondade. no Damrak.. não procure mais. na realidade. Bem. porque os reconhece. Nesta terra. a seguir. Agora. Seu hotel certamente fica em uma dessas avenidas. é preciso conceder-me um pouco de refinamento. Está mais ou menos bem vestido. mais ou menos um burguês! Mas um burguês requintado! Implicar com os imperfeitos do subjuntivo. contornando o bairro judeu. sem vaidade de minha parte. deve ser um homem de negócios. Ela é nossa.. Enfim. Pela estatura. Se não tem familiaridade com as Escrituras. fui rico. de bom grado. portanto. eu teria mais o aspecto de um jogador de rúgbi que outra coisa. por bondade e por modéstia.. sem dúvida. baseado unicamente em sua aparência. seu criado.

obrigado. sem dúvida. Quando vejo uma cara nova. "Devagar. Como nesta noite. com que guarneceram todas as suas vitrines e que vagueiam neste momento. posso lutar contra essa tendência de temperamento que me inclina de modo irresistível à simpatia. Sim. no incenso dourado da bruma.Admiro esta aplicação. em torno dos mares. Não insistamos nisso. tenho cautela. retirou-se para o campo. Eles sonham. mais dourado à noite. A Holanda é um sonho. Amo este povo que fervilha nas ruas. ela nada compreendeu. com a cabeça nas nuvens de cobre. sonâmbulos. veja onde se encontram suas cabeças: nesta bruma de neon. toma essa boa gente por uma tribo de síndicos e de mercadores contando seus 12 florins ao mesmo tempo em que contam suas possibilidades de vida eterna. com toda a certeza. às vezes cobertos de grandes chapéus? O senhor se engana. que entraram como se a casa fosse deles e o estriparam. Aliás. cisnes fúnebres que giram sem parar em todo o país. algo dentro de mim faz soar o alarme. Desse modo. este país me inspira. que ela instila? Gosto de caminhar pela cidade. encurralado pelas brumas. é preciso mesmo valer-se de um método. antes de se agarrarem . esta paciência metódica! Quando não se tem caráter. já imaginou? Aquele? Não. Pois bem. madame! Aliás. pelo ruído de seus passos largos sobre a pavimentação gordurosa. ao calor da genebra. perdão. caro senhor. com ar de máscaras. Mas sim. Talvez seja isso que me ajude a compreender o gorila e sua desconfiança. Perigo!" Mesmo quando a simpatia é intensa. Era pacifista. este aqui. rumo a Java. uma ilha longínqua. sim. mais enfumaçado de dia. metálica. O senhor percebe a luz dourada. espremido num pequeno espaço de casas e de águas." Quem. no entanto. que desce das tabuletas vermelhas e verdes. estão ausentes. acredita. Está aqui e em outro lugar qualquer. vendo-os passar pesadamente entre as suas lojas. ao longo dos canais. entre e seja bem-vindo. Caminho noites inteiras e sonho. pelas terras frias e pelo mar fumegante como um caldeirão. cheias de arenques dourados e de jóias da cor de folhas mortas. um sonho de ouro e de fumaça. É bem verdade que caminham junto de nós. à noite. meu caro senhor. o senhor é muito gentil. libertário e amava com um único amor abrangente toda a humanidade e os animais. durante as últimas guerras religiosas. mas creia-me. ele fez milagres. rezam. respondeu a este belo convite? Os milicianos. sem dúvida alguma. um oficial alemão pediu delicadamente a uma velhinha para fazer a gentileza de escolher entre os seus dois filhos o que seria fuzilado? Escolher. e receio atordoá-la um pouco. e dia e noite este sonho é povoado de Lohengrins como este. andam em círculos. segundo o senhor. cujo único lirismo consiste em ter lições de anatomia. Toda essa gente. deslizando sonhadores sobre as suas negras bicicletas de guidões altos. Oh. Mas é um transbordar: basta eu abrir a boca para as frases extravasarem. na Europa. Nesse caso. hem. em uma ação de represália. Sabe que em minha pequena aldeia. Eu o amo. Escreveu na entrada de sua casa: "De onde quer que você venha. uma alma de elite. existe a genebra. E vê-lo partir. e apesar da chuva que não pára há dias! Felizmente. acima de nós. De dia. e eu moro no local em que foi cometido um dos maiores crimes da história. porque ele é duplo. que estão aí nesta noite? O senhor é como todo mundo. Rezam a esses deuses da Indonésia. a única claridade nestas trevas. Conheci um coração puro que recusava a desconfiança. todas as surpresas são possíveis. Partiram para milhares de quilômetros de distância. ou falo sozinho interminavelmente. de genebra e de menta.

nunca passo numa ponte. embora nos encontremos na extremidade do continente? Um homem sensível compreenderá essas esquisitices. por de trás das vitrines? O sonho. à medida que se passa por estes círculos. O hábito. Deixo-o perto desta ponte. Transidos. Então compreende por que posso dizer que o fundo das coisas está aqui. Entra-se. a vocação. tornam-se mais espessos. Já reparou que os canais concêntricos de Amsterdã se parecem com os círculos do inferno? O inferno burguês. . dementes. em seguida tornam a atravessar os canais e vão-se embora sob a chuva. vêm pedir genebra. Das duas. em todas as línguas. o sonho a baixo custo. e também o desejo que tenho de lhe fazer compreender bem esta cidade. Até amanhã então. para relembrar a estes colonos nostálgicos que a Holanda não é apenas a Europa dos mercadores. a viagem às índias! Estas pessoas perfumando-se com especiarias. sobre a margem arenosa e incolor.. Quando se chega do exterior. Suponha. no Mexico-City. encimadas por uma cabeleira desgrenhada de palmeiras ao vento. meu caro senhor. Por causa de uma promessa. ou o abandona. elas fecham as cortinas e a navegação começa. espero por eles. enfim. Ah! Sabe disso? Que diabo. Em todo caso. mas também o mar. a vida.. Boa noite! Como? Estas mulheres. Chegam de todos os cantos da Europa e param à volta do mar interior. para retirá-lo. que alguém se atire à água. O círculo dos . povoado de maus sonhos. o senhor se torna cada vez mais difícil de classificar. às vezes. Escutam as sereias. Mas eu me deixo levar. buscam em vão as silhuetas dos barcos na bruma. Aqui. meu caro senhor. naturalmente. estranhas cãibras. Não. estamos no último círculo. e no tempo de frio arrisca-se ao pior. e os mergulhos retidos deixam. À noite. agora encontrará facilmente o caminho. os leitores dos jornais e os fornicadores não podem ir mais longe. mais obscuros. e portanto seus crimes.como macacos suntuosos às tabuletas e aos telhados em degraus. meu caro senhor e compatriota. uma: ou o senhor o segue. como no foro! Desculpe. Experimente. Os deuses descem sobre os corpos nus e as ilhas ficam à deriva. Lá. o âmago das coisas! Porque nós estamos no âmago das coisas. o mar que leva a Cipango e a essas ilhas onde os homens morrem loucos e felizes.

ou de passar a si próprio. Foi desse modo que travei conhecimento com ele. mais ele se enraivecia. há viúvas abusivas e órfãos ferozes. Esse homem ficava literalmente raivoso ao se descobrir culpado. mas um pouco como eu admitia os gafanhotos. Quanto mais a mulher se mostrava perfeita. Não se pode negar que. ele traía. acredite. E que ação! Uma tempestade! Eu tinha o coração nas mangas. eu não conseguia compreender por que um homem destinava a si próprio para exercer essa surpreendente função. como se diz. meu caro senhor. parecia mais uma paixão. não lhe disse meu verdadeiro nome. Bastava-me. É claro. na impossibilidade de receber. Mas. já que. Tenho certeza de que o senhor admiraria a exatidão de meu tom. visto de fora. os juízes sejam necessários. eu era advogado em Paris. Esse desprezo. Sei agora que ele tinha lá suas razões. isso faz mesmo parte de minhas funções. e posso explicar-me com mais clareza. De certo modo. Minha situação era mais invejável. isso bastava para a paz de minha consciência. Finalmente. um advogado bastante conhecido. juro. a atitude nobre me vem sem esforço. A viúva e o órfão. no entanto. Não só não me arriscava a passar para o lado dos . a persuasão e o calor. Com a diferença de que as invasões desse ortópteros nunca me renderam um centavo sequer. farejar num réu o mais leve cheiro de vítima para que minhas mangas entrassem em ação. admirada por todos e que. Mas. a alegria de nos estimarmos a nós próprios são. em primeiro lugar. Admitia-o. a satisfação de ter razão. a justeza de minha emoção. Que pensa que fez então? Deixou de enganá-la? Não. Há alguns anos. e. Eu tinha uma especialidade: as causas nobres. impulsos poderosos para nos manter de pé ou nos fazer avançar. um industrial que tinha uma mulher perfeita. talvez não fosse tão instintivo. Quantos crimes cometidos simplesmente porque seu autor não podia suportar o fato de estar errado! Conheci. não acha? No entanto. pelo menos por ora. no entanto. O sentimento do direito. seu erro se tornou insuportável. afinal. Mas. já que o via. enfim. Além disso. a indignação controlada de minhas defesas. enfim. privar os homens desses impulsos implica transformá-los em cães raivosos. Não coloquei nisso malícia alguma. eu estava do lado certo. Podia-se pensar que a justiça dormia comigo todas as noites.2 Que é um juiz-penitente? Ah! Deixei-o intrigado com esta história. Pelo contrário. Matou-a. ao passo que eu ganhava a vida dialogando com pessoas que desprezava. em outros tempos. não sei a razão. A natureza favoreceu-me quanto ao físico. uma certidão de virtude. é necessário expor-lhe um determinado número de fatos que o ajudarão a compreender melhor minha narrativa. eu era alimentado por dois sentimentos sinceros: a satisfação de me encontrar do lado certo do tribunal e um desprezo instintivo pelos juízes em geral.

Gozava minha própria natureza e todos nós sabemos que é aí que reside a felicidade. à força de se exercer. que eu esteja me vangloriando disso tudo. em viagem.criminosos (em meu caso. como ainda assumia a defesa deles. simplesmente. nem funcionário algum. . é desnecessário dizer. arrancava o cego a qualquer outra solicitude que não a minha. Meu mérito era nenhum: a avidez.. Isso é mais difícil de dizer . por vezes. prestar alguma ajuda a carretas pesadas demais. cuja amizade me pudesse ser útil. com os dias em que. ajudar os cegos a atravessarem as ruas. comigo era pior: eu exultava. e conduzia-o. com a única condição de serem bons assassinos. tudo isso enchia de luz meu dia. a fim de torná-lo favorável a mim. de ceder o lugar no ônibus ou no metrô a quem visivelmente o merecesse. nunca concordei em bajular qualquer jornalista. Mas passemos adiante. Chegava a deliciar-me. por exemplo. sempre gostei de dar informações às pessoas que passavam por mim na rua. não havia nenhuma probabilidade de matar minha mulher. Tive mesmo a sorte de me oferecerem por duas ou três vezes a Legião de Honra. Deixar. nas paradas de ônibus.. Nunca aceitei propinas. à mão caridosa que já se estendia. no entanto. grandes alegrias. pela faixa de pedestres. sempre me fez rir. mesmo sabendo que ela as roubava no cemitério de Montparnasse.. certas manhãs. ao avistar uma bengala que hesitava na esquina de uma calçada. na qual encontrava minha verdadeira recompensa. com mão bondosa e firme. porque estava mais atento às oportunidades de fazê-la e porque deles recolhia os melhores prazeres. alguns de meus infelizes concidadãos impossibilitados de voltar para casa. embora para nos tranquilizarmos mutuamente. por vezes. que. empurrar um automóvel enguiçado. ah. demonstremos. com efeito. não posso deixar de dizê-lo. enfim. entre os obstáculos do trânsito. como outros são bons selvagens. Era realmente irrepreensível em minha vida profissional. a parte de minha natureza que reagia com tanta precisão à viúva e ao órfão. devido à greve dos transportes públicos. A própria maneira como eu conduzia essa defesa me proporcionava grandes satisfações. pelo menos. gostava de dar esmolas. que eu pude recusar com uma dignidade discreta. Se tinha a oportunidade. minha poltrona no teatro para permitir que um casal se reunisse ou.. Por mais longe que estivesse. Eu tinha um objetivo mais elevado. Mas avalie já minha satisfação. verá que a expressão é exata. nunca cobrei dos pobres nem alardeei isso aos quatro ventos. eu tinha a oportunidade de embarcar em meu automóvel. Da mesma forma. no que me diz respeito. de apanhar do chão algum objeto que uma senhora de idade tivesse deixado cair e devolvê-lo com um sorriso que eu conhecia ou. onde nos separávamos com uma emoção mútua. até o porto seguro da calçada. A polidez proporcionava-me. colocar as malas de uma moça no bagageiro instalado alto demais para ela eram alguns feitos que eu realizava com mais frequência do que os outros. Ela era famosa e. condenar estes prazeres sob o nome de egoísmo. acabava reinando sobre a minha vida toda. Coisa ainda mais rara. dar-lhes fogo. Pois bem. pois era solteiro). Falemos antes de minha cortesia. meu caro senhor. Gostava também. comprar o jornal à moça do Exército da Salvação ou as flores à velha florista. mas também nunca me rebaixei a nenhum empenho. que em nossa sociedade substitui a ambição. Enfim. Gozava. adiantava-me um segundo. indiscutível. Não pense. Adorava. Um grande cristão amigo meu reconhecia que o primeiro sentimento que experimentamos ao ver um mendigo se aproximar de nossa casa é de desagrado. eu me precipitava. de ceder meu táxi a uma pessoa com mais pressa do que eu.

os terraços às sobrelojas. Eu me convencia facilmente de que os sermões. eu representava também. os milagres de fogo haviam ocorrido em alturas acessíveis. sobretudo. evitava os vales orlados dos dois lados pelas gargantas e planaltos. pelo menos. nada poderia pagar o que se fizera pelo marido. Mas. Até nos pormenores da vida. nascia dentro de mim. dos quais o menor não era uma espécie de melancolia que.Tinha fama de generoso também. e. nos navios. as grutas e os abismos causavam-me horror. os porões. em minha profissão. é elevar-se acima da ambição vulgar e içar-se ao ponto culminante. que qualquer um teria feito o mesmo. Havia algo de criminoso nisso tudo. Em meu entender. Amante de aviões de esporte em que se anda com a cabeça em pleno céu. Nas montanhas. as pregações decisivas. a fim de pôr termo às efusões e conservar-lhes assim uma justa ressonância. como ele esperava. o lugar onde eu respirava melhor. A qualquer hora do dia. meu caro senhor. Compreende agora o que eu queria dizer ao falar em ter um objetivo mais elevado. Ser detido. parecia-me uma proeza de indivíduos pervertidos ou traumatizados. num lugar desses as pessoas mofam. às vezes. em mim próprio e entre os outros. em público e em particular. o eterno passageiro errante dos tombadilhos. ao considerar a esterilidade dessas dádivas e a provável ingratidão que lhes seguiria. no que me diz respeito. nos corredores do Tribunal. quero dizer. tendo entrado numa ordem religiosa. Referia-me precisamente a esses pontos culminantes. com uma ampla vista). que tinham o atrevimento de ocupar a primeira página dos jornais e cujos feitos me enojavam. porque sua cela. Sim. não se meditava em subterrâneos ou nas celas das prisões (a menos que os indivíduos ficassem numa torre. Fique certo. pela mulher de um réu que havíamos defendido unicamente por justiça ou piedade. Tinha mesmo tal prazer em dar que detestava ser obrigado a isso. beijar a mão desta pobre mulher e acabar com aquilo. que eu sentia prazer na vida e . os tílburis aos táxis. Esforçar-se por atingir a fama. A exatidão em matéria de dinheiro me irritava e eu condescendia em preocupar-me com ela sempre de mau humor. por exemplo. era. extraía daí constantes prazeres. pelo menos. em vez de se abrir. Devotava um ódio especial aos espeleólogos. ouvir esta mulher murmurar que nada. para uma vasta paisagem. renunciara à batina. Não são mais do que breves traços. dava para uma parede. gratuitamente. pode estar certo de que eu teria escolhido os telhados e feito amizade com as vertigens. muito acima das formigas humanas. não. acredite. Preferia o ônibus ao metrô. Um terraço natural. de torneiro ou pedreiro. responder então que era muito natural. longe de sofrer. acendia fogueiras bem visíveis e alegres saudações elevavam-se até mim. em que a virtude só busca alimentar-se de si própria. como dizem esses inconscientes!). quando era preciso separar-me de um objeto ou de uma quantia em dinheiro. Se o destino me houvesse forçado a escolher um trabalho manual. Precisava ser senhor de minhas liberalidades. E compreendia aquele homem que. Os paióis. e eu o era. pelo contrário. Paremos nesses cimos. eu tinha necessidade de estar por cima. era o homem das planícies. Dei muito. depois. os subterrâneos. a quinhentos ou seiscentos metros acima do nível de um mar ainda visível e banhado de luz. os únicos nos quais posso viver. Era assim. nunca me senti à vontade a não ser nas situações elevadas. eu escalava as alturas. sobretudo se estivesse só. oferecer até um auxílio para as dificuldades dos dias vindouros. que eu não mofava. arriscando-se a ficar com a cabeça espremida num gargalo rochoso (um sifão. mas que lhe farão compreender os contínuos deleites que eu encontrava em minha vida e.

sem demonstrá-la. Pelo contrário. sem nunca lhe dever nada. Minha profissão satisfazia. não me encontrava no palco do tribunal. Aliás. livre de qualquer obrigação. viver no alto ainda é a única maneira de ser visto e saudado pela maioria das pessoas. Em resumo: vou parar para que não me julgue imodesto. generosamente dotado. uma espécie de infeliz compensação. e profundamente satisfeito consigo mesmo. Sim. estava sempre à altura. por minha vez. Ela me livrava de qualquer amargura em relação ao próximo. capaz tanto de desenvoltura quanto de gravidade. de uma vida bemsucedida. Mas imagine. com toda a modéstia. tantas são as porteiras que merecem e recebem uma facada. infelizmente. que. como esses deuses que. de . hábil tanto nos exercícios do corpo quanto da inteligência. Enfim. os réus expiavam e eu. eu lhe peço. que eu possa falar. a não ser por uma alegre sociabilidade. Nunca tive necessidade de aprender a viver. as mulheres e a justiça. eu imperava. ao mesmo tempo e nos mesmos lugares. nem pobre nem rico. para transfigurar a ação e dar-lhe sentido. livremente. para alguém se tornar conhecido. ao matar. eu julgava. sem nada recusar de suas ironias. meu caro senhor: eu vivia impunemente. Há pessoas cujo problema é resguardar-se dos homens ou. silencioso se necessário. revelava-me simultaneamente incansável dançarino e erudito discreto. em parte. Medite bem sobre isso. a emoção que eu despendia livravam-me. Dessa forma. então. levado a lastimáveis extremos. o talento. não seria isso o Éden. paga-se muito caro por estes breves triunfos. pelo menos. mas em algum lugar nas galerias. eles já não suportavam o anonimato. chegava a amar ao mesmo tempo. A esse respeito. na triste situação em que se encontravam. defender nossos infelizes aspirantes à fama resultava em ser verdadeiramente reconhecido. com a saúde perfeita. poucos seres terão sido mais integrados à natureza do que eu. de qualquer dívida em elação a eles. um homem na força da idade. sem dúvida. e essa impaciência os havia. obedecido ao mesmo sentimento. e meus êxitos no mundo eu nem contava mais. isento tanto de julgamento quanto de sanção. se fazem descer por meio de um maquinismo. mas o criminoso só figura fugazmente. para logo ser substituído. numa luz edênica. mas por meios mais econômicos. essa vocação das alturas. Na realidade.em minha própria excelência. basta matar a porteira. Fazia boa figura. Como muitos outros homens. trazia-lhes. a quem eu sempre servia. Meu entendimento com a vida era total. Ela me colocava acima do juiz. já sabia de tudo ao nascer. A leitura dos jornais. Isso animava-me também a envidar apreciáveis esforços para que eles sofressem a menor pena possível: a que sofriam. Quanto a mim. eu aderia ao que ela era. Admitirá.* Trata-se. Os juízes condenavam. felizmente. Nenhum julgamento me dizia respeito. em compensação. praticava esportes e belas-artes. a acomodação estava feita. alguns de meus bons criminosos tinham. de alto a baixo. acima do réu. o que não é nada fácil. acomodar-se a eles. de tempos em tempos. de uma reputação efêmera. era grande minha popularidade. Em suma. A indignação. sofriamna um pouco em meu lugar. meu caro senhor: a vida bem engrenada? Foi assim a minha. de sono fácil. que eu obrigava ao reconhecimento. O crime está incessantemente em cena. Afinal. Familiar quando era preciso.

Chegava a dançar noites inteiras. Sentia-me à vontade em tudo. mas. pelo fato de ser compartilhada por tantos imbecis. Assim corria eu. de amizade? Sim. para dizer a verdade. o segredo dos seres e do mundo. A festa em que eu fora feliz . compreender. Cada alegria fazia com que desejasse outra.sua grandeza. de certo modo. segundo confessavam. isso é outro assunto que deve ser esquecido. já não há meios de nos livrarmos dela. quando se obtém. pode ficar certo. Eleito pessoalmente. sobretudo. um efeito de minha modéstia. repare bem. mais simplesmente. se não tem necessidade de companhia. Particularmente a carne.. à força de ser homem. Nunca teve uma súbita necessidade de simpatia. ou melhor. ajudava-as a viver. já bastante tarde. pareciame no extremo da exaustão e no espaço de um segundo. Às vezes. você compreenderá ainda melhor o que havia de extraordinário nessa convicção. às vezes. jamais saciado.. certas manhãs. eu aceitava essas homenagens com orgulho benevolente. para saber se não é precisamente essa a noite em que decidiu suicidar-se ou. e eu me lançava outra vez com todo ímpeto. sem saber onde parar. por estar no auge. Eis por que. será na noite em que você . humildemente o confesso. hesito em confessá-la. o físico. sempre pleno. para este longo e constante êxito. beba comigo. no discurso interior.. autorizado a gozar esta felicidade por algum decreto superior. ocupemo-nos de outra coisa". eu me sentia. e fiquei planando literalmente. Na verdade. o álcool leve. Tratava-se. É um sentimento de presidente de Conselho: obtém-se um bom preço depois das catástrofes. eu me sentia. não. aliás. Mas. Não. Negava-me a atribuir este êxito unicamente a meus méritos e não conseguia acreditar que a reunião. mas obscura (meu pai era militar) e. Vejo que essa declaração o espanta. ao mesmo tempo. um eleito. Em meu caso. é bem verdade. até o dia. Ia de festa em festa. esse autocontrole sem esforço que as pessoas sentiam e que. depois. Oh. preciso de sua simpatia. com tanta plenitude e simplicidade. aprendi a contentar-me com a simpatia. de auxílio. achava-me um pouco super-homem. talvez eu esteja exagerando. pois. Daí essa harmonia em mim próprio. Sobretudo não acredite que seus amigos lhe telefonarão todas as noites.. não. Sua aquisição é longa e difícil. Muitas vezes. Nisso residia. cada vez mais louco com os seres e com a vida. entre todos. minha companhia. não exige nenhum compromisso. em suma. mas. dava-me. alegrias iguais. por exemplo. julgavam já me ter encontrado. meu modo desenfreado. Buscavam. durante anos. nessas noites em que a dança. Se eu lhe disser que não tinha religião alguma. como deviam. a matéria. se não está com vontade de sair. de algo bem diferente da certeza em que eu vivia de ser mais inteligente do que todo mundo. sem me escravizar. Encontra-se mais facilmente e. ainda tenho saudades. precede imediatamente "e agora. até a noite em que a música parou e as luzes se apagaram. se telefonarem. nem de suas servidões. Faça-lhe um aceno de cabeça em sinal de agradecimento e. enfim. no entanto. nada me satisfazia. "Creia em minha simpatia". Extraordinária ou não. ela me ergueu durante muito tempo acima do tedioso dia-a-dia. Tal certeza. Mas o cansaço desaparecia no dia seguinte e com ele o segredo. em resumo. vivendo feliz. seus seres e seus dons vinham ao meu encontro. temos de enfrentá-la. A amizade é menos simples. com certeza. dos quais. A vida. Era de origem honesta. não tem consequência. o violento abandono de todos me lançavam a um arrebatamento ao mesmo tempo lasso e pleno. numa só pessoa. sentia-me um filho de rei ou uma sarça ardente. Fora feito para ter um corpo. Planei até a noite em que . que desconcerta ou desanima tantos homens no amor ou na solidão. Aliás. Mas permita-me que recorra a nosso amigo primata. de qualidades tão diferentes e tão opostas resultasse de mero acaso.

quero dizer. e nós temos a memória curta. informam-se. podemos dispor de nosso tempo. na agonia. telefonam como quem dispara uma carabina. Uma mulher que me perseguia. Mas. isso é outra história. Despertam imediatamente. Sabe. Sim. Têm a palavra necessária. fique descansado. por acaso que lhe falo em porteiros? Eu tinha um. Já reparou que só a morte desperta nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos. é o morto recente que nós amamos em nossos amigos. Ah! Os Bazaines! Como? Qual noite? Já chego lá. e representará a salvação. caro senhor. ouvi falar de um homem cujo amigo haviam prendido e que todas as noites se deitava no chão de seu quarto para não gozar de um conforto do qual havia sido privado aquele que ele amava. além disso. O que ela quer não pode. não o queira bastante? Talvez não amemos a vida o bastante. tinha moral. apertando-me as mãos. tenha paciência comigo. assim. Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Em relação a eles. afinal. essa mesma homenagem que talvez tivessem esperado de nós durante a vida inteira. e as frases voluntariamente breves. De certa forma. de preferência eles o levariam a isso. a dor controlada. em virtude do que deve a si próprio. que deliciosa confusão! O telefone toca. o morto doloroso. que era uma verdadeira desgraça. se por acaso ocorrer um falecimento no prédio. teve o bom gosto de morrer jovem. é verdade que a têm. Talvez. e eis que morre o porteiro. de sermos colocados em um plano muito elevado por nossos amigos! Quanto àqueles cuja função é amar-nos. nas horas vagas. e o espetáculo começa. ele me reencontrou. sim. Morreu. com duas faces: não consegue amar sem se amar. Quem. nós mesmos! Havia. os aliados (que expressão esta!). Será. Irritava-me um pouco e. um pouco de auto-acusação! É assim o homem. ainda por cima. finalmente. porém é mais a palavra-bala. sêlo-ei. o coração transborda. estou no meu elemento. seremos todos capazes disso. Será capaz de me dizer por quê? Os dois dias que antecederam a cerimônia foram. muito naturalmente. com esta história de amigos e de aliados. cheios de interesse. Ele comprometia minha satisfação habitual. quem se deitará no chão por nós? Se eu mesmo seria capaz disso? Escute. mas. aliás. Deixam-nos livres. A mulher do porteiro estava doente. Morreu satisfeito comigo. nossa emoção. um amigo que eu evitava sempre que podia. e até mesmo. um monstro de insignificância e de rancor que faria desanimar um franciscano. Adormecidos em sua vidinha. e junto dela haviam colocado o . Que espaço imediato em meu coração! E quando. gostaria de ser. Um morto no prelo. então. por sua própria existência. impotente. um dia. Que Deus nos livre. Observe seus vizinhos.já não está só e em que a vida parece bela. deitada no único quarto existente. enchem-se de compaixão. não acha?! Como admiramos nossos mestres que já não falam mais. Não. Não falhei um só dia. se trata de um suicídio! Senhor. Eles têm necessidade de tragédia — que se pode fazer? — é sua pequena transcendência. E acertam no alvo. encaixar a homenagem entre o coquetel e uma doce amante: em resumo. caro senhor. enfim. Quanto ao suicídio. agitam-se. Se nos impusessem algo. Eu nem: sequer lhe dirigia a palavra. que estão com a boca cheia de terra! A homenagem vem. a maldade em pessoa. seria a memória. e eu fui a seu enterro. segundo eles. porque a amizade é distraída ou. é seu aperitivo. Mas não é fácil. em vão. aliás. meu caro senhor. mas carregadas de subentendidos. aliás. a família. já não há obrigações. pelo menos. sim.

mas às escondidas. da cama. de lado e de pé. uma vida de complicações e de dramas. também. e a porteira também. Mas eu sim. Havia construído. o senhor compreende que nem a neve que caía nesse dia me fez recuar. pelo menos. ouvia-se o elogio ao finado.diziam os vizinhos. "vai passar. nem mais sinceros. Ele a espancava.. necessária à minha felicidade. Além disso. no entanto. Veja." Passaram-no de pé. em vez de uma. dizia o agente funerário. vinham eles próprios. aproveitar-se da oportunidade. E. a quem eu apertava sempre a mão. Nada prova. "Como ele era grande!" "Não se preocupe. este barítono tinha contra si as aparências. sem grande esforço. Francamente. os enterros! Eu. as amizades. No dia do enterro. como sois belas!" "Francamente!". para receber seus agradecimentos de atriz de tragédias. fiz uma visita à porteira. nada mais. É preciso que algo aconteça. Na noite de que lhe falo. Que razão há nisso tudo. Em seguida. Conheci um homem que deu vinte anos de sua vida a uma desmiolada. Era preciso ir pessoalmente buscar a correspondência. o trabalho. eu apertava todas as mãos. onde quer que trabalhasse. logo a seguir. Abria-se a porta e dizia-se: "Bom dia minha senhora". no entanto. Não. Fui também ao enterro de um velho colaborador da Ordem dos Advogados. que a porteira apontava com a mão. Um amanuense. mesmo a guerra ou a morte. “Oh. as empregadas também.caixão sobre os cavaletes.. abria a janela e entoava sua cantiga preferida: "Mulheres. que se arruinara com o crucifixo. e depois puseram-no ao comprido e eu fui (juntamente com um antigo frequentador de cabarés que. um belo carvalho e as alças de prata do caixão. pois eu imperava. bastante desprezado. antes. e até duas vezes. peça por peça. Não me entediava. segundo vim a saber. minha senhora". mesmo a servidão sem amor. era uma . meu querido”: dizia. amigou-se um mês depois com um malandro de bela voz. não tenha receio algum. ouviam-se gritos horríveis e.Bem. pois. não. para melhor gozar sua emoção. na verdade eu não desejava que alguma coisa acontecesse. fazer-lhe observar que minha porteira. quando o malandro se foi. Aliás. e na véspera de uma viagem. Essa cordial simplicidade valia-me. a não ser o aperitivo. Nada de rejubilante nisso. Então. a própria decência de sua vida. O chefe da Ordem dos Advogados não se deu o trabalho de ir ao enterro de nosso amanuense. para uma noite reconhecer que nunca a havia amado. que ela não amasse o marido. posso mesmo dizer que me entediava menos do que nunca. Vivam. desfilou pelo cubículo que fedia a fenol. em pessoa. com a voz e os braços cansados. meu caro senhor. Mas nada prova que não se amassem. Mas deixe-me. ela retomou os louvores ao defunto. a simpatia de todos. a fiel mulher! Afinal. Entediava-se como a maior parte das pessoas. não tinha essa desculpa. e levava-se a correspondência. conheço outros que têm as aparências a seu favor e que não são mais constantes. com uma surpresa ao mesmo tempo enlevada e dolorida. por quem tudo sacrificou. Ele se entediava. É preciso que algo aconteça. não acha? Todo o prédio. o quê?. Como? Já chegou lá. verificouse que o caixão era grande demais para a porta do cubículo. Aliás. o que foi salientado. pergunto-lhe eu. Eu sabia precisamente que minha presença seria notada e comentada favoravelmente. bebia Pernod todas as noites com o defunto) a única pessoa a acompanhá-lo até o cemitério e atirar flores sobre um caixão cujo luxo me espantou. a porteira. eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. aliás ainda continuo nisso. pode dizer-me? Nenhuma. E os inquilinos não mandavam as empregadas.

que me dilatava o coração. julgar-se-iam todas e incessantemente inocentes. meu aperto de mão é enérgico.bela noite de outono. Fui até o parapeito: nenhuma barcaça. a calma da noite. Provavelmente tornarei a vê-lo amanhã. resolvi alguns casos difíceis: a princípio. afinal. Com efeito. Como? Desculpe. Hesitava em sair. Abri. o céu se enchia de estrelas. Surpreendido. explodiu uma gargalhada atrás de mim. e por pura perversidade. Paris vazia. De outra forma. Virei-me para a ilha e de novo ouvi o riso às minhas costas.. e o senhor ficaria surpreso ao descobrir que este homem das cavernas se especializou no tráfico de quadros. algumas generosidades e. sem necessidade alguma. não. Aliás. no mesmo momento. Na Holanda. diante de alguns amigos. os lampiões brilhavam debilmente. Minha imagem sorria no espelho. Estudei a legislação do país e arranjei clientela neste bairro. com o seu ar modesto. Qual? Talvez eu lhe diga. A noite caía. Eu esmagava sob os pés as folhas amarelas e poeirentas. este riso nada tinha de misterioso: era um riso bom. ao se afastar de um lampião para o outro. Um homem de bem. Eu subia o cais da margem esquerda. estava pensando em outra coisa. que se distinguiam de modo fugaz. Também é arrombador. mas eu inspiro confiança. e já úmida sobre o Sena. Embora eu seja juiz-penitente. todo mundo é especialista em pinturas e em tulipas. tornei a fechar a janela. O riso diminuía. eu dominava a ilha. respirava com dificuldade. Estava atordoado. Se os proxenetas e os ladrões fossem sempre condenados em toda parte. quando. Dei de ombros. não acha? Tenho um riso agradável e franco. Não. Em frente ao Vert-Galant. que não estava em casa. àquela hora deserta. de repente. Dirigi-me ao banheiro para beber um copo d'água. um brilhante improviso. sentia os batimentos precipitados do meu coração. Compreenda-me bem. a redução de pena que eu esperava. o urso pardo que vê lá ao fundo está me chamando para uma consulta. são os meus trunfos. Aliás. Não se admire do meu conhecimento. Eu saboreava o silêncio que retomava. pronto. fiz uma brusca meia-volta: não havia ninguém. no meu entender — pronto. haveria muita razão para rir. quando. na calçada. eu tinha um processo para estudar. Estava contente. O dia fora bom: um cego. depois. vindo de lugar nenhum. o caloroso aperto de mão de meu cliente. sim. é sobretudo isso que é preciso evitar. Amanhã. já chego lá! —. logo depois não ouvi mais nada. as pessoas de bem. Sentia crescer em mim um vasto sentimento de força e de realização. é isso mesmo. telefonei para um amigo. Pouco a pouco. que recolocava as coisas em seus lugares. Além disso. Retomei ao cais. um pouco mais distante. onde não se exigem diplomas. meu caro senhor. sobre a dureza de coração de nossa classe dirigente e a hipocrisia de nossas elites. o cigarro da satisfação. natural. tenho aqui um passatempo: sou assessor jurídico desta boa gente. por convicção. mas já escurecia. que a polícia maltrata sordidamente. que lembravam ainda o verão. Subira na Pont des Arts. a não ser das águas. Via-se o rio rebrilhar entre as bancas fechadas dos bouquinistes.. é o autor do mais célebre roubo de quadros. comprei cigarros. por interesse e. Ao mesmo tempo. Não foi fácil. como se descesse o rio. mas eu o ouvia ainda distintamente atrás de mim. ainda morna sobre a cidade. * Havia pouca gente no cais: Paris já estava à mesa. O senhor acha que ele tem cara de assassino? Pois esteja certo de que é a cara de seu emprego. à tarde. E. entrei na rua Dauphine. Eu me endireitei e ia acender um cigarro. não posso ficar. seguramente. nenhum barco. quase amigável. Fiquei onde estava. Este. o céu ainda estava claro no poente. mas pareceu-me que me via com um duplo sorriso. imóvel. para olhar o rio que mal se adivinhava na noite que agora chegara. alguns jovens despediam-se alegremente. . ouvi alguém rir sob a minha janela. rumo à Pont dês Arts. Nessa noite.

É mais fácil imperar por lá. hoje em dia. nada sucedia. em plena luz do dia. não. viver. acho que tudo começou mesmo nessa ocasião. Uma insígnia. no entanto. não acha? As duas cabeças que vê lá são de escravos negros. acredite. Veria algum inconveniente. eu pensava sem esforço em outras coisas. em sairmos pra dar uma caminhada pela cidade? Obrigado. Quando passava por lá de automóvel ou de ônibus. Provavelmente o tempo. Respira-se mal. mas na época dos ventos alísios. parece-me. quando jovem. que não pus mais os pés no cais de Paris. e sobretudo do topo do Etna. sob a condição de dominar a ilha e o mar. um abatimento. Mas. Tive também. Como os canais são belos. O que mais amo no mundo é a Sicília. sabia tão bem. trazendo ao conhecimento público que é este o seu trabalho? Que escândalo! Parece que estou ouvindo meus confrades parisienses. Fui a médicos. alguns problemas de saúde. este gosto nada tem de mórbido. que me receitaram tônicos reconstituintes. Deliciosa casa. veja bem. e minha expressão é menos segura. nessa época. no entanto. fazia-se dentro de mim uma espécie de silêncio. Mas atravessava o Sena." Já imaginou alguém. e então eu respirava. Falo com menos brilho. Tenho até dificuldade com o estilo de minhas frases. pode-se chamar assim. à noite! Gosto do cheiro de mofo que as águas exalam. em algum lugar dentro de mim. do odor das folhas que se decompõem no canal e do cheiro fúnebre que sobe das barcaças carregadas de flores. A vida tornava-se menos fácil: quando o corpo está triste. uma espécie de dificuldade de encontrar meu bom humor. Não. o coração perde as forças. faço tráfico de escravos. meu caro compatriota.3 Realmente. pareciame ouvi-lo. no meu caso. No entanto. estive lá. lava. Como são irredutíveis . Sim. durante alguns dias. Nada de preciso. e depois recaía. Melhorava. e depois o esqueci. Sim. durante a maior parte do tempo. é uma coisa intencional. A verdade é que eu me obrigo a admirar estes canais. também. fico-lhe muito grato por sua curiosidade. isto é. De vez em quando. meu caro compatriota. Ah! Não se escondia o jogo. Saiba. vendo carne negra. Devo reconhecer. Tinha-se audácia. Mas também esta noite eu não me sinto em forma. gosto de todas as ilhas. dizia-se: "Aí está. naqueles tempos. já que tem tanto interesse nisso. A casa pertencia a um traficante de escravos. que pensei um pouco naquele riso. o ar está tão carregado que oprime o peito. De maneira geral. Pelo contrário. Acho que esperava. Parecia-me desaprender em parte o que nunca havia aprendido e que. minha história nada tem de extraordinário.

sem que alguém tenha o direito de responder. da melhor maneira. meu raciocínio não era totalmente idiota.nessa questão. pode me responder mais tarde. senão a quem se ama? Por outro lado. o frango laqueado? Como. O senhor. filósofo apavorado ou proprietário cristão ou humanista adúltero. isso não. Vejamos: eu. ou até modestos. Mas não devemos reconhecer isso. "Podem até discuti-Ia. é. Em todo caso. isso não nos interessa. em primeiro lugar. pelo contrário. por exemplo. A escravatura. Por isso. um Janus encantador e. não acha? Desse modo. embora ela tivesse todo o direito de não estar alegre. mas vangloriar-se disso é o cúmulo. Senão. eles continuarão a sorrir e nós ficaremos com a consciência tranquila. talvez até mais! Pensando bem. negava-me sempre a comer nos restaurantes chineses. A força. na verdade. dizemos. enfim. nada de insígnias. deve ter notado. bom. Já não dizemos. O último da escala social ainda tem o cônjuge ou o filho. como nos tempos ingênuos: "Eu penso assim. não tem a mesma opinião? E até os mais desfavorecidos conseguem respirar. ela é convincente. Naturalmente. por cima. Levou tempo. quando se calam. e depois para não desesperá-los. ao vê-los. não hesitariam em lançar dois ou três manifestos. eu conheço a minha: tem duas faces. inevitável. É preciso que alguém tenha a última palavra. o lema da casa: "Não confie. sua identidade. sempre desejei ser servido com um sorriso." E nos meus . Sabemos do que somos capazes. portanto. Por exemplo. Todo homem tem necessidade de escravos. sem ser glorioso. para mudar de exemplo. Se a empregada tinha um ar triste. em resumo. eu juntaria minha assinatura às deles. seríamos forçados a mudar de opinião. Mas eu dizia a mim mesmo que era melhor para ela fazer o serviço sorrindo que chorando. Esta compensação certamente lhes é devida. talvez de assunto. nós somos contra! Que se seja obrigado a instalá-la em sua casa ou nas fábricas. a nossa velha Europa filósofa. meu caro compatriota. Quais são suas objeções?" Tornamo-nos lúcidos. A quem se responderia neste mundo. ela é singular. envenenava-me os dias. sobretudo. sem dúvida. Mas. deve-se temer tudo. não fará melhor chamandoos de homens livres? Por princípio. Na realidade. um cão. nós temos a escolha. lá estará a polícia para lhes mostrar que tem razão. Sem isso. eles conservam este ar enquanto servem! Como saborear. então. mas conseguimos compreender isso. Por quê? Porque os asiáticos. e isto é escandaloso. ah. têm sempre um ar de desprezo. Da mesma forma. O senhor se cala? Bom. é uma pessoa poder zangar-se. resolve tudo. ficaríamos loucos de dor. conhece a fórmula? Em certo sentido. Quem não pode deixar de ter escravos. Aliás." Ah! Querido planeta! Tudo agora é claro aqui. Substituímos o diálogo pelo comunicado. O essencial. Conhecemo-nos. dentro de alguns anos. Mandar corresponde a respirar. se todo mundo se sentasse à mesa e ostentasse sua verdadeira profissão. já nem saberíamos para que lado haveríamos de nos voltar! Imagine os cartões de visita: Dupont. a toda razão pode opor-se outra: nunca mais se acabaria. isso era muito melhor para mim. Quando é solteiro. o inferno deve ser assim: ruas com insígnias e nenhuma possibilidade de explicação. e diante dos brancos. No entanto. pensar que se tem razão? Cá entre nós. a servidão. Fica-se classificado de uma vez para sempre. Mas seria o inferno! Sim. como de ar puro. de preferência sorridente. "Esta é a verdade". pense um pouco qual seria sua insígnia. "Não se responde ao pai". é a ordem natural das coisas. Bem sei que não se pode deixar de dominar ou de ser servido.

Devo reconhecer humildemente. Vivia. Evidentemente. no dia-a-dia. como os cães. minhas resoluções. por exemplo. porém de maneira cortês e superficial. Simplesmente. saudava-o. porém. como o tênis. custava a acreditar que estava sendo saudado com um largo sorriso. e. nessa mesma época. não. esse cumprimento não lhe era destinado. eu. as mesuras. sobretudo quando o fazia com esta ruidosa discrição. Só conseguia falar vangloriando-me. eu. durante o período que se seguiu à noite de que lhe falei. No dia-adia. e que efetivamente as perdoam. Sim. Eu queria dizer. eu era imbatível. Eu. Com algumas outras verdades. sem pensar que minha razão era mais simples: eu havia esquecido até o seu nome. No fundo. se alguém se julgasse detestado por mim. Foi preciso. Depois da representação. hem? Outro dia. fiz uma descoberta. nada contava. e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. nem com muita nitidez. Quando me ocupava dos outros. suicídio. Sejamos justos: acontecia serem meritórios meus esquecimentos. pois. meu caro compatriota. ele não o podia ver. em que eu era apenas um parceiro razoável. superaria os melhores. a virtude ou o vício. pois. descobri. respondi que ninguém teria feito o mesmo. era-me difícil não acreditar que. miséria. quando minha liberdade era contrariada. prestava atenção nisso. havia sido sempre ajudado por um espantoso poder de esquecimento. fui vendo com mais clareza. Segundo sua índole. Nada mal. Já notou que há pessoas cuja religião consiste em perdoar todas as ofensas." Sabe. era por pura condescendência. atirador de elite. em primeiro lugar. é claro. eis o refrão de minha preciosa vida. Quando deixava um cego sobre a calçada onde eu o havia ajudado a aterrissar. recuperar a memória. A quem. pouco tempo depois da noite de que lhe falei. é claro. e todo o mérito revertia em meu favor: eu subia um degrau no amor que dedicava a mim mesmo. Mas este infeliz lapso ficou remoendo meu coração.cartões de visita: "Jean-Baptiste Clamence. Não imediatamente. exceto. as mulheres. mas nunca as esquecem? Eu não era feito de matéria que me permitisse perdoar as ofensas. Mesmo nos setores em que era fácil verificar minha inferioridade. quando as circunstâncias me obrigavam. Guerra. a um motorista que me agradecia por tê-lo ajudado. E. como já lhe disse. em plena liberdade. admirava então minha grandeza de alma ou desprezava minha desfaçatez. essas evidências. ator. primeiro. sentia-me liberado em relação a todos pela excelente razão de que me considerava sem igual. fingia apaixonar-me por uma causa estranha à minha vida mais quotidiana. realmente. que qualquer pessoa teria feito o mesmo. tudo resvalava em mim. se dirigia? Ao público. Gradativamente. mas também mais sensível e mais hábil. no dia-a-dia. No fundo. amor. O mesmo defeito que me tornava indiferente ou ingrato fazia-me magnânimo. Até então. Sempre me achei mais inteligente do que todo mundo. o que explicava minha benevolência e minha serenidade. Em questão de modéstia. É bem verdade que eu sempre vivi livre e poderoso. cujo segredo eu possuía. aprendi um pouco do que sabia. pouco a pouco. que fui sempre um poço de vaidade. se tivesse tempo para treinar. Esquecia tudo. mas acabava sempre por esquecê-las. sem outra continuidade no dia-a-dia que não fosse a do eu-eu-eu. Como dizer-lhe? Tudo isso resvalava. Só reconhecia em mim superioridades. Às vezes. mas todos os . é claro. eu não participava dela. incomparável ao volante e ótimo amante.

enquanto. ao dirigir meu carro. Tanto cinismo encheu-me de furor e saí do meu carro com a intenção de dar um tranco nesse desbocado. me mandava ao inferno a pé ou a cavalo. mal voltara a cabeça. suas buzinas às minhas costas. que a surra que ele me ofereceu teria sido mais recebida do que dada. isso é o mais importante.dias. firme em meu posto. para dar-lhe novo alento. meu caro compatriota. se eu estivesse desejando o que ele chamava uma surra. um concerto exasperado de buzinas se ergueu da fila já considerável de veículos. algumas buzinas. sequer o vi. com mais firmeza. assim. lembrei-me. portanto. quando ouvi. nunca na realidade. Pedi. Enfrentei esse mosqueteiro mas. no sinal vermelho. meus músculos sempre me serviram bem. Respondeu-me. em vez de dar uma sacudida no imbecil que me havia interpelado. quando. Mas. já se faziam ouvir. e meu adversário não chegava a meus ombros. Não me imagino covarde (mas o que não se imagina!). Voltava o sinal verde. à minha passagem. Ou melhor. quase ao mesmo tempo. Todos esses livros mal lidos. mas com um leve tom de impaciência na voz. e era a infelicidade. Insisti. No sinal verde. o imbecil me saudava com um “Pobre coitado!”. esses amigos mal-amados. na superfície da vida. Simplesmente. pois. Nunca me lembrei senão de mim mesmo. me havia ultrapassado e se instalara à minha frente. de certo modo por palavras. com minha habitual delicadeza. Fez-me logo saber que. exasperado sem dúvida pela má vontade já evidente de seu motor. tenho certeza) do que descobri no decorrer de minha exploração. a meu interlocutor que fosse educado e considerasse que estava atrapalhando o trânsito. sem esperar. Uma motocicleta dirigida por um homenzinho magro. Atordoado. demorei um pouco para arrancar no sinal verde. no entanto. daria uma com todo prazer. voltei a ela e lá encontrei a recordação que me esperava. Para eles. foi preciso muito tempo para esquecê-la. a motocicleta voltar a disparar e recebi uma pancada violenta no ouvido. Antes de poder registrar o que se havia passado. de outra aventura que ocorrera nas mesmas circunstâncias. quando. de acordo com as regras da cortesia parisiense. o homenzinho deixou morrer o motor e esforçava-se. O irascível personagem. tinha uma desculpa. O homenzinho enervava-se ainda com seu motor ofegante. darlhe alguns exemplos (que lhe hão de servir. informou-me que. a motocicleta afastou-se. avancei mecanicamente para o d'Artagnan. No entanto. no mesmo momento. Avançava. ainda hoje. saiu um homem que se precipitou sobre mim para me garantir que eu era o último dos homens e que ele não permitiria que eu batesse numa criatura que tinha uma motocicleta entre as pernas e se encontrava. dirá. atrás de mim. História sem importância. mal pusera os pés no chão. na verdade. essas mulheres mal possuídas! Eu fazia gestos por tédio ou por distração. Talvez. em vão. pedilhe. minha memória retornou. de qualquer maneira. Os seres vinham logo atrás. enquanto nossos pacientes concidadãos desencadeavam. voltei docilmente para o meu carro e arranquei. Pouco a pouco. de que ainda me lembro. Antes de lhe falar nisso. mas não havia nada. ainda um pouco desnorteado. queriam agarrar-se. Deixara que me . deixe-me. Porque. quanto a mim. que tirasse a motocicleta do caminho para eu poder passar. que fosse para o inferno. Então. eu esquecia. Com efeito. da multidão que começara a juntar-se. em franca desvantagem. sempre com polidez. eu próprio. de repente. Um dia em que. essas cidades mal visitadas. Com a parada. Durante esse tempo. de calças de golfe. Creio.

sim. Sentemo-nos. neste banco. envereda-se geralmente pela política e corre-se para o partido mais cruel. pouco depois. revolvi mil vezes esse pequeno filme em minha imaginação. Já que a chuva aumenta e temos tempo. em ser um homem completo. atacar o delinquente até fazê-lo ficar de joelhos. de bater e de vencer. se dessa forma se consegue dominar o mundo inteiro? Eu descobria em mim agradáveis sonhos de opressão. puxá-la à parte e dar-lhe a surra que ele tinha amplamente feito por merecer. fora de qualquer lei. meu caro compatriota. e da maneira mais elementar. eu fraquejara em público. não me tornava apenas um juiz. como o senhor bem sabe. Ouvia o "Pobre coitado!". Eis o motivo pelo qual eu me dava certos ares superiores e recorria a todos os requintes para mostrar antes minha habilidade física que meus dotes intelectuais. me parecia justificado. No entanto. que. enfim. mas não me podiam acusar de covardia. isto agora ficava claro. sonha em ser um gângster e em imperar sobre a sociedade unicamente pela violência. tanto mais encantada por eu estar vestindo nesse dia. Em suma. não acha. sob os olhares irônicos de uma multidão. pelo menos. Depois disso. Meio Cerdan. porque eu não era a vítima.batessem sem reagir. Uma vez que isso não é tão fácil como a leitura de romances especializa dos pode fazer crer. Se eu fosse o amigo da verdade e da inteligência que pretendia ser. de não ter sabido enfrentar as consequências de minha raiva. está chovendo de novo. A verdade é que todo homem inteligente. mas as circunstâncias existem sempre. por falta de presença de espírito. Mas. mas apenas de bater em quem eu quisesse. saber que não estava do lado dos culpados. Mas era tarde demais e ruminei. já não me era possível acariciar essa bela imagem de mim mesmo. Em suma. eu compreendia com clareza o que devia ter feito. de ser. Quer parar embaixo desta marquise? Bem. um terno azul muito elegante. interpelado dos dois lados. a honra! Pois bem. Devido a um conjunto de circunstâncias. entrar em meu carro e perseguir o verme que me batera para alcançá-la. mesmo assim. como se tivesse faltado à honra. Via-me entrando no carro. dos acusados. Como se meu verdadeiro desejo não fosse o de ser a criatura mais inteligente ou mais generosa da face da Terra. que se fizesse respeitar tanto em sua pessoa como em seu ofício. porém mais ainda: um senhor irascível que queria. Eu havia sonhado. Onde é que eu estava? Ah. em minha memória. Em vez disso. quando me voltou à lembrança essa aventura. Tarde demais. compreendi o que ela significava. depois de apanhar em público sem reagir. Com algumas variantes. o mais forte. Olhe. Que importa. uma vez irritado. por assim dizer. Há . durante alguns dias. um ressentimento venenoso. encostar a motocicleta à força contra a calçada. a não ser na exata medida em que seus erros não me causavam qualquer prejuízo. é muito difícil continuarmos seriamente a nos julgar com uma vocação de justiça e a nos considerar o defensor predestinado da viúva e do órfão. eu havia embaralhado tudo e as buzinas completaram minha confusão. é claro. atrevo-me a lhe contar uma nova descoberta que fiz. Conseguia. queria dominar em todas as coisas. Sua culpabilidade tornava-me eloquente. Surpreendido. humilhar o próprio espírito. ao abrigo da chuva. meio De Gaulle. ainda me recordo. Em resumo. Via-me abatendo d'Artagnan com um bom soco. meu sonho não resistira à prova dos fatos. Quando me sentia ameaçado. sem reação. que me importaria essa aventura já esquecida por aqueles que a haviam presenciado? Apenas acusaria a mim próprio de me haver irritado à toa e também. ardia de vontade de me vingar. sentia-me infeliz.

O meu. que sempre tive êxito com as mulheres. Ai de mim! Depois de certa idade. Que digo eu! Sobretudo por uma aventura de dez minutos. No entanto. Só que meus impulsos sentimentais se voltam sempre para mim e meus enternecimentos dizem respeito a mim. Trata-se. há a vaidade ou o tédio. Não o fazia. Sejamos indulgentes e falemos de enfermidade. Era. extraindo daí muitas satisfações que já não saberia dizer se eram de prazer ou de prestígio. agia de boa-fé. eu não era a Religiosa portuguesa. Como entender isso? Bem entendido. Em cada caso. Assim era comigo. para só falar dela. Sempre achei a misoginia vulgar e tola. na época. ou então. Simplesmente. todo homem é responsável pelo seu rosto. e sem grande esforço. Eu tinha princípios. Ao mesmo tempo. é muito natural. apenas aquela maneira ostensiva. aliás. Meu relacionamento com as mulheres era natural. Não é verdade. ter êxito. pelo contrário. alguns dias antes. utilizei-me delas mais vezes do que as servi. afinal. imperava em minha vida amorosa.. por certo ar de distanciamento e de independência irredutível que me dava. depois dos inevitáveis problemas da juventude. ou quase. Por acaso. É preciso que se saiba. Não me refiro ao êxito em fazê-las felizes. depressa me havia decidido: a sensualidade. Não. contudo. e quase todas as mulheres que conheci. Com a cara que Deus me deu. Sob esse aspecto. e mais: tenho a lágrima sempre fácil. minha sensualidade. imagine! Sabe o que é isto: um modo de ouvir sim como resposta. Bom.. e só ela. Não tenho o coração seco. Quanto a mim. com toda sinceridade. antes de tudo. era tão real que. era confortável. se eu tivesse a certeza de que ela não teria futuro. cheio de ternura. mesmo se tivesse de lamentar isso amargamente. mesmo por uma ventura de dez minutos. de forma calculista. Conjugada com minha faculdade de esquecimento. e mais ainda. eu deixava. de uma mulher. ao colocá-las tão alto. mas. de que fui sempre eu o objeto. segundo a expressão consagrada. mais ou menos quando queria. por exemplo: a mulher dos amigos era sagrada. Mas que importa! O fato é que viam em mim certo encanto. No restante do tempo. como se diz. que eu nunca tenha amado. Achavam que eu tinha certo charme. o verdadeiro amor é excepcional. Não havia astúcia alguma. Buscava sempre objetos de prazer e de conquista. julguei-as sempre melhores do que eu. O que eu tenho para contar-lhe é um pouco mais difícil. sem ter feito uma pergunta clara. propiciava-me . o senhor vai dizer que ainda estou me vangloriando. tampouco em fazer-me feliz por intermédio delas. eu renegaria pai e mãe. ela favorecia minha liberdade. simplesmente. desta vez. é claro. descontraído. de ter amizade pelos maridos.séculos que os fumantes de cachimbo contemplam aqui esta mesma chuva que cai sobre o mesmo canal. Essa enfermidade. fácil. Surpreende-se? Vamos. em todo caso. e eu me aproveitava disso. e que é o mesmo que dizer que nunca amei nenhuma. Eu era bem-sucedido. afinal. longe disso. mais ou menos. não deveria chamar a isso de sensualidade? A sensualidade em si não é repugnante. dois ou três em cada século. E não me orgulhava pouco disso. Não nego nem me orgulho menos pelo fato de nisso estar me vangloriando do que é verdade. ajudado por meu físico: a natureza foi generosa comigo. Tive em minha vida pelo menos um grande amor. que elas consideram uma homenagem. Amava-as. de uma espécie de incapacidade congênita de ver no amor qualquer coisa mais que o ato. não negue.

As mais sensíveis de minhas amiguinhas esforçavam-se por me compreender e este esforço as conduzia a melancólicos abandonos. aliás. pois no serviço militar fora artista amador. eu entrava no jogo. Sobretudo.oportunidades para novos êxitos. para aplacar de uma vez para sempre minhas inquietações sobre esse ponto. eu havia aperfeiçoado uma pequena tirada. porque uma mulher deslumbrante atravessavaa rua naquele momento. não desempenhava papel algum . mas. mas também para verificar que nossos laços ainda se mantinham. ao passo que nunca me entediei com as mulheres que me agradavam. era tarde demais. mostrar ternura. a não ser nos intervalos de meus pequenos desregramentos. pelo menos. em meio a uma discussão acalorada com amigos. que tinha. o número da atração incompreensível-do "não sei o quê". É verdade que. sempre bem recebida. mesmo brilhante. me oprime rapidamente. às realidades. eu satisfazia ainda outra coisa. Antes de tudo. mas tratava-se sempre da mesma peça. Em suma. Às vezes. nunca me preocupei com os grandes problemas. sem esperar. no entanto. Não é de admirar. Sabia que elas gostavam que não se chegasse muito depressa ao fim. eu ganhava duplamente. porém. mas trocaria dez entrevistas com Einstein por um primeiro encontro com uma bela figurante. que talvez não tenha futuro. Eu amava nas mulheres as parceiras de um certo jogo. além do desejo que nutria por elas. cansado do amor etc. Toda companhia. que nenhuma outra mulher jamais nos deu. O coração. mas que. E muitas vezes. Em certo sentido. animado por este desejo singular que é favorecido pela ausência. pois. mesmo que acontecesse de algumas não me proporcionarem nada além de um prazer medíocre. não me faltavam. ao verificar a cada vez meus belos poderes. minha vida estava em outro lugar. Havia também o da felicidade misteriosa. felicidade que talvez eu preferisse a todo o resto. Por exemplo. não valia a pena ligar-se a mim. Por conseguinte. numa conversa de esquina. passavam. com efeito. portanto. Então. estou certo disso. vez por outra eu tratava de reatar com elas. têm isso de comum com Bonaparte: pensam sempre ter êxito no que todo mundo fracassou. eu dava um sólido alimento ao romanesco. Quanto a discursos. dolorosa e resignada. além de minha sensualidade: meu amor pelo jogo. passava ao largo da felicidade de todos os dias. Mudava muitas vezes de papel. o sabor da inocência. do "não há razões". de que eu não era nada. As outras. perdi o fio do raciocínio que me expunham. eu guardava segredo. no décimo encontro. enfim. vivia meu papel. se bem que seja dos mais velhos o repertório. aliás. que também minhas parceiras desempenhassem com muito entusiasmo o papel delas. precisamente. pois sabia que era melhor dormir com o mistério. À força de não ser romântico. eu suspirava por Einstein ou por profundas leituras. Nessas relações. "eu não desejava ser atraído. Sobre as razões desse atraso decisivo. sem dúvida. e que só a mim competia estreitá-los. satisfazia o amor que dedicava a mim mesmo. acreditava no que dizia." — era sempre eficaz. chegava mesmo ao ponto de lhes fazer jurar que não pertenceriam a nenhum outro homem. com toda a certeza (pois todo cuidado é pouco). Veja bem. satisfeitas por verem que eu respeitava as regras do jogo e tinha a delicadeza de falar antes de agir. O essencial desta tirada prendia-se à afirmação. Tanto isso é verdade que. e que o senhor aplaudirá. era preciso conversar. estava. não consigo suportar o tédio e só aprecio na vida as diversões. como elas dizem. é insubstituível. nem olhares. Nossas amigas. Custa-me confessá-lo. seguida de uma cumplicidade de súbito reencontrada. sendo advogado.

apenas que. em todas as situações. ri outra vez. A partir desse instante. Quanto a mim. nesta lamentável história. O ato de amor. o que. Aliás. a pior e a mais infeliz: "Não me ame e seja fiel!" Veja só que a verificação nunca é definitiva. não? No entanto. de outro modo. Foi o que aconteceu certo dia. O instinto falava claramente. eu pouco mentia. Curioso. sem subterfúgios. qual foi. e não adianta dizer quem era ela. apesar das evidências. meu caro compatriota. E isto até o dia em que. podia então decidir-me a romper com elas. seu ar passivo a isolava do mundo. tampouco a imaginação. pelo menos. com tudo o que ela tem de imprevisível? Mas não. àquilo que a subjugava. ela prestou homenagem. Mas este juramento que elas me faziam libertava-me ao prendê-las. apesar do seu silêncio polido. é ver quem se sai melhor. Ria de meus discursos e de minhas defesas. no entanto. nem lhe faltava percepção para julgar. meu comportamento? Tornei a ver um pouco mais tarde esta mulher. Aí o egoísmo grita. a atormentá-la de todas as maneiras. comecei. sobre a sua vida. dei de ombros e fiz menção de rir. segue-se o reflexo: encontramo-nos um dia numa situação de possuir sem verdadeiramente desejar. eu havia sido mais franco do que . Uma espécie de pretensão estava. Na hora. talvez encontre alguma história semelhante. tratava-a de modo tão brutal. Concordarei com o senhor. é preciso renová-la com cada ser. sem verdadeiramente me perturbar. fiz o que era necessário para seduzi-Ia e voltar a possuí-Ia verdadeiramente. porém. aí a vaidade se exibe ou. soube que confidenciaria a alguém minhas insuficiências. criam-se hábitos. A estas. melhor ainda que em minhas outras intrigas. Abandonava-a e voltava a procurá-la. na verdade. mais ainda de minhas defesas que de meus discursos às mulheres. a meu ver. comecei a afastar-me dela. De tanto recomeçar. obrigava-a a entregar-se em horas e lugares impróprios para isso. Medite. foi medíocre. Depois. Apesar do meu dar de ombros. Não foi muito difícil: elas também não gostam de permanecer com um fracasso. em voz alta. A verificação. Aliás. Acredite-me. Se existe um terreno em que a modéstia deveria ser regra. e meu poder. por exemplo. Mas era um riso diferente.nesta inquietação. A partir do momento em que não pertenciam a ninguém. bastante parecido com o que eu tinha ouvido sobre a Pont des Arts. no que lhes dizia respeito. é assim. mesmo na solidão. Algumas semanas depois. era-me quase sempre impossível. quando esta aventura me veio de novo ao espírito. para certos seres. Francamente. era claro que esse incidente não tinha importância. Ri mesmo com vontade. Mas eu nuca tive complexos e esqueci rapidamente essa pessoa e não mais tornei a vê-la. pela minha atitude. Uns gritam: "Ame-me!" Outros: "Não me ame!" Mas certa raça. pelo menos. aí se revela a verdadeira generosidade. na violenta confusão de um prazer doloroso e forçado. sem desejá-la com muita nitidez. que uma mulher que havia sido minha pudesse alguma vez pertencer a outro. de fato. meu caro compatriota! Vasculhe sua memória. Pensava que ela nada percebera e eu sequer imaginava que pudesse ter uma opinião. Logo o discurso nos surge sem pensarmos nele. tive a sensação de haver sido um pouco enganado. com efeito. garantido por muito tempo. me havia atraído com seu ar passivo e ávido. como seria de esperar. tão encarnada em mim que eu tinha dificuldade de imaginar. ostensivamente. Finalmente. Depois. não possuir aquilo que não se deseja é a coisa mais difícil do mundo. ela não era tão passiva quanto eu pensava. é uma confissão. que esta aventura não é muito brilhante. Nesse dia. estava feita de uma vez por todas. então. que acabei por me ligar a ela como imagino que o carcereiro se liga a seu prisioneiro. que me contará mais tarde. não seria a sexualidade. a esqueci.

o resultado era claro: conservava todas as minhas afeições à minha volta para utilizá-las quando quisesse. acreditava sofrer realmente. Então. será que li isto. Bastava. em contar-lhe isto. Nenhum homem é hipócrita em seus prazeres. meu caro compatriota? Assim. eu não podia me enganar quanto à verdade de minha natureza. eu era. mais digno em minha vida privada. dizia a mim mesmo que a solução ideal seria a morte para a pessoa que me interessava. Qualquer que fosse. ao mesmo tempo que a paz. quando corria o risco de ser abandonado. diga-me meu caro compatriota. nunca tão gentil e alegre com uma como quando acabava de deixar a cama de outra. A ternura e a doce fraqueza de um coração. sem nenhuma compensação de minha parte. talvez se trate dela ou de um desses sentimentos ridículos. fadados. eu as despertava nelas. quando analisava a dificuldade que tinha em me separar definitivamente de uma mulher. ou o maior número possível deles. enfim. a qualquer momento. ao me ver lidar com os seres. sobretudo. que a rebelde partisse de fato. se voltarem para mim. a meu bel-prazer. pelo contrário. por um lado. Pelo menos. a não ser com a condição de. eu não acusava a ternura de meu coração. Não será vergonha? A vergonha. para um dia ou outro tê-las à mão conforme minha conveniência. em que os colocava. como se estendesse a todas as outras mulheres a dívida que acabara de contrair com uma delas. todos os seres. despovoar o planeta para gozar uma liberdade de outra maneira inconcebível. é bem verdade. em meu entender. até o dia em que me dignasse a favorecê-las com minha luz. tinha dito quem era e como podia viver. dificuldade que me levava a tantas ligações simultâneas. por outro. quando. para que eu a esquecesse sem esforço. Portanto. privados de vida independente. me era devido. O único sentimento profundo que me ocorreu experimentar nessas relações era a gratidão. Às vezes. sentindo eu próprio apenas suas aparências. Ah! Não sinto nenhum prazer especial. ela não queima um pouco? Sim? Então. e. que eu começava a sentir o peso dessa afeição. quando me comportava como lhe contei. confesso que não conseguia viver. a liberdade de ir e vir. na geladeira. sobre a terra inteira. era preciso que os seres que eu elegesse não vivessem. que me tornava eloquente. do que em minhas grandes tiradas profissionais sobre a inocência e a justiça. Mas não se pode desejar a morte de todo mundo. ela havia decidido voltar. acredite-me.pensava. Quando penso nesse período em que eu pedia tudo. no entanto. aliás. estava em meu melhor possível. para viver feliz. uma vez reconquistada. Só deviam receber a vida. de certo modo. Não. A isso. Essa morte teria fixado definitivamente nossa ligação. e. não era o amor nem a generosidade que me despertavam. que cedia. aliás. nem. não sei que nome dar ao curioso sentimento que me invade. em última instância. Uma vez amado e minha companheira de novo esquecida. ou tê-lo-ei pensado. Não era ela que me fazia agir quando uma de minhas amiguinhas se cansava de esperar o Austerlitz de nossa paixão e falava em retirar-se. prontos a atender a meu chamado. assim como a esquecia junto de mim. a confusão aparente de meus sentimentos. em que mobilizava tantos seres para me servir. quando tudo corria bem e me deixavam. eu resplandecia. Apesar das aparências. mas apenas o desejo de ser amado e de receber o que. à esterilidade. Observe. Em resumo. opunham-se a minha sensibilidade e meu amor pelos homens. . Era eu que imediatamente dava um passo à frente. simplesmente um pouco excitado por esta recusa e também alarmado com a possível perda de uma afeição. ter-lhe-ia tirado o constrangimento. tornava-me simpático. eternamente disponíveis. vez ou outra. portanto. em meus momentos de irritação.

Parei na hora. que esse sentimento nunca mais me abandonou desde aquela aventura. Mas já chegamos. em novembro.apesar da distância. Acabara de deixar uma amiguinha que. nem dos dias seguintes. Quase imediatamente. que eu encontrei no centro de minha memória e cuja narração não posso adiar mais. como queira. pela Pont Royal. um pouco entorpecido. Já havia percorrido uns cinquenta metros. em todo caso.. . o corpo acalmado.afastei-me sob a chuva. Escutava ainda. caía uma chuva miúda. Na ponte. Aliás. peguei o cais. Sentia-me bem com esta caminhada. às pressas. já estava dormindo. "Tarde demais. Não li os jornais do outro dia. que descia também o rio e depois se extinguiu bruscamente. vestida de preto.”. Levá-lo-ei com prazer à ilha de Marken. Passava uma hora da meia-noite.. Acho que tremia de frio e de emoção. Para que a estatua se desnude. os belos discursos devem alçar vôo. Vamos! Bastarão algumas palavras para descrever minha descoberta essencial. para casa. com certeza. De mais perto. onde eu morava. fará justiça. longe demais. na verdade. não sei. distingui uma mulher nova e esguia. Naquela noite. depois de certa hesitação. Depois. mais ou menos. Esquecime do que pensei então. o meu refúgio! Amanhã? Sim. eu voltava para a margem esquerda. verá o Zuyderzee. não por ter falado muito. em direção a Saint-Michel. mas à simples ideia do que ainda preciso contar. ouvi um grito vários vezes repetido. para que dizer mais. mas sem me voltar. irrigado por um sangue suave como a chuva que caía. Estou cansado. O quê? A tal mulher? Ah. Vejamos. no silêncio da noite. parou de chover! Tenha a bondade de me acompanhar até a minha casa. Entre os cabelos escuros e a gola do casaco. Esteja às onze horas no México-City. apesar de minhas digressões e dos esforços de uma inventiva à qual.que dizem respeito à honra. Olhe. dois ou três anos antes da noite em que julguei ouvir alguém rir às minhas costas. No fim da ponte. O silêncio que se seguiu na noite paralisada pareceu-me interminável. fresca e molhada. imóvel. Não avisei ninguém. me pareceu grande. Dizia a mim mesmo que era preciso agir rapidamente me sentia uma fraqueza irresistível invadir-me o corpo. via-se apenas uma nuca. ou algo do gênero. eis a minha casa. quase uma garoa que dispersava os raros transeuntes. estranhamente. espero. Parece-me. que me sensibilizou. passei por detrás de uma forma debruçada sobre o parapeito e que parecia olhar o rio. Mas segui meu caminho. não sei. quando ouvi o barulho de um corpo que cai na água e que. Quis correr e não me mexi.

a que chamam aqui de duna. caro amigo. além do mar e dos canais. por favor. Não reparou que o céu da Holanda está cheio de milhões de pombas. São as pombas. Não compreende o que quero dizer? Confesso-lhe meu cansaço. Mas eu não o trouxe a esta ilha. Que me diz? Aqui temos. o mar com a cor esmaecida de espuma. telhados cobertos de insígnias. sobretudo. à nossa esquerda. Torna-se denso. fazer com que nos levassem a sério. então. Temos de segui-lo. meu caro amigo. Não tenho mais amigos. Mas punir quem? Alguns ficariam surpreendidos. O senhor e eu apenas. poderíamos. a madeira espessa. Chegamos ao dique. diante do planeta enfim deserto! O céu vive? Tem razão. depois aprofundase. Em compensação. de certa forma. Se eu pudesse suicidar-me e ver em seguida a cara deles. não adiantaria nada. finalmente. nenhum ser humano. fecha portas de bruma. Fazem evoluções acima da terra. Como sei que não tenho amigos? É muito simples: eu descobri isso no dia em que pensei em matar-me para lhes pregar uma boa peça. na verdade! Nada mais do que linhas horizontais. o vasto céu onde se refletem as águas pálidas. só tenho cúmplices. valeria a pena. sim. Todo mundo pode levá-lo a admirar as toucas. E. onde os pescadores fumam tabaco em meio a um cheiro de encáustica. Os homens só se convencem de nossas razões. a margem arenosa lívida a nossos pés e. pelo contrário. Não será a retração universal. mesmo se os tivesse. enchendo o espaço celeste com ondas espessas de penas acinzentadas. Digo amigos. nunca se tem certeza. nenhum brilho. aliás. creio que concorde com isso. caro amigo. morta. os tamancos e as casas decoradas. o nada sensível a nossos olhos? Nenhum ser humano. e nenhuma cabeça onde pousar. O que está presente é sempre o primeiro. são o gênero humano. por princípio. já não possuo aquela clareza de espírito à qual meus amigos se compraziam em prestar homenagem. seu número aumentou.4 Uma aldeia de bonecas. opaca a mortalha. Além disso. Mas não há nada. a mais bela das paisagens negativas! Veja. invisíveis por voarem tão alto. sem dúvida. e que batem as asas. por causa do pitoresco. desejariam descer. Os olhos da alma. para puni-los. esperam o ano todo. sobem e descem num movimento único. Sentemo-nos. não acha? O pitoresco não lhe foi poupado. o espaço é incolor. olham. aquele monte de cinza. de nossa sinceridade e da . Mas a terra é obscura. do gênero humano. o senhor é o primeiro. não se tem certeza. haveria uma saída. Perco o fio de meus relatos. uma das raras pessoas que podem mostrar-lhe o que existe de importante aqui. ninguém se sentiria punido. o dique cinzento à direita. que o vento leva ou traz? As pombas esperam lá em cima. abre-se em escadarias de ar. Caso contrário. para ficarmos o mais longe possível destas casas por demais graciosas. Eu sou. a vida. Compreendi que não tinha amigos. Um inverno amorfo. à nossa frente. sim. se há uma alma e se é que ela tem olhos! Mas aí está.

Tal avidez tem algo de plebeu. E ela se matou. vamos direto ao ponto. valeria a pena provar-lhes o que eles não querem crer e deixálos assombrados. E depois. não acha? A aristocracia não se concebe sem um pouco de distância em relação a si mesma e à própria vida. Olhe. Hoje em dia. têm de escolher entre serem esquecidos. eu. no entanto. Se ele tem a infelicidade. Meu caro amigo. era sobretudo dos outros que eu estava enojado. ridicularizados ou usados. assim como para a fornicação. que banquete para as feras! Compreendi isso num . Mas não se foge assim tão facilmente. Três domingos depois. Se houvesse. Se duvida disso. isso não lhes entra na cabeça. de evitar ser continuamente julgado. eu conhecia minhas fraquezas e as lamentava. Quanto a serem compreendidos. eles nos deixam em pedaços. fique de ouvido nas conversas de mesa durante o mês de agosto nesses hotéis de veraneio. Mas podemos muito bem suicidar-nos por duas razões. tramitava incessantemente em meu coração. uma única certeza de podermos gozar o espetáculo." Ah! caro amigo. Mas uma pessoa se mata. já consigo ouvi-los: "Matou-se porque não pôde suportar que . É preferível nem ver isso. Ele tem. dizia uma moça ao pai que a impedira de se casar com um pretendente por só andar bem penteado. Mas o pai não pagou absolutamente nada. Porque o castigo sem julgamento é suportável. Se ainda hesita em tirar uma conclusão. pois esqueceu.. sobretudo o problema é evitar o julgamento. enfim. O problema é contornar. convenhamos. Amo-a tanto que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida. só temos direito a seu ceticismo.isso. como os homens são pobres de inventiva! Julgam sempre que nos suicidamos por uma razão. depois de tudo que lhe contei. Isto o choca. Morre-se. Ou. leia então os escritos de nossos grandes homens do momento. É claro. Sem contar que nos arriscaríamos a ouvir as razões que dariam para o nosso gesto. não será melhor assim? Sofreríamos demais com sua indiferença. então. nunca. oh. sacrificar-se à ideia que se quer dar de si mesmo? Uma vez morto. O processo dos outros. segundo dizia. "Vai pagar-me por isso!". é preciso. Ele adorava pescar. caro amigo. pura e simplesmente. antes de entrar na jaula. Aliás. pelo contrário. Julga-se morrer para punir a mulher e devolve-se a ela a liberdade. trata-se de fugir ao julgamento. Para que serve. de cortar-se com a navalha. Não. deixar de ser.gravidade de nossos sofrimentos com a nossa morte. isso será elucidativo. para se esquecer. que acha que me aconteceu? Nojo de mim mesmo? Ora!. não demos pretexto para nos julgarem. aliás efêmera: assistir. antes quebrar que dobrar. eu amo a vida. sim. Não digo evitar o castigo. por pouco que seja! Caso contrário. estamos sempre prontos para o julgamento.. um nome que assegura nossa inocência: infelicidade. com uma obstinação bastante meritória. No que me diz respeito. Mas. voltou ao rio. segundo o sonho de cada homem. certamente? Talvez pense que não é lógico? Mas o problema não é o de permanecer lógico. eu me dobro. Para deixar de ser duvidoso. aliás. se for preciso. porque continuo a me amar. Somos obrigados às mesmas precauções que o domador. então. e sobretudo. Com a diferença de que não há fraquezas a temer. Calculou certo. ainda. Não. sem que jamais a sentença seja pronunciada. Continuava. nosso caso é duvidoso. Enquanto estivermos vivos. o inverso é que teria causado surpresa. eles se aproveitarão disso para atribuir ao gesto motivos idiotas ou vulgares. A bem dizer. ao próprio funeral. nos quais nossos caridosos compatriotas vêm fazer sua cura de tédio. Os mártires. e que importa se eles acreditam ou não? Não estamos presentes para colher os frutos de seu espanto e de sua contrição. a esquecê-las. eis a minha verdadeira fraqueza. pelo contrário. observe a própria família. morrer voluntariamente.

na primeira oportunidade. Quanto a mim. em minha vida social. dissolviam-se sobre mim. havia prestado serviços. ou absolvido e desgraçado. com a ingenuidade de que já lhe dei algumas provas. Uma vez. passei a ser desconfiado. nem nosso sucesso. Louvavam ainda. quando se apresenta de certa maneira. Minhas relações com meus contemporâneos eram. a menos que se consinta generosamente em reparti-los. recusava muitas oportunidades! Esquecia em seguida. Não importa. Em minha profissão. O círculo. talvez. o acaso. é capaz de irritar um santo. por outro lado. A partir do momento em que temi que houvesse em mim qualquer coisa a ser julgada. transbordava de compromissos e. a injustiça era maior: eu era condenado por felicidades antigas. tornavam-se sutilmente desafinadas. compreendi. veio-me a lucidez. Vivera durante muito tempo na ilusão de um acordo geral. Já que sangrava um pouco. deveria tê-los prestado. lá estavam. tropecei duas ou três vezes. recebi todos os ferimentos ao mesmo tempo e perdi de uma só vez minhas forças. Feliz e julgado. e depois. Tive mesmo. Assim é que. A partir de então. e eles colocavam-se numa única fileira. se lembravam de minhas recusas. que os que não me conheciam não poderiam deixar de gostar de mim. A aparência de sucesso. para dar apenas um exemplo. parecia-me que cada um daqueles que eu encontrava me olhava com um sorriso disfarçado. ainda me restava a desconfiança. por falta de tempo. Em contra partida. as flechas e as zombarias. em suma. os juízos. a meus olhos. as portas se fecham. em suma. que nem sempre me perdoavam por isso. pela mesma razão. a rir à . sem dúvida. A outros. rompia-se. Sempre pensei. isto é. Mas. do qual eu era o centro. Tudo isso. para ser feliz. cheguei a estatelar-me no chão. a plateia respeitosa a que estava habituado. Mas eu só era sensível às dissonâncias e à confusão que se apossavam de mim. mas riam. como antes. estava na ordem natural das coisas e eu o descobri sem grande mágoa. no dia em que me ocorreu a suspeita de que. para mim. Com efeito. as mulheres. que havia neles uma vocação irresistível para julgar. sentia-me vulnerável e entregue à acusação pública. afinal de contas. de que eu vivia intensamente e num livre abandono à felicidade. se tivessem chegado a conviver comigo. ao entrar em lugares públicos. Sim. Suspeitavam. Meus semelhantes deixavam de ser. Minha vida. então. eu não fosse tão digno de admiração. as mesmas e. isto não se perdoa. O francês cartesiano que sou procurou logo recompor-se e atribuir tais acidentes à única divindade razoável. sem motivo aparente. na aparência. A uns. a impressão de que me davam rasteiras. foi mais difícil e doloroso admitir que tinha inimigos entre pessoas que mal ou nem ao menos conhecia. estava totalmente perdido: iriam devorar-me. Como se sair dessa? Não nos perdoam nossa felicidade. de todos os lados. Despertada minha atenção. Meus amigos não haviam mudado.relance. me custavam caro. A partir do dia em que me dei conta. Ou melhor. não me foi difícil descobrir que tinha inimigos. Mas tais oportunidades me haviam sido oferecidas por pessoas cuja vida não era intensa e que. por essa mesma razão. A partir daí. o que havia recusado. distraído e sorridente. nessa época. é preciso não se envolver demais com os outros. como no tribunal. Pois bem. Todo o universo pôs-se. no entanto. em primeiro lugar. O tempo que eu lhes consagrava não podia dedicar aos homens. ao passo que. a harmonia e a segurança que encontravam junto a mim. nada disso! Encontrei inimizades sobretudo entre os que só me conheciam muito por alto e sem que eu próprio os conhecesse.

Inversamente." "Mas. A única defesa está na maldade. ele nos será violentamente reconhecido. que extrairão de sua promessa de sinceridade. desejaríamos ao mesmo tempo deixar de ser culpados e não fazer esforço algum para nos purificarmos. somos todos como aquele francesinho que. Sem cinismo . não acredite em seus amigos. isto é. Já lhe disse: trata-se de fugir ao julgamento. Sob esse aspecto. Portanto. dizia o francesinho.. a um só tempo. Tanto isso é verdade que raramente nos abrimos com quem é melhor do que nós.. extraem justificativas da natureza ou desculpas das circunstâncias. meu velho. então. é a ideia de sua inocência. porque a riqueza nos livra do julgamento imediato. de nascença! Assim como não se é certamente mais responsável em ser criminoso por natureza do que devido a circunstâncias. nem de seu caráter. a que lhe surge ingenuamente. às vezes um conforto. se o senhor se encontrar neste caso. não hesite: prometa ser verdadeiro e minta o melhor que puder. Como poderia a sinceridade ser uma condição da amizade? O gosto pela verdade a qualquer preço é uma paixão que nada poupa e a que nada resiste. Por quê? O senhor já se perguntou isso alguma vez? Pelo poder. nos retira da multidão do metrô para nos encerrar numa carroceria toda niquelada. todos eles procuram ser ricos. mas de circunstâncias infelizes. As pessoas apressam-se. fugimos a esse convívio. sem vergonha. nem inteligente. nascidos de uma infelicidade passageira. não se reclama. meu senhor". certamente. Mas esses bandidos querem a absolvição. e melindroso fazer. os sábios) consegue suportar. É um vício. em Buchenwald. nunca sejam mais do que provisórios. mesmo que sejam contraditórias. caro amigo. Mas ele exultará se admirarmos sua generosidade natural. a julgar. veja bem. Aqui. O essencial é que sejam inocentes. Na maioria das vezes. mesmo que para isso seja preciso acusar o gênero humano e o céu. "meu caso é excepcional. sempre fácil de conseguir . Não desejamos. Só anseiam que alguém os mantenha no bom conceito que fazem de si próprios. Em suma. que fôssemos julgados fracos. não é ainda a absolvição. Daremos uma alegria medíocre a um homem se lhe elogiarmos os esforços graças aos quais se tornou inteligente ou generoso. Eis o que nenhum homem (exceto os que não vivem.A riqueza. ao lhes fornecer uma certeza suplementar. Todos queremos recorrer de qualquer coisa! Cada qual exige ser considerado inocente. No entanto. camarotes de luxo. Durante a defesa. De preferência. para elas próprias não serem julgadas. mas uma suspensão de pena. pois. quando lhe pedirem que seja sincero com eles. que registrava sua chegada. como no fundo de sua natureza. Que quer? A ideia mais natural para o homem. nos corrigir. Apenas desejamos ser lastimados e encorajados em nosso caminho. e que seus erros. pelo contrário. não há mérito algum em ser honesto. Como é difícil fugir ao julgamento. confessamo-nos aos que se parecem conosco e que partilham de nossas fraquezas. admirar e desculpar a própria natureza. a todo custo. se dissermos a um criminoso que seu erro não decorre de sua natureza.minha volta. Sou inocente!" Somos todos casos excepcionais. Mas. carros-leitos. nem melhorar: seria preciso. Sobretudo. antes de tudo. que suas virtudes pela graça do nascimento não possam ser postas em dúvida. ou um egoísmo. a irresponsabilidade e. quero dizer. prisioneiro como ele. nos isola em vastos jardins particulares. escolherá até mesmo esse momento para chorar. Atenderá ao profundo desejo deles e provará duplamente sua afeição. sobretudo. teimava em querer apresentar uma reclamação ao escrivão. Uma reclamação? O escrivão e seus colegas riam: "Inútil.

antes de tudo. com uma ligeira dose de admiração. Aqueles mesmos que eu ajudava com mais frequência eram os mais desprezados. que aquele riso perpétuo e os que riam me ensinassem a ver claro dentro de mim mesmo. A obrigação em que me encontrava de esconder a parte viciosa de minha vida conferia-me. Não temos nem a energia do mal nem a do bem. É bem verdade que. A face de todas as minhas virtudes tinha. um reverso menos imponente. tudo que cobiçava. as pessoas chegavam a se surpreender. meus defeitos revertiam em meu benefício. que eu não era simples. atento para nada deixar escapar que pudesse despertar a atenção e a memória daqueles com cuja falha eu contava (não tive um dia a intenção de alterar um calendário?). Conhece Dante? Isso mesmo? Que diabo! Sabe. Foi preciso. que eu conhecia bem. É certo que minhas traições não impediam minha fidelidade. temos pressa. mas tão esfarrapada que não posso pensar em fazê-la prevalecer. Com cortesia. então. um ar de frieza que se confundia com o da virtude. é esta: nunca consegui acreditar profundamente que os assuntos humanos fossem coisas sérias. pelo desinteresse. Mas a razão de meu desinteresse era ainda mais discreta: eu desejava ser esquecido para poder lamentar-me disso a mim mesmo. que a modéstia me ajudava a brilhar. Paro aqui: o excesso de simetria prejudicaria minha demonstração. e a virtude. depois de longos estudos sobre mim mesmo. com uma solidariedade cheia de emoção. que Dante admite anjos neutros na disputa entre Deus e Satã. Paciência? Tem razão. nunca deixei de ajudar o próximo. eu liquidava um trabalho considerável à força de indolência. Apregoava minha lealdade e acho que não há entre os seres que amei um único que. em outro sentido. Vários dias antes da data. uma espécie de vestíbulo de seu inferno. Chamam-se verdades primeiras as que descobrimos depois de todas as outras. Certas manhãs. vaguei por muito tempo. a vencer. a descobrir. meu egoísmo culminava em minhas liberalidades. Compreendi. à força de remexer na memória. enfim. Mas em vão repetia a mim mesmo estas evidências. pelo menos. minha indiferença proporcionava-me ser amado. No entanto. Precisaríamos ter a paciência de esperar pelo juízo Final. de minha discrição no caso. sem dúvida. Por exemplo. só tirava delas consolos superficiais. entre todas gloriosa. Não foi fácil. enfim. Estamos no vestíbulo. Mas – nada disso — fazia-me de duro e nunca consegui resistir ao oferecimento de um copo nem de uma mulher! Passava por ser ativo. enérgico. é tudo. e meu reino era a cama. Onde estava a seriedade. caro amigo. afinal. haverá uma desculpa para isto? Existe uma. então. fazia a instrução de meu processo até o fim e chegava à conclusão de que eu primava sobretudo pelo desprezo. Não sorria. Tanta pressa que até fui obrigado a me fazer juiz-penitente. por exemplo. primeiro tive de me acomodar às minhas descobertas e fazer um acerto com o riso de meus contemporâneos. eu não tenha também traído. nunca me lamentava de terem esquecido a data de meu aniversário.suficiente e sem virtude suficiente. Uma vez bem demonstrada minha solidão. Em todo caso. graças ao prazer que encontrava nisso. pois fui realmente chamado. Mas não. esta verdade não é tão primária quanto parece. Francamente. isso . Fazia a guerra por meios pacíficos e obtinha. a humildade. a oprimir. concebi a duplicidade profunda da criatura. cuspia todos os dias na cara de todos os cegos. E coloca-os no Limbo. podia então entregar-me aos encantos de uma tristeza viril. assim. ficava à espreita. tive de responder ou. procurar a resposta. A partir da noite em que fui chamado. O certo é que.

para corresponder ao que esperavam de mim em minha profissão. que não era séria. Foi nesse momento que o pensamento da morte irrompeu em minha vida diária. o indignado. Sem dúvida. paradas inexplicáveis. o inteligente. minha família ou minha vida de cidadão. Contava os anos que me separavam de meu fim. As réplicas de meus clientes pobres pareciam-me sempre restringir-se à mesma cantilena. leu que a primeira bomba H havia explodido. quando se trata do amor. para agravar minhas asneiras. que estão presentes sem estar: eu estava ausente no momento em que ocupava o máximo de espaço.. no entanto? Eu só imaginava os amores de Isolda nos romances ou num palco. e suficientemente indolente. o senhor já deve ter compreendido que eu era como os meus holandeses. o virtuoso. Afinal. Como se fosse de propósito. muitas vezes. abriu o jornal. o que havia de frívolo na própria seriedade evidenciava-se a mim e eu continuava apenas a desempenhar meu papel da melhor forma que podia. não seria isso que. o edificante . que amei com uma paixão sem igual. Só fui verdadeiramente sincero e entusiasta no tempo em que praticava esportes e na tropa. Buscava exemplos de homens de minha idade que já estivessem mortos. bem depressa. aquelas em que me sentia menos comprometido. o indulgente. Para falar com franqueza. pela força de vontade. Certa manhã. Os moribundos pareciam-me. Há. Que tarefa? Eu nem sabia. a não ser que não estava em tudo aquilo que via e que me parecia unicamente um jogo divertido ou inoportuno. minha vida continuou como se nada houvesse mudado. nem a um de seus . Perseguia-me. informouse sobre os seus admiráveis efeitos e entrou sem demora numa tabacaria. Representava o eficiente. Ainda agora. não consegui me perdoar. A partir daí. Eu olhava sempre com um ar de espanto e com um pouco de suspeita aquelas estranhas criaturas que morriam por dinheiro e se desesperavam com a perda de uma "situação" ou se sacrificavam com grande ostentação pela prosperidade da família. mas todas as vezes com uma espécie de distração que acabava por estragar tudo. Eu compreendia melhor aquele amigo que havia decidido nunca mais fumar e que. paro por aqui. Não a Deus. E me atormentava a ideia de que não teria tempo de realizar a minha tarefa. o patriota.. as partidas de domingo num estádio superlotado e o teatro. compenetrados de seu papel. Lembra-se: "Ai de vós quando todos os homens vos louvarem!" Ah! aquele falava muito bem! Ai de mim! A máquina passou então a ter caprichos. Vivi minha vida inteira sob um duplo signo e minhas atividades mais sérias foram. Em suma. para a nossa diversão. em mim e a meu redor. O mal veio precisamente daí. e aparentemente. eu fingia levar a vida a sério. Mas. da morte e do salário dos miseráveis? Que fazer. com efeito. são os únicos lugares no mundo em que me sinto inocente. Mas quem admitiria que semelhante atitude possa ser legítima. o solidário. às vezes. fora bemsucedido. Havia em ambos os casos uma regra do jogo. que me fez resistir com o máximo de violência contra o julgamento que eu sentia em ação. redobravam os elogios à minha volta. às vezes. um temor ridículo: não se podia morrer sem ter confessado todas as mentiras. na verdade. e nos divertíamos em considerar como tal. valeria a pena continuar a fazer o que eu fazia? Mas não era exatamente isso. Era suficientemente educado.eu não sabia. e que me obrigou a procurar uma saída? Durante algum tempo. quando representava nas peças que encenávamos. não conseguia acreditar nos compromissos que assumia. Estava nos eixos e rodava normalmente. vivendo entre os homens sem compartilhar de seus interesses. esforços e convicções que nunca compreendi.

Já que era mentiroso. me proporcionaria refinados prazeres. descobria até que ponto uma parte de minha alma os detestava: planejava furar os pneus das cadeiras de rodas dos aleijados. como lamentava não ser mais possível agir como um proprietário russo. ou a uma mulher amada.representantes. dizia ele. Certo dia em que eu comia lagosta no terraço de um restaurante e um mendigo me importunava. que a morte do corpo. Nunca mais ninguém conheceria a verdade sobre este ponto. Em suma. pela alegria surda e imprevista que isso me proporcionava. Ganhava-se. era. Não importava. a morte mantinha-se fiel à minha cabeceira. se fiz alguma coisa parecida. Minha primeira reação foi confusa. pelo menos. um castigo suficiente e que tudo absolvia. Eu continuava. eu estava acima disso. eu me levantava com ela. "Enfim. esqueci. também. e os elogios tornavam-se cada vez mais insuportáveis para mim. também. O certo é que a própria palavra justiça me deixava fora de mim. a utilizá-la em minhas defesas. em dar empurrões em cegos na rua. perdido no oceano das idades como o grão de sal no mar! Dizia. Que importava a mentira de um homem na história das gerações. Intimado pela verdade. cujo caráter admirava: ele mandava chicotear. iria manifestá-lo e atirar minha duplicidade na cara de todos aqueles imbecis. como o senhor pode imaginar. com isso. Na época. Eu reagia. Hoje. responderia ao desafio. diga-se de passagem. a mim mesmo. em si. tratava-se ainda de fugir ao julgamento. esbofetear bebês no metrô. Naturalmente. Sobretudo. antes mesmo que a descobrissem. forçosamente. a salvação (quer dizer. Este assassinato absoluto de uma verdade me desnorteava. tratava-se de confessá-las aos homens. anunciava a publicação de um manifesto denunciando a opressão que os oprimidos faziam pesar sobre os homens de bem. se fosse julgar pelas que eu havia presenciado. a um amigo. para quem quisesse ouvir. os camponeses que o saudavam e os que não o saudavam. adormecido sobre o seu segredo. por exemplo. para castigar uma audácia que ele julgava uma afronta igual nos dois casos. lembro-me de excessos mais graves. meus bons . e mesmo que houvesse uma única mentira oculta numa vida. No entanto. tão desmesuradamente que nunca mais conseguiria me recompor. chamei o dono para expulsá-lo e aplaudi com estardalhaço as palavras desse justiceiro: "Você está incomodando". imaginei então lançar-me à zombaria geral. Sonhava com isso tudo e nada fiz ou. Mas deixemos isso de lado. e. o mal-estar crescia. o direito de desaparecer definitivamente) com o suor da agonia. A ideia. Chegou um dia em que não aguentei mais. Mas vingava-me ao amaldiçoar publicamente o espírito de humanidade. da mesma maneira. colocar-me ao lado deles. e gritar "Trabalha. vagabundo" debaixo dos andaimes onde estavam os operários. por exemplo. onde se reuniam nossos humanistas profissionais. obrigava-me a visitar regularmente os cafés especializa dos. e que pretensão querer trazer à luz da verdade um mísero embuste. De outra forma. por exemplo. ao contrário. Para me precaver contra o riso. a morte tornava-a definitiva. Parecia-me que a mentira aumentava com eles. não havia descoberto a receita e me atormentava. de que sou o único a conhecer o que todo mundo busca e de que tenho em minha casa um objeto que mobilizou em vão três aparatos policiais é puramente deliciosa. Queria colocar do meu lado os que riam ou. Comecei a escrever uma Ode à polícia e uma Apoteose da guilhotina. Pensava. coloque-se no lugar dessas senhoras e desses senhores!" Eu dizia. Não. é claro. já que a única pessoa que a conhecia era precisamente o morto.

Deve achar isso pueril. foi mais forte.. E talvez esteja pronto a recomeçar. nem sofrer por ter sido logrado. já que não era geral. com gentileza. que me levou muito tempo para aperfeiçoar e que não descobri antes de me achar no mais completo abandono. no caso. que me apresentou. talvez houvesse uma razão mais séria para essas brincadeiras. e eu empalidecia. mais valia recobrir tudo. de defender o ladrão. outros cacarejavam com indignação sem nada ouvir. uma vez que eu não podia participar dela? Nesse caso. Enquanto aquele. Não matei ninguém? Ainda não. só de pensar. e como poderia ser geral. O espanto que eu encontrava. Ainda está todo cheio de espanto por ter trabalhado tão bem:' Este discurso perturbou um pouco meus jovens confrades. É preciso nos acusarmos de certa maneira. de uma palestra que devia fazer a jovens estagiários de advocacia. Lá. Havia começado com o ímpeto e a emoção que esperavam de mim. não me trouxeram paz alguma. para oprimir o segundo com crimes do primeiro. Tranquilizaram-se completamente quando cheguei à minha conclusão. sem nunca ter sido bom. Nada mais queria de sua estima. Para expor aos olhares o que ele tinha no ventre. pelo contrário.. em meus ouvintes. e que eu não tinha dificuldade alguma de acionar automaticamente. diria eu. como o diabo na água benta. não recomeçará. sim. Mas. tampouco me desarmar. me enchia de furor. Ao renovar estes rompantes amáveis. eu me pus a aconselhar o amálgama como método de defesa. julgamento e estima.". com um manto de ridículo. consegui somente desnortear um pouco a plateia.. na qual invocava com eloquência a pessoa humana e seus supostos direitos. Lembro-me. um rei de preguiça. o riso continuou a flutuar à minha . depois estourava o tumulto. olhem bem para ele. um bode de luxúria. entreolhavam-se.antecedentes faziam com que fosse bem recebido. estupefatos. dizia eu. O bom relacionamento. deixava escapar um palavrão: "Graças a Deus!". geralmente. Eu queria perturbar o jogo e sobretudo. não consegui me conter por muito tempo. de repente. Como vê. sem me fazer notar. Sou livre. assim. bastante parecido com o que o senhor mostra — não. "Um homem como o senhor . Não será mais grave. o que pode haver de venial em nos enchermos de ira ao ver a própria bondade natural posta à prova pela malignidade do sexo. que julgam ao mesmo tempo um ladrão e um homem de bem. Considerem. todos se retorciam em convulsões. não basta acusarmo-nos para sermos declarados inocentes. uns fugiam do bar. ou mais simplesmente: "Meu Deus . seu embaraço um pouco reticente. aperfeiçoado pelas inquisições modernas. senhores jurados. Precisava libertar de qualquer maneira o sentimento que me asfixiava. pelo contrário. Não o amálgama. o advogado. quem sou eu? Um cidadão-sol quanto ao orgulho. nesse caso eu seria um cordeiro imaculado. não proteste —. assassino movido por ciúme. em meu próprio banco. isento de vossos rigores. e. Ao cabo de um momento. sem dúvida! Mas não deixei morrer criaturas dignas? Talvez. Não desarmá-la. um faraó na cólera. Expliquei-me com bastante clareza sobre este ponto: "Suponhamos que tenha aceitado defender algum comovente cidadão. Tratava-se. nesse dia.. no entanto." Bem sabe como nossos ateus de roda de bar são comungantes tímidos. resolveram que era melhor rir. Irritado com os incríveis elogios do chefe da Ordem dos Advogados. eu queria despedaçar o belo manequim que apresentava em todos os lugares. Até então. Um momento de espanto seguia-se ao enunciado dessa enormidade. No entanto. dizia. destruir essa reputação lisonjeira que. encontrar-me deste lado do tribunal. diziam-me. pela transposição dos crimes do homem de bem.

e a luz declina. . tenho de lhe falar acerca da libertinagem e do desconforto. o dia chega ao fim. de quase terno. Quer que nos calemos para saborear esta hora um tanto sinistra? Não.volta. Nosso barco não vai demorar a partir. mal se mexem. Olhe. eu o interesso? O senhor é muito amável. sem que meus esforços desordenados conseguissem tirar-lhe o que ele tinha de benevolente. Além disso. e que me fazia mal. as pombas se juntam lá em cima. talvez agora eu o interesse de verdade. Mas parece-me que a maré está subindo. Elas se chegam umas de encontro às outras. Antes de me explicar sobre os juizes-penitentes.

meu caro. pois a sujeira nos eleva. Por isso. não conseguimos nem calcular nossa velocidade. por hábito. a falar do desconforto. tornei-me lírico! Peço-lhe. não procurei ilhas desertas. vou dizer-lhe do que se trata. adornados de bigodes. não existem mais. à margem de minha memória. creio.a própria Grécia navega à deriva em alguma parte de mim mesmo. mas do criminoso. respeitáveis. Depois de me ter debatido. Sentemo-nos em um desses transatlânticos. às vezes? Que seja! Mas. conhece a Grécia? Não? Tanto melhor! Pergunto-lhe. um caminho cheio de espuma e de risos. desanimado com a inutilidade de meus esforços. é no leito da mulher que ele é geralmente preso. Não será a mulher tudo o que nos resta do paraíso terrestre? Desamparado. de mãos dadas! Sim. Que nevoeiro! Eu havia começado. de ilha em ilha. não se sabe onde começa ou acaba. tinha a impressão de saltar. faça com que eu pare. meu caro. o senhor me daria a mão nas ruas de Paris? Ora! Estou brincando. Desde então. mas a criatividade me faltava. Como sabe. Representava ainda um pouco. Com suas margens planas. subir e descer solenemente as ruas com os dedos entrelaçados nos do amigo. Também no Oriente. E nós . suas margens rochosas cortavam nitidamente o mar. Nós. limpos. o mar e o prazer. sim. Antes de nos apresentarmos nas ilhas gregas. e nada muda.. não do guerreiro. perdidas na bruma. É seu porto. elas realmente não são de condenar qualquer fraqueza: elas tentariam. dois a dois. o barco desliza bem rápido. sua enseada. Eis por que a mulher é a recompensa. eu tinha a impressão oposta. de preferência. Mas o Zuyderzee é um mar morto. é sonho. Não havia confusão. noite e dia. temos boas maneiras. E. e vêem-se homens maduros. Lá.. Lá. Sim. Seu perfil sem árvores delineava o limite do céu. Não. ainda que se arrastando em nosso pequeno barco. o ar é casto. incansavelmente. é preciso ter o coração puro. Não é navegação. com medo de . sem trégua. ou quase. diga-me. Mas já não fazia discursos. Avançamos. corri para o meu porto natural. as mulheres ficam em casa.5 Engana-se. Também eu estou à deriva. depois de ter esgotado meus ares de grande insolência. na crista das pequenas e refrescantes vagas. singramos sem nenhum ponto de referência. humilhar ou abater nossas forças. os amigos passeiam na rua. A propósito. decidi abandonar o convívio dos homens. naquela claridade precisa. tudo servia de ponto de referência. teríamos de nos lavar demoradamente. No arquipélago grego. Eu me refugiei unicamente junto às mulheres. o que faríamos lá? Lá. Novas ilhas surgiam incessantemente na linha do horizonte. Hesito em confessar.

meio curioso.Eu era levado. cheguei a tempo e me resignei a segurar sua mão até que ela encontrasse. na paixão. Mas me faltava prática. e também a consequência do grande amor por mim mesmo. que substitui muito bem o amor. confere a imortalidade. a promessas cada vez mais explícitas e chegava a exigir de meu coração um sentimento cada vez mais vasto. Tive amores simultâneos. mais desgostos para os outros que no tempo da minha bela indiferença. de certa maneira.proferir ainda alguns palavrões: creio efetivamente que nessa época senti a necessidade de um amor. Havia mais de trinta anos que eu apenas amava a mim mesmo. a esperança não é mais uma tortura. uma espécie de privação. o amor prometido pelos livros e que nunca havia encontrado na vida. Quanto mais o sentimento em que eu esperava encontrar repouso se achava ameaçado. Com certo grau de embriaguez lúcida. desesperado. Procurei. La vie en rose ou A morte de Isolda. Acumulei. Mas isso seria o mesmo que renunciar ao jogo. tentei renunciar às mulheres. fiz papel de bobo. restabelece o silêncio e. caro amigo. as mulheres me entediavam acima de qualquer expectativa e. Já lhe contei que meu papagaio. Criei tal aversão ao amor que. eu me arriscava a não mais ser amado. Também ensaiei falar de amor e acabei por persuadir a mim mesmo. sem dúvida. visivelmente. com a verdade. eu me via comprometido além de meus verdadeiros sentimentos. de regresso de uma viagem a Bali. tive de dormir com uma serpente. é sedutora. Em todo caso. o engenheiro de têmporas grisalhas que sua revista preferida já lhe havia descrito. que restava a libertinagem. não conseguia ouvir. julguei-me apaixonado. deitado. como não desconhece. como se diz. compreenda. vivia um sofrimento surdo. então. Quando ousava dizer não. também eu lhes causava tédio. Como perder um hábito desses? Absolutamente não o perdi e permaneci um espectador da paixão. como homem vivido. assusta. meio forçado. já despido do desejo. multipliquei as promessas. sua amizade deveria bastar-me. durante anos. Não seria essa a essência de minha natureza. longe de me sentir enlevado e absorvido pela eternidade. a dor de viver fica para sempre afastada. Acabou-se o jogo. Já que tinha necessidade de amar e de ser amado. o espírito reina sobre todos os tempos. então. Fui tomado assim de uma falsa paixão por uma encantadora desmiolada tão conhecedora das revistas sentimentais que falava de amor com a segurança e a convicção de um intelectual proclamando a sociedade sem classes. não? No entanto. eu me encontrava. e sofria com isso. sobretudo. Afora o desejo. que me tornou mais vazio. portanto. faz calar os risos. Eu me surpreendia frequentemente a fazer uma pergunta que. Em certo sentido. Mas a verdade. mais o exigia de minha companheira. Depois de ter amado um papagaio. pois nunca deixei de querer ser imortal. e viver em estado de castidade. Desesperançado do amor e da castidade. em outros lugares. Em outras palavras. Pelo menos até o momento em que se tornou minha amante e compreendi que as revistas sentimentais que ensinavam a falar de amor não ensinavam a praticá-la. assumir alguns compromissos. e me permitiu. é costume responder em casos semelhantes: "E você?" Quando respondia sim. acabou-se o teatro. sem um ranger de dentes. como já tivera em outros tempos. agravei ainda mais o peso de meus erros e meu desalento. quis deixar-se morrer de fome? Felizmente. Então. Então. de que lhe falei? . Afinal. sempre evitara até então. entre duas moças. ligações múltiplas. enfim. É obsceno. Tal convicção. compreendi. alta noite. Eu me ouvia perguntar: "Você me ama?" Sabe. eu tinha vivido sempre na libertinagem.

ela permaneceu. viver ao mesmo tempo com uma prostituta madura e uma moça da melhor sociedade. o que se vem procurar pode ser obtido sem palavras e. dormia com prostitutas e bebia durante noites inteiras. destinado ao que se chama pecado. quando renunciei às minhas façanhas noturnas. ao mesmo . enfim. foi que a vida se tornou menos dolorosa. deixe-me prestar uma especial homenagem às mulheres desconhecidas e esquecidas que então me ajudaram. já nem sequer sabemos se poderemos nos arrastar até o dia seguinte. e não tenha receio de valer-se dele. O cansaço que corroia meu corpo permitiu. A moça. ao fim de algumas semanas. nem sanção imediata. Foi o fígado dessa vez. Eu me amava demais para desejar que o precioso objeto de meu amor desaparecesse para sempre. e. Mas. que a verdadeira libertinagem é libertadora. durante longas horas. muitas vezes. pela sua glória. Não é pequeno. e. ao entrar. encontrar a paz e a libertação nessa alegre dissipação. em uma corpo ração masculina por demais caluniada. então. a prostituta era de natureza por demais burguesa: consentiu depois em escrever suas memórias para uma revista de confissões muito aberta às ideias modernas. O álcool e as mulheres me proporcionaram. eu morria de vontade de ser imortal. até sem dinheiro. devo confessar. com um cafetão presunçoso. porque não impõe qualquer obrigação. Esperava o romper da alvorada e. Brincamos de imortais. Na libertinagem. Como eu desejava a vida eterna. à luz vermelha e na poeira desse lugar de delícias. Infelizmente. sem promessas. Deixam-se. Em nosso estado de vigília e em nosso pouco conhecimento. mas. enfim. O dia vinha docemente iluminar esse desastre e eu me sentia elevado. mentindo descaradamente e bebendo sem parar. de igual para igual. Ah! Eu lhe peço. certa noite. faz-se necessário descobrir substitutos para essa imortalidade. não encontramos razões válidas para que a imortalidade seja conferida a um macaco lascivo. numa manhã de glória. meu orgulho por ter sido recebido. e um cansaço tão terrível que ainda não me deixou. Eu teria conseguido. pois. o único consolo de que era digno. mistura-se à lembrança que guardei delas algo semelhante a respeito. também. A conversa não é obrigatória. Viram-me até num hotel. Servi-me sempre e sem repressão desta liberação. Confio-lhe este segredo. Seria ousadia fazer uma confissão? Ainda me lembro com ternura de certas noites em que ia a um cabaré sórdido encontrar-me com uma dançarina que me honrava com seus favores. Ainda hoje. casou-se para satisfazer aos seus instintos incontroláveis e dar um emprego aos seus notáveis dotes. Compreenderá. Os lugares nos quais ela se exercita são separados do mundo. sentia na boca o gosto amargo da condição de mortal. ainda aí. eu havia planado. feliz. É claro que. O único proveito dessa experiência. pela manhã. tanto o medo quanto a esperança. a ocupação preferida dos grandes apaixonados por sua própria pessoa. imóvel. É uma selva. caro amigo. sem futuro nem passado. Mas. só se possui a si próprio. eu desfilava diante do balcão.Sim. assim. Todas as noites. encontrei um obstáculo em mim mesmo. cheguei mesmo a brigar. por sua vez. Falarei disso superficialmente: o senhor sabe que até pessoas muito inteligentes saboreiam a glória de poder esvaziar uma garrafa a mais que o vizinho. que se entregava mecanicamente ao prazer e logo adormecia. sobretudo. deixava-me cair na cama sempre desfeita de minha princesa. Fui o escudeiro galante da primeira e fiz a segunda conhecer algumas realidades. a essa altura.

Receavam. tornam-se. sem que o desejo se intrometesse. como antigamente. que o céu não pudesse cuidar tão bem de seus interesses quanto um advogado imbatível no Código Civil. A libertinagem nada tem de frenético. a Deus. eu não havia . caro amigo. naturalmente. finalmente. o ponto negro havia desaparecido. e pude. que já ocupava tanto espaço em mim. no entanto. Pelas mesmas razões. os monótonos coveiros da audácia e da imaginação. os adolescentes perdem. o sofrimento. que me culparam menos por meus excessos noturnos que por minhas provocações de linguagem. um julgamento que se faz de si mesmo. esquecendo-me de que já não acreditava no que dizia. o prazer excessivo debilita tanto a imaginação quanto o julgamento. que morria placidamente de minha cura. Tratava-se de um daqueles resíduos que os navios deixam atrás de si. Por vezes até. O mesmo acontecia comigo. e a tal ponto que terminei por não mais percebê-lo. com a primeira amante. o sofrimento dorme junto com a virilidade e tanto quanto ela. eu mal escutava o que me diziam. O ciúme físico é um produto da imaginação e. e começaram a escassear. Estou exagerando? Não. quando voltei a vê-lo. comprometido pela desordem em minha vida. De repente. pouco a pouco. nenhum humor. Eu vivia em uma espécie de nevoeiro. meu coração começou a bater. defendia-a bem. sem lhe dizer que o fazia para festejar minha cura. e certos casamentos. Queria somente dizer-lhe dos benefícios que tirei desses meses de orgia. a erosão de muitas partes essenciais de mim mesmo. Acontecia até mesmo passar noites de pura amizade. pensar que a crise havia terminado. ou melhor. portanto. A indiferença. Um dia. seu feliz proprietário. e fazia vôos rasantes. deixou de encontrar resistência e alastrou sua esclerose. O senhor já deve ter notado. Meus clientes deram esse passo. Cada excesso diminui a vitalidade e. e mantinha em penosa sobrevivência uma ou duas ligações cansadas. É apenas um longo sono. resignado ao tédio. fora do meu trabalho eu via pouca gente. Os pulmões tuberculosos se curam quando ressecados. Sim. sem realmente planar. sem dúvida. na coberta. Quando me forcei a olhar. e o exercício regular de minha profissão. De tempos em tempos. deixava desconfiados meus clientes. A referência. e asfixiam. porém. divisei ao largo um ponto negro no oceano cor-de-ferro. É interessante notar. Engordava um pouco. Daí a concluírem que eu invocava a divindade na medida de minha ignorância era apenas um passo. Felizmente. que são uma libertinagem burocratizada. chamar estupidamente por socorro. no entanto. Ia gritar. julga que o traiu. Enfim. apenas com a diferença de que. ao mesmo tempo. como se diz. ficam menos ciumentos. o casamento burguês colocou nosso país de chinelos e em breve vai levá-lo às portas da morte. ao mesmo tempo. de que seu precioso tesouro ainda lhes pertence. que por vezes fazia em minhas defesas. logo a seguir. encontrei-me a bordo de um transatlântico. ainda conseguia uma causa. É claro que querem assegurar-se. No entanto. eu me elevava um pouco acima do chão. ao contrário do que se pensa.tempo. mas estou divagando. em que o riso era abafado. mais uma vez. Atribuímos ao rival os sórdidos pensamentos que tivemos nas mesmas circunstâncias. Chega de emoções! Um humor igual. Desviei os olhos imediatamente. no decurso de uma viagem que ofereci a uma amiga. sua inquietação metafísica. Querem possuí-lo. o homem que verdadeiramente sofre de ciúmes não tem outra pressa senão a de deitar-se com aquela que. Então. Minha própria voz arrastava-me e eu a seguia. puramente verbal. Já não se tratava senão de envelhecer. Mas é também porque. Eu ainda vivia de meu trabalho. embora minha reputação tivesse sido arranhada por meus deslizes de linguagem.

conseguido suportar sua visão. havia pensado logo tratar-se de um afogado. então. viver em diagonal. que é o julgamento dos homens. não há circunstâncias atenuantes. sem revolta. por meio do imutável constrangimento que anquilosava o seu corpo. O prisioneiro. e que me havia esperado até aquele dia em que o encontrara. não havia deixado de caminhar pelo mundo. mesmo a boa intenção é tida como crime. ainda que lhe seja permitido. pois. meu caro. através da vastidão ilimitada do oceano. Que a inocência se veja restrita a viver corcunda. o sono era uma queda. a vigília acocorada. o senhor não conhece aquela cela de masmorra. esqueciam os condenados lá para o resto da vida. é bem verdade. Todos os dias. Era preciso viver no desconforto. Não precisaram de Deus para criar esta obra-prima. como nos resignamos a uma ideia cuja verdade se conhece há muito tempo. interminável. havia ressoado às minhas costas no Sena. fechar os olhos. não estamos nós sobre a água? Sobre a água plana. que ele continuaria a esperar-me nos mares e nos rios. o condenado aprendia que era culpado e que a inocência consiste em poder esticar-se livremente. ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos. no dia em que compreendi definitivamente 82 que não estava curado. recuso-me a considerar por um único segundo sequer esta hipótese. Era preciso submeter-me e reconhecer a culpa. Ouviu ao menos falar da cela de escarros que um povo criou recentemente para provar que era o maior do mundo? Ê uma caixa de alvenaria. espremido na cela. bastam nossos semelhantes. Compreendi. para que então nos chamam? Mas são as mesmas que gritavam. a que na Idade Média chamavam de "desconforto". as religiões enganam-se. Tinha-se de assumir uma posição encolhida. anos atrás. Acabara-se a vida gloriosa. O senhor falava-me do juízo Final. nem suficientemente larga para se poder deitar. Acredite-me. Escute! Não ouve os gritos de gaivotas invisíveis? Se gritam em nossa direção. ajudados por nós mesmos. Meu caro. monótona. por toda parte. Para isso. eis minha fé e minha esperança. Além disso. Pode-se imaginar nesta cela um frequentador das alturas e das cobertas dos navios? O quê? Podia-se viver nesta cela e ser inocente? É impossível. diga-me. enfim. Para eles. Mesmo aqui. não podemos afirmar a inocência de ninguém. altamente improvável! Ou então. a única utilidade de Deus seria garantir a inocência. mas eu vejo a . nem para castigar. no qual todo guarda que passa escarra à vontade. Posso esperá-la com tranquilidade: conheci o que há de pior. Não era suficientemente alta para se poder ficar de pé. que continuava encurralado e que era preciso me acomodar. Compreendi. isto. não se pode limpar. também. E então? Então. unicamente seu rosto. em que o prisioneiro fica de pé. que chamavam desde o Atlântico. Tal cela distinguia-se das outras por suas engenhosas dimensões. Pois bem. era engenhoso. que confunde seus limites com os da terra? Como acreditar que vamos chegar a Amsterdã? Nunca mais sairemos desta imensa pia de água benta. Vê-se. levado pelo rio em direção às águas da Mancha. e que aquele grito que. É verdade. Cada homem é testemunha do crime de todos os outros. Em geral. onde se encontrasse a água amarga do meu batismo. mas sem poder se mexer. e eu peso minhas palavras neste achado tão simples. mas também a raiva e os sobressaltos. Não é necessário existir Deus para criar a culpabilidade. a partir do momento em que pregam a moral e fulminam os mandamentos. é uma invenção dos homens. A sólida porta que o encerra em sua concha de cimento chega apenas até a altura do queixo. Permita-me que ria disso respeitosamente. minha lógica cairia por terra.

o senhor. sendo como era. além das razões que muito bem nos explicaram durante dois mil anos. por que haviam sido mortas. para continuarmos. naturalmente. disso se queixou e. Olhe. frequentar as colunas dos jornais ou. Não. não se defender. E essa tristeza que se adivinha em todos os seus atos não seria a melancolia incurável de quem ouvia ao longo das noites a voz de Raquel. A desgraça é que nos deixou sós. Sim. mas incapazes de fazer o que ele fez e de morrer como ele. Se não carregava o peso do erro de que o acusavam. já chegamos. aliás? Ele representava a origem. pode-se fazer a guerra neste mundo. socorrer-nos um pouco com sua morte. era uma ideia genial dizer: "Não sois brilhantes. Ora. Mas o censor é a propaganda do que proscreve. Desde então. para não mais estar sozinho na vida e ir-se embora para onde talvez pudesse ser amparado. precisamente durante três anos. é um fato. Não foi amparado. foi o terceiro evangelista. censuraram-no. do que falo. e acompanhe-me. se Lucas nada houvesse cortado. apenas continuar. ainda que ignorasse quais fossem. bem. e não se chamava religião. gemendo sobre os seus filhos e recusando qualquer consolo? O lamento ecoava na noite. mas não se deixar morrer! — confrontado dia e noite com o seu crime inocente. As crianças da Iudeia massacradas. tornava-se muito difícil manter o equilíbrio e continuar. na cruz!" Mas muitos alçam-se. a coisa mal teria sido notada. E eu sei. Ainda não acabei. aliás. pode acreditar. à . ele que morreu sem saber. para cúmulo. falta sabão. Aliás. aquelas crianças cortadas ao meio. meu caro. senão por sua causa? Ele não o desejara. eis tudo. não acha? Então. Inversamente. conhecendo tudo sobre o homem — ah. macaquear o amor. sabe por que crucificaram o outro. é impossível justificar que viva. aquele em quem neste momento talvez o senhor pense? Bem. e a inocência. Ele se realiza todos os dias. O certo é que o próprio censurado não pode continuar. não entremos em pormenores. meu caro. deve ter ouvido falar de um certo massacre dos inocentes. Gritou sua agonia. e não sei por que a escondem tão cuidadosamente. Mais valia terminar. eu lhe peço. Todos culpados. e eis por que o amo. sabendo o que ele sabia. Mas. falar mal do vizinho enquanto se tricota. Não espere pelo juízo Final. o que. andamos com o nariz sujo e nos assoamos mutuamente. É por isso que o crime encontra sempre advogados. é certo. havia cometido outros. morrer. Muito bem. não teria ocupado tanto espaço. E ele não era sobre-humano. mesmo quando nos aninhamos no desconforto. é que tremo um pouco com essa maldita umidade. eis o que é difícil. que começou a suprimir sua queixa. afinal. Continuar. que. agora. apenas às vezes. mas fique ainda. mas por breve tempo. tesouras! Note-se. eis o que é sobre-humano. "Por que me abandonaste!" era um grito subversivo. aliás. escarremo-nos. Tentamos. Ignoraria mesmo. Terminemos com isso de uma vez. Raquel chamava os filhos mortos por sua causa e ele estava vivo! Sabendo o que sabia. ela foi. Há sempre razões para matar um homem. Esses soldados sangrentos. quem pensaria que crime não é tanto fazer morrer. tenho certeza de que não conseguia esquecê-las. havia muitas razões para isso. enquanto seus pais o levavam para um lugar seguro. Houve um tempo em que eu ignorava a cada minuto como poderia chegar ao seguinte. Vou contar-lhe um grande segredo. todos castigados. causavam-lhe horror. em certos casos. Também a ordem do mundo é ambígua. creio. Mas. Primeiro. e pronto! Já para o desconforto! Basta ver quem escarra primeiro. meu amigo. Mas. continuar.religião antes de tudo como uma grande empresa de lavanderia. Afinal. torturar o semelhante. Sim. A verdadeira razão é que ele próprio sabia que não era completamente inocente. não é nada. em todo caso. simplesmente. aconteça o que acontecer. é preciso continuar. havia uma grande para esta horrível agonia.

deixando-os julgar e condenar. eu consegui! Eu sou o fim e o começo. os juízes. ele conhecia bem a questão. Pedro. do seu lado. naturalmente. Em nome do Senhor. Na solidão. Os profetas e os curandeiros multiplicam-se. e esse é o problema. estamos diante de minha porta. crucificados um a um. de fato. Muitos decidiram deixar de lado a generosidade para praticar a caridade. que não conseguem suportar julgamento algum. encostado nesta porta bolorenta. Poderíamos sê-lo pelo menos. uma vez que somos todos juízes. julgam em seu nome. Isto porque não devemos atacar apenas os cristãos. a única solução.. enfim . vou advogar. Nós também. Elias sem Messias. antes que a terra fique deserta. nem no porão. Mas.. Pedra. não acha que é realmente preciso tentar andar mais rápido do que eles? E aí tem início a grande confusão.cruz. refugiado num deserto de pedras. que o amam. os de Cristo e os do Anticristo. nesta cidade. eles o empoleiraram num Tribunal e o agridem. Senhor? Ele não pedia tanto. Afinal. Porque não se pode dizer que não há mais piedade. aqui os subterrâneos são inundados. No íntimo de seus corações. compreenda que tenho as minhas razões.” Não se podia levar mais longe a ironia. Oh. somos todos culpados uns perante os outros. somente para serem vistos por nós de mais longe. facilmente nos consideramos profetas. soltos ao acaso. todos cristos à nossa maneira vil. a injustiça. Sim. pululam os juízes. Naquela época. Não sei o que queres dizer. Ele dizia docemente à pecadora: "Eu também. O senhor teve oportunidade de notar que eu não poupo nada e. de brumas e de águas pútridas. que são. eles condenam. Pois eles não o conseguem suportar. como se pode esperar.. ele tinha dito!" Ele tinha dito. . o renega: "Não conheço este homem . cobrindo de imprecações homens sem lei. Simplesmente. somos forçados a nos envolver. partiu para sempre. E. ainda que para isso seja preciso espezinhar um pouco o que lá se encontra há tanto tempo. esta é a tua pena. Clamence. Ele queria que o amassem. é isso mesmo o que sou. sei que pensa o mesmo. mesmo entre os cristãos..» etc. neste tormento. Sobre a inocência morta. portanto. caro amigo. Era de se esperar. . nada mais. aliás. a seguir. eu não te condeno!". sobretudo julgam. profeta vazio para tempos medíocres. não receie! Aliás. os mesmos. Nós vivemos. Privados de seu freio natural. Ele havia previsto isso. sempre sem saber. os juízes de todas as raças. meu caro. Quem adere a uma lei não teme o julgamento que o recoloca em uma ordem na qual crê. não acha? Mas não. eles ainda triunfam! "Como vocês vêem. como sabe. a verdade. não tivesse encontrado a saída. com o perdão nos lábios e a sentença no coração. a injustiça que lhe fizeram e que me aperta o coração! É isso. É bem verdade que há pessoas. cheio de febre e de álcool. de dedo erguido para um céu baixo. Desculpe-me. vou parar aqui. Não. Felizmente. aliás. não. Os outros também estão comprometidos. A partir daí. sossegue. Então. Sabe em que se transformou. protesto com veemência. Realmente. Olhe. já não se absolve ninguém.. colocavam as catacumbas nos sótãos. apressam-se para chegar a uma lei certa ou a uma organização impecável. não absolvem ninguém. o que nada impede. Mas o mais alto dos tormentos humanos é ser julgado sem lei. trata-se do delírio geral e da perseguição. porém. servem-se à vontade. a poucos quarteirões daqui há um museu com o nome de Nosso Senhor no Sótão. se eu. não cessamos de falar nela. volto à minha vocação. ele exagerava! E faz um jogo de palavras: "Sobre esta pedra edificarei minha Igreja. hoje o Senhor deles não está mais no sótão. com a ajuda do cansaço. tinha senso de humor. uma das casas que abrigou Descartes? Em asilo de alienados. o covarde. Mas são muito poucas. devo deixá-lo. meu amigo. reconciliados no desconforto.

eu lhe direi amanhã em que consiste este belo ofício. Volta para Paris? Paris é longe. sabe o que é uma criatura solitária vagando pelas grandes cidades?.. fingindo apressar-se para chegar à mulher cansada. sim. e toque a campainha três vezes. pois. estamos. com pressa.. Lembro-me de seus crepúsculos. por favor. sou juiz-penitente. Venha à minha casa. Paris é bela..eu anuncio a lei. nesta mesma época. Sim.. O senhor parte depois de amanhã. eu sei! Vagam. Eles também vagam agora. então. Em suma. Eu vagava. o rio parece refluir em seu curso. à casa severa. . A noite desce. a cidade murmura surdamente. eu não a esqueci. Ah. meu amigo. pelas ruas. mais ou menos. seca e crepitante sobre os telhados azulados pela fumaça.

. embalsamados de pureza. que participasse da retirada. que sejam verdadeiras ou falsas se. Deixo à escolha a classificação que melhor me convém. Sente-se. e os alemães. que valoriza cada objeto. às vezes. nem mesmo objetos inúteis. Está observando esta sala. Voltei então a ver Paris.6 Sinto-me sem jeito ao recebê-lo de cama. em ambos os casos. como a luz. onde. não. graças ao senhor Rommel. tão duras. é um belo crepúsculo. o estritamente necessário. ver com mais clareza em quem mente do que em quem fala a verdade. eu creio. nestas camas holandesas. sabe. Talvez isso tivesse mudado muitas coisas? O exército francês não precisou de mim na frente de batalha. agora só gosto de confissões. não tendem todas ao mesmo fim. Então. Em certo sentido. cega. Nua. Já faz tanto tempo que aconteceu. não é de todo uma brincadeira. os que amam ao mesmo tempo a mentira e o segredo. sou um ourives. sossegue. disse — basta! Nada de livros. uma pessoa de meu conhecimento dividia os seres em três categorias: os que preferem não ter nada a esconder a serem obrigados a mentir. finalmente. Aliás. e os autores de confissões escrevem sobretudo para não se confessar. Antigamente. Olhe. afinal? As mentiras não conduzem finalmente ao caminho da verdade? E minhas histórias. é verdade. Malária. minha casa estava cheia de livros lidos pela metade.. que trato com genebra. é o momento de desconfiar. Não. não têm o mesmo sentido? Que importa. um pouco de febre. é verdade. Tem curiosidade de conhecer minhas aventuras pontificais? Só banalidades. Fui convocado. eu o lamento. apenas. entenda como quiser. morre-se já em uma mortalha. Enfim. sem móveis nem panelas. mas limpa. com lençóis imaculados. Acredite. Que importa. Eu nada tinha a ver. mas nunca estive na linha de frente. Confesso que tem razão. E também sem livros. Um Vermeer. deixei de ler há muito tempo. Foi na África. são representativas do que fui e do que sou? Pode-se. fui escolhido papa em um campo de concentração. vai-se maquilar o cadáver. verdadeiras ou falsas. Será que terei forças para lhe contar? Sim. . Aliás. A verdade. simples e polido como um caixão. então. ardia a guerra. por favor. É tão repugnante quanto essas pessoas que apenas beliscam um foie gras e mandam jogar fora o restante. Já tinha fugido à guerra da Europa. para nada dizer do que sabem. Quando pretendem confessar. A mentira. ao contrário. Estou habituado a esses acessos. Sei o que está pensando: é muito difícil distinguir o verdadeiro do falso no que conto. parece que a febre está baixando. Não é nada. os que preferem mentir a não ter nada a esconder. Pediu-me. que contraí no tempo em que era papa. e. Eu mesmo. Fui seduzido pela Resistência.

Grande. Nós. Sem hesitar. os olhos interessados. Mas. Ao chegar diante do cachorro. para lutar. a bem da verdade. mas não conseguia imitá-las. digamos que. para a África do Norte. de pêlo eriçado. a falta de água. durante dias e noites. ao ver que. vagava e farejava as canelas que passavam. hesitei. Sorri? Não tem razão. Cento e cinquenta anos atrás. que se tratava. que caminhava alegremente. agitando o traseiro com entusiasmo alguns metros à minha frente. depois de profundas angústias. e isso enchia-me de fúria. onde uma doce amiga me garantiu um trabalho. o animal seguiu em seu encalço. me arrastar para outro subterrâneo. e. à espera de uns brutamontes que viessem me desalojar. Parecia que me pediam para tecer uma tapeçaria em um abrigo. filhos da metade do século. nos campos franquistas. Hoje. Estava comigo um jovem francês. Gosto de cachorros com uma muito antiga e muito fiel ternura. visivelmente conquistado. que hesitou. que trabalhava com cinema. Pois bem. de uma medida de segurança. com a intenção de me informar sobre a Resistência. os carolas recebiam. caíra em profunda tristeza. afagou-lhe a cabeça. Gosto deles porque sempre perdoam. e eu me abstive. em seguida. Nesse momento. para primeiro desfazer minha tapeçaria e. Nem o céu da África. Chamei este. e aí me espancarem até a morte. nem a meu gosto pelos cimos arejados. Sobretudo creio que a ação subterrânea não se adaptava nem a meu temperamento. Havia passado da França para a Espanha. Do tipo Duguesclin. uma orelha caída. e com ele desapareceu. as moscas. Eu admirava os que se entregavam a este heroísmo das profundezas. Ela foi presa nesse dia pelos alemães. nesse simpático animal transformado em mascote de um regimento alemão. ao contrário. Se o cachorro tivesse seguido um civil francês. uma vez lá chegando. em um campo onde se sofria mais de sede e de penúria que de maus-tratos. Fiz minha descoberta nos corredores do metrô. mais ou menos quando descobri que era patriota. O empreendimento me parecia um tanto louco e. Vejo pela sua expressão que estou passando muito por alto. depois de ter julgado o senhor à luz de seu verdadeiro valor. Não sei o que foi feito dela. com a vaga intenção de chegar a Londres. nem os lazeres do campo o haviam arrancado dessa tristeza. se assim posso me expressar. e só conheci sua verdadeira atividade nos dias que se seguiram ao desembarque dos Aliados na Argélia. Mas suas reflexões. então. temos o lirismo celular. nós nos comovíamos com os lagos e as florestas. convincente. sobretudo. Deverá acrescentar apenas alguns pormenores: o calor. sobre esses pormenores que fazem sentido. Mas. Sim! É um conto de fadas. na África. não temos necessidade de desenhos para imaginar essa espécie de lugares. assim. Nem vou descrevê-lo. a seu ver. Quanto a mim. Passei. que tinha fé. haviam feito com que saísse um pouco de seu . eu passe rapidamente por esses detalhes para que os perceba melhor. O certo é que cheguei finalmente à Tunísia. Pelo despeito e pelo tipo de raiva que senti contra o soldado alemão. Fui internado perto de Trípoli. O teste era. nem sequer teria pensado nisso.da qual se começava a falar. O general católico o havia internado. os partidos em oposição me pareciam ter igualmente razão. sabe. a situação não era clara. Essa amiga era uma criatura muito inteligente. Um cachorro se perdera no labirinto. Portanto. Seguia-a até Túnis. confio no senhor. um jovem soldado alemão. e eu também. me ultrapassou. a areia. e tendo sido informado. o sol a pino. sem tê-la desejado. tive de reconhecer que minha reação era patriótica. sem dúvida. romântico. Dirigi-me ao setor sul. na estação de Châtelet. e também o sol. 93a bênção de Roma. não me causaram qualquer mal e compreendi. onde havia ido parar em seguida. Pensava. com o mesmo entusiasmo.

é a única maneira de nos colocarmos acima dele. como eu fizera. O grande problema. com seus defeitos e suas virtudes. estou cansado. para corrigir um pouco meus discursos de ontem. e fui o único a fazê-lo. perguntou. levantei o dedo. primeiro. eu era alguma coisa entre chefe de grupo e secretário de célula. pelo menos é o que me parece. estávamos como peixes fora d'água. acredite. depois. e depois havia o sol. depois. A verdade é que exerci meu pontificado durante várias semanas. repetia. que já nem sei mais se vivi ou sonhei. porque o amava. Todas as noites. dentre nós".. era a distribuição de água. Segundo o estado de meus colegas. eu beneficiava este ou aquele. E. ele renovou suas invectivas contra aquele que chamava de o Romano. com sua barba de vários dias. já que então eu tinha outro nome. por favor. ou os trabalhos que tinham a fazer. e cada um favorecia seus colegas. a batalha pela água.. as mãos tamborilavam no teclado visível das costelas. se estivesse lá. disse que era preciso escolher um. melhor. mais do que daquele que." Não. e jurar-lhe obediência. Tais distinções conduzem longe. Mesmo entre nós. em vez de rezar sentado sobre um trono e. como se fosse um jogo. Seu peito nu estava coberto de suor. não era Duguesclin. Ei! Fechou bem a porta? Mesmo? Verifique. Desculpe. amava-o. Digamos que completei o circuito no dia em que bebi a água de um colega agonizante. Fui. dentro de uma tenda fervilhante como chumbo derretido. mesmo os que não tinham fé. Achei. e propôs minha eleição. Minha grande ideia é que é preciso perdoar o papa. Fixava-nos com seu olhar perdido. e não sinto mais vontade de pensar naquele tempo. sim. por amor a ele. um homem completo. decididamente. ele já havia morrido. De qualquer maneira. pressupunha também a maior virtude. que meu pequeno profeta tinha razão. Em que consistia? Meu Deus. eu administrava seu sofrimento. eu teria resistido mais tempo. "Sim". cada vez com maior seriedade. Primeiro. "tem mais fraquezas?" Por brincadeira. declarou que candidatar-se. os outros. no campo. Eu próprio tenho a impressão de que não ria espontaneamente. E. tenho o complexo do trinco. o que já era uma pequena concessão. . ele não disse isso. Duguesclin sofria. vou contar-lhe a grande ideia que me surgiu ao falar de tudo isso. embora com certa seriedade. com a única condição de aceitar manter viva. não. de toda maneira. isso é verdade. balançando a cabeça. Mas bebi a água. acalmouse de repente e. Anunciava-nos que era preciso um novo papa que vivesse entre os infelizes. políticos e religiosos. que nascem os impérios e as igrejas. A verdade é que Duguesclin nos havia impressionado. meu caro. já lhe disse. com uma voz morna. ele precisa disso mais do que ninguém. Um dia em que. persuadindo-me de que os outros 95tinham necessidade de mim. e que eu devia me preservar para eles. E. ele se privava demais. dentre nós. os trabalhos extenuantes. assim. tenho de me levantar para verificar. a comunidade de nossos sofrimentos. nossos irmãos. creio eu. No momento de dormir. Jean-Baptiste serve. Os outros concordaram. Dei-me conta. Olhava-nos com um ar perdido. depois de lhe ter feito tantos discursos menosprezando os juízes. "o mais depressa possível!" A seguir. então. em suma. "Bem. de que ser papa não era tão fácil como se julgava. sob o sol da morte. Não pense que esta preocupação com o trinco seja em mim uma reação de proprietário atemorizado. É assim. Pelo menos. não consegui manter uma igualdade perfeita. levado a favorecer os meus. quanto mais depressa. a dezena de homens que éramos ofegava em meio às moscas. Haviam-se formado outros grupos. acostumaram-se a me obedecer. Mas.estado normal. ia morrer. Não se tem certeza de nada. Antigamente. nunca consigo saber se fechei o trinco. e lembrei-me disso ainda ontem. "Quem. nele e nos outros. Não.

com minha segurança. também. Primeiro. Não me preocupo. do qual sou o rei. nem inocência. porque. Um assíduo frequentador do Mexico-City. mas do dono do Mexico-City. assim. que o senhor viu de relance na outra noite. de exclamar com convicção: "A propriedade. na esperança de assim corrigir a injustiça pelo acaso. aliás. acima do balcão. queira abrir esse armário. não me apegava ao que possuía. uma possibilidade de ser enviado para a prisão. e é tempo. ninguém foi lesado por minha culpa.eu não fechava meu apartamento à chave. Faço questão. Juízes falsos são expostos à admiração do mundo e eu sou o único a conhecer os verdadeiros. de lhe dizer. tinha um pouco de vergonha de possuir. nem meu carro. Mesmo na cama. E não é que acontecia. e. aquela no armário. Posso exercer. Depois. é uma violência!" Não tendo um coração bastante grande para repartir minhas riquezas com um pobre que bem o merecesse. tenho o campo livre para trabalhar segundo minhas convicções. porque tenho. na catedral de Saint-Bavon. em meus discursos mundanos. que me endireite para respirar melhor. Não resguardava meu dinheiro. Representava juízes a cavalo. A propósito. Hoje em dia. ideia sedutora. esta na cruz. Para dizer a verdade. ninguém saberia distinguir a cópia do original. nossos devotos juízes pontificaram no Mexico-City. porque. Não o reconhece? São Os Juízes íntegros. de um dos painéis do famoso retábulo de Van Eyck. a meu pedido. dentre os que desfilam diante de O Cordeiro místico. Pois bem. Uma vez a justiça definitivamente separada da inocência. enfim. se dar conta de que este quadro acabou no meu quarto. que o merece tanto quanto o bispo de Gand. deixou-o aqui. Oh! Como estou cansado! Tranque os meus juízes à chave. nada possuo. Permita-me. que convém não contrariar. Enfim. de certo modo. por favor. Desde então. porque o original nunca foi encontrado. o hábil gatuno que roubou o painel era um instrumento da justiça desconhecida. Não está espantado? Sua cultura teria lacunas. . senhores. Essa profissão de juiz-penitente é a que exerço neste momento. funciono. e não há cordeiro. porque. em Gand. em consequência. dessa maneira. em 1934. Obrigado. aqui está ele. de conservar bem fechada a porta do pequeno universo. mesmo com febre. aconselhei nosso amigo a pendurá-lo num bom lugar e por muito tempo. Esse painel se chamava Os Juízes íntegros. não tenho nada a ver com isso. em uma noite de bebedeira. vendeu-o por uma garrafa ao gorila. eu domino. mas comigo mesmo e com minha presença de espírito. enfim. dessa maneira. com a consciência tranquila. porque esses juízes vão ao encontro do Cordeiro. e. já que o senhor vai partir. primeiro. Substituíram-no por uma cópia excelente. Em segundo lugar. Em quinto lugar. acima dos bêbados e dos proxenetas. no entanto. eu as deixava à disposição de ladrões eventuais. O Cordeiro místico. Por que não restituí o painel? Ah! Ah! Meu amigo tem reflexos de polícia! Pois bem. enquanto o procuravam no mundo inteiro. Este quadro. o senhor viu que vazio eles deixaram. lembra-se do roubo. Lá. a difícil profissão de juiz-penitente em que me estabeleci depois de tantos dissabores e contradições. mas ficou com medo quando lhe expliquei o assunto. porque não é meu. o gorila. meu escritório se situa no Mexico-City. em que consiste. sim. Relutou um pouco em fazê-lo. olhe para ele. Em quarto lugar. vou responder-lhe como o faria ao juiz de instrução criminal se por acaso alguém pudesse. Geralmente. que vinham adorar o animal sagrado. então? Se lia jornais. o papa e o juiz. esses estimados magistrados são minha única companhia. em consignação. Em terceiro lugar. estamos dentro da ordem. Não. em consequência. Mas as grandes vocações se projetam para além do lugar de trabalho. Primeiro. assim.

Murmurava-a na cama. eu não sabia o que estava fazendo. em sua opinião. não há solução definitiva. ou não amamos ninguém. para diluí-la desde já. um romancista ateu que rezava todas as noites. sim. Não pensa realmente que. portanto. Sem ela. não se distribui absolvição. simplesmente. há uma sentença. Secamente. só tinha liberdade na boca. eis por que a liberdade é pesada demais. Ah! Meu caro. Não sabia que a liberdade não é uma recompensa. guardam para si seus sentimentos. aliás sem má intenção. escreveriam e saudariam o nome de . para quem está só.Esse ofício. em suma. É preciso. escolher um senhor. é uma corrida de fundo. um sátiro. mastigava-a durante todo o dia. nossos moralistas. "são todos assim': Segundo ele. Não. Agora. amando o próximo e tudo. eu lhe tenha feito discursos tão longos por mero prazer. os braços ao céu: "Não está me contando nenhuma novidade". nada de amigos que ergam sua taça. um partidário esclarecido da servidão. Eu a deixava escorregar. se bem que não haja. defendê-la duas ou três vezes. eis meu princípio. assim. perante os juízes." Assim mesmo. sem Deus e sem senhor. começar a estender a condenação a todos. tão sérios. bem extenuante. Comigo não se abençoa. oitenta por cento dos nossos escritores. de evitar pessoalmente o julgamento. meu caro. respira-se a todo momento. pela ideia de fazer calar os risos. o peso dos dias é terrível. Isso nada impedia: o que ele descarregava sobre Deus em seus livros! Que pancadaria. Sozinhos numa sala sombria. não se exerce. e depois: "Dá tanto. nunca. a morrer por ela. levava ao mundo um hálito deliciosamente refrescado pela liberdade. não tem mais sentido. um presente. de saída. em outros tempos. eu a passava em minhas torradas. Tem em mim. Em filosofia como em política. aparentemente. do estado de cristão o fato de não pregarem nas igrejas. Nada de champanhe.sem discriminação. eu me excito e perco a noção de dimensão. portanto. Que é que os impede. só os separa. aliás. Afinal. não. meu discurso é orientado. eu sou. Oh!. o erro compreensível. a bem dizer. O senhor é um pervertido. Olhe. já que Deus não está mais na moda. Logo compreendi isso. pois. olhando-nos com ternura. Faz-se a conta. um artista etc.. sem chegar. pelo contrário. não merece que nos arrisquemos a chocar alguém. talvez. Nada de desculpas. Esta palavra. nem uma condecoração que se comemora com champanhe. aconteceu de eu fazer da liberdade um uso mais desinteressado e até mesmo. ao ouvido adormecido de minhas companheiras. O grande empecilho a evitar não será o de sermos nós os primeiros a nos condenar? É preciso. Eu atirava esta palavra-mestra a quem quer que me contradissesse. sobretudo quando se sofre de febre. Nego a boa intenção. ou nos sentimos mal. Oh. é bem verdade. mas correndo alguns riscos. o respeito humano. é um encargo. o passo em falso. avalie minha ingenuidade. evidentemente. a favor de qualquer teoria que recuse a inocência ao homem. No final de toda liberdade. durante cinco dias. aliás. já falei demais para nada dizer. um mitômano. suspirava esse apóstolo. sozinhos no banco dos réus. saída alguma. a circunstância atenuante. Tampouco. Conheci. se pudessem passar sem assinar. No café-da-manhã. e a favor de toda prática que o trate como culpado. eu a tinha colocado a serviço dos meus desejos e do meu poder. bem solitária. de se converterem? O respeito. É orientado.. Não querem fazer escândalo. uma caixa de chocolates de dar água na boca. e era com sua ajuda que eu me descartava delas. É preciso me perdoar essas imprudências. o respeito pelos homens. como diria já nem sei quem! Um militante livre-pensador com quem me abri a esse respeito ergueu. para ninguém. Antigamente. e sozinhos para decidir perante nós mesmos ou perante o julgamento dos outros. aliás. um pederasta.

Deus. Sem contar. E como eu lhe digo. Tive. na verdade! Que há de espantoso. na moral. eis o que eles querem. nas pontes de Paris. E eu estou de acordo com isso. nunca. Mas. então. deixar de julgar. à falta de noivado ou do amor incessante. E. Encontrei esse meio. nem suas sentenças. que o bem e o mal sejam designados de maneira arbitrária. de encontrar outro meio de estender o julgamento a todo mundo. que não sou sentimental. É uma época estranha. Eu. de prazer e de exaltação. perseguido. Os outros também têm a sua conta. em um abraço sem-fim. mesmo provisória. a morte. natural. todos o são. que estais provisoriamente aqui. Mas. meu caro. ateu enquanto irrepreensível marido. Até lá. Abra um pouco a janela. desforram-se. o sim. hipócritas. decidi às escondidas que era preciso passá-la sem demora a quem quer que fosse. tenho de me contentar com o presente e buscar uma solução. e ainda por cima tão comoventes! Acredite-me. e além de tudo sem nada de cristão. Não será igualmente bom viver à semelhança da sociedade e para isso não será necessário que a sociedade se assemelhe a mim? A ameaça. eles não querem liberdade. pedem para ser repreendidos. a música. Viva. todas as vezes que me é possível. ao passo que a servidão é coletiva. A morte é solitária. mas de joelhos e de cabeça baixa. por mais siciliano e javanês que seja. Pensam nela. Será um dos benefícios do futuro. no arrependimento. Não muito. e não saúdam absolutamente nada. eu também compreendi que tinha medo da liberdade. é bem verdade. já não há regra! Somos livres. enfim. mesmo quando ateiam fogo no céu. depois de ter saudado solenemente a liberdade. é preciso. Desprezado.. e um de meus amigos. o noivado. Como não podem.. gozar o que sou. resta o casamento. a felicidade de ser e. não é assim. o senhor. que cada ato seja comandado. porque também . será a democracia. porque amam a si próprios. depois disso. na opinião dele. ser. O essencial é que tudo se torne simples. portanto evidente. a desonra. inventam regras terríveis. portanto. prego na minha igreja de Mexico-City. brutal. sobretudo. dia e noite. o abandono. enfim. forçado. nossos chefes deliciosamente severos." Enfim. está fazendo um calor insuportável. se virar. Mas não estou louco. correm para fazer fogueiras em substituição às igrejas. quem sabe. então. o homem direito. pois. porque eles também são sentimentais. caro amigo.. posso então dar a plena medida de mim mesmo. e ao mesmo tempo que nós. precisamente. pois. o essencial é não mais ser livre e obedecer. já não há pai. Quer sejam ateus ou devotos. quer saber com que sonhei? Com um amor total. Quando formos todos culpados. porque se detestam. como para a criança. do mesmo modo. no fato de os espíritos se perturbarem. atores. com a força e o chicote. Mas só crêem no pecado. qualquer que ele seja. moscovitas ou bostonianos. se converter ao tornar-se adúltero? Ah! Os sonsos. para torná-lo mais leve a meus próprios ombros. e como. a polícia são os sacramentos dessa semelhança. Todos reunidos. "Pai nosso. que é preciso nos vingarmos de ter de morrer sozinhos. como vê. chegando até a apresentá-la como a verdadeira liberdade. para substituir a lei do céu. na graça. a moça em flor. têm o satanismo virtuoso. ó condutores cruéis e bem-amados. eis tudo. por exemplo. eu me dou conta muito bem de que a escravidão não é para já. Em suma. Eis por que. são todos cristãos. Nossos guias. A graça. se bem que tenha amizade pelo primeiro que me apareça.. de pai para filho. durante cinco anos seguidos e. eis o que importa. a quem for mais malandro do que nós. Mas eles assinam. Ai de mim! E então. convido a boa gente a submeter-se e a solicitar humildemente os confortos da servidão. são uns Savonarolas. eu lhe peço. de corpo e alma.

os acentos mais refinados." O requisitório acabou.estou com frio. e do burguês que se extravia. é certo. como Copérnico. as digressões também. ao passo que as pessoas de sociedade acabam sempre por cair uma vez. Tenho. Mas. Já que todo juiz acaba um dia por ser penitente. e diante das quais nos dizemos: "Olhe. enquanto esperamos a vinda dos senhores e de seus bastões. posso dizer-lhes as suas verdades. Uma máscara. Coberto de cinzas. e amaldiçoar a humanidade? Muito perigoso isso! Um dia. e visitada por homens vindos do mundo inteiro. não me acuso grosseiramente. particularmente atravancada. para poder acabar como juiz. mas com o olhar penetrante. Não é difícil. para ser ainda mais claro. pelo menos. também. viajei. deixei Paris. monto um retrato que é o de todos e o de ninguém. disso tenho certeza. Sou como eles. meu discurso ao ouvinte. navego com jeito. Misturo o que me diz respeito e o que se refere aos outros. Montei meu escritório em um bar do bairro dos marinheiros. adapto. particularmente. minha útil profissão. do burguês. o riso explode sem dar aviso. cuidado. Há muitos no mundo. uma superioridade. recapitulando minhas vergonhas. Primeiramente. enfim. Já que não podíamos condenar os outros sem imediatamente nos julgarmos. Quanto mais me acuso. o que sou. no Mexico-City." Então. arrancando lentamente os cabelos. ao mesmo tempo. mas o acaso. do "eu" ao "nós". passo. a ironia e. E então. bastante semelhante às do carnaval. procurei estabelecer-me sob outro nome em algum lugar onde não me faltasse trabalho. as experiências que sofremos juntos. como o senhor já viu por experiência própria. De que maneira empurrar todo mundo para um banho comum. Esta consiste. o bom-tom. em meu discurso. em praticar a confissão pública com a maior frequência possível. o senhor do dia. ao mesmo tempo fiéis e simplificadas. pois." Quando o retrato está terminado. batendo com força no peito. tal como se manifesta em mim e nos outros. seria preciso enveredar em sentido inverso e exercer o ofício de penitente. Fico à espreita. O senhor vê a vantagem. Com isso. o retrato que eu apresento a meus contemporâneos torna-se um espelho. o que me dá o direito de falar. O julgamento que fazemos dos outros acaba por nos atingir em plena face. Minha ideia é. vou dizer-lhe como trabalho. seria preciso nos humilharmos para termos o direito de julgar os outros. em suma. a comodidade. como nesta noite. enfim. Mas. a sorte está lançada. como muitos de meus ilustres contemporâneos. multiplico as sutilezas. ao mesmo tempo. insensivelmente. Pego os traços comuns. ai de mim. provoco as pessoas no sentido de julgarem a si . a de sabê-lo. a necessidade de certa mortificação fizeram-me escolher uma capital de água e de bruma. como virtuose. deveríamos. Exerço. aquele. simples e fecunda. a fim de termos sozinhos o direito de secar ao sol? Iria eu subir ao púlpito. deixando algumas marcas. mais tenho o direito de julgar os outros. sem perder de vista o efeito que produzo. Acuso-me de alto a baixo. Melhor. e dizendo: "Eu era o último dos últimos. em primeiro lugar. ou uma noite. é com ele que atinjo meu pleno rendimento. eis a brilhante ideia. inverter o raciocínio para triunfar. Não. Descobri que. no entanto. mostro-o. há algum tempo. como é possível observar. cheio de desolação: "Aqui está. Quando chego ao "eis o que nós somos". agora já tenho memória. A clientela dos portos é diversificada. Dele extraio. Mas. Está me acompanhando? Bom. estamos no mesmo barco. espremida entre canais. conduzo este último a pedir mais alto. fechei meu escritório de advocacia. perguntará? Pois bem. eu já o vi antes. o rosto arado pelas unhas. as fraquezas que partilhamos. Os pobres não vão para os bairros de luxo. nos lugares de má fama. mantenho-me ante a humanidade inteira.

Sobre o seu rosto desvairado. pelo contrário. eu o vi desde o primeiro relance. quero respirar. ou melhor. durante o tempo que for preciso. ao tédio. em vez de ficar desolado com ela. e sem rir. vejo subir até mim. não é verdade? Mostrar-lhe-ei até os pormenores de minha técnica. não faltam ocasiões para nos espantarmos e nos escandalizarmos a nós mesmos. criaturas e criação. saindo das brumas e da água. mas para sempre. Desde que encontrei minha solução. Confesse. que me adoram! Sim. Mas chegará lá. no alto do céu holandês. compreendo sem perdoar e. seus cumprimentos no Mexico-City. de vez em quando. enfim. Aguardarei. Nessas noites. sua confissão com um grande sentimento de fraternidade. o senhor não é apenas inteligente. com a ajuda do álcool. Basta explicar-lhes o método a fundo. Com os inteligentes. leio a tristeza da condição comum. Só que a confissão de minhas culpas permite-me recomeçar de maneira mais leve e gozar duplamente. sim. já que encontrei a felicidade que me convém? Aceitei a duplicidade. pois sinto pelo senhor uma espécie de afeição. pode ficar certo. Não consigo deixar de fazê-lo. eles refletem. Porque o senhor vai voltar.próprias. raramente. o senhor é um cliente difícil. Mas. em seguida. Não o esquecem. aliás. no qual sou o único a escalar e de onde posso julgar todo mundo. Ah. estou sobre a montanha. e o desespero de não poder escapar dela. pois a . Eu pontifico entre os meus anjos vis. eu me agito. miseráveis criaturas e. Virá. Encontrei novamente um cimo. meu caro. E por que haveria eu de mudar. Ver-me-á revelar-lhe. agora. um encantador arrependimento. tem um ar vivido. nessas manhãs. no entanto. Permito-me tudo. que se sente hoje menos contente consigo mesmo do que há cinco dias. Que embriaguez sentirmonos Deus-pai e distribuir atestados definitivos de má conduta e maus costumes. a planície estende-se sob os meus olhos. disso estou certo! Encontrar-me-á na mesma. e eis-me restabelecido. eles se den unciam. Experimente. Não ria! Sim. e nela achei o conforto que busquei durante toda a minha vida. como poderia ficar placidamente deitado? Preciso estar mais alto que o senhor. ah. meu caro. respiro livremente. a própria indignidade. enfim. sinto. A maior parte dos outros é mais sentimental que inteligente. rapidamente. pois. e até à febre que. dessa vez. Elevam-se lentamente. que são infames. a multidão do juízo Final. nós os desorientamos imediatamente. No fundo. durante noites inteiras. já vejo chegar o primeiro de todos. nem privar-me desses momentos em que um deles desaba. duvido. mesmo que seja preciso proclamar. Impero. meus pensamentos me soerguem. é inevitável. e bate no peito. meio oculto por uma das mãos. continuo a amar-me e a me servir dos outros. com deleite. Mas tire este cobertor. A partir desta noite. ouço um riso longínquo e. esmago todas as coisas. O senhor. sobretudo. Um dia ou outro. sob o peso de minha própria enfermidade. primeiro minha natureza e. o que me consola igualmente. quando a noite é verdadeiramente bela. em altos brados. ao orgulho. Então eu cresço. abandono-me a tudo. ao ressentimento. de novo. por pouco que nos debrucemos sobre as nossas vidas. Esperarei. E eu lamento sem absolver. nós somos estranhas. que me escreva ou que volte. O essencial é poder permitir-se tudo. mais uma vez. Ouvirei. um pouco por confusão. é preciso tempo. Às vezes. Não mudei de vida. sinto subir neste momento. vou recomeçar. um pouco por brincadeira. Nela me instalei. eu cresço. às mulheres. errei ao dizer-lhe que o essencial era evitar o julgamento.

às vezes. e eu não teria mais medo de morrer. Veja os enormes flocos que se desfazem contra as vidraças. No Damrak. fugidia. Perdemo-nos. com a boca amarga. dizia ele. Olhe. preciso sair. a fim de irem para um trabalho sem alegria. nem em meus delírios. no terraço de um café: "Ah. uma vez pelo menos. e o senhor. é claro. de palavras más. o senhor ergueria. os canais de jade sombrio debaixo das pequenas pontes cobertas de neve. seria um bom começo. portanto! Vamos. mesmo assim. arrancam-se penosamente da cama. eu teria terminado. Então. ébrio. proíbo-o de não acreditar que sou feliz. Seria preciso já não sermos ninguém. as camadas de penas adelgaçam-se. Não acredita? Eu também não. Tudo estaria consumado. sol. Bom. perdemos a luz. no que se refere a este roubo. sou feliz. não temos escolha. No céu lívido. uma claridade rósea anuncia." Sim. as queridas. com certeza. Olhe. palpitam em todas as janelas. por mim. o primeiro bonde faz tinir sua campainha no ar úmido e toca a alvorada da vida na extremidade desta Europa. não é a ideal. desculpe. vou saber se uma das finalidades de minha apaixonante confissão foi atingida. estou tranquilo. Espero ainda. Eu sou como aquele velho mendigo que não queria largar minha mão. eu já suspeitava. antes da lama de amanhã. . agora que o senhor vai me falar de si próprio. não choro. não é? Que fazer para ser outra pessoa? Impossível. ao longo dos canais. tenho de sair! Amsterdã adormecida na noite branca. portanto. bebendo a luz de absinto que se eleva. eu saio. Como? Ah. as ruas desertas. não se preocupe! Além disso. Quanto ao restante. Mas. São dirigidos. quando não amamos nossa vida. meus súditos. Acima do povo reunido. parto. Mas como? Não me confunda muito. sirvo de receptador deste quadro e mostro-o a quem quiser vê-lo. enfim. talvez se ocupassem do resto. no mesmo momento.queda produz-se ao romper da aurora. não confie muito em meus enternecimentos. juventude cuja lembrança desespera! Torno a me deitar. por exemplo. será a pureza. as riquezas e os sofrimentos serão repartidos. a partir de hoje. duvidamos da evidência. ninguém me pode prender. então. ninguém saberia que fim levei. meus passos abafados. não acha? Mas. praias e as ilhas sob os alísios. que meu interlocutor seja da polícia e me prenda pelo roubo dos juízes íntegros. A inspiração toda. Que invasão! Esperemos que tragam a boa-nova. estaria salvo. confesse que ficaria atônito se uma carruagem descesse do céu para me levar. O senhor me prenderia. a santa inocência daquele que perdoa a si mesmo. seria simples demais. sou feliz. ou se a neve de repente pegasse fogo. deitar-se-á todas as noites no chão. cobrem as águas e os telhados de uma espessa camada de penas. mas perde-se a luz. estou lhe dizendo. para que eles nela se reconhecessem e para que eu de novo os dominasse. centenas de milhões de homens. finalmente. meu caro senhor”. um novo dia de minha criação. por exemplo. mesmo quando descobrimos o segredo de uma bela vida. "não é que se seja mau. Decidem-se. Minha solução. e não apenas os eleitos. Mas. minha carreira de falso profeta que clama no deserto e se recusa a sair de lá. decapitar-me-iam. esquecermo-nos por alguém. bom. certamente. as pombas sobem um pouco. São as pombas. Receio ter-me exaltado. Todo mundo será salvo. onde. ele cai na alçada da lei e eu arranjei tudo para me tornar cúmplice. numa marcha impetuosa. Mas. quando sabemos que é preciso mudá-la. um dia. com efeito. contudo. as manhãs. a descer. planando em pensamento por cima de todo este continente que me é subordinado sem saber. Em seguida. de modo exemplar. minha cabeça ainda fresca. o senhor não é da polícia. no nível dos telhados. que morro de felicidade! Oh. a neve está caindo! Oh.

não pararam de ressoar em minhas noites e que eu direi. caro colega. será sempre tarde demais. Não somos todos semelhantes. pela segunda vez. o que lhe aconteceu uma noite nos cais do Sena e como conseguiu nunca mais arriscar a vida. bem. atire-se de novo na água. para que eu tenha. O senhor exerce em Paris a bela profissão de advogado! Eu bem sabia que éramos da mesma raça. pela sua boca: "O jovem. há anos. que imprudência! Imagine. embora conheçamos de antemão as respostas? Conte-me. então. Brr. enfim. portanto. sempre confrontados pelas mesmas perguntas. que nos levem ao pé da letra? Seria preciso cumprir. Essa estranha afeição que eu sentia pelo senhor fazia sentido... a oportunidade de nos salvar a ambos!" Pela segunda vez . falando sem cessar e para ninguém. Felizmente! FIM . Pronuncie o senhor mesmo as palavras que. agora. eu lhe peço.! A água está tão fria! Mas tranquilizemo-nos! É tarde demais.veja bem.

pdf .ePub 2014 ..