[-] www.sinaldemenos.org Ano 8, n°12, vol. 1, 2016

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[-] Sumário # 12, vol. 1
EDITORIAL

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DOSSIÊ ANSELM JAPPE
PROJETO As Aventuras do Sujeito
Nota introdutória, por Pedro Henrique de Mendonça Resende

11

ENTREVISTA com Anselm Jappe

13

NARCISISMO E FETICHISMO DA MERCADORIA

18

Algumas observações a partir de Descartes, Kant e Marx
Anselm Jappe
NARCISO OU ORFEU?

30

Observações sobre Freud, Fromm, Marcuse e Lasch
Anselm Jappe
DA “AURA” DOS ANTIGOS MUSEUS
E DA “EXPERIÊNCIA” DOS NOVOS

65

Anselm Jappe

DOSSIÊ JAMES JOYCE
FORMA, ESTILO, PASTICHE

74

Considerações sobre o Ulysses de Joyce
Raphael F. Alvarenga
HAMLETS DE FARDA NÃO HESITAM
Uma leitura materialista do Ulysses
Raphael F. Alvarenga

95

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PERIFERIA/PARALISIA

3
141

A figuração do inferno colonial no primeiro Joyce
Cláudio R. Duarte

ARTIGOS
O TRABALHO EM MARX É ONTOLÓGICO, #SQN

158

Crítica categorial da forma limitada da atividade humana
Thiago Ferreira Lion &
Thiago Arcanjo Calheiros de Melo
POR UMA NOVA CRÍTICA DA MÚSICA

199

Primeiras notas
Fred Lyra
ENTRE UMBRAIS E VIRTUALIDADES
Mundos possíveis?
Helena Castellain Barbosa de Castro

219

COMO AGIR COMO SE NÃO SE FOSSE LIVRE

228

Uma defesa contemporânea do fatalismo
Frank Ruda
...
IMPEACHMENT
Memória do 1º ato da farsa brasileira de 2016

256

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Editorial
Após outro longo intervalo, publicamos aqui mais uma edição dupla de Sinal
de Menos.
O mundo do capital segue seu curso de colisão, como diagnosticamos em
números anteriores da revista. De 2014 para cá, passando pelo “golpeachment” de
2016, o Brasil confirma-se na vanguarda dos processos mundiais de retrocesso. A
retomada do poder por uma camarilha de conspiradores e tecnocratas blindados pela
mídia, verdadeiros usurpadores profissionais da pilhagem social, que por uma
década toleraram os aprendizes da rapina sistemática oriundos do meio sindical para
fins de “gestão da barbárie”, só pode nos conduzir agora a uma maior destruição dos
direitos sociais e a um domínio cada vez mais rígido da lógica do mercado – na
verdade, do capital global em fase de esgotamento de sua valorização real.
Um processo de estilhaçamento social para o qual a palavra “golpe” começa a
parecer inadequada, como Paulo Arantes notou ainda há pouco, considerando-se que
tudo foi conduzido aparentemente na mais estrita conformidade das leis. É claro que
com as devidas torções interpretativas de sentido, deixando coexistir lado a lado
casos em que elas se aplicam e não se aplicam, tudo em certo grau dependendo do
casuísmo do bloco de poder mais forte do momento. Por outro lado, parece que o
próprio estado de exceção redefine suas formas quando um ordenamento social que
já o aplicava em certos espaços não é cancelado e suspenso para implantar uma outra
Ordem, dessa vez mais rígida e com um projeto de integração abertamente
autoritário como o de 1964, mas para implantar a rapina e a desintegração social sob
a capa ideológica da “legalidade democrática”, da restauração das “liberdades” e da
“lógica do mercado”. Na consciência social e na opinião forjada pela indústria da
cultura pode até parecer que tudo vai voltando ao normal. Se não estamos
enganados, hoje vivemos algo como uma renaturalização das estruturas fetichistas
do capital. O resultado mais claro disso foi o avanço da direita em todo o país nas

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últimas eleições municipais e a impotência da massa diante da “ponte para o
retrocesso” que vai sendo construída.
Contudo, de maneira mais ou menos prevista após a crise de 2008, o declínio
do preço das commodities, o aumento do déficit fiscal, da frustração de receitas, além
da ampliação insana de pagamentos de juros da dívida pública, o Brasil entra na rota
do desfiladeiro das modernizações retardatárias. A normalidade é pura ideologia.
Não por acaso as reformas arrasa-quarteirão planejadas surgem no momento exato
do agravamento da crise, logo após o novo tipo de golpe palaciano inventado. Da
destruição prometida pela reforma previdenciária à reforma trabalhista, da reforma
do Ensino Médio e do SUS à liquidação geral do patrimônio público até, enfim, a
chamada “PEC do fim do mundo”, o que aparece claro já na superfície é a imposição
do mais puro economicismo, para o aplauso dos mercados. O que é imposto o mais
velozmente possível através de um governo ilegítimo e inimigo do debate público,
mediante a estratégia terrorista-midiática “suave” campeã em indignação seletiva,
um setor comprado por gordas verbas de publicidade, vale lembrar. Um conjunto de
forças conservadoras que insufla uma incontável perseguição antiesquerda, digna
dos dias da Guerra Fria. “Ordem e progresso”: até mesmo o lema positivista da
bandeira foi ressuscitado. Eis aí a nossa contribuição para a renovação da Doutrina
do Choque, tal qual anunciada por Naomi Klein.
Como estamos na periferia, porém, o buraco é sempre mais embaixo e parece
não haver limite para a rapina e a degradação social, bem como para a violência
repressiva que se seguirá, e que no momento, aliás, deve estar sendo preparada. O
ritmo brasileiro daqui para diante parece ser então o de uma espiral paradoxal de
“reformas destrutivas” em doses cavalares, também conhecidas eufemisticamente
como “ajustes neoliberais” e “políticas de austeridade”. Se tudo isso se confirmar,
teremos um claro desmonte do Estado nacional, não evidentemente como sua
superação por formas de democracia direta, participativa e descentralizada, mas
antes como sua anexação quase imediata pelas forças do capital e dos estratos
burocráticos corrompidos. O aumento das disparidades sociais é certo, embora não
esteja fora de cogitação a retomada de investimentos e de um certo crescimento de
tipo “canibal” sobre a força de trabalho e os recursos naturais. Se uma tal

É que o estado de exceção inaugura todo tipo de suspensão de regras da civilidade burguesa. Hungria. como se vê em diversas partes (EUA. Tailândia. subjugado pelas formas de um sobrevivencialismo narcísico e de uma regressão que traz à tona formas de preconceito e ódio reativo. Filipinas. começam a incorporar positivamente a lógica do desmanche e da dessolidarização como destino inevitável e até mesmo como oportunidade de ganhos extraordinários. por uma espécie de “encantamento”. Ocorre que no momento em que as forças produtivas atingem níveis que poderiam libertar a sociedade não apenas do trabalho excedente. Após a queda do pai e da erosão da Lei. inspirada em desenho do “Proyecto Cabra”. Brasil. remete aos sonhos malignos de ódio sem direção que estão sendo destravados. mas do trabalho abstrato em geral e do sistema produtor de mercadorias como totalidade. francamente autoritários ou apenas austericidas. Turquia. como diria Adorno. prenunciando a ruptura do novo consenso de aço que renaturalizou o fetiche. a escola e a cultura do empreendedorismo só encontrará seu limite se a objetividade da crise aparecer como crise do sistema do capital e não deste ou daquele governo isolado. dentre outros). a mídia e as redes sociais. Que tipo de lutas e práticas sociais isso suscitará é uma página inteiramente em branco. ainda mais corroída pela acumulação digital e flexível. França. Grécia. Ucrânia. n°12. mais trabalho ela exige de suas criaturas deformadas. É como se na ausência do grande Outro uma série de pequenos outros desabrochasse sem pautas. a massa neoliberalizada pelos fundos “foge para as colinas”. que.org Ano 8. incluindo seu sujeito histórico liberal “responsável”. É assim que a CAPA da revista elaborada por FELIPE DRAGO.6 [-] www. e isso sem falar no Estado Islâmico e nas dezenas de regimes monárquicos. 2016 decomposição social assim se realizar ela também será passível de ser virada dialeticamente do avesso. Espanha. necessária e urgente como momento de .sinaldemenos. vol. nas asas de governos conservadores. A incorporação da lógica da concorrência no caráter e no comportamento por meios tão diversos quanto o emprego. Egito. a não ser a da (auto)destruição. fundamentalistas e ditatoriais espalhados pelo mundo. Para isso servirá a teoria crítica que se acumula à margem da práxis existente. mais ela se enreda nessas formas. 1.

inicia-se com dois ensaios corajosos de RAPHAEL F. vol. especialmente dessa obra maior do modernismo literário que continua sendo o Ulysses. uma crítica refinada desse romance é buscada de acordo com o trajeto anteriormente apresentado. capaz de incorporar estilos os mais variados sem perder . e DA “AURA” DOS ANTIGOS MUSEUS E DA “EXPERIÊNCIA” DOS NOVOS. em que temos dois dossiês: ANSELM JAPPE e JAMES JOYCE. mas frágil e limitada para as tarefas que despontam no horizonte. A revista inicia-se com uma nota explicativa ao DOSSIÊ JAPPE – As Aventuras do Sujeito – traduzido por Fred Lyra e Pedro Henrique de Mendonça Resende.sinaldemenos. Partindo da teoria da Wert-Spaltung (que vem sendo traduzido por “dissociação-valor”. que poderia ser interpretado como o lado subjetivo do primeiro. Em questão – para nós aberta – fica a forma do eu moderno ou a forma do sujeito em geral (nesse caso. 2016 um longo processo de transição.7 [-] www. 1. O segundo DOSSIÊ. em que o escritor apresenta o projeto de seu livro intitulado As aventuras do sujeito. No segundo – HAMLETS DE FARDA NÃO HESITAM – Uma leitura materialista do Ulysses –. No primeiro deles – FORMA. Fromm. através de uma série de interpretações de pontos cruciais em cada capítulo da obra. Seguem-se três artigos publicados entre 2012 e 2016 por Jappe. Kant e Marx. aos quais a revista gostaria muito de agradecer publicamente. Marcuse e Lasch. ESTILO. Tal leitura redescobre o coração pulsante de sua forma heterogênea. que gentilmente autorizou sua tradução: NARCISISMO E FETICHISMO DA MERCADORIA – Algumas observações a partir de Descartes.org Ano 8. incluindo toda a estrutura pulsional freudiana). a ser publicado na França em 2017. n°12. NARCISO OU ORFEU? – Observações sobre Freud. dedicado a JOYCE. Esses temas não deixam de comparecer neste novo número de Sinal de Menos. PASTICHE – Considerações sobre o Ulysses de Joyce – o autor expõe alguns pressupostos para uma leitura crítica e materialista do escritor irlandês. ALVARENGA. O dossiê reúne primeiramente um pequeno excerto de ENTREVISTA concedida a um colaborador da editora portuguesa Antígona. ou “valor-cisão” [de gêneros]) de Kurz e Scholz (entre outros). ANSELM JAPPE tece as relações entre fetichismo da mercadoria e narcisismo.

1.[-] www. o artigo expõe formulações bastante complexas. o ensaio de mudança e o seu desaparecimento. fundado que está na penetração da lógica do capital numa sociedade semiperiférica e dependente. De certo modo. #SQN – Crítica categorial da forma limitada da atividade humana – THIAGO FERREIRA LION e THIAGO ARCANJO CALHEIROS DE MELO destrincham o suposto caráter ontológico da categoria trabalho em Marx. No artigo de título irônico – O TRABALHO EM MARX É ONTOLÓGICO. poucos considerariam regar seu próprio jardim como sendo trabalho. vol. Apesar do esforço em dialogar o mais amplamente possível. Temos aí um Joyce mais seco. no início do séc. mas já afinado às dissonâncias de uma sociedade neocolonial que delineia incessantemente uma espécie de “movimento paralítico”: cristalizado entre o mito e a história. interpretando sua recriação paródica do Inferno de Dante. à crítica musical e aos movimentos possíveis na sociedade urbana. numa espécie de mimese construtiva exuberante de uma base de vida miserável. partindo de perguntas como: “regar as plantas é trabalho?”. mais objetivo.sinaldemenos. todas . mais econômico. XX. O artigo traz diversas citações nas quais o revolucionário alemão deixa entrever uma diferente forma de lidar com tal categoria. E que apenas em sua desolação e identificação negativa pode suscitar algum desejo de ruptura. com personagens moldadas e mobilizadas pelo processo. especialmente no conto cortante intitulado “Counterparts”. 2016 8 nada em sua determinação pelo conteúdo social. A revista prossegue com questões relacionadas ao trabalho.org Ano 8. n°12. os dois dossiês da revista parecem formar um vínculo subterrâneo na medida em que pensam os antagonismos estruturais constitutivos do sujeito e do indivíduo modernos. mas ninguém negaria que um jardineiro que “ganha” para regar o jardim de outrem está trabalhando. Tal abordagem tem o intuito de demonstrar que a atividade materialmente determinada em si importa menos para sua categorização que sua relação com outras atividades abstratamente comparadas por meio do mercado. afinal. O texto visa tratar o tema de maneira simples e renovada. soçobrando na mesmice do estado de exceção irlandês e da abstração real capitalista. concebendo-a como radicalmente histórica. DUARTE – PERIFERIA/PARALISIA – A figuração do inferno colonial no primeiro Joyce. O ensaio mostra a evolução do escritor de Chamber Music a Dubliners. O dossiê finaliza com o artigo de CLÁUDIO R.

HELENA CASTELLAIN BARBOSA DE CASTRO dá um tempero mais otimista à revista. que busca introduzir algumas ideias para a renovação deste que é. Hegel e Marx – tirante este último. nos deparamos com uma crítica e análise daquela que parece ser a forma de escuta predominante no mundo presente: a forma do condomínio. Kant. Por fim. temos o ensaio de FRED LYRA. concentradora que é das mais agudas contradições do espaço. Tendo como pano de fundo essa . vol. o artigo sintetiza algumas diretrizes básicas em relação à posição do personagem ou sujeito que é um dos eixos da questão: o músico – muitas vezes esquecido em detrimento do objeto música. No segundo momento. intitulado POR UMA NOVA CRÍTICA DA MÚSICA – Primeiras notas.org Ano 8. A seguir. 2016 9 postas a partir do panorama histórico do desenvolvimento das relações mercantis e da oposição entre realidade e consciência. em última análise. Suas coordenadas conceituais são elaboradas sistematicamente e é mostrado em que sentido ela implica. uma concepção problemática e mal compreendida de liberdade. nos revela identidades entre a crítica categorial esboçada em Marx . eis a tradição duramente criticada por Jappe – a fim de oferecer uma abordagem crítica do estado subjetivo hoje predominante: a indiferença. Inicia com um diagnóstico feito a partir das ideias do filósofo Paulo Arantes sobre a temporalidade atual da música. COMO AGIR COMO SE NÃO SE FOSSE LIVRE – Uma defesa contemporânea do fatalismo. o texto discute Simbolismo e Sentido. Função e Utilidade onde aparecem algumas questões fundamentais em torno desses quatro conceitos.[-] www. um dos principais eixos da crítica da arte e ideologia: a crítica musical. 1.e aspectos fundamentais da teoria de Hegel. Já no artigo de FRANK RUDA (gentilmente indicado e traduzido por Luiz Philipe de Caux).e desenvolvida pela Crítica do Valor . n°12. Ao final temos dois ensaios que articulam reflexões sobre um processo de reversão prática do existente. o autor baseia-se em Descartes. Na sequência. Esta última reflexão. apontando-nos que o trem desgovernado em que viajamos pode descarrilar assim que forem ultrapassados certos umbrais teóricos e práticos. relembrando as questões lefebvrianas que nascem no seio de uma “sociedade urbana” em vias de se completar. Em ENTRE UMBRAIS E VIRTUALIDADES – Mundos possíveis?. historicamente. por sua vez.sinaldemenos.

org Ano 8. O fato menos controverso parece ser que a realidade degradada atual não pode deixar as pessoas indiferentes ad eternum. colhida e servida na hora da sessão de admissibilidade do IMPEACHMENT de Dilma. fica para o leitor julgar e decidir. para dizer o mínimo. na Câmara dos Deputados. desse modo. .sinaldemenos. o fim do mundo da mercadoria já chegou para a maioria – talvez não apenas no seu condomínio. Se isso é ou não uma questão plausível. n°12. captada por uma arguta observadora. a qual agradecemos pelo registro da farsa tragicômica do desmanche nacional. Por isso mesmo a revista termina com a salada de palavras grotescas. Em outros termos. vol. 2016 análise. o artigo defende o fatalismo como um meio possível para enfrentar estados de indiferença e.10 [-] www. dar um passo da análise crítica à formulação afirmativa de um princípio de orientação: “age como se não fosses livre”. CAMILA PAVANELLI DE LORENZI. e como reforçará nosso segundo volume. 1. Novembro de 2016.

sobre “As aventuras do sujeito moderno: sociedade de mercado e narcisismo”. o qual gentilmente autorizou sua publicação. Finalmente. Os temas deste dossiê foram apresentados em seminários dirigidos por Jappe. na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Descartes e Kant.sinaldemenos. e. Considerando. nos últimos anos: houve sessões. em Paris. por outro. vol. A fim de formular uma teoria crítica consistente da sociedade contemporânea e da difusão de comportamentos narcísicos como exasperação da mentalidade da concorrência. referindo-se à (im)possibilidade de realização de uma experiência artística autêntica no atual contexto de “disneylandização do mundo” e narcisismo. sobre “O sujeito moderno entre o fetichismo da mercadoria e a pulsão de morte”. entre 2015 e 2016.org Ano 8. os artigos deste dossiê consistem em momentos da elaboração de uma teoria do sujeito moderno. particularmente o modo como Freud foi interpretado por Fromm. a ser publicado na França em 2017. Com o pano de fundo teórico formado pela “crítica da dissociação-valor” corrente internacional de crítica social baseada em uma releitura original da obra de Marx -. n°12. 1. o dossiê inclui. o segundo artigo debate a relação entre marxismo e psicanálise. como “prefácio”. no último artigo do dossiê – sobre a transformação da função dos museus – Jappe dá continuidade às reflexões da “Pars ludens” do seu livro Crédito à morte (2011). que a sociedade contemporânea é dominada pelo que Marx chamou de “fetichismo da mercadoria” e. por um lado. no Collège International de Philosophie. entre 2012 e 2014. Além dos artigos. Por meio da crítica de dois clássicos da filosofia moderna. 2016 11 NOTA INTRODUTÓRIA AO DOSSIÊ JAPPE Projeto As aventuras do sujeito Este dossiê reúne três artigos publicados entre 2012 e 2016 por Anselm Jappe.[-] www. o excerto de uma entrevista em que esse teórico apresenta o projeto do seu livro intitulado As aventuras do sujeito. o primeiro artigo do dossiê expõe a constituição do sujeito moderno. Marcuse e Lasch e as críticas que estes teceram tanto a seus precedentes quanto a determinados aspectos da sociedade capitalista do século XX. que nela os indivíduos têm tendência a conhecer apenas a si mesmos e a negar a realidade . bem como do seu “outro” necessário: o não-sujeito.

1. qual seria o vínculo entre os dois fenômenos? Enquanto concepções provenientes do “marxismo de caserna” são incorporadas deliberada ou inadvertidamente a interpretações psicologizantes da sociedade capitalista em crise – à maneira do ecletismo pós-moderno –. aprofundam o debate acerca da relação entre a teoria freudiana e a crítica radical da “dissociação-valor”. na acepção de Freud.org Ano 8. vol. Pedro Henrique de Mendonça Resende Belo Horizonte. .sinaldemenos. Jappe discute como o narcisismo. poderia ser interpretado como o lado subjetivo do fetichismo da mercadoria. Afinal. por sua vez. os artigos deste dossiê. 2016 exterior. n°12. setembro de 2016.12 [-] www.

desenvolvido por Roswitha Scholz. onde. da sociedade assente no fetichismo da mercadoria. n°12. esbocei um quadro bastante vasto. que se tornou opaca: é o trabalho abstrato. “vivido”. intitulado Les aventures du sujet. fazendo uso de investigações antropológicas e psicanalíticas. pretende averiguar as relações entre o fetichismo da mercadoria e o narcisismo. Pode falar-nos um pouco desse projecto e em que medida ele prossegue as reflexões realizadas anteriormente? (JAPPE) Em As aventuras da Mercadoria (2003). mas invadiu a esfera da reprodução diária. O seu ponto de partida é constituído por uma análise quase filológica da obra de Karl Marx. 2016 ENTREVISTA Sobre o projeto As aventuras do sujeito com ANSELM JAPPE (ANTÍGONA) O seu livro As aventuras da Mercadoria constitui uma introdução clara e simples aos fundamentos originais da crítica do valor.sinaldemenos. que defende a necessidade de pensarmos a relação entre os sexos ao mesmo nível conceptual que a relação de capital.org Ano 8. Teciam-se nele algumas reflexões sobre o conceito de “sujeito” e também uma breve referência ao princípio do valor-dissociação. Tem entretanto projectado um novo livro. pelo que sabemos. A projeção do poder do homem já não se limita ao céu ou aos objectos religiosos. bem como o conceito de “sujeito”. e procurando desse modo aprofundar a constituição histórica do sujeito moderno e a sua relação destrutiva com o mundo. a partir do dado irrefutável que é o carácter propriamente religioso do capitalismo: a sociedade de mercado é uma metafísica secularizada. vol. Depois. pareceu-me necessário analisar o lado “subjetivo”. É uma forma de socialização . indiferente a qualquer conteúdo. 1. e de vermos a própria dissociação sexual e o valor como pressupostos recíprocos. que garante a “síntese social” que liga os indivíduos entre si. Por um lado. trata-se de traçar uma genealogia do sujeito.13 [-] www. e as categorias da crítica da economia política ocupam nele um grande espaço.

A história da constituição capitalista é a história da constituição do sujeito. Kant. e é preciso analisar de perto a evolução histórica destas formas fetichistas. O valor “económico” não é senão um aspecto particular da forma vazia que se encontra na base da sociedade capitalista. representado pelo dinheiro. para se identificar ele mesmo – mas apenas o que resta depois destas expulsões. e não a da “dominação” do sujeito. podem considerar-se teorizações da forma vazia e do sujeito que lhe corresponde. a razão desencarnada – com o papel antes detido por Deus. ocidental e branco. de uma forma sem conteúdo. entre outros. enquanto “não-sujeito”. sobretudo. é o que caracteriza o macho branco. bem como fases da sua formação. bem como das reivindicações de “democracia-real” ou “directa” e da “autogestão”. porque estas pressupõem sempre a existência das formas de dominação pessoais e subjetivas contra as quais é preciso mobilizar os outros sujeitos. O que caracteriza a época moderna. mas também à relação entre o objecto e o sujeito. n°12. o trabalho abstracto. ou seja. Rousseau. Hobbes. Hegel. Stirner e Nietzsche. da mulher e dos povos não ocidentais. as obras de Descartes. É preciso analisar a história como uma história das relações fetichistas. sobretudo. O sujeito é sujeito na medida em que interiorizou a necessidade de executar a lógica sem sujeito do sistema e. é o instalar progressivo de uma forma separada do seu conteúdo. Seria mais necessário. entre o indivíduo e o mundo. ele projectou para fora de si. 1. a partir do seu próprio corpo. mas tão-só através de uma mediação autonomizada – o trabalho. os princípios de síntese social. Isto permitirá ultrapassar de uma vez por todas o esquema “materialista” que fala de “base” económica e de “superestrutura” cultural. emanciparmo-nos da própria forma-sujeito. a partir do Renascimento. onde os homens produzem as suas relações sociais sem saberem como. A filosofia moderna e. Da constatação deste facto deriva igualmente uma crítica do conceito de “dominação”. que disso se orgulha. Mas não se trata apenas da forma-valor no sentido “económico”.sinaldemenos. vol. a constituição quer “transcendental” (Kant) quer psicossocial dos sujeitos.[-] www. Este sujeito é estruturalmente masculino. Schopenhauer.org Ano 8. tudo o que parece ameaçar a sua autonomia. Enquanto formas gerais da consciência. . O “sujeito” é a forma que foi chamada a dominar um conteúdo que se tornou estranho e indiferente. as mediações culturais e simbólicas. 2016 14 em que os indivíduos não se encontram directamente. elas não dizem respeito apenas à produção material. sobretudo.

com a “metapsicologia” das últimas obras de Sigmund Freud. em que a família clássica. nem. O conceito de “constituição fetichista-narcisista” e da sua crise actual deverá contribuir para a compreensão de numerosos fenómenos contemporâneos. sobretudo os que estão ligados à destruição e à autodestruição: criminalidade. Esta confrontação será feita. perdeu muito da sua importância. exprime-se ideologicamente. por exemplo. n°12. Deste ponto de vista. 2016 15 Les aventures du sujet será consagrado a confrontar a teoria do fetichismo da mercadoria com a psicanálise e. na ética kantiana e concretiza-se psicologicamente no facto de o narcisismo se ter tornado a principal psicopatologia do nosso tempo. a metapsicologia freudiana não surge como enunciação de um dado ontológico ou biológico. por exemplo. É necessário que a psicanálise passe a ver o homem mais como um ser histórico.sinaldemenos. com Heinz Kohut. etc. vol. kamikaze. guerras “de baixa intensidade”.org Ano 8. radicalmente separada do seu mundo e que só pode ter com esse mundo uma relação de sujeição. como simples descrição do homem do tempo de Freud que já estaria obsoleto na época contemporânea. que também é o ponto da convergência entre o seu aspecto “objetivo” e o seu aspecto “subjetivo”. com o conceito de “narcisismo”. Béla Grunberger e Alexander Mitscherlich. mas de uma maneira muito diferente do “freudo-marxismo” dos anos 60-70 do século passado. associada a perturbações sobrevindas na primeira infância.[-] www. 1. bem como com Christopher Lasch e o seu modo pioneiro de utilizar o conceito de narcisismo para analisar fenómenos sociais. incluindo correntes artísticas e movimentos políticos. portanto. mas também um produto – simultaneamente uma causa – da sociedade fetichista. sobretudo. Trata-se então de demonstrar que o narcisismo descrito pela psicanálise não é apenas uma patologia individual. Deste modo. que tanta importância ganhou nas últimas décadas. Charles Melman e Jean-Pierre Lebrun. toxicomania. que também o inconsciente evolui no tempo. à margem de qualquer metáfora. dentro e fora psicanálise. A “pulsão de morte” surge então. estando portanto sujeito à mutação histórica. A forma vazia de conteúdo. como o desejo desenfreado de acabar com o mundo por parte do sujeito . Marx e Freud surgirão de novo como autores essenciais para a compreensão do mundo moderno. e admita. pelo contrário. de uma “natureza humana”. como o ponto final da constituição fetichistanarcisista. e com autores contemporâneos como Dany-Robert Dufour. sobretudo. mas também com a escola de Melanie Klein e de Donald Winnicott. realiza-se diariamente no trabalho abstracto. O conceito de “constituição fetichista-narcisista” serve para descrever uma figura central da modernidade.

causada pelo trabalho abstrato quando ele constitui o princípio de síntese social. precisa de expulsar de si tudo o que não admitir como parte de si mesmo. A razão moderna tem sempre o seu reverso oculto e “irracional”. A própria existência de um mundo real. Esta é em si mesma contraditória e. estabelecendo como fundamento da sua moral uma vontade que não é manchada por nenhum conteúdo. os desportos radicais. e as tentativas violentas de sair deste círculo fechado são umas das principais características da constituição fetichista-narcisista. dá lugar às fantasias de fusão total que caracterizam o narcisismo. estimula no sujeito narcisista o desejo de eliminar este mundo que lhe é refractário. no dia-a-dia.[-] www. no mais fundo dela. a droga. Kant. com toda a sua candura. e o mundo inteiro é o material que consome para atingir esse fim. irredutível à vontade do sujeito. Aliás. 2016 16 vazio. Os conteúdos concretos recalcados regressam agora sob formas terríveis. dinâmica: tende para uma saída catastrófica. e que não quer nada senão ela mesma. A oscilação entre os sentimentos de omnipotência e de impotência perante um mundo experienciado como radicalmente estranho. as rave parties. Esta pulsão é menos uma constante biológica do que a última forma de uma sociedade baseada no trabalho abstrato e que. instalou o nada: o seu único objectivo é a transformação tautológica do dinheiro em mais dinheiro. na incapacidade do indivíduo contemporâneo de estabelecer uma verdadeira relação com o mundo. esta reflexão sobre o “niilismo real” da sociedade de mercado pretende ser um contributo para a compreensão do regresso das ideologias do ressentimento e dos fundamentalismos de toda a espécie. pois. a crise da sociedade do fetichismo da mercadoria. que se identifica com a forma vazia. já descrevera este processo. vol. a evanescência do corpo. O declínio da sociedade da mercadoria expressa-se. pois. do etnocentrismo e da violência sexual. um duplo sentido: não considera apenas o sujeito em sentido filosófico. a separação radical que existe entre os membros da sociedade. a cultura do “virtual”.sinaldemenos. na percepção cada vez mais difundida . O atomismo social. Tornam-se então visíveis as ligações a fenômenos contemporâneos tão diversos como o neo-religioso. n°12. 1. O sujeito moderno. também na exasperação do narcisismo. Finalmente. mas também o modo como os “sujeitos” – as pessoas de carne e osso – vivem. por conseguinte. com tentativas de aniquilamento daquilo que foi prejectado para fora: é a sua “pulsão de morte”. o marquês de Sade é a face oculta de Kant. A “crítica do sujeito” tem sempre.org Ano 8. isto é. do antissemitismo e do racismo. mas também a guerra de bandos e os atentados suicidas (não só islamistas).

vol. 2013. Pedro Henrique de Mendonça Resende agradece à Editora Antígona por autorizar a republicação deste excerto. . assim como ao Anselm Jappe pela atenção e autorização para publicar este dossiê]. n°12. [Excerto (páginas 82 a 88) da “Entrevista a Anselm Jappe por um colaborador da Antígona”. 1.org Ano 8. Anselm. 2016 17 do seu próprio corpo como um ser estranho. Lisboa: Antígona.[-] www. os níveis do sujeito “transcendental” e do sujeito “empírico” encontram-se. Conferências de Lisboa.sinaldemenos. In: JAPPE.

na Alemanha. Paris: La Balustrade. 2016. Pour une nouvelle critique de la valeur (Denoël. n. O fetichismo da mercadoria é um conceito introduzido por Karl Marx no primeiro capítulo de O capital. 2003).org Ano 8. Kant e Marx1 Anselm Jappe Fetichismo da mercadoria e narcisismo: é em torno destes dois conceitos e de suas consequências que vai se articular este texto. uma análise mais [As notas de tradução estão entre colchetes]. 113-123]. Todavia. publicado na Revue des livres. Para uma nova crítica do valor. 1992. janvier 2013. 1997. tal qual ela foi desenvolvida notadamente por Robert Kurz 2 e as revistas Krisis e Exit!. Critique de la démocratie balistique. São Paulo: Paz e Terra. São Paulo: Hedra. Avis aux naufragés. desde o fim dos anos 1980. eu resumi Dinheiro sem valor. Chroniques du capitalisme mondialisé en crise. eu resumi a critica do valor. foi publicada pela Boitempo (2014). Razão sangrenta: ensaios sobre a crítica emancipatória da modernidade capitalista e de seus valores ocidentais. 1. Em “Kurz. Vies et mort du capitalisme. em francês: Lire Marx. 2006. Seu pano de fundo teórico é formado pela crítica do valor.[-] www. Paris: Presses Universitaires de France. O retorno de Potemkin: capitalismo de fachada e conflito distributivo na Alemanha. e por Moishe Postone. Uma reinterpretação da teoria crítica de Marx [1993]. 2004. Moishe. 9. vol. 42. Poder mundial e dinheiro mundial: crônicas do capitalismo em declínio. Consequência. do trabalho abstrato. São Paulo: Paz e Terra. 2006 e “Viagem ao coração das trevas” do capitalismo. Critique du fétiche capital.3 nos Estados Unidos. 2010. 1 2 . La gauche à l’épreuve des guerres d’ordre mondial. Pretende-se geralmente compreendê-lo como uma forma de falsa consciência ou uma simples mistificação. Tempo. Estão disponíveis as seguintes traduções das obras de Robert Kurz. n. Lisboa: Antígona. trabalho e dominação social. Paris: Lignes/Manifestes. voyage au coeur des ténèbres du capitalisme”. Os últimos combates. do dinheiro e do fetichismo da mercadoria. 3 A tradução brasileira da sua obra principal. o livro e o texto de Anselm Jappe estão disponíveis em português: As aventuras da mercadoria. 2005. Les principaux textes de Karl Marx pour le XXIe siècle. Revista Crítica Marxista.sinaldemenos. Chroniques de la crise. Lisboa: Antígona. 2016 18 NARCISISMO E FETICHISMO DA MERCADORIA Algumas observações a partir de Descartes. Paris: Éditions Mille et une nuits. 2014. n°12. Com todo vapor ao colapso. em francês também está disponível POSTONE. 2015. 1993. Rio de Janeiro: Ed. Petrópolis: Vozes.PAZULIN. 2011. o último livro de Robert Kurz [Foram publicados em português estes livros de Robert Kurz: O colapso da modernização: da derrocada do socialismo de caserna a crise da economia mundial. Em Les Aventures de la marchandise. p. 2013. São Paulo: Editora da UNESP. 2002. Além dessa obra. Juiz de Fora: Editora UFJF . Dinheiro sem valor: linhas gerais para uma transformação da crítica da economia política. Paris: Nouvelles Éditions Lignes.

não se trata apenas do conhecimento. e. para chegar a conclusões próximas da crítica do fetichismo da mercadoria. 4 5 Por . para dar conta de um nível de consciência do qual os atores não têm uma percepção clara. nas quais se deve representar necessariamente todo conteúdo da consciência. por Ernst Cassirer na sua Filosofia das formas simbólicas. mas retirando das categorias a priori seu caráter atemporal e antropológico. assim. enquanto a teoria freudiana do inconsciente foi amplamente aceita. As formas dadas a priori. Mas. na qual as “representações coletivas” são igualmente uma tentativa de descrever os a priori sociais. op. O fetichismo da mercadoria do qual fala Marx. a contribuição de Marx para compreender a forma geral da consciência restou como a parte mais desconhecida da sua obra. vol. são. como em Kant. não é ontológico. ao passo que o inconsciente de Freud é essencialmente receptáculo de constantes antropológicas. Todavia. Seria suficiente retomar esta questão. para Kant. o inconsciente de Freud e o fetichismo Eu posso apenas indicar as minhas Aventuras da mercadoria. em última instância. 1. o esquema formal que precede toda experiência concreta e por sua vez a modela. não há lugar para a forma fetichista. Ele poderia. Marx lançou as bases de um inconsciente de caráter histórico e submisso à mudança. cit. quiçá biológicas.6 Com as fórmulas do “fetichismo da mercadoria” e do “sujeito automático”.[-] www. e os eventos da vida histórica. sem que a sociedade ou a história desempenhem nenhum papel. o espaço e a causalidade. cuja evolução forma precisamente a mediação entre a natureza biológica. são as duas formas principais que foram propostas.5 Entretanto. Na sua teoria.org Ano 8. Em Freud.sinaldemenos. para ele. mas que. O conceito de forma a priori evoca evidentemente a filosofia de Immanuel Kant. o tempo. As relações entre o a priori de Kant. aqui em questão. do espaço e da causalidade variarem fortemente nas diferentes culturas do mundo foi notado mesmo por certos kantianos. O fato de a percepção do tempo. 6 É necessário acrescentar ainda a obra de Durkheim. a questão é sempre a relação entre um inconsciente tout court e uma cultura tout court. ser caracterizado como uma forma a priori. n°12. 2016 19 aprofundada4 demonstra que se trata de uma forma de existência social total que se situa a montante de toda separação entre reprodução material e fatores mentais: ela determina as próprias formas do pensamento e do agir. exemplo. mas histórico e sujeito à evolução. esta relação não mudou muito desde a época da “horda primitiva”. tal como a consciência religiosa. enquanto fator quase invariável. e o inconsciente do qual fala Sigmund Freud. os determina. Ele concebe estas formas como inatas a todo ser humano. após Kant. mas também da ação. O fetichismo da mercadoria compartilha estes traços com outras formas de fetichismo.

na esperança de que se possa obter um dia uma história “materialista” da alma humana: “materialista” não no sentido de pressupor uma preeminência ontológica da produção material ou do “trabalho”.[-] www. Mas o que nós propomos aqui concerne a outro nível – outra “camada geológica” – da história da sociedade burguesa. em quase todo pensamento entre o século XVII e o XIX. mas no sentido de não conceber a esfera simbólica como autossuficiente e autorreferencial. o nascimento do Estado moderno e várias outras evoluções se desenrolaram em paralelo. e ele constantemente permitiu a obtenção de resultados importantes. mas sem negligenciar as suas grandes diferenças e. melhor dizendo. para chegarmos a uma compreensão da “forma social total”? Não se trata aqui de estabelecer os vínculos diretos entre as formas de pensamento – como. estrutura psíquica profunda e forma do vínculo social. e de compreender as suas relações. a difusão do trabalho abstrato. ao mesmo tempo. ou ao indivíduo: ele constitui uma figura histórica que apareceu não faz muito tempo. eventualmente. e Marx. Devemos tentar operar. o seu primeiro crítico bem acabado. 1. não passam de diferentes aspectos do mesmo processo. Este. As obras de Descartes e Kant. então. O que é. compreende-se por “sujeito” o simples fato de que necessitamos sempre de um suporte humano da ação e da consciência – mas esta definição genérica não explica nada.org Ano 8. O que nomeamos habitualmente “sujeito” não é idêntico ao ser humano. em escala social. forma de produção e forma de vida cotidiana. n°12. via. uma unificação dessas abordagens. os seus antagonismos – sobretudo entre Kant. a formação do sujeito moderno. em certo sentido. “subjetiva” e “objetiva”. ou. como fazia o “materialismo histórico”. Sade e Schopenhauer (e vários outros) podem ser consideradas como etapas na instituição do narcisismo e do solipsismo modernos. uma expressão da “ascensão da burguesia” e de suas aspirações a se liberar da dominação feudal e clerical. vol.sinaldemenos. por exemplo. Neste processo não . que anunciava esta nova forma de consciência. o “sujeito”? Qual foi a sua história? É possível escrever uma história das constituições psíquicas paralela à história das formas de produção. 2016 20 de Marx foram raramente objeto de pesquisas aprofundadas. De fato. Geralmente. Eles são “sintomas” da instauração de uma nova constituição fetichista que é. invariavelmente. Esse gênero de análise não é falso. Trata-se de um nível de análise que toca a constituição do sujeito e os seus aspectos psicológicos profundos. os grandes sistemas de filosofia – e as relações das classes e de outros grupos sociais.

como é o indivíduo no sentido biológico. Ao mesmo tempo. sua existência é bem real. o sujeito não é imaginado como o criador autônomo do seu próprio mundo: o homem crê ser largamente determinado por sujeitos exteriores. (Fragmentos filosóficos). Rio de Janeiro: Zahar. Sobre o ponto de partida desta evolução existe um acordo geral: o sujeito é o resultado da “secularização”. Theodor. Uma diferenciação entre sujeito e objeto se encontra em todas as culturas humanas. 2016 21 existe hierarquia predeterminada dos fatores.7 Mas será que o homem “secularizado” deixou realmente para trás a metafísica. O sujeito é uma construção cultural devida a processos históricos. no universo religioso. ele saiu da sua “menoridade” (Kant). [1947] 2006. e. Dialética do esclarecimento. Todavia. como um estado infantil. 19-20. ultrapassou. É suficiente pensar que. a natureza não é concebida como simples objetividade que apenas obedece a leis sempre iguais.[-] www. como gostariam o estruturalismo e a teoria dos sistemas sociais. um reencantamento do mundo. mas as suas formas variam enormemente. Ele compartilha então parte do status de objeto. Uma diferenciação nítida entre o sujeito (do conhecimento. para se tornar adulto e compreender que é ele mesmo que constitui e governa o seu mundo.sinaldemenos. sob muitos aspectos. Não se trata de um erro de interpretação. como os deuses e os espíritos. vol. p. a sua confiança na religião? Ou a metafísica apenas mudou de aspecto e continua a determinar a nossa vida? O sujeito moderno não seria porventura o resultado da transformação de formas passadas do fetichismo social? O famoso desencantamento do mundo foi. Mas ela não é apenas contemporânea à ascensão do capitalismo. e nenhum “deriva” unilateralmente do outro. A forma-sujeito configurou-se pouco a pouco a partir do Renascimento. da vontade) e o objeto não ocorre por “si” mesma e não existiu antes do nascimento da forma-sujeito moderna. ADORNO. com a sua própria vontade insondável. n°12. ela lhe é consubstancial. sobretudo. A metafísica não 7 “A resposta de Édipo ao enigma da esfinge: ‘É o homem!’ é a informação estereotipada invariavelmente repetida pelo esclarecimento”.org Ano 8. Max. Um mau sujeito A forma-sujeito não é uma invariante da vida humana. O homem declarou – em algum lugar entre Pic da la Mirandole e Nietzsche – a sua independência em face a Deus. a partir da época do Iluminismo. que instalou uma oposição absoluta entre esses dois fatores. HORKHEIMER. . mas é considerada como uma espécie de sujeito. 1. da sua relação filial com as potências superiores.

8 A fronteira entre o sujeito conhecedor e o objeto conhecido. ou o Deus relojeiro). ao invés de constituir um reino à parte. Desde o início. que. a partir do próprio corpo do sujeito pensante. corriam o risco de se separarem para sempre. e a desvalorização do corpo em favor das partes do homem que se comunicam com o transcendente.sinaldemenos. o golpe ao mundo dado no princípio por Deus. Desta forma. portanto. porque. Assim. esse “eu” se encontra com apenas duas qualidades: existir e pensar. Com a distinção rígida entre res extensa e res cogitans. vol. O sujeito nasce. 1. e são necessárias construções auxiliares. Descartes radicalizou a separação entre o sujeito. que começa então a sua carreira moderna feita de separações e cisões. ela se mesclou às relações cotidianas dos homens. quase cômicas. ela não é nem mesmo mais reconhecível como tal. n°12. o homem se encontra radicalmente estrangeiro 8 Enquanto o cristianismo reconhecia a possessão da coisa mais importante.[-] www. a res extensa. historicamente com o perigo de incorrer em um solipsismo radical no qual a existência de um mundo exterior. o resultado de um processo de redução que o despojou de toda qualidade concreta e individual. a cada ser humano. Para Descartes. a formação histórica do sujeito não se desenrolou como uma ruptura com o cristianismo. identificado apenas ao pensamento. não é mais que uma vaga hipótese. de uma alma imortal. Na impossibilidade de podermos apresentar aqui uma história detalhada da gênese da forma-sujeito. e mesmo de outros homens ou de um corpo sensível. 2016 22 se limita mais ao mundo do além: ela se infiltrou aqui em baixo. não é mais Deus que é a fonte do conhecimento e o fundamento do entendimento. entre o sujeito e o objeto em geral. em Descartes e seus sucessores (a glândula pineal. O homem é sujeito apenas enquanto pensa. Na filosofia de Descartes.org Ano 8. e o resto do universo. rebaixado ao status de simples objeto. O dualismo radical entre o corpo e espírito. são talvez os elementos principais que o cristianismo transmitiu à subjetividade moderna. e sobretudo por um “eu” abstrato. as faculdades humanas que não são requisitadas para esta atividade saem do circulo da subjetividade. Este papel é desempenhado agora pelo eu. examinemos ao menos dois autores entre os principais fundadores da modernidade: Descartes e Kant. entre o pensamento e o corpo. Esse “eu” não tem mais a mesma substância que o mundo. para ainda estabelecer uma ponte entre o sujeito e o mundo dos objetos. . passa agora através do próprio homem. de outra forma. em um sentido totalmente formal. mas como a sua continuação por outros meios. à produção e reprodução das suas vidas. e vazio de determinações concretas.

2016 23 [étranger] ao mundo. Descartes teve que. bem exemplificada no tristemente famoso “panopticum” de Jeremy Bentham. É a violência contra si mesmo que define em princípio o sujeito: sobre este ponto. poderiam. Tudo o que os dominadores deviam até então impor aos dominados no momento do chicote.org Ano 8. tal aniquilamento não era mais que uma experiência puramente mental na cabeça de um pensador adormecido ao lado da sua chaminé. Era também a época do que foi chamado – mas em um sentido um pouco diferente – a passagem da “sociedade disciplinar” à “sociedade do controle”. operar primeiro um “aniquilamento do mundo” no pensamento. Uma sociedade. Viu-se na sequência que os excluídos. também. O sujeito moderno é precisamente o resultado desta interiorização de restrições sociais.. Ao mesmo tempo. Tanto mais se é sujeito quanto mais se aceita esses constrangimentos e se consegue impôlos contra as resistências que provêm do seu próprio corpo. segundo as palavras de Edmund Husserl. os “negros”. Mas. em direção aos indivíduos. eles também. os filósofos da época são extremamente claros. pois ela não está ligada de forma estrita ao nascimento. a questão de saber quem é um sujeito e quem não é não depende mais apenas do pertencimento a certo grupo. A maior parte das características do sujeito moderno já está reunida: esse sujeito é solitário e narcísico. da capacidade de cada indivíduo de se submeter às exigências da produção e de fazer silenciar em si . vol. O discurso se torna mais complexo na época das Luzes. a forma-sujeito ultrapassou efetivamente o quadro do sistema feudal. que fogem do trabalho a partir do momento que ficam sem vigilância. ele é incapaz de ter verdadeiras “relações de objetos” e se encontra em antagonismo permanente com o mundo exterior. portanto.sinaldemenos. Por exemplo. os dominados começavam agora a interiorizar e a executar contra si mesmos. em que a violência exercida do exterior. n°12. chegar ao status de sujeito. mas depende. os criados domésticos. ao menos individualmente. de seus próprios sentimentos. que foi decisiva para a formação do sujeito moderno. ou as mulheres. Para estabelecer a filosofia em que uma forma vazia se opõe a um mundo elusivo.. as crianças. está em vias de se transformar em autodisciplina. Em seguida.[-] www. desejos. As mulheres. os criados domésticos e geralmente os membros das classes subalternas são vistos como inferiores justamente na medida em que não chegam a interiorizar tais constrangimentos. etc. que se deixam governar pelos seus “sentimentos”. na condição de demonstrar uma interiorização dos constrangimentos sociais ao menos iguais àquelas vividas pelos machos brancos e adultos. naquela época. 1.

mas da produção de “valor”. no sentido pleno do termo – sem mais delongas –. uma vontade sem conteúdo. Os sujeitos estabelecem com eles relações ambíguas. Tudo que não entra neste esquema é recalcado para fora do sujeito e projetado sobre outros seres. 1. Portanto ele não é apenas aquele que interiorizou a “necessidade” de trabalhar. O sujeito é definido como um trabalhador. são. Não necessariamente como um operário. Ora. porque eles representam tudo que o sujeito teve que expulsar de si mesmo para aceder ao status . que contém uma fratura interna: o sujeito é necessariamente parcial. pelos conteúdos. uma indiferença pelo exterior – é lá que reside o profundo isomorfismo entre o sujeito moderno e o trabalho abstrato. podemos apenas lembrar o fato bem conhecido de que a palavra “sujeito” significa etimologicamente (e mesmo hoje em dia. em todo caso. A recusa eventual desta denegação de toda relação real com o mundo acaba por desqualificar um indivíduo dentro da sociedade dos sujeitos e o torna “indigno” de participar do status de sujeito. É aquele que interiorizou a mesma indiferença pelo concreto. ou. É alguém que modela a sua vida segundo o que demanda a acumulação do trabalho passado. em alguns contextos) o “sujeitado” [sub-jectus]. começando por aquelas que se relacionam ao seu corpo. Por conseguinte. pelo mundo exterior. e não universal.org Ano 8. é somente o macho branco e ocidental. de valor de mercado que encontra a sua representação em uma quantidade de dinheiro. feitas de repulsão – que pode ir até o desejo de eliminá-los – e de atração.sinaldemenos. descobre-se que se trata de uma forma profundamente contraditória. mas como qualquer um que submeteu a sua vida às exigências da produção – não da produção de objetos de uso. O sujeito é o outro lado do valor de mercado. 2016 24 mesmo tudo o que se lhe opõe. Trata-se de um indivíduo que existe essencialmente como portador da sua força de trabalho e que sabe subordinar a ela toda outra consideração. olhando de perto. Uma forma de vida. n°12. em primeiro lugar.[-] www. que constitui a essência do trabalho abstrato. esses sujeitos menores ou não-sujeitos. ser um sujeito é uma qualidade puramente formal que caracteriza todos e cada um. Tornamo-nos sujeito aceitando a submissão. pois as qualidades que lhes são atribuídas são aquelas consideradas incompatíveis com o status de sujeito. as mulheres e as populações não-brancas. vol. estes não são considerados como sujeitos. não no sentido pleno do termo. O sujeito moderno se caracteriza por um falso universalismo: aparentemente. O sujeito moderno. “morto”. Neste contexto. o seu “portador” vivo. Esses outros sujeitos. e renovando-a todos os dias.

elas são mesmo indispensáveis. efetuando certos trabalhos considerados “femininos”. mas somente como auxiliares. têm seu lugar na produção do valor. A estrutura do sujeito moderno se baseia. que pode se separar largamente de seus portadores empíricos. A parte mais importante deste processo de recalcamento – ou de dissociação – é constituída por numerosas atividades que são necessárias para assegurar a reprodução cotidiana do sujeito do trabalho e a sua perpetuação. em contrapartida. Esta dissociação é constitutiva do sujeito e define a sua própria essência. mas que não entram diretamente na reprodução do valor. 1. finalmente. portanto. tudo o que não pode assumir a forma de um “trabalho” e. justamente por causa da sua existência separada. sobre uma cisão interior.25 [-] www. não se encontram no mercado e não se exprimem em dinheiro.org Ano 8. vol. Todo o resto – a partir da própria natureza sensível do homem – vem a formar um “lado obscuro” do sujeito. os machos também são obrigados a expulsar sua parte culturalmente “feminina” (por exemplo. por via de consequência. os seus sentimentos. e é ilusório acreditar que poder-seia igualmente criar um sujeito que não partilhasse este defeito de origem. Ela não é apenas uma coisa que aparece em um segundo tempo. Desde o princípio.sinaldemenos. quando estão no trabalho). e mesmo neste quadro já restrito é apenas uma parte das qualidades humanas possíveis que constituem o ser-sujeito. onde reina um recalque que suscita o medo. não pode assumir a forma de um “valor” e. sua própria criação e que. Se várias dentre elas conseguiram sair (aparentemente) desta condição. portanto. Com efeito. 2016 de sujeito. é porque outras entraram nos seus lugares. na subordinação das mulheres. Estas. n°12. o sujeito se fundamenta. se tornar dinheiro enquanto representação do valor. O que é recalcado para fora do sujeito moderno para permitir a sua constituição é. Essas atividades são tradicionalmente as atividades atribuídas às mulheres. sobretudo quando estão desempregados). evidentemente. que é. esta lógica de recalcamento é uma lógica objetiva. Assim. no sentido lógico como no sentido histórico. justifica a sua existência. no entanto. O sujeito se sente o tempo todo ameaçado por este não-sujeito exterior. . A definição do sujeito e do não-sujeito pode variar segundo os contextos. sobretudo. e eles também podem se encontrar na condição de “mulher” (por exemplo. um acidente que poderia ser destacado da substância. mas a existência do sujeito demanda logicamente a existência de um não-sujeito. Apenas uma parte da humanidade é definida como sujeito.

2003) que veem em Kant o teórico da liberdade e da dignidade humana: aquele que teria anunciado esta autonomia do sujeito que é apresentada hoje em dia como o baluarte contra a ofensiva neoliberal e a barbárie. não crítica! – a separação acabada entre a forma e o conteúdo e a expulsão de toda “inclinação e emoção” (são as suas próprias palavras) para fora do sujeito. Na verdade. 1976). subscreveram às críticas que Hegel havia dirigido à Kant. no mundo regido pelo tempo. às leis naturais. 1998) ou lacanianos (tal qual Dany-Robert Dufour no L’art de réduire les t tes. não pode haver a liberdade para Kant: as ações do sujeito estão submissas à rígida causalidade da objetividade.9 Ele anunciou de maneira radical – e afirmativa.sinaldemenos. que no 9 Os marxistas fizeram julgamentos muito diversos a respeito de Kant. A liberdade não pode consistir. como Lucio Colleti na Itália. o sujeito oscila entre os sentimentos de todo-poder e impotência. apelaram a Kant. Mesmo sem referência direta aos seus antecessores.org Ano 8. Mesmo quando parece difícil transformar Kant em pensador da revolução. reduzido a uma vontade vazia que não quer nada senão a si mesma. portanto. o que curiosamente lhe deu a reputação de “filosofo da liberdade”. Paris: PUF. enfim. 2005]. . No mundo empírico. Ao mesmo tempo. Bari-Roma: Laterza. esta autonomia desmente a si mesma. n°12. os marxistas que reclamavam principalmente as raízes hegelianas de Marx. 2016 26 Kant. Rio de Janeiro: Companhia de Freud. Com efeito. vol. como Lukács. a vontade é livre somente quando não está condicionada por nada do exterior. a “liberdade” só possui valor quando ela é idêntica ao vazio. espaço e causalidade. esforçam-se geralmente para fazer dele um crítico virtual da sociedade capitalista. O próprio Marx ignorou quase completamente este pensador. senão no esforço para se emancipar desse mundo estrangeiro [étranger] e opressivo.[-] www. 1. quer dizer. para pronunciar a condenação de Marx e Hegel. fil sofo de K nigsberg descreveu sem falso pudor este novo patrono do mundo. Em seguida. existem atualmente numerosos marxistas tal qual André osel. em face do qual o sujeito vai se refugiar nas esferas da razão pura e da moral pura. autor do livro ant révolutionnaire. tal qual o “austro-marxismo” do início do século XX. pensador da liberdade? Existe um testemunho de exceção deste nascimento do su eito moderno: mmanuel Kant. à ausência de qualquer conteúdo. e sobretudo dos aspectos “hegelianos” de Marx Marxismo e dialettica. porque é com suas categorias a priori que ele imprime uma ordem no mundo das sensações – sem as quais este não seria mais que um “caos sem forma”. A única coisa comum aos indivíduos. como testemunha. [O livro de Dany-Robert Dufour está disponível em português: A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. para Kant. é precisamente o sujeito que “cria” o mundo objetivo. Algumas correntes “revisionistas”. Paris: Deno l. Outros. porque em face da objetividade totalmente separada. indicaram na ética kantiana um fundamento possível para o engajamento socialista. Este se encontra. A “autonomia” do sujeito é adquirida ao preço da redução de tudo que não seja “razão pura” – a partir das suas próprias “inclinações” – a uma objetividade morta e amorfa que demanda ser dominada pelo sujeito. Para Kant.

etc. de riqueza. A resposta kantiana é uma retração para uma esfera da moralidade pura. para o sujeito dotado de razão. sem importância enquanto tais. Vemos facilmente a ligação desse “recalcamento” com o inconsciente freudiano.) significariam. dependência. nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo” (Observações sobre o sentimento do belo e do sublime. Com uma grande diferença: a razão kantiana não é apenas uma reação à inquietante esfera do sensível – ela mesma produz esta esfera enquanto separada e inquietante.org Ano 8. n°12. Os desejos verdadeiros (que são de saúde. finalmente. sobre as populações não-ocidentais: “ s negros da frica não possuem. Os objetos existem apenas nas representações do sujeito. em relação ao que a vontade deve procurar para ser “pura”. Quanto mais a razão é “pura”.[-] www. de glória. ao mesmo tempo. Immanuel. resta radicalmente separado destes objetos. que vive toda dependência vis-à-vis a outros homens ou à natureza. Isto constituiria uma ofensa insuportável para o sujeito. 11 KANT. 2016 27 plano empírico são diferentes um do outro. simples substitutos. separando-se do sensível. vol. Do ponto de vista da “faculdade superior de desejar” (“oberes egehrungsverm gen”). São Paulo: Papirus. e a vontade não seria. jamais.10 Enquanto a vontade permanece na esfera da razão pura.org/adobeebook/razaopratica. mais ela é assombrada por este sensível. para Kant. 1. a realidade existe somente enquanto apreendida através das categorias do sujeito – todo o resto é para sempre incognoscível e. porque então ela dependeria deste objeto e não seria mais livre. no fundo. ela encontra a mesma heteronomia que na natureza – e. Tradução de Afonso Bertagnoli. digno do sujeito. Mas quando ela quer se tornar prática. 1991. inexistente. Portanto. por natureza. 21. mais livre.pdf>. como uma submissão à heteronomia das leis naturais. que desmente dolorosamente o todo-poder que o sujeito se viu atribuir na esfera da razão pura. o fato de ser condicionada por um mundo exterior ao sujeito é incompatível com a liberdade. Critica da razão prática. 1959. 10 .ebooksbrasil. 75). portanto.11 nenhum objeto é. ela é todopoderosa e não submissa a condicionamentos externos. Por exemplo. portanto. A vontade “pura” não deve desejar nada de concreto. p. então. p. O “irracional” moderno é o produto da “racionalidade” moderna. é a unidade de apercepção que opera nesta síntese do diverso. A “faculdade de desejar” aparece em Kant como uma escravidão. que.sinaldemenos. Os objetos são. esta projeta seu lado “irracional” sobre seres empíricos. Disponível em: <http://www. e mais ela tem medo deste “caos amorfo” que ela deve tentar controlar recorrendo ainda mais à razão. Tradução de Vinicius de Figueiredos. como uma negação total da sua autonomia. São Paulo: Brasil Editora.

Zur Ent ic lung von ationalit tsstru turen am eispiel ants [O outro da razão. e mesmo a sua única forma possível? A obediência voluntária às leis e. Isto não é anedótico. mas existe alguma coisa de verdadeiramente sinistra nesse preceito de obedecer à simples forma da lei – à sua “majestade” –.14 Esta tentativa de se tornar independente do mundo sensível – de todas as necessidades e desejos – para gozar de uma calma total. Lisboa: 70. que não são de forma alguma “puros” (por exemplo. sem nenhum prazer. Hartmut. designa constantemente só uma satisfação negativa em sua existência. expulso pela porta. 1983. mas sintomático da sua filosofia. em tal quadro. O próprio Kant deu um bom exemplo: mesmo amando café. 32): a moral kantiana não se preocupa com os homens reais. mas que não são declarados como tais. Vemos novamente que o universalismo da forma vazia é fictício: na verdade ele contém já conteúdos concretos. 13 Ver BÖHME. até mesmo se ridicularizou. 2016 28 Qual é então.13 chamando-as de “exercícios de virtude”. 92. Frankfurt am Main: Suhrkamp. ele quase nunca o concedia a si. o concreto existe apenas como representante do abstrato: é a mesma lógica de inversão que na sociedade da mercadoria impregna todas as esferas da vida.[-] www. Deve tratar-se do simples cumprimento de um dever. sem se identificar como tal. n°12. um este contexto é significativo que: “todo o respeito por uma pessoa é propriamente s respeito pela lei” Fundamentos da metafísica dos costumes. Gernot. Immanuel.org Ano 8. e ele encontrava mil outras maneiras masoquistas de enganar a vida. 2007. esta moral kantiana. BÖHME. último capítulo. à “legalidade” enquanto tal. 12 . à sua forma pura – eis o famoso “imperativo categórico”. a partir da relação entre o valor de uso e o valor de mercado.sinaldemenos. Kant como exemplo do desenvolvimento de estruturas racionais]. retorna pela janela. p. apresenta semelhanças com a “pulsão de morte” que Freud define como tentativa de retornar à calma inorgânica da morte que precedeu a vida. que nos faculta a consciência de não necessitar de nada”. mas. Tradução de Afonso Bertagnoli. São Paulo: Brasil Editora. o respeito à propriedade privada no exemplo bem conhecido do “depósito”). na sua significação apropriada. Para Kant. segundo Kant. ele introduz de uma maneira sub-reptícia conteúdos concretos. p. toda forma de “sensibilidade” – a “faculdade inferior de desejar” (“unteres egehrungsverm gen”) – é tomada por um inimigo e deve ser reprimida o mais severamente possível. na verdade. a verdadeira liberdade. que. 14 KANT. Critica da razão prática. O sensível. Naturalmente. Kant concebe estas leis como vazias de qualquer conteúdo particular. sem considerar o conteúdo destas leis. Das Andere der Vernunft. Tradução de Paulo Quintela. 1. mas apenas com as “leis gerais”. de fato. vol. A pessoa existe apenas como representante da lei. 12 Muito se criticou. Kant fala do “contentamento de si mesmo. 1959. à lei moral enquanto tal. sobretudo.

70.] alívio interior […] tem como efeito um respeito para com algo totalmente diverso da vida [a saber. por mais importante que ele tenha sido. vol. de forma alguma. em que pese à sua deleitação. n. e para fazer justamente o sujeito “transcendental” radicalmente distinto do sujeito “empírico”.. na verdade.org Ano 8. ela se descarrega no desprezo por tudo que se encontra fora do sujeito. 15 Ibidem. que. n°12. o desejo de acabar com o mundo que proporciona aos sujeitos somente uma alternância de sentimentos de impotência e todo-poder. portanto. e de acabar com o sujeito. não é este nenhum outro que não seja a lei moral pura em si mesma. O tradutor agradece as contribuições de Pedro Henrique de Mendonça Resende. A autonomia presumida do sujeito kantiano é. 2015. ele mesmo.. comparada e oposta a esse algo. mas é a representação filosófica de um fato real. mas sua realização. não porque encontre nisso qualquer prazer. Cecília Maria Gomes Pires e Carla Castagnet Vial para a revisão do texto].sinaldemenos. É essa a natureza do verdadeiro motor da razão prática pura. simplesmente a criação de um filósofo particular. 1. enquanto nos faz sentir a sublimidade da nossa existência supra-sensível”. O sujeito kantiano não é. O “sujeito automático”. 2016 29 [. sofre com o seu vazio interior e com o muro que o separa de toda relação real com o mundo. Ao final. que segundo Marx rege a sociedade fetichista do capital. . Tradução: Frederico Lyra de Carvalho. não é então. 85-86. uma negação do “sujeito autônomo” de Kant. a formulação de Kant constitui o apogeu da longa luta para separar o sujeito do mundo sensível e empírico.[-] www.15 Colocando portanto a liberdade humana distanciada de toda sensibilidade. e no ódio em direção a tudo que o sujeito teve que expulsar de si mesmo e projetar sobre outros. Revue Rue Descartes. O resultado extremo da forma-sujeito que Kant soube tão bem descrever pode ser uma “pulsão de morte”. [Original: “Narcissisme et fétichisme de la merchandise: quelques remarques à partir de Descartes. não tem nenhum valor. p. a lei moral. adquirida ao preço de uma dolorosa interiorização dos constrangimentos do capitalismo nascente. Kant et Marx”. AJ] sendo que esta. este ódio pode se tornar ódio em direção a si mesmo. Mas esse homem continua vivendo ainda que seja só por dever. finalmente.

O que é notável nessas “bonecas russas” é o fato de que. em que estabelece um grande quadro das correntes do pensamento [As notas de tradução estão entre colchetes]. New York: Norton. até mesmo opondo-se uns aos outros. p. sempre se reuniram pessoas muito diversas. à sua própria revelia. 1 2 . para o pensamento. Norman O.org Ano 8. 5 “Meu amigo Marcuse e eu. 1983]. vol. 43. 1972]. LASCH. O marxismo mais “ortodoxo” geralmente se opunha a ela como algo inadmissível. 3 LASCH. Cada um deles assume o ponto de vista de uma crítica de fundo do capitalismo consumista e acusa seus precedentes de fazerem apenas uma pseudocrítica. n. The Minimal Self: Psychic Survival in Troubled Times. New York: Warner Books. Christopher. ou uma crítica que resta. 83).5 A psicanálise de Freud constituiu. no começo do século XX – e ela permaneceu até hoje. por sua vez. nos anos 1980. Estes últimos criticavam os revisionistas neofreudianos (notadamente Erich Fromm) por terem criticado. 1967. inclusive no plano político. 1959 [Vida contra morte: o sentido psicanalítico da história. 4 BROWN. a Herbert Marcuse e a Norman Brown . 1979 [A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperanças em declínio. Petrópolis: Editora Vozes. à frente tanto de seus partidários como de seus adversários. A psicanálise representava um desafio até mesmo para o campo da crítica do capitalismo. Marcuse e Lasch 1 Anselm Jappe Nós nos propomos compreender e comentar as críticas que Christopher Lasch – o autor de A cultura do narcisismo2 e de O mínimo eu3 – endereçou. Rio de Janeiro: Imago. em seu livro Love’s ody (BROWN. Middletown: Wesleyan University Press. Norman O. um grande desafio no momento de sua aparição.[-] www. Commentary. Fromm. 1984 [O mínimo eu: sobrevivência psíquica em tempos difíceis. 1986].sinaldemenos. nesse debate. Life Against Death: The Psychoanalytical Meaning of History. no quadro da sociedade que ela pretende ultrapassar. certos aspectos da obra de Sigmund Freud.o autor de Vida contra morte (1955)4. Em A destruição da razão (1954). em 1967. The Culture of Narcissism: American Life in an Age of Diminishing Expectations. A Reply to Herbert Marcuse. 2016 30 NARCISO OU ORFEU? Observações sobre Freud. n°12. Poucas teorias foram objeto de debates tão polêmicos durante mais de um século. todos – exceto o próprio Freud – argumentam em nome de uma forma de emancipação social e de crítica do capitalismo. mas cada um de maneira diferente. nós somos Rômulo e Remo disputando para saber qual dos dois é o verdadeiro revolucionário” – assim começa a réplica de Norman Brown à resenha – bastante crítica – que Marcuse havia publicado. 1. e. São Paulo: Brasiliense. Christopher.

verdadeiros problemas. classes e sexos. mas não sem revelar. Essa desconfiança continua. A psicanálise foi proibida na União Soviética nos anos 1930. Mikhaïl. E. em inteligência e talentos. é a natureza que fez os homens desiguais e que estabeleceu as hierarquias entre raças.6 de Mikhaïl Bakhtin. aliás. egoísta e busca somente vantagem pessoal para si mesmo ou sua família. mais geralmente. São Paulo: Perspectiva. Freud sempre foi um liberal (ou um “conservador esclarecido”) e um adversário do “bolchevismo”. 2001. as correntes mais “classistas” da esquerda podiam desdenhar das temáticas sexuais. mesmo para as abordagens mais elaboradas. e a concorrência e a busca do interesse individual são “naturais”. a referência à “natureza” é geralmente característica da “direita”: nos discursos reacionários.org Ano 8. considerar as neuroses como um problema apenas da burguesia e de outras pessoas que não trabalhavam. a existir. Ele nunca incentivou as tentativas de tirar da psicanálise conclusões revolucionárias no plano social e político. György Lukács aproxima Freud até mesmo do fascismo. de toda maneira. necessidade da religião. ou. ou afirmam que a homossexualidade ou a mulher que trabalha e quer ser igual ao homem. n°12. Freudismo: um esboço crítico. proclamam esses discursos. O behaviorismo de Pavlov. Toda tentativa – continua essa apologia da sociedade burguesa que compreende igualmente o liberalismo – para mudar a “natureza” do homem não conduz senão ao totalitarismo 6 Ver BAKHTIN. depois de ter inicialmente suscitado um interesse que se expressa em particular no livro Freudismo. por natureza. escritos como O mal-estar na civilização foram geralmente considerados até mesmo “reacionários”. são “contra a natureza”.sinaldemenos. era evidentemente mais útil para a manipulação das massas. Ora. doutrina psicológica oficial da União Soviética. sem nunca ser declarada. às vezes. 2016 31 burguês que qualifica de “irracionais”. . por natureza. 1. Outros acrescentam que o homem tem. Os homens nascem diferentes. publicado em 1927 (livro publicado com a assinatura de Valentin Voloshinov). um substrato antropológico e biológico – portanto imutável. a psicanálise parece apresentar o grande defeito de reivindicar uma “natureza humana”. ao menos na sua versão clássica. entendendo-as como “pequeno-burguesas” e. Uma parte da esquerda estava convencida que a psicanálise era inconciliável com o programa de emancipação social. e até mesmo de um “mestre”. O homem é. vol. Em um nível primário. que ela não trazia nenhuma contribuição e podia ser negligenciada.[-] www.

Ela repete uma estrutura arcaica e reatualiza o drama da “horda primitiva”: assim. vol. é o verdadeiro fundador dessa naturalização das relações sociais que levou até o social-darwinismo e à eugenia. As concepções de vida coletiva que Freud desenvolveu. de certa maneira. por exemplo. pode tomar nas mãos seu destino – pivô de toda teoria revolucionária.8 Ele introduz. agitando-se coletivamente. então. Para a esquerda. mesmo no campo psíquico. n°12. Todos os males. não conheceria o egoísmo. 7 . anunciado desde 1919: guerras e agressão. ultrapassá-los. possui bordas estreitas para a variabilidade dos comportamentos humanos. As pulsões. seriam consequência da sociedade de classe. a sociedade e a educação importam mais do que uma hipotética natureza humana eterna. de origem somática. limita necessariamente a possibilidade de uma autocriação consciente da sociedade. e não do homem enquanto tal. 8 [O termo libération pode ser traduzido tanto por “liberação” quanto por “libertação”. o qual. o conceito de “pulsão de morte”. e mesmo reacionária: Freud sustenta que a felicidade [bonheur] é impossível tanto no plano individual quanto no plano social. Pode-se somente limitar a infelicidade (por exemplo. com seu homo homini lúpus. além disso. mas Freud jamais chega à ideia de uma “libertação sexual”. O mal-estar na civilização (1930) parece encerrar esta constatação desiludida.org Ano 8. com uma moral sexual um pouco mais permissiva).[-] www. não são modificáveis. mas fariam parte de nossa bagagem humana. e mesmo criar um “homem novo” que. preferimos utilizar neste texto]. sobretudo a partir de Totem e tabu (1913).7 A teoria de Freud não se insere nesse entusiasmo prometeico. 1. cuja estrutura seria muito fixa. a cultura. reforçaram a característica “antiutópica” da psicanálise: a sociedade não é para Freud senão a versão multiplicada do indivíduo e da sua estrutura pulsional. a parte menos “social” da vida e quando os indivíduos são menos diferentes segundo fatores culturais e sociais. nos discursos pós-modernos: tudo é construção. elas são no máximo controláveis. a ontogênese repete a filogênese. 2016 32 e à violência. Essa ideia de uma plasticidade quase infinita do ser humano retorna em seguida. ou quase todos. destrutividade e sadismo não seriam consequências de uma sociedade doente. via de regra. Compreende-se facilmente que Thomas Hobbes. até mesmo o sexo biológico. o inconsciente. Esse predomínio assegurado da cultura sobre a natureza no homem constitui o fundamento mesmo da asserção de que o homem. O grande papel que Freud atribui à infância. Pode-se.sinaldemenos. Para ela. ao contrário.

org Ano 8. para a qual esses comportamentos não são neuroses. DAHMER. Mas a distinção entre uma “ala esquerda” e uma “ala direita” da psicanálise á se encontra em MARCUSE. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. o que o faz a presa ideal da propaganda fascista. meio empírico – 9 Fala-se. The Freudian Left. A Philosophical Inquiry into Freud. voltado para a acumulação e a poupança. 1968]. e. de uma esquerda freudiana (como da esquerda hegeliana) (ver ROBINSON. Géza Róheim e outros. Não se pode verdadeiramente falar de uma direita freudiana em termos explícitos (com efeito. vol. Nos anos 1940. Com efeito. Esse caráter tende à obediência cega e transforma-se facilmente em “personalidade autoritária”. e a classe burguesa. o surrealismo francês constituía a primeira grande tentativa de utilizar os resultados da psicanálise com o objetivo de “mudar a vida”. então. . n°12. Wilhelm Reich. e central. 2016 33 Parece muito difícil colocar essa visão da vida a serviço de uma modificação social profunda tal como a esquerda acreditava possível. Boston: Beacon Press. Geza Roheim. terceira edição aumentada em Westfälisches Dampfboot. seguidos por Georg Groddeck. Herbert Marcuse. Seus autores tentavam. cada um à sua maneira. 1955 [Eros e civilização: uma crítica filosófica ao pensamento de Freud. 1971]. Herbert Marcuse. continuaram essas pesquisas com o amplo estudo – meio teórico. Paul. aliás. segunda edição aumentada em 1982. era a vinculação estabelecida entre o caráter “anal”. 1969 [A esquerda freudiana: Wilhelm Reich. repleta de preconceitos e de ressentimentos. materialismo não coincide com economicismo. a partir do momento em que Max Horkheimer assumiu sua direção em 1931. em todos os lugares. Eros and Civilization. como testemunham os Estudos sobre autoridade e família. mesmo à esquerda. Lasch também utiliza este termo em O mínimo eu. a potência e a evidência das ideias de Freud seriam tais que. 2013). a psicanálise é “materialista”. na origem do projeto maior de unir instrumentos do materialismo marxista à psicanálise. faz referência a isso. 1. Helmut. mas constituem as bases de seu papel social. Münster. No início. mas em um sentido bastante amplo: aqui. Rio de Janeiro: Zahar. Fora do campo dos analistas de profissão. depois da Segunda Guerra. vincular os “caracteres” psicológicos – os “tipos” – às classes sociais criadas pelo capitalismo. essa abordagem foi muito marcada pela figura de Erich Fromm. estes terapeutas chegaram desde o começo da difusão das ideias de Freud. Entretanto. para os autores do Instituto. Otto Fenichel. Libido und Gesellschaft. Marcuse. New York: Harper & Row. Um exemplo típico. emigrados para os Estados Unidos. Nos Estados Unidos. Marcuse refere-se à Jung quando fala da ala direita do freudismo): aqueles que queriam apenas ser terapeutas e curar os indivíduos foram levados “naturalmente” a aceitar a sociedade capitalista como um horizonte inultrapassável e a colocar seus pacientes para se adaptar ao mundo tal como ele está [comme il va].sinaldemenos. Herbert. Frankfurt am Main: Suhrkamp. 1973. alguns não tardaram a tentar utilizar essas ideias para promover alguma forma de emancipação social.9 O Instituto para Pesquisa Social de Frankfurt (que está na origem do que se chama habitualmente “Escola de Frankfurt”) esteve. sobretudo. Studien über Freud und die Freudsche Linke. os membros do Instituto.[-] www. Sandór Ferenczi. publicados em 1936. Otto Gross e Wilhelm Reich foram os primeiros. Geza Roheim. Mas nós devemos deixar esse assunto para outro ensaio.

nesse meio tempo. a partir de 1937. Erich Fromm and die Kritische Theorie. ao invés disso. ver LE RIDER. evitados pelos revisionistas. p. o olhar a respeito de Freud. cujo caráter universal eles questionam.11 Os últimos escritos de Freud. Theodor. não admitem a existência de conflitos insuperáveis no interior do homem.sinaldemenos. Jordi. diciembre de 2013. acabava por ser o alvo de ataques e se via associado a um empreendimento de “revisionismo neofreudiano”. que queriam compreender a ascensão do fascismo através da interiorização dos constrangimentos sociais e o caráter violento de toda civilização. Adorno e Marcuse –. n°12. p. n. Subjetividad dañada. para. Costruzioni psicoanalitiche. 1991. fortemente se alterado. de libertá-lo da bagagem biologicista. 5. band II. p. vol. Soggettività offesa e falsa conscienza. Contudo. 351-400 (tradução alemã: Die Fromm-Marcuse-Debatte im Rückblick. L’allié incommode. MAISO. 1. São Paulo: Editora da Unesp. Os membros dessa corrente dizem de si mesmos que eles pertencem à escola “culturalista” ou “interpessoal”. 15. 132-150]. Horkheimer. Jacques. Paris: L’ livier. publicado em 1950. Karen Horney e Harry Stack Sullivan) diminuem a importância atribuída por Freud às pulsões. pareciam. LIT-Verlag. 2012 [segunda versão: MAISO. precedido de ADORNO. do conceito desesperado de “pulsão de morte”. heodor. Em geral. a existência da pulsão de morte.[-] www. a fortiori. Münster. p. trata-se de “humanizar” Freud. Os neofreudianos (essencialmente Fromm.10 Em face do revisionismo. notadamente as sexuais. Jordi. e RICKERT. n. Eles negam. v. 1986. 10 . do pessimismo de suas últimas obras. 82-127). dos fatores sociais e da cultura. ao contrário.org Ano 8. John. La psychanalyse révisée. The Fromm-Marcuse Debate Revisited. muito importantes aos olhos dos autores de A dialética do esclarecimento. Teoría crítica y psicoanálisis. termo “revisionismo neofreudiano” utilizado por Adorno e Marcuse é evidentemente depreciativo e faz alusão ao “revisionismo” marxista do início do século (aquele de Bernstein). Erich Fromm. tinha. Jahrbuch der Internationalen Erich-FrommGesellschaft. pode-se reportar às obras clássicas de Rolf Wiggershaus e de Martin Jay sobre a história da Escola de Frankfurt. Para os neofreudianos. 2015. A teoria deles reduz o peso da infância na história individual e o do complexo de Édipo. Revista de Teoría Crítica. La psicodinamica del risentimento nella teoria critica della società. 43-69]. 2007 [AD R . mesmo nos seus aspectos aparentemente mais difíceis de integrar em uma teoria crítica da sociedade capitalista. 11 Para um breve resumo da relação entre Fromm e o Instituto para Pesquisa Social. Theory and Society. eles insistem a respeito do papel da educação. Além disso. 2016 34 sobre A personalidade autoritária. que havia entrado progressivamente em conflito com o Instituto – sobretudo com Adorno –. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. o Instituto desejava operar um retorno em direção ao “verdadeiro” Freud. encontrar as premissas da felicidade individual e da harmonia social. Constelaciones. daqueles que constituíam nesse momento o núcleo do Instituto – isto é. 23. e buscam relações com a antropologia e a sociologia.

as expressões latinas art.. diante da Sociedade Psicanalítica de São Francisco. que parece deixar aberta a porta para uma autotransformação emancipadora da sociedade. mas não necessariamente na mesma página].sinaldemenos. cit. Mas. de utilizar conjuntamente as categorias de Freud e de Marx.org Ano 8. os caracteres psicológicos correspondem estreitamente à posição socioeconômica do indivíduo. feitas pelo Instituto. pronunciada em 1946.[-] www. vol. “A psicanálise revisada”. hoje em dia. 2016 35 Freud enganava-se. John. n°12. Fromm. mais do que na análise das formas de vida e de consciência fetichistas que dizem respeito a todos os membros da sociedade. postulando uma incompatibilidade entre as pulsões e a civilização. ao menos em Fromm. 6. nos anos 1930. um corolário do welfare state. cit. foram utilizadas referindo-se à mesma edição de obra citada anteriormente. Os revisionistas querem “tratar as relações inumanas como se já fossem humanas”. 13 RICKERT. mas as críticas de Adorno visam. 1. Adorno antecipa o essencial das críticas expressas quase dez anos mais tarde por Marcuse. cit. eles emprestam dessa maneira “a uma realidade inumana o brilho da humanidade” e “indignam-se com o reacionário Freud. O primeiro ataque público contra Fromm foi lançado por Adorno em uma conferência.12 O que Fromm havia abandonado por volta de 1941 era a teoria freudiana da libido. em oposição ao pessimismo hobbesiano de Freud. é suficiente abolir o excesso de repressão para chegar a um equilíbrio individual e coletivo – uma espécie de social-democracia psíquica. Ver ADORNO. por que explicá-lo com os rituais de limpeza da primeira infância. Se o caráter anal é típico da burguesia. Para ele. iguais nas diferentes classes? Para Fromm. op.14 Ele se detém. de fato. em alemão. sobretudo em Karen Horney – psicanalista alemã igualmente emigrada para os Estados Unidos e durante certo tempo próxima de Fromm –. Mesmo nesse plano. In:__. bastante datada: para Fromm. o atomismo de Freud exprime uma realidade social: a clivagem entre o indivíduo e a sociedade. Theodor W. Isso constitui também um limite das primeiras tentativas mencionadas anteriormente. segundo eles. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. (ele repete observações bastante similares sobre a psicanálise nos §§ 36-40 de Minima moralia. cit. a visão de Marcuse parece hoje mais atual do que a de Fromm. art. mas escrita a partir do fim dos anos 1930). publicada em 1951. no mesmo idioma. Entretanto. Die Fromm-Marcuse-Debatte im Rückblick. 12 . [No presente artigo.13 Ela parecia-lhe incompatível com uma leitura marxista das origens socioeconômicas das características das diferentes classes sociais. p. sem passar pela fase da libido. essas são as relações sociais correspondentes às condições socioeconômicas que formam diretamente o caráter a partir da infância. para dizer a verdade. Daí porque ela parece. e op. isto sempre está acompanhado de uma visão muito crítica da sociedade capitalista. Sua crítica reivindicava as categorias de Marx. ela estava formulada principalmente em termos de “classe”. 14 Publicado em 1952.

Ensaios sobre psicologia social e psicanálise.15 O argumento de Adorno. 2016 36 enquanto seu pessimismo intransigente testemunha a verdade sobre as condições de vida das quais ele não fala”. é necessário fazer alguns esclarecimentos.org Ano 8. enquanto seu pessimismo irreconciliável testemunha a verdade sobre as relações das quais ele não fala”. cit. 39 [ a edição brasileira: “tratar as relações humanas (sic) como se á fossem humanas”.16 acusam Fromm de “sociologismo” e defendem a teoria da pulsão de Freud. portanto.[-] www. mesmo os “valores mais altos da civilização ocidental” pressupõem a alienação e o sofrimento. 63]. 16 MARCUSE. “As escolas neofreudianas promovem esses mesmos ADORNO. parece paradoxal à primeira vista: por que dois autores que não se interessam essencialmente pelo valor da clínica – terapêutica – da psicanálise. AD R . Marcuse formulou o essencial de sua crítica a Fromm em um artigo de 1955. a qual considera as relações intersubjetivas – e. Então. que coloca o acento principal na dimensão social da existência. op. Ele explica primeiro as honrosas razões iniciais do revisionismo neofreudiano: A concepção psicanalítica do homem. “ela empresta um brilho humano a uma realidade inumana”. enquanto a visão freudiana do homem parece próxima do liberalismo burguês. publicado no mesmo ano como posfácio a seu livro Eros e civilização. vol. como mais tarde o de Marcuse. 205 [No presente artigo. a sociedade – como secundárias em relação a uma estrutura pulsional em grande parte inata e que existe apenas no nível individual? A insistência dos “culturalistas” sobre a importância que tem o “meio” e as relações interpessoais. 209. Theodor. “indignados com o Freud reacionário.sinaldemenos. op. no mesmo idioma. com sua crença na imutabilidade básica da natureza humana. desde o começo da vida individual. a expressão latina ibidem foi utilizada referindo-se à mesma edição de obra citada anteriormente. mas não necessariamente na mesma página]. p. La psychanalyse révisée. 17 Ibidem.17 Para Freud. impôs-se como “reacionária”. tradução modificada. 1. cit. a teoria freudiana parecia implicar que os ideais humanitários do socialismo eram humanamente inatingíveis.. Herbert. op. 15 . n°12. p.. heodor. as revisões da Psicanálise começaram a ganhar impulso. Eros e civilização. mas por sua contribuição possível ao projeto de “progredir para além do estágio patricêntrico-aquisitivo”. p. p. parece muito mais próxima da teoria marxista. para o qual a única realidade verdadeira é o indivíduo com sua pursuit of happiness e que sempre pensou isto que Margaret Thatcher disse abertamente: “There is no such thing as society!” Para compreender a posição de Adorno e de Marcuse. cit..

21 Mas Fromm não permanece fiel aos seus princípios. op. mais tarde. estes valores tornam-se eles mesmos repressivos. e se encontre efetivamente mais utilizada. Fromm não quer ver – ao contrário de Freud – que esses “valores superiores” se realizam à custa dos indivíduos e de sua felicidade [bonheur] libidinal22: os revisionistas eliminam os conceitos mais explosivos e cedem a um “desejo positivo”.org Ano 8. tradução modificada. 208. p. emprega esse termo – ainda que a palavra “pulsão” se a muito mais apropriada em francês [e português]. vol.[-] www. Herbert. e. A Standard Edition das obras de Freud em inglês traduz o termo alemão Trieb por “instinto”. “focalizando as vicissitudes dos instintos19 primários. defini-lo em termos compatíveis com esta sociedade – e. sem atingir uma mudança de civilização. 18 19 ..sinaldemenos. mesmo Freud sustenta que o indivíduo depende do “destino geral”. enquanto Freud. p. É aí que a “repressividade geral molda o indivíduo e universaliza até mesmo seus Ibidem. n°12. mas n s mesmos utilizaremos o termo “pulsão”. a tradução francesa [e para o português] de Marcuse.18 Os revisionistas priorizam as relações entre adultos. p. tradução modificada. mas que esse destino geral se manifesta essencialmente na primeira infância. Eros e civilização. e. sua crítica permanece superficial. p. 206. Nos seus artigos dos anos 1930. por consequência. no entanto. 22 Ibidem.20 Marcuse admite que Fromm. e de outros autores anglófonos. tentava libertar a teoria de Freud de sua identificação com a sociedade atual. 20 MARCUSE. 21 Ibidem. Os revisionistas opõem uma leitura “sociológica” a uma visão centrada no indivíduo. cit. portanto. Aqui. 223. Reconhecer o “direito à felicidade” aqui e agora. segundo Marcuse. 207. implica. reduzindo a problemática a uma questão de “valores” a serem realizados no próprio quadro de uma sociedade não-livre. a denunciar o capitalismo. A metapsicologia de Freud contém um potencial crítico maior do que sua terapêutica: esta necessariamente tem em conta a realidade dada e a necessidade de curar os pacientes. Entretanto. e mesmo quando ele continua. segundo Marcuse. publicados na Zeitschrift für Sozialforschung do Instituto. descobriu a sociedade na mais recôndita camada do gênero e do indivíduo”. a realidade social. no começo da sua carreira. nós não corrigiremos as traduções existentes. assim. como quer Fromm. 1. 2016 37 valores como cura contra a falta de liberdade e o sofrimento – como o triunfo sobre a repressão”. “o caráter histórico das modificações dos impulsos viciaram a sua equação do princípio de realidade com as normas da cultura patricêntrico-aquisitiva”.

23 Segundo Marcuse. o mais “duro”. que. 217. Se ele se impede de considerar essa existência inumana como um aspecto negativo passageiro de uma humanidade que caminha adiante. 221. os conceitos “biologicistas” de Freud vão mais longe do que a ideologia e seus reflexos: sua recusa de tratar uma sociedade reificada como uma “rede crescente de experiências interpessoais” [como fazem os neofreudianos “humanistas”. além até mesmo das intenções do próprio Freud: Em contrapartida. corresponde à realidade e contém o verdadeiro conceito dessa realidade. vol. Mas se a sociedade é tão alienada quanto Fromm diz. que mais contém verdade crítica acerca da sociedade capitalista. 217. como seria possível criar pessoas responsáveis. p.sinaldemenos. n°12.org Ano 8. tradução modificada. os neofreudianos. o macho e a fêmea. sublimam-na em seu oposto”. as que são menos interpessoais. que estigmatizam sua frieza inumana. Ibidem. o patrão e o empregado”. segundo Marcuse. depois o senhor e o escravo. os espécimes do gênero confrontam-se mutuamente: os pais e a criança. produtivas e radiantes [épanouies]? Assim. o mais “biologicista”. Em um mundo alienado. O programa mínimo de Freud é o de limitar a infelicidade.25 O conceito freudiano “estático” da sociedade. 25 Ibidem. p. mesmo recorrendo à ironia.[-] www. Ibidem. eles retornam a uma ética idealista. os revisionistas superestimam as diferenças individuais: “As relações decisivas são. e um indivíduo alienado como uma “personalidade total”. p. crer que se possa fazer mais nesta sociedade significa ter uma concepção demasiado “rosa”. assim. Os revisionistas querem desenvolver o “potencial” de seus pacientes. p. ele é mais humano do que os críticos. “evita designar a repressão por qualquer outro nome senão esse. AJ]. tradução modificada. 217.26 Fromm critica efetivamente a sociedade de mercado e a competição. mas pensa. está mais próximo da realidade do que o conceito “dinâmico” dos revisionistas. ainda assim. porque toda sociedade funda-se na repressão das pulsões.24 Marcuse afirma que é justamente Freud. às pulsões destrutivas. tradução modificada. por vezes. tolerantes ao grande coração. que se pode realizar os “valores superiores” e um “trabalho construtivo”. diferente de Freud. 23 24 . de alguma maneira. 26 Ibidem. 1. 2016 38 traços mais pessoais”. Ele esquece igualmente o fato de que as pulsões eróticas estão sempre misturadas.

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Freud, ao contrário, sabe que na “nossa civilização” não existe espaço para um
amor que seja ao mesmo tempo tenro e sensual. Mas, para os revisionistas, pode-se
encontrar uma solução harmoniosa. Para eles, os conflitos essenciais, como a
repressão social, não são sequer sociológicos, mas banalmente morais: assim, eles se
voltam para a desvalorização das necessidades materiais. Eles não acreditam em um
conflito fundamental entre princípio de prazer e princípio de realidade: a natureza
instintiva do homem pode encontrar uma felicidade socialmente reconhecida. Assim,
seu “humanismo” permanece muito aquém da lucidez terrível de Freud, para quem a
infelicidade fundamental da repressão não pode jamais ser compensada pela
sublimação no “amor produtivo” e outras pseudofelicidades.
Os revisionistas espiritualizaram a felicidade e a liberdade, e, assim, eles
podem acreditar que a felicidade é possível até mesmo em uma sociedade repressiva.
Em contrapartida, é o recurso ao biológico em Freud que desvela a extensão da
repressão e não permite as ilusões fáceis dos “culturalistas”. Mais do que
“acrescentar” uma dimensão cultural ou sociológica à teoria de Freud, é necessário
extrapolar o conteúdo sociológico e histórico dessas categorias aparentemente
biológicas. O enfraquecimento do indivíduo tornou impossível a aplicação da
psicologia aos eventos sociais; é necessário agora “desenvolver a substância política e
sociológica das noções psicológicas”27: a sociedade encontra-se no indivíduo, muito
mais do que o contrário. Uma psicologia autônoma, então, não é mais possível.28
Fromm não poderia senão se surpreender com a virulência dessa polêmica
lançada por um ex-companheiro de percurso. No contexto dos Estados Unidos dos
anos 1950, conformista e anticomunista, ele compreendia, sem dúvida, que sua
própria posição estava já muito exposta, herética e subversiva. Ademais, ele opunhase à redução, muito comum à época nos Estados Unidos, da psicanálise a uma
simples cura de uma neurose individual, lembrando que o indivíduo doente é, antes,
a consequência de uma sociedade doente, e que mesmo os princípios fundadores da
sociedade americana – como a concorrência – são patogênicos enquanto tais. Devia
lhe parecer estranho que outro marxista lhe desse tal lição de radicalismo, acusandoo de ter feito exatamente o que ele afirmava sempre ter combatido: a adaptação da
psicanálise a um contexto repressivo, retirando dela todo caráter autenticamente
27

Ibidem, p. 25.
ensaio de Adorno “Sobre a relação entre sociologia e psicologia” 1955) [ n: __. Ensaios sobre
psicologia social e psicanálise. São Paulo: Editora da Unesp, 2015, p. 71-136 ] o afirma com muita
força.

28

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subversivo. E como um marxista podia reprochá-lo29 de ter sublinhado o papel das
relações entre adultos, e, portanto, da sociedade, na estrutura psíquica dos
indivíduos?
E, com efeito, Fromm replicou severamente na mesma revista Dissent.30 Ele
começou lembrando que Marcuse amalgama as posições, geralmente divergentes, dos
diferentes “revisionismos”, e que lhe atribui indevidamente opiniões que são mais as
de Horney ou de Sulliver31 – que eram muito menos sensíveis do que ele à crítica
social. Mas Fromm admite que ele também tem críticas importantes a endereçar ao
próprio Freud: este tinha uma visão “darwinista” do homem e identificava o homem
de sua época com o homem de toda civilização possível. Ao reduzir todo amor ao
desejo sexual, Freud pode somente conceber um conflito irredutível na base de toda
civilização. Nenhuma sociedade pode escapar disto – são possíveis apenas algumas
reformas no domínio da moral sexual, como diz o próprio Freud. E isso, pergunta
Fromm, seria uma crítica radical da sociedade alienada?
O

“materialismo”

que

Marcuse

elogia

em

Freud

(para

opô-lo

ao

“espiritualismo” suposto dos revisionistas) não seria o materialismo fisiológico do
século XIX, “burguês” e pré-marxiano? É, ao contrário, sustenta Fromm, sobre a base
do materialismo de Marx, enquanto relação dialética entre a natureza e a cultura sob
o signo da “práxis”, que se chega a conceber um ser humano que não se limita à
satisfação das necessidades pulsionais. Em contrapartida, a demanda de satisfação
sexual ilimitada não tem nada de radical: os nazistas no seu tempo, e sobretudo a
sociedade de consumo no pós-guerra, propuseram-na igualmente. Pelo Brave New
World, de Aldous Huxley, ela foi prevista. Essa demanda produz pessoas sem
conflitos, felizes, que não precisam ser forçadas para obedecer. 32
Fromm sublinha que suas concepções de felicidade e de amor são bastante
diferentes das concepções dominantes, mas que não é impossível – somente muito
difícil – praticá-las em uma sociedade alienada. Realizá-las, acrescenta ele,
equivaleria inclusive a uma forma de crítica social e de rebelião. A negligência do
[Reprocher, o que corresponde em português a reprochar, censurar, repreender].
Para uma crítica detalhada da interpretação marcuseana de Fromm, ver RICKERT, John. The
Fromm-Marcuse Debate Revisited, art. cit.
31 Ver FROMM, Erich. The Human Implications of nstinctivistic “Radicalism”. A Replay to Herbert
Marcuse. Dissent. A Quarterly of Socialist Opinion, volume II, 1955, p. 342.
32 Essa crítica parece muito justa e ainda mais hoje em dia. Mas Marcuse certamente não enaltece esse
tipo de sexualidade liberada, que, ao contrário, corresponde a isso que ele chama de “dessublimação
repressiva”.
29

30

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“fator humano”, mais precisamente a atitude niilista acerca do homem, era um dos
defeitos do leninismo e do stalinismo. Fromm conclui: “a posição de Marcuse é um
exemplo de niilismo humano disfarçado de radicalismo”.33
Na sua resposta a Fromm, Marcuse afirma que nem Freud nem ele mesmo
jamais identificaram a satisfação sexual ilimitada e imediata à felicidade. Mas
sublinha também que toda sublimação contém uma parte de não-liberdade e de
repressão. As implicações da teoria de Freud (para além da sua permanência efetiva
no horizonte do seu tempo) são bem mais anticapitalistas do que as tolices de Fromm
sobre a participação dos operários na gerência [management]. Não existe
materialismo do século XIX na metapsicologia freudiana, a qual se refere, por vezes,
bastante a Platão!
“Niilismo”, como denúncia das condições inumanas, pode ser uma
atitude autenticamente humanista – como parte da “Grande recusa” de
jogar o jogo, de se comprometer com o mau “positivo”. Nesse sentido, eu
aceito quando Fromm chama minha posição de “niilismo humano”.34

Na sua última resposta, Fromm ainda cita Freud para demonstrar que, para
este, a felicidade reside efetivamente em uma sexualidade não restrita, e para criticar
esta visão – confirmando assim que não diverge da leitura marcuseana de Freud, mas
da concepção freudiana da própria sexualidade.
Nem Fromm nem Marcuse fazem referência, mas poderiam ter aludido ao
aforismo de Adorno na Minima moralia, publicada, alguns anos antes desse debate,
na Alemanha: “não há vida certa na falsa”. Marcuse ofereceu sua própria leitura de
Freud em Eros e civilização, publicado em 1955.35 Ela é inegavelmente perturbadora
para quem pensa que uma recuperação do pensamento de Freud em uma perspectiva
marxista (da qual, como se sabe, Marcuse havia permanecido muito mais próximo do
que os outros autores do Instituto) somente poderia consistir em uma explicação das

FR MM, Erich. he Human mplications of nstinctivistic “Radicalism”. A Replay to Herbert
Marcuse, art. cit., p. 349.
34 FROMM, Erich; MARCUSE, Herbert. A Reply to Erich Fromm e A Counter-Rebuttal. Dissent. A
Quarterly of Socialist Opinion, volume III, 1956, p. 81.
35 Quatro anos mais tarde, o filólogo Norman O. Brown publicou Life Against Death. Na sua
introdução, Brown lembra a proximidade de sua obra com aquela de Marcuse. Além disso, os dois
autores geralmente haviam ficado próximos durante os anos 1960. É notável que nos Estados Unidos
dos anos 1950, do qual os quadros de Edward Hopper ou o romance Lolita de Nabokov, entre outros,
descrevem-nos o espírito puritano e tacanho, produziram-se ao mesmo tempo questionamentos tão
radicais da cultura puritana, em nome de uma espécie de erotismo cósmico.
33

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neuroses individuais pela repressão social, eliminando as “constantes antropológicas”
tão presentes no pensamento do último Freud.
Todavia, é exatamente o Freud metapsicológico que Marcuse valoriza,
notadamente o conceito de “pulsão de morte”36 e a importância concedida à préhistória da humanidade para explicar as sociedades presentes: a “horda primitiva” e a
“morte do pai” estariam na origem de um sentimento de culpabilidade que perdura, o
qual explicaria até mesmo os “Thermidores”, quer dizer, os retornos das revoluções
ao estado precedente.37
Para Marcuse, a grandiosidade de Freud residia precisamente na sua
insistência impiedosa sobre a existência da pulsão de morte e sobre o fato de que a
satisfação não sublimada das pulsões libidinais ameaça efetivamente o edifício da
civilização na sua forma atual. Freud não sugere aos homens que eles poderiam viver
em harmonia com esta sociedade; ele lhes propõe somente limitar suas satisfações
pulsionais – sem jamais negar que se trata de uma renúncia muito difícil – a fim de
não entrar em um conflito devastador para o indivíduo.
Mas será que é necessário, então, aceitar a repressão e a sublimação,
considerando-as como o preço inevitável a pagar quando se quer manter a
civilização? A análise de Freud, diz Marcuse, é exata – sob a condição, entretanto, de
não situá-la em um plano ontológico. Ela se aplica somente à sociedade capitalista
(ou a outras sociedades repressivas). A abolição do trabalho – a redução radical do
tempo de trabalho e sua transformação em atividade libidinosa –, tornada possível na
sociedade do pós-guerra pelo desenvolvimento capitalista das tecnologias que
substituem o trabalho vivo, abre a via para uma mudança histórica da estrutura das
pulsões e para sua reconciliação com a civilização. É, portanto, uma “utopia
concreta”: Narciso e Orfeu vão suceder Édipo.
Nenhuma intervenção terapêutica, nenhum esforço moral pode conseguir
harmonizar o indivíduo e a sociedade enquanto o trabalho alienado e a maisrepressão continuarem a existir. Os neofreudianos enganam-se apresentando esse
Marcuse não interpreta a pulsão de morte somente como desejo de destruição, mas também, e
sobretudo, como forma extrema do princípio de prazer, como “princípio de irvana” e como busca
de uma calma absoluta e de um apaziguamento de todas as tensões. Para ele, não é a pulsão de morte
que paralisa os esforços com vistas a um porvir melhor (como diz Karen Horney), mas são as
condições sociais que impedem os instintos de vida de se desenvolverem e “desencadearem” a
agressão (MARCUSE, Herbert. Eros e civilização, op. cit., p. 231).
37 O poder do Universal sobre os indivíduos aparece com uma força particular nessas sobrevivências
arcaicas no fundo de cada indivíduo. Mas isso indica, mesmo em Freud, uma origem histórica do
inconsciente.
36

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acordo como possível. Mas Freud se enganava igualmente afirmando que o princípio
de prazer deve permanecer, para todo o sempre, subordinado ao princípio de
realidade, porque nada poderá parar a dominação exercida pela Ananque (a
necessidade, a precisão, a falta, a penúria). Até aqui, consente Marcuse, as diferentes
sociedades efetivamente evoluíram no quadro da insuficiência dos recursos
arrancados da natureza. Portanto, a vida era uma luta pela sobrevivência. Nesse
contexto, a repressão das pulsões e o constrangimento do trabalho eram, ao menos
em parte, condições para assegurar a sobrevivência do homem.
Mas o resultado dessa longa história de repressão e alienação é a criação dos
pressupostos de sua superação: a sociedade, graças às tecnologias, está agora madura
para viver com um mínimo de alienação e repressão. Tudo o que ultrapassa esse
mínimo inevitável constitui uma “mais-repressão”, um excedente de repressão, sem
outra função senão manter as estruturas atuais da dominação em benefício de uma
minoria. A mais-repressão não tem, portanto, uma justificativa verdadeira. Uma
mudança profunda da estrutura pulsional do homem é então viável, até mesmo em
curto prazo. A pulsão de morte pode ser fortemente reduzida se a sociedade permitir
às forças construtivas de Eros ocupar o maior espaço possível na vida individual e
coletiva.
De certa maneira, Marcuse inverte a afirmação freudiana segundo a qual a
estrutura pulsional, bastante fixa, estabelece limites estreitos a toda modificação
social possível. Para Marcuse, ao contrário, as pulsões, tanto agressivas quanto
libidinais, permanecem pouco integráveis à sociedade capitalista, e continuam a
constituir um potencial de rebelião e de descontentamento – de mal-estar! – que fará
ecoar toda tentativa de criar uma sociedade “lisa”, “pacificada”, no sentido da
dominação.
Eros e civilização é hoje geralmente percebido como um livro ligado à
atmosfera dos anos 1960, quando ele suscitava discussões intensas em numerosos
países.38 Contudo, ele não pode ser reduzido a um vade-mecum da “revolução sexual”
ou identificado com os estudantes que se enrouqueciam nas manifestações, gritando
“Marx-Mao-Marcuse”. Com efeito, esse livro tinha nascido sob um contexto
profundamente diferente, como acabamos de lembrar e, por outro lado, ele continuou
a alimentar os debates até hoje, como mostram suas reedições frequentes.
Entretanto, Daniel Cohn-Bendit afirma em Le grand bazar que não tinham sido vendidos 40
exemplares da tradução francesa antes de 1968.

38

] jamais anteriormente o homem esteve tão próximo da realização de suas mais queridas esperanças quanto hoje. As nossas descobertas científicas e realizações técnicas permitem-nos vislumbrar o dia em que a mesa será posta “para todos os que desejam comer”. em Adorno – que sua superação do marxismo tradicional é bastante importante em numerosos elementos. Eros e civilização. então. tradução modificada. Ele constitui uma astúcia da razão. É um traço que Marcuse partilha com quase todos os autores que visaram a “mercadoria” nos anos 1960. 1. op. aliás. importante enquanto pressuposto para a libertação.sinaldemenos. mas não o impede de permanecer. em Marcuse. 2016 44 Lembremos algumas críticas que podem ser feitas a ele do ponto de vista da crítica do fetichismo de mercado. geralmente considerados de uma maneira que provém principalmente de Thorstein Veblen e do “consumo de prestígio”. de dinheiro e de fetichismo da mercadoria. tradução modificada. Nota-se – como.. como em geral os marxistas tradicionais. em certos aspectos. falando dos “mecanismos de defesa” da sociedade capitalista contra a “ameaça da liberdade”. que perdeu toda função histórica. uma inversão “Quanto mais a alienação do trabalho é total. cit. Nunca a libertação esteve tão próxima. 227. que ainda se opõe.. Marcuse. Herbert. no quadro marxista tradicional. nunca tantos obstáculos opuseram-se a essa realização. porque a produção material “não pode nunca ser o domínio da liberdade e da satisfação”. p. mas jamais chega à categoria do trabalho abstrato. muito menos às categorias de valor. O que está muito distante de um pensamento do fetichismo! 41 O progresso tecnológico permanece. indica efetivamente certo grau de inconsciência na dominação. MARCUSE. vol.[-] www.. ainda que seja necessário ela ser bem utilizada! Ele vai muito longe nessa via. A crítica da “mercadoria” volta-se menos ao produto do trabalho na sua dupla natureza (concreto e abstrato) do que aos objetos de consumo. e é somente uma dominação de classe anacrônica. Marcuse critica o “trabalho alienado” (sem o definir). Assim.org Ano 8.40 Mas. n°12. vendo na automatização da produção uma conditio sine qua non para o estabelecimento de uma sociedade erótica!39 A “missão civilizatória do capital” faz uma volta curiosa. p. manifesta uma grande confiança no “progresso” e nos benefícios da tecnologia. acrescenta Marcuse. 39 . e. 40 Ibidem. 41 Mesmo se Marcuse. Marcuse acredita que a automatização ameaça a “dominação” e que esta tende a limitá-la! Ele afirma que Fromm tem razão ao dizer que [. maior é o potencial de liberdade: a automação total seria o ponto timo”. 144.

. cit.). p. In: Le nouvel Observateur. Rio de Janeiro: Casa da Palavra. Notadamente Asger Jorn. Volume II. e a quantidade de televisores ou de tratores (uma alusão à União Soviética) não define a boa vida. Douglas (Org. 12/13.143-154]. e se souberem realizar tal perspectiva geral à medida que a automatização se desenvolva”. Écologie et révolution. tornou-se possível passar para uma civilização dos “lazeres” “A posse e a obtenção dos bens vitais de consumo são a condição prévia mais do que o conteúdo da sociedade livre”. p. Du crépuscule de la pensée à la catastrophe.) não está no gás. n°12. Se. Isabel. Herbert Marcuse: a grande recusa hoje. 172. In: KELLNER. no qual ele diz notadamente: “a automatização s se pode desenvolver rapidamente a partir do momento em que estabelecer como objetivo uma perspectiva contrária a seu próprio estabelecimento. é necessário conhecer as oportunidades oferecidas pela automatização: “Conforme o resultado. op. Herbert. decerto. Está na diminuição dos vestígios do pecado original”. Para Jorn. 2014. O primeiro texto está disponível em português: Ecologia e crítica da sociedade moderna. tradução modificada.44 Mas a confiança nas tecnologias expressa em Eros e civilização não pode hoje em dia senão nos surpreender por sua ingenuidade – mesmo se ela é compartilhada com quase todo pensamento de sua época. criadas pela burguesia. 142. o artigo “Les situationnistes et l’automation”. MARCUSE. no vapor ou nas mesas giratórias.42 A este propósito. In: LOUREIRO. 1. n. pode-se chegar ao total embrutecimento da vida humana ou à descoberta permanente de novos dese os”. 74-77. 19 juin 1972. Marcuse cita a belíssima frase de Mon cœur mis à nu [Meu coração a nu]. na sociedade do pós-guerra. The Collected Papers of Herbert Marcuse – vol. 2011. Paola Berenstein (Org. 45 Constant e Pinot Gallizio. 2003. por exemplo. Caen: Le ord de l’eau. Pode-se ver nessa dialética otimista outra versão da concepção marxista tradicional segundo a qual as forças produtivas. 2016 45 dialética: é o princípio de realidade que tem como resultado final sua transformação e a superação de seu antagonismo com o princípio de prazer. acabarão por reverter as relações de produção. tradução modificada. de Baudelaire: “A verdadeira civilização (.. mostraram-se convencidos de que a tecnologia havia tornado objetivamente caduco o modo de produção capitalista e que ela permitiria uma livre associação de indivíduos que não seria mais baseada no trabalho. 206-222.43 Pode-se. V. encontrar no pensamento de Marcuse igualmente as premissas de um pensamento ecológico. Paris. Petrópolis: Vozes. p. de Asger Jorn. 42 . Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. p.. « Écologie et critique de la société moderne e Écologie et révolution» . Theorie critique de la crise. 45 Ver. 599-613 [Ecology and the Critique of Modern Society. no primeiro número da Internationale Situationniste 1958). Eros e civilização.). 43 Ibidem. (Org. JACQUES. p. p. Herbert. Psychoanalysis and Emancipation. mas também o próprio Debord.[-] www.).sinaldemenos. vol. Revue Illusio. e com o pensamento “de esquerda” mais ainda! Esse elogio da tecnologia e sua importância para abolir o trabalho alienado apresentam paralelos notáveis com as ideias que a Internacional Situacionista tinha desenvolvido na mesma época.org Ano 8. 1999. 44 Ver MARCUSE. New York: Routledge. Mas esse progresso técnico não é para Marcuse um objetivo enquanto tal. Philosophy.

Ver. mas. 47 e operou. As tecnologias. uma virada muito forte em direção a uma crítica cada vez mais pronunciada do papel das tecnologias. Gabriel Ferreira. p. Essa visão. em verdade. Marshall. Ali onde os recursos disponíveis são raros. Marcuse atribui às tecnologias um papel indispensável para sair de uma condição histórica original de pobreza em que toda a vida do homem volta-se somente para a sua simples reprodução. 2016 46 e do jogo. afinal. para os situacionistas. 48 Para citar apenas uma: SAHLINS. Debord reconhece em Marcuse uma “ideia de base da Internacional Situacionista. são. trabalho e economia não são mantidos vivos senão para salvaguardar a dominação de classe. notadamente a propósito desta passagem de Marcuse: Se a civilização deve progredir em direção a um estágio superior de liberdade. Debord lecteur de Marcuse ». A abertura recente dos arquivos de Debord permitiu conhecer suas fichas de leituras e suas notas preparatórias para a redação de La société du spectacle. nas quais ele sublinha algumas semelhanças entre as teorias de Marcuse e a sua própria teoria do espetáculo.46 Mas Debord sempre alimentava reservas em relação à tecnologia. é a Ananque que domina. portanto. vol. n°12. um pouco mais tarde.. « Éros et civilisation dans La société du spectacle. inevitável. para tirar a humanidade da miséria material. foi como consequência direta da “vitória sobre a natureza”. tradução modificada. Eros e civilização. Theorie critique de la crise. p. e nenhuma emancipação é possível. de modo geral. 1. é. 329-343. uma espécie de “mal necessário”. New York: Aldine and de Gruyter. deve-se examinar seriamente a possibilidade histórica de uma supressão progressiva dos entraves colocados ao desenvolvimento instintivo e talvez até mesmo a necessidade histórica dessa supressão. Trata-se agora. 46 .[-] www. contradita por numerosas pesquisas históricas e antropológicas que surgiram. criando a abundância. 127. segundo a qual o capitalismo seria uma etapa terrível. lembre-se.org Ano 8. o que incluiria a possibilidade de abolir o trabalho e a economia. 1972. aos olhos de Marcuse. a partir de 1971. Op.48 As sociedades que precederam o capitalismo não viviam sempre nem em todos os lugares com dificuldade: frequentemente a existência era menos penosa do que na MARCUSE. Revue Illusio. em termos psicanalíticos”. ZACARIAS. Volume II. op.. Para a Internacional Situacionista. Stone Age Economics. de executar essa sentença já enunciada pela história. 47 Ele estabeleceu durante alguns anos. Herbert.sinaldemenos. uma relação de estima recíproca com Jacques Ellul. cit. cit. a esse propósito.

libidiniza. Ele designa. A plena recuperação contemporânea da energia erótica. Viu-se. no mínimo. unilateral (mesmo se essa identificação persiste em muitas cabeças até hoje). na recuperação do erotismo infantil e total. Mas. deve-se ainda empurrar”. O verdadeiro . O que pretendia ser uma instância de libertação pode se revelar. que o sistema de mercado pode funcionar muito bem com uma dose menor de autoritarismo (mesmo se este não pode desaparecer totalmente) e com muitas estruturas “líquidas” (Bauman). Outro traço que. Luc Boltanski e Ève Chiapello ou Dany-Robert Dufour. ainda que sempre nas formas mercantilizadas e tornadas inofensivas a priori) evidentemente não subverteu a sociedade. como uma contribuição involuntária à passagem ao próximo estágio do desenvolvimento capitalista. O mesmo se passa com a crítica do autoritarismo. Ela não é incompatível com o trabalho ou ela o é somente com o trabalho físico pesado. 1. em particular. podem mudar o olhar sobre certos elementos da crítica social precedente. em seguida. o verdadeiro desafio da libertação. pode-se dizer que esses rebeldes apenas aplicaram a exortação de Nietzsche: “ao que cai. atualmente. hoje em dia. o trabalho e as relações humanas. O conceito de dessublimação repressiva queria denunciar a insuficiência de um simples crescimento da “tolerância” nas sociedades do pós-guerra em relação à sexualidade genital. O “terceiro espírito do capitalismo”. A hipótese de uma penúria material original. característica dos anos 1960. e da “sexualidade perversa polimorfa”. enquanto tal.47 [-] www. aceita sem questionar esse pressuposto do utilitarismo moderno.sinaldemenos. Tal crítica parecia o nec plus ultra da contestação. n°12. A identificação do coração do capitalismo com as estruturas da autoridade pessoal e com um supereu “edipiano” era. É difícil não admitir que a sexualidade. ela mesma uma construção ideológica burguesa. como muitos dos marxistas. da forma-valor. vê-se que mesmo certa progressão da perversão polimorfa (que ocorreu indubitavelmente. antes. das estruturas edipianas e dos interditos. impossível de efetuar aqui. pode parecer ultrapassado em Marcuse é a sobrevalorização da sexualidade em geral. de uma falta de recursos. 2016 sociedade moderna. ao seu modo. tal como analisado por Zygmunt Bauman. que teria formado a condição de base da humanidade. “normal”. e o tornar-se total. é. vol. Esse assunto mereceria aprofundamento.org Ano 8. retrospectivamente. não é revolucionária. Marcuse. pela valorização do valor. Hoje em dia.

. o do “sujeito automático” (Marx): o valor e sua lógica fetichista. a qual ele mais teria pretendido valorizar. n°12.org Ano 8. então. No seu tempo. Esse narcisismo não se exprime sempre nas formas explicitas de um comportamento a-social e predador (a “perversão narcísica” que é atualmente a alegria das mídias). Eros e civilização. Para Marcuse. tomou distância do que lhe parecia regressivo e acusou o “primitivismo radical” de Wilhelm Reich. 1. e. sempre às tentativas de negar a separação original entre a criança e a mãe.sinaldemenos. O narcisismo parece tão ligado ao capitalismo pós-moderno e líquido. cit.[-] www. Frequentemente. Essa objeção tinha facilmente um tom conservador e assumia o ponto de vista de uma “condição adulta” difícil de distinguir da simples adaptação social. tradução modificada. Estas conduzem. op.50 No entanto. salvaguardando seu narcisismo primário por meio de um narcisismo secundário que dura toda a vida. Eles param anteriormente. ao complexo de Édipo e à formação do supereu. aliás.49 visando apenas à libertação sexual. agente da repressão. 206. quanto a neurose obsessiva estava ligada ao 49 50 MARCUSE. de uma erotização de todas as relações sociais. p. 186. Marcuse.. flexível e “individualizado” (que encontra sua expressão mais típica na “rede”). até o ponto em que “a própria Ananque se converta no campo primário do desenvolvimento libidinal”. tradução modificada. Marcuse foi algumas vezes acusado de promover uma “utopia regressiva” que teria indicado nas etapas menos “maduras” do desenvolvimento psíquico a verdadeira dimensão humana. p. vol. é todo o desenvolvimento da sociedade de mercado desde os anos 1970 que assumiu traços regressivos. da transformação da sexualidade em Eros e de uma erotização do corpo inteiro. como nos explica Christopher Lasch. a “libertação” da libido deve se acompanhar de sua “transformação”. impelindo-os a uma infantilização galopante e a uma denegação de todo princípio de realidade. Herbert. 2016 48 autoritarismo é. os indivíduos não chegam. que “não faz nenhuma distinção essencial entre a sublimação repressiva e a sublimação não-repressiva”. O narcisismo é geralmente considerado como o distúrbio psicológico maior de nossa época – mesmo se as ideias associadas a esse conceito variam enormemente entre os especialistas e no uso cotidiano. o trabalho incluído. igualmente. Ibidem. mas também de mil formas mais sutis. no seu primeiro desenvolvimento. no entanto.

de opor-se ao mundo tal qual ele está [tel qu’il va]. 1965 [A obsolescência da psicanálise. da norteamericana em particular. p.org Ano 8. 1. 52 Ver MARCUSE. Five Lectures. era próximo da Escola de Frankfurt. cujo autor. n°12. Além disso. 56 Outros aspectos de seu pensamento nos parecem mais contestáveis. encontram-se seu populismo. Auf dem Weg zur vaterlosen Gesellschaft: Ideen zur Sozialpsychologie. p. cit. publicado em 1979 nos Estados Unidos.52 Ele previa a evolução em direção a uma “sociedade sem pais”. Theodor. Frankfurt am Main: Suhrkamp. cit. Volume II.sinaldemenos. Herbert. nós consideraremos apenas esses dois livros. de Lasch. cujas análises prolongam-se em O mínimo eu (1984).53 É justamente o título de um livro publicado na Alemanha. de Béla Grunberger e de muitos outros autores. o analista Alexander Mitscherlich. dos anos 1960-1980. op. 55 Da obra de Lasch. vol. Psychoanalysis. 259. já em 1963. a ausência de qualquer crítica da economia política. Politics and Utopia. Marcuse queria valorizar a relação inicial “narcisista” com a mãe. para além do que o autor pudesse pretender.[-] www.. Herbert.. op. muito rica e original. 3). ao mesmo tempo – e isso faz parte da riqueza de seu pensamento –.. repressivo e piramidal (que encontrava sua expressão característica na linha de montagem).. que a criança nascida em uma família “permissiva” é somente menos capaz. p. o indivíduo deve dirigir para si mesmo as energias pulsionais quando as outras pessoas tornaram-se inacessíveis (ADORNO. de Melanie Klein. conferência de 1963. Já Adorno. Boston: Beacon Press. São Paulo: Paz e Terra. Seguido de LE RIDER. sua nostalgia da América do século XIX. ao invés de celebrar o pai como salvador em face da ameaça de uma absorção esmagadora na matriz (MARCUSE. portanto.56 Sua crítica. publicada em MARCUSE. 51 . 54 Ver MITSCHERLICH. 53 Ibidem. é preciso dizer que sua interpretação de Orfeu é mais convincente do que a de Narciso. Jacques. em seguida. considerava o narcisismo como uma defesa do indivíduo contra a sociedade repressiva: ele constitui uma tentativa desesperada do indivíduo para compensar a injustiça sofrida na sociedade da troca universal. problemática. sobretudo.54 A introdução do conceito de narcisismo no domínio da crítica social permanece ligada ao livro A cultura do narcisismo. Marcuse sublinhava. L’allié incommode. Cultura e sociedade. O que ele entende por narcisismo? Ele passa em revista a concepção de Freud. 51 Mesmo admitindo que Marcuse pensava em alguma coisa muito diferente do narcisismo consumista de hoje. 1970 e em Kultur und Gesellschaft. Herbert. 2016 49 capitalismo fordista. através de análises detalhadas. a apologia do esporte e. Eros e civilização. A valorização de Narciso em Eros e civilização é. na sua conferência de 1946. Herbert. e que seu elogio de Narciso era profético. 1963. resume-se. La psychanalyse révisée. autoritário. em 1963. “ bsolescence of the Freudian Concept of Man”. Mas. In: MARCUSE. do trabalho. Entre os aspectos fracos de Lasch. a encontrar em toda parte os signos de um narcisismo fundamental. Zurich: Buchclub Ex libris. 1998]. para chegar a esta definição: o narcisismo secundário é o esforço patológico para negar a separação Dentre outros aspectos. Alexander.55 Esse autor inclassificável propôs uma leitura devastadora da sociedade ocidental. 199).

erode a capacidade de suspender a descrença e. que ele tenta combater com um “otimismo cego” e ilusões grandiosas de autossuficiência pessoal. 2016 50 originária em relação à mãe e compensar a sensação assustadora de impotência do recém-nascido com um todo-poderoso imaginário.58 Em geral. vol. alguém que não sabe definir as fronteiras entre o eu e o não-eu. tanto uma aspiração pseudomística a se fundir com o cosmos. A cultura do narcisismo. cit. a revisão particular Os comentadores de Lasch prestam em geral muito mais atenção no seu lado descritivo do que nas suas bases teóricas e na sua leitura de Freud. Em sua forma patológica. torna cada vez menos acessíveis as gratificações substitutivas inofensivas. o novo paternalismo mina as fantasias mais modestas. podem ser abrangidos pelo narcisismo no sentido de Lasch.sinaldemenos. Nós precisaremos seguir os argumentos bastante sutis de Lasch quando ele aprova. ela cerca o indivíduo com fantasias manufaturadas de gratificação total. de uma autossuficiência total do sujeito –. por sua vez. o narcísico não é necessariamente um egoísta. ao mesmo tempo em que a sociedade torna cada vez mais difícil encontrar satisfação no amor e no trabalho. O novo paternalismo prega não a abnegação. notadamente a arte e o jogo. como acontece com a New Age. Como a sociedade moderna prolonga a experiência da dependência pela vida adulta. como geralmente é o caso de toda perspectiva aberta pelos não-psicanalistas. mas a realização pessoal. ou a natureza. mas é. Enquanto encoraja sonhos grandiosos de onipotência. 1. Este se exprime tanto através das fantasias fusionais quanto através dos desejos de dominação. p. de outro modo. 277. ela encoraja formas mais brandas de narcisismo em pessoas que. tradução modificada. no essencial. 57 .org Ano 8. expressam-se eles mesmos em traços narcísicos. Christopher.57 Sua concepção do narcisismo encontra-se bem resumida neste parágrafo: A expressão psicológica desta dependência é o narcisismo. Contudo.. o narcisismo se origina como uma defesa contra sentimentos de dependência impotente na primeira infância. Ele favorece os impulsos narcisistas e desencoraja sua modificação pelo prazer de tornar-se autoconfiante. sobretudo. n°12. 58 LASCH. portanto. a crítica que Marcuse endereça aos neofreudianos. assim. Assim. o que. op. de outro modo. além do mais. poderiam enfrentar os limites inevitáveis de sua própria liberdade e poder pessoal – limites inerentes à condição humana – ao desenvolverem competências como trabalhadores e como pais. quanto os projetos de controle tecnológico de uma natureza submetida ao homem – e. que ajudam a mitigar a sensação de impotência e o medo da dependência que.[-] www. acompanha a maturidade. ainda que em um campo limitado. o que nos interessa aqui é a crítica que Lasch dirige a Marcuse – malgrado uma filiação revindicada à Escola de Frankfurt e ao seu representante mais conhecido nos Estados Unidos. No interior de seu edifício teórico. mas rejeita. em condições favoráveis. Ele suscitou pouco interesse entre os próprios psicanalistas.

não significa que a criança cresça sem um supereu. O declínio da autoridade parental e das sanções externas em geral. Ele acusa Marcuse de permanecer. ignora os aspectos irracionais do supereu e a aliança entre agressão e uma consciência punitiva. 14.org Ano 8. em imagens arcaicas dos pais. Daí as oscilações da autoestima tão frequentemente associada ao narcisismo patológico.sinaldemenos. dando. diz a cultura da libertação pessoal. o supereu consiste em introjeções parentais ao invés de identificações. em grande parte. p. que reproduz os piores aspectos da civilização em colapso que ela pretende criticar. que relaciona o supereu e o id com o “autodomínio” e a “autoindulgência”. 2016 51 que Marcuse. o supereu seria o agente de uma sociedade repressiva. Ele mantém para o ego um padrão exaltado de fama e sucesso e o condena com selvagem ferocidade. origem a uma “revolução cultural”.[-] www. de um ataque ao “pai” e ao supereu. . Sob essas condições. Lasch vê o narcisismo em prática tanto na cultura mainstream quanto nas suas pretensas contestações: As estratégias narcísicas de sobrevivência apresentam-se agora como a libertação de condições repressoras do passado. 1. A supersimplificação convencional. paradoxalmente reforça os elementos 59 Ibidem. Trata-se. Entretanto. O fracasso dos pais em servir de modelo de automínio disciplinado ou em reprimir o filho. fundidas com autoimagens grandiosas. segundo Lasch: existem supereus que são muito piores do que o “pai” clássico e seus prolongamentos sociais. tratando-os como se fossem radicalmente opostos. quando fica aquém do padrão. n°12. Lasch propõe sua própria versão de retorno ao último Freud. mas a uma alteração de seus conteúdos. então. O declínio da família apenas suscita um supereu arcaico e feroz no interior do próprio indivíduo “libertado”. tradução modificada. operam a respeito de Freud. baseado. assim como Norman Brown.59 Mas este “radicalismo cultural” não critica senão os valores e os modelos doravante ultrapassados pelo próprio desenvolvimento do capitalismo. vol. Ele escreve: As condições alteradas da vida familiar levam não tanto a um “declínio do supereu”. isso é uma ilusão. contra a sua própria intenção. ele encoraja o desenvolvimento de um supereu punitivo e severo. A fúria com a qual o supereu pune os fracassos do eu sugere que ele extrai muito de sua energia de impulsos agressivos do id. não misturados à libido. o indivíduo deve se libertar do supereu. Ao contrário. Ele se apresenta como a colocação em questão das estruturas autoritárias em nome do florescimento do indivíduo. Para ser livre. no interior da cultura do narcisismo. enquanto de muitas maneiras enfraquece o supereu. assim.

O indivíduo contemporâneo sente-se eternamente culpado por não satisfazer as expectativas que. Ora. e para a satisfação das quais lhe faltam todos os meios. assim. Isto se torna o modelo de todas as interdições sucessivas e de todas as estruturas de poder. os cidadãos da sociedade contemporânea oscilam permanentemente entre sentimentos de todo-poder e impotência.61 Essas observações parecem hoje em dia ainda mais verdadeiras do que na época de Lasch. a pátria.org Ano 8. A luta contra o pai castrador é. propunham. As instâncias de libertação. Mas ele a recusa porque a considera como uma armadilha. então. n°12. tradução modificada. 1. sem recursos particulares às categorias psicanalíticas. lutar contra o supereu. p. 62 Isso que está bem descrito. 220.. Daí a conhecida vontade de tudo controlar – “gerir” – na vida individual e coletiva (é “a extensão do domínio da gestão” a todas as esferas da vida de que fala a socióloga Michela Marzano). tradução modificada. 219-220. 2016 52 agressivos e ditatoriais no supereu e. cuja origem encontrarse-ia na resolução do complexo de Édipo: a criança (macho) aceita sua derrota e acaba por se identificar com o pai que interdita o acesso à mãe. o início da luta contra todas as formas de repressão. 60 61 . libertação pessoal e revolução social. Lasch rejeita esta perspectiva. a qual lhe asseguram depender somente dele. a religião.62 Assim. no quadro do capitalismo em declínio. então. Para citar um fenômeno particularmente difundido: na depressão vivida por aqueles e aquelas que não são bem sucedidos em “manter seu peso” ou em seguir os critérios de beleza. vol. dessa maneira. que detinham alta reputação [le haut du pavé] nos anos 1960-1970. mas em nome do gozo do próprio indivíduo que peca contra si mesmo apenas se não for bem sucedido na vida.60 A aliança entre o supereu e Thanatos “dirige contra o eu uma torrente de críticas ferozes. torna mais difícil do que nunca aos desejos instintivos encontrar saídas aceitáveis.[-] www. afirma-se um supereu feroz sempre prestes a sobrecarregar o eu com reprovações e a lhe atribuir toda responsabilidade por seus fracassos na vida. Um supereu tanto mais insidioso e difícil de escapar que ele não fala mais em nome das exigências exteriores (o dever. nas obras de Zygmunt Bauman. a honra.).sinaldemenos. p. como outra forma de adesão ao narcisismo que está no coração do Ibidem. são completamente irrealistas. implacáveis”. etc. Ibidem.. O freudomarxismo revitalizado nessa época propunha unir.

o feminismo. 65 Ibidem. como afirma Chasseguet-Smirgel”. p. 64 LASCH. como o medo da retaliação. A precocidade do desenvolvimento mental e emocional da criança. o movimento de autoconsciência e outras formas de contestação nascidas em torno de 1968. vol. da dependência. da inferioridade e da reunião”. “Parece agora que é a consciência crescente da criança com relação à disparidade entre o seu desejo de reunião sexual com a mãe e a impossibilidade de realizá-lo que precipita o complexo de Édipo”. como jamais podemos nos reconciliar com o abandono dessas ilusões. p. evocada por poderosos impulsos para destruir a própria fonte da vida. p. sintoma e angústia (1926). dizendo que “‘a angústia devida à separação da mãe protetora’ é a fonte original do conflito mental”. Christopher. “A inve a do pênis corporifica a ‘tragédia das ilusões perdidas’.sinaldemenos. tradução modificada. 1. 67 Ibidem. 68 Esse termo significa em Lasch uma espécie de “esquerda cultural” que compreende a “nova esquerda”. p. 158. 63 . A imaginação da criança ultrapassa suas capacidades físicas efetivas.. 2016 53 capitalismo contemporâneo. uma psicanalista francesa que Lasch reivindica com frequência. continuamos a elaborar fantasias que negam qualquer conhecimento das diferenças sexuais. Ela chega a argumentar que. o pensamento ecol gico.65 depois do fracasso das fantasias orais diante da realidade. op. é a chave não apenas para o complexo de Édipo. mas também a falta de maturidade física que impedem a realização dos desejos incestuosos da criança (dos dois sexos). n°12. tradução modificada. a parte primitiva e punitiva do supereu – representa não tanto os constrangimentos sociais interiorizados. 157. Para efetuar sua crítica do “radicalismo cultural”.63 ele revindica o último Freud.org Ano 8. Em Inibição.[-] www. como também de todo seu desenvolvimento posterior. 157. tradução modificada. o próprio Freud aludiu a uma “camada creto-micênica” abaixo do conflito edipiano. 68 Ibidem. O mínimo eu. 66 Ibidem. 155. no qual os impulsos agressivos são redirigidos contra o eu. O supereu – em todo caso. tradução modificada.67 Não são somente as interdições paternas. O supereu representa o medo interiorizado da punição.66 o conflito edipiano incluído. cit. p.64 O complexo de Édipo é “uma outra variação sobre os temas subjacentes da separação. a precocidade de suas fantasias [sexuais] em comparação com as suas capacidades físicas. 157.

para o problema da separação. a crescente exposição da criança a outras agências socializadoras além da família.70 Lasch retira daí sua versão particular de crítica da sociedade contemporânea: esta impede justamente as “soluções evolucionistas”. certamente. mas constituem mediações essenciais entre a separação afetiva e a união. segundo Lasch. 169-170. mas de uma condição humana: “O nascimento prematuro e a dependência prolongada são os fatos dominantes da psicologia humana”. o medo da separação torna-se quase esmagador e a necessidade de ilusões passa a ser. como denomina Janine Chasseguet-Smirgel. 155. portanto. 2016 54 Não se trata. o brinquedo e seu desenvolvimento na arte não são. que rompe as distinções entre ilusões e realidade. Ele não é somente um substituto do seio. p. consequentemente. a infância ultrapassa a necessidade dos objetos transicionais porque os fenômenos transicionais difundiram-se para todos os lugares e ocuparam todo o terreno intermediário entre o interior e o exterior. como para muitos dos psicanalistas. e o efeito geral da moderna cultura de massa. é porque tal cultura tende a favorecer as soluções regressivas ao invés das soluções “evolucionistas”.sinaldemenos. Ele permite assim sair da fusão. p. de uma questão individual. gratificações substitutivas.[-] www. mais intensa que nunca. o “objeto transicional” de que fala Donald Winnicott. vol.org Ano 8. Três linhas de desenvolvimento social e cultural destacam-se como particularmente importantes no estímulo a uma orientação narcisista para a experiência: a emergência da assim chamada família igualitária. n°12. lembra Lasch. 1. Para Winnicott. tradução modificada. p.71 A melhor resposta a essa necessidade de ser tranquilizado é. Ibidem. Quando esse mundo começa a perder a sua realidade. Ao final. Em que elas consistiriam? Os fatos inevitáveis da separação e da morte somente são suportáveis porque o mundo reconfortante dos objetos feitos pelo homem e da cultura humana restaura o sentido de conexão primária em uma nova base.69 E ainda: Se a designação da cultura contemporânea como cultura do narcisismo possui mérito. mas permite ir à conquista de um mundo exterior que está ao mesmo tempo reconhecido na sua autonomia. Ibidem. 69 70 . 71 Ibidem. 178. tradução modificada.

o mundo das mercadorias situa-se como algo completamente separado do eu. Ibidem. aquele de Reich.75 Mas ele expressa reservas a propósito da Ibidem. é o reino intermediário dos objetos feitos pelo homem que ameaça desaparecer nas sociedades baseadas na produção em massa e no consumo de massa. Desprovido de qualquer caráter “transicional”. “O feminismo. 207-240. teve boas razões para atacar o radicalismo precedente. um deslumbrante conjunto de imagens nas quais podemos ver tudo o que desejamos.. ele esmaga o indivíduo. mas também a velha esquerda) e o do “ideal do eu” (o partido da “revolução cultural”. A cultura do narcisismo. p. intitulado “O assalto ideológico ao eu”. e aprova o essencial. o do “eu” (os humanistas e os liberais culturais. 211. vol. Ao invés de fazer uma ponte sobre a distância entre o eu e seu ambiente circundante. de uma só vez excitante. 72 73 . sedutor e aterrorizante. Christopher. Em vez de proporcionar um “espaço potencial entre o indivíduo e o ambiente” – na descrição de Winnicott do mundo dos objetos transicionais –. p.[-] www. Simplesmente nos confronta.] O mundo das mercadorias tornou-se uma tipo de “segunda natureza”. n°12. o qual ele chama também de “partido de Narciso”. 63). [. cit. p. porém. cuja receptividade ao controle e direção dos homens não é maior que a da natureza propriamente dita. 2016 55 Portanto.. op. Segundo Lasch. p. Ele situa Marcuse no último campo. mas também contra o industrialismo).73 este autor.sinaldemenos. Horney e de outros neofreudianos que insistiam sobre as causalidades culturais e queriam libertar Freud da ciência mecânica e da cultura burguesa e patriarcal do século XIX. mas eles não servem mais para a mediação efetiva entre o mundo interior e o mundo exterior.org Ano 8. 75 Lasch critica Fromm por ter identificado no seu escrito The Heart of Men o narcisismo com o simples comportamento antissocial e individualista (LASCH. que não é somente contra o capitalismo. tradução modificada. Ele já não porta o caráter de um ambiente feito pelo homem. o marxismo e a psicanálise pareciam convergir na revelação da família autoritária e da personalidade ‘patricêntrica’. 1. ele assume simultaneamente a aparência de um espelho do eu. que experimenta o sofrimento como culpa e não como injustiça”74 e se identifica com o agressor. ele oblitera a diferença entre estes. 74 Ibidem. É certo que vivemos circundados por objetos feitos pelo homem. que consagra a Marcuse algumas páginas do último capítulo de O mínimo eu. assim como Norman Brown. Fromm.72 Lasch distingue nitidamente sua própria leitura da realidade social e sua interpretação da psicanálise daquelas de Marcuse. Ele distingue três “partidos”: o do “supereu” (os conservadores). 179-180.. como indicaram inúmeros pensadores marxistas. Lasch resume as acusações que Marcuse e Brown endereçaram aos neofreudianos.

cit. mesmo em seus escritos posteriores.org Ano 8. afirma Lasch. em seguida. 1. op. Lasch aprova a tese central segundo a qual nós estamos indo em direção a uma “sociedade sem pais”.. tradução modificada. 78 Ibidem. Este estágio é marcado. Ibidem. e em que “essas mudanças levam a uma ‘tremenda liberação de energia destrutiva’. p. 2016 56 centralidade do complexo de Édipo em Marcuse. 207-215. uma ‘feroz’ agressividade ‘liberada dos vínculos instintivos com o pai como autoridade e consciência’”. 79 Ibidem. pela angústia da primeira separação: primeiro. vol. “Todo o esquema conceitual que opõe prazer e realidade.[-] www. Segundo Lasch. mas a própria fisiologia da criança. p.77 Comentando o ensaio de Marcuse de 1963. o qual considera até mesmo sua origem como um fato histórico (a horda primitiva.78 No entanto. a condenar o “princípio de desempenho” como a fonte primeira da infelicidade e da alienação humanas. em que não é o pai que impede a realização do desejo incestuoso. Marcuse continua. p. já debilitada pelas últimas obras de Freud e por boa parte dos trabalhos subsequentemente produzidos pelos kleinianos. mas uma teoria social “extrapolada”. Freud. Apesar disso. 215. nas palavras do próprio Marcuse. 214. segundo a qual a repressão origina-se na sujeição do princípio de prazer à compulsão patriarcal para o trabalho. afirma Lasch. pelos teóricos das relações objetais e pelos psicólogos do eu. sobretudo. 76 77 . 216. [. das extrapolações de Freud a partir dos dados clínicos para a pré-história.79 LASCH.76 Nestes. em que a sociedade modela diretamente o eu. não é somente a submissão ao princípio de realidade: com efeito. baseia-se “em um modelo de conflito mental descartado nos escritos mais estritamente psicológicos de sua última fase”. O resultado do complexo de Édipo. nos seus escritos sociológicos tardios.. O mínimo eu. tradução modificada. o qual considera de pleno acordo com o último Freud. equiparando o primeiro ao inconsciente e a última à adesão consciente à moralidade parental. uma teoria que Lasch declara “duvidosa”). como já mencionamos. o fim de seu prolongamento durante os primeiros meses de vida. a saída da situação intrauterina. p. deve dar lugar a um modelo mental diferente”. n°12. cujo título original em inglês é “The Obsolescence of the Freudian Concept of Man”. Christopher.sinaldemenos. sobretudo em Psicologia das massas e análise do eu e no Moisés e o monoteísmo. o agente da repressão não é somente “a realidade”..] esses desenvolvimentos invalidam não o “conceito freudiano de homem”. Eles invalidam a ideia. Freud reconduz o essencial do conflito mental para um estágio anterior do desenvolvimento do indivíduo.

tal como a dos neofreudianos. na qual o sofrimento mental se origina da submissão do princípio de prazer a uma realidade opressiva. Presumivelmente um exercício de pensamento dialético [. A despeito de sua condenação da “filosofia moralista do progresso” dos neofreudianos.sinaldemenos. 278. 216.. Brown [. [. 80 81 . a interpretação de Marcuse da teoria psicanalítica.. àquela feita por Marcuse. O triunfo da perversidade polimórfica depende de sua antítese: a racionalidade instrumental conduzida ao ponto da arregimentação total. o trabalho será sempre uma alienação.. se baseia quase inteiramente na obra inicial de Freud.. 2016 57 Para Marcuse. tradução modificada. Para Lasch. ao que parece. tradução modificada.]. vol. no final tornará a vida agradável e indolor. tradução modificada. imposta externamente. A consecução das “relações de trabalho libidinais”. requer a organização da sociedade em um vasto exército industrial.. rejeita [. poder-se-ia atenuar a repressão através de uma reforma da educação ou da sociedade – como pretendem os Ibidem.81 Lasch oferece também uma análise bastante sutil da obra de Brown. n°12..] é um crítico mais cortante do revisionismo neofreudiano do que Marcuse. As teorias revisionistas da cultura baseiam-se no equívoco mais fundamental de que a repressão se origina no controle parental sobre a sexualidade infantil.82 Se a teoria revisionista fosse verdadeira. como sustenta Marcuse. Ibidem. p. p..] A automação apenas possibilita a Orfeu e a Narciso saírem de seu esconderijo. Marcuse. 82 Ibidem. resume Lasch.80 Aos olhos de Lasch.[-] www. p. 218. de quem ele julga a leitura de Freud superior. Não é apenas a “ênfase revisionista na influência das condições sociais” que está equivocada..org Ano 8. uma vez libertas dos constrangimentos capitalistas. Marcuse partilha com eles a fé – parte do legado intelectual do movimento socialista do século XIX e do Iluminismo em geral – de que o progresso da razão e da tecnologia. a libertação de Eros demanda a abolição tecnológica do trabalho. 1.] qualquer intenção de defesa de uma “regressão romântica para antes da tecnologia”. ele insiste no potencial libertador da tecnologia industrial. Marcuse tem mais em comum com Fromm e Reich do que ele acredita: Apesar da sua tentativa de confrontar o profundo pessimismo da obra tardia de Freud. em muitos aspectos.

ele recusa toda consolação fácil. assim. a linguagem e a memória. Ele explica que essas ideias derivam de teorias ingênuas sobre o progresso histórico que o próprio Freud havia abandonado nos seus últimos trabalhos psicológicos. Brown. como Freud. o jogo e a arte são modos importantes para estabelecer uma relação não narcísica com o mundo: não se trata de negar a separação. retomar a conclusão. p.. na vida humana. n°12. é sempre necessária a elaboração de um conflito entre união e separação. ao mesmo tempo.. mas também. e do seu corolário segundo o qual a neurose teria como origem um conflito entre o prazer e a ética patriarcal do trabalho.] de isentar certas atividades privilegiadas do escrutínio psicanalítico [. Ele se desvencilha da noção segundo a qual o prazer sexual é o único objeto de repressão. A arte rejeita o caminho fácil das ilusões. para a esquerda freudiana. Brown reconhece melhor.]. Marcuse e Dinnerstein procuram salvar a arte e a criatividade lúdica da crítica psicanalítica às pretensões humanas... apenas de maneira mais radical.. finalmente. mas de reconhecê-la primeiro para oferecer uma compensação em seguida. tradução modificada. Marcuse e seus seguidores recaem na mesma estratégia [. mas também proporciona prazeres genuínos associados à exploração e ao domínio do 83 Ibidem. O papel da arte e do jogo é. Brown. portanto. 226.]. Marcuse. O que distingue a arte da psicose ou da neurose é que ela também reconhece a realidade da separação. da mesma forma que Hartmann busca salvar a percepção. entre Eros e a moral civil.. satisfaz as necessidades pulsionais. como para Marcuse e Brown. Ela sustenta que a sociabilidade não apenas frustra como. segundo Lasch.83 Ainda que o resultado final da obra de arte possa ser sereno. Não obstante o seu desprezo pela psicologia do eu. Enquanto Freud insistia no parentesco subjacente entre arte e neurose. são a arte e o jogo [. e do que há de pior. uma gratificação substitutiva e.sinaldemenos. vol. Para Lasch. é necessário. a incompatibilidade entre as pulsões infantis e toda cultura e. 1. patológica. Se nós não podemos seguir aqui os detalhes da análise laschiana de Brown.[-] www. de permitir ao homem suportar as renúncias que a cultura – toda cultura – lhe impõe: A psicanálise se recusa a dissolver a tensão entre instinto e cultura.org Ano 8. todavia. A arte se assemelha à psicose regressiva mais profunda em sua tentativa de restabelecer um sentimento de unidade com a mãe primal. 2016 58 neofreudianos. que ela encara como a fonte do que há de melhor. A arte não é somente. . que a cultura não somente assegura a sobrevivência das espécies humanas.

Daí porque Lasch não é reacionário: ele condena a sociedade de mercado (sem chamá-la assim) porque ela impõe respostas particularmente regressivas ao problema. tal como ela se manifesta já no recém-nascido. tradução modificada. A angústia da separação não é produto da cultura.org Ano 8. o supereu consiste dos próprios impulsos agressivos do indivíduo. inicialmente dirigidos contra seus pais ou substitutos dos pais. mas na raiva inconsciente da infância. quando muito. n°12.85 O supereu edipiano está também bastante ligado ao desejo de reparação. Lasch afirma que o supereu não é o representante do mundo exterior. formando assim o primeiro núcleo da consciência moral. 221-222. e um pouco menos passível. sua crítica da sociedade de consumo encontra. que desperta ansiedade insuportável e. Ibidem. p. tem que ser redirecionada contra o eu.] Seria possível dizer que a própria angústia da castração é meramente uma forma posterior da angústia da separação. mas o advogado do mundo interior. p. e pode constituir um objeto da crítica. mas está ancorado na própria estrutura da pulsão. 1. que ele deu um golpe decisivo contra o que ele nomeia também de “partido do ideal do Eu” – a esquerda de 1968 – com um argumento essencial: o papel do supereu. projetados neles. e que a cultura representa para o homem precisamente a vida “própria à sua espécie”. vol. [. Em resumo: para Lasch. Aqui. o conflito entre pulsões e civilização não está somente relacionado a circunstâncias históricas. tradução modificada. reinteriorizados como imagens agressivas e dominadoras da autoridade e finalmente redirigidos. portanto.. Sempre revindicando os últimos escritos de Freud. Ao contrário. a descoberta e a invenção recorrem elas próprias a impulsos lúdicos. nesta forma. que a exploração. finalmente. As imagens da autoridade parental destrutiva e punitiva originamse não nas proibições reais dos pais. mais “independente de suas origens emocionais”.84 Lasch acredita. que o arcaico e vingativo supereu deriva do medo da retaliação materna e que. mas com menos 84 85 Ibidem. como afirma Freud. aquela de Marcuse. mas as maneiras de enfrentá-la são. de associar-se com as fantasias inconscientes de perseguição. contra o eu. Ele não é somente o resultado da interiorização de uma repressão vinda do exterior (da sociedade através do pai).sinaldemenos. são as respostas – regressivas ou evolutivas – que as diferentes civilizações aportaram à angústia original. 2016 59 mundo natural.. 160-162. portanto. O que muda historicamente. à gratidão em relação à mãe. a experiência edipiana tempera o supereu punitivo da infância ao acrescentar-lhe um princípio mais impessoal de autoridade. mais inclinado a apelar a normas éticas universais. . desse modo.[-] www.

n°12. vol.). situava-se ainda na fronteira entre a época fordista-moderna e a época pós-moderna.[-] www. o Estado-providência com traços maternais).sinaldemenos. 1. Uma questão. Para a direita. e a esquerda. porém. Mas a posição de esquerda é necessariamente emancipadora? Ela não é muito compatível com os projetos tecnocientíficos de refazer o mundo. que se pode ver tão bem tanto no consumo excessivo quanto na crise ecológica? A plasticidade infinita do ser humano não continua a assombrar o imaginário contemporâneo “de esquerda”. e sobretudo. às descrições de Lasch. surpreendentemente.. então. ainda mais difícil de compreender. nomear e combater. essa natureza assinala os limites muito estritos da possibilidade de transformar a vida. já constituiu um dos temas mais atuais de Marcuse. a direita falava de “natureza”. na verdade. durante muito tempo. do Outro. de “cultura”. permanece mal elucidada em Lasch: quais são as causas históricas de uma mudança tão importante quanto a ascensão do narcisismo? Um retorno generalizado para as formas pré-edipianas constitui uma verdadeira mutação . Este. em particular no seu entusiasmo insensato [décervelé] com relação às técnicas de procriação assistida? Tecnofilia e narcisismo sempre fazem boa combinação. Essas duas posições persistem ainda hoje. de não depender de ninguém: de poder se passar por outros. É. fruto do complexo de Édipo? Seu declínio é necessariamente positivo. até mesmo do trabalho? Ou ele deu lugar a uma nova forma de fetichismo. com efeito. Ela parece mais apropriada à nossa época. porque ele reside plenamente no interior dos indivíduos e parece de acordo com seu desejo de “gozo”? Nós já dissemos que. caracterizada pela captação do desejo pela mercadoria (o que. quase tudo é fruto da sociedade e da educação e pode. designando às vezes como “narcísicos” fenômenos que nos parecem pertencer mais ao passado fordistamoderno (por exemplo. evidente que a situação contemporânea corresponde. entretanto. de “natureza humana”. Ele previu com muita acuidade fenômenos tais como a obsessão da “autonomia” e o desejo de não ter necessidade de ninguém.org Ano 8. Outras questões essenciais permanecem abertas: o que fazer do supereu. significa uma forma de liberdade individual maior. para a esquerda. o fim do patriarcado.. 2016 60 ilusões. com o desprezo de todo limite. ser alterado.

cit. sem se perceber. no seu prefácio à edição croata de A cultura do narcisismo. ele também.sinaldemenos. a castração é mais característica da realidade social do que a concorrência” AD R . Mas. à sua maneira. ele é bem menos original do que alhures). na mesma época. 16/17. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. 86 . vimos que foi a cultura neoliberal. Volume IV. Com efeito. heodor.86 Aqui. ele podia ter. ele tinha elaborado com Horkheimer. o nível do discurso. que “deixava cicatrizes dolorosas” e uma “esfera de não-conformismo privado”. Narcisticka Kultura. nesse nível.. por escritores como offler” “‘Pathological arcissus’ as a Socially Mandatory Form of Sub ectivity”. Marcuse explica. falar de “concorrência” é um eufemismo diante da violência onipresente. o ponto fraco de Lasch encontra-se no fato de que ele não fornece uma definição teórica suficiente dessa transformação na realidade socioeconômica do capitalismo tardio que corresponde à transição do ‘homem organizacional’ para o ‘ arciso patol gico’. n°12. o triunfo do neoliberalismo demonstrou o contrário – e. Slavoj Žižek também percebeu. vol. La roue à hamster. Publicado inicialmente na edição croata de A cultura do narcisismo. e não o fordismo-keynesianismo por meio de seus últimos avatares. Antes. Adorno dirige esta censura surpreendente à Karen Horney: ela colocaria muito acento na concorrência. 87 Ver HOMS. suas explicações permanecem mais superficiais: ele evoca sobretudo o declínio da pequena empresa em favor das grandes corporações. p. sobretudo. 1968). op. “ a época dos campos de concentração. Caen: Le ord de l’eau no prelo). Zagreb: Naprijed. Revue Illusio. o conceito de “rackets”. n. Segundo Adorno. Como quase a totalidade dos observadores de seu tempo (neste campo. Esquisse pour une histoire de la dynamique et de la trajctoire du capital au XXe siècle.org Ano 8. foi descrita em termos de teoria da ‘ erceira onda’. que elevou o narcisismo à posição de forma mentis universal. 1. os quais teriam substituído a esfera da circulação – um dos lados mais fracos de seu percurso teórico.[-] www.88 Com efeito. 58). Theorie critique de la crise. sobre a psicanálise revisada. 88 Na conferência de 1946. sobretudo na resolução do complexo de Édipo. Nesta identificação da lógica profunda do capitalismo com a supressão da concorrência (e dos espaços de liberdade que estariam ligados a ela) e com uma burocracia onipresente.87 Poucos anos depois. a desintegração da família tradicional e a burocratização da existência. essa transformação não é difícil de determinar: trata-se da transformação da sociedade burocrática dos anos 1940 e 1950 em uma sociedade descrita como ‘permissiva’. publicada em 1986: “Além da característica intrinsecamente incompleta de seu aparato conceitual analítico. Ela comporta um processo ‘p sindustrial’ que. o reino dos “monopólios” e o “declínio do papel social da família”. Lasch reencontra-se. as mudanças psíquicas e “a abolição tecnológica do indivíduo” pelo fim da empresa individual. ele considera a substituição da concorrência pela gestão dos monopólios (estatal e das grandes corporações) como o resultado definitivo da parábola do capitalismo. em acordo com Marcuse e toda a Escola de Frankfurt. Clément. 2016 61 antropológica e deve ter causas muito importantes. uma verdadeira experiência pessoal.

o fato de ir somente do mesmo para o mesmo.. 1. sem fronteira entre o eu e o não-eu? O discurso sobre a mercadoria não está ausente em Lasch. de tal sorte que tudo é igual a tudo.] agora.sinaldemenos. até o desejo de poder escolher seu próprio corpo: parece impossível estudar hoje esses fenômenos sem levar em conta a lógica do valor e a lógica do narcisismo. a manipulação genética e a procriação assistida. quando a criança era completamente 89 90 Eros e civilização. 2016 62 [. cit. Ibidem.. . mas também a demolição das fronteiras entre gerações e sexos. n°12. mas ele permanece distante de todo discurso formulado nos termos da crítica da economia política: A completa dependência do consumidor diante desses intricados e extremamente sofisticados sistemas de amparo à vida e.[-] www.. controle das funções fisiológicas. Ele compreende bem os efeitos psicológicos – de desrealização – do consumo de mercadorias. controle do afeto – a cultura do consumo de massa no século XX recria os padrões orais enraizados em um estágio de desenvolvimento ainda mais anterior do desenvolvimento emocional. de modo mais geral. o narcisismo é essencialmente uma desvalorização do mundo exterior e uma incapacidade de reconhecê-lo na sua autonomia. sem encontrar a alteridade.90 Outra maneira de perceber a relação entre narcisismo e sociedade capitalista moderna aparece quando se concebe esta última como sociedade da valorização do valor das mercadorias. op. a formação do supereu adulto parece saltar a etapa da individualização: a unidade genérica torna-se diretamente uma unidade social.org Ano 8. 97.89 A quase abolição da concorrência – que Marcuse considera como uma evidência – diminui a individualidade. vol. p. este valor é a representação fetichista do lado abstrato do trabalho. diante dos bens e serviços fornecidos externamente. Até os videogames: o que são eles senão um mundo sem corpo e sem limites. Se a cultura burguesa do século XIX reforçava os padrões anais de comportamento – acumulação de dinheiro e suprimentos. Todos os valores mercantis são iguais. sob o reino dos monopólios culturais. O que o valor de mercado (e a sociedade na qual ele se torna o princípio de síntese social) tem em comum com o narcisismo é a ausência de qualquer conteúdo – o vazio constitutivo. tradução modificada. p. econômicos e políticos. eles são apenas diferentes quantidades da mesma substância fantasmagórica – o trabalho abstrato. recria alguns dos sentimentos infantis de desamparo. O papel do ilimitado e do tautológico. Com efeito. 101.

O debate entre Fromm. Christopher. vol. porque a produção de mercadorias. Compreendê-lo é uma tarefa essencial para poder combater os males do presente. modestos. Desde algumas décadas. em parte. O mínimo eu. o consumidor enfrenta o mundo como um reflexo de seus anseios e temores. representam a única maneira possível de estabelecer uma relação amigável com o mundo e de reduzir o peso da “condição humana”. o núcleo de sua crítica da sociedade de consumo: a produção e o consumo de mercadorias estandardizadas. por sua própria natureza. tradução modificada. ele veio à plena luz. mas eficazes.[-] www. 25. ele estabelece aqui um argumento muito forte: o capitalismo operou uma verdadeira regressão antropológica.92 Aqui se encontra. com efeito. a partir do jogo –. com os quais a humanidade tentava desde muito tempo dominar os constrangimentos da vida. situando-as seja no século XIX seja nos anos 1960. 25. Contudo. p. que. também. Ele destruiu os meios. cit. o trabalho abstrato e o dinheiro. mesmo esta acusação eloquente permanece insuficiente no plano teórico: não se pode explicar tal revolução opondo as “derivas” do capitalismo liberal às origens que se pretendem “saudáveis”. Marcuse e Lasch sobre a melhor maneira de entender Freud pode parecer uma discussão de especialistas que. op. p. e por mais discutíveis que permaneçam as referências positivas (trabalho. é o contrário dos “objetos transicionais” – os produtos de um trabalho “sensato”. 91 92 LASCH. . 2016 63 dependente do seio.org Ano 8. O capitalismo os caçou com o único objetivo de vender mercadorias.91 Nem a realidade nem seu eu apresentam-se como sólidos e duráveis. substitui o mundo dos objetos duráveis por produtos descartáveis destinados à imediata obsolescência. subtraídas de todo controle por parte dos indivíduos. de Richard Sennett. É notável que este livro tenha sido escrito entre 15 e 20 anos antes de The Corrosion of Character. O núcleo do narcisismo social começou a se formar ao mesmo tempo em que o valor. e de Liquid Modernity. 1. além do mais. comunidade. família e até mesmo religião). Ibidem. Em parte porque a propaganda que envolve as mercadorias apresenta-as tão sedutoramente como a satisfação dos desejos.sinaldemenos. para Lasch. n°12. Por mais imprecisa que permaneça a concepção que Lasch tem do capitalismo. há meio milênio. de Zygmunt Bauman. alternadamente gratificante e frustrante. O consumidor experimenta seu entorno como um tipo de extensão do seio.

p. Narcisse ou Orphée? Remarques sur Freud. vol. Caen: Le ord de l’eau. 393-425. n.[-] www.sinaldemenos. n°12. ao contrário. Capitalisme. Nós esperamos ter demonstrado que ele toca. anvier 2016. . Volume III. Marcuse et Lasch. Anselm. corps et reification. 14/15. Theorie critique de la crise. O tradutor agradece as contribuições de Carla Castagnet Vial e Clara Moreira Martins da Costa para a revisão do texto]. Tradução: Pedro Henrique de Mendonça Resende. [Original: JAPPE. em pontos essenciais. 1.org Ano 8. Revue Illusio. Fromm. 2016 64 pertenceriam ao passado.

dez. .65 [-] www. como foi imaginado de Baudelaire a Proust e além. o qual pode ser acessado de quase qualquer lugar. mas também ao edifício-museu como espetáculo – isto é. 2009. Uma pessoa que deseja contemplar a Mona Lisa em detalhe pode fazê-lo muito melhor.org Ano 8.2 Estas existem sob a forma de arquivos eletrônicos e são consultáveis de qualquer lugar. Rio de Janeiro: UFRJ. na experiência estética espetacular que ele transmite. p. 190]. 19. enquanto a experiência visual é delegada não somente à forma-exposição. Arquivos da arte moderna. a serviço do valor da marca e do capital cultural. Essa imagem pode ser a forma primária da arte pública ho e”. In: Arte & ensaio: revista do programa de pósgraduação em artes visuais EBA. como uma imagem a ser veiculada na mídia. 1. através da sua arquitetura. o historiador e teórico da arte Hal Foster observava no seu livro Design & Crime que o museu não serve hoje. p. mais precisamente. no seu computador. era o local para a reanimação mnemônica da arte visual. Entre muitos outros efeitos existe este: se o velho museu.sinaldemenos. “Design e exposição a serviço dos valores de exibição e de troca estão no primeiro plano. na época da reprodutibilidade digital. 81-82 [Outra tradução deste trecho encontra-se em FOSTER. vol. em geral gratuitamente. Hal. FOSTER. 2003. New York: Verso. n. na sua própria casa. o novo museu tende a separar o mnemônico do visual. O significado do museu encontra-se principalmente. à contemplação das obras. quando ele se encontra em uma sociedade fundada no consumo frenético e nas relações virtuais que estabelecem os indivíduos? ** Há dez anos. n°12. Cada vez mais a função mnemônica do museu é delegada ao arquivo eletrônico. Hal. London. Em qual medida o museu pode ainda ser um lugar onde é possível realizar uma experiência autenticamente artística. Design and Crime: and Other Diatribes. 2016 DA “AURA” DOS ANTIGOS MUSEUS E DA “EXPERIÊNCIA” DOS NOVOS 1 Anselm Jappe Trata-se aqui de analisar a transformação da função dos museus na sociedade capitalista contemporânea. segundo Foster. como nunca antes: hoje o que o museu exibe acima de tudo é seu próprio valor-espetáculo – que é o principal ponto de atração e maior objeto de reverência. arquitetura para a qual o Museu Guggenheim de Bilbao permanece paradigmático. 1 2 [As notas de tradução estão entre colchetes]. senão de maneira secundária. do que no meio de centenas de visitantes que se acotovelam e fotografam.

quando o Louvre vende. A lógica de mercado só se interrompe em uma única ocasião: para as peças arqueológicas e para as obras de arte. inconsequentes. o nome do arquiteto que assina a construção é mais importante do que a própria construção. Elas deploram. Mais raros são os casos em que essas críticas são formuladas a partir do ponto de vista de uma análise coerente do capitalismo. O novo museu da Acrópole suscitou polêmicas semelhantes àquelas concernentes a todas as construções de museus contemporâneos e outros prédios “culturais”. de obter a maior visibilidade possível.[-] www. mercadorias. de destruição das velhas estruturas. a indiferença diante de todo conteúdo. sem nenhum problema. eu as considero. geralmente. 1. quando se trata. Isso nunca foi dito de nenhum museu tradicional. assim como uma ordinária bolsa Vuitton. de estética de supermercado. na maior parte do tempo. E essas “exceções culturais”. seu nome aos xeiques do petróleo de Abu Dhabi. É. para dizer a verdade. Esses adversários reclamam somente uma “exceção cultural”: os sapatos e os carros. As linhas de frente são mais ou menos sempre as mesmas. sem cessar reivindicadas. quando é necessário que a forma apareça como mais importante do que o fundo e quando. de puro design. que uma pintura de Ticiano ou um friso do Parthenon devem ser fundamentalmente de natureza diferente daquela de uma garrafa de Coca-cola ou uma camisa Armani. no interior da sociedade de mercado. A lógica de mercado significa a intercambialidade total. com todo o direito. Os adversários de tais museus falam de arquiteturas ultramodernas sem ligação com o contexto. ao contrário.sinaldemenos. a integração da cultura na sociedade de mercado. é . difícil demonstrar. as habitações e a força de trabalho normal devem ser. mas parece-me notável que o antigo museu da Acrópole se esconda modestamente em uma cavidade do solo. vol. com efeito. n°12. 2016 66 Acusa-se esse museu de “distrair” a atenção dos espectadores em relação às obras. a redução de cada objeto a uma simples soma de dinheiro.org Ano 8. ainda que seja da essência (quase jamais discutida) da lógica de mercado tudo engolir. uma concepção hoje em dia inimaginável. de espetacularização. em que cada coisa não pode obter seu direito à existência senão com a sua única capacidade de poder se vender e atrair clientes. não parecem ser incompatíveis com as formas mais extremas da lógica de mercado. exatamente como se tratasse de uma “extensão da marca” de um perfume Gaultier. Parece-me que essas críticas são geralmente justificadas. Eu não me pronunciarei aqui sobre o museu da Acrópole e sobre sua história. Para poder demonstrar isso. por exemplo.

vol. O resultado final dessa visita abundantemente documentada por fotos é. Muitos professores de universidades e de escolas de arte confirmam que os estudantes de arte. colocar em questão a lógica de mercado na sua totalidade. 1. a autenticidade e a unicidade fazem parte de nossos dias nos artigos de marca mais desejados. reservada pela internet. A intercambialidade total da mercadoria leva-nos à perda da aura (e não somente da aura da obra de arte). Isso explica por que. nós podemos verdadeiramente duvidar. Depois das compras da manhã e antes da discoteca da noite. e por que os museus são hoje mais frequentados do que nunca. por exemplo. em todos os níveis. poder vangloriar-se pelo Facebook. de certa maneira. eu me limitarei aqui a algumas considerações concretas. Quanto a saber se o número. em muito forte crescimento. Esse fenômeno é considerado como o triunfo da democracia. razão: os museus estão a serviço do divertimento. Uma vez que isso nos levaria demasiado longe. então. de literatura e de história das ideias têm lacunas incríveis. Segundo as estatísticas. o número de leitores de livros declina de maneira contínua. em verdade. como a superação do elitismo. Elas têm. como contribuição a um mundo globalizado e à cultura para todos. É por essa razão que ela nos é lembrada de maneira constante. como nós sabemos desde Benjamin. no caminho de retorno da visita. A aura. 2016 67 preciso. E ao culto à internet acrescenta-se em geral uma desvalorização agressiva da cultura clássica. n°12. malgrado a disponibilidade permanente do arquivo eletrônico. encontra-se a visita ao museu mais célebre da cidade. todo mundo quer ver precisamente a “autêntica” Mona Lisa. tornada possível pela Ryanair. à perda da autenticidade e da unicidade. Mas a necessidade da aura está de modo manifesto profundamente enraizada. Em que consiste uma visita ao museu de nossos dias? Ela se produz de maneira típica no curso de uma viagem. É por isso que estes não . de fim de semana. de visitantes de museus é acompanhado de uma extensão real de interesse pela cultura e pelos conhecimentos. uma grande parte das massas que visitam os museus leram mais mangá do que Gombrich. Nós podemos até mesmo supor que.org Ano 8.[-] www. ou reatualizaram sua página no Facebook.sinaldemenos. Eis aqui um verdadeiro paradoxo: a comercialização extrema da cultura alimenta-se justamente da ressacralização e de uma nova atribuição da aura. para finalmente encontrar sua satisfação nas mercadorias que prometem autenticidade.

1. didáticos. foi levado imediatamente ao Louvre por seu amigo que o abrigava. vol. Eu suponho que vou ser considerado. poesias) em demotiki (língua grega popular que se tornou a língua oficial em 1976). Qual é o papel dos museus no capitalismo? Desde a fundação das coleções públicas no fim do século XVIII até os anos 70 do século XX. Lá Istrati se “contaminara” de um culto à beleza. surpreendente para alguém como eu. portanto. uma vez que seu público típico era uma elite cultural que já dispunha dos conhecimentos preliminares. Mas eu não sou o único a se encontrar nessa situação aparentemente paradoxal. quando se tornaram muito mais caros. acompanhado do escritor grego Nikos Kazantzakis [N. Ou ainda tratava-se de visitantes muito motivados. não tendo outro diploma senão o certificado de estudos. esses museus quase não eram. um sapateiro romeno. Eles eram de todo modo menos frequentados do que hoje. próximo de Victor Serge e de Boris Souvarine. após sua viagem a este país. como um reacionário antidemocrático e um defensor nostálgico de uma cultura de elite empoeirada: o que é. entretanto. seja do estrangeiro [étranger]. 2016 68 estão somente em concorrência com outros museus. quando esteve pela primeira vez em Paris. de modo algum.org Ano 8. De outra parte. ninguém da sua base econômica. em 1913. e são.T. consumidos sob essa forma. 3 . então. como trabalhador sazonal errante. 5 Nikos Kazantzakis (1883-1957) é um dos principais escritores gregos do século XX. O escritor romeno-francófono Panaït Istrati 4 (que será mais tarde amigo de Nikos Kazantzakis5) conta que. ensaios. que é conhecido por ser um teórico da crítica radical do capitalismo. Os museus eram geralmente gratuitos nesta época. bem como a tradução da Ilíada e da Odisseia em grego moderno [N. sobre este ponto. eles escolhiam a excelência (ou assim afirmavam). 4 Panaït Istrati (1884-1935). e a considerar a pretensa democratização da cultura como um pretexto à sua simples integração à “Indústria cultural como mistificação das massas” (Adorno e Horkheimer)3. Destacado por sua aptidão para manejar diferentes estilos literários (romances. esse importante romancista romeno foi um dos primeiros escritores comunistas a fazer uma crítica do poder burocrático da URSS. mas também com outras atividades de lazer. Esses museus tinham por consequência uma função “elitista”: de uma parte. peças de teatro.[-] www. para o francês]. devem-se a ele notadamente os romances Alexis Zorba e La dernière tentation [A última tentação].sinaldemenos. ou ainda a considerar essa democratização como uma estratégia artística que visa privar a cultura de qualquer efeito tendencialmente subversivo. para o francês]. não excluindo.T. para o francês]. que durou toda sua vida.T. sua função permanece essencialmente a mesma: expor o extraordinário proveniente seja do passado. n°12. Dirigiam-se a eles Referência ao quarto capítulo do principal livro de Adorno e Horkheimer: A dialética do esclarecimento [N.

somente bom para a admiração obrigatória. a arte moderna. por si mesmos. e demandava.fr/ark:/12148/bpt6k2883730. 6 Esses museus clássicos foram odiados pela vanguarda artística. mais à maior parte dentre eles. isso podia se passar como no poema “O torso arcaico de Apolo”.[-] www. assim como o conjunto da cultura crítica e contestatória dos anos 1968. Força é mudares de vida”]. “velho”.7 Guillaume Apollinaire queria colocar fogo no Louvre.largFR>. Mas isso permitia sentir com maior intensidade o efeito de choque que certas obras podiam transmitir. Os futuristas italianos comparavam os museus aos cemitérios. Disponível em: <www. Mas não admitimos passear cotidianamente pelos museus nossas tristezas. 2016 69 somente as pessoas interessadas (do mesmo modo que nos nossos dias um concerto de Schönberg ou de Xenákis não enche um estádio de futebol. se envenenar? Pretende.. vol.. Rio de Janeiro: José lympio. Nós podemos muito bem admitir!. O museu não-didático liberava em grande parte os visitantes. “entediante”. 6 . Pretende. [ a tradução do alemão para o português. sem vitalidade interna. bem como permaneceu com suspeitas vis-à-vis o conjunto da “herança” e dos “cânones” culturais. “não sexy”. Faz-se uma visita uma vez por ano assim como se vai ver seus mortos uma vez por ano!.. então. A expressão “mûr pour le musée” [pronto para o museu] quer precisamente dizer: fora de uso. até mesmo. O museu era sinônimo de “empoeirado”. Verdadeiramente idênticos no seu sinistro acotovelamento de corpos que não se conhecem. Ser aceito em um museu (ou. 1. chamavam à abolição dos museus e à distribuição de suas obras-primas nos diferentes bares sórdidos que eles frequentavam. “fatigante”. permaneceu com suspeitas profundas visà-vis o museu. n°12. apodrecer?” MAR E . 7 “Museus. no fim das contas. de Rainer Maria Rilke. nossas frágeis coragens e nossa inquietude!. Os jovens letristas. “inanimado”.. pois ali ponto não há que não te mire.. de Kandinsky ou de outro inovador da arte foi exposta nos grandes museus franceses antes da Segunda Guerra Mundial. talvez.sinaldemenos. Estrela da vida inteira.. mesmo se for gratuito). Nos casos mais favoráveis. ninguém (à exceção dos situacionistas) recusou efetivamente entrar para os museus. A aversão era recíproca: nenhuma obra de Picasso. “Poemas traduzidos”. E mesmo se. quer dizer. Ferocidade recíproca dos pintores e escultores se matando a golpes de linhas e cores no mesmo museu. ter muito rapidamente uma obra exposta nele) era considerado pelos dadaístas e pelos surrealistas como uma vergonha. n: Le Figaro. Manuel. Filippo ommaso. entre eles Guy Debord. cemitérios!. no qual ele disse: “não existe ali nenhum lugar / que não te vê / Você deve mudar sua vida”. então. de tudo isso que a sociedade de consumo capitalista não queria mais. 1966: “Seus limites não transporia desmedida como uma estrela. Dormitórios públicos onde se dorme para sempre lado a lado com seres odiosos ou desconhecidos. Manifeste du futurisme. 20 de fevereiro de 1909.gallica. em A DE RA.org Ano 8..bnf.. “arcaico”.

“tradicionalista” no nível dos valores oficiais. com efeito. E é assim que.org Ano 8. e que está muito problemático para uma universidade. essa cultura contestatória contribuiu no fim das contas para a modernização do capitalismo e para liberar os remanescentes (tornados doravante disfuncionais) de seu compromisso com as formas sociais passadas. Durante bastante tempo. vol. ele aparecia como “conservador”. 1. “passadista”. o museu se torna parte respeitável de nosso mundo. em sua essência. A maior parte dos teóricos críticos do capitalismo confundiu igualmente essência e aparência. cujo deperecimento não poderia se fazer senão lentamente. de pessoas extremamente cultas. e desde seu começo. de um templo para happy few. e da cultura da qual eles saíram. valores culturais incluídos. O museu clássico expressava. Ao menos o museu pode em potencial! E quando. dos números de negócios. Nos nossos dias essa situação foi invertida. essas tendências eram as sobrevivências de seu passado feudal e religioso. depois. É por essa razão que eles pensavam que o “Progresso” era forçosamente antiburguês. Aqui. no crescimento do design. Enquanto o capitalismo se desenvolvia muito rapidamente no nível da produção. A vanguarda artística inicialmente. Eles consideravam o capitalismo como essencialmente “conservador”. temos hoje 80% de pessoas que já foram ao . como em muitos outros domínios. Quase todos os objetos expostos provinham dos homens brancos ocidentais. da persistência sobre a mudança. e o único credo do capitalismo é a “novidade”.70 [-] www. o espírito mundial dos anos 1968 na sua versão de massa. um sistema dinâmico que revoluciona constantemente todos os aspectos da sociedade. chair de sa chair [carne da sua carne]. na realidade. O capitalismo é. ou para um filme de qualidade poder se autofinanciar [?]. no lugar de 1% da população. da cultura de elite sobre a “cultura de massa”. do antigo sobre o novo. da indústria do turismo e do “efeito Guggenheim” para a economia de toda uma cidade ou de uma região. sobre uma base bem mais larga. o que não é. do esforço na produção sobre o gozo no consumo. o caso. E quem reclamará nesta hora que a cultura está por todo lado ameaçada de cortes de orçamento. essa dinâmica se acompanhava de um forte conservadorismo no nível da “superestrutura”. contribuiu com um prazer maligno para o descrédito desses museus. do espetáculo. entretanto.sinaldemenos. “reacionário”. 2016 Uma profunda mudança efetivamente ocorreu. do sério sobre o frívolo. n°12. uma ópera. a dominação (característica das estruturas da sociedade burguesa daquela época) do passado sobre o presente e o futuro. em absoluto. e eles expressavam sua visão do mundo.

. nos quais a vida de nossos avós campesinos. Veem-se menos visitantes. que nós pudemos ainda conhecer durante nossa infância. Acrescenta-se a isso a considerável extensão do conceito de museu. mas a fiação ameaçada de demolição foi salva: hoje ela é um museu. talvez para assegurar que toda ela está definitivamente morta e desaparecida. o melhor dos mundos possíveis). vol. como reclamavam os fundadores da arte moderna. uma fiação que alguns dos meus amigos tinham há mais de 10 anos tentado recolocar em atividade com sua maquinaria muito complexa do início do século XX. Com o desaparecimento dos antigos museus. mesmo se essa união é provavelmente muito diferente daquela que eles tinham imaginado. suprimiu-se uma das experiências que poderiam nos colocar em relação com alguma coisa de “totalmente outra”. na França. como aqueles que ainda cantam louvores do livro impresso na época do Google.. Pode-se ter a impressão de que a integração ao universo do museu é acompanhada de uma luta sem misericórdia contra as antigas formas de vida que não foram ainda inteiramente submetidas à lógica de mercado. encontram-se ainda pequenos museus nas cidades do interior ou outros que são menos próximos dos temas espetaculares. Eu visitei recentemente. cuja lógica se diferenciava da lógica do mundo que nos cerca. A chamada incessante à “comemoração histórica” não serve nos nossos dias senão para novas formas de ruptura com o passado..org Ano 8. Uma contribuição à disneylandização do mundo. A vida e a arte estão finalmente reunidas. essa máquina não funcionará nunca mais. encontra-se exposta. Nós estamos sós com a obra e nós podemos tentar entrar em um “diálogo infinito” com seus autores.. por consequência. n°12. esse mundo que não cessa de nos sugerir que nada pode ser exterior a ele e que ele é só. nenhuma didática invasiva com as projeções de vídeo. e que nos fazem ver outra coisa.sinaldemenos. 1. e então. de áudios-guia e uma centena de outras maneiras de dizer ao visitante isso que ele deve admirar. é o único mundo (e. Felizmente. é preciso verdadeiramente ser um defensor desses privilegiados arcaicos e de seus preconceitos esnobes de mediadores culturais para formular qualquer objeção. Essa tentativa fracassou. Tudo isso que é sistematicamente suprimido pelo progresso volta sob a forma de eco-museu ou de museu das artes e tradições populares. 2016 71 menos uma vez na sua vida a uma exposição.[-] www. Mas eles nos oferecem um repouso momentâneo no seio do tumulto que nos . Esses museus não parecem uma mistura de sala de informática e de estação de metrô em horas de pico.

quer dizer. favorecemos uma imaginação individual que não é nem normatizada. um evento. 1. empoeirado) gabinete de curiosidades como uma grande experiência estética. n. Esses velhos museus estão para os novos museus tal como os jogos e as bonecas rígidas de nossos avós estão para o Playstation e as bonecas hiper-realistas de hoje. faltaria provavelmente a sensibilidade necessária para tal experiência estética. mas nós a construímos nós mesmos. Entretanto. Mas a uma pessoa que não seja capaz de se lembrar de sua visita a esse colossal (e. como aquela das butiques da Nike onde a compra é apresentada como uma experiência.org Ano 8. esses museus às vezes realmente oferecem o que os tão louvados grandes museus pós-modernos prometem. e é por isso que talvez nós sintamos uma vaga solidariedade para com eles. De l’”aura” des anciens musées et de l’”expérience” des nouveaux. Nós temos. Revue Gruppen. Mais próximos dos velhos jogos. 5. então. como a capacidade de reação e a prática de multitarefas.[-] www. a saber: uma experiência estética completa. essa atmosfera não é planificada. Traduzido do inglês por Pierre-Ulysse Barranque. nem filtrada. com alguma coisa que nos ultrapassa e que nos coloca em desafio? [ riginal: JAPPE. Esses jogos contemporâneos contribuem segundo seus promotores para o desenvolvimento das crianças e para a formação de aptidões que lhes serão uteis na vida ativa. propriamente falando. Determinadas pessoas diriam que isso faz parte do que há de melhor na humanidade. como as que eu expus aqui a propósito dos museus. uma emoção que não resulta somente das obras individuais. . nós visitantes. Por terem uma “atmosfera” exterior ao tempo cotidiano e contarem com a presença viva do que é passado ou estrangeiro [étranger]. Anselm. vol. 2016 72 envolve sempre e por todos os lados. Eu não sei o que os visitantes do Museu de História Natural do Jardim de Plantas de Paris aprenderam quanto à zoologia. antes da reestruturação deste prédio há 15 anos. Mas para o que tal imaginação é útil nos nossos dias. quando o Google pretende pensar e imaginar no nosso lugar? E o que pesa de tais considerações nostálgicas. n°12. a sensação de que os outros visitantes têm uma razão bem determinada para se encontrarem ali onde eles estão.sinaldemenos. assim como dos livros vis-à-vis aos filmes. cada um por si. os quais têm a chance histórica de se colocar em harmonia com sua época e de conquistar seu espaço no lugar de nos confrontar.

2016 73 Paris. em um Colóquio sobre o novo museu da Acrópole.[-] www.org Ano 8. vol. O tradutor agradece as contribuições de Carla Castagnet Vial e Clara Moreira Martins da Costa para a revisão do texto]. n°12. 18-25. 1.sinaldemenos. Traduzido para o português por Pedro Henrique de Mendonça Resende. p. Este artigo é a revisão de uma conferência proferida em maio de 2011 na Universidade de Salonique. . 2012.

Tendo a concordar.74 [-] www. filosófica. que perpassaria a obra inteira) e a interpretação “ética” (que insiste num suposto final feliz na vida doméstica do casal Bloom) 1. uma análise mais demorada e cerrada do texto. estético-formal) costuma trazer prejuízo à leitura. a explanação psicanalítica (que foca quase que exclusivamente na relação simbólica entre pai e filho. aliás. Ápice do Modernismo e ponto de inflexão na literatura moderna. intertextual. em Adorno e Horkheimer. com efeito. 2016 FORMA. não raro deixa a desejar. pp. das leituras consagradas do Ulysses. costumam ser de três ordens. London/New York: Verso.sinaldemenos. PASTICHE Considerações sobre o Ulysses de Joyce Raphael F. e que há muito se tornaram lugar-comum literário. .org Ano 8. da organização formalnarrativa da obra literária – sem para tanto recair no formalismo. vale dizer. Alvarenga Enquanto outros formalizam a relação significante-significado. ESTILO. perdia um pouco em determinação ao abarcar período um tanto 1 Cf. 137-51. conquanto a insistência na dimensão histórica ou social por si só tampouco é garantia de leitura mais viva e arguta. vol. Henri Lefebvre Já foi observado que. progresso e retrocesso – que na formulação original. quais sejam: a comparação intertextual “mítica” (que subsume todo o entrecho ao paralelo com a Odisseia). 1. no fetichismo linguístico e literário –. n°12.] a dialetiza. em The Modernist Papers.. mesmo nas melhores interpretações históricas e sociológicas. este escritor [. por razões que trataremos de precisar. 2007. as mais entediantes. houve quem identificasse no movimento geral do Ulysses a “dialética da Ilustração” – a interversão histórico-social de razão e mito.. “Ulysses in History” [1980]. a exclusão de outras dimensões (psicanalítica. Fredric Jameson. Em muitos estudos do tipo.

sem falar na Revolução de Outubro. Gesammelte Schriften. Uma conversa e quatro entrevistas sobre Filosofia e vida nacional. de Homero a Hitler.: Suhrkamp. são de fato alguns dos principais significados estabelecidos no curso do romance: em tal contexto e dali em diante. e que. trad. dinheiro). e certa firmeza do eu. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Negative Dialektik [1966]. da crítica visando à superação histórica das formas burguesas moribundas. mercadoria. Eis a citação completa: “ enhuma hist ria universal conduz do selvagem à humanidade civilizada. Escrito entre 1914 e 1921.” Cf. da Música Nova de Schönberg e Stravínski. “da funda à bomba atômica”2. A ligação entre o romance de Joyce e o contexto da crise da ordem burguesa internacional – precipitada como se sabe pelo ocaso do capitalismo liberal e a ascensão e consolidação de um capitalismo predominantemente corporativo. o esgotamento da formação cultural burguesa e a história provada como estagnação e inércia. em termos sociais e históricos. do dadaísmo. O fio da meada. 1996. ganharia sem dúvida em rigor e precisão histórica se escandida através de uma periodização da expansão do capitalismo propriamente dito3. vol. Masson. e O. a formação crítica. passando sem mais por cima da mediação literária propriamente dita. como sugeriu certa vez de passagem Paulo Arantes. condições do pensar e do agir autônomos. os horrores da Guerra de 14-18 – é igualmente o da perspectiva superadora. do cubismo. mas há muito provavelmente uma que conduza da funda à bomba atômica. implicaria desvalorizar demasiado rapidamente particularidades nada desprezíveis em favor de 2 3 Theodor W. seria o caso de acrescentar que o contexto da composição do Ulysses – além do colapso da civilização burguesa e seu ideário. n°12. p. 48. 1978. Coffin. 314. 6. . Dito isso. o que. ao contrário do período precedente. a questão para nós não é deduzir o conteúdo do livro. imediatamente do declínio da burguesia e sua cultura. G. Renaut e D. vale dizer. Frankfurt/ M. vol. Arantes.[-] www. o inferno do qual haveria que despertar. p. Paulo E. a degradação crescente da vida cotidiana pelo capital. Adorno. aparecem e são vividos cada vez mais como empecilhos à sobrevivência assalariada e à reprodução do todo. contemporâneo pois do expressionismo. 387. de monopólios e oligopólios – foi desentranhada e destrinchada pela melhor crítica.org Ano 8. Paris: Payot. 2016 75 elástico e inespecífico. e será aqui nosso ponto de partida. J. ou os avanços e inovações técnico-literárias e vocabulares. 1. isto é. boa parte em Zurique e em Paris. A experiência da alienação moderna da vida social cotidiana (trabalho.sinaldemenos. para começo de conversa. Trousson: Dialectique négative. 2003. A. p. em que correspondiam a certa aparência necessária à manutenção da ordem social estabelecida.

[-] www. “mas de explicitar a capacidade dele de formalizar. Comecemos pois com a questão. 4 . p. o problema da unidade. poder-se-ia dizer que Joyce fez com o sistema literário dominante mais ou menos o que Schönberg fizera com o sistema tonal: pôs por terra a hierarquia de estilos de modo análogo com que a música atonal e em seguida a dodecafônica derribaram a multissecular hierarquização dos tons.org Ano 8. 5 Roberto Schwarz. do contexto social e das relações vigentes na Irlanda do início do século XX. Philosophie der neuen Musik [1949]. dificilmente iria além da reprodução superficial do imaginário dominante. 2006. das Letras.: Ullstein. São Paulo: Cia. a qual vem compactada e potenciada no interior da obra de qualidade 5. Frankfurt/M. mas de maneira alguma simplesmente arbitrária. trad.” 4 Fosse o livro simples espelho fiel. “A carroça. p. do olhar sempre já condicionado pelo modo com que a vida é organizada. 23. Como coloca Adorno. Por tudo isso. mesmo que a intenção fosse sediciosa. ou melhor. a um tempo críticas do existente e prenúncio de um arranjo Theodor W. 23. 1958. n°12. em Que horas são?. Em resumo: “Não se trata de reduzir o trabalho artístico à origem social” – erro em que incorrem diversas sociologias da arte –. A varredura da tradição artística precedente era como se sabe condição para o experimentalismo. importa aqui perscrutar e reconstruir até onde der que sentido a alienação e sua superação possível adquirem no movimento geral do romance. não é assim tão evidente. digamos. e não fermento para a sua transformação.sinaldemenos. a pesquisa e a descoberta de novas formas e novas linguagens. 2016 76 uma unidade social pressuposta. 2002. vol. explorar e levar ao limite revelador as virtualidades de uma condição histórico-prática”. 29. Minneapolis/London: University of Minnesota. R. de forma lapidar: “A arte se torna por aí mero exponente da sociedade. Veremos então de que modo e até que ponto a configuração extraliterária acima evocada tem força estruturante na urdidura mesma do Ulysses. Hullot-Kentor: Philosophy of New Music. o bonde e o poeta modernista” [1983]. Adorno. retratasse à maneira de um documentário “a vida como ela é”. para além da famigerada e quão comentada intertextualidade homérica. não seria senão confirmação ideológica da razão e do direito do existente. 1. Sem forçar muito. o que demanda situar a produção artística na história. p. amarrando e dando sustentação a um enredo cuja unidade.

o teatro épico que Brecht viria a desenvolver nas décadas seguintes. 6 . digamos que. como O Pai Goriot (1835).” 7 Roberto Schwarz. Twentieth-Century Dialectical Theories of Literature [1971]. Princenton: Princenton University. a equivalência. Ulysses à primeira vista desponta como uma aberração – e assim foi considerado por muitos leitores quando de sua publicação em 1922. Não obstante a existência fática passe por Cf. a todo momento. A independência relativa das partes.sinaldemenos. 1. claro. toward something which transcends both styles and pastiche altogether and which. conjugada à correlação complexa e intricada de alguns motivos recorrentes.[-] www. a fragmentação e a despersonalização – em grande medida mimese do processo real – tornavam extremamente difícil a leitura da unidade da obra. sem esquecer. uma vez que a violência da equivalência e da indiferença gerais é no fundo praticamente de mesma ordem. dos diversos episódios do Ulysses. mem ria. beleza: O Pai Goriot” [1963]. mas sim afirmadas e reafirmadas no curso da vida cotidiana mediante a necessidade e a pressão das forças socializadoras do mercado. e a transformação – vivenciada às vezes como violação e desapropriação – de qualidades individuais em mercadoria. e que vem à tona num livro e noutro. 1974. por exemplo. 2016 77 superior. Fredric Jameson. A diferença. p. p. além do sistema dos doze tons na música. Marxism and Form.org Ano 8. inclusive por escritores modernistas aos quais Joyce costuma ser associado. like the twelve-tone system in musical realm. Estas – eis o ponto que nos interessa. Em termos literários. n°12. Ocorre que. unidade que a despeito disso não desaparecia. como Virginia Woolf. “Dinheiro. cuja unidade fisionômica e rítmica é das mais notáveis. os motivos que dão unidade e dinâmica a ambos romances são de certa maneira os mesmos: a colonização de esferas autônomas pelo dinheiro. que figura por toda parte. 168. que é o seu fundamento”7. em A sereia e o desconfiado. é de grau e intensidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. lembra ainda. a indiferença e o intercâmbio de qualidades. uma ordem pós-burguesa6. 1981. may stand as a distant representation of some future linguistic organization of a postindividualistic character. Tal como nas telas quartejadas de Picasso e Braque (em todo caso na fase do cubismo analítico). 34: “Joyce […] embodies an exemplary progress from a derivative personal style […] through the multiple pastiches of Ulysses. vol. tornando uma anomalia toda e qualquer ancoragem individual da própria existência. por diferente que seja o contexto. embora considerável. que “a contingência cotidiana de atender à socialização caótica do mercado evoca a grande expropriação originária. comparado a um romance realista da primeira metade do século XIX. que requerem do indivíduo. ditando de diferente maneira a organização interna de ambos – não são simplesmente dadas.

Não é que de as ideias humanísticas se encontrassem barateadas e integradas à relação mercantil – isso já era o caso na época dos sucessores de Balzac. Mimesis. ou melhor. aparentemente igual a qualquer outro. n°12. Pois bem. 1. aparentemente não passível de crítica. “ alzac: Les Illusions perdues” [1935]. Heim: Mimesis. p. do descentramento do sujeito e da relativização dos valores e normas é retomada na própria forma: tudo se passa no espaço de um só dia. portanto. menos de um século depois. tampouco há a perspectiva distanciada de um narrador único. como é sabido. a realidade social e histórica. p. em Ensaios sôbre literatura. 2016 78 legítima. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. em Joyce. L. da fragmentação do processo real. 1968. Paris: Gallimard. 512. La représentation de la réalité dans la littérature occidental. Para retomar as expressões usadas por Erich Auerbach. C. p. não são mais claramente delineados como o eram outrora. nem chegou a sê-lo efetivamente. Tübingen/Basel: Francke. tampouco é dinâmica como dera a impressão de ser nos tempos do capitalismo liberal – no contexto semiperiférico da Irlanda. trata-se sempre ainda de uma ordem social contingente. a temática geral do não desenvolvimento individual e social. e a violência que a constitui e sustenta seja perfeitamente legalizada. como não podia deixar de ser. cujos traços de caráter. 1968. ademais. F. alterna e confunde sujeito e objeto. objetivo ou claramente definido. 1994. a voz narrativa cambia o tempo todo. Le Paysan de Paris (1926) e Berlin 8 9 Cf. Caberia ressaltar a este respeito que. Georg Lukács. Dargestellte Wirklichkeit in der abendländischen Literatur [1946]. . os universos interior e exterior das personagens. apesar da aceleração dos processos. sobretudo na ressaca de 1848 (em Flaubert. que exige continuamente ser posta e reposta. o que por momentos também são. no romance de Joyce. o “cinismo ofuscante e doloroso” e o “simbolismo [em parte] ilegível” do Ulysses9 têm a ver com o fato de que o capital agora não é nem de longe sinônimo de progresso. ou Manhattan Transfer (1925). que Joyce conhecia de cor). mormente. mais ou menos como em Bruges-la-Morte (1892) antes. 121. que expunha no terreno do espírito o processo de formação do capitalismo e sua dinâmica8. A “variegação desdenhosa”. trad.[-] www. da despersonalização. a bem da verdade. nenhum dos dezoito episódios é narrado exatamente do mesmo jeito. a história é decerto outra. não há unidade estilística. “imposta”. estilos os mais diversos integram a trama e assim são relativizados. Mais do que simples investigação técnica. 546. a nivelação de estilos e a relativização de diversos enfoques no Ulysses são como dito mimese do processo real. vol.sinaldemenos.org Ano 8. ao mesmo tempo. trad. Cardoso. Ao contrário do romance de Balzac.

em que a interação de personagens isoladas parece arbitrária e fortuita. à luz dos tempos que correm. Seja como for. que dimensiona o aprisionamento num presente que não passa (“There is not past.”10) –. não da mistificação. não é para consagrá-lo. indiferença. 1970.. mas para afastá-lo. do esclarecimento. De passagem. não tendo como renunciar a si mesmo. que é obrigado a trabalhar para avançar. fascina sem no entanto se apossar completamente do leitor. Dublin). entre outras. ao contrário da de um livro como Grande sertão: veredas. no future. desde a primeira leitura. suas luzes bruxuleantes..sinaldemenos. um aspecto de atualidade não negligenciável. na medida em que não se reduz a mero pano de fundo. New York: Barnes & Noble. simplesmente deixar-se levar pela prosa. há ainda que mencionar a unidade temporal – o entrecho como dito comprimido no espaço de um único dia. note-se que tal constelação e a representação do bloqueio de qualquer vida futura conferem ao texto joyciano. fornece ela mesma uma unidade socioespacial ao romance. paralelamente à unidade mítico-espacial. em R. James Joyce. inércia. unidade esta que traz consigo toda uma constelação motívico-temática a ela associada (estagnação. everything flows in an eternal present. n°12. banalidade). é puro escárnio). Não somente o mito é tratado como tal. 10 James Joyce. mas os pastiches estilísticos aparecem também eles explicitamente como tais. com as inúmeras pistas que deixa pelo caminho. . cit. de forma não velada. o leitor minimamente perspicaz não deixa de notar que a atitude do escritor é explicitamente moderna: o recurso ao mito é da ordem do uso. o astucioso. de horizonte de expectativas rebaixado e declinante. mas poderia muito bem ter sido outra qualquer. e abafá-lo. paralisia. com seu trânsito. 1. p. H.[-] www. Deming. a linguagem do Ulysses. e distanciado de forma irônica (a comparação da trajetória do manso Leopold Bloom com a de Ulisses. 22. Note-se que o caos da experiência urbana numa capital semiperiférica do início do século XX. razão pela qual. sobre a estrutura do Ulysses. nada desprezível. é como que traduzido mediante o recurso a uma referência mítica arbitrariamente selecionada para dar conta do recado: é a Odisseia.org Ano 8. vol. sendo antes de certo modo constitutiva da trama. ao qual costuma ser comparado. a cidade (no caso. mas principalmente à aparente anulação da história –. The Critical Heritage. 1: 1902-1927. não havendo necessidade ou lógica alguma que justifique colocá-las juntas. 2016 79 Alexanderplatz (1929) depois. Se o modernista Joyce recorre ao mito – o qual diz respeito não apenas à estrutura intertextual homérica arbitrária. vol. em carta a Jacques Mercanton.

a emergência de uma todo-poderosa indústria da cultura. as ideias. insignificantes. a cultura como ostentação. B. mais ou menos equivalentes. 2007. publicitária. a cultura mercantilizada.org Ano 8. um dos melhores escritos a respeito do livro. na prática. é antes de tudo a cultura formativa (no sentido enfático da velha Bildung burguesa). relativas. Ensaio sobre a sociologia das formas literárias [1983]. ao passo que cultura filistina.. degradada em propaganda e embalada para o consumo imediato. vol.[-] www. por isso mesmo sem importância para reprodução do todo. Tal visão parece corresponder aos fatos: as formas culturais. .”11 Nesse contexto. através de rituais cotidianos. função infraestrutural. a cultura fetichizada e desvinculada da vida real. se não desmente tal visão. p. por isso mesmo irrelevante? É a tese de Franco Moretti num texto notável do início dos anos 80. A coincidência integral entre cultura e sociedade. trad. a equivalência geral dos diversos estilos. caberia acrescentar que a cultura que não tem eficácia social. cegamente praticados. n°12.] não passa da abolição dos limites fixos e hierárquicos que impediam a expansão do ‘mercado cultural’ e para o qual Joyce agiu como verdadeiro nivelador radical.sinaldemenos.. “ longo adeus: Ulisses e o fim do capitalismo liberal”. as escolhas estilísticas teriam se tornado parciais. que a própria recusa de um estilo literário privilegiado. Ora. segundo a qual a cultura na ordem pós-liberal seria (ou teria se tornado) socialmente supérflua: o funcionamento regular da sociedade do capital dispensaria justificações. reificado e fantasmagórico. M. de escolhas de valor e vida cotidiana: eis a história dos anos 50. adquire. em Signos e estilos da modernidade. que segundo Marx se funda sobre um processo automático. que rapidamente se tornará segunda natureza. não é que a relação entre infraestrutura econômica e superestrutura ideológico-cultural tenha 11 Franco Moretti. O problema é que o crítico nos parece generalizar um pouco rápido demais. artificiais. a crítica da ideologia que Joyce põe em marcha fundamentar-se-ia ela mesma numa ideologia. formas diversas de expressão e visões do mundo seriam no fundo redundantes. valores culturais. Melhor dizendo. ou que deixou de tê-la. de Medina. digamos. como que por força do hábito. Para ele. como já se fez. cuja “naturalidade” se impõe de si mesma. socialmente estéreis. Mas será que o fato de não haver no Ulysses forma unívoca de olhar e descrever o existente equivale a afirmar que todo estilo ali empregado é arbitrário. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1. é estrutural no romance e lhe dá certa coesão formal. 242. a relativiza um pouco: “O desmantelamento das hierarquias [. 2016 80 Seria possível argumentar ainda.

processo que se impõe mais e mais como algo inelutável e que dispensa grandes justificativas. vol. nacional. 125. Irlanda). Ocorre que se a irrelevância da cultura crítica e a ineficácia social das ideias têm obviamente a ver com mutações transcorridas no seio do processo social capitalista na época dos monopólios. como concebem muitos autores pós-modernos. sociedade atrasada mas colonizada pela maior potência do mundo). vindo à tona antecipadamente e de maneira mais incisiva em contextos periféricos e semiperiféricos (Índia. 1. só restando ser administrado de alto a baixo. moderno. São Paulo: Cia. Sem desconsiderar a óbvia diferença de níveis (porque não dá para pôr simplesmente em pé de igualdade o Brasil a um tempo liberal e escravagista. Forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro [1977]. 2002.81 [-] www. que para Moretti Joyce antecipara de certo modo ao descrevê-la em estado nascente. retardatários e/ou regressivos. mas as duas coisas já não se distinguem mais. Ao vencedor as batatas. Brasil. redundando basicamente no acesso massivo ao universo do consumo mercantil. p. não se pode deixar de atentar para as maneiras discrepantes com que a vida cultural e política irlandesa. 59. e a Irlanda. 2016 se invertido. muito embora inserida numa dinâmica europeia mais 12 vasta. com sua lógica de dependência pessoal e favor. . São Paulo: Duas Cidades/Ed.sinaldemenos. p. ideologia e realidade são uma só e mesma coisa. Rússia. Essa a base material da virada cínica do capitalismo. Roberto Schwarz. e negativo” [1980]. Nas sociedades industriais avançadas. a dialética própria do progresso moderno – apreendida pelos frankfurtianos históricos no quadro de derruimento final da civilização burguesa e rescisão prática de sua cultura – consiste justamente no fato da corrupção da norma universal por sua inserção particular em contextos sociais heterônomos. permanecia determinada principalmente pela Cf. em que o ideário burguês – ao contrário do que ocorrera na Europa. em Que horas são?. 2000. do mesmo autor. “Complexo. que faz com que seu ideário clássico possa coexistir com todo tipo de barbárie e regressão. das Letras. onde mal ou bem fora a expressão da burguesia triunfante na luta contra o Antigo Regime – não chegava sequer a descrever falsamente a realidade das relações capitalistas de produção e intercâmbio. O que vinha (e vem) à tona com força no contexto periférico é justamente o formalismo da civilização liberal burguesa.org Ano 8. e. n°12. os quais concomitantemente são desqualificados pela mesma norma ideológica hegemônica12. 34. isso tem lugar de forma desigual.

Antes de prosseguir. Como veremos na leitura que faremos do livro14. ou pelo sexto. 22-23. ela mesma indissociável de uma tradição e de uma cultura que o escritor rejeitava parcialmente.sinaldemenos. visão de mundo e forma cultural seja nulo e irrelevante. não significa que sejam arbitrários ou mesmo simplesmente intercambiáveis. tivessem sido escritos de maneira diversa do É o que. seguindo os passos de Roberto Schwarz. apenas via como insuficientes. 14 Cf. Alvarenga. Dublin: Field Day. A ausência aparente de um desenvolvimento narrativo e psicológico fez com que alguns críticos sugerissem inclusive que o texto possa ser lido na ordem que melhor convier ao leitor. procura fazer Joe Cleary. 1. duas ressalvas. 13 . históricas) ou “Oxen of the Sun” (sem dúvida o mais difícil para o leitor não anglófono que se aventurar a ler o texto no idioma de origem).[-] www. no mínimo. O fato de não haver uma hierarquia estilística. “Hades” (que contém uma extraordinária incursão pelas ruas da Dublin do início do século). que não exista uma forma adequada e privilegiada de narrar um episódio ou de descrever uma situação não significa dizer que toda e qualquer forma se equivalha ou dê conta do recado. O impacto de tal dependência na vida local das ideias certamente não escapou a Joyce. empobrecidas ou ideológicas as formas existentes (notadamente as ligadas à língua inglesa. Moretti neste ponto parece trocar as bolas ou. Joyce não era contra a expressão em si. e a uma ordem social superior ainda por realizar. não em bloco. Raphael F. na ordem geral do livro. generaliza demais. ideia. Ocorre que a própria ordem dos episódios em Ulysses não é assim arbitrária. por exemplo. por difícil que seja de apreender. A confusão é frequente. o fato de. Outrageous Fortune. nesta edição de Sinal de Menos. contrariando ocasionalmente inclusive a sequência homérica sobre a qual em princípio se estrutura. como “Scylla and Charybdis” (repleto de referências filosóficas. “Hamlets de farda não hesitam”. e contra as quais se insurgiu). 2016 82 composição socioeconômica dependente13. degeneradas.org Ano 8. Em primeiro lugar. literárias. O ponto não é que todo estilo. o seu sentido mudaria consideravelmente caso os primeiros episódios. um estilo presidindo sobre os demais. pp. mais rica e autêntica. Capital and Culture in Modern Ireland. serem os estilos mais ou menos equivalentes em peso. mesmo entre os melhores leitores de Joyce. poder-se-ia começar com o último episódio. n°12. vol. e buscava por isso mesmo uma forma descoagulada. que correspondesse à vida verdadeira. alinhada com as potencialidades humanas mais altas. 2006. e progredir aos poucos na direção dos capítulos mais densos e cabeludos. “Penélope” (o do famoso monólogo de Molly).

1985. trad. valsa. Schönberg e Joyce (bem como de autores posteriores como Brecht ou Malcolm Lowry) tanto do uso do pastiche feito por modernistas como Stravínski quanto da produção cultural pós-moderna incipiente (da qual o compositor russo seria neste sentido um precursor). t. ou se o romance abrisse com Leopold Bloom em lugar de Stephen Dedalus. jingles) e selecionados mais ou menos ao sabor do acaso. que golpeia e À maneira das melhores obras do modernismo literário. a ordem dos fatores (dos capítulos e da maior parte das correspondentes escolhas estilísticas) alteraria por completo o produto final. de frustração das expectativas do leitor médio. 188-89. o que a grosso modo distingue o modernismo (ou a modernidade) de artistas como Mahler. Em cada etapa. Philosophie der neuen Musik. “colocando nos ombros do leitor o peso de configurar a obra [por sua pr pria conta]” Paul Ricœur.sinaldemenos. de alienação e fragmentação dos processos objetivos. os motivos temáticos seriam elaborados mais ou menos explicitamente na forma de empréstimos. a qual constituía o horizonte no interior do qual Moretti escreveu seu texto. 150-51. a dissonância. portanto. n°12. Esse o ponto chave. os impulsos sociais mais primários e a tecnologia mais avançada são consagrados e se conjugam num mesmo ritmo frenético e sincopado (em detrimento de qualquer desenvolvimento melódico). notadamente no que concerne a uma configuração textual imediatamente coerente e inteligível. cit. vol. angústia. III.[-] www. um ritmo mecânico e destrutivo. ed. tensão ou contradição. ragtime. tango. o texto do Ulysses incorpora conscientemente uma estratégia deceptiva. No Stravínski da primeira fase. Picasso. Dito isso. de maneira análoga ao que ocorre na música dodecafônica. e cabe ao leitor o trabalho de síntese. geralmente em nota dissonante. pp..org Ano 8. música de circo. Temps et récit. pp. nas condições dadas. mais do que simples meio de expressão subjetiva de descontentamento. cit. 1.. que ainda segundo a leitura de Adorno representaria o lado regressivo do modernismo musical. torna-se material literário. de configuração do conjunto15. fazendo do protesto contra o esmagamento do sujeito e o estreitamento do campo de possibilidades algo objetivo. Aqui também. 246). ressalve-se que a adoção de tal estratégia não é mero capricho do escritor modernista. Paris: Seuil. Theodor W. motivos recorrentes remetem à construção da totalidade que os determina. 2016 83 que foram. É preciso insistir neste ponto. no Ulysses. mesmo que apenas negativamente e de forma não imediata. p. marchinha militar. de forma caprichosa. à maneira de um consumidor. citações e amálgamas estilísticos de toda sorte (jazz. uma vez que. Retrocesso e modernidade andam de mãos dadas. 16 Cf. construir literariamente uma totalidade textual em si mesma coerente e coesa seria mentir à matéria histórica. muitas vezes esquecido ou ignorado. Adorno. ao contrário da matemática pós-moderna. que escolhe arbitrariamente entre diferentes marcas nas prateleiras do supermercado 16. 15 .

ou então deixar a cena em protesto). naturalismo. mas da redinamização de formas literárias consideradas (na Europa em todo caso) antiquadas no intuito de melhor revelar uma formação social e subjetiva abstrusa e truncada.) como no da própria recepção da obra (aos auditores e espectadores só resta entrar na dança e assimilar os golpes. n°12. forma e conteúdo do pastiche coincidem plenamente num grande movimento regressivo. recorre à mescla estilística típica da prosa livre e errática de Sterne e de Xavier de Maistre a fim de transpor a ambivalência normativa e o arcaísmo das relações locais. vale dizer. 1. O uso do pastiche nos artistas acima citados. algo próximo do que os letristas e situacionistas mais tarde denominariam détournement. Nas Memórias póstumas. Tratava-se ali. tudo o que se apresenta ou desponta como não-idêntico. ou mais propriamente. um soldado fracassado. do indivíduo impotente. faz uso de formas completamente desusadas. idílio romântico. que nos romances de maturidade recorre às mais diversas tendências europeias da hora (realismo. passivamente. usadas normalmente para sustentar ou legitimar a ordem que esmaga tudo o que não se enquadra no seio do estabelecido. deslocando significados e expondo criticamente o lado grotesco e/ou ensandecido das linguagens do poder ou por ele aceitas. a um 17 Devo tais observações a José Antonio Pasta. vol. 2016 84 esmaga o que resta do “sujeito”. uma adolescente vítima dócil de sacrifício tribal. Exemplo ilustre de retomada crítica de estilos prévios é Machado de Assis. inclusive. a volubilidade e o arbítrio da conduta das elites brasileiras no contexto da escravidão. trata-se antes.org Ano 8. simbolismo. a rigor não há mais sujeito algum. em contrapartida. As aspas em “sujeito” se justificam na medida em que toda tensão é esvaziada.. qualitativamente diverso do original. é algo de outra ordem: não se trata de mera cópia ou citação arbitrária de estilos consagrados ou desusados. em todo caso concedendo-lhes com frequência tratamento envenenado17. decadentismo fin de siècle.. que designa a retomada distorcida de formas existentes de expressão para uso subversivo. art nouveau) sem exatamente adotar uma em particular. . de algo entre a simples imitação e a paródia.sinaldemenos. não de simples reprodução arbitrária de algo caduco.[-] www. virando-as antes do avesso. tanto no nível da trama (uma marionete solitária e patética. penumbrismo.

Eis o ponto que interessa: já naquele romance inicial Joyce jogara com diferentes estilos (da fala infantilizada do início aos fragmentados registros de diário do fim. para o que o recurso a um único estilo deixaria a desejar. episódio que tem por tema explícito a música. 19 Roberto Schwarz. 1978. e concernem igualmente. n°12.org Ano 8. estas são ao contrário significativas (notadamente psicológicas: a um tempo mais cultivado e mais bárbaro. “Prologo da quarta edição” das Memorias posthumas de Braz Cubas [1881]. por exemplo. recheado de aliterações e polissíndetos. passando pelas discussões políticas acaloradas durante uma ceia de natal. 144. e tampouco se reduz à linguagem. forma é mais do que uma questão de estilo. como veremos. p. vol.sinaldemenos. o que parece sugerir que a complexidade do tema da formação do indivíduo. a complexificação e o enriquecimento confirmam no nível da forma o conteúdo próprio de um Bildungsroman. Embora pareçam concordar formidavelmente em diversos capítulos – entre outros em “Sirens”. outra é o ponto alto da vida”19. o capítulo da descoberta da vocação literária. p. sem falar na teoria estética que desenvolve o protagonista a partir de Thomas de Aquino).”18 Segunda ressalva: em arte. a sucessão de fases percorridas e suplantadas exigem tratamento igualmente complexo. em O pai de família e outros ensaios. Em A Portrait of the Artist as a Young Man. com o exemplo de Machado não queremos igualar a démarche do brasileiro à de Joyce. Obviamente. ou em “Oxen of the J.[-] www. 2016 85 só tempo arcaica e moderna. mas leva outro vinho. composto em forma de fuga. a duas formações nacionais um tanto distintas (a nossa é em muitos respeitos também um tanto mais perversa que a irlandesa. No que concerne à composição do Ulysses. que mal ou bem se insere na história europeia mais antiga). Acresce que o emprego da terceira pessoa num escrito predominantemente autobiográfico marca um distanciamento desfamiliarizador com relação a algo que lhe é em princípio bastante familiar: o seu passado – o narrador é e não é mais o indivíduo cuja formação está a narrar. não obstante partilharem. M. Rio de Janeiro: Paz e Terra. a nível social e histórico. 18 . caberia recordar uma distinção fundamental: “uma coisa é o ponto alto da frase. Nas palavras do autor: “É taça que pode ter lavores de egual escola. embora tenha obviamente a ver com uma coisa e outra. “Sobre as Três Mulheres de Três Pppês” [1978]. 1914. o estilo se complexifica e se enriquece à medida que o protagonista amadurece. os intermináveis sermões sobre o pecado e o inferno no colégio. Machado de Assis. Rio de Janeiro/Paris: Garnier. contradições e impasses específicos de sociedades capitalistas periféricas. viii. 1. Que as duas coisas não coincidam no romance de Joyce não é necessariamente defeito do arranjo geral. ganha consciência e se torna pouco a pouco capaz de narrar a própria experiência numa prosa mais elaborada e sofisticada. e menos ainda insinuar que entre as personagens de Brás e Bloom não haja diferenças. a lógica estruturando o desejo do primeiro é descaradamente perversa).

em Gesammelte Schriften. Eine musikalische Physiognomik [1960]. pp. vol.sinaldemenos. de duas uma: ou a obra será mero fruto de uma moda passageira. 1997. vol. pp. Mahler. 20 . mas quando e por que empregá-las. Se o objetivo é o virtuosismo técnico em si. em lugar de se comprazer com o simples jogo de montagem de significados e estilos enrijecidos e esvaziados de sentido. que produz uma tensão. ele os envolve num movimento geral de reificação e ruptura. ou então fará parte de determinado nicho do mercado literário. da pirotecnia verbal e das vistosas piruetas narrativas tem um limite objetivo. o resultado. livremente e para uso próprio. a relação entre forma e fundo não é.: Suhrkamp. e mesmo no interior de alguns capítulos. o sucesso de vendas e a integração capitalista do artista. no conjunto. Retomo aqui. o difícil não é saber como. de identidade ou simples conformidade. em nível de conteúdo. Porque o culto abstrato do malabarismo sintático. Leydenbach: Mahler. que expõe passo a passo. Em vez de partir de uma ontologia das formas e proceder em direção à empiria. 210 e 304. é que a prosa salta de um lado a outro e não atinge nada de concreto. consiga macaqueá-las sem grandes problemas. J. tornando-os deste modo novamente comensuráveis com a situação do próprio sujeito no interior das condições dadas20.-L. com o parto de um bebê no hospital em que se passa a cena –. em geral. em nove partes indistintas. o que produz no seio da totalidade a centelha que transcenderá o cotidiano petrificado. 2016 86 Sun”. Adorno. 96 e 237. Une physionomie musicale. separa Joyce de tantos virtuoses da palavra que chegaram posteriormente. Frankfurt/M. Eis um ponto que. treinado. a gestação e o nascimento do inglês moderno. alguns elementos da análise de Theodor W. trata-se antes de uma articulação dialética.[-] www. para surtir que efeito etc. trad. 1. redundando em algo extremamente enfadonho. entre outros. Ora. se a finalidade for. o do filisteu que valoriza as excentricidades requentadas da ponta extrema das vanguardas históricas. Por outro lado. n°12. 1996. de intenção e efeito críticos. Paris: Minuit. não revela nada de significativo. despudoradamente. cheias de som e fúria. A execução de boa parte das proezas e inovações técnicas trazidas pelos grandes da literatura exige de fato um nível maior de habilidade e competência do que as técnicas narrativas mais básicas e tradicionais. mas que no fundo não dizem nada de nada.org Ano 8. com que intuito. o que não impede que qualquer escritor mediano. Joyce parte ao contrário dos fatos da experiência e procura mediá-los num encadeamento sintético não imediatamente apreensível. o qual coincide. Leleu e T. 13. verdadeiro passeio pela história da literatura e da língua inglesas.

não deveriam ser mobilizadas arbitrariamente pelo artista. cambiante. e o jovem Stephen Dedalus. sem falar num quarto ponto de vista. n°12. em que a sintaxe às vezes é reduzida a um mínimo. ou melhor. obviamente). poderíamos dizer que o sentido da técnica literária não tem nada de técnico. alter ego do autor quando jovem e protagonista de histórias precedentes (Stephen Hero. que. à maneira do que ocorre em Dubliners (1904-06/1914). é anterior (mas não externo) e prima sobre as principais técnicas empregadas. haja vista que por trás dele. ou a forma com que se posicionam e se deslocam as vozes narradoras e determinadas personagens no interior da trama. 2016 87 Parafraseando uma frase filosófica famosa. sub-repticiamente articula as diferentes perspectivas particulares e expõe. e A Portrait of the Artist as a Young Man. ritmo e unidade ao livro. vol. A principal técnica literária consagrada pelo grande romance de Joyce. e exige grande habilidade do escritor. que por si só não tem grande valor. nem sempre se sabe com certeza a quem pertence a voz que narra. publicado em 1916) –. dando vazão ao pensamento nascente. parece não assentar nunca. o ponto de vista narrativo determina a eficiência e parte do significado dos dispositivos técnicos usados pelo escritor. o que não impede que no geral se privilegie a perspectiva situada. manuscrito que permaneceu inédito em vida. alternado. com o narrador diluindo-se na personagem. através de tal articulação. leva o discurso indireto livre a outro nível. mas consagrada mesmo por Joyce (e Proust. . a um narrador não nomeado. o movimento (a um tempo conjugado e desconjuntado) e o rumo de basicamente três personagens – o casal Leopold e Molly Bloom. não está na técnica mesma.org Ano 8. No Ulysses o foco narrativo (que costuma ser erroneamente confundido com o ponto de vista) é múltiplo. nem tomadas separadamente (a não ser como momento) pelo crítico. Pedra angular da construção literária. romance de 1887. relativamente distanciado e de vocação totalizante. ou mais precisamente ainda a posição. O ponto de vista. Introduzida de forma pioneira por Édouard Dujardin em Les lauriers sont coupés. no mais das vezes. que por sua vez se substitui àquele. a técnica à época foi considerada revolucionária por implicar a emancipação de qualquer patrocínio narrativo. sob risco de irrelevância. as quais. o monólogo interior ou fluxo de consciência (stream of consciousness) – mais correto talvez seria dizer fluxo de inconsciência.[-] www. “encontramos uma boca sem eu” (Ernst Bloch) –. 1. De fato. ou ao próprio autor (implícito). a tensão e o descompasso geral que dão tônica.sinaldemenos. se a determinada personagem. na forma de um fluxo linguístico livre.

O ponto de vista geral. 1. Ulysses [1922]. diga-se de passagem. a qual traduz e transfigura. tendo ademais significado diverso em cada caso particular. n°12. Como nas telas de Bruegel. transmudando de acordo com a situação narrada e a posição ocupada pelas personagens no interior da mesma. é distanciado – em Bruegel. 248 (doravante: U 10. são principalmente as perspectivas. que de certa maneira é o do artista desterrado – o próprio Joyce. no caso de Ulysses. de modo que não se vê muito além do mundo no qual as personagens pintadas parecem enterradas. dissolução das formas culturais burguesas e relativização das visões de mundo. adquire sentido à luz do contexto geral em que foi composto e publicado o livro (mercantilização das relações. vol. a cena é quase sempre visualizada a partir de cima. ou Stephen mais velho. ou seja. 1972. a complexidade da linguagem e o câmbio constante de estilos e de enfoque impedem a total imersão do leitor no fluxo narrativo – e se desloca progressivamente em função dos múltiplos 21 James Joyce. estagnação social. tal método narrativo.248).[-] www.sinaldemenos. para fora do quadro. totalizante. ep. repleto de clichês pequeno-burgueses – ainda que não se reduza a trivialidades. . que ganha realmente a palavra apenas no famoso e muito celebrado monólogo interior final. mas o ponto de vista do narrador-pintor. do conjunto da representação. que olha a coisa toda à distância. Deixando de lado Molly. 2016 88 Embora desloque (ainda que não abstraia completamente) o discurso das personagens de seu contexto imediato de enunciação e significação. fragmentação do processo social e da experiência subjetiva. Harmondsworth: Penguin. o que possibilita uma visão global. despersonalização). 10. p. as posições ocupadas. dando vazão igualmente a aspirações “libertárias”. de caráter poder-se-ia dizer pósburguês –. as trajetórias e os intercursos dos dois outros. do “articulador”. peso dos processos anônimos.org Ano 8. que acompanhamos praticamente do início ao fim. que é também o do leitor-espectador. o Velho. ou a conteúdos regressivos. do alto de uma colina ou de um ângulo suspenso como que por uma grua. Bloom e Stephen. cada qual servindo de contraponto ao outro. o horizonte do quadro geral narrado é decerto estreito (no pintor flamengo a linha do horizonte é colocada via de regra na parte superior da tela). uns dez anos depois (“He is going to write something in ten years”21). no tempo e no espaço – emerge precisamente deste jogo contrapontístico. em Joyce. a forma como é empregada a técnica remete a uma dinâmica (a um tempo social e literária) mais vasta.

Na contramão das tendências à fruição de uma fragmentação indiferenciada. o trabalho da inteligência. 1. Por si só. São Paulo: Companhia das Letras. sói reduzir todo o espaço de representação a uma perspectiva una. deixa de ser central. a capacidade de discernir e destacar o essencial. e de modo geral no que concerne aos pressupostos da crítica materialista dialética. passa a ser uma. mediante uma focalização estática e centralizadora. de ‘Dialética da malandragem’” [1979]. que 22 A referência aqui. 129-155. transpondo assim. aqui exacerbado. se nos for permitido dizer. “Pressupostos. deixa de ser central e coexiste lado a lado com outros aspectos da realidade cotidiana. a transformação (ou simples retomada) de formas literárias e estilos prévios é um jogo inócuo22. que não se deixa enquadrar ou subsumir completamente pelo olhar dominador e autoritário do burguês que. tomemos como exemplo “Nausicaa”. n°12. O capítulo inicia pastichando a prosa edulcorada de romances meia-boca e a trivialidade de revistas femininas. mas discrepantes. que ganham destaque). dando vazão a uma multiplicidade de narrativas (e de focos narrativos particulares) de que em princípio nada é excluído. repleto de palavras e expressões supérfluas em locuções excessivamente largueadas. de diferenciar e recompor os diversos elementos numa totalidade significativa são. a monotonia repetitiva do ato masturbatório através do recurso ao sentimentalismo barato. Superior e inferior se relativizam reciprocamente (o mito é propositalmente deslocado. 2016 89 pontos de fuga. o que permite abranger uma totalidade plurívoca e complexa – vale dizer. A própria narrativa mítica é deslocada. dissociada do trabalho de formalização do nãoliterário. vol. 2002. a uma ideia clara e distinta daquilo que interessa ser visualizado e apreendido –. salvo engano. num e noutro artista. .sinaldemenos. mas a operação não é automática. entre tantas outras (não fossem os títulos inequívocos de obras como “A queda de Ícaro”. posta lado a lado com o mais reles. é Roberto Schwarz. tudo cabe e coabita o mesmo espaço social.[-] www. o poder de análise e de síntese. pp. pressupostos de leitura. “A conversão de Paulo”. ou o próprio Ulysses. tradicionalmente (ou mais precisamente no e a partir do Renascimento italiano). da arte de Bruegel e de Joyce: tudo entra. Eis a vocação democrática. episódio em que ocorre o confronto aberto de três estilos. não somente diversos. em Que horas são?. Para efeito de contraste.org Ano 8. do mais elevado ao mais baixo. vale dizer. vale dizer. provavelmente não ocorreria a ninguém fazer a correlação). e não a mais importante. digamos em resumo. num golpe de gênio. do movimento geral da prática social.

A curva deceptiva da entrega total dos sentidos ao gozo bestial é magnificamente ressaltada. Will she come here tomorro ? [.347. das pernas e a roupa íntima que a jovem Gerty MacDowell deixa entrever por baixo do vestido ao se reclinar numa pedra da praia de Sandymount Strand. . a lembrança da promessa de felicidade encerrada na visão da jovem na praia é trazida à tona com o melhor da prosa modernista. à distância. vai além. uma escrita telegráfica. Citemos um trecho. 1... Not so young no . quiçá mesmo a prosa emaranhada de Finnegans Wake. Or hers.374-75 e 379.] All changed. She had cut it that very morning on account of the new moon and it nestled about her pretty head in a profusion of luxuriant clusters and pared her nails too. concatenando uma série de sentenças curtas. Num breve trecho. She kissed me. It was dark brown with a natural wave in it. Only once it comes. em termos puramente literários. alguns 23 24 U 13. desande sintaticamente e vague no que. superexcitado com a visão. n°12.sinaldemenos. a narrativa passa da terceira pessoa para o monólogo interior. Never again. após o orgasmo e a ejaculação de Bloom...org Ano 8. paratática. e o grotesco da tristeza pós-coito. fatigada.] We’ll never meet again. My youth. delicate as the faintest rosebloom. a desilusão e o enfado tomam os matizes de uma prosa agora desinchada. sem fôlego.”23 Na sequência. vol. o potencial de regressão contido no oblívio de si na gratificação imediata não deixa de ser visado. U 13.. frouxa. 2016 traduzem em forma a dilatação do órgão sexual masculino de Bloom. para que se tenha ideia do caricato intencional da prosa: “But Gerty’s cro ning glory as her ealth of onderful hair. [. Will I get up? O wait.90 [-] www. a recordação da apetência prestamente satisfeita dá vazão a um fluxo de livre associação de ideias. prefigurando já o famoso monólogo final de Molly (com suas mais de 40 páginas sem qualquer pontuação). recheia várias páginas: “Tired I feel now. [. [. Forgotten.. Drained all the manhood out of me. mas Joyce. crept into her cheeks she looked so lovely in her sweet girlish shyness that of a surety God’s fair land of Ireland did not hold her equal. e faz com que a prosa. mas o melhor vem mesmo em seguida: fechando o capítulo.] Made me feel so young. Mediante tal prosa tosca. And just no at Edy’s ords as a telltale flush.] O! Exhausted that female has me. como veremos. que coincidem admiravelmente com a explosão de fogos de artifício nos céus de Dublin. The young are old. bambas e erráticas. But it was lovely.”24 O resultado é notável... de grande intensidade. Thursday for ealth. little wretch.

A utopia aparece de relance – como o clarão de um fogo de artifício no céu crepuscular – na imagem invertida de sua impossibilidade. exprime em negativo algo que poderia ter sido. mas este sugere ao mesmo tempo. muito presente o livro (além de Bloom em “ ausicaa”. por trás da aparente banalidade. as quais. por exemplo. Bloqueada por completo a possibilidade de uma existência por assim dizer pacificada. Mais do que isso: o episódio insinua que a própria gratificação na sociedade fetichista tem o ritmo monótono. por esgotamento e exacerbação. 2016 91 consideram (tomando-o isoladamente) o que há de mais avançado no livro: “O sweety all your little girlwhite up I saw dirty bracegirdle made me do love sticky we two naughty Grace darling she him half past the bed met him pike hoses frillies for Raoul to perfume your wife black hair heave under embon señorita young eyes Mulvey plump years dreams return tail end Agendath swoony lovey showed me her next year in drawers return next in her next her next. à maneira de um vampiro. quase nunca notadas: as “migalhas” no vagão da carruagem em “Hades”).sinaldemenos. do potencial de vida desperdiçado. repetitivo e enfadonho do trabalho alienado. logo se percebe. mais do que o fato de pôr em cena o ato da masturbação. posto lado a lado e em tensão dialética tanto com a literatura mais kitsch e clicheresca como com uma prosa jornalística ressecada. Para além da simples provocação. Há nesse sentido outras tantas alusões e referências. 1. inaceitável26. a controversa cena da masturbação em “Nausicaa”. vol. ganharia ao ser lido nesta chave. mas não teve lugar. Seguramente um dos pontos altos do livro. aqui. mas provavelmente esperma ressecado. o tema da masturbação. suga do sujeito toda vitalidade – é isso. que fez com que o livro fosse durante um bom tempo censurado nos EUA.”25 Não sendo por si só sinônimo ou garantia de progresso. o literariamente mais avançado. a abertura possível a uma nova sintaxe social. que exprime em negativo a possibilidade de algo diferente: o desregramento do desejo – contrapartida de seu recalque – coincide ali de certo modo com o afrouxamento das regras gramaticais. que. a regressão é significativa. não serviriam também de alegoria para as possibilidades petrificadas de uma nova vida? 26 . n°12. A seu modo. na dinâmica paralítica da sociedade da produção mercantil. seria possível argumentar que. É a insistência no bloqueio. que torna a situação retratada. não deixa de encerrar a configuração puramente contemplativa que assumem as relações sociais na sociedade do trabalho e da mercadoria fetichizados. 25 U 13. embora de forma menos explícita. o estado reconciliado.org Ano 8. não são restos de um piquenique. Stephen em “Proteus” e Molly em “Penelope” também deem vazão ao famigerado ato sexual solitário). justamente. em que os sentidos e as faculdades humanas pudessem se desenvolver plenamente.379.[-] www.

que é o de uma passagem paulatina das esferas subjetiva e intersubjetiva aos processos objetivos (notadamente com a explicitação dos processos de produção literário e social. de forma alguma se trata de simples liquidação estilística. com a tensão atingindo o ápice na parte final. 1. hora do almoço. que se intermedeiam no texto). fechando com um retorno a um foco predominantemente subjetivo. De forma geral. os dois derradeiros episódios reencenam o dualismo. 2016 92 de costume ignorado. mas reverbera. primeiras horas da madrugada –. Com efeito. os câmbios. n°12. há um movimento geral delineado no curso da narrativa. com a descrição catalogadora. a não-arbitrariedade das escolhas estilísticas no melhor Modernismo. como espero ter mostrado. choques da alteridade. Se não estou enganado. horas e estados noturnos. por exemplo. dos livros que se encontram nas estantes de Bloom ou dos objetos guardados em suas gavetas. tarde. reflexão e retorno a si etc. um caminho que inclui impasses relacionais. Em resumo. segundo o próprio Joyce. que são vividas de diversas maneiras pelas diferentes personagens. da possibilidade de formas de vida mais belas e sofisticadas. então. ou a dicotomia entre sujeito e objeto: o monólogo interior de Molly contrasta de maneira gritante com o questionário minucioso que o precede imediatamente. e o protesto contra a miséria real. como que exigindo resolução.. na qual somente superficialmente não se passa nada de significativo. mas não custa repetir: a riqueza e a complexidade da poesia de Joyce constitui ao mesmo tempo a expressão da riqueza possível. quando deixamos o nível da impressão imediata. anoitecer. só que de certo modo transmudado.org Ano 8. diria que a tese de que os estilos usados no romance são arbitrários e absolutamente intercambiáveis vacila. quando nos apercebemos que estão intrinsecamente ligados ao encadeamento dos episódios. a cada etapa. como também exemplifica o uso extremamente crítico que Joyce faz do pastiche. extrusão. contra a imobilidade social e a falta concreta de liberdade. não idêntico ao dos primeiros cinco episódios. entre tantas outras listagens contidas em “Ithaca”.sinaldemenos. não é simples ou absolutamente discrepante em relação ao andamento geral. de formação do sujeito. Já foi dito. Para início de conversa. . em que fica claro. na transformação pela qual passa uma personagem em particular (Stephen Dedalus) ao longo da trama. visavam a dar conta das diversas alterações transcorridas no espaço de um dia – manhã. Acresce que tal forma crítica. ensimesmamento.[-] www. mas sugeriam concomitantemente algo como um processo cumulativo. para além dos fatores já apontados. vol.

no fundo. notadamente em “Nausicaa” e “Oxen of the Sun”). a possibilidade de uma existência diferente da presente. da rigidez a-histórica em que se fechou a sociedade burguesa moribunda. sub-repticiamente e amiúde. que poderão em cada ocasião ostentar o seu 28 . o qual. aliás. que se reúne anualmente em torno de um caneco de Guinness para comemorar o Bloomsday. fica sugerida e parece ao alcance da mão. que se torna como que membro de um seleto grupo. a qual. que as diferentes técnicas mobilizadas e a multiplicidade de estilos pastichados e descartados pelo caminho são postos a serviço de tal movimento geral. a postura antissistêmica do jovem artista.”27 O livro acaba. e só servem para entreter até o fim dos tempos os críticos bem-pensantes e os semiletrados do mundo todo. não querem dizer nada de nada. o dia internacional do semiculto (Bloom) para semicultos fetichistas (imagine-se o ridículo de ter um dia do ano reservado para celebrar Brás Cubas ou Riobaldo!). o Ulysses tenha adquirido certa “aura” e por isso mesmo exerça um fascínio quase irresistível – facilmente mercantilizável – sobre uma parcela da pequena burguesia filisteia global. por contraste. ainda que se conjugue a cada etapa com a inércia social e subjetiva que atravanca o passo necessário (necessariamente coletivo) para fora do círculo infernal da repetição fetichista. não nos enganemos. o que confere status a quem ousou a empreitada e foi até o fim.28 Se concebermos a práxis literária de Joyce no Ulysses 27 U 18. e Joyce muito claramente joga com isso: a intricada teia de símbolos. Afinal de contas. em que tudo parece possível. por toda a sua dificuldade e (para o leitor médio) impenetrabilidade.704. Trata-se da cultura como substituto da religião derruída.sinaldemenos. que só fazem ressaltar.org Ano 8. 1. quase uma confraria. vol. veloz e espontaneamente. o trabalho e a inteligência ativa exigidos pela leitura deveriam prevenir que o livro fosse consumido à maneira de uma mercadoria qualquer. a totalidade visada não é total. tem-se de fato a impressão de que a liquidação dos estilos existentes justifica a explosão sintática do final. trabalhada ao extremo. Note-se de passagem que no nível da recepção da obra a coisa não é muito diferente: a própria complexidade. o desregramento cabal em que desemboca a prosa de “Penelope” (de que se tem uma prévia em capítulos individuais. então. justifica. mais rica e produtiva num sentido superior. no plano da forma. 2016 93 Digamos. todo o paralelo com a Odisseia. mas não termina. a entrada no universo semiconsciente e dissoluto do sonho. não esclarecem absolutamente coisa nenhuma. não contendo nada da facilidade da escrita automática –. prosa – muito embora. n°12. ler o Ulysses não é para qualquer um (para começar. o que não impediu que. Resta o autocontentamento complacente de Bloom – o qual ademais não é ele mesmo inequívoco – e as impotentes resoluções tomadas pela esposa antes de dormir. Do ponto de vista de Molly. traduz e coincide com o adormecer. as correspondências sem fim. o desacordo crescente de Stephen com sua própria condição. exige um tempo que ninguém mais parece dispor). não obstante culmine numa incauta afirmação da vida chinfrim: “and yes I said yes I will Yes.[-] www. portanto com a anulação da consciência. bem como as pequenas rupturas que o impelem progressivamente ao exílio.

teríamos diante dos olhos um livro nada inofensivo. Ocorre que a esterilidade e a irrelevância das ideias – atestadas (de novo. São Paulo: Unesp. digamos) é o verde ou o azul.sinaldemenos. 7. A. n°12. vol. Glases. em tudo alternativa ao cânone engessado e abnóxio em que costumam ser relegados aqueles artistas pelo complexo cultural acadêmico-midiático. no mais das vezes estéreis e irrelevantes. Joyce levaria adiante o legado inconformista dos maiores artistas modernos e se inscreveria numa tradição aguerrida. visando a desviar e deslocar os significados e as linguagens imperantes no sentido de uma perspectiva superadora. Contra os novos conformistas. Razão a mais para levar a cabo uma leitura desfetichizante e materialista do livro. 2011. 29 Raymond Williams. “Quando se deu o modernismo?” [1987]. semelhantemente ao que ocorre com Machado) pela própria recepção da obra – são temas centrais do romance de Joyce. que os dez anos de abstinência sexual entre Bloom e Molly correspondem aos dez anos que Ulisses levou para voltar para casa. Sob este prisma. p. e assim por diante? O que isso acrescenta ou explica do que quer que seja? Grandiosa conversa fiada. (verão de 2015-2016) “conhecimento” da obra. trad. 1. uma tradição constituída por algo como um comunismo literário. vale dizer.org Ano 8. como uma tentativa de expropriação crítico-subversiva e politicamente consciente. que não levam a lugar nenhum. menos dos estilos em si do que dos próprios meios de produção literária. Pois que importa saber que a cor predominante de tal epis dio “Proteus”.[-] www. um ambicioso experimento. em Política do modernismo. que a ponta ardente do charuto que fuma o Cidadão remete ao olho do Ciclope. semelhantemente ao falatório especializado sobre esportes. 2016 94 como algo que vai além de uma simples liquidação de estilos consagrados. apontando como que “para um futuro moderno no qual a comunidade possa ser novamente imaginada”29. intermináveis discussões. .

garantida a todos (“I want to see everyone [. um publicitário freelance de meia idade.sinaldemenos. em que a existência fosse pacificada e uma renda mínima. 113 (doravante: U 6. “Cada um por si. é preciso determinar o seu estatuto. Sérgio Ferro “[A] chapa quente da vida [the fryingpan of life]”1 – é como Leopold Bloom. o contexto da concorrência universal por um lugar ao sol do mercado é percebido por quem também deve lutar por seu pão de cada dia como uma luta de morte generalizada. por serem as relações de produção vigentes quase que completamente ignoradas).95 [-] www. suficiente para uma vida confortável. não de fora dele. 3 U 8. A metáfora da deglutição universal é de fato recorrente no grande romance de Joyce (embora atinja o ápice no oitavo episódio.] ₤ 300 per James Joyce.113). Harmondsworth: Penguin...org Ano 8. “Lestrygonians”).] Comer ou ser comido. Ulysses [1922].. vol.”3 Embora não redunde de todo em essência metafísica da história humana. Por outras palavras. Mata! Mata! [Every fellow for his o n. 1. ep..] having a confortable tidysided income [. tooth and nail… Eat or be eaten. resume a existência num dia qualquer do primeiro decênio do século passado (16 de junho de 1904). 2016 HAMLETS DE FARDA NÃO HESITAM Uma leitura materialista do Ulysses Raphael F. A percepção do pega-pra-capar generalizado. do seio do trabalho submetido.. 1 2 . banal e aparentemente inevitável da luta diária de todos contra todos: “todo mundo devorando todo mundo [everybody eating everyone else]”2.170. unhas e dentes. nada além do fato corriqueiro. digamos. mas é preciso não se deixar cegar por ela. que à primeira vista pouco difere de qualquer outro: nenhum acontecimento maior. [. uma forma de welfare state.. nenhuma grande revelação. 6. no fundo. U 7. 1972. Alvarenga O protesto da arte vem. p. Kill! Kill!]. n°12.124. bem como a imagem ideal que figura como sua negação – Bloom sonha com um estado socialista utópico (utópico.

Ezra Pound. p. que o imaginário de Bloom (ou o imaginário geral norte-europeu) associa ao clima quente e glamoroso do Sul (“the southern glamour”8. O resto. 1.sinaldemenos.”4) –. [.. Flaubert. Lovely spot it must be [. in U 16. portando nos ombros a publicidade de algum serviço ou mercadoria. A percepção é superficial e enviesada. He has emitted what appear to be all the clichés of the English language in a single volcanic eruption. 10 U 7.564-65. and the Historical magination”. 335. entre outras coisas. como o fez. à Espanha moura e morena (desejada por muitos dublinenses.2 (2005). é espanhola) e ao Extremo-Oriente (“The far east.” 6 U 8. 7 Cf. fundada no ócio. são expostas como próprias do trabalhador (digamos ainda em termos gerais) que deve brigar a todo momento para ter um anúncio seu publicado. do “homem-sanduíche”. 4 5 . “ he Room of nfinite Possibilities: Joyce.org Ano 8. U 17.572. and the latter parts of Ulysses. traço de caráter da personagem5... cit. Bloom vê em tudo oportunidade para um anúncio (“Because life is a stream. ironicamente comendo de pé o lanche que lhe traz a mulher na hora do almoço. 8 U 16. 13132: “Bouvard is unfinished.632. distorcida pela necessidade em muitos aspectos: através de incontáveis lugares-comuns. e as questões do trabalho (ou do tipo menos ou mais infernal ou mortificante de emprego que se tenha. e que com custo logra fechar o dia sem dívida. # 58. ao padre barrigudo recitando o habitual e fastidioso sermão em latim no enterro de um conhecido) e do dinheiro (uma preocupação constante através do livro. permite aproximar Ulysses de Bouvard et Pécuchet. Ulysses is gigantically complete. por exemplo) e no geral portando sobre uma existência pacificada e sensual. reduz-se a constantes devaneios – às vezes desencadeados pela visão de algum tipo de mercadoria que fala à imaginação (uma caixa de chá do Ceilão. notably loom’s conversational outburst.542. em enoît adié. o que não se encaixa no esquema da vida produtiva monetarizada.] Those Cinghalese lobbing around in the sun. pp.”6).] it’s feasible and 96 ould be provocative of friendlier intercourse bet een man and man. 2016 annum. The Dial 1922). n°12. É o que.. 9 U 16. a esposa com quem não tem relações sexuais há anos. Molly. entre débito e crédito 7) guia a maior parte de suas reflexões.[-] www. “passionate abandon of the south”9).153. give one excellent ground for comparison. que culmina na contabilidade antes de ir para a cama. “Dublin’s prime favourite”10. Études anglaises. logo de saída. mas algo fortuito. em que se constata o equilíbrio perfeito. vol. All kinds of places are good for ads. quer dizer. “Paris Letter”.136.

traduzido na preferência culinária por miúdos – logo de entrada. U 4. Leminski). Mais adiante tentaremos determinar o estatuto e o significado de tal postura. Flowers of idleness.sinaldemenos. raramente resistindo às ofertas de gozo com que cruza pelo caminho. que protagoniza a parte inicial (“The Telemachiad”). de P. Influence of the climate. não com Bloom. ou dos sentidos primários. serve principalmente de contraponto à do mais jovem. 14 Cf. Por ora. lembremos que não é acaso se a narrativa abre. mas com o jovem Stephen Dedalus. ed.[-] www.”11) –. Too hot to quarrel. 2016 97 dolce far niente. na calada da noite. “Forma. bilíngue. é em grande medida escravo do próprio desejo. Bloom seria como que um duplo antitético (e U 5. É notadamente pela perspectiva marginal desta personagem que Joyce desenvolve e obtém a abrangência maior da situação geral por ele construída. observa de longe. São Paulo: Brasiliense. naquele contexto impossibilitado de perseguir a vocação literária e realizar suas ambições artísticas. Giacomo Joyce [1914]. Alvarenga.”12) –.57. Joyce narrara episódio semelhante. com os pés na lama. composta por três episódios. e delira com a perspectiva do leve sabor perfumado de urina impresso no paladar (“Most of all he liked grilled mutton kidneys which gave to his palate a fine tang of faintly scented urine. uma signorina de quem fora tutor de inglês em Triete. Raphael F. ao caráter a um tempo regressivo e inofensivo de certa estética antiburguesa contemporânea?). na primeira cena em que aparece (em “Calypso”). Numa palavra. Sleep six months out of t elve. Por estes poucos exemplos. da parte de Joyce. 1985. uma adolescente trocar de roupa em seu quarto. Embora Bloom figure na maior parte dos episódios do livro. texto não publicado em vida porque demasiado franco e pessoal. num belo poema em prosa. n°12. 72-73 (no original) e 28-29 (na trad. Cf. como já sugerido noutro texto 14. Not doing a hand’s turn all day. premido pela situação aparentemente sem saída em que se encontra. bem como no apetite sexual desregrado e na fascinação pelo verdor arborescente das raparigas em flor – pensa em quão fortunadas são as cadeiras em que se sentam as estudantes que vira na biblioteca e masturba-se ao enxergar por baixo do vestido a calcinha de uma jovem sentada na praia13. sua trajetória inercial e sem grandes sobressaltos. planeja preparar rins de cordeiro grelhados para o café da manhã. pastiche”. ou às eclosões intermitentes de uma vitalidade reduzida no mais das vezes a animalidade ou primitivismo (quiçá uma crítica subliminar. vol. fica claro que Bloom. James Joyce. da fruição imediata. 1. em que. Lethargy. nesta edição de Sinal de Menos.73. estilo. de teor impressionista e fragmentário. 11 12 . pp.org Ano 8. deixando livre curso à fantasia de uma interação sexual com a garota. 13 Anteriormente.

O contraste é de fato total: vai desde os trajes negros que ambos portam ao uso que fazem da cultura. mas apenas por uma questão de aparência (“I couldn’t go in that light suit.59. por exemplo. p. logo após o parto) lança uma luz de contraste sobre o brilhantismo desusado. tace [esquive-se. 344. a cor negra. da poesia e de todo o mais. bem analisados por Franco Moretti. encerraria a promessa de uma vida cuja possibilidade tudo à volta parece abafar. incide no uso diferenciado. recentemente falecida. que faz da cultura. A Portrait of the Artist as a Young Man [1916].”15). dissimule-se. § 229. 18 James Joyce. Paris: Fourne/Dubochet et cie. porém renitente. 1844. astucioso. 11. exile. do anti-herói shakespeariano a Baudelaire. sem falar em sua fixação mórbida pela figura de Hamlet. s. p.d. No seu caso. Feuillets d’Hypnos [1943-1944]. do moço em busca de um rumo para a vida. vol. Stephen havia como que traduzido a divisa – que o escritor francês vira inscrita nos muros de uma Cartuxa – da seguinte maneira: “silêncio. calese]!”17 No Portrait.org Ano 8. cujo prestígio tradicionalmente acompanha os poetas.. New York: Random House. Bloom. surda e subterrânea. La Comédie humaine. como que agonizando à espera do inesperado 16. ou provisoriamente incapacitado de agir. Ma e a picnic out of it. os U 4. cunning]”18.[-] www. a mentalidade a ela associada é a do homem de ação em gestação. Parafraseio aqui um belo fragmento poético de René Char. Tal luta. à concepção da vida. 2007. veste roupa escura num dia quente em função do enterro de um conhecido. Mesmo se. 2016 98 mais velho) de Stephen: a mediocridade eficiente do pai em busca de um filho que substituísse por assim dizer o que perdeu (o pequeno Rudy morrera 11 anos antes. como Stephen um jovem poeta provinciano com ambições de tornar-se um grande autor em Paris. exílio. astúcia [silence. Paris: Gallimard. late. e num contexto (como veremos) de luta ardilosa contra forças regressivas. de tous les paroxysmes. herói das Ilusões perdidas. ao passo que Stephen está realmente de luto pela morte da mãe. Son champ mental est le siège de tous les inattendus. pela força das coisas. Voltando ao contraste./Hetzel. 15 16 . p. em Fureur et mystère. embora sem se referir explicitamente a Balzac. Paddy Dignam. o lema cartuxano adotado por Lucien guia boa parte de suas ações através do Ulysses. o jovem dublinense tenha sido compelido a colocar temporariamente entre parênteses a realização das aspirações literárias e retornar à realidade provinciana da qual havia escapado. n°12. Diz ele em Splendeurs et misères des courtisanes (1838): “ ’ai mis en pratique un axiome avec lequel on est sûr de vivre tranquille: Fuge.” 17 Honoré de Balzac. Uma referência importante aqui é Lucien de Rubempré. 291. Son prestige escorte les poètes et prépare les hommes d’action. vol. 1. 141: “La couleur noire renferme l’impossible vivant.sinaldemenos.

Cardoso.641. eis a verdade que Balzac expõe impiedosamente com a ruína de Lucien de Rubempré. parecem nalguns momentos atingir o paroxismo no Ulysses: com efeito. Stephen e Bloom. 1968. aos sentimentos dos escritores. tudo se transforma em mercadoria”23. “ alzac: Les Illusions perdues” [1935]. a mercantilização da arte e da literatura. 104. mas no fundo inútil em termos sociais. Bloom respira e U 10. e a prostituição da arte e das ideias que a acompanha forçosamente. [. que abomina o fato de colocar suas ideias e convicções entre parênteses a fim de alcançar algum sucesso ou reconhecimento – que tal artista deva fracassar. da produção à recepção. L. à necessidade de produzir algo vendável. não custa lembrar). a qual não deixa de ser uma poesia degradada. Assunto chave do romance. 19 20 .sinaldemenos. em Ensaios sôbre literatura.”22) a fim de obter êxito comercial. 2016 99 modos com que as duas personagens. 23 Georg Lukács. visando tão-somente o logro e o lucro (palavras que têm a mesma origem no latim lucrum. o que não a impede de recorrer a formas esteticamente avançadas (“Now if they had made it round like a wheel. às ideias. recorrem à cultura também se encontram nas antípodas um do outro.] There’s a touch of the artist about old loom.] congruous with the velocity of modern life”21). Traço característico da geração pós-napoleônica na Europa. vol. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1. Bloom já não distingue arte poética e publicidade (“the modern art of advertisement”20). A capitalização do espírito. o publicitário de inteligência mediana passa por um homem cultivado. U 17. por isso mesmo uma linguagem mutilada. trad.org Ano 8. aos olhos de quem. a meia cultura (para usar o termo adorniano..234.. adaptada às demandas do mercado e ao ritmo acelerado da vida moderna (“a poster novelty [.. p. n°12.88-89. Que no capitalismo triunfante o poeta puro. já havia sido assunto de destaque em Balzac: “[da fabricação] do papel às convicções.. cujo talento literário é inquestionável.604. conquanto já se façam valer de forma violenta no universo balzaquiano. Halbbildung) encarnada por Bloom o é igualmente por grande parte das personagens (e do público leitor). F.”19). com “um toque de artista” (“He’s a cultured allroundman [. aliás. o artista de real talento e vocação – que vê como ignominioso o fato de dever se adaptar às demandas externas do mercado. Ao contrário de Stephen.[-] www. 22 U 5..] Something to catch the eye.. 21 U 17.

pp. Ocorre que. embora todo cuidado seja pouco.org Ano 8. 2007. Ideology. Paul Keating & Derry Desmond. Ensaio sobre a sociologia das formas literárias [1983]. 24 . Democracy and Dependent Development. além de não possuir quantidade significativa de carvão ou ferro. Hants: Avebury. Cormac Ó Gráda. 1993. B.[-] www. madeira e mármore.sinaldemenos. a dependência econômica e política da Inglaterra – que segundo Marx via no país vizinho apenas um distrito agrícola seu. A razão reside. p. a Irlanda ficou (ou foi deixada) para trás. apesar de estar inserido na dinâmica desigual e combinada do capitalismo mundial. 46. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Ireland. Chasing Progress in the Irish Republic. uma vez que. passou completamente ao largo da Revolução Industrial. dá ares de estar completamente amoldado. foi determinante para que os irlandeses perdessem por assim dizer o bonde da história – o que lhes custou caro. 237. seu alcance ainda não é total. 25 País majoritariamente agrário. trad. nos traços marcadamente comunitários ou pré-urbanos remanescentes num país que praticamente não se industrializou25 – por isso próximo a muitos títulos de um país do Terceiro Mundo –. Cambridge: Cambridge Univeristy. em parte. que matou nada menos que um milhão de pessoas e forçou milhões de outras à emigração nas décadas que se seguiram. Culture and Capitalism in Contemporary Ireland. M. para dizer o mínimo. p. 8 e 118. milho. A New Economic History: 1780-1939. uma comparação da situação da Irlanda de então com a o Brasil pode ser ilustrativa. de Medina. A capitulação final do sujeito – aqui algo tipificada com a personagem de um mediano publicitário pequeno-burguês. paradoxalmente na persistência do que poderíamos talvez chamar de “miséria irlandesa”. trigo. além dos textos conhecidos de Marx e Engels. 1994. forçado a adaptar-se incessantemente ao momento presente e nele dispender toda a sua energia – é indissociável de sua capitalização. Ou por outra: tal processo não se desenrola sem resistências. Oxford: Oxford University. em Signos e estilos da modernidade. A respeito. 2016 100 transpira a lógica mercantil como se fosse a coisa mais natural do mundo. n°12. gado. bem como de trabalhadores industriais e recrutas militares para as guerras imperiais –. como a brasileira. cf. em relação a uma economia baseada no trabalho escravo. ou da formatação do seu intelecto e imaginário em termos capitalistas. se não há dúvida de que a mercantilização do espírito e das condutas está no coração da prosa do Ulysses. A esta altura. 1994. no caráter atrasado da vida social e cultural da ilha à época. pp. ter incorporado até o último fio de cabelo a necessidade imperiosa de vender alguma coisa e se vender o tempo todo. 314-30. se lembrarmos da “grande fome” de 1846-1848. seu esforço para capitalizar cada coisinha em vista de sua potencial utilidade econômica”24. e John Kurt Jacobsen. vol. fonte de produtos como lã. Moretti ressalta com razão este aspecto “da ‘fisionomia intelectual’ de loom: sua vocação administrativa desesperada. vale dizer. abrindo um parêntese. há obviamente diferenças não negligenciáveis entre os dois contextos. Existem não Franco Moretti. “ longo adeus: Ulisses e o fim do capitalismo liberal”.

desnecessário dizer. Tal constituição subjetiva precária e descompassada. à manifesta degradação da realidade presente 26. como na maior parte dos países europeus. em razão de o trabalho vexar. a estreiteza mental ranzinza e a ignorância histórica. mas não chegava a ser vivido como simples impostura. 2016 101 obstante também algumas similaridades significativas. An Introduction. o filistinismo cultural e a opressão religiosa. a exuberância verbal e um senso de humor de tipo “swiftiano”. no caso da Irlanda.org Ano 8. Terry Eagleton. o sujeito não chegava a ter a consistência e a consequência que (pelo menos no nível das aparências) apresentava na Europa ocidental. vindo enredada a outros traços típicos (estes não necessariamente generalizáveis). cf. ao contrário do Brasil. mas também o pensamento escolástico. por ser trabalho escravo. vol.sinaldemenos. mordaz e iconoclasta. da combinação prática não velada de miséria material e formas modernas. impedindo que tal forma se tornasse ou fosse percebida como algo natural (no Brasil escravagista. Parte considerável da força e da vitalidade da prosa de Joyce vem daí. precisamente. 285-86. 26 . e de forma um tanto resumida. todo o resto caía sob o feitiço da mercadoria. num país e noutro. o impacto causado pela expansão da forma mercantil no Brasil fora. que dizem respeito ao processo social em descompasso das sociedades periféricas e que mereceriam um tratamento à parte. por exemplo. The English Novel. um distanciamento irônico em relação à esterilidade geral da existência. o qual tornava possível. o que entre nós era impossível.[-] www. 2005. mesmo se momentaneamente apenas. ainda assim. em função da mobilidade social diminuta. Oxford: Blackwell. em suma. pp. não era mera ideologia de segunda mão). que como o restante da Europa tinha mal ou bem um passado e uma tradição multissecular que lhe serviam de contraste (o catolicismo. um tanto mais avassalador do que na Irlanda. Em linhas gerais. n°12. na Irlanda. do fato de jogar ardilosamente estes traços “pícaros” do espírito irlandês contra os aspectos sórdidos e Para tudo isso. era decerto opressor. 1. digamos que. que era a única coisa que resistia à mercantilização. tirando o tempo de trabalho. ainda que apresente diversos níveis e feições. é algo comum a toda a periferia do capitalismo. Destaque-se. a estagnação e a monotonia. o dinheiro estava diretamente ligado à constituição subjetiva (e vice-versa) e a ética do trabalho (ligada à disciplina religiosa) havia sido de certo modo interiorizada. da ausência relativa de complexidade social e sobretudo do descompasso geral regendo a vida social e ideológica. incluindo da figura do trabalhador escravo).

Joyce obtém uma perspectiva vantajosa. que não é boa. não porque proponha uma volta atrás ou uma solução. Deasy (protestante antissemita que abraça tipicamente o espírito do capitalismo). da mercadoria não colonizassem por completo. embora tampouco sejam completamente livres ou espontâneas) como para.sinaldemenos.” 27 . estando em determinados momentos e de diferentes maneiras em desacordo com a condição dada (com a posição social que deveriam ocupar. da vida das ideias) aparecem.. o Cidadão (típico nacionalista reacionário). mas não que a grandeza das Luzes continuasse viva nas especulações da Bolsa. Ao colocar no centro de sua narrativa a Dublin do início do século. isto é. Nas palavras de Roberto Schwarz. p. Stephen não é apenas um jovem literato típico27). n°12. vol.. de grande envergadura e alcance. Haines (encarnando as típicas mentalidade e atitudes do colonizador inglês). em maior ou menor grau. a função que se espera que exerçam). 2016 102 paralíticos da sociedade irlandesa – e o leitor brasileiro não deixará de notar que lineamentos semelhantes (da vida social. e não deixa que o fetichismo se complete. São Paulo: Cia. Operando ao mesmo tempo dentro e fora do fetiche do capital. [.. da forma mais cabal. a vida cotidiana. em Seqüências brasileiras. expor o lado não mercantil (e supostamente inocente) dos negócios28. Assim. avançada em termos de formalização da matéria histórica. embora chegue deveras perto disso. o que não há de ser mera coincidência.[-] www. [. como se este não fosse ainda absoluto. Bloom e Molly não são apenas um casal pequeno-burguês típico. 1. como se a decomposição em curso (a destruição da cultura pelo capitalismo) não fosse ainda total. Tal perspectiva. duplamente crítica e radicalmente moderna. um passo aquém da delegação completa da energia social ao mercado.] Brecht queria mostrar que algo de Bocarra já existia no Fausto. nos narradores dos romances machadianos da fase madura. do trabalho. como se as abstrações reais do dinheiro. ou seja.. ou em todo caso Ao contrário de outras personagens mais explicitamente estereotipadas. em seguida. a narrativa abre espaço tanto para se imaginar condutas não de todo capitalistas ou não inteiramente mercantilizadas (que por essa razão escapariam à previsibilidade sociológica dos papéis e grupos sociais. das Letras.] O resultado é uma iluminação de viés. a vizinhança escarninha do presente com as glórias peremptas da ordem burguesa segue nos interrogando. e personagens que de um jeito ou de outro refletem as suas contradições (contrariando as evidências. 148: “Ao encharcar de clássicos o mundo das negociatas [em A Santa Joana dos Matadouros] Brecht preferiu ficar na penúltima etapa da fetichização. ou ao mesmo tempo. que faz ver a face não mercantil dos negócios. mas pela evidência de fraude que proporciona.org Ano 8. como Buck Mulligan (irlandês típico). ou o Sr. dificilmente poderia ser elaborada ou obtida da mesma maneira no centro do capitalismo. que o capital pareça ser apenas capital. “Altos e baixos da atualidade de recht”. 1999. 28 Haveria aqui um paralelo interessante a ser traçado com certa estratégia estética brechtiana.

pp. sob o signo da doença e da morte (cólera. tal como a infame basílica do Sacré-Cœur de Montmartre. sobre o rio de sangue da Comuna): naquele contexto. que perambula a personagem de Stephen. da fome em massa e da escravidão. é uma figura marginal não apenas na economia geral do livro. nariz arrebitado e olhos amendoados). que não raro conjuga vitalidade e morbidez (a beleza apolínea de um adolescente polonês. São Paulo: Scortecci. ou sociedades alternativas apartadas da civilização capitalista e da história efetiva (uma colônia de férias no balneário veneziano. como peça fundamental da ordem (literária como social) estabelecida. # 2 (2009). para cuja narração. de espetacularização da existência. por exemplo. A inadequação de Stephen – que. teve de imaginar heterotopias. racismo/antissemitismo estrutural. Desejo de ruptura. geralmente na forma do erotismo ex tico. 1. com as quais põe em cena o pacto firmado entre a burguesia e o que restou da aristocracia para formar a nova República francesa (construída. Raphael F. em contraste com Bloom.sinaldemenos. a sensualidade felina e “lânguido-asiática” de uma ovem russa. e por isso mesmo revelava num caso e noutro aspectos de sua essência monstruosa (não somente os episódios inglórios. F. 30 A respeito. um sanatório enfurnado nos alpes suíços. um estúdio de artista no campo bávaro). Alvarenga. muito mais do que em Telêmaco – fora dos gonzos. a um tempo retrógrado e parte do mundo moderno. vol. no entanto. a ponto de ele não coincidir mais consigo mesmo ou com o tempo presente. Em contraste. É portanto no seio de um contexto social e histórico esdrúxulo. Thomas Mann. Por diferentes que fossem as duas nações em questão. ela o A fim de expor o não-idêntico da sociedade e da cultura burguesas moribundas. em que as relações do sujeito com o mundo e com outrem já eram mediadas de forma radical pelo capital. as quais. em quem a personagem é em grande medida inspirada. só restava ao narrador proustiano reviver a vida sob o prisma da memória involuntária. de modo que não poderia mesmo figurar no centro da narrativa. o que o obriga a romper decisivamente com o andamento progressivo do enredo realista do século precedente. 29 .[-] www. não custa lembrar. típicas do século XIX. a Recherche de Proust teria maior alcance crítico justamente porque trabalha com duas peripécias históricas. mas também no nível da própria trama. cf.. tuberculose. “As vestes negras de Hamlet”. a figura enigmática de uma prostituta húngara de pele morena. bem como da tentação “diab lica”. em vias de ruptura com a condição dada30. retomado em R. o autor lançou mão de formas literárias antiquadas. 2016 103 em lugares menos atrasados do ponto de vista do capital 29. 2012. seriam regidas por uma temporalidade distinta da do capital. pp. Sinal de Menos.. sífilis). Alvarenga. só pode ser divisada sob o prisma do modo com que a unidade dialética de sujeito e objeto se configura ou toma forma naquele contexto determinado – o diferencia e distancia progressivamente das demais personagens. 15-37. mas. o contexto bárbaro de luta de morte generalizada.). o capitalismo não se fechava por completo nem na Irlanda nem no Brasil – razão pela qual a formação do sujeito – estruturalmente homóloga à formação histórico-social – tampouco se fecha. que. no plano social. em função de estar – à maneira de Hamlet. n°12. ficando este a meio caminho da constituição burguesa clássica. elevado nível de fetichização.org Ano 8. outrossim. aparecendo significativamente menos. 84105. uma vez que já nasce decomposto –.

e permanece “artificialmente estranho ‘atrasado’. por exemplo).” 34 U 1.. apenas insinuada).. Já Stephen.org Ano 8. the Citizen “Cyclops”). 2016 104 aproxima e distancia de Bloom. art. não é num caso e noutro de mesma ordem. Mr.. Judeu não de todo praticante (não é circuncisado. por assim dizer) em relação às condições sociais dominantes”32. que estudou um tempo fora. A Portrait of the Artist as a Young Man. e luta internamente para se libertar das malhas mutiladoras das três principais instâncias de poder autoritário sobre as quais se discorria já no Portrait33 e que são nomeadas logo no início do Ulysses (as duas primeiras mais ou menos explicitamente. cit. Dirigida a Haines. de origem estrangeira (seu pai era húngaro). vol. 31 . como veremos. embora interaja polidamente com todo mundo. o odiável (como o indica o próprio nome) interlocutor inglês – e de fato. ed. a saber: a Igreja católica apostólica romana.”34). Mulligan “Scylla & Charibdis”). em cada caso. [.26. 1. an English and an Italian.] there is who wants me for odd jobs. sente-se pour cause um estrangeiro no próprio país. no caso. Deasy “ estor”). A primeira aproximação.sinaldemenos.[-] www. deve-se portanto à posição deslocada que ambos ocupariam no seio da sociedade dublinense. 32 Franco Moretti. no nível da forma. pelo contrário: uma chave para entender o Ulysses está precisamente na capacidade de diferenciar e elucidar.. p. de que dão mostras várias personagens: Haines “ elemachus”). sentindo na pele e cotidianamente o peso do preconceito e da intolerância num país predominantemente católico e num contexto em que o nacionalismo fervoroso e o renascimento cultural celta ganhavam força31. p. o Estado imperial britânico e a causa nacional irlandesa. no melhor estilo swiftiano.. a terceira. Acontece que tal posição. como não cessa de frisar a crítica. 33 Cf. encarnando do nacionalismo tosco a um ferrenho antissemitismo.] And a third [. por sua vez. 231. os quais.. “ longo adeus”. a cultura irlandesa Ulysses nesse sentido não deixa de ser uma sátira mordaz. ideológico) em jogo na trajetória das personagens principais. para o colonizado. de ponto de vista e estilo. Stephen said. cit. têm a ver com os deslocamentos narrativos. que Stephen (assim como Joyce) julgava em parte regressiva (“I am servant of two masters. n°12. da pequena burguesia preconceituosa de Dublin. Skin-the-Goat “Eumaeus”). um representante da potência colonizadora que estuda e se interessa pelos costumes do povo dominado. faz com que simpatize com a figura do judeu errante e rejeitado pela sociedade da qual tenta se libertar e sinta certa repulsa em relação à obviedade pequeno-burguesa do publicitário. James Joyce. os tipos de deslocamento (existencial. 238: “When the soul of a man is born in this country there are nets flung at it to hold it back from flight. social.. Bloom não se enturma facilmente.

e por isso. James Joyce. pp. patrão. 2016 105 nativa. aí também. não remetendo a uma identidade cultural prévia. na última cena em que figura (no penúltimo episódio. James Joyce. “Bringing to tavern and to brothel/ The mind of witty Aristotle”36). Stephen havia bradado com sobrançaria que não serviria a autoridade nenhuma35. dando vazão a uma postura geral quase anarquista (anticatólica. The Portable James Joyce. Stephen e Bloom. o desajustamento de Stephen diz respeito antes à posição do intelectual e artista não conformista. ed. aristotélico-tomista: “Steeled in the school of old Aquinas”. qualquer que seja (pai biológico ou simbólico. 291. rei ou pátria). Levin (org. antinacionalista). como indicado. no entanto. p. Deus.. conquanto seja. New York: Viking. a frase é carregada de mordacidade. 1. ao passo que Stephen. “Ithaca”). não apenas no interior de condições capitalistas de produção. tem uma abrangência considerável. Mais significativo. em contexto de modernização conservadora. digamos.org Ano 8. uma constatação autocrítica se lembrarmo-nos que no livro anterior. Porque se ambos. Não sendo identitário como o de Bloom. entretanto. Com desejos e projetos próprios. a recusa da hospitalidade de Bloom – que oferecera ao jovem uma cama para passar a noite – marcaria exemplar e simbolicamente a rejeição final da vida sob a asa de uma autoridade externa. n°12. Igreja. 36 . pode ser extremamente irritante –. antiautoritária. e cuja significação. alguém com quem talvez fosse possível fazer 35 Cf. mas. embora tais razões obviamente contem bastante. Já se chamou a atenção para o fato de que. periférico. tomou uma rota de fuga. à primeira vista. a ancoragem profunda em si mesmo faz com que o jovem poeta se coloque em constante situação de atrito com o existente e com a própria posição que ocupa (ou deveria ocupar) no seio deste. 1947. apesar de mais ou menos rejeitado pela sociedade. “ he Holy ffice”. aliás. 659 e 657.[-] www. antibritânica. ou seja. uma tradição de cunho. além disso.sinaldemenos. vol. ao mesmo tempo.). colonizado. me parece o repúdio implícito a tudo o que Bloom. cit. ou pelo fato de a sua ser manifestamente uma cultura de oposição. evitam por exemplo voltar para suas respectivas casas. A Portrait of the Artist. em H. O descompasso e o estranhamento presentes não se dão apenas por representar uma tradição intelectual antiquada (como o próprio autor. ao que parece sem volta. através de negações parciais e pequenas e discretas rupturas. ainda adolescente. como em todo o resto. as razões diferem: Bloom evita a confrontação doméstica com o fato do adultério de Molly.

melhor adaptado aos novos tempos37. 38 Franco Moretti. sorte de alegoria da Irlanda da época e da pequena burguesia de modo geral. Em claro contraste com a do artista Stephen. p. encontrará condições sociais e culturais. como já dito antes. único a realmente passar por uma transformação digna do nome. cit. em comparação. London/New York: Verso. O dia. a única mudança que sobrevém no cotidiano de Bloom é. 232. 1. como de hábito. o caminho do exílio voluntário no velho continente. é como outro qualquer para praticamente todo mundo. The Way of the World. na medida do possível. não ideais. onde. a própria contradição encarnada: pacifista convicto. Stephen. vol. mas antes a mentalidade pequenoburguesa. em contrapartida. dos sonhos de fuga da prisão da vida burguesa. não uma autoridade paterna suplente (impossível ao final levar a sério tal interpretação). paradoxalmente anuído e conformado. conformista. 2016 comunidade. passando todo tipo de provação e privação. Sbragia. A.org Ano 8. contra toda forma de violência (“I resent violence or intolerance in any shape or form. que tem a ver com toda a sua história e formação. caracterizando-se ainda pelo descompasso e o isolamento. bem ajustada. A despeito de todo o devaneio. art. mas mais favoráveis (além do distanciamento necessário) para trabalhar em sua obra. em lugar de ele servir à mulher. visa doravante levar a existência. 244. de “amizade”) e seguir de forma coerente o destino traçado pelo próprio Joyce. que o levam a cortar pelo caminho vários laços (familiares. por isso mesmo mais flexível e maleável. embora a duras penas. bem como por um tipo peculiar de “inconformismo”. Bloom é. “nem dependente nem independente por completo”38. p.”39). The Bildungsroman in European Culture [1987]. do desgosto mais ou menos consciente com a vida morna e insossa que leva. empregatício. autocomplacente. a personagem é desde o início marcada pela ambiguidade de sua posição social. 37 . mas certamente não para o defasado Stephen. vale dizer. 2000. inclusive para Bloom. preferindo ao invés. trad. 39 U 16. em seus próprios termos. a perspectiva do judeu Bloom é ao mesmo tempo marginal e central. quando colocado contra a parede se esquiva como pode e não deixa claro se concorda ou não com a pena capital.564.sinaldemenos. sujeito descentrado. “ longo adeus”. no fundo representa.106 [-] www. n°12.. com efeito. assaz ridícula. consistindo numa pequena “vitória” doméstica: antes de se deitar pede a Molly que lhe traga o café na cama pela manhã. após versar sobre as razões e os porquês e os embustes e Como bem notou Franco Moretti.

44 U 16. sem exceção.” 40 41 . tampouco são indivíduos à moda antiga. “ longo adeus”. art. que acaba de completar quinze anos. todos. sonhando acordado com uma existência exótica ociosa.[-] www. together. [. Bloom e a maioria das demais personagens pertencem à pequena burguesia e exercem profissões liberais (as classes subalternas não aparecem senão episodicamente: uma velha camponesa. que nunca chegou de fato a se instaurar na Irlanda. o oposto do ódio (“Love. ‘selfcompelled’”43). vale dizer. por ser judeu e de origem estrangeira. idealmente. the brain and the brawn. que pode entender e controlar um mundo com o qual perdeu para sempre o contato.sinaldemenos. ele acredita. indivíduos decididos e donos do próprio nariz. do apelo à generosidade aos programas sociais. 42 U 13. um operário na prensa do jornal..374. típicos da era concorrencial do capitalismo liberal.org Ano 8. incomodado com o desabrochar da sexualidade na filha adolescente. Franco Moretti. deveriam trabalhar duro na construção de uma grande nação (“All must work. 235: “Par dia do iluminista pensante. cit.. Each equally important. marujos). p. have to. sobretudo a incongruência ideológica: por não ter lugar bem definido.331..] both belong to Ireland. 45 Cf. por manter-se absolutamente fiel à ortodoxia liberal. n°12. Apesar de destoar dos demais de sua classe – definida como se sabe antes de tudo pelo modo como se insere no sistema produtivo e a posição que ocupa nas relações sociais de propriedade vigentes –. defende com ardor uma sociedade do trabalho baseada no princípio da meritocracia. 43 U 17. trabalhando com afinco para realizar algum empreendimento pessoal ou coletivo de porte.”41). loom é capaz de sair-se com lugares-comuns sobre qualquer assunto: do conceito de nação às relações entre os sexos. sente-se sexualmente atraído por meninas da mesma faixa etária que ela (“I begin to like them at that age. por assim dizer artífices da própria história – embora isso subsista como resíduo ideológico. Green apples.”42). says Bloom. U 12. ou por ocupar um lugar ambíguo e instável entre as duas U 12. meretrizes.”44). na forma da ilusão ou da pretensão de se estar no controle da própria vida 45. Ademais. pregar o lugar-comum cristão de uma vida fundada no amor universal. vol. Milly.565. intelectuais e camponeses. 2016 107 aleivosias (“and of course Bloom comes out with the why and the wherefore and all the codology of the business”40). bem como o fato de que. idealizando com deleite uma vida errante e autodeterminada (“Ever he ould ander.302. 1. Bloom partilha não obstante diversos traços pequeno-burgueses.648. I mean the opposite of hatred.

Por outro lado. avançado e subdesenvolvido.org Ano 8. n°12. Escritos estéticos e políticos. ela se divide entre o sonho de uma ascensão social. 2016 108 classes em luta. Entrou nos domínios ingleses sem realmente integrar-se neles.sinaldemenos. a qual. de levar uma vida de rei. 2012. ou seja. unicamente para depois se ufanar deles.”46 A propósito. p. 1. D. no caso do contexto semiperiférico irlandês os deslocamentos ideológicos são produzidos. vale ainda citar por extenso o juízo passado pelo próprio Joyce: “Por sete séculos..[-] www. em De santos e sábios. alimentados e reforçados por uma forma de modernização conservadora – que muito embora distinta da nossa. equidistante tanto da subordinação embasbacada à cultura do colonizador quanto do regressivo discurso romântico de retorno às origens e rejeição em bloco da civilização moderna (muito embora Joyce tampouco ficasse em cima do muro quando estava em jogo a luta pela independência irlandesa. pela conjunção incongruente de regimes normativos antagônicos e no mais das vezes incompatíveis. vol. nota-se a perspectiva internacionalista do artista e intelectual periférico e exilado (duplamente deslocado). Serviu fielmente a um patrão apenas. não deixa de guardar. um pensamento coerente e estruturado. como dito. Embaralhando mais ainda as coisas. trad. James Joyce. tampouco tem sido fiel a si mesma. [. porém. pelo fato da submissão superficial daquele povo a uma cultura alheia em contexto de total subordinação política e econômica a uma potência estrangeira. ed. Abandonou quase totalmente sua língua e aceitou a língua do conquistador. ela [a Irlanda] jamais foi súdito fiel da Inglaterra... a classe média historicamente não costuma apresentar ideias consistentes. O lugar era a um tempo europeu e uma colônia. a Igreja católica romana. São Paulo: Iluminuras. “ cometa do Home Rule” [1910]. 226. sem ser capaz de assimilar sua cultura nem adaptar-se à mentalidade de que essa língua é o veículo. W. cit. 292. de sustentar os ideais e valores mais nobres e elevados conjuntamente aos desígnios e práticas mais desumanos e abjetos. brasileira. Como destaca um crítico: “A Irlanda da época era ela mesma uma mistura do novo e do velho.] Obrigou seus criadores espirituais a exilar-se. do Amarante. 46 47 .”47 Por trás de tais palavras. e o horror de ser identificada com ou rebaixada ao nível do proletariado. The English Novel. certas afinidades com a mesma –. as forças da modernização florescendo lado a lado a formas culturais frequentemente bastante tradicionais. a qual Terry Eagleton. p. costuma pagar seus fieis a prazo. ela é capaz de defender ao mesmo tempo as causas mais progressistas e as mais regressivas.

Joyce pinta Stephen inequivocamente como um proletário. ou um pobre trabalhador da cultura. vol. José Antonio Pasta. Cortázar.org Ano 8. deslocar a posição originalmente deslocada. n°12. Stephen menciona em seu diário. a buc ’s castoff nebeneinander. cit. 49 As botas com que palmilha as areias de Sandymount Strand. 48 . professores) dublinenses.sinaldemenos. 298). Conrad. do qual me inspirei bastante. Pandaemonium Germanicum.”). mas também Oswald. pp. é tal perspectiva de um duplo deslocamento que permite apreender a verdadeira dimensão crítica do uso profanador que Joyce faz da língua inglesa e dos mais diversos estilos literários. de forma oximoresca. repulsa alentada pela profunda admiração do jovem artista por figuras como Giordano Bruno e Ibsen –. ed. U 3. suas “new secondhand clothes” A Portrait of the Artist. # 4 (2000). ao arrumar as malas para a viagem de estudos a Paris. Tal perspectiva é reforçada pelo fato de ficar sugerida. retrógrado. Trazida pela situação lacerada do artista e do intelectual em contexto periférico. tanto os então em voga como os consagrados pela tradição... Lowry.[-] www. Drummond. 2016 109 costumava defender explicitamente). Mário. cf. que não escondem certo desdenho mofador. (sem falar nos brasileiros. como um escritor communard (lembremos que o próprio Joyce se definiu durante muito tempo sem rodeios como um artista socialista). James. ou um posicionamento político claro de parte Para um bom artigo nesse sentido. ou em todo caso digladiando com problemas análogos. ou regressivo.. tendo de conjugar o tempo todo exigências incongruentes e igualmente incontornáveis. dinamizada em seguida pelo exílio. o qual possibilitava ao artista periférico. ela permite ademais. que não possui nem as roupas que usa49. pertenceram anteriormente a Buck Mulligan (cf. e que ademais é visto pelos colegas intelectuais (jornalistas. 1. pós-burguesa. p.. pressagia de certo modo uma ordem nova. além de tudo. algo que salvo engano nunca foi devidamente trazido à tona pela crítica: apesar do individualismo recalcitrante – da visceral e altiva aversão aos movimentos desatinados da turba. Machado obviamente. Acresce que a recusa em aceitar a chantagem da falsa alternativa entre nacionalismo ufanista e mentalidade de basbaque colonizado – recusa que no Ulysses aparece no nível do assunto (com a personagem de Stephen) quanto no da forma geral do romance – abre espaço para algo distinto e sem precedentes. o que me parece ainda mais significativo. 19-26. discernir afinidades eletivas entre escritores em situação semelhante.) 48.. “ recht e o rasil: afinidades eletivas”. como Ibsen. He counted the creases of ruc ed leather herein another’s foot had nested arm. Kafka. Brecht. por assim dizer. por exemplo. a politização da arte. note-se ainda que no final do livro precedente. uma solidariedade possível com os de baixo.54-55: “His gaze brooded on his broadtoed boots. Beckett.

bem como da resolução necessária para acarretar uma mudança efetiva na vida que leva. Sua diferença específica consiste justamente no fato de não conseguir se desvencilhar da culpa. resumindo. o qual incide sobre a forma que o artista dá à sua obra (ou sobre a construção dos pontos de vista que a enformam).sinaldemenos. de uma vida não Cf. Ästhetische Theorie [1970]. que por sua vez é dupla: sente-se corroído pelo remorso de. mas no caso do primeiro a aspiração a tal vida vem dissociada da reflexão sobre as condições de vida atuais. 1982. de outro. trad. Em contrapartida. e ansiedade e culpa. tal inequívoca tomada de partido faz com que a obra de Joyce.: Suhrkamp. os procedimentos técnicos empregados e a reapropriação dos estilos existentes são pouca coisa. R. ou nada. p.] that a political conscience would give his work distinction.. de um lado. em menor ou maior grau. estando por isso – ao contrário das aparências e das pseudoevidências acadêmico-midiáticas – muito mais próxima da de um artista como Brecht do que da de um Robbe-Grillet da vida. 367. a paralisia histórica etc.” 51 Theodor W. Voltando já não sem tempo ao texto. 1984. que Bloom e Stephen. o trabalho artístico de enfrentar a naturalização dos processos objetivos. London/New York: Continuum. suporia a tomada de partido consciente em prol de um futuro diferente.[-] www. vale dizer. 50 . 2016 110 do artista. Hullot-Kentor: Aesthetic Theory. não tem nada a ver com a posterior tosqueira jdanovista. ao tornar-se efetivamente “uma força estética produtiva”51. Acontece que sem o olhar político sobre a matéria histórica. Richard Ellmann. não ter atendido à última vontade da mãe no leito de morte (que se ajoelhasse e rezasse com ela). p. 2004. a reificação da práxis social. Moretti tem razão em sublinhar a dissociação entre possibilidade.. xford: xford University. Frankfurt/M. Isso não significa que tenha submetido a obra a uma causa social ou visão política particular. 1. 322.org Ano 8. embora se refira a uma outra época. têm o pressentimento de que a vida verdadeira se encontra alhures.. n°12. Por outras palavras. as he thought it had given distinction to the work of bsen and Hauptmann. a seus anseios e projetos mais caros e pessoais. vol. ao mesmo tempo em que se sente culpado por trair ao próprio desejo. no caso claramente à esquerda do espectro político. da possibilidade da produção pelos homens de um destino seu. Em suma. em fidelidade a si mesmo. digamos. Adorno. 197: “He thought [. a possibilidade de uma história diferente. ainda nos diga respeito e possa ser relida de forma renovada e produtiva. seria ao ver do autor incontornável se quisesse dar à sua obra uma maior abrangência e consistência50. Ocorre que Stephen não se encaixa bem no esquema. p. a qual despontaria como um dos pontos de fuga da obra. James Joyce [1959].

Alvarenga. 1. o sujeito isolado se torna objeto para si mesmo. 2016 111 alienada. a vida nua. Frankfurt/M. Tchékhov. L. diga-se de passagem. mais apropriadamente de vida mutilada ou danificada (beschädigte Leben) –. O teatro do russo revela a discrepância entre a forma tradicional do drama e a forma (épica) que estavam a exigir os novos conteúdos. ou em todo caso constrangidos a sê-lo. em contexto preciso. primando uma objetividade passiva. ultrapassa o escopo do presente texto. uma vez que a interioridade das personagens segue sendo exposta através de sua objetivação (notadamente através do juízo passado pelas próprias sobre a vida pretérita). essa “condição de loom”. como avatar da comunidade por vir. que transcende a esfera intersubjetiva do diálogo. que ho e “Nous sommes tous des Bloom”. se torna impossível. Théorie du Bloom. as relações intersubjetivas são abolidas ou vistas exclusivamente através da lente subjetiva de um eu central. Duarte & Raphael F. Tiqqun. desprovida de forma ou subjetividade – o que Adorno. “Entre ruína e desespero: negação e constituição do su eito em Robert Kurz e Slavo Žižek”. sem exagero ou ironia. e a vida ativa presente dá vazão a uma vida de sonho. ou da posição algo ambivalente de Giorgio Agamben neste ponto cf. não produz culpa nem angústia num nível além do suportável. em vez do presente. a vida já completamente desvitalizada foi reduzida em todos os aspectos à exigência objetiva do permanente empreendedorismo de si. 1979. Sinal de Menos. vol.sinaldemenos. Torino: Bollati Boringhieri. tornou-se por outras palavras uma metonímia para o drama de uma vida sem drama – já prefigurado e exposto de diferentes formas nas obras de autores como Ibsen. Vejamos por alto algumas delas.: Suhrkamp. da teoria do coletivo em questão (Tiqqun). De fato. A questão. não havendo saída senão na revolta. mas conteúdo vago dos devaneios de Bloom. 2000. Não por acaso. 1966. é positivar de certo modo. desde que Ulysses foi publicado. em particular pp. G. “ iqqun de la noche” [2001]. na explosão coletiva de indivíduos desesperados. presente e passado já não se distinguem. e surpreende que não tenha sido mais bem explorada pela crítica. o diálogo se esfacela. # 9 (2013). salvo má leitura nossa. Theorie des modernen Dramas [1956]. nada que o force a repensar com consequência e radicalidade a sua insossa e mutilada existência. remeteria a Cláudio R. 34-38. domina o passado. muito embora a representação deste seja problemática. do sujeito dessubjetivado das sociedades atuais. tanto pode ser fonte de esperança como de desespero e angústia). As questões formais com que lidam tais dramaturgos são realmente muito semelhantes àquelas com que teve de se defrontar o irlandês na composição do Ulysses. Torino: Einaudi. O problema. No drama analítico do norueguês. constitutiva das considerações de Stephen. Paris: La Fabrique. Maeterlinck e Hauptmann. No drama estático e fatalista do belga é a própria ação que é abolida. em La communità che viene. 92). n°12. literalmente diálogo de surdos. oscilando entre recordações e aspirações utópicas sem qualquer efetividade. circunstâncias políticoeconômicas que transformam os homens em vítimas impotentes. nos dramas sociais do alemão. testemunha passiva e indiferente de sua própria despossessão espetacular52. na esteira de autores pós-estruturalistas. trad. e merece desenvolvimento à parte. o nome “Bloom” acabou virando uma espécie de metonímia para a vida bovina. evidentemente. diante da morte. pp.. 24-59. algo que o neoliberalismo tornaria norma mundial.[-] www. Strindberg. determinados que são da forma mais cabal por fatores externos. o qual não resolve mais nada. dependendo da situação. Cf.org Ano 8. 2008. dos quais Joyce era ávido leitor53 –. no caso do publicitário não compromete suficientemente a realidade posta.. a ponto de podermos dizer. Todo esse movimento e seus desdobramentos são analisados no estudo notável de Peter Szondi. 53 A influência de tais autores sobre a démarche estética de Joyce é imensa. ditas pósindustriais.: Teoria del dramma moderno: 1880-1950. Ainda que tratando de outros autores. p. vale dizer. figura um grupo anônimo de homens reduzidos ao mutismo. No drama de estações do sueco. Por fim. as forças anônimas da sociedade aparecem explicitamente em tensão com os destinos individuais. que ao contrário do que muitos creem não fetichizava o estado de indeterminação nem a não-identidade (a indeterminação. chamava. 52 .

seja em mero suplemento (no mais das vezes indissociável do universo do consumo mercantil) para a insignificância geral de uma vida alienada: os sonhos. de que no fundo não passamos de criaturas regidas e escarnecidas pela frivolidade55. sem dúvida importante.112 [-] www. é o que mal ou bem procura fazer Joyce com Stephen. p. 1.. Correndo paralelamente à vida real. caso fosse reinterpretada e reconstruída criticamente à luz das contradições reais. sem grandes surpresas. é que o significado desta já “não é mais buscado no terreno da vida pública. “Araby”. não se convertem mais em planos.” . da política e do trabalho. n°12. ajuda a aguentar o tranco sem enlouquecer. o devaneio. em Signos e estilos da modernidade. vol. do mesmo modo que a nostalgia não incita ao movimento. por trás desta desdramatização radical da vida. por seu turno. resoluções ou escolhas decisivas. neste contexto. ela só deixaria de ser uma ideia en porte-à-faux. algo por que lutar e trabalhar para além da sobrevivência assalariada e da perspectiva magra do consumo de “bens” desoladores. conflitos. ed. “ feitiço da indecisão”. para falar como Brecht. Genova: Cideb. partilhada por uma outra personagem de Joyce. deixando Bloom um pouco de lado. o instantâneo. trataremos agora de acompanhar mais de perto. James Joyce. redundando seja em obstáculo. e que por isso mesmo não deixa marca durável na memória nem permite projetar o que quer que seja de diferente para o dia de amanhã. reduzida com frequência a mero supplément d’âme. Se não estou enganado. em Dubliners [1904-1906/1914]. Desprovida de propósito. 47: “Gazing up into the darkness I saw myself as a creature driven and derided by vanity. 1995. Um ponto. cit. que se pereniza na medida em que passa incessantemente sem realmente ficar para trás. Daí a impressão amarga. uma ideia suspensa no ar.” –. a vida cotidiana é vivenciada como algo em si mesmo vão. Mas o horizonte do consumo é o presente contínuo. Cf. a promessa de uma vida livre não ameaça suficientemente o estabelecido. não é levada a sério.. migrou para o mundo do consumo e da vida privada”54.org Ano 8.. inteiramente dominada por forças e processos anônimos.sinaldemenos. and my eyes burned with anguish and anger. e desconectada dos trâmites mundanos. desde que brando. *** 54 55 Franco Moretti. p. 287. vale dizer. poderíamos dizer na esteira de Roberto Schwarz. se inserida em situações formativas concretas. no caso. vale dizer. cujo percurso. se exacerbada – como na canção de Chico Buarque: “Mas pra que sonhar se dá/ O desespero de esperar demais. A imaginação. 2016 uma vida.

Your absurd name. Exortado a se juntar ao desavergonhado Buck Mulligan lá em cima. Daedalus (como Joyce ainda grafava em Stephen Hero) é a transcrição latina do grego Daídalos (“astucioso”).10. mas mais por ser indigno daquele que ora o porta. “dar acabamento”. “obra de arte”) e daídalos (“trabalhado com arte”. operar por si mesmo [to auton ergon]. o nome Dédalos está ademais associado ao antigo sonho de uma produção automatizada.9. eis como a prosa do Ulysses desponta desde o introito. este foi a seu turno. Alberto Pérez-G mez. AA Files. com efeito. auxiliado por Ariadne. A cena que abre o livro e o episódio conhecido como “Telemachus” tem lugar no alto da torre Martello. 376]. Françoise Frontisi-Ducroux. faz aparição tímida no terraço que dá sobre a região circunvizinha e as montanhas que despertam no horizonte. Ícaro. “ he Myth of Daedalus”. não passando de escárnio aos olhos do outro. Antes de retornarem ao interior da torre. que contou com a ajuda de Dédalos. 1253 b 32: “Se cada instrumento. Dédale. dizendo a que veio. Paris: Maspéro. escultor e inventor de Knossos. pudesse. vertical. 2016 113 “Stately. Princenton: Princenton University.”56 Imponente. pp. na visão que paira sobre o mundo lá fora como num sobrevoo. diz o poeta. plump Buck Mulligan came from the stairhead. e os mestres. O escopo totalizante é manifesto nesta primeira cena do livro. 58 Cf.org Ano 8. no Menon (97 d) e no Eutífron (11 c-e). possivelmente relacionado ao verbo daidállò (“trabalhar artimanhosamente”.[-] www. se as lançadeiras tecessem sozinhas. os empreendedores prescindiriam de operários. Mythologie de l’artisan em Grèce ancienne. he said gaily. Morris. juntamente com o filho. Dédalos fora o arquiteto do famoso labirinto em que o Minotauro era prisioneiro. condição segundo Aristóteles da democracia radical e universal59. ao receber ou presumir uma ordem. ‘chegavam por si s s [automatous] à assembleia dos deuses’ [Ilíada. onde se aloja no momento a personagem de Stephen Dedalus. an ancient Greek. “ornar”. Após a morte deste por Teseu.sinaldemenos. no sentido de “aparar”. Mulligan faz troça do sobrenome do outro: “The mockery of it. 59 Cf. 49-52. de escravos. “embelezar”).” Referências às estátuas de Dédalos figuram igualmente em Platão. mal-humorado e sonolento. como as estátuas de Dédalos. “trabalhado em relevo”)58. Na mitologia. # 10 (1985). . Política. já conhecida de outras histórias. não em si mesmo. bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed. XVIII. n°12. os quais. 1992. o ex-seminarista. aprisionado na torre do labirinto a fim de que seu grande e ameaçador U 1. 56 57 .”57 O nome seria absurdo. 1975. Daidalos and the Origins of Greek Art. vol. de que também derivam daídalma (“belo trabalho”. 1. Aristóteles. se o arco tocasse sozinho a cítara. U 1. e Sarah P. Célebre artífice da antiguidade. “adornar”. ou os tripés de Hefaísto.

Paris and back. estas lhe são de chofre tolhidas. tensão entre esterilidade e fertilidade da vida cotidiana. roupas esfiapadas. persistência do passado. Estudos de teoria e história literária [1965]. James Joyce. a contragosto. a brutalidade de Haines. A Portrait of the Artist. p. steerage passenger. alimentos e objetos diversos – “lenços enxovalhados. 2008. que o traz de volta.org Ano 8. weltering. Tem que trabalhar. cit. Whereto? Newhaven-Dieppe.[-] www. Como em Hamlet. a ênfase agora recai nas forças determinantes da vida humana. Lapwing. de energias mais lídimas. água ensaboada de barba e toda a constelação do desalinho” – aparecem ao lado das personagens carregados de simbolismo: “Entre o cinismo de Mulligan. vol. Seabedabbled. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul. Icarus. n°12. e o capitoso leite que vende é puro. life! go to encounter […] the reality of experience and to forge in the smithy of my soul the uncreated conscience of my race. Ao invés de revestir novas asas. 2016 114 conhecimento não se espraiasse.”62 O peso e o significado das coisas anônimas. como nota Antonio Candido. pertencem a uma objetividade estranhada.210. culpabilidade. the hawlike man.sinaldemenos. tolerante. usurpação. antissemitismo. ausência e busca de uma figura espiritual paterna. 60 61 .”60 O impulso heroico do indivíduo que partia de peito aberto em direção à vida mais autêntica associada ao exílio61 é como que entrevado e abafado pelo curso do mundo. A figura emblemática de Dédalos no Ulysses surge reduzida à condição de Ícaro – voou perto demais do sol. Pater.. 1. diversos motivos temáticos recorrentes da trama figuram já no episódio que abre o livro: dinheiro. desnecessário dizer. devaneio e impotência. surge a velha camponesa. ao país de origem. risonha. 77. é considerável e se fará sentir a cada novo episódio.. He flew. relação entre aprisionamento e libertação das malhas da tradição. do café da manhã na torre Martello. Bem mais do que antes. leviandade ideológica e ironia. “Estímulos da criação literária”. catolicismo opressor. O resto da história é conhecido: construiu para si e para o filho asas feitas de cera para que fugissem de lá pelos ares. ed. Sua vida passa a girar em falso.. ait. U 9. 299: “Welcome. dominação cultural estrangeira. perdeu as asas que apenas adquirira e está em queda livre: “Fabulous artificer.” 62 Antonio Candido. que são paralisantes. em Literatura e sociedade. trabalho. p. Cf. fallen. e ele como que é constrangido a reganhar o labirinto: o da cidade de Dublin e o de seus próprios pensamentos. O sonho de levar uma vida de artista é adiado. a passividade sem fibra de Dedalus. matinal como um símbolo de nutrições simbólicas. Já na sequência inicial. cinismo.

sinaldemenos.] is a nightmare from which I am trying to awake. Deasy. n°12. vol. na Batalha de Ásculo. No breve diálogo.org Ano 8. aware of my lack of rule and of the fees their papas pay. a do pró-britânico Sr. muito convenientemente. neste e noutros cenários. os próprios preconceitos (machismo. determinadas pela posição de classe de cada um.[-] www..31. em 279 a. e maneja arbitrariamente os fatos no interior daquilo que vê como um andamento prefixado de modo a justificar. que enxerga no curso histórico uma teleologia conduzindo a uma progressiva teofania.40. a do professor pobre que não tem controle quase nenhum sobre uma turma de garotos abastados. U 2. conscientes da alta mensalidade paga pelos pais e nem aí para o que está sendo ensinado: “In a moment they will laugh more loudly. Ao mesmo tempo. por isso mesmo deixando pelo caminho inúmeros potenciais irrealizados (“But can those have been possible seeing that they never were?”64). parece ter cunho pessoal: trata-se do fato penoso de ter tido de voltar a contragosto à terra natal. entra em cena a disputa de duas concepções inconciliáveis da história. a ponto de quase não poder ser considerada uma verdadeira vitória. “Nestor” é um capítulo obviamente incontornável numa leitura materialista do livro. 65 U 2. –.”63 Para além do desconcerto e da desmotivação do jovem docente diante de alunos desinteressados e arredios. De um lado. de outro lado a visão da história (social e individual) como movimento de atualização de possibilidades. 1. através do livro.30. o chefe da instituição e patrão de Stephen. U 2. um mau sonho do qual é preciso acordar (“History [.. conhecida pelo custo humano demasiadamente elevado. haja vista que a situação de classe é estabelecida de forma inequívoca desde o começo.”65). legitimar seus privilégios (meritocracia). 63 64 . o qual reverbera sub-repticiamente na discussão que trava na sequência com o diretor da escola.C. O pesadelo. e ao mesmo tempo como grande catástrofe. antissemitismo) e. 2016 115 Segundo episódio da “Telemachiad”. com essa ambiguidade: o pesadelo da história pessoal é de certo modo igualmente o das histórias irlandesa e humana como um todo. a saber. não remeteria nesse contexto ao tema do progresso histórico e suas incontáveis vítimas? Joyce vai jogar. de forma um tanto descarada. o tema da vitória pírrica. atentemos para o assunto abordado por Stephen em sala de aula – uma das vitórias de Pirro.

da pura possibilidade. Stephen said. Em “Nestor”. onde se situa a torre Martello do primeiro episódio). e no socialmente reconhecido do ensino. ou interrompida. a seu ver uma ponte frustrada (“Kingstown pier. deve ser situado. a disapointed bridge. no momento) da potência impotente. que para o jovem conteria um feto de um parto malsucedido.31. ou da interrupção de uma vida em formação. 69 Franco Moretti. não se pode deixar de notar. segundo Agamben. abortada 67. 1. Ideia da prosa [1985]. que o problema da liberdade interior seja indissociável do da liberdade social. têm a ver sobretudo com o desperdício e o subuso das forças produtivas individuais e sociais em contexto predominantemente mercantil.”66). 68 Giorgio Agamben. art. n°12.[-] www. vol. com uma brecha para a entrada e saída de navios). Stephen pega o mote da piadinha sem graça de um aluno. Barreto. quando caminha na praia. a riqueza intelectual de Stephen atrapalha o seu desempenho regular no emprego. Yes. J. de suas próprias reflexões. da realização perpetuamente adiada. a fonte da inconsolável tristeza do letrado: “nada é mais amargo que uma permanência prolongada na esfera da potência. A imagem do nascimento interrompido de algo novo. o epis dio seguinte. 2016 116 Ainda durante a aula.org Ano 8.”68 Acontece que a estagnação. o píer de Kingstown torna-se alegoria de toda a Irlanda dependente. Mas entre essas duas áreas não há mais nenhuma relação e. é a imagem forte encontrada para possibilidades não concretizadas tanto a nível da história social irlandesa como do percurso individual do artista. por exemplo. ou da formação inacabada. vem à tona o fato de o pensamento crítico e a cultura laboriosamente acumulada terem se tornado. “ longo adeus”. 236. uma das quais carrega uma bolsa. 2013. 66 67 . p. para quem o nome Pirro lembraria a palavra “píer”.. A frustração e o desconsolo. Eis. p. Stephen avista o que imagina serem duas parteiras.sinaldemenos. “Proteus”. uma ideia leva espontaneamente a outra: a ponte descontinuada. 54. assim. é reincidente através do romance. Nomeado em homenagem ao rei George. trad. cit. o estancamento na esfera (ou melhor. “Stephen é forçado a viver intelectualmente em dois planos: no particular. Belo Horizonte: Autêntica. o que nos permite entrevê-lo aqui é o U 2. e não tomado em abstrato. Como numa sessão de psicanálise.”69 Por outras palavras. empecilhos ao sucesso mundano. mas que não deixam de assombrar o presente como espectros da vida não realizada. Na escola. próximo de Sandycove. a qual faz pensar imediatamente no píer de Kingstown (um subúrbio ao sul de Dublin. além de inúteis em termos capitalistas. no caso. que não devém ato. como bem notou Moretti. provavelmente porque não leva a lugar algum (o porto tem forma de U.

os modos de agir. a inatividade não é em nada livre.. A este respeito. não é unívoca. o amante).sinaldemenos. .] Mas os modos de comportamento que se formaram na esfera da produção. Numa palavra. cantora de ópera.. digamos. sugere algo da desapropriação da relação subjetiva qualitativa com a esfera do objeto devido à forma alienada do trabalho. entre o tédio do qual os seres humanos estão sempre à mercê e a possível. Stephen dá uma aula pela manhã e passa o resto do tempo vagando. haja vista que quase nenhuma personagem do romance parece trabalhar pra valer. mas não tem patrão. O próprio vazio inscrito no coração do livro. antes ao contrário.. Vale aqui citar um significativo trecho de Adorno a respeito: “O vazio torna patente uma incongruência entre estado e potencial.] até mesmo sobre setores nos quais não se trabalha. aqui.. o trabalho assalariado regulamentado e a jornada de trabalho elástica propriamente dita estão ausentes do livro. Decerto. 1. também parecem dispor de bastante tempo livre. os estudantes de medicina. No entanto. nem que a necessidade de ganhar dinheiro e de vender a força de trabalho não seja sempre presente. Eis o que significa o vazio: menos trabalho com uma contínua falta de liberdade. desejar e pensar da maioria das personagens. para a qual dar destaque à perspectiva da produção num livro como Ulysses não teria muito cabimento.] Na produção industrial de massa. vol. amigos boêmios de Stephen. como veremos. Sob os aspectos dessa base de massa também se esconde o sentimento de que a mudança real se acha interrompida. [. autodeterminado. n°12.. nem de longe. instauração de uma vida na qual o tédio desapareceria. é determinada pela abstração real da atividade produtiva alienada. sofre-se à medida do possível reprimido. na linha de montagem. que não determine fundamentalmente o cotidiano. se o operariado industrial.. não é difícil prever a esta altura uma objeção. perspectiva que ademais. Bloom anda de um lugar a outro na tentativa de ter publicado um anúncio seu. isso não significa que o tempo “livre” das personagens de classe média baixa que figuram ali seja efetivamente livre. e que contrasta de modo gritante com a plenitude possível sugerida pela riqueza da prosa. de parte da ala pósmoderna...[-] www. 2016 117 ponto de vista do trabalhador cuja energia produtiva é em grande medida sugada pelo trabalho morto. a forma do trabalho é virtualmente aquela da repetição do sempre igual [. horário ou local de trabalho fixos. mas malsucedida. Molly passa o dia na cama (parte dele com Blazes Boylan. ampliam-se potencialmente sobre a sociedade inteira [. vale dizer. sentir.org Ano 8.

de Moraes Barros. assume de bom grado a alienação como se fosse expressão de sua própria interioridade. Bloom manifestamente não vivencia da mesma forma a abstração do trabalho. p. no caso de Stephen/Joyce. em aparência. e que também figura em Stephen Hero). Sinal de Menos. concebe positivamente o papel social que exerce. ligada à paralisia das forças históricas e à subtração radical da “dimensão qualitativa do valor de uso: riqueza. vol.[-] www. varia e muda sob o sol negro das sociedades do capitalismo avançado. uma Theodor W. Duarte. dedicada à personagem de Dedalus. à estagnação do movimento da vida e das ideias no contexto irlandês atrasado. Stephen não entretém tal ilusão. pp. A chave da consciência crítica. tempo. vê mais claramente que outras personagens a situação como ela é. está tanto na experiência do desenvolvimento social e histórico truncado (experiência aguçada. 2 (2015). luta. imaginando-se além de tudo um criador. ela mesma. um avesso prático. a qual dá lugar à frustração. # 11. a própria consciência e a linguagem crítica do processo”72. a palavra-chave de Dubliners. 127 e 129. R. o círculo infernal do sempre igual (“The same room and hour. “A potência do abstrato: resenha com questões para o livro de Moishe Postone”. tem.sinaldemenos. “Proteus”. São Paulo: Unesp. portanto.”70 Diante do tempo esvaziado pela monotonia repetitiva da produção submetida à finalidade autotélica da acumulação ilimitada de capital – a qual.org Ano 8.36. vida. o qual associa não sem razão à paralisia (como se sabe. toda uma história de resistência. Doze preleções teóricas [1961-1962/1968]. um lastro material. pelo distanciamento proporcionado pela temporada passada no estrangeiro). vol. é. pelo menos na Europa. 1. a função da cultura industrializada redunda na criação e manutenção da ilusão de que algo realmente tem lugar.”71). de sua posição social e do tipo de trabalho que exerce. Em razão de sua formação. Embora culturalmente deslocado. caberia não esquecer. 2016 118 imediatamente segundo tais esquemas. que conclui a primeira parte do livro. n°12. Dando prosseguimento à leitura.. trad. 72 Cláudio R. e não obstante inserido na ordem capitalista internacional. dominação e exploração de classe –. F. muito pelo contrário: comporta-se ao que parece espontaneamente como se estivesse inserido a todo momento numa situação de troca mercantil. 119. corpo. 2011. 70 . Adorno. the same wisdom: and I the same. 71 U 2.. mesmo quando isso não é o caso. o terceiro episódio. no caso. Introdução à sociologia da música. quanto na vivência concreta das forças produtivas individuais como cativas de um processo global estranhado.

a separação. não é o mundo em geral da filosofia. o fluxo de consciência de Stephen ainda é o reflexo de um conflito entre a tentativa de dominar o mundo racionalmente e a substância muda ou equívoca do mundo. de início. nos meus próprios sentidos? Não há aqui.. 232.[-] www. 2016 119 espécie de minilivro das mutações. diga-se de passagem representa uma verdadeira ameaça de regressão da consciência. o capítulo entre outras coisas exprime à perfeição a perda (celebrada como ganho na pós-modernidade) do próprio espaço de representação.. que.. de um sujeito particular – de suportar a mera passagem de um tempo ele mesmo enrijecido e alienado. representado 73 74 Franco Moretti. na busca de algo sólido em que se apoiar? Tentativa algo frustrada. “ longo adeus”. U 3. a praia dublinense onde mais tarde no dia (em “Nausicaa”) a saia levantada da jovem Gerty MacDowell levará Bloom ao delírio. é aqui um fenômeno determinado pela impossibilidade de se objetivar a própria vida em relações sociais minimamente significativas. excita-se com uma passante. em face do diverso da experiência.org Ano 8. mais ainda. Stephen dá livre curso a meditações aparentemente despretensiosas sobre o espaço e o tempo.sinaldemenos. p. n°12. no caso. cit.]. vol. Porquanto não dê para levar muito a sério as divagações metafísicas de Stephen. e da aparente (e por momentos real) falta de profundidade. o que os alemães – positivamente ou em forma de lamento – chamam de Weltlosigkeit.”73 Só que este último. do qual o sujeito não é mais senhor: “Ineluctable modality of the visible: at least that if no more. Enquanto perambula ociosamente por Sandmount Strand. do de Molly.. próxima do gesto cartesiano.42. A despeito do tom indiferente e jocoso. em que está em jogo nada menos do que continuar a ser ou não ser mais aquele que fora até então.”74 Posso confiar naquilo que vejo. art. thought through my eyes. que é o que aliás explica a incapacidade subjetiva – que não é simplesmente incapacidade pessoal. Signatures of all things I am here to read [. recorda não sem um bocado de irrisão a temporada de estudos passada em Paris. escreve versos soltos ao sabor das ondas. é o seu grande solilóquio hamletiano. 1. tendo a ver antes de tudo com a petrificação dos processos objetivos. haja vista que o tempo do mundo. tira meleca. hesita se visita ou não uma tia que mora nas redondezas. uma tentativa de distanciamento consciente. . a perda de contato com a realidade objetiva. em razão da celeridade com que passa de um tópico a outro. urina (ou masturba-se?) atrás das pedras.. Como não deixou de notar Moretti: “diversamente do de Bloom e.

Georg Lukács. 2000. como noutros grandes autores modernos. p. de se atingir de relance o âmago das coisas. Apesar da insistência do poeta em prestar ouvidos. Die Theorie des Romans. 75 . e as referências mais evidentes. Stephen se sente mais próximo e cuja bandeira empunhará pouco depois no episódio da Biblioteca. não têm lugar. por si sós. São Paulo: Duas Cidades/Ed. muitas vezes se complementam. 70. a qual. de Macedo: A teoria do romance. e meio que a contragosto. M. os diferentes níveis de leitura. A título de exemplo. 220. a possibilidade de vivenciar profundamente alguma situação. 76 Georg Lukács. constituindo verdadeiras constelações semânticas. 1984. “o mundo à sua volta segue por caminhos próprios. insosso e ultramanjado de cores.org Ano 8. Darmstadt/Neuwied: Luchterhand. a reflexão oscila entre um idealismo inspirado entre outros em Jakob Boehme (De signatura rerum) e em Berkeley (“the good bishop of Cloyne”) e um materialismo baseado no velho Aristóteles. antes ao contrário. da interpretação psicanalítica de salão. 2016 120 literariamente com o ritmo agitado e oscilante do mar. existem múltiplas camadas de leitura. o que torna a leitura da realidade empírica pelo indivíduo ensimesmado uma tarefa árdua. Em Joyce. 2015. p. ainda em “Proteus”. as coisas já não falam. o duque Skule Bårdsson. órgãos do corpo etc. chamaria a atenção para uma referência velada a um pensador que muito inspirou o jovem Joyce. vol. e as famosas epifanias. senão impossível. n°12. Apesar da leviandade das considerações.[-] www. R. 34. ou pelo menos obter aquele “vislumbre do sentido” que segundo o jovem Lukács seria “a única coisa digna do investimento de toda uma vida”. marca a passagem incessante de um pensamento a outro. J.).. sem que nenhuma certeza desponte no horizonte da cogitação geral.. trad. Patriota. não excluem uns aos outros. Ein geschichtsphilosophischer Versuch über die Formen der großen Epik [1914/1916]. Um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. em A alma e as formas. p. de Os pretendentes (1863) –. “Metafísica da tragédia: Paul Ernst” [1910]. ou do simbolismo superficial. Ao modo do que ocorre com personagens das peças de Ibsen – por exemplo. não são realmente significativas (como já salientado. Não impede que tudo demude rápida e inextricavelmente.sinaldemenos. elementos naturais. a maioria dos leitores e críticos não costuma ir muito além da leitura homérica. 1. Belo Horizonte: Autêntica. trad. a vida verdadeira parece por isso mesmo impossível diante da vida real. indiferente a perguntas e respostas”76. do qual no fim das contas. 82. até onde sei. o mundo emudeceu. a única coisa pela qual valeria a pena lutar75. escavados linha a linha.

1. penitência. tradicionalmente um período de reflexão. Stephen regressara à Irlanda ao saber que sua mãe. used to carry punched tickets to prove an alibi if they arrested you for murder somewhere.47. caiu a Quarta-feira de Cinzas. entretanto. que foi um dos mais significativos intentos. é provável que Stephen estivesse se referindo. c’est moi” (seria um détournement do dito de Luís XIV: “L’état. outros dizem que lui seria antes o homem comum e anônimo inculpado injustamente por um crime que não cometeu. um tempo de remordimentos. Em termos mais imediatamente políticos. jejum e mortificação que antecede a festividade da Ressurreição.org Ano 8. On the night of the seventeenth of February 1904 the prisoner was seen by two witnesses. ao início abrupto e imprevisto da “idade adulta”. em Dublin. crime que teve lugar numa certa Stephen Street. um conhecido seu. A chave para entender o trecho. socialista exilado. doente. Esta como se sabe marca o fim do Carnaval e o início da Quaresma. com amargor irônico. de uma vita nuova. n°12.”78). simbolizam a efemeridade da vida terrestre. um álibi em caso de ser confundido com algum criminoso. vol. U 3. nenhum crítico até o momento parece ter percebido. Lui. em 1904.sinaldemenos. dia em que. as cinzas. tie. quiçá ainda o próprio criminoso. ao fim prematuro do período de exílio boêmio parisiense (“You seem to have enjoyed yourself. de quem fala pouco antes. reportado pelo Irish Times em 19/02/1904. parece não haver consenso a respeito da pessoa a que se refere a frase “Lui.47. está na data (que curiosamente ninguém se deu o trabalho de examinar) de 17 de fevereiro. pode-se conjecturar que Joyce tivesse em mente a Revolta da Páscoa. 2016 121 na vasta literatura existente sobre Ulysses. Hat. ao qual o texto parece remeter: o assassinato de uma mulher pelo marido. Sob o prisma religioso. Justice. mas que parece comportar igualmente a gestação. nose. . à experiência pessoal.[-] www. em todo caso de um tempo morto (assim como Joyce. Stephen evoca o fato de carregar sempre consigo a passagem do bonde. lenta e dolorosa. c’est moi. c’est moi”?): alguns críticos dizem se tratar de Patrice Egan.”77 Os comentários mais consagrados costumam evocar um fait divers ocorrido naquele mesmo dia. Other fellow did it: other me. Por outro lado. de 1916. estava para morrer). por 77 78 U 3. e lhe vem em mente uma data precisa daquele mesmo ano. Quando recorda a permanência em Paris. Vejamos o trecho: “Yes. overcoat. no caso do feriado cristão. que passa seus dias tentando a sorte no jogo.

. contente no sofrimento. 1996.. Basta ler qualquer resumo biográfico para se dar conta de que. em termos de forma narrativa. sofrem no prazer. que desnorteou e ainda intriga não poucos críticos. n°12. Veja-se por exemplo Giordano runo. 79 . 1. o universo “já não apresenta lugares preferenciais. 128. p. thought through my eyes”). pelo sujeito que deve fazer sentido de uma realidade em si mesma desprovida de sentido. Somente uma coisa me fascina: aquela em virtude da qual me sinto livre na sujeição. seja sempre mediado pela perspectiva subjetiva (“at least that if no more. N. “Epístola preambular” a Sobre o infinito. pontos superiores ou inferiores”. e não há nada no texto que justifique realmente dizê-lo. Isso porém ainda é vago. 81 Anatol Rosenfeld. o anseio romântico de alcançar. A cosmovisão do Nolano – como Joyce gostava de chamá-lo – parece de resto enformar em grande medida o movimento geral de “Proteus”. de se obter a independência da Irlanda em relação ao Reino Unido. em Os Pensadores. o que torna mais incrível a cegueira da crítica especializada para a referência no texto. Aquela em virtude da qual não invejo os que são servos na liberdade. Campanella. Deola. o universo e os mundos [1584]. trad. p. 3: “[. Galileu. na alma o erro que os debilita. no espírito o inferno que os oprime. nos termos de Novalis. do labirinto sinestésico etc. tudo cabe.] tudo me desagrada.sinaldemenos. juntar como pode os pedaços da totalidade extensiva da vida. tudo está em relação. Bruno fora injustamente acusado de um assassinato e teve que fugir às pressas de Roma. Acresce que em 1584.org Ano 8. E não é difícil entender o porquê da identificação. p. em Os Pensadores: Bruno. em 1576. de infindas correspondências. porque trazem no próprio corpo os grilhões que os prendem. “Shakespeare e o pensamento renascentista”.”80 Doravante infinito. cit. voltemos à data em questão. São Paulo: Perspectiva. rico na indigência e vivo na morte. ninguém menos que Giordano Bruno fora queimado vivo pela Inquisição em Roma? É conhecido o entusiasmo do jovem Joyce pela figura rebelde do filósofo italiano 79. a multidão não me contenta. 1978. então no exílio. vol. “ runo: vida e obra”. Daí a “volúpia da síntese”. 2016 122 parte de militantes republicanos. da coincidência dos opostos. em que defende explicitamente. na mente o letargo que os mata. se não. são pobres nas riquezas e mortos em vida. através do jogo das contradições. em termos filosóficos. e “qualquer lugar em que nós nos encontremos pode ser considerado ponto central”81. Será que ninguém notou que 17 de fevereiro foi o dia em que. a qual já não se dá mais de modo imanente e imediato.. Descendo então uma camada a mais. detesto o vulgo.[-] www. em 1600. as ideias de Copérnico.. Não impede que este ponto central. Bruno escreveu um diálogo intitulado A Ceia da Quarta-feira de Cinzas. ob. em Texto/contexto I [1969]. a economia geral do Ulysses: “A visão de mundo contra a qual Bruno se insurgiu foi a de um universo de coisas fixas criadas por um Deus transcendente.” 80 José Américo Motta Pessanha. embora múltiplo e relativizado. quando jovem. X. São Paulo: Abril Cultural.

O resultado será a obra de arte como experimento . 2016 algo como uma “segunda inocência”. em contexto esclarecido carrega necessariamente conotações regressivas e protofascistas. na literatura do século XIX. Daí ainda o movimento progressivo da ironia.. n°12. ao niilismo. transformar em obra a atitude irônica. autovangloriação. impedindo um real comprometimento com o mundo. que não se deixa prender a nada. cuja reposição. O aniquilamento fantasmagórico da realidade empírica reflete por certo. descartada igualmente a possibilidade de uma conciliação puramente simbólica. a fragmentação do mundo real. desprovida de entusiasmo a ironia se torna mera afetação. todo interesse. exaltar o infinito. o olhar irônico. no caso do artista moderno.org Ano 8. Levada ao extremo. o sósia. mas ao mesmo tempo pode trazer à tona o demoníaco. o oscilar permanente não é superado por um verdadeiro compromisso com o infinito. de temas como “o esfacelamento. transforma tudo. descartando de antemão todo empenho na sua transformação efetiva. que paira soberbo e indiferente acima de tudo. através do rompimento com o século. vol. em vez de demanda de absoluto. acaba por não deixar pedra sobre pedra. O ponto importante a reter aqui é o seguinte: não havendo redenção individual fora da sociedade. a fim de objetivá-la. José Pasta). em sua leviandade também abre um abismo em que é fácil se perder. o homem-espelho.123 [-] www. nos tempos modernos. a “saída”.sinaldemenos. Se tal iconoclastia contém uma dimensão emancipadora. todo valor. Como explica Anatol Rosenfeld: “Ela [a ironia romântica] visa negar os valores do senso comum. o homem-máscara. de tomar minimamente distância dela e do próprio eu irônico. conduzindo muitas vezes o sujeito aos abismos da angústia e da loucura. o próprio anseio por uma vida livre e autêntica. ela pode levar de volta ao mito. a ironia pode conduzir ao misticismo. que tudo arrasta e desfaz na busca de uma nova pátria. simulação de autocrítica. petrificado. consistiria em dar forma (de diferentes maneiras) ao esfacelamento. em mera aparência.. o homem que vendeu a alma” etc. desdobrado em reflexos. uma nova idade de ouro. a fragmentação. fixo. o duplo.” Por outras palavras. o pensamento do filisteu. o sujeito se compraz com uma supremacia qualquer. os dilaceramentos da civilização burguesa. 1. Mas quando tudo é visto sub specie ironiae. as categorias coaguladas da realidade vulgar para. como observam os melhores comentadores de Machado (Roberto Schwarz. ao cinismo. Por outro lado. o que explica a presença maciça.

não se pode deixar de notar que. Se no nível do que é discutido o capítulo não parece ter a menor significância. 85 Cf. São Paulo: Perspectiva. segundo o uso jornalístico e numa progressão estilística tal que.[-] www. 158-161. de Zola. vale dizer. Tal asserção ganha ressonância se prestarmos atenção ao tema de fundo. G. 2016 124 aberto. poderíamos dizer. 2005. às inversões do progresso em retrocesso. cada uma com um título. É significativo o fato de Joyce possuir. em “Aeolus” Joyce leva o leitor para os bastidores da produção literária. Joyce passa juízo crítico sobre a vacuidade do meio jornalístico (e intelectual de modo geral). 82 . onde um grupo de jornalistas e intelectuais de toda estirpe (“the pressgang”83) conversa casualmente sobre os mais variados assuntos. 86 U 7. inicialmente.136. sintaticamente incorreto. “profissões delirantes”. ob. 264. n°12. made the last attempt to retrieve the fortunes of Greece.”86 Para além das diferenças óbvias. e La Débâcle. de Kropotkin (em tradução inglesa). Umberto Eco oferece-nos um bom resumo do episódio em questão: “[. em tom aparentemente jocoso e despretensioso. 1. aos poucos. p. ofícios Anatol Rosenfeld. aliás. 164 e 168. “Aspectos do romantismo alemão”.sinaldemenos.org Ano 8. que com sua gravata frouxa Stephen semelha um communard parisiense85. e não à toa é à custosa vitória de Pirro que novamente se alude: “Pyrrhus. em Texto/contexto I. nos oferece as manchetes vitorianas. em sua biblioteca de Trieste. trad. Brechtianamente. para empregar um termo cunhado por Paul Valéry. É o capítulo das causas perdidas. se apresentem quase todas as figuras retóricas em uso.135-6. um renomado professor sugere. pp. títulos como A Comuna de Paris. a um dos Leitmotive do capítulo. ambos exercem. 83 U 7. Loyal to a lost cause. misled by an oracle. vol. linguisticamente reduzido à pura gíria do escandaloso jornal popular. Nada do que se intenta conquistar se concretiza. Obra aberta.. nas mais diversas conversas dos que lá estão. como indicado por alto previamente. Forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas [1962].. que “incluirá na sua estrutura o próprio processo de sua criação”82. para chegar. mais do que propriamente a experiências interrompidas.] tais conversas estão unificadas em várias tabelas pequenas. o que fica manifesto neste capítulo é que Bloom e Stephen partilham uma mesma condição: publicitário e escritor. aqui. que diz respeito. U 7. e faz com que.”84 Numa das conversas. cit.. ao título sensacionalista. ao retomá-la na dinâmica da própria forma em que a situação vem ali apresentada.135. Cutolo. mais precisamente para a redação de um jornal. 84 Umberto Eco.

se você fosse um determinado tipo de autor. São Paulo: Unesp. Certos tipos de escrita foram marginalizados [. vida de artista 90.”87 Em “Proteus”. em paralelo ao novo profissional literário bem-sucedido. Assim. a condição proletária de Stephen já havia sido exposta sem equívocos: do mesmo modo que seus trajes e calçados não lhe pertencem. literalmente vender a alma e escrever algo sensacional (“Give them something with a bite in it. um produto marginal e. havia o escritor indesejável. […] My art will proceed from a free and noble source. p. logo mistificado como gênio famélico. Fonseca e J. que a reivindicava para entrar no mercado (que lhe diria o que a sociedade desejava). é preciso lembrá-lo daquilo que se espera que se faça.] escritos como a poesia eram.] Em outras áreas da escrita.. Put us all into it. Aqui a astúcia de Joyce: revelar o Raymond Williams. “ escritor: enga amento e alinhamento” [1980]. que ele deveria ser livre para competir no mercado.[-] www. A. 184: “ will live a free and noble life. n°12. no melhor dos casos. naufraga diante do pragmatismo reles dos colegas de profissão. Peschanski. 2016 125 que exigem passar em permanência uma imagem de autoconfiança ao mesmo tempo em que são tributários da opinião alheia muito mais do que dependem de competências certificáveis. Como esclarece um crítico: “Por volta de 1830. em um nível que pouquíssimos escritores atingiram anteriormente. vol. p.”88). [. refuse to be terrorized into stupidity. Ao mesmo tempo note-se o seguinte deslocamento: os tipos da redação deixam claro que se Stephen quiser alcançar alguma coisa precisa deixar de lado qualquer pudor ou convicção. Bloom vive o naufrágio – o fato de as condições objetivas de vida serem expropriadas pelo capital – de forma perfeitamente natural e positiva. A incorporação cabal do espírito empreendedor não permite que se veja a si mesmo como trabalhador espoliado. de uma vida livre e nobre.org Ano 8. trad.sinaldemenos. James Joyce. 123. em Recursos da esperança.. ou seja. [. 88 U 7. no pior.88-89. especialmente na poesia. 2015.. poderia tornar-se um profissional bem-sucedido. 1963. Stephen Hero [1903-1907/1944]. 90 Cf.”)89 Por outras palavras. se o sonho que Stephen nutria quando jovem. ao passo que nem passa pela cabeça de Bloom produzir algo que não seja apelativo (“Something to catch the eye.. no entanto. damn its soul.136.] apareceu nesse nível a ideologia profissional do artista independente.” 87 . definindo a liberdade nesse sentido muito especial. N. o capítulo aventa a noção de que possivelmente nem seus pensamentos sejam realmente seus. 1.. Norfolk: New Directions.. 89 U 5. a situação econômica dos escritores caminhava em uma direção bem diferente. It is too troublesome for me to adopt the manners of these slaves. bastante indesejáveis.

c’est l’égout”) e Adorno que a cultura – a cultura burguesa.138. são os anúncios no intervalo entre aquilo que é noticiado: “It’s the ads and side features sell a weekly not the stale news in the official gazette. que pela própria forma exclui de antemão toda e qualquer acumulação histórica. Lacan dirá mais tarde que a civilização capitalista é um esgoto “La civilisation. que não pôde impedir que algo como Auschwitz tivesse lugar – é puro lixo “Kultur ist Müll”). eis o ponto. noticiário e reclame são os dois lados da mesma moeda.. a prostituição do saber e da arte e a desvitalização da linguagem. vol. assim como em “Nestor”. 93 U 7. são a publicidade do curso reificado do mundo. o que realmente interessa.sinaldemenos. vale dizer. exprime à perfeição o que se tornaram a língua e a cultura na civilização da mercadoria94. n°12. Bloom sabe muito bem que o que está por trás do obsoletismo programado das notícias oficiais do dia. que possibilita a Stephen.”93 Ou por outra.120. por si só ainda não é nada. portanto. thump. a sua redução à comunicabilidade sensacionalista. é inegável. enxergar que para aquela turma bem-ajustada não há qualquer esperança de salvação: “Nightmare from which you will never awake. Stephen vivencia a expropriação de suas capacidades criativas. juntamente com a experiência negativa da alienação de suas forças produtivas. cujo cimento é fornecido pelo lixo cultural mercantilizado.] that or aday or er”92). thump. Acresce que a metáfora da cloaca.120. bastante tino em dedicar todo um episódio à indústria da notícia vendável. U 7. É isso. Ademais. sabotando por conseguinte a possibilidade mesma de qualquer experiência formativa digna do nome. a dimensão bem braçal do trabalho dito imaterial. trazida à baila numa das conversas do capítulo. Joyce teve.”95 Ou seja. o despertar do pesadelo em que se debatem os homens na pré-história da humanidade supõe tomar U 7. 95 U 7.” 91) e as condições prosaicas de trabalho nos subterrâneos da produção jornalística (“the foreman’s spare body [. 91 92 . 1. Novamente em claro contraste com a maneira com que Bloom vê as coisas (e ele as enxerga. 94 a mesma veia. se constitui a partir de dentro. como uma violência sem tamanho. 2016 126 maquinário (“The machines clanked in threefour time.org Ano 8. que ali se vê constrangido a cortejar os influentes.. A crítica aqui. como de fato são).[-] www.121. Thump. mais precisamente a partir do trabalho alienado vivenciado como experiência negativa.

fundado na dúvida e no uso da razão. do sujeito moderno. The Emergence of Social Space. das relações sociais e dos padrões literários que. independentemente da vontade do escritor. Bruno.187. a possibilidade de encontrar uma “voz que. 98 U 9. que Joyce talvez não desconhecesse. n°12. e obviamente no poema “L’orgie parisienne ou Paris se repeuple”. que a Ideologiekritik joyciana aparece talvez mais agudamente.. Kristin Ross. Descompasso e incompreensão. que são como “ideais do eu” para o jovem Stephen. bem como. “Hamlets de farda não hesitam em atirar” – o juízo infinito (no sentido hegeliano do termo).[-] www. “Je est un autre”. seria como que prelúdio à verdadeira libertação.sinaldemenos. cit. 2007. 2016 127 minimamente consciência do estrago enquanto estrago. revolta pessoal e revolução. 97 Cf. sem qualquer hesitação. Ibsen e Rimbaud. a fala de Stephen cai feito uma bomba em meio ao ambiente plácido dos estudos e dos livros. exprimiu famosamente Arthur Rimbaud numa carta datada de 15 de maio de 1871. 96 . The bloodboltered shambles in act five is a forecast of the concentration camp sung by Mr Swinburne. 130. são ademais tais significantes que permitem lançar uma luz sobre o caminho de desvinculação percorrido pela personagem para escapar do marasmo mutilador representado pelo labirinto da vida cotidiana dublinense. poesia e exílio. fundado na experiência negativa e vinculado às possibilidades objetivas de uma existência não alienada.org Ano 8. apenas alguns dias antes da “semana sangrenta” que poria fim à Comuna de Paris. 1. É em “Scylla and Charibdis”. “ escritor: enga amento e alinhamento”. vol. No que concerne à produção literária propriamente dita. conjugando a imagem máxima do intelectual e artista renascentista. que tem lugar na Biblioteca Nacional de Dublin. a cuja experiência o jovem autor de Uma temporada no inferno conscientemente se alinhou97 (inclusive na carta em questão. ao recruta levando a cabo. enformam a sua práxis.”98 Colocada no início de uma discussão literária aparentemente despretensiosa. fala necessariamente para mais do que para si mesma”96. a tomada de consciência de alinhamentos inconscientes prévios. London/New York: Verso. art. Rimbaud and the Paris Commune. “ ha i Hamlets don’t hesitate to shoot. massacres coloniais na franja Raymond Williams. ao falar por si mesma. o desejo de uma vida livre. desclassificação e alinhamento com as possibilidades humanas mais altas – eis alguns dos significantes maiores que podemos associar a figuras como Hamlet. p. que o irlandês muito provavelmente conhecia).

Stephen caminha no fio da navalha: por um lado. 247-56. tem de mostrar seu brilhantismo. M. o banho de sangue do final da maior peça de Shakespeare. ou não apenas. # 38. é aí que o ardil de Dedalus (e através e para além dele o de Joyce) funciona melhor.hurston. tem efeito desmistificador. por outro lado. # 28. desconectado da vida de todo dia. 2000. Ulysses.”100). 101 U 9. sustenta um dos sábios interlocutores). naquele contexto. n°12. Journal of Modern Literature. embora inverossímil. Hamlet é. a chave para a crítica do imperialismo britânico. na esperança de ser convidado a integrar o círculo cerrado dos literatos influentes da cidade (o que explica o seu crescente desconforto com a situação. portanto. vol. não quer deixar barato a venda de si.2 (2015). 100 U 9. No que concerne ao uso da cultura. e somente então começa a trabalhar para pegá-los de surpresa. Stephen faz uso crítico e profanador do deslocamento ideológico (estratégia próxima do que mais tarde letristas e situacionistas denominariam détournement): a teoria de Hamlet. bastante tangível: “He laughed to free his mind from his mind’s bondage. em princípio não é simples despropósito. 2016 128 do Império Britânico.1 (1990). entre outras coisas. “‘Khaki Hamlets Don’t Hesitate’: a Semiological Reading of References to the oer War and Concentration Camps in Joyce’s Ulysses”. ou nos pastiches e nas combinações estilísticas. “ he Reader as Absentminded Beggar: Recovering South Africa in Ulysses”. ícone maior da cultura inglesa. razão pela qual trata discretamente a pau o idealismo difuso. Keith Booker. mas na construção minuciosa de armadilhas e decepções. Reading Joyce After the Cold War. 1. 45-58. é notável o labirinto de argumentos que constrói para manter o mito e a mistificação à distância. Westport: Greenwood. pp. pp. da literatura como algo sublime e excepcional. então. que se dá tanto pela violência das armas como pela imposição ideológico-cultural. Exacerbando a interpretação biográfica – aproximando-se para tanto perigosamente do extremo da visão materialista vulgar de inspiração nietzschiana. prefiguraria as guerras e os campos de concentração nas colônias da Inglaterra na África99. James Joyce Quarterly.sinaldemenos. e Leona oker.org Ano 8. condensa de forma explosiva a dialética da Ilustração. Stephen lança uma isca atrás da outra. e se assegura de que os adversários (juntamente com o leitor sabichão) se entusiasmem com a ideia de mordê-las. and Colonialism. No episódio da Biblioteca em particular. Não simplesmente. a concepção fetichista da arte como efeito do gênio criador do artista (“After God Shakespeare has created most”101.212. Capitalism. 99 . encampada pelo cínico-hedonista As múltiplas referências à violência das guerras coloniais britânicas no Ulysses foram trabalhadas por Barbara Temple. nas inovações sintáticas.[-] www.212.

a qual no momento certo também haverá de ser desbancada –. razão pela qual no melhor modernismo a preocupação com as realidades sociais e com a política não vem nunca dissociada do experimentalismo. o que também é evidente. e vice-versa. 2016 129 Buck Mulligan. como sugere clicherescamente um dos interlocutores. está na própria vida. Sem falar na situação dilacerada do intelectual em contexto social e cultural retrógrado e regressivo. e ao contrário do que sustenta a crítica dominante.. n°12. 21. e sem dúvida involuntariamente. em que pensamento autônomo e dependência pessoal direta quase não se distinguem. aos campos de concentração. justamente. em modo performativo.org Ano 8. e não. a adotar uma posição de equilíbrio. p. do encadeamento de ideias sem qualquer 102 José Antonio Pasta. beirando o filistinismo cultural em sua aversão pela materialidade de ideais e valores. a infecundidade do chiste esclarecido. à legitimação cultural da violência do imperialismo etc.sinaldemenos. que dá muitas voltas e não leva aparentemente a parte alguma.[-] www. o parâmetro último da obra de Joyce vem sempre do mundo real. pela qual Stephen expõe. com “sua fidelidade a uma matéria histórica que. a fim de contrariá-la. são levados a se expor. . algo tão estéril quanto reduzir toda a démarche joyciana à reunião (muito embora original e fruto de ampla pesquisa) de materiais literários pré-formados. Pois é no fundo a capacidade da arte de transpor de forma acurada a realidade vivida que está em jogo. nunca é o caso de falsear”102. A reflexividade da obra aqui é levada a um ponto elevado: Ulysses é um livro autoral. Por isso a referência reiterada diversas vezes (sobretudo neste capítulo) à Guerra dos Bôeres. centrar o movimento todo no indivíduo Joyce. bem como estadeia a má infinidade da preleção lógica. mas isso não justifica amortizar tudo à biografia do autor. Com isso em mente. e que não obstante recompõe matrizes narrativas das mais variadas. a articulação que interessa se dá sobretudo no nível dos pontos de vista narrativos). a adotar os lugares-comuns de um idealismo extremo. O próprio texto então sugere a necessidade de dialetizar os extremos. cit. seus interlocutores. voltemos à teoria sobre Hamlet. não passando o autor de mero mediador/articulador dos mesmos (como já dito. o que é óbvio. o que leva a uma inclinação maior pela postura materialista. e não na obra sem si. art. Assim como em Machado de Assis ou em Brecht. para o grande artista. vol. 1. “ recht e o rasil: afinidades eletivas”. o caminho do meio. cuja dimensão de consequência tem a ver.

são os romances de maturidade de Machado de Assis. Arantes. Rohden e A. – em cada caso periclita em função de não ter “materiais em que se apoiar” Roberto Schwarz. após estada de estudos em Paris. à consequência do sujeito. cujo brilho – em geral proveniente do privilégio de terem estudado fora. contudo. 103 . podendo ser encontrado. Seria interessante. p. as ideias acabam rebaixadas a uma dimensão puramente estratégica. “Para a fisionomia de Os Demônios” [1961].” 104 Immanuel Kant. retornam aos respectivos países periféricos de origem (Rússia. ou do seu necessário fracasso. Aqui.. não parece ser exatamente o mesmo. a rigor s há ‘formação’ no pressuposto de uma espécie de racionalidade superior governando a marcha das coisas. e que por isso mesmo não se eleva acima da situação dada senão superficialmente. Não por acaso. ou oportunista. porque as ideias de forma geral não estão ligadas a convicções. Como resultado. Paulo E. Trata-se como se sabe de traço comum de intelectuais e cavalheiros ilustrados em contexto periférico. já davam mostra disso. “Conversa com um fil sofo zero à esquerda” [2000]. 2016 130 ligação efetiva com a prática. interrompida etc. o fictício Costaguana e Irlanda) adotando a postura de intelectuais presunçosos. do real interesse teórico. como Stiepan Trofímovitch. Crítica da faculdade do juízo [1790]. No modelo clássico. 2004. Um pouco à maneira de Hamlet. Rio de Janeiro: Paz e Terra. que volta ao atrasado reino da Dinamarca depois de passar uma temporada em universidade estrangeira (outra comparação possível. Conscientes das contradições de sua condição (as quais. Ou. sempre adiada. cada qual joga com as mesmas como pode. no Brasil tal curva formativa deveria ser descendente. seria o caso de se falar de uma verdadeira deseducação. São Paulo: Conrad. as três personagens em questão. V. de novo. Seja como for. de diferentes modos. nos autores em questão. de Nostromo (1904). que também oscila entre a ideologia ilustrada de origem francesa e a servidão prática imposta pelo contexto russo). Cf. vol. e a curva deceptiva que descrevem. por exemplo. esta real. Ora. saberem francês etc. trad. imaginar-se alguém protagonista de um Romance de Formação no Brasil é uma senhora enormidade. e com isso não somente passam ao largo do essencial como dão vazão a um debate ele mesmo estéril. Rio de Janeiro: Forense Universitária. por outra. § 40. no Brás Cubas. aprofundar o problema dos deslocamentos ideológicos no Ulysses (em particular no capítulo da Biblioteca) através do estudo de aproximações e diferenças específicas no uso das ideais por Stephen e outras personagens romanescas afins.[-] www. ou à consistência. nem tem como se fechar. no “mano capeta do liberalismo” e no homem do subsolo dostoievskiano. Quando questionado a respeito. em nenhum destes exemplos o círculo formativo se fecha. bem entendido. De passagem. ou Martin Decoud. O ponto – ou o drama – é justamente que pouco importa naquele contexto se ele acredita ou não naquilo que sustenta. sendo necessária análise caso a caso. 1981. de Os Demônios (1872). as reflexões voláteis durante a caminhada em Sandymont Strand. em A sereia e o desconfiado. n°12. segundo o metro patriarcal que nos pautava. ou ainda no banqueiro anarquista de Pessoa103. foi isso o que Roberto [Schwarz] viu nos anos de iniciação e viagem de um engendro da escravidão como o nosso rás Cubas. que permitem enxergar melhor o problema da impossibilidade de síntese. Stephen diz prontamente A generalização desta hipótese é decerto problemática. Marques. em detrimento. 1. Os críticos costumam se dividir ao determinar se Stephen realmente acredita ou não em sua teoria.org Ano 8. seria Alexander Puchkin. in Zero à esquerda. o jogo de espelhos. por exemplo. em “Proteus”.sinaldemenos. 258: “Embora vivamos num país tomado por uma ansiedade crônica com a sua formação nacional. à exigência moderna de “pensar sempre em acordo consigo próprio”104. de sorte que a formação se completa pela conversão de uma espécie de loucura subjetiva a essa marcha ascendente do mundo. em Goethe ou Hegel. e precisaria ser propriamente determinado. reaparecem na forma com que elaboram os pontos de vista literários). 72). p. 2005.

fora em vão? É o sentimento que fica: “What have I learned? Of them? Of me?”107 Para que colocar suas ideias no papel. Conversations with James Joyce. Daí a impressão superficial. contudo. 108 Cf. na necessidade de diminuir “o véu que separa a literatura e a vida”105). 106 Cf. da cultura formativa. 107 U 9. U 9. de que todo o esforço contido na produção e na leitura de um livro como o Ulysses não dê ao final em lugar algum: o romance não passaria no fundo da exposição de uma situação aporética.sinaldemenos. ou por que diabos publicar o que quer que seja num contexto em que as ideias não tem peso algum? “Para competir com fraseadores. Ao mesmo tempo não resta dúvida que a necessidade de se achar uma saída para o presente – acordar do pesadelo de uma história que não passa – está no centro das preocupações do artista. the voice of Esau. Ao contrário dos demais. cit. p.To compete with phrasemongers.213-4. James Duffy. “I am tired of my voice. “A Painful Case”. em pensamento. 2016 131 não acreditar na hipótese cuja intricada construção acabara de expor nos mínimos detalhes. 1. n°12. e era essa a convicção do próprio Joyce. That is. 105 . cit. outro alterego do autor). a inequívoca referência bíblica é a que James Joyce. 1982. como em diversas partes do romance (ou da obra de Joyce de modo geral) o capítulo da Biblioteca traz para o primeiro plano a questão da inutilidade. tanto de Joyce como de Stephen.211.215. For what. pelo menos. se pergunta uma personagem reclusa e resignada de um conto de Joyce (Mr. na sequência. incapable of thinking consecutively for sixty seconds? To submit himself to the criticisms of an obtuse middle class which entrusted its morality to policemen and its fine arts to impresarios?” 109 U 9. sim (se não na redução biográfica propriamente dita. help me to believe or help me to unbelieve?”106). James Joyce.. esta para Stephen é experimentada como algo dramático.[-] www. incapazes de pensar consecutivamente por sessenta segundos? Para se submeter às críticas de uma classe média obtusa que confiou sua moralidade à polícia e suas belas-artes a empresários?”108 Novamente. 98. em Arthur Power. deixa entender que acredita. mas que naquela situação talvez fosse preferível não acreditar (“I believe. 164: “She asked him why did he not write out his thoughts. with careful scorn.org Ano 8. My kingdom for a drink. O Lord. em contexto retardatário e regressivo. help my unbelief. vol.”109 Para além do détournement fácil da frase célebre do Ricardo III (“Meu reino por um cavalo!”). Chicago: The University of Chicago. então. he asked her. em Dubliners. ainda que concreta. ed. que não veem (ou vivenciam) como problemática a dissociação. Toda a discussão. p.

que segundo Stephen enformaria boa parte da obra de Shakespeare. banishment from home”110). o jogo de azar. 1. novamente a impossibilidade cabal do diálogo.[-] www. 113 U 9.. banishement from the heart. a culpabilidade e o horizonte de expectativas rebaixado durante a deriva na praia. marcada pelas compensações habituais. a prisão do sempre-igual. a mercantilização da literatura. de despossessão e esquecimento de si.. o próprio debate de ideias é opressivo – por falta de mediações reais. Stephen sente e começa a enxergar mais claramente a necessidade de pôr um fim ao pesadelo infernal: “Life is many days. o sensacionalismo e a venalidade ideológica na redação do jornal. day after day.”111 Não havendo espaço social ou relações interpessoais verdadeiras em que possa se representar a própria vida. está disposto a trocar todo aquele improfícuo debate pela bebedeira com os comparsas no pub. A exasperação da separação condiciona o desejo de fuga ou de indiferenciação. A percepção do inferno de uma vida cotidiana insossa. U 9.211. 2016 132 interessa aqui: sua voz não é reconhecida pela autoridade paterna (o pai real é um fraco. n°12. a conversa fiada sobre mulher e futebol.”113 Entre a necessidade objetiva de formar relações (mas de que tipo?) e “o ímpeto de asserção de uma U 9. a nação irlandesa é dependente e atrasada e o círculo dos literatos ao qual almeja fazer parte não passa de uma piada).org Ano 8. as “polêmicas” são de fato estéreis –. ou objetivar um lugar em que se sinta realmente vivo. 110 111 . a mediocridade difusa e a frustração no emprego na escola. o cinismo esclarecido e a inautenticidade das relações na torre Martello.215. Entretanto. parece ainda mais aguda após a discussão: “Every life is many days. o chope no bar. 112 U 9. mas que é igualmente – e agora não há mais como não ver – a marca inconfundível da obra do próprio Joyce. e fora dele impera a insipidez da existência não considerada (“out of the voulted cell into a shattering daylight of no thoughts”112). This will end. momentâneo que seja.214. o silêncio do mundo. a falha da identificação dá a nota do desterro (“The note of banishment. Stephen anseia por um estado. com as experiências negativas que vai acumulando pelo caminho – a falência da comunicação.213. a superfluidade cultural e a desconexão entre ideias e vida na discussão da Biblioteca –.sinaldemenos. vol.

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identidade exilada”114 há um hiato aparentemente intransponível e cada vez mais
acentuado e acirrado.
Nesta altura, o caminho tomado pelo jovem poeta vai ficando mais nítido
também para o leitor. Ao final do primeiro episódio, ele já havia deixado claro que não
voltaria a dormir na torre Martello e que voltar para casa paterna tampouco era uma
opção (“I will not sleep here tonight. Home also I cannot go.”115). Mais tarde, em
“Eumaeus”, a decisão de deixar o emprego na escola parece ter sido tomada e ser
definitiva, e o fato de não ter para onde ir é reiterado algumas linhas depois, na mesma
página (“There’ll be a job tomorro

or the next day [...] in a boy’s school at Dal ey for

a gentleman usher. [...] I have no place to sleep myself”116). Entre um e outro episódio,
em “Wandering Rocks”, figura uma cena que, apesar de breve, é uma das mais fortes e
dramáticas de todo o livro. Stephen encontra por acaso na rua uma de suas irmãs, Dilly,
comprando num estande um livro de segunda mão para aprender francês, sem dúvida
espelhando-se no irmão mais velho, sonhando ela também viajar, estudar fora, sair
daquele buraco. Conquanto remoído pela culpa, Stephen percebe que não tem como
salvá-la sem se deixar afogar junto com a menina na miséria em que se encontra (“She is
drowning. Agenbite. Save her. All against us. She will drown me with her, eyes and
hair. Lank coils of seaweed hair around me, my heart, my soul. Salt green death./ We/
Agenbite of in it. In it’s agenbite./ Misery! Misery!”117). A imagem lembra a cena do
afogamento na peça shakespeariana (imortalizada numa tela famosa do pintor prérafaelita John Everett Millais): como Hamlet com relação a Ofélia, Stephen tem de ser
cruel, deixar a pobre irmã à própria sorte se quiser levar a cabo seu desígnio maior, o
que não pode fazer sem sentir remorso. A cena, destituída de qualquer ironia, põe em
evidência o quanto o desligamento do status quo para Stephen está longe de ser leviano.
A emancipação, Joyce o sabia bem, é um processo penoso.
Em “Oxen of the Sun” a fatura literária é novamente exposta, e de forma bastante
incisiva. O romance que segundo alguns marca o fim da forma romance tal como fora
concebida e praticada até então é aqui de certo modo reminiscente daquele que
Raymond Williams, “Os exilados” [1982], em A.
Janeiro: Imago, 1992, p. 107.
115 U 1.29.
116 U 16.537.
117 U 10.242.
114

estrovski org.), Ensaios sobre James Joyce, Rio de

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inaugura o gênero no início dos tempos modernos. Paródia dos livros de cavalaria
dominantes até recentemente, a linguagem do Dom Quixote, crítica das linguagens
então existentes, simboliza o ocaso de toda uma época, bem como a inauguração de um
novo tempo do mundo. Semelhantemente a Cervantes e Shakespeare, Joyce se situa
num momento de transição, em que um novo mundo, pra bem ou pra mal, parece se
anunciar no horizonte – a composição do Ulysses, como dito, é contemporânea da
Primeira Guerra e da Revolução Bolchevique – e para o qual uma nova linguagem seria
necessária. No que diz respeito ao capítulo em questão, se nos ativermos a uma leitura
superficial, o que vem à tona é antes de tudo o fastio do virtuosismo técnico que tem em
si mesmo a única razão de ser – algo que décadas depois seria marca de certa literatura
do pós-guerra, notadamente o Nouveau Roman. A arte do pastiche é aqui levada ao
limite: em nove etapas não explicitamente diferenciadas, toda a literatura inglesa é
pastichada, o conjunto dando à luz uma língua nova, algo caótica (um jorro de gírias
modernas), ainda não de todo formada. Novamente oscilando entre o mero pastiche e a
paródia aberta, Joyce parece em muitos momentos propositalmente carregar na tinta,
exacerbando a reprodução de cada estilo, sem dúvida no propósito de não deixar pedra
sobre pedra. E de fato não sobra nada. Nada? Tudo somado, na superfície, pouca coisa
parece digna de nota em termos de conteúdo neste talvez mais longo do que necessário
capítulo. Lido isoladamente, parece de fato much ado about nothing. Inserido no
conjunto, em contrapartida, levando-se em consideração o encadeamento dos episódios,
“Oxen of the Sun” redimensiona alguns motivos centrais. A dialética de inanidade e
fertilidade que atravessa o livro ganha melhores contornos, e o tema do nascimento de
uma nova língua ou sintaxe articula-se ao da formação embrionária de um “novo”
Stephen. Na explicação fornecida pelo próprio Joyce: “Bloom is the spermatozoon, the
hospital the womb, the nurse the ovum, Stephen the embryo.”118 Traduzindo à nossa
maneira: fertilizado pela vida cotidiana reificada (incorporada, bem entendido, por
Bloom), gerado no ventre do trabalho alienado (o hospital representa entre outras coisas
os estudos de medicina, os quais aludem inequivocamente tanto à experiência frustrada
de Dedalus em Paris quanto ao Wilhelm Meister, que, como é sabido, largara mão do

James Joyce, em carta a Frank Budgen, de 20 de março de 1920, em Letters, vol. 1, New York: Viking,
1966, p. 140.

118

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135

teatro pela profissão mais séria e socialmente aceitável 119), Stephen, que aparece já
bastante embriagado no episódio, portanto fora de si, emerge pouco a pouco como
encarnação do artista “amadurecente”, artífice de uma nova linguagem para tempos
novos, ela mesma lugar-tenente de novas relações. A par disso, chamaria a atenção para
uma passagem significativa, em que Stephen é descrito como “the young poet who
found a refuge from his labours of pedagogy and metaphysical inquisition in the
convivial atmosphere of Socratic discussion”120. A discussão filosófica é refúgio e figura
em clara oposição à vida danificada, oscilando indefinidamente entre a frustração com o
trabalho submetido e o movimento errático e desordenado das ideias desenraizadas. Por
depauperada que seja, a prática coletiva da inteligência é posta explicitamente pelo
narrador como superior ao pensamento isolado do poeta solitário. Sem saída à vista,
contudo, ou na ausência de uma elaboração coletiva com vistas a uma saída, o dito
refúgio não passa de magra consolação, para não dizer escárnio. À luz da discussão
precedente, no episódio da Biblioteca, que não dera em lugar nenhum e que colocara em
evidência a mais cabal esterilidade das ideias, a observação do narrador, aqui, soa
irônica: a discussão socrática – a maiêutica! –, naquele contexto, ainda não é capaz de
parir nada de concreto ou efetivo, em claro contraste, portanto, com o que sugere o
episódio em questão.
“Circe” é quiçá o mais surreal capítulo do livro, ou melhor, surrealista avant la
lettre. Trata-se da Walpurgisnacht joyciana. Muito haveria que destacar aqui, mas
chamemos a atenção para o seguinte. O andar da prosa, assim como o de Bloom e
Stephen, é titubeante. Levado pela embriaguez, este último, após uma confusão num
bordel, se mete numa briga de rua. Tudo se passa como se o processo de desvinculação
desencadeado no primeiro episódio, do franquear do espírito dos “três mestres”
aludidos no início do livro (colonialismo britânico, catolicismo romano, nacionalismo
irlandês), tivesse que ter uma passagem ao ato mais ou menos violenta, muito embora
irrisória em aparência (quase uma paródia do ato autêntico), como que para marcar
simbolicamente um ponto de não retorno. Stephen usa o sarcasmo sem parelho (“He

Para além da história de Dédalos e Ícaro, pode-se conjecturar se a torre Martello não remeteria ainda à
Sociedade da Torre, à qual se submete Meister após o romance passageiro com o teatro.
120 U 14.414.
119

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136

expresses himself with much marked refinement of phraseology”121) e insulta
explicitamente a Igreja e o rei da Inglaterra na presença de soldados ingleses. A forma
literária empregada aqui é a teatral (uma escrita precursora do teatro do absurdo), que
põe em cena uma ação dialogada (ainda que um diálogo completamente torto) e
personagens empenhadas na resolução de um conflito menor, o que é claramente
satirizado por Stephen, que escarnece tanto do Fausto de Goethe quanto de Kant
(“Personally, I detest action”122; “This feast of pure reason”123). Bloom, como de praxe,
faz o papel de conciliador, pra variar sem sucesso. Após ser xingado de pró-bôer por um
dos soldados, Stephen leva um soco do outro, e cai estatelado no chão. A polícia chega, a
multidão se dissipa, Bloom ajuda Stephen a se reerguer e os dois continuam sua
peregrinação, com o mais velho servido como que de guia do poeta – como Virgílio com
Dante na Commedia – através dos círculos e abismos infernais da Dublin noturna.
Em “Eumaeus”, episódio seguinte, que abre a última parte do livro (“Nostos”),
fica claro que, embora equivalentes em termos capitalistas, subsumidas à mesma forma
geral abstrata do trabalho assalariado, as atividades intelectuais diretamente ligadas à
formação cultural autêntica (produção literária e professorado), de um lado, e a tarefa
pseudoartística de bolar anúncios apelativos e ludibriantes, de outro, não somente não
são do mesmo tipo como têm, para além da expectativa de remuneração, finalidades
bem distintas, implicando por isso mesmo formas diferentes de conceber o mundo e a
vida. Neste episódio, Bloom defende sua versão patriótica – e completamente
desenraizada do movimento real da sociedade – de um Estado de bem-estar ao qual já
se havia aludido no episódio anterior (“the new Bloomusalem in the New Hibernia of
the future”124), e o pequeno diálogo que trava com Stephen a respeito é revelador a
muitos títulos125. O publicitário de meia idade sustenta se tratar de um sistema em que
se viveria bem, à condição de que se trabalhe (“Where you can live well, the sense is, if
you work”), ao que o jovem poeta redargue, para a surpresa de seu mediano
interlocutor, que se for para trabalhar está fora, “não conte comigo” (“Count me out [...],
meaning to work”). Espírito naturalmente conciliador, como já se viu, avesso a conflitos
U 15.521.
U 15.520.
123 U 15.528.
124 U 15.459.
125 Para o que segue, cf. U 16.565.
121

122

137

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de qualquer ordem, Bloom, que respeita em Stephen não apenas o talento nato, mas a
inteligência e o conhecimento acumulado, embora desconcertado com a inesperada
declaração do jovem, tenta reparar a situação, deslizando uma vez mais seus lugarescomuns e, como de costume, fazendo abstração das relações reais de produção: quando
fala em trabalho é em sentido amplo, o mais vasto possível (“work in the widest possible
sense”), de modo que o labor literário, ou cerebral, também é trabalho, e trabalho
importante (“That’s

or too. Important

or .”), tão importante para o país quanto o

trabalho braçal de um camponês (“You both belong to Ireland, the brain and the
brawn. Each is equally importante.”). Bloom conclui o remendo enfatizando que, após
todo o dinheiro gasto e investido com sua educação (“after all the money expended on
your education”), Stephen deveria gozar do direito adquirido de viver do que escreve
(“right to live by your pen”), e cobrar o seu preço (“You are entitled to recoup yourself
and command your price.”), escrevendo, por exemplo, para... um jornal, sendo a
mediocridade jornalística do tempo novamente exposta na sequência. Bloom não se
conforma com o fato de um jovem talentoso e cultivado não dar para nada. Aos seus
olhos, Stephen não passa de um investimento que ainda tem chances de dar certo, quer
dizer, de trazer algum retorno. A noção do desperdício e do subuso da cultura
acumulada tem aqui sentido meramente capitalista: não dar em nada ou não servir para
nada, na cabeça de Bloom, significa não dar dinheiro. Por sua vez, o subemprego de suas
faculdades intelectuais e poéticas é, como dito, vivido por Stephen como uma mutilação,
por certo, mas não tem praticamente relação alguma com retorno financeiro ou
reconhecimento social em termos capitalistas. Ganhar a vida – que sardonicamente
supõe negá-la, perdre sa vie à la gagner – é uma necessidade à qual não tem como
escapar, mas que não tem nada a ver com a vida do pensamento, a arte e a poesia, muito
pelo contrário: a ensurdecedora prosa do mundo capitalista abafa por completo a sua
voz lírica e torna o pensamento algo irrisório e sem efeito, vale dizer, sem efeito prático.
Entediado com a avalanche de lugares-comuns e sem paciência para discutir ou trocar
ideias com o mediano interlocutor que tem diante de si, que sequer é capaz de entender
a ironia e o sarcasmo de suas colocações, Stephen põe abruptamente um fim àquela
conversa bovina: “We can’t change the country. Let us change the subject.”126
126

U 16.566.

e redinamizado em seguida pela experiência do desterro. pp..138 [-] www.sinaldemenos. e que esperamos ter ficado claro. n°12. Jameson & E. 197-98. em . 12 de agosto de 1906. Como em Marx e Engels. não sem antes se voltar contra a própria qualidade de trabalhador abstrato e alienado. O que interessa salientar. James Joyce. Colonialism. o próprio Joyce. a qual o leva ao final a retomar o caminho do exílio no velho continente. Agradeço a Cláudio R. ed. justificasse em termos semelhantes a sua opção pelo socialismo128. é o que torna o modo de estar no mundo de Stephen deslocado com relação aos papéis sociais. Nada mais ilusório. que supõe a formulação de um questionamento acerca das condições gerais necessárias para satisfazer carências e anseios particulares127. resumidamente. abrem as portas para uma perspectiva social mais ampla. James Joyce. em R.org Ano 8. em contrapartida. Não é de surpreender que. é que. cit. Said. subordinado e comandado pelo capital –. F. cartas a Stanislaus Joyce. Precisamente esta tomada de consciência individual e a progressiva asserção de uma identidade negativa (ou negativamente determinada por aquilo mesmo a que se opõe). as excelentes colocações de Terry Eagleton. a Retomo aqui. vol. ao remeterem em causa a objetividade socialmente petrificada do mundo instituído. 2016 *** De nossa leitura do percurso de Stephen Dedalus no Ulysses – em que se acentuou a contradição insolúvel entre o apelo da vida verdadeira (associado no caso à aspiração literária autêntica) e as condições sociais retrógradas. Nationalism. em resposta à situação lacerada do artista e do intelectual em contexto capitalista periférico. menos ainda de uma saída individual do pesadelo da história. and Literature. e cuja realização é incompatível com a existência posta. cit. ao contrário do que pensa seu maior biógrafo (Richard Ellmann) nada tem de abstrusa. Duarte ter chamado a minha atenção para este texto. sob o pano de fundo do contexto revolucionário russo (19051907). Minneapolis/London: University of Minnesota. 127 . Ellmann. ofícios e funções que se espera que exerça. “ ationalism: rony and Commitment” [1988]. não se deve deduzir uma apologia abstrata do êxodo. 128 Cf. o trabalho artístico de Joyce configura um deslocamento existencial – chamemo-lo assim faute de mieux – cujo estatuto é preciso situar e determinar social e historicamente. de 2 ou 3 de maio de 1905 e c. diante do irmão desconfiado. A consciência de necessidades e desejos ligados à produção artística autêntica. 1. Eagleton. notadamente com o imobilismo e o marasmo opressivo da sociedade dublinense. justificativa que. W. 23-39. 2001. pp.

carregado de tolice. que Joyce no Ulysses procura notadamente atualizar o tema flaubertiano do emparedamento da vida moderna. como se sabe. 130 A importância do jogo dialético (ou melhor. o que naquela altura soaria mais do que falso. n°12. La représentation de la réalité dans la littérature occidental. condição colonialismo. ed. C. aristocratismo. para concluir. que Joyce não sem razão associava à arte. trad. frustrações. com a vitalidade poético-epifânica de um Rimbaud130. isto é. p. mas na impossibilidade objetiva de equilibrar a negatividade arrasadora que permeia o universo literário claustrofóbico de Flaubert. Dargestellte Wirklichkeit in der abendländischen Literatur [1946].sinaldemenos. 2016 perspectiva socialista para Joyce se justificava e se delineava negativamente. 512. 483. a lição fundamental do romance. 1994. caderno Mais! (13/08/2000). pp.139 [-] www. a possibilidade de formas de vida diferenciadas figuraria como que em negativo e para além dela. impedem e despotencializam a vida. como que a “solução” para pintar da maneira mais “realista” a possibilidade. se insurge contra a rigidez e a estreiteza do cotidiano reificado. mutatis mutandis. condição racismo. E não seria outra. mal-entendidos e mesquinhez. 242-44 131 Cf. de outras formas de existência e de desejo. Mimesis. Tübingen/Basel: Francke.) que machismo. Paris: Gallimard. vol. burguesa. 129 . como lembra Raymond Williams. pela necessária negação de tudo aquilo que obstrui o fluxo da vida. que ao invés de representá-la explicitamente no interior da ação dramática. o autor cedo encontrara na obra e na pessoa de Ibsen. Digamos então. a saber: “a coragem de medir e de sustentar a distância entre o imperativo da vida autêntica e a realidade degradada”129. Erich Auerbach. é para reconstruí-la de modo a colocála em tensão com uma dimensão de diferença articulada apenas parcialmente. segundo o jovem Lukács. nacionalismo. mas suficientemente tangível: a linguagem cotidiana vem encapsulada em esquemas de José Antonio Pasta. p. forma moderna admiravelmente atualizada e levada aos limites de suas possibilidades no Ulysses e no quase ilegível Finnegans Wake. aporético) entre Flaubert e Rimbaud na obra de Joyce. Heim: Mimesis.. de todas as forças regressivas (clericalismo. se o autor norueguês opera de fato dentro da fala cotidiana.org Ano 8. p. cit. A dramaturgia de Ibsen. proletária. em The Way of the World. Folha de São Paulo. notadamente no Portrait.. 25. “A forma angustiada de Lukács”. remota que fosse. e de modo simplista talvez. 1968. 1. Ocorre. autor semiperiférico e durante anos autoexilado como ele.. foi trazida à tona e bem analisada por Franco Moretti. a falta de liberdade e a falsificação geral da vida moral burguesa no contexto semiperiférico de uma sociedade escandinava fin de siècle131.

criando fissuras no recipiente que a contém. não sem ambiguidade. vol. fica sugerida. p.132 É digno de nota que ao final do percurso. 2016 distúrbio. Como nas melhores peças de Brecht. supondo antes o trabalho e a inteligência do leitor. e que conduza para além do presente infinitamente expandido da sociedade da mercadoria. mas de tal forma que acaba por indicar ou preludiar modos desarticulados de existência e desejo que transcendem os limites de sua estruturação habitual. ensimesmamento e barreira. “Life is many days. 169. pensar. A ruptura. 106 e 107. também a linguagem parece cansada. deixando de lado toda preocupação com as normas gramaticais no derradeiro episódio. que deve refletir por conta própria e tirar as próprias conclusões sobre os problemas levantados mas não solucionados pelo livro. está para além da obra. tal “abertura” – ou suspensão do sentido – não é a das mil e uma leituras e interpretações possíveis. 1992. A tática da extenuação e a estratégia de compor uma obra por assim dizer em decomposição – ou por outra.133 No Ulysses. ou de qualquer representação. n°12.. 132 133 . Paris: Gallimard. o de ao final confirmar e consolidar a totalidade reificada. a insistência nas formas enregeladas de falar. a saber. no entanto. o significante joyciano vem grifado em Guy Debord. “Os exilados”. e o leitor. a paralisia do desenvolvimento histórico total em prol do movimento independente da economia fetichizada. art. tradicionais como burguesas – e ao mesmo tempo contra a decomposição em curso comporta decerto um risco.sinaldemenos. cit. deslocamento. § 175.” (outono-inverno de 2016) Cf. termina o romance – pode ser comparada à imagem da água que ao congelar ganha volume. até atingir o ponto em que finalmente o arrebenta. assim como as personagens. mas uma que tem a ver com uma pedagogia revolucionária. pp. sonhar e desejar – com as quais aliás. uma obra que se situe no interior do movimento geral de dissolução das formas. 1. This will end. todas igualmente válidas e por isso mesmo no fundo estéreis. no sentido de que abre as portas para a possibilidade de se imaginar uma intervenção política fora do horizonte conceitual capitalista. La société du spectacle [1967]. contudo. em “Ithaca” e em “Penelope”. Explicitamente ligado ao bloqueio atual do processo histórico geral.org Ano 8. Raymond Williams.140 [-] www. para não dizer esgotada.

sem superar seus pressupostos: tais são algumas variantes de uma estrutura fundamental na obra do primeiro Joyce.org Ano 8. uma espécie de movimento em repouso. 1. colocando em evidência as teias formadas entre a sua literatura e o processo social de um país capitalista periférico. 2016 141 PERIFERIA/PARALISIA A figuração do inferno colonial no primeiro Joyce Cláudio R.[-] www. circular. buscando interpretar seu referente histórico sedimentado numa forma literária substancial. inercial. vol.sinaldemenos. infindável e evanescente. Duarte Movimento e repouso – ou antes. analisar seu padrão e algumas de suas derivações. que só sai do lugar para retornar ao mesmo ponto. O pleno modernismo de Ulysses e Finnegans Wake parece-nos ser uma resposta a essa questão referencial lançada pela obra do início. que repercutiria no coração da obra posterior. n°12. Chamber Music: curvas do amor e da questão colonial Em Chamber Music (1907) são abundantes as imagens idílicas de calmaria e repouso – “At that hour when all things have repose” (“Quando tudo repousa sobre a . Tentaremos ouvir alguns textos do jovem escritor – de Chamber Music e de Dubliners –. Pode-se sugerir desde já como a figura do movimento paralítico acima evocada encerra em si o mito e a história de uma maneira específica: o tema materialista do “desencantamento do mundo” faz unidade com a figuração simbólica de um verdadeiro “inferno” colonial. até pouco tempo encobertas pelas leituras formalistas.

p.3 A curva do amor será agora descendente (“Sing about the long deep sleep / Of lovers that are dead and how / In the grave all love shall sleep” – “Cante o longo torpor de amor/ De amantes mortos. no que segue. 1998. / E como. 1. 5 Ibid. 78-9. James. como diz o próximo poema da série. ibid. Love is past That had his sweet hours many a one. sejam bem-vindas/ As estradas a percorrer. Finda-se/ O amor. poema XXX.org Ano 8.. mesclando algum vocabulário arcaico aos temas do decadentismo. Uma alma que no entanto se elevava. bilíngue. 4 Ibid. sobretudo nos versos finais.) São Paulo: Iluminuras.. em sua cova. Welcome to us now at the last The ways that we shall go upon. Música de Câmara/Chamber Music [1907]. beneficiei-me de várias de suas notas e reflexões). arise” (“Meu peito será teu leito” / “Alça-te mais. O desenlace sombrio... (Ed. como lemos num dos primeiros poemas – interrompidas subitamente por influxos da natureza. p. enfim. p. 54-5. não tarda. 104-5. poema XXVIII. 3 Ibid. na consumação do amor carnal: “My breast shall be your bed /(. 2 Idem.” (“Fomos amantes fúnebres. até recomeçar e abrir-se para novos caminhos: “We were grave lovers. introdução e notas: Alípio Correia de Franca Neto. 108-9.”5) JOYCE. de paz e de prazer. o amor / vai repousar”)4. poema III (tradução. lado a lado. A curva do livro tem seu clímax no poema XIV.. / Agora. 2016 142 terra”)1. vol.sinaldemenos. “from love’s deep slumber and from death” (“do mais fundo torpor de morte e amor”). n°12. poema XV. 76-7. p..[-] www. poema XIV. após uma misteriosa música descer à terra sombria. São poemas delicados e musicais. evocando a paixão e o encontro dos amantes. alça-te mais”2). contendo boas imagens e impressões.) Arise. da sociedade ou dos corpos apaixonados. por isso mesmo. 1 .. escritos num estilo elisabetano tardio mas vivo.. p.

behind them stand. cit.9 Esse rumor é como um prenúncio de ruptura. foam about their knees: Arrogant. um “lamento” (“moan”) vindo das profundezas do mar. Paysage e Le soleil. They cry unto the night their battle-name: I moan in sleep when I hear afar their whirling laughter. em especial. 2011.. de Baudelaire. Para uma análise. nº 7. poema XXXIV.7 Passos adiante. 116-7.org Ano 8. – o que racha o cenário quase pastoril dos pequenos amantes privados da história. que se equipara em sua gravidade ao da gaivota/poeta no céu cinzento. 118-119. in black armour. os poemas que abrem os “Tableaux Parisiens”. 2016 143 O livro que começara com a doce música e a descoberta do amor se depara então com a “brown land” (“terras pardas”). 1. lembram um pouco o ritmo das Fleurs du Mal. numa mescla ambivalente de sonho e despertar de uma/para uma ação: “I hear an army charging upon the land. é ouvido: “ s crying ‘Sleep no more!’” (“É um brado: ‘ ão durma’”8). as tensões se acumulam e um grito. the charioteers. eco direto de Macbeth. poema XXXIII. sweetheart. poema XXXV. os poemas se interligam numa estrutura narrativa. “ spleen da cidade sitiada .. O ano. with fluttering whips. p. for anything The year. p. 8 JOYCE. p. o ano. por coisa alguma. 6 7 . agora – se acumula”6). sugerindo as ruas escuras da Dublin joyceana. Música de Câmara/Chamber Music. vol. And the thunder of horses plunging. O penúltimo poema evoca o “rumor de águas” (“the noise of waters”). n°12. a obra termina com a força evocativa do poema XXXVI. DUAR E. ‘Révolte’ e ‘La mort’”.[-] www. op. 9 Ibid. de base vagamente histórica. Ibid. vide: Cláudio R..Esquema de ‘ ableaux parisiens’. aqui. Disdaining the reins.sinaldemenos. Nesse sentido. 114-5. Como se vê. meu amor. Sinal de menos. sugerindo que o contexto externo começa a contar: “Grieve not. the year is gathering” (“Não sofra.

que por sua vez permanece em repouso. my love. have you no wisdom thus to despair? My love.. que registram a chegada de uma tropa ruidosa na praia: “They come shaking in triumph their long. com tal desespero? .org Ano 8. com armadura negra.. green hair: They come out of the sea and run shouting by the shore.) ] Trata-se de um movimento externo ao eu lírico. E estrondo de cavalos se arrojando. Desdenhando as rédeas. vol. atrás deles se erguem. a espuma nos joelhos: Arrogantes. clanging upon the heart as upon an anvil”. (. A “música de câmara” é interrompida por esses versos mais longos e substanciais. 2016 They cleave the gloom of dreams. 1. Eles cindem o escuro onírico. fulgor que cega. E martelam. não tens prudência nenhuma. aliás. perplexo diante da configuração desse cenário de guerra e pesadelo. Clanging.sinaldemenos. os cocheiros. my love. …) [“Escuto um exército em carga pela terra. a blinding flame. My heart. com chicotes flutuantes. Eles bradam para a noite os seus nomes de guerra: Choro dormindo ouvindo ao longe o vórtice da gargalhada. completamente estranho e disruptivo em relação ao restante do livro.144 [-] www. martelam meu peito como a uma bigorna”. Coração. why have you left me alone?” [“Eles vêm sacudindo em triunfo a verde e longa cabeleira: Eles surgem do mar e aos berros correm pela praia. n°12.

p. p. esp. por que me deixaste só?” 10 ] A imagem arcaica dos guerreiros de longa cabeleira verde parece remeter à estética do “Crepúsculo Celta” e ao chauvinismo irlandês. 137).org Ano 8. 2015. cit. Música de Câmara/Chamber Music. 2000. Um tema que seria recortado e posto do avesso pela obra futura12. Sobre os artigos de opinião. a coletânea: JOYCE. Vide também o retrato dos sonhos do pequeno burguês Chandler. que Joyce criticara em vários textos e artigos da época. 2012. 38). James. “Ficção moderna” [1919] in: __.[-] www. cf. 1991. 110-11. em chave JOYCE. amor. amor. no conto “A Little Cloud”. em Dubliners.11 Face ao poder mítico desse exército – uma falsa solução para a questão colonial irlandesa?. Galindo: Ulysses. os dois artigos de Raphael F.). pastiche – Considerações sobre o Ulysses de Joyce” e “Hamlets de farda não hesitam – Uma leitura materialista do Ulysses”. Joyce teceu uma crítica aos “escritores nacionalistas da rlanda. mas paralisado em sua dúvida sobre a ação. literárias e históricas – uma obra a um só tempo “espiritual” 13 e pesadamente “materialista”. p. 14 Abandonado pela amante. Dubliners: cidade paralítica / imagem do inferno neocolonial Esse esquema destaca uma circularidade “mítica” da história. London-New York: Penguin. faziam severas restrições às tendências realistas de Joyce” V Z L . n°12. 43. São Paulo: Cosac Naify. p. o eu lírico parece invocar a sabedoria/prudência de Ulisses (ou de Dedalus). O valor do riso e outros ensaios. 2012.. o poema satírico “ he Holy ffice” 1904-5). as consequências.sinaldemenos. 1. vol. James Joyce e sua obra literária. Caetano W. Trad.. 2016 145 Amor. poema XXXVI. estilo. p. O desenlace ominoso reforça o esquema que notamos no início: repouso – movimento – repouso. Ulysses. 14 Cf. ou uma representação direta do poderio militar britânico? –. o eu lírico aparece não apenas isolado e desesperado. desde o início tida como enigmática e “chocante” por seus leitores. embaraçados em seus milhares de entrecruzamentos e referências míticas.. Amarante orgs. 165 e ss. p. ou melhor. São Paulo: Iluminuras. Medeiros e Dirce W. São Paulo: Companhia das Letras. 12 Lembremos da frase lapidar de Stephen Dedalus: “A hist ria . 10 11 . Pedagógica Universitária. op. 120-1. embebidos do romantismo do ‘crepúsculo céltico’. Paulo. São Paulo: Ed. em todos os sentidos do termo. que. De santos e sábios: escritos estéticos e políticos (S. ALVARENGA publicados nesta edição de Sinal de Menos: “Forma. 13 s termos entre aspas são de Virgínia W LF. James. em que começamos a divisar a questão nacional irlandesa.) é um pesadelo de que eu estou tentando acordar” J YCE.

registrando o desencontro do casal sonolento na cama logo após a paixão ter sido reacendida para Gabriel através de uma fagulha de lembrança de um jovem pretendente da esposa. their wayward and flickering existence. de Dante15 – que Joyce partirá para delinear a estrutura de Dubliners.org Ano 8. New York: Penguin/The Viking Critical Library. de morte em vida. como fica marcado de modo mais evidente e significativo. He had never felt like that himself towards any woman but he knew that such a feeling must be love. Pressentia. James. com a tempestade de neve tudo recobrindo lá fora. O ciclo de vida no entanto aparece como um ciclo de frustração e morte. p. ou. and notes edited by Robert Scholes and A. o livro tematiza o ciclo da “vida moral” dos cidadãos de Dublin (divididos em contos sobre a infância e a adolescência.[-] www. talvez. p. A bela página final. (Text. no conto final de nome emblemático. His own identity was fading out into a grey impalpable world: the solid world itself which these dead had one time reared and lived in was dissolving and dwindling”. O próprio mundo sólido que aqueles mortos um dia criaram. para uma leitura formalista: REYNOLDS. Constituído por quinze contos. but could not apprehend. As lágrimas cresceram nos olhos e ele imaginou ver na penumbra do quarto um jovem parado sob uma árvore encharcada. 16 JOYCE. 2016 146 inteiramente negativa. “The Dead”.sinaldemenos.16 Um “segredo” revelado pelo próprio irmão do escritor. ao mesmo tempo esboçada e evanescente: “Generous tears filled Gabriel's eyes. Mary T. New Jersey: Princeton Univ. Stanislaus Joyce. 221-2): “Pranto generoso invadiu-lhe os olhos. Other forms were near. antes. bem como de todos os seus companheiros de festa. Não por acaso. Dubliners. publicado apenas em 1914. n°12. a vida adulta e a vida pública). Outras formas estavam próximas. e no qual viveram. mas sabia que um sentimento assim tinha que ser amor. He was conscious of. do domínio da abstração real das relações modernas nela embutida. é um resumo dessa movimentação inerte que estamos aludindo. 1981. Nunca sentira algo assim por uma mulher. The tears gathered more thickly in his eyes and in the partial darkness he imagined he saw the form of a young man standing under a dripping tree. Dante’s literary influence in Dubliners: James Joyce’s modernist allegory of paralysis. no início e no fim da obra: o padre vítima de paralisia em “Sisters”. aqui. escrito entre 1904 e 1906. seu segundo livro. São Paulo: Publifolha. 1996. mas não podia apreender suas existências errantes e cintilantes. e a automortificação de Gabriel Conroy e sua esposa. Walton Litz). 223. como revelaria o próprio Joyce numa famosa carta ao editor. Sua alma acercava-se da região habitada pela vasta legião dos mortos. His soul had approached that region where dwell the vast hosts of the dead. Joyce and Dante: the shaping imagination. vol. é de outro texto de base mitológica – a Divina Comédia. LECUYER. dissolvia-se e acabava”. com emendas (Dublinenses.. Michelle Lynn. 2003. Aproveitaremos a tradução brasileira de Hamilton Trevisan. 1. abrindo o livro. 2009 (Graduate Theses and Dissertations). criticisms. Iowa: Iowa State University. 15 . Sua própria identidade desaparecia num mundo cinzento e impalpável. Cf.

mas ambos lidam com a alienação mercantil e a dependência nacional.sinaldemenos. PASTA JR. Os paralelos com Conrad dariam mais pano pra manga. ou. é verdade.org Ano 8. Ambos desenham um ciclo pleno de negações que implicam numa imagem da periferia. 83. n°12. Epifanias que nada têm que ver com ocultismo ou misticismo. Heart of Darkness.. melhor. Harmondsworth: Peguin. May 5. São Paulo: FFLCH-USP.. cit. 1. 1906” in: __. a repressão política e a morte da história coletiva. Esaú e Jacob. Elas revelam “a natureza da vida urbana moderna”. 1978. op. em contraste ao mundo machadiano do escravismo. Da insipidez da banalidade salta um quidditas puramente estético. 19 CONRAD. 90. Em termos formais. numa mescla de cor local e abstração social: “Em Dubliners não se dizia ao leitor o que pensar a respeito dos personagens e de suas ações. a partir da mesma matriz intertextual recriando o Inferno dantesco na periferia (um mundo de “almas insípidas”18 ou de “homens ocos”19) – é uma coincidência incrível. 20 termo foi usado por Joyce numa carta ao editor do livro: “A letter to Grant Richards. como uma intertextualidade puramente mítica ou esteticista. porém. ou de “formação supressiva”. 1977. Joseph. 17 .. Em Joyce temos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira-INL. Joaquim M.. ou Conrad seu Heart of Darkness (1899) – todos alinhados na mesma hora histórica. Não havia grandes pecados. para usar o termo chave cunhado por Joyce. ao que tudo indica útil também para tal contexto neocolonial. como resume Anthony Burguess.. que transcendem o fato banal.) – sujeição a rotinas e ao medo de rompê-las. a característica principal da obra de Joyce será a junção da objetividade do narrador realista a certos elementos simbólicos e alegóricos. inações. Formação supressiva (Constantes estruturais do romance brasileiro). Aí surgem as famosas “epifanias” joyceanas. p. 262. nem qualquer desempenho do grande bem. a emancipação que se busca mas não com a necessária Cf. de maneira ingênua. Cap. do favor e do gozo perverso no seio das classes dominantes. mas que certamente tem razões intrínsecas. uma dialética escandida pelo metro do trabalho livre e da vida urbana na segunda capital do Império Britânico.) São estudos da paralisia ou da frustração (. (. 2011 (Tese de livre-docência em literatura brasileira). para usar um conceito elucidativo cunhado por José Antonio Pasta.20 Tal será então a nova imagem do inferno neocolonial moderno configurada por ambas as obras. p. erguendo-o ao diapasão moderno da situação colonial. vol. p. 18 MACHADO DE ASSIS. Isso jamais. XII.. Dubliners. 2016 147 Os contos de Dubliners são trespassados por essa dialética fugaz de constituição e dissolução. 17 O fato de que Machado de Assis tenha construído seu Esaú e Jacob (1904). José Antonio.[-] www. como um “centro de paralisia”.

p..21 Mas então teríamos aqui menos “imagens do tempo” (para lembrar um conceito caro a Deleuze) do que imagens de um certo espaço homogêneo e abstrato. algo sinalizado quando Gallaher diz. em que o “espaço se sobrepõe ao tempo”22. “A Little Cloud”). a fama e o luxo proporcionados pelo jornalismo sensacionalista que pratica. São Paulo: Companhia das Letras. típicos do realismo.org Ano 8. 22 VIZIOLI. rad. 34-5. Anthony. 1994. 1. vol. p. mítico-alegórico.: p. A matéria concreta é trabalhado por um certo mecanismo de abstração literária. e “pobreza e inércia” geral.[-] www. via de regra dividido pela antinomia de agitação frenética e arrebatamento anímico. Homem comum enfim [1965/1982]. ibidem. 79 “Uma pequena nuvem”). dominada pela oculta “metafísica” do capital. José A. p. na outra ponta. a repetição e a morte – num espaço social estruturado abstratamente pelas formas do Capital. op. Há nesses contos um conflito fundamental entre o local e o universal. a matéria banal e o voo generalizante. Ela deverá ter uma gorda soma no banco ou não servirá para mim”. 23 JOYCE. Arantes). “sem paixão BURGESS. Dubliners.sinaldemenos. terminando porém com o protagonista irlandês depenado no jogo pelos seus “amigos infernais”. 21 . como observa Vizioli. os grandes gestos nobres arruinados pela fraqueza da carne”. por um lado. uma vida sem nenhuma paixão verdadeira – dissolvida que foi pelo valor de troca. p. tal como o simbolismo ao realismo. 2016 148 tenacidade. 42. por exemplo: “Pretendo casar com o dinheiro. cit. n°12. tão “inconsciente” e com “jeito de dama” (“lady-like”). (Trad. que vive no Continente entre o dinheiro. por outro lado. 43 e 47 “Ap s a corrida”). p. de mobilidade rigidamente controlada. sinalizado quando o Pequeno Chandler se comporta abstratamente como uma sombra ou duplo de Gallaher. rad. Contudo.24 Ou. temos uma espécie de “dispensa da ação”: o impedimento e o malogro. que a forma literária lhes confere e lhes tira o chão histórico-concreto. tal como em “After the race”: a “opressão” vivida localmente é temperada pela busca incessante “da notoriedade e do dinheiro”. um escritor irlandês “apressado”. de outro. que a filtra e a descolore. em vez da ação exemplar ou do grande evento particular num processo cumulativo. 24 dem. sem deixarem de estar escorados numa “relativa complexidade das personagens” e no acúmulo de tensões entre esses momentos. 44 e 48 “After the race”). Daí então o processo de liquidação do sujeito. 81.23 Outro dos expoentes dessa contradição é Gallaher (“A Little Cloud”). vendo na própria esposa Annie um par de olhos indiferentes. São contos “atmosféricos”.

eram os menos diligentes em matéria de religião. 2005. setting before them as exemplars in the religious life those very worshippers of Mammon who were of all men the least solicitous in matters religious”. ou seja.org Ano 8. 25 26 . An Introduction. para o mundo”: “and in this sentence He designed to give them a word of counsel. anêmico. 1. “As ideias fora do lugar” in:__. de que as ideias liberais estão “fora do lugar” e valem menos que ideologia29. “Graça”): “neste versículo Ele procurou dar a essas pessoas uma orientação. dem. Aqui. funcionam como discursos mais ou menos Ibidem. É o que se converte finalmente em linguagem: a “escrupulosa maldade” que Joyce intentava aqui retratar vem vertida num estilo de prosa “deliberadamente aplainado.. de todos os homens. p. 81. encarcerada na lógica abstrata da troca.[-] www. 174 “Grace”). 299. apontando como exemplos de vida religiosa os próprios adoradores de Mamon que. “Hamlets de farda não hesitam”. sem se darem conta de suas implicações para a forma e o entrecho desses contos. 2016 149 nem enlevo”. 34/Duas Cidades. 83 . econômico”. também reconhecido por Machado e Conrad. Joyce aqui já demonstra ter um olhar clínico para o descompasso entre sonhos e ideais e a realidade de uma sociedade capitalista periférica: o fato histórico preciso. em certa medida. 28 Cf. como um “contabilista do espírito”. Ibidem. p. São Paulo: Ed. Oxford: Blackwell. (modificada). dessa vez oscilando dialeticamente entre banalidade e exuberância verbal. op. um par de “olhos de [uma] fotografia”. ibidem. trad. Terry. Ao vencedor as batatas. e ALVARE GA. cit.” 27 EAGLETON. É o que nós veremos melhor na análise de “Counterparts”. O mesmo na degradação do amor contida na ação de aproveitadores em “The boarding house” (“A pensão”) e “Two gallants” (“Dois galantes”). 172-3. 29 A referência primeira para este tema será sempre Roberto SCHWARZ. vol.27 Muitos intérpretes perdem essa passagem incessante do tempo concreto (irlandês) ao espaço social abstrato ditado pelo Capital enquanto território conflituoso.26 A dissolução de todas as ideias e qualidades pelo valor de troca não poderia ficar mais evidente. resta ao padre Purdon. 2000. o nervo da experiência social e literária de Joyce.sinaldemenos. n°12.28 Mas o predomínio do espaço abstrato nos conduz ainda a outro tema fundamental. Em “Grace”. factualidade naturalista e excessos de todo tipo. The English Novel. que mais tarde o levaria às personagens de Ulysses. p.25 Nessas personagens toda ação se torna instrumental. ressignificar a palavra de Jesus para seus “clientes” burgueses obrigados a “viver no mundo e. p. na verdade o cerne econômico-político de toda a questão irlandesa. trad. outro conto exemplar de Dubliners. p.

o Império explorou a discórdia religiosa e econômica entre ingleses e irlandeses. n°12. p.[-] www. Além disso.sinaldemenos. 2016 150 impertinentes e ornamentais para legitimar a dominação de um território neocolonial abstrato. as pessoas são sentenciadas a 20 anos de trabalhos forçados por delitos puníveis com 6 meses de prisão. cit. cit. constantemente saqueado e despovoado. 30 . p. op. no país dos quartéis”. Buenos Aires: Ediciones Studio. as reflexões do próprio JOYCE em De santos e sábios. Por isso.. 329-30. 317. todas as leis. 1.org Ano 8. Sobre el sistema colonial del capitalismo. F. “Acerca el problema irlandês” [1882] n: Marx & Engels. mão de obra barata e mercados consumidores abundantes. na prática. governado sob um regime de estado de exceção permanente. Como dizia por volta de 1870: “São leis de emergência geral – com exceção de breves intervalos – que compõem a carta constitucional irlandesa”. de modo que uma rebelião irlandesa de massas não teria “a menor esperança de triunfar”32 – o que só surgiria de fato em 1916 quando dois grupos militares (Republican Brotherhood e Citizens Army) tomaram posse de alguns pontos de Dublin e proclamaram a independência provisória da Irlanda. A independência oficial da Irlanda se deu somente em 1921. principalmente no seio do próprio proletariado. aliás. algo que se repetia na colônia. Daí segundo Engels o papel central dos exércitos britânicos no esmagamento de toda resistência armada feniana (com seus métodos “bakunistas”). ibidem. abrindo uma época de guerra civil entre católicos e protestantes que resultou na atual divisão territorial dos países.30 “Desde 1793 o governo inglês. revolta logo destroçada. enlouquecidos etc. salvo a da força bruta. Esta a matéria histórica trabalhada por Joyce em “Counterparts”.” Assim. como lembra Marx. 320.). completa Marx. como um instrumento de dominação. vol. com um pretexto qualquer. 31 Idem. p. era uma fonte primordial de riqueza da aristocracia e de todo o império industrial britânico. Cf. os movimentos emancipatórios foram sempre controlados e violentamente reprimidos. Karl.31 As condições dos prisioneiros nacionalistas “fenianos” eram brutais (alguns enterrados vivos. “em um país de liberdades burguesas. na divisão entre os habitantes do norte e do sul da ilha. traído e corrompido pelas classes dominantes locais. segundo Marx. torturados. 1964. suspendeu regular e periodicamente a vigência da lei de habeas corpus na Irlanda e. op. fornecendo-lhe matérias primas. A colônia irlandesa. 32 E GELS. MARX. “El gobierno britanico y los prisioneros fenianos” 1870) in: Marx & Engels.

sem o relógio e o dinheiro. totalmente dividido entre a normalidade do trabalho. racional.sinaldemenos. relações de oposição. aquilo que restou do valor de uso. sócio do escritório Crosbie & Alleyne). de outro. O enredo desdobra a dialética dessas relações socioespaciais. Um movimento que se expressa quase ao nível da pura materialidade do corpo: “He felt strong enough to clear out the whole office single- . especulares e conflituosas indicadas por seu título formidavelmente polissêmico: por um lado. Por um lado. é apresentado como homem de pensamentos “confusos” e de “temperamento impulsivo”. relações de reciprocidade e igualdade contratual entre partes. temos de um lado a mais pura corporificação do tempo reificado do valor de troca. n°12. tendo o mundo do trabalho e do patriarcado do valor como seu pano de fundo. de “rosto flácido e avermelhado”. também ele mercantilizado. a escória do tempo de vida. Por outro. permitido pelo consumo e as atrações da vida noturna da cidade. Farrington possui características a um só tempo concretas e abstratas. Trata-se de um conto armado por uma série de relações simétricas. hierarquia e dominação entre elas. depois do dia e da noite inteiramente perdidos. sem a embriaguez prometida e nem mesmo talvez o emprego. completa-se o movimento que leva da igualdade e reciprocidade pressupostas à oposição e dominação realmente postas. vol. Aqui. Alleyne. é apresentado de fora.[-] www. por outro. aliás. No todo. como um trabalhador de meia idade. Farrington é um escrivão indolente que é insultado e humilhado por um patrão norte-irlandês (o Sr. “alto e corpulento”. com “pestanas e os bigodes loiros”. mecânico e alienado. apresentando a típica experiência de uma camada social formada por pequenos burgueses. 2016 151 “Counterparts”: o duplo cristalizado no espaço / a cidade dos quartéis como base de um estado de exceção permanente O enredo de “Counterparts” (“Contrapartes” ou “Contrapartidas”) é exíguo e fácil de resumir. que então procura consolo para as ofensas recebidas durante o serviço mergulhando na bebida e na vida noturna dos pubs. Quando volta para casa.org Ano 8. inscritas no espaço de cada grupo ou indivíduo. e os prazeres sensíveis da bebida e do reconhecimento entre os amigos de copo. então. 1. A humilhação sofrida no emprego e na vida subjetiva é canalizada para o exterior imediato do espaço. vinga-se cruelmente batendo no filho pequeno com uma bengala.

sinaldemenos. apesar das boas sacadas políticas da forma e do conteúdo. p. O desejo incontido finalmente vai ao ápice e ganha uma força irreprimível ao chegar em casa.33 Compulsivamente.[-] www. Cf. Mais que as relações políticas nacionais entre ingleses. substituída simbolicamente pela atriz bem vestida do Tívoli (acima mencionada): o concreto. New York: Syracuse University Press.. segundo a lógica construída pelo conto. Dubliners. Noutras palavras. 33 . 2016 152 handed. instante em que se desforra do esbulho diário sofrido espancando o próprio filho.org Ano 8. como mera ilusão. irlandeses e norteirlandeses. seja na bebedeira e na camaradagem das rodadas de bebida pagas com o sacrifício de seu relógio penhorado. 1. n°12. o Capital. Imperialism. assim. quando ele sente a ausência da esposa (que havia ido à igreja) e da comida quente de todo santo dia. tornando-se ele próprio a cópia. seja nos “olhares de conquistador” atirados às mulheres (as “empregadinhas de escritório” ou a atriz sedutora e bem vestida do Tívoli). desmaia na abstração de clichês supercoloridos e imagens-fetiche da belle époque. a obra aponta para essa matriz socioeconômica cega. ou ainda na disputa de braço de ferro com o jovem artista inglês Weathers. ORR. & Postcolonialism. que apenas implora e reza por um limite..” 34 Aqui patinam. que superam o mero formalismo. Leonard. Todas as afrontas que sofrera na vida vinham-lhe à memória e o encoleirizavam.34 Farrington parece invejar secretamente a posição do patrão. His body ached to do something. Mais que isso. a meu ver. com gestos furiosos que o igualam em certo JOYCE. o irlandês Farrington é o duplo materializado de seu patrão norte-irlandês. Farrington também imita a fala e o sotaque de seu outro.. chegando a sonhar com as mulheres perfumadas e de alta classe de que o outro dispõe. abstrato e intrinsecamente violento de seu trabalho penetra. o que suprime todo essencialismo proletário ou chauvisnismo dessas páginas. 89 “Contrapartidas”): “Seu corpo ansiava por fazer alguma coisa: precipitar-se para a rua e desabafar na violência. a imitação. vol. portanto. ambos corporificando a relação abstrata capital-trabalho.: p. as leituras “p s-colonialistas” de Joyce. para o qual aliás perde duas vezes. (ed. Ambos são despersonalizados: o patrão como uma “cabeça de ovo” ou “cabeça de boneco”. cit. Em essência ambos tratam de garantir a propriedade privada e a ordem mercantil. o movimento surge como uma espécie de desregramento de si. no caráter total de sua vida. All the indignities of his life enraged him…”. O caráter repetitivo.) Joyce. a “contraparte” desregrada do seu outro. op. trad. 2008. a senhora Delacour. to rush out and revel in violence. 90 “Counterparts”). e tem a mesma vontade de insultar e golpear – apenas contida pelo decoro e o contrato entre “iguais” que rege a relação salarial.

bebedeira. vol. como que já o prefigurava. trazendo em si aquele “accidïoso fummo” termo traduzido por talo Mauro como “névoa aborrecida”). n°12. 35 36 . O percurso de Farrington do escritório aos bares do entorno. XIX pode ajudar a elucidar também a origem espacial do nome: “Que terríveis alo amentos. 38 JOYCE. fendas escuras que traduzem o vazio. Dubliners. 34. era um parasita”)38 – algo que uma vez mais o assemelha ao patrão (que o chamara de “rufião impertinente”). The nether world. Don. p. ou o nono. posto contra posto. 95. mergulhados na lama do Estige. 1.36 Sua conduta entra no molde circular do conto: partes contra partes que se batem. trata-se de uma armadilha de ódio nacionalista e preconceitos machistas. moradias para o exército do industrialismo. 2011. Farrington não vê contradição quando percebe o jovem inglês artista/acrobata Weathers como um “parasita” (“a sponge”) (“Se odiava uma coisa na vida. JOYCE. quase perfaz um círculo no espaço das ruas e das margens do rio Liffey (cf. o desconforto do interior. 37 Estes se esmurram e se mordem. 90. Gallaher. 1998. cit..: A divina comédia. homem contra homem.[-] www. DANTE ALIGHIERI. no grito rancoroso que o Pequeno Chandler dá contra o filho chorando em seu colo.sinaldemenos.. husband”. Berkeley/Los Angeles: University of California. 1889. um homem que “não sabe nada”35). subindo. “sujos” e “protuberantes” – um “rufião impertinente” ou um simples “nada” (um trabalhador incapaz de terminar uma cópia. 123 (Trad. se anulam e repetem o sempre-igual. por isso mesmo. ambas as personagens reproduzem o quinto círculo do inferno. mapa elaborado por Gifford a seguir). diga-se de passagem. trad. Farrington é. de olhos “pesados”. p. 94. o dos iracundos e rancorosos 37. o dos traidores de parentes. GIFFORD. a primeira sílaba do nome da personagem tem o mesmo som da palavra irlandesa fear. v.. após a noitada com seu sósia medíocre. apud: WILLIAMS.. Joyce annotated: notes for ‘Dubliners’ and ‘A Portrait of the Artist as a Young Man’. p. São Paulo: Ed. 72. mais violência. Ed. Aliás.. Canto VII.. trad. 39. os Farrington Road Buildings! Amplas paredes nuas. olhos mortos. Nesse sentido. Raymond. sim. que significa “man. Um trecho de Gissing descrevendo o subúrbio londrino do séc. p. 65). (. Farrington como um corpo lento e preguiçoso. mais frustração. Inferno. Outra referência para tal nuvem seria o Canto XXVI.. Dubliners.org Ano 8. gorgolando seu lodo. 367). p. São Paulo: Companhia de Bolso. a desordem. várias vezes nomeado pelo narrador de maneira genérica e impessoal como “the man”. p. Inferno. em que o sobrevivente terá o que comer” Georg G SS G. O Campo e a Cidade – na história e na literatura. um exército em conflito interior.) Alojamentos. bilíngue. frustração. “A Little Cloud”. p. subindo. sem sequer uma tentativa de ornamentação. fileiras e mais fileiras de janelas na superfície pardacenta. Por fim. 1997. 91. 2016 153 ponto a uma “máquina elétrica”. Assim. O conto anterior. E que aparece como um circuito fechado de violência. por exemplo. op. v. Cf.

Malcom e McFarlane. ensimesmada em compensações imaginárias e devaneios narcísicos. ’Halloran.. formadora de uma consciência fragmentada. James. 1. 144-5. WILLIAMS. Meyer. “Simbolismo. New York: George Braziller. Higgins.154 [-] www. n°12. 1989. A notação realista de Joyce se completa observando a qualidade da experiência que resta para tais trabalhadores: a de uma vivência de superfícies e de choques (Benjamin).Um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras. 399-405. Modern Art (19th & 20th Centuries – Selected Papers). que Joyce incorpora (aliás como Machado e Conrad nesse ponto) de maneira crítica muito precisa: “Farrington's eyes wandered at every moment in the direction of one of the young women. 1979. São Paulo: Brasiliense. Sobre a pintura impressionista: SCHAPIRO. Clive.org Ano 8. acelerada. A eles se contrapõem hierarquicamente os ingleses. decadência e impressionismo” in: radbury. p. representados por Weathers e as duas artistas do Tívoli. 2016 Todos os seus colegas irlandeses. 39 . que aliás curiosamente contêm letras duplicadas no nome (Paddy Leonard. Obras escolhidas III. repetem a conduta do tipo machão-beberrão-mulherengo-solitário.guia geral [1976]. Modernismo . op. cit. E também o bom ensaio de SCOTT. um traço reconhecido tipicamente pelas variantes do impressionismo literário então vigente39. p. especialmente. parodiando a atmosfera luxuosa da belle époque eduardiana. 1989. There was something striking in her appearance. Walter. An immense scarf of Cf. osey Flynn). BENJAMIN.sinaldemenos. vol. Charles Baudelaire .

repetitiva e autorreferente do capitalismo monopolista”. 1990. trad. The Ideology of the Aesthetic. como aponta Eagleton. Pouco depois.sinaldemenos. and she wore bright yellow gloves. nº45. exclamando com sotaque londrino: Oh! Pardon! Farrington assistiu-a sair da sala. Novos Estudos Cebrap. 97. Uma grande echarpe de musselina azul enrolava-se em torno do chapéu. 95. p. but he was disappointed. op.. 93-4:. ibidem. que o atazanava quando estava s brio e era atazanada por ele quando estava bêbado”.. She glanced at him once or twice and. esbarrou em sua cadeira. reaching to the elbow. as I said to old Ward. Farrington admirou ainda mais seus olhos grandes e castanhos escuros. completamente coisificados – o modo como ele ignora o nome e confunde os meninos Tom e Charlie é simplesmente chocante –. julho de 1996. eses sobre a socialização pelo valor e a relação entre os sexos” [1992]. o homem sentirá o peso da realidade pardacenta. SCH LZ. a cólera e uma vez mais a abstração diante dos filhos. The King's coming here will mean an influx of money into this JOYCE. Dubliners. província agrária estagnada do império britânico”. after a little time. she answered his gaze he admired still more her large dark brown eyes. p. começasse a espelhar. a periferia se torna um modo de revelação do centro e de todo o sistema de antagonismos. na esperança de que ela voltasse a olhar para ele. n°12. Suas luvas eram longas e de um amarelo vivo. and when. “ valor é o homem.org Ano 8. Oxford: Blackwell. Roswitha. she brushed against his chair and said O. He watched her leave the room in the hope that she would look back at him.43 No fundo. mas foi desapontado. ao deixar a sala. p. 42 Cf.41 Em Joyce. 40 . Farrington gazed admiringly at the plump arm which she moved very often and with much grace. Como dirá um membro do partido nacionalista em outro conto (“Ivy Day in the Committee Room”): “What we want in this country. 1. pardon! in a London accent. a “esfera retraída. p. 15-36.[-] www. 321-2. cit.”40 De volta a casa. Ela o fitou uma ou duas vezes e. vol. “ s olhos de Farrington dirigiam-se a todo instante para uma das jovens. vivida entre a insatisfação. Havia algo de provocante em sua aparência. desqualificada como “a little sharp-faced woman who bullied her husband when he was sober and was bullied by him when he was drunk”. 43 EAGLETON. enquanto partes igualmente moldadas pela forma do valor e da cisão de gêneros. The oblique staring expression in them fascinated him. ao ser correspondido. 2016 155 peacock-blue muslin was wound round her hat and knotted in a great bow under her chin. Trad. Farrington admirava-lhe os braços roliços. São Paulo.” 41 dem. que ela movia a todo instante e com muita graça. cuja expressão oblíqua o fascinava.42 É como se “a Irlanda pré-industrial. is capital. 95: “mulherzinha de rosto comprido. o que importa é a reprodução desse modo de produção. p. e da esposa. (corrigida). when the party was leaving the room. terminando num laço sob o queixo. Terry. p.

. a vida particular de suas personagens mais “típicas” nesse contexto neocolonial de crescente mercantilização. a política torna-se um tipo de ideologia estética. de modo que num mundo desprovido de significação e subjetividade. n°12. 2016 156 country (. o sujeito colonizado preferirá esconder-se na fantasia e na alucinação. 42. op.org Ano 8. 146: “del no.) É a formamercadoria que ao mesmo tempo produz uma identidade espúria entre objetos disparatados e gera um fluxo instável e aberto que ameaça derrubar toda essa simetria escrupulosamente concebida” ibid. 47 Idem. necessários para extrair alguma unidade do caos.. mas antes o retorno do fluxo financeiro-industrial à Irlanda.) Como a mercadoria. ibidem. mas.. corrigida). 1. o indivíduo é menos o agente esforçado de seu próprio destino histórico que algo vazio. 320). Look at all the factories down by the quays there. p. quem manda aqui é o movimento do capital. p. 322.47 O traço “indeterminado” da arte moderna JOYCE. impotente e sem nome. (. p. Dubliners. se preciso com saudações ao rei inglês. e não por acaso a agitação partidária promovida. numa realidade social estéril. 130 “Dia de hera na lapela”): “Como eu disse ao velho Ward.) Ve a todas essas fábricas paradas ao longo do cais!” 45 DANTE. v. começa a perder seus contornos e a se dissolver na esfera prototípica do mito.. do sujeito periférico: “Para os sujeitos subjugados pelo império. de resto funcionando ironicamente como crítica da práxis congelada e impotente de tais homens partidos. termina na leitura de um poema contendo um elogio ambíguo a Parnell (um dos líderes do movimento pela independência). (. e a grande ação esperada não é política ou social. per li denar. p.46 Como vimos. a escrita de Joyce capturará qualquer conteúdo antigo a fim de se perpetuar”.45 Em suma.[-] www. A partir da obra de Joyce. cit..sinaldemenos. como na lírica de Baudelaire ou no último Machado de Assis. cit. 131. p. Vivendo letargicamente. idle!”44. redutivos. vol. o material da experiência histórica. Isto é. Canto XX . “ vy Day in the Committee Room”. 318-9: “o contínuo esvaziamento do significado imanente dos ob etos abre caminho para alguma totalização fantástica. Eagleton ventila também uma relação peculiar entre a forma da mercadoria e a forma geral. pré-individual. o que queremos neste país é capital. em suma... p. The Ideology of the Aesthetic. Estamos no oitavo círculo.. só pode ser pouca a sua confiança realista na beneficência de um tempo linear que está sempre do lado de César. com o raminho de hera na lapela do casaco. 46 EAGLETON. o que se presta evidentemente mais à prática modernista que à realista”. da fantasia e da alegoria. o dos trapaceiros: “Lá o não é sim quando o dinheiro dita”. 44 . como observa o crítico inglês... rad. o mito pode fornecer exatamente os esquemas ordenadores. A vinda do rei pode significar um afluxo de dinheiro. vi si fa ita”.. carrega dentro de si as forças de sua própria desconstrução. Inferno. A intercambialidade e a repetição estúpida funcionam como criptogramas do domínio abstrato e objetivado dos processos de trabalho e troca modernos. op..). com a intenção corrosiva da ironia e da alegoria: “o sistema simbólico.

n°12. Tal abstração nada tem em comum com o caráter formal das antigas normas estéticas. cit.48 Por outro lado. isto é. 92. enfim. Band 7. a conversa reiterada sobre o episódio do dia. o círculo formado pelo enredo é. 39-40. por exemplo. Trad. ADORNO. 90-91. cit. O escrivão soldado-guardião da propriedade encontra sua verdadeira sombra inconsciente. 48 . ainda rudimentar em Baudelaire e alegórica como reação ao mundo tornado abstrato. Desde a origem.50 Talvez porque ali ficava também a caserna das tropas do Exército Britânico da Divisão Sul de Dublin 51 – garantidoras do estado de exceção vigente. p. Artur Morão: Teoria estética. 49 JOYCE. um subúrbio da classe média baixa.. (Julho-Novembro 2016) Cf. a cifra do que é. op. 1.org Ano 8. trad. as rodadas de whisky. É antes provocadora. a aparição torna-se abstrata”. 2016 contém a cifra do que é. in: __. (Theodor W. com as normas kantianas. foi antes uma interdição de imagens. Farrington chega aonde mora em Shelbourne Road. p. ele anuncia-se claramente: “o senhor Alleyne não lhe daria um minuto de descanso. da aparição como algo de sensível: depois da catástrofe do sentido. Após a circulação pelos bares. op. Lisboa: Edições 70. da lei e da ordem imperial. após o movimento que reproduz a rotina degradante.. o agudo comentário de Adorno: “a abstração torna-se para a obra de arte moderna a indeterminação irritante daquilo e para aquilo que ela deve ser. Isso vale para o que os provincianos esperam finalmente salvar sob o nome de mensagem. trad. a abstração estética. Detestava voltar para casa”.. “he steered his great body along in the shadow of the wall of the barracks.157 [-] www.. 50 Ibid. sua vida seria um inferno”. p. Nesse ponto. 51 Cf. o de um pequeno inferno particular dissolvente. desafio à ilusão segundo a qual ainda seria a vida e. GIFFORD. 1993. 34). que já não é conseguida pela fantasia tradicional. depois da briga com o patrão. contraposto à agitação do centro. do historicamente determinado: o domínio do capital. como Marx a denominara. p.. o meio daquela distanciação estética. He loathed returning to his home”. p. o centro de toda a paralisia histórica do país.sinaldemenos. 97. vol. p. a perambulação pela cidade. Gesammelte Scriften. Dubliners. ao mesmo tempo. a catástrofe do sentido. Esta a contraparte mais oculta de Farrington e de Dublin: a “cidade dos quartéis”. Frankfurt am Maim: Suhrkamp. por esta razão.49 Mas o controle exercido pelo poder no território garantirá que assim seja para toda uma sociedade. 95: “Ele arrastou o pesado corpo à sombra pro etada pelos muros do quartel. 76. Ästhetische Theorie. 1971. p.

sinaldemenos.. o trabalho comporta em si uma marca particular do homem e da humanidade. 2016 158 O TRABALHO EM MARX É ONTOLÓGICO. e uma tal marca determina a qualificação interior do mesmo trabalho e. (. p. O trabalho é uma das características que distinguem o homem do resto das criaturas. Assim. não se pode chamar trabalho. o Mestre em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. cuja atividade. no meio de toda aquela riqueza de atividades para as quais o homem tem capacidade e está predisposto pela própria natureza. em certo sentido.. n°12. São Paulo: Loyola. Carta Encíclica Laborem exercens (Sobre o trabalho humano.[-] www. quer dizer toda a atividade humana que se pode e deve reconhecer como trabalho. Ela foi retirada da Laborem Exercens ou Sobre o Trabalho Humano. em virtude da sua humanidade. tanto manual como intelectual.) o homem (. Contato: thiagoacmelo@gmail.com. APRESENTAÇÃO A citação com a qual abrimos este artigo é uma provocação. constitui a sua própria natureza” Karol Józef W. independentemente das suas características e das circunstâncias. somente o homem tem capacidade para o trabalho e somente o homem o realiza preenchendo ao mesmo tempo com ele a sua existência sobre a terra. Contato: thiagoflion@hotmail. 1. por ocasião do nonagésimo aniversário da Rerum Novarum). 1981. 2 Mestre em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Doutorando em Direitos Humanos pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.) desde o princípio é chamado ao trabalho. #SQN Crítica categorial da forma limitada da atividade humana Thiago Ferreira Lion 1 & Thiago Arcanjo Calheiros de Melo 2 “E com a palavra trabalho é indicada toda a atividade realizada pelo mesmo homem.. vol.org Ano 8.3-4. a marca de uma pessoa que opera numa comunidade de pessoas. 1 . relacionada com a manutenção da própria vida.com. encíclica escrita por João Paulo II3.. 3 PAULO II. João..

no entanto. Entendemos que a crítica abaixo .org Ano 8. Estas. tais visões de mundo jamais levaram em conta a dinâmica da produção capitalista assentada na forma mercadoria. por este lado.sinaldemenos. mas retoma o tema do fim do trabalho a partir de uma concepção radicalmente diferente. corretamente repelidas pelos movimentos operários e por correntes teóricas marxistas. sendo. nos conduziria à conclusão de que é necessária sua libertação do jugo do capital para alcançarmos a emancipação humana. Estas perspectivas pós-modernas colaboram com o enfraquecimento da luta e dos direitos dos trabalhadores ao impedirem a compreensão da exploração como necessidade estrutural do sistema capitalista. viam o fim do trabalho como fim do modo tradicional de emprego por conta das novas tecnologias de produção ou então como uma tendência futura decorrente da diminuição da necessidade de trabalhar causada por estas novas tecnologias. 1. de forma mais ou menos consciente. Estes comumente interpretam “trabalho” como uma espécie de a priori. o que. vol.[-] www. o que imaginavam ser o cerne da teoria marxiana. vozes neoliberais se colocaram em coro contra esta concepção para declarar o fim da categoria trabalho. assim. Esta concepção do trabalho como espécie de a priori é que aqui demonstraremos não fazer sentido. sem ser questionado. 2016 159 Papa campeão do neoliberalismo. originária em seu quadrante mais geral das próprias análises e afirmações textuais de Marx. A tal concepção também se filiam muitas organizações que se consideram revolucionárias e que reivindicam para si o legado do grande revolucionário alemão. n°12. É imperativo nesta introdução afirmar que este artigo não trata de nenhuma destas perspectivas e nem de sua “renovação”. Na essência destas análises. O trabalho é visto como uma categoria ontológica formadora da humanidade. Diferenciam-se da visão de Karol J zef Wo tyła por buscarem luta e não conciliação entre capital e trabalho. mirando. no entanto. mas compartilham todo o ponto de partida teórico que coloca trabalho como fundamento atemporal da humanidade. Principalmente após o fim da União Soviética. um ponto que. torna-a facilmente confundível com os textos de diversos marxistas para os quais o caráter ontológico e a centralidade da categoria “trabalho” permanecem como dogmas. Sua exaltação ao trabalho como constituinte central da natureza humana. No entanto. a essência que se encontra alienada “por fora”. por sua vez. constitui o lastro de diversas correntes teóricas derivadas do pensamento de Marx. está um relativismo e uma necessidade de declarar que a concepção de Marx não mais explicaria o mundo atual.

. mas traz consigo o inconveniente de não apresentar as passagens analisadas nos subtítulos anteriores e nem as conclusões mais profundas alcançadas nos posteriores. enquanto em outras vezes ele aparece como uma categoria histórica e negativa que estaria fadada a desaparecer. Esta parte é certamente a mais complicada de todo este artigo. portanto. tanto do ponto de vista histórico quanto do ponto de vista lógico. vol. Antes de entrarmos nesta crítica da categoria trabalho. Esta contextualização firmemente apoiada em citações de Marx será feita nos três primeiros subtítulos deste trabalho.[-] www. visto que toda a fundamentação básica da crítica lá se encontra numa linguagem simplificada. Deste modo. a crise atual e a noção de abstração real.org Ano 8. 2016 160 desenvolvida não apenas não atenta contra as lutas dos trabalhadores mas as fortalece ao despojá-la de seus preconceitos. No quinto subtítulo tratamos brevemente do surgimento conjunto. penetramos de modo igualmente breve em questões mais complexas que relacionam elementos diversos como o fim do trabalho e das categorias sociais surgidas a partir da produção mercantil. mas também a que carrega conclusões de maior alcance. atemporal. é necessário. o fim do trabalho não aparece como retórica que visa afirmar a vitória eterna da economia mercantil. mas antes como condição necessária para a superação desta forma de relação social. contextualizá-la brevemente na teorização de Marx.sinaldemenos. trazendo a vantagem de ajudar o leitor apegado à leitura tradicional a despir-se de seus preconceitos para que possa dar devida atenção à análise categorial que se mostrará a seguir. no entanto. 1. análise esta possibilitada principalmente pelos desenvolvimentos da assim chamada “Nova Crítica do Valor”. do trabalho e de muitas das demais categorias fundamentais de nossa atual realidade – o que as revela como categoria própria de sociedades onde a forma mercantil já se instalou como modo de relação social. Este apresenta um aspecto contraditório em seu trato da questão: por vezes em seus escritos a categoria trabalho aparece como atividade produtiva consciente e. n°12. No sexto subtítulo. Esta opção visa unicamente facilitar a leitura àquele menos familiarizado com o tema ou com menos tempo para o estudo. Esta análise da categoria trabalho inicia-se no quarto subtítulo e constitui ela mesma um artigo que poderá ser lido independentemente. facilitando a conjugação de forças com objetivos emancipatórios em torno do fim comum: a superação do capitalismo e o estabelecimento de uma sociedade emancipada.

para evitar as interpretações distorcidas. o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza. um processo em que o homem. Ele não apenas efetua uma transformação da forma da matéria natural. animais.org Ano 8. Não se trata aqui das primeiras formas instintivas. portanto. O Capital: Critica da Economia Política. idealmente. Por isso. O estado em que o trabalhador se apresenta no mercado como vendedor de sua própria força de trabalho deixou para o fundo dos tempos primitivos o estado em que o trabalho humano ainda não se desfez de sua primeira forma instintiva. Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao homem. regula e controla seu metabolismo com a natureza. São Paulo: Abril Cultural.sinaldemenos. a espécie e o modo de sua atividade e ao qual tem de subordinar sua vontade4. por sua própria ação. 1983. dos animais. e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colméias. aquela do início do capítulo V de O Capital é a mais conhecida e também a que mais tem sido utilizada pelos pensadores marxistas.[-] www. Lá Marx escreve que: A produção de valores de uso ou bens não muda sua natureza geral por se realizar para o capitalista e sob seu controle. Ele desenvolve as potências nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio. ao mesmo tempo. o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça. Antes de tudo. orientada por um objetivo anteriormente 4 MARX. como lei. p. realiza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. por meio desse movimento. Karl. e é necessário que desde o princípio alertemos sobre nossa visão quanto a ela. Marx aqui coloca a distinção entre o trabalho instintivo. na matéria natural seu objetivo. que ele sabe que determina. ou seja. 149150. braços e pernas. Mas o que distingue. Ao atuar. de trabalho. o processo de trabalho deve ser considerado de início independentemente de qualquer forma social determinada. de antemão. vol. media. 2016 161 I – O trabalho como atividade consciente produtora de valores de uso De todas as passagens em que Marx trata do trabalho. ele modifica. No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já desde o início deste existiu na imaginação do trabalhador. cabeça e mão. Ela traz a base da interpretação clássica que o marxismo faz da categoria trabalho. n°12. sobre a Natureza externa a ele e ao modificá-la. . 1. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade. a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. antes de construí-lo em cera. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão. volume 1. e. e o trabalho humano como atividade consciente. sua própria natureza. ao mesmo tempo.

temos que colocar dentro deste conceito os favos produzidos pela abelha e a teia da aranha. Há muitas razões. vol. para crer que este termo não é correto para descrever a atividade produtiva consciente e isto não por uma razão meramente nominalista. a crítica deve devolver ao marxismo sua própria imagem refletida e mostrar-lhe “tu és isto” para que possa se livrar dos estreitos limites no qual seu ser se confinou. como disse Marx. O trabalho humano. ela se apega à crítica da concepção corrente de trabalho de forma a mostrar como esta concepção constitui uma mistificação. acaba por definir trabalho humano como produção de valores de uso (também comum aos animais) conjugada com a consciência (própria do homem). A consciência do que se produz é a diferença entre as formas instintivas e a forma humana de trabalho. Ao se ampliarem as possibilidades de produção se ampliam as de consciência. após realizado. Assim. Como na psicanálise. Não tratamos aqui de uma discussão banal preocupada com uma correção da nomenclatura. um termo que permite ocultar questões contraditórias muito complexas e que assim permanecem latentes. mas esta produção não está submetida a uma consciência. a defendemos e também a reivindicamos como nossa. A atividade dos animais igualmente produz valores de uso para eles. É por esta própria relação entre produção e consciência que o homem se desenvolve. ao contrário. ao pensamento orientado. possibilita sua “síntese” com a natureza. “forçar essas relações petrificadas a dançar. que. .sinaldemenos. isto é. Ao contrário. nesta passagem acima. É importante deixar claro que não discordamos desta posição que relaciona o avançar conjunto de produção e consciência. Marx. Aqui residiria a diferença básica entre o trabalho dos seres humanos e dos animais. De fato. n°12. seria então atividade produtiva consciente. Mas não é este o ponto que aqui se coloca sob questão. abre caminho para subsequentes avanços na produção e na própria consciência. 1. se considerarmos “trabalho” a pura produção de valores de uso. 2016 162 idealizado. num ciclo em que alterando a natureza externa altera-se a natureza interna.org Ano 8. assim definido. que serão apresentadas neste artigo.[-] www. ligada a um objetivo idealmente planejado. desenvolvendo as potências dormentes do saber humano ao desenvolver as que estavam adormecidas no mundo externo. Deve. O debate só surge ao chamarmos esta relação entre produção e consciência de trabalho.

São Paulo: Boitempo. eles mesmos se posicionam uns contra os outros. tanto pela identificação do trabalho com a propriedade privada. II . São Paulo: Boitempo.sinaldemenos. em face dos indivíduos. por sua vez. Para dar início a esse breve percurso pela obra de Marx. descompasso esse que revela que a fixação na categoria trabalho não é outra coisa senão o ponto nodal a partir do qual o fetichismo da mercadoria dominou o marxismo. escrita quando Marx tinha por volta de 30 anos. 2016 163 entoando a elas sua própria melodia!”5 e assim mostrar o descompasso entre o conceito e a crença no conceito. 2007. sem qualquer outra qualificação: Os indivíduos singulares formam uma classe somente na medida em que têm que promover uma luta contra uma outra classe.6 Esta passagem é de causar grande estranheza a qualquer defensor da “ontologia do trabalho”. como por sua definição quanto ao indivíduo 5 6 MARX. Karl. na concorrência. Por outro lado. tratado como mais uma categoria histórica limitadora do potencial humano e fadada a desaparecer. são subsumidos a ela. há passagens que desautorizam a utilização da noção de trabalho como algo presente na definição do ser social em si. A Ideologia Alemã. a classe se autonomiza.Marx e suas afirmações do trabalho como limitação da atividade A concepção de trabalho como “atividade produtiva consciente” não é a única presente em Marx. 1. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução.org Ano 8. . n°12. É o mesmo fenômeno que o da subsunção dos indivíduos singulares à divisão do trabalho e ele só pode ser suprimido pela superação da propriedade privada e do próprio trabalho. como inimigos. assim considerado. com isso. de resto. p. 148. vol. 63. p. que devem ser extintos conjuntamente. de modo que estes encontram suas condições de vida predestinadas e recebem já pronta de classe a sua posição na vida e. grifo nosso. transcrevamos uma parte da Ideologia Alemã em que ele afirma diretamente o “fim do trabalho”. Aqui cabe demonstrar que esta concepção não é acidental. mas abrange quase todo o desenvolvimento teórico de Marx. Desde ao menos A Ideologia Alemã. Nele também se coloca uma concepção negativa do trabalho. como algo próprio à humanidade para todo sempre. 2010. Friedrich. passando por toda sua maturação ao escrever os Grundrisse e chegando a seus últimos escritos como a Crítica do Programa de Gotha. Karl & ENGELS. MARX. seu desenvolvimento pessoal.[-] www.

Ocorre que esta. Neste sentido. apesar de sua clareza. Friedrich. p. conceito mais amplo e de menor rigidez do que o costumeiramente utilizado. já está dada desde o princípio a divisão das condições de trabalho. no entanto. 52. É a expressão mais crassa da subsunção do indivíduo à divisão do trabalho. 7 8 MARX. Karl & ENGELS. Cit. que assim só se comporta enquanto classe pela necessidade de luta. Friedrich. aqui. Para alguns talvez seja possível tomar esta passagem. o poder sobre os indivíduos e enquanto existir esse poder tem de existir a propriedade privada7. Quanto mais se desenvolve a divisão do trabalho e a acumulação aumenta. quando Marx e Engels tratam da oposição entre cidade e campo: A oposição entre cidade e campo só pode existir no interior da propriedade privada. . assim. outros em limitados animais rurais e que diariamente reproduz a oposição entre os interesses de ambos. onde Marx diz sobre a concorrência entre Estados Nacionais que “Essas diferentes formas são outras tantas formas da organização do trabalho e. com a propriedade privada. das ferramentas e dos materiais. De modo menos claro encontramos na mesma página “A grande indústria torna insuportável para o trabalhador não penas a relação com o capitalista. a passagem abaixo suprime qualquer dúvida: Por meio da divisão do trabalho. Karl & ENGELS. mas não sem forçar a interpretação. p. como erro ou descuido de Marx. 61. que Marx está implicitamente criticando a divisão e organização do trabalho e não o trabalho enquanto trabalho. a ele imposta – uma subsunção que transforma uns em limitados animais urbanos. novamente o fundamental. n°12. tanto mais aguda se torna esta fragmentação. sem ressalvas. A noção pré-definida de um indivíduo pertencente à classe trabalhadora parece aqui ser suplantada por uma definição circunstancial de luta. Cit. como podemos ver anteriormente na mesma obra. O mesmo se dá em outra parte. 2016 164 pertencente a uma classe. não se trata de uma passagem isolada. grifo nosso. da propriedade”8. no entanto. Op.[-] www. O trabalho é. Op. a fragmentação entre capital e trabalho. mas sim o pr prio trabalho”. com isso.org Ano 8.sinaldemenos. Frente a essas citações todas se poderia ainda querer argumentar. vol. a uma atividade determinada. o que gera a fragmentação do capital acumulado em diversos proprietários e.. MARX. ou seja. assim como as diferentes formas de propriedade. Mais uma vez a identificação negativa do trabalho como tal.. 1.

ao mesmo tempo. Karl & ENGELS. e a criação da vida material. É forma limitada da atividade.sinaldemenos. o 9 MARX. mas em conjunto com o questionamento do próprio conceito do que seja trabalho. Sobre isso trata Marx ao falar da abstratificação dos indivíduos a partir da abstratificação dos laços sociais (intercâmbio) entre eles: O trabalho. Neste sentido o trabalho não é identificado com a atividade consciente de produção em geral. quando se torna esfera separada e autonomizada face ao todo. único vinculo que os indivíduos ainda mantém com as forças produtivas e com sua própria existência perdeu para eles toda a aparência de autoatividade e só conserva sua vida definhando-a.. a forma possível da atividade produtiva nesta etapa histórica e a negação da plenitude da atividade produtiva. era concebida ainda como uma forma inferior de autoatividade.[-] www. Aqui a análise de Marx. Cit. Por isso.org Ano 8. Friedrich. isto é. como o jovem Marx já percebia. apesar de não levar o tema até suas últimas consequências. n°12. agora a autoatividade e a produção da vida material se encontram tão separadas que a vida material aparece como a finalidade. . mas sim com uma forma específica de uma fase histórica determinada. Nela é importante analisar conjuntamente os aspectos. grifo nosso. isto só é possível a partir do desenvolvimento da relação mercadoria. 72. o trabalho encarna aqui dois aspectos: ele é. bem como a projeção social desta atividade em um conceito.9 A concepção que aponta para a historicidade do trabalho o faz não somente baseando-se no desenvolvimento das forças produtivas. a atividade produtiva só adquire a forma de trabalho quando ela está submetida à divisão. vol. como geralmente se pensa. devida à limitação dos próprios indivíduos. não a atividade em si. 2016 165 O próprio trabalho só pode subsistir sob o pressuposto dessa fragmentação. seu confinamento dentro dos estreitos limites capitalistas. Como veremos mais adiante. ou seja. é a fragmentação social da atividade humana. Enquanto em períodos precedentes a autoatividade e a produção da vida material estavam separadas pelo único fato de que elas incumbiam a pessoas diferentes e que a produção da vida material. O trabalho é a própria divisão do trabalho. Op. O pressuposto básico para existência do trabalho. a atividade produtiva por si e a forma social específica pela qual esta atividade é levada à frente. 1. aproximase muito da crítica categorial que será apresentada mais a diante. p.

mas.. 10 11 . Os “períodos precedentes” de que trata Marx são as sociedades da antiguidade clássica. como negação da autoatividade em sua plenitude. que ele é uma “mercadoria”. (Manuscritos econômicos de 1857-1858 – Esboços da crítica da economia política).org Ano 8.. que é. uma usurária venda de suas forças. como podemos confirmar da leitura do Grundrisse: (. Propriedade privada não é nada mais que trabalho objetivado. aparece como meio. grifo nosso. e cujo trabalho. como veremos negativa. Rio de Janeiro: Ed. isto é “trabalho”. Grundrisse. vol. é estabelecido assim que sua atividade não é uma livre manifestação de sua vida humana. na qual desapareceu a necessidade natural em sua forma imediata. Karl. grifo nosso. mas desvinculada da produção da vida material. a única forma possível. depende da concorrência. Cit. pelos salários? A vida do trabalhador. vez que desvinculada necessariamente da produção material. 72-73.. a qual estavam obrigados os escravos11. mas como desenvolvimento pleno da própria atividade. que o aumento ou queda.sinaldemenos. em virtude disso. 1. Vale destacar que a própria autoatividade a que se refere Marx era por si já limitada. Pessoas se esquecem disso. que é tão universal em sua produção quanto em seu consumo. ao contrário. 255-256. também não aparece mais como trabalho. UFRJ. 2011. um valor de troca. da autoatividade). por exemplo. da oferta e da demanda. porque uma necessidade histórica produzida tomou o lugar da necessidade natural. agora. São Paulo: Boitempo. p. onde os cidadãos mantinham a autoatividade na forma de engrandecimento humanístico e cultural.[-] www. mas talvez a mais clara e detalhada afirmação do trabalho como negatividade derivada e criadora da propriedade privada se encontra na crítica que o jovem Marx faz à Friedrich List: O que é estabelecido.10 O trabalho nesta passagem é firmemente afirmado como negatividade. que o nível mais elevado ou menos elevado. Op. uma alienação (venda) para o capital de suas habilidades unilateralmente desenvolvidas.12 Podemos por toda a obra de Marx coletar passagens semelhantes. 12 MARX. Além disso é estabelecido assim que o trabalhador é escravo do capital. o capital impele o trabalho para além dos limites de sua necessidade natural e cria assim os elementos naturais para o desenvolvimento da rica individualidade. a produção concebida de maneira mais ampla. em uma palavra.) como aspiração incansável pela forma universal de riqueza. deve-se MARX. é a propriedade privada como fonte criativa de si mesma. Karl et ENGELS. “Trabalho” é a base viva da propriedade privada. Esta abordagem do trabalho como existência negativa da atividade no capitalismo é mantida pelo Marx maduro anos depois. Se se quiser desferir um golpe mortal na propriedade privada. 2016 166 trabalho (que é. n°12. Friedrich. p.

em passagens do Grundrisse. von der Nachfrage und Zufuhr abhängt. mas também como atividade. dass der Arbeiter der Sklave des Kapitals. 2016 167 atacar isto não apenas como um estado material das coisas. das Privateigentum als die schöpferische Quelle seiner selbst. é uma contradição.marxists. Man setzt weiter damit fest. die freie Konkurrenz. n°12. para afastar qualquer dúvida de tradução:„Was setzt man z. dass sie vielmehr ein Verschachern seiner Kräfte. determinado pela propriedade privada e criador da propriedade privada. Die Aufhebung des Privateigentums wird also erst zu einer Wirklichkeit. MARX. Das Privateigentum ist nichts als die vergegenständlichte Arbeit. A melhor organização que o trabalho pode dar é a presente organização. no entanto.[-] www. “Trabalho” em sua essência é não-livre.org Ano 8. gesellschaftlicher Arbeit. disponível em http://www. mit einem Wort. que se vê obrigado a “interpretar” esta passagem de Marx no sentido de que ele falaria apenas do trabalho alienado. eine Veräußerung (Verschacherung) einseitiger Fähigkeiten desselben an das Kapital. und keineswegs als Vertauschung einer Kategorie mit einer andern zu fassen ist. Die beste Organisation. um dos “maiores mal-entendidos”. É um dos maiores mal-entendidos falar de um trabalho humano livre. se tornou possível como resultado da atividade material da sociedade e a qual deve de modo algum ser concebida como a substituição de uma categoria pela outra). muss man angreifen. Über F. ist die jetzige Organisation. como trabalho. . dass er eine „Ware” ist. unmenschliche. mit dem Arbeitslohn fest? Das Leben der Arbeiter. Por isso a abolição da propriedade privada será realidade apenas quando for concebida como a abolição do “trabalho” (uma abolição a qual. Man vergesse es nun. wenn sie als Aufhebung der „Arbeit” gefasst wird. Die „Arbeit” ist die lebendige Grundlage des Privateigentums. trabalho sem propriedade privada. ein auschwert. Eine „ rganisation der Arbeit” ist daher ein Widerspruch. Aqui. eine Aufhebung. claro. vom Privateigentum bedingte und das Privateigentum schaffende Tätigkeit. d. als Arbeit. Uma “organização do trabalho”. social. vol. die natürlich erst durch die Arbeit selbst möglich geworden ist.org/deutsch/archiv/marx-engels/1845/list/flist. h. ungesellschaftliche. 1. apenas 13 A clareza da posição de Marx neste texto contrastando com a edição em Inglês com glosas do Partido Comunista. Nicht allein das Privateigentum als sachlichen Zustand. a dissolução de todas suas aparentemente anteriores “organizações” sociais13. obrigam-nos a trazer o original em alemão. von Arbeit ohne Privateigentum zu sprechen. nas palavras do próprio Marx. dass sie „Arbeit” ist. . Steigen oder Fallen.sinaldemenos. Como veremos no próximo ponto. esse a priori do qual parte. das Privateigentum als Tätigkeit. von der Konkurrenz. Qualquer uma das passagens acima deve já ser suficiente para que o marxista apegado à categoria trabalho comece a se questionar sobre este pressuposto. inumano. dessen höherer oder niedrigerer Stand. welche die Arbeit erhalten kann. durch die materielle Tätigkeit der Gesellschaft möglich geworden. man setzt damit fest. Acessado em 17/02/2016. Karl. Die „Arbeit” ist ihrem Wesen nach die unfreie. Nesta específica citação da crítica ao List. von freier. dass seine Tätigkeit nicht eine freie Äußerung seines menschlichen Lebens. a crítica poderia se dirigir diretamente a qualquer uma das organizações que se consideram “revolucionárias” e que dirigem toda sua atividade a partir deste que é. Lists uch „Das nationale System der politischen Ökonomie”. atividade não social. Marx retoma a interpretação do trabalho como categoria histórica e em uma delas até desenvolve os contornos essenciais de uma crítica categorial ao trabalho. 1845. die Aufl sung aller frühern scheinbar „gesellschaftlichen” rganisationen derselben. livre competição.htm. assim. wenn man ihm den Todesstoß versetzen will. menschlicher. Es ist eines der größten Missverständnisse.

n°12. Em 1875. será analisada cuidadosamente neste ponto. referindo-se diretamente ao tema a ser tratado: O trabalho parece uma categoria muito simples.sinaldemenos. Textos. Sua primeira parte é muito significativa. 1. 2016 168 para fecharmos este ponto que visa tão simplesmente demonstrar que a compreensão de Marx sobre o trabalho não se reduzia a uma ontologização deste último. aqui. Ali se diz “a emancipação das classes trabalhadoras deverá ser conquistada pelas próprias classes trabalhadoras”. Entenda-o quem puder!14 III . “corrigida”. mas. uma começando onde termina a anterior. em pelo menos uma passagem dos Grundrisse. mostrando o quão tola para ele é a ideia de que o fim revolucionário seja “emancipar o trabalho”: A primeira estrofe foi tomada do preâmbulo dos estatutos da Internacional. muitas vezes de maneira irônica. sem supressões.[-] www. Karl. p. 233. . Assim também se evita qualquer argumentação de que ele em algum momento após o início dos Grundrisse tenha “descoberto” o trabalho como categoria trans-histórica. 14 MARX.org Ano 8. Contudo. vol. “Crítica ao Programa de Gotha” in Karl Marx e Friedrich Engels. Marx escreve a Crítica ao Programa de Gotha. 1977. Esta passagem. A representação do trabalho nessa universalidade – como trabalho em geral – também é muito antiga. Tal programa contém uma passagem onde se lê que “a emancipação do trabalho tem que ser obra da classe operária. uma carta endereçada para os líderes do partido social democrata de Eisenach. Vol. Marx delineia alguns dos aspectos essenciais de uma crítica categorial do trabalho. onde Marx critica. concebido economicamente nessa simplicidade. uma especialmente longa. de difícil compreensão. São Paulo: Edições Sociais. 1. visando evidenciar seu significado. Enfatizamos desde já que as citações utilizadas daqui para frente constituem um texto contínuo.Marx e o esboço de uma crítica categorial ao trabalho Como dissemos acima. o programa que por eles seria proposto para se fundir com os lassalianos. “a classe operária “tem que emancipar a quem? “Ao trabalho”. pelo contrário. vale trazer uma passagem por ele escrita em seus últimos anos. diante da qual todas as demais classes não constituem senão uma massa reacionária”. e a qual Marx comenta debochadamente como segue abaixo.

Op. p. o fisiocrático põe determinada forma de trabalho – agricultura – como a forma criadora da riqueza e põe o próprio objeto não mais sob o disfarce do dinheiro. 17 O sistema monetário do qual Marx aqui fala é o mercantilismo e não o monetarismo neoliberal de Stigler e Friedman – e nem o sistema monetário meramente concebido como sistema de moeda de dado país. Marx continua. este só se tornando possível quando determinada relação surge. Grundrisse. Cit. põe a riqueza ainda muito objetivamente como coisa fora de si no dinheiro. sua concepção econômica nesta simplicidade é moderna 16. Na citação a seguir. 57. houve um enorme progresso quando o sistema manufatureiro ou comercial transpôs a fonte de riqueza do objeto para a atividade subjetiva – o trabalho manufatureiro e comercial –. como resultado universal do trabalho.org Ano 8. trataremos mais à frente. por exemplo. Sobre a afirmação da “representação do trabalho nessa universalidade” ser “muito antiga” e seu caráter problemático. tal como as relações que a geram. Karl. 2016 169 o “trabalho” é uma categoria tão moderna quanto as relações que geram esta simples abstração. o ideal (esse abstrato derivado das relações humanas) corresponde ao real. 57. Cit. Op. p. embora concebendo ainda essa própria atividade sob a forma estreita do simples ganhar dinheiro.[-] www.. dado o caráter limitado da atividade é ainda determinado pela natureza – produto da agricultura. Marx aqui explicitamente declara que a expressão conceitual de trabalho – a noção mesma de “trabalho” – deriva de relações sociais que geram esta simples abstração. vol. A noção de trabalho se forma a partir de uma determinada realidade social. 17 MARX. a partir de determinadas relações práticas entre os indivíduos. Assim se coloca uma identidade entre a realidade social e o conceito econômico. A dialética hegeliana aqui se mostra claramente. Este ponto é fundamental para a análise a seguir. Em contraste com esse sistema.15 Aqui Marx chama a atenção para a enganadora simplicidade em que a categoria trabalho se mostra.. produto da terra ‘por excelência’. O mercantilismo foi o primeiro MARX. 1. apesar da noção de trabalho ser muito antiga. Em relação a esse ponto de vista. 15 16 .sinaldemenos. Tal produto. Karl. mas como produto em geral. Grundrisse. há uma identidade entre o ideal e real. n°12. demonstrando como a própria categoria trabalho se cristaliza na relação entre o desenvolvimento histórico e o desenvolvimento das teorias econômicas: O sistema monetário. Afirma que. entre o sujeito e o objeto e uma categoria do pensamento corresponde a determinadas relações práticas.

entendem apenas uma atividade como geradora de riqueza. acreditava que a riqueza originavase do acúmulo de dinheiro. nem comercial. o produto em geral. vol.org Ano 8. mas tanto um como os outros. puro e simples. 2016 170 conjunto de teorias econômicas da modernidade. que valeria por si. em oposição. Foi um imenso progresso de Adam Smith descartar toda determinabilidade da atividade criadora de riqueza – trabalho simplesmente. Cit. Com a universalidade abstrata da atividade criadora de riqueza tem-se agora igualmente a universalidade do objeto determinado como riqueza. 57.[-] www. de moeda. Grundrisse. o que é compreensível quando lembramos que a fisiocracia é francesa e que a França se encontrava ainda muito atrasada em relação à Inglaterra quanto ao desenvolvimento do comércio e da manufatura. A agricultura era ainda a atividade econômica por excelência e no seu produto exclusivo é projetada a função criadora de riqueza abstrata. como riqueza. de valor. a agricultura. cultivar a terra ou tecer 18 MARX. que a fonte da riqueza não era o próprio dinheiro.. o próprio metal em sua objetividade. como atividade criadora de riqueza. pode-se perceber. trabalho puro e simples. objetivado. mas como trabalho passado. Só com o maior desenvolvimento do comércio e da manufatura.sinaldemenos. Há uma relação entre a abstração das qualidades específicas de cada forma de trabalho como simples “trabalho” e a abstração das utilidades dos diferentes produtos como “valor”. O fato de que o próprio Adam Smith ainda recai ocasionalmente no sistema fisiocrata mostra como foi difícil e extraordinária esta transição. Os fisiocratas. As palavras de Marx são no sentido de que aqui a riqueza ainda era vista como algo próprio do dinheiro. enquanto ao mesmo tempo todas as diferentes atividades produtivas do homem com a natureza. Assim. ou ainda o trabalho em geral. seja fazer comércio. Karl. mas a atividade do sujeito. n°12. p. Op. o trabalho no comércio e na manufatura. nem agrícola.18 O próximo passo para formar a economia como uma ciência é considerar o trabalho em si. nem trabalho manufatureiro. e assim com a percepção da importância destas atividades. todas as coisas materialmente diferentes se tornam coisas igualmente trocáveis. principalmente na Inglaterra. . e com isso igualmente considerar o produto em si. coisas qualitativamente iguais. 1. que acreditava que a acumulação de metais preciosos é que tornava a economia próspera. do metal precioso acumulado. ainda em sua forma metálica de ouro e prata.

meio para a criação da riqueza em geral e. o trabalho. por conseguinte. Como dito na parte citada anteriormente. Na passagem acima Marx declara expressamente que. comum a todos.sinaldemenos. a igualdade entre estas atividades é a própria produção de riqueza abstrata. o trabalho não pode ser considerado apenas uma expressão abstrata. n°12. pelo menos por um lado. o trabalho deveio não somente enquanto categoria. Por outro. com isso. e em que o tipo determinado do trabalho é para eles contingente e. Portanto.org Ano 8. não. nenhum dos quais predomina sobre os demais. 2016 171 aparecem como “trabalho” que produz “valor”. tornando-se. A indiferença diante de um determinado tipo de trabalho pressupõe uma totalidade muito desenvolvida de tipos efetivos de trabalho. p. Cit. grifo nosso. . A noção abstrata de trabalho e a noção abstrata de valor surgem em conjunto com a realidade de uma sociedade em que toda a atividade produtiva se submete à produção de valor. É por isso que Marx continua: Poderia parecer que. 57-58. a mesma atividade abstrata. como determinação. Como todos os valores de uso diferentes entre si se resumem na abstração do valor. Para surgir o conceito abstrato de trabalho desvinculado de qualquer atividade concreta. mas na efetividade. apenas fora descoberta a expressão abstrata para a relação mais simples e mais antiga em que os seres humanos – seja qual for a forma de sociedade – aparecem como produtores. deixou de estar ligado aos indivíduos em uma particularidade19. Abstração aqui a dizemos no sentido de “abstrair”. Grundrisse. Por um lado isso é correto. apesar de suas enormes diferenças práticas. para a relação mais simples em que o homem aparece como produtor. Por outro lado essa abstração do trabalho em geral não é apenas o resultado mental de uma totalidade concreta de trabalhos. conceitual..[-] www. Nesse caso. todas as diferentes atividades produtivas se resumem na abstração trabalho. É só quando todas as atividades estão submetidas a esta igualdade de produzirem valor que elas podem igualmente ser consideradas dentro da mesma categoria. Nesse caso. a própria produção de valor. Karl. de se desvincular de suas formas concretas. deixa de poder ser pensado exclusivamente em uma forma particular. Op. indiferente. as abstrações mais gerais surgem unicamente com o desenvolvimento concreto mais rico. assim. 1. A indiferença em relação ao trabalho determinado corresponde a uma forma de sociedade em que os indivíduos passam com facilidade de um trabalho a outro. vol. Ali onde um aspecto aparece como comum a muitos. como acontece com o trabalho 19 MARX. é necessário que a própria sociedade tenha se abstratificado de forma que um aspecto seja comum a todas as atividades produtivas concretas.

quando a abstração da riqueza e da atividade produtiva se realizou. produzir riqueza em sua forma numérica. e todo o trabalho se coloca como igual do ponto de vista qualitativo. mas apenas como produção de valor abstrato que se dá apenas por meio da produção de tecidos e alimentos. só surge verdadeiramente quando se desenvolve a sociedade capitalista moderna. que a economia moderna coloca no primeiro plano e que exprime uma relação muito antiga e válida para todas as formas de sociedade. toda atividade materialmente diferenciada que produza riqueza abstrata aparece como um abstrato que as reúne. Op. 1. que aparece enganadoramente como uma coisa simples. tal abstração só aparece verdadeira na prática como categoria da sociedade mais moderna20. o ponto de partida da economia moderna. 57-58. o de produzir mais valor. Por conseguinte. Isso corresponde igualmente à submissão de todas as atividades a um só fim. a categoria “trabalho”. tecidos ou de alimentos. Esta análise de Marx.sinaldemenos. pois não importa mais como produção determinada de. Marx fala sobre o estágio máximo de desenvolvimento da categoria trabalho. Grundrisse. Para finalizar esta passagem. ex em relação à representação do trabalho numa generalidade ser muito antiga. p. quando a forma mercadoria estendeu seu domínio a todas as áreas da vida social. a atividade produtiva concreta se torna indiferente. 2016 172 de um carpinteiro e de um gerente de marketing. Logo. no entanto. “trabalho em geral”. quando entendidos como puramente trabalho. por cima dos sistemas de castas. por exemplo.[-] www. Na prática. devém verdadeira na prática. trabalho “puro e simples”.. Cit. não importa quão diferentes sejam entre si. abstrata e indiferenciada. p. n°12. Esta também é a base da igualdade abstrata entre os indivíduos agora abstratamente convertidos em sujeitos de direito. Aqui o capitalismo então finalmente se afirma por cima do privilégio da nobreza e da servidão. . vol. nos EUA de sua época: Um tal estado de coisas encontra-se no mais alto grau de desenvolvimento na mais moderna forma de existência da sociedade burguesa – os Estados Unidos. como veremos) e não a leva ao seu 20 MARX. Karl. guarda dois principais inconvenientes: não coloca a questão de maneira direta (chegando mesmo a ser contraditória. a abstração mais simples. só nos Estados Unidos a abstração da categoria “trabalho”. Deste modo.org Ano 8.

mas em simultâneo mantém-se refém da ontologia do trabalho protestante e iluminista. Revista Sinal de Menos. No entanto. no entanto. é interessante começarmos asseverando que a análise que se desenvolverá é uma análise da categoria trabalho. Quanto a esta parte. ele afirma expressamente seu fim – demonstrando assim que o tratamento “ontológico” do trabalho não é o único em sua obra. .planetaclix. Em relação a este “duplo” caráter da abordagem de Marx em relação ao trabalho. Já os subtítulos posteriores aprofundam as conclusões aqui obtidas. Ano 1. este subtítulo pode ser lido separadamente por conter o núcleo da argumentação colocado de forma mais acessível. das técnicas. ver DUAR E. IV . Os subtítulos anteriores analisam diferentes passagens em que Marx trata do trabalho para mostrar que. tal como a tinha inscrita nos seus estandartes o movimento operário. Disponível em: http://www. acesso em 17/02/2016. depois de se ler as passagens acima não há como dizer sem vacilar que Marx considerava o trabalho como categoria ontológica. nº 3. Ele desenvolve (contrariamente à maioria dos marxistas) uma crítica radical da abstracção real contida no conceito de trabalho moderno. A decisão de tornar essa parcela do artigo possível de se ler separadamente visa facilitar ao leitor as conclusões mais gerais.“Nova Crítica do Valor” e crítica categorial do trabalho Como afirmamos na introdução deste artigo. Deste modo. A Substância do Capital. é hora de começar a análise. n°12. dificulta o entendimento da historicidade da categoria trabalho. vol. Com isso queremos dizer que não estamos analisando o trabalho apenas do ponto de vista conceitual (a ideia de trabalho) e nem meramente do ponto de vista “material” ou “empírico”. Disponível em http://obeco.” KURZ. Demolido o preconceito. 2009. 21 Kurz diz sobre este trecho de Marx: “Marx aproxima-se aqui de uma crítica que ele próprio ainda não leva até ao fim. Recomendamos. não chega a extrair de sua própria análise suas consequências últimas e mais radicais. 1. Cláudio R.sinaldemenos.htm. por vezes.pt/rkurz203. 2016 173 limite21. Robert. são um dos pilares da interpretação da teoria marxiana pela “nova crítica do valor”. De fato a distinção entre dois níveis contraditórios de análise pelo próprio Marx. a leitura integral do artigo.org. um ligado à análise da mercadoria e sua negatividade e outro operando por dentro das categorias capitalistas.sinaldemenos.[-] www. surgido no mesmo contexto hist rico da sua teoria. Também. ainda que ela forneça o enquadramento geral da crítica categorial ao trabalho. “A superação do trabalho em Marx: em busca do tempo não-perdido”. para aqueles que desejam se aprofundar.org Ano 8. por não ir diretamente ao ponto. testar os pressupostos e alcançar as conclusões mais radicais da análise.

por que o oxigênio não seria? Lendo os clássicos védicos encontramos ainda um extensivo manual sobre como nos alimentarmos bem do prana. o ato de respirar como uma atividade consciente de síntese com a natureza e assim. ainda que estes fins sejam mero deleite estético é o que Marx. vol. . sexo.org Ano 8. Pode-se argumentar que o trabalho serve à produção de coisas úteis ao ser humano. Como dizer quais destas atividades acima são trabalho e quais não são? Estas questões tornam mais próxima a temática da análise categorial do trabalho. delimitar e conceituar o que seja isso a que chamamos de trabalho. A definição de que o trabalho seja uma atividade consciente que faz síntese com a natureza aqui também se encontra definitivamente contemplada. banho.sinaldemenos. é trabalho? À primeira vista pode parecer que estas perguntas são absurdas. 1. n°12. 2016 174 equipamentos. mas respirando o ser humano se apropria do oxigênio na natureza e é com ele em conjunto com o alimento consumido que se produz energia e pode-se então viver. na esteira dos economistas políticos. que tentará ser facilitada em sua linguagem. cuidado com animais de estimação. alguém poderá negar que jardins. O ideal e o real aqui convergem e é daí que surge toda a dificuldade deste tipo de abordagem. Sabemos que pode. a princípio. de trabalho. Para respondê-las é necessário definir. mantido o conceito ontológico do marxismo tradicional. Mas. música. por meio de técnicas que visam tornar consciente a respiração.[-] www. e respiração não sejam coisas úteis ao ser humano? A utilização da coisa para fins humanos. chamou de valor de uso. os dois pontos: o conceito que surge a partir da realidade social e a própria realidade que é designada por este conceito. Comecemos a análise categorial com algumas perguntas que colocarão a questão de maneira mais direta ao leitor: regar o seu próprio jardim é trabalho? passar um creme em seu próprio rosto é trabalho? ouvir música é trabalho? e dar comida ao seu animal de estimação? dar banho em seu filho? fazer sexo? e respirar. ao mesmo tempo. forma e produtividade da atividade. Estamos analisando. da energia vital que há no ar. há de se considerar. ao menos para estes casos. Considerando ainda atividades como natação e o mergulho e sua dependência de um controle consciente da respiração. mas pedimos que as considerem por um momento. O alimento é indubitavelmente um valor de uso. parecer estranho que algo simples como respirar possa produzir um valor de uso. Respirar é de fato uma forma bastante óbvia de “síntese com a natureza”. cremes.

. não altera nada na coisa”23. Lisboa: Antígona. mas que ajuda sobremaneira entender a complexidade do problema: uma vela serve para produzir luz – mas também para o ritual que invoca entidades em rituais do Candomblé. 23 MARX. (Para uma nova crítica do valor). De um princípio tão geral poderá deduzir-se tanto ou tão pouco quanto do princípio de que o homem tem que comer para viver. Op. se elas se originam do estômago ou da fantasia. n°12. Apesar dos espíritos não serem algo concreto.) a maioria (das coisas) tem seu valor derivado da satisfação das necessidades do espírito”. nem por isso a utilização da vela para sua invocação deixa de ter uma utilidade. Anselm. cit. Como diz um dos expoentes da “nova crítica do valor”. trata-se então de uma tautologia. Dizemos isso para mostrar que valor de uso é algo que não se pode definir concretamente e nem restritivamente. uma vez que nada mais se diferencia dele. 1. mesmo respirar. ainda que seja uma de significação que alguns ateus poderiam considerar “meramente cultural”. Alguém dirá que produzir carne não é trabalho? O fato de individualmente considerarmos algo importante ou não. Mas um conceito que serve a tudo não serve a nada. citando ainda. não é o que determina também o que seja a utilidade22 – isso está em dependência da totalidade das interações da sociedade e nem sempre voltada para um fim específico discriminável. Karl.[-] www.org Ano 8. 1982. p.sinaldemenos. no mesmo ponto. David. As Aventuras da Mercadoria. Mas.. Se tentarmos conceituar “trabalho” como produtor de valor de uso podemos. 22 . o valor de uso não pode ser medido por nenhum padrão conhecido. p. 2016 175 Algumas pessoas não se importam com cremes ou plantas. vol. 284.24 David Ricardo no fechamento de sua grande obra á dizia que “Um con unto de gêneros de primeira necessidade e de satisfações não pode ser comparado com outro conjunto. O Capital: Crítica da Economia Política. pois como Marx mesmo diz. Anselm Jappe: Só fazendo a identificação entre o “trabalho” e o metabolismo com a natureza se poderá apresentar o trabalho como categoria suprahistórica e eterna. pois cada um calcula o seu valor de maneira diferente”. Barbon: “Desejo inclui necessidade. na primeira página de O Capital. 2006. assim. é o apetite do espírito e tão natural como a fome para o corpo (. dizer que tudo é trabalho. p.. 110. 45. RICARDO. Vejamos mais um exemplo banal. outras também muito justificadamente são contra o consumo de carne. 24 JAPPE. Princípios de Economia Política e Tributação. “a natureza dessas necessidades. São Paulo: Abril.

pelos átomos que compõe a mercadoria que se estabelece seu valor. temos de nos desprender da concretude dos objetos produzidos para sua significação abstrata social. ele. Segundo Marx. Para isso. vol. mas sim algo puramente social projetado nela. no entanto. 1. aquilo que geralmente se considera ontológico – a necessidade de fazer a síntese. não é algo próprio da coisa. nunca chegando a um bom resultado. coerente. Tratamos apenas da relação de trabalho como relação entre o ser humano e a natureza para suprir suas necessidades. Não há como achar um critério para o que seja utilidade humana. como forma que a síntese toma em sua mediação na sociedade. não contraditória. sempre sem conseguir resolver a questão de maneira clara.[-] www. se trabalho é produzir valor de uso de forma consciente. Não é pela matéria. o valor (de troca) que se opõe ao valor de uso. n°12. valor de uso. alterar a natureza com fins humanos. Não analisamos. . tudo que o humano fizer para si. mas uma relação social projetada na coisa. pois a própria noção do que seja útil é socialmente desenvolvida nos indivíduos – e não kantianamente como algo universalmente válido. é interessante comparar o valor com o que ocorre em uma sociedade em que as relações sociais sejam completamente diferentes. não permite a resolução da questão. Devemos olhar agora para a face cintilante do dinheiro e das mercadorias. abstratamente comum a todos. ou seja. diferentemente do valor de uso. para a estrutura da sociedade que faz da produção uma totalidade por meio da imposição de trabalho (ainda que haja liberdade de escolher para qual patrão trabalhará) a cada um de seus membros. o trabalho como relação social. Até aqui nos movemos entre a questão conceitual do trabalho e a produção de valores de uso – tão cara ao marxismo tradicional – o que.sinaldemenos. Nestas discussões é uma constante recorrer ao achismo de “penso que isso seja trabalho”. 2016 176 Não há como fugir disso. Para compreendermos como o valor é a projeção de uma relação social (e também a projeção que possibilita a própria relação). precisamos nos voltar para o que há de social no processo de produção. será trabalho.org Ano 8. Ao mesmo tempo. ainda que seja simples divertimento. nenhum químico conseguiu e nem conseguirá encontrar o valor de algo com um microscópio – pois ele não é uma característica da própria matéria. já que neste nível não é possível dar uma resposta clara. É por isso que as pessoas que tentam conceituar “trabalho” se encontram sempre em apuros. conforme se viu. pode-se virar e revirar como quiser.

mas apenas da atividade produtiva privada que só se torna social por meio da troca. que por sua vez “vale” as mesmas três horas que a mãe gastou cozinhando? É evidente que não! A relação de esforço no interior da família não é diretamente a comparação dos esforços produtivos. Mas. A determinação quantitativa do valor como tempo de trabalho depende primeiramente da existência qualitativa do valor como forma. porque não há comparação dos esforços na troca.sinaldemenos. como bem sinaliza Roswitha Scholz. um selvagem gasta em média cinco horas para construir um arco. Enquanto as pessoas não estão se encontrando em um mercado para trocar. 1. em uma família. No interior da tribo a produção não está submetida ao valor. 25 O exemplo aqui da organização da família vale tão somente para ilustrar como no interior desta as atividades de cada um não têm diretamente o caráter de valor. Se a produção é coletiva. de outro modo. a mãe cozinha o almoço. Disponível em http://obeco. a sua igualação na troca de equivalentes. um antílope “vale” dois arcos nesta sociedade.htm. pois como todos produzem coletivamente as relações não projetam esta comparação abstrata dos produtos do trabalho. errado. ou seja. podemos dizer que as atividades no interior da família moderna existem como o avesso. .org Ano 8. não adquire assim a forma de mercadoria25. o lado oposto do valor. n°12. O arco e o antílope não “valem” nada. Sem isso não há troca. “ Valor é o Homem”. não há valor. numa comunidade “primitiva”. o valor só pode existir tendo como pressuposto a existência de produtores separados que precisam trocar seus trabalhos. Os arcos vão para quem vai caçar e o antílope será comido pela tribo.pt/rst1. Não é próprio da atividade produtiva gerar valor. Exit! Online em Português: 1992. Ver: SCH LZ. por que no interior desta comunidade não há trocas. Se. 2016 177 Se. o filho vai ao supermercado comprar os alimentos e o pai dá o dinheiro. enquanto outros gastam em média 10 horas para caçar um antílope. Roswitha. Acessado em 27 de setembro de 2015. o produto da atividade produtiva não aparece sob a forma metafísica de valor. vol. É fundamental se compreender que o valor só pode existir a partir da fragmentação da produção social entre diferentes produtores individuais. o produto de seus trabalhos não aparece sob a forma de valor. mas apenas produção e consumo coletivo. certo? Não. no interior das relações de parentesco não mediadas pelo dinheiro. isso significa que uma hora que o filho gastou no supermercado “vale” o mesmo tanto de dinheiro que o pai forneceu. O mesmo ocorre no interior da família moderna.planetaclix. A forma de valor depende da relação de comparação abstrata que ocorre na troca. Que no comunismo algumas coisas irão depender de determinado tempo de esforço humano. assumindo por isso um valor. com a divisão sexual das atividades também já definidas na origem mesma do valor.[-] www.

exceto o nome. que usualmente é um objeto material para o qual está dirigido o trabalho e é criado pelo mesmo. mas sem ter de ir ao mercado. a equivalência (a comparação) que dela deriva e que é a base do direito continuaria a existir na forma de “trabalhou tanto. seu resultado. não há de existir valor. Como ele diz ao falar da abordagem dos economistas “o fator decisivo é o conteúdo do trabalho. Isaak. para Marx. Cit. vol. trabalho autônomo. Karl. mesmo este limite não mais existiria. para sua produção. Na produção simples de mercadoria. Em termos de produção de valor de uso. O comunismo é. 2016 178 seja físico ou intelectual. embora não se produza mais-valor. como uma colossal família. isto é. significa: trabalho engajado no dado sistema social de produção. para cada um conforme suas necessidades”26. já que o que seria produzido por cada um seria previamente acordado. p. Uma contabilização a partir do tanto de esforço produtivo de cada um deveria então existir. Marx está interessado na questão de qual produção social se trata. ambos são a mesma coisa27. 1. mas os limites da troca. não há comparação abstrata dos produtos da atividade humana. no socialismo. pelas necessidades culturais daquela sociedade e dos indivíduos que a compõe. 279. Os esforços não seriam trocados. pois ele é definido socialmente. No comunismo. é necessário também considerar o trabalho engajado no dado sistema social de produção como produtivo do ponto de vista do intercâmbio de mercadorias. “Critica do Programa de Gotha”. pois não há trocas mercantis. Ver MARX. A diferença é que a primeira Marx previa que.[-] www. 232-233. de síntese com a natureza. uma utilidade objetivamente dada que é a de produzir valor. mas tão somente “cada um conforme suas capacidades. Falar que regar suas próprias flores é trabalho pode parecer estranho. de como a atividade de trabalho das pessoas empenhadas no sistema de produção social difere da atividade de trabalho das pessoas que não estão empenhadas na produção social (por exemplo. por exemplo. mas ninguém discutirá que um jardineiro que ganha sua vida cuidando do jardim dos outros trabalha. Rubin. o que a torna trabalho “produtivo”?” RUBIN. O trabalho produtivo. essa solidariedade total não existiria. n°12. mas na própria forma social que estes produtos da atividade humana tomam. Quando entramos na análise do valor a coisa muda radicalmente de figura. A Teoria Marxista do Valor. não resta nenhuma dúvida. Deste modo é preciso considerar que a 26 . produz-se valor. Hoje. além de se manter nos limites do próprio Marx e não levar ao fim a critica categorial do trabalho. isto é.sinaldemenos. ninguém troca seu esforço pelo esforço do outro. O problema abordado em Marx nada tem em comum com este outro. Aqui conseguimos definir fins determinados. 1980. Qual o critério para que se inclua a atividade laboriosa das pessoas na produção social. porém. pois com o baixo nível de forças produtivas ainda haveria escassez e com ela os “estreitos limites do direito burguês”. Voltando à questão do trabalho. 27 Isaak Rubin foi talvez o primeiro na esteira de Marx que percebeu que a análise da noção de trabalho produtivo leva em conta o objetivo colocado pela organização social e não a produção de utilidades humanas assim consideradas. pois tecnologicamente já superamos a linha da escassez há algumas décadas. mas a forma mesma de valor já não existira mais. isto é. o trabalho voltado para a satisfação de necessidades pessoais ou para o serviço doméstico).org Ano 8. p. falávamos que não é possível conceituar o que é a utilidade ou valor de uso universalmente. analisa o trabalho como produtivo apenas do ponto de vista do capital. merece tanto em produtos do trabalho”. o trabalho que produz mais-valor e assim aumenta o capital. conforme fins determinados. São Paulo: Brasiliense. aquela que subsiste no capitalismo na forma de. com uma revolução bem sucedida.. A questão debatida não está neste ponto. toscamente dizendo. Entretanto. p.

. Se estas atividades fossem feitas sem gerar valor não seriam consideradas trabalho. o jogo e a diversão. no espaço e no tempo. É. extremamente importante sublinhar que a nossa crítica atinge o conceito de “trabalho” enquanto tal e não somente o “trabalho abstracto”. mas todo aquele que se relacione e que se faça diretamente para o mercado. origem a algo de significação puramente social.org Ano 8. Em sentido estrito. remetendo-se também para as duas formas em que o trabalho se apresenta: O “trabalho” é. 2016 179 não entra no mercado. Cit. ainda que sua expressão mais geral só apareça no capitalismo. a participação nos assuntos colectivos etc. O conceito de trabalho concreto é ele mesmo uma abstração. e ainda menos se pode opô-los como se um fosse o “mal” e o outro o “bem”. portanto. porque nele se separa. na comparação abstrata entre os esforços humanos. seja na produção simples ou na produção capitalista de mercadorias. e a segunda.sinaldemenos. mas também em relação ao trabalho “concreto” e “abstracto” são expressões que remetem uma para a outra e que não podem existir uma independentemente da outra. a prostituta que vende sexo. Op. sim. uma certa forma de actividade do campo conjunto das actividades humanas. vol. Não se pode simplesmente opor entre si o trabalho abstracto e o trabalho concreto. O mesmo se dá com uma esteticista que aplica cremes. o ritual. a funcionária de creche que alimenta os filhos dos outros. ele mesmo um fenômeno histórico. 28 Isto. p. As Aventuras da Mercadoria. . 29 JAPPE. n°12. já que ambas apesar de suas diferenças (a produção de valor para o produtor e a produção de mais-valor para o capitalista). Anselm. por este motivo.[-] www. a empregada do pet shop que alimenta animais de estimação de outros. o consumo. mesmo que. O produto do esforço aqui aparece como valor e o esforço aparece como trabalho 28. 1. elas produzam valores de uso tão intensos como um orgasmo. 111. Todos trabalham do ponto de vista do valor.29 O marxismo que enxerga o trabalho concreto como algo positivo e o abstrato como o negativo ao qual ele “se aliena” não compreende que o próprio trabalho concreto categoria trabalho admita não só o trabalho assalariado. dando. Sobre isso nos fala Jappe. de uma forma ou de outra. o trabalho só existe nas circunstâncias em que existam o trabalho abstracto e o valor. concorrem no mercado assumindo a forma de valor. Não só no plano lógico.

org Ano 8. Op. no comunismo. O geral já não é uma manifestação do particular. sua atividade como professor existe como meio para que ele obtenha dinheiro e possa sobreviver. aí sim trabalhamos. o cuidado e a educação das crianças serão atividades como outras que deverão ser desempenhadas Como primeiramente afirmou Robert Kurz: “Em rigor. KURZ. não entra naquele vínculo social mais amplo criado por meio do mercado e. já que nas mesmas o que é em si concreto. uma vez que o atributo á está contido no pr prio conceito. n°12. á que o atributo está em contradição com o conceito. Robert. A Substância do Capital. É por isso que. O mesmo ocorre quando uma aula particular é dada por um professor independente. ou seja. que se apresenta necessariamente nesta dualidade. o “trabalho” á é uma abstracção. de facto. longe de ser mera generalização do concreto. quando somos professores de uma escola infantil e educamos o filho do outro e para isso recebemos. no capitalismo. o concreto. esforço humano indiferenciado32.[-] www. na comparação abstrata dos esforços produtivos efetuada pelo mercado e já pressuposta na produção capitalista. não gera valor. Cit. O trabalho do professor apresenta-se como trabalho concreto (sua atividade na sala de aula). por este motivo. não assalariado31. a diversidade do mundo. vol. Poder-se-ia dizer que estas definições de Marx reflectem o paradoxo real da relação do capital e da sua socialização do valor. nversamente. assim. mas pelo contrário o particular já apenas é uma manifestação da generalidade totalitária. 30 . é de facto “realmente”) reduzido a uma abstracção. mas não “é” senão a “expressão” da generalidade realmente abstracta. Em uma sociedade não dominada pelo valor. o abstrato. da “substância” universal”. a ela subordinadas. Agora. Sem a abstração realizada pela produção mercantil não existe a categoria trabalho. No entanto. 31 Pois apesar deste não fazer crescer o capital de outrem. a educação do filho e progresso das forças produtivas sociais pelo avanço daquele indivíduo. mas que só se apresenta assim por estar submetido a compor a comparação abstrata dos trabalhos no mercado produzindo riqueza em sua forma abstrata de valor – e assim é ele mesmo trabalho abstrato. sua existência concreta como professor é a manifestação particular de um mecanismo abstrato. mas sim uma atividade humana qualquer. é que. diferenciada e importante por si. aquele que não aparece sequer como trabalho concreto. 2016 180 só pode existir como expressão do abstrato 30. seu esforço troca-se por dinheiro e assim entra no metabolismo social do valor. assim sendo. o valor. não se percebe isso como sendo um trabalho. como abstracção (mesmo conceptualmente. Sem o trabalho abstrato. o conceito “trabalho concreto” representa uma contradictio in adjecto como por exemplo “cavalo-branco preto”).sinaldemenos. o concreto não seria trabalho. e assim a relação entre o geral e o particular é posta de pernas para o ar. a designação “trabalho abstracto” representa um pleonasmo l gico como por exemplo “cavalo-branco branco”). 1. Algo que não fosse trabalho abstrato seria um tipo de atividade como ensinar algo a um amigo ou familiar. apenas nascendo no terreno de uma abstracção real social) o “trabalho” não pode ser per se ”concreto” no sentido de uma determinada actividade. Cuidar de um filho em casa é sem dúvida um esforço que gera algo útil. também á não representa a diversidade estruturada do particular. passa a ser o seu determinante: o trabalho (atividade indiferenciada que produz valor) é agora a realidade universal que gera todas as realidades concretas. 32 Mais que isso.

Como opostos. nunca consegue dominar o todo da vida social e esta parte que se encontra para fora do mercado. Grundrisse. produção de consciência nos indivíduos e. Esta também facilitará entender o porquê de a produção. De fato é a comunicação entre as pessoas uma das atividades humanas mais úteis. No entanto. alguém caça. Karl. compor a totalidade ao se estender “tanto para além de si mesma na determinação antitética da produção” se sobrepondo à distribuição e à troca33 e também compreender o motivo pelo qual ela não pode ser subsumida na categoria trabalho. das atividades que por qualquer motivo são realizadas. põem-se como tais. mas sem dúvida se trata de uma atividade homem-natureza. 1. n°12. assim. tem de ser considerada como utilidade humana e assim produção. Numa simples conversa. alguém coleta. produção e desenvolvimento de forças produtivas “materiais” tão fundamentais como a linguagem e a ciência. ão podemos deixar de mencionar que “natureza” e “homem” não existem como suficientes em si mesmos na oposição “homem-natureza”. não é trabalho por não produzir valor. mas sim como parte do todo da vida social. alguém faz artesanatos e decora a aldeia e todos usufruem de tudo (obviamente não falamos que uniformemente sempre). assim. vol. em seus conceitos. 33 MARX. Uma simples conversa entre duas pessoas para explicar um ponto de vista teórico ou mesmo para. 34 . segundo Marx. p. traremos uma última situação exemplar. fazer com que uma das duas se sinta bem. Todas estas atividades são síntese com a natureza. um pressupõe o outro e. o indivíduo em contato e transformando a natureza que é a sua consciência e a de seu par 34. Op.org Ano 8. mas nestas comunidades primitivas elas não aparecem como trabalho (e seu necessário duplo aspecto concreto e abstrato) como uma atividade separada das demais. O mesmo se dá em comunidades tribais. Para enfatizarmos como a noção de produção (de valores de uso) não pode ser conceitualmente restringida. em um momento difícil. Cit. 53. por mais útil que seja para a humanidade. A mercadoria em sua lógica expansiva.sinaldemenos. a consciência das pessoas se transforma (pouco ou muito não interessa no momento saber). esta atividade humana de conversar não pode ser considerada trabalho porque não se trata de uma atividade dissociada que se relaciona com outras por meio do mercado. 2016 181 pela sociedade. a simples “troca de ideias” é produção.[-] www. onde alguém educa as crianças..

colocando-as no circuito de trocas. é possível retornarmos à exposição que Marx faz no início de O Capital. 36 “ odo começo é difícil. enquanto Marx mostra como ela é socialmente determinada. 11. mas é esta forma que domina todas as coisas. não se nega que a atividade produtiva vá ocorrer sempre. Quanto ao que se refere mais especificamente à análise da substância do valor e da grandeza do valor. Com isso. Após o que foi dito. como consequência. mas reveste as atividades concretas. vol. n°12. Os economistas tenderam a ver esta forma como natural e eterna. a dificuldade maior. no entanto. O pressuposto aqui é o mesmo para a existência da forma mercadoria e da forma trabalho: produtores É claro que se pode abusar do termo e dizer que tudo que envolva o mínimo de esforço é trabalho. a mercadoria se mostra como uma forma desprovida de conteúdo36.[-] www. resta. que se presta a negar a possibilidade de conhecer apenas para manter as coisas justamente como estão. portanto. não são trabalho35. a atividade emancipada de seu invólucro negativo capitalista. procurei torná-las acessíveis ao máximo. o valor. como Marx disse em passagens já citada nos pontos anteriores. saímos do mundo do conhecimento e cruzamos a porta do cinismo burguês em sua versão pós-moderna. sem conteúdo. 35 . é muito simples e vazia de conteúdo. Lá.. a negação das possibilidades concretas pela submissão das atividades sociais a um abstrato. Com o fim da fragmentação das atividades produtivas e do valor. a atividade produtiva se apresentará para além da forma de sua limitação mercantil. A própria noção de trabalho acaba.org Ano 8. Fazendo isso. 1. assim. Nossa análise. como cuidar da prole. Op. 2016 182 Para chamar algumas das atividades de trabalho é necessário dizer que outras formas de síntese com a natureza. Cit. Este invólucro é o próprio trabalho. aponta para algo muito similar em relação ao trabalho: ele é pura forma. surge uma restrição ao consumo coletivo nesta sociedade por conta desta diferenciação. mas sim que o entendimento de determinadas atividades em si completamente diferentes sob um mesmo conceito abstrato é que vai deixar de existir. Isso apenas pode ocorrer quando na divisão das atividades sociais algumas adquirem maior importância que as outras – e. Karl. Não haverá mais diferenciação entre as atividades quando o que for socialmente relevante for aquilo que é relevante para a humanidade considerada em suas múltiplas necessidades culturais – e não mais conforme os ditames da reducionista produção do valor. entendimento do capítulo . em especial a parte que contém a análise da mercadoria.” MARX. p. o trabalho estará igualmente fadado a desaparecer. O Capital. projeção de uma forma de sociedade historicamente determinada. isso vale para qualquer ciência. cuja figura acabada é a forma do dinheiro. na esteira das análises anteriores. apresentará. A forma do valor.sinaldemenos. como qualidades das próprias coisas.

vol. 2016 183 privados que trocam sua produção. etc. é que nessas línguas o “trabalho” designa sempre a actividade específica dos escravos. e nunca de uma generalidade social de “actividade em geral”. nem sequer existia uma categoria de actividade geral e abstracta.). portanto. Cit. . apesar de que “concebido economicamente nessa simplicidade” é o trabalho “uma categoria tão moderna quanto as relações que geram esta simples abstração”. 37 Retomando o caminho até então percorrido e visando esmiuçar esta crítica de Kurz. em muitas sociedades da história. Na medida em que a abstracção “trabalho” foi adoptada como conceito pela sociedade moderna a partir da área linguística indo-europeia. diz que “a representação do trabalho nesta universalidade – como trabalho em geral – é também muito antiga”. voltamos ao argumento de que o surgimento do trabalho é o surgimento de uma 37 KURZ. Kurz critica esta afirmação da seguinte maneira: Se Marx designa esta abstracção (provavelmente no sentido de uma mera abstracção nominal) despreocupadamente como “antiquíssima”. 1. tal é enganador. V . um anacronismo e no fundo um erro de tradução (o que de resto se aplica também a outras categorias especificamente modernas e associadas à relação de fetiche da valorização do valor. ela teve de ser sujeita a uma redefinição completa. de um conceito genérico mental para diversas áreas de actividade. Se aqui na interpretação moderna se fala sempre de “trabalho”. neste sentido especificamente pré-moderno). esta designação obviamente não se baseia em nenhuma investigação histórica. dependentes. precisamente por isso não de uma generalidade social. Op. etc. A Substância do Capital. trata-se de áreas de actividade muito limitadas. menores. O objeto produzido reveste-se assim da forma mercadoria na mesma medida em que a atividade de produção reveste-se da forma trabalho. n°12. De facto. entre outras também nas chamadas culturas superiores como o Egipto antigo. Robert.sinaldemenos. não de uma categoria de síntese social como na modernidade. o estado. em uma passagem dos Grundrisse já citada neste texto. porém. mas sim de uma abstracção social (e nessa medida também de uma abstracção real.org Ano 8.O nascimento conjunto do trabalho e do categorial da relaçãomercadoria Marx. Mesmo nas sociedades onde parece existir um tal conceito genérico nominal (mesmo aí não há nenhuma abstracção real).[-] www. tais como a política. não se trata.

em sociedades como as da Mesopotâmia e do Egito antigo. 38 . outro fazia a colheita. vol. um nobre continua sempre um nobre e um roturier continua um roturier.65. Cit. o abuso das diferentes atividades humanas submetidas à autoridade não tinha um caráter indiferenciado como o trabalho produtor de valor. Até então.) no estamento (e mais ainda na tribo) este fato permanece escondido. O mundo ainda não se separara em um mundo social do trabalho e do comércio e um outro da vida particular. na medida em que há uma diferença entre a sua vida pessoal e a vida enquanto subsumida a um ramo qualquer do trabalho e as condições a ele correspondentes.. por exemplo. 64. Friedrich. 39 MARX. e justamente devido à inevitável autonomização das relações sociais no interior da divisão do trabalho. A Ideologia Alemã. Karl et ENGELS. outro era uma espécie de nobre coletor da produção. trabalhadores com uma função específica na hierarquia social. surge uma divisão na vida de cada individuo. e. por um lado. todos em uma hierarquia em cujo topo se colocava a figura do rei-deus. a igualdade Nos estágios primitivos.org Ano 8. mas uma condição da totalidade de sua vida. Determinado tipo de servo servia no harém. (. Op. Marx mesmo traça raciocínio similar ao escrever: No decorrer do desenvolvimento histórico. mas um ente38 considerado a partir da singularidade de sua função e não como “trabalhador” em geral. 1. Essa é diferença de base entre direito e privilégio.. quando obriga a comparação abstrata do esforço das pessoas. mas da própria realidade social. uma abstração que não é só do pensamento. por outro. pela concorrência.[-] www. fazendo surgir a categoria abstrata “trabalho”. é uma qualidade inseparável de sua individualidade. Esta diferenciação só se completa quando o valor penetra nas comunidades. abstração feita de suas demais relações. mas era meramente colocado pela força e pela crença e não de maneira econômica. O primeiro parte da igualdade do mercado. e assim a atividade do servo não se comparava à do eunuco e à do rei. por mais que já houvesse exploração. n°12. O mesmo se passava com os servos. Eles não eram cidadãos iguais e legalmente resguardados.. p. outro era um sagrado sacerdote. as trocas internas na sociedade encontravam-se em um nível muito pouco desenvolvido. Sua atividade não era uma profissão. mas como os animais e vegetais representados conforme o totem de seu clã. nem eram considerados pelos seus pares como humanos. algo separado de sua individualidade.sinaldemenos. 2016 184 diferenciação social. quando essas ainda brilhavam em sua era do bronze. da família. da exploração que determina fins não diretamente ligados às necessidades diretas dos que se empenham no processo produtivo. 39 Dentro dos primitivos estados mesopotâmico ou egípcio. por exemplo.

dado maior grau de acabamento) estas categorias.C surgiria a cunhagem de moeda40. Quando olhamos para o passado em busca do surgimento destas categorias. enfim surgira pela primeira vez. quando a primeira grande expansão do comércio faz surgir (ou as tornar mais perceptíveis. p. As moedas anteriores podiam ser cunhadas em metais preciosos e valer diretamente pelo valor dos metais que as compunha. London: Macmillan. no entanto. Alfred. O segundo é justamente a desigualdade sacramentada. O dinheiro. o domínio sobre o outro. Elas se tornam cada vez mais acabadas e dominantes conforme a relação mercadoria se desenvolve submetendo os demais tipos de relações sociais à sua forma – e por outro lado a mercadoria mesma só pode ser compreendida como sendo constituída destas múltiplas manifestações. o desenvolvimento da categoria direito como igualdade abstrata e pressuposta entre os “homens” (também considerados nesta categoria abstrata e não como indivíduos concretos) e a economia. a forma do valor mais desenvolvida – conforme explicado por Marx em o Capital –. garantida por uma autoridade simbólica a moeda não mais vale pelo material utilizado em sua confecção. 96. de forma que por volta de 680 A. ainda que em estágio embrionário. uma relação umbilical entre a abstração das diferentes atividades produtivas na mesma categoria “trabalho”. as encontramos em diferentes graus de desenvolvimento. 2016 185 que tem de estar pressuposta para as pessoas poderem comparar seus produtos na troca. Podemos dizer em termos de formas sociais que àqueles que produzem em abstrato corresponde uma forma de riqueza em abstrato e uma abstração de si próprio na categoria “homem”. pressupõe um degrau ainda maior de abstração. Isso pode ser percebido e rastreado com alguma clareza pelo menos a partir do desenvolvimento do mercado no início da antiguidade.org Ano 8. Há. 40 . SOHN-RETHEL. por isso. 1. mas todas evoluindo em conjunto (quando evoluem).sinaldemenos. bem como uma esfera econômica apartada do resto da realidade onde vigora uma lógica estritamente concorrencial. que retira o produto sem dar outro equivalente em troca. Intellectual and Manual Labour: a Critique of Epistemology. categoria em que os homens se encontram em concorrência como proprietários formalmente iguais de mercadorias. Naquela época o comércio se desenvolvia rapidamente. pela qual. A forma dinheiro. com algum grau de uniformidade entre elas.[-] www. 1978. n°12. vol. o surgimento e desenvolvimento das formas da riqueza concreta na abstração “valor”. dada uma específica época histórica.

2016 186 mas pelo puro lastro simbólico. o qual nasce do cultivo das qualidades próprias dos senhores e heróis. Sua defesa apaixonada de Diké. á que ustiça não há entre eles. viveu Hesíodo. Mesmo já com todo esse desenvolvimento causado pela forma mercantil. Trad. Deusa da Justiça como igualdade que despontava entre os Gregos na época e que se opõe a Thêmis. depurada de toda materialidade (ex. A Fome é em tudo a companheira do homem ocioso.: créditos eletrônicos). São Paulo: Martins Fontes.. JAEGER. 42 “ . Com trabalho os homens tornam-se ricos em rebanhos e opulentos. n°12.. 93-95. O heroísmo não se manifesta só nas lutas em campo aberto. e com ela também a concepção Como escreveu o grande helenista Werner Jaeger: “Homero acentua com maior nitidez. Não foi em vão que a Grécia foi o berço da humanidade que põe acima de tudo o apreço pelo trabalho”. O trabalho não é nenhuma desonra. Em Hesíodo revela-se a segunda fonte da cultura: o valor do trabalho. que toda educação tem o seu ponto de partida na formação de um tipo humano nobre. e trabalhando serás muito mais querido dos imortais” e dos mortais: muito eles odeiam os ociosos. provavelmente entre o ano 750 e 650 antes de cristo. entre cavalheiros nobres e seus exércitos. Em Os Trabalhos e Os Dias. para que a Fome te odeie. por lidar com o problema da escassez. o grande poeta que registrou em seus escritos as rápidas mudanças dessa transformação essencial na forma das relações sociais. logo o ocioso procurará igualar tua riqueza: ao rico acompanham mérito e prestígio Qualquer que seja tua fortuna. para ti seja caro organizar os trabalhos regrados. guarda profunda semelhança de forma com aquela da antiguidade. divindade mais antiga que representa a Justiça como poder da nobreza43. 1. mas para os humanos deu a ustiça”. O título de Os Trabalhos e os Dias. a abstração monetária que conhecemos.. Antes da fase clássica grega. Hesíodo se foca nos afazeres dos homens comuns e seus temas preferenciais são justamente a Justiça e o Trabalho41. divina prole. a venerável. feras e pássaros alados devorem-se uns aos outros. de modo que os teus celeiros se encham de alimento no tempo certo. Os Trabalhos e Os Dias. a vergonha. E se trabalhares.) trabalha. 85. Perses. Cit. e te ame Deméter de bela coroa. A vergonha não é boa para cuidar de um homem necessitado. Curitiba: Segesta.sinaldemenos. dado pela posteridade ao poema rústico didático de Hesíodo. 2010. Werner. Os Trabalhos e Os Dias. vol. se o teu louco espírito dos bens alheios desvias para o trabalho e atentas para a subsistência. trabalhar é preferível. também deixa vivo relato das mudanças culturais ocasionadas pelo rápido desenvolvimento mercantil: a igualdade formal pressuposta na troca penetrando de diversas maneiras no tecido social. e esquece de todo a força. e agora dá ouvidos à Justiça. coloca essas coisas no teu coração. Paideia: A formação do homem grego. esta ainda é embrionária. desonra é não trabalhar. p. Pois o filho de Crono fixou para os humanos esta lei: que peixes. p. Também a luta silenciosa e tenaz dos trabalhadores com a terra dura e com os elementos tem seu heroísmo e exige disciplina. exprime isso perfeitamente. Op. e encha o teu celeiro de alimento. como te ordeno. deuses e homens se indignam com quem ocioso vive. 2012. que consomem o esforço das abelhas. 41 .[-] www. É considerado por muitos o primeiro de todos os economistas. que aos homens muito prejudica e beneficia: a vergonha liga-se à pobreza tal como a audácia à prosperidade. p. qualidades de valor eterno para a formação do Homem. semelhante em caráter aos zangões sem ferrão.” HES D . Alessandro Rolim. 91. e desenvolve uma ética do trabalho que em muito lembra a que surgirá antes do início do capitalismo42. HES D . ociosos a comer. Apesar de toda a diferença histórica que nos separa. 43 “Ó Perses.org Ano 8.

para que leves lucro para casa – assim meu e teu pai. n°12. de certa maneira. o direito.org Ano 8. Elogia a nau pequena. que em pouco tempo daria origem à primeira moeda cunhada. Cit. mas uma realidade construída por relações abstratas – metafísicas como Marx mesmo afirma – como o valor. lá aparecem primeiro teorias que colocam o trabalho que produz valor alternadamente como trabalho específico no comércio (mercantilismo) e trabalho na agricultura (fisiocratismo). Lisboa: Editorial Estampa. vol. não por coincidência. A época de Hesíodo é. a ordem que vemos no desenvolvimento da própria economia política na modernidade: como dissemos acima acompanhando Marx. sensível. mas põe tua carga numa grande: quanto mais carga. Op.[-] www. abordado por Hesíodo apenas em dois sentidos: o trabalho no campo. O mundo humano tal como até hoje o conhecemos não é de uma realidade meramente material.sinaldemenos. George. e no comércio marítimo44. costumava navegar em barcos (.Fim do trabalho e da submissão da vida ao categorial Pelo fato de estarmos conduzindo aqui uma análise categorial que em muito difere da do marxismo tradicional. 45 THOMSON. 44 . ó Perses. Sua abstração como “trabalho”. necessitando de um bom sustento. p. empírica. articulados por) uma realidade social que não é simplesmente fática. 2016 187 de trabalho. à primeira democracia grega e aos primeiros filósofos45. 125. com o solo e os animais. 1974. Para estes resta-nos dizer que afirmar isso revela o desconhecimento da dialética entre ideia e realidade.. 1. Os conceitos a que nos referimos articulam (e são.. VI . e dentro a carga adequada dispõe. ainda que limitada à categoria da subsistência e do comércio de excedentes. Os Trabalhos e Os Dias. o capital. o tempo da primeira grande difusão da produção simples de mercadorias. aqui (em Hesíodo) o que é representado como trabalho acaba por se resumir nestes mesmos dois pontos. volume II. já dá claro sinal da generalização que a diferencia de sociedades mais primitivas. mas sim puramente relacional.) lembra-te dos trabalhos todos na hora certa. onde só há atividades consideradas em sua especificidade ou sob generalizações de outro caráter que não econômico. Neste sentido também se repete. seu grande tolo. Os Primeiros Filósofos: estudos sobre a sociedade grega antiga.. podem alguns afirmar que as conclusões aqui alcançadas são idealistas. o dinheiro. ao mesmo tempo. mais lucro sobre lucro” HESIODO. Os conceitos surgem com “Então arrasta a rápida nau para o mar. sobretudo quanto à navegação.

como demonstrou Hegel. não passam de manifestações já do próprio real –. mas sim como realidade em si mistificada. ao contrário. vol. do outro. ou seja. de modo que é por “acreditarmos”47 coletivamente no dinheiro que ele domina a prática social. A prática social do trabalho. n°12. Acessado em 17/02/2016. é a realidade mesma das atividades humanas que é abstrata. metafísica (em seu sentido clássico e não místico de mais que física). assim. uma abstração (e.ifch. hiago Ferreira.pdf. utilizando o termo abstração real. 1. constituindo uma espécie de “pressuposto mudo” que guia o núcleo da análise do capitalismo. O dinheiro. 2016 188 determinadas formas de prática social. O real se constitui não como empiria. desenvolvidos para produzir dinheiro). mas por relações humanas que são em si abstratas. o valor.sinaldemenos. Mas. sensíveis. A consciência e a coisidade são duas partes dessa mesma unidade humana. e “a coisa”. é o mais claro exemplo deste fato que abrange toda nossa forma de ser. sem por isso serem algo puramente da consciência. 46 . 47 Entenda-se aqui que “acreditar” não é uma decisão individual. indiferenciada) das atividades humanas praticamente diferenciadas. Disponível em http://www. a própria realidade moldada pela relação mercadoria é abstrata.org Ano 8. como também toda produção capitalista. dos quais constituem formas de consciência deles indissociáveis. A equivalência entre as diferentes atividades geradoras do valor é uma equivalência que existe na realidade social e não apenas no pensar. uma crença coletiva que se impõe aos diversos indivíduos através do mecanismo do fetichismo da mercadoria e. independentemente de um indivíduo singular. “Sohn-Rethel e o Profundo Significado Filosófico dos Primeiros Capítulos de O Capital”. o dinheiro e o capital não são negados por Marx como meras mistificações da realidade pelo pensamento. não é apenas uma abstração que exista exclusivamente no pensamento. Como demonstrou primeiramente Alfred Sohn-Rethel. Nesta obra. A consciência é um dado de ordem não Sobre esta afirmação ver L . que é a abstração do valor de uso das mercadorias que toma para si a forma de coisa (moeda ou nota). mas em si já abstratas – a consciência. A abstração do trabalho.br/formulario_cemarx/selecao/2012/trabalhos/7133_Lion_Thiago. Todas estas conclusões estão implícitas na análise da mercadoria feita em O Capital46. portanto. algo abstrato aparece sob uma forma sensível (e assim a materialidade aparece como conceito ou o conceito como materialidade). deixa de existir quando desaparece a especificidade de fins da produção de valor (todos os trabalhos são.[-] www. As categorias que compõe a base de nossa realidade não são empíricas.unicamp. no entanto. de um lado.

pois o que se impõe não é a primazia do conceito. No entanto. lógica da essência (esfera de mediação) e lógica do conceito (subjetiva. do ser que passou para o ser em si do conceito. Do mesmo modo. A exposição da mercadoria ocupa em Marx o mesmo lugar que a exposição da Lógica da Essência em Hegel48. Engels em carta a Conrad Schmidt. na lógica da essência. mas ao mesmo tempo está preso ao ser imediato como a algo a ele mesmo também exterior. A análise da mercadoria não é pura análise da objetividade e nem da subjetividade. Essa é a doutrina da essência. e seu modo de exposição: (. Hegel está discorrendo sobre a divisão entre lógica do ser (objetiva. não se trata aqui de idealismo. Acessado em 20/02/2016.. mas sua unidade com a realidade na forma da própria relação social. isto é. principalmente. A reprodução social deve sempre ser vista nesta dinâmica entre realidade e a consciência socialmente necessária que a estrutura. exterior. que está no centro entre a doutrina do ser e do conceito. você terá um bom paralelo em relação ao desenvolvimento concreto que resulta dos fatos. mas compreende em si o desenvolvimento da própria subjetividade. se todos acordassem como que por um toque de mágica com consciência comunista. Quando. que parte do mundo exterior). como forma de consciência socialmente determinada. mas desde já relacional e simbólica. 48 . – Na divisão geral dessa obra É o que diz. objetiva. 2016 189 apenas subjetiva. que assim são abordados de maneira implícita.sinaldemenos. que parte da consciência). uma realidade que assim não é meramente empírica. Friedrich. ele diz sobre a unidade do conceito consigo mesmo. vol.[-] www.. n°12. Engels to Conrad Schmidt in Zurich in Marx-Engels Correspondence. mas uma esfera de mediação. o comunismo estaria praticamente dado. A análise de Marx do desenvolvimento da forma mercadoria não é uma mera descrição do mundo objetivo. 1. o qual desse modo ainda não é posto como tal por si mesmo.. na introdução de sua Ciência da Lógica.org/archive/marx/works/1891/letters/91_11_01. mas. datada de 1891: “Se você comparar o desenvolvimento da mercadoria n’O Capital de Marx com o desenvolvimento do ser à essência em Hegel. o conceito como sistema de determinações de reflexão. 1891: Disponível em https://www.marxists. Ver ENGELS. e isso é o que revela a análise..)” tradução e grifo nossos).org Ano 8. inclusive.htm. Ela é a descrição de como uma relação se forma por meio dos indivíduos adquirindo a objetividade das leis do mercado ao mesmo tempo em que os indivíduos cada vez menos se comportam como membros de uma comunidade e mais como sujeitos individualistas que se relacionam por meio do dinheiro. onde se trata das relações que constituem conjuntamente a subjetividade “interna” de cada humano e o mundo objetivo “exterior”.) uma esfera da mediação. .

“Carta a Engels de 16 de aneiro de 1858”. a lógica da esfera de mediação entre o subjetivo e o objetivo e que assim não é nem um nem outro. Karl.org/archive/marx/works/1858/letters/58_01_16. Marx precisava expor esta esfera de mediação entre sujeito e objeto que é a relação social mercadoria – algo criado pelos humanos. apesar da descoberta da lógica da essência. na qual ele diz que “o que para mim foi de grande uso no que concerne ao método de tratamento foi a Lógica de Hegel”50. só pode ser exposta de forma subjetiva ou objetiva. “What was of great use to me as regards method of treatment was Hegel’s Logic at which had taken another look by mere accident. Freiligrath having found and made me a present of several volumes of Hegel. ou seja. Marx faz o mesmo em O capital. ecoam as palavras do próprio Marx em carta à Engels sobre O Capital. É que ela.190 [-] www. originally the property of akunin.W. Como Marx mesmo afirma no princípio d’O capital. Cit. o caráter de sujeito tem de ser reservado expressamente ao conceito. 2011. Neste sentido.htm. já que “o caráter de sujeito deve ser reservado expressamente ao “conceito”. como objetividade exterior ainda que ela em si seja a mediação desta objetividade com a subjetividade. 42. Op. Mais adiante. postulando que HEGEL. expô-la pela lógica objetiva. mas não sem antes ter demonstrado que ao caráter bipartido do valor (de uso e de troca) corresponde o caráter bipartido do trabalho (concreto e abstrato). p.marxists. ao que Hegel opta pela segunda forma. vol. O Capital.org Ano 8. 54. Demonstra o desenvolvimento de uma relação que constitui ela mesma a esfera de mediação entre o mundo objetivo “exterior” e a subjetividade “interna”. Aqui a exposição da evolução da forma valor segue a lógica objetiva (do ser). São Paulo: Barcarolla. mesmo sendo esfera de mediação. como formas duplas que mantêm relação cruzada de identidade entre si. 51 MARX. 49 50 . Acessado em 15/09/13. assim como Hegel. G. Marx iguala os dois novamente. 2016 lógica ela ainda foi situada sob a lógica objetiva. ele segue os desenvolvimentos da relação de valor até a forma dinheiro51. Ele divide trabalho em trabalho vivo e trabalho morto e capital em capital variável e capital constante. p.” MARX. ele tem um problema com a particular forma de exposição desta lógica. a esfera que forma o próprio ser como unidade entre prática e consciência. Karl. F. (Excertos). ao analisar o trabalho na relação com o capital. Disponível em http://www. n°12. mas não sem aviso anterior de que ela está diretamente ligada ao trabalho. mas que os controla e os forma – e a maneira que encontrou para fazê-lo foi.49 Hegel afirma que. 1. Ciência da Lógica.sinaldemenos. pois embora a essência já seja o interior. a princípio externa ao homem.

n°12. e. São Paulo: Boitempo. dissociadas. 99. 2010. Ficam. deixa de existir.org Ano 8. seus produtos aparecem sob a forma de valor. assim desaparece a noção de trabalho e a prática coercitiva que carrega este nome. p. a propriedade privada enquanto atividade sendo para si. Isso só revela que a cisão interna à sociedade.[-] www. Retirando a determinação do trabalho como abstração das atividades produtivas de valor. Isto porque a própria produção não está voltada para a satisfação de 52 Marx. Cuidar de filhos quando superarmos o reino da necessidade no comunismo será meramente cuidar de filhos. . O que significa esta recorrente igualação entre a mercadoria (tanto em seu caráter pouco desenvolvido de valor na circulação simples quanto em sua evolução como capital) e trabalho? Significa que ambos são tratados como expressões da mesma coisa. vol. como diria a “nova crítica do valor”. ambas são a mesma coisa emanando da produção privada que constitui a atividade da forma trabalho e o produto da forma mercadoria. Manuscritos Econômico-Filosóficos. A forma trabalho é = à forma mercadoria. o conceito trabalho se revela parte de uma realidade em que algumas atividades humanas são válidas para determinado tipo de relação atualmente dominante. Deste modo. enquanto pessoa. Este tipo de análise que aqui chamamos de categorial deriva da relação dialética entre o que percebemos separadamente como prática e forma de consciência – e é importante compreender que uma não existe sem a outra. De posse deste entendimento.sinaldemenos. Neste sentido é mais fácil de entender diversas passagens. 1. entre o que a priori se considera socialmente produtivo e o que não se considera. assim. as relações que os humanos mantêm com a natureza e com outros humanos (que afinal também são natureza. Outras tantas formas completamente necessárias de relações com a natureza e entre os indivíduos ficam de fora desta categoria “trabalho”. pois as formas de consciência sustentam a prática social que lhes criou e vice-versa. enquanto sujeito. inclusive do jovem Marx. o trabalho.Karl. como construir uma máquina será meramente construir uma máquina – e não formas de representação de uma atividade em abstrato. isto é. o que sobra? Sobra apenas a atividade produtiva. o intercâmbio de mercadorias. 2016 191 trabalho vivo = capital variável e que trabalho morto = capital constante. uma única e mesma forma que pode ser analisada pelo lado da lógica objetiva ou da lógica subjetiva. considerada da forma mais ampla possível). na qual ele diz que “a essência subjetiva da propriedade privada. os conceitos que se remetem a estas cisões também perdem serventia. é o trabalho”52.

os idealistas se perguntam se existe algum acesso à realidade e chegam a uma conclusão. Seguindo por este caminho. o cidadão sujeito de direitos. mistificações que impedem ao homem um desenvolvimento concreto e que só permitem um desenvolvimento alienado.) Nossa estrutura categórica não apreende a particular constituição da realidade. o indivíduo se expressa apenas por meio de categorias. vol. o direito. O conceito não a morde. (. as classes. o homem enquanto categoria limitadora de sua própria singularidade. o patriarcado. instituições.sinaldemenos. a política. Ao seu parecer esta é a existência falsa.. então o mundo exterior está estruturado segundo categorias. as ciências. mas apenas a individualidade em sua expressão socialmente determinada. Assim surge a cisão entre vários aspectos da vida social. como geralmente se interpreta. o homem enquanto portador de dinheiro e em especial como representante do capital. Mas nós pensamos e vivemos somente dentro desta estrutura categorial.. 2016 192 necessidades dos indivíduos concretos. como áreas em que vigem lógicas diferentes.. n°12.[-] www. mas apenas do indivíduo abstrato. o Estado. ficções. Hans Jurgen Krahl. aparecem ao mesmo tempo como coisas diferentes. por isso. Marx toma este dado como algo negativo.. E. ela mesma categorial. fetichizações. Há abstrações. a religião. 1. que Krahl desenvolve segundo Marx: (. a arte. Assim. sendo produto das relações humanas. religiões. E isto é . É deste modo que a análise categorial aqui feita em torno do trabalho é também o instrumento adequado para a crítica de diversas outras categorias (formas) sociais. de formas sociais que penetram e determinam suas relações e mesmo a consciência destas relações e que não expressam sua particular individualidade. mas toda a forma social cristalizada. mas sim que nós falamos e pensamos apenas por meio das categorias que dominam também nossa particularidade “empírica”. etc. Krahl nos explica que falamos e pensamos a realidade que experimentamos recorrendo sempre a conceitos universais que não levam em conta nossa particularidade concreta. A realidade (ou o fenômeno que alcançamos) é. Krahl diz que os idealistas não afirmaram que o mundo exterior não tem uma realidade material. pensamos poder jogar um pouco mais de luz nesta complicada afirmação do “fim das categorias”. Hegel pôde salvar a realidade do mundo exterior só enquanto disse que este mundo está estruturado segundo categorias. mas nós podemos nos entender a respeito deste mundo apenas por meio daquelas categorias. então.org Ano 8. imaginações. entre aquelas várias coisas que.) se o mundo exterior é real. Seguindo de perto os passos do brilhante discípulo de Adorno. como a economia. a filosofia.

. Uma importante crítica deve. 2016 193 uma realidade. estaremos adorando nossa própria limitação. Por isso. Segundo Marx. Se nós nos entendemos através de categorias. expressa na citação acima. Tradução nossa do espanhol. Nesse sentido. um aprisionamento inconsciente às limitadas formas de relações entre os homens. a estrutura categorial é real. J. o fetichismo da mercadoria. enquanto o trabalho for tomado como emancipador. H. conforme o que há muito percebeu Hegel e que hoje é moeda corrente na psicanálise lacaniana. ser endereçada a esta análise de Krahl e mesmo a Marx. Buenos Aires: Pasado y Presente. n°12.[-] www. não é possível surgir um sujeito sem a alienação. nossa submissão à realidade categorial construída a priori. 1. 1968. a atividade humana se afirma como social apenas na negatividade do trabalho. por sua própria limitação a imperativos abstratos. Aqui a atividade. vol. É a submissão do que é considerado produtivo ao valor.org Ano 8. se poderá sair desta imanência na consciência apenas se criarmos relações sociais não dominadas já por categorias como o valor. um sujeito puro que “salte” para fora da estrutura categorial e encontre a Coisa como ela é.34. só se modificarmos a estrutura mesma da abstração do pensamento53. e aceitar integralmente essa imanência. “Seminarios enero” in Introduccion General a La Critica de La Economia Política. como negativo. A alienação do sujeito é estrutural. As categorias são algo real. o Em si hegeliano ou o Real lacaniano nele mesmo. O marxismo tradicional e dentro dele mesmo o crítico marxismo ocidental tomam esta negatividade como algo positivo e entronizam o trabalho como algo digno de adoração. e nem um conhecimento das coisas que não seja mediado pela forma social. O fetiche do trabalho é o fetichismo da mercadoria tomado por sua face menos brilhante. como um dos autores deste artigo escreveu em outro lugar: 53 KRAHL.. então nossa realidade é categorial. O fetichismo. de superar esta imanência na consciência.sinaldemenos. a categoria que reúne todas as diferentes atividades produtoras de riqueza abstrata. Ocorre que. assim. mas no sentido que são ao mesmo tempo algo de nossa consciência. não é possível um sujeito que não seja formado pela sua relação com os outros mediada pelo simbólico da linguagem em todas suas expressões. em especial em sua forma hoje dominante. Devemos então abandonar a ideia. no entanto. p. então a realidade mesma é uma categoria. nos aparece como imposição. é uma forma de limitação das possibilidades. por este modo.

n°12. Logo que o trabalho começa a ser distribuído. a própria ação do homem torna-se um poder que lhe é estranho e que a ele é contraposto. É possível mudar a estrutura de abstração do pensamento e da realidade sem que isso signifique sair de toda estrutura categorial. A consciência trabalha apenas com as abstrações. como a seguinte. cada um passa a ter um campo de atividade que lhe é imposto e a qual não pode escapar. mas de forma natural. “ Vazio Estruturante da Mercadoria e do Pensamento em Marx e Hegel”. pescador.[-] www. justamente reconhecendo que a realidade tem a forma conceitual e assim a dominando em sua determinidade. Isto deve ser radicalmente aceito. RJ: Vozes. na sociedade comunista. na sua determinidade e deles se assenhora. sendo assim. onde cada um não tem um campo de atividade exclusivo. Com essa importante ressalva. como ele diz: “Sem dúvida. afirmações de Marx.blucher. 2002. material.com. ao mesmo tempo. assim. como superar o fetichismo em nossas relações? Talvez a resposta de Hegel para a pergunta sobre a diferença da filosofia em oposição ao senso comum que “acredita estar lidando sempre com matérias e conteúdos perfeitamente sólidos” forneça uma pista. que deve ser mobilizada em sua estrutura abstrata contra seu próprio caráter fetichizante. mas pode aperfeiçoar-se em todos os ramos que lhe agradam.br/philosophyproceedings/viii-sofia/039. a sociedade regula a produção geral e me confere. as afirmações de Marx se mantêm... é possível manter a crítica de Marx em seu interior. Assim.) a divisão do trabalho nos oferece de pronto o primeiro exemplo de que. e assim deve permanecer se não quiser perder seu meio de vida – ao passo que. 6ª ed. como absolutos elementos e potências.pdf. à noite dedicar-me 54 L . ainda que julgue estar tratando de algo evidente. Disponível em http://pdf. por consequência. a filosofia lida também com isso. pois é apenas por meio desta aceitação que podemos nos desvincular de tomar estas abstrações como verdades em si e para si. permanecem totalmente válidas: (. SOFIA (Unifesp). Não é porque não se pode abandonar a imanência na consciência que não se pode afastar a forma fetichista da mercadoria. Georg Wilhelm Friedrich. está dividida não de forma voluntária. A Fenomenologia do Espírito. Isto que se passa com a linguagem. o indivíduo é caçador. de caçar pela manhã. um poder que subjuga o homem em vez de por este ser dominado. amanhã aquilo. Mas. podendo então reconhecê-las como produto nosso e assim dominá-las para as utilizar corretamente. Acessado em 20/02/2016.. enquanto a atividade. hiago Ferreira. vol. enquanto aquele entendimento percebente os toma pelo verdadeiro. 2016 194 E como se livrar desta imanência no pensamento. pescar a tarde. Petrópolis. pastor ou crítico crítico. reconhece-os. . A referência a Hegel é: HEGEL. e reconhece os entes de razão como puras essências.sinaldemenos. 1. fornece um modelo que devemos utilizar contra a reificação das próprias instituições de nossa sociedade 54 Sem abandonar esta crítica hegeliana. real. a possibilidade de hoje fazer isto.org Ano 8. e por eles é jogado de erro em erro” . § 131.

Sua manutenção na esfera das trocas mercantis tem de ser garantida repressivamente pelos poderes estatais.. criticar após o jantar. como no caso da impressão 3D em que projetos e softwares imateriais produzem uma coisa. a crise da fragmentação pelo desenvolvimento 55 56 MARX. Assim. . Esta contradição é. que desde a terceira revolução industrial se tornaram elemento central da economia. ao mesmo tempo. A cada dez anos destes últimos quarenta nós avançamos tecnologicamente mais rápido do que fazíamos em um século inteiro da época de surgimento do capitalismo e que milênios inteiros antes da idade do ferro.55 Em nossos tempos as forças produtivas alcançaram um grau de desenvolvimento sem qualquer paralelo na história e este grau deve ser compreendido em seu movimento acelerado rumo à ampliação de possibilidades.sinaldemenos. não mais impelem à fragmentação da atividade por não mais fragmentar a fruição. de forma de progresso acelerado das forças produtivas. A riqueza abstrata do valor. O trabalho mesmo. Op. Cit. é o contrário do que ocorre com determinado quantum de alimento. segundo ele. ampliação tal que começa a escapar da escala quantitativa e dar todos os indicativos do surgimento de uma nova qualidade ainda oculta sob a velha capa. 37-38. n°12. 2016 195 a criação de gado. que ou é comido por uma pessoa ou por outra – e nunca pelas duas56. o esforço individual para produzir. As novas tecnologias das últimas décadas. no entanto. Para os bens materiais isso é plenamente válido. A produção de conhecimento.org Ano 8. cada vez com menor necessidade de esforço individual. Marx diz que a forma de algo se tornar um valor de troca é ser um não valor de uso. mas os bens imateriais. os alimentos como as demais coisas materiais que não podem ser virtualmente replicadas são cada vez mais produzidas por máquinas. exatamente de acordo com a minha vontade.[-] www. a partir do qual surgiram. A Ideologia Alemã. é o tempo de atividade humana fragmentada e coagulada. O trabalho imaterial (trabalho intelectual. represando assim as forças produtivas que o próprio comércio ajudou a desenvolver. As possibilidades humanas já superaram o limiar da escassez. de tecnologia e bens virtuais pode ser usufruída por todos os indivíduos sem que sua utilização comprometa a dos outros. vol. fogem desta lógica. a base do sistema mercantil. é cada vez menos necessário para a produção de riqueza material. torna-se seu contrário. como a internet. p. 1. Mas. pode tocar simultaneamente em diferentes partes do globo. pastor ou crítico. diferentemente de um disco. Karl & ENGELS. ex: a programação) é cada vez mais socializável e cada vez mais ele submete a geração de bens materiais à sua forma. Um arquivo de música na internet. é trabalho. Friedrich. A relação mercadoria. pescador. sem que eu jamais me torne caçador. e assim se erguem como obstáculos ao intercâmbio limitado do valor.

por outro lado.). como negação das possibilidades concretas pelo próprio categorial. que enquanto em contradição com relações sociais alienadas. 1. A crítica do valor é complicada. Aqui a ciência perde o caráter estéril que adquiriu ao nascer em oposição à fé. crise de todo o categorial que com ele surgiu. se dissolverão. A desfragmentação da produção é a desfragmentação da totalidade e a possibilidade da unidade entre realidade e sentido.org Ano 8. todas as áreas do conhecimento. a arte. Por isso. não mais fragmentado e contraditório. a ciência. A crise do valor é. dizer como a sociedade emancipada será. ao mesmo tempo. vol.sinaldemenos. só pode se colocar como um negativo. O pensamento só deve se apoiar na categoria para ver para além dela. por isso. o dinheiro. a filosofia. n°12. como em Hegel) e finalmente sua interpretação coerente como mais um dos estágios nos quais a natureza se desenvolve rumo ao desconhecido.. por sua abrangência que inclui em si a própria forma de pensamento e. presos dentro desta limitação das possibilidades que é o valor. sobretudo. desta forma. A crítica do fetichismo da mercadoria é a parte mais complicada da teoria marxiana não apenas por sua minúcia e nem. para. as relações entre os sexos etc. o Estado. A elevação da consciência a essa compreensão é o fim do limite a priori no pensamento (que corresponde justamente à formação do saber absoluto de sua própria condição reflexionante. negar a negação que ela representa. O pensamento emancipado é o pensamento emancipado das categorias que o limitam. É a crise de todas as parcelas da realidade social (como o direito. porque se trata de um negativo. da qual devemos nos desvencilhar de forma a prosseguirmos já em outro nível existencial em que escolhamos livremente as categorias que queremos como realidade. Neste sentido. A crise que vivemos é a crise desse categorial. a não ser quando esta categoria é tomada em si como negatividade. . ao ilimitado. é tão difícil para a crítica do valor estabelecer um positivo. a crítica que revela como as categorias sobre as quais erigimos nosso pensamento e nossa vida são históricas e. é impossível lastrear a totalidade do pensamento em uma categoria. 2016 196 das forças produtivas que não mais necessitam de esforço individual é a crise do valor que agora se tornou visível. com limitação categorial do próprio ser. ao novo. negando-a. pois é a crise da própria fragmentação da realidade em parcelas.[-] www. Estamos presos dentro das categorias. e o conhecimento retoma todo seu elemento sublime como forma privilegiada de religação.

os indivíduos tornam-se livres para conscientemente construir sua história e se engajar nas atividades que melhor desenvolvam seu potencial. sem submissão a categorias. Friedrich. n°12. dos indivíduos como tais. da necessidade. E isto o teria ajudado a entender por que ganhar a vida fabricando flores artificiais em uma oficina pouco arejada ou subir horas a fio pelos degraus de uma roda de madeira para puxar a água necessária a fim de irrigar um campo é trabalho.. As necessidades sociais tornar-se-ão necessidades dos indivíduos concretos. simples talvez como as que uma vez escreveu um grande escritor. . libertam-se das categorias impostas pela forma de intercâmbio mercantil e pelas relações inconscientes de dominação e os indivíduos finalmente se emancipam. e.sinaldemenos. Isto é. p.74. isto é.[-] www. Com o fim da escassez. uma vez que a própria possibilidade de comparação acaba. portanto.) teria compreendido que o trabalho é tudo aquilo que a pessoa é obrigada a fazer. e que a diversão é tudo aquilo que a pessoa não é obrigada a fazer. Op. vol. 2016 197 porque a própria emancipação não pode ser definida senão em sua forma de negação da limitação.org Ano 8. a padrões predefinidos.. sem nenhuma definição a priori. sua liquidação crítica poderia ser efetuada com palavras muito mais simples do que as colocadas neste artigo. aos caprichos de um sistema social inconscientemente fundado que torna obrigatórias determinadas práticas sociais. enquanto jogar boliche somente para derrubar meia dúzia de garrafas ou escalar o Mont-Blanc nos Alpes europeus é considerado uma diversão. ainda que para concebê-las tivesse que evocar grande sabedoria: Se ele tivesse sido um grande e sábio filósofo (. está dada a possibilidade de pôr fim à determinação involuntária da atividade produtiva – e assim o fim da determinação de quais atividades “contam” para a comparação social. Há cavalheiros bastante ricos na Inglaterra que dirigem 57 MARX. sem estarem diretamente submetidos ao fetichismo. Cit. 1. assim. a atividade se liberta de sua camisa de força no trabalho e se torna (auto) atividade humana. Assim. Não fosse o poder fetichista que envolve essa categoria.57 As relações entre os humanos. pois como Marx já há cerca de 170 anos apontou: A transformação do trabalho em autoatividade corresponde a transformação do restrito intercâmbio anterior em intercâmbio entre os indivíduos como tais. A Ideologia Alemã. Karl & ENGELS..

vol. 23. Mark.org Ano 8. 1.58 58 TWAIN. . porque aí seria um trabalho. p.[-] www. recusariam ofendidos e desistiriam no mesmo momento. 2016 198 carruagens de passageiros puxadas por quatro cavalos durante quarenta ou cinquenta quilômetros ao longo de uma estrada poeirenta sob o sol de verão. Se por acaso alguém pensasse em lhes oferecer um salário para executar o mesmo serviço. Porto Alegre: L&PM.sinaldemenos. As Aventuras de Tom Sawyer. somente porque o privilégio lhes custa uma boa quantia em dinheiro. 2002. n°12.

2016 199 Primeiras notas Frederico Lyra de Carvalho 1 Como o título sugere. mas nos parece que a música vive na atualidade um paradoxo não existente em todas as outras. Seuil. Charles (1998). vol. Neste artigo damos uma primeira pincelada em diversos temas e horizontes que achamos ser pertinentes para a crítica. Como bem percebeu Charles Rosen 2. . e até mesmo um certo caráter não-histórico ou atemporal da arte é mais perceptível nesta modalidade artística. este artigo é o pontapé inicial para uma reflexão sobre novos termos e horizontes para a crítica da música. cremos que a partir da música podemos engajar uma outra forma de crítica social. pois ela parece estar ao mesmo tempo excessivamente presente e demasiado ausente da vida das pessoas. Provavelmente. em Filosofia da Arte na Université Lille 3 e membro do CEII.sinaldemenos. 1. Paris.[-] www. menos culturalista e identitária do que a que está a venda no mercado. no seu Nos Confins do Sentido. além de ser mais factível a um apelo para a volta de uma tão esquecida autonomia (mesmo que relativa) das artes. a apelação por uma autonomia das obras de arte é mais convincente na música. tal apelo por uma renovada reflexão da forma e papel da crítica musical poderia ser feito para todas as outras artes.Temporalidade Em uma era de expectativas decrescentes. vislumbramos aprofundar e desenvolver a maior parte deles no futuro. 1 . particularmente na instrumental. as únicas coisas que parecem ser 1 Doutorando 2 ROSEN.org Ano 8. onde nada mais se espera do futuro além de uma representação de um passado seletivo. Aux Confins du Sens. Dessa maneira. Um tal engajamento teórico nos parece fundamental em um momento histórico como o nosso. n°12.

Por outro lado. o que antes era passível apenas de discussão estética é hoje também determinado materialmente. “ Boitempo. por exemplo. um “nova música”. As expectativas da escuta do presente passam a ser meros olhares apontando para um passado recriado na incapacidade. A temporalidade das obras musicais foram comprimidas de tal forma que literalmente o novo já nasce velho pois não há como ser empiricamente distinguido do que foi feito a. o que na prática neblina qualquer possibilidade histórica de escuta ou mesmo uma mínima organização referencial desta. digamos. O novo tempo do mundo. possibilitando ao ouvinte que navegue séculos na sua escuta sem geralmente nem se dar conta. 94. todas as músicas passaram a coexistir de forma efetiva e simultânea. é igual a uma música milenar com uma gravação cinquentenária. de uma certa maneira. A arte pode antever o futuro.org Ano 8. retratar o seu presente e recriar o seu passado. Paulo 2014). mesmo “tendo 1000 anos” pode. Tal situação pode criar um certo anacronismo histórico em que. Um registro de uma música feita no nosso presente. n°12. não há diferença objetiva entre eles. adquire uma temporalidade igual a todos os outros. segundo o filosofo Paulo Arantes.sinaldemenos. 1000 anos. São Paulo. ou num passado recente. Mas o que pode ela fazer em uma era de expectativas decrescentes? Como abordar essa perspectiva do ponto de vista de uma única arte: a música? No Novo Tempo do Mundo. . elas existem e são criadas em uma temporalidade especifica. n:__. de maneira geral. novo tempo do mundo”. de uma certa forma. esta última.[-] www. na prática. É verdade porém que nada disto está decidido de antemão. as artes. Assim. O que é mais antigo? O último sucesso de Wesley Safadão ou “La Messe de Notre Dame” de Guillaume de Machaut? Na virtualidade atual. um registro de um canto gregoriano originalmente escrito antes do ano 1000. ser mais contemporânea e atual do que um outro registro de uma música escrita a um mês atrás. mesmo que tal registro fonográfico tenha sido feito a 50 anos. digamos. ou mesmo impossibilidade. mas ela pode também negar o futuro. Grosso modo. 1. neblinar o presente e fantasiar um passado. não há mais distinção cronológica possível. vol. Ele torna-se automaticamente contemporâneo de. de distinguir o que é ou não o agora. “tempo intemporal da urgência perpetua”3. A história passa a não significar mais nada na objetividade da escuta. Em um primeiro momento o novo tempo do mundo derruba qualquer 3 ARA ES. 2016 200 almejadas são o não-anonimato e o distanciamento da morte. p. Dessa maneira. possuem uma temporalidade distinta.

o que temos agora é literalmente um “cada um por si”. Payot-Rivages. ou seja. Na verdade esta talvez seja uma constatação objetiva e talvez nem este segundo momento nem existiria mais. São Paulo. 239. Como afirma Anselm Jappe. apenas em um segundo momento. Uma nova crítica musical não pode voltar atrás no tempo. Paris. não deve ser necessariamente contemporânea. em tais casos a crítica se torna redundante. A Invenção das Tradições. Paris. op.20 JAPPE. Por outro lado. 1. sob tal ângulo o que já é corrente é supérfluo de ser criticado. neste sentido como inatual”5. AGAMBEN. deixando de fora modismos e tendências pontuais. após uma escuta crítica e imanente. no sentido estudado por Eric Hobsbawm no seu clássico A Invenção das Tradições4. desta forma a nova crítica musical deve ter coragem de separar o joio do trigo de forma materialista e imanente. Terence (1983). ROSEN. vol. nem tudo que nos é dado ou oferecido é passível de análise crítica. e com isso ampliar o abismo presente. cit. por exemplo. Só nos resta ou “inventar tradições”. Apenas desta forma o crítico poderá se aperceber.[-] www. a função do crítico seria a de traduzir o que é “exótico” na linguagem cotidiana. Nova Fronteira.org Ano 8. Eric & RANGER.sinaldemenos. mas. não importa mais a origem histórica. é necessário correr um certo risco que Rosen chama mesmo de “irresponsabilidade”7. em um tempo urgente de presente contínuo. que segundo este seria imprescindível à crítica. Crédit à Mort. 2012. Anselm (2011). . Como Rosen bem observou. Giorgio (2009). é aquele que não coincide perfeitamente com ele nem adere às suas pretenções e se define. p. A crítica deve 4 5 6 7 HOBSBAWM. o verdadeiro contemporâneo. não se deve considerar e nem falar de tudo. in Nudités. que aqui funcionaria como uma espécie de tradutor de um mal-entendido anterior na escuta. Evidentemente não é que tais parâmetros não existam mais. Lignes. p. reclamar um suposto poder sagrado e transcendental da música. 2016 201 evolucionismo e tradição musical. “assim como para a economia e para a política a reflexão teórica sobre a arte não tem por objetivo justificar o presente ou glorifica-lo”6. e consequentemente para a crítica. p. e possivelmente nem geográfica ou social da música. 18. ou aceitar que ao menos como ponto de partida para a escuta. Qu'est-ce que le contemporain ?. 2012. Não obstante. como bem percebeu o filósofo Giorgio Agamben. n°12. que algumas músicas são anacronicamente mais antigas que outras ou que não totalmente compatíveis com o que se esperaria que surgisse em um determinado lugar ou situação social. para a crítica musical. “aquele que pertence verdadeiramente ao seu tempo. é que eles vem à tona. desta forma.

como o crítico pode querer que alguém gaste o seu tempo efetivamente escutando a música? 2 . evitando assim que eles se agitem/mexam nervosamente durante a execução”. vol. porém mais comumente eles o são em um sentido negativo – quer dizer que eles previnem o público que a peça a ser escutada durará três quartos de hora e não dez minutos. 2016 202 se completamente imanente e materialista e não pode esquecer que a música é apenas mais uma. ainda possível no mundo atual em que vivemos? Existe quem crie música. op. criações do homem.[-] www. esse novo tempo.Escuta e Condomínio Música é a arte da escuta. um outro lado da história. É esta escuta. é quase que incompatível com a música. Como ouvir uma música completa neste tempo? Ela se torna quase que insuportável. Na curiosa observação de Charles Rosen: “os programas de concerto são manifestadamente benéficos quando eles nos esclarecem músicas às quais não estamos familiarizados. a urgência não permite. a música pressupõe que. 89-90. n°12. Sob um outro ponto de vista. 1. escutar se torna um desafio pessoal que de uma certa forma desafia o tempo. Mesmo o “antigo” Cd se torna muito longo para uma escuta. . seja escutada por um terceiro elemento. Se na sociedade das mercadorias “tempo é dinheiro”. não existe mais a possibilidade de se perder tempo com a música. e não do tempo.sinaldemenos. cit. porém há quem as escute? Sendo uma arte da escuta. mas ao mesmo tempo é suscitada na 8 ROSEN.8 Desta forma. Não há tempo para ouvir algo por completo. uma necessidade de ser parte de um todo social.org Ano 8. Ela impõe para a sua existência uma intenção. p. Existe. para existir. Sua autonomia então é relativa. dentre tantas outras. ouvir. Exige uma paciência e uma relação de indeterminação com o tempo que não parece mais estar na ordem do dia. porém. porém. O paradoxo é que para ser autônoma ela pressupõe que não pode existir sem esse terceiro termo. como nos esclarece François Nicolas.

Ela se torna uma arte não de uma entidade exterior e independente do ser humano – o tempo – mas uma arte de uma ação humana.[-] www. Não há sentido na música se ela não é para ser escutada. Nos resta então uma questão. da escuta. Se antes saíamos de casa para assistir música. 47. L'Oeuvre musicale et son écoute. e isso vale para o músico e o público. passa a ser responsável pela constituição da música. selvagem ou charmoso. 1. Paris. Seuil. Com as novas tecnologias podemos carregar a música em quantidade infinita para qualquer lugar. qual o paradigma da forma de escuta atual? Jamais ouvimos tanta música. p. independentemente de suas origens temporais ou geográficas. sendo que o primeiro. vol. Um outro aspecto importante é que Nicolas defende que a música se desenrola na escuta. em que esta. coloca o volume no máximo e “curte um som” nas alturas – som este ainda mais alto quando o carro é um importado conversível ou uma caminhonete de luxo. Nicolas defende. 250. 9 Ver: BADIOU. Há ainda aqueles que se trancam no quarto e enquanto navegam na internet colocam um fone de ouvido no computador. hoje colocamos um fone de ouvido e ela parte diretamente para o nosso cérebro. Elas convivem em pé de igualdade. Uma outra faceta de tal situação é aquela em que o motorista de carro. é dedicado à “L'oeuvre musicale et son Écoute” A obra musical e a sua Escuta). No mundo-música todas as músicas são colocadas no mesmo plano e convivem num a priori de igualdade absoluta. Daí o título da sua obra: “Le Monde Musique” Mundo-Música). Alain (2006). Logique des mondes. 2016 203 possibilidade de ser escutada em si mesma. faz mundo10. e não no tempo. no qual nos apoiaremos. publicado em 4 volumes.org Ano 8. mas nunca escutamos tão pouco. no insuportável engarrafamento diário. 10 . 11 NICOLAS. apoiando-se na teoria badiousiana de mundo9. Le Monde-Musique I. É imagem comum atualmente vermos pessoas no transporte público ou andando na rua com seus fones de ouvidos ligados nos seus celulares ou mp3-player “curtindo um som”. Paris. por sua vez. Quem escuta.”12 Desta forma a escuta musical seria o local da escuta por excelência. 12 Ibidem. O triângulo músico-música-público não pode ficar incompleto. Tal deslocamento de uma arte do tempo para se tornar uma arte da escuta. mas sempre imprevisto. como ela é normalmente vista. pois “a escuta é uma compreensão da forma da peça que procede de maneira endógena”11 e tal ação é “um embarque. uma tese materialista da música.sinaldemenos. n°12. p. François (2014). muda completamente a perspectiva que podemos ter sobre a música.

O condomínio é lógica de vida brasileira. p. Tal lógica tem como fundamento um “conceito de defesa. o volume máximo no automóvel ou a porta trancada do quarto muros para os nossos ouvidos? Afinal de contas. por que então a música nos parece ser uma coisa totalmente fora da vida das pessoas mesmo se ela jamais esteve tão presente quanto na atualidade? Nesta forma de escuta condominial. Dunker localiza o principio do desenvolvimento de tal forma de vida ainda nos anos 70. Aqui.[-] www. p. A possibilidade para a universalidade da música exige que sua escuta seja simultaneamente coletiva e individual. 52. “o muro faz lugar por meio da fronteira”16. um constitui o outro. Boitempo. 16 Ibidem. em tais casos o que temos é uma: forma de escuta condominial. pois na minha singularidade enquanto ouvinte eu constituo o coletivo que escuta a música e na coletividade abarcada pela música me constituo como indivíduo ouvinte. E esta é a forma de escuta predominante no nosso presente. área cercada por “muros de defesa. cujo modelo é o forte de ocupação”. de uma certa forma. A música atinge a todos os que a escutam de forma simultânea. Tal experiência exprime uma forma irreconciliável entre o universal e o particular. vol. onde um não pode ser reduzido ao outro. Uma psicopatologia do Brasil entre muros. cujo objetivo militar é impedir a entrada”14. mas é como se lá não estivesse. mental e geral.org Ano 8. mas neste caso é lógica de escuta mundial.sinaldemenos. com a criação dos primeiros condomínios fechados nos entornos da cidade de São Paulo. n°12. não seriam o uso contínuo de fones de ouvidos. o aspecto coletivo é excluído e aquele que escuta só tem a si próprio como referência. “A lógica do condomínio tem por premissa justamente excluir o que está fora de seus muros”15. a música perde o seu caráter social e de partilha coletiva que possui. L (2014). A música está lá. ele está murado e resguardado do “perigo” que a ação coletiva 13DUNKER. . sofrimento e sintoma. Esta seria uma lógica que abrange “a transformação dos problemas relativos à saúde pública. 1. Christian I. Mal-estar. São Paulo. mas onde. 65. 42. 14 Ibidem. mas não de forma similar. Na escuta condominial não existe esta relação dialética. Tais formas de escuta musical nos remetem à forma de vida que o psicanalista Christian Dunker chamou de: vida em forma de condomínio. por sua vez. 50 15 Ibidem. Mutatis mutantis. p. 2016 204 outros. se trancam nos seus quartos e colocam o auto-falante no máximo. Analogamente. p. Ora. em meros problemas de gestão” 13.

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da escuta proporciona. Em tal forma encarnamos a ilusão de vivermos um “sentimento
de que se usufrui de uma experiência que é acessível para poucos”17, esta se reduz a mim
mesmo ou no máximo para aqueles que cabem no meu carro ou no meu quarto. O muro
que formamos para tornar a nossa escuta puramente individual, nos protege dos sons ao
nosso redor e bloqueia o nosso senso crítico para com o espaço social em que estamos
inseridos, seja ele a rua, o transporte público, o trânsito e o próprio lar. Em tal caso
temos uma forma diferente de alienação condicionada por este “muro [que] diz
invariavelmente “não é isso” para os que estão fora e, por consequência, 'é isso' para os
que estão dentro”18.
Andar com fone e ouvindo música o tempo todo talvez seja a forma mais
sintomática dessas todas. Em um certo sentido é uma radicalização do nosso
condomínio, sendo que neste estamos totalmente sós. Com a música entrando
diretamente no nosso cérebro não escutamos os barulhos do entorno, não adicionamos
à música os ruídos do ambiente que dela sempre fizeram parte, pois mesmo com o som
do carro, a vitrola ou o sound-system no máximo a música se mistura ao ambiente.
Neste condomínio particular saímos na rua e não ouvimos mais o outro, trancamos os
nossos ouvidos às diversas paisagens sonoras e nos condicionamos aos ritmos que a
música, que entra diretamente nos ouvidos, nos dita. Se antes seguíamos os nossos
passos de forma mais aleatória, hoje eles estão condicionados mecanicamente regidos
pelo que segue diretamente para o nosso cérebro. Sem contar, além disso, os aspectos
sociais implícitos, como o de não aguentar mais o incômodo que é o barulho que o outro
produz e o de não questionar ou mesmo esquecer os ruídos presentes no ambiente
social, na cidade em que vivemos. Se carregamos conosco o nosso condomínio 24h por
dia, por que preocupar-nos com o que acontece fora dele? De uma certa forma, em tal
situação, a música deixa de ser música, ela se aproxima muito mais de uma “droga” com
efeitos hipnóticos. A repetição total e contínua anula qualquer efeito, torna a música
plana, abortando o que ela vislumbra. Podemos associar este excesso de música nos
nossos ouvidos à compulsão por beber coca-cola, afinal, como o filósofo Slavoj Žižek19
remarca, mesmo esta última nunca matando a nossa sede, não paramos de continuar
Ibidem, p. 59.
Ibidem, p. 64.
19 Ž ŽEK, Slavoj (2000), The Fragile Absolute. London, Verso, p. 21-40.
17

18

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repetindo o gesto de ir até ela buscar algo que ela não contém mas finge nos oferecer.
Tal situação também nos lembra uma premissa comum de ser lida nas antigas revistas
de guitarra, onde falando da quantidade de notas tocadas, os colunistas diziam que às
vezes “mais é menos, e menos é mais”. Em um certo sentido uma escuta mecânica e
passiva, excessiva e condominial, não finaliza a música por completo, ela se perde no
justo momento da sua concretização, não cumpre a sua promessa.

Na sequência do seu livro, Dunker se arrisca em uma analogia desta forma de
vida condominial com o desenvolvimento da música popular no Brasil, especialmente
no Rio de Janeiro. Comentando a música “W/Brasil”, de Jorge Ben Jor, ele chega à
seguinte conclusão:

“['W/Brasil'] é um marco da passagem do samba para o funk no país. O samba é
tradicionalmente entendido como uma música do coletivo indeterminado, da festa
aberta, do barracão, da roda e da família. O funk, ao contrário, traz a ideia de que cada
um, ou cada turma, ou cada galera, ou cada bonde tem de ocupar seu lugar. É como se o
samba fosse uma conversa, em forma de canção, enquanto o funk é um conjunto de
monólogos.”20

Tal crítica nos parece uma leitura bastante interessante da situação e recepção da
música no Brasil. Há um problema, porém: Dunker dá muito peso para a música em si.
Em tal análise nos parece que a música determina o modo de vida a ela atrelado (ou no
mínimo teria um igual peso na equação). A nossa hipótese vai na direção contrária. O
modo de vida é que escolhe a música com que vai dançar e esta só pode ser entendida
como necessária, portanto atrelada a este, de forma retroativa. Apenas em um segundo
momento, já atrelada a este modo de vida, é que a música vai, da sua forma particular,
passar a determiná-lo. Podemos lembrar, por exemplo, que o modo de vida condominial
começa a surgir nos anos 70 e este funk nos anos 90. Apenas depois deste funk existir, o
modo de vida já existente pôde passar a ser associado também com essa forma de se

20

DUNKER, op. cit, p. 72-73.

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fazer música. De uma certa forma, esse último chegou para animar a festa depois que
esta já estava a pleno vapor.
Ademais, é interessante observar que tal crítica de Dunker nos remete a um
recente debate que tomou uma relativa dimensão, na sequência da publicação de duas
colunas pelo filósofo Vladimir Safatle no jornal Folha de São Paulo, a primeira
intitulada: “O Fim da Música”; e a segunda, uma tréplica às críticas feitas à primeira:
“Os alicerces da cidade”. Na primeira delas, Safatle faz uma análise da situação da
música no Brasil na última década, comparando o que nela aconteceu com momentos
passados da história musical colocando-os em paralelo com a história geral do país. A
sua tese é a de que, pela primeira vez, em um momento de desenvolvimento econômico
não tivemos uma certa explosão criativa musical no âmbito nacional. Por uma outra via,
Safatle se aproxima da análise de Dunker quando afirma que:

“A despeito de experiências musicais inovadoras nestas últimas décadas, é certo que elas
conseguiram ser deslocadas para as margens, deixando o centro da circulação
completamente tomado por uma produção que louva a simplicidade formal, a
estereotipia dos afetos, a segurança do já visto, isso quando não é a pura louvação da
inserção social conformada e conformista.”21

Ideia que completa na sequência:

“Ultimamente, todas as vezes que se levanta a regressão da qual a música brasileira é
objeto se é acusado de elitista. Afinal, tais músicas teriam vindo dos estratos mais pobres
da população brasileira. O que se chora seria, na verdade, o fim da dominância cultural
da classe média urbana e o advento das classes populares e das classes do “Brasil
profundo.”22

De uma certa forma o condomínio se estende também para tais casos, quando
demandas por segurança e conformidade pelo já escutado passam a invadir, sob as mais
SAFA LE,
Vladimir
2015a)

fim
da
música”,
disponível
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2015/10/1691849-o-fim-da-musica.shtml
22 Idem, Ibidem.
21

em

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diversas formas, todas as classes e estratos sociais em todas as áreas do país. Na sua
relação com música também se exprime o condomínio no qual se envolve neste
momento histórico a sociedade brasileira, e ele ultrapassa, e muito, as fronteiras do que
é normalmente conhecido como condomínio habitacional.
Na sequência, é interessante observar que após as mais diversas críticas que
recebeu como reação ao primeiro artigo 23, na sua tréplica Safatle faz uma dura crítica à
crítica musical no Brasil quando diz, por exemplo, que: “há uma incrível covardia crítica
em relação à miséria musical do que circula de forma maciça nesta última década”24 e
afirmando que:

“para estes que acham não fazer sentido qualquer crítica da forma musical, que acham
que qualquer análise crítica da produção cultural é mistificação de classe, teria muito a
dizer, mas insistiria em um ponto: vocês, no fundo, não acreditam que existam
julgamentos estéticos, apenas se acomodam a análises sociológicas”.25

Tal discussão é imprescindível e este artigo se encaixa neste debate por acreditar
que, se admitimos que é importante observar a música do seu ponto de vista social, a
situação atual clama por repensá-la pela outra via, esteticamente e em toda a sua
potencial autonomia. Desta forma, talvez possamos nos contrapor aos lugares comuns
que visam afirmar que existiria um público específico, seletivo, pequeno ou enorme,
especialista ou ignorante para cada determinada música, que cada forma de música
deve visar um tipo de ouvinte em particular ou barbáries afirmativas semelhantes. Não
podemos continuar com esses giros em falso, a música abraça todo o potencial da
humanidade em si.

3 - Simbolismo e Sentido
Anselm Jappe, nas suas análises estéticas, tem como ponto de partida a
relevância que o simbolismo que as mais diversas produções culturais produzidas pela
Com uma boa parte parecendo se dirigir a outra coisa e não ao que havia sido escrito...
SAFA LE, Vladimir 2015b) “ s alicerces da cidade”, disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2015/10/1694347-os-alicerces-da-cidade.shtml
25 Idem, Ibidem.
23

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humanidade podem em si portar: “as produções culturais fazem parte da esfera
simbólica, destas estruturas ou meios os quais os homens sempre tentaram se
representar e explicar a si mesmos a vida e a sociedade e às vezes também a criticar”26.
Ele completa esta ideia afirmando que tais produções culturais poderiam ser vistas
como o último refúgio da liberdade, carregando consigo um caráter utópico do possível,
uma anunciação do que poderia ser e do que poderá advir. Desse modo, uma questão
que restaria é: qual a capacidade da arte contemporânea de criar símbolos coletivos e
não apenas pessoais? O que no aqui e agora precisa e pode ser traduzido no plano
simbólico? Como ponto de partida, ele nota que na sociedade atual temos pela primeira
vez “a separação entre uma esfera econômica e uma outra esfera simbólica e cultural”27.
A dimensão cultural nas sociedades pré-capitalistas estava misturada em todos os
aspectos da vida, apenas na sociedade capitalista temos a separação do trabalho das
outras atividades, onde, pela primeira vez, a economia vem para o centro das atividades.
Jappe observa que na atualidade a indústria da diversão constitui o principal eixo
de tal produção cultural. Seguindo este raciocínio, em princípio, haveria algo de muito
errado com uma música que visa divertir, que é criada com apenas com este intuito.
Como bem observou Daniel Bensaïd, o capitalismo “se esforçou para deslocar o sentido
da vida em direção ao lazer”28. Jappe, por sua vez, observa que tal indústria também
possui um papel preponderante no controle, pacificação e criação de consenso social. De
uma certa forma, ela passa a ser uma questão de política pública (de segurança) nas
mais diversas dimensões geográficas, de um bairro à uma escala planetária. Além disso,
o autor aponta que há uma obscena comunhão entre a indústria do divertimento e a
infantilização e narcisismo característicos da fase atual do capitalismo. Ele classifica tal
fenômeno uma regressão antropológica e nos diz que esta indústria do divertimento
seria uma das principais responsáveis por tal retrocesso. O objetivo seria o de
infantilizar massivamente através de uma des-simbolização completa, o que elimina
toda possibilidade de imaginação e mesmo de uma certa percepção da realidade por
grande parcela da sociedade. Como se tudo que nos aparecesse não passasse de uma
mera reprodução, de uma forma opaca e plana, do já previamente existente. O crítico
JAPPE, op. cit, p. 241.
Ibidem, p. 214.
28 BENSAÏD, Daniel, Le spectacle, stade ultime du fétichisme de la marchandise, Paris, Lignes, 2011, p.
119.
26
27

com apelo a um espontaneísmo. Cultura Popular Temas e Questões. assim “deixar todo mundo 'livre'. tal forma de música se tornou o padrão da indústria cultural que. a qual. Se antes destinado apenas a este fim. pois para esta tudo é igual. apoiada nos motes e conceitos de uma pseudo-igualdade e democratização. o relativismo é uma falsa maneira de emancipação e induz o erro ao alvo à crítica social. 34. de forma “que não satisfaz de maneira profunda a ninguém. Segundo o autor. 199. podemos afirmar que.sinaldemenos. críticos tentarem achar sinais do sofrimento de um compositor dentro de uma determinada música ou que um ritmo determinado na verdade representasse. Ele observa que “a música se aproxima o tempo todo da ausência de significação. na transformação da cultura em mercadoria. Jappe também atenta para o importante papel que uma certa “esquerda” teve. p.org Ano 8. 1.32 É comum. 226. não há diferença qualitativa. 29 30 . p. por exemplo. não cria as condições de liberdade. José Ramos. na música. op. vol. em uma certa reviravolta negativa. para poder chegar ao máximo possível de pessoas. as “esquerdas” quiseram abolir qualquer forma de hierarquização.[-] www. Ibidem. exatamente nos locais onde elas não estavam estabelecidas de uma vez por todas. Ed. “é justamente a existência de uma hierarquia de valores que pode negar e contestar a hierarquia do poder e do dinheiro. cit. Ali onde elas tinham um sentido de existir. 20. 32 ROSEN. p. n°12.”31 Por outro lado. cit. a grosso modo. p. São Paulo. Readmitir um julgamento qualitativo e não puramente relativo ou subjetivo. reina sem partilha na época onde negamos toda hierarquia cultural”. ao contrário.30 Desta forma. do sem-sentido”. Parece-nos que devemos recomeçar a admitir que existe uma diferença qualitativa entre os objetos culturais. 224. JAPPE. mas garante a aceitação geral”. 2006. logo entre os objetos musicais. o fluxo do rio da terra do TINHORÃO. Bastaria observar melhor os reflexos da dominação da mercadoria. entre o que não passa de diversão e o que aponta para a verdade. op. 2016 210 musical Tinhorão observa que a criação musical do mercado busca ser feita normalmente de forma banal e repetitiva. Rosen enfatiza o problema que vários críticos enfrentam na tentativa de achar os vestígios do que quiserem arbitrariamente achar dentro de uma música determinada. 31 Idem. atualmente produz meros jingles travestidos de música. criando uma espécie de média da sociedade.29 Um desdobramento claro de tal procedimento é a música feita para a propaganda: o jingle.

145. 33 34 . Idem. 2016 211 compositor ou coisas similares. pois “a proximidade do sem-sentido. Para efeito de comparação. a recusa de toda significação fixada de antemão. Crítica dialética em Theodor Adorno. pelo seu futuro. Idem. ao menos no caso da música.”34 Ela viverá do paradoxo de simbolizar algo que não poderemos determinar. deve ser totalmente indeterminado. Desta forma. ou no esquecimento do sentido original . Desta forma. coloca-a a nu. Ele observa que “a música se mantém nos confins do sentido e do sem-sentido. Por isso a maior parte das tentativas de ligar uma significação determinada a uma peça de música parecem impertinentes – mesmo quando a ligação em questão faz autoridade. “a percepção das contradições da situação musical da época passa a exigir do crítico a reflexão sobre as contradições da situação social da época”. n°12. vol. pelo negativo da dominação social. Cotia. p. mas paradoxalmente pode facilmente cair no sem sentido. Jorge de (2007). 152. e mesmo se ela é estabelecida pelo compositor em pessoa. se estamos de acordo com Anselm Jappe de que há necessidade e importância da arte voltar a simbolizar e com isso criticar de forma concreta a sociedade. A música faz sentido por si mesma.35 A crítica da arte ocorre de fato quando esta faz aparecer um espaço isolado que corta esta última de toda funcionalidade. necessários. 1. mesmo assim. 4 .”33 Um outro problema estaria na procura de um novo sentido no repertório tradicional. p. é condição essencial para a música. Ibidem. como hieróglifos indecifráveis mas. p 92-93.org Ano 8. idem. nas músicas de outra época.se é que um dia houve algum. introduzindo o caos na ordem. sendo capaz de denunciar através de si própria. ela manifesta o seu legítimo interesse. Ateliê. Rosen faz um paralelo nos lembrando de rituais religiosos ou mesmo de jantares familiares de locais onde o sentido perdeu seu significado original.[-] www.Função e Utilidade Como bem observou o crítico Jorge de Almeida. A arte é um fato social que se coloca na sociedade se opondo a ela e se inscreve no seu seio para melhor exprimir as suas contradições. como se uma correspondência imediata fosse possível entre a música e a vida do compositor. na procura por novas formas de tocá-las. o sentido de tal simbolismo.sinaldemenos. pela emancipação do homem. 35 ALMEIDA.

2011. antes mesmo de julgá-las. exprimindo negativamente a harmonia e encarnando as suas contradições. 36 37 . mas não é efetivamente. Vista desta forma a música pode continuar a carregar a perspectiva de criar algo que ainda não tenha advindo. Recusar esta condição significa dizer que aceitaremos tudo o que já está dado. Além disso. n°12. afirmam que. nem é certo que atinja a todos em algum momento. Ibidem. elas que escolhem o seu público e a elas que este deve ser suficiente – sob um certo ponto de vista. cit. da sua própria maneira. Para o segundo. aparece alguma coisa que não existe”37. e também Jappe. “a finalidade imanente das obras de arte lhe vinha do exterior”38. a arte prova que nem tudo que existe é útil. W (1970). ela corre o tempo todo o risco de ser absorvida pela ordem social dominante e de ter a sua função crítica desviada para reabsorção desta na reprodução do mundo. ADORNO. 247. ou como dirá Adorno. ao menos não no sentido mais corrente do termo. 2016 212 Contraditoriamente. colocavam o sujeito em crise ao invés de consolá-lo. vol. a arte não é democrática. O primeiro nos lembra que “as obras eram sem finalidade porque elas escapavam da relação fim-meio da realidade empírica” pois. não uma mera repetição deste. afinal de uma certa forma “uma das funções da arte sempre foi a de mostrar aos indivíduos um mundo superior”36. a música deve questionar certas categorias correntes que passam como naturais e automaticamente positivas. à sua maneira. pois de uma certa forma. p. para ser relevante. JAPPE. um mundo onde encontrávamos a liberdade e intensidade ausentes no dia a dia. op. somos diariamente bombardeados com o oposto. A arte rende justiça ao singular realizando o que o pensamento conceitual não consegue mais. Klincksieck. p. “em todas as obras autênticas. elas estabelecem os seus parâmetros.sinaldemenos. Paris. 38 Idem. Tal perspectiva não é uma simples utopia. são as obras que nos julgam. Trás o que resta à luz do dia. No entanto. Adorno. Ela o é na sua potencialidade universal. pois não atinge a todos da mesma forma. T.[-] www.org Ano 8. 1. com a insistência na eliminação da ideia de que algo possa existir de diferente da realidade banal que nos cerca. 197-198. mas uma alteração do lugar estabelecido. A possibilidade existe efetivamente pois algumas das obras do passado. Ela faz aparecer na aparência da unidade a realidade da fragmentação. Estas vislumbravam outros modos de vida. delas não se esperava uma confirmação do local habitual do conforto. Théorie Esthétique. p. 123.

ambos afirmariam. São Paulo. seja em seu inconsciente. se fala e se escreve sobre música difere muito de sua função. vol. aquilo que se pensa. Adorno é certeiro ao afirmar que “em diversos casos. ao criticarem a “utilização” da música para um fim estranho a ela própria. e nos parece que hoje de forma ainda mais agravada: “Adorno apenas seria um “conservador” naquele sentido em que Schoenberg foi chamado de “conservador revolucionário”. a esfera cultural ainda seria um lugar aonde podem se produzir coisas inúteis que estejam intrinsecamente ligadas à criação de riquezas e capazes de verdadeiras críticas – normalmente reprimidas ou rejeitadas – que falam da sua forma da vida social mas que. cit. p. facilitar as suas vidas. Se a arte tem algum objetivo de ir além da mera reprodução da indústria cultural deve. seja em sua consciência. normalmente pagam o preço de serem marginalizadas. que a própria música. observa Jappe. p. W (1973). por não estarem diretamente implicadas no ciclo de acumulação do capital. Unesp. 148. 41 ALMEIDA. 2016 213 “a arte. ou seja. tornar a sociedade mais simpática. agradar. Introdução a sociologia da música. 271. Sobre a crítica musical mais precisamente. ADORNO. Jorge de Almeida remarca que já na sua época. daquilo que ela de fato cumpre na vida dos seres humanos. deveriam ser compreendidas como fim em si mesmos”. cit. 1. apesar de tudo. 2009 . p. ser útil. se não quer participar da marcha deste mundo..sinaldemenos. n°12.41 JAPPE. op.org Ano 8. T. e a humanidade por trás dela. 246. 39 40 .”40 Observando a posição deste filosofo. Mesmo tal força da arte não consegue sempre resistir a dinâmica do capitalismo. deve se abster de vir ao encontro das 'pessoas'. levar em conta estes fatos. ela resta mais fiel à sua vocação quando ela se opõe a comunicabilidade fácil e se esforça de confrontar o seu público com algo maior do que ele. ainda que utopicamente.[-] www. Bens culturais passam a ser produzidos em massa e entram na lógica da mercadoria e mesmo obras inicialmente autônomas entram na roda. op.”39 Segundo Jappe.

se projetar lá onde ele não está. tais respostas não dão conta do problema temporal suscitado e social implícito. ou seja. W (1962). Há um nítido problema na visão que quer que o espectador.sinaldemenos. o sujeito não deve apenas escutar. “democraticamente”. e só então ele passa a valer. Uma obra bem sucedida não é mais vista como um pequeno passo na realização humana. Ela existe. pois como Adorno percebeu. ele deve querer escutar. como alguém que a escuta. Tal atenção seria condição fundamental para que algo possa ser vislumbrado e surgir. 1. “a cultura do 'projeto' para a qual a matéria não passa normalmente de um suporte inerte que o sujeito pode manipular para ali depositar as 42 ADORNO. porém de maneira inversa. Quem pode criar? Quem vai criar? Todos podemos? São todas questões que desviam do foco real. Vivê-la como ouvinte. é criá-la. como nos lembra François Nicolas. Todos devem ser. Se pensarmos por uma outra perspectiva. estando este poder de constituição do ouvinte totalmente mascarado. possa ver ou escutar o que quiser.Posição do músico Para entrar na lógica do mercado tudo é colocado no mesmo nível. é certo que respostas como “porque quero” ou “porque eu posso” não são em princípio falsas. p. Porém. De uma certa forma. quem escuta também faz música. Paris. não fazem atenção ao trabalho do material nas suas obras. n°12. na mesa só existem respostas prontas ou que apontem para uma certa individualização da razão da criação musical. Como continuar criando música nestas condições? Ao que parece. mesmo “o discurso mais solitário do artista vive ainda do paradoxo que consiste a falar aos homens graças a solidão.[-] www. não negamos. vol. e são. T. Infelizmente. Para Jappe. capazes de viver a arte. Gallimard. Isso nos coloca uma série de questões. inverter a passividade comumente associada à escuta e torná-la ativa. Muitos artistas não trabalham propriamente a matéria da sua arte.org Ano 8. Mas para isto. sobrepondo ao objeto os aspectos exteriores a ele. 31. viver a música. Philosophie de la Nouvelle Musique. na renúncia de uma comunicação rotineira”42. porém devemos entender que não no sentido que o sistema nos estimula: “seja criativo. . você também pode ser um criador. tais como a origem social e geográfica de quem o concebeu. estamos cada dia mais afastados da música. você também deve compor música com os aplicativos do seu celular”. esta seria uma outra manifestação de narcisismo. é viver constituindo a música. 2016 214 5 .

os outros homens. a edição. 245. Paris.44 Não basta uma boa vontade ou gentileza. a arte não pode se tornar uma terapia ou parte de um cotidiano convivial. ele não vem com peças faltando. o sampler. O autor insiste na necessidade de se “explorar as potencialidades e os limites da matéria. funcionando quase que como uma “criatividade de supermercado”. no capitalismo. Não seria apenas algo como uma evocação de um passado. das palavras. Payot-Rivages.[-] www. Ibidem.sinaldemenos. que é muitas vezes imaginado. de resistir a fazer algo que somos em JAPPE. Talvez exista a hipótese radical de uma subtração. O tempo histórico da arte não é o mesmo da vida do artista. no lugar de as manipular à sua vontade. 45 AGAM E . A arte deve ser outra coisa e o artista deve ser capaz de aspirar mais do que o pessoal. 2016 215 suas ideias”. todas no limite do plágio. a natureza”. Giorgio 2009). Este último deve se confrontar com o passado. vol. como se tentassem atualizá-la deixando-a ainda mais no passado. mas uma reificação de uma ideia que na realidade nunca aconteceu e portanto não pode se repetir. e ver se podemos chegar juntos. do som. cit. mas também a de não fazer o que podemos. A capitulação total dos envolvidos é mais um episódio na mercantilização completa da vida e de todos os seus aspectos. assim para entrar na lógica do mercado tudo é permitido e encorajado de ser feito. Alguns artistas fazem música com um olhar para o passado. “Sur ce que nous pouvons ne pas faire”. como uma constante reinvenção de uma tradição. a citação. não pode querer ou pretender estar em um outro tempo que não o seu. a segunda vez não se repete como farsa. p. n°12. constituir assim um primeiro passo em direção à uma relação menos violenta com o mundo. 43 44 .43 Na música tal problema passa sobretudo nas questões que suscitam: a mixagem. mas como puro simulacro. Os artistas terminam entrando no jogo e disputando a tapas. Giorgio Agamben45 remarca que possuímos a potência de fazer e de não fazer nada. como concorrentes. Idem.org Ano 8. 1. op. não se pode apenas aceitar apenas uma parte do jogo. uma ação negativa de recusar a criação. No que podemos chamar de estética do mundo contemporâneo traços de medo são instantaneamente reconhecidos. os olhares daqueles que podem lhes financiar e. Não há mais espaço para um discurso ou para uma ideia. Aqui. Risco que está sendo substituído por uma aceitação passível de tudo e de qualquer coisa. há uma fuga constante do risco e da luta necessária para conceber uma obra musical. in: Nudités.

6 . nem o que ele vai BADIOU. E ter a certeza de que ele é capaz de criar isto. aceito e estabelecido. sem a necessitar fazer apelo a identidades exteriores ao seu mundo. Data de acesso: 15/01/2015. Temos. se o que vamos fazer contribui para tornar visível o que já é reconhecido pelo império. Alain (2013) “Fifteen heses on Contemporary Art”. Este é um dos lados artesanais da criação musical.lacan. Ao mesmo tempo não acreditamos na máxima repetida de que a massa e qualidade são impossíveis de andar juntas como nos fazem crer todo dia. mas que para isso talvez um gesto prévio e radical de não aceitar mais participar do jogo seja necessário.Conclusão provisória Não acreditamos que alguém não seja potencialmente capaz de.[-] www. retroativamente. recoloca as possibilidade para novas criações na ordem do dia. longo e difícil. que envolve aspectos exteriores e interiores ao indivíduo. Esgotadas as possibilidades de tal ação e assumindo a potencialidade que o criador musical possui de poder criar uma música. disponível em: http://www. na última das suas quinze teses sobre a arte contemporânea. mas também a capacidade de resistir. apreciar não importa qual obra musical. 46 . Assim como uma política verdadeira deve ser emancipatória e colocada no centro do povo. Talvez uma espécie de decreto unilateral e autônomo talvez possa ser dado pelo artista músico. por exemplo. uma música verdadeira deve poder unir as pessoas na sua singularidade e autonomia. Sustentamos que não. É possível que em um outro sistema e modo de vida estes dois conceitos vendidos como antagônicos possam. de escolher não fazer uma música.php. vol.com/issue22. Por ser construída sobre parâmetros discursivos universais (e não naturais como outros sustentam47) a música pode ser possível de ser apreciada por qualquer um. unindo-as em um processo de verdade. Mesmo a chamada música microtonal não trabalha com toda a gama espectral de sons existentes. nos propõe que é melhor não fazer nada em termos artísticos. de alguma forma. 47 som é “natural”. Todavia. a priori. 2016 216 princípio capazes de realizar. Ter em mente o objetivo claro de que aquilo que antes ali não estava. Mas a aquisição de capacidade é um processo. Da sua parte.org Ano 8. a capacidade de poder fazer música. se reconciliar. mas a música é composta de sons precisos escolhidos dentre os disponíveis. o filósofo Alain Badiou46.sinaldemenos. Envolve uma crítica ativa enquanto ouvinte. não podemos determinar o ouvinte. 1. n°12. abre uma brecha temporal no sistema e. de uma certa forma. escolher não fazê-lo se esta não passar de uma mera repetição de algo previamente existente.

n°12. Estado proletário. já não representa nada em seu tempo. a crítica deve parar de julgar ou se ater a gostos. de se subtrair. ao mundo-música. porém. como dizia Marx. e às questões do seu entorno social ou geográfico. vol.sinaldemenos. (2015a) ADORNO (1973). pois como Adorno bem observou. cit. sobretudo deixar de lado o seu próprio gosto. O apelo por uma nova crítica musical vem igualmente acompanhado de nova reflexão teórica. Por fim. e não fazer determinadas críticas. 48 49 SAFATLE. Resta. no meio de todos os entulhos não consegue adquirir autonomia temporal. porém. op. este passa a ser indiferente à percepção e à assimilação desta. Ser capaz. a partir de dados estatísticos ou se ater a discussões sobre eventuais relações institucionais desta arte. . Para ele a música pode representar uma verdade singular que. Em outras palavras.”48 Frente à música. moral..49 Além disto.[-] www. moral proletária. e parar de realizar uma crítica unicamente biográfica. Embora. somos todos proletários. seja política. podemos fazer recurso a Marx. o problema de como a música pode ainda expressar uma verdade. A perspectiva não é clara e nem nos dá coragem sobre se algo está ou não por vir. op. pois como bem observou Safatle. 1. ambas ações estão interligadas: “toda teoria da arte deve ser igualmente uma crítica da arte”. pois envolve a mudança completa da realidade onde ela se manifesta. Como a música. cultura proletária. por condições exteriores à música. como se o instante em que ela passa a existir deixasse de ser relevante ou deixasse mesmo de existir no próprio momento da sua realização.org Ano 8. a música será efetivamente possível apenas em outro mundo onde o comum seja o padrão. Não obstante. seja verdade que a condição da música ser efetivamente universal e carregar em si a dimensão de igualdade que ela porta. pois. “como não há arte proletária. por não possuir mais tempo causal. A crítica deve ser capaz de bem discernir as questões relativas à música. Parece-nos que neste sistema é praticamente impossível. cit. Adorno separa claramente o que se aproxima da concretude material e negativa na arte. 125. quando necessário. esta crítica deve ter coragem de realizar com firmeza o gesto bartelebiano e dizer: “eu preferia não fazer”. p. 2016 217 ou pode ouvir. os proletários são aqueles que não têm religião. Estado. Porém. religião proletária. não é a música que deve fazer apelo à política.

ela pode ser libertadora.[-] www. e eles nunca antes circularam de forma tão rápida e fácil por todo o globo terrestre. Em um primeiro momento nos parece que no tempo da urgência. a música não escapa às leis de mercado. nunca tivemos tantos músicos. vol. Como Jappe observa. de forma geral. a música pode adquirir uma forma espectral capaz de nos dar uma forma turva e negativa que reflita. Pouca coisa é menos assegurada que o porquê e de como refletir os problemas da música. porém. mas que lá esteja. 2016 218 No mundo do capital. Esta. dar-se conta de que ela não diz nada e. por nos permitir conceber e anunciar um mundo existente em qualquer parte e que não sabíamos ser capazes de vislumbrar. Esta talvez seja a sua condição mais árdua de existência. do que ainda não é. Paradoxalmente nunca tivemos tantos artistas. mesmo que não da mesma forma desta lógica. por esta razão mesma. sem com isso garanti-lo.org Ano 8. nas atuais condições a sociedade inteira. uma imagem hesitante. n°12. não nos permite distinguir de forma clara o papel de cada um. no novo tempo do mundo. . Por outro lado. depois que a arte é arte. jamais o seu papel não foi tão pequeno e secundário. Que seja capaz de inventar o seu futuro. os artistas também são acomodados. praticamente inofensivos e aceitam passivamente as regras do jogo que lhe são dadas de antemão. Todos participam. é atravessada pela lógica fetichista. Por ser uma concretude abstrata incapaz de expressar nada com absoluta precisão a música talvez seja a matéria que encarne mais negatividade em si. como um espelho curvo. marginal ou mesmo indiferente para o conjunto da sociedade. e preencher o vazio e incompletude do seu passado. e tudo que ela produz. 1. Ouvir música é imaginar materialmente o que aquela combinação sonora nos diz.sinaldemenos. O estado atual da sociedade rende a arte ainda mais complexa.

2 Performance “Cegos”.sinaldemenos. 1 . Instituto de Geociências.org Ano 8. da Universidade Federal de Minas Gerais. 1. de Marcos ulhões.[-] www. n°12. 2016 219 ENTRE UMBRAIS E VIRTUALIDADES Mundos possíveis? Helena Castellain Barbosa de Castro 1 Zumbis na areia movediça2 Mestranda do Programa de Pós-graduação em Geografia. vol.

Dessa forma. seria a superação da sociedade burocrática de consumo dirigido. 1. ofuscada pelo próprio breu. enquanto estados de espírito. e sua possível superação. e dar-se-ão ao longo do século que se desenrola. em rede social. O segundo. Pela via do progresso. novos rumos urgem serem trilhados. grita a metrópole. gritam as periferias. precisariam ser transpostos se no horizonte mirarmos aquilo que Lefebvre denomina como plena “sociedade urbana”. não passa de um trem vindo em nossa direção3. a constatação do sumo breu dos umbrais. O primeiro umbral comentado. acompanhando o desencadeamento das ideias. Um trem desgovernado Um brado de alarme – grita a cidade. a luz no fim do túnel. Para tanto.[-] www.sinaldemenos. e as consequências das escolhas não serão brandas. discutida pelo próprio Lefebvre ([1968]/1991). A ilusão de que atrocidades são parte de um processo incremental – ocorrências remotas em determinados pontos do planeta – já não perdura no imaginário coletivo. A hipótese é de que umbrais. fundamentalmente. Caminhos retilíneos precisam ser dinamitados. Entre as tragédias do subdesenvolvimento – eclipsadas as toneladas de lama – e as tragédias do desenvolvimento – açoitadas as paisagens bucólicas do consumo –. No universo do umbral. . 2016 220 O objetivo deste ensaio é apresentar dois desafios – entendidos como supostamente centrais – para a emancipação social revolucionária. Os “zumbis na areia movediça” representam a conexão Paris-Mariana. é utilizada uma metáfora de inspiração lefebvriana: os umbrais. sem aspiração cronológica. a barbárie neoliberal atravessa a sociedade expondo caóticos padrões de comportamento. n°12. 3 CANETTIERI (2015). senão pelo otimismo incansável. Os eventos estão dados. que pelo pessimismo irremediável tomemos as rédeas da história. e seus habitantes. vol. seriam parte de processos de “fluxos de ondas de pensamento”. argumentados por Žižek (2011). O barulho é ensurdecedor.org Ano 8. o triunfo do capital. seria relativo ao desmascaramento dos “termos falsos”.

o primeiro umbral 8 a ser transposto se no horizonte avistarmos a sociedade urbana. e talvez para o concreto. [1970]/1999. enquanto uma hipótese e uma definição. Segundo Lefebvre (1999). caso se confirme. A noção de fluxos de ondas de pensamento foi apresentada por Harvey (2012). Esse movimento. seria(m) o resultado da urbanização completa. haverá um umbral a transpor antes de entrar no concreto. a preponderante e proeminente sociedade burocrática de consumo dirigido7. o qual.” Vencer a tendência à inércia. dessa forma. Nesse sentido. apesar de controversa parece. de acordo com passagem de Lefebvre (1991). Porém. nesse sentido. “Se ele ‘escolhe’ a integração à sociedade gerida pela burguesia e organizada segundo as relações de produção capitalista. A Vida Cotidiana no Mundo Moderno [1968]. a prática urbana. Como uma espécie de reação em cadeia. por sua vez. via manipulação subjetiva do sistema de valores. vencida a tendência à inércia4. se esboça e se precisa. mas também realistas o suficiente para não serem descartadas facilmente. representaria o processo pensado por Lefebvre ([1970]/1999) rumo à sociedade urbana. Sem dúvida. sinalizar um importante aspecto do processo global da industrialização/urbanização. como um fluxo de ondas de pensamento5. acaba por direcionar e definir o próprio sistema de consumo. conduzirá a uma prática. a segurança do emprego. portanto. utopias realistas seriam aquelas suficientemente utópicas para desafiar a realidade. ele abandona sua existência de classe. n°12. ou seja. 1. controlada pelo Estado. Enunciada. a sociedade urbana. Segundo Santos (2007). Desvela-se. A sociedade urbana. entretanto. seria um movimento de negação de um suicídio de classe.[-] www. a prática urbana. essa movimentação. 2016 221 Rumo ao descarrilamento: o primeiro umbral Um movimento do pensamento em direção a um movimento real. a sociedade urbana.org Ano 8. como o próprio conceito sugere. nesse momento. 16) Lefebvre aprofunda a discussão sobre a sociedade burocrática de consumo dirigido em seu livro. 4 5 6 7 8 Numerosos sociólogos. a sociedade urbana de Lefebvre seria. ao optar por tal segurança o proletariado abandonaria sua missão histórica. A inspiração de trabalhar com a ideia de “umbral” surgiu a partir de uma passagem do próprio Lefebvre 1999). diriam que a classe trabalhadora prefere a segurança. vol. um objeto possível. isto . concebida como uma utopia realista6 lefebvriana. corresponderia a uma sinopse de sociedades em gestação. do qual teremos que mostrar o nascimento e o desenvolvimento relacionando-os a um processo e a uma práxis uma ação prática)”. especialmente captados pela história da vida cotidiana. às aventuras revolucionárias. parece haver um paralelo entre essas utopias e a sociedade urbana de Lefebvre: “Enunciamos um objeto virtual. renunciando a si mesmo. assim. uma combinação de possibilidades potencialmente condutora a uma diversidade de mundos possíveis. essa(s) sociedade(s). reinariam os fundamentos do mal-estar civilizatório. concreto. apreendida ou reapreendida. segundo ele. simultaneamente. Nessa interpretação. Nessa sociedade. Uma realidade. Tal afirmação. segundo o mesmo.sinaldemenos. uma virtualidade iluminadora. p. “Um movimento do pensamento em direção a um certo concreto. LEFE VRE. revela-se múltipla tanto quanto a diversidade histórica permitir.

esse primeiro ciclo de fluxo de ondas de pensamento. na prática social apreendida teoricamente.17 10 De acordo com Sampaio (2015) o contexto da violência na esfera citadina acionaria uma espécie de “inversão analítica”: o objeto de reflexão teórica. 1. estendem suas consequências ao conjunto dos territórios. a aldeia. é. imersos num cenário de fatídico descompasso social.” LEFE VRE. reiterando. todavia. Essa primeira transposição.org Ano 8. a engrenagem da violência em suas diversas manifestações. já no final de sua vida: o direito à cidade implicaria nada menos que um conceito revolucionário de cidadania. industrialização. aparece no fim do túnel como única alternativa para os pavorosos problemas por ela mesma criados: inflação. se impõem os fins últimos. por sua vez. p. a efetivação de um contradiscurso ao fetiche da mercadoria seria. a qual.[-] www. 2016 222 Crescimento econômico. transforma. A saída econômica.sinaldemenos. acompanham. continentes. 9 Em momentos de crise é possível estabelecer um paralelo direto com esta citação de Lefebvre: o projeto desenvolvimentista hegemônico sobressai naturalizado. Resultado: o agrupamento tradicional próprio à vida camponesa. mais uma vez. então. Os diversos dramas cotidianos.18). tanto o esgotamento quanto a ressurreição da fictícia prosperidade moderna enquanto progresso econômico. explicita justamente a cidadania intrínseca ao primeiro umbral e que. da presidente Dilma Rousseff (2015).se. p. a saber. parece antecipar outra mudança enunciada por Lefebvre em 1989. destarte. compreendido pela violência urbana. o primeiro umbral a ser transposto rumo à sociedade urbana (enquanto emancipação revolucionária). unidades mais vastas o absorvem ou o recobrem. 1999. ele se integra à indústria e ao consumo dos produtos dessa indústria. e urgente. n°12. tornados ao mesmo tempo causas e razões supremas. 11 O discurso da redenção econômica é tão bem fundamentado que levanta cartazes em Mariana-MG. Como suposição. para tanto. regiões. Da crise. Nesse cenário. 1999. como. nos levaria ao objeto virtual – mas possível (objeto possível) – a sociedade urbana. por exemplo. nesse contexto. este ensaio. o primeiro desafio estaria delimitado. 9 LEFEBVRE. a favor da mineradora Samarco. a mesma que há poucos dias foi responsável por um desastre socioambiental de dimensões incalculáveis: o rompimento da barragem do Fundão no distrito de Bento Rodrigues. precisa ser superada rumo à escalada emancipatória. A citação a seguir. a diluição da retórica sedutora do capital. desemprego. as razões supremas. passa a ser a própria urbanização enquanto processo essencialmente violento. vol. violência urbana10. foi devaneado que existiria não apenas um mas dois umbrais a serem transpostos para a efetivação dessa prática urbana. desconstruir as falácias hegemônicas no que tange à teleologia do progresso? Será esse o desafio para a primeira subversão de ruptura histórica? Parece pertinente. Fará sentido a passagem de Lefebvre (1991): a classe trabalhadora prefere a segurança do emprego. por sua vez. nações. do capital11. à aventura revolucionária? Estaremos fadados ao suicídio de classe? . corroborando com as ideias de Lefebvre (1989). um projeto de todos.

no próprio descarrilamento do trem da história13. mas pode funcionar. a regulamentação das relações de consumo é parte intrínseca da agenda de desenvolvimento econômico e social que implementamos no Brasil. essas pessoas passam a ter de fato a plena cidadania.[-] www. v. da cidadania do consumidor. A atual crise político-econômica brasileira. Dessa forma. central. 1. Mas elas só têm seus direitos assegurados se elas tiverem acesso a todos os processos que implicam esta relação. nos encaminha ao próximo umbral. Grifos da autora. como vaticinou Walter Benjamin. acesso em: 21 de novembro. por isso. Se. 14 EDITORIAL Sinal de Menos.sinaldemenos. 1. nº11. Essa é a síntese do infame projeto hegemônico que. Nesse contexto. nesse momento.início do quê? -. dessa forma. E. o fim da pobreza é só o início . Ao construirmos e tornarmos milhões e milhões de pessoas consumidores. 12 O desenvolvimento predatório como programa de governo e a “inclusão” pelo consumo. há uma revolução de esquerda fracassada”14. 13 Inspirada por citação em espaço digital de Canettieri (2015). ao terem acesso a serviços e bens. portanto. entre os cenários mais extremos de alienação e barbárie. 2016 223 Nos últimos 13 anos. poderíamos. “por trás de todo fascismo. Isso significa que transformamos milhões de pessoas que estavam excluídas em consumidores. foi optada pelo neoliberalismo brasileiro.com/SiteDilmaRousseff/?fref=ts. a reformulação dessa cidadania – necessária para a manutenção do próprio capitalismo enquanto modo de produção – revela-se. por sua vez. a crise. notadamente. não alavanca apenas a própria reprodução do capital.org Ano 8. n°12. entretanto.facebook. nós tiramos 36 milhões de pessoas da pobreza e elevamos 40 milhões à classe média. aparecem imbricadas: a superação da sociedade burocrática de consumo dirigido com a formulação de novas narrativas. nos possibilitaria interessantes aberturas reflexivas. como ideologia do Estado. Como nós sempre dizemos. 12 . 2015. inclusive. vol. e fundamentalmente. o direito de defender o que querem enquanto consumidores. A renovação do conceito de cidadania(s). Manobra crítica: o segundo umbral No sumo breu dos umbrais. considerar outra formulação inspirada em sua frase: por trás de toda Disponível em: https://www. 2015. no limiar de um descontentamento coletivo/explosivo.

Uma ferramenta. o valor de troca sucumbindo ao valor de uso. No início de novembro. como ressaltou Magalhães (2015). há o apoio e a adesão de movimentos consolidados. é observar a articulação entre movimentos viabilizada pelo próprio espaço digital. há uma ofensiva fascista derrubada. acredita-se. Reconhecendo esta dualidade. por ora. e claramente uma empreitada conservadora. talvez. Exemplos recentes podem ilustrar este possível. levará adiante as positividades relativas aos ganhos sociais. Nas próprias escolas ocupadas. 2016 224 emancipação. a possibilidade também real de ascensão em rede de vetores (ultra) conservadores. na qual coexistem potencialidades e riscos. ainda. também como resultados atingíveis. o consequente efeito esperado pelas suas mobilizações. foram organizadas e fomentadas via redes sociais. O próprio movimento dos alunos ao ocupar escolas em São Paulo sinaliza a potência do “cruzamento entre internet e metrópole” 16. porém não incorporando. Tudo indica que a popularização do acesso à rede veio a consagrar a internet como mídia alternativa de alcance de massa. caráter de classe. entretanto. porém notório. vol. este ensaio. Tomado o lado otimista dos movimentos inflamados e organizados na rede. não ignorando. como o MST (Movimento dos trabalhadores Rurais sem Terra) o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto). vêm sendo conclamadas. de uma consciência cidadã revolucionária. Há ainda um velado. e pulsante. tamanha adesão alcançada.sinaldemenos. possui implicações políticas – de empoderamento – na direção da emancipação social lefebvriana. por conseguinte. inesperada. 15 .org Ano 8. atual presidente da Câmara dos Deputados. Considerado um retrocesso ao direito das mulheres à saúde. possam-se vislumbrar os contornos de formas alternativas de produção do espaço urbano. 1. 157. manifestações contrárias ao projeto de lei 5069/2013 15. enredo revolucionário no contexto brasileiro. jovens e pobres que não podem pagar pelo acesso ao aborto (ilegal) seguro. como a “primavera das mulheres”. por exemplo. 16 MAGALHÃES. Mas a explosão feminista não desponta como ato isolado. Concomitantemente. A PL 5069/2013 é considerada um retrocesso ao direito das mulheres à saúde por dificultar o acesso ao aborto legal (pílula do dia seguinte). p. As manifestações desencadeadas contra ele. n°12. marcadas por expressiva presença feminina. consideradas no sentido ampliado do direito à cidade lefebvriano. de autoria de Eduardo Cunha. inclusive. 2015. além de contribuir para o constrangimento de mulheres vítimas de violência sexual. logo.[-] www. esse projeto teve uma repercussão. Relevante. já que as mais prejudicadas seriam as mulheres negras.

Assim se pronunciou Lefebvre sobre a questão: “Na direção da entrada para a prática de um direito: o direito à cidade. esse termo foi amplamente difundido entre os movimentos sociais urbanos e. 17 18 . caberia desmoralizar as terminologias consolidadas. acrescentaria. seria preciso. poderá ser preservada?19 Dentro das propostas de Santos (2007). Contudo. condição de um humanismo e de uma democracia renovados. não menos difundida. espiralados. de “reforma”. vol. muito além da “forma jurídica” embutida no Direito18. como teorizou Luxemburgo (1999). Para essa desconstrução. ele propõe: fazermos o uso contra-hegemônico de instrumentos/termos hegemônicos. uma manobra crítica: reeditar esse termo sobre as bases de sua conceituação original. isto é. acabou por imprimir nas experiências espaciais relações jurídicas. e é importante frisar. portanto. n°12. na prática. “termos falsos”. Nesse sentido. 2016 225 Assim. No âmbito obscuro desse umbral. “Democracia”. Aos movimentos sociais. se no horizonte a emancipação desponta. talvez de forma contingente. nesse bojo.233.247. o próprio termo “reforma”. esse processo de constituição de uma nova visão de mundo. “direitos humanos”.sinaldemenos. estarão cientes que a origem dos vícios. e aos fluxos de onda de pensamento de maneira geral. a radicalidade emancipatória. qual será o alcance do espaço digital? Será MELO. terão em mente a dualidade desta objeção? Quer dizer. 1999. 1. à vida urbana. e. quando percebido em sua dualidade. corroborando com as ideias de Žižek (2003). 19 MELO. e a própria negação das contradições da cidade industrial. 2015. no sentido estrito de seu uso contingencial.[-] www. p. sintetizariam o que o conceito de “direito à cidade” procurou encerrar17. Por essa perspectiva. seriam. “liberdade”. reiteraria o próprio fetichismo espacial – o consumo do espaço.org Ano 8. em síntese. especialmente os “termos falsos”. p. p. De fato. Dessa maneira.7). Movimentos sociais de pautas diversas clamam pela efetivação da Reforma Urbana. o próprio “direito à cidade”. que são ao mesmo tempo espaciais e sociais. 2015. a forma como se recorre ao direito à cidade. nossas opções terminológicas encerram-se por limitar e/ou mistificar nossa apreensão do real. é o que se espera com a revelação desse segundo umbral. Tomemos como exemplo a ideia.” (LEFEBVRE. esses “termos falsos” seriam a própria correspondência das monoculturas hegemônicas do saber. como apontou Melo (2015). poderia ser um meio para a revolução social enquanto fim. Tal possibilidade.

org Ano 8. Dessa maneira. em suma. 234) 20 . a própria deslegitimação de seu discurso por meio da cientificização das políticas públicas. uma transformação ao nível de infraestrutura mental. entretanto. como acrescenta Acselrad (2004). 2015. como aqui se imaginou. 21 Como argumentou Melo 2015). 2016 226 esta conexão em rede capaz de potencializar articulações alternativas. trata-se. ou seja.257/2001). portanto. em suas palavras. de matrizes revolucionárias.” MEL . quanto dos “termos falsos”. dos “termos falsos”. O eixo gravitacional das lutas sociais se modifica. em ajustes estruturais. isso não significa haver um receituário para a fabricação desse produto: a prática urbana rumo à sociedade urbana21. Como chamou atenção o próprio Lefebvre. Um contexto de reforma urbana envolve a concepção do Estatuto da Cidade (Lei n. que orientam nossas ações no mundo e um possível movimento real. esses grupos seriam convocados à mediação. Nesse momento. especificamente. passam por um processo de autoconscientização dos indivíduos possivelmente incrementado pelas aberturas do espaço digital. e mesmo da formação de conceitos. os movimentos sociais experimentariam. ao mesmo tempo. parece ser uma alternativa à alienação. Afinal.[-] www. contribuiriam para a estruturação de um paradoxo no campo normativo institucional/operacional: a despolitização pela abertura do diálogo. tanto da sociedade burocrática de consumo dirigido. parte da elaboração de uma pesquisa. 1. Um último suspiro: o trem chacoalha Quando propostas de mudança de mentalidade são acionadas. A superação. os preceitos constitucionais de 1988. nossos esquemas cognitivos. p. Vale salientar. de uma teorização necessária. ao invés da confrontação e da desarticulação da sociedade urbano-industrial-capitalista. à reforma. é um processo que nasce da experiência real contra determinações reais do ser e da consciência. de ideário progressista e cunho social. refere-se. de caráter reformista (em seu sentido vulgar). um processo de autoconscientização. que os novos anseios democráticos do referido estatuto convivem com os ideais neoliberais exemplificados pelas noções de cidade-mercadoria e marketing urbano. coletividades humanas autogeridas? No que concerne aos “termos falsos”. na verdade. que terminam por transformar movimentos legítimos.º 10. n°12. os próprios preceitos do Estatuto da Cidade20. O segundo umbral. passaram a compor o ideal da reforma urbana brasileira. cooptados pelo discurso do planejamento participativo. nesse viés. “ processo de autoemancipação é. ao mundo reificado. vol. transpondo-se umbrais. ao desmascaramento dessas armadilhas terminológicas. acredita-se. Além do esvaziamento político. são nossas representações mentais.sinaldemenos.

São Paulo: Contexto. Belo Horizonte: C/Arte. Estado de sítio). Belo Horizonte: Editora UFMG. 2015. Belo Horizonte: C/Arte. Condição pós-moderna. Bem-vindo ao deserto do real: cinco ensaios sobre o 11 de setembro e datas relacionadas. p. 2016 227 concreto. In. LEFEBVRE. N.org/2015/04/26/sinal-de-menos-11-vol-1/. H. H. 2007. finalmente. p. (org. MAGALHÃES. 2015.15-32. de S. HARVEY. D. Disponível em: http://www2. A revolução urbana [1970]. A. 2015. R. T. 2015. p. A. BRASIL.sinaldemenos. 2012. (org. LEFEBVRE. Se a curva for acentuada. arquivo pessoal. n°12. H. In: LEFEBVRE. H. CANETTIERI. Referências ACSELRAD. 2015. acesso em: 19 de novembro. 1991. “Produção do espaço na cidade do neoliberalismo e novas aberturas no espaço digital”. S. B. 2015. 1999. H. In: ACSELRAD. A superação dos umbrais. 77-108. P. Ž ŽEK. LUXEMBURGO.) Teorias urbanas. G. Rio de Janeiro: Relume..) Teorias urbanas. 2003. p.55-84. In: COSTA. M. v. A. MELO. São Paulo: Ática. nº11.leg.14-35. “A violência do processo de urbanização”. p. 1. p.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1061163&filename =PL+5069/2013 Acesso em: 24 de novembro. H. de. 1999. In: COSTA. São Paulo: Edições Loyola. et al (org.231-258. São Paulo: Boitempo.) Conflitos ambientais no Brasil.[-] www. G.. “As práticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais”. G. F. In: LEFEBVRE. o trem descarrilará. 2004. vol. F. C. R. Reforma ou Revolução? São Paulo: Edição Expressão Popular Ltda. Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social. p. EDITORIAL. Projeto de Lei 5069/2013. CARLOS. M. São Paulo: Boitempo (col. 2015. que dispõe sobre “Anúncio de meio abortivo ou induzimento ao aborto”. seria parte de uma radical manobra crítica. disponível em: http://sinaldemenos.org Ano 8. “A sociedade burocrática de consumo dirigido”.145-168. Câmara dos Deputados.camara. “Da cidade à sociedade urbana”. Referência de espaço digital. A vida cotidiana no mundo moderno [1968]. SANTOS. et alli (org. “Da crítica ao direito ao direito à cidade: uma primeira aproximação”.1. M. . Sinal de Menos.17-28.) A Crise Urbana. SAMPAIO.

1. desse modo. em última análise. mas também 1 Sartre. Alain Badiou chegou muitas vezes a argumentar que o sistema político atual depende não apenas da produção.228 [-] www. 1968.sinaldemenos. Tendo como pano de fundo essa análise.org Ano 8. 301. Hegel e Marx a fim de oferecer uma abordagem crítica do estado subjetivo predominante hoje: a indiferença. now is not the time for liberal thought” Bloc Party Este artigo se baseia no pensamento de Descartes. dar um passo da análise crítica à formulação afirmativa de um princípio de orientação: age como se não fosses livre. irresolução e indecisão por toda parte. Kant. 2016 COMO AGIR COMO SE NÃO SE FOSSE LIVRE Uma defesa contemporânea do fatalismo Frank Ruda “O homem é o ser cuja aparição faz com que um mundo exista “ Jean-Paul Sartre1 “Kill your middle class indecisions. . indiferença. vol. Crítica e moral provisória Muitos pensadores contemporâneos insistiram em que há. no mundo de hoje. p. o artigo defende o fatalismo como um meio possível para enfrentar estados de indiferença e. Suas coordenadas conceituais são elaboradas sistematicamente e é mostrado em que sentido ela implica. uma concepção problemática e mal compreendida de liberdade. n°12.

formei para mim mesmo uma moral provis ria”. Elas reclamam antes uma validade contemporânea. vol. [a alma] disponha de tempo para escolher antes de se decidir. no que verdadeiramente apresenta certa utilidade que é boa”. a saber.. em última análise. As reflexões seguintes não devem.3 No Descartes introduz este conceito em seus Discurso sobre o método. em si mesmo. portanto. o fatalismo. a análise é crítica. ao afirmar: “a fim de não permanecer irresoluto [irrésolu] . ser lidas apenas como um exercício conceitual apoiado na história da filosofia. mais obscuro livro do primeiro filósofo moderno do sujeito.[-] www. a obra As paixões da alma. n°12. As observações seguintes. uma certa dose de indiferença ou de irresolução pode ser de ajuda. 2010a.org Ano 8. propõem uma diretriz para a luta. 1. de René Descartes.de uma preparação subjetiva para que uma mudança real aconteça. Nesse sentido. mas primeiro uma análise crítica de um fenômeno que governa o não-mundo contemporâneo e. Contudo. 2016 229 da administração e da organização dessas indiferenças. p. a nostalgia e a melancolia onipresentes hoje no regime de circulação dos corpos e da troca das linguagens. a saber. Nessa passagem. A análise da indiferença fornecida no que segue deve ser lida como um esforço de oferecer uma avaliação de um modo de subjetividade e de subjetivação que se pode dizer dominante hoje.. 2010b. Distanciar-se da situação e refletir pode ajudar – a irresolução “é causa de que. não é já a emergência de um novo tipo de sujeito. o tempo devido para tratar da indiferença e para fornecer meios de enfrentá-la. 2 . Mas aqui é necessário se falar com precisão: o fatalismo não é. 382. não propõem uma ética. as investigações subsequentes não se limitam a uma abordagem puramente negativa e crítica do estado atual de indiferença. Parece ser. Tomo antes o fatalismo como um dos meios estratégicos mais cruciais e importantes . portanto.. Indiferença e fatalismo Há uma passagem notável no último e.no sentido de uma moral provisória cartesiana2 . já um novo tipo de atitude subjetiva. 79. Descartes nota que em uma situação na qual não se sabe como agir ou da qual não se sabe o que pensar porque as coisas não são claras o bastante e ainda não se obteve conhecimento o suficiente para avaliá-la. talvez.sinaldemenos. uma diretriz que busca superar a frustração. 3 Descartes. então. ao menos hoje. elas também propõem uma maneira de enfrentá-lo.. p. Descartes.

como se deve acrescentar. recorrerei então a determinadas fontes a fim de esboçar os contornos de uma crítica do estado de indiferença. seguindo Descartes. constitutivamente. uma fatalidade ou uma necessidade imutável” ibid. odavia.sinaldemenos.4 Assim. na medida em que são “uma paixão e não um hábito. 2016 230 entanto. 1.5 O meio próprio para se enfrentar esse tipo de receio – receio que.” Descartes. Descartes afirma primeiro que “elas nos desviam de dedicar nossa afeição a outras coisas cu a aquisição depende de n s” ibid. o inicialmente instrutivo e útil modo da indiferença ou da irresolução pode muito facilmente se tornar um problema para o sujeito quando ele não é mais capaz de deixá-lo. superar e combater a irresolução . p. termo francês usado aqui por Descartes é “crainte”. p. sobre um obstáculo específico que surgem de coisas que não dependem de n s ibid.). 2010b. deve-se recordar. que eu tomo. e é isso o que torna notável essa consideração.. 383).. Ibid. Descartes dá seguimento a esse pensamento sustentando que permanecer nesse estado de indiferença. Descartes aborda também em seu As paixões da alma uma forma de enfrentar. e quando leva a empregar no deliberar o tempo requerido para o agir. Isso implicará no esboço de uma pré-condição crucial para o conceito de liberdade. n°12. Em vista desse diagnóstico.que também requer. 6 Para ser mais preciso..6 O que investigarei adiante é algo dúplice: em primeiro lugar. E a irresolução no juízo e na ação. Na segunda parte. quando ele fala. a indecisão (Descartes usa os dois termos quase como sinônimos) é um resultado de um tornar-se indiferente do próprio agente que deveria ter agido. talvez mesmo como sinônimo do problema da irresolução. num estado que se abstém da ação. é muito má”. em uma espécie de tour de force através de algumas posições da história da filosofia. p. Descartes propõe “coragem e ousadia” como meios diretos de enfrentar a irresolução. Assumo que essa caracterização também pode ser instrutiva para uma compreensão crítica de nossa situação contemporânea. como sendo ligado estreitamente.e para superar aquela indiferença que era inicialmente útil leva o nome de fatalismo. sempre possui esse efeito de destituição subjetiva . tentarei dar conta do que pode ser chamado de o problema da indiferença.org Ano 8. 4 5 . é “um tipo de receio”. coragem. Elaborarei em que sentido assumo que a situação que Descartes retrata a respeito da indiferença também pode ser superada por esse tipo de fatalismo .[-] www. “quando dura mais do que o necessário.e irresolução. formularei uma defesa da solução cartesiana.. Nessa primeira parte. vol. bid. um pouco antes no livro. 368) e podem ser combatidas assumindo-se “a Providência divina. uma defesa do fatalismo como meio de enfrentar o estado estagnante de indiferença. 367).

não se encontra em nenhuma relação com a lei moral enquanto lei da liberdade. como é claro para Kant.. Kant nota: “Mas. vol. entre outros. Para dizer em termos simples. 1992. Schmid.9 O que Kant afirma aqui é algo de grande alcance e enorme importância. 9 Kant. 7 8 .. Entre colchetes: acréscimo do autor. “Uma ação moralmente indiferente (adiaphoron morale) seria uma ação resultante apenas de leis da natureza. em geral. a questão que surge é: o que significa não se importar? 11 Indiferença traduz aqui o termo grego (e dos estóicos) adiaphora. Para um tratamento longo e sistemático do problema da indiferença de um dos primeiros popularizadores do pensamento de Kant. elas não podem mais ser consideradas ações (nas palavras de Kant: atos [Taten]) em sentido próprio. no mesmo livro.org Ano 8. porque em semelhante ambiguidade todas as máximas correm o perigo de perder a sua precisão e firmeza”. de maneira indiferente simplesmente não se importando com qual seja o resultado da ação. 1989. interessa muito à doutrina dos costumes não admitir. são exatamente o inverso do conceito e da lei da liberdade. Agir da maneira que Kant chama de indiferente é o que define ações que podem ser descritas recorrendo-se a meras leis naturais.sinaldemenos. etc. isto é. dedutíveis de meras leis da natureza. 1997. claro. indiferença.[-] www. n°12. 1992. digamos. p. ele diagnostica que tão logo os seres humanos agem de maneira indiferente. 10 Aqui. Geier. 1. Pois. isto é. nenhum termo médio moral. 2016 231 Indiferença e comportamento animal: Kant Em sua obra de 1873. por exemplo . ação que. de tal modo que suas ações se relacionam a algo.)”. que designava coisas intermediárias. E as leis da natureza. A religião nos limites da simples razão. 28. 10 eles não agem como se fossem livres. Kant descreve aquilo a que visa com essa espécie de imprecisão e instabilidade.11 Isso significa que na medida em que alguém age com indiferença. o Kant. para Kant. adiaphora. imprecisas e instáveis se há algo como uma intermediariedade.7 As máximas se tornam indeterminadas. cf. Para uma abordagem da indiferença dos estoicos. que ensinou Kant para. 29. porquanto não é fato algum (. que não são nem boas nem más. nem nas ações (adiaphora [moralmente indiferente]) nem nos caracteres humanos. Poder-se-ia dizer de outro modo: na medida em que as ações são ou se tornam indiferentes a respeito daquilo a que elas visam. cf. Novalis e Schiller. nem belas nem feias.isso torna possível conceber essas ações como deriváveis. à sua finalidade ou objetivo.8 E. enquanto for possível. tão logo os seres humanos simplesmente não se importam. portanto. p.

Não se pode dizer que máquinas e animais agem livremente. que os determinam. Essa é a tese que minha elaboração subsequente buscará desdobrar. ações que tem o mesmo status de meros mecanismos causais: ações que já não são ações. não é o seu livre-arbítrio que está no foco principal da investigação científica.ser descrito em termos de leis da natureza. Eles podem agir como se fossem semelhantes a máquinas. pois suas ações são determinadas de modo heterônomo . assim. É por isso que elas podem ser reduzidas a e derivadas de uma espécie de causalidade natural e legal. e não determinam o modo de sua própria ação. animais humanos. por isso. vol. como se poderia sustentar com Kant.ao menos de acordo com Kant . não por sua própria liberdade. possam agir de uma 12 Para uma visão global breve e instrutiva de uma abordagem filosófica do comportamento animal. e são. Animais não podem por si mesmos determinar (ou refletir sobre) sua natureza (corporal). Simondon. Algo os está determinando. e esse “algo” pode . alimentação etc. isto é. Ações indiferentes funcionam.12 São antes suas carências corporais. de sua constituição corporal.e isso é o que um certo tipo de disciplina biológica faz -. a saber. então.a espontaneidade da liberdade. determinadas pela causalidade natural . como efeitos em uma cadeia de causalidade. que seres humanos também podem se comportar como animais. 2012. e quando se investiga como e por que animais agem . que há um risco de ações indiferentes terem lugar no interior do reino da liberdade. . mas é antes sua natureza que os determinam.sinaldemenos. podem agir como se não agissem.. Agem de um modo apoiado numa determinação heterônima. 2016 232 próprio conceito de ação implica numa referência conceitual à liberdade.e isso também quer dizer. e o reino da liberdade. cf.org Ano 8. Kant afirma.para permanecer no interior da terminologia kantiana . 1.[-] www. não por seu livre arbítrio. é precisamente o domínio dos seres humanos. carências de reprodução. Isso implica em uma afirmação de grande alcance. O que se pode deduzir do diagnóstico de Kant é o seguinte: na medida em que seres humanos agem numa maneira que pode ser definida como indiferente. Animais agem por instinto. pois o comportamento animal pode ser descrito em termos comparáveis. Como é possível que seres humanos. o que é parte de sua natureza. Ações indiferentes são ações às quais falta .suas ações são determinadas por algo outro. isso é evidente para Kant. e às suas ações. agem estruturalmente de maneira similar a animais. a de que seres humanos podem agir como se não fossem livres. n°12.

em verdade. vol. Os meios do engano são variados. 1967. dar mancadas. pois na filosofia medieval (em Guilherme de Ockam. de escolher x ou não-x “indiferentemente”.como a faculdade. qualquer um pode falhar e errar. Seres humanos podem.e. contingente) e de duas vias (i. Ali. Para recordar brevemente. no decorrer de seu argumento. indeterminada) 13 . Indiferença e erro: Descartes Uma passagem muito famosa da quarta das Meditações sobre a filosofia primeira de Descartes se mostra aqui instrutiva. Após essa afirmação. não o é. portanto.o que equivale a dizer: qualquer ser pensante. o que equivale novamente a dizer. o que equivale a dizer. n°12. . A questão é. por exemplo) ela ainda é compreendida como um nome para faculdade da vontade não causal (i. portanto: o que significa agir de modo indiferente? Mais precisamente: indiferente a respeito de quê? Aqui pode ser de ajuda retornar a Descartes. 501. Qualquer um pode cometer erros. qualquer ser humano . e podem se enganar. emitir juízos falaciosos. 1. Os seres humanos se deparam com enganos em falas retóricas (mas também na linguagem 13 Isso é bastante explícito em Ockam.. por exemplo. Tomam. O que deveria ser afirmado é que Kant utiliza o próprio termo indiferença em um sentido bastante moderno. Descartes especifica os diferentes meios pelos quais os seres humanos podem sustentar que é verdadeiro algo que. então.pode se enganar. Essa é a primeira característica trazida por Descartes. p. E os seres humanos podem principalmente e em primeiro lugar se enganar a respeito daquilo que consideram ser certo e verdadeiro. O uso do termo por Kant indica que tornar-se indiferente nas próprias ações e juízos é o exato oposto da definição medieval do termo. Ockam. 2016 233 maneira que não é propriamente humana (o que quer que isso queira dizer ou como quer que se possa considerá-lo) e em que sentido pode-se tomar a indiferença como uma apresentação categórica capaz de explicar esse tipo de ação. mas também em ações. ao menos em suas Meditações.org Ano 8. sem nenhuma necessidade causal.[-] www.e. principalmente em juízos..sinaldemenos. A indiferença agora conduz ou mesmo implica precisamente na determinação causal ou heterônoma de uma ação. Descartes deu início a sua investigação afirmando que qualquer um . por verdadeiro e por certo algo que não é nem uma coisa nem a outra. ele sustenta que indiferença e contingência são duas precondições da ação livre e voluntária. antes dessa passagem. Cf.

Essa enumeração de todos os meios de se enganar conduziu Descartes famosamente nas primeiras três meditações a duvidar de tudo o que poderia ser considerado uma fonte de erro no juízo. Como Descartes formula: “A vontade de Deus. Permitam-me citar outra passagem na qual isso aparece: 14 15 Descartes. Descartes. Mas na quarta meditação ele continua a perguntar por que é que podemos errar. não me parece todavia maior [do que a minha] se eu a considero formal e precisamente nela mesma”. no entanto. professores ou amigos de longa data. Enganos. em explicações científicas. sendo a vontade muito mais ampla e extensa que o entendimento. ela se perde muito facilmente e escolhe o mal pelo bem e o falso pelo verdadeiro.[-] www. em última análise. assim. em nossas opiniões ou na de nossos pais. p. . indiferente. O saldo desse raciocínio é claro: posso me enganar porque sou livre. sistematicamente. portanto. que minha vontade é tão livre que eu posso querer x e não-x ao mesmo tempo. das quais. Isso significa. p. somente de que.sinaldemenos. meus erros? A saber. pois. Isso parece ser a própria definição medieval de indiferença – uma vontade que tem a capacidade de ambos: afirmação e negação de uma opinião. mas estendo-a também às coisas que não entendo.org Ano 8.15 Minha vontade é infinita em sua liberdade.14 Minha vontade é tão livre. mesmo em qualquer pensamento concreto (na medida em que podemos estar sonhando enquanto assumimos estar em vigília). tão irrestrita e ilimitada que eu posso querer algo que eu não compreendo ou posso até mesmo compreender erroneamente. é mais radical do que isso. Como isso pode ser? É que minha liberdade torna possível para mim querer mesmo duas coisas radicalmente incompatíveis ou incomensuráveis ao mesmo tempo.. E o resultado foi a famosa prova do cogito. em justificações teológicas das crenças. Ibid. O que faz com que eu me engane e peque”. sendo a vontade por si indiferente. em nossos sentidos e. que podemos afinal cometer mancadas. 173. 2010c. eu não a contenho nos mesmos limites. Ele afirma: “Donde nascem.. 174. 2016 234 enquanto tal). e essa infinitude mesma é a fonte de meus enganos. em argumentos filosóficos. n°12. 1. parecem ser a prova mesma de minha liberdade. qualquer fonte de engano deveria ser suspensa. A vontade se torna. em nossos hábitos. uma vez que é exatamente mediante a liberdade de minha vontade que sou mais parecido com Deus. A infinitude da vontade é o que mais me assemelha verdadeiramente a Ele. vol.

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“Pois, para que eu seja livre, não é necessário que eu seja indiferente na escolha de um
ou de outro dos dois contrários; mas antes, quanto mais eu pender para um, seja porque
eu conheça evidentemente que o bom e o verdadeiro aí se encontrem, seja porque Deus
disponha assim o interior do meu pensamento, tanto mais livremente o escolherei e o
abraçarei. E certamente a graça divina e o conhecimento natural, longe de diminuírem
minha liberdade, antes a aumentam e fortalecem. De maneira que essa indiferença que
sinto, quando não sou absolutamente impelido para um lado mais do que para o outro
pelo peso de alguma razão, é o mais baixo grau da liberdade...”16
A indiferença é o sentimento de que não importa que escolha eu tome. Portanto,
para Descartes, ela é o grau menor e mais pobre da liberdade. Isso porque eu não tenho
qualquer inclinação para nenhuma das duas opções de minha escolha, nem em razão de
algum conhecimento, nem em razão de um compromisso contingente. O conhecimento
aumenta minha liberdade na medida em que me impele para uma das duas direções
possíveis. Crenças e compromissos também o fazem, então, para Descartes. Todavia,
indiferença é aquilo que resulta – como um afeto – quanto eu não me inclino para
nenhuma das duas direções disponíveis, quando ambas tem a mesma validade para
mim. Isso significa que tenho o sentimento de indiferença quando a liberdade se torna a
mera existência de uma escolha. Não uma escolha que deve ser tomada, não uma
escolha que está em vias de ou que deve se tornar efetiva ou realizada, na escolha efetiva
de um dos dois lados. Liberdade de escolha, isto é, a possibilidade de escolher sem
realmente escolher (na medida em que não me importa qual lado escolher), é o que
produz indiferença. Uma vontade que quer X e não-X ao mesmo tempo é uma vontade
indiferente. É por isso que a irresolução é, para Descartes, estruturalmente análoga à
indiferença. E não se deve esquecer: é a indiferença, portanto, a fonte de meu errar e de
meu cometer enganos. Por quê? Porque quanto me torno indiferente eu já cometi um
engano. Assumi que a liberdade já estava efetivada na possibilidade de ter uma escolha e
não na efetividade do escolher. A indiferença é o resultado de uma percepção errônea a
respeito do próprio conceito, da própria concepção de liberdade. Realizo juízos
falaciosos porque já realizei um juízo falacioso ao compreender assim a liberdade. Um
tal conceito enganoso de liberdade assenta as bases para todos os enganos futuros que

16

Ibid, p. 173-4.

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irei cometer. É algo como a condição falaciosa de possibilidade, o transcendental
falacioso de todos meus futuros erros.
Kant demonstrou que tão logo me torno indiferente em minhas ações elas podem
ser descritas em termos de relações causais naturais e deterministas. O que se pode
concluir de Descartes é que o que significa ser indiferente, não em relação a algum
objeto concreto do mundo, mas, mais fundamentalmente, nas próprias ações em geral:
ser indiferente a respeito da própria constituição, essência ou natureza. Seres humanos
são os mais semelhantes a Deus em razão da liberdade de sua vontade, mas tão logo eles
se percebem erroneamente o que é a liberdade, eles percebem erroneamente o que é sua
natureza. Eles a percebem erroneamente ao interpretá-la como realizada na mera
possibilidade de uma escolha e, assim, se tornam indiferentes. Não se tornam, todavia,
indiferentes apenas, para ser mais preciso, em relação aos dois lados da escolha, mas
essencialmente em relação a si mesmos. Indiferença é o grau menor e mais pobre da
liberdade, e isso porque ela é a liberdade em sua forma não realizada. Liberdade como
possibilidade de escolha é liberdade como mera possibilidade de liberdade, e, portanto,
não como liberdade. Liberdade de escolha implica para Descartes uma concepção de
liberdade que enfatiza somente a possibilidade da liberdade, não sua efetividade ou
realidade. Pode-se aqui se recordar que, em sua discussão do estoicismo grego,
Alexandre Kojève uma vez se referiu ao estoicismo como a primeira ideologia.17 Por quê?
Por implicar um gesto peculiar de autoconfiança soberana que funciona como
justificação da própria inação prática do escravo, fundamentada pela seguinte pretensão
ideológica: sou livre na medida em que sei que o sou. Uma pretensão que, como Hegel
também sustentou, serve como a justificação perfeita da escravidão. Uma tal postura
não é atacada apenas por Kojève, e por Hegel antes dele, mas também por Descartes. E a
partir daquilo que já foi dito deveria ser claro o motivo: porque resulta em indiferença e
irresolução, e não em ação no sentido próprio. E é precisamente esse estado de
indiferença ou irresolução que é definido pela primeira mentalidade ideológica, talvez
espontaneamente ideológica, do escravo, que pensa que é suficiente se agarrar à mera
possibilidade de ter uma escolha sem efetivamente escolher e agir por seus próprios
fundamentos.

17

Kojève, 2002, p. 174. Cf. também o comentário sobre essa afirmação em Comay, 2011, p. 92 et seq.

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Resumindo, o resultado da presente investigação até então é: a indiferença na
ação, como Kant sustentou, conduz a determinações heterônomas de minha vontade
que me tornam uma máquina guiada pela causação natural, ou, numa palavra: fazem de
mim um animal. Descartes complementou essa afirmação oferecendo uma interpretação
de porque eu ajo como se fosse um animal. É porque tenho uma concepção errônea de
liberdade; e, no entanto, é precisamente a liberdade que marca minha essência. Ajo,
então, como se eu fosse um animal quando ajo de uma maneira que se apóia numa má
compreensão de mim mesmo, de minha própria liberdade. Ajo de maneira semelhante
a um animal se ajo como se fosse livre e estou me apoiando numa concepção enganada
de liberdade. Isso é o que a categoria da indiferença indica. Por que, no entanto, como
Kant defendeu, uma concepção errônea de liberdade me conduz a determinações
heterônomas que, novamente, me conduzem a agir como se eu fosse livre apesar de não
o ser, quando estou agindo como um animal?
Indiferença e indeterminação: Hegel
É aqui, como sempre, que Hegel pode ajudar. Em sua Fenomenologia do
Espírito,18 assim como em sua Filosofia do Direito,19 ele oferece uma análise complexa
de uma vontade que se subtrai de toda determinação concreta – não se sentindo
inclinada a absolutamente nenhuma direção. Hegel sustenta que na medida em que
uma vontade livre se recusa a se determinar e assume que a mera possibilidade de
determinações já é a realização de sua liberdade, essa vontade é conduzida a
contradições enormemente problemáticas. Ao insistir que a liberdade de escolha – sem
a tomada de nenhuma opção concreta – é o paradigma da liberdade, a vontade livre
hipostasia a indeterminação em face de qualquer determinação concreta. Ela busca,
assim, ter o bolo e também comê-lo. Isso porque ela vê a liberdade apenas como
liberdade de determinações, e, nisso, a identifica com a indeterminação – como a
possibilidade de determinação sem a efetiva determinação. Ela considera que essa
identificação delineia um conceito universal de liberdade. Todavia, contra sua própria

18
19

Cf. Hegel, 2011, pp. 410-457.
Cf. Hegel, 2010, pp. 57-75. Para uma abordagem no conceito de vontade em Hegel, ver Ruda 2011, pp.
136-148.

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vontade, a vontade livre que hipostasia a indeterminação não alcança uma pretensão
universal, mas uma pretensão meramente particular. Contra sua própria vontade –
contra a vontade livre da vontade livre – essa identificação da indeterminação com a
liberdade simplesmente se mostra como não sendo senão uma determinação particular
da liberdade. Assim, em que pese buscar escapar de toda determinação, a vontade livre
se determina, contra sua própria vontade, pela sua pretensão de indeterminação. Ser
indiferente em relação à determinação, identificando indeterminação e liberdade, como
se pode concluir de Hegel, não conduz à universalidade, mas bem ao fundo de uma mera
particularidade, uma vez que a indeterminação, precisamente, não é um conceito
universal, mas se restringe à negação abstrata de toda determinação concreta e, assim,
não é senão um de dois lados da mesma moeda. De um lado está a determinação pura e
simples, do outro a indeterminação (abstrata e, assim, particularizada). Entretanto, se a
definição de um conceito não é derivada senão de uma negação abstrata de seu oposto
abstrato, ele não é um conceito universal, mas apenas um conceito particular. À maneira
da astúcia da razão – contra a vontade da vontade livre que quer a indeterminação como
liberdade –, essa consequência não pode ser evitada.
A insistência na liberdade como indeterminação, portanto, se vira de ponta
cabeça contra sua vontade, literalmente, e determina a vontade livre. A vontade livre, ao
buscar escapar da determinação, se torna, assim, determinada em seu próprio voo pelo
ato de escapar. Essa determinação (a da insistência na indeterminação) não é, portanto,
um resultado de um ato de autodeterminação livre: a vontade livre quis evitar a
determinação e, apesar disso, acabou indo parar nela. É por isso que essa determinação
involuntária da vontade se revela uma determinação heterônoma da vontade. Pois não é
posta por si mesma. Ela se apoia em uma má compreensão da liberdade, pois a
liberdade, precisamente, não é identificável com a indeterminação. Não é possível
simplesmente se livrar da determinação. O que acontece, então, quando me abstenho de
todas as determinações concretas, me torno indiferente em relação a elas e
simplesmente insisto na possibilidade da determinação, de escolha, é que minha má
compreensão do que é a liberdade se volta contra mim e nisso eu cometo uma violência
contra mim mesmo.20 Isso porque eu reduzo meu próprio apelo à universalidade e à
É por esse motivo que Hegel sustenta que, após o primeiro caso em que a liberdade foi identificada à
indeterminação, a saber, a Revolução Francesa, depois que ela levou embora todas as determinações no

20

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239

liberdade a apenas uma pretensão determinada particularmente, a um conceito
unilateral de liberdade como indeterminação. Esse é o resultado de uma atitude de
indiferença contra toda determinação concreta. Hegel afirma, em sua Filosofia do
Direito, que uma tal disposição de espírito pode, em última análise, ser definida como
segue:
“Uma vontade que não decide nada não é uma vontade efetiva; aquele que não
possui nenhuma característica nunca chega uma decisão. A razão para a indecisão pode
também residir em uma sensibilidade terna do ânimo, que sabe que, ao determinar-se,
admite-se no interior da finitude... Um tal ânimo é um ânimo morto, o quão belo ele
possa ser... a possibilidade ainda não é efetividade”.21 Pode-se sustentar que outra das
afirmações de Hegel também é bastante adequada para caracterizar a vontade livre que
abstrai de todas as determinações concretas e assume que ela é a mais livre em e através
deste ato mesmo: a saber, a afirmação de que quando se é o mais morto, as palavras
favoritas são 'vida' e 'avivar'. Quando se é menos livre, liberdade se torna a palavra
favorita.22 A vontade livre que se torna não-livre mediante seu querer a indeterminação
é uma entidade morta, pois mediante seu ato de querer ela se torna determinada
heteronomamente e essa determinação possui um efeito mortificador para o núcleo
universal mesmo do animal humano.
Sem saber disso, e inclusive enquanto acreditava no inverso absoluto, eu ajo
como se fosse livre apesar de não ser. 23 Ao acreditar que estou agindo livremente, mas
ao mesmo tempo sendo incapaz de agir livremente sob condições que ponho para mim
mundo, o mundo teve então ele mesmo que se voltar em um certo ponto contra seus próprios
protagonistas que encarnavam a determinação da indeterminação. A identificação de liberdade e
indeterminação, que também vejo estar em ação na identificação de liberdade e liberdade de escolha,
acaba levando à violência autoinduzida. Seria interessante, apesar de eu não poder fazê-lo aqui,
relacionar isso de forma sistemática ao argumento sobre a tirania da escolha como desenvolvida em
Salecl, 2011.
21 Hegel, 1989, p. 64-65 [N. do T.: Citação a partir da edição alemã da Suhrkamp, com tradução do
tradutor deste artigo, uma vez que a edição brasileira não possui os adendos orais de sala de aula de
Hegel (os ditos mündliche Zusätze)]. Seria importante demonstrar por que Hegel assume que no
próximo parágrafo ele pode estender essa análise e desenvolver uma crítica da arbitrariedade a partir
dela. Deixo essa demonstração para outra ocasião.
22 Não se poderia também assumir que esse diagnóstico mesmo é muito adequado para o mundo em que
vivemos? Cercada de entusiastas, defensores, proponentes, advogados e apologetas da liberdade,
quando a vida política é a mais morta, sua palavra favorita segue sendo “liberdade”.
23 Este é claramente um dos slogans ideológicos mais salientes hoje, pelo fato de que ele se dissimula
como um enunciado completamente neutro e objeto sobre as condições subjetivas da ação: Age como se
fosses livre! O imperativo prepara ainda o fundamento lógico para todas as injunções para gozar,
consumir, ser flexível, criativo etc.

e. isto é. no sentido de que sou determinado contra minha própria vontade. É por isso que Hegel pode afirmar numa maravilhosa passagem de suas Preleções sobre O Belo na Arte que: “o homem é um animal. me coloco assim na posição de agir como se eu fosse um animal. vol. porque ele sabe que é um animal. adquire consciência das suas funções.25 Assim. e todavia não o sou. a falta não lhe é uma falta. Isso decorre diretamente de minha má compreensão de minha própria essência. i. ou seja. termino agindo precisamente como os animais fazem. se reduzindo. p. não para si próprio”. Penso que sou irresoluto.. da liberdade. assim. Como Hegel afirma: “Se aquilo que tem uma falta não está ao mesmo acima de sua falta. não permanece parado ou estático como um algo em-si]. minha própria falta de liberdade. mas também conduz ao efeito de que ações (no sentido próprio do termo) se tornam indistinguíveis de não-ações ou pseudoações. 24 25 Hegel. mas mesmo em suas funções animais ele se não comporta como um ser passivo [bleibt er nicht als in einem Ansich stehen. como possibilidade. Esse resultado pode também ser articulado do seguinte modo: a indiferença em relação a determinações não apenas conduz a uma má compreensão da liberdade. portanto. como assumo. Pois. 59. O ato mesmo que me faz indiferente está também me forçando a me determinar sem e contra a minha vontade. não tem a consciência de sua própria falta.24 O animal que possui uma falta. Isso porque ajo como se eu fosse livre. Um animal possui faltas para nós. uma vez que a verdadeira ação implica na liberdade. 103. ao qual falta algo desde nosso ponto de vista. estou agindo sem tomar partido.. contra minha vontade explícita.. 2016 240 mesmo. mas estou tomando partido contra tomar partido. Incorro. ele deixa de ser um animal”. as conhece e as eleva. 1989. na situação de querer.. Por que é assim? Porque..org Ano 8. .[-] www. o animal é aquele que pode ser definido de modo mais básico pela afirmação de que ele não sabe seus limites como seus limites. n°12. e. como o faz o animal. Ajo como se estivesse agindo. Trad. 1. não experimento meus limites (postos por mim mesmo) como limites.sinaldemenos. mas que eu a queira como possível. É a isso que o ser indiferente – indiferente a determinações – acaba. de liberdade de escolha. modificada pelo tradutor deste artigo a partir do original alemão. ao insistir em um conceito indeterminado de liberdade. à ciência consciente de si. em última instância. ao contrário do animal. p. e. e todavia não sou. 1996. para Hegel. A má compreensão da minha própria natureza produz como efeito que eu não queira minha própria liberdade como realizada. Hegel. no entanto.

Todavia. contra o humano ao lhe impor uma determinação heterônoma. portanto. Esse resultado se volta. O jovem Marx formulou repetidamente a ideia de que o trabalhador que espera tomar parte no processo de acumulação do capital.[-] www. é reduzido ao puro funcionamento de sua constituição orgânica. isto é. Isso acontece quando 2) há uma má compreensão de sua própria natureza. por exemplo. ou que de fato participa dele. n°12. portanto: seres humanos podem agir de uma maneira puramente análoga a um animal. Kant e Hegel. significa também que há uma compreensão errônea do que é uma ação – esse é. quando: 1) são determinados heteronomamente. consequentemente. portanto. 27 ovem Marx fala do trabalhador como um exemplo. 3) Aquilo que tem origem nessa compreensão. alinhando Descartes. 1. lembrar da famosa análise elaborada por Slavo Žižek sobre como nas sociedades contemporâneas o ato de consumo vem acompanhado de um excedente ideológico que me faz acreditar que também estou agindo politicamente. 28 Idem. corporal. da liberdade. Marx. sem sentir nenhuma culpa ou ser acometido por alguma má consciência.. Cf. Produzindo indiferença: Marx Contra um pano de fundo sistemático. O que ele sustentava. Marx era suficientemente lúcido para não simplesmente culpar o trabalhador por esse efeito. 26 .27 Marx fala do trabalhador como sendo parte de um rebanho. O diagnóstico que se pode desenvolver a respeito da indiferença (e de suas implicações).org Ano 8. vol. i. como se poderia dizer. do “animal de trabalho. pode-se compreender uma afirmação que se encontra nos escritos de juventude de Marx. pois assumo que meu ato de consumo também implica num momento de engajamento político-social. 31. 2010.. mesmo em sua juventude.] uma besta reduzida às mais estritas necessidades corporais”. Ele viu com clareza esse fato como um efeito provocado pelo próprio funcionamento da dinâmica capitalista e de sua economia política. basicamente. 26. reduzido à mera função de seu estômago28 etc. faço aquilo que sempre fiz – consumir – e. De fato. se volta contra o ser humano pela hipóstase e pela produção de um comportamento de modo análogo ao de um animal. era: o capitalismo reduz o trabalhador ao seu comportamento análogo ao Aqui pode-se. não-livre. todavia. é claro. p.e. 2016 241 apenas tenho a ilusão de que estou agindo livremente. o que quer dizer. uma das primeiras inferências falaciosas que emergem do transcendental falacioso que estabeleci. [.26 A indiferença. para a economia política. é. quando compro um café na Starbucks e pago mais por ele para dar apoio a crianças que sofrem em algum lugar na África. p.. um dos erros.sinaldemenos.

81-129. ele produz uma indiferença – uma compreensão errônea perpetuada da liberdade – que. consumir etc. mesmo que obviamente o possa. 53. quanto menos externares a tua vida. assim. Marx.. p.). administrada e organizada. mas que lhe são mais convenientes se não forem realizadas. 2016 242 de um animal (e a questão é se 'redução' é o termo correto aqui).29 pois se apoia num conceito de liberdade falso e problemático e. Essa dinâmica mesma também gera aquilo que Marx. Mas. não é apenas o trabalhador que é reduzido ao status designado pela categoria da indiferença. procura impor uma má compreensão da liberdade para todos.31 O capital torna possível a alguém se tornar capaz de fazer coisas (comprar.[-] www. vol. vender. não apenas porque ele faz desaparecer (como condensação de tempo e força de trabalho) os processos de produção que estão por trás de todo e cada produto. obviamente. 674. mais tarde.org Ano 8. Mas quando se faz a pergunta “qual é a melhor coisa a se fazer com o dinheiro”.sinaldemenos. Assim. no prelo. 30 Simmel. uma vez que é muito mais sábio investi-lo para adquirir mais dinheiro. 31 Sobre isso. pp. também Lohmann.32 Isso quer dizer que mesmo quando se é um capitalista e se possui um bocado de dinheiro. mas meramente abstratas. cf. Isso reflete. 142. n°12. no Capital. 2013. 32 Marx. mas não o possui. também se está num estado de indiferença. gastar o dinheiro). É por isso que o capitalismo produz indiferença.30 mais que isso. aquilo que já o jovem Marx notou quando afirmou: “Quanto menos tu fores. ver Ruda. p.”. 2005. Marx mostrou que o dinheiro é um medium abstrato e indiferente não apenas porque ele torna possível trocar qualquer coisa por qualquer coisa e. 1. 1992. Isso não significa apenas. antes. A melhor coisa a se fazer com o dinheiro é economizá-lo e acumular mais ou investi-lo e 'fazê-lo trabalhar para você'. que o capital “não apenas revela a indiferença da pura significação econômica mas é antes algo como a indiferença ela mesma”. chama a “triste figura” do “capitalista 'abstinente'“. e de fato é. p.. mas. No Capital. Marx é muito explícito sobre o fato de que. Isso equivale a dizer: produz apenas ações que você poderia realizar. pode ser. renuncia-se à ação direta (isto é. 29 . como o coloca Georg Simmel a respeito do dinheiro. para ele. pois poder-se-ia gastáPara uma análise extensiva deste diagnóstico em Marx e do todo da questão sobre como produção e redução se vinculam através de procedimentos de abstração. tanto mais tens. ou não deveria gastá-lo. o próprio procedimento da troca e a própria lógica do capital produz apenas opções abstratas de ações. Mas o que isso significa em última instância é que uma pessoa possui dinheiro. porque possuir dinheiro não gera opções de ação concretas. a resposta é clara. acumular. 2010. portanto.

2016 243 lo por inteiro. já adaptada e produzida. Marx 2010. animais descritíveis em termos meramente mecânicos. nesse sentido. como autômatos. 141. “a essência da produção capitalista. que ainda o é. for commodification) – na medida em que corpos. É dizer. máquinas. deve-se manter em mente que o capitalismo obviamente não é natureza. e isso é Pode-se. a animalidade à qual ele reduz o ser humano não é uma primeira natureza. for (ex-)change. já é segunda natureza e. também podem ser comprados e vendidos. E é também por isso que essa animalidade mesma é aberta à modificação. o enriquecimento como seu próprio empobrecimento também implica numa má compreensão da própria liberdade. E. à troca. à mudança. novamente. O que essa fórmula articula é um modo muito preciso de apresentar o aspecto sociopolítico daquilo a que me referi com a categoria da “indiferença”. todavia.34 O verdadeiro problema é que eles ainda percebem suas não-ações abstratas como um modo de efetivar sua liberdade. 1968. 1. n°12. não é natural e. perguntar se essa é ainda uma descrição adequada da dinâmica de mercado contemporânea. 255 33 .[-] www. isto é. p. a animalidade à qual os seres humanos são reduzidos é uma segunda animalidade já processada. não se gasta o dinheiro que se tem.org Ano 8. e isso conduz a uma desqualificação da autodeterminação voluntária. à mercantilização (for modification. no entanto.33 Mas Marx diagnosticou no capitalismo uma redução constante dos seres humanos a uma determinação heterônoma que os faz funcionar como coisas. desde que acrescentando que há ainda uma lógica peculiar no gastar o dinheiro que não se tem a fim de preservar o status quo no qual.sinaldemenos. vol. é claro. foi enquadrada por Marx como a lógica na qual o ser humano experimenta um constante “enriquecimento como o seu próprio empobrecimento”. A consequência disso é que as pessoas não sabem que são indiferentes. 35 Marx. qualquer forma de natureza já é mediada. No interior da cultura. O capitalismo extrapola e hipostasia um aspecto animal dos animais humanos. por isso. isto é. ou. 34 Ele reduz “a sua atividade [do trabalhador] ao movimento mecânico mais abstrato”. o que acarreta uma determinação heterônoma e reduz o homem a apenas essa determinação. Essa dinâmica geral. coisas e também animais já podem funcionar muito facilmente como objetos. Assumo. p. ou como meros corpos. mas a própria lógica do capital faz com que seja muito mais sábio permanecer na possibilidade de gastá-lo do que efetivamente gastá-lo.35 Pode-se também dizer: sua própria carência de liberdade como liberdade. do trabalho assalariado”. se se quiser. Em outras palavras: é indiferença produzida. mas um aspecto que ele mesmo produz.

37 O que é um mundo que já não é um mundo? É um ambiente. Elas percebem suas própria carência de liberdade como sua liberdade – devido a uma concepção errônea de liberdade na qual se apoiam. essa ausência de mundo. é apenas um mundo de mercadorias e de trocas financeiras. e o nome desse não-mundo. vol. um ambiente de e para predadores e outras espécies animais “individualmente fracas e avidamente perseguidas”. Em sua versão mais recente. ao menos até um grau muito fundamental. Talvez seja ainda mais exato dizer que elas o sabem.. ele se torna também uma entidade desistoricizada – uma entidade sem história. ao não ser um mundo. 258-350. essa contradição desaparece. pp. 38 Marx. mas não acreditam naquilo que sabem. Um mundo é um produto – ao menos de projeções e de esforços coletivos – enquanto um ambiente é como é. na posse de um conceito mal interpretado.. Elas não sabem. De acordo com um uma afirmação diagnóstica bem conhecida de Alain Badiou. lê-se esse diagn stico da seguinte forma: “Ho e não há um mundo real constituído por homens e mulheres que vivem nesse planeta. elas apenas mostram que Heidegger.38 Isso se deve ao fato de que o próprio conceito de mundo implica que ele pode ser criado e modificado. 1.sinaldemenos. mas agem como se estivessem. mercado. é. 2011. permanecerão como eram. a não ser que algo os modifique desde fora – como o cometa que se acredita ter extinto os dinossauros. p. Nos termos de Hegel. o mundo da globalização. Mundos são produtos de ações. Ambientes são como são e. Ambientes são naturais e se o mundo. nenhuma transformação sua pode ser vislumbrada em seu interior. É por isso que. pode-se reformular isso dizendo que há uma contradição que diz respeito à relação entre conceito e realidade. adiou 2014. 36 37 . lutas e eventos. outra vez. enquanto animais vivem em um ambiente (no qual não é possível algo como um projetar). pois o mundo que não existe. que não estão numa relação adequada com sua própria essência e natureza. seguem daí ainda outras falácias. o de que seres humanos são aqueles seres que tem (e se relacionam com. projeções. se torna um ambiente.org Ano 8. para ele. n°12. interações. a saber.36 O que acontece quando há indiferença é que as pessoas perdem seu mundo (e também todo tipo de projetar). projetam no interior de) um mundo. ou não acreditam que sabem. 2016 244 precisamente uma das razões que as torna indiferentes. Pode-se aqui suplementar esse diagnóstico com a recordação da afirmação de Heidegger sobre o caráter distintivo dos humanos e dos animais.[-] www. É exatamente o que Marx previu há cento e cinquenta anos: o mundo do mercado mundial”. 2013. mas que. Lutas no interior de um ambiente não mudam nada. o mundo de hoje não é mais um mundo. 718.

o que equivale a dizer. 1. além de soar genuinamente surpreendente. é preciso recapitular certos elementos das Paixões da alma. existem percepções puras (efeitos corporais puros) e também existem coisas que são ao mesmo tempo relacionadas ao pensamento ou a percepções. não pode ser o que é. O que há.e.. isto é. sem nenhuma manifestação objetiva.org Ano 8. 39 Contra um dualismo simples entre corpo e alma – ainda que essa leitura ainda seja dominante hoje – . a ser feito? Como retornar à possibilidade impossível de uma luta. é. A vontade não é vontade se não tiver efeitos que aparecem no mundo. Descartes propõe uma solução para o estado de indiferença que. que define minha essência. é um ambiente produzido – não há luta nem transformação imaginável na medida em que mesmo a liberdade é naturalizada e transformada em uma capacidade dada do corpo (por exemplo. que há algum tipo de competição natural(izada). então. 2016 245 vige o princípio da sobrevivência dos mais adaptados. Isto é. como dito no início. No interior do ambiente natural do mercado – que. e mesmo que transforma aquilo que pensamos sermos capazes de fazer. pode-se novamente buscar um apoio mais próximo na última obra publicada por Descartes. como deve ser claro. Descartes insiste que o livrearbítrio. a capacidade de desejar ou de expressar a si mesmo livremente). vol. podem existir argumentos lógicos puros (pensamentos puros). uma ideologia que naturaliza a própria liberdade? Corpo e alma: Descartes I Em face do pano de fundo delineado. uma solução absolutamente digna de ser ressuscitada e defendida: o fatalismo. mesmo que uma luta contra a própria concepção errônea de liberdade? Como lutar contra a própria ideologia espontânea da vida cotidiana.[-] www. Mas por que o fatalismo pode ajudar contra o estado de indiferença? Antes que se possa responder a essa pergunta. 2004. uma vontade sem nenhuma manifestação corporal. que talvez permaneça sendo a mais estranha delas. O título já indica que há algo corporal na alma. . isto é. n°12. lutas podem vir a ser algo que induz a mudança do mundo. amplamente considerada como um livro radicalmente datado pela maior parte da literatura atual: suas Paixões da alma. Ali. há paixões que ela experimenta. i. No interior de um mundo. Há coisas para as 39 Um comentário instrutivo sobre esse tópico geral em Descartes pode ser encontrado em: Nancy.sinaldemenos. à alma e ao corpo. como sustentarei.

daquilo que o corpo pode fazer. Portanto. Pode-se. 2010b. limita os efeitos da vontade e é capaz de introduzir (pensamentos de) limitações na alma de tal modo a bloquear a infinitude da vontade.sinaldemenos. portanto. 43 Descartes. 41 Um modo mais preciso de dizer é: não há relação entre o corpo e a alma.43 Isso é o que pode acontecer quando a alma assume a perspectiva do corpo – um estado de indiferença pode surgir. o corpo também pode produzir efeitos naquilo que lhe move. na medida em que assume formatos bastante diferentes dependendo de onde é percebido. n°12. mas como uma instância que produz efeitos sobre o corpo. não uma simples relação. mas que tampouco são meramente intelectuais. pode haver percepções corporais que movem a alma – algo que permite a abordagem disso que chamo de indiferença. por outro lado. introduz o que Descartes chama de “combates” na alma42 – a alma luta contra os efeitos que o corpo produz sobre ela. 2016 246 quais o corpo não é a causa. 322. Essa relação. ele pode produzir efeitos sobre aquilo que produz efeitos sobre ele. como algo que não é uma capacidade corporal. no qual a alma deseja ao mesmo tempo tanto Para ser mais preciso: Descartes distingue entre atividades da alma que determinam ou a alma ela mesma ou o corpo. portanto. Todavia. E Descartes infere daí: isso “leva a alma a sentir-se impelida quase ao mesmo tempo a desejar e a não desejar uma mesma coisa. 2010b. suas paixões. p. mas antes movimentam o corpo. pode tornar possível o que não é possível para o corpo por si mesmo e. a expressão da alma. 42 Descartes. a fim de sustentar uma compreensão adequada de sua própria liberdade e independência. e daí é que se teve ocasião de se imaginar nela duas potências que se combatem”. pp. deduzir retroativamente sua existência a partir de seus efeitos. 307-308. Descartes. não pode ser considerada uma capacidade do corpo. neste livro. assim. Mas essa relação possui dois lados. 1. 40 . 2010b. Há.41 Não apenas porque possui dois polos. Deixo uma elaboração completa dessa distinção para outra hora e lugar. mas ainda porque os efeitos que um polo produz sobre o outro são radicalmente diferentes – uma relação que parece diferente a partir de cada um dos lados envolvidos. pp. uma relação peculiar entre algo que é por inteiro finitude (corpo) e algo que é por inteiro infinitude (vontade). O corpo. assim. Ele pode apresentar restrições corporais aos efeitos que a vontade pode produzir. vol. que não pode de fato ser chamada de relação em sentido próprio. 321-322. A vontade. O vínculo entre alma e corpo é. Cf.org Ano 8.40 A vontade é definida. e entre percepções que ou são causadas pela alma ou pelo corpo.[-] www. ao delinear um âmbito específico do corporalmente possível.

e a razão para isso está numa confluência da determinação que tem origem na alma e daquelas que emergem do corpo. As consequências desastrosas de qualquer hipóstase da finitude tem sido analisadas por Badiou em: Badiou. ainda que difícil. uma vez que ela apresenta um pontolimite do conhecimento.org Ano 8. que “representa a morte como um extremo mal. pois tive a experiência do fracasso. como citado no início. É isso que torna possível obter negativamente o conceito de liberdade. Para lidar com esse tipo de conflitos. fracasso) e uma compreensão própria desse conceito implica em seu Descartes. posso inferir que sou capaz de duvidar. No entanto. p. Para esse fim. p. 2010b.sinaldemenos. A liberdade impensável: Descartes II Descartes oferece uma abordagem clara. do outro lado. 2016 247 sua liberdade quanto sua não-liberdade –. da liberdade em seu Discurso do método. p. n°12. é preciso equipar a vontade. no combate. então. isso claramente tem a ver com conhecimento46 – conhecimento da situação em que se está e conhecimento do que é o bem e o mal. A razão disso está precisamente na noção cartesiana de verdade. 323.45 Ações que considero serem livres. Descartes sustenta que é necessária uma definição diferente de autodeterminação livre. demonstram a carência dessa espécie de firmeza. que s pode ser evitado pela fuga” Descartes. por suas ações. 2010b. 46 Descartes sintetiza isso sob o slogan: “a força da alma não basta sem o conhecimento da verdade”. Mas como é possível alcançar a certeza de que se é firme e determinado na própria vontade e na própria ação? De um lado. Ele começa com uma consideração simples: sou capaz de duvidar porque sei que posso errar. a vontade. É. essa perda aparece sob o disfarce da paixão do medo (recorde-se que a indiferença é. 2013-2014. autodeterminadas. Descartes. 2010b.44 Quanto mais firme o juízo (manifestando a liberdade da alma). “juízos firmes e determinados”. 323. pois possuo o conceito de falta (erro. com “suas próprias armas”. Ela não pode ser nem puramente intelectual e conceitual nem puramente corporal. A partir daí. vol. o caráter firme dos juízos da vontade não pode ser completamente derivado do conhecimento. 1. crucial elaborar brevemente esse conceito de liberdade. 323) sto é crucial: se o corpo começa a determinar a alma e seus meios de determinar a si própria.[-] www. uma espécie de medo). mas que são ações determinadas heteronomamente. a saber. 44 45 . Se a alma perde o combate com as solicitações corporais. Sua fortaleza só pode ser medida por seus efeitos. mais firme a realização da sua liberdade. o efeito é um medo fundamental da morte que se assenta no reino da finitude. Sou capaz de duvidar porque sei que não sou perfeito.

90. Pois aquilo que é perfeito não seria perfeito se não existisse. Tudo o que possui um corpo aparece em um mundo. é claro. que tudo quanto não é imaginável lhes parece não ser inteligível”.e. 1. 88-89. ou melhor: precisa ter existência. 139. Disso se pode inferir que Deus deve ser não-discursivo. vol. Isto é. A experiência de “algo” negativo implica. E. na medida em que Descartes sustenta que minha própria imperfeição resulta de minha constituição. pp. O argumento de Descartes é muito mais radical do que se concebe usualmente. não-mundano. p. não posso senão pensar – se penso – a falta da falta.47 Após a experiência do fracasso. 2010a. Tão logo cometo um erro. aquilo que é perfeito precisa ser ilimitado.e. Perfeição é aquilo que precisa ser. posso encontrar em mim negativamente implicada a ideia de perfeição – uma versão cartesiana da doutrina platônica da anamnese. sou uma composição de duas substâncias distintas. e mesmo também em conhecer o que é sua alma.. n°12. Obtém-se. Se Deus não pode ter um corpo. 48 Descartes. como falta da falta. negativamente. 2002. a qual está contida no próprio conceito de falta. 49 Idem. é o fato de nunca elevarem o espírito além das coisas sensíveis e de estarem de tal modo acostumados a nada considerar senão imaginando. 2016 248 oposto.. Deus precisa ser ainda mais subtraído de qualquer Jacques Alain-Miller se referiu uma vez à falta da falta como “um lugar – onde não há nada”. A falta se torna reflexiva e conduz ao seu contrário lógico. Portanto. Miller. pode-se aplicar o conceito de ausência sobre si mesmo.sinaldemenos. o corpo e a alma. A perfeição é a negação negativamente implicada da falta (que experimentei). a ideia de que deve haver algo que falta na falta e que esse algo é precisamente aquilo que perfeição quer dizer: a falta da falta. que é uma forma de pensar particular às coisas materiais. então é preciso pensá-lo diferentemente. Ele sustenta que “o que leva muitos a se persuadirem de que há dificuldade em conhecêLo [i.[-] www.49 Ele se opõe estritamente a uma tal limitação do pensamento. assim. em um discurso. de conhecer Deus]. infinito. sou forçado a pensar algo que precede logicamente minha constituição. i. 47 . o significado da compreensão dos próprios limites como os próprios limites. é “Deus” – precisa existir.48 Por isso ele pode deduzir que algo perfeito – cujo nome clássico. Uma vez que a falta é a experiência de uma ausência. sua própria negação. aquilo que é perfeito deve necessariamente suspender a fonte de minha imperfeição. e uma vez que a falta inclui a ideia de limitação. como em Hegel.org Ano 8.

50 . mas somo. na medida em que lhe sou semelhante nesse aspecto. mas como aquilo que é ao mesmo logicamente 'anterior' a ele (uma vez que o criou): Ele é o pré-discursivo pósdiscursivamente apreensível. humanos são tão livres quanto ele é. e é contingente que ele o queira. sou absolutamente análogo a Deus.50 Se a essência humana é análoga à de Deus. também acerca da essência dos seres humanos. Nesse aspecto. Jean-Paul Sartre demonstrou que a liberdade de Deus. em suma: Deus não tem a necessidade de criar.. Podemos pensar o impensável como aquilo que não podemos pensar. mas isso também implica uma afirmação acerca da essência de Deus e. ele quer criar. n°12. Sou tão infinitamente livre que minha vontade pode querer A e nãoA ao mesmo tempo. Podemos pensar naquilo que terá sempre sido logicamente 'anterior' a qualquer discurso e que é impensável na medida em que o pensamento é essencialmente discursivo. É um dualista porque pensa que há. uma ideia clara e distinta do impensável. Posto de modo distinto: podemos pensar que há algo que não podemos pensar. portanto. que é. Descartes mostrou que posso errar porque. vol. a essência do ser humano. Consequentemente. 1. 2016 materialização corporal do que o cogito. mas um dualista peculiar. O que isso significa? Nas Meditações. mas não existe. há o impensável. pois ele não existe. Descartes é um dualista. em Descartes. Descartes demonstra que podemos pensar o que é. e se Deus é o nome para o impensável. Descartes antecipa a tese de Meillassoux de que a contingência precede todo tipo de existência. Pois Deus não é Sartre. Se toda existência – mesmo o cogito – pertence a um arranjo discursivo. de um mundo. em um aspecto. 1968.org Ano 8.sinaldemenos. todavia. É por isso que posso errar. o discurso etc. Podemos pensar um ser – “Deus” – mas pensamo-lo como algo impensável. Ele deve ser aquilo que só pode ser apreendido no interior de um discurso.249 [-] www. é a de uma contingência absoluta da vontade criativa (é por isso que Deus é o nome do infinito). assim. o pensamento. então isso quer dizer que minha essência não é uma essência natural. do outro. Ele é aquilo que não podemos compreender discursivamente (imaginando-o). Pensa-se. de um lado. Mas o que é pensado se se pensa aquilo que não se pode pensar? A resposta de Descartes é: liberdade. completamente racional. a falta da falta. a saber. forçados a pensar. Temos. e. portanto. Mas podemos pensar que há algo que não podemos compreender. no que diz respeito à minha liberdade.

ela resulta da contingência (isto é. Minha liberdade é a-natural e sou. mas também um conceito errado de contingência. Que o pensamento é forçado a pensar aquilo que ele não pode pensar. É por isso que minha essência deve ser – ainda que eu apareça. uma corporificação da não-relação. mas em algo outro ou em outro lugar. a partir do momento em que se começou a conceber o cogito. entre corpo e alma – são substâncias distintas – mas há algo como um animal humano. Todavia. ao mesmo tempo. n°12. Uma vez que a liberdade não é uma capacidade que possuo naturalmente. ele é o criador da natureza. e sou forçado a ser livre.. vol. como uma entidade natural – não natural ou mesmo anatural. Só sou livre quando sou forçado contingentemente a ser. Isso também vale para a liberdade. de algo impensável). Isso faz da liberdade uma capacidade. isso significa a noção mesma de pensamento implica que seu conceito próprio tem origem em uma determinação que não tem origem no próprio pensamento.org Ano 8. Descartes desenvolve seu argumento maravilhosamente contraintuitivo a favor do fatalismo. Sou forçado a pensar. Liberdade não é uma capacidade. mas já algo como uma corporificação dessa não-relação mesma. Pois tão logo alguém concebe a liberdade meramente como uma capacidade que se possui naturalmente (incorporada no próprio corpo). . já está concebendo erroneamente a liberdade e caindo em um estado de indiferença. um ser natural. Sou não-livre tão logo concebo minha liberdade como algo que está em meu poder. assim. Mas representar a liberdade em termos de uma capacidade que tenho (e isso é o que funda a indiferença) – por paradoxal que possa soar – implica em entregar-se à arbitrariedade como uma forma fraca de contingência. mas um resultado. 1. a pretensão de Descartes é a seguinte: não há relação entre o humano e o animal. e essa é a pretensão de Descartes. Deus). implicado na ideia de liberdade como capacidade não é apenas um conceito errado de liberdade. quando existo. que é o animal humano.e. É necessário haver algo que torna a liberdade possível. é-se forçado a pensar aquilo que só se pode pensar como algo que não se pode pensar (i. não se deve nunca naturalizar uma essência. Contra isso.sinaldemenos. Por isso.250 [-] www. Agindo-como-se-não-se-fosse-livre: o fatalismo A partir desse fundamento. O que está. Não há relação entre a alma e o corpo. 2016 natural.

que. 1. tenho a impressão de que poderia determinar o mundo a qualquer momento que queira. e. para Descartes. Uma tal postura. 51 . uma “quimera que provém apenas do erro de nosso entendimento”.[-] www. o que ocorre. do determinismo total. Quando acredito que a realidade e a efetividade de minha liberdade está em sua possibilidade mesma. com isso. Não de uma contingência que me permitiria fazer uma escolha – contingência como a origem da liberdade – mas de uma contingência da escolha e de seu resultado.51 A indiferença enfatiza a arbitrariedade de duas vias possíveis que podem até mesmo se mostrar conceitualmente como contraditórias.52 Tão logo penso que possuo o poder de escolher qual será o curso do mundo ou da história e permaneço no interior dessa mera possibilidade.org Ano 8. p. tomo partido de uma forma fraca de contingência. Descartes. hipostasio essa possibilidade e termino sendo determinado pela arbitrariedade. suspende a identificação de liberdade e capacidade. o “pode ser”. eu não apenas tomo partido da indeterminação mas também da ideia de que as coisas poderiam se dar de qualquer maneira. em termos de arbitrariedade. n°12. em primeiro lugar. portanto. Tomo partido. portanto. 53 A ideia que Descartes avança é a seguinte: é preciso assumir que tudo já está pré-determinado. Com isso. isto é. Para evitar essa hipóstase de uma contingência fraca. Pode-se. apenas uma coisa pode ajudar: a defesa da necessidade absoluta. em Em termos políticos. vol. de fato. mas também no próprio procedimento no qual qualquer eleição parlamentar se baseia fundamentalmente. e que todas as coisas estão em meu poder. daquilo que Descartes chama de “fortuna”. 52 Fortuna é. mesmo que nunca se possa e nunca se vá saber de que modo. o determinismo psíquico absoluto. é que fico dependente dos contextos de fortuna arbitrários que já sempre me determinam de maneira heterônoma. E permite assumir o impacto determinado completo da contingência (de Deus). derivar daí que a indiferença também é o nome de um status no qual qualquer via está bem para mim. enfatizo algo que pode ser. a possibilidade dos dois lados de uma escolha em detrimento da escolha de um dos dois lados. 368. isso implica obviamente não apenas na abolição da política.sinaldemenos. mas que também pode não ser. Essa disposição da mente é a única que evita que eu caia na posição idealista de assumir que eu poderia determinar qualquer coisa. consequentemente. 2016 251 Isso porque logo que começo a enfatizar o talvez. No entanto. tão logo ajo assim. Concebo a contingência. que liberdade é uma capacidade. 53 Deve estar claro aqui que Descartes está estritamente alinhado a Hegel e Freud – na medida em que Hegel sempre defendeu a necessidade (e a totalidade) absoluta e Freud. 2010b.

tenho de assumir que sou determinado (sou forçado a ser livre ou a pensar. em última análise até mesmo a uma compreensão errônea da heteronomia. n°12. Isso é precisamente o que ele chama de fatalismo. portanto. i. de qualquer natureza que se am”. é preciso coragem (ou mesmo ousadia). Assim. ela é a abolição da liberdade: da liberdade como uma capacidade.54 Por quê? Pois. a saber. 2016 252 última instância. afirma-se essa possibilidade impossível de que as ações verdadeiramente humanas sejam possíveis. E livrar-se da liberdade como uma capacidade minha é uma manobra bastante perigosa. determinado pela contingência. Pois até mesmo o Outro – aqui. a postura fatalista parece implicar a abolição mesma da liberdade. está algo que o determina de um modo que não pode nos deixar indiferentes. com isso. idem. não devo me preocupar com o modo como se é determinado. Deus – é. de que modo. forçado por algo que não brota de meu pensamento ou minha liberdade). como ele sustenta. Agindo como se eu não fosse livre – ou seja: sendo um fatalista – afirmo uma determinação que não posso deduzir de minhas capacidades. É preciso assumir completamente que não se tem objetivamente nada em seu poder55 e que nunca será possível saber nada sobre os planos de Deus..e. Pelo fatalismo. em certo sentido. É isso que estabelece a condição mesma da liberdade efetiva. 55 Descartes afirma aqui algo semelhante a Badiou: Não temos nenhum poder contra a verdade.sinaldemenos. em primeiro lugar. então. É por isso que. vol. torno-me antes ainda mais responsável por minhas ações. mas. em seu coração. A ousadia é definida como “uma espécie de coragem que dispõe a alma à execução das coisas que são mais perigosas”. 1. Para Descartes. Mas é exatamente isso o que torna possível conceber minhas ações de um modo puramente subjetivo. p. Badiou. um A coragem “dispõe a alma a se entregar poderosamente à execução das coisas que ela quer fazer. Para assumir essa posição. E. se torna necessidade. de fato. Isso também é afirmar que o animal humano é. a de que apenas sou livre quando me ocorre de ser forçado a fazer uma escolha. ibidem. na origem de minhas ações verdadeiramente humanas. Pois. Descartes. criar indiferença e conduzir a determinações heterônomas. evita-se todo gesto objetificante. O que Descartes propõe é que se aja como se não se fosse livre. pois tudo é determinado. que poderia transformar a liberdade em uma capacidade. Cf. da vontade de Deus (Descartes não está seguindo a lógica de Eichmann). 383. e isso implica que no coração do humano. da contingência. 54 .org Ano 8. não apenas me torno instrumento de um Outro. apesar de não haver nenhuma garantia objetiva (nem em mim nem no mundo) para elas. 2005.[-] www. 2010b. o que quer dizer que tampouco Deus tem planos sobre seus planos (ele também é determinado pela contingência). isso é absolutamente incerto.

de ações reais e de ações do real. Obras escolhidas. Disponível em: <http://www. Disponível em: <http://www. e em certo sentido não há nada sobre o que tenhamos algum poder. Das Glück der Gleichgültigen: Von der stoischen Seelenruhe zur postmodernen Indifferenz. GEIER. Discurso do método. 2005. n°12. e para mim isso parece válido especialmente hoje: apenas uma fatalista pode ser livre. Romano e N. Manfred. Disponível em: <http://www. Mas isso evita que se caia na armadilha de agir como se se fosse livre. 295-401. René. True Communism is the Foreignness of Tomorrow. pp. BADIOU. J. O fatalismo. Era o que Descartes pensava. . a defesa da necessidade absoluta. [Tradução: Luiz Philipe de Caux] Referências BADIOU. 2010b. nada no que se fiar. 2013-2014. Obras escolhidas. Stanford: Stanford University Press. em suma: de liberdade. DESCARTES. Romano e N. In:________. São Paulo: Perspectiva. Guinsburg. 2011. Guinsburg. Dever-se-ia arriscar seguir o novo grito de batalha: aja como se não fosses livre.egs. sustento que é preciso arriscar ser um fatalista. pode ser considerado uma ferramenta para uma renovação de um humanismo verdadeiramente inumano. 2010c. Mourning Sickness: Hegel and the French Revolution. Org. Alain. Meditações.htm>. As paixões da alma. DESCARTES. DESCARTES. Alain. hoje ainda mais. J.fr/Badiou/13-14. 2014.edu/faculty/alain-badiou/videos/we-have-no-power-against-the-truth/> BADIOU. COMAY. Guinsburg. 2010a.org Ano 8.entretemps. 1997.253 [-] www. 59-121. vol. pp. Romano e N. Cunha. Alain. R. São Paulo: Perspectiva. We Have no Power Against Truth. 2016 ente inumano.com/blogs/1547-truecommunism-is-the-foreignness-of-tomorrowalain-badiou-talks-inathens>. São Paulo: Perspectiva. René. Obras escolhidas. Isso porque não há nada sobre o que ter esperanças. pp. Portanto. Seminaire “L’immanence des verités (2)”. R. 123-204. 1. Se se assume isso. Org. J.versobooks. Cunha. In:________. René. R.asso.sinaldemenos. Org. In:________. Rebecca. Hamburg: Rowohlt. pode-se evitar a espécie de indiferença que delineei acima. Cunha.

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Impeachment em Nome das Mães Que Perderam Seus Filhos na Violência. n°12. Impeachment Em Nome do Povo Cristão Que Detesta a Corrupção.[-] www. Impeachment pela Querida Polícia Militar do Estado de São Paulo. Impeachment por Todos os Brasileiros Que Tiveram Seus Sonhos Frustrados. Impeachment em Nome da Minha Família. Impeachment pela Paz de Jerusalém. Impeachment Porque Quando o Ímpio Domina o Povo Sofre. Impeachment pela Nação Evangélica. Impeachment Porque Dilma É Incompetente. Impeachment Porque Dilma Você É . Impeachment em Homenagem ao Aniversário da Minha Cidade. Impeachment por um Basta na Roubalheira. 2016 256 IMPEACHMENT Memória do 1º ato da farsa brasileira de 2016 Impeachment por Deus. Impeachment Porque É Necessário. Impeachment Para Que Deus Abençoe Este País. Impeachment por Um País Sob a Grande Proteção do Arquiteto do Universo. Impeachment pelos Fundamentos do Cristianismo. Impeachment para Botar a Mão para Cima. Impeachment Contra o Estatuto do Desarmamento. Impeachment Porque Não Tem Maioria no Congresso e Assim Não Dá Para Governar. Impeachment pela Família. Impeachment pela República de Curitiba. vol. Impeachment pela Família Quadrangular e Evangélica. 1. Impeachment pelas Pessoas de Bem.sinaldemenos. Impeachment pelo Neto Recém-Nascido. Impeachment Porque o Brasil Chegou no Juízo Final. Impeachment para Salvar o País da Ladroagem Que Se Chama-se PT. Impeachment pela Esposa. Impeachment Porque o Povo Não é Nem da Venezuela Nem da Coreia do Norte. Impeachment pela Paz. Impeachment Porque Como Já Dizia Olavo de Carvalho O PT é Perca Total. Impeachment pelas Famílias de Bem. Impeachment pelos Meus Amigos. Impeachment por Todos os Corretores de Seguro do Brasil. Impeachment pelos Militares de 1964. Impeachment Por Causa da Morena Mais Linda do Brasil. Impeachment Porque o Brasil Escolheu a Bandeira Vermelha Mas Errou. Impeachment Contra Que As Crianças Aprendam Sexo Na Escola Com Seis Anos de Idade. Impeachment pelo Fim da CUT. Minhas Três Filhas e Meu Neto. Impeachment de Feliz Aniversário para a Neta.org Ano 8. Impeachment para Resgatar a Moralidade na Política. Impeachment pelos Evangélicos. pela Harmonia e pela Concórdia. Impeachment Contra a Ladroeira. Impeachment Contra a Ditadura de Esquerda. Impeachment pelo Fim da Corrupção no Brasil. Impeachment Para Garantir o Emprego Para 10 Milhões de Desempregados. Impeachment pela Nação Evangélica e Cristã. Impeachment pelos Garotos da Lava-Jato. Impeachment pela Família Brasileira. Impeachment pela Minha Mãezinha. Impeachment em Nome da Minha Mãezinha.

n°12. Vergonha.sinaldemenos. Impeachment pelo Meu Pai Que Tanto Sofreu Na Mão do PT. Impeachment Para Dizer Tchau ao Partido das Trevas. vol. Meu Pai. Vergonha.org Ano 8. 2016 257 Uma Vergonha. Compilado por Daniel Cunha] . 1. Impeachment Porque o Povo Está Morrendo Nos Hospitais E Ninguém Faz Nada. Impeachment pelo Estado de São Paulo Que É Governado Há 20 Anos Por Políticos Honestos do Meu Partido. a partir das falas dos deputados federais na votação de admissibilidade do Impeachment de Dilma Rousseff.[-] www. Impeachment por Você. Impeachment pela Família Paulista. [Registrado por Camila Pavanelli de Lorenzi em sua página do Facebook.

org Ano 8. Alvarenga (Leuven) Rodrigo C.com/watch?v=pHAD ZkWzsGQ. Os artigos devem ser enviados para dcunha77@outlook.sinaldemenos.258 [-] www. 1. n°12. . vol. Edição: Cláudio R. que serão avaliados quanto ao conteúdo.youtube.com. Castro (São Paulo) Capa desta edição: Felipe Drago. Duarte (São Paulo) Daniel Cunha (Binghamton) Felipe Drago (Porto Alegre) Joelton Nascimento (Cuiabá) Raphael F. o estilo e a adequação à linha editorial. inspirada em desenho do “Proyecto Cabra”: https://www. 2016 SINAL de MENOS Contribuições: ISSN 1984-8730 A revista aceita contribuições e comentários críticos.