SOBRE A FANTASIA NOS QUATRO

DISCURSOS
Alessandra Fernandes Carreira*
RESUMO: Esse artigo apresenta uma reflexão acerca da fantasia
como ela é definida por Freud e Lacan. Para isso a relaciona à escrita
dos quatro discursos formulada por Lacan, que a elaborou a fim de
tentar apreender a faceta do sujeito que não pode ser apreendida pelo
significante, ou seja, o objeto a. Por serem discursos sem palavras,
os quatro discursos se revelam como um importante instrumento
clínico e teórico na abordagem da fantasia, que se configura como
cena onde o sujeito está articulado ao objeto.
PALAVRAS-CHAVE: Fantasia; Quatro Discursos; Freud; Lacan.

ON THE FANTASY IN THE FOUR SPEECHES
ABSTRACT: This article presents a discussion about fantasy as it
was defined by Freud and Lacan. For that it is related to the writing of the four speeches made by Lacan, that developed it trying
to understand the aspect of the subject that can not be seized by
the significant, in other words, the object a. Being speeches without
words, the four speeches appear as an important tool in clinical and
theoretical approach of fantasy, which is set as scene where the subject is linked to the object.
KEYWORDS: Fantasy; Four Speeches; Freud; Lacan.

* Docente titular do curso de Psicologia da Universidade de Ribeirão Preto - UNAERP; Pósdoutora pelo Instituto de Estudos da Linguagem – IEL da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP; Diretora e membro de Lalíngua - Espaço de Interlocução em Psicanálise.
E-mail: afcarreira@gmail.com

Tal atuação repete esse posicionamento do sujeito e precisa de um ato. p.Sobre a Fantasia nos Quatro Discursos 126 INTRODUÇÃO “A beleza do mundo tem duas margens. antes. Os discursos em apreço nada mais são do que a articulação significante. p. 2 DESENVOLVIMENTO A elaboração dos matemas dos quatro discursos por Lacan (1969-1970) pode ser considerada um avanço na formalização da psicanálise. a fantasia se manifesta como uma atuação do sujeito sob transferência. São discursos sem a palavra. não pode ser totalmente traduzida na cadeia de significantes durante uma análise. este artigo pretende trazer algumas reflexões sobre a fantasia a partir dos matemas dos quatro discursos desenvolvidos por Lacan em seu seminário “O avesso da psicanálise”. (Virgínia Woolf) A experiência analítica nos mostra que a fantasia fundamental. 14. jan. n. (LACAN. 125-135 ISSN 1516-2664 . 2009. que vem em seguida alojar-se neles. do analista. 158-159. cuja mera presença. uma do riso e outra da angústia. o status existente. domina e governa tudo o que eventualmente pode surgir de palavras. Diante disso.Ciências Humanas e Sociais Aplicadas v. Assim. uma vez que tais matemas se propõem a apreender./jun. o aparelho. 1969-1970. justamente isso que escapa ao significante. enquanto cena traumática que posiciona o sujeito diante do desejo do Outro. dos anos de 1969-1970. 1. para ser passível de alguma decifração. Ela se configura. Segundo ele. ainda que parcialmente. grifo nosso) Para abordar esses matemas é preciso partir da afirmação de LaRevista Cesumar . como um discurso sem fala. que cortam o coração em duas metades”.

efeito de rechaço do discurso.” (LACAN.. 1.”. o que se perde ao falar e (a)testa a impossibilidade de dizer tudo . 125-135 ISSN 1516-2664 . A. esse desejo (FREUD. mas foi mais intensamente trabalhado em seu seminário dos anos de 1966 e 1967 sobre a lógica da fantasia. 143). mas que se considera como o que poderia pôr fim à falta. p. [.. a fantasia visa consertar. Assim. Tal castração se configura como uma realidade insatisfatória que. 2009. é possível que se abra essa falha que se chama sujeito..] tal objeto não é nomeável. Lacan desenvolveu um matema que escreve logicamente esse trabalho da fantasia. dessa forma. Esse matema foi trazido por Lacan (1966) pela primeira vez em “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”. Dessa operação resulta um resto (a).Ciências Humanas e Sociais Aplicadas v. porque busca articular o sujeito ($) a esse objeto (a) que sempre escapa./jun. A falta.faceta real entranhada no simbólico que não pode ser domada pelo imaginário.] do S1 ao S2.CARREIRA. No rastro de Freud. é tomada como falha advinda de uma impotência do sujeito em Revista Cesumar . reinstalando um vazio que ele contorna incessantemente na busca de se haver com a castração do Outro.. É o que a figura 1 a seguir nos mostra: $ S1 S2 a Figura 1 A emergência de $ e a na cadeia de significantes Nesse a. jan. 1969-1970. o que se perde é também o que move o sujeito.] o ser falante de um discurso se encontra determinado como objeto. Mas esse trabalho da fantasia se dá de forma a realizar. ou seja. p. a fantasia é fundamental. p. Abaixo podemos visualizar esse matema: $◊a Para Lacan (1966-1967). “[. sem realizar. “[. 14. 127 can (1969-1970. 82-83) de que o sujeito ($) é aquilo que emerge entre os significantes. F. como já nos ensina Freud (19081989).. n. 1919-1989)..

os elementos da fórmula da fantasia ($ e a). Lacan (1969-1970) estrutura os matemas dos quatro discursos. jan. então y” (DETLEFSEN. Esses quatro elementos presentes na figura 1. • S2: saber. Lacan (1969-1970) define da seguinte maneira no seminário sobre os quatro discursos: • S1: significante mestre (S1). o primeiro algoritmo do matema se estabelece como condição lógica para o segundo. BACON. Tal conectivo estabelece uma relação em que “se x. Dessa forma. 14. 125-135 ISSN 1516-2664 . em uma leitura vertical. que podemos visualizar abaixo: Discurso do Mestre S S1 à 2 $ a Discurso da Histérica $ S à 1 a S2 Discurso Universitário a S2 à S1 $ Discurso Analista a $ à S2 S1 Figura 2 Os quatros discursos Esses quatro elementos circulam por quatro lugares fixos e sempre no sentido horário. Com esses quatro elementos. advindo da Lógica Proposicional e Predicativa. MCCARTY.Sobre a Fantasia nos Quatro Discursos 128 atender à demanda do Outro. n. no vão que se forma entre os significantes encontramos. No vão. mas em vão ./jun. • $: sujeito. • a: objeto mais-de-gozar. Esses quatro lugares fixos são: Revista Cesumar . uma das definições do significante “vão” é: o que só existe na fantasia. Curiosamente. p. Eles se combinam em equações articuladas pelo conectivo lógico da implicação (→). Podemos notar na representação acima (figura 1) que. 1986). 2009.Ciências Humanas e Sociais Aplicadas v. no Dicionário Aurélio (FERREIRA. 1.já que o intervalo permanece apesar da fantasia. 2004).

1998). 162). 1969-1970). É o desejo de reconhecimento o motor desse sacrifício. agente verdade à 129 outro produção Figura 3 Os quatros lugares nos discursos É interessante destacar que o seminário “O avesso da psicanálise”. em que Lacan (1969-1970) postula os quatro discursos. o sujeito con(some): desaparece como sujeito e se molda como objeto para atender à suposta demanda do Outro. em seu numerador (em cima). em ordem invertida. porque o discurso do mestre traz os elementos da fórmula da fantasia ($ e a) em seu denominador (embaixo)./jun. enquanto o discurso analítico os traz. A fantasia. Porém. 125-135 ISSN 1516-2664 . então. Alienado ao desejo do Outro. o avesso do discurso analítico (LACAN. Lacan trata esses acontecimentos como um sintoma da política da época. estabelecendo uma compulsão à repetição que Lacan (1969-1970) chama de feroz ignorância: uma escravização para fazer o Outro (o senhor) gozar. Trata-se de um cálculo neurótico. lei materna onipotente.Ciências Humanas e Sociais Aplicadas v..] o escravo. em que o sujeito fica com menos para que o Outro fique com mais (SAURET. 1969-1970. 2009. atua à revelia do eu. F.. como decorrentes de algo que está ao alcance da psicanálise: o discurso do mestre (LAURENT.” (LACAN. que não é senhor na própria casa. podemos pensar que. nesse discurso. 1. inacessível ao eu. Como no discurso do mestre os elementos da fantasia estão abaixo da barra.CARREIRA. 1992). é quem dá a verdade do senhor. Este avesso interessa particularmente à fantasia. empurrando-o para o fundo. n. como ressalta Lacan (1969-1970). 1966). A. Revista Cesumar . p. que resvala na questão: “O que o Outro quer de mim?” (LACAN. foi produzido durante o movimento estudantil francês que ficou conhecido como “os acontecimentos de maio”. a fantasia está recalcada. 14. que pode ser considerado o avesso da psicanálise. Estamos diante da lei do sacrifício a um Outro caprichoso. é nesse menos que o escravo goza e é ele quem detém o saber sobre o gozo do senhor: “[. p. por seu trabalho. jan.

são pequenos objetos mais-de-gozar. O capitalista é quem é suposto deter o saber sobre o gozo. e com a combinação das palavras gregas latoi (esquecimento) e ousia (o ser). 1992). O sujeito. 125-135 ISSN 1516-2664 . as “latusas”. n. 1964. 19691970./jun. É essa esperança que o capitalismo aproveita ao criar a ilusão de que oferece ao sujeito o a. ela é em vão. LACAN. é o outro nome da fantasia (POMMIER. aparecem sulcos na “aletosfera”. ou seja. p. 1969-1970). Lacan (1969-1970) nos mostra que. jan. o tudo-saber passou para o lugar do senhor (LACAN. está onde não pensa e pensa onde não está (LACAN. na neurose o sujeito constrói sua fantasia como esperança de recuperar o gozo que perde ao falar (SAURET. 1998). 1969-1970) e suspendendo a sua Revista Cesumar . É como se o capitalismo escancarasse o objeto ao sujeito. 2009. 149). retirando o intervalo (//) que há entre ambos (LACAN. e o vão retorna. assim como no capitalismo. ainda assim. afinal: “Alguma coisa tem que ser paga àquele que introduz seu signo. entretanto. A sociedade contemporânea oferece ao sujeito uma esperança de gozo através daquilo que Lacan (1969-1970) chama de “latusas”. ou seja. A aletosfera pode ser definida como o espaço criado pelas aplicações da ciência. buscando pagar a dívida impagável adquirida em sua entrada no mundo simbólico. trazida por Heidegger. Esse neologismo ele cria a partir do grego aleteia¸ que significa a verdade buscada pela Filosofia. fabricados pelo capitalismo para causar o desejo e impostos como proposições substitutivas para tamponar a falta. 1969-1970). 2007). Esperança. nesse engodo. Não obstante.” (LACAN. a partir de uma modificação no lugar do saber (BARICHELLO. ele faz o Outro gozar. Nesses sulcos podemos constatar que não há obturação. 1. ou a esfera científica que nos rodeia. Ele cria esse neologismo a partir da idéia de ato do encontro. 14.Ciências Humanas e Sociais Aplicadas v. p.130 Sobre a Fantasia nos Quatro Discursos Trata-se de um engodo: onde ele tem a esperança de recuperar seu gozo. O discurso do capitalismo pode ser considerado uma subversão do discurso do mestre operada pelo discurso da ciência. É em função dessa esperança de gozo que Lacan (1969-1970) irá afirmar que o discurso do mestre tem um estilo capitalista. também conhecidas como gadgets. Assim.

MCCARTY. que. 2004): • ٧: significa disjunção. sem realizar. chama de as duas margens que cortam o coração. 2004). ou seja. Trata-se do que Virgínia Woolf. que o articulador lógico escolhido por Lacan para compor o matema da fantasia aponta para uma relação flexível entre o sujeito e o objeto. BACON. que é a adotada por Lacan e referida também pelo termo latino vel. BACON. 2009. 125-135 ISSN 1516-2664 . 1. BACON.Ciências Humanas e Sociais Aplicadas v. 2004). 2007). é composto pela conjugação de outros dois (DETLEFSEN.pelo menos uma de suas frases componentes o for (DETLEFSEN.e só se . • ٨: significa conjunção. F. de forma a não restar nem uma nem outra das frases anteriores. a sua doação como objeto ao Outro (DUNKER. É a angústia Revista Cesumar .CARREIRA. mesmo preservando cada uma das frases separadamente (DETLEFSEN. A. pois tal proximidade o eclipsa enquanto sujeito. uma estratégia de aproximação do objeto que não culmine no desaparecimento do sujeito. preservando-o diante do desejo do Outro. é notório como o sujeito se angustia com a proximidade do objeto (LACAN. 14. mas apenas um composto. que pode ser descrita como a transformação de duas frases em uma através do conectivo “ou”. a fantasia é onde o sujeito pode realizar. na neurose. 1962-1963). então. n. jan. MCCARTY. Tal estratégia encontra-se marcada no matema da fantasia pelo articulador lógico punção (◊). alternando-se em um estado de alienação e separação em relação a esse desejo e constituindo os seus sintomas nesse vai-e-vem. Torna-se necessária. No caso específico da disjunção inclusiva. MCCARTY. Notamos. então. Lacan (1964) toma essa operação lógica como relativa à separação em relação ao desejo do Outro. sabiamente. a disjunção inclusiva é relativa à alienação no desejo do Outro. 2005). podendo ser considerada como um “e” que também permite formar um composto. ora o sujeito se dá. Para Lacan (1964). ora se furta como objeto ao desejo do Outro./jun. Não obstante. p. 131 divisão subjetiva (BARICHELLO. um composto é verdadeiro se . Assim. dentro da Lógica Proposicional e Predicativa.

sinal de perigo para o sujeito. embora ele ofereça objetos do desejo. mas não como mestre. iluminada pelos holofotes. no discurso do mestre. e o consumo. passa-se uma relação de dominação entre o mestre/senhor. como produção visada a ser oferecida. Destarte. 1969-1970. como a. jan. Qual a saída para essa compulsão à repetição que se configura como um discurso do mestre para o sujeito? O avesso. (LACAN. Assim. latente..Sobre a Fantasia nos Quatro Discursos 132 diante da presença do objeto. ou seja. como agente. levando o analisante Revista Cesumar . 1. Enquanto na cena consciente exposta nos numera(dores)./jun. e o saber. na cena inconsciente se passa uma relação entre o objeto. que se encontra no lugar da verdade: a verdade da castração. quer dizer. Também para o capitalismo isso soa interessante. como outro/escravo. como já vimos. podemos afirmar que. podemos tomar a fantasia como aparecendo. O avesso do discurso do mestre.. mas em uma outra cena.. e o sujeito barrado. Ele faz semblante de a. n. ao desejo do Outro. o analista está no lugar do agente. na medida em que ela envereda pelos rastros do desejo de saber.Ciências Humanas e Sociais Aplicadas v. p. o objeto deve causar o desejo continuamente. ele também lança o sujeito infinitamente a novos objetos. na fantasia. pois. 125-135 ISSN 1516-2664 . É como idêntico ao objeto a. que é assonante com verdade (LACAN. é o discurso analítico: Em se tratando da posição dita do analista [..] é o próprio objeto a que vem no lugar do mandamento. no discurso analítico. uma psicanálise. 99). 14. que vai impedir esse último de se entregar definitivamente. p. como atuação. que o analista se oferece como ponto de mira para essa operação insensata. a isso que se apresenta ao sujeito como a causa do desejo. 2009. 1969-1970). 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante dessas articulações. preservando a falta que sustenta o desejo.

CARREIRA. houve uma desestabilização do que está organizado e consolidado semanticamente (BICALHO. n. que se repete em sua cadeia discursiva. deve advir o ato analítico. Esse saber está no lugar da verdade. 2009. jan. 14. com isso. Nessa dimensão. que a operação possível no discurso analítico diz respeito à provocação do analisante a articular algum saber sobre de onde ele goza. A. ou seja. 1967-1968). REFERÊNCIAS BARICHELLO. Incidências do discurso do capitalista sobre a língua inglesa e seu ensino. 133 ($) a dar de encontro com a sua fantasia. diante da falta./jun. provocando angústia. que aparece acima da barra. um ato movido pelo desejo do analista e desprovido das paixões (amor. para que essa operação se dê. ódio e ignorância). a partir do lugar de agente. 1. para além da falsa realidade. L. H. Não se trata de dar conta da verdade com o saber. o analista faz semblante de a para o analisante. In: Revista Cesumar . ele pode vir a articular algum saber (S2). Disso. BICALHO. onde está o mais-de-gozar do analisante. Essa operação tira o analisante do mundo e lhe abre um acesso para o i-mundo. mas de não recuar diante do desejo e com isso. 1997). passar da impotência para a impossibilidade.UNICAMP. é necessário um ato sem sujeito (LACAN. Mas.Ciências Humanas e Sociais Aplicadas v. No discurso analítico. Sobre o conceito de letra no ensino de Lacan. F. rumo à realidade fantasmática. Podemos dizer. Isso pode incitar o analisante à produção de seu significante mestre (S1). Dissertação (Mestrado em Lingüística Aplicada) – Instituto de Estudos da Linguagem – IEL da Universidade Estadual de Campinas . p. que é o sujeito barrado ($) que está no lugar do outro. 2007. A entrada em análise é marcada por um giro no discurso que permite a instalação inaugural do discurso analítico para o analisante. 125-135 ISSN 1516-2664 . Isso indica necessariamente que na sintaxe da cadeia discursiva (S1S2) algo da fantasia foi tocado.

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