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ABUSO DO DIREITO NO DIREITO DE FAMÍLIA

Roberta Marcantônio
Resumo: Este trabalho trata sobre o abuso do direito no direito de família e
objetivou realizar uma revista da literatura, sobretudo nas obras editadas nos
últimos 15 anos.
Pôde-se verificar que o Direito de Família é um palco fértil para a aplicação da
teoria do abuso do direito, prevista no ordenamento jurídico brasileiro no artigo
187 do Código Civil, sendo constatadas situações de abuso do direito no
exercício do direito de guarda, no direito de visitas, no direto a alimentos, na
síndrome da alienação parental, entre outros casos onde é necessária a
intervenção estatal para punir aquele que se desvia de suas funções e
finalidades, aplicando-lhe as correspondentes sanções civis.
Palavras-chave: abuso do direito - direito de família
Abstract: The aim of this study was to review the literature, concerning law
abuse in family law, focusing on the papers published during the last 15 years.
It could be concluded that the Family Law is a potential area to apply the theory
of law abuse, which is a legal system found in the Brazilian Civil Code´s Article
187. The law abuse could be observed in the exercise of the custody right, the
visit right, the food right, the parental alienation syndrome, among other cases.
The state intervention is necessary to prevent the occurrence of law abuse and
if necessary, to punish one who has strayed from its functions and purposes,
applying the corresponding civil sanctions.
Keywords: law abuse - family Law

Sumário: Introdução; 1 - Conceito de abuso do direito; 2 - O abuso do
direito no ordenamento jurídico brasileiro; 3 - O abuso do direito no
Direito de Família; 3.1 Introdução; 3.2 O abuso do direito de guarda; 3.3 O
abuso do direito de visitas; 3.4 O abuso do direito nos alimentos; 3.5 A
fraude societária e a desconsideração da personalidade jurídica pelo
abuso do direito; 3.6 O abuso do direito e a síndrome da alienação
parental; 3.7 O abuso do direito de impedir o casamento dos filhos
menores; 4 - Conclusão; 5 - Referências.

1

Introdução
O Direito de Família é um palco fértil para a aplicação da teoria do
abuso do direito, porque envolve questões íntimas e carregadas de
sentimentos, onde os excessos são costumeiramente cometidos, sem olvidar
que o limite nessas situações, por ser imperiosamente tênue, é difícil de ser
percebido e mais ainda de não ser extrapolado.
Este trabalho tem a finalidade de identificar situações de abuso do
direito na esfera do Direito de Família, com destaque à análise da ocorrência
de abuso do direito no exercício do direito de guarda, no direito de visitas, no
direito a alimentos, na fraude societária e na desconsideração da
personalidade jurídica, na síndrome da alienação parental e no direito de
impedir o casamento de filhos menores, nos quais foi constatada a
necessidade da intervenção estatal para evitar a ocorrência do abuso do direito
e, se necessário, para punir aquele que se desvia de suas funções e
finalidades, aplicando-lhe as correspondentes sanções civis.
Com mais ênfase são destacados na doutrina os aspectos do abuso do
direito nas relações de trabalho, no Direito de Propriedade e nas relações de
vizinhança, sendo importante pesquisa do abuso do direito na esfera do Direito
de Família, haja vista a constatação das diversas situações suscetíveis de
cometimento de abusos neste campo.
O presente trabalho foi iniciado com a descrição de alguns conceitos de
abuso do direito, para a melhor compreensão do assunto, sendo que
posteriormente serão destacados casos de abuso do direito na esfera do
Direito de Família.

1 - Conceito de Abuso do Direito
Para a melhor compreensão do abuso do direito, imprescindível se
revela a apresentação de alguns conceitos preliminares, os quais serão
reunidos pela sua importância na introdução da teoria do abuso do direito no
ordenamento jurídico brasileiro, que já foi bastante questionada inclusive no
que se refere à expressão consagrada - abuso do direito ou abuso de direito -,
cujo termo, na atualidade, já não encontra mais obstáculos à sua utilização
É conhecido o problema da sistematização teórica do abuso do direito,
porquanto já foi ressaltada a dificuldade de definir a expressão atualmente
consolidada e, por esta razão, alguns autores, como Everardo da Cunha Luna
e Inácio de Carvalho Neto, apenas limitaram-se a enunciar um conceito
genérico acerca do assunto, o que enseja e permite uma compreensão própria
de cada indivíduo sobre o significado do termo abuso do direito.

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Afirma Everardo da Cunha Luna, um dos pioneiros juristas brasileiros a
discorrer sobre o tema: “O abuso de direito é uma realidade jurídica; sobre sua
essência e conceito, porém, os campos estão abertos e as lutas do
pensamento continuam”1. Segundo Inácio de Carvalho Neto, “chama-se abuso
do direito ao exercício, pelo seu titular, de um direito subjetivo fora de seus
limites”2.
Assevera o jurista Rubens Limongi França que o abuso de direito é “um
ato jurídico de objeto lícito, mas cujo exercício, levado a efeito sem a devida
regularidade, acarreta um resultado que se considera ilícito”3.
Assim também pensa Flávio Tartuce, para quem “o abuso do direito é
um ato lícito pelo conteúdo, ilícito pelas consequências, tendo natureza jurídica
mista - entre o ato jurídico e o ato ilícito -, situando-se no mundo dos fatos
jurídicos em sentido amplo”4.
Aduz Porcherot que: “Abusa-se do seu direito quando, permanecendo
nos seus limites, se visa a um fim diferente daquele que para ele teve em vista
o legislador”5.
Abuso do direito significa, portanto, exceder ou transcender os limites
propostos pelo direito que foi conferido ao indivíduo. Por outro lado, não é
equivalente a denegar o direito, pois apenas é possível abusar de um direito do
qual se possui, ou seja, o abuso do direito não é a negação do próprio direito,
como entendeu a 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do
Sul, em dois julgamentos acerca do tema investigação de paternidade, nos
quais o réu se negava a submeter-se ao exame de DNA6.

1

Luna, Everardo da Cunha. Abuso de direito. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense, 1988, p.43.
Carvalho Neto, Inácio de. Abuso do direito. 4.ed. Curitiba: Juruá, 2007, p.20.
3
Tartuce, Flávio. Considerações sobre o abuso de direito ou ato emulativo civil. In: Questões
Controvertidas no novo Código Civil. 1.ed. São Paulo: Método, 2004, p.92. Apud França,
Rubens Limongi. Enciclopédia Saraiva do Direito. São Paulo: Saraiva, 1997.
4
Tartuce, Flávio. Considerações sobre o abuso de direito ou ato emulativo civil. In: Questões
Controvertidas no novo Código Civil. 1.ed. São Paulo: Método, 2004, p.92.
5
Cf. Abreu, Jorge Manuel Coutinho de. Do abuso de direito. Coimbra: Almedina, 1983, p.17.
2

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Ementa: “Investigação de Paternidade. Exame Genético. Recusa em Realizá-lo. Efeitos.
Negativa não motivada do investigado em submeter-se ao exame pericial hemato-genético
constitui abuso de direito e, portanto, a negação do próprio direito, eis que cerceia o direito
constitucional de prova do investigante. A impossibilidade de coagir-se fisicamente o recusante
não implica reconhecer legitimidade à recusa. Prova diferida. Prova testemunhal segura do
relacionamento sexual sério e duradouro. Paternidade comprovada. Fixação de alimentos”
(Apelação Cível nº 591043732, 8ª Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator Márcio
Oliveira Puggina, julgado em 07.11.1991).
Ementa: “Investigação de Paternidade. Negativa do Investigado em Submeter-Se ao Exame
Pericial Hemato-Genético. Constitui abuso de direito – e, portanto, a negação do próprio direito
– a negativa imotivada, eis que cerceia o direito constitucional de prova do investigante. A
impossibilidade de coagir-se fisicamente do recusante não implica reconhecer legitimidade à
recusa. Prova diferida. Agravo improvido” (Agravo de Instrumento nº 591058722, 8ª Câmara
Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator Márcio Oliveira Puggina, julgado em 19.09.1991).

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4. mas ao nível de sua vontade máxima. pois vedavam a abusividade no exercício dos direitos subjetivos. Rio de Janeiro: Forense.O Abuso do Direito no Ordenamento Jurídico Brasileiro No Código Civil de 1916 não houve a previsão legal do abuso do direito.531 do Código Civil de 1916.Dos atos ilícitos.530 e 1. A teoria do abuso de direito surgiu explicitamente no ordenamento jurídico brasileiro com o advento do Código Civil em vigor desde 2003. possuir a prerrogativa conferida pela lei. Entre tais artigos. que não pode ter sido negada. Título III . portanto. eis que não se pode olvidar que para exceder o uso do direito é preciso. em primeiro lugar.Dos fatos jurídicos. 1. 1999. no Livro III . Curitiba: Juruá. p. que prescrevia: “não constituem atos ilícitos os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido”. Abuso do direito. a locução abuso do direito pode ser muito mais relacionada a usufrui-lo de maneira exacerbada. e tendo esta prerrogativa. a doutrina nacional e a estrangeira apontavam alguns artigos do Código Civil de 1916 que aparentemente possuíam o cerne da teoria do abuso do direito que hoje é concretizada. 2. do que à própria negação do direito.59. o abuso do direito está intimamente. Apud Scisinio.”7 Portanto. portanto. contudo. Além deste. expresso nos seguintes termos: “Longe de ser a negação do direito.ed. como pareceu a alguns pelo fato singular de situar-se ele acima da inteligência literal da norma. ou seja. pois quando ocorre este desvio é que nos deparamos com o abuso do direito. no artigo 187. p. 554. 564. 4 . 8 Art. Em sentido oposto. 2 . ligado à finalidade do direito e ao princípio da justiça. também são referidos os artigos de nºs 1008. Alaôr Eduardo. 160 do Código Civil de 1916. especialmente o inciso I. 7 Carvalho Neto. nem o simples temor referencial. o abuso do direito. é com mais frequência citado o disposto no art. As maiorias acionárias e o abuso do direito. não se pode desviar de sua finalidade. 2007.ed. Inácio de. poderia ser vislumbrada a ilicitude do ato quando cometido no exercício irregular da prerrogativa conferida pela lei. 100 do Código Civil: Não se considera coação a ameaça do exercício normal de um direito. ultrapassando os limites do objetivo legal.Vale a pena transcrever o texto de Alaôr Eduardo Scisinio. indissoluvelmente.20. configurando.

regulamentação das liberdades individuais e corporativas . consequentemente. atingindo todos os ramos do ordenamento jurídico e sendo a teoria aplicável a quaisquer espécies de direitos. portanto. e 5º: “Na aplicação da lei. um ato ilícito. ao direito internacional privado e público10. Explana Lino Rodrigues Bustamante que se deve à jurisprudência. Convém lembrar os artigos 4º da Lei de Introdução ao Código Civil (Decreto-Lei nº 4. fazendo-a extensiva. propriedade.1 Introdução A teoria do abuso do direito possui diversos campos de atuação. no entanto.O Abuso do Direito de Família 3. repleto 9 Brasil. campo amplo para a aplicação da teoria do abuso do direito. o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia. contratos. principalmente. 5. pela boa-fé ou pelos bons costumes”9. 2003. ao exercêlo. Rodriguez-Arias Bustamante. nos termos do Código Civil. enfim. à teoria do abuso do direito. 10 5 .10.O abuso do direito.como ao direito público e administrativo . de 4 de setembro de 1942): “Quando a lei for omissa. 1971. a preocupação por perfilar a teoria do abuso do direito por meio de suas decisões. Código Civil. A seguir será tratada a questão do abuso do direito na esfera do Direito de Família. Feitos estes esclarecimentos. p.657. tanto ao domínio do direito civil . exercício de ações processuais . 2.poder familiar. excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social. 3 . São Paulo: Saraiva. Lino.e. pela boa-fé ou pelos bons costumes. ainda que a disciplina do abuso do direito tenha sido inserida no Título III. os dois institutos jurídicos não se confundem. os costumes e os princípios gerais de direito”. insta referir o que consta no artigo 187 do Código Civil: “Também comete ato ilícito o titular de um direito que. porque o abuso do direito corresponde ao exercício de um direito de maneira exacerbada e no ato ilícito o indivíduo afronta diretamente um comando legal. El abuso del derecho. praticando um ato contrário ao direito. Buenos Aires: EJEA.ed. é considerado.ed. cometido pelo possuidor do direito que extrapola os parâmetros estabelecidos pelo seu desígnio econômico ou social. o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum” que servem de embasamento ao dispositivo legal nº 187 do Código Civil e. correspondente aos atos ilícitos.

por isso. cuja guarda se exerce sem que o seu interesse seja colocado em primeiro lugar. inclusive no artigo 1. se necessário. A escolha do genitor guardião antigamente não deixava margem para questionamentos.638 do Código Civil. como forma de refrear a prática do abuso do direito no âmbito do Direito de Família.2 O Abuso do Direito de Guarda Cada vez mais são denunciados abusos dos pais guardiões ou dos genitores não guardiões. que é dificilmente detectado e raras vezes comprovado e punido. É que as medidas previstas. ou seja. 6 . a guarda dos filhos era destinada à mãe. sendo que estas situações devem ser identificadas e. que muitas vezes é ignorado ou usado como moeda de troca pelos pais. merecedora de proteção integral. pois deve ser privilegiado o melhor interesse da criança e do adolescente. eis que está abrigado em preceito legal. aquele que não detém a guarda e que possui o direito ou o dever de visitas. sem que este castigo reflita na criança. sugerem a suspensão e a perda do poder familiar. Neste capítulo será tratado exclusivamente o abuso de direito exercido pelo genitor. no entanto. razão pela qual devem ser envidados esforços no sentido de resguardá-los e fazer com que sejam respeitados os direitos fundamentais garantidos constitucionalmente às crianças e aos adolescentes. É tênue a demarcação existente entre o regular desempenho da guarda e o seu exercício abusivo. envolvidos e atingidos pelos conflitos dos pais. legitimador absoluto de práticas que causam prejuízos irreparáveis à criança e ao adolescente. a fim de que sejam resguardados das consequências dos atos praticados por seus genitores. é responsável por parcela importante de contribuição no desenvolvimento do filho. Os abusos praticados comprometem o convívio familiar e a estabilidade psíquica da criança e do adolescente. 3. ao qual foi conferida a guarda da criança ou do adolescente. que são. não obstante devesse ser incentivado o exercício da guarda como elemento do poder familiar. pois. punidas. será abordado no capítulo seguinte o problema do abuso do genitor não guardião. maioria das vezes.de casos em que os tênues limites não raramente são extrapolados. enquanto ao pai incumbia o dever de sustento dos filhos. situação que acaba ensejando uma série de dúvidas a respeito de qual seria a melhor maneira de punir o genitor que extrapola o seu direito de guarda ou de visitas. e que. sobremodo.

7 .133.Hoje em dia. na qual os pais. com absoluta prioridade. poderá basear-se em orientação técnico-profissional ou de equipe interdisciplinar. que garante normas protetivas à criança e ao adolescente. violência. em ação autônoma de separação. em atenção a necessidades específicas do filho. nos termos do artigo 227 da Constituição Federal. § 1º. são responsáveis pela criação e desenvolvimento dos filhos. exploração. com base na doutrina da Proteção Integral. Portanto. § 4º. deferirá a guarda à pessoa que revele compatibilidade com a natureza da medida. Na audiência de conciliação. O guardião não é mais exclusivamente a mãe. ao lazer. inclusive. sendo importante ressaltar que. para fins da aplicação preferencial da guarda compartilhada quando não houver consenso entre os pais11. da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente. § 5º. II – decretada pelo juiz. ou em razão da distribuição de tempo necessário ao convívio deste com o pai e com a mãe.698. 12 Brasil. inclusive quanto ao número de horas de convivência com o filho. Constituição Federal. Para estabelecer as atribuições do pai e da mãe e os períodos de convivência sob guarda compartilhada. Neste sentido. quando não houver consenso entre os pais. sempre que possível. a sua importância. o Estatuto da Criança e do Adolescente dispõe em seus artigos 3º e 4º. A guarda.584. mas sim aquele que demonstrar ter melhores condições de cuidar da criança e do adolescente. unilateral ou compartilhada. com vigência no sexagésimo dia de sua publicação. 1. poderá implicar a redução de prerrogativas atribuídas ao seu detentor. à alimentação. a guarda compartilhada. à educação. A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana. que prescreve: “É dever da família. Reforça essa conclusão o artigo 1. A alteração não autorizada ou o descumprimento imotivado de cláusula de guarda. de dissolução de união estável ou em medida cautelar. será aplicada. 2003. 3º. recentemente sancionada pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. ao se atribuir o direito de guarda a um dos pais. seguindo as diretrizes constitucionais: “Art. podendo a guarda. ao respeito. a similitude de deveres e direitos atribuídos aos genitores e as sanções pelo descumprimento de suas cláusulas. de divórcio. considerados. unilateral ou compartilhada. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. através da Lei nº 11. à dignidade. crueldade e opressão”12. São Paulo: Saraiva. à cultura. o juiz informará ao pai e à mãe o significado da guarda compartilhada. além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. Quando não houver acordo entre a mãe e o pai quanto à guarda do filho. pelo pai e pela mãe.ed. p. de 16 de junho de 2008. de ofício ou a requerimento do Ministério Público. o juiz. ou por qualquer deles. é mister que se tenha em vista essencialmente alcançar o melhor interesse da criança e do adolescente. Se o juiz verificar que o filho não deve permanecer sob a guarda do pai ou da mãe. de preferência. o referido artigo de lei terá a sua redação modificada. por consenso. sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei. em condições de plena igualdade. que dispõe ser do juiz a tarefa de atribuir a guarda dos filhos ao cônjuge que revelar melhores condições para exercê-la. § 2º.584 do Código Civil. discriminação. ser compartilhada. a questão da guarda é considerada no sentido de que seja atendido o princípio do melhor interesse da criança. 5. assegurando11 “Art. poderá ser: I – requerida. o grau de parentesco e as relações de afinidade e afetividade” (NR). à profissionalização. o direito à vida. § 3º. à saúde.

avós. É dever da família. este incentivo é negado e muitas vezes as visitas não são permitidas. à dignidade. 5. Art. em razão do desequilíbrio entre as prerrogativas destinadas ao guardião e ao não guardião. o que causa frustração e desgosto à criança. espiritual e social. julgada pela 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. refletidas nos filhos. vem sendo reconhecido através da jurisprudência. In: Bastos. inobstante as atitudes egoístas e repletas de ressentimentos causadas pela separação ou pelo abandono. Suzana Borges Viegas de.) Família e Jurisdição II. 2003.301. mormente ao privá-los da convivência com o não guardião”15. Lima.. p. em condições de liberdade e de dignidade. como ocorreu na Apelação Cível nº 58303504. a efetivação dos direitos inerentes à vida. que se sente rejeitada e desprezada. embora não esteja expresso no Código Civil. moral. ao respeito. todas as oportunidades e facilidades. por lei ou por outros meios.1. à saúde. ao lazer. 14 8 . Código Civil. à cultura. Acerca do melhor interesse da criança. p. 15 Lima. com absoluta prioridade. à educação. à profissionalização. eis que nela “o genitor guardião se sente inviolável. em que o então Desembargador Relator Galeno Lacerda asseverou inexistir carência de ação em demanda proposta por avó com o objetivo de reconhecer o seu direito de visitas ao neto. à alimentação.se-lhes. nos casos de abuso. a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico. O direito de visitas aos avós. à liberdade e à convivência familiar e comunitária”13. Op.ed. da sociedade em geral e do poder público assegurar. Luz. por acreditar que é o pai ou os seus familiares que não buscam a sua companhia. Os mais diversos casos de abuso do direito de guarda são denunciados por pais que tentam de todas as maneiras reconquistar e restaurar a convivência com seus filhos.151. tios e primos. cit. p. Eliene Ferreira. Para Suzana Borges Viegas de Lima. da comunidade. Suzana Borges Viegas de. que se tornam objetos de troca na disputa para ver quem tem mais 13 Brasil.300. apoio emocional e demais atributos do instituto que se desempenham visando a concretizar o bem-estar dos menores”14. deverá fazê-lo. aduz Suzana Borges Viegas de Lima que: “Na prática. ensinamento de valores e princípios. contudo. isso se traduz em cuidado contínuo. Belo Horizonte: Del Rey. O genitor guardião deve proporcionar e incentivar o convívio do filho com o genitor que não detém a guarda e também com os demais familiares. 4º. a guarda única seria um cenário comum para a ocorrência do abuso do direito. São Paulo: Saraiva. O abuso do direito de guarda. 2008. Antonio Fernandes da (Coords. mental. pois sempre que o Direito puder socorrer valores morais. muitas vezes valendo-se de tal direito para praticar atos que atentam flagrantemente contra a dignidade dos filhos. ao esporte.

tudo com o intuito de frustrar a visitação aguardada pela criança e pelo genitor. para ficar mais próximo de outros familiares que necessitem de companhia em 16 Madaleno. Então. acompanhada pela mãe. 17 Disponível em: <http://www. ainda que demande mais trabalho. dirige-se à diretora da escola para saber sobre o filho e ela lhe informa que a criança saiu um pouco mais cedo. as formas mais corriqueiras de abuso cometido pelo guardião. Exemplos de desculpas dadas pelo guardião em dias de visitação seriam dizer que a criança está dormindo ou que está adoentada. ou que tem amigos ou opções mais atraentes de programação. já apreensivo e angustiado. acabam cansando e aborrecendo até os mais persistentes genitores. se não possuem muita perseverança. Conforme Rolf Madaleno: “Frustra as visitas de modo direto o guardião que procura sair com o menor justamente no horário das visitas. conforme é depreendido da justificação que acompanha o texto do referido projeto. Essa atitude pode trazer sofrimentos e trauma irreparáveis aos filhos.poder. Impedir as visitas dizendo que a criança está doente ou que foi ao aniversário de alguma amiga ou simplesmente não quer ir com o pai (ou com a mãe) são. 2007. além de desconforto ao outro genitor que tem legalmente assegurado o direito de ver o filho e acompanhar o seu desenvolvimento”17. possivelmente. sendo que este tipo de manobra já foi destacado no Projeto de Lei nº 6. a mudança de domicílio do genitor guardião.121. quando ele chega no horário marcado. Repensando o Direito de Família. Essas desculpas reiteradamente dadas aos pais não guardiões. ou então resolvem buscar judicialmente o cumprimento do seu direito. e desta insensata contenda.br>. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Também acontece com frequência. o pai. 9 . de autoria do Deputado Paulo Baltazar. que assim procede visando única e exclusivamente a impossibilitar o direito à convivência familiar. por motivos de saúde. que foi arquivado: “Entre os comportamentos clássicos com relação à má guarda dos filhos está o deliberado e desnecessário desaparecimento do detentor da guarda do filho do lugar de domicílio usual para lugar incerto e não sabido. na verdade. que muitas vezes chegam de outra cidade para visitar o filho. muitas vezes por capricho ou vingança contra o ex-parceiro. Acesso em: 20 abr. que. p. acabam desistindo de conviver com o filho. seja em razão da busca por melhores oportunidades de trabalho. Rolf. 2008.937/06. ou que se nega a entregar o filho sob as mais esfarrapadas desculpas”16. As pessoas podem alterar com liberdade os seus domicílios. indisposta.camara. Outra forma comum de abuso ocorre quando está marcado para o pai (ou a mãe) buscar o filho na escola para a visita e. os filhos é que sofrem os maiores prejuízos. o filho não aparece.gov.

depende de estudos sobre a condição do genitor não guardião de assumir a responsabilidade a ele imposta. julgado em 21 de setembro de 2005. com quem já residem. Relator Desembargador Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves. a sanção direta do ato abusivo. e assim ementado: “Guarda. Genitora Que Se Muda Para Outro Estado Com as Filhas. Agravo provido”. devem as filhas permanecer sob a guarda materna. sendo que a mudança de cidade. Afastadas as preliminares.08. ou seja. 10 . não será uma pena pecuniária que irá impedir quem nada possui de descumprir a ordem judicial. motivada por interesse profissional. sendo relatora a Desembª Maria Berenice Dias. O eventual descumprimento do direito de visita. Visitas. pois não há meios para cobrar o valor fixado19. de forma ainda mais grave. descabe conceder a tutela cautelar em sede de liminar. com o restabelecimento do domicílio de origem. O direito de guarda não impede a genitora-guardiã de deliberar acerca de sua vida e buscar o seu espaço profissional onde melhor lhe aprouver. mas apenas quando o guardião possui condições financeiras para pagá-la. assim como não é possível assegurar que o guardião irá passar a cumprir os compromissos e horários combinados. em 23. Outras formas de punição do genitor que abusa do seu direito de guarda vêm sendo aos poucos levantadas. teve por finalidade impedir ou dificultar o direito de visitas. 18 “Guarda de Filho. desde que não procedam desta forma visando tão somente a impossibilitar o direito do outro genitor que permanece na cidade de origem a conviver com o filho18. 19 Nesse sentido o acórdão nº 70011895190. eis que se já não o fazia apenas poucas vezes por mês. é vista como uma alternativa a fixação de multa para cada dia que a visita é impedida (astreintes). 3. Ausentes o fumus boni juris e o periculum in mora.razão da idade avançada. da 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do RS. não autoriza a reversão da guarda. cuja sanção costuma funcionar bem. Se for constatado que a mudança de domicílio não preservou o melhor interesse do filho. Reversão. Pedido de Alteração. e vale ressaltar que nos casos concretos a reversão da guarda costuma ser a última opção dos magistrados. pois com ela mudam também todos os referenciais da criança. As mudanças de guarda são sempre traumáticas e devem ser evitadas tanto quanto possível. da 7ª Câmara Cível do TJRS. que dirá em uma rotina mais intensiva de convívio com o genitor que antes não detinha a guarda. pode ser determinado o desfazimento do ato. Outra maneira cogitada é a de modificar a guarda única para compartilhada. j. correndo-se o risco de comprometer-lhe o equilíbrio emocional. Não havendo superveniência de motivo grave para determinar a alteração de guarda. de modo a impedir o seu exercício. Recurso desprovido” (Agravo de Instrumento nº 70015785090.2006). caso contrário. não enseja a alteração de guarda. entre outros diversos e justificados motivos para a alteração do domicílio. 2. 1. 4. ou. contudo. Obstaculizada a visitação. melhor atende ao interesse dos filhos a fixação de multa por visita frustrada. Antes da medida extrema.

pois a guardiã ou o guardião que entrega o filho ao visitante espera que ele lhe devolva a criança na data e horário acordados ou estabelecidos conforme determinação judicial. tanto quando extrapola o seu direito retendo a criança por mais tempo do que o acordado. o genitor que não cumpre o esperado comete um ato em desconformidade às exigências do bem comum. 3. que na maioria dos casos é abruptamente afastado do convívio com a guardiã ou o guardião e sofre uma repentina modificação em sua rotina. ao colocar o seu interesse acima do interesse da criança. a fim de que seja mantida a sua higidez física e psíquica. porque o pai o esquece ou tem outros compromissos que o impedem de cumprir o acordo de visitas. mas sem esgotar os meios de repreensão ao guardião que abusa do seu direito.3 O Abuso do Direito de Visitas Na mesma linha de tentativa de demonstração de forças e de poderes que leva o guardião a abusar de seu direito de guarda. desta disputa entre seus pais. que cansa de esperá-lo no aguardado dia de visitação. ser este meio empregado apenas como derradeira alternativa. Ao reter indevidamente a criança. na medida do possível. por quem ele deveria estar zelando. que nunca ocorre. caso as outras resultem infrutíferas. portanto. compromete o bem-estar psíquico e o interesse do infante. ele excede os limites do seu direito. o não guardião também comete atos que excedem as prerrogativas conferidas por seu direito de visitas.Há ainda a opção de suspender o pagamento da verba alimentar. praticando um ato desleal e de má-fé. Por fim. No que se refere à primeira hipótese aventada. o genitor visitante. 11 . enquanto o guardião não restabeleça as condições normais de visitação. que paga um alto preço pela irresponsabilidade do genitor visitante. A violação do acordo de visitas prejudica diretamente a criança. que estão sempre surgindo. Não se pode perder de vista que todas as medidas devem ser tomadas sem desviar do objetivo de assegurar à criança a proteção integral. como nos casos em que simplesmente resolve abandonar e ignorar a criança. é comumente utilizada pelo Tribunal de Justiça gaúcho a determinação de busca e apreensão da criança. quando o genitor extrapola o seu direito de visitas retendo a criança indevidamente. além de abusar de sua autoridade. devendo. portanto. que com isto sofre traumas e prejuízos incalculáveis. e garantir que ela fique afastada. como maneira de forçá-lo a cumprir a ordem judicial.

razões pelas quais foi concedido o pedido liminar de busca e apreensão do infante. em razão do abuso do direito do genitor visitante na sua recusa em restituir o filho à mãe. sugere Fábio Bauab Boschi. faltando aos deveres a ele inerentes ou arruinando os bens dos filhos. Acordo de Visitas Violado Pelo Pai. uma vez que o fumus boni juris decorre de a guarda do filho ter sido deferida à mãe. tendo o Desembargador Relator Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves asseverado no aresto. como um meio excepcional de assegurar a realização das visitas. até suspendendo o poder familiar. as visitas deverão ser realizadas integralmente no recinto designado para elas. merecedora de proteção integral.2004). ou ao Ministério Público. da 7ª Câmara Cível. da 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. ou a mãe. com a retenção indevida ao menor. Deram provimento. permitindo seja restituído à mãe.04. no dia e horário combinados20. Nestas hipóteses. sendo indevida e imotivada a retenção da criança pelo genitor. ao buscar o filho no dia da visitação. 12 . abusar de sua autoridade. julgado em 06 de outubro de 2004. imperiosa a busca e apreensão.637 do Código Civil dispõe que: “Se o pai. quando convenha”. que diante da presença dos elementos determinantes da tutela cautelar. em 07. Em que pese o procedimento de busca e apreensão da criança seja eficaz e habitualmente adotado pelos julgadores. o artigo 1. requerendo algum parente. e o periculum in mora está em que a permanência dele na casa do genitor enseja situação de risco. diante dos prejuízos que pode causar ao infante. configura abuso de direito por parte do pai. não mais devolveu a criança aos cuidados da genitora guardiã. cabe ao juiz. não 20 “Busca e Apreensão de Menor. seja pela quebra da sua rotina de vida. Em agravo de instrumento da 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do RS foi determinada a busca e apreensão da criança. detentora da guarda legal. mantendo-o consigo além do tempo que lhe é permitido ficar com ele. Unânime” (Agravo de Instrumento nº 70008335481. Guarda Legal Deferida à Mãe. não deve ser olvidado que esta medida deve ser tomada com cautela. sendo este meio notoriamente traumático para a criança.Com relação ao abuso de autoridade parental. sanável pela via da busca e apreensão. A medida da busca e apreensão também foi adotada pelo Tribunal de Justiça gaúcho no Agravo de Instrumento de nº 70009442500. para embasar o seu voto. detentora da guarda legal. que. j. que o encontro seja realizado no fórum: “Pode ser determinada esta forma de visita quando há indícios de que o visitante possa subtrair ou sonegar o visitado do poder do guardião. em razão do abuso do direito de visitas do genitor visitante. adotar a medida que lhe pareça reclamada pela segurança do menor e seus haveres. A violação do acordo de visitas. Para impedir que o visitante subtraia ou sonegue o menor ao guardião. sendo Relator o Desembargador Luiz Felipe Brasil Santos. seja pela falta de imposição de limites ao menor.

os filhos têm direito à convivência com os pais. o genitor visitante também abusa de seu direito quando não visita os filhos. V Congresso de Direito de Família. e os valores devem reverter para o filho. convivência familiar e multas cominatórias. este meio deve ser o escolhido para forçar a devolução do menor. por consequência. Rio de Janeiro: Forense. 25 Madaleno. Responsabilidade civil. Não deve se perder de vista que o interesse da criança deve ser preservado. sem causar tantos prejuízos e traumas ao menor. In: Pereira. Direito de visita. Por outro lado. 24 Rizzardo. Miguel Filho. Raduam.692. Repensando o Direito de Família. 2006. havendo um meio que não envolva a abrupta retirada da criança por um oficial de justiça. como aponta Arnaldo Rizzardo. Repensando o Direito de Família. p. em nome de um princípio.125. Família e dignidade humana.122. p. sobre as astreintes. São Paulo: Saraiva. a fim de que as consequências emocionais sejam minimizadas e não afetem o seu desenvolvimento físico e psíquico. quando os faz esperar durante horas e não aparece para buscá-los e quando ignora os seus clamores.). sem descurar da autoridade essencial ao seu normal crescimento24. da inércia da jurisdição.188. Para Rolf Madaleno. desvelo e amizade. Outra medida indicada para compelir o genitor a devolver a criança. abusa do direito de vistas o genitor que se omite dos eventos escolares do filho. afeto. 2005. p. p. que expõe o menor a situações de risco e 21 Boschi. Conforme Cláudio Belluscio. bastante relativizado pelo Direito de Família. “a pena pecuniária serve como importante desestímulo aos embaraços oriundos de ressentimentos e traumas ainda não elaborados e que habitam o subconsciente daqueles pais que romperam a sua primitiva relação”23. Leciona Raduan Miguel Filho. consoante precedentes jurisprudenciais. ou que para o desespero da mãe deixa a criança com terceiros que ela desconhece ou em quem não confia”25. “age com abuso o visitante que não busca nem devolve os filhos nos horários ajustados. previsto no art. eis que. Belo Horizonte: IBDAM. Arnaldo.817. 22 13 . é a imposição de astreintes. hoje.podendo o visitante retirar o menor daquele local. sendo que os valores devem ser fixados pelo juiz em quantia significativa por cada dia excedido pelo pai. Para Rolf Madaleno. p. a própria credibilidade do Poder Judiciário. 23 Madaleno. 2º do Código de Processo Civil22. 2005. portanto. que tem seus comandos constantemente aviltados. O direito/dever de visitas. como medida coercitiva destinada a resguardar a autoridade das decisões judiciais e. Rodrigo da Cunha (Coord. Rolf. Fábio Bauab. Rolf. que devem dispensar-lhes carinho. sejam quais forem os motivos”21.

Dario L. Reconvenção e revisional de alimentos. p. Responsabilidade civil no Direito de Família. 28 Wolf. podem ser implementadas sanções não apenas no sentido de incentivar o pai a cumprir satisfatoriamente as visitas. cit. fornecer proteção. (Coord. como o restabelecimento do convívio entre pais e filhos.83. “não se nega um direito porque duvidosa a sua execução”.357. transporte. surtir resultados positivos. Conforme Ênio Santarelli Zuliani: “Alimentar significa dar amparo. existindo a possibilidade de esta medida. A obrigação alimentar é estabelecida de maneira que. educação. saúde.4 O Abuso do Direito nos Alimentos Tal como nos casos de abuso do direito de guarda e de visitas. consoante referiu o magistrado Fernando Mottola. Contudo. em nada contribuindo pedagogicamente o pagamento da indenização para restabelecer o amor. p. 2008. que não tem afeto pela prole nem lhe proporciona proteção. Edição especial. lazer. Rio de Janeiro: COAD. uma vez que. Rolf. não deve o Poder Judiciário se omitir de tentar. Rolf. prestar. na ação de regulamentação de visitas de nº 8. 27 Costa. fev. ele possa suprir as suas necessidades de modo geral. XII Jornada de Direito de Família. por exemplo. Op. Direito de Família: processo. Madaleno. com alimentação.. Derecho de daños. moradia. Rodrigo Pereira da.930. Apud Madaleno. In: Cúneo. ainda que compulsória. não obstante haja entendimentos no sentido de que pai condenado à pena pecuniária por sua ausência jamais irá se aproximar do filho. 3. Cláudio A. o abuso de direito nos alimentos pode ser cometido pelo alimentante ou pelo alimentando. em sentença proferida em 09 de novembro de 1983. de forma concreta.122. Nos casos de abuso do pai ou da mãe visitantes. 2005. conforme refere a autora Maria Aracy Menezes da Costa27. (Coords. Maria Aracy Menezes da. teoria e prática. Buenos Aires: Ediciones La Rocca. p. 14 . que podem. Rio de Janeiro: Forense. vestuário e a alimentação adequada quando o rebento está em sua companhia e sob a sua orientação26.). p. nos quais os excessos podem partir tanto do guardião quanto do genitor visitante. como também para obrigar o pai a reparar o afeto que deixou de destinar aos filhos. correspondendo ao conjunto de meios materiais necessários ao seu sustento28. cuarta parte (B). 2003.). Karin. com o valor alcançado mensalmente ao alimentando. como ao frio e à insolação. solidariedade ao parente ou à 26 Belluscio. ser os filhos ou a ex-esposa.42. In: Cunha.de contágio.

Com relação à ação de execução de alimentos. Madaleno. ao prescrever que o abuso de direito seria verificado. Alimentos para filhos maiores. é necessário que o credor de alimentos ajuíze uma execução de alimentos. o que acaba reduzindo a prestação jurisdicional em sede de alimentos atrasados e ferindo a dignidade do alimentando. comete verdadeiro abuso do seu direito de defesa ao opor resistência injustificada ao andamento da execução. p. com argumentos descabidos e meramente protelatórios. p. causando toda a sorte de dificuldades aos alimentandos. mero capricho. resistência injustificada ao andamento do processo31. Abusa do seu direito o alimentante que atrasa o pagamento da pensão alimentícia. Na maioria dos casos em que a obrigação alimentar não é cumprida em dia. do gás. Mariângela (Coords. 17.). mais os honorários advocatícios e todas as despesas que efetuou. como já dispunha o art. VI – provocar incidentes manifestamente infundados. Ênio Santarelli. que precisam pagar as mensalidades escolares. bem como na resistência injustificada oposta pelo réu ao prosseguimento da demanda judicial. O juiz ou tribunal. 2007. Reputa-se litigante de má-fé aquele que: I – deduzir pretensão ou defesa contra texto expresso de lei ou fato incontroverso. condenará o litigante de má-fé a pagar multa não excedente a um por cento sobre o valor da causa e a indenizar a parte contrária dos prejuízos que esta sofreu. 3º do Código de Processo Civil de 1939. embora devesse possuir um rápido deslinde. 30 Madaleno. 29 Zuliani. na tentativa de postergar o cumprimento da obrigação alimentar. III – usar do processo para conseguir objetivo ilegal. 15 . Direito de Família em Pauta. 2004. Porto Alegre: Livraria do Advogado. O abuso no exercício da demanda é vislumbrado tanto na propositura de lides temerárias. 31 Art. In: Couto.175. Art. réu ou interveniente.antiga companhia de relacionamento amoroso que passa por dificuldades financeiras”29. Art. por igual. de ofício ou a requerimento.133. ao estabelecer que responderia por perdas e danos a parte que intentasse demanda por espírito de emulação. quando o réu opusesse. Responde por perdas e danos aquele que pleitear de má-fé como autor. II – alterar a verdade dos fatos. o supermercado. nos termos do parágrafo único do referido artigo de lei. serviços e fornecimento de bens e serviços tão indispensáveis ao corriqueiro estilo de vida e modo de viver a que o alimentando foi habituado30. maliciosamente. que ingressa em uma verdadeira batalha contra a demora no pagamento de sua pensão. 16 do CPC/73. Rolf. diversas vezes o devedor. V – proceder de modo temerário em qualquer incidente ou ato do processo. Milhoranza. acaba sendo demorada e causando verdadeira aflição ao alimentando. no exercício dos meios de defesa. Direito de Família e Sucessões. VII – interpuser recurso com intuito manifestamente protelatório. IV – opuser resistência injustificada ao andamento do processo. do médico ou do dentista e de cada um dos intermináveis vínculos de comércio. Sapucaia do Sul: Notadez. as contas do condomínio. dos medicamentos. 18. da luz. Sérgio. que. ou erro grosseiro. Rolf.

Rolf. E reduzir a prestação jurisdicional em sede de alimentos atrasados é ferir de morte órgão vital do exequente que luta com total desespero contra a insuportável e nefasta demora no pagamento de sua pensão alimentar”33. é considerado ato atentatório à dignidade da justiça o ato do devedor que frauda a execução. julgado em 24.71. A fim de punir o alimentante que excede o seu direito de defesa. empregando ardis e meios artificiosos. de má-fé. visando exclusivamente ao retardamento da prestação jurisdicional. assim como. sem qualquer consistência fática ou jurídica. conforme dispõe o artigo 600 do Código de Processo Civil. é mister ter um direito a reintegrar. porque excede os limites de seu direito. ou não indica ao juiz onde se encontram os bens sujeitos à execução. deduzindo pretensão com a qual ataca a causa que enseja a execução. Acesso em: 4 maio 2008. o abuso de direito do alimentante ao frustrar o pagamento da pensão alimentícia e ainda se valer de tentativas de defesa insustentáveis para procrastinar a cobrança dos alimentos devidos34. 34 16 .07. a parte que intenta ação vexatória incorre em responsabilidade. 3. como se dá nas ações declaratórias.174-175. reciprocamente. Nesse sentido. não se justifica a designação de nova audiência. que sofreu não somente prejuízos financeiros como abalos psicológicos.2007 e assim ementado: “Superada a fase de justificação. Agravo provido”.rs. Rolf Madaleno destaca a viabilidade do ressarcimento do credor pela procrastinação de seu crédito alimentar: “Permite a execução pela via da dignidade da pessoa humana estabelecer uma fértil composição de expeditos e 32 Martins. uma resistência injustificada à demanda contra ele intentada está exposto a uma semelhante condenação32. pode lhe ser imposto o pagamento de uma indenização pelos danos causados ao credor de alimentos. ou ainda um motivo sério para invocar a tutela jurídica. Direito de Família em Pauta. pois evidente as manobras procrastinatórias do devedor. para recorrer às instâncias judiciais.Logo. Por estas razões. 33 Madaleno. 1997. o réu que opuser. p. Resta evidenciado. ou sugerindo tese absolutamente insustentável. Rio de Janeiro: Forense. Pedro Baptista.gov. Nesse sentido. injustificadamente emprega resistência às ordens judiciais. p. portanto. Acerca do abuso no processo executivo. da 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do RS. leciona Rolf Madaleno: “Verifica-se o abuso do direito de defesa quando o executado opõe resistência injustificada ou maliciosa ao andamento da execução.ed. ou se opõe maliciosamente à execução. Disponível em: <http://www. O abuso do direito e o ato ilícito. um interesse legítimo a proteger.br>. sendo Relatora a Desembargadora Maria Berenice Dias.tj. o acórdão nº 70020686382.

neste caso. a fim de que a ação executiva cumpra seu objetivo de preservar a dignidade do credor de alimentos. mediante a celeridade e a efetividade do processo executivo. valendo-se da possibilidade de ser moralmente ressarcido pela procrastinação maliciosa de seu inquestionável crédito alimentar. é a busca de medidas para reduzir ou até mesmo abolir os atos procrastinatórios do devedor. dignidade à Justiça e ao credor da prestação alimentar. O que importa. continuam recebendo estes valores. que se vê obrigado a ingressar com demoradas demandas exoneratórias. Rolf. não mais as ações de execução. pois importa. que já não tem mais razões de continuar sendo alcançada. principalmente no caso dos alimentos para filhos maiores e ex-cônjuge ou convivente. A pensão alimentícia não serve como complementação de renda e tampouco para equiparar riquezas.177. mesmo de ofício. propositadamente postergadas pelo alimentando. inclusive o que procura rediscutir as suas possibilidades financeiras no processo de execução. 2008. mas sim as demandas exoneratórias de alimentos. Rolf. como fazem os alimentantes. pela via inversa. 35 36 Madaleno. Por outro lado. p.712. p. Há casos em que os filhos maiores e capazes ou ex-cônjuges em novo relacionamento não obstante exerçam atividade profissional remunerada e não dependam mais da pensão alimentícia do pai ou da mãe. Madaleno. Direito de Família em Pauta. devolver ao processo de execução alimentar a velha crença de que a pensão em atraso dá cadeia e gera outras eficazes soluções jurídicas de rápida satisfação processual”35. todos eles ensaiados para conferir. causando severos prejuízos aos devedores da pensão alimentícia.pontuais procedimentos processuais. que não é palco para este tipo de debate. acima de tudo. reservada a pensão para casos pontuais de real necessidade de alimentos”36. 17 . nestes casos de abuso do direito do genitor alimentante. Curso de Direito de Família. Rio de Janeiro: Forense. sendo que nestas duas últimas situações o direito à pensão alimentícia é cada vez mais raro. ou do ex-esposo. há casos em que os próprios alimentandos abusam do seu direito de receber alimentos e protelam. cumpre ressaltar que. embora tenham sido estudados casos de abuso do direito pelo alimentante e ventiladas hipóteses para conter estes abusos. beneficiado pelo fato de os alimentos serem considerados irrestituíveis ou irrepetíveis. “especialmente em decorrência da propalada igualdade constitucional dos cônjuges e dos gêneros sexuais. causando imensos prejuízos ao alimentante.

2008). Conclusão nº 47 do CETJRS. se preencherem os requisitos para o reconhecimento do prestação alimentar. tem sido garantido pelos magistrados38. salvo se dispuser de meios próprios para a sua manutenção. Assim. É inequívoca a necessidade dos filhos quando recentemente atingiram a maioridade civil e estão estudando regularmente. enquanto estiver cursando escola superior. garante reajustes automáticos e evita mais desgastes na relação pessoal entre mãe e filhos. Alimentos entre parentes e Direito Processual Civil. Alimentos. Recurso provido em parte” (Agravo de Instrumento nº 70023292998.696 do mesmo diploma legal. o acórdão do Tribunal de Justiça gaúcho. nos termos do art. cit. pode fornecê-los.tj.br>. teoria e prática.33.695 do Código Civil.De qualquer modo.rs.142. 2. Rolf. 2003. Além disso.gov. Gontijo. 2008. uns em falta de outros. p. 1. são devidos quando quem os pretende não tem bens suficientes. Direito de Família: processo. Como a alimentante mantém relação de emprego e tem ganhos salariais fixos. Acesso em: 02 ago.07. pelo seu trabalho. Tribunal de Justiça do RS. os alimentos devem ser fixados em percentual sobre os seus ganhos. 18 . Ou seja.. O recebimento de alimentos por filhos maiores. o direito à prestação de alimentos é recíproco entre pais e filhos. que necessitam da verba alimentar para a conclusão de seus estudos universitários. como consta no art. Guilherme Calmon Nogueira da. à própria mantença. Madaleno. Neste sentido. Relator: Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves. julgado em 16. Acerca dos alimentos para filhos maiores e capazes. p. e se encontram desempregados. p. 1. 1. de quem se reclamam. Ênio. seleções jurídicas COAD. em que pesem os tenham completado 18 anos.694 do Código Civil permanece dispondo acerca do direito a alimentos entre cônjuges e companheiros. o artigo 1. e da mesma forma o artigo 1. como aduz Ênio Zuliani: “Os filhos que atingem a maioridade e que são perfeitamente aptos ao trabalho figuram entre os credores de alimentos para a conclusão de cursos universitários ou 37 Gama. Filhos Maiores Que Não Trabalham. pais e filhos são sujeitos do direito a alimentos. nem pode prover. Os alimentos devem se amoldar ao binômio necessidade e possibilidade. pois assegura o equilíbrio no binômio possibilidade-necessidade. Rodrigo Pereira da. 38 Reiterada jurisprudência tem afirmado a não cessação da obrigação paterna diante da simples maioridade do filho. e aquele.). em lugar na ordem de vocação alimentar. determinando a manutenção do encargo até o limite de 24 anos deste (limite este extraído da legislação sobre o Imposto de Renda). 2008. primeiro filhos já prestem direito à Refere Guilherme Calmon Nogueira da Gama que: “O dever de prestar alimentos pelos pais permanecerá enquanto subsistirem as razões que motivaram a própria aplicação da norma legal”37. 3. 7ª Câmara Cível. Adequação do Quantum.306. Segismundo. Op. assim ementado: “Alimentos. e extensivo a todos os ascendentes. ainda poderão pedir que os pais lhes alimentos. Rio de Janeiro: Forense. jun.702 do referido diploma legal. um deles em estabelecimento de ensino superior. In: Cunha. Disponível em: <http://www. (Coords. Apud Zuliani. sem desfalque do necessário ao seu sustento. Filho Estudante Universitário. recaindo a obrigação nos mais próximos em grau.

Op. estudante do curso noturno de Direito. Madaleno. Rolf. com efeito que deve ser extinta a obrigação do alimentante. assiduidade e bom aproveitamento das disciplinas cursadas nas faculdades escolhidas. como decidiu o Tribunal de Justiça de São Paulo. além de cometer excessivo número de faltas. 41 Zuliani.481-4/8. Op. ao exonerar o genitor do dever de prestar alimentos ao filho maior. Direito de família e sucessões. na Apelação Cível nº 113. Ênio. cit. garantiram a eles esse direito os juízes. os alimentados não farão mais jus ao alcance da verba alimentar excepcionalmente destinada após atingirem a maioridade. 42 Zuliani.151. Sérgio. Isto porque a magnitude da obrigação alimentar não se coaduna com abusos. Ênio. p. do pai ou avós.. p. Ênio Santarelli. com mensalidades asseguradas pela pensão de avó materna. um verba que emprego de meio período diurno poderia proporcionar40. exige do pai. cit. Milhoranza. Op. In: Couto. Nesse sentido. Ênio..153. porquanto o vínculo alimentar para os filhos maiores é excepcional. 2007.). Mariângela (Coords. 19 . eis que os alimentos são para quem definitivamente não possui condições de arcar com a sua mantença sem o auxílio alimentar. ao extinguirem-se os motivos que ensejaram a permanência da prestação alimentícia aos filhos maiores e capazes. e caso seja comprovado o excesso de faltas ou aproveitamento pífio dos estudantes. julgada em 28 de setembro de 1999.152. da mesma forma como é assegurado pela jurisprudência o direito ao recebimento de alimentos por filhos maiores em curso superior até o término de seus estudos universitários. 40 Zuliani.136. pela jurisprudência que criaram”39 Contudo. a complementação alimentar necessária para conclusão universitária. um enunciado que se afirma sem base legislativa. comprobatórias de sua indisciplina e desleixo para com os estudos41. Sapucaia do Sul: Notadez. Logo. exige transparência e equivalência de deveres e obrigações. 39 Zuliani. pelo fato de ter sido verificada a sua reprovação em 80% das matérias ministradas. que. a lição do Desembargador Ênio Zuliani: “O mau uso da pensão complementar é motivo para se dar como perdido o direito de exigir. por ser inadmissível financiar projetos inúteis ou devaneios de alunos medíocres”42. p. Também foi motivo para exonerar o pai da prestação alimentar a desídia da filha maior que pretendia auxílio paterno para continuar seus estudos na Faculdade de Direito. provando as suas frequências. com alimentação e vestuário garantidos pela genitora. Alimentos para filhos maiores. sem demonstrar disposição para o trabalho. p.profissionalizantes. cit.. é dever destes a comprovação de suas condições de universitários dependentes da verba alimentar.

À vista da preservação dos valores éticos e de boa-fé. a fim de reprimir abusos de quaisquer direitos e vedando atitudes que contrariam as premissas da ética e da boa-fé. porque ingressaram em uma faixa de nebulosa licitude. ainda mais quando a demora na conclusão de seus estudos ocorre de maneira propositada.012347-7. Nesse sentido. julgada em 17.gov. p.br>. em nenhum caso. enriquecem ilicitamente. porquanto não há mais razão para a mantença de seu crédito. embora estejam matriculados em uma Universidade. formaram família e agora dependem do cônjuge. ainda. o da cessação instantânea da obrigação e a obrigação adicional de ter de devolver os valores indevidamente recebidos43. em face do princípio da irrepetibilidade dos alimentos. Impossibilidade. para declarar a inexistência do dever alimentar do autor.br>. Alimentos. Portanto. o acórdão referente à Apelação Cível nº 2002. estes alimentos deixam de ser irrepetíveis. 45 Disponível em: <http://www. condenando a ré à devolução dos valores indevidamente recebidos a partir desta data. não cabe a restituição dos valores já pagos. pela 1ª Câmara de Direito Civil e assim ementado: Apelação Cível. que passou a analisar e redimensionar o princípio da irrepetibilidade conforme critérios ético-jurídicos visando à concretização da justiça. suscitando. Rolf.2003. não apresentam bons rendimentos ou são reprovados em diversas cadeiras. está lentamente ocorrendo uma modificação da jurisprudência neste sentido. Recurso Desprovido. Para Rolf Madaleno. Curso de direito de família. embora imperasse o entendimento de que.gov. ou que já conquistaram rendas próprias de onde possam tirar os seus sustentos. 2008. em face do princípio da irrepetibilidade dos alimentos44. Também não se enquadram no rol de destinatários da extraordinária verba aqueles que passaram a exercer atividade laboral remunerada. Disponível em: <http://www.tjsc. Restituição dos valores pagos indevidamente. ao continuaremrecebendo mensalmente os desnecessários alimentos. através da eticidade e da boa-fé objetiva. Execução provisória.034220-945. Princípio da irrepetbilidade. terminaram seus estudos e a sua formação profissional ou.Os filhos maiores que. Acesso em: 28 jun.tjsc.06. Acerca da possibilidade de devolução dos valores. por 43 Madaleno.729. de sustento e manutenção da vida do alimentado. retroativamente à data de 1º de setembro de 2000. 44 20 . a verba alimentar poderia ser restituída. entre outros efeitos. assim como os alunos que não são assíduos e tampouco se preocupam em concluir seus estudos no menor tempo possível. com o objetivo de prolongar o recebimento dos alimentos. pois já possuem condições de proverem seu sustento independentemente dos valores alcançados pelos alimentantes. o Tribunal de Justiça de Santa Catarina julgou parcialmente procedente a Apelação de nº 2004. Em sendo a pensão alimentícia destinada a fins genéricos. não são merecedores da excepcional pensão alimentícia que lhes é destinada.

é mister o deferimento da exoneração de alimentos em tutela antecipada nos casos de flagrante desnecessidade do recebimento da verba alimentar. o que acaba convertendo os alimentos em uma renda extra. que pode levar anos para chegar ao fim e. de boa-fé pelo alimentante. deixaram de ser devidos pela má-fé da alimentanda. a qual. como dito. para evitar que o alimentando continue credor de alimentos durante o trâmite da ação exoneratória. sabedores da lentidão do Judiciário. a fim de evitar o prejuízo ainda maior do alimentante em face do abuso do direito do alimentando. muitos alimentandos preferem ocultar a sua nova situação de independência financeira e. com isso. solicitando a imediata suspensão dos pagamentos da pensão alimentícia. os alimentos pagos. sem olvidar a afronta à moral jurídica que seria permitir o enriquecimento indevido do alimentando. recebido uma herança ou qualquer outra fonte de rendimentos que lhe proporcione viver sem a pensão alimentícia que outrora necessitava. preferem aguardar o alimentante ingressar com a ação exoneratória de alimentos. não obstante a atitude mais correta fosse a do alimentando denunciar a sua independência financeira e. em que se iniciou a união estável. A conduta exigível da credora dos alimentos era a de comunicar ao alimentante o seu novo relacionamento. O mesmo ocorre com o ex-cônjuge que continua recebendo alimentos quando já conseguiu meios próprios para arcar com o seu sustento.730. 21 . Curso de Direito de Família. praticamente nunca é dispensada por livre e espontânea vontade. a extinção de sua necessidade alimentar. Rolf. seja através de seu reingresso no mercado de trabalho. continuam recebendo a confortável pensão alimentícia. entretanto. E isto porque. o que ocorreria conforme os valores éticos e de boafé. diante da expressa proibição do artigo 884 do Código Civil46. Importante destacar que. Portanto. 46 Madaleno. enquanto não transita em julgado a sentença de procedência da exoneração dos alimentos.entender que cabia à requerida informar o seu ex-marido sobre a união estável por ela formada. A devolução de recursos se justificaria porque a atitude esperada do alimentando se agisse com boa-fé era a de denunciar o fim de sua dependência alimentar e interromper o recebimento da sua pensão alimentícia No entanto. p. a partir da união estável. é raro o alimentando declarar este fato. ou mesmo por ter recasado. preferiu continuar a receber a verba alimentar sem causa jurídica que a amparasse desde o ano de 2000.

Thereza Christina.134. Direito de Família em Pauta. Alves. ao coibir o recurso da fraude e do abuso que podem ser praticados através dela”49. Direito de Família em Pauta. Luciano. assim como nos casos em que restar evidenciada a ocorrência de abuso do direito.134. e tendo em vista que pessoa jurídica e sócio possuem autonomia patrimonial. utilizemse em prejuízo de terceiros do ‘escudo’ criado pela separação entre a sua personalidade e a personalidade jurídica de sua sociedade”50. imbuídos de má-fé. Questões controvertidas. O instituto da desconsideração da personalidade jurídica tem por fim a permissão de se penetrar no âmago da personalidade constituída por concessão legislativa a um ente jurídico. permitindo que se encontre seus administradores a fim de responsabilizá-los por atos praticados através do uso da pessoa jurídica48. Além do constante emprego da desconsideração da pessoa jurídica nas relações de Direito de Trabalho e do Consumidor. 49 Madaleno. Convém ter presente que desconsideração da personalidade jurídica da sociedade somente pode ser concedida em casos excepcionais. 48 22 . Jones Figueiredo. Método: São Paulo. A desconsideração da personalidade jurídica.3. Nahas. p. com o intuito de fraudar ou de limitar indevidamente sua responsabilidade patrimonial. 2007. violação da lei. esta superação somente deve ocorrer quando restar provado que o dano ao credor ocorreu de uso fraudulento ou abusivo da autonomia patrimonial47. Mário Luiz. Rio de Janeiro: Elsevier. 47 Madaleno. p. tais como fraude a execução. p. pela via da simulação ou da fraude. p.251. Desconsideração da pessoa jurídica: reflexos civis e empresariais no direito do trabalho. pertencentes à sociedade afetiva e agrupá-los sob o manto de uma estrutura societária já existente ou criada com o único propósito de fraudar a meação do cônjuge ou do convivente ou para sonegar alimentos. violação dos estatutos da sociedade. desviar bens particulares. fraude à credores. 50 Dequech. Conforme Rolf Madaleno: “A desconsideração visa a preservar e a aprimorar a disciplina da pessoa jurídica. dissolução irregular da sociedade. através do abuso da sociedade conjugal. excesso de poder. ocorre no Direito de Família brasileiro a aplicação da desconsideração da personalidade jurídica quando o sócio cônjuge ou convivente.5 A Fraude Societária e a Desconsideração da Personalidade Jurídica Pelo Abuso do Direito A desconsideração da personalidade jurídica se trata da superação desta personalidade jurídica.94. Aduz Luciano Dequech que: “A organização mercantil sob a forma de sociedade permite que seus sócios. Parte Geral do Código Civil. In: Delgado. Rolf. Rolf.

A fim de ser determinada a medida invasora da seara da personalidade jurídica. Dispõe o artigo 50 do Código Civil de 2002: “Em caso de abuso da personalidade jurídica.rs. deve estar caracterizada flagrante injustiça. Nesse sentido a lição de Rolf Madaleno: “Desimportam as atividades licitamente realizadas pela sociedade. utilizar o instituto da desconsideração da personalidade jurídica. Esse tema é muito bem analisado pela Desembargadora Rejane Maria Dias de Castro Bins. para que este não prevaleça em detrimento dos credores e de terceiros de boa-fé”51. caracterizado pelo desvio de finalidade.br>. ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo. no referente à fixação da pensão alimentícia aos seus dependentes. ou pela confusão patrimonial. Rolf. pode o juiz decidir. ao referir que: “A aplicação da disregard doctrine objetiva justamente desvendar a realidade que se oculta sob os véus do formalismo jurídico. a ocultação do patrimônio conjugal sob o manto da personalidade jurídica se presta tanto para evitar a partilha deste patrimônio como para ocultar os verdadeiros recursos e a efetiva condição social do cônjuge sócio. julgada pela 9ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Cabe ao Juízo verificar se o uso da personalidade jurídica causa abuso do direito ou fraude. são necessárias a arguição de desvio de finalidade. Acesso em: 4 maio 2008. Acerca dos estratagemas efetivados por empresários que desviam todos os seus bens para a empresa para prejudicar o cônjuge no momento da 51 52 Disponível em: <http://www. Relatora do acórdão relativo à Apelação Cível de nº 70005407044.139. p. Madaleno.tj. 23 . mas cabe buscar os atos abusivos daquele sócio que se escondeu sob a máscara jurídica para causar dano a terceiro que é seu credor. no âmbito do Direito de Família. sendo que. para. dissolução irregular da sociedade e confusão patrimonial. sem que este precise recorrer às vias jurídicas da simulação. que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica”. Direito de Família em Pauta. através da análise destas circunstâncias. Importante ressaltar que a medida da desconsideração da personalidade jurídica serve como uma maneira mais eficaz de buscar os atos abusivos do sócio que através do uso fraudulento e abusivo da personalidade jurídica causou prejuízo a terceiro. agregada a esses requisitos mencionados.gov. seu credor. a requerimento da parte. revogação e outras tantas complicadas ações de nulidade e anulação de atos jurídicos decorrentes do uso abusivo do meio técnico da personalidade jurídica”52.Para a utilização do instituto da desconsideração da personalidade jurídica.

o Tribunal de Justiça gaúcho tem deferido a produção de provas nos processos de separação judicial ou de alimentos. tem merecido crescente prestígio na jurisprudência e na doutrina especializada a disregard doctrine.278. Alimentos. Aduz Rolf Madaleno que “a exegese da disregard não busca negar a pessoa jurídica. de forma a lesar o cônjuge no momento da partilha. como ocorreu no julgamento do Agravo de Instrumento de nº 70022663454.rs. sendo que esta confusão no patrimônio conjugal e empresarial acaba ensejando o pedido de desconstituição da personalidade jurídica da empresa. Questões Controvertidas. de que embora seja notório que a pessoa jurídica não se pode confundir com a pessoa física de seu titular. A desconsideração da personalidade jurídica na sucessão legítima. Mário Luiz. uma vez apurada a utilização intencional da fraude ou do abuso de direito”53. por exemplo. Método: São Paulo. In: Delgado. Desemb. costuma ocorrer o emprego de recursos do casal na constituição da empresa. de modo justamente a evitar conhecidas estratégias praticadas por empresários que desviam todo o seu patrimônio para a empresa.br>. Presente a verossimilhança das alegações de mau uso da personalidade jurídica para a ocultação de bens e rendas. aplicada ao Direito de Família. mas. Muitas vezes o automóvel do cônjuge sócio e o da sua esposa são colocados em nome da empresa. Jones Figueiredo. no Agravo de Instrumento nº 70016600454.gov. tal como procedeu a 7ª Câmara Cível. além disso. p. sendo Relator o Desembargador Alzir Felippe Schmitz. Rolf. 24 . não há falar em impossibilidade do requerimento de demonstração dos extratos referentes às movimentações da pessoa jurídica. assim como o imóvel da praia ou até mesmo a residência do casal são postos em nome da empresa do cônjuge e. ao desconsiderá-la excepcionalmente.partilha. que tramitou perante a 8ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. até visa a resguardá-la. Ainda no pertinente à aplicação do instituto da disregard. julgado em 10 de abril de 2008 e assim ementado: “Agravo de instrumento. pois 53 Madaleno. 54 Disponível em: <http://www. antes. também pode ser empregado quando for verificado que um dos cônjuges abusou de sua condição de sócio de empresa e alienou fraudulentamente as cotas sociais da empresa conjugal ainda na vigência do casamento. Negaram provimento. quando devidamente comprovado que a alienação das cotas sociais ainda durante o matrimônio foi efetivada tão somente com o intuito de fraudar a meação do outro cônjuge. Acesso em: 4 maio 2008. como instituição de direito.tj. Parte Geral do Código Civil. através do acolhimento unânime do voto do Relator. Luiz Felipe Brasil Santos. para a comprovação do desvio de bens do casal para o nome da empresa. Separação litigiosa. Unânime”54. Alves.

a fim de salvaguardar a meação do consorte prejudicado. Anais V Congresso Brasileiro de Direito de Família. mostra-se impositiva a manutenção do quantum alimentar fixado na sentença. Rolf. Tem sido ampla e eficaz a jurisprudência que aplica a desconsideração da personalidade jurídica sempre que houver incompatibilidade entre o ordenamento jurídico e o resultado a que se atingiria. visando a obstar ao arrolamento de bens promovido pela mulher. p. ocultando sob o manto da pessoa jurídica. Paulo Heerdt.gov. sendo relatora a Desembargadora Maria Berenice Dias. Evidenciada a capacidade financeira do varão. Não se conhece dos documentos juntados com o apelo em inobservância à previsão contida no art. e somente o genitor realiza os aportes reais do patrimônio da sociedade. 397 do diploma processual civil. para a qual faz despejar. em prejuízo dos direitos daquele consorte. mormente quando a análise de tal documentação implicaria supressão de um grau de jurisdição.” Disponível em: <http://www. Apelos providos em parte.tj. Demonstrada nos autos a alienação fraudulenta de cotas sociais na vigência do casamento. ao falecer. excluindo o terceiro.esquematizada sem a existência de qualquer dificuldade econômica ou em período próximo à efetivação da separação do casal55. da 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. no caso concreto. sendo que. Juntada de Documentos. Possibilidade de fraude do varão. como anteparo da fraude à meação. 56 Madaleno. senão todo. compreender com Rolf Madaleno uma diuturna constatação do mau uso da pessoa jurídica. Op. através da utilização da pessoa jurídica. tornando possível. 25 . Impõe-se o redimensionamento dos encargos de sucumbência estabelecidos em primeira instância em desconfomidade com o art. p.487-488. Disregard.rs. 279. através do acolhimento unânime do voto do Relator. cit. rejeitando-se pedido de liminar em embargos de terceiro promovidos pela sociedade. que durante todo o processo manteve atitude dissimulada quanto às suas reais possibilidades. que consistem da maioria ou da totalidade de seus bens pessoais. 57 Alves. ao menos o rol mais significativo dos bens comuns. é de ser aplicado o instituto da disregard. Ônus sucumbenciais. A desconsideração da personalidade jurídica na sucessão legítima. Alimentos devidos à ex-cônjuge. em realidade.br>. Abuso de Direito no Direito de Família. Desemb. ao referir que deveria ser desconsiderada a personalidade jurídica de sociedade por cotas formada por dois sócios.. ao improver o Recurso de nº 594069379. concubinos casados pelo religioso. Partilha de bens. É aplicada a desconsideração da personalidade jurídica também nos casos em que se verifica a fraude à sucessão legítima. 21 do Código de Processo Civil. 2006. julgado em 20 de dezembro de 2006 e assim ementado: “Apelação. sendo exemplo comum desta fraude quando um pai constituiu sociedade empresarial com somente dois filhos. Jones Figueiredo. por exemplo. pelo cônjuge empresário. tal como procedeu a 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do RS. o acórdão nº 70016529604. todos os seus filhos herdarão suas 55 Neste sentido. Acesso em: 4 maio 2008. que. estava agindo em nome próprio e não da sociedade56. Assevera Jones Figueiredo Alves57 que é preciso ter em conta que o abuso de direito no contexto societário conjugal reflete de forma mais incisiva um dano patrimonial impregnado da conduta culposa do respeito ao outro cônjuge.

com bons rendimentos. ainda. tal como procedeu a 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Direito de Família em Pauta. Acesso em: 20 jul.281. decidindo aplicar a teoria da desconsideração da pessoa jurídica nos autos da execução de alimentos. o lastro patrimonial”59. 26 . Neste sentido decidiu o Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. cujos nomes são emprestados para a colocação de bens. obstaculizar a cobrança de alimentos ou. fraudar a sucessão legítima. através do qual foi mantida a decisão que advertiu o devedor de alimentos que a sua conduta processual constituiu ato atentatório à dignidade 58 Madaleno.cit. ostentando bom padrão de vida e possuindo rentável empresa. para que seja reposto o patrimônio desviado e partilhado de forma correta entre o casal. para que o verdadeiro patrimônio conjugal seja apurado. para desviá-los do patrimônio do casal ou para ocultar a verdadeira situação financeira do fraudador. não possui bens em seu nome. inclusive mediante prova pericial.gov. julgado em 30 de novembro de 2006.rs. em face da dívida alimentar que se avolumava. enquanto os demais irmãos formarão o grupo majoritário daquela empresa58.137. nos casos em que o devedor. Conforme Rolf Madaleno. contudo. escondendo-se no manto da pessoa jurídica para manter-se inadimplente. A disregard doctrine também vem sendo aplicada nas execuções de alimentos. porque havia tratado de transferi-los para a sua empresa. 2008.tj.quotas sociais. com o recurso da personalidade jurídica. no Agravo de Instrumento nº 7001743183460. ao julgar o Agravo de Instrumento nº 70012013504. Rolf. Portanto. alienar as cotas sociais da empresa do casal de forma dolosa. 59 Madaleno. Op. enquanto o devedor não possuía bens em seu nome. caso necessário. 60 Disponível em: <http://www. nos casos em que restarem configurados fortes indícios de abuso do direito do cônjuge ao desviar bens da sociedade conjugal para empresa constituída em nome de terceiros.br>. o filho que foi excluído da sociedade quando de sua constituição será apenas um sócio minoritário. passíveis de penhora. diminuindo ou desaparecendo. p. p. “são ricas e pródigas as condutas societárias que procuram impedir o cumprimento de um acordo ou de uma sentença alimentar judicial. A desconsideração da personalidade jurídica na sucessão legítima. Rolf. Importante ressaltar ainda que nas demandas de Direito de Família também são verificadas situações de verdadeira fraude através da utilização de pessoas físicas. é imperiosa a aplicação do instituto da disregard. entre os filhos ou para que sejam estabelecidos os alimentos e o valor condizente com as reais possibilidades do alimentante. a proporcionar ao devedor um diferenciado padrão de vida.. com a intenção de fraudar a meação do outro cônjuge.

cônjuge ou companheiro. sendo que. promove sem necessidade a venda de bens que geravam renda. além de estar retardando o cumprimento da execução. ele próprio se intitula o proprietário. sem que houvesse dívidas ou quaisquer motivos para a alienação do patrimônio. se os contratos de compra e venda possuem firma reconhecida E. conforme o qual não dependem de provas os fatos em cujo favor milita a presunção legal de existência ou veracidade. descendentes. aquele que comprou os bens não tinha origem para a aquisição. às vésperas da separação do casal. os descendentes. para o afastamento dos indícios de fraude é mister a comprovação de que o dinheiro para a aquisição do bem realmente saiu da conta do comprador. mas em nome de sua genitora. assim como é suspeita a alienação de bens quando realizada por preço vil ou. inciso VI. que dispõe serem nulas as disposições testamentárias em favor de pessoas não legitimadas a suceder. os irmãos e o cônjuge ou companheiro. empregados. como prevê o parágrafo único do artigo 1. Neste mesmo aresto. nos termos do inciso IV do artigo 334. tais como a utilização de pessoas próximas ao fraudador. o magistrado poderá formar seu convencimento. registrado em nome de sua genitora. do Código Civil que é nulo o negócio jurídico que tiver por objetivo fraudar lei imperativa. diante do fato de que. As situações de utilização de nome de terceiros como maneira de fraude podem ser verificadas através uma série de indícios e evidências. quando efetivada pelo valor de mercado. por fim. e lhe aplicou a multa prevista no artigo 601 do Código de Processo Civil. etc. além de verificar se a pessoa que comprou tinha vínculos de amizade com o vendedor. Ainda que tivesse origem. estava ocultando o seu real patrimônio. Dispõe o artigo 166. São presumidas pessoas interpostas os ascendentes.802 do Código Civil. embora não tivesse registrado em nome do devedor. 27 . ou feitas mediante interposta pessoa. irmãos. na qual o executado declarou que ele mesmo havia adquirido o imóvel na planta e contratado arquiteta para decorá-lo conforme as suas necessidades. também restou confirmada a decisão que determinou a penhora sobre o imóvel que. por exemplo ascendentes. há indícios de fraude quando são utilizados tabelionatos de outras cidades para firmar as escrituras de compra e venda. com base em indícios de fraude. assim como se o adquirente efetivamente tomou posse do bem. ainda quando simuladas sob a forma de contrato oneroso. Há indícios de fraude também quando o fraudador.da justiça. o que foi constatado em reportagem publicitária sobre o imóvel.

A criança.Assevera Rolf Madaleno que. Para Jorge Trindade: “A SAP manifesta-se principalmente no ambiente da mãe.618. Maria Berenice (Coord. se valendo da confiança e da dependência da criança. a última situação relatada é menos provável de acontecer.6 O Abuso do Direito e a Síndrome da Alienação Parental A Síndrome da Alienação Parental pode ser definida como um transtorno psicológico caracterizado por sintomas pelos quais um dos pais age com o intuito de transformar a consciência de seu filho. 2007. com a finalidade de prejudicar ou até mesmo extinguir seus vínculos e relacionamento com o outro genitor. da ação de partilha ou da execução alimentar. “invocadas para impedir o contato dos filhos com o 61 Madaleno.). Op.103. não havendo a necessidade de a parte interessada promover demorada ação judicial para desfazer a fraude e interpelar a interposta pessoa: “Descoberta a fraude. Incesto e a alienação parental: realidades que a Justiça insiste em não ver. sem a existência de qualquer justificativa para estas atitudes. através de falsas denúncias de maus-tratos ou de abuso sexual. p. cit. voltam as coisas ao real estado jurídico ocultado pela falsa aparência contratada com o conivente auxílio de interposta pessoa. convivente ou alimentário61. no ventre da separação judicial. Curso de Direito de Família. haja vista a alienação ser processo normalmente lento e dependente da recorrente implantação de avaliações prejudiciais. quando a criança passa a repelir o genitor guardião através do mando do visitador. Rolf. 62 28 . mediante a inserção de memórias falsas na criança. injuriosas e humilhantes em relação ao outro genitor. desqualificadoras. In: Dias. pois a sentença judicial discorreu o véu do contrato clandestino realizado para enganar o cônjuge. 3. pai ou mãe”62. contudo. Trindade. mediante a influência e a argumentação do genitor com quem convive diariamente. ao ser configurada a fraude. passa a nutrir profunda aversão ao genitor visitante. notadamente quando ainda pequenos.. sem necessidade de nova escrituração. Entretanto. p. o que pode ocorrer também no sentido inverso. São Paulo: Revista dos Tribunais. A implantação das avaliações depreciativas acerca do outro genitor ocorre das mais diversas e ardilosas maneiras. o magistrado deve declarar episodicamente. através de diferentes formas de atuação. Síndrome da alienação parental. por exemplo. a manutenção do bem na composição do acervo conjugal ou ordenar a sua devida compensação. negativas. ela pode incidir em qualquer um dos genitores. Jorge. devido à tradição de que a mulher é mais indicada para exercer a guarda dos filhos.

até as mais explícitas. Porto Alegre: Ricardo Lenz.100. algumas das formas de abuso emocional são “corrupção que leva a criança a modelos de condutas não aceitáveis pela sociedade. Elisabeth. em razão de mágoas e ressentimentos causados por um difícil desenlace conjugal. 4.ed. São Paulo: Revista dos Tribunais. Elisabeth. ou até mesmo por incapacidade de lidar com a entrega do filho no momento das visitas ou das férias. Trata-se de verdadeira campanha de desmoralização. 64 Schreiber. Os direitos fundamentas da criança na violência intrafamiliar. A Síndrome da Alienação Parental é identificada como uma forma gravíssima de abuso contra a criança. Síndrome da alienação parental (SAP). 2007. degradação. Aspectos clínicos. A criança é induzida a afastar-se de quem ama e de quem a ama”66. Segundo Joelza Mesquita Pires. 66 Dias. p. desde as mais sutis. 63 Trindade. “o abuso emocional trata-se de uma forma de maltrato infantil difícil de ser diagnosticada justamente por não deixar nenhum sinal visível”64. In: DIAS. Os direitos fundamentas da criança na violência intrafamiliar. O genitor ou genitora. programando o filho de forma contudente até que passe a acreditar que o fato narrado realmente aconteceu”63 Conforme Elisabeth Schreiber. 65 Pires. 1998. que o filho acaba se convencendo de que os atos relatados pelo guardião realmente aconteceram. fragilizada pelo conflito existente entre seus pais e absolutamente suscetível à influência de um deles. exploração. Porto Alegre: Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho – AMENCAR. opta por medidas desastrosas para encontrar uma forma de acabar com esta situação. 2001. Para Maria Berenice Dias. p. ao ver destruídos os seus sonhos e no mais das vezes ao ter que carregar para o resto de sua vida as lembranças implantadas de situações jamais ocorridas. E são tantas as argumentações utilizadas pelo alienador. Maria Berenice (Coord.100. Joelza Mesquita A. olvidando-se dos incontáveis prejuízos sofridos pela criança. Apud Schreiber. p.409. Manual de Direito das Famílias.103. In: Violência doméstica. Incesto e alienação parental: realidades que a Justiça insiste em não ver. 2001.é induzido a odiar o outro genitor.67. Porto Alegre: Ricardo Lenz. Violência na infância. quando o guardião com problemas psicológicos sente-se abandonado e descartado. na síndrome da alienação parental “o filho é utilizado como instrumento da agressividade . 29 .genitor odiado. p. 2007. Jorge. São Paulo: Revista dos Tribunais.). rejeição. Maria Berenice. que passariam despercebidas se não fossem empregadas no momento certo. ao ardilosamente exceder seus direitos de guardião para manipular a criança. terrorismo e indisponibilidade emocional”65. isolamento. vista como um objeto e um sujeito de suas vontades para atingir o outro genitor. p.

Maria Berenice (Coord. histórias de desamparo ou.410. Desde que este tema passou a receber uma maior atenção. 70 Trindade. As características do alienador são identificadas como dependência. falsas memórias”67. In: Dias. Uma das formas de tentativa de o guardião romper os vínculos da criança com o outro genitor através da alienação parental decorre de falsas denúncias de abuso sexual contra a criança. In: Dias. p. julgada em 18 de junho de 2008. nem o alienador distingue mais a diferença entre verdade e mentira. principalmente em ações de disputa e regulamentação de visitas”68 Conforme Rolf Madaleno. com o uso de chantagens de extrema violência mental. Isso quando nos casos mais severos de alienação um genitor fanático não acrescenta uma acusação de agressão ou de abuso sexual”69. litigância como forma de manter aceso o conflito familiar e de negar a perda. resistência a ser avaliado. É o que vem sendo chamado de implantação de falsas memórias. Inocência corrompida. muitas vezes. São Paulo: Revista dos Tribunais. ao se valerem da Síndrome da Alienação Parental. 69 Madaleno. 2007. A tentativa do guardião é romper o vínculo de convívio paterno-filial com o outro genitor. de vitórias afetivas. que vive com falsas personagens de uma falsa existência. São Paulo: Revista dos Tribunais. Acesso em: 08 ago. Incesto e a alienação parental: realidades que a Justiça insiste em não ver. A sua verdade passa a ser verdade para o filho.). sedução ou manipulação. p.com. 2007. recusa ou falso interesse pelo tratamento70. Síndrome da alienação parental (SAP). e o menor expressa isso de forma exagerada e injustificada para rejeitar o contato. hábito contumaz de atacar decisões judiciais. Jorge. 30 .br>. como ocorreu no julgamento do Agravo de Instrumento nº 70023376330. assim. principalmente em processo de separação. implantando-se. resistência. baixa autoestima. porquanto a prova desta prática é limitada. condutas de não respeitar as regras. Disponível em: <http://www.jusnews. 68 Dias. com a só finalidade vingativa. Incesto e alienação parental: realidades que a Justiça insiste em não ver. queixumes. São Paulo: Revista dos Tribunais. que acredita piamente que o visitante não lhe faz bem. Maria Berenice. em 67 Dias.103. “Todas estas dificuldades probatórias acabam estimulando falsas denúncias de abuso sexual. A alienação parental vem sendo analisada pelos Tribunais. da 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. sem nenhuma chance de defesa da criança.Aduz Maria Berenice Dias que: “Com o tempo. ao confronto da palavra de um adulto com a de uma criança. começou a haver um maior número de denúncias de ocorrência de incesto. Rolf. p.ed.). “adultos corrompem covardemente a inocência das crianças. Manual de Direito das Famílias. sendo Relator o Desembargador Ricardo Raupp Ruschel. ao contrário. Maria Berenice.35. 2007. Maria Berenice (Coord. dominância e imposição. 4. Incesto e o mito da família feliz. 2008.

Portanto. da 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Abuso sexual. Maria Berenice Dias. 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do RS. os quais conseguem distinguir verdadeiras situações de maus-tratos físicos ou psicológicos e emocionais de situações existentes apenas na imaginação da criança. em face da constatação de que os avós desmereciam a figura paterna.que foi mantida a imposição da genitora guardiã de conduzir o filho à visitação paterna. tendo sido ressaltado que as visitas aos avós maternos poderiam inclusive ser suspensas. psiquiatras e assistentes sociais. Estando as visitas do genitor à filha sendo realizadas junto a serviço especializado. havendo disputa de guarda de criança cuja mãe falecera entre o pai e os avós maternos. sob pena de multa diária. de abuso sexual. cumpre ressaltar que. ainda em fase de investigação. mediante a configuração da Síndrome da Alienação Parental. portanto. situações de verdadeiros excessos aos limites do poder familiar. não comprovada. como ocorre na Síndrome da Alienação Parental: “A tentativa de invalidar a figura paterna. não há justificativa para que se proceda à destituição do poder familiar. Não obstante a dificuldade no enfrentamento destas questões que envolvem crianças absolutamente vulneráveis e dependentes dos seus genitores. aplicações de medidas para impedir que ocorram situações de abuso do direito pela Síndrome da Alienação Parental. vêm sendo consideradas e analisadas pelos Julgadores. ou. os quais possuem grande responsabilidade de verificar as situações vivenciadas pelas crianças e que para isso contam com o auxílio de psicólogos. também. a ameaça da suspensão das visitas ao pai ou à mãe que tenta invalidar a figura do outro. o acórdão nº 70015224140. ainda. tendo sido configurados indícios de síndrome da alienação parental por parte da mãe. Foram constatadas. que demonstrou reunir todas as condições necessárias para proporcionar à filha um ambiente familiar com amor e limites. através da síndrome de alienação parental. Negado provimento. necessários ao seu saudável crescimento.2006 e assim ementado: Destituição do poder familiar. Síndrome da alienação parental. a respaldarem a penalidade imposta. no qual. quais sejam a aplicação de astreintes ao genitor que tenta impedir o convívio da criança com o outro genitor. julgado em 12. sendo Relatora a Desembargadora. a guarda foi mantida com o genitor. implantadas na sua memória por um de seus genitores. 31 . sendo Relator o Desembargador Luiz Felipe Brasil Santos e julgado em 13 de junho de 2007. a obrigatoriedade de realização das visitas junto a serviço especializado. só milita em desfavor da criança e pode ensejar.07. suspensão das visitas ao avós. a ser postulada em processo próprio”71. A denúncia de abuso sexual levada a efeito pela genitora não está evidenciada. caso persista. nos quais tanto confiam e que tanto amam. Também foi analisada a Síndrome da Alienação Parental no acórdão de nº 70017390972. quando houver denúncia. 71 Nesse sentido. havendo a possibilidade de se estar frente à hipótese da chamada síndrome da alienação parental.

mostra-se recomendável a aplicação de medida de proteção às crianças. sendo possível imaginar a frustração dos jovens nubentes. devendo estas e também a avó receberem acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Mesmo que o sistema de visitas tenha sido acordado e devidamente homologado judicialmente.2007). 32 . Relator Desembargador Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves. conforme se mostre mais adequado aos interesses dos infantes. com o devido tratamento. ainda que as visitas passem a ser cumpridas e respeitadas. e dos exaustivamente planejados festejos. do artigo 148 do Estatuto da Criança e do Adolescente.09. visando a assegurar a convivência entre os avós biológicos e os netos. alínea c. da 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do RS. conforme o parágrafo único. Diante das peculiaridades do caso dos autos. é mister que o genitor responsável pela instauração da Síndrome e a criança ou adolescente possam ter o acompanhamento de um terapeuta. Hipótese do Art. sendo que as visitas deverão se dar ao menos uma vez por mês. sendo que. que pouco antes das cerimônias religiosa e cível. Cabimento. conforme dispõe o parágrafo único do artigo 1.631 do Código Civil.7 O Abuso do Direito de Impedir o Casamento dos Filhos Menores Prevê o artigo 1. cabendo ao magistrado deliberar acerca da ampliação. 273 do CPC. a fim de que os prejuízos psicológicos sofridos sejam minimizados e para que. não voltem a ocorrer casos de abuso72.517 do Código Civil a necessidade de autorização de ambos os pais ou representantes legais para pessoas com 16 anos casaremse. Incidência do art. cabendo a este profissional monitorar o relacionamento e propor ao julgador a quo as providências que entender adequadas acerca da visitação. Pedido Liminar de Suspensão das Visitas. por entendermos que. Recursos providos em parte (Agravo de Instrumento nº 70020455028. com acompanhamento de terapeuta e em ambiente terapêutico. no caso de divergência entre os pais quanto à autorização para o filho casar.096/90. o juiz tem o poder de suprir a denegação do consentimento. a revogação da autorização concedida pode ser efetivada até a celebração do casamento. j.embora as medidas adotadas pelos julgadores sejam adequadas na tentativa de compelir os casos de abuso do direito na Síndrome da Alienação Parental. redução ou suspensão das visitas. 1. é assegurado a qualquer deles recorrer ao juiz para solução do desacordo. 2. Nos casos em que a recusa dos genitores em conceder a autorização para que o filho menor convole núpcias for considerada injusta. recebem a notícia de que a autorização 72 Alteração na Regulamentação de Visitas. Conforme a lei. Lei 8. 273 do CPC. conferido pelo artigo 1. 3. é cabível a redefinição das visitas quando existe elemento de convicção novo nos autos evidenciando que a forma estabelecida vem se mostrando prejudicial aos infantes. em 26. é possível sugerir que a partir da suspeita de abuso do direito pela ocorrência da Síndrome da Alienação Parental seja ordenado o acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico da criança e do genitor. sendo competente para suprir a capacidade ou consentimento dos pais para o casamento a Justiça da Infância e da Juventude. neste caso sob pena de alteração da guarda diante da desobediência da ordem judicial.519 do Código Civil.

Portanto. p. pode dar margem à obrigação de indenizar”73. revoga tal consentimento no momento da celebração do casamento.que haviam recebido foi sumariamente revogada. Acerca desta revogação. é possível que. entre outras diversas despesas contraídas pelos nubentes que não serão ressarcidas. contratados com bastante antecedência. para evitar o abuso do direito dos pais na revogação da autorização para o casamento dos filhos. inesperada e causadora de profundos danos aos filhos. Tal ato. Nas hipóteses em que a revogação da autorização para o casamento ocorrer às vésperas da celebração. tendo em vista ser permitido que até a celebração propriamente dita do casamento os pais podem revogar a autorização e considerando que até os nubentes conseguirem o suprimento judicial da outorga já tenha transcorrido a data marcada para a cerimônia. sem falar no vestido da noiva. Poderia ser dito que a obrigação de reparar não persistiria. sem que houvesse qualquer razão plausível para tal conduta. 73 Carvalho Neto. 33 . nas esferas moral e material. para que. valendo-se da faculdade do art. porquanto prevê a lei que o magistrado está autorizado a suprir o consentimento denegado de maneira censurável. quando não houver mais tempo para cancelar os serviços contratados para as festividades. que eles sejam obrigados a reparar os danos sofridos pelos nubentes. contudo. se cometido abusivamente. feito com meses de antecedência para a aguardada ocasião. inclusive em relação às despesas relativas às reservas de passagens aéreas e hotéis onde passariam a lua de mel. 1. Abuso do Direito.518 do Código Civil. quando a denegação do consentimento se der de forma injusta. por abuso do direito dos pais. por terem abusado do seu direito ao revogar a autorização concedida para que seus filhos casassem. em face do tardio anúncio de que não poderiam mais se casar.. Inácio de. Op. por exemplo a decoração da igreja e do salão de festas. Isto porque o artigo 1. destacou Inácio de Carvalho Neto que pode haver lugar para indenização pelo abuso: “Imagine-se a hipótese do genitor que consente no casamento do filho menor e. até o casamento.518 permite a qualquer um dos genitores que se retrate a qualquer tempo. cit. não possa ser retratada.232. os pais podem ser compelidos a reparar os prejuízos dos nubentes. uma vez consentida a autorização. sugerimos uma modificação do artigo 1. o buffet que seria servido aos convidados.518 do Código Civil. estando eles impedidos de casar.

sendo estes meros exemplos da diversidade de situações de abusos do direito que ocorrem nos casos de guarda. questões de guarda de crianças e adolescentes. foram verificadas situações de abuso do direito do alimentando e do alimentante. e por outro lado. as medidas para conter a prática do abuso ou para repreender aquele que exerce um direito subjetivo fora de seus limites são tomadas de forma bastante singular e após minuciosa análise dos casos concretos. por exemplo.Conclusão Concluímos através deste estudo que são abundantes as situações na esfera do Direito de Família em que ocorrem verdadeiros abusos do direito. então. o que enseja o enfretamento destas questões. quando continua recebendo alimentos após a extinção de suas efetivas 34 . Embora na doutrina a teoria do abuso do direito não tenha sido muito explorada na esfera familiar. No pertinente ao abuso do direito nos alimentos. Foi possível constatar que. assim como ao trocar de domicílio única e exclusivamente para impossibilitar o direito à convivência familiar. causando infinitos danos às vítimas destas situações. constatamos que nas ações de guarda de crianças e adolescentes são configurados casos de abusos tanto do genitor guardião quanto do genitor que não possui a guarda. havendo uma construção jurisprudencial sobre o abuso do direito na área do Direito de Família. necessária ao tratar de pensões alimentícias em atraso e do respectivo processo de execução. portanto. Através desta pesquisa. com o intuito de evitar que os abusos se propaguem. Verificamos. sendo que o guardião abusa do seu direito de guarda ao negar-se a entregar o filho ao visitante sob as mais inconsistentes desculpas. mas. para cada uma das particulares situações. não a trata com consideração e afeto. quando na realidade o momento da visita deve ser desfrutado pela criança em companhia do próprio genitor e não de terceiros. sendo que as situações de abuso do direito nas relações familiares e afetivas vêm sendo frequentemente constatadas. O primeiro. o tema é farto na jurisprudência. ao contrário. quando envolvem. que a prática do abuso do direito na esfera das relações familiares vem sendo refreada através da aplicação de algumas medidas imputadas aos causadores dos danos. quando busca a criança.4 . existem diversos procedimentos que devem ser tomados. outras vezes com especial rigidez. ao ser invocada a teoria do abuso do direito nas situações que envolvem o Direito de Família. algumas vezes com redobrada cautela. o genitor visitante abusa do seu direito de visitas ao não buscar e não devolver os filhos no dia e horário combinados. porquanto não há uma única medida a ser adotada para todos os casos. e também quando deixa a criança com pessoas estranhas. ou.

a indenização. continuar credor da pensão alimentícia paga injustamente. isto porque o artigo 1. quando protela o pagamento mediante o uso de resistência injustificada ao andamento da ação executiva de alimentos.518 do Código Civil permite a qualquer um dos genitores que se retrate a qualquer tempo. alienar as quotas sociais da empresa do casal de forma dolosa. para punir aquele que se desvia de suas funções e finalidades. que variam de acordo com a análise de cada caso concreto. Através desta pesquisa verificamos que existem diversas formas para refrear o abuso do direito. até a data do casamento. se necessário. Outra situação de abuso do direito na esfera familiar analisada foi acerca da Síndrome da Alienação Parental. revoga esta autorização de forma injusta e às vésperas da data marcada para o casamento. com a intenção de fraudar a meação do outro cônjuge. E o segundo. embora possua exemplar condição financeira. ou. a suspensão da pensão alimentícia. para dar prosseguimento à obtenção do benefício e até executa. após conceder a autorização para o casamento de seu filho de 16 anos. sendo exemplos das medidas a alteração da guarda. 35 . quando. a realização de visitas no foro. sob pena de prisão. ainda. ou quando posterga a conclusão de seus estudos universitários. ocultando-se dos oficiais de justiça para não ser citado e. constatamos ser imperiosa a aplicação do instituto da disregard nos casos em que restarem configurados fortes indícios de abuso do direito do cônjuge ao desviar bens da sociedade conjugal para a empresa constituída em nome de terceiros. ou fraudar as sucessões legítimas. Por fim. resguardando a sua integralidade psíquica e garantindo ao filho um desenvolvimento saudável. que ocorre quando um dos genitores. Sobre a questão da desconsideração da personalidade jurídica. causando enorme frustração ao filho que poucos momentos antes da realização da cerimônia receber a notícia de que a autorização que havia recebido foi revogada. ao mesmo tempo em que frustra a ação exoneratória já ajuizada pelo devedor.necessidades. abusa do direito ao implantar na criança avaliações depreciativas invocadas para impedir o contato do filho com o outro genitor. sendo esses alguns exemplos das formas de abuso verificados. ao causar toda a sorte de prejuízos aos beneficiários do crédito alimentar. o acompanhamento psicológico e psiquiátrico. que deveria zelar pela criança e preservá-la. foram verificadas situações de abuso do direito do genitor ou representante legal que. neste compasso. obstaculizar a cobrança de alimentos. não paga as pensões alimentícias. entre inúmeras alternativas existentes e que devem ser utilizadas para conter o abuso do direito e. a fixação de astreintes. o crédito alimentar que não é mais merecido.

Rolf. Rio de Janeiro: COAD. São Paulo: Revista dos Tribunais. p. XII Jornada de Direito de Família. Fábio Bauab. Direito de visita.) Incesto e a alienação parental: realidades que a Justiça insiste em não ver. Jones Figueiredo. Buenos Aires: EJEA. portanto. Rodrigo da Cunha (Coord. In: Delgado. Belo Horizonte: IBDFAM.). 2007. Abuso do direito. Maria Berenice (Coord. A desconsideração da personalidade jurídica. 1971. Dequech. Mário Luiz. 2007a.120. In: Pereira. 1983. 36 . 2006. Costa. mas no abuso de direito previsto no artigo 187 do Código Civil. Maria Berenice.Pode ser verificado que é na jurisprudência que a discussão sobre o abuso no Direito de Família tem recebido maior destaque. Maria Aracy Menezes da. Manual de Direito das Famílias. In: Dias. 2005. 4. razão da importância da abordagem deste tema. Foi constatado que “deixou a família de ser imune ao direito de danos. Alves. 2007. Inácio de. o Poder Judiciário deve acompanhar as modificações e.ed. Incesto e o mito da família feliz. 2007b.ed. Família e dignidade humana. 4. sendo que. 2. Luciano. São Paulo: Método. da mesma forma que a sociedade está sempre em transformação. que podem e devem ser utilizados. Boschi. Carvalho Neto. São Paulo: Revista dos Tribunais. Bustamante. Jones Figueiredo. Alves. encontrando no pedido de indenização o seu fundamento não exatamente no ato ilícito. seja por iniciativa do magistrado. 2005. Lino Rodriguez-Arias. São Paulo: Saraiva. Curitiba: Juruá. Questões controvertidas: parte geral do Código Civil. 74 Madaleno. suprir as inúmeras carências legislativas existentes no ordenamento jurídico brasileiro. na medida do possível. seja pela provocação do causídico. ainda que exclusivamente moral”74. Dias. Repensando o Direito de Família. Abuso de direito no Direito de Família.ed. 5 . existem diversos expedientes na tão variada esfera do Direito de Família. ______.Referências Abreu. Para conter o abuso do direito. El abuso del derecho. Responsabilidade civil no Direito de Família. Coimbra: Almedina. Jorge Manuel Coutinho de. Do abuso de direito.

Elisabeth. Repensando o Direito de Família. Reconvenção e revisional de alimentos. Sapucaia do Sul: Notadez. Luna. Belo Horizonte: Del Rey.) Família e Jurisdição II. Rodrigo Pereira da. 2006. Guilherme Calmon Nogueira da. Suzana Borges Viegas de. Rio de Janeiro: Forense. Rodrigo Pereira da. Abuso de direito. Rodrigo da Cunha (Coord. Madaleno. Thereza Christina. Rolf (Coord.) Direito de Família: processo. Porto Alegre: Ricardo Lenz. V Congresso de Direito de Família. Ênio Santarelli.ed. Rio de Janeiro: Forense. 2007. Acesso em: 08 ago. Schreiber. Responsabilidade civil. Desconsideração da pessoa jurídica: reflexos civis e empresariais no direito do trabalho. Direito de Família em Pauta. Rio de Janeiro: Forense. convivência familiar e multas cominatórias. Rio de Janeiro: Forense. 1988. Milhoranza. 2005. Rolf (Coord.jusnews. Curso de direito de família. In: Couto. ______. 2007. 2004. 2007. Rio de Janeiro: Forense. ______. Eliene Ferreira. São Paulo: Método. Arnaldo. Rolf. 2008a. Rolf. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Jorge. Tartuce. 2004. Flávio.). 2001. Considerações sobre o abuso de direito ou ato emulativo civil. Zuliani. Madaleno. São Paulo: Revista dos Tribunais. In: Cunha. Síndrome da alienação parental. Porto Alegre: Livraria do Advogado. In: Cunha. Maria Berenice (Coord. Antonio Fernandes da (Coord. Raduam. 2. Trindade. O abuso do direito de guarda.com. Miguel Filho. O direito/dever de visitas. 2008. Família e dignidade humana. Mariângela (Coord. In: Dias. 1.) Direito de Família: processo. ______.). teoria e prática.ed. Wolf. Rizzardo. Luz. Madaleno. Alimentos para filhos maiores. 2008. Madaleno. 2007.) Direito de Família e Sucessões. Sérgio. In: Bastos. Belo Horizonte: IBDFAM. In: Pereira. 37 . Everardo da Cunha. Karin. Lima. Rio de Janeiro: Elsevier. Inocência corrompida. 2008. 2008. In: Questões Controvertidas no novo Código Civil. Os direitos fundamentais da criança na violência intrafamiliar. Alimentos entre parentes e Direito Processual Civil. Incesto e a alienação parental: realidades que a Justiça insiste em não ver. Nahas.Gama. teoria e prática. Disponível em: <http://.br>.