UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL

“A PSIQUIATRIZAÇÃO DA TRANSEXUALIDADE: ANÁLISE
DOS EFEITOS DO DIAGNÓSTICO DE TRANSTORNO DE
IDENTIDADE DE GÊNERO NAS PRÁTICAS DE SAÚDE”
Daniela Murta Amaral

Dissertação apresentada como requisito parcial
para obtenção do grau de Mestre em Saúde
Coletiva, Programa de Pós-graduação em Saúde
Coletiva – área de concentração em Ciências
Humanas e Saúde, do Instituto de Medicina Social
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Orientador: MÁRCIA RAMOS ARÁN

Rio de Janeiro
2007

C A T A L O G A Ç Ã O
N A
F O N T E
U E R J / R E D E
S I R I U S / C B C
A485 Amaral, Daniela Murta.
A psiquiatrização da transexualidade: análise dos efeitos do diagnóstico de transtorno de
identidade de gênero nas práticas de saúde / Daniela Murta Amaral. – 2007.
119f.
Orientadora: Márcia Ramos Arán.
Dissertação (mestrado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de
Medicina Social.
1. Transexualismo – Teses. 2. Subjetividade – Teses. 3. Identidade sexual – Teses. 4. Sexo
(Psicologia) – Teses. I.Arán, Márcia Ramos. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Instituto de Medicina Social. III. Título.
CDU 613.885
_______________________________________________________________________________

DANIELA MURTA AMARAL

A PSIQUIATRIZAÇÃO DA TRANSEXUALIDADE: ANÁLISE DOS EFEITOS DO
DIAGNÓSTICO DE TRANSTORNO DE IDENTIDADE DE GÊNERO NAS
PRÁTICAS DE SAÚDE

Aprovada em 26 de fevereiro de 2007.

Prof._________________________________________________
Márcia Ramos Arán (orientador)
IMS-UERJ
Prof.________________________________________________
Regina Alice Néri
PUC - SP
Prof._________________________________________________
Pedro Gabriel Godinho Delgado
Instituto de Psiquiatria UFRJ
Prof.__________________________________________________
Joel Birman
IMS – UERJ

DEDICATÓRIA Dedico mais esse trabalho aos meus queridos avós Lauro e Nyanza que. apesar da distância. foram e sempre serão absolutamente importantes em minha vida. .

Sérgio e Paula. em especial às professoras Marilena Corrêa e Maria Andréa Loyola. que ao transmitirem a originalidade de suas idéias e sua extensa experiência no campo da Saúde Coletiva tornam esse universo ainda mais interessante. A minha amada família. principalmente Cláudia. pela vida. são e sempre serão o meu porto seguro. Obrigada por ser parte da minha vida! . Ao corpo docente do Instituto de Medicina Social da UERJ. Ao Serviço de Psicologia Médica e Saúde Mental do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ. Seu estímulo. por todos os momentos que compartilhamos ao longo dessa caminhada. Mãe e irmãs vocês foram. pelo acesso ao campo de pesquisa e pela possibilidade de realizar um trabalho assistencial de qualidade. estímulo constante e compreensão nos momentos em que estive ausente. sugestões e críticas sempre foram fundamentais para meu trabalho. pelos momentos ao lado de vocês e pelo acolhimento de minhas escolhas. Aos companheiros do curso de Pós-graduação em Saúde Coletiva. Ao João por seu amor singular. em especial ao professor Sérgio Zaidhaft.AGRADECIMENTOS À minha orientadora Márcia Ramos Arán que com tantos anos de parceria me permite avançar profissionalmente e perceber o grande valor de um bom encontro.

por sempre torcer pelo meu sucesso. agradeço à CAPES pelo financiamento dessa pesquisa através da bolsa de mestrado. realizando uma revisão cuidadosa e fazendo valiosos comentários. Taissa. Julia. que atendendo meus pedidos “me esqueceram”. Dani. Jú Portelada. Pit e Gi que acompanharam. destacando Belis pelas risadas e pelo apoio tecnológico. Paulinha pela sua leveza. minha grande amiga. a concretização de mais esse projeto. Sua presença silenciosa preencheu o vazio desses momentos solitários. Aos meus novos e velhos amigos. Cacau. . Tati e Rogério. À Vera Vital Brasil pelo seu acolhimento e escuta que me auxiliaram nos momentos finais desse processo. cada uma de seu jeito. que como sempre se fez presente em todos os momentos da realização desse trabalho.À minha segunda família. Por fim. À Aliny Sixel. Alvalúcia. Sou muita grata a todos. só “lembrando” de mim quando os momentos de descontração se faziam necessários. Joca. Mário. Ao Shuin pela sua companhia durante todos dias de estudo. Jane. Ana pela diversão garantida e Mari.

subjetividade. Palavras-Chave: Transexualidade. visto que “o paciente transexual é portador de desvio psicológico permanente de identidade sexual com rejeição do fenótipo e tendência à automutilação ou autoextermínio”. gênero. o Conselho Federal de Medicina autorizou no Brasil a realização de cirurgias de transgenitalização em pacientes transexuais considerando que este procedimento teria um caráter terapêutico. A partir disto houve um aumento da demanda de auxílio médico por parte de transexuais de ambos os sexos e diversas instituições hospitalares tiveram que organizar um espaço específico de atendimento a estes pacientes constituindo programas interdisciplinares direcionados a essa clientela que passou a procurar os serviços públicos de saúde com demanda direta por tratamento médico-cirúrgico. foi realizada uma pesquisa exploratória. Diante disso. práticas de saúde.RESUMO Em 1997. este trabalho tem como objetivo desenvolver uma reflexão sobre a psiquiatrização da transexualidade através de uma análise sobre os efeitos do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero nas práticas de saúde. Para tal. . relatando intenso sofrimento psíquico.482. É possível notar que a institucionalização dessa prática assistencial dirigida a transexuais está absolutamente condicionada a um diagnóstico psiquiátrico que ao mesmo tempo em que permite o acesso ao tratamento e o exercício de cidadania. a conversão sexual tornou-se um procedimento legal no país desde que o tratamento siga um programa rígido que inclui a avaliação de equipe multidisciplinar e acompanhamento psiquiátrico por no mínimo dois anos para confirmação diagnóstica. é também um vetor de patologização e estigma. que muitas vezes acaba por atribuir uma desordem psiquiátrica ao paciente sem problematizar as questões históricas. saúde coletiva. políticas e subjetivas dessa definição. observação de um programa assistencial e entrevistas semiestruturadas com transexuais que estão em seguimento clínico no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro. através da resolução 1. Estabelecendo os critérios que se tornaram condição de acesso à assistência médica e jurídica nesses casos. sexualidade. através de análise documental.

For such. the Federal Council of Medicine authorized in Brazil the accomplishment of sex reassignment in transsexuals patients considering that this procedure would have a therapeutical character. was did na exploratory research. subjectivity. is also a vector of stigma. Since that the demand of medical aid on the part of transsexuals had increased and many hospital institutions had to organize a specific space of attendance to these patients and constituted interdisciplinary programs to this people who started to look the public services of health with direct demand for surgical treatment. this work has as objective develop a reflection about the definition of transsexuality as psychiatric patology through an analysis about the effect of the diagnosis of Gender Identity Disorder in the health practices. It is possible to notice that the institutionalization of this assistencial practice directed to transsexuals is absolutely conditioned to a psychiatric diagnosis that at the same time where it allows to the access to the treatment and the exercise of citizenship. through resolution 1482. observation of an assistencial program and interviews with transsexuals that are in clinical treatment in the Hospital Universitário Clementino Fraga Filho of the Federal University of Rio de Janeiro. sexuality. So. Key-Words: Transsexuality. that many times assigne a psychiatric clutter to the patient without questioning the historical questions. Establishing the rules that had become condition to have medical and legal assistance in these cases. gender. . colective health. the sexual conversion became a legal procedure in the country since the treatment follows a rigid program that includes an evaluation by a multidisciplinary team and appointment with the psychiatric for two years to confirm the diagnostic. subjective politics and of this definition. health practices. telling intense psychic suffering. since "the transsexual patient has a permanent psychological deviation of sexual identity with rejection of fenotype and inclination to self-mutilation or self-destruction". through documentary analysis.ABSTRACT In 1997.

........16 I.................O Programa Interdisciplinar de Assistência a Transexuais e Cirurgia de Transgenitalização do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho – UFRJ.....................................57 III...............25 I..........................3 ...............................................................88 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA CLÍNICA ASSISTENCIAL.96 ANEXOS ......................................................................... 1 – A psiquiatrização da transexualidade .....................................................A ASSISTÊNCIA A TRANSEXUAIS NA REDE PÚBLICA DE SAÚDE DO BRASIL ...................................................43 II .........Algumas considerações críticas.........................................16 I..........................1 .......48 III ...10 I – GENEALOGIA DO TRANSTORNO DE IDENTIDADE DE GÊNERO.................62 IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS: OS PARADOXOS DA TRANS-AUTONOMIA..........................................9 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO..............................................................................2 – A construção do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero....2 – Efeitos da utilização do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero nas práticas de saúde..........57 III......................................................................................

Este é o caso da condição transexual. um fenômeno complexo no qual o indivíduo se apresenta a partir da descrição de um sentimento de não pertencimento ao sexo anatômico. nos orientamos por um dimorfismo sexual que permite a identificação e a classificação sexual dos indivíduos.10 APRESENTAÇÃO Em nossa cultura. Baseados na diferença anatômica entre os sexos. Há indivíduos que não se encaixam nas categorias vigentes de sexo e gênero e vão de encontro com as concepções naturalizadas da classificação sexual. podemos observar que esta relação entre sexo anatômico e gênero não ocorre de forma tão direta e natural. a qual em última instância serve de referência da constituição da identificação sexual. Existem pessoas que têm condutas que estão em “desacordo” com seu sexo biológico e que se apresentam de formas diversas. geralmente entende-se o sexo como algo natural e o gênero como resultado de uma construção histórico-social. Entretanto. colocando em questão a existência de apenas dois sexos determinados pela natureza e a relação imediata que se faz entre gênero e sexo biológico. não se enquadrando nos modelos pré-fixados por este binarismo sexual. Na transexualidade há o relato de uma experiência de incompatibilidade entre sexo biológico e gênero sem que isto se configure como um distúrbio delirante ou que . sem que isto implique em uma negação da sua anatomia sexual. A conceituação do gênero masculino e feminino está calcada nas características biológicas do homem e da mulher. na qual a identificação da anatomia vai ser o indicador de qual o sexo a que o sujeito pertence e quais os comportamentos que são correspondentes às formas de seu corpo. sendo que as normas sexuais são fixadas a partir da anatomia genital.

ou seja. De qualquer modo. este sentimento de inadequação sexual constitui o diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero (TIG). fazendo tentativas de adequação que podem culminar em modificações corporais definitivas. Na atualidade. o fenômeno transexual é considerado uma patologia. uma desordem psiquiátrica. possibilitou a definição da conversão sexual como uma modalidade de tratamento para pacientes transexuais. como a sexologia. Entre as teorias que abordam a questão da transexualidade. existe um discurso comum de patologização da experiência transexual devido a esta incoerência entre sexo e gênero. a psiquiatria. Como conseqüência. uma “necessidade” de redefinição sexual na qual o sujeito demanda o ajuste entre o seu sexo anatômico e o gênero com o qual se identifica. Vale destacar que a transexualidade faz parte da literatura psiquiátrica desde o século XIX. se transformando em objeto de estudo de diferentes disciplinas devido às diversas conseqüências que esta condição impõe. todas essas descrições foram muito importantes para a gênese do conceito de Transtorno de Identidade de Gênero que. É importante salientar também que esta percepção de incompatibilidade entre sexo biológico e gênero conduz o sujeito a buscar constantemente reconhecimento como alguém do sexo oposto.11 tenha bases orgânicas. como o hermafroditismo ou outras anomalias endócrinas (Castel. Observamos que nesta condição há. em geral. unido às inovações tecnológicas que aconteceram na Medicina a partir do início do século XX. na década de 60. em parte a psicanálise e até mesmo o direito. embora esta condição só tenha adquirido visibilidade a partir da conceituação de Harry Benjamin (1885-1986). . 2001: 77). como o desenvolvimento de medicações e técnicas de intervenção cirúrgica.

podemos notar que a institucionalização da prática assistencial dirigida a transexuais está absolutamente condicionada a um diagnóstico psiquiátrico que ao mesmo tempo em que promove um debate sobre a questão da assistência desses indivíduos na rede pública de saúde. Nesse contexto. Frente a essa questão. iniciamos uma pesquisa exploratória sobre a psiquiatrização da transexualidade. 2006). visto que “o paciente transexual é portador de desvio psicológico permanente de identidade sexual com rejeição do fenótipo e tendência à automutilação ou auto-extermínio”. Considerando que este procedimento teria um caráter terapêutico. Murta. . buscando compreender de forma mais ampla como foi construído o entendimento da experiência transexual como um diagnóstico psiquiátrico e quais os efeitos dessa definição sobre as práticas de saúde. Zaidhaft. a conversão sexual tornou-se um procedimento legal no país desde que fosse realizado em hospitais universitários ou públicos em caráter experimental. Em 2002 as cirurgias para adequação do fenótipo masculino para feminino também passaram a ser autorizadas em hospitais públicos ou privados. mas seguindo os critérios de acompanhamento já estabelecidos na primeira resolução. políticas e subjetivas dessa patologização (Arán. permitindo o acesso ao tratamento e o exercício de cidadania.12 Diante desses fatos e com base nesta nosografia psiquiátrica. que muitas vezes acaba por atribuir uma patologia ao paciente sem questionar as questões históricas. independentemente da atividade de pesquisa. é também um vetor de patologização e de estigma. em 1997 o Conselho Federal de Medicina aprovou uma resolução que autoriza a realização de cirurgias de transgenitalização em pacientes transexuais no Brasil e estabelece os critérios que se tornaram condição de acesso à assistência médica e jurídica nesses casos.

ao mesmo tempo em que norteia uma inteligibilidade e uma coerência entre sexo. as quais constituem uma norma que. em conformidade com as práticas discursivas do século XIX. ibid. “o verdadeiro sexo” é o efeito da naturalização de uma norma materializada (Arán. Para tal. Neste sentido. Contrariando a coerência essencial entre sexo biológico e gênero. No entanto. prazeres e desejos (Butler. 2003:142). gênero. o de Transtorno de Identidade de Gênero. prazeres e desejos. ao dispositivo da sexualidade. o de uma patologia da identidade sexual. resta-lhe exclusivamente ocupar o espaço que foi aberto pela psiquiatrização da homossexualidade: o de um transtorno psiquiátrico.13 Inicialmente. gênero. o transexual não se encaixa em nenhum dos modelos propostos de identidade sexual e. nos permite realizar um deslocamento da transexualidade deste território normativo da patologização. visto que a compreensão da transexualidade como patologia está baseada na interpretação de uma incoerência entre sexo e gênero (Arán. entre outros. funciona como um princípio hermenêutico de auto-interpretação que exigem uma coerência entre sexo. fomos conduzidos a rever quais são os pressupostos teóricos e clínicos para a definição da transexualidade como um transtorno psiquiátrico. nos detivemos na construção histórica da diferença sexual e na patologização do prazer perverso. optamos por realizar o estudo em duas etapas: a partir de uma pesquisa documental para levantar dados sobre a construção da assistência pública à transexualidade no Brasil e um trabalho de campo com o . a reflexão crítica realizada por autores como Michel Foucault e Judith Butler. Em um segundo momento.:51). Para estes autores ser “sexuado” é estar submetido a um conjunto de regulações sociais. 2006:50) e há uma demanda de adequação dos corpos ao sistema classificatório binário heterossexual que foi produzido na modernidade.

observação participante de 1 Arán. seja pela discussão sobre a definição da mesma como um transtorno psiquiátrico. como mencionado anteriormente. utilizamos três técnicas para coleta de dados . Murta. seja pela questão da realização da cirurgia de transgenitalização e procedimentos complementares para a transformação do corpo. S. foi efetuado o trabalho de campo que ocorreu no “Programa Interdisciplinar de Assistência a Pacientes Transexuais e Cirurgia de Transgenitalização” do HUCFF–UFRJ. projetos de lei. Transexualidade e cirurgia de transgenitalização: Um desafio para medicina. realizamos um levantamento de pareceres e resoluções do Conselho Federal de Medicina brasileiro.. Zaidhaft.observação livre do programa (incluindo a análise de prontuários de pacientes que já estiveram ou estão em atendimento). Para tal. portarias e toda documentação disponível no Ministério da Saúde que abordasse o tema da transexualidade. Após este levantamento. buscamos investigar quais foram os caminhos percorridos para que a transexualidade viesse a se tornar um tema de discussão nos Serviços Públicos de Saúde do Brasil. Na segunda parte. D. M. . além de coletar dados mais consistentes sobre a experiência transexual. Protocolo 073/02 CEP/HUCFF/UFRJ. que foi criado em 2003 a partir da crescente demanda de transexuais por cirurgia de transgenitalização e hormonioterapia. Nesse momento do estudo. coletamos dados a partir de relatórios e atas de encontros. sua implantação e funcionamento. leis. jornadas e reuniões de profissionais que participam da assistência direta destes pacientes realizadas nos últimos cinco anos.. Adicionalmente. Na primeira parte. os documentos foram analisados cuidadosamente em observância aos objetivos da pesquisa. onde a pesquisadora atua como profissional e participa da pesquisa “Transexualidade e cirurgia de transgenitalização: Um desafio para a medicina”1.14 objetivo de analisar uma proposta de assistência a transexuais.

com a proposta de desenvolver uma problematização do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero como condição de acesso a redesignação sexual dividimos a presente dissertação em três capítulos. No primeiro capítulo faremos uma revisão sobre a genealogia dessa categoria psiquiátrica. no terceiro capítulo faremos uma análise de um programa assistencial a fim de verificar quais os efeitos da psiquiatrização da transexualidade nesse contexto e os paradoxos da transautonomia.que permitiram mapear as características institucionais deste programa. Por fim.15 grupos terapêuticos mensais realizados no ambulatório de Saúde Mental com os pacientes e entrevistas semi-dirigidas com os mesmos . . buscando compreender de que forma se deu a psiquiatrização da condição transexual na atualidade e quais foram as bases teóricas que possibilitaram a construção do diagnóstico passando pelos principais autores e disciplinas que desenvolveram uma reflexão sobre o tema. analisar os efeitos da psiquiatrização da transexualidade nesse contexto e descrever a diversidade da experiência transexual. No segundo capítulo analisaremos como foi o processo de legalização da cirurgia de transgenitalização no Brasil e como se deu a construção de serviços direcionados ao atendimento de transexuais no sistema público de saúde brasileiro. assim como discutiremos algumas considerações críticas sobre a necessidade do diagnóstico psiquiátrico como condição de acesso aos serviços de saúde. Portanto. descrevendo detalhadamente sua construção e atuação.

estes não eram considerados iguais. Da Antiguidade até a Renascença o modelo vigente era do “sexo único” – o masculino -. o qual considerava que havia estruturas comuns na anatomia de homens e mulheres. mais especificamente no pensamento de Galeno. de modo que homens e mulheres . o “modelo de dois sexos” pode ser considerado fruto de um imperativo moral de reinterpretação do corpo. Isto porque a compreensão da transexualidade como patologia está baseada na interpretação de uma discordância entre sexo e gênero e da necessidade de adequação dos corpos ao sistema classificatório binário heterossexual que foi produzido na modernidade. o corpo tornou-se um ponto de ancoragem para o discurso cultural sobre o lugar dos homens e das mulheres na sociedade. o qual instaurou uma matriz binária e hierárquica para fundamentar a diferença entre masculino e feminino. Desta forma. Vale destacar que não se tratava de desconsiderar uma distinção entre os sexos. os quais passaram a ser compreendidos como radicalmente diferentes. 1 – A psiquiatrização da transexualidade Para compreendermos a psiquiatrização da condição transexual na atualidade é importante nos determos na construção histórica da diferença sexual e na patologização do prazer perverso.16 CAPÍTULO I GENEALOGIA DO TRANSTORNO DE IDENTIDADE DE GÊNERO I. Um dos fatos que marcaram o início da era moderna foi o surgimento do modelo essencialista da diferença sexual. No mundo antigo. mas complementares em função da sua suposta natureza. Segundo Laqueur (2001:22). mas os critérios para diferenciação sexual não eram ancorados na biologia e na natureza. existia uma diferença entre os sexos baseada no calor vital do corpo.

a natureza passa a servir de base para a fundamentação da diferença. o dilema foi resolvido pela ancoragem da diferença social e cultural dos sexos em uma biologia da incomensurabilidade. A idéia do homem como representante singular e perfeito das características humanas caiu por terra e a mulher deixou de ser um equivalente inacabado do sexo masculino passando a ter sua própria identidade sexual. era como justificar a dominação da mulher pelo homem. ibid. Em função da necessidade de redefinição de papéis para manutenção da ordem social burguesa e para manutenção da mulher em seu lugar de inferioridade em relação ao homem. a partir da qual homens e mulheres são tratados como radicalmente diferentes. passou-se a justificar e propor inserções sociais diferentes para os dois sexos” (Nunes. era concebida a possibilidade de um indivíduo do sexo feminino “evoluir” para o masculino de forma natural.17 possuiriam os mesmos órgãos sexuais. se todos deveriam ter os mesmos direitos. 2000:37). os sexos feminino e masculino foram diferenciados social e culturalmente a partir de argumentos anatômicos. com órgãos sexuais internos e invertidos. sendo que o prazer sexual.: 50). a partir da idéia de uma diferença biológica ‘natural’. a anatomia dos ossos e posteriormente a tessitura da vida nervosa passam cada vez mais a constituir corpos materializados a . isto é. a hierarquia entre os sexos se manteve apesar de não haver mais referência a uma determinada perfeição masculina.. sua exclusão da esfera pública e as diferenças sociais. Entretanto. Desde então. A partir do século XVII houve significativas mudanças na concepção da diferença sexual.. A conseqüência lógica desse percurso foi que. O problema então. O século XVIII trouxe então novas ‘luzes’ sobre o problema. De acordo com Nunes: “. Havia uma concepção de “graus de perfeição metafísica” na qual se supunha uma continuidade entre ser homem e ser mulher e onde a diferença estava calcada na perfeição representada pela exterioridade do órgão masculino (Laqueur. sendo a mulher uma versão imperfeita do homem. Além disso.

Nesse contexto. mas sim um produto histórico. podemos observar que o “modelo de dois sexos” é fruto de uma construção política e social da modernidade. Retomando historicamente as noções de sexo. que passou de um órgão imperfeito para o representante da nobre função da maternidade. foram destacadas partes específicas de sua anatomia. para legitimar a desigualdade social e política entre os sexos. O autor argumenta que sexo não é um fenômeno natural. como o crânio menor e a pelve mais larga.:38). Deste modo. o sexo feminino seria mais influenciado pelas paixões e por conta disso não poderia assumir funções político-econômicas. No entanto. estabelecendo normas e padrões de identidade. gênero e identidade. a mulher foi considerada um complemento do sexo masculino por sua vocação para a esfera doméstica devido ao seu menor nível intelectual e sua característica “nervosa”. A sexualidade feminina foi caracterizada como absolutamente diferente da masculina. não é um atributo do corpo. Foucault (1988) demonstra como nos séculos XVII e XVIII surgiu um dispositivo de saber e poder que deu origem a uma produção discursiva sobre o sexo. além de configurar uma diferença ontológica entre o masculino e feminino. na qual compreende-se que cada indivíduo apresenta especificidades que vão variar de acordo com seu sexo e que vão complementar essas mesmas especificidades do sexo oposto. sendo atribuída à mulher uma essência reprodutiva e negligenciado o seu prazer sexual. resultado de regulações . Uma das diferenças mais significativamente demarcadas na materialização do corpo feminino foi a valorização do útero. Segundo Nunes (ibid. esta matriz também serviu de base para impor um modelo de sexualidade.18 partir de características masculinas e femininas. Em História da Sexualidade I – A Vontade de Saber. ou seja. surge aí a diferença de gênero acoplada à diferença sexual.

Podemos observar que este discurso sobre a sexualidade do século XVIII culminou na constituição do .: 100).. mas à grande rede da superfície em que a estimulação dos corpos. principalmente. ibid. a intensificação dos prazeres. “.. passou a existir uma exigência de definição sexual com base na natureza na qual a Medicina tinha a função moral de diagnosticar o único e verdadeiro sexo dos indivíduos. o reforço dos controles e das resistências. Segundo Foucault (2004: 83). A sexualidade é nome dado a um dispositivo histórico: não à realidade subterrânea que se apreende com dificuldade. as condições jurídicas do indivíduo e as formas de controle administrativo dos Estados modernos do século XVIII.” (Foucault. a incitação ao discurso. Uma das conseqüências deste raciocínio é a idéia de que existiria “um verdadeiro sexo”. segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder. a formação dos conhecimentos. Nesse sentido.19 sociais que tem como conseqüências o estabelecimento de parâmetros de normalidade e a instituição de categorias para definir as identidades sexuais. as teorias biológicas da sexualidade. quando o mesmo estava encoberto pelas formas do sexo oposto ou sob aparência confusa. ou seja. promoveram uma gradual recusa da idéia de mistura dos dois sexos em um só corpo e restringiram a livre escolha pela identidade sexual daqueles indivíduos que apresentavam algum tipo de ambigüidade por entender que “as fantasmagorias da natureza podem servir aos abusos da libertinagem”. encadeiam-se uns aos outros. uma compreensão de que cada indivíduo tem uma essência sexual determinada pela natureza. Nota-se que nesse momento se constituiu na tradição ocidental moderna um discurso científico sobre o sexo com o estabelecimento de normas e padrões sexuais que nos conduzem a conseqüências tais como a psiquiatrização do prazer perverso e a problematização da questão da homossexualidade. tal como a hermafrodita Herculine Barbin2.

a partir de então. Os comportamentos perversos eram ignorados enquanto tais e só se viam condenados por suas conseqüências. presença de esperma em tal ou qual cavidade anatômica etc. a preocupação com a sexualidade não estava relacionada com sua psicopatologia. mas sim com as conseqüências dos comportamentos perversos. Nesse momento. de uma degeneração. o interesse sobre as questões relacionadas a comportamentos sexuais pertenciam ao campo jurídico. quando havia perícia. através de um dispositivo de saber e poder. Depois disso. com o surgimento da sexologia. quando o conhecimento científico sobre os comportamentos denominados perversos foi incorporado pela medicina e seu significado serviu para designar aquilo que fugia a uma determinada norma da atividade sexual (Peixoto Jr. a quem coube. a instrução e o julgamento prescindiam dela de bom grado e. era menos para sustentar um discurso psicopatológico sobre o réu do que para descrever ao tribunal os danos sofridos pela vítima. Nesse período..) para a análise clínica do acusado. . podemos dizer que todo o esforço dos peritos consistiu em passar do estudo dos danos da vítima (membrana himenal intacta ou rompida. Contudo. que se fosse desviado era indicador de alguma espécie de alienação mental. sendo que o parecer médico somente era solicitado em situações esporádicas. Conforme Lanteri-Laura: “. A medicina não tinha muito o que fazer nessa área.” (1994: 16). os dispositivos de saber consideravam que a sexualidade era governada por um instinto.20 saber psiquiátrico do século XIX. a sexualidade perversa tornou-se objeto de intervenção do médicopsiquiatra. definir como patologia o que era interpretado como depravação e deslocar o que era da ordem da punição para o tratamento. 1999: 31). Inicialmente.. foi somente no final do século XIX que a diversidade do comportamento sexual foi agregada de fato ao discurso médico supostamente deixando de lado pressupostos morais e 2 Foucault escreveu o prefácio da publicação das memórias de Herculine Barbin.. demonstrando como a medicina e a justiça do século XIX contruiram a noção de identidade sexual.

A partir disso. e tudo o que desviasse do objetivo final do instinto sexual seria ilícito e anormal. ocupou o lugar normativo que anteriormente pertencia à Igreja e definiu os limites da normalidade no que se refere ao sexo. se tornando o modo habitual para definir os comportamentos sexuais singulares. Conseqüentemente. houve um maior interesse da psiquiatria pelas singularidades da vida sexual. sob a ótica de um modelo binário heterossexual reprodutivo. ibid. surge a noção de perversão como denominação científica da corrupção do instinto sexual. significou que tudo aquilo que estava no registro da reprodução e era desprovido de prazer seria lícito e normal. Assim. Para Lanteri-Laura (ibid:25). ibid.: 28). a conotação de disfunção qualitativa atribuída à perversão seria uma metáfora moralista que deu a este conceito os atributos de uma alienação mental. A partir de então.21 preconceitos em favor de uma cientificidade (Lanteri-Laura. Nesse panorama. que passou a ser utilizado também pelo senso comum. o que foi determinante na construção de uma semiologia dos comportamentos definidos como anormais. A medicina. demarcou a fronteira entre o lícito e o ilícito na vida sexual que. Este termo foi tomado pela Medicina para definir os casos que apresentavam alguma alteração de função. observamos que o discurso positivista da psiquiatria e sexologia do século XIX teve uma função ideológica para além de sua função racional como um novo campo de saber (Lanteri-Laura. organizou-se uma semiologia em . munida de seu conhecimento. diante de uma norma heterossexual e reprodutiva a qual atribuía ao prazer perverso um caráter patológico. Compreendido como um distúrbio que não estava relacionado com o excesso ou com a falta. uma degeneração.: 18). tal como a loucura moral. tinha em seu significado um conceito pejorativo confundido com a depravação.

. foi Von Krafft-Ebing. Além destas. defendiam a origem congênita da homossexualidade. guiado pelo pensamento das teorias da degeneração e da neurastenia. ainda. Deste modo.:30). Em principio. respectivamente. são apresentadas como “monstruosas” ou “ridículas” mas com características peculiares (Lanteri-Laura. Há. passando por diversas teorizações (Lanteri-Laura. referindo-se a uma série de problemáticas. alguns estudiosos entenderam que a diversidade das perversões demandou uma classificação que tivesse um caráter mais adequado ao método científico. Nesse sentido. aproximando-a da natureza.: 29). o autor aproximou prazer e perversão e passou a descrever a diversidade das mesmas. ibid.:39). Segundo Peixoto Jr. ibid. Autores como Ulrichs e Westphal. que destacava nesses casos a importância das experiências infantis. sem descartar o valor desta obra. Magnan propôs. (ibid. A partir da delimitação de satisfações eróticas que não objetivavam a preservação da espécie. em 3 Uma alma de mulher num corpo de homem que só sentia desejo e paixão por homens absolutamente viris (Lanteri-Laura. o responsável pelo grande catálogo das perversões no âmbito da sexologia psiquiátrica. Entretanto. acreditando que elas podiam explicar a aquisição do comportamento homossexual e possibilitar seu tratamento. que com exceção da homossexualidade. houve também outras interpretações.22 torno da homossexualidade e podemos verificar que este conceito foi um dos eixos primários para as explorações da sexologia do século XIX. ibid. como as explicações psicológicas de Binet. no qual são valorizados os aspectos sociais e no qual a inversão sexual é distanciada do hermafroditismo. o trabalho de Moll.: 40). com suas teses sobre o uranismo3 e a inversão sexual4. em Psychopathia Sexuallis observamos uma divisão específica das anomalias sexuais. as discussões sobre a homossexualidade não estavam relacionadas à devassidão.

tomando cuidado para que isso não fosse notado por outras pessoas. este autor também desenvolveu um 4 Uma maneira de sentir o sexual oposta ao habitual. uma interpretação da sexualidade derivada de explicações neurofisiológicas na qual era a anátomo-fisiologia que permitia apreender os fenômenos perversos. Além disso. além de ser alvo de zombarias por apresentar aparência e atitudes de menina. a partir de um relato autobiográfico5.174). Relata que na adolescência tinha um claro sentimento de preferir ser uma jovem senhora.23 1885. a sexologia e a psiquiatria do século XIX permitiram a construção de uma psicopatologia que determinou o caráter de anormalidade dos casos que não se adequavam à norma sexual e acabou influenciando a organização da idéia de “identidade de gênero”. nascido em 1844. desde criança sentia-se atraído por atividades e vestimentas tipicamente femininas. gênero e comportamento sexual. Desenhando uma fronteira entre o normal e o patológico no campo da sexualidade e possibilitando a instauração de uma normatividade sexual. Além disso. surgem as primeiras referências sobre transexualismo e a descrição de outras alterações das características psicossexuais da personalidade como a metamorfose psicossexual e o hermafroditismo psíquico (Von Kafft-Ebing. Uma das principais referências localiza-se em 1893 quando Von Krafft-Ebing descreveu um caso de transexualismo masculino. ao apropriar-se do campo das perversões a medicina tornou-se a maior referência no assunto. isto é. Trata-se da autobiografia de um transexual masculino húngaro. a fisiologia permitia imaginar modelos funcionais para as perversões que as tornassem aparentemente menos diversas. que enviou uma carta à Krafft-Ebing. 2000:165. Sendo assim. Em sua teorização. descrevendo sua experiência de identificação com o sexo feminino desde a infância. Segundo sua descrição. uma concepção de identidade sexual que supõe uma coerência entre sexo biológico. esta concepção de uma perturbação no funcionamento cerebral reafirmou seu entendimento como um desequilíbrio mental que pertencia ao campo médico. Nesse contexto em que a construção de uma semiologia dos comportamentos e identidades sexuais estabelece a necessidade de uma compatibilidade entre a identidade de gênero e a anatomia. Embora não conseguisse compreender 5 .

. 2004:24). depois disso sua “disposição feminina” se acentuou e passou a sentir-se como “uma mulher em forma de homem” que tem que encenar diariamente ser um membro do sexo masculino. o termo transexualismo foi utilizado pela primeira vez por Magnus Hirschfeld .24 “esquema das neuroses sexuais”6. cabe salientar que segundo Castel (2001:81). No entanto. Portanto. foram desenvolvidos outros estudos para a compreensão do fenômeno transexual e na segunda metade do século XX. a partir da análise deste dispositivo de saber e poder. o transexual não se encaixa em nenhum dos modelos propostos de identidade sexual e. Contrariando a coerência essencial entre sexo biológico e gênero. Posteriormente. até o desejo de transformação corporal (Sadeeh. finalmente. o de Transtorno de Identidade de Gênero. o fenômeno transexual coloca em questão de forma radical a insuficiência de nosso sistema classificatório de sexo e gênero e destaca um sistema que delimita os espaços entre o normal e o anormal no campo da identidade sexual.Die Transvestiten (1910) – onde esta denominação é utilizada para fazer referência ao “transexualismo psíquico”. na idade adulta casou-se na expectativa que seu sentimento de ser um membro do sexo feminino se modificasse. Nesse sentido. resta-lhe exclusivamente ocupar o espaço que foi aberto pela psiquiatrização da homossexualidade: o de um transtorno psiquiátrico. marcando o interesse da medicina sobre a transexualidade até sua efetiva apropriação como um transtorno psiquiátrico. em conformidade com as práticas discursivas do século XIX. Contudo. onde discorre sobre patologias que apresentam desde alterações da “personalidade psíquica”. uma patologia da identidade sexual. podemos observar que a transexualidade somente pôde ser compreendida como uma patologia. A transexualidade denota que a matriz binária heterossexual abriu espaço para a sua condição. aconteceram as primeiras cirurgias de transgenitalização.

em 1952 na Dinamarca (Frignet. Sendo assim.2 – A construção do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero De modo geral. .:85). ibid. que se tornou a matriz das transformações corporais demandadas por transexuais no mundo inteiro. esta intervenção inaugural suscitou a problematização das conseqüências deste procedimento que teve um aumento expressivo de demanda e passou a ser realizado em diversos países. mas por ter inaugurado uma ampla discussão em torno da identidade sexual e das categorias de gênero (Castel. em conseqüência. podemos pensar que o que determina os limites para o estabelecimento do diagnóstico de transexualismo é uma herança do pensamento ocidental moderno aliada à grande influência da psiquiatria e sexologia do século XIX. inaugurou um campo assistencial voltado para o tratamento desta patologia. e que foi eleito “mulher do ano” em 1953. 2002:23).25 constituição de uma nosografia psiquiátrica do transexualismo e. localiza-se o surgimento do fenômeno da transexualidade não a partir do debate sobre o diagnóstico. Além disso. graças a Harry Hamburger e à equipe dinamarquesa de Christian Hamburger. fundamentalmente a partir da primeira intervenção terapêutica tornada pública: a cirurgia do ex-soldado do exército americano George Jorgensen realizada por Christian Hamburger. Emboras as vaginoplastias e faloplastias já fossem técnicas conhecidas anteriormente. vai alimentar a reflexão sociológica sobre a identidade sexual e a relatividade das categorias do gênero com 6 “Patologia geral: neurológica e psicológica”. “A difusão mundial da história de Georges Jorgensen. I. observamos que a intervenção no ex-soldado americano tem um significado histórico que não se refere apenas à possibilidade de mudar médica e cirurgicamente a aparência sexual. GI que se tornou Christine. mas. sendo a primeira intervenção cirúrgica desse tipo realizada efetivamente por Felix Abraham na Alemanha em 1921.

sendo as descrições deste período muito importantes para a construção genealógica do Transtorno de Identidade de Gênero e especialmente para sua significação como uma patologia da identidade sexual7. A repercussão do caso na mídia logo pareceu favorecer a multiplicação vertiginosa das demandas (embora se pensasse atingir apenas uns poucos casos marginais). embora a maioria dos casos conhecidos não fossem de pessoas pobres. de 1949. Segundo Cauldwell (2001). seria um indivíduo mentalmente deficiente. David O.: 88) Contudo. a ponto de suscitar as interrogações de Hamburger.26 as situações vividas cada vez mais numerosas. quando o indivíduo não se sentisse adequado ao seu sexo biológico. Podemos observar que depois de quase quarenta anos houve uma retomada da temática transexual. o autor define o transexualismo como um desvio sexual raro que se caracteriza por um desejo mórbido-patológico de ser membro do sexo oposto e pela demanda de realizar a cirurgia para modificação do sexo. esta condição geralmente é fruto da pobreza e de um ambiente desfavorável na infância.” (Castel. como mencionado anteriormente. Para ele. No artigo entitulado Psychopatia Transexuallis. quando o Dr. . 7 Ver tópico anterior onde fazemos referência a obra de Von Krafft-Ebing e Magnus Hirschfeld. a transexualidade faz parte da literatura psiquiátrica desde o século XIX. ibid. Nesse sentido. com a utilização precisa do termo introduzido por Hirschfeld em 1910. o desejo de ser membro do sexo oposto deveria ser definido então como uma doença mental com vários níveis e passível de ser tratada: a psycopathia transexuallis. sendo sua condição psicológica a própria doença. Cauldwell (1897-1959) trouxe a público um estudo de caso sobre um transexual feminino.

nesse momento tem início o “dispositivo da transexualidade”. mais precisamente.1 Harry Benjamin e a invenção “do fenômeno transexual” Nesse contexto.” . que o indivíduo é mentalmente insalubre e por causa disso a pessoa deseja em viver como um membro do sexo oposto”. tal indivíduo é o que pode ser chamado um psicopata transexual. se posicionava duramente contra à Psiquiatria e à Psicanálise. ibid. de 1953. bem como os tratamentos psicoterapêuticos dirigidos a transexuais e travestis (Bento. especialmente os 8 Tradução da autora. simply. I. A grande diferença entre Benjamin e os profissionais de Saúde Mental. se inicia uma produção acadêmica em torno da defesa da especificidade do “fenômeno transexual”. De acordo com Bento (2006:40). foram esboçadas a primeiras características que definiam a condição transexual e. “When an individual who is unfavorably affected psychologically determines to live and appear as a member of the sex to which he or she does not belong. such an individual is what may be called a psychopathic transsexual. simplesmente.27 “Quando um indivíduo que é afetado psicologicamente de modo desfavorável decide viver e parecer como um membro do sexo a que ele ou ela não pertencem.)8 A partir de então. Harry Benjamin (1885-1986). (Cauldwell. a diferenciava da homossexualidade e do travestismo. endocrinologista alemão que emigrou para os Estados Unidos em 1902. Além disso. tendo em vista que ao mesmo tempo em que se configura a produção de um saber específico são propostos modelos de tratamento para esses casos. retoma os trabalhos de Cauldwell e Hirschfeld trabalhando em favor da realização da cirurgia de conversão sexual por entender que esta seria o único tratamento possível para transexuais.2. chegando a atacá-las violentamente em seu artigo Transvestism and Transsexualism. Ao mesmo tempo. 2006:40). that one is mentally unhealthy and because of this the person desires to live as a member of the opposite sex. Isto significa. às quais demostravam certa resistência. This means.

sendo inadequada a determinação do sexo do indivíduo baseada puramente nas diferenças anatômicas. Apoiado nos avanços dos estudos biológicos do século XX. genético. germinal. vagina. se localizava em sua concepção de que havia alguma ligação entre o transexualismo e a endocrinologia. a partir de uma composição dos sexos cromossômico. menstruação. traços psicológicos femininos como timidez. Já o sexo genital é o que permite a diferenciação entre masculino e feminino pela simples visualização dos órgãos sexuais definindo o sexo legal. o qual vai definir o nome e o sexo nos documentos. anatômico ou morfológico. O sexo anatômico é aquele composto pelas características sexuais primárias (testículos ou ovários) e secundárias (pênis. vulva. o sexo seria composto por diversos componentes. voz feminina. legal.:7) destaca aí uma subdivisão entre o sexo genital e o sexo gonádico. pêlos. gonádico. endócrino (hormonal). . saco escrotal. visto que as gônadas têm duas funções diferenciadas: produzem hormônios (sexo endócrino) e têm como função a procriação (sexo germinal).28 psicanalistas. pouco pêlo. psicológico e social. voz grossa e traços psicológicos masculinos nos homens e nas mulheres clitóris. aquele que determina tanto o sexo como o gênero e que não deve ser confundido com o sexo genético que refere-se a possíveis falhas genéticas que determinam a predisposição a desvios sexuais ou problemas mentais. Harry Benjamin (1999:4) propõe que não haveria mais uma divisão absoluta entre “masculino” e “feminino”. mamas. afirmando que este pode ser dividido em duas partes. emoção e aquiescência) de cada sexo. em especial os estudos genéticos. pélvis larga. O sexo cromossômico (XX e XY) seria o verdadeiro sexo. Para ele. próstata. principalmente após a realização da bemsucedida cirurgia de George Jorgensen. Benjamin (ibid. útero. genital.

Para Benjamin (ibid. travestis. homossexuais. esses “tipos de sexo” não são fixos e podem ser modificados através de tratamentos hormonais ou procedimentos cirúrgicos.29 Vale destacar que para Benjamin as características que definem se um indivíduo é macho ou fêmea não significam o mesmo que masculinidade e feminilidade. castrados. afirmando que esta última categoria refere-se ao gênero e aquela ao sexo. “Such more or less perfect symphony of the sexes is the rule. ibid. Entre eles encontramos os transexuais. o sexo mais flexível e mais importante é o sexo psicológico. disturbances may occur more often than is usually assumed. nenhuma tolerância com aqueles em quem a natureza ou a vida (natureza ou educação) criou dissonância em sua sexualidade. Ao mesmo tempo. Tais indivíduos são freqüentemente condenados e banidos. Em relação a esse aspecto discorda. exceto o sexo genético. Infelizmente. Em sua concepção. nossas convenções e nossas leis não têm nenhuma compreensão. Yet.:9). visto que na maioria das pessoas o sexo social – sexo pelo qual você se identifica no mundo – e o sexo psicológico fundem-se harmoniosamente com os outros sexos.” (Benjamin. que segundo sua definição pode estar em oposição a todos os outros sexos e quando isso acontece gera grandes problemas. mas também são produtos do sexo endócrino que não está ligado apenas às glândulas sexuais. Desta forma. sendo a predominância de fatores de cada um deles o que vai definir o sexo em conjunto com a influência do meio social sobre o comportamento. considera que todos os indivíduos são constituídos por características tanto masculinas quanto femininas. Unfortunately. ser masculino ou feminino são características herdadas. dos psiquiatras e psicanalistas que atribuem tal discrepância a condições desfavoráveis para um desenvolvimento normal na infância e refere-se diretamente aos casos de transexualismo que considera o maior exemplo de ruptura sexual existente.:10)9. bissexuais e outros desviantes. 9 Tradução da autora. no tolerance for those in whom nature or life (nature or nurture) have created a . Também os distúrbios podem ocorrer mais freqüentemente do que se supõe geralmente. novamente. destaca que. “Tal sinfonia dos sexos é uma regra. our conventions and our laws have no understanding.

bisexuals. homosexuals. não se tratava ainda de um material satisfatório. mas também com a medicina. experimentar mudanças físicas que não incluem a alteração de sua genitália. O grupo 2 seria um estágio intermediário de um distúrbio emocional que localizase entre o travestismo e o transexualismo. Such individuals are frequently condemned and ostracized. Nesses casos. O grupo 1 refere-se aos indivíduos que querem apenas vestir-se e ser aceitos como um membro do sexo feminino e que o pênis é um órgão de prazer. These latter. o grupo 3 que inclui o verdadeiro transexualismo. Assim. ibid. em geral. eunuchoids.” . pois estes indivíduos querem. however. em algum grau de intensidade. descrevem que os órgãos sexuais são fontes de extrema tristeza e ódio e. transvestites. De acordo com Benjamin (ibid. especialmente para a realização de diagnósticos. considerando qualquer manifestação de discordância entre sexo e gênero um evento incluído no campo da patologia. essas pessoas não se beneficiariam de psicoterapias e seu conflito seria não apenas com a sociedade e a lei. para Benjamin todo travesti. Embora os subtipos apresentados fosse um primeiro passo na classificação destas “síndromes”.:15). no qual o paciente teria um maior grau de desorientação de sexo e gênero e distúrbio emocional mais profundo. and other deviates. Por fim. Benjamin elaborou uma teoria na qual dividiu o travestismo masculino em três categorias distintas de acordo com o quadro clínico que apresentavam e que podiam variar de um grau mais leve ao um grau mais severo (Benjamin. a partir de tal teorização e inspirado na dissonance in their sexuality. são assexuados. Nesse sentido.:16). ressaltando que seu conflito é com a sociedade e com a lei. Among them we find transsexuals.30 Nesse panorama. com sua discordância entre sexo e gênero seria. um transexual. are not under consideration here. além de ser reconhecidos como membro do seu sexo psicológico através do vestuário.

e as que supunham que se tratava de algo puramente psicológico. devem ser investigadas de forma mais precisa.S). as mais difundidas e tinham mais aprovação do que aquelas que podem ser chamadas de teorias “orgânicas”. Ilustrando seis tipos diferentes de síndrome de travestismo-transexualismo de acordo com observações clínicas. ou seja. Tal escala tornou-se um marco na conceituação do transexualismo pela possibilidade de esquematizar a diferença entre transexuais. sendo o tipo 0 (zero) aquele que descreve a média das pessoas. Em sua concepção as causas do transexualismo e a origem do desejo de mudar o sexo ultrapassam os aspectos psicológicos e. ibid. Todo indivíduo que estiver incluindo nesse tipo ou categoria pode ser definido como normal independentemente se é heterossexual ou homossexual.31 Escala Kinsey10. aqueles que não desejam nem se apresentar como membro do sexo oposto ou mudar de sexo. permitindo um número de estágios intermediários entre completamente heterossexual e completamente homossexual (Benjamin. vigoravam apenas duas hipóteses diversas: as teorias que consideravam que havia alguma causa biológica – genética ou endócrina . travestis e homossexuais (Anexo 1). principalmente a incompatibilidade entre os componentes psicossociais e biomorfológicos.O. As possíveis causas psicológicas eram.).S. nesse contexto. Conforme Harry Benjamin demonstra em sua obra O Fenômeno Transexual (ibid. um guia diagnóstico através do qual seria possível avaliar a discordância entre os sexos. .:18). 11 Nessa escala. nesse sentido. na década de 60 não se sabia exatamente o que determinava a emergência do transexualismo. De acordo com a perspectiva psicológica sobre as origens do transexualismo. Outro ponto que se destaca na teorização desse autor sobre a condição transexual é a forma como compreende sua etiologia. este fenômeno seria resultado de uma falha em um mecanismo de aprendizagem operado na infância no qual um estímulo particular estabelece imediatamente um comportamento padrão irreversível – imprinting – associado a experiências 10 Define sete categorias entre heterossexualidade e homossexualidade. há sete categorias que definem a orientação de sexo e gênero. Harry Benjamin criou a Escala de Orientação Sexual11 (Sex Orientation Scale .

transexualismo e homossexualidade. as desordens de papel de gênero seriam resultado de um estímulo perceptual errado na infância unida a um meio social específico e a uma possível predisposição. a noção de que há um fator constitucional que de alguma forma possibilita essas desordens tomou força abrindo ainda mais espaço para teorizações biológicas a respeito da sexualidade. ibid. a ausência de fatores que comprovassem essas teorias ou resultados duvidosos não eram o suficiente para negar uma etiologia orgânica do transexualismo. Dessa forma.:9). Assim. Nesse sentido. ibid. ainda que nenhuma causa genética ou endocrinológica associada à manifestação do transexualismo tivesse sido até então provada. as estruturas e centros neurais do cérebro são alvo de influências hormonais e através da genética poder-se-ia definir como esses hormônios exercem influência sobre o cérebro. Embora fosse largamente aceito na literatura científica que as influências psicológicas da infância seriam as causas do travestismo. os hormônios teriam um papel importante na determinação do comportamento sexual organizando o tecido neural.:133).32 desfavoráveis e a um fator constitucional do indivíduo (Benjamin. Outras causas orgânicas na mesma linha . Para eles. posteriormente aconteceram novas pesquisas que possibilitaram a elaboração de teses relacionadas à etiologia genética e endocrinológica do transexualismo que foram denominadas no campo científico de teoria neurocerebral. tal teorização foi alvo de críticas devido a sua impossibilidade de comprovação (Benjamin. Segundo Benjamin (ibid. De acordo com estes estudos.:20). Alguns pesquisadores sustentavam a tese de que existiria alguma anormalidade cromossômica ou alteração hormonal que estivesse associada a esta condição.

33 neurocerebral. mas não necessariamente hereditária parece mais e mais provável. The presence of an inborn. ibid.. could emerge as factual. Naturalmente. (. (.. isto é.). abnormalities in the structure of certain brain centers would have their genetic basis.. mas nenhuma evidência foi encontrada.) Ever greater refinements in genetic (chromosomal) studies may find a clue.:133)13. organic. anomalias inatas. 12 De acordo com a Escala de Orientação Sexual. but can only be considered as contributory or as one of several possible causes. como infecções ou ferimentos no cérebro no período do nascimento. orgânicas na estrutura de certos centros cerebrais teriam suas bases genéticas.. but not necessarily hereditary origin or predisposition appears more and more probable... Tradução da autora. A presença de uma origem ou predisposição inata. Os refinamentos na genética (cromossômicos) devem achar a chave.” 13 . mas contempla a neurofisiologia e a genética como os campos que realmente podem esclarecer as causas dessa condição de forma concreta e científica. that homosexual behavior can develop after organic changes such as the removal of a tumor from a certain brain region. Brain physiological experiments and neurological investigations may hold even greater promise. If it should be confirmed. Experimentos de fisiologia cerebral e investigações neurológicas devem ser a grande promessa. que o comportamento homossexual pode desenvolver mudanças orgânicas tal como a remoção de um tumor de certa região do cérebro. pode emergir como fato. inborn. argumenta que acontecem algumas mudanças hormonais antes do nascimento que promovem modificações permanentes nas estruturas cerebrais ocasionando a desordem de identidade de gênero. mas pode apenas ser considerado como algo que contribui ou uma de suas variadas causas. including transsexualism. um novo aspecto da sexualidade humana. incluindo o transexualismo. Sendo assim.(. a new and startling aspect of human sexuality. não apenas como especulação”(Benjamin. not only as speculative. Naturally. for instance. Nesse contexto. organic. Harry Benjamin se apóia nas teorias neurocerebrais para explicar a suposta anomalia biológica dos transexuais ditos verdadeiros. orgânica.) Se isso se confirmar. “Childhood conditioning and possible imprinting undoubtedly have a connection with the development and the intensity of the transsexual phenomenon. Vale destacar que não desconsidera a função do fator psicológico no desenvolvimento e na intensidade12 do fenômeno transexual. foram levadas em consideração. that is. “O condicionamento na infância e o possível imprinting sem dúvida tem uma conexão com o desenvolvimento e a intensidade do fenômeno transexual.

2. sua anatomia. entre inato e adquirido e promoveram a separação conceitual entre sexo (biológico) e gênero (social). Benjamin sustentou o argumento de que só as intervenções cirúrgicas aliadas à utilização de hormônios tem valor terapêutico para os casos de transexualismo. I. Tais estudos retomaram as discussões entre natureza e cultura. assim. sua fórmula cromossômica e seus hormônios. Com o objetivo de esclarecer quais as relações entre a identidade nuclear de um indivíduo (core identity). qualquer possibilidade de tratamento psiquiátrico ou psicoterápico com o objetivo de reverter o transexualismo é rechaçada por ele sendo esta condição interesse quase exclusivo da endocrinologia. Segundo Frignet (ibid. Deste modo. psiquiatra que desenvolveu pesquisas com crianças intersexuais14 no Hospital John Hopkins em Baltimore. 14 Crianças com anomalias sexuais congênitas. apresentou uma nova possibilidade de se compreender condições nas quais há uma discordância entre elas. observamos também que após a Segunda Guerra Mundial os estudos sobre a transexualidade tomaram força nos Estados Unidos através de investigações sócio-antropológicas sobre os fatores que influenciavam na definição da identidade sexual dos indivíduos. a utilização do conceito de gênero dissociado do sexo ganhou destaque em 1955.2 John Money e a separação entre sexo e gênero Paralelamente ao trabalho de Benjamin. Money introduziu a noção de gênero para diferenciar o sexo biológico da identidade sexual e. a partir de John Money. .34 Diante de tais concepções. tal como ocorre no transexualismo.:87).

:88) Ao longo de suas pesquisas Money buscou demonstrar a independência radical entre o social e o biológico. especialmente do movimento feminista. devido à visão estereotipada de masculinidade e feminilidade que propôs e que utilizava em sua prática no atendimento a intersexuais. o registro subjetivo do gênero que. prevaleceria em relação ao sexo biológico. imposto pela natureza. como a medicina e a antropologia. o da reprodução sexuada. assim como Harry Benjamin. do outro. que constitui nossa identidade de gênero15 e que só vai alcançar sua completa expressão com a maturidade sexual. a possibilidade de uma discordância. isto é.” (Frignet. na maioria dos indivíduos. características típicas de um determinado sexo. a identidade sexual é construída ao longo dos primeiros anos de vida. Vale destacar que a tese de Money foi alvo de muitas críticas. o transexualismo mostrando. Deste modo. De acordo com Löwy (2003: 87). possibilitando novas teorizações e reflexões sobre os efeitos da distinção entre o sexo biológico e o 15 Segundo Löwy (2003:88). nos estudos sobre a intersexualidade induzida por perturbaçoes hormonais. De acordo com Money (1969:92). por sua vez.35 “Substituir o sexo pelo gênero permite propor. consagrado em geral pela aparência e quase sempre aceito pelo indivíduo. definindo que o comportamento masculino ou feminino é influenciado pelo social. ou seja. eram dados de extremo valor que unidos à pressuposição de uma heterossexualidade natural definiam como seria a adequação sexual de modo a extinguir qualquer possibilidade de ambigüidade. a educação seria modeladora do gênero dos indivíduos e este. à primeira vista. concordaria com o sexo. mas passamos por um processo irreversível. o sexo real. qual seria o sexo a partir da intervenção cirúrgica. os resultados de seus estudos tiveram grande relevância em diversos campos. no entanto. e. de um lado. uma explicação elegante do transexualismo: haveria. John Money adere as teorias neurocerebrais desenvolvidas na . como gostar de bonecas ou brincar de bola. não nascemos homem ou mulher. ibid. De qualquer modo.

Norman Fisk. que estava acontecendo de forma crescente. suas teses foram essenciais na construção de um campo assistencial e teórico da transexualidade que culminou na fundação de instituições e serviços direcionados ao atendimento dessa clientela.36 gênero psicossocial (Castel. como demonstra Castel (ibid:89). A primeira delas é a apropriação do fenômeno transexual pela medicina através da proposição de tratamentos direcionados a transexuais e a segunda. I. A partir destas premissas. não era permitida em todos os países e estava gerando pedidos de redefinição do sexo civil. podemos observar que duas grandes linhas teóricas – uma endocrinológica e outra psicossocial – foram produzidas ao longo do século XX na tentativa de explicar a questão da transexualidade gerando repercussões importantes nesse campo. em 1973. outras “enfermidades” ligadas à identidade de gênero. Além disso. o que culminou na criação de centros de transgenitalização e na elaboração de protocolos de atendimento com base nas definições de Harry Benjamin.3 A construção do diagnóstico psiquiátrico de Disforia de Gênero Sendo assim. ibid. Contudo. Esta denominação. ancorada fundamentalmente num auto-diagnóstico. além desta condição. ele recusa a idéia fundamental dessa teoria segundo a qual a identidade . 2. que designa a insatisfação decorrente da discordância entre o sexo biológico e a identidade sexual de um década de 60. é a criação de um problema médico-legal visto que esse tipo de intervenção médica. era necessário que as redesignações sexuais estivessem inseridas em processos terapêuticos formais e que os procedimentos fossem normatizados.:87). e em 1977 o transexualismo é incorporado à categoria psiquiátrica de Disforia de Gênero que incluía. fundamenta uma nosografia psiquiátrica para o transexualismo.. Diante disso.

síndrome de insensibilidade aos andrógenos ou hiperplasia adrenal congênita) (Critério C). ou a insistência do indivíduo de que ele é do sexo oposto (Critério A). Também deve haver evidências de um desconforto persistente com o próprio sexo atribuído ou uma sensação de inadequação no papel de gênero deste sexo (Critério B). que consiste do desejo de ser. a condição transexual foi agregada ao manual diagnóstico psiquiátrico DSM III (Manual Diagnóstico e Estatístico das Desordens Mentais) formalizando um lugar na psiquiatria e na medicina. essa invenção de um “híbrido psiquiátrico-sociológico” tinha como puro objetivo. junto ao travestismo e aos transtornos de identidade sexual na infância. Segundo Castel (ibid. em 1994. além de legitimar os critérios diagnósticos e a descrição dessa desordem.10ª versão (CID-10) o transexualismo está incluído entre os Transtornos de Identidade Sexual. em 1980. . trazia a descrição da experiência transexual e apontava como a única possibilidade de tratamento a realização da cirurgia de conversão sexual e a utilização de hormônios. responder a tais necessidades funcionais sem qualquer ambição de construir uma nosografia da disforia de gênero. deve haver evidências de sofrimento clinicamente significativo ou sexual é inata e invariavel.37 indivíduo. com a publicação do DSM IV.. Segundo esse manual diagnóstico para a confirmação de tal transtorno deve haver pelo menos dois componentes no indivíduo: “Deve haver evidências de uma forte e persistente identificação com o gênero oposto. o termo transexualismo foi substituído por Transtorno de Identidade de Gênero (TIG) por ser um estado psicológico no qual a identidade de gênero está em desacordo com o sexo biológico16. A partir disso. 16 Na Classificação Internacional de Doenças . O diagnóstico não é feito se o indivíduo tem uma condição intersexual física concomitante (por ex. Para que este diagnóstico seja feito. sua apresentação apenas reproduzia o auto-diagnóstico dos transexuais transportando-o para a definição médica da síndrome e replicando sua demanda cirúrgica.:90). Posteriormente. Para ele. Esta identificação com o gênero oposto não deve refletir um mero desejo de quaisquer vantagens culturais percebidas por ser do outro sexo.

teorizou 17 O debate sobre transexualismo na teoria psicanalítica foi fortemente marcado pela interpretação freudiana do Caso Schreber (Freud. observamos que a Psicanálise também alimenta uma discussão relevante sobre o tema. Observamos que as teorizações que deram base à construção do diagnóstico levam sempre em consideração. e a existência de uma identidade de gênero que delimitaria a fronteira entre o normal e o patológico (Correa. o que é priorizado é a existência de um forte desejo de mudar de sexo. podemos perceber que as origens da transexualidade como entidade nosológica psiquiátrica localiza-se na medicalização do desejo de realizar a conversão sexual através da intervenção cirúrgica e da adequação da identidade civil. Nesse contexto. Portanto. Podemos verificar que na tradição psicanalítica foram desenvolvidos alguns trabalhos que influenciaram a construção de uma concepção psicopatológica da transexualidade e fortaleceram a localização dessa experiência no campo da saúde mental18. mesmo que de forma implícita. tinha como referencia a relação entre homossexualidade e paranóia. .4. 1998:90). contribuindo largamente para a compreensão atual da transexualidade como uma patologia17. 1911) que.Robert Stoller e o núcleo de identidade de gênero A partir de uma revisão sobre a genealogia do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero como nosologia psiquiátrica.2. que significa a adequação cirúrgica ao suposto sexo psicológico.38 prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo (Critério D)” (DSM IV. podemos destacar o psicanalista Robert Stoller que. 2002: 504). I. a concepção de que o sexo –homem e mulher– é relativo aos aspectos biológicos. Por outro lado. em certa medida. influenciado pelo conceito de identidade de gênero proposto por Money.

Em sua teoria. na interpretação de Stoller (ibid. 19 Em sua teorização Stoller leva em conta apenas o transexualismo masculino por considera-lo mais autêntico que o transexualismo feminino. já que a mãe do homossexual se caracteriza pelo contraponto entre sedução erótica e relação muito próxima com o filho. segundo ele. o pai do menino transexual compõe o cenário familiar de modo favorável ao desdobramento desta condição. tornando-se uma referência no assunto. . 21 Segundo o autor. Para um aprofundamento sobre o tema ver Arán. Para ele (1973:216). 20 Stoller faz nesse momento.). Em outros termos. a ocorrência do complexo de Édipo22 que.39 sobre a importância da relação com os pais no surgimento da transexualidade. É incapaz de se colocar numa posição masculina dentro da família. as características físicas não são suficientes para a definição do indivíduo por um sexo. Segundo Stoller (1982) o transexualismo é resultado de uma determinada configuração familiar que promove uma falha no processo de individuação da criança e possibilita a identificação do indivíduo com o sexo oposto ao seu sexo anatômico. que permite que a criança seja tratada como uma parte do corpo da mãe e resulta na admissão de uma identidade feminina para corresponder a isso. Sua postura passiva e distante na relação familiar não dá espaço para que se torne uma figura temida para a criança. não assumindo seu lugar de pai e marido. mas não é passível de ser desejada como objeto inviabilizando. que é a pedra fundamental da diferenciação sexual em sua teoria. sendo as atitudes dos pais em relação ao filho o que atua de forma determinante na formação da identidade de gênero nuclear. 22 Nessa situação é pré-condição que o menino invista em sua mãe como objeto de amor além de ver em seu pai um grande rival. 2006. ela se torna uma pessoa distinta do sujeito. Ainda que essa relação seja de absoluta proximidade. a figura paterna está ausente neste contexto. já está previamente 18 Não pretendemos desenvolver a complexidade deste debate nesta dissertação. é importante destacar que na tese de Stoller este fato não implica no não reconhecimento da mãe como um outro ser. há nesses casos um cenário caracterizado por uma relação simbiótica20 entre a mãe e o filho e uma total exclusão do pai21. De acordo com sua teoria19. uma distinção desses quadros com o homossexualismo.

de forma que se mantém uma feminilidade original que deveria ser masculinizada a partir da relação com o meio social o qual é responsável pelas marcas definidoras da diferença entre os sexos.40 prejudicado pela ausência de angústia de castração nesses casos. visto que não há nenhum tipo de investimento no pênis por parte desse sujeito. Assim. Contudo. 3 . considerando que transexualismo não seria uma psicose e preconizando a cirurgia de transgenitalização como tratamento nesses casos (Arán. Nesse panorama e diante do argumento freudiano de que é na passagem pelo complexo de Édipo que se constitui a identidade sexual. as quais estabelecem uma hierarquia entre os sexos (Arán.uma especificidade na relação com a mãe. denominada por Stoller de simbiose.) explica o transexualismo como um erro na constituição da identidade de gênero que ocorre em três fases: a primeira de pura identificação da criança com a mãe. que não pode ser considerada psicotizante. 2006:54).a relação com o pênis é vivida “como horror”. 2 . . 2003: 400). define que a condição transexual é resultado da permanência do sujeito na fase de pura identificação da criança com a mãe.um sentimento de identidade permanente. onde não haveria qualquer forma de investimento libidinal. caracterizado. ainda que estivesse influenciado pelas teorizações sobre a diferença sexual dos séculos XVIII e XIX. Em sua teorização. Stoller (ibid. a segunda na qual se constitui o núcleo da identidade de gênero e a terceira que refere-se a passagem pelo complexo de Édipo. pela crença em uma essência feminina sem ambigüidades. em sua teoria o transexualismo teria três aspectos principais: 1. Stoller apresenta algo muito mais próximo de uma descrição da experiência transexual que a fundamentação de uma desordem. e definir o transexualismo como uma “patologia”. no caso do transexualismo masculino.

o transexualista é um indivíduo que recusa a diferença dos sexos. corresponde à tentativa de aliviar a carência do Nome-do-Pai. afirmando que a manifestação dessa condição nestes últimos não estaria enraizada na psicose como é o caso do chamados “transexuais verdadeiros”. de colocar um limite. Henry Frignet (2002:17) propõe uma diferenciação entre “transexuais” e “transexualistas”.2. ou seja. um ponto e parada. ao transexual masculino.permanecendo sujeitado aos desejos dela devido à ausência da metáfora paterna. Para ele. Nota-se com certa freqüência. ao menos.: 36) Nessa mesma perspectiva estrutural. para autora: “No que concerne. podemos observar de forma recorrente nos trabalhos sobre transexualismo a referência à psicanálise lacaniana que. Dessa forma.2002). e baseado em sua experiência clínica. uma menção aos autores dessa linha teórica. Nesse contexto. Marcel Czermak (1986). também baseada na relação simbiótica entre mãe e filho que supostamente não permite a passagem pelo complexo de Édipo e a realização da angústia de castração. entre os quais podemos destacar Henry Frignet (1999. que afirma que o transexualismo seria um recurso do sujeito. ou a de Millot (1992:36). que apontam a transexualidade como uma condição próxima da psicose ou mesmo uma outra forma de sua manifestação.5 O transexualismo e a clínica estrutural das psicoses Tal como demonstra Castel (2003:372). ibid. Catherine Millot (1992).41 I. Joel Dor (1991). (convicção e demanda de transformação). mas que . stricto sensu. de suspender a função fálica. verificamos a elaboração da algumas teorizações como a de Dor (1991:180) que considera que o transexual ocuparia a mesma posição do psicótico em relação a sua mãe – no lugar do falo . adiantarei a hipótese de que o sintoma transexual. sendo uma forma de “arrematar” essa falha da intervenção paterna na simbiose entre mãe e filho.” (Millot. relaciona a transexualidade à compreensão lógica e estrutural da psicose.

Segundo Chiland (2003:70) nesses estados o apoio psicológico e existencial ocupam um lugar fundamental. o reconhecimento do “Nome do Pai” seria uma operação primária. Como podemos observar existem diversas interpretações da transexualidade na psicanálise. e é esta diferença. no imaginário e no real. para destacar a importância desse processo na aquisição da subjetividade. por uma difusão da identidade com a conservação do sentido da realidade tal qual ocorreria na transexualidade. ibid:56) Uma terceira possibilidade teórica que se destaca no campo da psicanálise refere-se à interpretação do transexualismo como um quadro que se situa entre a neurose e a psicose: os chamados estados limites e borderlines. visando – sem espera – o simbólico. diferentemente do transexual verdadeiro que está “fora do sexo” pois sua identidade sexual é foracluída. e a demanda de modificação. com a demanda de redesignação anatômica.o autor toma como referência a interpretação lacaniana das diversas formas de identificação proposta por Freud. que lhe acompanha. para ele inacessível. que tornará possível a apreensão tanto do registro imaginário como do real do corpo. e que poderiam ser nomeados de doença do narcisismo. em geral. De acordo com esta interpretação. que foram caracterizados. . sendo a psicoterapia psicanalítica com os transexuais um processo muito importante no acolhimento e organização da subjetividade. que vai fazer retorno no real sob a forma de reivindicação de ser de outro sexo – outro no imaginário e Outro no simbólico -. “essa identificação real que o transexual recusa. tal como demonstra Arán (2006:56). indispensável à estruturação subjetiva. desta vez no seu estado civil” (Frignet.42 tem assegurada sua identidade sexual. 1999:86 apud Arán. Além disso. Nesse sentido. Stoller se opõe a essa concepção de que a condição transexual deva ser analisada a partir de um escopo estrutural e considera que a melhor possibilidade de tratamento para o transexualismo é a cirurgia de transgenitalização.

:61). a partir de uma crítica ao imperativo do modelo do Édipo e da castração podemos vislumbrar ainda. que afirma que no transexualismo a cirurgia seria a substituição de uma “metáfora paterna neurótica” por uma “metáfora delirante no real do corpo”. embora a transexualidade já fosse um fenômeno reconhecido desde o final do século XIX. . mas apenas indicar esta possibilidade. Birman (1999). ibid. I. Neri (2005). Para uma discussão mais profunda ver particularmente: Arán (2006). especialmente os de orientação lacaniana. 23 Alguns autores têm trabalhado na tentativa de realizar uma crítica ao modelo tradicional de pensar a diferença sexual na psicanálise. Peixoto Jr (2004).3 – Algumas considerações críticas Tal como demonstrado anteriormente. Apesar de tais divergências. que a condição transexual ganhou espaço no campo médico-científico se tornando objeto de investigação de algumas disciplinas e alvo de uma série de teorizações que.43 o que para alguns psicanalistas. as discussões em torno dessa temática tiveram início efetivamente a partir da possibilidade de intervenção médica sobre estes casos. definiram a transexualidade como uma desordem psiquiátrica. como Calligaris (1989:38). nos meandros da psicanálise. Porém não nos propomos a desenvolver este trabalho nesta dissertação. É possível perceber que apenas diante do avanço tecnológico alcançado no século XX. atualmente. a tentativa do deslocamento da transexualidade deste território normativo da patologização23 (Arán. influenciadas pelos estudos da sexologia do século anterior. verificamos que a tradição psicanalítica com suas peculiaridades também contribuiu para a construção de uma concepção psicopatológica da transexualidade. o que permite a contrução de um novo territorio teórico para pensar a diversidade da manifestação das sexualidades e das subjetividades. existem ainda outros psicanalistas que apostam na cirurgia de conversão sexual como instrumento de organização subjetiva. Porém. Nunes (2000). Diante disso. é problemático.

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Atualmente, essa compreensão da condição transexual como uma patologia
vem sendo largamente criticada por diversos autores que problematizam a definição
da experiência transexual como uma condição anormal. Segundo Butler (2004:75),
tem sido intenso o debate sobre a questão do diagnóstico de Transtorno de
Identidade de Gênero, onde observamos além de uma problematização das
referências utilizadas na construção do mesmo, a existência de um campo de tensão
entre os defensores de sua manutenção no DSM IV por uma questão de estratégia
de acesso ao sistema de saúde e aqueles que entendem que o diagnóstico funciona
como um vetor de estigmatização. De acordo com Arán:
“Nas diversas teorias que abordam esta questão parece haver
um aspecto consensual: o de que na transexualidade haveria uma
incoerência entre sexo e gênero. O discurso atual sobre o
transexualismo na sexologia, na psiquiatria e em parte na psicanálise
faz desta experiência uma patologia - um “transtorno de identidade” dada a não conformidade entre sexo biológico e gênero. Por outro
lado, ele também pode ser considerado uma psicose devido à recusa
da diferença sexual, leia-se, da castração dita simbólica. Nota-se que
nestas teorias, o que define o diagnóstico de transexualismo é uma
concepção normativa seja dos sistemas de sexo-gênero, seja do
dispositivo “diferença sexual”. Ambas estão fundadas numa matriz
binária heterossexual que se converte em sistema regulador da
sexualidade e da subjetividade”. (Arán, 2006:50)

Sendo assim, gêneros inteligíveis são aqueles que mantêm uma continuidade
entre sexo, gênero, práticas sexuais e desejo, por intermédio dos quais a identidade
é reconhecida e substancializada. Desta maneira, é importante compreendermos
quais são os sistemas de sexo-gênero pré-fixados pelo binarismo sexual que
estabelecem e exigem esta coerência, a qual permite a percepção de uma
identidade considerada inteligível ao mesmo tempo em que produz espectros de
inteligibilidade:
“A matriz cultural por intermédio da qual a identidade de gênero
se torna inteligível exige que certos tipos de ‘identidade’ não possam
‘existir’ - isto é, aquelas em que o gênero não decorre do sexo e
aquelas em que as práticas do desejo não ‘decorrem’ nem do ‘sexo’

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nem do ‘gênero’. [...] Ora, do ponto de vista desse campo, certos
tipos de ‘identidade de gênero’ parecem ser meras falhas do
desenvolvimento ou impossibilidades lógicas, precisamente porque
não se conformaram às normas da inteligibilidade cultural” (Butler,
2003: 39).

Diante disso, notamos que Butler critica os sistemas normativos de sexogênero nos quais prevalece o raciocínio de que sexo é algo definido pela natureza,
fundamentado no corpo orgânico, biológico e genético, e de que o gênero é uma
construção histórica e social. Partindo das teses de Foucault sobre o dispositivo da
sexualidade citadas acima, essa autora afirma que o sexo não pode ser
compreendido como um dado natural sobre o qual se constrói artificialmente o
gênero, mas sim como resultado de uma norma cultural24. “Em outras palavras,
‘sexo’ é uma construção ideal que é forçosamente materializado através do tempo”
(Butler, 1993:1)25.
Em sua argumentação, relaciona esse processo de assumir um sexo com a
questão da identificação, a qual sofre diretamente os efeitos do imperativo
heterossexual. Nesse contexto, considera que a força normativa das identificações
sexuadas ao mesmo tempo em que determina a noção de sujeito, de humano e de
possibilidades de vida,

foraclui e/ou nega outras, constituindo um território de

abjeção, ou melhor, um exterior abjetado, que está “dentro” dos domínios do sujeito
como seu próprio repúdio fundador (Butler, ibid.:3). Deste modo, a constituição de
certos tipos de subjetividades e de identidades se faz a partir de um repúdio que
produz um domínio de abjeção e proporciona a “identificação com o fantasma

24

Outro aspecto que Butler introduz é a noção de performatividade de gênero, pensando as normas
reguladoras do sexo trabalhando de um modo performativo para constituir a materialidade dos corpos
e, mais especificamente, para materializar o sexo destes, para materializar a diferença sexual a
serviço da consolidação do imperativo heterossexual. A compreensão da performatividade não como
um ato pelo qual o sujeito se torna o que ele/ela nomeia, mas como este reiterativo poder do discurso
para produzir o fenômeno que regula e obriga.
25
Traduzido pela autora. “In other words, ‘sex’ is an ideal construct which is forcibly materialized
through time.”

46

normativo do sexo”, sendo a identidade de gênero inteligível a única que importa26,
que tem uma materialidade perceptível e cognoscível.
A partir desse raciocínio, observamos que justamente este dispositivo de
poder e saber sobre a sexualidade, que exige uma coerência entre sexo e gênero, é
o que faz com que a descrição de uma experiência de não pertencimento ao sexo
dito biológico esteja no exterior da inteligibilidade cultural, sendo compreendida
como abjeto. Podemos notar que através desta operação de exclusão inclusiva onde
são delimitados os contornos do normal e do patológico, que se delineia a noção de
que a transexualidade se trata de uma patologia e que esta é a única forma da
mesma existir nesse domínio. Assim, podemos pensar que a compreensão da
transexualidade como patologia serve para que a mesma se desloque do campo do
impensável e seja incluída no domínio da inteligibilidade cultural .
Finalmente, cabe salientar que a compreensão de que o gênero é uma norma
e não uma invariante estrutural nos permite vislumbrar as possibilidades de
variabilidade, deslocamentos e subversões no próprio dispositivo da sexualidade
“Se os atributos de gênero são performativos e não uma
identidade pré-existente, a postulação de um “verdadeiro sexo” ou de
uma “verdade sobre o gênero” revela antes uma ficção reguladora.
Além disso, se para que esta ficção permaneça é necessário uma
repetição reiterativa, podemos pensar que a aproximação de um
ideal de gênero - masculino ou feminino - nunca é de fato completa,
e que os corpos nunca obedecem totalmente às normas pelas quais
sua materialização é fabricada. Neste sentido, é justamente pelo fato
de a instabilidade das normas gênero estarem abertas à necessidade
de repetição do mesmo que a lei reguladora pode ser reaproveitada
numa repetição diferencial” (Arán; Peixoto Jr. , 2007).

Portanto, no interior do dispositivo da transexualidade, o qual exige uma
adequação à matriz heterossexual, podemos observar uma diversidade de
26

O termo original em inglês é “matter” que pode ser traduzido para a língua portuguesa como os
substantivos matéria e substância, ou como os verbos importar e significar. Butler utiliza esse termo
como ferramenta no debate sobre a materialidade e importância daquilo que está excluído da
inteligibilidade cultural.

47 construções de gênero na transexualidade. . Para uma maior aproximação a esta problemática passaremos a seguir à análise da implementação dos serviços assistenciais no Brasil e a análise da experiência transexual.

amparado no artigo 92 do código de ética. estes pacientes foram indicados para tratamento psiquiátrico ou apoio psicológico. foi desaconselhado por ser considerado desnecessário já que o Código de Ética Médica proíbe a indicação e execução de terapêutica ou intervenção cirúrgica desnecessária ou proibida pela legislação do país.48 CAPÍTULO II A ASSISTÊNCIA A TRANSEXUAIS NA REDE PÚBLICA DE SAÚDE DO BRASIL No Brasil. a partir de uma solicitação de realização de cirurgia. este mesmo protocolo passou por outro parecer de consulta no qual foi questionado o significado sócio-psicológico de necessidade de tratamento e foi destacada a importância da realização de perícias para avaliar se haveria “desajustamento psiquiátrico” nos indivíduos com esse tipo de demanda.Protocolo 1529/79 CFM (Anexo 2). A primeira delas ocorreu em 1979 quando o Conselho Federal de Medicina (CFM) foi consultado sobre a inclusão de próteses mamárias de silicone em pacientes do sexo masculino . Em 1990. Na sua conclusão foi sugerida a formalização de uma resolução abrangendo a cirurgia de transgenitalização ou outras intervenções médicas em órgãos sexuais secundários. A partir disso. No ano seguinte. A ementa do Processo de Consulta CFM 0617/90 . a realização e legalização da cirurgia de transgenitalização e de procedimentos afins foi um processo longo e cercado de diversas discussões. o transexualismo voltou à pauta de discussões do CFM por intermédio de outro processo de consulta por uma demanda do Conselho Regional de Medicina do Estado de Minas Gerais. De .PC/CFM 11/1991 (Anexo 3) abordava a ilicitude ética e penal da realização da “cirurgia de conversão sexual” por entender que se tratava de “mutilação grave” e “ofensa à integridade corporal” de acordo com o Código Penal e o Código de Ética Médica do Brasil. Tal procedimento.

49 acordo com o parecer. Holdemar de Menezes. sendo que esta modalidade de intervenção cirúrgica seria admitida nos estados intersexuais. este posicionamento era exclusivamente em relação ao transexualismo. Sendo assim. foi considerado que tal intervenção modifica apenas a genitália e não o sexo do indivíduo. mais uma vez foi utilizada a noção de “lesão corporal grave” para caracterizar o procedimento cirúrgico.PC/CFM/ 12/1991 (Anexo 4) teve início no CFM em grau de recurso após ter passado por parecer negativo no Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. conseqüentemente. Como argumento para a negativa. . 27 Segundo Prof. A paciente solicitava a mesma autorização do processo anterior para procedimento cirúrgico de conversão sexual. Além disso. o que. como hermafroditismo e gônadas disgenéticas. a questão ultrapassou o ato cirúrgico em si mesmo e se localizou em torno da impossibilidade de atribuição ao indivíduo de um sexo biológico diferente ao seu. interferiria na alteração de identidade. No entanto. o CFM se posicionou contrariamente à “cirurgia de conversão do sexo” compreendendo que esta não teria caráter terapêutico. os prejuízos psicossociais no transexualismo são inquestionáveis. o Processo de Consulta CPM 0871/90 . No mesmo ano. enquanto que paralelamente buscava orientação para retificação de registro de nascimento (nome e sexo). mas a realização da cirurgia constituiria “ato mutilador e não corretivo”27 . Nesse contexto. Portanto. como a presunção de crime de atribuição de falsa identidade conforme Artigo 307 do Código Penal. por estes não se tratarem de “um transgenitalismo para justificar hábitos homossexuais” e sim uma necessidade de correção. já que a alteração da genitália seria insuficiente para a modificação da identidade sexual. as implicações jurídicas da “cirurgia de conversão sexual” assumiram maior relevância. tanto no que se refere à modificação de identidade. neste parecer.

culminando na publicação da resolução que autoriza a cirurgia de transgenitalização em pacientes transexuais no Brasil. originou-se o parecer e proposta de resolução PC/CFM 39/97 (Anexo 5) que sugere a adoção deste procedimento cirúrgico a título experimental nos casos de transexualismo. sempre que possível. visto que esta vinha sendo divulgada de forma recorrente na mídia. a cirurgia de transgenitalização foi considerada a etapa mais importante no tratamento de transexualismo pela sua capacidade de adaptar a morfologia genital ao sexo com o qual o indivíduo se identifica. unida aos princípios de autonomia .com manutenção.e justiça .50 Em 1995 aconteceu um primeiro debate sobre o transexualismo com o objetivo de abrir a possibilidade de tornar ética a proposta terapêutica de cirurgia de transgenitalização.direito da autodeterminação e de dispor do próprio corpo . Dois anos depois. a cirurgia de transgenitalização28 pôde ser realizada no Brasil em hospitais universitários ou 28 As cirurgias indicadas são: cirurgia genital . da enervação no tecido usado na construção da neovagina para melhor recuperação cirúrgica e funcionalidade do . O Conselho Federal de Medicina. considerou que este procedimento teria um caráter terapêutico visto que “o paciente transexual é portador de desvio psicológico permanente de identidade sexual com rejeição do fenótipo e tendência à automutilação ou auto-extermínio”. Diante disso. a partir da resolução 1. no I Encontro Nacional dos Conselhos de Medicina.482 (Anexo 6). A partir disso. A defesa de sua regulamentação foi fundamentada em um motivo essencial: a intenção de beneficência através da busca da integração entre o corpo e a identidade sexual psíquica do interessado. este debate foi retomado e a plenária manifestou-se favoravelmente à realização desta cirurgia entendendo que se tratava de uma forma especial de tratamento médico e que seria necessário um embasamento legal para sua realização.o direito de a pessoa não ser discriminada no pleito à cirurgia. Além disso.

lipoaspiração da cintura e do quadril. e a colocação de próteses testiculares de silicone. 29 Por neocolpovulvoplastia entende-se a transformação da genitália masculina em feminina através da retirada dos testículos. psiquiatria. resolve que as cirurgias para adequação do fenótipo masculino para o feminino podem ser praticadas em hospitais públicos ou privados. urologia. psicologia e serviço social – e acompanhamento psiquiátrico por no mínimo dois anos para confirmação diagnóstica de transexualismo. e por procedimentos complementares a adequação das características sexuais secundárias. a resolução de 1997 foi revogada pela resolução 1. considerando o estágio atual de tratamento dos casos e o bom resultado estético e funcional das neocolpovulvoplastias e/ou procedimentos complementares29. Nesse sentido. rinoplastia.51 públicos a título experimental desde que o paciente seja maior de 21 anos. A transformação também inclui a retirada das mamas. endocrinologia. coxas e nádegas para transexuais femininos. que é apenas um tubo que conduz a urina e não apresenta nem glande nem ereção. No caso da neofaloplastia30 e/ou procedimentos complementares. diversas instituições hospitalares tiveram que organizar um espaço específico de atendimento a estes pacientes. cirurgia de mamas . mas seguindo os critérios de acompanhamento já estabelecidos. além de outras cirurgias como a redução plástica da cartilagem da tireóide. . não tenha características físicas inapropriadas para realização da cirurgia e o tratamento siga um programa rígido que inclui a avaliação de equipe multidisciplinar – cirurgia plástica. construção da neovagina. a realização se manteve condicionada à prática em hospitais universitários ou hospitais públicos adequados para a pesquisa. construção do clitóris e reconstrução da genitália externa. Em 2002. alguns hospitais universitários do país constituíram programas interdisciplinares para órgão.652 (Anexo 7) que. A partir destas resoluções e aumento da demanda de auxílio médico por parte de transexuais de ambos os sexos.retirada de mamas para transexuais femininos ou aumento dessas ou colocação de próteses para transexuais masculinos. redução dos ossos da face e blefaroplastia para transexuais masculinos e lipoaspiração nos quadris. independentemente da atividade de pesquisa. 30 Por neofaloplastia entende-se a transformação da genitália feminina em masculina através da construção do pênis.

UFRJ. Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Podemos observar que com a base na nosografia psiquiátrica do Transtorno de Identidade de Gênero constituída ao longo do século XX. políticos e sociais. o diagnóstico e tratamento e os efeitos éticos e jurídicos desta condição. o Conselho Federal de Medicina estabeleceu os critérios que se tornaram condição de acesso à assistência médica e jurídica na transexualidade e referência dos serviços dirigidos ao atendimento dessa clientela. Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. . realizada em 2005. Embora todos sejam constituídos por uma equipe multidisciplinar.52 atender a transexuais que passaram a procurar os serviços públicos de saúde relatando intenso sofrimento e com demanda direta por tratamento médico-cirúrgico. Hospital Universitário Pedro Ernesto . A partir do contato com as principais instituições32 que dispõem desse serviço foi possível constatar que os mesmos apresentam formatos e propostas diferenciadas de atendimento com práticas cirúrgicas e terapêuticas distintas. 32 Participaram da Jornada os serviços do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho . Conforme observado na I Jornada Nacional sobre Transexualidade e Assistência Pública no Brasil31. 31 Esta Jornada teve como objetivo discutir a transexualidade sob aspectos históricos. Hospital Universitário Cassiano de Antonio de Morais – ES. Nota-se que no Brasil. a psiquiatrização do transexualismo tornou-se um eixo de orientação para a prática clínica. seguindo uma tendência internacional. na maior parte dos serviços de saúde que prestam assistência a transexuais. a estruturação da assistência pública a pacientes transexuais foi realizada a partir da compreensão de que a transexualidade é uma doença. embora não haja um padrão de assistência entre os serviços de saúde que atendem esta clientela.UERJ. cada programa tem um funcionamento específico que varia de acordo com a disponibilidade de profissionais que prestem assistência a pacientes transexuais e das parcerias e convênios com outras instituições. Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia. Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas.

a manutenção da psiquiatrização da transexualidade na resolução do Conselho Federal de Medicina por uma questão estratégica. Tal documento é considerado nos dias de hoje referência para a elaboração de políticas públicas para transexuais no Brasil (Anexo 8). em especial. dos efeitos que isto produz. . que recomenda. o que pôde ser observado no I Encontro Nacional de Transexuais.a problematização do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero como condição de acesso à saúde pública. 3. em plenária final. Desde então. Através das contribuições realizadas no campo da Psicanálise e da Saúde Coletiva sobre a diversidade das formas de subjetivação na transexualidade. do debate sobre a autonomia dos transexuais realizado no campo da Bioética. Como resultado desta Jornada foi elaborado um documento. realizado em novembro de 2005 em Brasília. um levantamento que permita estabelecer diretrizes unificadas de assistência a esta população e um protocolo único para a rede de serviços públicos de saúde. a sistematização de serviços públicos de assistência integral a transexuais no âmbito da saúde e da justiça.53 Apesar da tendência predominante de psiquiatrização da transexualidade. entre outras coisas. vale destacar que nesta mesma Jornada observamos uma problematização desta exigência como condição de acesso aos serviços de saúde pública. principalmente. 2.a interpretação que a transexualidade é uma doença. pela participação do movimento de transexuais percebemos uma inquietação diante da compreensão diagnóstica da transexualidade e. é possível observar uma tensão permanente nos debates sobre o tema onde estão demarcadas três posições: 1. das modificações sugeridas no campo jurídico em relação à importância da troca de nome e.

vinculado à Secretaria Especial de Direitos Humanos. podemos observar que desde 2003 existem discussões sobre a formulação de políticas inclusivas para toda a população GLTB (Gays. Transgêneros e Bissexuais (GLTB). maior visibilidade social aos indivíduos que se identificam com esta denominação (Garner. Embora o movimento social de transexuais só tenha se constituído efetivamente em 2005. lésbicas. Stefanie e Lionço (ibid.54 Nesse encontro. promovendo uma maior articulação da categoria de transexuais e. integrante da estrutura básica do Ministério da Justiça. violência. Considerando a necessidade de implementação de uma política de atenção integral voltada a esta população. inicialmente. 34 O Conselho Nacional de Combate à Discriminação (CNCD) foi instituído em 2001 através do decreto 3952 com a competência de propor. Lésbicas. Trata-se de órgão colegiado. Stefanie. o mesmo passou a fazer parte da pauta dos gestores de políticas públicas e foi incluído em programas que tivessem como objetivo garantir os direitos de gays. além de outros temas como preconceito. o Comitê Técnico para a formulação da proposta de Política Nacional de Saúde da População de Gays. 2005). que articula sujeitos que explicitam a necessidade de considerar suas realidades e necessidades específicas e que não encontravam coincidência com a categoria de gays. através da Portaria nº 880/GM (Anexo 9). A partir da definição desse grupo como vulnerável à exclusão social pelo Conselho Nacional de Combate à Discriminação (CNCD)34. o Ministério da Saúde criou em 2004. vêm desenvolvendo uma reflexão permanente sobre a constituição de políticas públicas voltadas especificamente para esse grupo e têm buscado consolidar os avanços alcançados. ou travestis. 33 Este movimento social. este comitê que. era composto apenas por representantes de órgãos governamentais e. originou-se o Coletivo Nacional de Transexuais33 e foram discutidas as causas da transexualidade e as cirurgias para mudança de sexo.). Segundo Garner. acompanhar e avaliar as políticas públicas afirmativas de promoção da igualdade e da proteção dos direitos de indivíduos e grupos sociais e étnicos afetados por discriminação racial e demais formas de intolerância. Lionço. Transgêneros e Bissexuais) no Brasil que culminaram nos debates atuais sobre atenção integral a transexuais no Ministério da Saúde. lésbicas. Lésbicas. conseqüentemente. . transgêneros e bissexuais. mercado de trabalho e educação.

o comitê reuniu representantes do governo e da sociedade civil para discutir a situação atual da saúde da população transexual. apesar de ser autorizada em instituições públicas. 36 . a promoção da inclusão destes indivíduos como cidadãos de direitos e a inclusão de transexuais no Sistema 35 Através da Portaria n° 2227 de 2004. a cirurgia de transgenitalização ainda não é regulamentada pelo Ministério da Saúde e nem está incluída na tabela de procedimentos financiados pelo Sistema Único de Saúde brasileiro (SUS). O fornecimento de medicamentos específicos é irregular e o financiamento dos procedimentos cirúrgicos muitas vezes é realizado com recursos da própria instituição visto que.a inclusão de previsões de distribuição de medicações específicas. foi somente em 2006. e para definir as diretrizes da assistência a transexuais no Brasil sob a perspectiva da integralidade. Ainda que tenha sido definido em 2004. foram discutidos os critérios para realização de outras intervenções somáticas . foi redefinido35.como implante de silicone nos seios. eletrólise. a partir da reinvindicação dos técnicos do Ministério da Saúde. redução do pomo de Adão. a inclusão da cirurgia de transgenitalização na tabela do SUS. Além disso. problematizando a assistência desta nos serviços de saúde pública. Partindo do fato de que não há nenhuma regulamentação do processo de redesignação sexual no SUS36 e de que existem programas de atendimento a transexuais em funcionamento em diversos estados brasileiros. mastectomia e histerectomia . incluindo em sua composição representantes dos segmentos GLTB. Nesse momento. do coletivo de transexuais e por uma ação pública do Estado do Rio Grande do Sul. da eqüidade e da humanização da atenção.55 posteriormente. foram colocados em pauta pontos relevantes para a elaboração de Protocolos de acompanhamento e avaliação de transexuais orientados pelo Ministério da Saúde. que este grupo foi reativado para discutir “o processo transexualizador no SUS”. centrou suas ações na institucionalização de um espaço de atenção a essa população que de forma contínua sofre resistência e preconceito. dos profissionais de Serviços Assistenciais.

implementação e credenciamento de Centros de Referência de Assistência à População Transexual no Brasil. . foi contemplado como estratégia de promoção da saúde. tendo como objetivo delimitar os critérios para o acompanhamento a transexuais no SUS. definir as estratégias de avaliação. Nesse sentido. Lionço. 2006). assim como. ibid. que foi considerada fator determinante da condição de sofrimento de transexuais. Stefanie.56 Único de Saúde de forma mais ampla que a questão da cirurgia de redesignação sexual (Lionço. Além disso. foram propostas diretrizes comprometidas com a superação do estigma associado à condição transexual. o combate à discriminação.). não sendo mais a saúde de transexuais uma questão exclusivamente médico-cirúrgica (Garner.

o usuário. este programa estabelece um protocolo de assistência a transexuais baseado nos critérios definidos pelo CFM.57 CAPÍTULO III ANÁLISE DE UMA EXPERIÊNCIA CLÍNICA ASSISTENCIAL III. passa. De acordo com este protocolo. a partir do início de 2003 foram realizadas diversas reuniões com o objetivo de estruturar e formalizar o “Programa Interdisciplinar de Assistência a Transexuais e Cirurgia de Transgenitalização do HUCFF–UFRJ”. psicólogas.1 . com demanda espontânea ou referida para a cirurgia de transgenitalização. urologista e cirurgião plástico.O Programa Interdisciplinar de Assistência a Transexuais e Cirurgia de Transgenitalização do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho – UFRJ A assistência a transexuais no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho – UFRJ teve início em dezembro de 1997 quando uma paciente procurou o Serviço de Endocrinologia do hospital. A partir desse momento. por um processo de triagem e é encaminhado para a . Diante disso. Embora naquele momento nenhum dos profissionais tivesse conhecimento da referida Resolução ou qualquer experiência prévia nesse assunto. que é composto por uma equipe que inclui psiquiatra. dizendo ter tomado conhecimento da Resolução do Conselho Federal de Medicina. a paciente foi acolhida e logo encaminhada ao Serviço de Psicologia Médica e Saúde Mental para o diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero e acompanhamento psiquiátrico até a realização de sua cirurgia em 2000. inaugurou-se no HUCFF-UFRJ um trabalho de assistência a esta clientela. ainda que a assistência interdisciplinar a transexuais não estivesse totalmente estruturada e existisse uma certa dificuldade em se estabelecer uma rotina para a realização da cirurgia dos pacientes em seguimento clínico. em um primeiro momento. Formalmente.

que é realizada através de uma entrevista com o psiquiatra. O programa segue todas as exigências do CFM.58 avaliação psiquiátrica no ambulatório de Saúde Mental. pois. o acompanhamento endocrinológico dos pacientes deste programa é realizado no Instituto de Estadual de Diabetes e Endocrinologia do Rio de Janeiro (IEDE). quando oficialmente está incluído no programa. Nesta avaliação. embora o HUCFF-UFRJ disponha de um Serviço de Endocrinologia. o usuário é esclarecido sobre o modo de funcionamento do programa e tem seu prontuário aberto. Passada esta etapa de avaliação. utilizamos a palavra “formalmente” por observarmos que seu funcionamento não é exatamente como o previsto pela sua proposta. a necessidade de estabelecer parcerias com outras instituições. o qual também fornece as medicações necessárias quando as . uma demora na realização das cirurgias. é encaminhado para entrevista com o Serviço Social e para avaliação e consulta com a Endocrinologia. Este fato fica bastante evidente ao nos determos em alguns pontos como a questão do tratamento hormonal. na realidade constatamos uma carência de profissionais interessados neste tipo de assistência. Após o período mínimo de dois anos avalia-se a possibilidade de realização da cirurgia de transgenitalização e o usuário permanece sendo acompanhado no pósoperatório para manutenção da hormonioterapia e avaliação da necessidade de reparos. contudo podemos observar que para a prestação de uma assistência que contemple as necessidades e demandas destes usuários foi necessária a criação de algumas estratégias. Vale destacar que quando descrevemos o modelo do programa. e a constantes situações de preconceito e constrangimentos. A partir daí. o usuário passa a ser atendido permanentemente pela psiquiatria e psicologia e é periodicamente avaliado pela Urologia e Cirurgia Plástica.

e não nas enfermarias. Isto porque desde 2001 não há disponibilidade de profissionais deste Serviço para prestar atendimento aos usuários que objetivam a redesignação sexual. a cirurgia de transgenitalização caracteriza-se por um procedimento cercado de obstáculos e resistências. sendo habitual a utilização de alguns cuidados especiais para preservar os pacientes de situações constrangedoras .como pequenas observações ao lado do nome na capa do prontuário para que não sejam chamados pelo nome civil e a internação em quartos individuais ou duplos. destacando que esta última aconteceu somente após a formalização do Programa de assistência a pacientes transexuais. Por diversas vezes também. um desconforto permanente de toda instituição. Além disso. é necessário criar formas estratégicas para lidar com o preconceito. Um aspecto bastante ilustrativo deste fato é o intervalo que podemos observar no HUCFF–UFRJ de quatro anos entre a primeira e a segunda intervenção cirúrgica. Mesmo com a utilização de tais subterfúgios.59 mesmas estão disponíveis na farmácia da instituição. percebemos que algumas pessoas demonstram discordar da realização da intervenção cirúrgica de transgenitalização no hospital sob a alegação de que este procedimento parece ser “uma castração de pacientes saudáveis”. alguns profissionais solicitaram que o serviço não fosse divulgado para que não houvesse um crescimento do número desses pacientes no hospital. A todo momento. Do mesmo modo que a hormonioterapia. a partir da alegação de que existem outras prioridades a serem atendidas no hospital. verificamos com certa freqüência situações de estigma e preconceito como as que aconteceram em novembro de 2004 quando duas pacientes foram internadas simultaneamente para realização da cirurgia de transgenitalização e passaram por situações de extremo . ainda. Observamos.

estão sendo revistas todas as etapas desse projeto assistencial. A partir dos fatos explicitados e após quase dez anos do primeiro atendimento a um paciente transexual no HUCFF-UFRJ. tendo algumas delas a necessidade de reparos posteriores. aconteceram problemas com as internas de uma enfermaria feminina.60 constrangimento. como os expostos acima. Diante de tais fatos. Mesmo assim. onde as pacientes transexuais precisaram tomar banho. e analisadas de forma minuciosa as condições de atendimento de cada especialidade e estão sendo estudadas novas possibilidades de convênios e parcerias para manutenção desse programa no qual desde 1997 já foram atendidas dezoito37 pacientes com demanda pela cirurgia de transgenitalização e realizadas cinco cirurgias. de modo a possibilitar a estas pessoas melhores condições de assistência no HUCFF-UFRJ. “saber se a cirurgia ficou bonitinha” entre outros fatos. o programa vem passando por um processo de reavaliação e reestruturação no qual estão sendo considerados todos os problemas e impasses. pois segundo as pacientes desta enfermaria. “aquelas pessoas não deveriam usar aquele banheiro. três abandonos. Nesse sentido. . podemos perceber que poucas 37 Entre esses pacientes houve uma desistência na qual o paciente alegava não precisar mais da cirurgias.absoluto sigilo sobre as pacientes para evitar situações constrangedoras. Atualmente são atendidos no HUCFF–UFRJ sete pacientes (transexuais masculinos). escutamos alguns relatos de funcionários do andar afirmando que muitas pessoas ficaram sabendo do “evento” e que por diversas vezes tiveram de intervir com os colegas e outros pacientes que pareciam curiosos em ver “aquilo”. uma paciente já operada em outro país procurou o hospital visando laudo psiquiátrico para troca de nome. Concomitantemente. afinal eram moças de barba e chicote na mão”. entre os quais três já realizaram a cirurgia de transgenitalização e qautro encontram-se aguardando a cirurgia seja porque esta ainda não foi agendada ou porque não completaram o prazo mínimo de dois anos exigido pelo CFM. foi solicitado pelos cirurgiões a toda equipe especialmente à enfermagem . Nessa ocasião. uma recusa de inclusão no programa pelo fato do paciente ser menor de idade.

especialmente. o . resistências de profissionais envolvidos neste processo e. apesar desta questão ser permanentemente problematizada pela própria equipe de saúde mental. Analisando prontuários de pacientes que estiveram em atendimento entre 1997 e 2006 no HUCFF-UFRJ. e estes pacientes passaram a se endereçar diretamente à Saúde Mental onde são avaliados para então iniciar os procedimentos necessários para a transformação corporal e são acompanhados de forma contínua até mesmo depois da cirurgia. a principal referência de atendimento no hospital a pacientes com a demanda cirúrgica de transgenitalização e hormonioterapia é. Cabe destacar. atual coordenador do Programa. Todavia. também nos permite perceber que alguns impasses nesse campo se mantêm. sendo o contato com a Saúde Mental posterior ao atendimento destas especialidades. a consolidação de sua referência na compreensão da condição transexual como uma patologia psiquiátrica. entre os quais destacam-se questões práticas. ainda. podemos observar que antes da institucionalização do programa. que estabeleceu um vínculo estreito de trabalho psicoterápico com todas as pacientes e permanece como referência no atendimento a essa clientela na instituição. A análise desse período permite observar que de alguma forma esta assistência se tornou mais consistente e um pouco mais organizada. a disponibilidade e o investimento do psiquiatra. Endocrinologia. mas. com a criação e formalização do programa assistencial em 2003 isto se modificou. por outro lado. Urologia entre outros) funcionavam como porta de entrada para transexuais com demanda cirúrgica e de tratamento hormonal. mesmo que a avaliação do paciente pela Psiquiatria fosse fundamental para o início de seu tratamento.61 modificações aconteceram no processo assistencial. variados serviços do hospital (Clínica Médica. Assim. desde então.

realiza um atendimento psiquiátrico e psicológico diferenciado de outros programas problematizando essa definição diagnóstica por compreender que a condição transexual não remete a nenhuma incapacidade mental. observação participante de grupos terapêuticos mensais realizados no ambulatório de Saúde Mental com os pacientes e entrevistas semi-dirigidas com os mesmos . descrevendo detalhadamente sua construção e atuação. nas quais “as pessoas seguem trajetórias singulares de subjetivação que ultrapassam em muito esta questão” (Arán. III. Nesse sentido. na maior parte das vezes bastante produtiva.que permitiram mapear as características institucionais deste programa. na pesquisa de campo utilizamos três técnicas para coleta de dados . no HUCFF o atendimento psiquiátrico para a confirmação do diagnóstico de transexualismo é também um dispositivo de cuidado no qual algumas pessoas optam por realizar uma psicoterapia. No que se refere à realização da observação livre do programa. Zaidhaft. coordenado pelos professores Márcia Arán e Sérgio Zaidhaft e aprovado pela Comissão de Ética do .observação livre do programa (incluindo a análise de prontuários de pacientes que já estiveram ou estão em atendimento). Murta. além de analisar os efeitos da psiquiatrização da transexualidade nesse contexto. destacamos que esta aconteceu inicialmente ao longo da realização do Projeto “Transexualidade e cirurgia de transgenitalização: Um desafio para a medicina”. 2006). apesar de seguir a definição do CFM que o paciente deve ser diagnosticado com Transtorno de Identidade de Gênero.2 – Efeitos da utilização do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero nas práticas de saúde Como afirmamos anteriormente.62 Serviço de Psicologia Médica e Saúde Mental que.

Através da observação participante em grupos realizados no último ano no ambulatório de Saúde Mental. além de poder observar a emergência de diversas temáticas que vão desde o desejo de compartilhar experiências e angústias até sua utilização como um local de discussão e esclarecimento sobre as condições de acesso aos direitos. M. S. que é referência para casos de alta complexidade e atende pacientes não apenas de sua área programática.. Tais observações permitiram a descrição e análise deste serviço. os profissionais que nele atuam (médicos de diferentes especialidades. A observação participante dos grupos terapêuticos e as entrevistas com os pacientes do programa tiveram como objetivo a coleta de material que permitisse compreender de forma ainda mais aprofundada a demanda de transexuais por tratamento médico-cirúrgico e as implicações da compreensão da transexualidade como uma patologia psiquiátrica sobre suas vidas. Murta. Transexualidade e saúde: análise de uma experiência clínica institucional. assistentes sociais e funcionários do hospital) e os pacientes que foram e são assistidos pelo programa. Em relação às entrevistas. bem como relatos de experiências desta prática assistencial. mas também de outros estados. psicólogos.. . No prelo 2006. O recorte empírico foi o funcionamento formal do programa. Este Projeto teve como desdobramento a pesquisa realizada no mestrado39 e foi efetuada de forma assistemática. no qual particpava como observadora dos atendimentos psiquiátricos dos pacientes que desejavam se submeter a cirurgia de transgenitalização.63 HUCFF protocolo 073/02 CEP/HUCFF/UFRJ38. A instituição observada é um hospital terciário. 39 Cabe salientar que a minha aproximação do campo se deu a partir de um estágio que realizei em 2001 no Serviço de Psicologia Médica e Saúde Mental do HUCFF–UFRJ. voltado para ensino e pesquisa. com faixa 38 Ver mais detalhes em Arán. tivemos acesso a uma multiplicidade de questões associadas à condição transexual. D. 40 Entrevistas realizadas a partir da pesquisa citada anteriormente. Zaidhaft. realizamos dezesseis encontros40 no próprio hospital com pacientes transexuais masculinos atendidos no ambulatório.

pois os pacientes se submeteram à cirurgia de transgenitalização durante esse período e novos conteúdos poderiam ser acrescentados a investigação. Para analisar os dados obtidos. realizamos uma primeira leitura do material para ter uma noção geral do mesmo e organizamos os relatos de acordo com os objetivos da pesquisa. Apresentaremos a seguir algumas questões que consideramos mais relevantes para a análise dos efeitos do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero nas práticas de saúde. Mediante a apresentação e assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.ibid. mas sim a noção de que a amostra ideal é aquela que é representativa. efetuamos uma análise de conteúdo dos dados coletados de modo a produzir materiais. 1 – Demanda cirúrgica e processo terapêutico: . apenas em três casos foi necessário realizarmos mais um encontro para complementar o conteúdo das entrevistas. Vencida essa etapa de organização. realizamos entrevistas semi-dirigidas. Ao longo desse processo. Para isso.64 etária de 20 a 50 anos. tal como demonstra Minayo (1992:102). que permitiram posteriormente a apreensão dos significados e da diversidade das narrativas dos entrevistados.:99). nos preocupamos com o aprofundamento e abrangência da compreensão de nosso objeto. iniciamos um trabalho de análise do conteúdo apresentado nas falas do entrevistados. Para definir a amostra. que foram gravadas e transcritas para posterior análise. não utilizando o critério numérico. Vale destacar que optamos por realizar essa modalidade de entrevista por entender que dessa forma é possível apreender a visão dos atores sociais previstos nos objetivos da pesquisa sem restringir a coleta dos dados às referências do pesquisador (Minayo.

seja através da realização da cirurgia de transgenitalização. Eu sou super feliz comigo mesma. Seguem abaixo alguns exemplos das falas das pacientes quando perguntadas sobre seu desejo de realizar a cirurgia: “É porque eu não me penso nesse corpo. não tem nada a ver comigo psicologicamente” (Priscila. eu tenho uma coisa que me incomoda. ter os direitos que eu não tenho” (Roberta.. (. “Eu sinto necessidade de fazer essa cirurgia. “Eu quero fazer a cirurgia. 36 anos). hormonioterapia ou pelo processo de mudança de nome. as usuárias serão denominadas no feminino por se apresentarem dessa forma.considerado o “verdadeiro sexo” . Eu não tiro meu chapéu para mulher nenhuma. eu me sinto uma supermulher..) Eu só quero levar a minha vida normalmente.. 41 anos). a incompatibilidade entre o seu gênero .e o seu sexo biológico. Ser um ser humano normal.. Assim. Eu vivia entrando em depressão (. . Nos relatos. Em todos os casos destaca-se a certeza de pertencimento ao gênero feminino e o desejo de alcançar reconhecimento como alguém desse sexo com o qual se identificam. na realidade.65 Observamos ao longo do estudo que todas as usuárias41 inicialmente chegam ao hospital com uma única demanda: a adequação a uma condição considerada já existente. podemos notar que as usuárias chegam ao HUCFF–UFRJ com o desejo explícito de iniciar o processo de modificação corporal alegando que este é fundamental para suas vidas. eu estou com um espírito montado um corpo que não é meu. Foi isso que me fez procurar ajuda. mas. Diante dessas falas podemos notar que o interesse em realizar a transformação corporal está absolutamente relacionado a um desejo de livrar-se de uma 41 Nesse momento. qual seja. o que surge de forma bem aparente é a necessidade de se livrar de um corpo que elas não reconhecem como seu e o desejo de ter uma vida normal. veja bem. sem esses problemas. Me incomoda porque não tem nada a ver comigo fisicamente. para mim eu não sou homem.) Embora eu reconheça que biologicamente sou do sexo masculino. então eu não me sinto bem” (Maria. 33 anos).

vai ter alguma possibilidade porque tem algumas terminações nervosas (. parecendo muito claro que ao mesmo tempo em que esta transformação trata-se de algo fundamental para o exercício da cidadania e para sua auto-realização. que eu vou conseguir ter uma vida direita.. as pacientes têm clareza sobre o tipo de mudanças que a cirurgia promove. Embora possamos observar que para a maior parte dessas pessoas. Eu vou poder. sendo a cirurgia de transgenitalização um meio para garantir a inteligibilidade social. visto que a sociedade exige uma correspondência entre sexo e gênero (Bento. a cirurgia vai me deixar normal (. “Eu tenho consciência de que eu nunca vou ser uma mulher completa. devemos destacar que nem todos os pacientes reconhecem na cirurgia o fim de suas dificuldades.) Eu sei que não vou ter a sensibilidade de uma mulher. de me entregar a alguém de verdade. 27 anos). podendo me assumir para os outros” (Carla. não significa a solução de todos os seus problemas ou a transformação absoluta de um corpo masculino em um corpo feminino. . “A minha expectativa é de uma vida normal.) Ser uma mulher para mim é estar integrada na sociedade. Para mim o lugar certo de mexer é dentro da cabeça.. 33 anos). eu tenho tanta vontade de ser alguém. Mas só de tirar (o pênis) eu já vou me sentir mais segura diante das pessoas (. prazer eu sei que eu não vou ter.. mas o único jeito é mexer na parte genital” (Roberta.) Mas meu caso não é esse. “Sentimentalmente eu acho que vai mudar muito.) Eu acho que a adequação sexual no meu caso vai ser a cereja que falta no bolo” (Aline. Mas eu não tenho essa liberdade. Em geral... eu tô preocupada com a feminilidade. Para estes indivíduos a redesignação sexual é um processo de adequação a uma condição pré-existente. Se eu colocar uma roupa vai ficar direita.. 34 anos)... a “correção” do sexo anatômico seja compreendida como algo absolutamente necessário para sua existência. Eu não tenho esse direito ainda (. 2003).66 ambigüidade e se adaptar a norma heterossexual.

E agora estou satisfeita com o meu sexo (.).) Eu já consegui o que eu queria que era me transformar em uma mulher. bem como os outros procedimentos associados à redesignação sexual. e de grande parte dos teóricos. seja que a principal característica da transexualidade é a demanda de realização da cirurgia de transgenitalização como uma forma de inserção na norma heterossexual. 25 anos) A partir disso. Mas agora também eu acho que eu nem quero mais casar.. Nesse sentido. notamos que a importância da cirurgia vai variar para cada uma dessas pessoas. Se aparecer algum homem interessante pode até ser. Eu achava que nenhum homem queria casar comigo por eu não ser uma mulher.] Dentro desse tempo que eu fiquei (no Programa) e descobri que a cirurgia não poderia ser realizada. quando não desejam realizar a cirurgia. No momento to muito bem assim to me sentindo bem”. as mesmas deixam de “ser transexuais”. não significando que. foi quando eu me liberei mais pro sexo e pro prazer. Em outras palavras. E isso interfere na cirurgia [. Ter os homens que eu quero.. sendo para alguns uma questão fundamental e para outros apenas mais um recurso para assumir sua identidade de gênero e poder ser reconhecido no interior da normatividade cultural. existe uma diversidade de trajetórias sexuais e subjetivas que denotam que muitas transexuais consideram a cirurgia. devemos destacar que nem todos os transexuais procuram o tratamento com o objetivo único de manter relações sexuais. “Não vou fazer mais a cirurgia porque sou soropositivo há três anos.. ter os heterossexuais.. Como afirma . Murta e Zaidhaft. percebemos que a cirurgia de transgenitalização não tem a mesma representação para todos os transexuais...67 Ainda que o discurso da maioria dos pacientes. possibilidades para a construção do gênero e que nem “todas” desejam a extirpação do pênis e a construção do canal vaginal (Arán.] O meu objetivo com a cirurgia era mais esse. ibid. (Gabriela.[.

Isso foi em 97” (Aline.) Eu fui. De qualquer modo. em outros percebemos que o acesso ao serviço de saúde foi um processo complexo e cheio de preconceitos. e se ele podia fazer isso já que eu estava explicando para ele minha situação.. essas pacientes passaram a procurar ajuda e ingressaram em programas assistenciais. o médico falou: ‘Já tá podendo fazer a cirurgia. Eu falei que precisava de um acompanhamento. em alguns casos. “Mandaram eu ir na UERJ. e ele falou que não ia me dar porque era uma opção minha ser assim e eu disse que não era opção” (Roberta. fiquei sendo tratada. um tratamento. ir em vários lugares porque eu precisava de uma autorização para fazer a cirurgia. Em alguns casos podemos notar que o processo de cuidado se apresentou desde cedo e não estava associado apenas à cirurgia de transgenitalização. “Eu era bem jovem. os motivos que levam o sujeito a desejar se submeter à cirurgia são variados e acontecem em circunstâncias diferentes da vida de cada um. (. falando com a minha mãe. a partir da identificação de alguma possibilidade de atendimento da demanda da transexualidade no serviço público de saúde. Eu expliquei que eu queria apenas um encaminhamento porque eu não sou homossexual. sendo muitas vezes atendidas por instituições que não dispunham ainda de programa específico a esta clientela e tornando-se. eu era uma menina. No que se refere à trajetória destas pessoas em busca de tratamento é possível perceber que os usuários seguiram caminhos singulares e procuraram ajuda de formas diferentes ao logo de sua vida. . falando que se eu sou homossexual era um problema meu e que ele não ia me dar autorização. Pelo menos eu ia ser assistida [sobre ser assistida apenas hormonalmente e psicologicamente]. até que um dia.68 Bento (2006:156). “agentes” de implementação dos mesmos42. ele foi completamente ignorante comigo. porque naquela época eu vivia incógnita. Quando eu consegui ir ao médico.. 33 anos). 42 Tal como ocorreu no HUCFF – UFRJ. 34 anos). eu falei ‘não’. sabia?’.

mas para eu tentar. a Priscila. a pessoa que me trouxe aqui. 41 anos).. quem sabe eu não conseguia alguma coisa.. Márcia [psicóloga do programa]. né?! Endocrinológico.) Foi aí que eu vim pra cá. “. as usuárias chegavam ao hospital através de encaminhamento de outra instituição ou procura espontânea e. que é uma amiga. Porque eu até já pensei em ir para o exterior para fazer essa cirurgia” (Priscila. a maior parte chega ao “Programa de Assistência a Transexuais e Cirurgia de Transgenitalização” através da indicação de outras pacientes que já estão sendo atendidas e se direcionam diretamente ao Serviço de Psicologia Médica e Saúde Mental que se tornou a referência de atendimento deste serviço. “Foi através de uma vizinha. Não era uma coisa certa.. Sergio [psiquiatra do programa] porque não tava entrando mais ninguém no grupo. “Eu participei de um projeto chamado Projeto Praça Onze..) Aí me disseram que no Fundão tem o Dr. até 2003. que fazia atendimento a grupos de homossexuais e transexuais com HIV do Hospital São Francisco de Assis. Sergio.. (. (. ela se atendia com a Dra.. Atualmente. e ele me encaminhou para a Dra. mas na verdade tem uma transexual que já foi operada. se endereçavam a serviços do hospital que supunham estar associados ao tratamento que procuravam. pacientes transexuais passam pelo protocolo de atendimento exigido pelo CFM e têm seu acesso à cirurgia de transgenitalização e a todos os outros procedimentos necessários para redesignação sexual garantidos pelo diagnóstico psiquiátrico de transexualismo. (Aline. 34 anos) . A Priscila me trouxe para falar com o Dr.69 No caso específico do HUCFF–UFRJ. eu tive uma consulta com ele.. Ana Silva. 36 anos). que era paciente daqui. Ela falou com o Dr. eu estava muito perturbada. Desde então. estava precisando de tratamento. Luís que tava fazendo tratamento que dá a possibilidade das pessoas fazerem cirurgia. Então. E aí ela me trouxe para cá. como a endocrinologia e a cirurgia plástica.. Tem dado certo”.” (Maria. a Vanusa.

70 Vale destacar que. discutindo as melhores formas de administração das mesmas e procurando no próprio hospital atendimento para realização das cirurgias plásticas complementares ao processo de redesignação sexual (prótese mamárias. Freqüentemente. Contudo.. Em relação ao procedimento cirúrgico de transgenitalização propriamente dito ocorre o mesmo interesse e preocupação. quando foi há dois anos atrás.) Aí. eu ficava sem dinheiro aí tinha que parar. tentando. eu vim fazer o tratamento aqui com a Dra. a partir do início do acompanhamento isto parece ser um ponto de preocupação delas.. incluindo uma atenção maior ao tipo de hormônio que estão utilizando. tentando. retirada do pomo de Adão. sei lá. eu já estou no programa há dois anos e cinco meses aqui no hospital. observamos discussões sobre este assunto e o surgimento de questões associadas à avaliação que fazem sobre o atendimento prestado nas instituições de saúde bem . “Eu tomava anticoncepcionais. aquele que evita gravidez. quando as pacientes chegam ao hospital já realizaram algum tipo de modificação corporal como implante de silicone nas mamas e uso de hormônios sem prescrição médica..) Eu fiquei com medo. 41 anos). Aí esses anos todos tentando. Podemos perceber que as pacientes apresentam interesse sobre as técnicas disponíveis atualmente. (. Até chegar no Perlutan. e cada vez que eu aumentava a dose eu via que eu não conseguia manter porque ficava caro. e aí ficou os vasos [efeito colateral do uso de hormônios]” (Maria. Juliana. (. normalmente. e uma vida muito ansiosa porque eu via que não conseguia aquele corpo que eu tanto desejava.). 1 ml. Eu injetava dia sim dia não. se posicionando criticamente em relação à medicação que está sendo prescrita. e naquela época eu comecei a injetar 1 ml de progesterona. Foi muito foi isso que eu desconfiei que escangalhou. que eu não sabia que fazia o mesmo efeito. Então foi passando o tempo. seu fornecimento. etc. demonstrando uma certa preocupação sobre quais métodos são utilizados em cada programa e quais são os serviços que dispõem dos melhores profissionais. Mas não teve jeito..

Diante disso. assim como a apresentação de comportamentos que são esperados por um transexual que Bento (ibid.) entrei em anorexia (... 2 – Sofrimento psíquico e prejuízos sociais Podemos perceber que para as pacientes a transexualidade é uma condição de intenso sofrimento psíquico que se apresenta de diversas formas.. em alguns casos. Através de seus relatos podemos perceber que seu percurso até o acesso ao tratamento foi margeado por diversos momentos diferentes que vão desde a percepção da transexualidade até a sua inclusão em um programa de cirurgia de transgenitalização.) eu tava superdeprimida. Com certa freqüência. relatam sentimentos de angústia devido à situação que vivem e. observamos que esse processo não se encerra aí sendo necessário mesmo dentro do tratamento uma adequação contínua ao ambiente hospitalar que se faz através da apropriação do discurso médico por parte das pacientes. incorporação de um diagnóstico..71 como a possibilidade de realizar a cirurgia de transgenitalização em um serviço particular por acreditarem que assim poderiam agilizar o processo e ter um atendimento de melhor qualidade “porque estão pagando”. “Isso me levou a crises de histeria (. observamos ainda a ocorrência de sintomas graves como transtornos alimentares e depressões que já culminaram até em tentativas de suicídio e desejo de auto-mutilação (extirpação do pênis). notamos que a entrada das pacientes transexuais nos serviços de saúde ocorreu gradualmente culminando na constituição de serviços orientados exclusivamente para essas pessoas. com crise de bulimia. você é um hermafrodita e vamos ter que te operar às . Entretanto. Eu queria continuar vivendo com a ilusão de que de repente ‘ah.:61) vai denominar de uma “assepsia” das performances dos candidatos a cirurgia de transgenitalização.

Já cheguei a usar esparadrapo para prender e ficar o dia inteiro.72 pressas’(. visto que o sujeito confronta-se a todo tempo com o preconceito e com restrições sociais das mais diversas ordens devido a sua condição.) Fiz por causa da minha condição. Entretanto. De acordo com a psiquiatria. mas também pelos prejuízos sociais. mas já pensei. eu me sacrificava e cortava meu pênis” (Lizandra. . 15 anos). Eu fiquei internada um dia e depois me encaminharam. embora a maioria das pacientes tenha uma profissão ou estejam cursando o nível superior. mas eu não consegui morrer. e aquelas que têm emprego fixo normalmente escondem sua condição.. éticos e jurídicos que afetam diretamente a vida dessas pessoas... não devemos desconsiderar a conjuntura na qual estão inseridos. as duas cartelas. Aí.. Aos poucos foi passando. bicos e se prostituem. Nesse sentido. (. não queria dormir e aí resolveram me levar pra lá.) E ficavam me forçando a tomar medicação.. (.) Já pensei até em colar (o pênis) com superbonder. é visível a dificuldade de inserção no mercado de trabalho formal devido a problemas de documentação e aparência. eu comecei a chorar. por tudo.. estes sintomas seriam interpretados como comorbidades do Transtorno de Identidade de Gênero. (. a maior parte das pacientes se mantém através de trabalhos informais. quando me deixaram sozinha eu tomei toda a medicação. 34 anos). “Se existisse uma injeção que paralisasse o corpo. No outro dia eu acordei toda torta. Esta questão é bastante visível no que se refere ao trabalho. Eu não queria tomar medicação. Em muitos casos.) Eu não sei o que eu tive. Eu não queira comer.. destaca-se o fato que este sofrimento não se dá apenas pela experiência de não pertencimento ao sexo dito biológico. não podia fazer xixi” (Aline. no Pinel. A medicação me deixava mais “tereré” ainda. 25 anos). depois comecei a rir e chorar de novo.. Eu pirei por causa disso. É lógico que eu não faço porque não sou louca. “Teve uma vez que eu fui para no hospital psiquiátrico. Eu queria morrer. Desse modo. Eu tinha medo de assumir para as pessoas” (Gabriela.

Eu fui discriminada. em especial. me magoou muito” (Roberta. 34 anos).. pela precariedade social proveniente da não aceitação dessas pessoas pela normatividade cultural vigente (Arán. 33 anos). Sendo assim.73 “.) Eles não me consideraram apta para exercer a função por causa disso (transexualidade) sendo que já estava tudo pronto para assinar minha carteira. “Eu tenho entrado em muito desespero por causa disso [dificuldade de arranjar emprego]. a transexualidade não necessariamente fixa uma posição subjetiva.. Assim. “As pessoas no meu trabalho pensam que eu sou uma mulher. só faço bicos (. ibid. (.. não sabem da minha condição” (Aline. Isso é horrível.. nestes casos. Eu acho que mesmo operando ainda vão continuar os problemas por causa da mudança de nome” (Roberta. Uma vez eu ouvi que eu sou uma aberração. deslocar a manifestação empírica e social da transexualidade da .. É fundamental para essas pessoas que o seu desejo seja acolhido e que elas possam ser reconhecidas pelo sexo com o qual se identificam. 33 anos). sendo importante. Murta e Zaidhaft. Em relação a esta dificuldade de arranjar um trabalho formal. mas não podemos reduzir todo o conflito vivido por transexuais a essa experiência. eu nunca trabalhei de carteira assinada. obrigação de ficar calado. a nada! Você só tem obrigações. Porém.. acreditam que a mudança do nome civil é um procedimento fundamental para sua inclusão social e acesso a possibilidades de trabalho compatíveis com sua competência profissional. verificamos que a transexualidade é uma condição de sofrimento que não se deve apenas a sensação de não pertencimento ao sexo dito biológico mas. É claro que o sentimento de pertencimento ao gênero oposto é fonte de angústia para esses indivíduos.) Você não tem direito a nada.). todas as pacientes concordam que isto está associado diretamente à incompatibilidade entre sua imagem e o nome que consta em seu documento.

2006:61). eu nunca tive o mesmo comportamento. Sei lá. 33 anos). o que nos permitiria escapar da psiquiatrização ou mesmo da violência da interpretação psicanalítica. Eu sabia que eu era diferente (. sendo reforçada e estimulada pela família em alguns casos. você é feminina ou não” (Aline.) Eu sempre me identifiquei mais com as meninas. ser amorosa. É possível perceber que a sensação de pertencimento ao sexo feminino está calcada nos códigos culturais vigentes que definem os membros desse gênero e que há uma crença comum de que possuem uma essência feminina tal qual a de uma mulher “normal”. esta experiência é algo presente em suas vidas desde a infância. eu nunca parei pra conceituar o que é ser feminina. a mesma vontade que eles. Não sei. Eu nunca fui igual aos outros garotos. a transexualidade só se constituiu como um conflito efetivamente no início da adolescência quando os . A experiência transexual. sensível. portanto.. Na maior parte dos casos. comportaria várias formas singulares de subjetivação (Arán. é ser delicada. e vivida de forma traumática em outros. “O que é feminino? É muito complicado. as mesmas conversas” (Roberta. 34 anos).74 necessidade de traduzi-la imediatamente numa estrutura ou num modo de funcionamento psíquico específico.. ainda mais nos dias de hoje. 3 – Construções de gênero na transexualidade e diversidade da experiência transexual: Entre todas as pacientes transexuais atendidas no HUCFF–UFRJ observamos a descrição de uma certeza de pertencimento ao gênero feminino baseada em diversas referências identificatórias entre as quais se destacam idéias estereotipadas sobre feminilidade. “Porque desde os sete anos eu já me sentia diferente dos outros meninos. Segundo as descrições. Tem os mesmos pensamentos. Acho que é uma coisa inata. É muito difícil.

O recreio para mim era um tormento” (Aline.. “. eu queria ser um rapazinho” (Gabriela. nunca tive muita virilidade (.:156).. . era um termo bem chulo. Parecia uma garotinha. a minha voz nunca foi grossa. “O meu rosto sempre foi unissex. barba eu nunca tive assim espessa” (Roberta.. “Da infância eu não lembro direito mas a adolescência foi um caos. ibid... Isso me incomodava muito nessa fase. Era complicado porque eu queria ser um hominho. Sempre foi essa. Com doze anos eu não tinha pêlos.. E. Por outro lado.) Eu já era uma menina porque a minha mama já estava crescendo.. eu tinha cabelo mais curto e mais encaracolado. Foi um horror! Eu sofri muito. em seus discursos observamos a ênfase nas características da mulher idealizada com base em padrões de masculinidade e feminilidade que foram construídos socialmente (Bento. mais pro feminino. 34 anos). Quando a minha mama começou a crescer foi um problema seríssimo porque eu era alvo de piadinhas. denotando que se definem a partir de ideais compatíveis 43 De acordo. muito mesmo. que se expressam em seus comportamentos e também nos seus relacionamentos sociais43. Começou a aparecer coisas de homem.. Observamos que sua “identidade de gênero” é construída sobre representações naturalizadas de identidades masculina e feminina. mas uma coisa meio andrógina (. é. a minha aparência já foi feminina desde criança. eu não sei se era macho-fêmea. relatam que foi nesse momento da vida que assumiram o desejo de apresentar-se como mulher e passaram a utilizar vestuário feminino. eu não ia no banheiro de jeito nenhum. mas a minha voz nunca mudou. principalmente por causa dessas diferenças. ate os quatorze a minha aparência era normal.) Eu sempre me isolei. os transexuais masculinos teriam um posicionamento mais passivo em suas relações reproduzindo um papel feminino já ultrapassado. Talvez não feminina. 25 anos).. Assim..75 caracteres sexuais secundários tornaram-se mais definidos e a sensação de inadequação ao sexo biológico ficou mais evidente. 33 anos). como Zambrano (2003:50).

Ele sente prazer com a genitália dele.. embora a diferença pareça sutil. O travesti é um homossexual que tem o fetiche em parecer ser uma mulher. (. eles não têm a sensação que eu tenho de ser mulher.. isto é uma estratégia de enfrentamento do preconceito social ao qual estão submetidos. eles podem colocar silicone. bota silicone no corpo. Isso é um homossexual. que nasceu no corpo de um homem” (Aline.76 com as normas de gênero e se aproximam da definição de “transexual verdadeiro” fixada por Benjamin. Não. os transexuais desejam apresentar-se da forma mais “natural” possível para acionar uma fronteira identitária que reafirma que sua condição não se trata de um desvio moral..) Transexual é uma mulher. sexualmente falando. só que sente atração pelo mesmo sexo. mesmo afeminados. uma prótese no seio. pois desejam ter uma vida considerada normal e estarem profundamente adequadas ao chamado “sexo psicológico”. eu não me encaixo nisso porque eles apesar de ser homens. além de se diferenciar dos travestis que consideram ter uma imagem associada à marginalidade e violência.. Deste modo. sua condição é bem diferente da de travestis e homossexuais. Em sua concepção. mas sim de um acidente da natureza. Para Zambrano (2003:41). expõe mais o corpo. . Eu não me sentia bem em ser encaixado com alguém afeminado. “E eu nunca achei que eu fosse um homossexual porque eu sabia que era diferente. 34 anos). mas ele não tem a intenção de trocar de sexo. Já teve ocasião em que você pode ser taxada de travesti.) Mas para mim gay é homem. se veste de homem” (Roberta. psicologicamente falando. (. destacam que. além de eliminarem qualquer ambigüidade em relação a sua identidade sexual. 33 anos). Mesmo os travestis. ele está mais para homossexual porque ele usa a genitália dele. Eles não têm a pretensão de mudar de sexo. 36 anos). homossexuais. Isso é muito chato!” (Priscila. Só que. que convive bem com o sexo dele. É um fetichismo. “Tem gente que gosta de chamar atenção. “Homossexual para mim é um homem que está bem com o sexo dele. Fica evidente que não é uma mulher.

na maior parte das vezes. é compartilhada pelos profissionais de saúde que estão na assistência direta e. concepção esta que. mais precisamente. É horrível! Eu to no tratamento ainda entendo. imagina você sentada de frente para uma coisa dessas.:201). Até falo. Quer dizer na verdade eu não entendo nada. existem condutas básicas que diferenciam o transexual de outras categorias delimitando a diferença de sua condição em relação a qualquer outra que possa ser aproximada da transexualidade. Eu virei pro lado e ela veio me perguntar se ela estava me incomodando em alguma coisa e eu respondi que não. “Eu vi aqui uma vez uma que faz prostituição ali na Lapa. Ela tava com uma mini saia com tudo de fora. mas prefiro não me misturar” (Gisele.77 Nesse sentido.) Eu não gosto muito de ficar com as pessoas de lá porque parece que a gente fica sendo visto só pela imagem” (Priscila. 36 anos). porque eu já vi ela lá. para elas. ainda que possamos pensar que talvez seja esse movimento de inclusão e exclusão que produz as margens que delimitam as posições identitárias da transexualidade e que dão a transexualidade um lugar na . elas lá [IEDE] são totalmente diferentes da gente. 48 anos). Em seu ponto de vista. Diante dessas falas podemos notar que se produz nesse campo da experiência transexual um processo de afirmação e negação de modelos de identidade através do qual os chamados “verdadeiros transexuais” definem seu lugar e se distinguem de outros indivíduos que apresentam uma condição semelhante (Bento. No entanto. ibid. né? (. serve como critério diagnóstico para ingresso desses pacientes nos programas assistenciais.. Agora. “Não adianta. na verdade eu quis passar desapercebida. esquisito. existe uma distinção entre o “verdadeiro transexual” e aqueles que simplesmente reivindicam uma identidade feminina..

. 24 anos). tornando possível questionar a impressão de que a mesma só pode ser vivida de uma única forma e que se trata de um processo específico de construção da identidade de gênero. 4 – Sexualidade: Ao longo dos atendimentos e das entrevistas. 48 anos). Nesse sentido..78 inteligibilidade cultural devido a sua inclusão na literatura médica. Como demonstrado anteriormente..) Eu não sou uma mulher. mas posições identitárias que se apresentam em cada indivíduo de forma singular e contínua. ninguém vai tocar em mim” (Gisele. só vou ser quando tiver uma vagina (. “Meu amigo me perguntou se eu ia fazer a cirurgia mesmo pois eu ia perder o prazer. Eu perguntei para ele: que prazer? A gente perde o que a gente tem (. em geral. nos relatos podemos notar que. não podemos compreender esta condição como um tipo de identidade fixa e homogênea. Notamos que há uma diversidade dessa experiência que se contrapõe a definições estáveis. verificamos que não existe uma “identidade transexual”. “Eu quero fazer a cirurgia para mim. .) Meu problema é minha imagem” (Michele. o que está atrelado à demanda de adequação do corpo é principalmente o desejo de obter uma identidade compatível com o dito “sexo psicológico” e não necessariamente a possibilidade de ter relações sexuais heterossexuais. observamos que entre a maioria das pacientes as questões relativas às práticas sexuais não pareciam ter muita importância se comparadas com a questão do reconhecimento social como um membro do gênero feminino.. para eu não ficar com essa verruga a mais no meu corpo. Eu não pretendo ter relações sexuais com ninguém.

. como não tirar a roupa. Nenhum tipo de relação” (Roberta. não.. De qualquer modo. mas não queria gostar de ninguém. pra não tocar” (Aline.. ressaltando que não utilizam o pênis de forma erótica e recusando a definição de sua orientação sexual como homossexual ou qualquer aproximação com o travestismo. Eu sempre dava uma desculpa em relação à minha genitália para não olhar.. quero um relacionamento sério” (Vanessa. Para não ter problema depois eu falo de uma vez” (Paula.) A grande maioria não soube. “Eu tive um namorado por muito tempo.) Outro dia um cara da minha academia me chamou para sair com ele. eu não falei que sou transexual. são pessoas . Chegando lá eu falei logo: ‘Eu sou transexual!’.. “Tive contato mais íntimo de tocar. Agora de chegar ao ponto de ter relação. Quero fazer a cirurgia antes de ficar com alguém. é possível perceber que algumas das pacientes optaram por não se relacionar com ninguém ou ter qualquer tipo de contato sexual antes de realizar a cirurgia de transgenitalização. não ter contatos mais íntimos. “Eu sempre arranjo namorado. Em sua interpretação. 33 anos). 34 anos). dizer que são hermafroditas ou mesmo que são mulheres com algum tipo de problema na genitália. 23).. Aquelas que chegam a ter algum tipo de relacionamento normalmente temem a reação do parceiro e criam estratégias para esconder sua condição. porque pensam que assim podem se preservar da situação de terem que se apresentar como transexuais. (.79 Nesse contexto. Entre as pacientes acompanhadas no HUCFF . mesmo tendo relações sexuais.UFRJ são poucas as que escolhem revelar que são transexuais e tem uma vida sexual ativa e satisfatória. que sou hermafrodita ele engoliu na boa (. isso eu tive. 32 anos). quando se referem aos seus relacionamentos e às relações sexuais propriamente ditas destacam a vontade de serem vistas e desejadas como uma “mulher verdadeira”. “Eu gosto de uma pessoa.

Murta e Zaidhaft. “O meu maior problema é que eu gosto de ter relação com heterossexuais. vale destacar que em relação a este aspecto estamos falando especificamente das pacientes deste contexto de pesquisa. eu sou uma mulher” (Roberta. ibid. que o cara me toque como se tivesse tocando uma mulher. aquele caos” (Priscila. sendo necessário considerar a possibilidade da diversidade do desejo. Ele queria uma coisa que eu não vou poder dar.:212). Eu gosto de heterossexuais. eu tive. falei não. Visto que não há uma relação direta entre orientação sexual e identidade de gênero. ibid. É o que acontecia nesse relacionamento que eu tive. sendo o exercício da sexualidade mais um momento entre outros de confirmação do gênero identificado (Bento. bissexuais ou mesmo que não desejam ter qualquer tipo de relação sexual em nenhum momento de sua vida.. 36 anos). Quando eu descobri que ele era homossexual foi horrível. que durou dois anos. Mais a pressão das outras pessoas em cima da pessoa que tava comigo achando que ele era viado. Não gosto de homem que pensa que. Tive e achava que ele era homem. “Se eu disser que nunca tive relacionamento com um homossexual é mentira. Quando chegou nesse momento eu mandei parar. Desse modo. mas não é fácil convencer eles que não tem nada a ver” (Gabriela.) e esperar desses indivíduos condutas que estejam absolutamente de acordo com as normas de gênero. que saia comigo com tendências homossexuais.. chegou um momento que a pessoa queria uma coisa que eu não tenho. não tem como. Eu gosto de sentir. Nesse sentido.80 portadoras de uma identidade feminina e de um desejo heterossexual. Isso eu tenho conseguido com sucesso. não devemos encaixar a transexualidade numa matriz heterossexual (Arán. para elas é fundamental que o parceiro reconheça a sua identidade feminina. . Eu falava para ele: você não é viado! Eu não me sinto homem. “O que passa na minha cabeça é que eu não sou homossexual. Todavia. 33 anos). podemos nos defrontar com transexuais homossexuais. 25 anos).

que era Roberto mesmo. que o Francisco é que tinha que ir lá. o rapaz não queria me dar de jeito nenhum. Eu não quero ficar falando isso pra todo mundo. verificamos que é bastante comum. a criação de estratégias para lidar com todas as dificuldades que são geradas pela incompatibilidade que há entre seu nome civil e sua imagem. Entre as pacientes. 36 anos).81 5 – Identidade civil Ao longo do estudo podemos observar que a demanda de adequação da transexualidade não está restrita às transformações corporais. “Quando eu fui na zona eleitoral buscar o meu título. sendo a modificação do nome civil na redesignação sexual um ponto tão fundamental quanto à cirurgia de transgenitalização. passei a explicar. A primeira delas e a mais comum é se apresentarem com um nome feminino. Nessa condição esta questão apresenta-se como um ponto de extrema relevância por todos os constrangimentos que promove na vida social afetando diretamente o exercício de cidadania dessas pessoas e restringindo seu acesso ao emprego formal. Aí. Eu quero ter meus documentos normais” (Priscila. que em geral é a adaptação de seu nome no documento. 33 anos). foi porque mudou a supervisora e o cara acreditou que os documentos não eram meus. “Quando eu entreguei o documento [em uma seleção de emprego] e ela viu o nome. “E em relação ao problema que eu tive no banco. Então perguntei se ele queria que eu levantasse meu vestido para ele ver se eu não era o Francisco” (Beth. Ficou dizendo que eu tava querendo pegar o documento de outra pessoa. eu falei que não. senão necessário. plano de saúde entre outras coisas. através do qual passam a ser reconhecidas . É uma coisa que eu não quero mais fazer na minha vida é falar que eu fiz uma cirurgia para virar uma mulher. Ela me devolveu a carteira e disse que não tinha nada lá para mim não (Roberta. 29 anos). perguntou se estava errado e se eu era Roberta.

24 anos). Olha que coisa desagradável” (Vanessa. ser identificado pelo nome civil os confronta com a posição de gênero que rejeitam e atualiza os preconceitos dos quais foram vítimas ao longo de suas vidas. ibid. as pacientes demonstram curiosidade e trazem muitas dúvidas sobre o processo de modificação do nome civil. mas respeitou. ela me conhece como Vanessa. inaugurou novas perspectivas para os transexuais dando início também a uma transformação da identidade social dessas pessoas (Zambrano. esta parece ser apenas uma medida paliativa. sendo do interesse de todas as pacientes solicitar judicialmente a mudança do nome para que possam enfim ter a tão desejada vida “normal”. eu desisti de votar e fui embora. Nesse contexto. pois a maior parte não sabe exatamente como proceder ou tomam com referência as que fizeram alguma tentativa autônoma de iniciar o processo de modificação do nome mas não .:65). Assim. Além disso. onde está o Roberto? Eu falei baixinho: ‘Está aqui’. Eu vou ter que conversar com todos os professores para quando fizerem a chamada me chamarem de Roberta e não Roberto. Podemos perceber que a possibilidade de realizar a redesignação sexual legalmente no Brasil. verificamos que esta questão surge como um empecilho bastante importante. Imagina se eu ia chegar lá com meu nome masculino. Segundo Bento (ibid. 33 anos). “Quando fui fazer a matrícula. Ela ficou espantada. para os transexuais ser chamado pelo nome de batismo muitas vezes significa uma experiência trágica.82 em seu meio social.:58). Entretanto. pois promove uma descontinuidade entre seu nome e suas performances de gênero. a moça perguntou: Roberto. “Nas últimas eleições quando eu vi que a mesária da minha seção era a minha vizinha. Isto é muito chato” (Roberta. pois não as isenta de passar por situações embaraçosas ou mesmo ter que expor sua situação para algumas pessoas a fim de evitar outros constrangimentos.

eles tratam a gente muito mal. algumas têm informações sobre outros casos e resultados de processos judiciais que tiveram êxito.). observamos que a mudança do nome é um processo essencial na construção e redefinição do gênero na transexualidade.83 obtiveram muito sucesso ou foram vítimas de preconceito no próprio sistema judiciário. 6 – Ato cirúrgico (técnica cirúrgica). Eu soube de uma em São Paulo que até criou um site. sendo sem sentido a simples oferta de modificações corporais e tratamento cirúrgico se as mesmas não forem acompanhadas pela possibilidade de mudança do registro civil (Arán.. ibid. Assim. Diante disso. Porém. 33 anos). internação e pós-operatório: 44 Nesse caso. sendo que entre as pacientes atendidas no HUCFF–UFRJ. Murta e Zaidhaft. “Mas lá no Fórum. ibid. passando pela cirurgia de adequação do sexo anatômico ao gênero que se sujeitando à definição de que a transexualidade é uma patologia mental.. uma conseguiu judicialmente a alteração de seu nome para um outro considerado ambíguo antes de ter sido operada44.:91). “E tem pessoas que já conseguiram mudar com autorização o nome no documento. a questão da mudança de nome ainda é um problema no Brasil. pois em nosso país o direito tem como referência a morfologia genital. para considerar a mudança do nome de transexuais justificável diante do princípio de imutabilidade relativa dos assentos de nascimento (Zambrano. 36 anos). eu já fui duas vezes. o gênero permaneceu identificado como do sexo masculino na certidão de nascimento provavelmente porque ainda há uma discussão sobre a possibilidade da mudança do gênero na certidão de nascimento dessas pessoas. um indivíduo só vai ter possibilidade de acesso às modificações que deseja caso se submeta a esse modelo biomédico. Por outro lado. . Ela conseguiu mudar além do nome o sexo do registro para feminino” (Priscila.não tem informação” (Roberta.

descrevem um pós-operatório bastante tranqüilo e não referem muita dor . “Estou bem. 36 anos) Uma vez realizada a cirurgia. Estou bem feliz”. tive uma ótima recuperação. mas a Dra. (Maria. ao SUS por demorar a financiar a cirurgia. Em sua maioria. Cada vez é um problema. os médicos foram muito legais e competentes. Quando ele falou para mim que eu tava para operar e que já tinha marcado o dia.. Acho que a minha vida vai melhorar muito. (Priscila. A verdade é essa por tantas coisas que eu estava vendo em relação a tudo.. Será que ainda sai esse ano?” (Vanessa. a maior parte das pacientes relata satisfação com o atendimento prestado e com os resultados do procedimento cirúrgico de transgenitalização. mas ainda vou ter que passar pela cirurgia de reparo.84 Em relação à cirurgia observamos que as pacientes têm um certo receio de que o procedimento não aconteça devido a demora na sua realização. mas sempre estive consciente de que não era a solução de todos os meus problemas. 24 anos) “Antes de fazer eu achava que eu não ia fazer. eu falei que só acreditava vendo”. Esses dias eu até levei um fora” (Mirela. 24 anos) “Ah. 41 anos) Por outro lado. foi ótimo! Eu tô me sentindo bem. mesmo que tenham passado por alguma situação constrangedora ao longo de todo o tratamento e da internação. as pessoas. Disse que isso podia acontecer mesmo. Todas relatam temer que a cirurgia não seja efetuada e. Ficou um lado um pouco maior que o outro. observamos uma certa decepção naquelas que precisam passar por outras intervenções cirúrgicas para efetuar reparos que nesse tipo de 45 Em duas ocasiões a cirurgia foi adiada em função de questões institucionais quando as pacientes . mesmo nos casos que já completaram os dois anos exigidos pelo CFM. “Eu fico com medo que nunca chegue a hora. podemos perceber uma certa insegurança quanto ao agendamento da intervenção45. as coisas que eu ouvia.

Apesar disso a maioria diz que ainda não revelaria sua condição. Ainda assim. todas curiosas. Diante disso. Relatam que se sentem mais seguras no convívio social e pensam que a partir da cirurgia terão mais facilidades para alcançar seus objetivos. que nunca souberam direito quem eu era. avaliando cada profissional separadamente e.. relatam insatisfação com aqueles que não prestaram assistência de forma satisfatória.) As primas de meu companheiro. todas as pacientes que já passaram pela cirurgia descrevem um grande bem-estar após a redesignação sexual referindo que desde então não precisam mais conviver com um corpo que não reconheciam como seu. 26 anos) já tinham sido internadas. expressando o desejo de que seu passado fosse esquecido mesmo sabendo que isto não é possível principalmente por causa de seu registro civil. ficaram me vendo e eu ali de porta aberta na maior”. o discurso fica tomado de idéias fantasiosas sobre a equipe sendo aventada a possibilidade de algum erro. em algumas ocasiões. Em alguns momentos. (Luiza. foi possível perceber ao longo da pesquisa que algumas pacientes fazem esta análise do atendimento prestado de forma segmentada.. . sejam eles profissionais -uma das pacientes ingressou na faculdade logo após a realização da cirurgia. “Meu maior prazer foi poder entrar no banheiro das mulheres e fazer xixi de porta aberta (.85 operação já são esperados.ou a própria modificação do nome em seus documentos. com relatos de estados depressivos e insatisfação com o procedimento. Esta questão fica ainda mais evidente quando afirmam que desejam procurar outro programa assistencial para realizar reparos e outros procedimentos ou cogitam a possibilidade de pagar um profissional.

vai que arrebenta tudo.. (Priscila. não conseguia. acho que até senti prazer. (.. notamos que as pacientes apresentam uma certa insegurança para ter relações sexuais através da neovagina embora utilizem após a cirurgia um molde para desenvolver o canal vaginal. as coisas mudaram bastante.) Aí. “Estava morrendo de medo.” (Roberta..86 “Mudou bastante.. 36 anos) “Eu ainda não transei com ninguém não. mas fisicamente eu sou uma mulher”.. Passei no PRO-UNI. se ia arrebentar.. Das cinco pacientes operadas apenas uma relatou. com certeza eu não me sentiria mulher naquele momento porque tinha alguma coisa que me incomodava. não sabia o que ele ia achar e estava com medo pela cirurgia também. As outras ou não mencionaram o assunto ou falam que “ainda não estão preparadas para fazer sexo vaginal” porque acham que a cirurgia não cicatrizou ainda. 33 anos) No que se refere à sexualidade. Foi engraçado.. tanto.. Pois foi ótimo.. porque ainda precisam de reparos entre outros argumentos. não tinha coragem.. só acreditou que eu não era mulher quando mostrei minha carteira de identidade”. era um cara que eu tinha acabado de conhecer. 36 anos) “. Teve uma ocasião. quase dois meses depois da cirurgia. (. que eu tava no ponto de ônibus e uns rapazes que estavam do meu lado estavam discutindo que eu não era mulher. achou que eu era virgem.agora eu consegui. muito. E depois para convencer o cara sobre minha situação? Ele ficou louco por mim. se ia doer. ainda precisa ajeitar uma pele aqui do lado” (Maria. (Priscila. que às vezes eu passava uma imagem que não era minha. Incomodava tanto. Muito. o cara chegou perto de mim e me perguntou se eu era mulher e eu respondi: ‘Eu tenho certeza disso!’. por exemplo.. depois de 7 anos eu querendo entrar numa universidade . eu até ri. 41 anos) . Além do mais. muito.) Mas se fosse antes [da cirurgia] com certeza eu ficaria com receio de falar que eu sou mulher. que finalmente teve relações sexuais embora estivesse com medo. Hoje eu sei que o que me incomoda são meus documentos.. Sei lá.

pois ao mesmo tempo em que este procedimento técnico aparentemente resolve a questão da incompatibilidade entre sexo e gênero tem conseqüências sobre a vida deste indivíduo e pode acentuar conflitos até então silenciados entre médicos e pacientes. notamos que é importante estabelecermos um tempo para o esclarecimento sobre a demanda de realização da cirurgia. .87 A partir disso.

podemos observar que há um campo de tensão complexo entre aqueles que estão tentando obter autorização e assistência 46 Sobre o debate em relação o conceito de acesso e sua utilização na saúde pública ver Travassos e Martins (2004). reforçando a condição de exclusão e anormalidade desta condição. colocando em pauta o paradoxo de que se por um lado o diagnóstico torna legítima a demanda por redesignação sexual e possibilita o acesso aos serviços de saúde46. Embora a associação do diagnóstico de transexualismo à redesignação sexual tenha viabilizado a institucionalização do debate sobre a assistência dessa clientela na rede pública de saúde. foi facilitado o acesso dessas pessoas a medicamentos e tecnologias disponíveis para a transformação corporal. por outro é raiz de restrições sociais e estigmatização que afetam diversos níveis da vida desses indivíduos. observamos que a condição transexual só pôde ser compreendida em nossa cultura através de sua definição como uma patologia que culminou na constituição de sua nosografia psiquiátrica e de um campo assistencial voltado para o tratamento da mesma. em especial. o debate em torno da compreensão patologizada do fenômeno transexual tem sido largamente realizado nos dias de hoje. . É possível perceber que. Segundo Butler (2004:76).88 CAPÍTULO IV CONSIDERAÇÕES FINAIS: OS PARADOXOS DA TRANS-AUTONOMIA A partir da análise do dispositivo da transexualidade. devemos considerar a complexidade que envolve compreender a condição transexual como uma anormalidade. através da definição dessa condição como uma desordem. por aqueles que se opõe a sua definição como uma categoria psiquiátrica. e a realização da cirurgia de transgenitalização tornou-se uma possibilidade real. Como mencionado antes.

Para eles. 2004: 76). . a condição de transgênero não significa nenhuma incapacidade mental. como Christian Right e George Rekers. para os defensores do transexualismo como categoria nosológica. que defendem a completa eliminação dessa definição da transexualidade. a transexualidade deve ser compreendida como uma entre muitas possibilidades humanas de determinação do próprio gênero. Desse modo. considerando que quando é associada a uma compreensão patológica enfraquece o que Butler (ibid. No ponto de vista dos opositores à concepção do transexualismo como uma desordem48. Nessa discussão. possibilitando assim uma modalidade de exercício de autonomia (Butler. como Richard Isay e Judith Butler. Segundo esta posição. mas com a percepção de uma inadequação às normas de gênero. sendo a argumentação crítica ao diagnóstico baseada na tese de que a qualificação deste fenômeno não está relacionada a qualquer alteração de função. através do diagnóstico psiquiátrico o desejo de realizar a cirurgia de transgenitalização e procedimentos afins pode ser concretizado a partir de sua justificativa como uma necessidade médica. 48 Entre esses opositores do diagnóstico podemos incluir ativistas da comunidade GLBT. profissionais de saúde e pesquisadores. alguns psiquiatras. se posicionam a favor do diagnóstico argumentando que o mesmo atesta que a cirurgia é uma necessidade. membros da comunidade GLBT.89 financeira para realizar a cirurgia de transgenitalização e aqueles que consideram que o diagnóstico deve ser eliminado completamente visto que a transexualidade não se apresenta como uma desordem e o indivíduo tem total condição de dispor sobre seu corpo.:77) denomina de transautonomia. pois garante o reconhecimento do direito do paciente transexual de utilizar o serviço de saúde para a realizar a conversão sexual47. psicólogos e pesquisadores. questionam a avaliação médico-psicológica como condição 47 De acordo com Butler (2004:75). essa definição tem uma função de extrema importância.

e de outro há a argumentação que sugere que nesta situação a prática da trans-autonomia seria enfraquecida ou até mesmo comprometida ao estar sujeita a um determinado tipo de avaliação e enquadramento psiquiátrico e psicológico. nessa discussão. De um lado há uma visão que admite a necessidade de condições específicas para o exercício da autonomia plena. observamos que existe. . Ainda que nesse debate pareçam existir visões absolutamente opostas. Podemos notar que tanto os opositores como os defensores do diagnóstico baseiam suas justificativas na questão da autodeterminação do gênero. Vale ressaltar que a questão da autonomia tem sido um dos principais debates realizados nos Fóruns de Bioética (Diniz e Guilhem. 2002. duas formas diferentes de abordagem da questão da autonomia que se expressam na forma como cada uma compreende a autodeterminação e a medicalização. ou seja. além de problematizarem as conseqüências inerentes à definição dessa condição como doença. pois serve como instrumento para alcançar o objetivo de redesignação sexual. é possível notar que há uma interseção no argumento utilizado por ambas as partes que refere-se à compreensão de que quando o indivíduo opta pela readequação sexual está engajado no exercício de sua autonomia. mas sim uma prática socialmente condicionada. que não é possível pressupor o exercício da autonomia numa população que se encontra numa situação de extrema vulnerabilidade considerando que a mesma não é um conceito. sendo que para estes a compreensão patologizada da transexualidade possibilita o exercício da autonomia. Diniz e Corrêa. e para aqueles restringiria o exercício da mesma.90 de acesso ao tratamento. Diante disso. pois submete o desejo do indivíduo a uma decisão médica.

alguns grupos étnicos e raciais minoritários. direitos de liberdade. nômades. Em geral.. 2007) . está associado a palavras como autogoverno. levando em conta a existência de indivíduos e grupos vulneráveis50. Verificamos que as definições do transexualismo como entidade nosológica articula uma versão muito rígida dessas normas de gênero. Existem duas condições essenciais para seu exercício: a liberdade e a qualidade de agente. se no inicio da institucionalização da disciplina. podemos perceber que o que caracteriza. Desta forma . éticas e políticas do exercício da autonomia. Porém. 2003: 61). mas apenas ressaltar que segundo Ruth Macklin “incluem-se aí membros subordinados de grupos hierárquicos como militares ou estudantes. pacientes em salas de emergência. sem-teto. sendo a adaptação a única forma de eliminar tal sentimento. ser o motor do próprio comportamento e pertencer a si mesmo. a partir da necessidade constante de se considerar as possibilidades sociais. mas por conseqüências “sociais” e “políticas”. quanto a um outro grupo que também se mostra incapaz. 50 Não pretendemos desenvolver a noção de vulnerabilidade nesta dissertação. privacidade. em parte..91 2001:685). escolha individual. mas sua definição mais precisa refere-se ao ato livre do indivíduo de acordo com um plano definido por ele mesmo. autonomia é um conceito constituído de muitas idéias que adquire um sentido mais específico quando está contextualizado. No entanto é importante considerar “que esta definição de vulnerabilidade diz respeito tanto a um grupo de pessoas momentaneamente incapazes de exercer a sua liberdade por uma contingência física. pessoas idosas com demência e residentes em asilos. Na definição do diagnóstico pressupõe-se um sofrimento no indivíduo por estar inadequado às normas de gênero. prisioneiros. pessoas que recebem benefícios da seguridade ou assistência social. este conceito pressupunha a liberdade do indivíduo a partir de uma concepção universal e liberal49. liberdade da vontade. ou por conseqüências “naturais” do percurso da vida. refugiados ou pessoas deslocadas. estabelecendo os critérios que vão identificar um transexual com base em atitudes estereotipadas de cada sexo. este segundo grupo.. outras pessoas pobres desempregadas. e membros de comunidade sem conhecimento dos conceitos médicos modernos” (Macklin. é certa indefinição do estatuto de sua cidadania” (Arán e Peixoto Jr. Ao fazer uma revisão sobre os aspectos que constituem o Transtorno de Identidade de Gênero podemos perceber que os critérios para avaliar a condição transexual como uma desordem estão baseados na compreensão de que há um gênero apropriado para cada sexo e que o desconforto da transexualidade é relativo a um desacordo com essa norma que é fixa e imutável. Segundo Bento 49 Segundo Beuchamp e Childress (2002:138). posteriormente esta noção foi amplamente problematizada.

considera que nesta conjuntura. [. A definição do diagnóstico simplesmente atualiza as interpretações sobre o gênero masculino e o feminino de nossa sociedade. e que é um erro e uma falha não ocupá-las – assumi-las..92 (2006:23). esses indicadores para diagnosticar um indivíduo que solicita a cirurgia de transgenitalização são os mesmos adotados para avaliar as condutas de um homem ou uma mulher “natural”. o diagnóstico faz várias pressuposições que enfraquecem a trans-autonomia...] Pressupõe-se a linguagem da correção. uma forma de lidar com isso 51 Tradução da autora. Contudo. “. and that na error and a failure have taken place. It seeks to uphold the gender norms of the world as it is currently constituted and tends ..] Pressupõe-se que certas normas de gênero não tem sido incorporadas corretamente.. and normalizwtion. ibid:77)51. the diagnosis makes many assumptions that undercut transautonomy.. [.] It assumes the language of correction. medicalizando e normatizando essas condutas desviantes a partir das verdades de cada sexo. ainda que o diagnóstico de transexualismo tenha muitas características desfavoráveis e seja inquestionável sua força de patologização. não podemos subestimar os benefícios que o mesmo promove. além de delimitar uma identidade transexual universal que é revestida de uma série de estigmas e preconceitos que invariavelmente afetam a vida desse indivíduo e interferem na determinação de si.... mesmo tendo uma concepção crítica a qualquer forma de domínio de corpos e sexualidade. Procura sustentar as normas de gênero no mundo como elas são atualmente constituídas tende patologizar qualquer esforço para produzir caminhos de gêneros que falham em adequar-se às normas existentes (ou falham em adequarse com certas fantasias dominantes do que as normas realmente são)” (Butler. [.. não problematizando quais são as condições que possibilitam a percepção de desconforto ou pertencimento a um determinado gênero.:82). De acordo com Butler (ibid.. adaptação e normalização. “After all. adaptation. Nesse sentido. é possível notar que essa definição não questiona se há algo de errado com tais normas. [.] It assumes that certain gender norms have not been properly embodied.

a incursões. na modernidade houve uma ruptura com o pensamento clássico. É necessário que se apresente de forma compatível com os padrões esperados. one has to gauged against measures of normalcy. 2004:90). “One has to submit to labels and names. Em sua concepção. Mesmo diante da proposta de uma utilização puramente estratégica do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero. podemos notar que o dilema referente às conseqüências da definição da transexualidade como uma desordem não se esgota. e deve passar no teste” 52 para que seu exercício de liberdade e autodeterminação do gênero se torne possível. na qual o poder passou a ser exercido através da disciplina e não da punição. to invasions. como a disciplina está ligada à normalização. Seja pelos sacrifícios envolvidos em assumir a condição de doente. deve ser padronizado de acordo com os critérios de normalidade. nesse contexto tornou-se necessário corrigir tudo aquilo que estivesse excluído dos parâmetros de normalidade. sugere que “o indivíduo deve se submeter a rótulos e nomes.” 52 Tradução da autora. . essa questão se sustenta sendo importante levar em consideração que mesmo a partir de to pathologize anyt effort to produce gender in ways that fail to conform to existing norms (or. descrevendo idéias persistentes de que pertence ao gênero oposto ao seu sexo biológico e utilizando vestuário característico . 53 Segundo Foucault (2002:285). and one has to pass the test” (Butler. promovendo um controle sobre a vida dos indivíduos e direcionando o dispositivo médico para uma vigilância da normalidade. sujeitando-se ao biopoder53 em termos foucaultianos ou ao aparato regulador segundo a definição de Butler.se queixando de um enorme sofrimento. fails to conform to certain dominant fantasy of what existing norms actually are).93 seria se apropriar dele estrategicamente. seja pelo risco de internalização de alguns desses aspectos patológicos.mesmo que não se identifique completamente com essa descrição ou não concorde que sua condição trata-se de uma patologia. utilizando-o como um instrumento para alcançar o objetivo de realizar a cirurgia de transgenitalização. a invasões. o candidato à conversão sexual deve se enquadrar nos critérios definidos pelos manuais diagnósticos psiquiátricos . Em outras palavras. Nesse contexto. to incursions.

Por outro lado. emprego. by virtue of the stigma that the diagnosis strengthens and furthers. On the other hand. ibid. Nas palavras de Butler: “Do ponto de vista do indivíduo.94 uma utilização estratégica essa patologização tem efeitos relevantes sobre a vida daquele que está sujeito a ela. 54 Traduzido pela autora. e para aqueles que perdem certos direitos e liberdades. problematizando as repercussões dessa definição sobre sua vida e analisando de forma mais próxima a importância de serviços dirigidos ao atendimento de transexuais. it can be counted among the very fundamental instruments one needs in order to make a transition that makes life livable. é necessário pensar o que significa para o indivíduo ser diagnosticado como portador de um transtorno psiquiátrico. mas é simultaneamente um potencializador do sofrimento dessas pessoas intensificando tanto a pressão social inerente a essa condição como a necessidade de estar adequado à norma. o instrumento toma conta da vida de quem o utiliza. the diagnosis can be regarded as na instrument by which to further one’s self-expression and self-determination. e habitação pelo efeito do estigma relacionado ao diagnóstico.:88) 54 Ao longo dessa exposição. ou mais precisamente. incluindo a custódia da criança. Indeed. Na verdade.l and housing. and that provides the grounds for one’s flourishing as na embodied subject. Portanto. que provem as bases para o florescimento do indivíduo como um sujeito materializado. o diagnóstico pode ser considerado o instrumento mais distante para uma expressão de si próprio e determinação de si. e pode atuar para produzir uma vida dura para aqueles que sofrem por serem patologizados. employment. “From the point of view of the individual. including child custody. colocando em discussão o real valor da noção de Transtorno de Identidade de Gênero como ferramenta de acesso às tecnologias disponíveis para conversão sexual.” (Butler. pelo efeito do estigma que diagnóstico fortalece.” . podemos perceber que a interpretação da transexualidade como uma desordem psiquiátrica está absolutamente atravessada pela questão do exercício da autonomia do indivíduo. and who lose certain rights and liberties. Diante disso. the instrument takes on a life harder for those who suffer by being pathologized. Notamos que o diagnóstico é um facilitador no que se refere à concretização do desejo de realizar a cirurgia de transgenitalização para transexuais. poderia ser definido entre os instrumentos mais fundamentais que alguém precisa para fazer a transição e tornar a vida vivível.

Afinal de contas. promovendo algum tipo de deslocamento que permita aos serviços de assistência a pacientes transexuais acolher integralmente esses indivíduos. mas sim de um estado de bem estar físico. baseia-se na noção de que saúde não trata-se de ausência de doença. é sempre bom lembrar que a definição de saúde como um direito de todos. mental e social. valorizando sua diversidade e sem estar fixados apenas na exigência institucional de confirmação diagnóstica. torna-se importante desenvolver um estudo mais aprofundado sobre esse tema. . algo ainda a ser discutido sob perspectivas diferenciadas que levem sempre em consideração a forma singular como essa experiência é vivida por cada indivíduo.95 consideramos que a questão do diagnóstico de transexualismo permanece um problema. apontada pela Organização Mundial da Saúde. Por tudo o que foi dito. na qual estão fundamentadas todas as diretrizes do Sistema Único de Saúde brasileiro.

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ANEXOS

.

Pode passiva. travesti e com menos moderada. travesti. alternando algumas vezes. Assexuado. corpo masculino") HÁBITOS DE Vive como Vive como Veste-se como Veste-se como Vive e atua Pode viver a VESTUÁRIO E homem. está vestido Assexuado ou auto-erótico. auto-erótico. Pode homem. Pouco se como insuficiente o alívio ao vestir.mulher dá um como mulher. Vida Usa roupas de Pode usar roupa gênero. . Desejos SEXUAL homosexual. or Heterossexual. como mulher. OBJETO E VIDA Hetero-. bi-. Pode Não é um parte do dia viver e ser aceito alívio ao seu se como alívio desconforto de verdadeiro como mulher. intensos de Ter Vestir-se como bissexual. Vestirocasionalmente periodicamente ou sempre que sendo possível.103 Anexo 1 Escala de Orientação Sexual (S. Pode Intenso viver como masculina baixo de baixo desconforto de homem ou normal. mulher.) – Desordem e Indecisão de Sexo e Papel de Gênero (Homens)55 Grupo 1 Grupo 2 Grupo 3 Perfil Tipo I Tipo II Tipo III Tipo IV Tipo V Tipo VI "SENTIMENTO DE TRAVESTI TRAVESTI TRAVESTI TRANSEXUAL TRANSEXUAL TRANSEXUAL GÊNERO " Não decidido VERDADEIRO VERDADEIRO Pseudo Masculino Verdadeiro sobre cirurgia. Vestemulher mulher sempre com uma agir como uma VIDA SOCIAL vestir-se se constantemente que possível mulher se mulher. masculinas. mulher. atividade homens de sexo pode com fetiche Vestir-se dá Pode ser homossexual normais como ocorrer Sentimentos de satisfação sexual bissexual.S. se principalmente culpa. ("Preso em um psicossexual. Mais ser também ter sido casado 55 Versão traduzida pela autora. Raramente exceto quando baixa. Total inversão convicção) transexual.O. Intensidade Intensidade Masculino Fetichista Masculino (mas Desliza entre feminina feminina alta. ou durante possível. ou relação com mulher e mudar Masturbação como mulher. Pode uma mulher. Recua e aliviando o jovem. insuficiente. Heterossexual. Libido sempre Libido baixa. masculina se gênero. não houver outra opção.

0-6 Não considerada na realidade. masculios e se muito femininos. heterossexual ou homossexual. MEDICAÇÃO DE Não Raramente Atrativo como Necessário Necessário Solicitado para ESTROGENIO interessado. realizado. ambientes sem sucesso outra forma como a cura. e ter filhos. para conforto e como substituto alívio parcial. suicídio ou nomes transexualismo. durante fantasias de masturbação. interessado. de Pouco útil psicológica ou Desnecessário. Solicitado de CONVERSÃO rejeitado. mulher apenas (masculina e personalidade. alcançada. Tipo 0 : Orientação e identificação sexual normal. PSICOTERAPIA Não Pode ser bem Se tentada Apenas como Rejeitada. Pode recurar e tem recaídas. mas Solicitado. a Ver explicação no texto. auto-mutilação. . ESCALA KINSEYa 0-2 0-2 1-4 4-6 6 OPERAÇÃO DE Rejeitado. A idéia de “vestir-se” ou de “mudar de sexo” é estranha e desprazerosa. desconforto de gênero. tem recaídas. Eventulamente Pode ser útil equilíbrio da cirurgia ou utilizado para emocionalmente. Verdadeiramente Atrativo. baixa libido. psicoterapia favoráveis.) como a cura. Indicado. casado e ter filhos. Orientação demandado. ela. recusada ou Serve como para alívio de sem sucesso. REMARKS Interessado em Pode ter dupla Pode assumir Vida social Operação Despreza seus vestir-se como persolidade uma dupla dependente desejada. das Normalmente Risco de eventualmente. frustrado. preliminar a reduzir a libido. Não indicado. mas a não solicitado Normalmente forma urgente e SEXUAL idéia pode ser ou não indicado. órgãos sexuais. experimento. sucedida. emocional. feminina)com Tendência ao circunstâncias. apenas. Vasta maioria das pessoas. frequentemente atrativa. Pode Ter sido casado e ter filhos através de fantasias no intercuso sexual. (Em normalmente é orientação. Pode gostar apenas de assuntos relativos a travestis. orientação sintomas psicológica.104 tarde. admitido.

Cirurgião plástico. O Artigo 51 refere que “são licitas as intervenções cirúrgicas com finalidade estética. Antonio Jesuino dos Santos Neto Conselheiro . desde que necessárias ou quando o defeito a ser removido ou atenuado seja fator de desajustamento psíquico”. letra e indicar ou executar” terapêutica ou intervenção cirúrgica desenecessária ou proibida pela legislação do País”. 2. como um dos fatores mais importantes. 3. 5. em Cirurgia Estética. Opinamos. 7. 4. Ao referir “desde que necessária” parece-nos que não seja este o caso da consulta cuja operação. consulta sobre inclusão de prótese de silicone. que a resposta à consulta. que se limitaria a executá-la. consideramos desnecessária e enquadramos no Artigo 32 – Não é permitido ao médico. Atente-se que a consulta prende-se a intervenção a ser realizada.m. 6.105 Anexo 2 PROTOCOLO:1529/79 ASSUNTO: TRANSEXUALISMO RELATOR: ANTONIO JESUINO DOS SANTOS NETO PARECER CREMEB: 02/79 APROVADO EM: 10/10/79 1. s.j. em pacientes do sexo masculino e invoca o envolvimento psíquico . no momento atual. seja pelo aconselhamento a não realizar as próteses mamarias com silicone e encaminhar os pacientes para tratamento psiquiátrico ou apoio psicológico a depender do grau de envolvimento do psiquismo dos mesmos. A consulta encontra amparo no Artigo 92 do Código de Ética. não indicada pois pelo médico . É o nosso parecer. com referência especial ao travesti. “por solicitação do paciente”. Entendemos que a consulta decorre da posição assumida hoje pelo homossexual e os problemas do transexual.

por desobservância ao artigo 129 do Código Penal e ao artigo 42 do Código de Ética Médica. PARTE EXPOSITIVA Em correspondência datada de 19. Hideraldo Luiz Silva Oliveira ASSUNTO: Cirurgia de conversão sexual RELATOR: Cons. Maria José dos Santos – Lepoldina – MG. não tendo sequer. realizar cirurgia de conversão sexual.03. o Sr. sendo duas de autoria do mesmo e uma terceira carta assinada pela Sra. Além desses fatos nenhum dado novo é relatado nestas citadas correspondências afora o drama pessoal em que vive o Sr. por se tratar de mutilação grave e ofensa à integridade corporal. se nos comove o doloroso conflito que está colocado nesta história de vida mal vivida. três outras cartas de igual teor. HIDERALDO LUIZ SILVA OLIVEIRA. Hideraldo frente ao conflito existencial de rejeição psicológica aos atributos fisiológicos que o identificam como sendo indivíduo do sexo masculino. Conversão Sexual EMENTA: Incorre em ilícito ético e penal o médico que. solicita ao "Sr. o interessado. que se dizendo amiga do Sr. em apêlo comovente. Hideraldo Oliveira intercede em seu favor por se sentir bastante preocupada com o estado de ansiedade do mesmo e com o que pode advir com a não realização da propalada cirurgia. Francisco Álvaro Barbosa Costa) autorização para se submeter a uma cirurgia de conversão sexual. se submetido a exame psiquiátrico. Não há registro de qualquer exame a que tenha se submetido o missivista.106 Anexo 3 PROCESSO CONSULTA CFM N° 0617/90 PC/CFM/Nº 11/1991 INTERESSADO: Conselho Regional de Medicina do Estado de Minas Gerais. (com certeza referindo-se ao nobre e eminente Ex-Presidente desta Casa – Dr. com o intuito de possibilitar a transmutação do sexo masculino para o feminino. Constam apenas dos autos. Hideraldo Oliveira. Apesar de fazer referencia à alguns médicos recomendando-o a se deixar submeter à referida cirurgia. O que temos é o relato do interessado que afirma tratar-se de indivíduo com características masculinas devendo haver contudo profundos conflitos na esfera psico-sexual e afetiva.90. Acreditamos entretanto ser real o sofrimento a que está submetido o postulante por não possuir uma identidade bio-psico-social que o referencie frente a seus semelhantes e à sociedade em que o mesmo se acha inserido. nos defrontamos com uma tragédia pessoal com desdobramentos imprevisíveis na esfera existencial. Francisco" do Conselho Federal de Medicina. não nos parece terreno seguro digressionar sobre os . Entretanto. INTERESSADO: Sr. PARTE CONCLUSIVA À parte os aspectos psico-sociais das circunstâncias que cercam o caso do Sr. Ref. não consta dos autos qualquer laudo médico nesse sentido. Hilário Lourenço de Freitas Junior. diante de solicitação de seu paciente. em face a um dilema psicosocial resultante de uma realidade não aceita.

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aspectos filosóficos e psico-sociais de uma existência sexual rejeitada, quando o
estatuto da lei e da Ética abordam e definem, com clareza, as questões relativas ao
procedimento a ser adotado frente ao transexualismo ou TRANSGENITALISMO, no
dizer do Prof. JEAN CLAUDE NAHOUN, e o ato cirúrgico que tornaria possível a
transmutação sexual.
Assim, se nos causa constrangimento o relato dramático do Sr. Hideraldo
Oliveira sobre a sua condição existencial, não podemos deixar de citar o valioso
trabalho sobre o assunto discorrido pelo Prof. HOLDEMAR OLIVEIRA DE MENEZES
citado no relatório do IV CONGRESSO BRASILEIRO DE MEDICINA LEGAL
ocorrido em São Paulo em dezembro de 1974, bem como o Parecer CFM n° 28/75,
da lavra do Ex-Conselheiro CLARIMESSO MACHADO ARCURI.
Segundo o Prof. Holdemar Oliveira, "... o transexual de alta intensidade
constitui-se por indivíduos de total inversão psicossexual, que vivem como mulher,
desejam intensa e urgentemente a mudança do sexo e, mais ainda, prometem
automutilição ou suicídio se não foram atendidos em seus anseios que julgam justos.
E conclue: Na cirurgia desejada pelo transexual, o ato e mutilador e não corretivo".
Sobre este tema, assim se pronunciou o Dr. Claremesso Machado: ‘O
problema da transexualidade reside na não aceitação da identidade sexual; na
busca desesperada pela transformação sexual pela ação cirúrgica obtida por
hormônios; na procura incansada pela harmonia entre o sexo psico-social e a
atividade sexual desejada como se pertencesse ao sexo oposto'.
E conclui o nobre parecerista contrariamente à licitude da pretendida cirurgia
de conversão do sexo por infringência ao Código Penal e ao Código de Ética
Médica, por seu caráter mutilador.
Para ambos, muitos "transformados" prosseguem em suas carreiras
reivindicatórias, alguns insatisfeitos por não poderem conceber e parir.
No presente caso estamos diante, com um razoável grau de certeza, de uma
situação caracterizada como transexualismo ou transgenitalismo onde o consulente
procura obter, deste Egrégio Conselho, autorização para se submeter à pretendida
cirurgia que consistiria na erradicação dos órgãos genitais masculinos e na
confecção de neo-vagina, com vistas à sua satisfação carnal mas sem possibilidade
de reprodução da espécie.
É certo que em alguns países é possível a realização da cirurgia de
conversão sexual, por se entender que tal procedimento possui finalidade
terapêutica justificável face ao profundo desequilíbrio psico-social em que se
encontram esses indivíduos.
O direito pátrio adota, entretanto, como princípio, o respeito à integridade física, só
admitindo violação do mesmo nos casos de intersexualidade quando as cirurgias
justificam-se por suas finalidade corretivas.
Assim se pronunciou o Prof. Holdemar Oliveira de Menezes acerca da cirurgia
realizada nos casos de intersexualidade;
"...mesmo que algumas vezes de difícil e corajosa decisão, por ter que remover um
falo ou um clitóris, até mesmo gônadas, obedece a um diagnóstico rigorosamente
pesquisado, visando a um aconselhamento de sexo, através da correção da
genitária externa, eliminaldo estruturas contraditórias, buscando a harmonia entre a
fisiologia e o sexo de criação a ser adotado ou já adotado. Trata-se nestes casos,
não de uma mutilação, de uma mudança de sexo, de um transgenitalismo para
justificar hábitos homossexuais, porém de uma determinação necessária de sexo, de
uma opção que se faz obrigatória, em face da dubiedade com que a natureza se
manifestou".

108

O mesmo não ocorre entretanto nos casos de transexualismo, onde não há
contradição fisiológica reconhecível ou evidenciável. Ainda para o Prof. Holdemar
Menezes, "... castrar, emascular sabendo-se que isso só vai servir para a
oficialização de uma homossexualidade, isso, para nós não é intervenção cirúrgica,
senão mutilação cirúrgica sob o ponto de vista anatômico e lesão sob o ponto de
vista penal...".
Assim, realizando uma cirurgia de conversão sexual em pacientes
transexuais, o médico estará, juridicamente provocando lesão corporal grave,
prevista no artigo 129, § 2°, incisos III e IV do Código Penal, verbis:
Artigo 129 - ofender a integridade corporal ou a saúde de outrém - pena:
detenção de três meses a um ano.
§ 2° se resultar:
III - Perda ou insuficiência de membro, sentido ou função;
IV - Deformidade permanente
Pena: reclusão de dois a oito anos.
Além de ferir a Ética Médica em seu artigo 42, verbis:
Artigo 42 - É vedado ao médico: Praticar ou indicar atos médicos
desnecessários ou proibidos pela legislação do Pais. (o grifo é nosso).
Proporcionar, portanto, a outrem, mediante cirurgia mutiladora, atributos
fisiológicos novos e diametralmente opostos ao original, sem contudo garantir-lhes a
funcionalidade inerente, é semear em terreno fértil, a ansiedade e o desespero em
quem espera de tal cirurgia a solução mágica para seus defeitos estruturais de
conduta e personalidade.
Finalmente temos a considerar que, ao pretender se submeter à citada
cirurgia, espera o consulente assumir nova identidade civil como se do-sexo oposto
fosse, o que caracterizaria crime por falsa identidade imputado aos agentes ativo e
passivo desta fantasiosa empreitada, previsto no artigo 307 do Código Penal, verbis:
Artigo 307 - Atribuir-se ou atribuir a terceiros falsa
identidade para obter vantagem, em proveito
próprio ou alheio, ou para causar dano a outrem.
Pena: Detenção, de três meses a um ano, ou multa se o fato não constitua elemento
de crime mais grave.
CONCLUSÃO
Sendo um dos objetivos dos Conselhos de Medicina, zelar pelo cumprimento das
Leis do País e da Ética que rege a prática da Medicina, somos de parecer contrário
ao pleito da pretendida cirurgia de conversão sexual pelos motivos expostos no
presente Relatório.
É o parecer s.m.j.
Brasília, 28 de fevereiro de 1991.
HILÁRIO LOURENÇO DE FREITAS JUNIOR
Cons. Relator

Aprovado em Sessão Plenária

Dia 13/04/91

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Anexo 4
PROCESSO CONSULTA CPM N.º 0871/90
PC/CFM/Nº 12/1991
INTERESSADO: CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO ESTADO DE SÃO
PAULO
INTERESSADA: MARCIA VINHARSKI DA SILVA
ASSUNTO: CIRURGIA DE CONVERSÃO SEXUAL
RELATOR: CONS. HILÁRIO LOURENCO DE FREITAS JUNIOR
Ref. Conversão Sexual
EMENTA: A cirurgia de conversão sexual para indivíduos com genitálias externas e
internas definidas e cromatina sexual compatível é proibida pelas Leis Brasileiras
capitulado no artigo 129, § 2º, incisos III e IV do Código Penal e incorporada ao
Código de Ética Médica, artigo 42, pôr se tratar de mutilação grave e ofensa à
integridade corporal.
PARTE EXPOSITIVA
O presente Processo Consulta teve origem na correspondência datada de
12.08.87, cuja autora, MARCIA VINHARSRI DA SILVA, 27 anos, natural do
município de São Bernardo do Campo - SP, solicita ao CREMESP autorização para
se submeter a uma cirurgia de conversão sexual.
Nesta correspondência, a interessada afirma ser transexual e que apesar de
ser mulher, não se sente como tal. Que a sua decisão de se submeter à referida
cirurgia para a conversão de sexo feminino para o masculino é irrevogável e a única
maneira de se sentir integrada à sociedade.
Possuindo genitálias externas e internas do sexo feminino, evidenciadas por
exames físicos e ultra-sonográfico além de cromatina sexual compatível, possui
entretanto identificação psico-sexual com o sexo masculino, enquadrando-se
portanto, segundo exame psiquiátrico, na entidade nosológica e nosográfica
denominada "Transexualismo".
Sobre este tema, este Conselho já teve a oportunidade de se manifestar,
firmando jurisprudência ao aprovar o parecer CFM nº 28/75 da lavra do Cons.
CLARIMESSO MACHADO ARCURI quando naquela ocasião, citando vários
estudiosos da matéria, dentre eles, Prof. Jean Cleude Nahoun, o parecerista
concluiu tratar-se, tal cirurgia de conversão do sexo, na realidade de uma cirurgia de
transgenitalismo, vez que "muda-se as genitálias e não o sexo do indivíduo,
resultando portanto em mutilação grave e ofensa ã integridade corporal proibida pela
Lei e pela ética médica.
Designado pelo Sr. Presidente do CREMESP para emitir parecer sobre o
assunto, o Cons. WILSON RUBENS ANDREONI assim procedeu e em parecer
substancial e consistente, (pg. 82 usque 86), concluiu pela não realização da
pretendida cirurgia, o que teve a aprovação do Pleno do CREMESP em sua 1389ª
Reunião Plenária realizada em 16.04.90.
Em grau de recurso, MARCIA VINHARSKI DA SILVA solicita a este Egrégio
Conselho Federal reapreciar a matéria, fazendo um apelo comovente frente a sua
condição existencial, contra-arqumentando à posição adotada pelo parecerista do
CREMESP, invocando em seu favor os princípios Constitucionais contidos no artigo

que a avaliação psiquiátrica de momento revelava distúrbios profundos de organização psíquica. Após designações anteriores de vários Conselheiros. tendo constado em relatório médico assinado pelo Dr. Dr. datado de 30. Tal caso enquadra-se perfeitamente na entidade nosológica e nosográfica denominada "Transexualismo" O pedido da paciente para transformação do sexo é apoiada por indicação do cirurgião plástico.110 5° da magna carta. Heitor D'Aragona Buzzoni DD. . portanto. Exmo. para retificação de seu registro de nascimento.261). Solicitando autorização do CREMESP para cirurgia de conversão sexual.87. em contrapartida. coube-nos. respondendo. A exceção da pilosidade da face. Marcos Mitsuyoshi Mori. sendo informada por aquele departamento que isso envolvia duas alterações. porém.87. constatado por exames físicos e ultra-sonográfico e. tendo a mesma absoluta necessidade de tratamento psiquiátrico (psicoterapia intensa). além de questionar a interpretação dada pelo parecerista aos artigos 129 e 307 do Código Penal e ao artigo 42 do Código de Ética Médica. Não ficou evidenciado nos autos que a paciente tivesse se submetido ao tratamento psiquiátrico recomendado. Para instruir o processo seriam necessários relatórios médicos indicando diagnóstico e formas de correção. não havendo problemas de mal formação congênita ou de sexualidade dúbia. Pela análise do processo depreende-se que Marcia Vinharski da Silva possue genitália externas e internas do Sexo feminino. apresentava. 17. A paciente realizou exames no Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina. com identificação psico-sexual do sexo masculino. como já foi dito.03. pronome e sexo. Dr. ainda. ser o relator da presente consulta. Evaldo Lugue no intuito de realizar mastectomia simples bilateral.08. Paralelamente Marcia Vinharski solicita orientação do Serviço de Assistência Jurídica da Prefeitura de São Bernardo do Campo. a natureza do sexo. Estamos. Marcia procurou os serviços profissionais do Dr. psicologicamente aos estímulos do sexo masculino. PARTE CONCLUSIVA Após lidos e analisados todos os autos do presente processo consulta. por redistribuição. que se propõe executar a ablação das mamas. chegamos as mesmas conclusões pronunciadas pelo nobre parecerista do CREMESP. genitália externa e interna feminina. devendo figurar. diante de um caso de transexualismo. Presidente do CREMESP C O N S U L T A NR. subscrevendo-o integralmente e submentendo-o a apreciação deste Egrégio Conselho.196/87 Senhor Presidente. para melhor adaptação da mesma à Sociedade. Este expediente teve origem em carta datada de 12. Evaldo Lugue (CRM 25. causada provavelmente por patologia endócrina. Sr. subscrita por Marcia Vinharski da Silva.

como é óbvio. no Capitulo II.Pena: detenção de três meses a um ano. Pena: detenção de três meses a um ano. porque essa motivação.Atribuir-se ou atribuir a terceiros falsa identidade para obter vantagem.Deformidade permanente. tal fato. De acordo com opinião já emitida pela Assessoria Jurídica. verbis: Artigo 129 . em proveito próprio ou alheio. como poderia.Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem . Enquanto que o atual Código de Ética Médica. ora do masculino. é insuficiente. a par da impossibilidade dos Conselheiros Regionais e do Conselho Federal de Medicina autorizaram a realização de um tipo ou de outro de cirurgia em determinado paciente. Outrossim. extraindo-as. ou para causar dano a outrem. o que levaria a implicações jurídicas. ao lado de implicações Éticas. prevista no artigo 129 -parágrafo 2°. As fls. A cirurgia solicitada incidiria sobre as glândulas mamárias. diz que é vedado ao médico: . apresenta problemas de personalidade defeituosamente estruturada. não mudaria de sexo. sentido ou função. com genitálias externas e internas do sexo feminino. Do estudo apurado da documentação e depoimentos deste expediente deduzse que Marcia Vtnharski da Silva.Perda ou insuficiência de membro. 51 constam fatos da paciente com área pilosa na face e glândulas mamárias com desenvolvimentos próprios do sexo feminino. de dois a oito anos. IV . elidiria em crime de falsa identidade prevista no artigo 307 do mesmo código. através da consulta n°. que dispõe: Artigo 307 . Pena: reclusão.Praticar atos médicos ou participar deles. sem dúvida. Do ponto de vista jurídico este caso seria considerado como lesão corporal de natureza grave. 28/75. Artigo 13 . pretender alteração de identidade? Por outro lado se o relatório do médico assistente atestasse mudança de sexo. artigo 42.Desrespeitar a legislação vigente e não pautar os seus atos pelos mais rígidos princípios morais e Éticos.111 A interessada juntou aos autos resultados de exames de dosagem hormonais ora próprios do sexo feminino. incisos III e IV do Código Penal. como também cópia de cartas enviadas ao então Senador Marcondes Gadelha e Deputado Mendes Botelho reivindicando alterações nos dispositivos legais para a prática de cirurgia de conversão sexual. Assim parecer-nos que o motivo da realização da cirurgia reparadora pretendida seria dar à paciente simplesmente Características anatômicas masculina. então. Com referência aos aspectos éticos o Código Brasileiro de Deontologia Médica dispunha nos seus artigos 8° e 13 que é vedado ao médico no exercício de sua profissão: Artigo 8° . se forem ilícitos ou desnecessários. Parágrafo 2° se resulta: III . ao nosso ver. é certo que a conduta que o médico tem que adotar é a de somente praticar atos médicos que forem lícitos e necessários. ou multa. se o fato não constitui elemento de crime mais grave. se a paciente com apenas essa cirurgia.

ainda. Matilde J. o devido amparo legal. No momento em que se outorga a alguém um sexo biológico diferente do seu. Informa que há inúmeras pessoas aguardando autorização legal para que possam ser submetidas a cirurgia para reversão de transexuais. oriundo da Câmara dos Deputados.M. quer por ser considerada como mutiladora. pois. mas. com parecer médico favorável. mas não nasceu assim. e por melhor que seja a cirurgia. s. foi aprovado pelo Senado.J. estarão o Direito e a Medicina conferindo a este indivíduo uma "capacidade" que ele não possue. Brasília-DF. Capítulo III .05.Praticar ou indicar atos médicos desnecessários ou proibidos pela legislação do País. logo após. provavelmente vetado pelo Presidente da República. encontramos que o autor Antonio Chaves.90. Cons."o transexual. sobre pedido de autorização para mudança de sexo e conseqüente retificação do registro civil. Este é o parecer.m.112 Artigo 42 . mesmo tendo havido cirurgia. à página 39. Wilson Rubens Andreoni APROVADO NA 1389ª. quer seja pelos relatórios e atestados médicos do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina. 27 de fevereiro de 1991.85. Diante do exposto.04. em seu livro "Direito a Vida e ao Próprio Corpo. para maiores de 21 anos. ano 1986. não encontrando. não teria indicação formal.intersexualidade e transexualidade . É o parecer S. Sutter Hojda. tramitação urgente de projeto nesse sentido.discorre. Relator Aprovado em Sessão Plenária Dia 13/04/91 . o desespero. REUNIÃO PLENÁRIA. Tal fato levou a Comissão de Justiça do Senado a decidir no dia 09. imagina-se como se realmente tivesse nascido nesse sexo. portanto. observa que: . a impossibilidade geraria a ansiedade e. entendemos que a cirurgia pleiteada. que nesse mesmo livro. sua anatomia impede perfeita nova funcionalidade". Após exaustiva pesquisas e consultas. HILÁRIO LOURENCO DE FREITAS JUNIOR Cons. por sugestão do Senador Marcondes Gadelha. do modo como foi proposta. Deve-se mencionar. em seguida. a Dra. No dia seguinte tal projeto de Lei. recusando seu sexo biológico e admitindo como seu verdadeiro sexo o psicológico. Assim. REALIZADA EM 16. entre outros assuntos.j. inclusive com o concurso da Assessoria Jurídica..

a comissão buscou novos elementos de doutrina e promoveu em Salvador/BA. outro debate sobre o tema. com fundamento técnico e adequação legal. Neste encontro houve a apresentação do tema. ressalvados o embasamento legal a ser apreciado a posteriori e a compreensão de que o procedimento proposto constituía uma forma especial de tratamento médico. a qual. A questão do transexualismo. Ronaldo Pamplona. em 19/3/97. Jalma Jurado e deputado José Coimbra. 1. Júlio Cezar Meirelles Gomes e Lúcio Mario da Cruz Bulhões (Comissão de Estudos sobre Transexualismo) HISTÓRICO O presente parecer originou-se de uma iniciativa da diretoria do Conselho Federal de Medicina.Encontro Nacional dos Conselhos de Medicina.113 Anexo 5 PARECER E PROPOSTA DE RESOLUÇÃO PC/CFM/Nº 39/97 ASSUNTO: Cirurgia transgenital RELATORES: Dr. Ana Daniela Leite e Aguiar. A. com algumas modificações. e fem. Jalma Jurado e prof. por ocasião do I ENCM . Jurado. segundo nosso entendimento. CLASSIFICAÇÃO DOS ESTADOS INTERSEXUAIS O próprio trabalho do prof. representante da OAB/DF . Após o primeiro debate. permite boa compreensão. Utiliza como primeiro critério a histologia presente nas gônadas: 1. preocupada com artigos sobre cirurgia de transexualismo publicados na imprensa leiga. HERMAFRODITISMO (as gônadas são histologicamente normais e ocorrem ambivalências morfológicas). designou uma comissão . com a presença do prof. a saber: neocolpovuivoplastia e neofaloplastia. prof. do ano de 1997. São raros os casos na literatura. mediante palestras fartamente ilustradas.como também sugere o professor Jalma Jurado.Seção de Direitos Humanos.VERDADEIRO: há concomitancia dos dois tecidos gonadais (masc. referenda os elementos de definição técnica do estado intersexual: "Existem variadas classificações tentando englobar todas as possibilidades clinicas. concretizado na Sessão Plenária de 10/8/95. favorável ao procedimento cirúrgico. porém a de Klebs (1876). Ronaldo Pamplona da Costa. deve ser enquadrada no âmbito das intersexualidades não-orgânicas . prof. e a promosão de debates sobre a questão. após o que a Plenária manifestou-se. ocorrido na sede do Conselho Federal de Medicina em 10/8/95. com vistas à possibilidade de tornar ética a proposta terapêutica conhecida como cirurgia de transgenitalismo. com a presença da dra. já praticadas em diversos paises e no Brasil ainda restritas ao ambito acadêmico/experimental. vivem como homens ou mulheres . por maioria.composta pelos conselheiros Júlio Cézar Meirelles Gomes e Lúcio Mário da Cruz Bulhões com a finalidade de organizar um debate sobre o tema transexualismo. apresentado no debate do I ENCM Salvador. estudioso da matéria e autor de técnicas cirúrgicas transgenitais. bem como elaborar relatórios sobre a matéria. facilidade diagnóstica e propostas terapêuticas.) no mesmo individuo.

não tem absolutamente funcionalidade sexual ativa. temos os sete níveis de diferenciação sexual concordantes.. não fosse a licitude evidenciada no artigo 199 da Constituição Federal.. a isso. com testiculos presentes em hérnias inguinais. como a síndrome de Klinefelter e a de Turner. a qual. sentido ou função. FUNCIONAL E CEREBRAL. Ao Conselho Federal de Medicina convém.o pseudo-hermafroditismo masculino (presença de testiculos) tem graus variados de feminização somática. conforme o artigo 129 do Código Penal: "Art..disforia do gênero ou transexualismo..As gônadas têm histologia normal. e de outro. 2. constitui competência singular do Conselho Federal de Medicina estudar a fundo a questão da cirurgia transgenital corretivo e oferecer à sociedade uma proposta ética conciliatória entre a possibilidade plástica e os impedimentos legais que vedam a mutilação do ser humano.. principalmente se for mantido no sexo masculino.434. da Lei n° 9..FALSO OU PSEUDO-HERMAFRODITISMO: só há um tipo de gônada presente (ovário ou testiculo) e ocorre ambigüidade somática de dois tipos: B... causando grandes problemas para o afetado... que literalmente veda ao médico: "Praticar ou indicar atos médicos desnecessários ou proibidos pela legislação do País".. mas atrofiam-se pela contínua auto-ingestão de hormônios do sexo oposto. com sexo genital ambiguo uni ou bilateral (de um lado masc. em seu artigo 9° explicita ser "permitida à pessoa juridicamente capaz dispor gratuitamente de tecidos..Feminino . Seu hipotálamo induz ao comportamento e aparência física do outro sexo. excetuando o SEXO PSIQUICO. tecidos e substâncias humanas para fins de transplante. fem. alia-se o fato de que a transformação da genitália constitui a etapa mais importante no tratamento de transexualismo.... GÔNADAS DISGENÉTICAS: é um estado intersexual produzido por gônadas mal diferenciadas surgidas de alterações numéricas nos cromossomos sexuais. o que .Masculino . familia e sociedade.114 inférteis. que dispõe sobre a remoção de órgãos.).. parágrafo quarto." O impedimento ético estaria configurado no artigo 42 do Código de Ética Médica...2. pesquisa e tratamento.." FUNDAMENTOS De fato.. O indivíduo só se identifica com o sexo oposto. B. não aceitando em nenhuma hipótese manter-se na condição disfórica.1. destarte.. examinar com propriedade os dispositivos contidos no artigo supracitado. B.2... . masturbação ausente e repulsa ou desejo de castração do próprio genital. 129. pois neste caso a função sexual ativa será precaríssima.. Ora. que trata das condições e requisitas que facilitem a remoção de órgãos.. Nestes casos. termo introduzido por Benjamin . além de busca desesperada por auxílio científico.. Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem: ... de 4/2/97. vista como a simples supressão de Orgão ou funções. tecidos e partes do corpo humano para fins de transplantes ou tratamento. bem como....o pseudo-hermafroditismo feminimo (presença de ovários) é a forma de intersexualidade mais comum (50%)..perda ou inutilização de membro. órgãos ou partes do próprio corpo vivo para fins de transplante ou terapêuticos". A mais intensa é a sindrome de Morris (soma feminino). 3... § 2° lIl .. apresenta ereção insuficiente... HERMAFRODITISMO PSÍQUICO ..

Destacamos parte da matéria contida no jornal do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal. desejoso de fazer a cirurgia de conversão da genitália. configurando o preceito da não-sacralidade da vida e. então. convém considerar a irreversabilidade do quadro psíquico à luz dos conhecimentos médicos atuais e a compreensão médica do desajuste daí decorrente. o direito de dispor de todo ou parte do próprio corpo. propenso ao auto-exterminio em face do grave conflito entre fenótipo e consciência de opção sexual. além do simples sexo cromossômico ou genético surgido na oogênese e traduzido pela formulação 44xx e 44xy. em sessão plenária realizada em 19 de maio de 1994. que a cirurgia do transexual devidamente padronizada e regulamentada é um procedimento ético. caso contrário. enquanto outros princípios envolvidos no exame ético da questão são a autonomia e a justiça: a autonomia porque contempla o direito da autodeterminação. já acessível à população de classe média e média alta. não lhe competindo. portanto. é forçoso reconhecer em caráter preliminar. é reconhecer e fundamentar como opção terapêutica uma cirurgia que se dispõe a remodelar a genitália externa de acordo com o sexo psíquico.. decidindo que o médico ao praticar uma cirurgia transexual em tese não comete infração ao Código de Etica Médica. são removidas pelo seu potencial cancerígeno". bastando leis de reassentamento civil" e esclarece ainda. muito além do desajuste . uma espécie de pulsação interior feminina". entretanto.j. fornecer ao paciente atestado de mudança de sexo. a justiça porque envolve a cidadania. sobre o assunto. que "a transgenitalização não extirpa órgãos ou abole função. Apenas as gônadas. Em segundo lugar. o direito de a pessoa não ser discriminada no pleito à cirurgia. Este tipo de cirurgia é praticada com o propósito de beneficiar um paciente portador de sexo psicológico feminino.m. pelo contrário adapta a genitália autodesfuncionalizada para a cópula em anatomia apta à função coeundi. a prevalência do homem como animal político acima do homem reprodutor. atrofiadas pelo bombardeio hormonal. independente de uma denúncia. E mais. O motivo essencial da cirurgia é a intenção da beneficência. O que se mostra primordial é reconhecer a prevalência do sexo psíquico sobre o sexo genético como fator de integração do ser humano na sociedade. "acreditamos. como pré-requisito. a existência de múltiplas definições de identidade sexual. podendo ser instaurado processo de autoridade judicial. Para tanto. aprovou parecer do conselheiro Pedro Pablo Magalhães Chacel sobre consulta acerca da legalidade e eticidade da cirurgia transexual. s. que se baseiam na necessidade de recuperacão da saúde lato senso." Jalma Jurado. reconhecida autoridade no âmbito da cirurgia experimental de transgenitalismo no Brasil. ao mesmo tempo que o médico deve ser alertado que do ponto de vista criminal a lesão corporal é crime de ação pública. mas não antiéticas. lesivo à condição humana. ostensivo e ruidoso. no tópico seguinte.115 se impõe. alvo de toda a atenção do médico. inclusive em dispor do próprio corpo. bem como procurar dar ao paciente uma condição de saúde psíquica não caracteriza um ato médico desnecessário. de janeiro de 1997. dispõe que: "Use a ciência médica reconhecer o termo tratamento há compatibilização legal para a cirurgia do transexual em nossa Carta Magna. que se mostra ilustrativa e oferece robustos elementos de convicção: "Levando em consideração que há cirurgias mutiladoras. princípio basilar da ética. isto é. fêmea e macho. é que o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF). legal e de ressocialização humana". a busca da integração entre o corpo e a identidade sexual psíquica do interessado.

nem a tenho ainda. A proposta que se apresenta é. esta cirurgia deve ter pelo menos o dom de abrir as portas de um cárcere inefável e libertar o pássaro da sensualidade. o brilho e a própria alegria de viver de um cidadão aturdido e massacrado por uma genitália aberrante. admitir que o ser humano se torne refém do próprio corpo. aparente e mutável. que em regra é silencioso e transcorre abaixo da linha d'água. impregnada dos principias da bioética. mas uma relevância que não se exprime em números. A atuação do médico pode e deve ser considerada um ato ético perfeito e justo. o médico alcançou em sua plenitude a recomendação ética de restaurar a beleza. Enfim. muito acima da simples função reprodutora.116 genético. como imperativo existencial. sanadas as dúvidas sobre o caminho legal para a sua execução e na ausência de quaisquer impedimentos normativos (aberto o caminho técnico com segurança e propriedade). Quanto à prevalência do sexo psíquico sobre o genético e a classificação do homem como animal político acima do animal reprodutor. A questão tem relevância social? Tem. no caso. que é o sexo psiquico. impõe-se. E pode. de que essa disposição do temperamento não pudesse . Até prova em contrário. nos momentos de meditação sobre mim. deformou. Não é justo que a única barreira seja o poder econômico. princípio e fim da condição humana. me inquietou. sem expressão clínica. que reproduz o ser vivo sem o concurso do macho reprodutor! Assegurada a sobrevivência da espécie humana nos tempos atuais. isto é. mas em gravidade. Convém buscar nas palavras magistrais de Fernando Pessoa. poeta português. como a genitália externa. corrigir o homem aquilo que a natureza. latejante. mas pela própria natureza em sua infortunistica fisiológico de má formação. que o corpo seja o cativeiro do indivíduo e não um instrumento de sua vontade na busca do prazer. Há quem considere a sexualidade humana como um atributo tão valioso que não deva se restringir à reprodução. convém citar que a reprodução como fator de perpetuação da espécie não é tão primordial como o era no período pré-científico. democratizar o acesso a esse procedimento para as minorias sexuais oprimidas e discriminadas. legal e ética de alcançar essa cirurgia desde que haja lastro financeiro. Essa dicotomia não foi provocada pela mão do homem. por descuido. não tiive nunca a certeza. É impossível para a Medicina. a busca da felicidade. secreto e desconfortável. injustiçadas. Portanto. Páira no espírito. de dentro para fora. daí a correção daquilo que vem a ser uma impropriedade do organismo. Sempre. a questão ética primordial para o CEM como setor avançado da sociedade médica e tutor dos interesses sociais da medicina é definir como tratamento a correção cirúrgica da genitália externa e dos caracteres sexuais secundários. Mais do que isto. visando recompor a unidade biopsicomorfológica do ser humano. tornar ética a sua possibilidade em nosso país. inafeito à reconstrução ou à plástica modeladora. além da técnica da clonagem ora disponível. porém. Por que não? A questão em pauta é a inaparência da parte mais agravada no conflito de formação. estranha aos designios insondáveis de sua alma. vez que já existe em outros paises a possibilidade técnica. com identidade sexual ambígua. o mérito dessa aflitiva condição de hóspede privado: "Reconheço sem ilusão a natureza do fenômeno. nem por caprichos de índole sexual das minorias oprimidas. É uma inversão sexual fruste.

") Nosso parecer alcança. ou exemplares. para distinguir de homossexualismo. do conselheiro Hilário Lourenço de Freitas Júnior.completamente no primeiro. 307 do Código Penal – "Atribuir-se ou atribuir a terceiro falsa identidade para obter vantagem. se o fato não constitui elemento de crime mais grave. resultando em mutilação grave e ofensa à integridade corporal. E o meu receio da descida ao corpo dessa inversão do espírito . O sexo biológico é imutável.117 um dia descer-me ao corpo. Benjamin. Shakespeare e Rousseau são dois exemplos. transexual é o indivíduo que se identifica como pertencente ao sexo oposto e experimenta grande frustração ao tentar se expressar através do seu sexo genético. na busca desesperada pela transformação sexual pela ação cirúrgica ou obtida por hormônios. pela rejeição à própria genitália semelhante ao sexo desejado e que gera o desconforto supremo da inadequação entre partes vivas. mas bastava o desejo para me humilhar. em 1949. sem controvérsia. para indivíduos com genitália interna e externa definidas e cromatina sexual compativel. do conselheiro Clarimesso Machado Arcuri. através de consultas a ele dirigidas. aprovando o Parecer-Consulta n° 28/75. Não digo que praticasse então a sexualidade correspondente a esse impulso. como se pertencesse ao sexo oposto' e conclui ser a cirurgia não de mudança de sexo. A questão se desloca para os casos intersexuais. de 3 (três) meses a 1 (um) ano. na medida em que se caracteriza pela repulsa. portanto. mais ilustres. caberia recomendações junto ao Congresso Nacional para subsidiar a discussão e um possível reordenamento da matéria. formas passíveis de correção cirúrgica. as formas de hermafroditismo falso ou verdadeiro. de janeiro de 1997." A questão do assento legal da cidadania não constitui competência normativa do Conselho Federal de Medicina pelo que. pertine à questão e merece transcrição no trecho onde historia a participação do Conselho Federal de Medicina na licitude ética da cirurgia transexual: "O Conselho Federal de Medicina (CFM) já se manifestou a respeito dos aspectos éticos e legais da cirurgia transexual. definiu como "síndrome de psicopatia sexual". que conclui ser a cirurgia transexual. Somos vários desta espécie. Matéria extraida do jornal do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal. se tanto. pela história abaixo pela história artística sobretudo. pois muda-se a genitália e não o sexo do individuo. R. proibida pelas leis brasileiras. Por definição. cunhou o termo transexualismo. em 1953. como deformações grotescas da genitália que comprometem o lastro psicológico do sexo. Caldwel.radica-mo a contemplação de como nesses dois desceu . na procura incansável pela harmonia entre o sexo psicossocial e a atividade sexual desejada. num vago masoquismo. O segundo Parecer-Consulta aprovado pelo CFM é o de n° 12/91. em proveito próprio ou alheio. objeto direto da nossa atenção normativa. que à época assim se pronunciou: 'O problema da transexualidade reside na não aceitação da identidade sexual. incertamente no segundo. Harry R. . além do comprometimento irreversível da função reprodutora. ou para causar dano a outrem: Pena detenção. com mais propriedade e pertinência. ou multa. oferecendo razões técnicas e biológicas para a sua compreensão (art. e em pederastia.

Os avanços morais. Deve ficar claro que na forma mais comum de transexualismo. para abrir caminho no presente em direção ao futuro e favorecer os avanços na Medicina em consonância com as aspirações da sociedade e sem .000 transexuais por habitante (na proporção de 6 homens para 1 mulher). É uma opção humana fora do controle. Somente a transgenitalização cirúrgica e o reassentamento civil reverterão a síndrome. programas que os incluíram na transgenitalização foram desastrosos. em parte apoiado na convicção sobre o impedimento legal. Os desvios de comportamento sexual ocorrem. como o foi até a presente data. aptos funcionalmente. moral e social os transexuais. A ação cirúrgica se faz pela adaptação da morfologia genital à autoidentificação pretendida (estão descritas múltiplas técnicas que resultam em excelente morfologia e funcionalidade genital).Ao aceitarmos que a perfeita saúde biopsicossocial do homem é função da realização sexual plena. organizadas ou avançadas. artigo 42. em vários centros médicos do mundo. ou de capacitar um ser humano para uma função que a natureza 'não previu'. isto é. utilizando ilicitamente hormônios e materiais aloplásticos. As friagens endócrino-psicológicas executadas por um periodo de dois anos. legais. o masculino. é intuitiva a existência do Hermafroditismo psíquico. que jamais inclua 'mudança de sexo' ou transgenitalização cirúrgica. regras. incisos lIl e IV do Código Penal e incorporado ao Código de Ética Médica. parágrafo 2°. a sensibilidade histórica. sociais e religiosos e as modernas terapêuticas regulamentaram o tratamento do transexualismo em mais de 40 centros mundiais. e entre 30 a 60 mil os que se auto-enquadram nessa condição. podem reconhecê-los e orientá-los. que devem ser diagnosticados e receber cuidados profissionais adequados. nem colaboram para o 'erro essencial de pessoa'. exibicionistas ou psicopatas. continuaremos a ver na marginalidade ética.. Entende-se que os auto-identificados no seu sexo.000 a 1/100. As várias etapas diagnósticas convencionadas. Capitulo lIl Responsabilidade Profissional. que estabelece ser vedado ao médico 'praticar ou indicar atos médicos desnecessários ou proibidos pela legislação do País'. existem e permanecerão em sociedades primitivas. para proposições inovadoras que lhe são pertinentes. Se nosso raciocínio for inverso. autorizando a cirurgia. Pode até ser contrário à eticidade da proposta cirúrgica. em parte atrelado a preconceitos sociais. É preciso que o Conselho Federal de Medicina tenha o "timing". também exibam e atuem nas características do outro sexo. as ciências médica e jurídica não ousam transformá-los em corpos femininos (inexistirá genitália interna e reprodução)." O Conselho Federal de Medicina não pode é ficar indiferente à questão. No passado. iniciada em tenra idade até a velhice.118 capituladas no artigo 129. Eles passam a vida se autotransformando (mutilando-se às vezes). punições e leis adotadas. marginalizando-se obcecados pela compulsão de pertencer ao sexo oposto. etc. bissexuais. sob padronização médica. São os homossexuais." Do parecer do prof. O VI Simpósio Internacional de Disforia do Gênero calcula entre 3 a 6 mil norte-americanos os candidatos ao tratamento. travestis. As estatísticas (imprecisas) admitem entre 1/20. permitem o diagnóstico claro de transexualismo masculino ou feminino. Jalma Jurado buscamos alguns conceitos de transexualismo e elementos de distinção dos estados assemelhados: "O FENÔMENO TRANSEXUAL . Há comunicados e trabalhos em culturas tradicionais como a chinesa (6) e muçulmana (decretos religiosos 'fatwa').

obedecidos os critérios de seleção e na forma da Resolução anexa: Brasília.Suporte social adequado . Fazê-lo antes que a sociedade leiga o faça. perder as características primárias e secundários do próprio sexo e ganhar as do sexo oposto . propomos ao Plenário do Conselho Federal de Medicina a adoção dos procedimentos acima. dois anos . Além disso.119 afrontar a lei. como esquizofrenia" A seleção de pacientes para este tipo de procedimento cirúrgico deve ser a mais rigorosa possível. no mínimo.Ausência de história criminal . antes que a sociedade faça justiça pelas próprias mãos. apenas não reversível. temos hoje. bases organicas para os desvios de identidade sexual. Pelo exposto. por outro lado. de abril de 1997. em face da complexidade do ato e sua irreversibilidade. a titulo de definição da clientela-alvo. na atualidade. disponível.Intenso desconforto com o sexo anatômico .Ausência de transtorno mental. Citamos no quadro abaixo as principais características dos transexuais. Comissão de Estudos sobre Transexualismo Dr. como ademais os costumes e hábitos sociais sofreram transformação nos grandes centros do País nas duas últimas décadas.Permanência deste distúrbio de forma continua e consistente por. segundo classificação de estudiosos: "Quadro 1” principais características dos transexuais: . uma técnica segura e eficaz.Desejo de eliminar os genitais. Júlio Cezar Meirelles Gomes Dr.Ausência de psicopatologia . que oferece ao indivíduo a possibilidade de transformação da genitália e dos caracteres sexuais secundários. Lúcio Mário da Cruz Bulhões Aprovado em sessão plenária em 09/05/97 .Ausência de características fisicas inapropriadas para a cirurgia" CONCLUSÃO A proposta que temos a frente contraria pareceres deste Colegiado elaborados sob os auspícios da Constituição Federal em época anterior a 1988. estudos genéticos de ponta indicam. O quadro n° 2 apresenta os critérios utilizados pela Fundação Harry Benjamin/EUA: "Quadro 2” Critérios de seleção para a cirurgia . Não pode o Conselho Federal de Medicina ir a reboque de movimentos legalistas ou ficar à mercê de vertentes eleitoreiras. a título de cirurgia experimental para os casos de transexualismo.

interna e caracteres sexuais secundários não constitui crime de mutilação previsto no artigo 129 do Código Penal. bem como estimular a pesquisa cirúrgica de transformação da genitália e aprimorar os critérios de seleção. regulamentada pelo Decreto nº 44. visto que tem o propósito terapêutico específico de adequar a genitália ao sexo psíquico.268/57. que tratam.268. CONSIDERANDO o que dispõe a Resolução CNS nº 196/96. CONSIDERANDO que a cirurgia de transformação plástico-reconstrutiva da genitália externa.120 Anexo 6 RESOLUÇÃO CFM nº 1. bem como o fato de que a transformação da genitália constitui a etapa mais importante no tratamento de transexualismo. respectivamente.482 /97 O Conselho Federal de Medicina. no uso das atribuições conferidas pela Lei nº 3. e não há lei que defina a transformação terapêutica da genitália in anima nobili como crime.246/88. combinado ao artigo 2º da Lei nº 3. CONSIDERANDO a viabilidade técnica para as cirurgias de neocolpovulvoplastia e ou neofaloplastia.045. pesquisa e tratamento. CONSIDERANDO. CONSIDERANDO ser o paciente transexual portador de desvio psicológico permanente de identidade sexual. RESOLVE: . finalmente. de 30 de setembro de 1957. de 19 de julho de 1958 e. parágrafo quarto. o decidido na Sessão Plenária de 10 de setembro de 1997. que trata da remoção de órgãos. CONSIDERANDO que o espírito de licitude ética pretendido visa fomentar o aperfeiçoamento de novas técnicas. tecidos e substâncias humanas para fins de transplante. CONSIDERANDO o que dispõe o artigo 199 da Constituição Federal. da expedição de resoluções que complementem o Código de Ética Médica e do zelo pertinente à fiscalização e disciplina do ato médico. CONSIDERANDO a competência normativa conferida pelo artigo 2º da Resolução CFM nº 1. com rejeição do fenotipo e tendência à auto mutilação e ou auto-extermínio. CONSIDERANDO que o artigo 42 do Código de Ética Médica veda os procedimentos médicos proibidos em lei.

10 de setembro de 1997.97 Página 20. neofaloplastia e ou procedimentos complementares sobre gônadas e caracteres sexuais secundários como tratamento dos casos de transexualismo. - permanência desse distúrbio de forma contínua e consistente por. 5. a realização de cirurgia de transgenitalização do tipo neocolpovulvoplastia. - maior de 21 (vinte e um) anos. no mínimo. 2. aos critérios abaixo enumerados: . perder as características primárias e secundárias do próprio sexo e ganhar as do sexo oposto. dois anos. A definição de transexualismo obedecerá. Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação. a título experimental.U.944 .desconforto com o sexo anatômico natural. de 19. - ausência de outros transtornos mentais. no mínimo. Consentimento livre e esclarecido. 6. Brasília-DF. WALDIR PAIVA MESQUITA Presidente EDSON DE OLIVEIRA ANDRADE 2º Secretário Publicada no D.121 1. 3. As cirurgias só poderão ser praticadas em hospitais universitários ou hospitais públicos adequados à pesquisa.O. cirurgião. de acordo com a Resolução CNS nº 196/96. A seleção dos pacientes para cirurgia de transgenitalismo obedecerá a avaliação de equipe multidisciplinar constituída por médico-psiquiatra. 4. psicólogo e assistente social. - ausência de características físicas inapropriadas para a cirurgia. obedecendo aos critérios abaixo definidos. - desejo expresso de eliminar os genitais.09. Autorizar. após dois anos de acompanhamento conjunto: - diagnóstico médico de transexualismo.

das neocolpovulvoplastias nos casos com indicação precisa de transformação o fenótipo masculino para feminino. pesquisa e tratamento. CONSIDERANDO o que dispõe o artigo 199 da Constituição Federal. combinado ao artigo 2º da Lei nº 3. que tratam. tanto do ponto de vista estético como funcional. e CONSIDERANDO a competência normativa conferida pelo artigo 2º da Resolução CFM nº 1.652/2002 Dispõe sobre a cirurgia de transgenitalismo e revoga a Resolução CFM nº 1.122 Anexo 7 RESOLUÇÃO CFM nº 1. de 30 de setembro de 1957. O Conselho Federal de Medicina. . e não há lei que defina a transformação terapêutica da genitália in anima nobili como crime. bem como estimular a pesquisa cirúrgica de transformação da genitália e aprimorar os critérios de seleção. regulamentada pelo Decreto nº 44. CONSIDERANDO a viabilidade técnica para as cirurgias de neocolpovulvoplastia e ou neofaloplastia. CONSIDERANDO o bom resultado cirúrgico. CONSIDERANDO que a cirurgia de transformação plásticoreconstrutiva da genitália externa. CONSIDERANDO que o espírito de licitude ética pretendido visa fomentar o aperfeiçoamento de novas técnicas. bem como o fato de que a transformação da genitália constitui a etapa mais importante no tratamento de pacientes com transexualismo. CONSIDERANDO o que dispõe a Resolução CNS nº 196/96.482/97. CONSIDERANDO que o artigo 42 do Código de Ética Médica veda os procedimentos médicos proibidos em lei.045. parágrafo quarto. interna e caracteres sexuais secundários não constitui crime de mutilação previsto no artigo 129 do Código Penal. respectivamente. da expedição de resoluções que complementem o Código de Ética Médica e do zelo pertinente à fiscalização e disciplina do ato médico.268.268/57. com rejeição do fenótipo e tendência à automutilação e ou auto-extermínio.246/88. de 19 de julho de 1958.482/97 e do trabalho das instituições ali previstas. tecidos e substâncias humanas para fins de transplante. que trata da remoção de órgãos. visto que tem o propósito terapêutico específico de adequar a genitália ao sexo psíquico. com evolução decorrente dos critérios estabelecidos na Resolução CFM nº 1. CONSIDERANDO ser o paciente transexual portador de desvio psicológico permanente de identidade sexual. CONSIDERANDO o estágio atual dos procedimentos de seleção e tratamento dos casos de transexualismo. no uso das atribuições conferidas pela Lei nº 3.

a realização de cirurgia do tipo neofaloplastia e/ou procedimentos complementares sobre gônadas e caracteres sexuais secundários como tratamento dos casos de transexualismo. 3º Que a definição de transexualismo obedecerá. cirurgião. obedecendo os critérios abaixo definidos. 2) Maior de 21 (vinte e um) anos. Parágrafo 1º . as terapêuticas prévias. 2) Desejo expresso de eliminar os genitais. 4) Ausência de outros transtornos mentais. endocrinologista. Art.O Corpo Clínico destes hospitais. no mínimo. finalmente. as cirurgias e o prolongado acompanhamento pós-operatório são atos médicos em sua essência. CONSIDERANDO que o diagnóstico. independente da atividade de pesquisa. após. deve ter em sua constituição os profissionais . o decidido na Sessão Plenária de 6 de novembro de 2002. 3) Permanência desses distúrbios de forma contínua e consistente por. ainda a título experimental. no mínimo. registrado no Conselho Regional de Medicina. aos critérios abaixo enumerados: 1) Desconforto com o sexo anatômico natural. Art. Art. 1º Autorizar a cirurgia de transgenitalização do tipo neocolpovulvoplastia e/ou procedimentos complementares sobre gônadas e caracteres sexuais secundários como tratamento dos casos de transexualismo. RESOLVE: Art. 2º Autorizar. Art. CONSIDERANDO.123 CONSIDERANDO as dificuldades técnicas ainda presentes para a obtenção de bom resultado tanto no aspecto estético como funcional das neofaloplastias. perder as características primárias e secundárias do próprio sexo e ganhar as do sexo oposto. no mínimo. mesmo nos casos com boa indicação de transformação do fenótipo feminino para masculino. 4º Que a seleção dos pacientes para cirurgia de transgenitalismo obedecerá a avaliação de equipe multidisciplinar constituída por médico psiquiatra. Art. 5º Que as cirurgias para adequação do fenótipo feminino para masculino só poderão ser praticadas em hospitais universitários ou hospitais públicos adequados para a pesquisa. a indicação. dois anos. psicólogo e assistente social. dois anos de acompanhamento conjunto: 1) Diagnóstico médico de transgenitalismo. 3) Ausência de características físicas inapropriadas para a cirurgia. 6º Que as cirurgias para adequação do fenótipo masculino para feminino poderão ser praticadas em hospitais públicos ou privados.

Parágrafo 2º .124 previstos na equipe citada no artigo 4º. 7º Deve ser praticado o consentimento livre e esclarecido. 8º Esta resolução entra em vigor na data de sua publicação.As equipes devem ser previstas no regimento interno dos hospitais.482/97. a falta de um dos membros da equipe ensejará a paralisação de permissão para a execução dos tratamentos. Parágrafo 3º . Brasília-DF.Os hospitais deverão ter Comissão Ética constituída e funcionando dentro do previsto na legislação pertinente. 6 de novembro de 2002. EDSON DE OLIVEIRA ANDRADE Presidente RUBENS DOS SANTOS SILVA Secretário Geral . Art. revogando-se a Resolução CFM nº 1. obedecendo os critérios regimentais para a ocupação do cargo. Parágrafo 4º . inclusive contando com chefe.A qualquer ocasião. Art. aos quais caberá o diagnóstico e a indicação terapêutica.

profissionais médicos urologistas. representantes de Conselhos e Comitês Nacional. a organização. psicólogos e psicanalistas. e profundamente preocupados com a qualidade de vida dos indivíduos transexuais e sua saúde mental e física e integridade. psiquiatras. usuários. 2º O incentivo. reunidos por ocasião da Primeira Jornada Nacional sobre “Transexualidade e Saúde: a assistência pública no Brasil”. representantes de movimentos sociais de transexuais do Brasil.A complexidade da terapia hormonal. Medicina e demais áreas da saúde e estudantes de Direito. Enfermagem. 4 . Estaduais e Regionais. endocrinologistas e cirurgiões. Transgêneros e Bissexuais. professores de Medicina. estudantes de Psicologia. Bioética. realizada nos dias 9 e 10 de setembro de 2005 na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. profissionais das diversas áreas da saúde e do direito. a articulação e a sistematização de Serviços públicos de assistência integral a transexuais no âmbito da saúde e da justiça que atendam as demandas específicas deste segmento.Aspectos cirúrgicos da Transexualidade. Coordenador Nacional de Saúde Mental do MS. promovida pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pela Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde. 3. Psicologia. Lésbicas. políticos e sociais. 5. Serviço Social. 2.Efeitos éticos e jurídicos da transexualidade.O atendimento psicológico e psiquiátrico: diagnóstico e tratamento. regional e local para aumentar a coordenação e intensificar as iniciativas locais e nacional para o tratamento e assistência da transexualidade. resultando neste documento que RECOMENDA: 1º A imediata convocação do grupo de trabalho previsto na portaria 880 de 13 de maio de 2004 do Ministério da Saúde para a formulação de propostas de Política Nacional de Saúde para a população de Gays. após termos discutido os seguintes temas: 1. .Transexualidade e Saúde: aspectos históricos. para analisar e discutir a questão da Transexualidade em todos os seus aspectos e garantir um compromisso ético nacional.125 Anexo 8 TRANSEXUALIDADE E SAÚDE PÚBLICA NO BRASIL Nós. Biologia e Direito. seguidos de uma plenária final.

como idade mínima para o início do processo visando a cirurgia. mas também diagnósticas. e dos medicamentos 17 Beta estradiol.O conhecimento dos protocolos de assistência que vêm sendo utilizados por estes serviços . público e privados. recomendamos a ampliação desta ação para incluir também no .A elaboração de um banco de dados nacional dos serviços existentes e sua demanda. para administração percutânea e transdérmica. . de 13 de maio de 2002. 6º Considerando o Novo Código Civil vigente (Lei n. 4º A incorporação dos procedimentos cirúrgicos de redesignação sexual na tabela do Sistema Único de Saúde em Centros de Referência de Assistência Interdisciplinar a pacientes transexuais no âmbito dos Serviços de Assistência de Alta Complexidade do Ministério da Saúde. 8º Considerando a proposta de ação governamental inserida no Programa Nacional de Direitos Humanos II .º 10. etiológicas e epidemiológicas.Decreto nº 4.229. com especial atenção para os casos de transexualismo feminino. lésbicas. de acetato de ciproterona e de cremes vaginais de estrogênio na relação de medicamentos excepcionais custeados pelo Sistema Único de Saúde em Centros de Referência de Assistência Interdisciplinar a pacientes transexuais no âmbito dos Serviços de Assistência de Alta Complexidade do Ministério da Saúde. travestis e bissexuais (item 248). 7º Incentivar pesquisas científicas sobre o transexualismo incluindo não só as questões cirúrgicas.406/2002) que alterou a maioridade civil para 18 anos. como garantia do direito à igualdade.126 3º A realização de um levantamento de todos os Serviços de saúde. . e recomendamos sua alteração para considerar a maioridade civil atual de 18 (dezoito) anos. de “promover campanha junto aos profissionais da saúde e do direito para o esclarecimento de conceitos científicos e éticos relacionados à comunidade GLTTB” – gays.O estabelecimento de diretrizes unificadas de assistência a esta população e de um protocolo único para a rede de serviços públicos de saúde. que atendem esta clientela visando: . transexuais. 5º Inclusão dos procedimentos cirúrgicos de redesignação sexual na tabela do Sistema Único de Saúde. referendamos a resolução do Conselho Federal de Medicina nº 1652/2002. ainda pouco abordado.

de apoiar uma lei que estabeleça o direito a redesignação de sexo e mudança de registro civil para transexuais. a temática da sexualidade humana e seus múltiplos aspectos. estimulem e promovam a alteração do nome e do sexo. Educação e Direito.229.Considerando as dificuldades existentes de acesso à justiça e as divergências. sobre a possibilidade legal de alteração do estado civil dos transexuais. como parte integrante deste. e o compromisso de ação governamental firmado no Programa Nacional de Direitos Humanos II .Decreto n.127 currículo de graduação nos cursos da área da Saúde. para a alteração do nome e do sexo junto ao registro civil. b) que o poder executivo federal apresente projeto de lei que facilite e estabeleça um procedimento ágil e uniforme. no registro civil das pessoas submetidas ao tratamento. no âmbito nacional. de 13 de maio de 2002.º 4. ainda presentes na jurisprudência nacional. ministério público e magistratura) que facilitem. recomendamos: a) que sejam estabelecidos convênios e/ou ações articuladas entre setor saúde e o sistema de justiça (defensoria pública. 9º . . das pessoas transexuais submetidas ao tratamento. como parte integrante deste. item 115.

Lésbicas. Transgêneros e Bissexuais .incorporar subsídios técnicos-políticos provenientes do Comitê Consultivo de Saúde da População de Gays. em consonância com o Plano Nacional de Saúde. Lésbicas.SAS.Secretaria de Atenção à Saúde .sistematizar proposta de política nacional da saúde da população de Gays.GLTB e a articulação das ações de saúde já em andamento tendo como objeto este segmento populacional. II .SE. Lésbicas. e Considerando a necessidade de implementar política de atenção integral voltada à População de Gays. Transgêneros e Bissexuais . nos diversos níveis de governo. Considerando o caráter transversal das questões relacionadas à saúde da População de Gays. Lésbicas. II . no âmbito do Ministério da Saúde. o Comitê Técnico de Saúde da População de Gays.GLTB será composto por representantes do Ministério da Saúde que serão indicados – um titular e um suplente – pelos dirigentes de cada uma das áreas discriminadas a seguir: I . no que se refere à saúde da População de Gays.GLTB. Lésbicas. Transgêneros e Bissexuais . III . Transgêneros e Bissexuais .GLTB.128 Anexo 9 PORTARIA Nº 880/GM Em 13 de maio de 2004. Transgêneros e Bissexuais . Considerando a necessidade da articulação de ações entre as áreas do Ministério da Saúde e as demais instâncias do Sistema Único de Saúde. O MINISTRO DE ESTADO DA SAÚDE. Transgêneros e Bissexuais .GLTB.Secretaria Executiva . Lésbicas.GLTB na formulação da política e do plano nacional de saúde da referida população.GLTB e a necessidade de envolver e escutar diferentes atores sociais para o aprofundamento dos conhecimentos sobre o tema e delineamento de estratégias intra e intersetoriais de intervenção. Transgêneros e Bissexuais . Lésbicas.SGTES. a reduzida sistematização de conhecimento teórico e operacional sobre o tema no país R E S O L V E: Art. com as seguintes atribuições: I . no uso de suas atribuições legais. 2º O Comitê Técnico de Saúde da População de Gays. 1º Constituir. Transgêneros e Bissexuais . . Lésbicas. Lésbicas. Dispõe sobre a criação do Comitê Técnico para a formulação de proposta da Política Nacional de Saúde da População de Gays.elaborar proposta de plano nacional de saúde da População de Gays.GLTB.GLTB.GLTB que articule as ações e o trabalho das áreas voltadas a este segmento populacional. e III . e Considerando a necessidade da criação de programas e atividades voltados à saúde da População de Gays.Secretaria de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde . Transgêneros e Bissexuais . Lésbicas. assim como. Transgêneros e Bissexuais . Art.

Art. 5º Esta portaria entra em vigor na data de sua publicação. 3º Após a instituição do Comitê Técnico.Secretaria de Vigilância em Saúde .SVS.FUNASA. § 4º As despesas decorrentes do funcionamento do Comitê Técnico ficarão a cargo da Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde. e XI . X . representantes de órgãos governamentais e organizações não governamentais. § 2º A Coordenação do Comitê Técnico será realizada pelo representante da Secretaria-Executiva. sendo considerado trabalho de relevância pública.SCTIE. Lésbicas. Art. composto pelos membros do Comitê Técnico e igual número de convidados externos.SGP. VI .GLTB.Agência Nacional de Vigilância Sanitária . Transgêneros e Bissexuais .ANS.Secretaria de Ciência.Agência Nacional de Saúde Suplementar . HUMBERTO COSTA . Art.ANVISA.129 IV . VII . § 3º Os membros do Comitê Técnico não receberão nenhuma gratificação para o seu exercício.Departamento Nacional de Auditoria do SUS – DENASUS. 4º Determinar à Secretaria-Executiva – SE/MS a adoção de medidas necessárias ao cumprimento do disposto nesta Portaria. deverá ser constituído o Comitê Consultivo da Política de Saúde da População de Gays. VIII . Tecnologia e Insumos Estratégicos . V .Fundação Nacional de Saúde . IX .FIOCRUZ.Fundação Oswaldo Cruz . § 1º Poderão ser incorporados ao Comitê outros técnicos cujas especializações possam oferecer contribuições ao desenvolvimento do trabalho.Secretaria de Gestão Participativa . no prazo de 90 (noventa) dias.