10/09/2016 23:48 por Antonio Machado

“Fora Temer” é recado para pôr medo nos políticos e na Justiça sobre as adversidades
de Lula
Grupo palaciano acha que a volta do crescimento aquietará as ruas, e o estilo cordato, somado à culpa no cartório que o PMDB partilha com o PT,
impele Temer ao silêncio

Decifrando a rua
Sem a insegurança do interinato a lhe tolher a ação e a cada dia que passa sem a sombra de Dilma Rousseff a lhe assombrar, mas com o seu
terrível legado de inaptidão gerencial e ruína econômica a lhe cobrar providências, Michel Temer está agora por sua conta e risco para tentar fechar
sua longa carreira política com louvor.
O desafio é monumental, e não só para ele, já que não poderia ser pior a situação das contas públicas. Os partidos que lhe apoiam no Congresso,
em especial o seu PMDB, têm pouca prática de governar. E todos só estiveram com o PT como parceiros alugados nos governos de Lula e Dilma,
sem nunca participar diretamente das decisões.
As bancadas de deputados e senadores acostumaram-se, em boa parte, a partilhar o lado pecuniário do poder, deixando o mérito das ações ao PT.
Agora, não há proposta populista nem repasto a dividir, só a ingrata missão de contar à sociedade que a festa acabou. Sobraram cerveja quente,
copos no chão, bebuns caídos, e a conta para pagar.
Curioso é que, exceto pela expectativa irreal de gente do mercado financeiro, ninguém achava que seria fácil. Por isso causa espécie a surpresa de
Temer e de seu entourage com os protestos nas ruas.
Dilma se foi e, por mais que se esforce e o PT lhe estenda a mão, dificilmente será a pessoa que catalisará a esquerda e reformará o seu partido.
Mas Lula continua na área, tanto por que não há outro com sua estatura no PT, como é só o que lhe resta – agitar as ruas por meio de grupos
como dos sem terra, sem teto e a versão jovem de tais movimentos, o Levante Popular da Juventude, de modo a se fazer ouvir pelo governo atual,
pela nova base governista no Congresso e, sobretudo, pelos juízes, procuradores e delegados em seu encalço.
O Fora Temer (tal como o Fora FHC em 1999) é menos contra ele e o seu governo. Trata-se do método petista de tirar sua militância da apatia e
responder a desafios pontuais. Em 1999, a crise econômica (que também foi negada na reeleição de FHC, como Dilma fez em 2014) foi a forma de
repor Lula, que vinha da terceira derrota seguida, na disputa eleitoral de 2002. Hoje, as razões são menos eleitorais.
A agitação, sobretudo em São Paulo, é o veiculo para “purificar” o petismo, vergado pela mácula da corrupção, e pôr medo em Temer, na base
aliada e na Justiça sobre um eventual cenário adverso a Lula.

Com culpa no cartório
A avaliação do clima social pelos conselheiros de Temer concorda com a percepção de que a recessão, o desemprego, a inflação, juros de provocar
indigestão, a escassez do crédito, tudo isso contribui para irritar e alarmar a sociedade. Mas a conclusão soa pueril.
O grupo palaciano acha que a volta do crescimento vai aquietar os protestos nas ruas, o que sugere reação passiva ao que encontraram do legado
de Dilma. Ela pode não ter sido a responsável única, mas foi o último elo de uma cadeia de irresponsabilidade fiscal que vem desde a Constituição,
em 1988. O estilo cordato, somado à culpa no cartório que o PMDB partilha com o PT, impele Temer ao silêncio.
Isso não vai funcionar, salvo se, como Lula anseia, o governo saia a campo e se empenhe, entre Congresso e Judiciário, pela aprovação de projetos
de lei, além de sentenças, que aliviem os réus da Lava Jato (como Lula e empresários delatados), reduzindo o raio de ação do Ministério Público - a
instância de apresentação das denúncias.

Toma que o filho é teu
Este governo não tem a menor condição política de mudar as forças anticorrupção, como não teve a gestão anterior. Mas há o risco de o PT colar
em seus ex-sócios à falta de reação a pecha de corruptos.
E, se demorar a reverter o descontrole fiscal, sobrará para Temer a culpa pela desordem econômica e pelo flagelo social. Não há outra prioridade
que não seja um programa nos moldes da PEC do Teto para desmontar o viés de o gasto público crescer ao ritmo de 6% ao ano desde 1997 (início
do estresse da penúltima grande crise cambial).
Também não haverá crescimento econômico robusto enquanto não for estancado o déficit da previdência, que tende a se avolumar devido ao
envelhecimento da população. Sem mudanças, tal sistema vai estar falido em dez anos, segundo a Fazenda, pois exigirá um aumento da carga
tributária dos atuais 34% do PIB para 44%, independentemente de tudo mais (saúde, educação, infraestrutura etc.). Não pode ser.

Porta-vozes da confusão
“Ou faz (ajuste fiscal e da previdência) ou vamos quebrar enquanto país, é tão simples quanto isso”, advertiu, num encontro fechado, o ministro
Henrique Meirelles. Mas também tem de revelar à sociedade.
Só que a competência política nos bastidores dos chefes do governo não tem correspondência na comunicação. Muita gente fala demais sem que
haja convicção sobre o que vaza, tipo a reforma trabalhista. O ministro do Trabalho fala a sindicalistas sobre a ideia de elevar a carga de oito horas
diárias para 12 e Temer o leva a se desmentir.
Temer anuncia o projeto de reforma da previdência para este mês e o combinado com a Câmara previa para outubro o início dos debates, com o
Congresso votando no próximo semestre. Assim fica difícil.

Só coisa amarga não dá
O novo governo começou com o pé esquerdo ao assentir com uma penca de projetos na Câmara aumentando os salários da elite das carreiras do
funcionalismo. Devia ter empurrado para frente, equilibrando uma situação desfavorável ao trabalhador do setor privado – ganha menos que em
todas as funções equivalentes no governo e não é estável.
Agora lhe resta barrar o que puder no Senado, sobretudo o reajuste de salários de ministros do STF, que acionam a famigerada isonomia,
impactando o caixa da União e governos regionais. Mas também tem de vir a público revelar o que encontrou sem temer represálias nem dos
adversários nem das corporações. Isso é básico para seu recomeço.
Ninguém toma injeção sorrindo, mas não foge dela quando precisa. É esse o caso do ajuste fiscal. Deve vir acompanhado de um plano para
completar o tratamento, já que a economia carece de muito mais que coisa amarga. Ninguém se cura de doença fiscal só tomando injeção.
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