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Francisco Cândido Xavier

Parnaso de
Além-Túmulo
Ditado por

Espíritos diversos

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

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Índice
À guisa de prefácio .......................................................................... 4
Francisco Cândido Xavier ............................................................. 14
Palavras minhas ............................................................................. 15
De pé, os mortos!........................................................................... 21
1 Abel Gomes ............................................................................... 24
2 A. G............................................................................................ 25
3 Albérico Lobo............................................................................ 26
4 Alberto de Oliveira .................................................................... 27
5 Alfredo Nora.............................................................................. 30
6 Alphonsus de Guimarãens ......................................................... 32
7 Alma Eros.................................................................................. 35
8 Álvaro Teixeira de Macedo....................................................... 38
9 Amadeu (?) ................................................................................ 39
10 Amaral Ornellas ...................................................................... 40
11 Antero de Quental ................................................................... 43
12 Antônio Nobre ......................................................................... 56
13 Antônio Torres ........................................................................ 63
14 Artur Azevedo ......................................................................... 65
15 Augusto de Lima ..................................................................... 68
16 Augusto dos Anjos .................................................................. 74
17 Auta de Souza........................................................................ 106
18 B. Lopes ................................................................................. 118
19 Batista Cepelos...................................................................... 121
20 Belmiro Braga ....................................................................... 124
21 Bittencourt Sampaio .............................................................. 130
22 Cármen Cinira ....................................................................... 135
23 Casimiro Cunha ..................................................................... 147
24 Casimiro de Abreu ................................................................ 167
25 Castro Alves .......................................................................... 177
26 Cornélio Bastos ..................................................................... 185

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Cruz e Souza .......................................................................... 186
Edmundo Xavier de Barros ................................................... 206
Emílio de Menezes ................................................................ 208
Fagundes Varela .................................................................... 210
Guerra Junqueiro ................................................................... 214
Gustavo Teixeira ................................................................... 239
Hermes Fontes....................................................................... 240
Ignácio José de Alvarenga Peixoto ....................................... 244
Jesus Gonçalves..................................................................... 246
João de Deus.......................................................................... 247
José do Patrocínio.................................................................. 304
José Duro ............................................................................... 305
José Silvério Horta ................................................................ 307
Júlio Diniz ............................................................................. 309
Juvenal Galeno ...................................................................... 314
Leôncio Correia ..................................................................... 323
Lucindo Filho ........................................................................ 324
Luiz Guimarães Júnior .......................................................... 326
Luiz Murat ............................................................................. 328
Luiz Pistarini ......................................................................... 329
Marta ...................................................................................... 330
Múcio Teixeira ...................................................................... 342
Olavo Bilac............................................................................ 343
Pedro de Alcântara ................................................................ 350
Raimundo Correia ................................................................. 357
Raul de Leoni ........................................................................ 359
Rodrigues de Abreu............................................................... 364
Souza Caldas ......................................................................... 369
Um Desconhecido ................................................................. 377
Valado Rosas......................................................................... 386

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À guisa de prefácio
A teoria, tanto quanto a prática espírita, apresenta, aos leigos
e inscientes, aspectos e modismos inéditos, imprevistos, bizarros,
surpreendentes.
Nos domínios da mediunidade, então, o reservatório de surpresas parece inesgotável e desconcerta, e surpreende até os observadores mais argutos e avisados.
Se fôssemos minudenciar, escarificar o assunto até às mais
profundas raízes, poderíamos concluir que o comércio de encarnados e desencarnados, velho quanto o mundo, se indicia mais ou
menos latente ou ostensivo, em todos os atos e feitos da Humanidade.
Inspirações, idéias súbitas ou pervicazes, sonhos, premonições e atos havidos por espontâneos e propriamente naturais,
radicam muito e mais na influenciação dos Espíritos que nos
cercam – por força e derivativo da mesma lei de afinidade incoercível no plano físico, quanto no psíquico – do que a muitos poderia parecer.
E assim como se não desloca nem se precipita, isoladamente,
um átomo no concerto sideral dos mundos infinitos, assim também não há pensamento, idéia, sentimento, isolados no conceito
consciencial dos seres inteligentes, que atualizam e vivificam o
pensamento divino, em ascese indefinida – semper ascendens...
É o que fazia dizer a Luisa Michel: “um ser que morre, uma
folha que cai, um mundo que desaparece, não são, nas harmonias
eternas, mais que um silêncio necessário a um ritmo que não
conhecemos ainda”.
Mas, não há daí concluir que a criatura humana se reduza à
condição de autômato, sem vontade e sem arbítrio, porque nada à

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revelia da Lei se verifica; e no jogo dessa atuação constante, o
ascendente dos desencarnados não vai além das lindes assinadas
pela Providência; não ultrapassa, jamais, a capacidade receptiva
do percipiente, seja para o bem, seja para o mal.
***
Não é, contudo, desse mediunismo sutil, intrínseco, consubstancial à natureza humana, que importa tratar aqui.
Nem remontaríamos aos filões da História para considerar-lhe
a identidade aos tempos da Índia, do Egito, da Grécia, das Gálias
e de Roma. em trânsito para a Idade Média, na qual os médiuns
eram imolados ao mais estúpido dos fanatismos – o religioso.
Hoje, fogueira e potro foram substituídos pela difamação, pelo
ridículo alvar, pago em boa espécie monetária, ou ainda pelo
cerco caviloso e interditório de quaisquer vantagens sociais.
A luta tornou-se incruenta, mas, nem por isso, menos áspera e
porfiosa.
Assoalha-se que a mediunidade é fonte de mercantilismo: entretanto, nenhum grande médium, que o saibamos, chegou a acumular fortuna e rendimentos.
Muitos, ao invés, quais Home, Slade, Eusápia e d’Espérance,
morreram paupérrimos e, o que mais é, tendo a panejar-lhes a
memória o labéu de charlatães.
Mas houvesse de fato esse mercantilismo e nunca se justificaria, senão por abusivo e espúrio, de vez que a Doutrina o não
autoriza, sequer por hipótese.
Porque, na verdade, assim se escreve a História e o maior dos
médiuns, o Médium de Deus, só escapou ao estigma da posteridade pela porta escusa do concílio de Nicéia, numa divinização
acomodatícia e rendosa ao formigamento parasitário e onímodo

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dos Constantinos, que, ainda hoje, lhe exploram os feitos e o
nome augusto, com bulas políticas de vulpina retórica, factícios
pruridos de grosseira mistificação, em bonsolatrias de cimento
armado.
Entretanto, como a confirmar a tradição “os Santos Apóstolos
foram, em sua maioria, humildes pescadores” – e não só a tradição como a sentença de que os últimos seriam os primeiros –, não
vêm hoje os vexilários da Verdade trazê-la aos magnatas da Terra,
aos príncipes dos sacerdotes, escribas e fariseus hodiernos, disputantes à compita da magnífica carapuça e eles talhada e ajustada.
de vinte séculos, no capitulo 23º de Mateus.
Ao contrário, esses esculcas do Além parece preferirem os
operários modestos, modestos e rústicos, rústicos e bons, como
tão sutilmente os define o Eça em magistral mensagem:
“Tipos originais, mãos calosas que se entregam aos rudes trabalhos braçais, a fazerem a literatura do além-túmulo; homens a
que Tartufo chama bruxos e Esculápio qualifica de basbaques,
mistificadores, ou simples casos patológicos a estudar...”
É verdade tudo isso; mas, convenhamos, também o é para
maior glória de Deus.
Não ignoramos que homens de alta cultura e renome científico têm versado o assunto, investigado, perquirido e proclamado a
verdade, acima e além das conveniências e preconceitos políticos,
científicos, religiosos. Nomeá-los aqui, seria fastidioso quanto
inútil.
O vulgo que não lê, ou que lê pela cartilha do Sr. vigário nos
conselhos privados da família beata, não deitaria os seráficos
olhares a estas páginas e seguiria, clamoroso ou contente, de
qualquer forma inconsciente, – infinitus stultorum numerus – a
derrota do seu calvário, no melhor dos mundos, à Pangloss.

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O outro, o vulgo que lê e compreende, mas para o qual o magister dixit é a melhor fórmula de concessão e acomodação consigo mesmo, estômago e vísceras em função, sofra a quem sofrer,
doa a quem doer – esse, bazofiando ciência em gestos largos de
animalidade superior, se estas linhas chegasse a ler, haveria de
esboçar aquele sorriso fino e bom que Bonnemére não sabia definir se seria de Voltaire, ou do mais refinado dos idiotas...
***
Adiante, pois, na tarefa nada espartana de apresentar esta
prova opima das esmolas de luz que nos chegam em revoada de
graças, a encher-nos o coração de alvissareiras esperanças.
Quem quiser certezas maiores, explanações técnicas e eruditas do fenômeno em apreço, que as procure no livro “Do País da
Luz”, obra similar, editada há uma vintena de anos. psicografada
pelo médium português Fernando de Lacerda, e que fez, nas rodas
profanas de Lisboa, o mais ruidoso sucesso.
Nessa obra, o ilustre Dr. Sousa Couto, em magistral prefácio,
esgotou o assunto ao encará-lo sob todos os prismas de uma severa crítica, para concluir pela transcendência do fenômeno, rebelde
a todos os métodos de classificação científica e, sem embargo,
realíssimo em sua especificidade.
Pois, a nosso ver, maior é o mérito, por mais opulenta a polpa
mediúnica, desta obra.
É que lá em “Do Pais da Luz”, avulta a prosa, com raras exceções; ao passo que aqui desborda o verso, mais original, mais
difícil, mais precioso como índice de autenticidade autoral.
Lá, as mensagens características são exclusivas de escritores
lusos, únicas que podem, a rigor, identificar pelo estilo os seus
autores.

pelo contrário. É ler Casimiro e reviver Primaveras. Senão. é declamar Junqueiro e lembrar a Morte de Dom João. aí se ostentam em louçanias de sons e de cores. Do verde da Natureza. é frasear Augusto dos Anjos e evocar Eu. etc. é recitar Castro Alves e sentir Espumas Flutuantes. Da luz do Criador nascemos. Do verde do lindo mar! É Casimiro.. são incontestavelmente belas no fundo e na forma. como retinem cristalinas e contrastantes as mais variadas formas literárias.. Condoreirismo. Múltiplas vidas vivemos. para afirmar não mais subjetiva. Parnasianismo. Na delicada harmonia Que nascia da beleza.Parnaso de Além-Túmulo 8 As de Napoleão 1º. mas não características de tais entidades. O pensamento sonhando E o coração a cantar. Teresa de Jesus. como a facilitarem de conjunto a identificação de cada um.. . Constantemente cismando. vejamos: Oh! que clarão dentro d’alma. Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer.Francisco Cândido Xavier . Simbolismo. Aqui. mas objetivamente. não só concorrem poetas brasileiros e portugueses. Romantismo. a sobrevivência dos seus intérpretes.

. um quase adolescente.Francisco Cândido Xavier . sem lastro. Duvidamos que o mais solerte plumitivo. É Augusto dos Anjos.. inconfundíveis na modulação de suas liras encantadas e decantadas. esta produção. Descansa. de grande cultura e treino poético. portanto. E todos. sequer. as carnes. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. feliz. É Castro Alves. e mais – quando de alguns autores não conhece uma estrofe! . ardentes. Pairava na amplidão estranho resplendor. o mais intelectual dos nossos literatos consiga imitar.. cujo estilo não temos elementos para identificar – o mesmo traço de originalidade personalíssima se impõe. todos os mais. recebe-a de jacto. agora vibrião das ruínas. aí estão vivos. os estrumes. No firmamento em luz.Parnaso de Além-Túmulo 9 Para à mesma luz volver. nas preces da harmonia!. Retempera-te em meio dos perfumes Cantando à luz das amplidões divinas.. Esquece o verme. E na prosa – exceto a Fernando de Lacerda. É Junqueiro. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. ainda que premeditadamente. Era o festim do amor... E isto o dizemos porque o médium Xavier.

nascido ali assim em Pedro Leopoldo. um bacharel formado. de contrapeso. o pai infenso a literatices e. é bem de ver-se que não teve. muito além das quatro operações e da leitura corrida. também em tese. Filho de pais pobres. para não pretender colimar renomes literários. um rotulado desses que por ai vão felicitando a Família. nem um. certo estamos. que. qual a Luz. ao demais. verdade que. que faz do mestre-escola. Foi por assim pensarmos que conseguimos vencer a relutância do médium em sua natural modéstia para lançar ao público. O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos. em tese. e aos confrades. com borrifos de catecismo católico.Francisco Cândido Xavier . ficará como baliza fulgurante. Tudo isso é o próprio médium quem no-lo diz. pequeno rincão do Estado de Minas. na história a tracejar do Espiritismo em nossa pátria. . nem dez cireneus que o conduzissem por tortuosos e torturantes labirintos de acesso aos altanados paços do Olimpo para o idílico convívio de Caliope e Polímnia. esta obra mediúnica. em particular. *** Mas. um galopim eleitoral e não vai. Órfão de mãe aos 5 anos. não pode ficar debaixo do alqueire. mas é a verdade nua e crua. que não podia ter o estímulo ambiente. em geral. será maravilhoso. perguntarão: – quem é Francisco Cândido Xavier? Será um rapaz culto.Parnaso de Além-Túmulo 10 É extraordinário. em linguagem eloqüente. não pôde ir além do curso primário dessa pedagogia incipiente e rotineira. um quase adolescente. porque simples como a própria alma cedo esfolhada de sonhos e ilusões. nem uma problemática hereditariedade. um acadêmico. a Pátria e a Humanidade? Nada disso. pramido pelo ganha-pão.

nada nos disse o médium. em São Paulo. fixação de imagens. torrencial! Do que escreve e sabe que está escrevendo.Parnaso de Além-Túmulo 11 Ao lhe formularmos um questionário que nos habilitasse a pôr de plano estes detalhes essenciais – de vez que. nas quais estereotipa a sua figura moral. não há encadeamento de raciocínios. também sabe que não pensou e não seria capaz de escrever. por outro lado. concepções filosóficas das quais nunca ouviu falar. mas da ferramenta por eles utilizada. É um fato. diz-nos este que também as produções são recebidas de jacto. o médium. mas. cujo flagrante não presenciamos – ele. explosivo. em obra deste quilate o que se impõe não é a apresentação dos operários. enquanto conosco discreteava em idioma diverso da mensagem escrita. porém. tanto quanto do seu manuseio. há fatos e recursos de hermenêutica. certa vez. o médium Mirabelli cobrir dezoito laudas de papel almaço. como definir e transfixar a captação. endossar um fenômeno cuja ascendência sobejamente conhecemos para não refusar. Nós mesmo vimos. figuras de retórica. veio “candidamente” ao nosso encontro com “Palavras Minhas”. doutrinas. É tudo inesperado. tanto quanto retrata as impressões psicofísicas que lhe causa o fenômeno. e não querendo. Do seu mecanismo intrínseco e extrínseco. que ignora. Não há ideação prévia. teorias científicas.Francisco Cândido Xavier . de autores também ignorados e jamais lidos! Como explicar. a realização essencial do fenômeno? . no exíguo tempo de 13 minutos marcados a relógio. Agora. Há vocábulos de étimo que desconhece.

. ou taliscas. fica-lhes a liberdade de conjeturar. precipuamente. e de entidades hoje mais lúcidas e respeitáveis do que porventura o foram aqui na Terra. Trata-se. racional e logicamente devem existir.Francisco Cândido Xavier . de um trabalho de identificação autoral. diremos que. no entanto. antes complicam. sem contudo negar. na volúpia de escandir quand même. faisqueiros de nugas e nicas. aos cépticos. em suma. enfim.. vale sempre por mil e uma teorias. que mal podemos imaginar e que. para melhor explicar. ocorrem na telepatia. Aos outros. esse trabalho melhor corresponde à sua finalidade altíssima. que participa do meio físico contingente. devem ser atribuídas ou irrogadas ao possivelmente precário aparelhamento de transmissão. e de modo a satisfazer aos familiares da Doutrina. Tal como no-lo deram. de maneira impressionante. em tudo. e isso ele o faz a seguir. ou a fatores outros. e o que a legítima ética doutrinária aponta é que quaisquer lacunas. na radiofonia. Que os arautos da Boa Nova aqui escalonados. *** Como nota final aos argos da crítica. por mais insólito que seja. e um fato. que nada explicam. por vindos de tão alto. nos perdoem a vacuidade e a insulsice destas linhas e que os leitores de boa vontade as desprezem como inúteis. não só por nos falecer autoridade e competência. para só . mais sutis e delicados do que esses que. como por julgar que tal ousio seria uma profanação. porque o fato aí está na plenitude de sua realidade. Catões e Zoilos de compasso e metro. não nos dispusemos a escoimá-la de possíveis defeitos de técnica.Parnaso de Além-Túmulo 12 Só o médium poderia fazê-lo. amiúde. encarregado de apresentar esta obra.

Traduziu diversos livros espíritas e publicou alguns de sua autoria. muito apreciados. Foi jornalista. na pauta evangélica que diz: – A árvore se conhece pelo fruto. como jovem sem recursos financeiros.) . integrando-lhe o quadro social por 44 anos. RJ. escreveu notas autobiográficas endereçadas ao Reformador. (Nota do Editor. foi sempre dos mais assíduos e proficientes no estudo do Evangelho de Jesus. invejável cultura humanística. Como membro do Grupo Ismael. nascido em 28 de maio de 1874. Marquês de Valença. no Rio de Janeiro. este último editado pela FEB. exerceu cargos na Diretoria da Federação Espírita Brasileira ao longo de vários decênios. Chefe de família numerosíssima. Quintão1 1 MANUEL Justiniano de Freitas QUINTÃO. e desencarnado em 16 de dezembro de 1954. M. Foi guarda-livros. Em 1939.Parnaso de Além-Túmulo 13 apreçarem a obra que ora lhes apresentamos. Médium curador e espírita militante durante mais de meio século.Francisco Cândido Xavier . estão estampadas na edição de janeiro de 1955. nas posições mais modestas do comércio. na Estação de Quirino. estudioso incansável. 1918. depois de lutar com imensas dificuldades. conseguiu. 1919 e 1929. inclusive a Presidência nos anos 1915. Ingressou na FEB em 1903. dentre eles “Cinzas do meu Cinzeiro” (coletânea de trabalhos publicados no “Reformador”) e “O Cristo de Deus”. como autodidata. para serem public adas após a sua desencarnação.

sempre no exercício do seu mediunato. jamais se beneficiou dos direitos autorais da sua vasta produção mediúnica. primeiro livro de suas faculdades mediúnicas e já em 9ª edição. goza ele ainda de sincera admiração em outros países. Respeitado e estimado em todo o Brasil. desencarnados em 1960 e 1915. Castelhano. Os romances psicografados (entre eles “Paulo e Estêvão”. . diversos deles publicados em Esperanto.. Médium de atividade ininterrupta há quase meio século. MG. Japonês. afável e operosa. MG.Francisco Cândido Xavier .” e “Renúncia”) são periodicamente radiofonizados e televisionados. Transferiu-se para Uberaba. “Há Dois Mil Anos. onde residiu até dezembro de 1958. respectivamente. onde é popularíssimo. em janeiro de 1959. Criatura simples. Filho de João Cândido Xavier e de Maria João de Deus. publicou. Inglês e Francês. Seguiram-se-lhe mais de 110 livros mediúnicos. em julho de 1932. através da Casa-Máter do Espiritismo – a Federação Espírita Brasileira –. Viajou para o exterior algumas vezes. Aposentou-se como funcionário público federal.Parnaso de Além-Túmulo 14 Francisco Cândido Xavier NASCEU em Pedro Leopoldo. em 2 de abril de 1910.. o “Parnaso de Além-Túmulo”.

É verdade que. julgo que os meus atos perante a sociedade da minha terra são expressões do pensamento de uma alma sincera e leal. tenho experimentado toda a classe de aborrecimentos na vida e não venho ao campo da publicidade para fazer um nome. constantemente. num grupo escolar. e creio mesmo que todos os que me conhecem podem dar testemunho da minha vida repleta de árduas dificuldades e mesmo de sofrimentos.Francisco Cândido Xavier . como o são as lições das escolas primárias. estudando apenas uma pequena parte do dia e trabalhando numa fábrica de tecidos. das quinze horas às duas da manhã. mas meu pai . quanto à sua formação. Filho de um lar muito pobre. história e vernáculo. essa situação modificou-se em 1923. se decidi escrever estas modestas palavras no limiar deste livro. é apenas com o intuito de elucidar o leitor. E até aqui. órfão de mãe aos cinco anos. em casa. com um salário diminuto. mas onde o trabalho é menos rude. Nunca pude aprender senão alguns rudimentos de aritmética. que acima de tudo ama a verdade. quando contava oito anos. Mas. cheguei quase a adoecer com um regime tão rigoroso.Parnaso de Além-Túmulo 15 Palavras minhas Nasci em Pedro Leopoldo. porém. porque a dor há muito já me convenceu da inutilidade das bagatelas que são ainda tão estimadas neste mundo. quando então consegui um emprego no comércio. onde o serviço dura das sete às vinte horas. a melhor boa vontade animou-me para o estudo. E. pude chegar até ao fim do curso primário. sempre estudei o que pude. estudar como? Matriculando-me. prolongando-se esta minha situação até os dias da atualidade. Começarei por dizer-lhe que sempre tive o mais pronunciado pendor para a literatura. Minas. em 1910.

o Sr. com uma vida de múltiplos trabalhos e obrigações e nunca se me ofereceu ocasião de conviver com os intelectuais da minha terra. tanto à sua família. Verdadeiro discípulo do Evangelho. onde se não pode pensar em letras. em maio do ano referido. onde então. de penosos deveres. para mim. freqüentando-a mesmo com amor. de desconforto. aprazem-me todas as leituras e mesmo nunca pude estudar estilos dos outros.Parnaso de Além-Túmulo 16 era completamente avesso à minha vocação para as letras e muitas vezes tive o desprazer de ver os meus livros e revistas queimados. os meus desejos de estudar. Os meus familiares não estimulavam. quando ia às aulas de catecismo era para mim um prazer. Prosseguindo nas minhas explicações. Vários dias consecutivos foram. foi sempre alheio à literatura. ofereceu-nos até a sua residência. bem distante da nossa.Francisco Cândido Xavier . José Hermínio Perácio. foi acometida de terrível obsessão. devo esclarecer que minha família era católica e eu não podia escapar aos sentimentos dos meus. a medicina foi impotente para conceder-lhe uma pequenina melhora. até hoje. pioras de amargos padecimentos morais. como verdadeiramente não podem. eis que uma das minhas irmãs. realizar as minhas esperanças. espírita convicto. Jamais tive autores prediletos. desde os tempos de criança. mas. ambiente de pobreza. num ambiente totalmente . Foi quando decidimos solicitar o auxílio de um distinto amigo. O meu ambiente. Até 1927. por diferençar muito pouco essas questões. Assim têm-se passado os dias sem que eu tenha podido. todos nós não admitíamos outras verdades além das proclamadas pelo Catolicismo. neste ponto. que caridosamente se prontificou a ajudarnos com a sua boa vontade e o seu esforço. Fui pois criado com as teorias da igreja. para nossa casa. sequer. sobrecarregado de trabalhos para angariar o pão cotidiano. pois. Também o meio em que tenho vivido foi sempre árido. como eu. sempre a braços.

como o são os daqueles confrades a que me referi. com a graça de Deus. Sobre esses fatos e essas provas irrefutáveis solidificamos a nossa fé. entrando em pormenores da nossa vida íntima. minha irmã hauria. com ingentes sacrifícios. desenvolveram-se em mim. deixando-nos mergulhados em imorredoura saudade. que regressara ao Além em 1915. por intermédio da esposa do nosso amigo. Em breve minha irmã regressava ao nosso lar cheia de saúde e feliz. foi nesse ambiente onde imperavam os sentimentos cristãos de dois corações profundamente generosos. que a minha mãe. reunir um núcleo de crentes para estudo e difusão da doutrina. começou a ditar-nos os seus conselhos salutares. semimecânico. sob os seus caridosos cuidados e da sua excelentíssima esposa Dona Carmen Pena Perácio. orientando-se quanto aos seus deveres. Resolvemos. então. datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas. sentindo-me muito feliz por se me apresentar essa oportunidade de progredir. simultaneamente. e foi nessas reuniões que me desenvolvi como médium escrevente. de maneira clara e mais intensamente. para onde comecei a escrever sob a inspiração dos bondosos mentores espirituais que nos assistiam.Parnaso de Além-Túmulo 17 modificado. poderia ela estudar as bases da doutrina espírita. a vidência. os ensinamentos sublimes da formosa doutrina dos mensageiros divinos. integrada no conhecimento da luz que deveria daí por diante nortear os nossos passos na vida. que se tornou inabalável. para nosso benefício. que essa senhora desconhecia. as suas faculdades mediúnicas. (Nota do médium para a 4ª edição. 2 2 Só nos últimos dias de 1931. a audição e outras faculdades mediúnicas. médium dotada de raras faculdades. desenvolvendo. quando na Terra.Francisco Cândido Xavier .) . em 1944. Até a grafia era absolutamente igual à que a nossa genitora usava. Aí.

por conhecer as minhas imperfeições. Somente duas vezes recebi comunicações em versos simples. pois o nosso confrade José Hermínio Perácio. a moral profunda que era ensinada. ornada das mais superiores qualidades morais e que. deliberou fixar residência junto a nós e as nossas reuniões tiveram resultados melhores. alma nobilíssima. para a comunhão com os nossos desvelados amigos do Além. Nossas reuniões contavam. categoricamente.Parnaso de Além-Túmulo 18 Daí a pouco. o que perdura até hoje. os assistentes de nossas sessões de estudos escassearam. nas reuniões. não posso dizer que são minhas. conta com mais desenvolvimento a clariaudiência. ao escrevê-las. porque jamais nutri a pretensão de entrar em contacto com essas entidades elevadas. apesar de muito a contragosto de minha parte. porém. porque não despendi nenhum esforço intelectual ao grafá-las no papel. decorridos dois anos. entre as suas mediunidades. porém. Não desanimamos.Francisco Cândido Xavier . chegando ao número de quatro ou cinco pessoas. em companhia de sua esposa. em consciência. assim. controladas pela sua senhora. quase sempre inclinadas para as futilidades mundanas. e. grande número de assistentes. a nossa alegria aumentava. O que posso afirmar. assinadas por nomes respeitáveis. psicografando-as. era a de que vigorosa mão impulsio- . é que. A sensação que sempre senti. do corrente ano. parece que pesava muito. Serão das personalidades que as assinam? – é o que não posso afiançar. comecei a receber a série de poesias que aqui vão publicadas. Em agosto. contudo. como acontece na opinião de grande maioria de almas da nossa época. constituindo para nós uma fonte de consolações isolarmo-nos das coisas terrenas em nosso recanto de prece. prosseguindo em nossas reuniões. e que eram continuamente fragmentos de prosa sobre os Evangelhos. baseada nas páginas esplendorosas do Evangelho de Jesus. Continuei recebendo as idéias dos mesmos amigos de sempre.

não sentindo. acontecendo o mesmo com o cérebro.Parnaso de Além-Túmulo 19 nava a minha. experimentando sempre no braço. em particular. ao recebermos uma destas páginas. esse estado atingia o auge. as menores impressões físicas. essas produções chegaram-me sempre espontaneamente.3 3 Ao escrever estas palavras. que alguém mas ditava aos ouvidos. melhor o resultado obtido. quanto menor o número de assistentes. era necessário recorrermos a dicionários. apesar de todo o meu bom desejo. e. julgando minha obrigação. quanto ao fenômeno que se produz freqüentemente comigo. a sensação de fluidos elétricos que o envolvessem. frisar aqui também. por momentos. e dia houve em que se receberam mais de três produções literárias de uma só vez. doutras. Grande parte delas foram escritas fora das reuniões e tenho tido ocasião de observar que. mantidas desde os 5 anos de idade. sem que eu ou meus companheiros de trabalhos as provocássemos e jamais se pronunciou. que se me afigurava invadido por incalculável número de vibrações indefiníveis. ao psicografá-las. o nome de qualquer dos comunicantes. porque tanto eu como os meus companheiros as desconhecíamos em nossa ignorância. em nossas preces. e o interessante é que pareciame haver ficado sem o corpo. a não ser esses escritos. na fenomenologia espírita. Certas vezes. Muitas vezes. Passavam-se às vezes mais de dez dias. Julgo do meu dever declarar que nunca evoquei quem quer que fosse. para sabermos os respectivos sinônimos das palavras nela empregadas. sem que se produzisse escrito algum. é o que experimento. fisicamente. jamais obtive outra coisa.Francisco Cândido Xavier . pertencem igualmente à fenomenologia espírita. o Autor não se lembrou de que as suas relações constantes com Espíritos desencarnados. parecia-me ter em frente um volume imaterial. Doutras vezes. Pensou em fenomenologia somente como prática consciente da mediunidade . que. onde eu as lia e copiava.

e dou-me por compensado do meu trabalho. transmitindo-me as advertências e opiniões dos nossos caros mentores espirituais e. os meus saudares. ainda. Perácio. desde a infância. alguém que encontre consolação nestas páginas humildes. M.Francisco Cândido Xavier . que tem sido de uma boa vontade admirável para comigo. dezembro de 1931. diante de um habitante do nosso mundo ou de habitante do mundo espiritual. confunde os habitantes dos dois mundos e muitas vezes pergunta ao amigo que esteja passeando com ele “Estás vendo ali um homem de barbas brancas. que generosamente se dignaram não reparar as minhas incontáveis imperfeições. Cármen P. por intermédio de instrumento tão mesquinho. A todos eles. Também isso são fenômenos espíritas. não poupando esforços para que este despretensioso volume viesse à luz da publicidade. porém. o carinhoso interesse do distinto confrade Sr. mas todas as pessoas de sua intimidade sabem que ele. todavia. Terei feito compreender. Em alguns despertarei sentimentos de piedade e. Quintão. Pedro Leopoldo. (Nota da Editora) . com os meus agradecimentos intraduzíveis aos boníssimos mentores do Além. que através da sua maravilhosa clariaudiência me auxiliou muitíssimo. E aqui termino. transmitindo. que inspiraram esta obra. entre mil dos primeiros. os seus salutares ensinamentos. rizinhos ridiculizadores. Um desses que haja. Francisco Cândido Xavier nas sessões espíritas. Há de haver. a verdade como de fato ela é? Creio que não.Parnaso de Além-Túmulo 20 Devo salientar o precioso concurso da bondosa médium Sra. etc. noutros. a quem me lê.?” Pela resposta do companheiro é que ele fica sabendo se está.

Nas minhas atuais condições de vida. em recompensa dos nossos desequilíbrios no mundo. Existem até os que reclamam contra a nossa liberdade. (Nota da Editora. Os vivos do Além e os vivos da Terra não podem enxergar as coisas através de prismas idênticos. 4 Refere-se à 2ª edição. Individualmente. segundo a potencialidade dos raios X: as cidades estariam povoadas de esqueletos. escrevera no Diário Carioca. os que receberem novamente o “Parnaso de AlémTúmulo” dirão mais ou menos o que eu disse5 . Imagine se o aparelho visual do homem fosse acomodado. Desejariam que estivéssemos algemados nos tormentos do inferno. os campos se apresentariam como desertos. que aparecerá brevemente em nova edição. no domínio do conhecimento e da sensação. Hão de estranhar que os mortos prossigam com as mesmas tendências. em julho de 1932. daí não bastassem para nos inclinar à verdade compassiva. ao surgir a 1ª edição do Parnaso. quando encarnado. o mundo constituiria um conjunto de aspectos inverossímeis e inesperados.) 5 . como se os nossos amargores. tenho de destoar da opinião que já expendi nas contingências da carne. é indubitável que possuímos no Além o reflexo das nossas virtudes ou das nossas misérias. Decerto.Francisco Cândido Xavier . tangendo os mesmos assuntos que aí constituíam a série de suas preocupações. Cada esfera da vida está subordinada a certo determinismo. os mortos! Pede-me você uma palavra para o intróito do “Parnaso de Além-Túmulo”. publicada em 1935.4 A tarefa é difícil. (Nota da Editora) Alude às crônicas que ele.Parnaso de Além-Túmulo 21 De pé.

de mulher e de menina. aguardando a sua palavra. a visitar os cruzadores de guerra. – De pé.. os mortos!. terminada a batalha de Tsushima. “Parnaso de Além-Túmulo” sairá de novo. Conta-se que na guerra russo-japonesa. Os mortos falam e a Humanidade está ansiosa.Parnaso de Além-Túmulo 22 Mas é razoável que apareçamos no mundo. Todos aí estão dentro das suas características. como a mensagem harmoniosa dos poetas que amaram e sofreram. Os institutos da Civilização têm sido impotentes para resolver o problema do nosso ser e dos nossos destinos. Na atualidade. afigura-se-nos que os brados de todos os sofredores e infelizes da Terra se concentram numa súplica grandiosa que invade as vastidões como o grito do valoroso almirante.. levantando o ânimo dos companheiros que haviam ficado nas pelejas. e o nosso presente é sempre a experiência do passado e a esperança no futuro. Junqueiro com a sua ironia. Uma claridade nova cantou as energias espirituais do valente adversário da pátria de Stoessel e os filhos de Yoritomo venceram.Francisco Cândido Xavier . – exclama-se – porque os vivos da Terra se perdem nos abismos tenebrosos. em nome da nacionalidade. Antero com a sua rima austera e dolorosa. Casimiro com a sua sensibilidade infantil. concitou-os a auxiliar as manobras militares. e na tristeza majestosa do ambiente. Cármen Cinira aí está com os seus sonhos desfeitos. gritando como alucinados? Os habitantes dos reinos da Morte ainda apreciam o decoro e a decência. . o grande Togo reuniu os seus soldados no cemitério de Oogama. dirigiu-se aos mortos em termos comovedores.

com os artigos intitulados “Poetas do outro mundo” e “Como cantam os mortos” (apud “A Psicografia ante os Tribunais”. dois anos depois passou ele a valer-se. e desencarnado no Rio de Janeiro. Produção literária variada quão vultosa. como Espírito. Foi jornalista e deputado federal. Vale destacar “Brasil. Temos frio. Liberto dos liames da carne. temos fome. nascido em Miritiba (hoje Humberto de Campos). Coração do Mundo. sob a orientação do Anjo Ismael. MA. visando à cristianização da Humanidade. que é a de levar as luzes do Evangelho do Cristo a todos os quadrantes do Mundo. entre o assombro e a esperança. de Miguel Timponi. Pátria do Evangelho”. das faculdades mediúnicas de Francisco Cândido Xavier para a transmissão de importantes mensagens. A Ciência. em 1934. editados pela FEB. mas esses mantos estão rotos!. membro da Academia Brasileira de Letras. 4ª ed. Ditou-nos 12 livros.Francisco Cândido Xavier . sendo 9 sob o pseudônimo de Irmão X.. ainda não ouviu a sua vibração misteriosa.. edições de 10 e 12 de julho de 1932. mas os filhos do infortúnio sentem-se envolvidos na onda divina de um novo Glória in excelsis. em 1886. o Legado do Governador Espiritual do Planeta em Terras de Santa Cruz. e a Humanidade sofredora sente-se no caminho consolador da sublime esperança. já em 9ª edição. como a que se inseriu nesta página. páginas 60 a 64. FEB). escritor brasileiro. Humberto de Campos6 (Espírito) 6 HUMBERTO DE CAMPOS Veras. conheceu em vida física a 1ª edição do Parnaso de Além-Túmulo.Parnaso de Além-Túmulo 23 As filosofias e as religiões estenderam sobre nós o manto carinhoso das suas concepções. temos sede! E os considerados mortos falam ao mundo na sua linguagem de estranha purificação. acoplada ao mesmo “Parnaso” que ele conhecera aqui na Terra e oriunda do mesmo “Além-Túmulo” por ele tenuemente vislumbrado. (Nota da Editora) . o livro confirmador da missão espiritual do Brasil. zelosa de suas conquistas. manifestando-se a respeito dela pelo “Diário Carioca”.

desenganos. Eis que a Terra tem crimes e tiranos. além de copiosa obra esparsa. Que ama o trabalho e esquece a recompensa No serviço do bem ao mundo inteiro. dos quais dois já editados pela Federação.Francisco Cândido Xavier . Espírito dinâmico. Asperezas dos homens da caverna. posto que fisicamente inválido. Ameaça a verdade e humilha a crença. no turbilhão da sombra imensa. Temos Jesus Desaba o Velho Mundo em treva densa E a guerra. poeta e professor. deixou alguns livros inéditos. Na conquista de luz da Vida Eterna. Mas vós tendes Jesus em cada dia. nascido em Minas Gerais a 30 de dezembro de 1877 e falecido a 16 de agosto de 1934.Parnaso de Além-Túmulo 24 1 Abel Gomes ESCRITOR. Tendes convosco o Excelso Companheiro. Mas vós. . desvarios. Ambições. Nas torturas de um novo cativeiro. Trabalhemos na dor ou na alegria. como lobo carniceiro.

. À esperança de todos os meus dias! 25 . Que abriu meus olhos na imortalidade. Onde pairam as formas vaporosas Do país ignorado da Beleza. Irmã da paz e da serenidade. A morte abriu-me as catedrais radiosas. G. calmo e austero.Parnaso de Além-Túmulo 2 A.. Morte Silenciosa madona da tristeza. Num dilúvio de lírios e de rosas.Francisco Cândido Xavier . Que traz à Terra um tênue reverbero Da mansão das estrelas erradias. Que entornavam no espaço a sutileza Dos incensos das naves harmoniosas! Monja de olhar piedoso. Filhos da luz de uma outra Natureza.

Depois de atravessar a sombra imensa. Adeus mágoas da noite estranha e densa. Das angústias e sonhos do passado. Rogo a Jesus conceda reconforto Aos corações amados que ficaram! . Ante o novo caminho ilimitado.Francisco Cândido Xavier . em prosa e em verso. Quintão Viajor vacilante e extenuado. Rememorando as dores que passaram.. É doce descansar após a lida.Parnaso de Além-Túmulo 26 3 Albérico Lobo NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro em 1865 e desencarnado em fevereiro de 1942. Funcionário público. Não conservo senão o Amor e a Crença. Banhar o coração na luz da vida. Encontrei o país abençoado Onde vive a celeste recompensa. colaborou ativamente na imprensa e deixou opulenta obra esparsa. E dos quadros risonhos do meu porto.. Do meu porto Ao caro amigo M.

Entre as vascas da morte. Desgraçado viajor rebelado ao seu guia.Francisco Cândido Xavier . dedicou-se principalmente ao Magistério.Parnaso de Além-Túmulo 27 4 Alberto de Oliveira FLUMINENSE. E no escuro bulcão só Jesus persevera. . Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. que sepulta a quimera. em 1859. soluça. neste mundo. Sente o Mestre do Amor que lhe mostra nos ombros A grandeza da cruz que ilumina e socorre. No pavor de esperar a angústia que vem perto!. Jesus Quanta vez. anseia e balbucia A suprema oração da dor do seu deserto.. em 1937. entre escombros. Nessa grande amargura. nascido em Palmital de Saquarema.. a alma pobre. e falecido em Niterói. Como a luz imortal do amor que nunca morre. foi tido como Príncipe dos Poetas de sua geração. sobre a estrada sombria. Desespera.. O homem vive a tatear na treva em que se cria! Em torno. o peito exangue e aberto. parnasiano de escol. em rumo escuro e incerto. tudo é vão. Do mundo é a escuridão. Farmacêutico..

na dor da alma perjura. hoje e amanhã. Tudo o que era vaidade. Sente o extremo pavor que a morte lhe revela. Do último dia O homem. ajuda e passa. abatido em seu horto. foge à sombra e à vingança. Na eterna lei de amor que consagra a criatura.Francisco Cândido Xavier . como raios de aurora.. Do pobre coração. No pungente estertor do peito quase morto. Seja a bênção de amor a luz do teu destino. arrima-te à esperança.Parnaso de Além-Túmulo Ajuda e passa Estende a mão fraterna ao que ri e ao que chora: O palácio e a choupana. Seu coração é um mar que se apruma e encapela.. Tudo o que vibra espera a luz que resplendora. Irradia o perdão e atende. que é náufrago sem porto. compreende. Não te aflija a miséria. Onde clame a revolta e onde exista a amargura. Planta a bênção da paz. Agora. no último dia. Toda a nau da ilusão se destroça e esfacela Sob as ondas fatais da indômita procela. o ninho e a sepultura. agora é desconforto. mundo afora. Nas trevas do ladrão. Não troques mal por mal. 28 . Esclarece a alegria e consola a desgraça. Guarda o anseio do bem que é lume peregrino.

homem vão? Cala em ti todo alarde.Francisco Cândido Xavier . Foge dessa tormenta antes que seja tarde: Só Jesus tem nas mãos o farol do Universo. Rompe a treva do abismo enganoso e perverso! Onde vais. Conservando Jesus por verdade e caminho. 29 .Parnaso de Além-Túmulo Somente o que venceu nesse mundo mesquinho.

1 Lasneau amigo. Detendo por balda nossa Descrença.. Depois de estudar Engenharia até ao 4º ano do curso. Agora é que entendo isso. É minúscula palhoça. no município de Piraí. É o coração que desata Meus pesares num lembrete. . não é bilhete. colaborou em várias revistas e jornais. Cheia de lama e fumaça. Poeta e jornalista. Carta ligeira Meu Lasneau. Onde a carne. nem ata. É feio talhão de roça. Estado do Rio. esta choça. Não é ofício. Mas é triste a fé sem viço Que o sepulcro impõe à pressa..Francisco Cândido Xavier . guerra e cachaça. passa. e desencarnou em 13 de novembro de 1948. tornou-se funcionário da Central do Brasil. aposentando-se como Agente de 1ª classe. A Terra.Parnaso de Além-Túmulo 30 5 Alfredo Nora ALFREDO José dos Santos Nora nasceu em 18 de novembro de 1881. breve. ante o sol da Graça.

Perdi tempo em maluquice E o tempo me desconhece.. 31 . Não me olvide em sua prece. Sem a velha esquisitice Que inda agora me entontece! Entretanto. A vida real começa. Além da prisão de osso.Parnaso de Além-Túmulo Espere sem alvoroço. Desejo que a luta cesse. Que a coisa melhore e. passe. se eu pudesse Dizer tudo o que não disse.Francisco Cândido Xavier . 2 Oh! meu caro. é clara a messe Da sementeira de asnice. face a face. É natural que padeça A minha pobre cabeça Perante a Luz..

. Ó crentes de uma outra vida! .. Aos crentes Ó crentes de uma outra vida. Que andais no mundo exilados.Parnaso de Além-Túmulo 32 6 Alphonsus de Guimarãens AFONSO Henrique da Costa Guimarães. poeta mineiro.. etc. qual se afirma em suas obras: Dona Mística. Nasceu aos 24 de julho de 1870 e desencarnou em 15 de julho de 1921. Escada de Jacob. Tangei harpas de esperança. Septenário das Dores.. natural de Ouro Preto.Francisco Cândido Xavier . Nos caminhos enevoados. eterna e imensa. Nas lutas de vossa esfera... Porque a Morte é a primavera Luminosa. Filhos da paz e da crença Tangei harpas de esperança!.. Lendo o missal da amargura! Esperai a sepultura. Kiriale. jornalista e poeta. Magistrado. notabilizou-se principalmente pela tonalidade mística do seu astro.

. O perfume das hóstias consagradas.. Rezando as orações dos Septenários. Almas que andais gemendo nas estradas Da amargura e da dor..Francisco Cândido Xavier . no Espaço luminoso e imenso. das Novenas.. em volutas de flores e de incenso. Vozes de sinos pelos santuários. na sombra onde se exala Um perfume de altar e misereres. 33 . Atravessai o nevoeiro denso Em que viveis no mundo. Sobre quem a saudade despetala Os seus lírios de pálidos fulgores. velhas cenas. Almas tristes de freiras e sórores. Enchendo as grandes vastidões serenas. Sinos Escuto ainda a voz dos campanários Entre aromas de rosas e açucenas. Dos Ofícios. amortalhadas. E seguindo outros seres solitários.. Achou. eu vos pertenço. Retomo velhos quadros. Eu ressurjo nos místicos prazeres.. De vos cantar. dos Terços.Parnaso de Além-Túmulo Redivivo Sou o cantor das místicas baladas Que.

Francisco Cândido Xavier . Oh! Virgem da Pureza e dos Martírios! Imagens de turíbulos e rosas Aromatizam todos os empíreos. Dizendo a mesma Fé que salva os crentes! Santa Virgo Vírginum Sobe da Terra. Senhora. Em magnificência ampla e radiosa. Buscando-vos nas Luzes Harmoniosas. que vos vejo nos caminhos. Onde a vossa virtude carinhosa Consola e ampara os fracos pobrezinhos. Há na Terra canções maravilhosas Entre as luzes e as lágrimas dos círios.. o mundo inteiro vos festeja.Parnaso de Além-Túmulo A morte que nos salva não nos priva De ir ao pé de um sacrário abandonado. porém. 34 . como inda faz a alma cativa! Ó sinos dolorosos e plangentes. Nos altares simbólicos da Igreja! Eis. Um turbilhão de vozes e de lírios.. em ondas luminosas. Cantai. Chorar. como cantáveis no passado...

Por que não recolheste a tempo a tua parte? – Nada vi – responderás. O Senhor passa todos os dias. até agora. O Amado é incapaz de violentar a tua alma. Persegues a fantasia e alimentas curiosamente a ilusão.Parnaso de Além-Túmulo 7 Alma Eros O cálice A chuva benéfica e abundante cai dos céus Mitigando a sede da terra. Assim também. Mas. choras e desesperas. Na estrada longa do destino. Seu coração freme de júbilo. No entanto. É porque teus olhos estavam nevoados na atmosfera do sonho. Acolá. Em que estenderás ao seu amor infinito 35 . Na expectativa de entregar-te os tesouros eternos. Todavia..Francisco Cândido Xavier . o Amado espera.. o Amado faz chover sobre os homens Os poderes e as bênçãos.. Aqui. guardas o vinagre dos desenganos. E dia virá. Distribuindo os dons celestiais.... Mas as ânforas do teu coração vivem transbordando de substâncias estranhas. Seu carinho aguarda a confiança espontânea. o envenenado licor dos caprichos.

. Quando penetrou noutros círculos. Sobre as obscuridades do irmão que sobe dificilmente a montanha? Quando atravessava a floresta O pobrezinho julgou que o Amado lhe falava à mente pela voz do trovão E lhe erigiu altares Enfeitados de flechas.Parnaso de Além-Túmulo O cálice do coração lavado e vazio. sofreu. Deu-lhe novas forças. Por vezes. O Amado.. De tempos a tempos. Depois. jamais o deserdou por isso. Em busca da criancinha abandonada. Ao influxo do bendito esquecimento. porém. Fê-lo dormir no regaço. Acreditou que o Senhor pertencia somente ao seu grupo E que as outras comunidades humanas eram condenadas. Concedeu-lhe oportunidades diferentes. O irmão Por que ajuízas com ironia. 36 . feriu-se em dolorosas experiências.Francisco Cândido Xavier . Como pai carinhoso. Lutou. Buscou-o no fundo dos abismos.

Contempla as culminâncias que te aguardam Entre as nuvens. Não observas em seu caminho áspero a tua própria história? Não atormentes com palavras amargas o irmão que se eleva Laboriosamente.Francisco Cândido Xavier . Se já atingiste Algum topo de colina. Ama-o. faze-lhe o bem que possas. E estende as mãos fraternas Àquele que ainda não pode ver o que já vês. 37 . Dando ao mundo o que possui de melhor.Parnaso de Além-Túmulo Para que o sol do trabalho lhe sorrisse outra vez.

Sob a ilusão mendaz chameja a pira Da verdade. Publicou. Qual folha solta ao furacão violento. onde era encarregado dos negócios do Governo Imperial do Brasil. celeste. de alma consumida. em livro. A alma transpõe o túmulo chorando. um poema heróico-burlesco – “A Festa de Baldo”. Desfaze a teia da filáucia humana. E quem da luz não fez templo e guarida.. O gozo desfalece à própria gana. em breve. humilha e desengana A demência da carne que delira.Parnaso de Além-Túmulo 38 8 Álvaro Teixeira de Macedo ÁLVARO Teixeira de Macedo nasceu no Recife em 13 de janeiro de 1807 e desencarnou em 7 de dezembro de 1849. Finda a festa de baldo riso infando. Depois da festa Não te entregues na Terra à vil mentira. na Bélgica. Desce gemendo. Toda vaidade ao báratro se atira.Francisco Cândido Xavier .. soberana. Que a Morte. Ao turbilhão de cinza e esquecimento. .

De dúvida.Francisco Cândido Xavier . Incitando vossa alma aos planos invisíveis. incerteza e angústias consumida. empobrecido e incerto. Que abandona a matéria exânime e cansada. A morte é simplesmente o lúcido processo Desassimilador das formas acessíveis A luz do vosso olhar. Que traz a treva em si e abre a porta dourada De um mundo que entre nós é a luz desconhecida. Também tive a minhalma outrora perturbada.Parnaso de Além-Túmulo 9 Amadeu (?) O mistério da morte O mistério da morte é o mistério da vida. Onde vive e se expande o Espírito liberto. 39 . Venho testemunhar a luz de onde regresso. Mas a morte sanou-me a última ferida Desfazendo as lições utópicas do Nada.

Rainha! Estrela da Humanidade. consagrados pela crítica coeva. além de copiosa literatura teatral e doutrinária.Parnaso de Além-Túmulo 40 10 Amaral Ornellas FUNCIONÁRIO público. Nasceu no Rio de Janeiro em 20 de outubro de 1885 e desencarnou a 5 de janeiro de 1923. deixou dois volumes de Poesia. O Senhor sempre é convosco. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! Cheia de graça e bondade. Bendita sois vós. Providência dos que choram Nas sombras da desventura. É por vós que conhecemos A eterna revelação Da vida em seus dons supremos. Lírio puro da humildade! Entre as mulheres sois vós . Talento brilhante. Ave Maria Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime.Francisco Cândido Xavier . Rosa mística da fé. Mensageira da ternura.

Toda amargura é sombra enfermiça e ilusória..Parnaso de Além-Túmulo A Mãe das mães desvalidas. Nossa porta de esperança. além da Cruz.Francisco Cândido Xavier . Desde a paz da Manjedoura. E Anjo de nossas vidas! Bendito o fruto imortal Da vossa missão de luz. Às dores. Nele o bem cedo atinge a colheita da glória E o mal desce ao paul de lama. Assim seja para sempre. cinza e areia.. Esquece a mágoa hostil que te oprime e alanceia. Oh! Divina Soberana.. Refúgio dos que padecem Nas dores da luta humana. Trabalha. Ai do mundo se não fora A vossa missão sublime! O Tempo O tempo é o campo eterno em que a vida enxameia Sabedoria e amor na estrada meritória. Ave Maria! Senhora Do Amor que ampara e redime. Dor e luta na Terra – a Celeste Oficina – 41 .. O serviço é vitória E cada coração recolhe o que semeia. espera e crê.

amando por vencê-las. nos braços do Tempo.. Purifica-te e cresce. ascenderás cantando Aos Píncaros da Luz.Parnaso de Além-Túmulo São portas aurorais para a Mansão Divina.. no País das Estrelas! 42 . Serve sem perguntar por “onde”. “como” e “quando”.Francisco Cândido Xavier . E.

Eis que a Terra te acusa..Francisco Cândido Xavier . caracterizando-se pelo seu espírito filosófico. arma de efeito. Como a Grande Mendiga do Universo!. sombrio e inverso.. Num caminho infeliz. formidando. . Longe da Luz. É vulto eminente e destacado nas letras portuguesas. soluçando. Investigando a entranha da monera.. nos Açores. Fomentando o princípio desumano Da ambição onde a força prolifera. Sob o alarme guerreiro.. Ciência de ostentação. em 1891. e desencarnado por suicídio. A desvendar-se no capricho insano? Ciência que se elevou à estratosfera E devassou os fundos do oceano. Ciência ínfima Onde o grande caminho soberano Da Ciência que abriu a nova era. da Paz e do Direito.Parnaso de Além-Túmulo 43 11 Antero de Quental NASCIDO na ilha de São Miguel. em 1842.

Parnaso de Além-Túmulo Rainha do Céu Excelsa e sereníssima Senhora. É a luz dos tristes e dos desterrados. Que sois toda Bondade e Complacência.Francisco Cândido Xavier . Nos crepes do Silêncio amortalhada. Esperança dos pobres desvalidos!. eu te adorei. luta e chora. Que espargis alegria e claridade Sobre o mundo de trevas e gemidos. Amparai o que anseia.. À morte Ó Morte.. como se foras O Fim da sinuosa e negra estrada. Visão de tristes faces cismadoras. Vosso amor. Oh! Anjo Tutelar da Humanidade. que enche os céus ilimitados. Eras tu a visão idolatrada Que sorria na dor das minhas horas. 44 ... Onde habitasse a eterna paz do Nada As agonias desconsoladoras. Sede a nossa divina providência E a nossa proteção de cada hora. Que espalhais os eflúvios da Clemência Em caminhos liriais feitos de aurora!. No labirinto amargo da existência.

Trazia em mim o anseio irresistível De conhecer o Deus indefinível. Os prazeres. o engano imaginado Para aumentar a mágoa e o sofrimento. eu que trazia a alma já morta. Só existia a dor. Olhar de pensador amargurado. Por onde penetrei no Sofrimento. amarga e inconsolável.Parnaso de Além-Túmulo Busquei-te. 45 . Batendo alucinado à tua porta. E escancaraste a porta escura e fria. Ao meu olhar de triste e de descrente. Depois da morte 1 Apenas dor no mundo inteiro eu via. Se vislumbrava o riso da alegria Fora dessa amargura inalterável Esse prazer só era decifrável Sob a ilusão da eterna fantasia. O gozo era a mentira dum momento. ela somente. Numa senda mais triste e mais sombria. 2 Misantropo da ciência enganadora. Que num véu de tristeza impenetrável Multiplicava as dores que eu sofria. E tanto a vi. Escorraçada no padecimento.Francisco Cândido Xavier .

então. Que a morte era um enigma solúvel. Ela era o laço eterno e indissolúvel. em toda hora. Mas a insídia do orgulho e da descrença Guiava-me a existência desolada. Podia ver. Morri. de quem descria. 3 Depois de extravagâncias de teoria.Francisco Cândido Xavier . Que liga o Céu à Terra tão sombria! E por estas regiões onde eu julgava Habitar a inconsciência e a mesma treva Que tanta vez os olhos me cegava. Recamada de dor profunda e intensa. reconhecendo. Não o via e. eu cria Achar na morte a escuridão do Nada. Nas vastidões da terra úmida e fria. encontrar as luzes puras Da verdade brilhante. Nesse anelo cruciante e intraduzível. No seio dessa ciência tão volúvel. Pela voz da vaidade. no entanto. Iluminando todas as alturas.Parnaso de Além-Túmulo Que era na dor. Sobre o problema trágico. visão consoladora. Vim. sentindo o Incognoscível E a sua onisciência criadora. insolúvel. 46 . De ver o Deus de Amor. todavia. que se eleva. gemendo.

Ao viver da minhalma sofredora. Divisei aos meus pés. como se fora Apossar-me do eterno esquecimento. Sua voz cavernosa e soluçante!. na Terra. Aproximei-me dele. de mim diante. fugindo ao mundo. Andei cego. suplicante.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Soneto Quisera crer. Era de ouvir-lhe o grito gemebundo. Desvairado. O Remorso Quando fugi da dor. Sem que a Paz almejada conseguisse. A medonha figura de gigante Do Remorso. que existisse Esta vida que agora estou vivendo. E em vez de imperturbáveis quietitudes. Dizendo-lhe.. Recrudescendo as minhas dores rudes. De amargoso penar que se me abrisse. E nunca encontraria abismo horrendo. porém. Encontrei os Remorsos e o Tormento. e sem que visse Meu próprio bem na dor que ia sofrendo. ao sepulcro fui descendo.. cansado e moribundo: – 47 . Da morte a Paz busquei. de olhar grave e profundo.

senão Deus. Acordando-me em lágrimas. corvo horrendo. É o contra-senso Da luz unida à lama que a tortura. Mais se me aumenta a chaga dolorida.. Que se vive no abismo tenebroso. Do espírito de amor ao mal imenso..Parnaso de Além-Túmulo “Que fazes ao meu lado. Cheio do pranto da alma encarcerada! Deus Quem. criou obra tamanha. Nesse abismo de treva a bênção pura. Se enlouqueci no meu degredo estranho. gemendo?” Ele riu-se e clamou para meus ais: “Companheiro na dor. Escutando o soluço cavernoso Da pobre Humanidade escravizada. quando penso No mar humano. Sentindo o horror que nasce dessa vida. Sente o assédio do mal. eu te acompanho. 48 . Onde se perde a luz em noite escura.Francisco Cândido Xavier . encapelado e imenso. Nunca mais te abandono! Nunca mais!” Soneto Mais se me afunda a chaga da amargura Quando reflexiono.

Entre as almas são louros repartidos Muito longe da Terra impenitente. Que sobre a Terra os grandes bens perdidos São a posse da luz resplandecente.. Poderia criar o imensurável E o Universo infinito criaria!. Oh! se eu pudesse.Francisco Cândido Xavier . Que a luz. Os soluços. No coração dos homens e das feras. a excelsa luz. a mágoa mais pungente... somente o Eterno. No coração do mar e da montanha! Deus!. Aos flagelados e desiludidos.. os prantos. os gemidos. Onde se agitam turbilhões de esferas. senão ele fez a esfinge estranha No segredo inviolável das moneras. iria em altos brados Libertar corações escravizados Sob o guante de enigmas profundos! 49 . A dor mais rude.Parnaso de Além-Túmulo O espaço e o tempo. Suprema paz. as amplidões e as eras. diria eternamente. E que habita na eterna claridade Das torrentes da Luz e da Harmonia! Consolai Se eu pudesse. aquece e banha? Quem. o Impenetrável. intérmina piedade.

na Terra.. De tão pequena dor fazendo alarde. Ah! Crer! bem que. dizei-lhes. Que a luz espiritual da dor encerra A ventura imortal dos outros mundos! Crença Minha vida de dor e de procela Que se extinguiu na tempestade imensa. distante do caminho estreito Desse mundo de dor e de orfandade. Que as grandes luzes místicas revela.. E estraçalhei-me como alguém que sela Com o supremo infortúnio a dor intensa.Francisco Cândido Xavier . Não choreis Não choreis os que vão em liberdade Buscar no Espaço o luminoso leito Da paz. Quando entre conjeturas me perdi.Parnaso de Além-Túmulo Mas. Desvairado de angústia e de descrença. não possui. Crença! Luminosíssima riqueza Que enche a vida de paz e de beleza. 50 . ó vós que estais na Terra. Dentro da vida sem compreendê-la. Mas que chega no mundo muito tarde. Despedaçou-se à falta dessa crença.

transformai-o em gozo alto e perfeito. Mas. Buscando a paz depois das grandes lutas. Se o tormento da vida recrudesce. Aguardai a abundância da outra messe De venturas. Em santa e esperançosa claridade. Procura a luz sublime dos espaços. Se a amargura das lágrimas se aviva. na Crença e na Esperança. Sobre as dores da pobre alma cativa. Que perfuma e crucia o vosso peito. Dos aguilhões das dores absolutas: Feliz de quem. que é da alma rediviva. Misericordiosa e compassiva. angústias e cansaços.Francisco Cândido Xavier . Confiando. Que está nas sendas lúcidas da Prece. Chega um dia em que o Espírito descansa Das aflições. Mão divina A luz da mão divina sempre desce. esperai a Providência Com os sentimentos puros.Parnaso de Além-Túmulo O pranto é a flor de aromas da saudade. diamantinos. Lendo os artigos ríspidos da Lei! Os filhos da Piedade e da Paciência Encontrarão nos páramos divinos 51 .

Almas sofredoras Passam na Terra como as ventanias. bons trabalhadores Que estais colhendo sobre a Terra as flores De um doce e temporário esquecimento. Miseráveis Espíritos que choram. Sob os grilhões de rude sofrimento! Orai por eles. Entre as noites mais lúgubres e frias! Oh! visões de martírios que apavoram. e em cujos flancos Repousa a grande mágoa adormecida. Turbas de almas escravas de agonias. Céu! quanta vez minhalma entristecida Anteviu tua paz. Essas compactas legiões sombrias. Onde mora a ventura. 52 .Francisco Cândido Xavier . Ao palmilhar estradas escabrosas. Ou como agigantadas nebulosas Provindas de cavernas misteriosas. Como um vergel azul de lírios brancos. em toda a vida. sob os arrancos. Com que andei entre queixas dolorosas.Parnaso de Além-Túmulo A paz e as luzes que eu não alcancei. Supremo engano Vê-se da Terra o Céu.

A paz livre de trevas e pavores. que traz a alma lacerada Nos pelourinhos negros de uma estrada De provação. Deus não castiga o ser e nem o isenta Da dor. Antegozei. Pelos seres terrenos inventada. Na escuridão espessa e indefinida! Não sonhei com teus deuses venturosos. Tudo fala de Deus nesse desterro Da Terra. Que entre anseios e angústias conheci! Mas. orbe da lágrima e do erro. Com teus grandes olimpos majestosos. rijos e francos.. Que em sua triste condição humana Fez a essência de Deus igual a si! 53 . somente. Do imperturbável nada que não tens! Incognoscível Para o Infinito. quanto o vão mortal inda se engana. em minhas dores..Parnaso de Além-Túmulo Sob os golpes da dor. de angústia e de tormenta. de cólera violenta. às vezes. Cheia.Francisco Cândido Xavier . Cheios de vida e de infinitos bens. Deus não representa A personalidade humanizada.

.. a crença se realiza. brasonado cavaleiro.Francisco Cândido Xavier . no mundo.. no mundo inteiro. e. Foi crer demais na angústia e na doença Da alma que luta e sofre. na Terra. Porque em tudo. às dores derradeiras Que as tormentas de lágrimas desatam!... E no meio de todas as canseiras Cheguei. além. enfim. no mundo da Agonia. A Morte é a própria Vida ativa e intensa. o homem divisa A figura das dúvidas que matam. Fim de toda a amargura da descrença. O meu erro. Nunca. chora e pensa. 54 . Nos labirintos da Filosofia.Parnaso de Além-Túmulo Fatalidade Crê-se na Morte o Nada. Onde a grande certeza principia.. Estranho concerto Clamou o Orgulho ao homem: – “Goza a vida! E fere. Coroado de folhas de loureiro. Quem vai de alma gemente e consumida. todavia. Cavalga o tempo e corre ao teu roteiro De soberana glória indefinida!.. Veio a Vaidade e disse: – “A toda brida! Dominarás..

Cavaleiro e corcel. Aos tenebrosos pântanos da Morte. 55 . vaidade e orgulho. angustiada.Francisco Cândido Xavier . em voz soturna: – “Insensato! aonde vais. Gritou-lhe.Parnaso de Além-Túmulo Mas a Verdade. sem norte?” E impeliu. sobre a humana furna. sem Deus. sem detença e sem barulho.

Parnaso de Além-Túmulo 56 12 Antônio Nobre NASCEU na cidade do Porto e faleceu na Foz do Douro aos 33 anos de idade.. Nem a morte os vencerá. Nem gritos e nem cantigas Entre vós que à noite andais. Voltam sim. E por que não? Os corpos daí nos soltam. . não vos canseis De bater. edição de 1902. que importa lá? Porque os amores fiéis. muito estimado – Só – e Despedidas... Como às aves o alçapão. Ó figuras de velhinhos Que andais dormitando ao léu! Como são belos os Linhos Que vos esperam no Céu! Dizem que os mortos não voltam. Deixou um livro inconfundível e. em 18 de março de 1900. Quadras de um poeta morto Coração. ainda hoje. Distinguiu-se pela suavidade e melancolia do seu estro..Francisco Cândido Xavier . As almas das raparigas Inda sonham nos choupais.

Vós que amais a luz da Lua.. Quem riu ontem.. De vossa alma abri as portas Para. Que choram nas horas mortas.Parnaso de Além-Túmulo Nas grandes mansões da morte Inda há romance e noivados. Sem que o veja escapulir. acima de tudo Devemos amar a Deus. Às vezes acham-se fojos Onde há música e festins. que valem elas Se estão na sombra ou sem luz? Tesouro são as estrelas Da bondade de Jesus. Nem sempre poderá rir. Pensei que a morte era o fim Das ânsias do coração. Corações despedaçados. Venturas da boa sorte. não é assim. Contudo. Um dia o riso lhe foge. quem ri hoje. Riquezas. Pode-se amar o veludo De uns olhos e os brilhos seus.. E há muitos cardos e tojos 57 .Francisco Cândido Xavier .. Porém. Nem pó e nem solidão. os fantasmas da rua.

No sepulcro não termina O novelário do amor. Chorai! chorai orfãozinhos. Nesse mundo miserando Toda ventura é ilusória. Se eu pudesse. Guardando as gotas de pranto Numa urna cor da aurora. estenderia Minhas capas de luar.. Vossas dores amargosas: Achareis noutros caminhos As vossas mães extremosas.Parnaso de Além-Túmulo Entre as flores dos jardins. se vais caminhando Na ambição de ouro e glória. Teu coração sonhador. 58 . Um anjo cheio de encanto Vive sempre com quem chora.Francisco Cândido Xavier . Deixa cantar. Sobre os filhos da agonia Que andam no mundo a penar. No Universo há céus profundos.. Para quem a padecer Vive aí na sepultura. ó menina. A morte só pode ser A vida risonha e pura. Mal vais.

claridades. São senhores despojados Dos seus tesouros de reis. 59 . Aos mendigos desprezados Não ridicularizeis. O raio de primavera Que aí jamais encontrou. Sonho. Há quem faça aí mil contas. Ah! que sinto aqui saudades Das noites de São João. Aqui. Um céu é um ninho de mundos. Cantigas do coração. Na escuridão do infortúnio. estrelas. A caridade é a beleza De um divino plenilúnio. Luz que se estende à pobreza.Parnaso de Além-Túmulo Cheios de vida e esplendor.Francisco Cândido Xavier . Que os interesses resuma. Vivei aí nas clareiras De luzes alcandoradas. a alma inda espera O alguém que na Terra amou. Sem fazer conta nenhuma. Um mundo é um ninho de amor. Oh! almas enamoradas. fiandeiras. Mas morrem cabeças tontas. Tecei sonhos.

Do Além Pudesse o nosso olhar. Ver através da própria soledade A expressão luminosa da Verdade. vagueando os ermos.. Pois que o ardente desejo de o sabermos É sempre o anelo falso da vaidade? Peregrinos da dor.. E da luz da Verdade não descrermos. Meu querido Portugal! . Acompanha-me a tristeza Das saudades. Seguindo a alma nos sonhos iludida.. 60 . na dor andamos Sem que a nossa miséria se desfaça No escabroso caminho onde marchamos..Parnaso de Além-Túmulo Na minha vida de agora Não canto as festas louçãs. Minha terra portuguesa! .. porém. Até que a dor unindo-se à desgraça Descerre os véus que encobrem outra vida.. Naquelas toadas de outrora As moçoilas coimbrãs. por meu mal. Preocupar-se aí.Francisco Cândido Xavier . quem há de Com o problema de sermos ou não sermos.

entristecido. morto de incerteza. Ou a dor amarga e rude em que te cortas. para os grandes bens. E murmurava a alma – “Findo o Outono. Não existe no túmulo o abandono. Aguardando o sol-posto. O vale de amarguras do Salmista. Mas. A Primavera vem por outras portas.Francisco Cândido Xavier . Dormirás no meu seio o último sono. 61 .. Ressurgi da tortura e da tristeza. E além da amarga vida de segundos.Parnaso de Além-Túmulo Soneto “Quando cobrir-se o chão de folhas mortas – Meu coração dizia em grave entono – Extinguindo-se a vida que comportas. Lodoso chavascal onde se avista A podridão dos vermes que apavora. Sob os ares sadios de outros mundos! Ao mundo A Terra é o vasto abismo onde a alma chora. Morto de angústia. Precisamos da carne que aprimora Com o camartelo mágico do artista.” Escutava essas vozes comovido.. para que exista A perfeição da luz deslumbradora.

62 . ó mocidade! Moira Encantada que ri nos prados verdes. Teu rigor nos redime e nos eleva. Nos poemas de luar que conceberdes! Ide cantando. o sol que doira O riso que espalhais sem compreenderdes. Vibrai na luz da vida em que viverdes. Ébria de aroma e luz. Triste mundo de chagas pustulentas! À Mocidade Cantai! cantai. Clareando o porvir almo e risonho. mocidade ardente. ditosa. Porque da tua dor alcei meu vôo Para a mansão das luzes opulentas.Parnaso de Além-Túmulo Terra. doce juventude. Na exaltação do amor e da saúde. ébria de sonho!. Cantai o amor que é luz que se entesoira. Alvorada em abril. Mas és ainda o cárcere da treva... Expandi-vos na primavera loira. do sol-nascente.. Glorificai. Marchai sorrindo.. tranqüilamente eu te abençôo.Francisco Cândido Xavier .

na cidade de Hamburgo. Cheio de luz das coisas invulgares. Terminados os múltiplos azares. Infeliz do meu ser irredimido. Esquife do sonho Tive um sonho de amor e de inocência. No silêncio das cinzas tumulares. – Abismo tenebroso que eu transponho. E da morte. Tarde reconheci minha falência. como cônsul adjunto do Brasil. falecendo. em 1934. De minha quase inútil existência. abandonando mais tarde a profissão eclesiástica. Tombei exausto. Poeta e escritor. Ordenou-se sacerdote. no abismo indefinido. Pois triste e atordoado inda carrego O negro esquife do meu próprio sonho.Parnaso de Além-Túmulo 63 13 Antônio Torres NASCEU em Diamantina (Minas Gerais) em 1885. amargurado e cego. Do qual perdi a luminosa essência Na cristalização dos meus pesares. .Francisco Cândido Xavier .

Antes. Na qual acreditei. Que as trevas mais compactas aclara. resplendente e rara Da Fé.. Pois nem sempre a razão profunda e fria Alivia ou consola o coração. Revendo os dias tristes do passado. Vi que troquei a Fé pela ironia. não fosse tão ousado. única Luz da única Aurora. Filosofia rude e amara.. com pena embora De abandonar a crença que esposara. porém. Nos desvios e excessos da razão.Parnaso de Além-Túmulo Nada..Francisco Cândido Xavier .. Crença é o perfume d'alma que se enflora Com a luz divina. – A minha aspiração de cada hora. 64 . Nada! .

Viu que a esposa beijava um seu amigo. e. dama de juízo.. Sobre o divã. Homem de cabedais e alma sem siso. no Maranhão. jornalista e crítico.. a 7 de julho de 1855 e falecido na cidade do Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908.. devagar. da sala de jantar. Membro e fundador da Academia Brasileira de Letras. Miniaturas da sociedade elegante 1 Adriano Gonçalves de Macedo. assim.. onde ocupou a cadeira de Martins Pena. comediógrafo. muito a medo.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 65 14 Artur Azevedo NASCIDO em São Luis. que tragédia após esse perigo. Não na visse nem mesmo por brinquedo: Dona Corália Augusta Colavida Estaria nessa hora recolhida? Levantou a cortina. 2 No belo palacete do Furtado. Mas. Penetrou no seu quarto com um sorriso Às dez horas da noite. Diretor Geral de Contabilidade do Ministério da Viação. era preciso Que a sua esposa. Poeta. Uma carta de amante – era um segredo – Ia abri-la. .

interessado. muito aflita: . cínico e falsário. notável latinista. E a esposa Ana Fulgência. E ele. Sobre rígido assunto moralista. Nele via uma grande alma de artista. Foi um sucesso. 3 Dom Castilho. Numa corrida louca. Realizara alentada conferência. Mais o olhava e mais se ria. Toma o moço um livrinho encadernado.“Esse livro. De sobre a grande cômoda bonita. esses senhores Foram achá-lo em seus trajes menores.Parnaso de Além-Túmulo Palestrava a galante Mariquita Com um pelintra afetado. Louvando-lhe a utilíssima existência De homem probo e notável publicista. 66 . poetas. é meu breviário!” Diz inquieta... conselheiros. Que primor de moral! e os companheiros Escritores. Arrebata-o às frágeis mãos trementes Abriu-o. Recamado de quadros indecentes.Francisco Cândido Xavier . Foram levar-lhe um abraço camarada. Revirando-o nas mãos. Bacharel delambido e enamorado. Protegido dos membros da regência. Antonico. Mas a jovem retoma-o. Era um compêndio de pornografia. assaz catita.

..Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo No apartamento escuro da criada. 67 .

Tudo era languidez. Agreste serrania. tristonha e desolada. elevando-se aos céus. perdoando a maldade. Viam-se florescer bromélias e boninas. orador e publicista. onde o Sol feria os vegetais. Ali vivia Anchieta. espelho de bondade. . E. tendo ocupado a presidência dessa instituição.. Tendo por companhia A cruz do Nazareno. imitador de Assis. humilde e solitário. Abençoando o bem. Era intenso o calor.Francisco Cândido Xavier . o doce missionário. militou na Política e foi membro de realce da Academia Brasileira de Letras. Que na humildade achara a vida mais feliz. Na clareira. nascido em Sabará. em 5 de abril de 1859 e desencarnado no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1934. Ninguém! Nem uma sombra se movia. O doce missionário Sertão hostil. Minas. Além se divisava a solidão da estrada. esguios espinhais Implorando piedade às amplidões divinas. Amarela de pó. Naquele dia.Parnaso de Além-Túmulo 68 15 Augusto de Lima POETA mineiro. desânimo e torpor. Magistrado íntegro.. Carinhoso pastor. Servo amado de Deus.

Pisando vagaroso o chão que o Sol abrasa. Que tem oferecido a Deus o seu amor. Em tão rudes e aspérrimos caminhos! . Que Jesus vos ampare. inflamando os horizontes.. Abandonando o ninho agreste e solitário. – “Meu protetor – diz ele –. Somente o Sol ferino e destruidor. Há solidão na estrada. Que calcina. Dirige-se-lhe a casa.. Para arrancar à dor o pobre penitente. em aflição. Eis que a sede o devora.“Oh! doce filho meu. o bom pajé. Pairam no ar excessos de calor. Nem árvores umbrosas e nem fontes.” .Parnaso de Além-Túmulo Eis que o irmão de Jesus. ao longe. o humilde pegureiro Avista um mensageiro. 69 . Convertido por vós à luz da vossa fé. Que penosa jornada. ao termo da viagem. Entretanto. Ferem-lhe os pés as pontas dos espinhos. o pastor prestamente Toma da humilde cruz do Mártir do Calvário. que vindes de passagem.. o pastor não se deplora.Francisco Cândido Xavier .” E isso dizendo. Agoniza na taba.. Ele espera de vós a paz do coração E implora lhe leveis a bênção do Senhor.

em nossa própria cruz. Eu vejo-te no alvor das manhãs harmoniosas.” Terminando a sorrir a espontânea oração.Parnaso de Além-Túmulo A terna e meiga efígie de Jesus É-lhe paz e alimento. E. na loura Primavera. No azulíneo do céu. Tudo vive a mostrar tua pródiga bondade.. No canto. asas aconchegadas. amparo e luz. no sofrimento. todo amor. Eis que nos arredores Congregam-se apressadas Todas as avezinhas. Eterno Pai de amor. Anchieta escuta em torno os mais sutis rumores.. Abençoados são o Inverno que traz frio E os calores do Sol nas estações do estio. 70 . na irradiação da luz. Juntinhas. Na dor. no cálice das rosas. de luz e caridade... que te ama e te venera. Luz e consolação. Inspirada em tão santa devoção. Numa ideal combinação Formam um pálio protetor. Seja alegria ou dor.Francisco Cândido Xavier . tudo é ventura e paz. Na estação outonal. das meigas avezinhas. Cobrindo o doce irmão Que ia ofertar amor. Numa férvida prece. por tudo o que nos dás. Senhor. Ele ainda agradece: – “Sê bendito. Na vibração dos sons. No coração do bom. Na corola de luz de todas as florinhas.

Ia caindo o dia No poente de paz e de harmonia. O enviado do Bem e da Virtude Agradecia ao Céu. a bênção do Senhor. O santo de Assis No suave mistério dos espaços. Repartindo a Virtude. Evolando-se puro ao seio de Jesus. Aureolando com amor o Discípulo Amado. Em meiga mansuetude. Lábios sorrindo. Chegara ao seu destino. Glorificando as dores da alma triste. feita de crença e amor: Era a bênção dos Céus. a Graça e os Dons Que a palavra divina do Cordeiro Prometeu aos pacíficos e aos bons Do mundo inteiro. Com a mesma luz divina dos seus traços. Santa Maria dos Anjos inda existe. 71 . Brilhava nova luz. o coração em luz. humilde e isento de pecado. Pelos caminhos. casto.Parnaso de Além-Túmulo Em nome do Senhor. Modesto..Francisco Cândido Xavier . Foi-se aumentando O alado bando Dos bondosos e ternos passarinhos.. Que ia seguindo.

A Terra escura e triste se povoa De anjos de amor. Não nos cansemos de glorificar A caridade imensa do Senhor.. irmãs Flores. E à voz suave e dúlcida do Santo. singela e boa. O Esposo da Pobreza No seu manto de amor e de alegria Inda abre os braços para os pecadores.. Numa doce e ideal Eucaristia... Derramando no Além ignorado Os sonhos de Virtude e Perfeição. Das paragens etéreas Da sua ideal igreja. Sob a paz de Jesus. Daquela mesma Umbria do passado. São Francisco de Assis abraça e beija 72 . Cheia de encantamento e de oração.. Sua sabedoria e seu amor.Francisco Cândido Xavier . que enxugam todo o pranto E que levam consigo Todo o consolo amigo Da Esperança no Céu. “Irmão Sol. A luz dos sóis da etérea Natureza.Parnaso de Além-Túmulo Uma nova Porciúncula. Aí se rejubila. Procurando salvar Os nossos irmãos Homens mergulhados Entre as noites sombrias dos Pecados!.. irmãos Anjos. terna e tranqüila. dourada Pelos astros de mística alvorada.

Francisco Cândido Xavier . Que me curaste as lepras e a cegueira.. E o conduz Ao regaço divino de Jesus!. vi tua luz singela e casta Beijando as minhas lepras asquerosas....Parnaso de Além-Túmulo O homem que sofre todas as misérias. Santo de Assis. Santo de Assis. Quero ainda abençoar-te a vida inteira. irmão da Caridade. à luz da imensidade. que devasta Todo o bem. Nas amarguras do meu pesadelo De vaidade do mundo. Depois da morte.. Uma chuva de lírios e de rosas Lavou-me o coração de pecador E guardei para sempre o teu amor... 73 .. Amparando-lhe a alma combalida Nos desertos de lágrimas da Vida. divino “poverello”.

suficiente para lhe dar personalidade original. muita vez me consumia Perquirindo nas leis da Biologia As expressões orgânicas das formas. deixou um só livro – Eu – que foi. Deus era a lei de eternos transformismos. Era professor no Colégio Pedro 2º.Parnaso de Além-Túmulo 74 16 Augusto dos Anjos PARAIBANO. Concepção panteística. O fenômeno apenas. . Com o espírito absconso em paroxismos. Eram partes do Todo nas Substâncias Desde o estado prodrômico do mundo. A essência onicriadora reformando. Nasceu em 1884 e desencarnou em 1914. alias. Voz do Infinito 1 No excêntrico labor das minhas normas Na Terra.Francisco Cândido Xavier . inconfundível pela bizarria da técnica bem como dos assuntos de sua predileção. No rubro incêndio de batalha acesa. porque o fundo Do númeno às eternas rutilâncias. Minas. na cidade de Leopoldina. englobando As substâncias todas na Unidade. Perpetuando-se em continuidade. Via Deus adstrito à Natureza.

Parnaso de Além-Túmulo O corpo. De idéia que esteriliza e desensina. A luz dessa dourada ignorância. E com certezas lógicas. Irmanadas aos pútridos fedores De emanações pestíferas da peste! Extravagância e excesso jamais visto. porém. A alma era a molécula. E na individualidade indivisível 75 .Francisco Cândido Xavier . que eu via transtornado: Eu era um átomo individuado Em cerebralidade putrescível. a matéria apodrecer. Afastada do Todo Universal. Loucura que igualava Messalina À pureza lirial da Mãe do Cristo. Assim vivi na presunção que via. Os princípios genéricos do ser. Dos cumes da Ciência e do saber. A sutilez do arminho que se veste. Vi. Era um mero atavismo revivendo. Dominava-me todo o medo horrível. A coroa aromática das flores. No pantanal da lama em que eu vivia. numéricas. desde o embrião inicial. Do meu viver. Notava as pestilências cadavéricas Iguais à carne Angélica da infância. sofrendo.

foste apenas Um corvo ou sanguessuga de defuntos.Francisco Cândido Xavier . Entre as sombras das lágrimas terrenas. Vias os teus iguais. na luz etérica a dizer: 2 “Louco. E os instintos hidrófobos. esquelético fantasma Que gastaste a energia do teu plasma Em combates estéreis. E tanto viste os corpos e as matérias No esterquilínio generalizados. Que espalha o bem e as auras da concórdia No coração de toda a Humanidade. De todo o esterco que apavora o mundo E os tóxicos letais dos corpos podres.Parnaso de Além-Túmulo Ouvi a voz esplêndida e terrível Da luz. Em meio de excrescências e misérias Que corrompeste a íntima saúde Da tua alma cegada de amargores. Que na Terra não viu os esplendores E as ignívomas luzes da virtude.. famulentos. Em teus dias inúteis. Olhos cegos às chamas da bondade De Deus e à divina misericórdia. que emerges de apodrecimentos. 76 . danados. Alma pobre. Vendo somente a cárie dos conjuntos.. iguais aos odres Onde se guarda o fragmento imundo.

Da Terra no vultoso e imenso abdômen. agora.Parnaso de Além-Túmulo Descansa.” 3 Calou-se a voz. Em mil transmutações. as carnes. Venho da fonte eterna das origens. E sufocando gritos. Sei que evolvi e sei que sou oriundo Do trabalho telúrico do mundo. negro e horrível. A infinita desgraça de ser homem. Esquece o verme. desde as intensas torpitudes Das larvas microscópicas e rudes. Filhos do pranto que me espedaçava. em eternos infinitos! Vozes de uma sombra Donde venho? Das eras remotíssimas. os estrumes. Venho dos invisíveis protozoários. Do tetro e fundo abismo. Retempera-te em meio dos perfumes Cantando a luz das amplidões divinas. fundas e enormes. Do silêncio da mônada invisível. Emergindo das cósmicas matérias. das bactérias. No turbilhão de todas as vertigens. Da confusão dos seres embrionários. Das células primevas. vibrião das ruínas. Reconheci que a vida continuava Infinita. Sofri. Vitalizando corpos multiformes.Francisco Cândido Xavier . Das substâncias elementaríssimas. 77 .

Simbiose da dor e da tristeza. Onde me revolvi como infusório. essa tirânica incendiária. A razão do completo e do incompleto. A dor. A flor da laranjeira. Como é que em homem se transforma o feto Entre os duzentos e setenta dias. Inda que desintegres energias. E nem compreenderás como se opera 78 . Depois. não perceberás. Durante penosíssimos minutos. Té atingir a evolução dos seres Conscientes de todos os deveres. analisando os fatos. Como existiram. a asa do inseto.Parnaso de Além-Túmulo Na Terra. Sombra egressa de lousa dura e fria. Um estafermo e um Tales de Mileto. apenas fui terrível presa.Francisco Cândido Xavier . Como animálculo medonho. E vejo os meus incógnitos problemas Iguais a horrendos e fatais dilemas. Abatia-me a vida solitária Como se eu fora bruto entre os mais brutos. Enigmas insolúveis e profundos. Descortinando as luzes do futuro. obscuro. Grito ao mundo o meu grito que se alia A todos os anseios gemebundos: – “Homem! por mais que gastes teus fosfatos Não saberás. voltei desse laboratório.

Porque existem as crianças e os macróbios Nas coletividades dos micróbios Que fazem a vida enferma e a vida sã. Como vive o canário junto ao corvo. Produto da experiência de Hahnemann. As grandes atonias e as nevroses. E a transubstanciação da guerra em paz. O céu iluminado.Parnaso de Além-Túmulo A mutação do inverno em primavera. A noite da ignorância e o sol da Ciência. 79 . A luz de Miguel Angelo nas artes.Francisco Cândido Xavier . A psíquico-análise freudiana Tentando aprofundar a alma humana Com a mais requintadíssima vaidade. Como vivem o novo e o obsoleto. Os antigos remédios alopatas E as modernas dosagens homeopatas. E as teorias do Espiritualismo Enchendo os homens todos de otimismo. o inferno torvo Nos absconsos refolhos da consciência. O laconismo e a prolixidade. O ângulo obtuso e o ângulo reto Dentro das linhas da Geometria. As epidermes e as aponevroses. E o espírito profundo de Descartes No eterno estudo da Filosofia. Mostrando as luzes da imortalidade. A atividade e a inatividade.

As coisas substanciais e as coisas ocas. Assombrosas antíteses no mundo. Onde entre gozos fúlgidos e edênicos Cresce a alegre progênie dos felizes. E o desconhecido e o devassado. É o gigante e o germe originário. Junto dois palacetes higiênicos. Como os degenerados blastodermas Criam a descendência dos palermas No lupanar das pobres meretrizes. 80 . E o que é ilimitado e o limitado Na óptica ilusória do horizonte. Vaso de carne podre. Em contraposição com os paquidermes. A teoria cristã e Augusto Comte. A alma pura do Cristo e a de Tibério. O doloroso e tetro cataclismo Da beleza louçã do organismo. os vermes. Em prodigiosas manifestações. Repleto de dejetos e de estrumes. Os lombricóides mínimos. Que reunindo os átomos no solo Tecem a evolução de pólo a pólo. Os milhões de corpúsculos do ovário.Parnaso de Além-Túmulo As atrações e as grandes repulsões. Onde há somente um óvulo fecundo. E o jardim rescendendo de perfumes.Francisco Cândido Xavier . o cemitério. As idéias conexas e as loucas.

Como as tuberculoses e a anasarca. As atrofias e a hipertrofia.Francisco Cândido Xavier . Outras vozes. Não saberás o cósmico segredo. Cosmopolitismos.Parnaso de Além-Túmulo Os terrenos povoados e o deserto. científicos. A funda simpatia e a antipatia. Buscando as perfeições do Amor em Deus. Para a Vida que eterna se renova. Que inspiram pavor e inspiram medo. sociológicos. Os fenômenos todos geológicos. Seja nas concepções dos ateísmos.” Voz humana Uma voz. É a voz humana em intérminas nevroses. O que não tem sinal e o que tem marca. Uivando subjugadas e ferozes. Na solução de todos os contrastes. Aquilo que está longe e o que está perto. Milhões de vozes. Homem! por mais que a idéia tua gastes. 81 . atrozes. Gritos de feras em paroxismos. Ou mesmo vinculada a gnosticismos Nos singultos preagônicos. A que se acolhem míseros ateus. E apesar da teoria mais abstrusa Dessa ciência inicial. Duas vozes. Psíquicos. Caminharás lutando além da cova. confusa.

seres inorgânicos. Enceguecido e louco então que eu era. Nos vastos campos da Psicologia. A dor.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo É nessa eterna súplica angustiada Que eu vejo a dor em gozos. Nos distúrbios sutis da hipocondria. Nas defectividades da estesia. dos astros à monera. titânicos. As luzes d'alma em trágicos segredos. E o sangue em continuada efervescência Com impulsos terríficos e tredos. nos risos e nos pânicos. Nutrir-se de famélicos prazeres. 82 . Somente achava corpos na existência. que gargalhando em nossas dores. Que eu às vezes na Terra empreendia. Nas lágrimas. insaciada. Que não via. Alma Nos combates ciclópicos. É a obreira que tece os esplendores Da evolução onímoda dos seres. Buscava as almas. Nos instintos soezes e tirânicos.

E nisto achar fantásticos prazeres. Onde a luz é penumbra tênue e vaga. Serpentes entre escrófulas e helmintos.Parnaso de Além-Túmulo Análise Oh! que desdita estranha a de nascermos Nas sombras melancólicas dos ermos. Voracidade onde a alma se mergulha. tegumentos. Multiplicando as lágrimas e os trismos. apodrece. que. 83 . Nos recantos dos mundos inferiores. Que atrofiada. hipertrófica. nervos. sem vigor. Prendermo-nos ao fogo dos instintos. parece Cataclismo dos grandes cataclismos. Em sexualidades e histerismos. luz e chama – Amalgamada em pântanos de lama. Enegrecermos luminosidades Na macabra esterqueira dos tumores. fraquíssima. Ilusão hiperbólica dos seres Bestializados. Atrocidade das atrocidades.Francisco Cândido Xavier . estrambótica. se apaga Ao furacão indômito das dores. materializados. Apoucado Narciso que se orgulha Na profundeza ignota dos abismos Da carne. Tendo a alma – centelha. Na agregação da carne e dos humores. Que. Misturarmos clarões de sentimentos Entre vísceras.

Das origens às súbitas asceses. a onda sonora.Francisco Cândido Xavier . Rudimentos dos seres planetários. em sentimentos. Inferiores e rudimentares.Parnaso de Além-Túmulo Espíritos em ânsias retroativas. No assombroso prodígio das esteses. atassalhados. No profundo silêncio dos inermes. Que percorrem o espaço imensurável. Mas a análise crua do que eu via. nas plantas e nos vermes. Hedionda lição de anatomia. A mesma luz dos corpos estelares! 84 . Nos rochedos. O anseio da vida. É mais que uma atrevida aberração: Que se quebre o escalpelo de meus versos: Entreguemos a Deus seus universos Que elaboram a eterna evolução. A cadeia de impulsos e de instintos. Nas ferezas do instinto. Transformando-se em luz. No transcorrer das vidas sucessivas. Veríamos o evolver dos elementos. Evolução Se devassássemos os labirintos Dos eternos princípios embrionários. Tudo o que a poeira cósmica elabora Em sua atividade interminável.

Psique dolorosa e inexpressável Na mais remota epíspase da infância. Imensidade nas imensidades! Nós já fomos os germes doutras eras.Parnaso de Além-Túmulo É que.Francisco Cândido Xavier . Tudo é clarão da evolução do cosmos. Homo 1 Ao meu tétrico olhar abominável. Heterogeneidades da Substância. Desde a mais abscôndita reentrância Da sua embriogenia detestável. A quietação dos túmulos inermes. Larva repugnante e vermiforme. 85 . Era um feixe de mônadas de vermes. Buscando as perfeições absolutas. Ao monólito enorme das idades. Dissolvidos na terra famulenta. Do intravascular princípio informe. Viemos do principio das moneras. Nos íntimos recôncavos da placenta. Argamassando um Todo miserável. O homem é fruto insólito da ânsia. Enjaulados no cárcere das lutas. dos invisíveis microcosmos.

Vi que o “ego” era o alento flâmeo e forte Da luz mental que a morte não consome. universal.Francisco Cândido Xavier . Onde a divina essência se reveste Da substância fluida. Vendo a terra que os próprios ossos come. Não há luta mavórtica que o dome.Parnaso de Além-Túmulo 2 Após a introspecção do Além da Morte. Incógnita Por que misterioso incompreensível Vomito ainda em náuseas para o mundo Todo o fel. Volve o Espírito ao páramo celeste. Depois da estercorária microbiana. Se eu já não tenho a bílis putrescível? Insondável arcano! por que inundo Meu exótico ser ultra-sensível Em plena luz e atendo ao gosto horrível De apostrofar o pobre corpo imundo? Fluidos teledinâmicos me servem. Horrente a devorar com sede e fome Minhas carnes em lúbrico transporte. 86 . Ou venenada lâmina que o corte. De que o planeta triste se engalana Nas grilhetas do infinitesimal. toda a bílis do iracundo.

Quer com Darwin. e por mais que o procurasse. se mistificasse No anonimato. Inexprimível nas termologias. Extremamente injusto Seria.Francisco Cândido Xavier . com Laplace. sendo eu o Augusto. ígneo. Levantar-me do leito de Procusto. Dentro da noite É noite. se não vos declarasse. com intelecto de arbusto. com Haeckel. Sou eu que. entro Em relação com o mundo onde concentro 87 . Se vos mentisse. que a rota etérica transponho Com a rapidez fantástica do sonho. E.. então. O mesmo triste e estrábico produto. Jamais cri. Chama da mesma chama que me abrasa? “Ego sum” Eu sou quem sou. em brasa.Parnaso de Além-Túmulo Transmitindo as idéias que me fervem No cérebro candente. De que concavidade do Universo Vem-me o açoite flamívomo do verso. Sou eu.. À Terra volvo. Atramente a gemer a mágoa e o luto. lúcido. Nas mais contrárias idiossincrasias.

cruéis. tremendo. A desgraça dos úteros falidos. Sentindo os próprios membros carcomidos. São os ais dos leprosos desprezados. da perpétua grade. Verminados. São uivos dos instintos jamais hartos. Tendo os seus organismos devastados Pela fome insaciável dos micróbios.. Mais o enigma do mundo se lhe aviva. 88 .. Aterradoramente sofredora! Ausculto a humana dor. Às bactérias mais vis ambas trocando. É a ânsia afrodisíaca das bocas. – A misérrima e pobre Humanidade. apodrecidos. Plantando a dor no chão dos seus cenóbios. Mais a luz desejada se lhe esconde! É o quadro mesológico. D'alma quebrando o cárcere do instinto. As dores espasmódicas dos partos.Francisco Cândido Xavier . que hórrida sinto. Por mais que sonde. Sentindo-se em seus leitos como em ermos. Buscando ávida a luz. As dolorosas mágoas dos enfermos.Parnaso de Além-Túmulo O espírito na queixa atordoadora Da prisioneira. Em diferenciação definitiva. Deplorando o destino miserando. Que nas bestialidades se unem loucas. De tudo o que ficou no abismo horrendo Da tenebrosa noite dos gemidos.

envoltos na ânsia. coagulado. Como o cheiro de sangue dos massacres. Trazendo dentro d'alma. atrocíssima. Asco e dó.Francisco Cândido Xavier . o veneno 89 . Sinto em minhalma o tóxico.. piedade e repugnância Pelo espírito e o corpo nauseabundo.. Escorrendo num campo de batalhas Onde as almas se vestem de mortalhas.Parnaso de Além-Túmulo É o grito.. decomposto. Dos desejos que não se realizaram. Vejo a guerra pestífera dos sexos. Fétido. a lágrima do homem Agrilhoado aos prantos que o consomem. E com os meus pensamentos desconexos. Onde traguei meus grandes amargores. o anseio. Desde o sol-posto. Apavora-me o horror dessa miséria E fujo da imundície da matéria. Junto da emanação requintadíssima Do ácido sulfídrico das tumbas. Essa angústia indomável. Terra!. É a imprecação de todos os lamentos Dentro do mundo de padecimentos. Preso às dores que se lhe agrilhoaram. ao próximo sol-posto. e chegam-me fortes cheiros acres. E ainda transpondo o Azul sereno.. Pábulo sou dessa hórrida agonia E nos abismos de hiperestesia Experimento. Abominando as coisas deste mundo. Fujo. além das catacumbas.

Até achar à perfeição profunda E indivisível. alma humana. Sob transformações consecutivas. essa voraz liberticida. Homem-célula Homem! célula ainda escravizada Nos turbilhões das lutas cognitivas.Parnaso de Além-Túmulo E a desdita dos seres sofredores. Vem dessa Origem indeterminada. Onde se oculta a luz indecifrada Dos princípios das luzes coletivas. Egressa do arsenal de forças vivas Que chamamos – estática do Nada. Vem através do Todo de elementos. No transcendentalismo da Unidade. Na imensidade Alma humana.Francisco Cândido Xavier . Em sucessivos aperfeiçoamentos. Desse teu escafandro de albuminas. Objetivando a personalidade. pura. e se confunda. tu que dormes Entre os grandes colossos desconformes Da carne. Em tua mesquinhez não imaginas A intensidade esplêndida da Vida! 90 .

Deixai meu ser esdrúxulo. De gangliomas.. nas regiões imensuráveis. Do teu laboratório de arterites. sem fim. concretizadas e reunidas. Pensamentos radiosos como chamas. Deus e Pai. Ante a minhalma fulgem ideogramas. Sem aritmologias das distâncias. Formam luminosíssimas paisagens. Combinações no mundo das imagens. Sem limites. Auscultando os espaços mais profundos Na sinfonia harmônica dos mundos. Submersão nas fluídicas belezas. Quinta-essências de todas as substâncias Na fluidez das eletricidades. Singrando a luz de céus incomparáveis. Envergando os etéreos organismos. nevrites Ao lado de humaníssimas vaidades. Não podes perceber as ressonâncias. sem número..Parnaso de Além-Túmulo Inda não vês e eu vejo panoramas De luz em gigantescos amalgamas De sóis. ó Artista Inimitável. úlceras. Aqui não há vertigens de nevróticos. Em pleno espaço – Imensidade de ânsias. 91 . São vibrações das almas evolvidas E que.Francisco Cândido Xavier . Nem bisonhos aspectos de cloróticos Nas estradas de eternos otimismos! A vida imensa é coro de grandezas. execrável.

Troca o prazer sensualista e obscuro Pelo conhecimento da Verdade. Sem guardar os micróbios homicidas De eternos atavismos destruidores. Que se putrefizeram consumidas Com os seus instintos atordoadores. E sou o espectro das anomalias. Eis-me longe dos rudes estertores. Mas contérmino à carne. Envolvo-me nos fluidos maus da Terra. Da terrígena raça que padece Das mais pungentes heteromorfias. que me aterra. Foge do escuro ergástulo do mundo E abandona o Desejo moribundo Pelo poder da tua divindade.Francisco Cândido Xavier . Tenho outro ser talhado pelas dores De minhas pobres células falidas. Não sou o homúnculo da hominal espécie.Parnaso de Além-Túmulo No prolongado e edênico festim! “Alter ego” Da morte estranha que devora as vidas. Aos fracos da vontade Homem. 92 . levanta o véu do teu futuro.

Que o sol da tua mente.Francisco Cândido Xavier . Em que toda molécula se cria: Da existência ele faz sepulcro abjeto Ou jardim luminoso e predileto. 93 . Deixa que as tuas glândulas do pranto Te salvem do cadinho sacrossanto Da lágrima pungente e redentora. De arcangélicas flores de Harmonia. Com os tônicos sagrados da Virtude. Tua vontade esclarecida e forte Triunfará das angústias e da morte Além dos planos tristes da matéria. de paz e de saúde: Que as tuas agregações moleculares Vivam livres de todos os pesares. Deixa o conjunto de ancestralidades Da carne – o eterno símbolo do Hades – Onde o espírito clama. observa o pensamento. Fonte da força e altíssimo elemento. Com a espada resplendente da virtude. Mas. esplenda. Mas faze de tua alma um grande império De beleza. Ouve-te sempre a ronda do mistério. sofre e chora. Dando a teu mundo a mágica oferenda Da alegria em divina plenitude. nefasto. eterno. Mas a tua vontade enfraquecida É a meretriz no báratro da vida.Parnaso de Além-Túmulo Teu corpo é todo um orbe grande e vasto: Livra-o do mal unífero. sobretudo.

Sistematização dos argumentos Que elucidam a Teleologia: 94 . és muito mais. Reflexas das ações psicológicas. Nas células primevas da existência. Que tens a liberdade incontestável E as lições da verdade na consciência. Apesar das verdades fisiológicas. Lama de sangue e cal que se aniquila Nos abismos do Nada eternamente. Movimentando células de argila. És um ser imortal e responsável. a energia Potencial que dá vida aos elementos. Base de portentosos movimentos Onde a forma se acaba e principia.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Amarrada no catre da miséria! Ao homem Tu não és força nêurica somente. Matéria cósmica Glória à matéria cósmica. a alma da luz resplandecente. És mais. Que um mistério implacável e inclemente Amortalhou na carne atra e intranqüila. és a cintila Do Céu.

Seus poemas de seres e universos. Estirpe das escórias planetárias. Foi essa raça podre de miséria Que fez nascer na carne deletéria A esperança nos Céus inesquecidos. Onde Deus grava a história do destino Dos seus feitos de Amor no Amor imersos. Glorificando o instinto e a inteligência. o éter divino. Livro onde o Criador Inimitável Grava. Raça adâmica A Civilização traz o gravame Da origem remotíssima dos Arias. com o pensamento almo e insondável.Parnaso de Além-Túmulo Dentro da força cósmica se cria A fonte-máter dos conhecimentos.Francisco Cândido Xavier . 95 . É do mundo o Od ignoto. Fez da Terra o brilhante gral da Ciência. Faz-se mister que o cárcere a conclame. Mas um mundo de deuses decaídos. Árvore genealógica de párias. Para a reparação e para o exame Dos seus crimes nas quedas milenárias. Segregadas num mundo amargo e infame.

luta e goza. 96 . Ela é a registradora misteriosa Do subjetivismo das essências. atro e mudo. horrendo e rudo. No labor anatômico. Que o neurônio oblitera por momentos. Nos seus medonhos ágapes mortuários. em seus impulsos embrionários. Câmara da memória independente Arquiva tudo rigorosamente Sem massas cerebrais organizadas.Francisco Cândido Xavier . sim. No órgão morto. Espírito Busca a Ciência o Ser pelos ossuários. De consumir as podridões de tudo. impassível. a inconsciência prodigiosa Que guarda pequeninas ocorrências De todas as vividas existências Do Espírito que sofre. no estudo Do germe.Parnaso de Além-Túmulo A subconsciência Há. Fora de toda a sensação nervosa. Mas que é o conjunto dos conhecimentos Das nossas vidas estratificadas. Consciência de todas as consciências. Mas só encontra os vermes-funcionários No seu trabalho infame.

Fim das forças do plasma agonizante. Como o bolor e o mofo sob as heras. Mas a vida a si mesma se garante Na sua eternidade singular. Desorganização molecular. E em sua transcendência vai buscar A luz do espaço.Parnaso de Além-Túmulo No meio triste de cadaverinas Acha-se apenas ruína sobre ruínas. No transcendentalismo das esferas. A alma que é Vibração. Nos véus da carne Na ilusão material da carne espúria. Vida e morte A morte é como um fato resultante Das ações de um fenômeno vulgar. Que manifesta o espírito nos mundos. Na ascendência de todos os destinos. Vida e Morte – presente eterno da ânsia. Está nas luzes da sobrevivência. Vida e Essência. Do portentoso amor de Deus oriundos.. 97 .Francisco Cândido Xavier .. fúlgida e distante! Vida e Morte – fenômenos divinos. Ou condição diversa da substância.

. Prantos sinistros! Loucas gargalhadas. de ânsia e de medo. E lá vai o fantasma embrutecido Pelas sombras de lôbregas jornadas.Francisco Cândido Xavier . Choram de dor as almas condenadas Ao cárcere de lágrima e penúria. de horror. Feito à noite de enigma profundo!. Homem da Terra! trágico segredo De miséria. alta. A alma decifra o livro dos mistérios De luz e amor da vida universal. Homem da Terra Na sombra abjeta e espessa das estradas. imortal. Pavorosos esgares de gemido. É nesse turbilhão de dor e de ânsia Que o homem procura a eterna substância Da verdade suprema.Parnaso de Além-Túmulo Sob o acervo das células taradas. Entre as sombras das míseras estradas. Vive o homem da Terra adormecido. No horrendo pesadelo de um vencido Entre milhões de células cansadas. Vê-se a guerra da inveja e da luxúria. 98 .. Esfacelando com medonha fúria O coração das almas bem formadas. Deixando corpos pelos cemitérios.

É o triunfo terrível do coveiro. Quadros de sangue. mísero e perverso. Vai carpindo nos tristes funerais Do seu fausto de sombra. És o sentenciado do Universo Na grade organogênica do mundo. A civilização do desconforto. Trevas. Canhões. Morre de frio e fel. Espalhando a miséria e o luto enorme Em miserabilíssimas batalhas. E rasteja o dragão horrendo e informe. Muralhas.Parnaso de Além-Túmulo Anjo da Sombra. Visões apocalípticas do mal. Gritam a dor de povos moribundos Na sinistra hecatombe universal. O homem.Francisco Cândido Xavier . de sede e fome. Enquanto a desventura chora inerme. amargo e morto. Nas sombras Bombardeios. 99 . lágrimas e horrores Avassalam de dor o mundo inteiro. Ossuários tremendos sob as flores. filosófico ou sem nome. Nas vitórias fantásticas do verme. De mentira e veneno cerebrais. Desenhadas por corvos vagabundos.

Confissão Também eu. mísero espectro das dores No escafandro das células cativas.Francisco Cândido Xavier . Homem-verme Desolação. Mas só a Fé. Na visão dos micróbios destruidores Senti somente angústias e estertores. Para encontrar esse laboratório De beleza.. Tem a chave do Céu. Apesar de ingentíssimos labores.. Não encontrei a luz das forças vivas. 100 . Bem distante. na estrada eterna e justa. Foi preciso “morrer” no campo inglório. Sofre agora a sinistra ressonância De sua inclinação para o extermínio. das causas positivas. vencendo o abismo!. Sem o raio de luz da crença amiga: Desventurado aquele que prossiga Sem o Cristo de Amor no coração. O homem sôfrego e bruto. No turbilhão das sombras negativas. de ânsia em ânsia.Parnaso de Além-Túmulo Ai de vós nos abismos da aflição. verdade e transformismo! A Ciência sincera é grande e augusta. Terror e morticínio.

que detestavas. Nas maravilhas de seus resplendores. este solo generoso. . Por toda a parte. escorre o sangue horrível. Exaltando a vaidade sem substância. Depois das vagas ríspidas e bravas No mundo áspero e vão.Parnaso de Além-Túmulo 101 É o doloroso e trágico domínio Do “homo homini lupus” da ignorância. buscaste o campo de repouso. onde foi sepultado o poeta. Ao crepitar de rúbidos incêndios. Proclama a vida além das catacumbas.Francisco Cândido Xavier . Augusto. Que te guardou no seio carinhoso O escafandro das células escravas. em Leopoldina. em sombra e vilipêndios. Ídolo podre sobre o esterquilínio. Volta. De lodo e lama. do pó que envolve as tumbas. Aqui. Beija. 7 Poesia recebida em 18 de junho de 1940. Atestando as vitórias do homem-verme! Gratidão a Leopoldina 7 Sem o vulcão de dor de hórridas lavas. o pântano terrível. Em quase tudo. Sobre a idéia cristã medrando em germe. E onde sorveste o cálice amargoso. Augusto.

em ruínas. absorto. Esquece o travo do tormento antigo E oscula a destra de teus benfeitores. Sob as ofensas torpes e tigrinas A tentarem-lhe o espírito incorruto. Sangrou Jesus em lágrimas divinas. Raciocinava: – “O último tormento É regressar à carne e ao sofrimento Sem o triste fenômeno do aborto! .... Saturada de treva.Parnaso de Além-Túmulo Ajoelha-te e lembra o último abrigo. A Civilização que se condena Suicida-se num báratro profundo. Nos turbilhões fatídicos da guerra. Em vão. de pranto e luto. 102 . Ainda é Caim que impera sobre o mundo. Porque na luz dos círculos da Terra. Deixa agora escapar o horrendo fruto De miséria e de dor..Francisco Cândido Xavier . A Lei Em reflexões misérrimas. angústia e pena. Feito de sânie e de cadaverinas. Civilização em ruínas Todo o mundo moderno horrendo. sobre o Calvário áspero e bruto.

Encontrarás teus gritos solitários. Respondeu-lhe em acentos colossais: – “Verme que volves dos esterquilínios. Em conceitos sublimes e profundos. uma voz da luz dos grandes mundos. Os impulsos dos sonhos embrionários. Não sigas na consulta: O detalhe anatômico te insulta. Se não tens coração que aceite a crença. 103 .“ Mas. amigo. Não insultes as leis universais.Francisco Cândido Xavier . e pensa. Espera a mão da morte excelsa. Sempre a dúvida estranha que se ceva De terríveis problemas multifários. A molécula morta desafia.. Desde o instante infeliz de Adão e Eva.” A um observador materialista Busca o talão dos velhos calendários. Enfrentando o pavor da mesma treva.... Pára. E apagar toda a luz do pensamento Nas células de um mundo amargo e morto!. Cessa a miséria de teus raciocínios. O mistério da célula primeva.Parnaso de Além-Túmulo Toda a amargura d'alma é o desconforto De retornar ao corpo famulento.

Canhões. Enquanto grita a turba ignara e injusta. 104 . Sobre a cruz infamérrima se ajusta A crueldade do espírito rasteiro Do homem. que é sempre o tigre carniceiro. Multiplicando Herodes e Pilatos. A Humanidade triste inda se afoga No sangue escuro das carnificinas. o Livro e a Toga. A construção dos séculos desaba. exangue e fria. A Civilização regressa à taba. Depois de vinte séculos ingratos. Ante o Calvário Da terra do Calvário ardente e adusta. A força primitiva menoscaba A evolução onímoda do Gênio. Pois.Parnaso de Além-Túmulo Que a carne volve ao pó. embora o Direito.Francisco Cândido Xavier . Atualidade Torna Caim ao fausto do proscênio. Entre prantos pungentes. Apaga-se o milênio. Correm de novo as lágrimas divinas. Trevas. o Cordeiro Da Verdade e da Luz do mundo inteiro Vive o martírio de sua alma augusta.

Novo sol banha o pélago profundo. Traz ao berço da Nova Humanidade A consciência cósmica do mundo. 105 . É Jesus que. acima do império amargo e exangue Do homem perdido em pântanos de sangue. através da tempestade.Parnaso de Além-Túmulo Ressurge o crânio do morubixaba Na cultura da bomba de hidrogênio.Francisco Cândido Xavier . Mas.

sofredor. apareceu em 1900 e se esgotou em três meses. em outubro de 1899. Finalmente. em Natal. traz uma biografia da Autora por H. desencarnou em 7 de fevereiro de 1901. teve uma terceira edição no Rio de Janeiro. Escutava a miséria que gemia Dentro da noite de ânsias torturadas.Francisco Cândido Xavier . Rio Grande do Norte. que era irmã dos grandes sofredores. Horto. prefaciada por Olavo Bilac. Via presas do pranto e da agonia.Parnaso de Além-Túmulo 106 17 Auta de Souza NASCIDA em 12 de setembro de 1876. em 1936. Espírito melancólico. Sofria. Treva espessa da senda tão sombria Das criaturas desesperançadas. A segunda edição. muito místico. Castriano. portanto. Seu estilo simples e triste se reproduz perfeitamente nestes versos mediúnicos. em Macaíba. Almas dilaceradas Quando. E confiada na crença que tivera. Deixou um único livro. feita em Paris. em 1910. . em dores. E eu. cuja primeira edição. vivia Caminhando em aspérrimas estradas. na Terra inda. Almas feridas e dilaceradas. aos 24 anos. prefaciada por Alceu de Amoroso Lima. crendo que tais amargores Encontrariam termos desejados.

A alegria fulgente e estremecida. Minorando as alheias amarguras. a pleno gozo. Mágoa Muitas vezes sonhei na Terra ingrata O paraíso doce da ventura.Parnaso de Além-Túmulo Cheguei à luz da eterna primavera.Francisco Cândido Xavier . que torna a alma florida. E há também os reflexos da aurora De ventura. Deve fugir das horas de repouso. Vendo somente o espinho da amargura Que as nossas tristes lágrimas desata. Que o coração dormente. Sobrepujando instantes de alegria. Tal desalento e tantas desventuras. Onde há paz para os pobres desgraçados. porém. Há. Tanto amargor de espírito que chora Em cansaços nas lutas pela vida. tanta dor em demasia. Contrastes Existe tanta dor desconhecida Ferindo as almas pelo mundo em fora. Aureolada de luz confortadora. Somente a dor intérmina que mata 107 .

E aumentava minha íntima tristeza Vendo em tudo.. porém. Do meu viver sem luz. Se apenas vi. Hora extrema Quando exalei meus últimos alentos Nesse mundo de mágoas e de dores. Senti. Em demanda da estrada esplendorosa Que nos conduz às plagas da harmonia! 108 . na própria Natureza. O veneno da acerba desventura Que fere em nós a aspiração mais grata.Francisco Cândido Xavier . Sem as sombras da dor e da agonia. porém. Senti meu ser fugindo aos amargores Dos meus dias tristonhos.. A tortura dos últimos momentos Era o fim dos meus sonhos promissores. Então parti. sem flores.Parnaso de Além-Túmulo A alegria mais lúcida e mais pura. a mágoa intensa Que rouba a luz. nevoentos. Que se extinguia em atros sofrimentos. a paz e a crença. A mesma dor que eu tanto padecia. minhalma sofredora Mergulhada nas brisas de uma aurora. o amor. É que a dor da minhalma em tudo eu via. sem paz. serena e jubilosa.

Quanto agradeço a paz que concedestes Ao meu viver tristonho e doloroso! E desse lindo oásis encantado. Por teu amor. Que recebi a paz confortadora! Sentindo-me feliz. inda quisera Volver ao pó da carne dos mortais. Sorvendo a luz no cálix da harmonia. Jesus. Jesus! doce Jesus meigo e bondoso. eterna e derradeira!.. Bendigo o vosso amor ilimitado! Em êxtase Aos teus pés. Canto de luz dos páramos celestes. meu Jesus. Durante os meus amargos sofrimentos. a vida inteira. Em paz serena.. Elevando a Jesus meus pensamentos.Francisco Cândido Xavier . Nessas paragens de deslumbramentos. Abrasada de amor eu viveria.Parnaso de Além-Túmulo Em paz Tanto roguei a paz consoladora. Onde terminam todos os tormentos Que inundam de amargor a alma que chora. ditosa agora. Para cantar a terna primavera Do teu amor nas lutas terrenais 109 .

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Depois da treva espessa da amargura:
Para exaltar as luzes que me deste
Na cariciosa e doce paz celeste,
Meu tesouro de fúlgida ventura;
Para contar tua bondade imensa
Aos meus irmãos, os homens pecadores,
Mergulhados na noite da descrença,
Nos abismos dos males e das dores;
Para falar a todas as criaturas,
Da tua alma esplendente de bondade,
Afastando as amargas desventuras
Do coração da pobre Humanidade!
Aos teus pés, meu Jesus, a vida inteira,
Abrasada de amor eu viveria,
Sorvendo a luz no cálix da harmonia,
Em paz serena, eterna e derradeira!...

Mãe
Ó minha santa mãe! era bem certo
Que entre as preces maternas estendias
As tuas mãos sobre os meus tristes dias,
Quando na Terra – que era o meu deserto.
Nos instantes de dor, bem que eu sentia
As tuas asas de Anjo da Ternura,
Pairando sobre a minha desventura
Feita de prantos e melancolia.

110

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Flor ressequida eu era, e tu o orvalho
Que me nutria, pobre e empalecida;
Era a tua alma a luz da minha vida,
Meu tesouro, meu dúlcido agasalho!...
Ai de mim sem a tua alma bondosa,
Que me dava a promessa da esperança,
Raio de luz, de amor e de bonança,
Na escuridão da vida dolorosa.
E que felicidade doce e pura,
A que senti após a treva e a morte,
Findo o terror da minha negra sorte,
Quando vi teu sorriso de ventura!
Então, senti que as Mães são mensageiras
De Maria, Mãe de anjos e de flores,
E Mãe das nossas Mães cheias de amores,
Nossas meigas e eternas companheiras!...

Prece
Estendei vossa mão bondosa e pura,
Mãe querida dos fracos pecadores,
Aos corações dos pobres sofredores
Mergulhados nos prantos da amargura.
Derramai vossa luz, toda esplendores,
Da imensidade, da radiosa altura,
Da região ditosa da ventura,
Sobre a sombra dos cárceres das dores!

111

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ó Mãe! excelsa Mãe de anjos celestes,
Mais amor, desse amor que já nos destes,
Queremos nós em cada novo dia;
Vós que mudais em flores os espinhos,
Transformai toda a treva dos caminhos
Em clarões refulgentes de alegria.

Adeus
O sino plange em terna suavidade,
No ambiente balsâmico da igreja;
Entre as naves, no altar, em tudo adeja
O perfume dos goivos da saudade.
Geme a viuvez, lamenta-se a orfandade;
E a alma que regressou do exílio beija
A luz que resplandece, que viceja,
Na catedral azul da imensidade.
“Adeus, Terra das minhas desventuras...
Adeus, amados meus...” – diz nas alturas
A alma liberta, o azul do céu singrando...
– Adeus... – choram as rosas desfolhadas,
– Adeus... – clamam as vozes desoladas
De quem ficou no exílio soluçando...

Almas
Ó solitário das estradas,

112

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Desventurado pensador,
Há no caminho “almas penadas”
Que vão clamando desoladas
A dor e o pranto, o pranto e a dor!...
Vós, que o silêncio amais no mundo,
Em orações ao pé do altar,
Sob as arcadas silenciosas,
Almas feridas, desditosas,
Oram convosco a soluçar.
Ao descansardes, meditando,
À sombra de árvores em flor,
Sabei que às vezes sois seguidos
Pelas angústias dos gemidos,
De almas chagadas no amargor.
Clareie a luz do sol-nascente,
Negreje a treva na amplidão,
Gemem na Terra muitos seres
Pelos amargos padeceres
Depois da morte, na aflição.
Dai-lhes dos vossos pensamentos
Consolação que adoce a dor,
Dai um conforto à desventura,
A prece cheia de ternura,
Algo de afeto, algo de amor!...

Almas de virgens
Andam sombras errando abandonadas

113

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ao pé das lousas e das covas frias,
Almas de pobres freiras desamadas,
Perambulando pelas sacristias.
Almas das que não foram desposadas,
Como bandos de rolas erradias,
Angélicas visões de bem-amadas,
Mortas na aurora rútila dos dias...
Virgens mortas! Tristíssimas oblatas
De um sacrário de luz piedoso e santo,
Que sonhais entre os tálamos celestes,
Entoai nos céus as tristes serenatas
Com as vossas roxas túnicas de pranto,
Cantando à luz do amor que não tivestes!..

Carta íntima
Escuta, meu irmão! Pelo caminho
Da miséria terrestre, há muitas dores;
Muito fel, muita sombra, muito espinho,
Entre falsos prazeres tentadores.
Há feridas que sangram... Há pavores
De órfãos sem lar, sem pão e sem carinho:
Confortemos os pobres sofredores,
Almas saudosas do Celeste Ninho!
Jesus há de sorrir com o teu sorriso,
Quando faças no mundo o bem preciso,
Pelo que sofre em desesperação.

114

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Todo o bem que plantares nessa vida,
Há de esperar tua alma redimida
Nos caminhos de luz e redenção!

Maria
Toda a expressão de ternura
Do mundo de provação,
Nos Céus ditosos procura
A sua excelsa afeição.
Consolo das mães piedosas,
Cheias de mágoa e de pranto,
Sobre quem atira as rosas
Do seu Amor sacrossanto.
Ninguém diz, ninguém traduz
Essa visão da Harmonia,
Visão de paz e de luz,
Paz dos Céus! Ave-Maria!

Mensagem fraterna
Meu irmão: Tuas preces mais singelas
São ouvidas no espaço ilimitado,
Mas sei que às vezes choras, consternado,
Ao silêncio da força que interpelas.
Volve ao teu templo interno abandonado,
- A mais alta de todas as capelas –

115

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

E as respostas mais lúcidas e belas
Hão de trazer-te alegre e deslumbrado.
Ouve o teu coração em cada prece.
Deus responde em ti mesmo e te esclarece
Com a força eterna da consolação;
Compreenderás a dor que te domina,
Sob a linguagem pura e peregrina
Da voz de Deus, em luz de redenção.

Vinde!
Todo anseio da crença acalma as dores,
Toda prece é uma luz para quem chora,
A oração é o caminho cor de aurora
Para o sonho dos pobres pecadores!...
Ó corações que a lágrima devora!
Vinde, através dos rudes amargores,
Cantar na luz dos grandes esplendores
Vossa iluminação de cada hora!...
Vinde rememorar no espaço infindo,
Neste Lar de Jesus, ditoso e lindo,
As desventuras para bendizê-las...
Feliz o coração sereno e forte,
Que triunfa da lágrima e da morte,
Palpitando na esfera das estrelas!...

116

117 . Haja sol. Como o Sol que dá vida sem alarde. E protege a miséria mais sombria. E percorre o silêncio do caminho. faça frio ou tempestade. É por isso que o homem continua Ressurgindo da treva a cada dia.Francisco Cândido Xavier .. E eis que Ele chega sempre de mansinho. Veste o manto do amor e da verdade... E o amor se perpetua. Traz às sombras da vida a claridade.. Vem o Senhor que nunca chega tarde. Ele chega. E os próprios sofrimentos da impiedade São as bênçãos de luz do seu carinho. Vem ao nosso amargoso torvelinho.Parnaso de Além-Túmulo O Senhor vem.

a 19 de janeiro de 1859. Luminosas. quando funcionário do Correio Geral. Como lírios cor da aurora. Rosas de paz e de amor. rarefeitas. Sem as medidas estreitas Das horas que marcam eras. Quais flores das primaveras. município de Rio Bonito. E onde passam sorridentes Abrem-se rosas virentes.Parnaso de Além-Túmulo 118 18 B. eleitas. Notabilizou-se no gênero descritivo. Lopes NASCEU Bernardino da Costa Lopes em Boa Esperança. 2 Uma campina de flores . Modeladas pela dor. no Rio de Janeiro. espaço em fora. falecendo em 1916. E as almas puras. Buscando vão as esferas Das alegrias perfeitas. Vão todas. ficando célebre com o seu livro “Cromos” (1881). no Estado do Rio.Francisco Cândido Xavier . Miragens celestes 1 Sublimes atmosferas.

O ósculo de Jesus. Mirando-a enternecida. Dos lábios de anjos formosos. Vivera entre os amargores De um sofrimento bendito. Recebendo entre outros gozos. Dizendo-lhe docemente: – “Não chores mais mamãezinha: Vou dar minha bonequinha 119 . Cromos 1 Na alcova desguarnecida. a doente Soluça como quem sente O fim nevoento da vida. Nesse batismo de luz.Francisco Cândido Xavier . E nessa etérea campina Recebe a esmola divina. Minúscula. Onde desperta um precito De um pesadelo de dores. embevecida.Parnaso de Além-Túmulo Em pleno espaço infinito. Sobre uma enxerga. Beija-lhe a filha inocente. Envergara o sambenito Dos pedintes sofredores.

Parnaso de Além-Túmulo À santa lá do altar. Pois sente que se enamora Do firmamento estrelado. Ela há de vir bem depressa Para a senhora sarar. Cheio de lágrimas. E lá dos céus abençoa Sua alma singela e boa. suplica. E pede.Francisco Cândido Xavier . Do clarão da sua fé. O Jesus que ele não vê. E com esta minha promessa. implora Perdão para o seu pecado. Ao seu Jesus bem-amado. ora. Vêem-se raios formosos.” 2 O mendigo desprezado Olha as estrelas e chora. Dimanando luminosos. 120 .

Buscando a morte que me aparecia Como o termo anelado aos dissabores. um dia. Que me desse um consolo a tantas dores. Sonetos 1 Eu fui pedir à Natureza.Parnaso de Além-Túmulo 121 19 Batista Cepelos POETA paulista.. na rua Pedro Américo. pávida de medo. soluço. em 1915. Esta versão parece confirmarse agora nestes sonetos. Desalentado e triste.Francisco Cândido Xavier . Encaminhei-me à porta da Agonia. Mas ah! que atroz remorso me persegue! Choro. Com ansiedade e temores dos galés. ao prefaciar-lhe Os Bandeirantes. Corroído por chagas interiores. original e simples. pressenti-a Cansada e triste como os sofredores. atribuindo-se a suicídio o encontro do seu corpo entre pedras de uma rocha. exalta-lhe o estro espontâneo. Desvendando esse trágico segredo Que a alma decifra. desencarnou no Rio de Janeiro. 2 Ninguém ouve na Terra esse lamento . clamo e ele me segue Nesse abismo que se abre ante os meus pés.. Olavo Bilac.

Cheia de tempestade e sofrimento. No país do Pavor e do Tormento Onde chora a minhalma enceguecida. dolorosa? Ninguém! Uma só voz não me responde! Sinto somente a treva que me esconde Na vastidão da noite tormentosa. Espero o sol de novas alvoradas De existências de pranto e de miséria. rude.Francisco Cândido Xavier . sim! depois de tantos anos De tormentos. Onde o não-ser.. 3 Sirva-vos de escarmento a dor que trago Na minhalma infeliz e sofredora.Parnaso de Além-Túmulo Da minha dor imensa. a paz calma e serena. Tenebrosa. que está na dor depuradora. Nas pavorosas trevas desta vida Em que eu julgava achar o Esquecimento. em meio aos desenganos.. Para beber no cálix da matéria 122 . o brando afago Da Luz. Que me traria o bálsamo a esta pena Interminável. Agora. Este padecimento com que pago O desvio da estrada salvadora. Quando terei os bens. incompreendida. Aqui somente ampara-me esse vago Pressentimento de uma nova aurora. essa noite indefinida.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo As essências das dores renegadas! 123 .

corre. Ansiosa atrás do prazer. Sonha e chora. depois. Chamaram-lhe – “Rouxinol Mineiro”. notário público. Ah! feliz o que conserva As luzes doces da crença. Eis as rimas de outro norte. Que a morte é o fim. 2 Com a ignorância proterva. da qual foi um dos fundadores. 3 Quanta gente corre. . pela singeleza e espontaneidade da sua musa. Minas. Popularizou-se. Encontrei paz e conforto Na vida. e aí desencarnou em 1937. Julgando no talo de erva A paisagem linda e imensa. o homem pensa.Parnaso de Além-Túmulo 124 20 Belmiro Braga NASCEU a 7 de janeiro de 1870. Rimas de Outro Mundo 1 Cheguei feliz ao meu porto. comediógrafo e jornalista nato. Estou mais moço e mais forte. em Juiz de Fora. Era membro de realce da Academia Mineira de Letras. depois da morte. Poeta. Que escreve o poeta morto. luta e morre Sem jamais o conhecer.Francisco Cândido Xavier . Iniciou-se na vida comercial e foi. sobretudo.

Francisco Cândido Xavier . Ninguém se acaba com a morte. ao padecer. 4 Fecha a bolsa da ambição. Goela aberta de um abismo Na estrada da vida humana. para quem sente. Deus é Pai que nunca tarda No caminho da aflição. da morte ao sorvedouro. 125 . 7 Entre a fé e o fanatismo. 6 Que tua alma em preces arda No fogo da devoção. O segundo é o dogmatismo. Nas mágoas do mundo. guarda A fé do teu coração. Jamais escapa ninguém! No Céu só vale o tesouro Daquele que fez o bem. Tem coragem. Mas. Muito espírito se engana: A primeira ampara e irmana.Parnaso de Além-Túmulo Não há ninguém que se forre. meu irmão. Não corras atrás da sorte. Inda é torre de Babel. Sobre a Terra. Venera a mão que te exorte Nos dias de provação. 8 A Terra. 5 No mundo vale quem tem Um cifrão de prata ou de ouro.

Vais procurar a ventura? 126 . Com a bênção que Deus nos dá.Parnaso de Além-Túmulo Onde a prática desmente As ilusões do papel: Muita boca sorridente. quem é nobre. Que. Não peças aprovação Do mundo pobre e enganado. Que o homem siga a Jesus. Bilhetes Se tens o leve agasalho Do santo calor da crença. 10 Na vida sempre supus. em prol do Reino da Luz. na Terra sombria. É uma ventura ser pobre. Basta. Exemplifica o trabalho Sem cuidar da recompensa. Que a mulher siga a Maria. Recorda que o mundo vão É grande necessitado. 9 Suporta a dor que te cobre Na estrada espinhosa e má. Sem muita filosofia.Francisco Cândido Xavier . A essa estrada voltará. Quem é rico. Corações de lodo e fel.

Que símbolo sacrossanto!.Francisco Cândido Xavier . Não perguntes ao passado Pela sombra. Acalma-te na aflição. No curso de aquisições. Não prendas o coração Nos laços da fantasia.. Recorda que tua vida É sempre uma grande escola. Não vivas correndo a esmo. pela dor. Não te aflijas..Parnaso de Além-Túmulo Toma cuidado: os caminhos São crivados de amargura. Modera-te na alegria. Olha o monte luminoso. Toma posse de ti mesmo. Quem sobe é suor e pranto. Esquece as inquietações. Atapetados de espinhos. 127 . O caminho é ilimitado. Muita fronte encanecida É fronte de criançola. Não te esqueças que a esperança É a bênção de cada dia. Quem desce é riso enganoso. A bonança É flor de sabedoria. Eterna a fonte do amor.

Que morrem fazendo conta Nas cruzes de seus rosários. Mentiras da vaidade. Age sempre com bondade. 5 É ditosa no caminho. 4 Bem pobre é a cabeça tonta Dos perversos e usurários. 3 Dinheiro do mundo vão. Lastimo quanto se engana O ouro da falsa glória. Todo esforço com Jesus É vida na eternidade.Francisco Cândido Xavier . Alegre como ninguém. Quadras 1 Ai de quem busca o deserto De torturas da descrença: Morrer é sentir de perto A vida profunda e imensa. 2 Depois da miséria humana Sobre a Terra transitória. A mão terna do carinho 128 .Parnaso de Além-Túmulo No impulso que te conduz. Não trazem ao coração A luz da felicidade.

Tudo isso tenho visto. derrotas.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Que vive espalhando o bem. danos. 6 Angústias. 129 . Só não vejo desenganos Na estrada de Jesus-Cristo.

. por dar-nos obras como Jesus perante a Cristandade. nascido na cidade de Laranjeiras. como tal.Parnaso de Além-Túmulo 130 21 Bittencourt Sampaio SERGIPANO. Virgem formosa e pura da bondade. é que Bittencourt Sampaio foi. Reformador. E. que é A Divina Epopéia. Diretor da Biblioteca Nacional e jornalista de mérito. Mas. desencarnou no Rio de Janeiro em 10 de outubro de 1895. À Virgem Vós sois no mundo a estrela da esperança. ainda hoje se manifesta. Foi político ativo. o Filho muito amado! Fanal radioso aos pobres degredados. A custódia das almas sofredoras. ou seja o Evangelho de João. em magníficos versos brancos. Consolação e paz dos desterrados Do venturoso aprisco das ovelhas De Jesus-Cristo. publicou-lhe a biografia. mas omite a maior das suas obras. Anjo guiador dos homens desgarrados Do Evangelho de luz do Filho vosso. no último quartel da vida terrena. deputado por sua província em duas legislaturas e Presidente do Espírito Santo. A salvação dos náufragos da vida. verdadeiro poema em prosa. aponta Poesias (1859) e Flores Silvestres (1860). . em 19 de fevereiro de 1834. Providência dos fracos pecadores. A fonte de onde respigamos estes dados.Francisco Cândido Xavier . de 1937 (página 494).. tais como estes. um dos mais brilhantes e destemerosos paladinos da Revelação Espírita.

. Estendei vossos braços tutelares À Humanidade inteira. caminhando Em busca de outras noites mais escuras. Afastados do amor e da verdade. que lhes ensombra a mente e a vista. Iluminai os cérebros descrentes. Enxugai-lhes as lágrimas penosas! Virgem imaculada de ternura.Francisco Cândido Xavier . Clareai as sendas obscurecidas Dos que se vão nos pântanos dos vícios!. Existem almas míseras que choram Amarradas ao potro das torturas.Parnaso de Além-Túmulo Astro de amor na noite dos abismos.. E corações farpeados de amarguras. eterno e puro! Dulcificai as mágoas que laceram 131 . Apiedai-vos dos frágeis caminhantes. Dai fortaleza àqueles que fraquejam. Abençoai os mansos e os humildes Que acima de ouropéis enganadores Põem o amor de Jesus. Fugitivos da luz que os esclarece! Anjo da caridade e da virtude.. Espíritos na treva das angústias. Estendei vossas asas luminosas Sobre tanta miséria e tantos prantos. Clarão que sobre as trevas da cegueira Expulsa a escuridão das consciências! Virgem da piedade e da pureza. que padece.. Mergulhados nas tredas tempestades Do mal. Fortalecei a fé dos vacilantes. Cegos desventurados. No tenebroso báratro das dores. Legião de penitentes voluntários.

Afastando amarguras... Sobre a nudez de tantos sofrimentos Que despedaçam almas exiladas No orbe da expiação que regenera.. Ajudai-nos a fim de que a vençamos. Atendei nossas súplicas. Estendei.. Vinde a nós que na luta fraquejamos.. concedendo Claridades a estradas pedregosas. repartido Entre os esfomeados e os sedentos De paz. piedosa Virgem de bondade.. Providência da pobre Humanidade!.. Derramai sobre nós o eflúvio santo Do vosso amor. o vosso manto Constelado de todas as virtudes. anjo de amor. Conforto às almas tristes deste mundo.Parnaso de Além-Túmulo Pobres almas aflitas na voragem Das provações mais rudes e amargosas. Mãe de Jesus. Vinde. 132 . Virgem pura.Francisco Cândido Xavier ... Ele será a luz resplandecente Sobre a miséria dos padecimentos.. na vossa alma divina! Vinde! . Almas de filhos míseros que sofrem. doce e bondosa. Cremos em vós. Farol brilhante iluminando os trilhos De todos os viajores que caminham Pela mão de Jesus.. Senhora. dai-nos mais força e mais coragem. que ampara e que redime.. O pão miraculoso. que os acalente e os conforte! Virgem. Porto de segurança aos viajantes. Clarão de sol nas trevas mais espessas. Vinde a nós! nossas almas vos esperam.

De vossa caridade soberana. Neste banquete místico do amor.. a paz e a vida. Fortalecei-nos a alma dolorida Na redenção da iniqüidade humana. Às filhas da Terra Do Seu trono de luzes e de rosas.Parnaso de Além-Túmulo A Maria Eis-nos. 133 . Com o bálsamo da crença que promana Das luzes da bondade esclarecida. Senhora. Ouvi dos Céus.Francisco Cândido Xavier . Implorando a piedade. Providência de todos os aflitos. reunida. Inundando de amor e de ternura As feridas cruéis e dolorosas. Ela conhece as lágrimas penosas E recebe a oração da alma insegura. A Rainha dos Anjos. Estende os braços para a desventura. Nossas sinceras preces ao Senhor. a pobre caravana Em fervorosas súplicas. meiga e pura. Que a nossa caravana da Verdade Colabore no Bem da Humanidade. Que campeia nas sendas espinhosas. ditosos e infinitos..

. Imitai-a na dor do vosso trilho!. No turbilhão dos homens e das coisas.. em vossas próprias almas.Francisco Cândido Xavier . as lágrimas da guerra E os quadros de amargor. as mãos radiosas Sobre a angústia das sendas escabrosas Onde choram as mães atormentadas. São caminhos de luz para o Infinito. Estende. Mãe de todas as mães infortunadas. Ao teu olhar. que andam na Terra. mãe bendita. 134 . irmãs.Parnaso de Além-Túmulo Filhas da Terra. Não conserveis do mundo o brilho e as palmas. Com tua alma de unos e de rosas. Mitiga a dor das almas desditosas Entre as sombras de míseras estradas. E encontrareis. Anjo consolador dos desterrados. A alegria do reino de Seu Filho! À Virgem Do teu trono de róseas alvoradas. esposas. Conforta os corações encarcerados Nas algemas do mundo amargo e aflito. mães.

e faleceu em 30 de agosto de 1933... despreocupada.. Saudava alvoroçado O segredo da noite e a luz clara do dia. A um dos belos tesouros que eu possuía E mo roubaste para sempre. E eu te enxerguei. da ilusão e da alegria.. em 1902. Minha luz Eu era. .Francisco Cândido Xavier . Dor. em obras como: Crisálida. o Sacrifício e a Humildade. Em meu engano. Grinalda de Violetas. em minha fantasia: Primeiramente. Pisando sutilmente o meu caminho. a Renúncia. alegre cotovia. Meu coração.Parnaso de Além-Túmulo 135 22 Cármen Cinira NOME literário de Cinira do Carmo Bordini Cardoso: nasceu no Rio de Janeiro. Foste.. Como o simum que arrasta As cidades repletas de tesouros Confundindo-as no pó.. a alma rubra e inquieta. Sua espontaneidade poética era tão grande que ela própria acreditava serem os seus versos de origem mediúnica. Glorificou o Amor. austera e inclemente. Em fúria iconoclasta. Quando chegaste de mansinho. A pomba predileta Do prazer. Sensibilidade.

136 . Tudo sofri. Prosseguiste. E humilhaste Meus sonhos de mulher e de menina. Minhas estatuetas singulares. por te querer.. Meus mármores de Paros. ó divina estatuária. Porque depois que vieste Qual pássaro celeste Para abrir rosas de sangue no meu peito. Na tua obra silente e solitária.. Meus cofres de alabastros. Ó Dor. Destruindo-os sem dó.. Porque representaste em meu destino. Encheste a minha vida De um estupendo prazer. Minhas bonecas de biscuí. Que eu pusera nos astros Em meio às melodias estelares! Mas. Foste a sombra divina Que acompanhou meus passos ao sepulcro. desde que chegaste. quase perfeito! Aos poucos me ensinaste a abandonar Meus prazeres fictícios. ó Dor depuradora. Trocando-os pela luz dos sacrifícios! Por tudo eu te bendigo..Francisco Cândido Xavier . E quebraste Minhas cítaras de ouro.Parnaso de Além-Túmulo Foste aos meus ídolos mais caros.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

De alma sofredora,
O fanal peregrino
Que me guiou constantemente
Através das estradas espinhosas
Para as manhãs radiosas
Da Luz Resplandecente...
Sê, pois, bendita, ó Dor linda e gloriosa,
Pois da volúpia estranha dos teus braços,
Vim pelas mãos da morte complacente
Para a vida sublime dos Espaços!...

Aos Espíritos consoladores
Donde éreis vós, ó formas imprecisas
De arcanjos tutelares,
Cujas vozes suaves como brisas
Trouxeram-me nas dores,
No auge do meu sofrer, nos meus penares,
A irradiação de brando refrigério!...
Frontes aureoladas de esplendores,
Seres cheios de amor e de mistério,
Cujas mãos compassivas
Ungiram meu coração resignado
Com o bálsamo do olvido do passado,
E com os místicos olores
Das meigas sempre-vivas
Da fé mais luminosa e mais ardente...
Seríeis o fantasma imaginário
Da mórbida exaltação d'alma do crente?

137

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Não, porque sois os cireneus piedosos
Dos que vão em demanda do Calvário
Da Redenção, nos sofrimentos rudes;
Vindes das mais remotas altitudes
De sublimados mundos luminosos!...
Seres do Amor, jamais traduziria
O cântico de luz
Que trouxestes ao leito da agonia
Que eu transpus,
Cheia de desenganos e gemidos!...
Verto ainda os meus prantos comovidos
Lembrando-me do vosso Stradivárius,
Repetindo as cadências dos hinários
Dos orbes da Ventura e da Harmonia,
Onde habitais, glorificando o Amor
Que d'alma faz um ninho de alegria
E um foco de esplendor!
Em que sol deslumbrante, em qual esfera
Viveis a vossa eterna primavera?
Ó irmãos consoladores,
Que vindes confortar os pecadores
Penitentes da vida transitória,
Dai-me um pouco de luz da vossa glória,
Estendei-me uma única migalha
Da vossa paz, que nutre e que agasalha
Os corações iguais ao meu!...
Tenho sede do amor que enfeita o Céu!
Espíritos da luz radiosa e infinda,
Minhalma é fraca e pobre ainda;

138

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Todavia, imortal,
Quero ter dessa luz resplandecente,
E quero embriagar-me inteiramente
Com os vinhos da alegria celestial.

Cigarra morta
Chamam-me agora aí
Cigarra morta,
E não podia haver melhor definição,
Porque caí estonteada à porta
Do castelo em ruínas,
Do desencanto e da desilusão!...
Minhas futilidades pequeninas...
Meus grandes desenganos...
Eu mesma inda não sei
Se é ventura morrer na flor dos anos...
Sei apenas que choro
O tempo que perdi,
Cantando em demasia a carne inutilmente;
E vivo aqui, somente,
De quanto idealizei
De belo, de perfeito, grande e santo,
Que inda hei de realizar
Com a rima do meu verso e a gota do meu pranto.
Dá-me força, Senhor,
Para concretizar meu anseio de amor:
Evita-me a saudade
Da minha improdutiva mocidade!

139

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Eu não quero sentir,
Como cigarra que era,
A falta das canículas doiradas
Sob a luz de ridente primavera.
Já que tombei cansada de cantar,
Calando amargamente,
Perdoa, Deus de Amor, o meu pecado:
Que eu olvide a cigarra do passado,
Para ser uma abelha previdente.

Era uma vez...
Era uma vez Cármen Cinira, Um coração
Cheio de sonho e flor, que mal se abrira
Nos jardins encantados da ilusão...
Estraçalhou-se para sempre
Na voragem
Das trevas, dos abrolhos!...
Era uma vez Cármen Cinira...
Uma suposta imagem
Da perene alegria,
Mas que trouxe em seus olhos,
Eternamente,
Essa amarga expressão de alma doente,
Cheia de pranto e de melancolia!...
Cármen Cinira! Cármen Cinira!
Que é da minha cigarra cantadeira?
Embalde te procuro.
Por que cantaste assim a vida inteira,
Cigarra distraída do futuro?

140

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Perturbada,
Aturdida,
Busco a mim mesma aqui nestoutra vida...
Onde estou, onde estou?
Minha vida terrena se acabou
E sinto outra existência revelada!
Não sei por que me sinto amargurada...
Sinto que a luz me guia
Para a paz, para um mundo de alegria.
Mas, ó imortalidade
Se na Terra eu te via
Como a aurora divina da verdade,
Não julguei que inda a morte me abriria
Esse cenário deslumbrante
De outros sóis e de outros seres,
E vejo agora
Que não amei bastante,
E não cumpri à risca os meus deveres!
A fagulha de crença
Que eu possuía,
Devia transformar numa fornalha imensa
De fé consoladora,
E incendiar-me para ser luzeiro.
Mas, ó Senhor da paz confortadora,
Eu vi chegar o dia derradeiro
Em minha dor, na máscara de festa,
E a morte me apanhou
Como se apanha uma ave na floresta.
Experimento a grande liberdade!
Todavia, Senhor, ampara-me e protege

141

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Minha triste humildade!
Eu te agradeço a paz que já me deste,
Mas eis que ainda te imploro comovida,
Porque me sinto em fraca segurança;
Deixa que eu guarde ainda nesta vida
Meu escrínio de estrelas da Esperança.

À Juventude
Juventude linda e ardente,
Mocidade querida que eu exorto,
Meu coração de carne, esse está morto,
Mas minha alma que é eterna está presente.
Zelai pelo plantio, ó juventude,
Das flores perfumadas da virtude,
Porque depois dos sonhos terminados
Em nossos ermos e últimos caminhos,
Ai! como nos ferem os espinhos
Das belas rosas rubras dos pecados!

O viajor e a Fé
– “Donde vens, viajor triste e cansado?”
– “Venho da terra estéril da ilusão.”
– “Que trazes?”
– “A miséria do pecado,
De alma ferida e morto o coração.
Ah! quem me dera a bênção da esperança,
Quem me dera consolo à desventura!”

142

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Mas a fé generosa, humilde e mansa,
Deu-lhe o braço e falou-lhe com doçura:
– “Vem ao Mestre que ampara os pobrezinhos,
Que esclarece e conforta os sofredores!...
Pois com o mundo uma flor tem mil espinhos,
Mas com Jesus um espinho tem mil flores!”

O sinal
Quando chegamos do País do Gozo,
Nossa alma sem repouso
Traz o sinal das trevas do pecado.
Nossa alegria é um riso envenenado.
A palavra disfarça o coração
E a nossa dor é desesperação.
Tudo é sombra. A verdade não tem voz.
Muita vez, tudo é queda dentro em nós.
Mas os que vêm do Mundo dos Deveres
Guardam a luz de místicos prazeres.
Não têm palmas da Terra impenitente...
Como tudo, porém, é diferente!...
Sua alegria é um fruto adocicado,
Sua palavra é um livro iluminado,
Sua dor alivia as outras dores.
Trazem o amor de todos os amores,
Revelando na vida transitória
O sinal do Calvário aberto em glória!

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Mas. Há quem clama piedade e passa ao vento.. Em festiva oração.. Dentro da noite. há corações ao lume E há sempre um bolo.. Sob a crença imortal. Há quem contempla o céu maravilhoso. O irmão abraça o irmão. Sob claro dossel.Francisco Cândido Xavier . Beija o filho a mãezinha idolatrada. De cada lar ditoso se irradia A glória da amizade e da harmonia. harmoniosos. Nascem canções e flores de mansinho. Cantando a excelsitude do Natal!. ante os júbilos do povo.. Sem a graça de um pão. Ao pé da multidão.. Rogando à morte a bênção do repouso Em terrível pesar! 144 . De esperança e de mel. lá fora. em vagas de perfume.. Une-se o noivo à noiva bem-amada. A brilhar. Ralado de tortura e sofrimento. A estrela de Belém volta. de novo. Há quem chora sozinho. cristalinos. Em édenes fechados de carinho. a tristeza continua. Doces.Parnaso de Além-Túmulo Na noite de Natal Noite de paz e amor! Repicam sinos. em plena rua.

Parnaso de Além-Túmulo Ah! como é triste a imensa caravana. Prossegue o Mestre. Volve o olhar compassivo à senda escura. quase morta... Vem amparar os filhos da amargura. Que não podem sorrir. aflita. sob a treva humana Sem consolo e sem lar. fraternalmente. Traze a quem sofre a lúcida fatia Do teu prato de sonho e de alegria.Francisco Cândido Xavier ... Natal!. Desce do pedestal que te levanta E estende a mão miraculosa e santa Ao desalento atroz. Oferece à criança abandonada Um velho cobertor. Para unir-nos no Amor. Tu. Que só pede um sorriso brando à porta. Para tornar à luz. Do Rei que se humilhou na manjedoura Para amar e servir. Há muita crença enferma.. Desceu Jesus do Céu Resplandecente E imolou-se por nós. de viagem. 145 . Que segue. Vem medicar quem geme na calçada!. que aceitaste a luz renovadora. Visita as chagas negras da mansarda Onde a miséria súplice te aguarda Em nome de Jesus.. Temperado de amor.

Um ninho pobre. em vão!. Por não achar socorro.. E encontra sempre a cruz. 146 .. nem pousada Em nosso coração. ao fim da estrada.Parnaso de Além-Túmulo Em vão buscando um quarto de estalagem.Francisco Cândido Xavier .

Se tivesse tido maior cultura. por acidente. não teve maior projeção no cenáculo literário do seu tempo. Lamentando os sofrimentos. Confiado no amor de Deus. atingiria as maiores culminâncias do firmamento literário. Fugi do pesar profundo. porém. As mágoas. Na eterna luz Quando parti deste mundo Em busca da Imensidade. Mal. os desalentos. nasceu aos 14 de abril de 1880 e desencarnou em 1914. Há. Nas radiantes alturas. mau grado à suavidade da sua musa e inatos talentos literários. A alma ansiosa da Verdade. uma triste particularidade a assinalar. abrira os olhos Em meio de luzes puras. Era um espírito jovial e forte no infortúnio. qual a de haver perdido uma vista aos 14 anos. Compreendi que os abrolhos . Do azul imenso dos céus. para de todo cegar da outra aos 16.Francisco Cândido Xavier . Órfão de pai aos 7 anos. Pobre.Parnaso de Além-Túmulo 147 23 Casimiro Cunha POETA vassourense. ao demais espírita confesso. na sua existência terrena. que ele sabia aproveitar no enobrecimento da sua fé. apenas freqüentou escolas primárias. Em célico resplendor.

O aroma da Caridade Perfumando os corações. Aqueles que conheceram As feridas dolorosas. Não se conhece a torpeza Da lâmina – hipocrisia. Disseram-me então: – “Ó crente Que chegais a estas plagas. 148 . Encontram nestas moradas Tão formosas. Eram mesmo a primavera Do meu sonho todo em flor. A meiga flor da Bondade.Francisco Cândido Xavier . Que mata toda a alegria. Aqueles que já sofreram No dever nobilitante. Cujo peito sempre amante Só conheceu dissabores. resplendentes. Aportai serenamente Nesta estância do Senhor. Fugindo das grandes vagas Do mar revolto das lutas. Dessas mágoas escabrosas De um triste mundo de dores. Pois aqui existe o amor Nestas almas impolutas! Aqui existe a pureza.Parnaso de Além-Túmulo Que a Terra me oferecera. Provocando maldições.

Os reflexos divinos Quais lírios iluminados. Concede-vos neste instante A bênção dulcificante Do seu amor – doce aurora. Ofertando-lhes tesouros: Os tesouros peregrinos. Pois agora na ventura Fruireis consolações. 149 . Formados de amor e luz Do Mestre Amado – Jesus. belos.Parnaso de Além-Túmulo Os clarões resplandecentes De afetos imorredouros! As almas imaculadas São flores das boas-vindas. Arauto do Onipotente. ó vivente. Contemplai-vos nesta vida. Penetrarão sua mente. pois. Sacudi o pó da estrada Que trilhastes na amargura. Nesta esfera iluminada. Acordai. Alvos. Não vereis o sofrimento Retalhando os corações. Luminosas. O Senhor sempre clemente. Que vossa alma ensandecida Procure a luz que avigora. deificados.Francisco Cândido Xavier . Que aportais neste momento. sempre lindas.

Francisco Cândido Xavier . Venturoso. pois. O grande Mestre do Amor!” Então. Das amargas provações. 150 . Que quais meigos passarinhos Cindiram o espaço azul. Alvoradas fulgurantes Do amor imenso de Deus. O Mestre da Caridade. Ó mães que chorais na vida Os vossos ternos anjinhos. a Jesus. eu vi que na Terra Em meio da iniqüidade. A nossa alma que erra. Que renegar eu tentara Como os míseros ateus.Parnaso de Além-Túmulo Anjinhos Só vereis clarões de luz A despontar nestas almas. Tornadas em belas palmas Das mansões do Criador! Bendizei. flores brilhantes. Só aproveita das cruzes. Tão longe das grandes luzes. Na tremenda tempestade Das dores e expiações. O Luzeiro da Bondade. abençoei A dor que amaldiçoara. E feliz então busquei As bênçãos.

A alma tristonha e exul. Quais centelhas luminosas. Alegrai-vos. ao verdes 151 . São mensageiros felizes Nas radiantes alturas. Os prantos. O peito dilacerado. Em meio das luzes puras. O coração desolado. Insuflando-vos coragem. De outras rútilas esferas. São as flores mais formosas Das moradas de Jesus.Parnaso de Além-Túmulo Deixando-vos sem conforto. pois. E os vossos filhinhos ternos. Osculam-vos ternamente. os amargores. Reconhecei que na Terra Só se conhecem as dores. As frias noites sem luz. Ofertando-vos as flores Do seu afeto eternal.Francisco Cândido Xavier . Resplandecendo imortais Nos espaços deslumbrantes. Quais reflexos brilhantes Das celinas primaveras. Ao transpordes a voragem Do abismo negro do mal. Visitam os vossos lares Como gênios protetores.

De pétalas multicores.Parnaso de Além-Túmulo Quando partem sorridentes. perfumadas. Pelas sendas desoladas Deste abismo tão profundo. Ela vos retrucaria: 152 . Que com mágicos olores Perfumam vosso ambiente. Venturosos. Essas flores perfumosas Responderiam formosas: – “Nós marchamos para Deus!” A ave que poetiza Com seus cânticos maviosos Vossos campos dadivosos Em beleza que harmoniza. O que fazem cá no mundo. De luzes esplendorosas Dentro em vossos corações. Se perguntásseis também. Como fúlgidos clarões. Ascensão Perguntai à flor virente. Eles farão despertar As alvoradas formosas. Como sorrisos dos Céus.Francisco Cândido Xavier . Tão viçosas. inocentes.

Só assim caminharemos Nessa eterna evolução. irmãos terrenos. Consolando a desventura. Quadras Ser cego e nada ver Na triste noite escura. Segui pois. em ascensão. Espargindo a caridade. E no Bem conquistaremos A suprema perfeição. Nessas trilhas luminosas.“Caminhamos na alegria. A alvorada rutilante Da sublime perfeição. E ver depois a luz Da aurora de ventura. Para a Luz e para o Bem. Marcha ao progresso incessante.Francisco Cândido Xavier . 153 . entre rosas. Entre os lírios da Bondade.” Tudo pois.Parnaso de Além-Túmulo . Caminhai sempre serenos. Chorar na escuridão Em dores mergulhado. Entre lírios. Entre as rosas da Ternura.

Que conduz as criaturas As almejadas venturas Entre célicos clarões.Francisco Cândido Xavier . buscar o amor Nas lúcidas alturas. 154 . É o sol que Nosso Senhor Fez raiar claro e fecundo. de vida e luz. Alva estrela resplendente. Elevando-a aos altos Céus: Ela é chama abrasadora. Sorver dentro da treva O fel das amarguras.Parnaso de Além-Túmulo E após o sofrimento Ter gozo ilimitado. Que nos eleva até Deus. Supremacia da Caridade A fé é a força potente Que desponta na alma crente. A caridade é o amor. No sacrossanto abrigo Do afeto de Jesus. Reluzente. É possuir tesouros De paz. redentora. Depois. Que ilumina os corações. A esperança é flor virente.

A caridade é a expressão Da personificação Do Mestre Amado – Jesus! A esperança é qual lume. 155 . Desterrado. Que irrompe. Pura bênção redentora Do Senhor Onipotente. Na noite das trevas densas. peregrino.Parnaso de Além-Túmulo Alegrando nesta vida A existência dolorida Dos que sofrem neste mundo! A fé é um clarão divino. Seja. trazendo a luz.Francisco Cândido Xavier . Refulgente. abençoada Essa fúlgida alvorada A raiar eternamente! Caridade salvadora. pois. Versos Vivi na mansão das sombras. A caridade é uma aurora Que resplende a toda hora. Ou capitoso perfume Que nos alenta na dor. Sepultado. Nada empana o seu fulgor.

É que a vida material É a prisão. Nascendo. Onde as luzes recebemos Da Verdade. Alvo. Pode existir a bondade Irradiando clarões. E dele fugi feliz. Morrendo. Pois entre as trevas e as dores Da vida de provações. Via o símbolo do Bem Entre os males deste mundo. 156 .Parnaso de Além-Túmulo Entrei no sepulcro escuro. Vendo essa flor cariciosa No pantanal sujo e imundo. Perfumando a luz do dia. E a vida da alma é a nossa Liberdade. Símbolo Sobre a lama de um monturo Um branco lírio sorria. belo.Francisco Cândido Xavier . Onde a alma é encarcerada Na aflição. delicado.

Porque não sabem que a morte É a nossa libertação.Francisco Cândido Xavier . Cheia de viço e frescor. Que mesmo dentro da treva Do mundo ingrato. Sem saber que o desespero É porta para outra dor.Parnaso de Além-Túmulo E o coração que cultiva A caridade e o amor.. Mas aquela que te foge É dona da tua vida. É a flor cheia de aromas. É realizada no mundo Da eterna felicidade. Pensamentos espíritas Dobram sinos a finados. 157 .. Toda a esperança da fé. É lírio resplandecente Do puro amor de Jesus. Com mágoa e desolação. Que vive com a caridade. A palavra que reténs É tua serva querida. Todo suicida presume Que a morte é o fim do amargor. sem luz.

Coração que andas ferido!. depois da amargura Que a vida terrena traz. Vai a dor. Quem tem a flor da humildade. Medrando no coração. Após a morte descansa Quem luta. Deus cura todas as chagas Do mal que tens padecido. nasce a flor. sem naufragar. O beijo da morte Para quem viveu na Terra Em meio dos sofredores 158 . surge a alegria Dourando a manhã do Amor. A alma encontra na Altura A luz. Assim. volta o dia. Cresce o broto. Tem o jardim das virtudes Da suprema perfeição. Verá decerto a bonança. Volve ao Céu todo piedoso. Sombra e luz Vem a noite.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Quem sofre resignado. a ventura e a paz.

. O gozo é o próprio martírio. O frio beijo da morte É o beijo da liberdade. linda.. noutro mundo. O engano As vezes diz a Ciência Que a crença é engano profundo. Que se fez excelso Lírio Na devoção de Jesus. Esperando uma outra vida Noutros planos. de verdade e luz: Sem paradoxo. desabrochar. Que na noite de amarguras As almas vem despertar. 159 . Que a alegria da Virtude Faz.Parnaso de Além-Túmulo E somente frias dores No mundo ingrato colheu. da plenitude.Francisco Cândido Xavier . portanto. A morte é a deusa celeste Da vida. Seu beijo é um raio de luz Do dealbar das alturas. É um raio de claridade Que vem da altura do Céu. A vida terrena é a noite Que precede as madrugadas Das regiões aureoladas De amor.

De quem será esse engano? Será meu ou será teu?” Flores silvestres Já viste. Caem copas opulentas. 160 . Mas as florinhas silvestres São apenas baloiçadas.” Ao que ela replica. seculares.Parnaso de Além-Túmulo E diz arrogante à Fé: – “Estás louca! A morte apenas É o sono eterno e tranqüilo Depois das lutas terrenas. Ciência amiga. humilde: – “Mais tarde.Francisco Cândido Xavier . Mil árvores grandiosas Esfacelam–se nos ares Tombam gigantes da selva. Mas se não for. Continuando graciosas A tapetar as estradas. pois não é. Andarás ao lado meu. Venerandos. filho. a floresta Varrida pelas tormentas? Partem-se troncos anosos. dormiremos. Serás o sósia da Fé. Se for sono.

Que perfumando o caminho Compõe um hino de amor. Dentro da fé que os conduz. Flores silvestres da vida. Sê.. Imagem Dos bons e dos pequeninos. Na selva da vida humana Caem grandes.Francisco Cândido Xavier . poderosos: Arcas repletas de ouro.. 161 . Mas.Parnaso de Além-Túmulo Zune o vento? geme a selva? Não sabe a pequena flor. grite o mundo. E frontes ébrias de gozos. filho.. como esta flor: Chore o homem. os humildes da Terra. São refletores Da bondade de Jesus.. Não caem. Que sobre o mundo derramam As graças dos dons divinos. Palmilha a estrada do amor. Nos dias mais tormentosos. Não sabem se há tempestade De ambições e se há no mundo Leis de ódio e iniqüidade. Flores silvestres!.

Dos nossos dias passados.Francisco Cândido Xavier . . Vassouras!.. O nosso amigo Moreira E a sua barbearia. A ermida branca e suave De ternos. por acidente. também cegada de uma vista. Onde uma vez me encontraste Na minha noite sombria. Vida de encantos divinos 8 Esta poesia singela e. Singelos e Aves Implumes são títulos de dois pequenos volumes de versos publicados em começos do século.Parnaso de Além-Túmulo 162 Ao meu caro Quintão 8 Quintão. foi recebida em circunstância s imprevistas e timbra episódios vemos de mais de 30 anos. Que tão distantes se vão. belas paisagens Cheias de vida e de cor. que o médium não podia conhecer. intimamente pessoal. Árvores fartas e verdes Pela alfombra dos caminhos. atento mesmo a sua banalidade. Detalhes cariciosos Da vida singela e calma. doces carinhos. Carlota é o nome da esposa do poeta cego. Um céu azul e estrelado Cobrindo uns ninhos de amor.. eu sei da saudade Que te aperta o coração. depois de casada. por assim dizer.

A minha pobre Carlota. Unida. 163 . Ah! Quintão. O mestre da Velha Guarda. O raio de claridade Da noite da minha vida. Teu coração generoso De amigo. no “O Pais”. irmão e mentor.Francisco Cândido Xavier . Se pelas luzes dos Céus. A tua doce amizade A luz do Consolador. Se pelas sombras da Terra. hoje os meus olhos Embebedam-se de luz.Parnaso de Além-Túmulo Que eu via com os olhos d'alma. Meus pobres versos – “Singelos”. Que traduziam no mundo O meu pungente amargor. “Aves implumes” da dor. Os artigos do Bezerra De outros tempos. A companheira querida. Pelas estradas sublimes Da santa paz de Jesus! Mas não sei onde a saudade É mais forte nos seus véus. forte e feliz.

É a claridade bendita Do bem que aniquila o mal.Francisco Cândido Xavier . E o Mestre Amado é Jesus. Toda aberta em flor e fruto De verdade e de bonança. Derramando em toda parte O conforto d'Água Viva. Norteia-te em sua luz: Espiritismo é uma escola. Que clareia toda a vida E ilumina além da morte.Parnaso de Além-Túmulo Espiritismo Espiritismo é uma luz Gloriosa. O chamamento sublime Da Vida Espiritual. E onde a bênção da Bondade É flor de eterna alegria. 164 . É uma fonte generosa De compreensão compassiva. É o templo da Caridade Em que a Virtude oficia. É árvore verde e farta Nos caminhos da esperança. divina e forte. Se buscas o Espiritismo.

luta. A luz da nossa Doutrina É sempre a lição que ensina A paz do caminho certo. Necessário é discernir A mistura. Muita vez a água do céu Torna-se em lama. Escolhidos? muito poucos. Há sempre muitos chamados. Que abrace a nossa Doutrina. O mal vem de ouvidos moucos Ou de olhos nevoados. 165 . ao cair. a ganga. No bem que é bem substância Da crença que diviniza.Francisco Cândido Xavier . e ação. Portanto. Já não deve andar a esmo Nas estradas da ilusão.Parnaso de Além-Túmulo Aos companheiros da Doutrina Examinada de perto. é nossa divisa Oração e Vigilância. Verdade é que o coração. No Evangelho de Jesus. o véu. Penetra numa oficina De esforço. Mas buscando a perfeição Na perfeição de si mesmo.

Francisco Cândido Xavier . 166 . – Eis meu desejo de irmão.Parnaso de Além-Túmulo Feliz quem pode guardar A força de realizar Os grandes feitos da Luz. Que no altar do coração Tenhamos o amor profundo Daquele que é a Luz do Mundo.

Onde os cisnes da inocência Bebem o néctar do amor. Figura literária das mais típicas do seu tempo. sensível e personalíssimo” – disse Ronald de Carvalho. hoje denominado Casimiro de Abreu. desencarnou aos 18 de outubro de 1860. À minha terra Que terno sonho dourado Das minhas horas fagueiras. A infância. na Fazenda de Indaiaçu. Suas composições possuem “um saboroso estilo colorido. Cheio de aroma e esplendores Sob um céu primaveril.Parnaso de Além-Túmulo 167 24 Casimiro de Abreu POETA fluminense. acometido de tuberculose pulmonar. com 21 anos de idade. um lago tranqüilo Onde começa a existência.Francisco Cândido Xavier . no então município de Barra de São João. . A mocidade era um hino De melodias suaves. No recanto das palmeiras Do meu querido Brasil! A vida era um dia lindo Num vergel cheio de flores. o autor malogrado de Primaveras ainda aqui se afirma no seu profundo quão suave nativismo lírico. Formadas de trinos de aves E de perfumes de flor.

De ternura e de saudade. Os ramos das laranjeiras E das frondosas mangueiras Douradas à luz do Sol! Oh! que clarão dentro d'alma. Na delicada harmonia Que nascia da beleza. De tudo me lembro e quanto! A transparência dos lagos. manhã ridente.Francisco Cândido Xavier . Como uma estrofe inspirada Na noite e na madrugada. O pensamento sonhando E o coração a cantar. Constantemente cismando. E na paisagem querida. Do verde do lindo mar! Oh! que poema a existência De infância e de mocidade. Igual a um canto sublime. 168 . A noite toda estrelada Após o doce arrebol. Numa canção de alvorada. Na tarde e no amanhecer. os afagos E os beijos de minha mãe! Dos trinos dos pintassilgos. As carícias.Parnaso de Além-Túmulo O dia. Do verde da Natureza. De tristeza e de prazer.

O manto de luz da aurora. Não aniquila a lembrança: Jamais se extingue a esperança. Recortada de palmeiras. Amargura e dissabor. com o peito ao vento. Nunca se extingue o sonhar! E à minha terra querida. A Terra (Aos pessimistas) Se há noite escura na Terra. Espero em horas fagueiras Um dia poder voltar. As frondes cheias de amora.Parnaso de Além-Túmulo Da melodia das fontes. Se há tristezas. Descalço. Os pios das juritis! Se a morte aniquila o corpo. Também há dias dourados De sol e de melodias. Quando eu cruzava as campinas. 169 . Onde rugem tempestades. As nuvens nos horizontes Perdidos no azul do além. Sem sombras de sofrimento. Num tempo doce e feliz! Os pessegueiros floridos. se há saudades.Francisco Cândido Xavier .

Livro de excelsa beleza Com páginas de esplendor. As galas da Natureza. Perfumando as pradarias 170 . Um paraíso de amores. Canções de eterno fulgor! A Terra é um mundo ditoso. Saudando a aurora que surge Como ninfa luminosa. Os sonhos da mocidade. Onde há reis que são poetas.Parnaso de Além-Túmulo Esperanças e alegrias. Jardim de risos e flores Rolando no céu azul. Que se beijam luzidias. namorados. Retumba pelas montanhas. A olhar-se toda orgulhosa No espelho do grande mar! Onde as princesas são flores. Heróis ternos. Um hino de força e vida Palpita em suas entranhas. Onde as histórias são cantos De gárrulos passarinhos. Onde as gravuras são ninhos Estampados no verdor.Francisco Cândido Xavier . E trovadores alados. Gargantas de ouro a cantar. Ecoa de Norte a Sul.

Quem vive num éden desses. É sempre risonho e forte. cheias de olor. Desabrochando às centenas. O dia todo é alvorada De doces encantamentos. Oferecendo-lhe graça. Jamais almeja que a morte Na vida o venha tragar. Na estrada onde o homem passa. A noite. De áureos sonhos no porvir!. Sabe encontrar a ventura Nesse jardim de pujanças. E enche-se de esperanças Para sofrer e lutar. De triste e rude carpir. De aromas. Abarrotada de dores. Se há noite escura na Terra. risos e flores. em seus brancos véus! A tarde oscula as estrelas. O Sol o prado ridente. De lágrimas e amargores. Também há dias dourados De juventude e esplendores. O prado perfuma os céus!. 171 ..Parnaso de Além-Túmulo Com seu hálito de amor. Os astros o Sol-nascente... Sorrindo. deslumbramentos Da Lua..Francisco Cândido Xavier .

Pisando de manhãzinha A verde relva dos prados. Moreninha. De negras e longas tranças. Teu vulto de camponesa Era o porte de rainha. trigueirinha. Lavando a roupa às braçadas. De olhar sedutor e insonte. Inda ouço os sons primeiros Da tua voz na modinha Modulada nos terreiros. Moreninha. Moreninha. Rainha da Natureza. Moreninha.Parnaso de Além-Túmulo Lembranças No sacrário das lembranças. Quando o teu passo ia e vinha Em busca da água da fonte. Revejo-te. 172 . De miosótis singelos. à tardinha.Francisco Cândido Xavier . Teus lindos pés descalçados. Moreninha. Os primorosos cabelos Enfeitados. Moreninha.

Francisco Cândido Xavier . Enchendo a nave de odores. Os teus risos adorados. Sob as mangueiras copadas. Fitando a luz do sol-posto. A tua oração ditosa. O teu samburá de flores Que levavas à igrejinha. Tão faceira! tão formosa! Moreninha. Nas missas da capelinha. A placidez do teu rosto Com teus modos de avezinha. Moreninha. Sob o luar prateado. De rosas estampadinha. Nos bandos de namorados. O nosso idílio encantado. Fazendo-te mais bonita. Desferidos à noitinha. O vestidinho de chita. Moreninha. Moreninha.Parnaso de Além-Túmulo Nos fios d’água fresquinha. Moreninha. Moreninha. 173 . Quando te achavas sozinha. Moreninha.

. Moreninha. Quero rever novamente A paisagem luminosa. Que eu sinta de novo a vida Na infância linda e ditosa.. Daquela risonha aurora Do meu passado viver. Rainha da Primavera.Parnaso de Além-Túmulo Que terna recordação De minhalma se avizinha! De saudade. Na alegria inalterável Do lugar onde nasci. de paixão. Que apenas o meu passado Eu possa alegre rever.Francisco Cândido Xavier . quem me dera Rever-te. doce rainha. Sentir a emoção grandiosa De tudo o que já senti!. Recordando Meu Deus. Deixai que me identifique Com os raios da luz de outrora. Ah! que eu possa hoje olvidar 174 . deixai que eu me esqueça Da minha vida de agora. Ai! Ai! meu Deus. Moreninha.

meu Brasil! Escutar os sinos calmos Sob a alvura das capelas. o Sol. Quero aspirar os perfumes Dos cendais cheios de flores. Mirar a luz das estrelas. sofrer. Que das ruínas. Que esperança. Concepções mais perfeitas No progresso que alcancei.Parnaso de Além-Túmulo Imensidades. Meus sonhos encantadores. Sob a luz do céu de anil! Rever o sítio encantado Da minha estância de amores. Procurando os passarinhos E as borboletas tafuis. que ventura! Viver. Ouvir a voz da amplidão! Correr sob o sol-nascente Até que chegue o luar.Francisco Cândido Xavier . Enchendo as longes devesas. E contemple as primaveras Da vida que já deixei. Na fresca sombra dos vales. Minha terra. e amar A campina. Sentar-me no prado agreste. dos escombros. esferas. Beijar as flores singelas. Minhalma retire as heras. 175 . De convites à oração. o mar.

Oh! Natureza da Terra. 176 . Que tesouros não exalas. Toucar-se a alma das galas Da poesia inexprimível.. Na carícia dessas falas Do passarinho e do Sol! Eu gozo de quando em quando. Verto prantos de saudade A luz da recordação.Francisco Cândido Xavier . Da existência transcorrida Guardada no coração. Revendo essa claridade.. Da alvorada e do arrebol. E dos cimos desta vida.Parnaso de Além-Túmulo Campos verdes. céus azuis Ser homem e ser criança. Na excelsa Imortalidade.

Francisco Cândido Xavier . . Para à mesma luz volver. o autor consagrado de Espumas Flutuantes exerceu nas rodas literárias do seu tempo a mais justa e calorosa das projeções. Sedentos de paz e amor. Marchemos! Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer: Da luz do Criador nascemos. forja a grandeza Da sublime perfeição. Buscamos na Humanidade As verdades da Verdade. Oficina onde a alma presa Forja a luz. É a luta eterna e bendita. Nesta poesia sente-se o crepitar da lira que modulou – O Livro e a América. Mocidade radiosa.Parnaso de Além-Túmulo 177 25 Castro Alves POETA baiano. desencarnou a 6 de julho de 1871. com 24 anos de idade. E em meio dos mortos-vivos Somos míseros cativos Da iniqüidade e da dor. Múltiplas vidas vivemos. Em que o Espírito se agita Na trama da evolução.

Deixando um aroma leve Na aragem que passa breve. esplendor. Em Carraras de eleição. Pelas fainas do trabalho. Em mensageiros de paz. Que se transforma em perfume Na corola de uma flor. A vida é luz. Transmutando os Neros rudes Em arautos de virtudes.Francisco Cândido Xavier . Anjos puríssimos faz. É a rija bigorna. tudo sonha Na imortal ânsia risonha De mais subir. o malho. dos tiranos. Nas madrugadas de luz. mais galgar. 178 . O fragmento do estrume.Parnaso de Além-Túmulo É a gota d'água caindo No arbusto que vai subindo. O escopro dos escultores Transformando a pedra em flores. A flor que. terna. Dos algozes. Tudo evolui. Cai ao solo fecundando O chão duro que produz. expirando. Pleno de seiva e verdor. É a dor que através dos anos. A enxada fazendo o pão.

jamais visto. Oh! bendito quem ensina.Parnaso de Além-Túmulo Deus somente é o seu amor. Ou o sabre de Bonaparte. É a lição da humildade. Tirânico e lutador. imagens. A ensinar catequizando O selvagem infeliz. 179 . Suas rútilas passagens Deixam fulgores. É Cellini com sua arte. No sacrifício da cruz. É Sócrates e a cicuta. Quem luta.Francisco Cândido Xavier . É César trazendo a luta. De extremosa caridade Do pobrezinho de Assis. às vezes se acendem Radiosos faróis que esplendem Dentro das trevas mortais. É o sofrimento do Cristo. É Anchieta dominando. O Universo é o seu altar. Em reflexos perenais. quem ilumina. E cujo amor à Verdade Nenhuma pena traduz. O grande conquistador. Na Terra. Portentoso. Sintetizando a piedade.

“Para o Infinito marchai!” A Morte No extremo pólo da vida Diz a Morte: – “Humanidade. Prêmio ou gládio vingador. tende esperança. “Tende fé. Sou balança do destino. Sou a espada da Verdade E a Têmis do mundo sou.Parnaso de Além-Túmulo Quem o bem e a luz semeia Nas fainas do evolutir: Terá a ventura que anseia. Uma excelsa voz ressoa. Lanço Cômodo no olvido E aureolo a fronte de Hugo! O cronômetro dos séculos Não me torna envelhecida. Sou morte – origem da vida. No Universo inteiro ecoa: “Para a frente caminhai! “O amor é a luz que se alcança. Sou anjo dos desgraçados Que seguem na Terra errantes. Nas sendas do progredir.Francisco Cândido Xavier . O fiel desconhecido. Desnorteados viajantes Dos Niágaras da dor! 180 .

Sou águia libertadora Que abre. Austerlitz e Waterloo. E sobre a dor das batalhas Minha asa sempre pairou. sou compensação. Desde as eras mais remotas Coso láureas e mortalhas. Aos bons. Do porvir sou plenitude. Meu sonho é a evolução. Da alegria sou saúde E do remorso o amargor. Sepultura do presente. E sobre a crença o esplendor. Meu verbo é a lei da Justiça. 181 . E nos maus aumento os gritos De dores e maldição. O manto das trevas densas. sobre as descrenças. Na absoluta eqüidade. E por trabalhar com Deus. se às vezes Simbolizo a guilhotina. ouve-me. Meu braço – a revolução. Homem. Minha mão abre a cortina Que torna o mistério em luz.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Também sou braço potente Dos déspotas e opressores. Que trazem os sofredores No jugo da escravidão. Consolo e alívio aos precitos.

Ateio fogo aos canhões.Francisco Cândido Xavier . E junto ao vulto de Têmis Tomei o carro de Jove.Parnaso de Além-Túmulo Sou prisão ou liberdade. Mirabeau. Fiz a Europa ensangüentada Ajoelhar-se humilhada. também se a tirania Arvora-se em lei na Terra. Busquei Danton. Nova aurora ou nova cruz. Flor – oferto-te perfume.. Foi assim que fiz um dia. Oásis – dou-te o repouso. E fiz o Oitenta e Nove Quando a França me ajudou. Ao ver o trono imperfeito Estrangulando o Direito. 182 . implacavelmente.. Faço cair as nações Como fiz Roma cair. Então. Se o cristal que imita o céu Da consciência tranqüila É o luzeiro que cintila Na noite do teu viver. Eu mando a noite da guerra Fazer o sol do porvir. Luz da vida – dou-te o ser! Mas. Estrela – estendo-te lume. Arremesso a minha espada.

Nem passado nem porvir. Até que um dia o Criador Sempre amoroso e clemente. Morte. E mostra biliões de sóis. 183 . Abrir-te-ei meus tesouros. Se às vezes se te afigura Que sou a foice impiedosa.Francisco Cândido Xavier . Bradou do cume dos céus Num grito piedoso e forte: “Não prossigas! Basta. Dos campos Saaras ardentes. Serei tua doce amante. se tens Por bússola o Bem na vida. Verás que sou a mão terna Que rasga abismos profundos. Apaguei a luz do amor. Das cidades fiz ossuários.Parnaso de Além-Túmulo Diante de tanto horror.” Portanto. Olha o Sol de fronte erguida. Horrenda. Cujo seio palpitante Guardar-te-á – paz e amor. orgulhosa. fria. Espera-me com fervor. E mostra biliões de mundos. Que espedaça os teus heróis. Que jamais teve presente. homem. Agora é reconstruir. Trucidei réus inocentes.

E como faz às cidades. Em queda descomunal. Tudo em seu seio revive: Esparta. Sou ave da liberdade Que ao lodo da escravidão Venho arrancar os espíritos. Remodela humanidades No progresso universal. Elevando-os às alturas: Dou corpos às sepulturas. Dou almas para a amplidão!” A Morte é transformação. À luz da realidade.Parnaso de Além-Túmulo Conduzo seres aos Céus. 184 .Francisco Cândido Xavier . Tebas. Nínive. Revivem na velha Europa.

adiada e emurchecida. Não temas Somente com Jesus a alma cansada Volve à praia do amor no mar da vida. a 26 de setembro de 1844 e desencarnado em Campos em 31 de janeiro de 1909.Francisco Cândido Xavier . Refloresce ao clarão de outra alvorada. Nascido na capital de São Paulo. Ama a cruz que te pesa sobre os ombros. Sem Jesus. Vence o deserto áspero e inclemente. A aflição inda é grande em cada dia? Não desprezes a Doce Companhia. Foi grande abolicionista e espírita militante. cresce a treva entre os escombros.Parnaso de Além-Túmulo 185 26 Cornélio Bastos PROFESSOR. A esperança. Vai com Jesus! não temas! crê somente! . poeta e jornalista. O viajor errante encontra a estrada. Que o reconduz à terra estremecida. Todo o trabalho e dor da humana lida São luzes da vitória desejada.

Francisco Cândido Xavier . soube. Que em cada canto estruge e em cada boca Faz o soluço do ideal desfeito. no Estado de Minas. Sobe da Terra pelo espaço eleito. das quimeras. Funcionário público. Numa imensa espiral. Poeta de emotividade delicada. Das dores e da lágrima incontida.. dos risos. Ansiedade Todo esse anseio que tortura o peito. Formando a rede eterna e incompreendida. mercê de um simbolismo inconfundível.. estranha e louca. No turbilhão de todas as esferas!. Ansiedade fatal de que se touca A alma do homem mau e do perfeito. Das ilusões. marcar sua individualidade literária. Estrangulando a voz exausta e rouca. encarnou em 1861 e desprendeu-se em 1898. Essa ansiedade é a mão de Deus nas eras. . Sustentando o fulgor da luz da Vida. Sua vida foi toda dores.Parnaso de Além-Túmulo 186 27 Cruz e Souza CATARINENSE.

São os heróis das lutas torturantes. trêmulos. Fulgem no Além os deslumbrantes ninhos. sozinhos. Corações a sangrar. Prisioneiros da angústia e da quimera. ermos de amores. E além dos trilhos de ásperos espinhos. 187 .Parnaso de Além-Túmulo Heróis Esses seres que passam pelas dores. Revestidos de acúleos acerados. Esses pobres que o mundo considera Os humanos farrapos dos vencidos. Infelizes na dor a cada instante! Sobre a luz que vos guia. As geenas do pranto acorrentados. um passo adiante.Francisco Cândido Xavier . No turbilhão dos grandes desgraçados. Nutrindo a luz dos sonhos superiores Nos ideais maiores esfaimados. Aluviões de peitos sofredores. Que são.. Coroados nas Luzes Deslumbrantes! Aos torturados Torturados da vida. sendo na Terra os esquecidos. Nos desertos dos áridos caminhos.. Abandonados. Mundos de amor no claro azul distante. bruxuleante.

Assim também do túmulo asqueroso. As perfeições eternas e supremas! A sepultura Como a orquídea de arminho quando nasce. A brancura das pétalas abrindo. E como o lodo é o berço vil de flores. A sepultura fria e tenebrosa É o berço de almas – senda de esplendores. Anjos da Paz Ó luminosas formas alvadias 188 . Luz que sobre negrumes se avistasse. Sobre a lama ascorosa refulgindo. sonhando. Do monturo pestífero emergindo. Qual essa flor fragrante.Francisco Cândido Xavier . aflita. como a face Dum querubim angélico sorrindo.Parnaso de Além-Túmulo Chorai! que a imensidade inteira chora. Sonhando a mesma luz e a mesma aurora Que idealizais chorando nas algemas! Vibrai no mesmo anseio em que palpita A alma universal. Como se a neve alvíssima a orvalhasse. Evola-se a essência luminosa Da alma que busca o céu maravilhoso.

Essas traduções mediúnicas de versos em Esperanto foram publicadas em elegante volume.Francisco Cândido Xavier . ditosa e bela! Alma livre 9 Um soluço divino de alegria Percorre a todo Espírito liberto Das pesadas cadeias do deserto. A alma livre contempla o novo dia. 9 Este e outros sonetos de Cruz e Souza foram por ele mesmo traduzidos magistralmente em Esperanto. que no-las remeteu.Parnaso de Além-Túmulo 189 Que desceis dos espaços constelados Para lenir a dor dos desgraçados Que sofrem nas terrenas gemonias! Vindes de ignotas luzes erradias. sob o título: Vodoj de poetoj ei la Spirita Mondo. . radiosas formas claras. e as traduções ditadas ao médium Francisco Valdomiro Lorenz. Anjos da Paz. deixamo-lo aqui registrado. Céus distantes que vemos. anseios e alegrias. De lindos firmamentos estrelados. Por supormos fato inédito. Longe das dores do passado incerto. Doces visões de etéricos carraras De que o espaço fúlgido se estrela! Clarificai as noites mais escuras Que pesam sobre a terra de amarguras. dominados De esperanças. Desse mundo de sombra e de agonia. Com a alvorada da Paz.

Numa visão mirífica. Que o Céu é a pátria eterna dos vencidos. Onde a pobre esperança abandonada Morre chorando sob as desventuras. superna. que a luz acaricia! Alma liberta. Penetra o mundo da imortalidade. Glória à pobre criatura desprezada. Glória aos milhões de todas as criaturas. Como heróis dos deveres e das dores! 190 . Sem conhecer a luz de uma alvorada. Onde aportam ditosos. Entre canções de luz e liberdade. Vê a aurora depois da noite escura. Nos sofrimentos purificadores. redimidos. aniquilados.Parnaso de Além-Túmulo Mergulhada no esplêndido concerto De outros mundos. Forçando as portas da Beleza Eterna.. redimida e pura.Francisco Cândido Xavier . Sob a noite das grandes amarguras.. “Gloria victis” Glória a todas as almas obscuras Que caíram exânimes na estrada. Glória Victis! Hosana aos desgraçados Que tombaram sem vida.

Parnaso de Além-Túmulo Nossa mensagem Essa mensagem de esperança e vida Que endereçamos da imortalidade. Sabei vencer entre as vicissitudes. Segue cantando. Todo o nosso trabalho objetiva Dar-vos a fé. O escuro abismo. Como arautos de todas as virtudes. o tormentoso Averno. Guardai a voz da Terra Prometida. O teu destino esplendoroso e raro. É a lição luminosa da Verdade Que a Humanidade espera comovida. no horizonte claro.Francisco Cândido Xavier . Mas não te esqueças desse mundo avaro. Cheio das luzes do porvir eterno. 191 . Sobre as ressurreições da alma gloriosa. a crença persuasiva Nos caminhos da prova dolorosa. Conservai essa vaga claridade Da luz da eternidade indefinida. Nos exílios do pranto e da saudade. Sem as doces carícias do galerno Das esperanças – sacrossanto amparo. Oração aos libertos Alma embriagada do imortal falerno.

Parnaso de Além-Túmulo Volve os teus olhos ternos. Os deslumbrantes orbes da ventura Por entre os sóis suspensos no Infinito! Aos tristes Alma triste e infeliz que se tortura 192 . De alma ofegante e coração aflito: Considerai. Da alma livre das penas e das dores. A canção da vitória ali se escuta. Na paz quase integral e absoluta.Francisco Cândido Xavier . Onde venceste a carne soluçando. Céu Há um céu para o Espírito que luta No oceano dos prantos salvadores. Considerai. ó pobres caminheiros. Que na Terra viveis como estrangeiros. Céu repleto de vida e de fulgores. fitando a imensa altura. compassivos. Para os pobres Espíritos cativos As grilhetas do corpo miserando! Abre os sacrários da Felicidade. Que coroa de luz a alma impoluta. Mas lembra-te do orbe da impiedade. Que faz da vida a rede de esplendores.

presa Às cadeias da carne tenebrosa. esperança. Um mistério divino há nesse instante. Sou teu irmão. Abandona a prisão. ignota. trêmula e acesa. No qual o corpo morre e a alma vibrante Foge da noite das melancolias! 193 .Francisco Cândido Xavier . Mas há quem guarde as gotas do teu pranto No tesouro sublime e sacrossanto Dos arcanos de luz da Divindade! Há quem te faça ver as cores do íris Da fagueira. Beleza da morte Há no estertor da morte uma beleza Transcendente. É o augusto momento em que a alma. luminosa. dorida e ansiosa. até partires Nas asas brancas da Felicidade. Afastando essa dor que te amargura Nas ansiedades de uma longa espera.Parnaso de Além-Túmulo No tormento que punge e dilacera. e intrépido quisera Trazer-te a luz que esplende pela Altura. Para quem nunca trouxe a Primavera Dos seus pomos dourados de ventura. Sentindo a vida de outra natureza. Beleza sossegada e silenciosa. Da Luz branca da Paz.

mais escassos. Se queres Se queres a ventura doce. Epopéias de Sons e de Esplendores. Para afastar as trevas do martírio Do silêncio das noites tenebrosas. De outro mundo de luz. E o mistério dos célicos abraços. Há a promessa de vida em outro mundo.Parnaso de Além-Túmulo No silêncio de cada moribundo. E os prazeres mais pobres. Tudo isso não vejo e vejo apenas O turbilhão das lágrimas terrenas – Taça imensa de gotas amargosas! Da piedade e do amor eu trago o círio. das Preces e das Cores. Mensageiro Abri minhalma para os sofredores Na vastidão serena dos Espaços. Dos Perfumes. etérea. Eu que na Terra tive sempre os braços Presos à cruz tantálica das dores. indefinido. Serás na Terra o filho incompreendido Do Tormento casado com a Miséria. Na mais sagrada das hierarquias.Francisco Cândido Xavier . 194 .

À dor Dor.. Serás em toda a Terra o feio aborto Das amarguras e do desconforto. que redimes Os grandes réus. Os calcetas dos erros. do Gemido. Que surgem do pretérito de crimes. és tu que resgatas.. Dos prazeres mundanos esquecido. Do Soluço. Ó portadora do tormento acerbo.Francisco Cândido Xavier . Entre as prisões da Lágrima que exprimes! Da perfeição és o sagrado Verbo. funérea. Sob os teus pulsos. os míseros culpados. em vez do réprobo que eu era. Aferidora da Justiça Extrema. Bendita a hora em que me pus à espera De ser. Mas um dia abrirás as portas de ouro E encontrarás o fúlgido tesouro. De benditas e eternas claridades. 195 . Seres escarnecidos. dos pecados.Parnaso de Além-Túmulo Viverás na mansão triste. do Pranto. Sofri na Terra junto aos condenados. Encarcerado nas sinistras grades. Outro Job pelas chagas da matéria. fortes e sublimes. torturados.

De maravilhas de ouro e de alegrias. noutras sombrias Sendas tristes. sem luz e sem conforto. Cheias de risos e de pedrarias. e. Sentindo as dores desse desamparo. entretanto. Todo o fel que tragares.Parnaso de Além-Túmulo O missionário dessa Dor suprema! Noutras eras Também marchei pelas estradas flóreas. Sem reparar. Ser-te-ão como trevas. Serás pobre de luz se não sofreres.Francisco Cândido Xavier . Sofre Toda a dor que na vida padeceres. das dores meritórias. Tive um passado fúlgido de glórias. Onde todas as horas dos meus dias Eram hinos de esplêndidas vitórias. E abusei dos deveres soberanos Sucumbindo aos terríveis desenganos Do destino cruel. Para encontrar-me a sós no mesmo horto Que deixara. todo o pranto. É que dos sofrimentos nasce o canto De alegria dos mundos e dos seres. fatal e avaro. 196 . porém.

multidões de seres.Francisco Cândido Xavier . humilha-o. vibrai nos ares. no mundo que o mal encheu de cruzes.Parnaso de Além-Túmulo Pois que a dor é a saúde dos prazeres. Sobre o aroma das novas primaveras. Exaltação Harmonias do Som. Desdobrai-vos luzeiros estelares. Chorando a mesma dor que o mundo chora. Abre a tua consciência para as luzes E. E na grandeza infinda que se espalma Sobre a glória sublime dos meus versos! 197 . recônditos pesares. Foge à revolta. vence-o. no silêncio. Exaltai-vos na vida de minhalma. misterioso e santo. Doma o teu coração. Cantem no mundo todas as quimeras. e. nas atmosferas. Aves e flores. Exaltai minhas dores de outras eras.. Nos horizontes. Na concretização desses prazeres Do meu sonho de luzes e universos. amplidões e mares! Vibrai comigo. O hino da luz. Meus passados. Do Bem encontrarás a eterna aurora.. dobra-o.

de bênçãos soberanas. A alma vive na intérmina procura Do filão de ouro da felicidade. Vendo na auréola da Imortalidade A alvorada risonha da ventura. Sobre as dores sagradas ou profanas Que pululam nas sendas mais escuras. suplicando. Fortificando a vida da Esperança – Patrimônio dos seres desgraçados. há sobre as humanas Vozes que se lamentam nas torturas. Quanto mais sofre.Parnaso de Além-Túmulo Vozes Há sobre os prantos. muda. 198 . tanto mais se apura No pensamento excelso da Verdade. Silenciosa.Francisco Cândido Xavier . Soneto Nos labirintos dessa eternidade Que nós vivemos luminosa e pura. Outras vozes mais doces e mais puras. Sobe da Terra a queixa soluçando. Como um coro dulcíssimo de hosanas. As primeiras são feitas de amarguras. Desce dos Céus a voz amiga e mansa. As segundas. Remontando aos Espaços constelados.

Nessa jornada eterna da Esperança. Glória da Dor Para aquém dessas cruzes esquecidas Nas sepulturas ermas e desertas. Canta e vibra num dia de bonança. Que é a existência na prova dolorosa. incertas. 199 . Há o turbilhão frenético das vidas Sobre as estradas ásperas. Em torno da Verdade a alma gravita Buscando a Perfeição pura. humilde e boa..Francisco Cândido Xavier . Gozadores de outrora entre as refertas Das ilusões que tombam fenecidas. que é pão dos infelizes. Glória da Dor. Inda há sânie das úlceras abertas No coração das almas combalidas. Só uma glória mirífica perdura Concretizando os sonhos da criatura Cheia de crenças e de cicatrizes: É a vitória da Dor que aperfeiçoa. Luminosa e divina. Quanta vez Quanta vez eu fitei essas fronteiras..Parnaso de Além-Túmulo E ao fim de cada noite tormentosa. infinita.

Presa de sonhos e estremecimentos De esperança..Francisco Cândido Xavier . firmamentos.Parnaso de Além-Túmulo Horizontes. Amarguras e dores e canseiras. Sobre a qual vossa vida já descansa. Que vos fostes nas lágrimas ligeiras. na noite da amargura. nas horas derradeiras!.. O evangelho do amor e da esperança. Como folhas levadas pelos ventos. Espalhai os clarões da vossa crença Na pedregosa estrada dessa imensa Turba de irmãos famintos. torturados! 200 .. Ide e pregai. Toda luz da verdade que se alcança É um reduto de paz firme e segura: Dai dessa paz a toda criatura. Como o errado viajor que cai de bruços Sobre a íngreme estrada da agonia.. estrelas. Quanta vez. Ah! meus longínquos arrebatamentos. Ensináveis-me a ler a Bíblia santa Desta vida imortal que se levanta Numa alvorada eterna de alegria! Ide e pregai Vós que tendes as rosas da bonança Enlaçadas na fé mais doce e pura. abafando os meus soluços.

Mão radiosa. a qual para ser boa. que traz a verde oliva Da paz. promissora e ativa. A caridade é o símbolo da chave Que abre as portas do céu claro e suave. De bens paradisíacos se priva. Misericórdia. Voz da eterna verdade que ressoa Por toda a parte. Manifestando as glórias da Beleza!.Francisco Cândido Xavier . lúcida e piedosa. Caridade Caridade é a mão terna e compassiva Que ampara os bons e aos maus ama e perdoa.Parnaso de Além-Túmulo Conduzi a mensagem luminosa Da caridade. É a vibração do espírito divino. Renúncia Renuncia a ti mesmo! Renuncia À mundana e efêmera vaidade: Que em ti sintas a dúlcida piedade Que as desgraças alheias alivia. Redentora de todos os pecados. 201 . Em seu labor fecundo e peregrino. que acaricia e que abençoa. Das consciências libertas da impureza.

E denodadamente engendra e cria Teu próprio mundo de felicidade! Parte o teu coração em mil fragmentos. de orgulhos e de raças. Nesse mundo de lutas fratricidas. Entre as aluviões de cinza e fumo. esquece a lúrida maldade. A vida se alimenta de outras vidas. Num contínuo combate pavoroso. Com a bondade mais pródiga e mais pura. como passas. Tudo vaidade Na Terra a morte é o trágico resumo De vanglórias. De que a morte voraz faz seu consumo. Todo o sonho carnal vaga sem rumo. Tudo no mundo passa. Só o diamante do espírito sem jaças Fica indene de todas as desgraças. Prosseguindo na estrada luzidia.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Do homem. É ter no Além castelos de ventura. Ofertando-os ao mundo que te odeia. Não olvides em meio dos tormentos: – Renunciar em bem da dor alheia. Só a Morte abre a porta das mudanças E concretiza as puras esperanças 202 .

Só o pensador que sofre e anda à procura Da verdade e da luz no sentimento. Ainda se encontra a imensidade escura Das fronteiras de cinza e esquecimento... rudes e incruentas. Também vivi as lágrimas obscuras. Que tombais nos caminhos sem dizê-las! Exultai. Surdas batalhas. E sustentei. varado de amargores. Também senti as emoções violentas Que palpitam nos peitos sonhadores. batalhas e tormentas.. 203 . almas sedentas De paz. que uma vida eterna e grande. Iguais às vossas.Francisco Cândido Xavier .. Além da morte. de luz. Felizes os que têm Deus Entre esse mundo de apodrecimento E a vida de alma livre. míseras criaturas. sob as maiores Desventuras do mundo. sob as dores De misérias. de alma pura.Parnaso de Além-Túmulo Nos países seráficos do gozo! Ouvi-me Ó vós que ides marchando. de amor. esplêndida se expande No coração sublime das estrelas!.

Francisco Cândido Xavier . 204 . ambição do mundo..Parnaso de Além-Túmulo Pode guardar esse deslumbramento Da Fé – fonte de mística ventura. No bergantim sagrado da Esperança. Venturoso o que vai por entre as dores Atravessando o oceano de amargores. ai da vaidade Que se mergulham sob a noite escura. seres infelizes. Que Jesus vos prepara além da morte. E esperai a vitória alta e suprema. Levantai vosso olhar sereno e forte. Só o caminho divino da humildade Pode ofertar a luz radiosa e pura.. Cheios de prantos e de cicatrizes. Que vem salvar a mísera criatura Confundida no abismo da impiedade. Não maldigais a ulceração da algema. Pobres da Terra. Noite de dor que além da sepultura Nos afasta da vida e da verdade. que estraçalha Todo o anseio de amor ou de bonança!. Glória aos humildes Ai da. Feliz o que tem Deus nessa batalha Da miséria terrena.

Não vos importe o espinho ingrato e acerbo. É a caravana de batalhadores Que. no esforço do amor puro e bendito. Aliviando os seres sofredores. os companheiros Dessa falange lúcida de obreiros.Parnaso de Além-Túmulo Aos trabalhadores do Evangelho Há uma falange de trabalhadores. Vós que sois.Francisco Cândido Xavier . sede o Verbo De afirmações da Luz e da Verdade. Espalhada nas sendas do Infinito. Na palavra e nos atos. Desde as sombras do mundo amargo e aflito Aos espaços de eternos resplendores. Rompe algemas de trevas e granito. sobre a Terra. 205 . Guardai-lhe a sacrossanta claridade.

vibrando noutra esfera. filho de Pacífico Antônio Xavier de Barros. Fala de tua luz aos mais vis e aos mais nobres. a fama. Morte. Renova o coração do mundo impenitente! Dize aos homens sem Deus. Que além do gelo atroz que te reveste os muros. nos círculos escuros. nascido em 1861. A alegria que exalta e a dor que regenera. Desencarnou no Distrito Federal.. a vida eternamente.. Os júbilos e as penas. porém. a vida apenas É tudo que encontrei e é tudo que me espera! O ouro.. no Estado de Goiás. Há vida. Continuam.Francisco Cândido Xavier . Foi poeta e desenhista notável. como capitão da arma de Cavalaria.. . nem o fim! A vida... fumo e cinza ao fundo da cratera. Em cenário diverso aprimorando as cenas. sempre a vida. Esvaiu-se a vaidade!. em 17 de janeiro de 1905. o prazer e as ilusões terrenas São lodo. Vida Nem a paz.Parnaso de Além-Túmulo 206 28 Edmundo Xavier de Barros EDMUNDO Xavier de Barros.. desvenda à Terra os planos que descobres.

Ave triste da noite.. Que os servos da maldade e os filhos da descrença Estenderam. Mas no plano da carne os impulsos tigrinos Fazem a ostentação da miséria que chora! Necessário vencer nos vórtices medonhos.. esquivando-se à aurora. 207 . porém. à luta que aprimora. Glorificando a luz onde a Verdade mora. Santificar a dor.Parnaso de Além-Túmulo Diante da Terra Fugindo embora à paz de eternos dons divinos. O homem é o semeador dos seus próprios destinos. sem Deus. estrelas cantam hinos. Em derredor da Terra.Francisco Cândido Xavier .. Para ver a extensão da noite estranha e densa.. sobre a fronte do mundo!. Do inferno atravessar o abismo ígneo e fundo. as lágrimas e os sonhos. Sem furtar-se.

era sobretudo ativamente humorística. Legou-nos Poemas da Morte. Como hei de versejar? Rimas em osso São difíceis. além de Mortalhas. distante da garrafa. quanto pela opulência das rimas.. nascido em Curitiba. contudo. de outras vezes. Como hei de aparecer? O que é impossível É ser um santarrão inconcebível. sem deixar de ser profunda. Longe das anedotas indecentes.. Recitando epigramas descorteses.Francisco Cândido Xavier . Musa vivacíssima e fulgurante. em 1866.. Procurando tomar o tempo vosso. Sou o Emilio. e Poesias. Mas que não se entristece e nem se abafa. 1901. Trazendo as luzes do Evangelho às gentes. Eu mesmo Eu mesmo estou a ignorar se posso Chamar-me ainda o Emilio de Menezes.Parnaso de Além-Túmulo 208 29 Emílio de Menezes POETA brasileiro. e desencarnado no Rio de Janeiro em 1918. versos satíricos postumamente colecionados. . 1909. Eu sabia rezar o Padre-Nosso E unir meus versos como irmãos siameses. Distinguiu-se pela altaneza dos temas..

(Sempre vivi do sofrimento alheio) Relevai. Como a quase saudade do presunto.Parnaso de Além-Túmulo Aos meus amigos da Terra Amigos. Nas quais. Evitai as comidas indigestas.Francisco Cândido Xavier . o vinho não explode. 209 . conservei-o. O elo que nos unia.. Pois na hora do “salva-se quem pode”. Espero-vos aqui com as minhas festas. Nem há cheiro de carnes ou cebolas. Muita gente nem fica de ceroulas. que as promessas de um defunto São coisa inda invulgar no vosso meio. Que nutre um corpo empanturrado e feio. Apesar do meu cérebro bestunto. porém.. tolerai o meu assunto.

Saturado do amor onipotente Que promana abundante do teu seio!. Conduzindo a mensagem benfazeja Das esperanças para a Humanidade! Senhor! Senhor! que paire sobre o mundo A luz do teu poder inigualável. Hinos de amor. as noites. as auroras. Que as fontes no seu doce murmúrio Te bendigam com terna suavidade. que os pássaros te elevem Dos seus ninhos de plácida harmonia. a voz sonora e doce do Cântico do Calvário. Inflamem minhas vozes neste instante! Que o meu grito bem alto se levante. que a verdade . Que todo o ser no mundo se descubra Perante a tua excelsa majestade. da liberdade. Imortalidade Senhor! Senhor! que os verbos luminosos Do amor. da perfeição.Parnaso de Além-Túmulo 210 30 Fagundes Varela ESTE é o sempre laureado cantor do Evangelho nas Selvas.. Que os lírios te saúdem perfumando Os arrebóis. Senhor! que a minha voz altissonante Se propague entre os homens.. em 1875 – depois de uma existência tormentosa.Francisco Cândido Xavier . desencarnou com 34 anos. Fluminense.

Que os meus irmãos da Terra me recebam Como o ausente invisível. Atravessei estradas tenebrosas E sendas deslumbrantes e estelíferas. Empunhando o saltério da esperança. Planetas como naus sem palinuros Nos oceanos do éter Infinito! Contemplei Vias-Lácteas assombrosas. E que espancas a treva dos caminhos Com a luz que afirma a tua onipotência.. confundidas Entre estrelas igníferas. Descansei sobre as ilhas de repouso. 211 . E humanidades entre humanidades Povoando o Universo esplendoroso.Parnaso de Além-Túmulo Resplandeça na terra da amargura! Ó Pai! tu que removes o impossível. Pude transpor abismos de ouro e rosas.Francisco Cândido Xavier .. redivivo!. radiosas. Em retiros de amor calmo e sereno.. Visões de sóis eternos. distantes. Habitei os palácios encantados. desferindo Harmonias de amor e claridades. Sendas de sonho e báratros escuros. Que transmudas em rosas os espinhos. Permite que minhalma seja ouvida Na vastidão do mundo do desterro. Irmãos. eis-me de novo ao vosso lado! Venho de esferas lúcidas.. Em lindos arquipélagos distantes. Vastros portentosos.

Somente o amor é a vibração de tudo! Vi céus por sobre céus inumeráveis. nesses orbes lúcidos. Lá. O amor. Que é mensagem de Deus por toda a parte! E apenas conheci um pormenor. jubilosa. A morte corrobora as nossas crenças. Em luminosidades e harmonias Aos beijos arcangélicos da luz.Francisco Cândido Xavier . 212 . Um detalhe minúsculo. somente o amor. um fragmento Da Criação infinita e resplendente. A Morte é o anjo luminoso Da liberdade franca. As nossas esperanças mais profundas. Se o mundo abafa em nós toda a alegria. Martirizando o coração dorido Na cruz dos sofrimentos mais austeros. Amando-se da vida os bens mais nobres.. Rompendo o véu que encobre à nossa vista O eterno panorama do Universo. Mundos de dor e mundos de alegria. Roubando-nos afetos e consolos.. Quando nos traz imácula e sublime A chama da esperança dentro d'alma. Onde a treva e onde a noite são apenas Recordações de mundos obscuros! Onde as flores do afeto imperecível Não se emurchecem como sobre a Terra.Parnaso de Além-Túmulo Onde o solo é formado de ouro e neve. nutre e dá vida. divinos. Ah! Morte!. Quando a esperamos tristes e abatidos.

Morte! que te abençoem sofredores. Onde se regenera no tormento Quem se afasta da Luz e da verdade. Como um canto sublime de esperança. para a vida e para o amor! Que representa a Terra.Parnaso de Além-Túmulo E aponta-nos o céu. É apenas um degrau na imensidade. Onde se sofre a angústia da distância Dos que amamos com alma e com fervor. Senhor! Senhor! que a minha voz se estenda. dos escravos Das aflições.Francisco Cândido Xavier . Ela é somente o exílio temporário. Pela visão dos céus resplandecentes. Sobre a fronte de todos quantos sofrem. mais liberdade No orbe da expiação e da impiedade! 213 . Já que és a terna mão libertadora Dos escravos da carne. Onde as almas ditosas se engrandecem. ante a grandeza De tantos sóis e orbes luminosos? É somente uma estância pequenina Onde a dor e onde a lágrima divina Modelam almas para a perfeição. das dores. a imensidade. Que te bendiga o espírito abatido. da tortura! Bendigo-te por tudo o que me deste: Pela beleza da imortalidade. Outras almas guiando em labirintos Para a luz. Pelos beijos dos seres bem-amados. Ansiando mais luz.

nascido em 1850 e desencarnado em 1923. nas mesmas diretrizes. Padre João meditava. O meigo padre João. sobretudo. por sua produção de agora. vemos. Qual lírio a vicejar em meio a um pantanal. que os anos do alémtúmulo não lhe alteraram a sadia e lúcida mentalidade. o mar. O padre João Tombava o dia: A luz crepuscular Mansamente descia Inundando de sombra o céu. O firmamento Tingia-se de luz brilhante e harmoniosa. é assaz conhecido no Brasil como épico dos maiores da língua portuguesa e admirado por quantos não estimam na Poesia apenas o malabarismo das palavras. Sonhava ao pé da igreja – um templo envelhecido Ao lado de um vergel. pela sua veia combativa e satírica. E esta circunstância é tanto mais notável quando o Romantismo se ufana de uma irreal conversão ín extremis. mas o fulgor das idéias. poeta português.Francisco Cândido Xavier .. a terra. A noite era de sonho e névoa luminosa. esplêndido e florido – Sentindo dentro d'alma um frio sepulcral. Um puro coração. Notável.Parnaso de Além-Túmulo 214 31 Guerra Junqueiro ABILIO Guerra Junqueiro.. orando ao Deus de amor: Revia em pensamento .

Aos pecadores dando amigas esperanças. Inflamado de fé. Era o Anjo do Bem. excelso. então. Da igreja de Jesus. meditando. Era um vulto sublime. O farol da verdade ao humano coração. fugindo aos irmãos seus. Comparou. a fúlgida visão Com aquele Cristo nu. Por anos inclementes Em séculos sem fim. Que fazia descer o amor às multidões.Parnaso de Além-Túmulo Uma luz singular nas dobras do passado. O sacerdote. 215 .Francisco Cândido Xavier . Era o meigo Pastor irradiando a luz. Conhecendo no padre o gêmeo de Caim. extraordinária. Notando a diferença enorme. de pau. Pensando docemente a pútrida ferida Da imperfeição que rói a torva Humanidade. Uma réstia de sol sobre a noite do Horrível. Iluminando a vida. Iluminando o mundo. Daquela igreja fria. o imáculo Jesus. Imóvel dominando o âmbito vazio. E aumentando nos bons as bem-aventuranças. inerte e frio. a ermida solitária. Oferecendo amor em flores de bondade. imaculado. E viu da sua igreja o erro tão profundo. De paz e de perdão. desatando os grilhões Que prendiam a alma à carne putrescível. Feita de amor e luz. Dourando os véus da carne e amortalhando o mundo Em trevas persistentes. Afastado da luz.

A luz radiosa e bela. Sentiu seu coração em dores lacerado. a floresta. endeusas a matéria. E viu no mundo inteiro as ânsias delirantes De trabalho. Sentiu-se no seu templo um pobre emparedado. E transformas o padre em trapo de miséria. Crestando a fé. E fitando. Encheu a solidão com as vozes do seu brado: “Ó Igreja! não tens a idéia que eu sonhava. E como se o animasse uma chama divina. de amor. à natureza em flor. matando a paz. Penetrou soluçando a ermida então deserta. Tua mão não conduz As plagas da verdade Mantendo inutilmente a pobre Humanidade No mal da ignorância. Com o coração sangrando em úlceras de dor. Encaminhou-se ao campo. E no sonho da luz fulgente do passado. Fitou extasiado a natureza em festa.. Torturas a verdade. a flor. de eterna perfeição. roubando a luz.Francisco Cândido Xavier . a luz eterna e rara Que nos vem de Jesus. o espírito gelado. 216 .. E fugindo a correr da porta semi-aberta.Parnaso de Além-Túmulo Fugindo desse modo ao próprio amor de Deus. túrbida e falaz. Despiu-se do negrume espesso da batina. Padre João meditou nas lutas incessantes Sustentadas na Terra em prol da evolução. Teve medo e receio. o céu estrelejado. As árvores. os mares. a chorar.

. Pairava na amplidão estranho resplendor. Ruínas de maldade estúltica a cair. Pelas planícies ledas. Na piedade. exótica e execrável. No firmamento em luz. no amor. ó torreão de séculos trevosos.Parnaso de Além-Túmulo Num farrapo de sombra. Achou mais belo o céu e o seu viver mais santo. Crepúsculo.. E eu quero abandonar a noite da prisão. na imensidão dos céus! Ó Igreja! o dogma frio é um calabouço escuro. Que celebrava A grandeza de uma alma que voltava Ao redil de Jesus. Guiando-me o farol da fúlgida Razão. Horas quedas. Submergido em pranto. Eu vejo-o. 217 . Caridade Caía a noite em paz. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava. Num fantasma ambulante em treva interminável! É um blasfemo quem crê que em teus nichos e altares Guarda-se a essência pura e imácula de Deus. feliz. Horas de solidão. nas preces da harmonia!. Prefiro a liberdade e a vida no futuro. Era o festim do amor. Desprezo-te. desde a flor às luzes estelares.Francisco Cândido Xavier . Eu quero palmilhar caminhos luminosos Que minhalma entrevê na aurora do porvir!” E o padre emudeceu.

As árvores senhoris. Sinistramente. Era bem a visão da mágoa e da invernia.. despidas dos seus galhos. Os poemas de luz. a imensidão do espaço. Como braços em cruz. relicários da essência Da verdade e do amor.. tremendo. o aroma dos trigais. Chegavam aos ovis as ovelhinhas mansas. Os risos dos aldeões e as orações das crianças Casavam-se formando. Como poça de sangue. Pipilavam febris no beiral dos telhados. De quem ama a existência plácida da aldeia. Cujo sonho é candura e a vida uma epopéia De louvores à dor. Almas feitas de luar. Reunidas no lar caridoso e terno. Elevavam-se ao céu silenciosas. Exalando. Caía a noite em paz. mudas. que nascem das choupanas. a sorrir. em flor. em busca dos seus ninhos! Repousavam. Andorinhas gentis.. do amor e da inocência. em rimas soberanas.Parnaso de Além-Túmulo A asa ruflando inquieta.Francisco Cândido Xavier . Almas puras. cortando. os meigos passarinhos Recolhiam-se à pressa. de exaltações. os colibris doirados. tardígradas do inverno.. 218 . Sentinelas da dor nas regiões desnudas. Enchia-se o ar de gelo igual a açoite de aço. Que vibrasse. a Lua Rolava na amplidão como cabeça nua. O silêncio pesava impressionante e enorme! Nevava quase e a treva espessa e fria. de cândida frescura. Canções de oiro e de sol das almas virginais. de prantos!. imaculada e pura. Vivendo a vida doce. por entre os negros mantos De espessa escuridão. horrendamente informe. sangrentos nos trabalhos.

Que estendesse o seu manto aos ombros da miséria. alvas como alabastros.Parnaso de Além-Túmulo E eu pedia ao Criador da imensidade etérea. O castelo real e a cabana do pobre. Sem temer a hediondez das negras horas mortas. A dor que faz da Terra um ninho de infelizes. Filhos da obediência. Pedindo a soluçar um caldo negro às portas! E sondava o amargor dos operários rudes. Que vão cedo ao trabalho. Onde sobrasse a angústia. Pesava toda a dor que o mundo inteiro cobre. A dor que dobra e vence as multidões ignaras. anhos de mansuetudes. esplêndido e profundo. 219 . Que palpita nos reis. fulgente como a luz Que dimana do amor divino de Jesus! Seu luminoso olhar. à lide que os consome. que andava mansamente: Tinha nas mãos de luz ramalhetes de lírios E no olhar a expressão de todos os martírios: Digna como um juiz.. Que derruba os casais e come o pão das searas. Que se vão de longada ao longo dos caminhos. Em mim. Suas faces e a fronte. Que agasalhasse o pobre e que desse ao mendigo Um frangalho de pão e um momento de abrigo. sentia a dor dos que não têm carinhos. Era como a piedade iluminando o mundo.Francisco Cândido Xavier . onde andasse o penar. que anda nas meretrizes. Que levasse o amor onde faltasse o lar. Deixando a casa entregue às penúrias da fome. Que pusesse suas mãos benévolas e puras Sobre o abismo voraz de tantas amarguras. Quando vi resplender nas bandas do ocidente Uma excelsa visão..

Atravesso o oceano e atravesso os países. 220 . Sou o farol da legião dos pobres sofredores. a seita e as gentes. Emitia esplendor sua túnica de arminhos. em vez do sono à sesta. Levo sol.Parnaso de Além-Túmulo Pareciam do alvor das estrias dos astros. Quem és tu? – murmurei. – “Meu nome é Caridade. Como pairo a sorrir por cima de um monturo. e com ansiedade levo-a A quem.Francisco Cândido Xavier . E quando a tarde chega. As rosas festivais das frescas alamedas. Amo os bons e protejo as almas vis e hediondas.. Dissolvendo os cendais das trevas dos caminhos!.. Para mim. que. Ando por toda a terra. Vou onde haja a miséria e pranto de infelizes. Para levar a luz. como adoro as boninas Que se entreabrem na estrada. Conduzo com avidez o lúcido estandarte Do bem. Emissária de Deus a toda a Humanidade: Pairo por sobre um ser resplandecente e puro. ando por sobre as ondas Do oceano a rugir sob meus pés de névoa. não existe a classe. Desço das vastidões dentro das horas mudas. Abranjo em meu amor a alma dos continentes.. Enche com o seu trabalho as lindas manhãs claras. Deixo Cristo na cruz para encontrar com Judas. balsamizando as dores. nas aflições. Amo o labor da ciência e amo a existência honesta Do ingênuo lavrador. Amo o trabalhador. chama-me em altos brados No turbilhão de horror de todos os pecados. adornando as campinas.. pão e luz. engendra a paz das searas. que ampara a dor e vela os sonhos darte.

Vou ao cárcere escuro.Parnaso de Além-Túmulo Que abarrotam de olor as primaveras ledas. nem quer o amor do próprio Deus! O homem não se mudou. Amo o templo e amo a escola. nem recebo homenagens. Jamais pude escolher entre Roma e Paris. Não conheço horizontes. A Humanidade é a mesma. Visito os hospitais. Confortando o amargor. Que não te quer. corro do brejo aos sóis. o mesmo charco imundo. – Por que volves ao mundo? O mundo é o mesmo caos.” “Caridade! – tornei. nas ermidas. Beijo um cadáver nu. e as aves da floresta. Desço ao antro abismal e ascendo aos minaretes. comovida.Francisco Cândido Xavier . que. como idolatro as crianças. creches e orfanatos. Vivo fora do plano imundo da matéria. Lodo fenomenal de descrença e malícia. Amo o bem que alivia. Minha missão é amar. como osculo os heróis. Amo o goivo e o lilás. Trato com o mesmo amor os cultos e os selvagens. amo o bem que consola. É por isso. no sopé dos patíbulos. Não me regem as leis que regem um país. consolando a miséria. Idolatro os senis. talvez. como amo o luto e a festa. eu ouço Do palácio o carpir e os ais do calabouço. Não conheço nações. as mágoas e esperanças. 221 . nos montes. Nunca a lisonja fiz. Ao pé do altar da fé. Amo a fera bravia. Guardo comigo a dor. entro nos palacetes. Sem toques de clarins e sem espalhafatos. Estou dentro do templo e dentro dos prostíbulos. Subo da Terra ao Céu. alma de fariseus. E a tola sociedade É o nojento paul da criminalidade. Oro em qualquer lugar.

Onde puseste a luz. Que esta plebe é de cães. Onde criaste o ideal e a inspiração divina. Ele fez podridões de imundos cemitérios.. onde fundaste a escola. Se o canhão não chegar. Que brada sem cessar: – “Inda grita a canalha? Abra-se-lhe a prisão. E se alguém reclamar. há canhões na Alemanha. O homem fez barregãs que se vendem nas feiras! Onde andaste a criar a cidade e os impérios. transudando a miséria. jogue-se-lhe a metralha.Parnaso de Além-Túmulo Vai! consulta as prisões e consulta a polícia. A sociedade vil é quase a mesma Impéria. toque-se para a missa. pague um tributo novo. Para que se não veja a ruína e os cemitérios. há mosteiros na Espanha. Celas que são prisões. De nada serve o livro a um povo sempre cego. ponha-se a honra ao prego. espalhe-se ignorância. Girândolas ao ar. 222 . Morre o bem. Fogo a quem mendigar! morte a quem tiver dores!. Onde foste ensinar cantigas às ceifeiras. flores sobre os lameiros. honras aos forasteiros! Cubram sedas a lepra. causa nojo a política. Mate-se a mocidade. morre o amor. que reclamar. aromas os fedores. que esta plebe é submissa. O homem pôs o missal. as batinas e a estola. Propague-se impiedade. a forca e a guilhotina. cheias de sentinelas. Fez a bomba explosiva. Se o estrangeiro chegar – Bailes nos ministérios! Músicas sobre a dor. Ressumbra asco e pavor a velha sifilítica. Ao raiar a manhã. asfixie-se a infância. que se açoite esse povo! Alguém. E se o povo chorar.Francisco Cândido Xavier . Onde existe o grilhão dentro de escuras celas. Rindo na podridão. E se a fome vier.

Sacrifica um Abel para aceitar Caim!” . Não entende Voltaire. Somente lhe interessa a sorte das criaturas. eu não sei. Para o seu labutar. a esta nada escapa. amigo.Francisco Cândido Xavier . não discuto. poeta! A alma da caridade Abomina o rumor que alimenta a vaidade. toma vestes singelas. Para fazer o bem. Caridade? o mundo é sempre assim. nem más literaturas. se Goethe ou Shakespeare. entre más soberanas. morre sob pauladas – E à podre sociedade é igual a religião. Nunca soube notar. Demonstrando o conflito entre Jesus e o Papa: Jesus amava a luz. Se viveram maus reis. corre o fecho às janelas. Raciocina. o Papa o oiro vil. Se houve o pincel de Goya e o buril de Bordalo. Se houve no tempo antigo uma arca de Noé. Se o nome de Mafoma é o mesmo que Maomet. o Papa a Rotschild! Que queres. Não reconhece a lei que emana dos monarcas. Sabe somente ver as dores infinitas. Jesus amava o pobre.Parnaso de Além-Túmulo E esse povo infeliz dorme pelas calçadas. Eu só quero saber onde há miséria e luto. Que encarcera o ideal dentro da Inquisição! Principalmente Roma. Se a Patti cantou bem pelas festas mundanas. Nunca soube enxergar se há Lutero e Jesuítas. Não lê Anacreonte e ignora Petrarcas. Almoça e ceia o luar. nem sabe discernir Qual deles foi maior.“Antes de tudo. Não vai a Roma ver o Papa que se cobre 223 . Se Calígula quis endeusar um cavalo.

Não vai à Terra Santa em peregrinações. Corre. Sabe onde falta sol. corre por toda a Europa. Não lhe pode abalar a opinião da crítica. Nunca reza em latim. água e calor nos ninhos. Sabe amar e querer flores e passarinhos. Para buscar a dor da orfandade que chora. Sopa para matar a fome dos famintos. Sabe somente que ama e também que perdoa. jamais anda de sege. nunca fez procissões. segue a Nosso Senhor! Anda no Novo Mundo. Luz para desfazer a baixeza de instintos. Nunca viu povoléus. desde o nascer da aurora. Nunca aos concílios foi dar suas opiniões. nem dogmas de fé! Rejeita a excomunhão. onde escassa é a saúde. Os mendigos e os reis.Francisco Cândido Xavier . E não vai desfolhar misérias nos jornais.Parnaso de Além-Túmulo De fulgentes milhões para humilhar o pobre. Não conhece opinião. Nem sabe distinguir entre um pária e Carnegie. misérias. Reconhece na treva a fonte dos pecados E abraça com carinho os grandes torturados. Mendigando uma luz e um bocado de sopa. não está nas pelejas. os palácios e os ninhos! 224 . Passa no mundo a pé. Que falta o amor e o pão. Onde se mete a flor excelsa da virtude. sem se cansar. Nem problemas sociais. Entra no lupanar. mágoas. Jamais toma lugar para fazer sermões. jamais amaldiçoa. Foge da discussão. Nem no ambiente hostil e estreito das igrejas. nem divisa a ralé. dor. Jamais focalizou questões eleitorais. Olha sem se anojar. não lhe estorva a política. Sabe apenas que há pranto ao longo dos caminhos.

tomo o arado e a charrua. Vai às roças louçãs nas alvoradas claras. Amparar o chacal. noite de desventura! 225 . as aves e os reptis.. Procuro a pomba e a fera..” Muito tempo passara e a noite inda era escura. recôndito e diverso. Lá me ponho a lidar e de lá volto à rua. Noite de neve atroz.Parnaso de Além-Túmulo Tem abnegação. Que ouvem as tentações do beiral das estradas. Existe no Universo. Necessário é lhes leve a vida e a liberdade.. melros e cotovias. adeus! Há muito que me espera A imensidão da dor. Desce ao antro sem paz. Vai a todo lugar. Poeta amigo. Vai sem medo e receio à lôbrega mansarda. Estou com o lavrador na tarefa das searas. E escrever com seu sangue a Justiça e o Direito! Sabe o amor. Procurando os pardais. Necessário é que eu siga em minhas romarias. É preciso que eu vá visitar os covis. Tenho muito a prestar às ovelhas transviadas. Sabe o bem. Como do seu farnel. A alma da caridade Sabe endeusar a luz e adorar a verdade.Francisco Cândido Xavier . Não existe num mundo. Para guiar os maus. Vou subir a colinas e descer aos valados. Chama-me o sol redor. para guiar felizes.. Minha missão é amar os vermes e os países!. Se tua alma quiser inda encontrar-me um dia. Sabe rasgar o peito. chama-me a orfandade. Onde tarda a saúde e onde o conforto tarda. Caçando o pranto e a dor dos pobres desgraçados. donde foge a alegria.

Almas na escuridão da noite sem aurora. esquálidos e nus..Parnaso de Além-Túmulo Foi-se a linda visão. dissipando as neblinas. O mundo famulento. urnas de lama e pus. fruto e flor. Corpos de podridão.Francisco Cândido Xavier .. Cantos de rouxinóis. Existências em flor. Tudo voltou à paz silenciosa e calma!. a Terra. O inverno e o pesar. Lírios no lamaçal das grandes desventuras. árvores. e aos olhos da minhalma. há aroma e luz na beira dos caminhos. Calcular a extensão de tantas amarguras. Pobrezitos sem pão. Entoando a sorrir mil ditirambos de oiro. Anjos açucenais que a miséria devora. 226 . que se evolam dos ninhos Dourados pelo sol dalvorada do amor! Mocidade no abril resplandecente e loiro De noivado e canção das almas virginais. fustigadas de pranto. parecia O planeta da sombra e a mansão da agonia! Romaria (Passeio matinal) (Fim da poesia inserta em Poesias Dispersas. filhas que adoro tanto.) Não sabeis.. Harmonias sutis. No entanto. Repartindo o seu pão de carícias divinas. Como as aves gracis em vôos nos trigais.. não sabeis.

Transformando-as em luz e em vasos de perfumes!. Filhas que Deus me deu. Vinde comigo ver a dor dos desgraçados 227 . comigo. as aves e os chacais. Que o grão de areia une ao roble secular.Parnaso de Além-Túmulo A alegria taful das manhãs harmoniosas Em que maio desfolha os cravos e os jasmins. misérrimas. Que irmana a fera e a rosa. Fez também o soluço e a lágrima dorida. Há risos e esplendor e há prantos. Que liga o verme ao mar. filhas minhas.. Espargindo dos céus as glicínias formosas.Francisco Cândido Xavier . O amor que fraterniza. porém. Um coração que sofre é chama que se eleva Da túrbida hediondez dos pantanais da treva. o amor que dá saúde. Que faz da Caridade a flama da Virtude. E se fez a bondade envolta de esperanças.. das lepras mal cheirosas. Na esmeraldina cor do colo dos jardins! E Deus que fez o Sol e a candura das crianças. Sobre o escuro. A lágrima da dor é estrela que transluz. Porque o pranto é que lava as manchas e os negrumes De almas torvas e vis. Que sublime conduz aos planos celestiais. vinde alegres. Às regiões da glória intérmina da luz. mesquinhas. Paira o clarão do amor. edênico e sem par. que une a pomba às rosas. Criou a dor clareando a escuridão da vida.

Compondo o hino de sol de esplêndida alvorada! Partamos nós.Francisco Cândido Xavier . à treva a luz da aurora. A paz à guerra e à luta os lírios da bonança. Ébria de aroma e luz das flores orvalhadas. chilreia a passarada. pois. O sol primaveril da graça de Jesus! Eterna vítima Na silenciosa paz do cimo do Calvário Ainda se vê na cruz o Cristo solitário. com os corpos cancerados. sem pátria e sem abrigo. Cheios de sânie e pus. também. E acharemos no fim da romaria imensa. Perpassam colibris. Dando consolo à dor. Conduzamos conosco a luz da Caridade. Hora em que a Terra acorda em haustos de esperança. Tenhamos a noss'alma em delubros de luz. Aproveitemos. Espalhemos a Fé. Nutrindo o coração na fonte da esperança. Oferecendo o Bem aos pobres pequeninos. Ofertando com amor a toda a Humanidade Esse pão divinal que é dos trigais divinos. esta hora calma e mansa. por este mundo afora. Em que há músicas no ar e olores nas estradas. Zumbem sofregamente as trêfegas abelhas. a Caridade e a Crença. 228 . Saúdam o alvorecer as vozes das ovelhas.Parnaso de Além-Túmulo Que chorando se vão.

turbas de gozadores 229 . silencioso. E puseram-se a rir do louco supliciado! O Cristo continuou. Caravanas de reis nos tronos passageiros. Inscrevendo com fogo as máximas das leis. valentes brasonados. traído e calmo.Francisco Cândido Xavier . Açoitado. Cavalheiros gentis. partindo como tantos. Represam-se no olhar do Filho de Maria. Nobres de sangue azul nos seus mantos dourados. Dois mil anos de dor. e os seus cruéis algozes Passaram sem cessar como chacais ferozes. humilde e silencioso. Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. Os lendários heróis no dorso dos corcéis.Parnaso de Além-Túmulo Vinte séculos de dor. ensangüentado. Viram-no seminu. poetas e trovadores. Da Terra ao Céu espraia o seu olhar piedoso. de pranto e de agonia. Castelãs juvenis. Artistas e histriões. Abandonado e só na aridez da colina Sofre infindo martírio a vítima divina. Sábios do tempo antigo abrindo os livros santos Olharam-no também. Exaltados na voz das trompas dos guerreiros. na cruz.

tigres.Francisco Cândido Xavier . 230 . Espraiando na Terra o seu olhar piedoso. mataram-se os irmãos. sublime e silencioso. o anjo da virtude. E na época atual a caravana estranha Estaca no sopé da árida montanha. Agora vêem. Contemplaram Jesus no cume da colina. agora transformados Nos párias do amargor. Multiplicando a guerra. nos grandes desgraçados. no topo do Calvário. Desolação e horror. Sorvendo o amaro fel nas dores da aflição. Lobos. Hoje mais nada são que míseros mendigos. sim. na capa dos cristãos. Estende o seu perdão cheio de mansuetude. depois. as lutas e a chacina. o pranto. O Mestre prosseguiu. chacais. Os nobres doutro tempo.Parnaso de Além-Túmulo Inda vieram. Temos fome de paz e sede de perdão!” E o Mestre da bondade. Bradando com furor: – “Socorre-nos Jesus! Que possamos vencer a dor em nossa cruz. O sacrifício e a dor do eterno visionário. Mas os soberbos reis e césares antigos. aqueles que em seu nome Espalharam a treva. a guerra e a fome.

A um padre (Versos a um agressor do Espiritismo) Ó padre lutador.Parnaso de Além-Túmulo E do cimo da cruz. Ponde sobre a esperança o inferno que flameja. calmo e silencioso. Ensinai catecismo em todas as escolas. Afogai na descrença a pobre Humanidade. proclamai o dogma divino! Fazei bulas. operosa e triunfante. Comei Jesus no pão refogado em falerno. trazei Loiolas. Proclamai. Formai sob a batina as gerações vindoiras. Tomai em vossas mãos das crísticas tesoiras.Francisco Cândido Xavier . procurai santamente Apregoar ao mundo herético e descrente Os dogmas ancestrais da vossa velha Igreja! A árvore do progresso. De saber a verdade acerca do Destino. 231 . esplêndida. Cortai a asa de luz de toda liberdade. Afirmai que um sacrista é um ministro do Eterno. Cheio de excomunhões e de mastins da Igreja! Ensinai que Deus é o bramânico sátrapa Que enviou para o mundo os bergantins do papa. viceja. A Ciência caminha a passos de gigante Para se unir à Fé. Consola a multidão com o seu olhar piedoso. É preciso instalar a Inquisição de novo. Contendo a aspiração indômita do povo. torcei as leis.

Francisco Cândido Xavier . vendei o ensino e a prece. E vinde proclamar ao mundo fariseu Que somente na Igreja há sendas para o Céu. anatematizai Todo aquele que em Deus sentir o amor de um Pai. Aprovai. Traficai com o altar. em verdade.Parnaso de Além-Túmulo Multiplicai no mundo as vossas benzeduras. E um trapo de batina ao pé de cada estrada. Sem o medo pueril do inferno e do demônio. são como crimes sagrados E a estola de um sacrista é isenta de pecados. Fazei autos-de-fé. Esquecei sobre a lama os pobres indefesos. 232 . Porque. discursos. Lembrai a Inquisição e a história do papado. aplaudi as grandes simonias. Anatematizai todas as heresias. Transformai todo templo em balcão de bentinhos. absolvei magnatas. Entre encomendações. Interpretai Jesus no prisma do interesse. Endeusai sobre o trono a fortuna dos Cresos. Retende na memória os erros do passado. Multiplicai na Igreja os ritos e as tonsuras! Teologicamente. pregai probabilismos Dentro das liações e dos anacronismos. Ponde em cada recanto um novo Torquemada. Lede com desassombro o intrépido Barônio. sermonatas. Com representações em todos os caminhos. Só a Igreja possui a santa autoridade. Incensai Harpagões. Dentro das presunções da infalibilidade.

e a bênção de Maria. tomando a vossa pena.. não alcança a virtude. A abençoar fuzis. Cada gesto leal é sublime interstício Por onde a Luz penetra em jorros cristalinos. Gritai que o mundo está perverso e corrompido. Da mentira que. 233 .. Escrevei com furor contra as guerras tigrinas.. Abrindo o coração ao nobre sacrifício. Se puderdes. Onde a verdade está sob as cavilações Dos círculos hostis de torpes convenções! Praticai e afirmai ainda mais do que isto. Afastarmo-nos dela é andar no sorvedouro Da calúnia que fere o coração mais rude.. arma nova fogueira A quem asseverar que o Papado é uma feira Onde Deus é um cifrão e onde se negocia A bênção de Jesus. metralhas. enfim. porém. carabinas.Francisco Cândido Xavier . consigo o vírus que envenena! Quem perpetra a inverdade a si mesmo condena. Incentivai com ardor os rubros fanatismos. a luta das idéias. Mas. Clareando o porvir ignoto dos destinos. Fazendo-vos ouvir. irmão.Parnaso de Além-Túmulo Sobre o luxo gritai no púlpito florido. Que traz. É feita nos clarões das grandes epopéias. A luta da verdade. ouvi minha voz impávida e serena!. Jamais vos esqueçais de que a verdade é de ouro. A discórdia infundi! Nutri regionalismos. Tendes a autoridade e a mansidão do Cristo.

que se repete. anual. a vítima e comparsa Do Papa. Abandonai a treva e vinde para a luz! Aprendei muito mais do exemplo de Jesus. Jamais enxovalheis o vosso ministério. Filha da estupidez bisonha e condenável. sob a luz esdrúxula das tochas Que ilumina esse caos de tintas rubro-roxas. Que a Verdade jamais se vende no mercado. pois. Nunca vos entregueis a tanto despautério. Como as grandes funções do entrudo e do confete. O pobre Senhor-Morto.. Acostumai-vos. feito de gesso e lacas. Talhado de encomenda. da tiara. um pálido abantesma. Olvidai convenções. Num cenário infantil.. Que a Igreja representa. Deixai a insensatez dos clérigos.Francisco Cândido Xavier . Dorme grotescamente o sono dessa morte De teatro burlesco. o explorador santíssimo da farsa. “Um Quadro da Quaresma” Entre lamentações e estrídulas matracas. Representa-se a peça antiga da quaresma. 234 . em tinta espessa e forte. ao sol que tudo aclara. Paródia de uma dor sublime e incomparável. papado. arrecadando esmolas. É próprio das paixões e próprio da inventiva. congregações. É o ator da paixão.Parnaso de Além-Túmulo Criar uma ficção e excomungar de oitiva. Imóvel.

Precisais cultivar o nosso dogma eterno. o espírito moderno. Evitai conviver com os livres pensadores! A análise conduz à escuridão do Averno. seus embaixadores. Rezai! que atualmente o mundo pervertido Pretende esfacelar os dogmas romanos. certamente. Das chamas infernais. Coquelin tonsurado. cantochãos. Sentinelas da fé. Fora das concepções altíssimas da Igreja. 235 . Existe tão-somente o Inferno que despeja O mal e as tentações no espírito perdido. Calvino. porquanto a fé é o escudo Que vos há de livrar dos gênios tentadores. criaturas inferiores Dirigem. Numa fantasmagoria esplêndida de aroma Dos incensos do altar.Parnaso de Além-Túmulo Com latim. há quase dois mil anos! Não busqueis progredir nas coisas transcendentes. bandeiras e sacolas. sobre o púlpito assoma Uma figura heril de abade gordo e enorme.Francisco Cândido Xavier . A função quaresmal prossegue. obeso. Porque o Papa é senhor de céus e continentes E o Sílabus proíbe a evolução de tudo! Eu só vos peço a fé. A multidão Espera com ansiedade o clássico sermão. Que grita com estentor: “Caríssimos Irmãos! Nós somos sobre a Terra os únicos cristãos. Wesley. desconforme. Voltaire e Galileu são ministros do Inferno. De eterna submissão ao Papa que é infalível. Comte.

Parnaso de Além-Túmulo Toda ordem de Roma é boa e indiscutível. Resmungando um latim exótico e confuso. Procurou lestamente o calmo presbitério. em santa penitência. rogando que se desse Uma estola ao Progresso e um véu à Humanidade. a humilde singeleza. E depois de exercer seu santo ministério. contentes na virtude. enformá-lo. segundo o gesto em uso.. Sede firmes na fé. As mortificações recebem da indulgência Os prêmios celestiais na Eterna Beatitude. a Liberdade. a Luz. Sentimentos de fé e catolicidade. Que é o traço de união do arcano da Trindade. Com um aceno abençoou. Vivei. Oremos pelo mundo em desconforto extremo. E abominando o Cristo. O dogma é uma lei benigna e sublime. caros irmãos. Obedecei à Igreja em sua Santidade. É preciso antepor. Sofismá-lo. Terminou a oração. a toda a Humanidade. Reformistas quaisquer?. Amando a caridade. é cometer um crime. o Senhor que ele esquece. 236 .. Tem até corrompido os padres e os monarcas. Necessário se faz prender quem raciocine. Satanás que os fulmine A falta de fervor tem feito heresiarcas.Francisco Cândido Xavier . Como Jesus amou a glória da pobreza!” Condenando a Ciência. A Humanidade está sob o império do demo.

E após se abastecer pantagruelicamente. Mas o sono roubou-lhe as preces e o breviário.Francisco Cândido Xavier . Morre sem remissão de horrível carcinoma. ó meus irmãos do altar e da batina. o lídimo Evangelho.. Licores. da caridade o templo. seu cérebro indolente Desejou meditar nas cenas do Calvário. A Igreja que foi pura e que já foi divina. ambrosias. Por isso. Esquecido Jesus.Parnaso de Além-Túmulo Aguardava-o o jantar de finas iguarias: Pratos de ostentação. 237 . Olvidou o que Jesus obrara com o exemplo. moscatéis. inadequado e velho. Dos atos a lição. Terminada que foi a sacra pantomima. Para tanta extorsão impune e criminosa. Com o seu rubro sermão. a guerra e o fanatismo. Não se lembrou que houvera o bom samaritano. cavando um negro abismo. Em paz sacramental. a sacrossanta essência Ficou em pregação de mágica eloqüência. Jesus apenas fora a máscara piedosa. adormeceu sem pensar que pusera Em cada coração um coração de fera. doces raros. Sereno.. recheios. Opíparo jantar regado a vinhos caros. Porque a verdade pura. olvidou-lhe a doutrina. Propagando a cegueira. Da doutrina cristã. Sem artigos de fé. sem bispo e Vaticano. Nos pântanos letais e lúgubres de Roma. Era um livro escurril. confeitos.

Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Lá onde a cupidez fatídica se entrapa E morre às próprias mãos sacrílegas do Papa! 238 .

falecendo em 1937. Escreveu Ementário.. Chorei de gratidão ao pressenti-las.Parnaso de Além-Túmulo 239 32 Gustavo Teixeira PAULISTA. que amo tanto.Francisco Cândido Xavier . ansioso. E paraíso para as nossas dores. Com que angústias te vi. Conduzindo-me à luz doutra paisagem. Ó terra de São Pedro. Nos supremos e tristes estertores!. cerrando-me as pupilas No doloroso termo da romagem. Graças a Deus. as mãos tranqüilas.. banhado em pranto. A São Pedro de Piracicaba Último instante.. derradeira imagem Nas procissões da sombra em longas filas.. Poemas Líricos. Trabalha e espera sob os céus risonhos. Último Evangelho e outras obras assaz estimadas. em março de 1881. Que a morte é vida para os nossos sonhos. a crença era meu pajem E buscando-lhe. Era a morte. . nascido na cidade de São Pedro.

chorando. o lavrador que fez.Parnaso de Além-Túmulo 240 33 Hermes Fontes SERGIPANO. – Sonho lindo que a nada se compara. Passados os trabalhos e os tormentos. seu último livro. A sementeira luminosa e rara Do trigo louro e rútilo do sonho.. nasceu na Vila de Boquim. Perdeu tudo no instante da colheita.Francisco Cândido Xavier . Soneto Sou. . E o pobre. rude e bisonho. Numa grande esperança insatisfeita. Não reparou o labor triste e enfadonho. deixou firmada sua personalidade literária. Quando aguardava a messe. Regou. Eis que aparecem os arrasamentos. jubiloso. Poeta de grande relevo emocional. em 1888.. Esperou confiante o sol da seara. E de alma ingênua e coração risonho. desgraçado e desditoso. a terra que lavrara. Gênese. Lâmpada Velada e Fonte da Mata. e suicidou-se no Rio de Janeiro aos 26 de dezembro de 1930. tendo publicado Apoteoses.

serra em serra. Renovar minhas síncopes de dor. Procurando o país indevassado Do ideal luminoso de Aladino. Do que chamamos – a felicidade... Tudo outrora. Senhor. As promessas pueris da falsa glória. Redizer minhas mágoas. Não sorvo mais os tóxicos violentos Do desespero e da melancolia. Buscando a imagem fúlgida. Após a derrocada Das construções de um sonho superior. E o triste engano da celebridade.Francisco Cândido Xavier . 241 . Como fizera de minha arte um hino. E fui de vale em vale. incorpórea. minhas ânsias. É perpetrar amargas redundâncias. Mas só colhi os frutos maus da Terra.Parnaso de Além-Túmulo Minha vida Não pude compreender o meu destino Na amargura invencível do passado. Que amortalhou meu sonho peregrino Nas trevas de um martírio irrevelado. Do sofrimento fiz o apostolado. Poema da amargura e da esperança Falar-vos de martírios e tormentos.

O meu frágil espírito inferior Viu-se presa de trevas. E a desgraça suprema o amortalhou.. Misericordiosíssimo Senhor! De tortura em tortura amargurado. Tudo em volta de mim era a cegueira.. E transformou a minha mocidade Num montéo de ambições. Fez-me fraco e descrente..Francisco Cândido Xavier . que Te aclama Como a fonte do amor ilimitado! 242 . no passado. Rompeste a minha venda de cegueira E divisei o excelso panorama Do Universo infinito. Mas a tua bondade me levou A esquecer a influência deletéria Da carne passageira. Que me seguiu o espírito ambicioso! A carne é pobre e é cheia de fraqueza. de fama e glória.. de dor e de miséria. Que torturou a minha vida inteira. Era o tédio cruel que me impedia De vislumbrar a claridade intensa Da luz do sol puríssimo da crença. Simbolizando o ciclo tenebroso Das sínteses de dor da Natureza.Parnaso de Além-Túmulo Na minha pobre vida abandonada. E a carne subjugou-me inteiramente. Adormeceu-me aos cantos da vaidade E me afastou da estrada meritória Da crença e da bondade. Tudo sofri.

Que no porvir a dor bela e sublime Jorre em minhalma a luz da perfeição.Francisco Cândido Xavier . A esperança o espírito me invade Aguardando das lágrimas futuras A minha redenção.... meu Deus. pois..Parnaso de Além-Túmulo Relevaste. Que a confiança. Cheio de amaridúlcida ansiedade. 243 . o meu pecado E pude ouvir as harmonias puras Que equilibram os mundos nas alturas!. em Ti me anime.

A paz sublime. Volta. “minado pela nostalgia”. ao qual foi imposta a pena de degredo perpétuo na África. A vida plena. um dos malogrados poetas da Conjuração Mineira”. de novo Ao grande povo Que não me canso De estremecer. onde veio a falecer em 1793.Parnaso de Além-Túmulo 244 34 Ignácio José de Alvarenga Peixoto IGNÁCIO José de Alvarenga Peixoto.Francisco Cândido Xavier . ainda.. amena. Musa que inspira Meu coração A relembrar. Revela. Celebra.. Exalça agora A nova aurora Que brilha cheia . A Pátria linda Que faz vibrar Todo o meu ser. Redivivo Divina lira. A luz sem par.

.. A nova era Do meu Brasil. Enfraquecer-te Nas lutas mil. Louva a doutrina Da liberdade No eterno bem. Canta somente.Parnaso de Além-Túmulo De amor cristão.Francisco Cândido Xavier . Sepulcro além. Lira divina. Chorando alhures. Ditosa e crente. 245 . Proclama à Terra Que além da guerra E além da noite Floresce a luz. O mundo em prova Que se renova Espera o dia De redenção. Dize a grandeza Da glória acesa Na vida excelsa Que a dor produz. Une-te ao canto Formoso e santo Que flui soberbo. Não mais procures.

Anjo de redenção Do Céu desceste resplendente e puro E no santo mistério em que te apagas Vestiste-me o burel de sânie e chagas E algemaste-me a lenho estranho e duro. de alma robusta: – Deus te abençoe. sublime e fúlgido. escondendo as flores com que afagas. na cidade de Borebi. em silêncio. internou-se num hospital. ó Dor piedosa e justa. Terno. dai se transferindo para o Asilo Colônia de Pirapitingui. o choro e as pragas. flamejas! E agora brado. em 1930. Mas.. enfim. Estado de São Paulo. onde desencarnou..Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 246 35 Jesus Gonçalves JESUS Gonçalves nasceu em 12 de julho de 1902. e onde dirigia um Centro Espírita. Doce e invisível no caminho escuro!. Anjo da redenção! bendito sejas!. Onde. . Libertaste meu ser à Luz Celeste. em 16 de fevereiro de 1947. Ouviste-me. Nume solar pairando no monturo. da cruz de feridas que me deste.. Surgindo-lhe os sintomas do Mal de Hansen..

de modo inconfundível. e desencarnado em 1896. Só a ilusão Duma ventura. As lágrimas Desci um dia Ao sorvedouro Da atra agonia Da Humanidade.Francisco Cândido Xavier . Que neste mundo O homem prendesse E o retivesse. então. E vi senhores . afirmou-se um dos maiores líricos da língua portuguesa. a suavidade e o ritmo da sua lira. A perscrutar Qual a verdade.Parnaso de Além-Túmulo 247 36 João de Deus NASCIDO em São Bartolomeu de Messines. Portugal. Nestas poesias palpita. E vi. No coração Da criatura. Qual o tesouro O mais profundo. em 1830. É tão bem conhecido no Brasil quanto em seu belo país. A procurar.

. Heróis valentes Cá nesta vida. Sempre a abater Os desgraçados. Perante a mão Da fria dor.Parnaso de Além-Túmulo Que dominavam E se orgulhavam Do seu poder. Depois. E ainda aí Não pude achar 248 .Francisco Cândido Xavier . Onde o conforto Para a matéria Anda em contraste Com atroz miséria Dos desvalidos. Reconheceram E viram bem Nesta existência Toda a impotência Do deus-milhão. Busquei os lares. Ricos solares Dos protegidos. porém. Que lhes domava E lhes dobrava O torpe egoísmo.. Os potentados Com seus valores Bem se julgavam Onipotentes.

Alvas estrelas De formosura. Das diversões. Eu vi mulheres Nos seus prazeres.. Deixam o teto Do seu afeto Maior. Fanadas flores. Luz sem fulgores. supremo.Parnaso de Além-Túmulo O que eu ali Fui procurar.Francisco Cândido Xavier .. Onde se aninha E se amesquinha A multidão 249 . Pobres donzelas. Que. belos. Jovens e belas. Incompreendida! E penetrei Pelos castelos Dourados. Rindo e cantando Dentro da noite Da desventura. Somente encontram Dores que afrontam. Insuperável. miseráveis Párias da vida. Mágoa insanável.

É o que produz Todo o amargor. Pois eu ali Tristonho vi O que em verdade É a sociedade. À meia luz. Aniquiladas. Ao som da festa. A ver se esquece O que padece. Só sentimentos Que trazem presas. Julgando crer Que está a ver O paraíso. Almas impuras. Belas outrora.Francisco Cândido Xavier . Mas este riso. A maior dor. E esmagadas. No entanto agora Flores perdidas. Gozar. Desiludidas! 250 . sorrir.Parnaso de Além-Túmulo Que busca rir. Só pensamentos Das impurezas. Ensandecidas As criaturas Outrora puras.

enfim. Desconhecida Naquele meio. Eram sombrias. Eram trevosas. A grosseria. A traição.Francisco Cândido Xavier . Dissimulado. Pois só cobriam Míseros trapos. então. Eu contemplei-o Cheio de horror E vi que as flores.Parnaso de Além-Túmulo Nesse recinto Eu vi. E tudo. A iniqüidade. De uma alegria Jamais sentida. As pedrarias Tão luminosas. Notas atrozes. Falsificado No fingimento Que aparecia No barulhento Rumor de vozes. Tristonho assim. Pobres farrapos De almas perjuras 251 . Toda a maldade Da hipocrisia.

Francisco Cândido Xavier . condoído. Me respondeu: “Filho bendito 252 . Num forte brado Disse ao Senhor: “Onipotente Pai de Bondade. Pálidos tremem Ó Senhor Deus! Faze que a luz Do bom Jesus Penetre a alma Na Terra aflita. Só conheci E encontrei. Só contemplei O mal que vi. Desiludido. gemem. Dando-lhe a calma Que necessita. Fracas criaturas Baldas de amor. E.” Mas uma voz Do azul do Céu. Oh tem piedade Dos filhos teus Que choram.Parnaso de Além-Túmulo Ao seu Criador. Desanimado. Pronta e veloz.

Parnaso de Além-Túmulo Do meu amor. ainda. Nada se perde. Contempla. Que lhes transforma A alma poluta Num ser radioso. Vi transformadas Todas as cenas. Astro formoso De pura luz!” Eu ajoelhei E Contemplei As multidões Atropeladas. E no Infinito Tudo o que fiz. Desenganadas Nas perdições.Francisco Cândido Xavier . Donde provém A grande paz. Está na luta. Mais fino ouro Dos filhos meus. Em todos os seres. Nos prantos seus. A Terra linda E então verás. Assim tornando O ser feliz. 253 . Sou teu Senhor. O grão tesouro. O sumo bem.

Parnaso de Além-Túmulo Homens. Nas grandes penas. Lágrimas belas. Eram açucenas De fino olor Do espaço azul! 254 . A amarga dor.Francisco Cândido Xavier . crianças. Reconheci Que por aí Na escura Terra Onde eu amei. Onde sofri E onde eu vi A dura guerra. Sorri. Meigas. Brotar a flux No coração De cada ser. Por entre a luz. Por entre flores. mulheres. Gotas pequenas Como as brilhantes Luzes serenas Das madrugadas Primaveris. chorei. Jovens. Nas esperanças. Em profusão. serenas. Gotas singelas.

Primor de encanto Do amor de Deus.Parnaso de Além-Túmulo Depois. Reconhecendo Que aqui nos Céus. Gemas brilhantes.Francisco Cândido Xavier . 255 . Vale profundo De mágoa e dor. Quando voltavam Do seu exílio. eu vi Que os que as vertiam Por este mundo. Lágrimas lindas São transformadas. então. E vi. Que os coroavam Com gemas finas. Eram saudados Por mensageiros De amor e luz Do bom Jesus. Jóias divinas Do escrínio santo. Remodeladas Para formarem Belo diadema E aureolarem Os que as verteram Aí na Terra. Fui então vendo. Em profusão.

Sejam benditas. Que a alegria E a paz envia À Humanidade Tão sofredora. Orvalho santo Do amor divino Que dá ventura. Que entre os seres do Além é sempre igual. Com a lágrima bela. Bendito o Pai. O Nosso Deus Que abranda o ai Dos filhos seus. Luzente estrela Consoladora! O Céu Pátria ditosa e linda. As pequenitas Gotas de pranto. e onde o mal Desaparece ao meigo olhar do Amor. Tranqüilidade. fulgentes E deslumbrantes.Parnaso de Além-Túmulo Alvinitentes.Francisco Cândido Xavier . Ricas. Que nem Ofir Pôde possuir. Felicidade Ao peregrino. 256 .

Mansão de claridade e pulcritude 257 . Nem o pranto pungente por se ver Um ser amado em horas da partida!.. Depois de bem sofrer aí a dor.Parnaso de Além-Túmulo No mesmo anseio santo e superior! Lá não se vê traição e cada qual Urde ali sua auréola de esplendor. Vai ali encontrar Consolação. A morte é um sono doce. imaterial. Onde brilha a Verdade e onde o Bem É o fanal reluzente que conduz. Venturosa região do espaço Além. Doce Mansão de Paz. aonde o pecador. Onde há trégua à tristeza e ao padecer. na Terra apetecida. País dos Céus. que se antevê. na provação. a Luz e a Vida. Onde impera a bondade do Senhor! Porto de Salvação para quem crê Nessa Praia do Azul. Morrer Não mais a dor intensa e desmedida No momento angustioso de morrer. basta crer Na Paz do Céu.Francisco Cândido Xavier . Pelo poder da Fé. Para se achar o Amor..

Estremecido. O mau discípulo Era uma alma Formosa e bela: Fúlgida estrela De puro alvor.Parnaso de Além-Túmulo Onde os bons. Disse Jesus A quem vivia Em meio à luz: “Filho querido. que adoraram a Virtude.Francisco Cândido Xavier . 258 . Imenso e lindo. Gozam do afeto extremo de Jesus. Nessas regiões Onde há mansões Purificadas. Que habitava Qual uma flor O espaço infindo. Porém. Dos meus afetos! Tu necessitas Buscar a Vida Em meio às vagas Das provações! Dentro das lutas. um dia. Iluminadas Do Criador.

Sorrir. do Mal.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Tredas disputas Do Bem. Tens a fraqueza Da imperfeição Aqui. Por entre espinhos. Já te mostrei A lei do amor. É que verei Se o que ensinei Ao teu valor. Do sacrifício!. Aproveitaste E assimilaste Em benefício Da lei do amor. Mágoas e dores. Risos e flores. Conquistarás A grande paz.. E se aprenderes Saber viver. A grande luz 259 . Tu lutarás.. porém. Mas vencerás Se bem souberes Te conduzir Nesses caminhos Entre prazeres. sofrer... Luz do Senhor – O sumo bem.

Reservarei E hei de guardar Para a tua alma. somente A luta amara Lá nos prepara Para vivermos. o amor Do teu Senhor. Nessas moradas Iluminadas Do nosso Pai! Luta e trabalha Singelamente Nessa batalha Que te ofereço.Francisco Cândido Xavier . Ao regressar. A dor. Tu viverás Entre os brasões Das ilusões Da Terra impura. Pra conquistares A luz.Parnaso de Além-Túmulo Que eu. teu Jesus. Tranqüilamente. A boa estrada E com carinho 260 . Conhecerás Lindas riquezas Iluminando E te ensinando O bom caminho.

Onde guardar-se Das fortes dores Que acometem Os sofredores. Na deslumbrante Rota do amor! Espalha o olor Que já plantei E fiz brotar.Parnaso de Além-Túmulo Sempre a mostrar-te A caridade Com toda a luz Que ministrei Ao teu pensar. Caminha avante. E ora conduz Teus sentimentos. 261 . Sê a Bondade Entre a maldade Dos homens feros. Sê sempre amigo Dos sofredores. Dos que padecem Sem conhecer Sequer abrigo Onde isolar-se. Que cultivei Dentro em teu ser.Francisco Cândido Xavier . Teus pensamentos. À perfeição Do coração.

Rútila e pura Aqui no Céu. A conquistar Maior ventura.Parnaso de Além-Túmulo Ambiciosos. Frios. Dos venturosos. e ria 262 . Em mensageiro Do Deus de amor. Onde a alegria Reinava. Sempre cumprindo Os teus deveres. nasceu Num lar ditoso. Se assim fizeres E procederes. Pecaminosos. Assim darás À Humanidade O testemunho Da caridade Do teu Senhor!” A alma formosa Então desceu Para lutar. Tornar-te-ás Em verdadeiro Anjo da paz. austeros. Então. Régio.Francisco Cândido Xavier . faustoso.

Desses palácios Materiais. Na mocidade. Ganhou saber Nobilitante.Parnaso de Além-Túmulo Constantemente. Felicitado Nessa abastança. Ele então era A primavera Dos áureos sonhos Dos pais amados! Assim cresceu. A luz brilhante Dessa ciência Que. Rico alcaçar Dos abastados. Naquele lar. Mas irreais. Lindos. Ainda criança. Era adorado. formosos. Faz com que a alma Se torne egoísta E refratária 263 .Francisco Cândido Xavier . na existência. Por planetária. Belo esplendeu. Proporcionando À rica gente Que o habitava Os belos gozos.

Seu coração Jamais viveu! Foi uma flor. Tudo esquecera Em detrimento Do sentimento Que então trouxera. O que aprendera No Infinito E prometera Ao bom Jesus.Francisco Cândido Xavier . Cheio de luz. Ele esplendeu No vão saber.Parnaso de Além-Túmulo A lei de Deus. Fulgiu. Na Academia Dos homens sábios. Refugiou-se Na vã Ciência. Cruel e altivo A Humanidade Não praticando Mas renegando A caridade. Mas sem olor. Tornou-se esquivo. Despreocupou-se Com a consciência. O infeliz ser Viveu dos lábios. brilhou. Mas renegou 264 .

Somente amando Sua ciência Enganadora. Como um ateu. A imensa luz Espiritual. Os desprezou. Filho do Mal.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo A lei do amor. E da existência Da própria alma Por fim descreu. Só procurou Brilhar. cumprir Sua missão. Dele esperando Sua ventura. fulgir. Nunca buscou. Sempre espalhou. Os próprios filhos. Suaves brilhos Da nossa vida. Nossa esperança Encantadora. Assim. 265 . Foi refratário Ao próprio afeto Dos pais que o amavam E idolatravam Com mór ternura. A relegar.

viveu Só na Ciência.Parnaso de Além-Túmulo Em profusão. A Parca fria. De quem fugia Sem compaixão! Enfim. Nessa existência Que passa breve!. Que brota n'alma Desiludida. Não consolou O que sofria. Porém. Do ateísmo Desventurado. infeliz. um dia. Cruel. O ingrato teve Mil ocasiões De praticar Boas ações E espalhar O amor e a luz Que o bom Jesus Lhe concedera: Mas. A morte amara. Suas idéias Tristonhas. feias. Nunca estancou Uma só lágrima. avara 266 . Jamais o quis.Francisco Cândido Xavier . Nunca pensou Uma ferida.

Amargurado Na aflição! Somente.Francisco Cândido Xavier . Tristes abrolhos No pensamento! Olhou o abismo Do pessimismo Em que vivera.Parnaso de Além-Túmulo E dolorosa. O arrebatara Nessa escabrosa Escura via. Por onde sempre Se comprazera. Ele acordou Do seu letargo. Do seu amor. Abandonado. Do sono amargo Em que viveu. Sentiu seus olhos Enevoados. então. E o conduziu Para o Infinito. Lembrou de Deus. Sentiu-se. 267 . Ao descerrar O negro véu Do esquecimento. Onde. assim. num grito. Dentro da dor.

Minhalma chora Ao ver que és Mísero ser. E assim cumprir O teu dever.Francisco Cândido Xavier . Íntima voz Disse-lhe então: “Ó mau discípulo. agora. Jamais soubeste Te conduzir. Pelo viver Que demandaste. Tu renegaste E desprezaste A inspiração Do Deus de Amor! Tua missão Que era amar 268 .Parnaso de Além-Túmulo A implorar Da luz dos Céus Consolação! Das profundezas Do coração. Por isso. Do meu amor! Tu te perdeste Por teu querer. Em quem eu pus Todo o esplendor Da minha luz.

À região Da pura luz! Sempre esqueceste Os teus deveres.Francisco Cândido Xavier . Foi convertida Em fero braço Esmagador. Oferecer À Humanidade. Foste inimigo. Que mais te amavam. Em luz perdida. Entre alegrias. Que então devias. O abafaste Como se fosse Assaz mesquinho. O grande amor – Fraternidade. E até negaste A existência Da própria alma. À perfeição. Quando só ele É o caminho Que nos conduz À salvação. Dos próprios seres Que te adoravam. A consciência! 269 .Parnaso de Além-Túmulo E assim curar A alheia dor.

Correu sozinho 270 . Foste um ingrato E eu te julgara Um lutador Intimorato. Continuamente. então. amara.Francisco Cândido Xavier .. Por muitos anos. Frios horrores. Padecimentos. Ele chorou E lamentou.Parnaso de Além-Túmulo Constantemente. Espezinhado Na sua queda.. E o pranto atroz Jorrou. Entre lamentos E dissabores. Seus desenganos Na senda triste. Do coração Do miserável. Ser execrável Que não soubera E nem quisera Compreender O seu dever.” Calou-se a voz. Que assim trilhara Na perdição. Fatal. Envergonhado.

Triste pousou Sobre o lugar Onde pecou. E o pobre Espírito Desiludido. Amargurado. muitas vezes. Só encontrava Consolação Nas lágrimas tristes 271 . Supliciado. Sofreu.Parnaso de Além-Túmulo O mundo inteiro. Pedindo luz. E. Perambulou Qual Aasvero. A lamentar A sua cruz! Jamais alguém Quis escutá-lo. Qual caminheiro A quem negassem Um só carinho. Desamparado.Francisco Cândido Xavier . O seu olhar. A pobre mão Sempre estendeu Pedindo o pão. Assim lhe era Retribuído. Desanimado. clamou... O mesmo bem Que ele fizera.

Cheia de unção Por entre prantos.. santos. Pois não cumpri O meu dever!. 272 . Sei que hei pecado E transgredido As tuas leis. Tendo comigo A tua luz..Parnaso de Além-Túmulo Que derramava Em profusão. Cruel e atroz. Disse ao Senhor Numa oração: “Ó Mestre Amado. Extenuada No atro sofrer. Até que um dia Em que sofria. Eu me perdi Por meu querer. Experimentada. Mais padecia A dor feroz. Ó bom Jesus! E mesmo assim. A alma triste E solitária. Formosos. Fui a grilheta Da impiedade.Francisco Cândido Xavier .

Oh! dá-me agora A nova aurora De uma existência De provação.. Quero sofrer Dura pobreza.. Mas tu que és bom. Tão justo e santo. E hás de acolher Minha oração Cheia de fé!. Sempre viver Na singeleza. Sabes do pranto Das minhas dores. O meu desejo É só voltar À Terra impura Onde eu pequei. Dá-me o acúleo Da expiação. sem flores. Para ofertar À criatura O grande amor Que lhe neguei.Francisco Cândido Xavier . Não quero ter 273 .Parnaso de Além-Túmulo Pobre calceta Da iniqüidade. Para que seja Exterminado O meu orgulho. No meu viver Sem luz.

Não quero ter. O próprio lar. Conhecerei A dor cruel Que nos retalha O coração. Incompreendido Em minha dor. Não quero ver O dealbar De uma esperança. jamais.Parnaso de Além-Túmulo Nem um só dia Dessa alegria Que desfrutei. Árido e seco Pelo vergel Enflorescido.Francisco Cândido Xavier . Nunca. Então serei Ramo perdido. Mas só trazer No coração Todo o amargor Da privação. Hei conhecer O que é sorrir! Quero existir Desconhecido. Onde se encontra Maior ventura. Quero ganhar 274 . Nessa batalha Que empreenderei.

Ó bom Jesus. Nos turbilhões Incandescentes Das amarguras. Quero com ardor Bem conquistar A perfeição! Serei.Parnaso de Além-Túmulo E conquistar A luz. Com meu trabalho. Só é formosa. Quando aliada Da caridade.Francisco Cândido Xavier . Claro e sublime Para o meu crime. Ó Mestre Amado! Eu lutarei E chorarei Nas rijas dores Mais inclementes. Cruéis e duras Das aflições. Eu só almejo Compreensão Para mostrar O teu perdão. 275 . O puro amor. O agasalho. portanto. Agora eu vejo Que na existência A grã ciência Só é grandiosa. o pão.

Enfim.Parnaso de Além-Túmulo Neste planeta. Seja bendito.. A permissão Para voltar À antiga arena – Luta terrena.Francisco Cândido Xavier . Como a violeta Sob a folhagem. Pelo infinito Desenrolar E perpassar 276 .. Feliz dulçor Da caridade!.. Quero sofrer Com humildade. Oferecendo-lhe Ocasião Para tornar-se Mais venturoso E sempre digno Do seu perdão. E sempre ter Em mim bondade. Viver somente Pela voxagem Das desventuras. Compadecido Do pobre Espírito Dilacerado. Deu-lhe o perdão.” E o Mestre Amado. perdido..

Escuta a prece De quem padece. Para lutarmos E nos tornarmos Dignos do Amor Inigualável. Incomparável. queridas. Fazendo assim Desabrochar O dealbar Das alvoradas Iluminadas De muitas vidas. De parceria Com o Orgulho. O bom Jesus.Parnaso de Além-Túmulo De toda a idade.Francisco Cândido Xavier . Chamou o homem Jatancioso. Que. Belas. E assim lhe disse: 277 . Rude e cioso Do seu poder E vão saber. Do Criador! Na estrada de Damasco Num certo dia A Ambição. com sua luz E terno amor.

Parnaso de Além-Túmulo “Homem.Francisco Cândido Xavier . E conquistares Sempre o poder Dos triunfantes. tu és Senhor potente. Grande e valente Aqui no mundo. Maior coragem Para ganhares Sempre vantagem No teu viver. É só viveres A procurar Mais dominar Os elementos A transudar Nos sentimentos. Ser imperfeito Se achasse embora. 278 . E se quiseres Tornar-te um rei Da imensa grei Da Criação. Faze-os vassalos No teu reinado. Aos semelhantes Em vez de amá-los Tais como irmãos. Glorificado De grão-senhor!” E o pecador.

Que tudo vê. A este mundo Ingrato e feio A redimir.Parnaso de Além-Túmulo A seu agrado. O Deus de amor. Que então lhe diz: “Mas. e o bom Deus Que está nos Céus.Francisco Cândido Xavier . E o bom Jesus. Foi sem demora Então chamado Por um juiz De retidão. O Criador. Nosso Senhor. O Filho amado Que à Terra veio. Mestre da luz. Sabendo assim Quanto a tua alma Dele descrê? Ele é o teu Pai. Bem satisfeito. Que é a Consciência. Nesta existência De provação. E assim banir O teu pecado? Ele te amou E te ensinou Que ao teu irmão 279 .

Em seu amor. o tal homem Tão orgulhoso. Lindos. procura Melhor ventura Em só buscar.Francisco Cândido Xavier . Assim.Parnaso de Além-Túmulo Tu deves dar. Achou estranho Esse conselho: Rigor tamanho Não poderia. Em sua cruz!” Mas. Que já se achava Bem poderoso. O solo amado Do eldorado Dos belos sonhos. E espalhar Somente amor. Para que um dia Te fosse dado Reconhecer. Com alegria. Seguir Jesus Em sua dor. Acompanhar. Nunca negar A tua mão. 280 . risonhos. Do teu viver. A relegar Toda a maldade.

Tendo o poder Pra dominar. então. Com sua cruz E seu calvário Somente foi Um visionário. E ele havia Aqui nascido Só para ser Obedecido.Francisco Cândido Xavier . Eles. E o tal Jesus. buscou E perguntou Aos companheiros. Cruéis espinhos. Assim. Tristes agruras. Nós concedemos Ao teu valor 281 .Parnaso de Além-Túmulo Isso seria Obedecer E se humilhar. Enquanto ele Só te oferece Amargas dores. Desolações. Lhe responderam No mais profundo Do coração: – “Esse conselho É muito velho! Deus é irrisão.

Francisco Cândido Xavier . Ao caos medonho Do mais não-ser. Exprime a dor E não a luz.” E assim. Lindos brasões. Vale o gozar Constantemente. Grandes venturas Nesses caminhos Quem mais souber Gozar e rir. A vida aqui Só é formosa Para quem goza. Mais saberá O que é existir. quando 282 . Há de levar Esse teu sonho De amar.Parnaso de Além-Túmulo De grão-senhor Sublimes flores. sofrer. assim. Pois vindo a Parca Bem de repente. Porque a morte Tão renegada. Essa é apenas O frio nada. O louco amor Do teu Jesus. E pois.

No cumprimento Dos seus deveres.Parnaso de Além-Túmulo O homem fraco E miserando Mais se exaltou E se jatou. Na caridade. A lapidária. E o homem-rei Reconheceu Que o paraíso Dos sãos prazeres Vive nas luzes Só da virtude. Nessa oficina Grande e divina Da Criação. Chegou a Dor Humildemente. 283 . A mensageira Da perfeição. Fê-lo abatido E desolado. A eterna obreira.Francisco Cândido Xavier . Na mansuetude. Onipotente. Na humildade. Até enojado Do corpo seu: Apodreceu O seu tesouro.

E que. num brado 284 .Francisco Cândido Xavier . então. Só procurou Buscar se via Os seus mentores Enganadores. A fatuidade Da vil matéria! Na atroz miséria Dessa agonia. Reconheceu A nulidade.Parnaso de Além-Túmulo Na submissão Do coração Ao sofrimento. De mui sofrer E padecer Na expiação. Depois. Só encontrou O juiz reto. Quando aprouver Ao Deus de Amor Oferecer Rude amargor Ao nosso ser. O Magistrado Incorrutível Da consciência. Altivos filhos Da veleidade.

Efêmero gozo Do material. Para a alegria Fatal converge O seu viver. Para o enganoso. Contemplará 285 .Parnaso de Além-Túmulo Indescritível. A esquecer Tudo o que seja Espiritual. Pois sempre esquece Os seus deveres E se submerge Nos vãos prazeres. Feliz de quem Aí procura Maior ventura No sumo bem. A mais tremenda Acusação! É o que acontece Em toda a idade. Porque verá.Francisco Cândido Xavier . Lhe fez com ardor Ao coração Ermo de afeto. Com a maioria Da Humanidade. Em conseqüência. Ermo de amor.

de amor e luz. que nos conduz À divina alegria. A eterna luz. tornando-os mais unidos. se acaso viste Nos firmamentos o filho meu. a lira se levanta Glorificando o Amor que em Deus transluz. Na ascensão para o Belo e para o Amor. Parnaso de Além-Túmulo Além do túmulo o Espírito inda canta Seus ideais de paz. Lua. Nessas mansões. fitando o céu – Dize-me. Angústia materna “Ó Lua branca. suave e triste. No ditoso país onde Jesus Impera com bondade sacrossanta. 286 . Para o Bem exalçar. pura e santa.A Mãe pedia.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Todo o esplendor. Hinos das esperanças espargidos Sobre os homens. Do eterno amor Do bom Jesus. Dessa Castélia eterna da Harmonia Transborda a luz excelsa da Poesia. Que a Terra toda inunda de esplendor. .

Roubou-me o sonho – deu-me o penar. da esperança.. Cheio de vida.. Deixou vazio meu doce lar.” Disse-lhe a Lua – “Eu sei do encanto..“ – “Mas não o avistas – responde-lhe ela – Naquela estrela que tremeluz? Abre teus olhos. . fria e impiedosa. Fitou a estrela que lhe sorriu. que encantador Meu anjo belo como a açucena. sempre a chorar: Em qual estrela cheia de aurora Foi o meu anjo se agasalhar?. ouviu: – “Ilha pacífica. feliz. martirizada. É bem aquela Que anda cantando no céu de luz.. 287 . Como era grácil. – “Então. E dos seus cantos. Dum filho amado que a gente tem. Se tu soubesses... Sentiu-lhe os raios.Francisco Cândido Xavier . Lua serena.Parnaso de Além-Túmulo A Morte ingrata. cheio de amor!.. Deixou minhalma triste e chorosa. Oh! se o conheço.” E a Mãe aflita. Continuava. extasiada. Sou eu no mar do éter infindo. conheço-o bem!. responde-me sem demora. E das ausências conheço o pranto.

banhada em pranto. cheia de flores!.Francisco Cândido Xavier . Do Senhor tenho doce trabalho. ditoso e lindo.... Gritou-lhe a pobre desconsolada. Flores que afastam as agonias. Aqui terminam os dissabores. Porque tu guardas o filho meu. Senti a falta das primaveras. Disse-lhe o filho – “Tive deveras Muita saudade. Vida risonha.” – “Quase te odeio.” A mãe saudosa. Em mim a noite não tem guarida. mãezinha amada.Parnaso de Além-Túmulo Do sofrimento mato a lembrança E abro o futuro. sorrindo.. Senti a falta desta alvorada!. Missão que é toda só de alegrias: Flores reparto cheias de orvalho.” – “Se tu me odeias. luz de alvorada. Todo vestido dum brilho santo. 288 . Notou de logo seu filho lindo.. Contudo eu te amo e pergunto: quem Não tem saudades das minhas festas? O teu anjinho teve-as também. Aqui em tudo floresce a vida.. Ó linda estrela que adorna o céu. Num belo raio de luz. se me detestas.

menos saudosa. alguém me disse. Já não me embala tua meiguice.Francisco Cândido Xavier . carícia e amor! Ó mãe. fugi da dor. tristonha e rude. Aqui. daqui eu velo Pelo sossego dos dias teus.. se mais não pude Ficar contigo na escuridão. estranhamente. Aqui é tudo felicidade. E. Jardins e luzes e fantasias... perdoa. Lamentos do órfão Minha mãezinha. A Terra amarga. Paz e ventura. Tanta era a saudade! Voltei do exílio. Daqui te vejo. Sonhos. 289 ..Parnaso de Além-Túmulo Não resisti. pôs-se a chorar. castelos e melodias. Viu-se mais calma. Faço-te um ninho ditoso e belo.“ Aí os olhos da desditosa Nada mais viram do Eterno Lar. Sóis rebrilhando nos horizontes. Envenenava meu coração.. Que tu te foste. Muito pertinho do amor de Deus!.. também há fontes. triste sem mim. E não podias partir assim. na estrela.

Inquiro o vento: – “Quando verei Minha mãezinha boa e querida?” E o vento triste diz-me: – “Não sei! . do teu querido. Tudo é silêncio tristonho e escuro. minha mamã!” Sinto um anseio sublime e santo. Numa alegria terna e louçã. Um dos seus anjos. Que de mim faça. outro Jesus. Somente a mágoa vem-me afagar. que possui a luz. Que me fugiste sem me levar. Quando regressas dos Céus supremos. beijo o meu pranto. mãe.. Outros meninos alegres vejo. te beijar.... E abraço o espaço. De nos meus braços. pergunto à ave. Que exclamam rindo dentro dum beijo: “Como eu te adoro. Há quantos dias que te procuro. só noutra vida!.” Pergunto à fonte. E me respondem em voz suave: 290 . saudoso e triste. Que sofro e choro. Sem esperanças de te encontrar.Francisco Cândido Xavier . Só noutra vida. Que te procuro chamando em vão!...Parnaso de Além-Túmulo Eu acredito que tenhas ido Pedir a Deus. Tudo é saudade no coração. Mas tanto tempo faz que partiste.

Multiplicando meus pobres ais. consoladora: “Depois da morte serás feliz. à minhalma: “Além na luz! Na luz do Além!.Parnaso de Além-Túmulo “Nós não sabemos! nós não sabemos!. meu doce bem?” Ele responde. do céu. .. E de mãos postas aos pés de Deus. Ajoelhada. e. Nem para dar-me consolação.. Diz-me que vens e diz que te vê. Cheios de angústias. no entretanto. Quando é que voltas desse país. ambos replicam: “Tua mãezinha não volta mais.“ O mar e a noite me crucificam.Francisco Cândido Xavier .” Sempre te espero. Vejo-te linda nos sonhos meus. Sempre a meus olhos. grave. se eu choro: “Eu vou chamá-la para você.” Somente a nuvem.” E digo ao sino na tarde calma: “Onde está ela. mas. Ó mãe querida.” Pergunto à flor que engalana a aurora. E ela retruca. E me conforta. quando eu imploro.. ai! não voltas. Tanta saudade. que mágoas soltas Andam cortando meu coração. banhada em pranto. estás bonita 291 .

entrego-me ao meu desejo. Volta depressa! guardo-te flores. Mas abro os olhos no ar vazio! Vai-se-me o sonho.. Foge comigo para outra luz!. Para quem segue triste e sozinho. Que sinto esparsa pelo caminho! Que mágoa eterna! que desventura. calo. Quanta amargura... como um jasmim! Porém conheço que estás aflita. Sou uma pútrida ferida Sobre o mundo desditoso! Mas o anjo da esperança 292 . O leproso Dizia o pobre leproso: Senhor! Não tenho mais vida... Junto da fonte que canta e ri.. Se não voltares. Sentindo o anélito do teu beijo.Francisco Cândido Xavier . Tremo de anseio.Parnaso de Além-Túmulo Qual uma rosa. sorrio. Com o pensamento junto de mim. Já não suporto tantos cansaços!.. Então.. Porque só vivo pensando em ti: Celebraremos nossos amores. pede a Jesus Que te conceda pôr-me em teus braços.

Chega-te a mim: sou tua irmã. à luz dessa manhã. Abre-lhe a porta.Parnaso de Além-Túmulo Responde-lhe com brandura: – Meu filho. Mas eis que alguém a reconforta: É a bondade. Diz-lhe. E passa o gozo. Se teu corpo é lama e pus Em meio dos sofrimentos. com perseverança. muito ao largo.Francisco Cândido Xavier . Sob o seu manto de desgraça Clama o infortúnio abrasador. E ela chora. 293 . Tua alma é réstia de luz Dos eternos firmamentos. Bondade Vê-se a miséria desditosa Perambulando numa praça. Eis que a Fortuna se lhe esconde. ao gosto amargo. espera a ventura Com fé. a sua dor. E a fada. a sorrir: – Tens frio e fome? Pouco te importe qual meu nome. O seu destino.

Sou eu. O impenitente Na expiação.Parnaso de Além-Túmulo Oração A Ti. Confio e espero. Pedindo o bem E a salvação. Senhor. Pedir a quem. Em Ti. De Ti eu quero Me aproximar! 294 . somente. Cuja bondade Me sorri E me conduz À imensidade Da perfeição? És a piedade Divina e pura Que à criatura Dá luz e pão. Meu coração Imerso em dor Aflito vem. Senão a Ti. portanto. Pedindo a luz.Francisco Cândido Xavier .

Se me demoro No padecer. É porque andei Longe do Amor. Senhor.Parnaso de Além-Túmulo Consolo santo. Que me ensinaste E que deixaste Aos irmãos teus! Pra que eu pudesse. Paz e perdão! A Fortuna Anda a Fortuna por uma praça. 295 . contente. Assim. Senhor. Se sofro e choro.Francisco Cândido Xavier . Ditosamente. Buscar os Céus. No meu viver. O Amor é a lei. Bem sei. Para o meu pranto Venho implorar. A Ti. Elevo a prece Do coração. Rogando amor. Cheio de unção.

e já sepultada. E entre as virtudes. na existência. Quando só pede luz e amor. E assim prossegue na desmarcada Carreira louca do vão prazer. cansada e já comovida.. Como perdida. Do céu de toda a esperança – Maravilha! Maria! – consolação 296 .Parnaso de Além-Túmulo Fala à Ventura com riso irmão. E vem a Vida por dar-lhe a Dor.. Escolhe sempre flores do vício.Francisco Cândido Xavier . Mãe piedosa!. dá preferência Ao torpe egoísmo acomodatício. Depois. Acorre à Morte por dar-lhe a Vida. No esquecimento do próprio ser. da bonança. Vaidosa e bela. Sublime estrela que brilha No céu da paz. Oração Vós que sois a mãe bondosa De todos os desvalidos Deste vale de gemidos. E mais adiante topa a Desgraça. E altiva e rude lhe esconde a mão.

dos oprimidos Deste vale de gemidos. Tanto pranto! Concedei-nos vosso amor. Protegei os pecadores No degredo. De tão grandes sofrimentos. Senhora. Dos corações desolados Na aflição. Mãe bondosa! Oração: Pai de Amor e Caridade.. dos desgraçados. Vós que sois Mãe carinhosa Dos fracos.Parnaso de Além-Túmulo Dos pobres. Compadecei-vos. Deste mundo de tormentos. dos amargores. Dai paz a toda discórdia. Livrai-nos do abismo tredo Dos males. A vossa misericórdia. Sobre tanta desventura. Que sois a terna clemência 297 . Trégua à dor!. Que apavora. Estendei o vosso manto De bondade e de ternura.Francisco Cândido Xavier ..

a vida tumultua.Parnaso de Além-Túmulo E de todas as criaturas Carinhosa Providência! Que os homens todos vos amem.Francisco Cândido Xavier . Ó corações que a lágrima devora. A luz do amor que vibra e revigora. Pois tendo ouvidos não ouvem. O trabalho divino continua. Tende na vossa fé a bíblia santa. Vida e morte – exultai ao bendizê-las! Esperai nos tormentos mais profundos. Que a este mundo sucedem-se outros mundos. E às estrelas sucedem-se as estrelas! Soneto Como outrora. 298 . E vendo não querem ver. a nova aurora Luminosa e divina se levanta. Lá palpita a beleza onde a alma canta. E em vossa luta o bem de cada hora. Que vos possam compreender. Além da morte. Prisioneiros da dor que fere e espanta. entre ovelhas desgarradas... O coração tocado de agonias. Além Além da sepultura.

Preces infindas e desesperadas.. 299 . Mas. Vendo o mundo nas lutas condenadas. Do caminho de lágrimas sombrias.. o luminoso bem divino.. A Prece O Senhor da Verdade e da Clemência Concedeu-nos a fonte cristalina Da prece.. Sempre a miséria e a dor nos vossos dias! Sempre a treva nas míseras estradas. pela oração profunda e imensa. pura e divina. Sobre as desolações do mundo velho.. água do amor.. Toda oração é a doce quinta-essência Da esperança ditosa e peregrina. Que suaviza os rigores da existência. Sabendo contemplar a eterna aurora Do Além. Demorando as vitórias do Evangelho. Filha da crença que nos ilumina Os mais tristes refolhos da consciência.Parnaso de Além-Túmulo O Mestre chora como Jeremias.Francisco Cândido Xavier . Dois milênios contando o grande ensino Do Amor. Feliz o coração que espera e ora. em todos os tempos é a vaidade No egoísmo da triste Humanidade.

Que habitaremos na Imortalidade. irmãos! Desdobrai as vossas velas!. Rumo ao país ditoso da bonança. Não vos sufoque o horror da tempestade Fraternidade é o derradeiro porto.Francisco Cândido Xavier .. Nunca olvideis a Excelsa Claridade. É a fonte cristalina em que descansa A alma humana fraca. Nos caminhos translúcidos da Crença. Fraternidade Fraternidade é árvore bendita. A terra da união e do conforto. É a luminosa bem-aventurança Da mensagem de Deus. Vós que chorais ao coro das procelas. Lembrai a chama Vós que buscais além da sepultura A resposta de luz da Eternidade.. pura e infinita!. Vinde. Que reside convosco em noite escura. A prece alcança as bênçãos do Infinito.. estranho e aflito.Parnaso de Além-Túmulo Enquanto o mundo anseia. 300 .. Cujas flores e ramos de esperança Buscam a luz eterna que se agita. errante e aflita.

Eterna mensagem Ainda e sempre o Evangelho do Senhor É a mensagem eterna da Verdade. Em toda parte fulge uma alvorada Que ao roteiro dos Céus nos reconduz.. Somos em toda parte a criatura Buscando os dons supremos da Verdade. Trazendo ao mundo o verbo de Jesus. Em direção à Fonte Eterna e Pura.Parnaso de Além-Túmulo Somos todos a Grande Humanidade. Rogamos acendais a Luz da Vida. 301 . Ó torturados corações humanos. Deixai que o Cristo nasça dentro em vós. Não sabe o coração da Humanidade Beber dessa água límpida do Amor..Francisco Cândido Xavier . Senda de paz e de felicidade. Já que buscais mais crença junto a nós! Se quiserdes brilhar nos Outros Planos. Tendes convosco a Chama Adormecida. Na luz das luzes do Consolador. O Evangelho. Mas os túmulos falam pela estrada. na luz do Espiritismo. Nos caminhos da lágrima e da dor. É a escada de Jacob vencendo o abismo. Ante os desfiladeiros da impiedade.

– “Deixai virem a mim os pequeninos!.. Fazei do vosso lar a grande escola De justiça.Parnaso de Além-Túmulo No Templo da Educação Distribuía o Mestre os dons divinos Da luz do seu Espírito sem jaça. amor e graça. De que o Senhor da Paz quer que se faça O sol da nova estrada dos destinos. E exclama. Preferiu nascer no mundo Nos caminhos da pobreza? Por que não veio até nós. Cheio de amor e grandeza. enquanto a turba observa e passa. Num berço todo enfeitado De sedas e pedrarias?” 302 .Francisco Cândido Xavier .” É que na alma sincera dos meninos Há uma luz de ternura.. de amor e de humildade! As conquistas morais são toda a glória Que a alma busca na vida transitória. Pelos caminhos da imortalidade. que tendes a fé que ama e consola. Entre flores e alegrias. Na noite de Natal – “Minha mãe. por que Jesus. Vós.

.” 303 . sem proteção. Jesus ficou Nas palhas.Parnaso de Além-Túmulo – “Acredito. penso também Nos trabalhos deste mundo. Concluiu com sentimento.Francisco Cândido Xavier . meu filhinho. Às vezes. em tudo e por tudo. Que o Mestre da Caridade Mostrou. A luminosa humildade!.. Por não lhe abrirmos na Terra As portas do coração. Que a Manjedoura revela Ensino bem mais profundo!” E a pobre mãe. Em terna melancolia: – “Por certo. de olhos fixos Na luz do céu que sorria.

além da noite que se adensa. membro fundador da Academia Brasileira de Letras.. A alvorada feliz de um mundo livre e novo.. e todo o seu pensamento convergia para o bem da Humanidade. aos 9 de outubro de 1853. combatendo a descrença. escura e desumana. nem recua. .. se engalana. Do Amazonas ao Prata ergue-se a Deus um hino Que exalça no Evangelho a grandeza de um povo! Fustiguemos o mal. Descortinando. das graças do templo aos sarcasmos da rua. sublime. jornalista. Não mais senzala hostil. Foi uma das figuras máximas na campanha abolicionista. romancista.Parnaso de Além-Túmulo 304 37 José do Patrocínio JOSÉ do Patrocínio nasceu em Campos. Nova Abolição Prossegue a escravidão implacável e crua. Erige a liberdade augusta e soberana. E desencarnou a 29 de janeiro de 1905. continua Em domínio cruel de que a treva se ufana. impetuoso político e grande orador. A incompreensão do amor. no entanto. Na ansiedade e na dor. poeta.Francisco Cândido Xavier . Estado do Rio de Janeiro. Mas a luz do Senhor não teme. E.. Irmãos do meu Brasil. encantado e divino. Farmacêutico.

. E o seu grande mistério existe em toda parte. Volve ao sono cruel da tua carne obscura. Amassa com o teu pranto o pão de cada dia. Aos homens Volta ao pó dos mortais. nasceu em 1875 e desencarnou em 1899.. Henrique Perdigão classifica-o como o “Cantor da Tristeza”. Musa amargurada. coloca as mãos na tua própria chaga. o mais além da Terra. Porque a treva e o sofrer sempre hão de acompanhar-te! Reconhece o quanto és ignorante ainda.. A vida é vibração ilimitada. homem que vens. Para depois ouvir a voz da sepultura. depressa. Tomé. Vai com o teu padecer sobre a estrada sombria.Francisco Cândido Xavier . infinda. deixou um livro – Fel – que apareceu poucos dias antes da sua morte e foi prefaciado por Forjaz de Sampaio. Perambula na dor da tua noite aziaga. Onde o sonho termina e a vida recomeça.Parnaso de Além-Túmulo 305 38 José Duro POETA português. A chave procurar do enigma que encerra A paragem da morte.

E minhalma elevou-se à rutilante estrada Onde o Espírito encontra a paz que tanto almeja. ao pé do corpo imundo. então. voar para a mansão serena. amortalhado em dor! Mas depois a oração libertou-me da pena.Francisco Cândido Xavier . Entre a sufocação de um sonho superior E a esperança na morte. Prisioneiro da mágoa. Escravizado ao pranto.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Pouco tempo sofri na Terra ingrata e dura Onde o mal prolifera. a triste senda escura. onde perece o amor. agrilhoado ao mundo. Até que um dia a morte amiga e benfazeja Apodreceu meu corpo em sua mão gelada. Algum tempo eu sofri. 306 . Onde fulgura o sol do verdadeiro amor. E pude.

Cumpra-se o teu mandamento Que não vacila e nem erra. Senhor.Parnaso de Além-Túmulo 39 José Silvério Horta Oração Pai Nosso. Santificado. Perdoa-nos. Nos Céus. Pai de todos os aflitos Deste mundo de escarcéus. que estás nos Céus. ternura e amor. Evita-nos todo o mal. Que em todo o Universo exprime Concórdia. 307 . Na luz dos sóis infinitos. meu Senhor. Dá-nos o pão no caminho. Venha ao nosso coração O teu reino de bondade.Francisco Cândido Xavier . como em toda a Terra De luta e de sofrimento. no carinho Do pão espiritual. Feito na luz. Seja o teu nome sublime. De paz e de claridade Na estrada da redenção.

..Francisco Cândido Xavier . Onde se faça a vontade Do vosso amor. A amar nossos irmãos Que vivem longe do bem.Parnaso de Além-Túmulo Os débitos tenebrosos. Auxilia-nos. Que a nossa ideal igreja Seja o altar da Caridade. Distante da vossa luz. Livra a nossa alma do erro. Nos sentimentos cristãos. Com a proteção de Jesus. 308 . De iniqüidade e de dor. Sobre o mundo de desterro. também. Assim seja. De passados escabrosos.

sem embargo de possuírem os seus versos um certo encanto melancólico. as suas qualidades primaciais de prosador. Abandonara a vaidade. Com este pseudônimo. Buscando a paz da humildade. notabilizou-se mais como romancista. O Esposo da Pobreza Francisco de Assis. A uma vida de aspereza Num canto doce e singelo. Entregou-se à Natureza. nascido em 1839 e desencarnado na cidade do Porto. Francisco. Emprega toda a tua vida Na doce faina do bem. di-lo um comentador. Assim que deixara a orgia No castelo.Francisco Cândido Xavier . pois que o seu nome é Joaquim Guilherme Gomes Coelho. A edição póstuma de Poesias exaltou. faze-te esposo Da pobreza desvalida. A santa luz da harmonia. ouve. um dia. principalmente com As Pupilas do Senhor Reitor. E nas horas de repouso. Francisco em estranho gozo A voz de Jesus ouvia: – “Filho meu. em 1871.Parnaso de Além-Túmulo 309 40 Júlio Diniz POETA português. ninguém .

doce e pura.Francisco Cândido Xavier . E sobretudo. Flagelados pela dor. Via a terra enverdecida Exaltando a força e a vida. Vai. As aves que não trabalham E no entanto se agasalham. 310 . Bênção do Céu. Saltando de galho em galho. Sedentos e esfomeados. conforta os desgraçados. Que é a grande felicidade De todos os corações. A seiva misteriosa No seio dos vegetais. E em divinal alegria Via os lírios e os jasmins. E a ânsia cariciosa Das almas dos animais. Esquece as imperfeições! . que não tecem. inda via.. Com roupagens que parecem Vestidos de Serafins.Parnaso de Além-Túmulo Vai aos Céus sem a bondade. Recebe também a esmola Das luzes do meu amor!” Francisco chorava e ria.. Quem alivia e consola. Nos celeiros da fartura. Buscando a graça do orvalho. Que não fiam.

Francisco de Assis..Francisco Cândido Xavier . Que não tendo amor nem luz. Das lindas sebes floridas Nos dias primaveris: Radiosidade e frescura. Submerso o coração Em sublimes alegrias. Poema de singeleza Esplendente e delicada. Tem tesouros de esplendor No terno amor de Jesus.Parnaso de Além-Túmulo A sacrossanta harmonia Do coração sofredor. Ornamentada de flores Que os meus encantos resume. Fragrâncias. Tornou-se o amparo da dor E guiado pelo amor Fez-se o Esposo da Pobreza. 311 .. das margaridas. Como raios de alvorada Cheia de luz e perfume! Suavidade e doçura Das rosas. amenidade. então. Entregou-se às harmonias Vibrantes da Natureza. Poesia Poesia da Natureza Embalsamada de olores.

Caridosa ventura No abril das almas irmãs. Tão cheia de desventura. 312 . imaginai A Natureza celeste Longe da Terra sombria. Jovens felizes amando Entre arroubos de ternura. Em que me sinto nos braços Do amor sagrado de Deus. quanto eu quisera Unir-te toda à poesia. Entretanto. Ó Terra. À mesma santa harmonia Que te prende à luz dos Céus. Belezas de canto agreste Nas urzes da Terra escura. As ovelhinhas balindo. Nessa mesma primavera Dos rutilantes espaços.Parnaso de Além-Túmulo Aromas.Francisco Cândido Xavier . alacridade Dos cenários pastoris! As cotovias cantando. Na glória do Eterno Dia Do reino de Nosso Pai. As criancinhas sorrindo Na alegria das manhãs.

Hino terno de esperanças Das aves e das crianças.Parnaso de Além-Túmulo Aves e anjos Passarinhos. anjos suaves.. Cantando.. Sorrindo. Cantando. Aconchegados nos ninhos.... Mimosas quais bandos de aves Cortando um céu claro e lindo. Sorrindo... 313 ... passarinhos.. Vai-se com a luz misturando..Francisco Cândido Xavier ... Com as pétalas orvalhadas. Sorrindo. Lares de amor doce e brando.. Cantando. Tecendo as horas serenas Das alegrias terrenas. Açucenas perfumadas.. Pequeninos trovadores Entre as árvores e as flores... Crianças.

couves. É um vulto literário inconfundível no cenáculo do seu tempo. planta a cana. Chamaram-lhe – “Béranger brasileiro”. Pobres Mal clareia o Sol a serra. feijão. Inda é espessa a escuridão. Persegue-lhe a precisão. Tudo ajeita. Toca a vida a despertar: O pobre se pôs há muito. ele escuta O coração a gritar: “Quem não trabuca não come. José de Alencar. então. Sua musa foi elogiada por Castilho. Batatas. Luta e sua. Já chega de repousar!” Busca. Sem descanso.Parnaso de Além-Túmulo 314 41 Juvenal Galeno NASCIDO em Fortaleza e desencarnado na mesma cidade. tudo faz. Planta o milho. Três quartas partes de tudo . Rasga a terra. com 95 anos de idade. em 1931. a labutar. Machado de Assis. Silvio Romero. não tem paz. Ao acordar. A fome lhe bate à porta. o seu trabalho. Ao levantar-se da cama.Francisco Cândido Xavier . etc. impondo-se justamente pela naturalidade e espontaneidade do seu estro. corta os matos.

Quando o pobre vai à mesa. Contudo. As plantas já se amarelam. Então. Não possui um só real Pra consultar um doutor. Vem a seca sem piedade E o pobre espera chover.Francisco Cândido Xavier . porém. Quando a semente germina E os ramos querem crescer. Se geme. O estômago pede mais. Que cuide dos mandiocais. O certo é que ao fim do tempo De constante batalhar. Não vem a chuva. E sempre resignado. Nada existe no paiol. Deus lhe dará no outro ano Uma colheita melhor. Arde a terra. Espalha o pé nos gerais. queima o Sol. Ah! que a água já está pouca Nos rios. Mas se quer repetições. ele espera sempre Do Deus que o ama. que o vê. se sofre dor. nos seringais. Aguarda a minguada espiga Que decerto há de ficar. resolve pedir 315 .Parnaso de Além-Túmulo Pertencem ao seu patrão. O pobre nunca descrê. Redobra o pobre os serviços. Plenamente contentado Com o pouco do seu suor.

Sublime estrela que brilha Da mais rica devoção – A prece que nasce d'alma. os pais.Parnaso de Além-Túmulo Ao patrão que sempre o tem. Que o padre cobra demais. E pensa nos outros meios Da saúde lhe voltar. Se a morte vem ao seu ninho E lhe rouba o filho. quanta tortura. Dá-lhes porém seu tesouro. Mesmo assim. Os vinhos de jatobá. 316 . Arrasta-se e vai ao médico E lhe expõe o seu sofrer: “Não tem recomendações? Então não posso atender. Que fulge no coração. E põe em prática os meios: As beberagens. Ai! que sorte rude e amarga Do pobre sempre a sofrer: Se vive para o trabalho. Mas o patrão avarento Não adianta vintém. o chá. Regressa para o seu lar. Não lhes pode dar a missa. As promessas aos seus santos. Que amargosa a sua dor! A todo o instante da vida Luta o pobre sofredor. Trabalha para comer.Francisco Cândido Xavier .” O pobre. humilde e paciente. Se tem pão não tem saúde.

E em vez de pão. Sextilhas Quando a morte chega em casa. Os cães o tocam da porta. Que na treva lhe dá luz. Que o conforta na desgraça E ampara na provação. Após a morte. Se lhe falta o pão do dia Falta azeite no candil. A Justiça o encarcera Com a sua reprovação. onde existem Justiça. não tem Quem o ampare. Que o cura na enfermidade. Mal do pobre se não fora. Nem terrenos. nem ovil. O braço amigo de alguém. Não tem casas de morada. ventura. Se bate à porta do rico.Francisco Cândido Xavier . ganha pau. 317 . O carinho dessa mão. Mal dele se não houvesse A vida depois da dor. Se outrem lhe ofende e ele pede Da Justiça a punição. O pobre só tem na vida A doce mão de Jesus. quem o ajude.Parnaso de Além-Túmulo Se tem saúde. Mormente dum rico mau. A casa faz alarido. amor.

De quem precisa por certo.Francisco Cândido Xavier . Se aquele que vai morrer É branco qual uma garça. Não quer saber se ele tem. Se tem mais fé com o demônio Do que mesmo com Jesus. Se pratica o mal ou o bem. O povo está reunido Quando a morte chega em casa. Ela vem buscar alguém. A morte não quer saber. Se Sancho. Não quer saber se ele tem Uma candeia com luz. Se tem pratas no baú. A morte não quer saber Se é preto como urubu.Parnaso de Além-Túmulo Parece até que se arrasa Sob as chamas de um incêndio. Não lhe pergunta qual é A sua religião. Esteja distante ou perto. Pedro ou José É o seu nome de batismo. 318 . Não se importa com ninguém Que chore ou que se lastime. Ela vem buscar alguém. Nem a sua profissão Não lhe pergunta qual é.

Como o corvo bate o bico Por cima de um peixe podre. Para a morte não existe. Ela vem de supetão Para o pobre. 319 . Nem mulher bonita ou feia.. Se esse alguém vai-se casar. Rogando com fervor terno Ao santo da devoção Que o afaste do diabo E dos horrores do inferno.Parnaso de Além-Túmulo Nem procura examinar Se tem filhos ou mulher. O cristão ou o pecador Ela conduz sem ruído.Francisco Cândido Xavier . O que segue vai com unção. Saúde. Se tem pai e se tem mãe. Em atenções e conversas. Nem procura examinar. para o rico Nunca tem contemplação. para o rico.. Leva sem tempo perdido O cristão ou o pecador. Nada disso a morte quer. Não perde tempo em clamor. Nem homem alegre ou triste. beleza e dor. Para o pobre. Para a morte não existe Anéis de grau de doutor.

Tristezas no coração. Galeno sem nó. Viver na Terra e somente Remando contra a maré.. Nem tão boa coisa é. Esta vida de sofrer Trinta dias cada mês. Entremeados de prantos.. É ele mesmo quem faz. Mas para mim que só fui... Mas ele mesmo é quem faz Os prantos ou gozos seus. Na tempestade ou na paz. Sentir as disparidades 320 . Há quem estime? Talvez..Francisco Cândido Xavier . Essa questão de ficar Com Satanás ou com Deus. Com receio de ir ao fundo. Tantas dores em conjunto. De cá Que amargo era o meu destino!..Parnaso de Além-Túmulo O que segue vai com unção.. galé. Nem tão boa coisa é.. Tateando dificilmente No meio da escuridão.

Francisco Cândido Xavier . O mal sufocando o mundo. Casar-se com a desventura Nem tão boa coisa é. do Canindé. Pobre filho da ralé. Mas falar demais agora. Nas guerras de toda parte. Nem tão boa coisa é. O pranto ferve na Terra. Do Crato. Nem tão boa coisa é.. Não vou gastar minha cera Com tanto defunto ruim.. Marchando com destemor: Ver o rico andar de coche E o pobre correndo a pé. Nas secas do Ceará. da ingratidão. 321 . Ver uns rindo e outros chorando. Não é possível porque.Parnaso de Além-Túmulo Das vidas cheias de dor. Meus irmãos de Fortaleza. salta acolá. Salta aqui. Ah! morrer e ainda sentir Saudades da escravidão.. Da treva. do desconforto. Já não é próprio de mim. Da carne.. Tantas misérias sentir.

Jogar pérolas a tolos. Nem tão boa coisa é. 322 .Parnaso de Além-Túmulo Patetice é ensinar Verdade aos homens sem fé.Francisco Cândido Xavier .

Mas. reinos de alegria E impérios da beleza resplendente Cantam no Espaço.. Saudade Ante o brilho da vida renascente Depois da névoa estranha...Francisco Cândido Xavier .. Surgem constelações do Novo Dia Muito longe da Terra descontente. Ao compasso do Amor e da Harmonia.Parnaso de Além-Túmulo 323 42 Leôncio Correia LEÔNCIO Correia nasceu em 1865. densa e fria.. no Estado do Paraná.. Ante a grandeza Da glória excelsa eternamente acesa Volvo à sombra letal do abismo fundo! E. Choro de amor. ai! pobre de mim!. Professor e poeta. esmagado de angústia e de carinho. e desencarnou no Rio de Janeiro. deixou inúmeras obras. revendo o velho ninho E as aves ternas que deixei no mundo!. Mundos celestes. . jubilosamente. em junho de 1950.

jornalista. compositor musicista e tradutor renomado. Sem as sombras das lutas desumanas. vive em tudo. fora dos meios culturais. A alma vitoriosa entoa hosanas. Ninguém ali o conhecera nem dele se lembraria. Médico. a seu tempo. conta em sua bibliografia Poemetos. O poeta desencarnou no século passado e o médium é deste século. 10 Esta produção surgiu de improviso no curso de uma reunião familiar em que se não cogitava de assuntos espíritas. Não mais a noite. exceto uma senhora que. é hoje um nome esquecido. Latinista de prol. Sem sombras 10 Junto ao sepulcro onde a saudade chora E onde o sonho das lágrimas termina. em Vassouras. Ébria de paz e de imortalidade. Virgilianas. . agora. Envolvida na luz esmeraldina Da esperança que vibra e resplendora. e conquanto fosse intelectual de prol. oferecido pela população local. em menina. Flores Exóticas. Abre-se a porta da mansão divina Entalhada em reflexos de aurora. A beleza profunda e peregrina. etc.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo 324 43 Lucindo Filho NASCIDO em Minas Gerais a 16 de agosto de 1847 e falecido em Vassouras a 10 de junho de 1896. onde ele tem precioso jazigo. lhe assistira aos funerais.

Parnaso de Além-Túmulo Não lamenteis quem parta ao fim do dia. Que a sepultura em cinza escura e fria É a nova porta para a eternidade. 325 .Francisco Cândido Xavier .

Nas esteiras de prantos esquecidos. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Soluçando empolgado de ventura. Mal podia julgar que inda outros gozos Mais sublimes que aqueles já fruídos.Parnaso de Além-Túmulo 326 44 Luiz Guimarães Júnior POETA brasileiro. nascido no Rio de Janeiro. aos tempos bonançosos. Eu quisera voltar aos tempos idos Da juventude. que ainda hoje se lê com encanto.. Soneto Na escuridão dos anos procelosos. Carimbos. Acharia nos céus maravilhosos. em 17 de fevereiro de 1845. Foi jornalista. Ressurgido em perene mocidade.. Lírica. etc. vislumbrando a Imensidade. Noturnos.Francisco Cândido Xavier . . Entre suas obras. volver ao lar primeiro. Pairar no Além!. comediógrafo e diplomata. Clarão de paz ao pobre caminheiro! No limiar das amplidões da Altura Penetrei. Da velhice nos dias mal vividos. sobressai Sonetos e Rimas.. e desencarnado em Lisboa com 53 anos de idade.

De volta. Voltei. nova a estrada Que minhalma extasiada percorria. Divinal era a luz que resplendia. Busquei contente a paz que me sorria No fim da áspera senda palmilhada. Nas carícias risonhas dos caminhos. Novamente no Além me ofereciam Lenitivo às agruras dos meus prantos. Envoltos em ternuras e em carinhos. Em revérberos lindos de alvorada.Parnaso de Além-Túmulo Voltando Após a longa e frígida nortada Da existência no mundo de invernia.Francisco Cândido Xavier . Nova era a vida. 327 . e os mesmos seres que me haviam Ofertado na Terra amores santos.

.. além ainda.Francisco Cândido Xavier . Caminheiro que vais ao fim do dia Demandando o crepúsculo das dores.. nascido a 4 de maio de 1861 e desencarnado na cidade do Rio de Janeiro.Parnaso de Além-Túmulo 328 45 Luiz Murat FLUMINENSE. Além ainda. Desolado viajor. membro da Academia Brasileira de Letras.. ergue teus olhos! Não te prendas somente ao chão tristonho. Não te percas na lágrima sombria Da tormenta de anseios e amargores! Além da sepultura principia O caminho dos sonhos redentores. . Aureolada de eternos resplendores. Guarda a esperança carinhosa e linda! Vence a longa jornada dos abrolhos. Sara (poema). conta em seu acervo bibliográfico Ondas (3 volumes). Que o país luminoso do teu sonho Fica ao alto. Na alvorada perene da harmonia.... distante. Poeta de grande e viva inspiração. e vasta colaboração na Imprensa. Bacharel em Direito. em 1929..

inédito. a lágrima dorida Resume as ânsias da existência inteira. aos 41 anos de idade. No estranho portal No último instante..Parnaso de Além-Túmulo 329 46 Luiz Pistarini LUIZ Pistarini nasceu em Resende. E a saudade é a tristonha mensageira Que engrinalda de angústia a despedida. e faleceu.. A antevisão do fim de toda a vida Obscurece a tela derradeira E a noite escura se distende à beira Da suprema esperança desvalida. Estado do Rio. de poesias: Bandolim e Sombrinhas e Postais. Foi um atormentado pelas enfermidades.. Aos clarões imortais do Novo Dia. à rua dos Voluntários. Fundou e dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo. Brilhando além da lápide sombria. Apagou-se a candeia transitória E a verdade refulge envolta em glória. naquela mesma cidade. e excelsa clarinada Anuncia outra vida renovada. onde colaborou em vários jornais. Publicou dois livros. Um sonho.Francisco Cândido Xavier . no começo do ano de 1918. um terceiro: Agonias e Ressurreição.. deixando. Residiu durante algum tempo na Capital Federal. . Um golpe.

Tudo o que nos rodeia. dar carícias. A vida é o eterno bem que nos foi dado. Aqui o incluímos. Ter a bondade ingênua das crianças. os corações. Para que o multiplicássemos indefinidamente. Agradecer a Deus. E a alma que se abandona. Sorrir aos infelizes. É um deserto sem oásis.. a ave. Bendizer o caminho que nos leva Da treva para luz. Ler a sua epopéia feita de astros. Tecer o fio eterno da esperança Por onde se sobe ao Céu. Nunca te isoles Nunca te isoles entre os mananciais da vida. de justiça. Atenuar a dor alheia. . porém. o luar. dar luzes.Francisco Cândido Xavier . as alvoradas. Onde outras almas sentem fome e sede. que é Pai bondoso. Multiplicar a vida É amar sem restrições A flor.. Ao sofrimento ou ao bem-estar. atenta a magnitude do seu estro.Parnaso de Além-Túmulo 330 47 Marta ESTE Espírito não pôde ou não quis identificar-se. O firmamento. Dar sorrisos.

. É guardarmos a semente Da Vida Em leivas verdejantes. Que se estende infinita no Infinito. Tudo isto é amar multiplicando a vida.Francisco Cândido Xavier . Infinitas e esplendorosas. 331 . Porque os nossos espíritos São unos na essência.. E a qual há de nos dar Sombras amigas para descansarmos. Cujas mãos magnânimas e misericordiosas Espalharam com abundância Nas vastidões imensuráveis do éter.. Unidade Todos nós somos irmãos. Para nutrir as nossas alegrias Nos jardins estelares.. Terras e almas. Dar um pouco de gozo se gozamos. Indumentos de flores perfumosas E frutos aos milhares. Todos nós somos fragmentos Da mesma luz gloriosa e eterna Da sabedoria inescrutável Do Criador. Dar a lição de paciência se sofremos.Parnaso de Além-Túmulo Dar tudo quanto temos.

O qual. mais além Das fronteiras planetárias.Francisco Cândido Xavier . por uma disposição inexplicável. O mesmo sonho. Somos filhos de um só Pai. Porquanto. Na suprema unidade De aspiração para a felicidade. Todas as almas Todos os seres da Criação! Fazei.Parnaso de Além-Túmulo As quais no divino equilíbrio do Amor Buscam a perfeição indefinida. Espiritualmente. Somos as frondes que se interpenetram De uma só árvore genealógica. A mesma dor na luta A prol da redenção. Sem egoísmos. Porque nutrimos indistintamente A mesma aspiração do Belo e do Perfeito. Todos nós somos irmãos. 332 . Vivereis dentro de sagrados coletivismos. pois. da Terra O caminho comum da vossa salvação. Encerra em si Todos os mundos. Cuja raiz insondável Está no coração augusto de Deus.

Pontificava o Anjo da Justiça. E infinitos seus estados de consciência. Para sanar tão estranhas feridas. Estás na escuridão absoluta Pela ausência da luz. do bem na tua alma! Mas o Anjo da Dor irá contigo. Como incontáveis são as almas humanas. Banha-te nas suas águas cristalinas. Lá dentro.“ “Filha – respondeu compassivo –.Francisco Cândido Xavier . Um dia penetrou os seus umbrais Uma alma que regressava da Terra. Tenho os meus olhos vendados E uma treva incomensurável na consciência! Apaga os meus atrozes padeceres!. Pela porta escura do remorso. Só há um recurso: Volta à Terra! Lá existe o Regato das Lágrimas.. Elas serão o teu bálsamo consolador E curarão a tua cegueira.Parnaso de Além-Túmulo No Templo da Morte O templo da morte tem portas incontáveis. Tão amargos pesares... “Anjo Bom! – disse-lhe a alma súplice – Eu tenho a minhalma coberta de feridas cancerosas! Cura-me as chagas purulentas do remorso. 333 .. Em nome do Senhor de todos os latifúndios do Universo. ..

. Inçados de perigos E de dores amargas. O manto protetor Que abriga os aflitos e os infelizes.Parnaso de Além-Túmulo Ele há de te guiar através das sirtes do mar encapelado dos sofrimentos. Conduzida pela Dor. Jesus Jesus foi na Terra A mais perfeita encarnação do Amor Divino.. E nos seus braços magnânimos e compassivos. E depois de haver percorrido Tão tortuosos caminhos. Submergiu-se no regato encantado. O pão que sacia os esfomeados das verdades eternas. cheios de confiança! 334 . de cuja fonte límpida promana a Salvação..” E a pobre regressou. Banhou-se na água lustral dos tormentos. Penetrou no templo misterioso da morte Pela porta maravilhosa da Redenção. É para a Humanidade A promessa da Paz. A fonte que desaltera todos os sofredores.. Apegai-vos a Ele.Francisco Cândido Xavier . Reconheceu o luminoso Anjo da Dor. E ainda hoje.. Nos dias amargurados que transcorrem. E te conduzirá ao lugar bendito onde existem as lágrimas salvadoras!..

És alma em ascensão para Deus. A tua inteligência e o teu sentimento 335 .. Dos prantos e das provações remissoras!. A sombra da árvore luminosa Das boas ações que praticastes. Acima de todas as coisas transitórias. Ligados pelos liames inquebrantáveis Da fraternidade além da morte. Lembra-te do Céu És uma estrela caída Sobre os pauis da Terra. Que se desfazem como as neblinas aos beijos leves do Sol. As sementes do arrependimento Que hão de florir na Regeneração E frutificar na perfeita felicidade espiritual.Parnaso de Além-Túmulo Ele é a misericórdia personificada.. Longe das lágrimas Do orbe obscuro..Francisco Cândido Xavier . Ouvi a sua voz No silêncio da consciência que vos fala Do cumprimento austero De todos os deveres cristãos! E um dia Descansareis reunidos.. O Jardineiro Bendito Que jorra no coração Dos transviados do caminho do Bem.

. No eflúvio peregrino Que mana fartamente Dos espaços imensos!. Por que te abates e desanimas sob os aguilhões da carne perecível? Contempla o Alto.. Busca aspirar esse aroma divino E tua alma sofredora Sentir-se-á envolta na beleza. E sentirás uma carícia branda.Francisco Cândido Xavier . doce. Buscando Deus. Que sonham e choram. Se a fraqueza te envolve em seus tentáculos. suave. Misteriosa. Na amargura e na dor. Lembra esse dia que te espera Na indefinível primavera Gloriosa de amor. Que constituem os atributos maravilhosos da tua imortalidade. Que promana Do empíreo constelado Para todas as almas que oram. – A bússola das suas mais caras esperanças! Quando sofreres.Parnaso de Além-Túmulo São fulcros de luz imperecível. 336 .

Está sempre em meio às tentações Para vencê-las. Não faz longas e inúteis orações: Ela é a serva de Deus E as suas preces fervorosas São feitas com as suas mãos carinhosas.. do repouso. Quando as penitências mortificavam O meu corpo alquebrado e dolorido E a oração Era o conforto do meu coração.. Destruí-las com Amor. Juraste fidelidade só a Deus. Não te esqueças que a Caridade. Se tens a Fé mais pura.Parnaso de Além-Túmulo Ao pé do altar Eu vivia no Claustro. A Esperança mais linda. O anjo que nos abre as portas da Ventura. Esmagá-las com o Bem. Que pensam no coração da Humanidade Todas as chagas abertas Pelo egoísmo. Disse-me alguém: “Minha filha. 337 . Não permanece No recanto das sombras. Mas se entrevês os Céus E as suas maravilhas. Se ama a prece e a pureza. Na sombra silenciosa dos mosteiros.Francisco Cândido Xavier . Mas um dia.

Sê a abnegação e a bondade serena. pois. Que contigo é seu filho dileto. Dos mais rudes pesares. Atraída pela Verdade. Sonhando com a luz do trabalho Em outras vidas benfazejas. do mundo. a tua alma Amando o próximo. Sê a mãe desvelada. A tua esperança em Deus Será dilatada. Porque a verdadeira paz de espírito É conquistada No seio das lutas mais acerbas. E só a dor que nos crucia 338 . Desprezando o repouso e a soledade. sem reserva. Meu corpo não resistiu Aos cilícios que o martirizavam E minhalma tomada de emoção Abandonou-o. Será um hino constante subindo aos Céus. Para que vislumbres as felicidades celestes Que esperam os justos na Mansão da Alegria. A companheira terna De todos aqueles que te rodeiam Na estrada longa dos destinos comuns. Não te retires. brandamente.Parnaso de Além-Túmulo A solidão da cela é um crime.. E a tua Fé Será um hino constante subindo aos Céus.Francisco Cândido Xavier . Darás a Deus.. A irmã consoladora.

atropeladas pelo mal. Que orvalham com lágrimas benditas As flores do seu amor desvelado. Estendendo os seus braços tutelares 339 . E a rosa sublime de Nazaré Escuta-as piedosamente. Fustigadas pelo furacão da desgraça. É a consolação Que se derrama puríssima Sobre os prantos maternos. Espezinhadas pelo sofrimento. Todas as preces maternas Ascendem aos Espaços Como um doloroso brado de angústia a Maria. Amarguradas e infelizes.Francisco Cândido Xavier . Mãe das mães Maria É a Mãe piedosa De todas as mães resignadas e sofredoras. Purificando os nossos corações Na conquista das altas perfeições. Vertidos na corola imensa das dores. – Somente a Dor em sua essência pura Nos desvia da amarga desventura. Perseguidas pelo infortúnio No sombrio orbe das lágrimas e das provações. É o manto resplandecente Que agasalha os corações das mães piedosas.Parnaso de Além-Túmulo Ou a dor que consolamos.

Para que o Brigue da Esperança. pois. É.. Pulverizam-se os rochedos do mal Do oceano da vida de desterro e de exílio. Levando-nos ao Céu. Que nos ampara e guia em nossa cruz. Balsamizando os pesares. Lenindo os padeceres Das mães desoladas.Parnaso de Além-Túmulo Às mães carinhosas e desprotegidas. A Virgem da Pureza 340 . E bastam os eflúvios do seu amor sacrossanto Para que as consolações se derramem Cicatrizando as feridas. Da salvação das almas que sofreram Nos torvelinhos do mundo. Ela é a personificação do amor divino No vale das sombras e das amarguras. Maria é o anjo. Porque se apegaram A âncora da Fé. que encontram nela O símbolo maravilhoso de todas as virtudes!.Francisco Cândido Xavier . sobretudo. Com as suas velas alvas e pandas. Buscando o porto esperado com ânsia. Veleje tranqüilamente. Como náufragos de uma tormenta gigantesca. Que não se perderam no abismo das águas tenebrosas Do mar da iniqüidade. E sendo o arrimo de todas as criaturas. cheia de piedade e Pelas nossas fraquezas.. Ao seu olhar compassivo.

Francisco Cândido Xavier . 341 .Parnaso de Além-Túmulo – Mãe das mães.

Tudo na imensidão é serviço opulento.Parnaso de Além-Túmulo 342 48 Múcio Teixeira MÚCIO Teixeira nasceu em 1858. é a glória que condensa O salário da Terra e a bênção do Infinito.. Tudo se agita e vibra. Júbilo de ajudar. alheio à recompensa. em cântico divino Do trabalho imortal. Autor de inúmeras obras literárias. Ante cuja grandeza o mundo se prosterna. Trabalha e serve sempre.Francisco Cândido Xavier . brunindo a vida eterna!. Da beleza do herói ao verme pequenino. Buscando a solução da dor e do destino.. no Estado do Rio Grande do Sul. luta e contentamento. . e desencarnou em 1926. Que o trabalho. Desde a flor da montanha às trevas do granito. por si. Honra ao trabalho Trabalha e encontrarás o fio diamantino Que te liga ao Senhor que nos guarda e governa. Desde o fulcro solar ao fundo da caverna.

“Crucificai-o!” – exclama.. inquire o brado Da justiça sem Deus.. Sem que o Anjo da Paz amaldiçoe ou gema. Jesus!. implacável e cega. A multidão inteira. o Príncipe dos Poetas Brasileiros. Um lamento lhe chega Da Terra que soluça e do Céu desprezado. “Jesus ou Barrabás?” – pergunta. ao seu tempo. nasceu em 16 de dezembro de 1865 e aí faleceu em 1918. Surda à lição do amor. que trêmula se entrega. Para a consumação dos festins do pecado. ..... Sócio fundador da Academia Brasileira de Letras.. – e a resposta perpassa Como um sopro cruel do Aquilão da desgraça. Considerado. E debaixo do apodo e ensangüentada a face.Parnaso de Além-Túmulo 343 49 Olavo Bilac NATURAL do Rio de Janeiro. Toma da cruz da dor para que a dor ficasse Como a glória da vida e a vitória suprema.. Jesus! Jesus!. ansiosa se congrega. Jesus ou Barrabás? Sobre a fronte da turba há um sussurro abafado.Francisco Cândido Xavier .

. 344 .. No derradeiro sono.Francisco Cândido Xavier . em sombrios Pesadelos da carne palpitante. cheia De incerteza na esfinge que tu plasmas!. no teu portal a alma tateia. No Horto Tristemente. descerras aos aflitos Uma visão de mundos infinitos E uma ronda infinita de fantasmas. E do céu se desprende uma doirada messe De bênçãos aurorais. instante a instante. meu Pai. Vê descer da amplidão o Arcanjo da Agonia.Parnaso de Além-Túmulo Soneto Por tanto tempo andei faminto e errante. Sobre o meu peito em febre. Jesus fitando os céus. – “Se puderdes. Que os prazeres da vida converti-os Em poemas das formas. Cuja mão luminosa e terna lhe trazia O cálix do amargor. Vi fanarem-se anseios como fios De ilusão transformada em sopros frios. inquire. Espia.” – dizia. Impassível. duríssimo e refece. Morte. afastai-o!. Mas eis que todo o Azul celígeno estremece. vacilante. sonda e chora. em prece. de Paz e de Alegria.

“Amados. Derramai com piedade a lágrima terrestre!” Mas eis que Judas chega e lhe diz: – “Salve. Sente a Mão Paternal que o guia na amargura. da cruz.. murmura: – “Que se cumpra no mundo o arbítrio do Senhor!. De imolar-se por fim nas aras desse Amor. de dor e desventura. Na doce mansidão dos seres pequeninos. Responde humildemente: – “É assim que tu me entregas?” Vendo as coortes do Céu nas fímbrias do horizonte.” O beijo de Judas Ouve-se a voz do Mestre ungida de ternura: . E sublime na fé mais vivida. Trazei a vossa vida imaculada e pura! O Amor há de vos dar todos os dons divinos.. Eterna irradiação que atinge a mais escura Estrada de aflição. osculando-lhe a fronte.... Mestre!” E toma-lhe das mãos. – Raio de eterno sol na senda dos destinos.Parnaso de Além-Túmulo Paira em todo o recanto a vibração sonora Do Amor e o Mestre já na sede que o devora..Francisco Cândido Xavier . E Jesus abençoando aquelas almas cegas. 345 . A crucificação Fita o Mestre. eu vos dou meus últimos ensinos. a multidão fremente.

. sem cárcere mesquinho! 346 . Contempla a vastidão celeste que o reclama. amargamente. Alma doce e submissa. Lança os marcos da luz na noite primitiva. derrama As lágrimas de fel do pranto mais ardente. não sabem o que fazem!. E em vez de suplicar a Deus para a injustiça O fogo destruidor em tormentos que arrasem.“ Aos descrentes Vós. Gritos e altercações! Jesus. Começai outra vida em nova estrada. Ó ateus como eu fui – na sombra imensa Erguei de novo o eterno altar da crença.Francisco Cândido Xavier . meu Pai. envenena e mata aos poucos. Sem a idéia falas do grande Nada. Que de olhos cegos e de ouvidos moucos Estão longe da senda iluminada. As hostes dos descrentes e dos loucos. Sobre tudo se estende o raio dessa chama. Que lhe mana da luz do olhar clarividente. Que entorpece. Soluça no silêncio. E clama para os Céus em prece compassiva: “– Perdoai-lhes. . Sob os gládios da dor aspérrima. Da fé viva. que seguis a turba desvairada. Retrocedei dos vossos mundos ocos.Parnaso de Além-Túmulo A negra multidão de seres que ainda ama.

ansioso.Parnaso de Além-Túmulo Banhai-vos na divina claridade Que promana das luzes da Verdade. com desvelos. sofre e soluça. 347 . Nas lágrimas de dor do peito aflito!.. Ressurreição Extinga-se o calor do foco aurifulgente Do Sol que vivifica o Mundo e a Natureza.. Espera a luz esplêndida do gozo Das sínteses de amor da Natureza. onde a esperança sem repouso Luta. Mas que o homem realiza apenas. quando. e sonha presa. anela e sente. Sente o beijo de glória do Infinito!.. brancos os cabelos.Francisco Cândido Xavier .. Sol eterno na glória do caminho! Ideal Na Terra um sonho eterno de beleza Palpita em todo o espírito que. Aspirações do mundo miserando. É ansiedade perpetuamente acesa No turbilhão medonho e tenebroso Da carne. adora. Rotas as carnes. Apague-se o fulgor de tudo o que alma presa As grilhetas do corpo. Guardadas com ternura.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Tombe no caos do nada, em túrgida surpresa,
O que o homem pensou num sonho de demente,
Os mistérios da fé, fulcro de luz potente,
O templo, o lar, a lei, os tronos e a realeza;
Estertore e soluce exausto e moribundo,
Debilmente pulsando, o coração do mundo,
Morto à mingua de luz, ambicionando a glória;
O Espírito imortal, depois das derrocadas,
Numa ressurreição de eternas alvoradas,
Subirá para Deus num canto de vitória.

O Livro
Ei-lo! Facho de amor que, redivivo, assoma
Desde a taba feroz em folhas de granito,
Da Índia misteriosa e dos louros do Egito
Ao fausto senhoril de Cartago e de Roma!
Vaso revelador retendo o excelso aroma
Do pensamento a erguer-se esplêndido e bendito,
O Livro é o coração do tempo no Infinito,
Em que a idéia imortal se renova e retoma.
Companheiro fiel da virtude e da História,
Guia das gerações na vida transitória,
É o nume apostolar que governa o destino;
Com Hermes e Moisés, com Zoroastro e Buda,
Pensa, corrige, ensina, experimenta, estuda,

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Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

E brilha com Jesus no Evangelho Divino.

Brasil
Desde o Nilo famoso, aberto ao sol da graça,
Da virtude ateniense à grandeza espartana,
O anjo triste da paz chora e se desengana,
Em vão plantando o amor que o ódio despedaça,
Tribos, tronos, nações... tudo se esfuma e passa.
Mas o torvo dragão da guerra soberana
Ruge, fere, destrói e se alteia e se ufana,
Disputando o poder e denegrindo a raça.
Eis, porém, que o Senhor, na América nascente,
Acende nova luz em novo continente
Para a restauração do homem exausto e velho.
E aparece o Brasil que, valoroso, avança,
Encerrando consigo, em láureas de esperança,
O Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.

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Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

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Pedro de Alcântara
O ÚLTIMO imperador deixou alguns sonetos, que, bem o sabemos, há quem diga não serem da sua lavra. Ignoramos por que
Dom Pedro 2º, alma boníssima, vibrátil e espírito culto, não pudesse fazer o que fizeram e fazem tantos outros patrícios nossos, a
ponto de ser correntio o conceito de que todo brasileiro é poeta
aos 20 anos. De qualquer forma, entretanto, o que se não poderá
negar é a estreita afinidade destes sonetos com os que, de Dom
Pedro, conhecemos.

Meu Brasil
Longe do meu Brasil, triste e saudoso,
Bastas vezes sentia, mal desperto,
Com o coração pulsando, estar já perto
Do pátrio lar risonho e bonançoso.
E deplorava o rumo escuro e incerto,
Do meu desterro amargo e desditoso,
Desalentado e fraco, sem repouso,
O coração em úlceras aberto.
Enviava, a chorar, na aura fagueira,
Minhas recordações em terna prece
Ao torrão que adorara a vida inteira;
Até que a acerba dor, enfim, pudesse
Arrebatar-me à vida verdadeira.
Onde a luz da verdade resplandece.

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

No exílio
Pode o céu do desterro ser tão belo,
Quanto o céu do país em que nascemos;
Nada faz com que o nosso desprezemos,
Acalentando o sonho de revê-lo.
Todo o nosso ideal pomos no anelo
De regressar, e voando sobre extremos,
Com o pensamento ansioso percorremos
Nosso amado rincão, lindo ou singelo.
Jaz no desterro a plaga da amargura,
De acerba pena ao pobre penitente,
De amaro pranto da alma torturada;
A alegria no exílio é desventura,
É a saudade na ânsia mais pungente
De retornar à pátria idolatrada.

Rogativa
Magnânimo Senhor que os orbes cria,
Povoando o Universo ilimitado,
Que dá pão ao faminto e ao desgraçado,
E ao sofredor os raios da alegria,
Se, de novo, no mundo, desterrado,
Necessitar viver inda algum dia,
Que regresse ditoso ao solo amado
Da generosa pátria que eu queria;

351

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Se é mister retornar a um novo exílio,
Seja o Brasil, lá onde eu desejara
Ter vertido o meu pranto derradeiro...
Que, novamente viva sob o brilho,
Da mesma luz gloriosa que eu amara,
Na alcandorada terra do Cruzeiro.

Soneto
No exílio é que a alma vive da lembrança,
Numa doce saudade enternecida,
Tendo chorosa a vista que se cansa
De procurar a pátria estremecida;
Com dolorosas lágrimas avança,
Do sonho que teceu e amou na vida,
Para a morte, onde tem sua esperança,
Na celeste ventura prometida.
E Deus, que os orbes cria, generoso,
Na vastidão dos céus iluminados,
Concede a paz ao triste e ao desditoso
Na clara luz dos mundos elevados,
Onde, do amor, reserva o eterno gozo
Para as almas dos pobres desterrados.

Página de gratidão
Tangendo as cordas da harpa da saudade,

352

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Venho ao Brasil buscar a essência pura
Do amor da pátria minha, da doçura
Da flor cheia do aroma da amizade.
Prende-me o coração a suavidade
Desse arroubo de afeto e de ternura
D'alma do povo meu, que de ventura
E de alegria o espírito me invade.
Do misterioso aquém da morte, eu vejo,
Sentindo, essa onda intensa e luminosa
Da afeição, que idealiza o meu desejo:
E tendo a gratidão por companheira,
Volvo ao pátrio torrão de alma saudosa,
Amando mais a Terra Brasileira.

Oração ao Cruzeiro
(No cinqüentenário da Abolição)
Luminosas estrelas do Cruzeiro,
Iluminai a terra da Esperança,
Na doce proteção de um povo inteiro
Onde a mão de Jesus desce e descansa.
Símbolo sacrossanto de aliança
De paz e amor do Eterno Pegureiro,
Guardai as claridades da Bonança
Na vastidão do solo brasileiro.
Constelação da Cruz, cheia de graças,

353

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Transfundi numa só todas as raças,
No país da esperança e da bondade.
Que o Brasil, sob a luz da tua glória,
Possa escrever, no mundo, a grande história
Das epopéias da Fraternidade.

Bandeira do Brasil
Bandeira do Brasil, símbolo da bonança,
Enquanto a guerra estruje indômita e sombria,
Sê nos planos de luta o sinal de harmonia,
Espalhando no mundo as bênçãos da Esperança.
Assinalas, na Terra, o país da Alegria,
Onde toda a existência é um hino de abastança,
Guardas contigo a luz da bem-aventurança,
És o florão da paz, marcando um novo dia.
Nasceste sob a luz de um bem, alto e fecundo,
Nunca te conspurcaste aos embates do mundo,
Buscando iluminar as lutas, ao vivê-las...
É por isso que Deus, que te ampara e equilibra,
Deu-te um corpo auri-verde onde a paz canta e vibra,
E um coração azul, esmaltado de estrelas.

Brasil do Bem
Eis que o campo de sombra se esfacela
No doloroso e amargo cativeiro

354

Deus te guarde os tesouros da esperança. Que é o mais belo florão de tua glória Nos caminhos da espiritualidade. Qual furacão no auge da procela. Mas na amplidão do solo brasileiro Outra expressão de vida se revela N'alma caridosa.Parnaso de Além-Túmulo Da guerra que ameaça o mundo inteiro. Onde o Evangelho é o Doce Mensageiro Das bênçãos da Verdade e da Bonança. Desde as luzes dos céus à luz dos ninhos! Segue à frente do mundo aflito e errante E alça o pendão pacífico e triunfante. Grande Brasil do Bem e da Abastança. guarda a luz dessa vitória. Embora o Amor Divino do Cordeiro Seja a fonte da Bem-aventurança. Brasil Sopra o vento do Ódio e da Vingança. heróica e bela. Mas a terra ditosa da Esperança Vive nas claridades do Cruzeiro. 355 .Francisco Cândido Xavier .. Aniquilando a Paz do mundo inteiro.. Que se engrandece ao brilho do Cruzeiro. Meu Brasil. Como a doce promessa nos caminhos!.

Todo o problema Está na compreensão clara e suprema Do Trabalho.Parnaso de Além-Túmulo Ama a Deus.Francisco Cândido Xavier . do Amor e da Verdade. Faze o bem. 356 .

.Francisco Cândido Xavier . Sonetos 1 Tudo passa no mundo. se cada . Rasga-se a fantasia que o enlaça. além de justo e bom. E vê morrer seus ideais mais belos!. Chora.Parnaso de Além-Túmulo 357 51 Raimundo Correia NASCIDO a 13 de maio de 1859. e desencarnado em Paris a 13 de setembro de 1911. pode sem favor considerar-se um dos maiores poetas da sua geração. Mostra-lhe a morte vidas mais perfeitas. litoral do Maranhão. qual se encontrasse A luz primeira dos primeiros dias. O tempo e a dor alvejam-lhe os cabelos. Sob o infortúnio.. Magistrado. Longe. chora e sorri.. porém. O homem passa Atrás dos anos sem compreendê-los... a bordo do vapor São Luiz. se a Terra tivesse o amor. na baía de Mangunça. À frouxa luz de uma ventura escassa.. E como o anjinho débil que renasce. sob os atropelos Da dor que lhe envenena o sonho e a graça. 2 Ah!. das ilusões desfeitas. membro da Academia Brasileira de Letras. Depois do pesadelo das mãos frias.

. 358 .. Que jamais viu um raio de alvorada Dentro da noite eterna que lhe veio Do sofrimento que ninguém conhece. A existência seria a ardente prece Erguida a Deus do seio da abundância.. Entre os hinos da paz e da alegria.Francisco Cândido Xavier .. se cada seio De mãe nutrisse os órfãos. Se na estrada Do contraste e da dor houvesse o anseio Do bem.Parnaso de Além-Túmulo Homem pensasse no tormento alheio.. Se tudo fosse amor. que ampara a vida torturada. Ah! se os homens se amassem nessa estância A dor então desapareceria..

Francisco Cândido Xavier . quando pensas que descansas. mesmo após a morte. Sob a luz da verdade se atenua. com apenas 31 anos de idade. O Espírito a si mesmo reconhece. Muita vez. foi deputado estadual e posteriormente Secretário de Legação. A febre das paixões desaparece.Parnaso de Além-Túmulo 359 52 Raul de Leoni FLUMINENSE. a sua afirmativa nos domínios da Arte Poética pode considerar-se das mais fulgurantes. Onde o suposto gozo se estraçalha Sob o guante acerado das provanças. Mas a luta infinita continua. Que nos traz o desânimo. dedicada a Olavo Bilac. deixou Luz Mediterrânea. Luta Aí na Terra. Bacharel em Direito. nascido em Petrópolis em 1895 e desencarnado em Itaipava. Entre os talentos da chamada nova geração. Além te espera indômita batalha. as bem-aventuranças São o sonho que o Espírito agasalha. Além de Ode a um Poeta Morto. . considerada como seu livro de ouro. a fadiga. Mas. a alma trabalha Buscando o céu das suas esperanças. Para cá do sepulcro a dor antiga. de quem foi amigo dileto.

O desejo do Bem dilata a esfera Das luzes sacratíssimas da Crença. Junto à dor que esclarece e regenera. Mas o tempo na sua mansuetude.. nada há que vença A alma boa. No pensamento nobre persevera De servir. Cheio de amor e fé.Parnaso de Além-Túmulo Na Terra Renascendo no mundo da Quimera.Francisco Cândido Xavier . É quando o nosso Espírito se ilude. a alma sincera. Ao colhermos a flor da juventude. trabalha e espera. Soneto Não te entregues na Terra à indiferença. Pelas sendas da vida nos espera. Dentro da expiação estranha e rude. E ao tombarmos no ocaso da existência. luminosos!. Se vivemos no mal. 360 . venturosos!. sempre alheio à recompensa. Nós revemos do livro da consciência Os caracteres grandes.. Nos domínios do mal. quanta agonia! Mas se o bem praticamos todo o dia. a alma pura. Julgando-se na eterna primavera. Como somos felizes.

tudo aqui subsiste. E a morte não será. para a tua alma. Aspirando os olores da Pureza!.. a vida calma. cinge-as. então. que é o Amor eterno e ilimitado E a gloriosa síntese de tudo. Na Luz Ideal – o nosso excelso escudo. Heróis de novas lendas carlovíngias.Parnaso de Além-Túmulo Vive nas rutilantes almenaras Dos castelos do Amor de essências raras. Em Deus buscando a Perfeição que mora No cume inatingível dos Espaços!.. “Post mortem” Depois da morte. 361 . Que procura tolher os nossos passos. Cada instante de dor nos aprimora.. Nós todos vamos pela vida em fora Deixando no caminho os mesmos traços. rompendo os laços Dessa animalidade atrasadora.... Nós. Desatando os grilhões.Francisco Cândido Xavier . Buscando o Indefinível... o Insondado. Terás na Terra. Deus. Jamais medonha e trágica surpresa. O Sonho imanta as nossas almas.

Não faltaria o gozo que promana Dos sentimentos da missão cumprida.. existe Aos amargosos prantos que vertemos. irreprimida. torvo e nefando. Presa dessa vaidade toda humana. Soneto Se todos nós soubéssemos na vida A Verdade grandiosa e soberana. Vamos passando assim a vida inteira. Sem esposar a crença imorredoura.. Do conforto celeste os bens supremos Ao coração desalentado e triste. Mas na Terra a nossa alma empobrecida. Para que brilhe a Perfeição da Vida. Quando a nossa alma chora nos extremos Dessa dor que no mundo nos assiste. Também existe aqui a austera pena A consciência infeliz que se condena. E a Morte continua eliminando A influência do mal.Francisco Cândido Xavier . Doce consolação.Parnaso de Além-Túmulo Neste Além que sonhamos. A fé demolidora de montanhas. De desgraças e de erros se engalana Numa incerteza amarga. que entrevemos. 362 . porém. Por qualquer erro ou falta cometida.

Sem vislumbrar a luz orientadora. 363 ..Parnaso de Além-Túmulo Quase imersos na treva da cegueira.Francisco Cândido Xavier . Nessa noite de dúvidas estranhas!..

Trazendo a visão doce do Céu Para o olhar angustioso de todas as esperanças. Nunca pude enxergar As Tuas mãos suaves e misericordiosas. Estás no templo de todas as religiões. Em todos os caminhos de suas atividades terrestres. . É que Te achavas. em Campos do Jordão. Foi cognominado – “o poeta triste das rimas róseas”. e desencarnado. Senhor. Confundindo os que lançam o veneno do ódio em Teu nome. a 17 de setembro de 1899. Como aquele homem humilde e crente do conto de Tolstoi. aos 24 de novembro de 1927. além de inúmeros trabalhos esparsos na imprensa do seu Estado. Onde gemiam as dores e as misérias da Terra. São Paulo. Estás na direção dos homens. meu Senhor. Vi-te. E a verdade.Parnaso de Além-Túmulo 364 53 Rodrigues de Abreu POETA nascido em Capivari.. tuberculoso. Nos caminhos mais rudes e espinhosos. Nos bem-aventurados do mundo.Francisco Cândido Xavier . Consolando os aflitos e os desesperados. Publicou Casa Destelhada. Senhor! Eu não pude ver-Te. Onde busquem Teus carinhos As almas sofredoras.. como ainda Te encontras. Noturnos e Sala dos Passos Perdidos.

Chamaste-me... Inquietação ambiciosa de vencer. De Tua assistência invisível e poderosa. Com a mansidão de Tua misericórdia infinita. sonho e amor. Curando-me com a Dor. porém. E entendi-Te. E não Te encontrava pelos caminhos ásperos. Multiplicaste o pão das minhas alegrias E abriste-me o Céu. E antes que a morte coroasse a Tua magnanimidade para comigo.Francisco Cândido Xavier . Eu era também cego no meio dos vermes vibráteis que são os homens.. Entretanto. Quando Te vi na paz da Natureza.. Senhor. Mocidade.. Iluminando o santuário do meu pensamento Com a Tua luz de todos os séculos! Falaste-me com a Tua linguagem do Sermão da Montanha.Parnaso de Além-Túmulo 365 Sem que eles se apercebam De Tua palavra silenciosa e renovadora. Não disseste o meu nome para não me ofender. que a Terra fechara dentro de minhalma. Chamaste-me sem exclamações lamentosas. . Vi que chegavas devagarinho. Nas Tuas maravilhas de beleza. Cheia de piedade para com as suas fraquezas.. E minha vida rolava no declive de todas as ânsias. alegria. Com o verbo silencioso do Teu amor.

Na embriaguez da ansiedade e do desejo.” Gotas do mel de amor. por infelicidade. Adormecendo à sombra enganadora Da árvore da ilusão.Parnaso de Além-Túmulo No Castelo encantado Eu ainda não era um homem. O perfume das florestas prodigiosas Onde cantavam as aves da mocidade e da glória... Tudo esqueci. E andei como um fauno louco pelos mares remotos e pelas ilhas desconhecidas. palavras de oração – “Pai Nosso que estais no Céu. do coração.. cheia de graças. Divisando os países da beleza. Na inquietação da carne e do desejo.” “Ave Maria. Gotas de mel.Francisco Cândido Xavier .. Não vi o cântaro de mel Que minha mãe deixara com o seu beijo Na prateleira humilde de minhalma. Chegou ao país de minhalma um romeiro triste dos Céus.. Quando subi aos elevados promontórios da esperança.. Eu era dono do mundo inteiro Porque era senhor dos sonhos absolutos. Falando como Jeremias sobre a Jerusalém de minhas ânsias: 366 . Meu coração pulou com um ritmo descompassado E desejei a luz das cidades distantes.. onde quase todos os frutos apodrecem. E quando quebrava os últimos altares.. Tudo sonhei contemplando o horizonte!.

367 . “Dar-te-ei maravilhas “Ao sol dos meus castelos encantados. “Manda o Senhor que eu seja a companheira “De tua vida inteira. Deixou-me só na lôbrega jornada. Trago-te o pão dos grandes amargores.. E.. “Irás comigo a mundos ignorados.” Eu não sei explicar o mistério Daquela personagem enigmática Que se intrometia. Seu olhar parecia A claridade estranha de toda a resignação e de todo o padecimento. “Eu corrijo as paisagens interiores. afoitamente.. ficarei sempre contigo.. Afastou-me a alegria da saúde. Apodreceu meu coração em sua mão. Fez fugir-se-me a noiva idolatrada.. Na minha estrada de alegria. Casou-se comigo a Dor. Onde as chuvas de todas as misérias Caíram sem cessar desde esse dia. de tal maneira..Parnaso de Além-Túmulo “A sombra da ilusão envenena-te a vida. a vida inteira: Roubou-me todas as glórias da Terra. Deu-me as sombras dos Campos do Jordão.Francisco Cândido Xavier . desde esse momento.. “Guarda as minhas verdades. meu amigo. Fez de meu sonho a casa destelhada. “Sou a Dor. Que a senti junto a mim.

. E abençôo contente As mágoas que me deste antigamente. Enxergando na tamareira da esperança. Encaminhou-me à sensação perfeita De Tua inefável presença. Ela deu-me os palácios encantados Onde brilham as luzes dAquele que se sacrificou na cruz por todos os homens!.. Mas oh! suave milagre de ventura.Parnaso de Além-Túmulo Crestou-me a flor ditosa da alegria.. ó Senhor de Bondade. Cala-se o meu verso humilde. Pelos desertos áridos do mundo. bom e fecundo.. meu Senhor. meu Senhor. Pois agora é que eu sei Banhar-me todo nessa fonte imensa Da paz. Nas grandezas de Tua claridade.. Sustentando a infeliz Humanidade. doce e balsâmica da crença. Fruto que é o Teu amor E a Tua caridade. Porque com a Dor Sinto que Te compreendo. Pela sua porta estreita. A cuja sombra o espírito descansa. Desde as pedras da Terra Aos jardins de esplendor da Eternidade! 368 ..Francisco Cândido Xavier . Tudo levou-me a dor incontentada. O único fruto eterno...

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

369

54
Souza Caldas
NASCIDO na cidade do Rio de Janeiro, em 1762, e aí desencarnado em 1814. Formado em Direito pela Universidade de
Coimbra, abraçou mais tarde a carreira eclesiástica, ordenando-se
em Roma. Dizem que as suas melhores composições, as que o
levaram a ser preso pelo Santo Ofício, perderam-se. Acreditamos
que o médium ignorava a circunstância de ser a tradução dos
Salmos de David, justamente, de suas obras poéticas, a mais
apreciada.

Ato de contrição
A vós
Senhor,
Meu Deus
De Amor,
Minhalma
Implora
A salvação!
Meu Pai,
Bem sei
Que mal
Andei,
Buscando
O erro
E a imperfeição;
Assim

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Pequei,
Na treva
Errei,
E jus
Eu fiz
A expiação.
Vós sois,
Porém,
Farol
Do Bem!
Ouvi
Dos Céus
Minha oração.
Sois vós
A luz,
E junto
A cruz
Do meu
Sofrer,
Quero o perdão;
Perdão
Que traz
Sossego
E paz
Ao meu
Viver
Na provação.
Suplico-o
A vós,

370

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Na dor
Atroz,
Amara
E rude
Da contrição!
Dai ao
Meu ser,
Aflito
Ao ver
O seu
Pecado,
A redenção;
E hei de
Poder
Feliz
Vencer
Do mal
Cruel
O atroz dragão!

Versão do Salmo 12
Senhor dos Mundos, na Terra inteira,
Os maus somente é que dominam,
Rudes tiranos e os impiedosos
De coração.
Ganham favores, buscam louvores,
Espezinhando seus semelhantes,
Tripudiando nas vossas leis,

371

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Ímpios que são.
Causam a ruína da vossa casa,
Lançam injúrias ao vosso nome,
Adoradores da iniqüidade,
Da imperfeição.
Vossas ovelhas são confundidas,
E sufocadas pelo amargor,
Fracas e pobres andam saudosas,
Do vosso amor.
São elas todas, pobres e humildes,
Glorificai-as, meu Criador!
Alevantai-as do abismo escuro
Com a vossa luz!
Vossa bondade, imensa e eterna,
É a esperança dos pecadores;
Pai amoroso, salvai os homens,
Confio em vós!

Versão do Salmo 18
Por toda a parte
Veja a criatura,
Na noite escura
Da sua dor,
A eterna força
De um Deus clemente,
Onipotente,
Cheio de amor.

372

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Astros e mundos
No céu girando,
Aves cantando,
O mar e a flor,
Todos os seres
Hinos entoem,
Cantos ressoem
Ao Criador!
Eterno Artífice
Que os sóis modela,
Lustres da auréola
Da Criação,
Sois a bondade
A mais perfeita,
A Luz Eleita,
A salvação.
Doce refúgio
Dos desgraçados,
Aos meus pecados,
Muitos que são,
Imploro e clamo,
Com o meu espírito
Turbado e aflito,
Vosso perdão.
Que desprezei
O ouro brilhante,
Lindo e faiscante,
Bem sei, Senhor!
Como fugi
Da hora fugace
Que me afastasse
Do vosso amor!
Mas bem sabeis

373

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Que a carne impura
Leva a criatura
A mais pecar;
Fazendo assim
Pra meu tormento,
Meu pensamento
Prevaricar.
Porém, o vosso
Amor profundo
Redime o mundo
Do padecer;
Dando-lhe o tempo
E áspera lida
Para na vida
Tudo vencer.
Vós que acendestes
Faróis brilhantes,
Sóis rutilantes
Dalmo esplendor,
Cantando a vida,
A onipotência
E a pura essência
Do vosso amor!
Que sois o sol
Dos universos,
Mundos dispersos
Na imensidão.
Além da força
Vós sois, também,
O sumo bem
E a perfeição
Que vence o mal,
O orgulho e a dor,

374

Francisco Cândido Xavier - Parnaso de Além-Túmulo

Que o pecador
No coração
Guarda com zelo,
Cruéis inimigos,
Que são amigos
Da perdição.
Misericórdia,
Assim espero,
Almejo e quero
Para que eu
E os meus irmãos
O mal deixemos
E abandonemos
Buscando o Céu.
Por vossa causa
O maior gozo,
Esplendoroso,
Desprezarei,
Para que eu viva
Na luz fulgente,
Eternamente,
Da vossa lei.
Assim, Senhor,
Minhalma aguarda
A luz que tarda
Ao mundo vão,
Que há de esplender
Nos homens todos,
Limpando os lodos
Da imperfeição.
Dominareis
Toda a impiedade
Pela verdade

375

servo.Parnaso de Além-Túmulo Que em vós transluz! E.Francisco Cândido Xavier . aguardo Do vosso amor Consolo à dor. Amparo e luz! 376 .

Viu as almas tremerem.Francisco Cândido Xavier . Ao trilhar os carreiros dos tormentos. teria o gozo. O meu ser que sonhara a Humanidade Qual um ramo de flores perfumosas. Pois no mundo pequeno da minhalma. E através dos meus dias. desditosas. dos meus anos. Afastado do Puro e do Perfeito. alma iludida. É que ao sentir no âmago do peito A atitude do homem nessa vida. Pois fui também humano entre os humanos. Que somente a amargura dos sorrisos Pela noite das dores conheceram. Não que eu fosse infeliz e desditoso. E isolado nos grandes sofrimentos De ser só. Se eu quisesse gozar. Coração enganado. 377 . Sob o peso da própria iniqüidade.Parnaso de Além-Túmulo 55 Um Desconhecido Meditando Eu fui daquelas almas que viveram Sem conhecer da Terra os paraísos. na aspereza dos caminhos. Encontrei o prazer pelos espinhos.

Em torno dirigia Um último olhar. 378 . E tinha então prazer de ver meus braços Enlaçados na cruz da provação. O nobre castelão No interior Do esplêndido alcançar. O dono do solar Nos espasmos intensos Da agonia. Insculpido nas fúlgidas realezas Do castelo formoso. Transbordante de glórias e riquezas! Mais alongando a vista. entre cansaços.Francisco Cândido Xavier . destruidoras. bonança e calma: – Era a luz que me vinha da visão De ver o Cristo-Amor.Parnaso de Além-Túmulo Quando em dor me envolvia a desventura. Que em suas mãos avaras Foram armas cruéis. Eu vislumbrava a luz brilhante e pura Que me trazia a paz. E viu então O seu brasão Invicto e glorioso. Viu-lhe o feito da esplêndida conquista Nas grandiosas searas. Agonizava o senhor Dos domínios extensos.

efêmeras realezas. Imerso em turvação.Parnaso de Além-Túmulo Martirizando as almas sofredoras. entretanto. derradeiros. Mergulhado no pranto mais profundo. Bem após o transcurso de alguns anos De triste letargia. Foi um dia Despertada em amargos desenganos: Conturbado por agros dissabores. nenhum lhe obedecia.. A sua alma despida das grandezas. Tomado de energia. Somente. Estranhou revoltado.. Contemplou seus tesouros passageiros. A exclamar. De cólera severa Já que ele era o senhor. Expirou para o mundo O nobre castelão.Francisco Cândido Xavier . às vezes. Que ninguém acudisse ao seu chamado. E em atitude austera. E em espasmos convulsos. Contemplou seu solar Ocupado por outros moradores. Escutava nos ditos mais soezes Terrível maldição Das vítimas de antanho! E o sofrimento era tamanho 379 . Das terrenas. Opresso o coração. Reclamou os seus servos com calor E.

Sua alma sofredora Sentiu-se então mais calma e mais serena.Parnaso de Além-Túmulo Em ser incompreendido. Que se julgou perdido Irremissivelmente Assim. Penetrada de doce claridade. amigo. Que provinha de alguém Que lhe fazia Meditar na grandeza da Verdade E lhe dizia Da beleza do Amor. Recordou-se que havia Um Pai Onipotente. O pobre sofredor. é a conseqüência Da equívoca existência Que levaste. De luz confortadora.. da Luz do Bem: – “O que sofres. De contínuos pesares e agonias. Que hoje te envolvem os lúridos momentos 380 . Implorou seu amor Numa súplica em lágrimas de pena. Todavia. E cheio de fervor.. Conservou-se naquelas cercanias Como presa feroz Do sofrimento atroz. No auge do amargor. Já que sem piedade aniquilaste Muitas almas e muitos corações. Humilde penitente. constantemente.Francisco Cândido Xavier . Durante o transcorrer de muitos dias.

Jamais vestiste os nus. O sentimento-luz. Pelas estradas rudes e espinhosas! 381 . Serás agora escravo e não senhor. a flor-tesouro. Conhecerás As dores e amarguras.Parnaso de Além-Túmulo Em rudes sofrimentos E estranhas maldições. Voltarás. já não terás Efêmeras venturas. E permite que voltes aos humanos. a todo o instante. Por que ocultaste as flores formosas Que na Terra colheste. As mágoas escabrosas. nem consolaste Aquele que sofria. Porém. Desprezavas o fraco e nunca amaste Quem de ti carecia! A caridade. Não tiveste em teus dias de maldade No grande sorvedouro! Porém. Flores lindas que nunca ofereceste Às almas desditosas? Por que não concedeste um só bocado Do teu pão abundante Ao pobre esfomeado? Ocupando-te em gozo.. o Deus de Amor É sempre o magnânimo Senhor. Para que se dissipem teus enganos No amargor.Francisco Cândido Xavier ..

. 382 .” Nesga de Céu A alma extasiada Sobe... A estrada É uma etérea alfombra Sem resquícios de sombra! É o domínio da luz que ela conquista! Vibra no ar Dulcíssima harmonia.. Transformados em notas musicais.Francisco Cândido Xavier . De alegria.Parnaso de Além-Túmulo Abençoa o Senhor Que te concede a dor... A ventura. Há toda uma amplidão Iluminada A sua vida. De alegria perfeita. Não residem no Mal e sim no Bem. o fulgor. Para assim compreenderes Que os reais e legítimos prazeres Que da vida nos vêm. Como se fora feita De luar. fulguram sóis. Além. Parece um hino de amor Dos Paganinis siderais... sobe.

E lembra-se que sofreu. A alma chora Em êxtase profundo. Como um éden de luz E de amor.Parnaso de Além-Túmulo Em tudo há um misto Nunca visto De manhãs e arrebóis.. muito ao longe. Nesgas do céu. De pureza. Cenários majestosos. Soberbas harmonias Nos mundos luminosos! Seres que passam rápidos.. imagens de esplendor. Nos espaços sem termos. Ainda além. Aos clarões dessa aurora. Sorridentes. Que amou. querida. flutuantes. mais além. de beleza. radiantes. Ao longe. A Via-Láctea transluz. que padeceu. onde a vida É a imortalidade Anelada. De perfeição e de felicidade! 383 . O mundo É um ponto negro que gira.Francisco Cândido Xavier .

Evoca as lágrimas vertidas! Contempla panoramas de outras vidas.Parnaso de Além-Túmulo Em baixo as vastidões. Melodia. de sonho. Como um país de doce primavera. Da mais pura alegria..Francisco Cândido Xavier . Um futuro esplendente Pintalgado de rosas. Vidas de estranha dor. Atrás a noite e as mágoas de agonia Do passado. Intérmina de gozos!. E. Recamado de flores perfumosas. luz. Ora a Deus: Recorda em prece os sofrimentos seus. A alma se extasia Na luz do Eterno Dia.. Com os pensamentos puros e radiosos. De repente Numa nesga de céu resplandecente Assoma Uma rutila esfera. O caminho é risonho... aroma!. Mas cada gota amarga dos seus prantos 384 .. Em cima.. Feito de éter. em frente. as emoções Do ilimitado.

Nessa prece Reconhece A alvorada de sua redenção! 385 . Chorando. A pobre alma orando.Francisco Cândido Xavier .Parnaso de Além-Túmulo Agora É um raio de aurora. Que a engrinalda de luz. Que um a um Vão formando uma auréola De brilhos santos. Em suavíssima unção.

Não sou. Quando no mundo de exílio e sombra. aos 19 de janeiro de 1930. poetou e desencarnou. Habituei-me com as invernias E com os reveses da minha sorte. – O mensageiro da Perfeição. Cansado e triste cerrei meus olhos Dentro da noite que é para muitos Um mar bravio. É que o Evangelho do Cristo amado. foi também um polemista e doutrinador espírita vigoroso. Esclarecia meu coração. Veio para o Brasil com 14 anos e aqui viveu. em 1871. Na luta intensa que encheu meus dias. que ilustrou o pseudônimo na imprensa profana e doutrinária do Brasil e de sua pátria. Portugal. cheio de escolhos. Aos meus irmãos Sob as estrelas da minha crença. Seu nome é Lázaro Fernandes Leite do Val. quem vá mostrar As maravilhas que ele fornece. Quando escutamos as vozes claras . Modesto quão talentoso. Nas horas tristes e amarguradas. no entanto. na cidade de Caratinga.Parnaso de Além-Túmulo 386 56 Valado Rosas NASCEU em Viana do Castelo.Francisco Cândido Xavier .

Francisco Cândido Xavier . eu pude adormecer Na paz serena. E a paz na morte tereis também. Na paz do Além Dentro da noite grandiosa e calma. Deixo a minhalma falar aqui. Que os avatares da redenção São todos feitos nas amarguras. Graça de haver sorvido tanto O amargo pranto da ingratidão. Vós. Da graça imensa que recebi. então. De ser vencido no mundo vão. 387 . Na vida obscura e transitória A nossa glória vive na dor. Subi o Gólgota dos meus pesares. Aos companheiros de luta e crença.. no Pai de Amor.Parnaso de Além-Túmulo Da consciência.. Graça divina de haver sofrido. doce e cristã. E. Com fé sincera. Dor de quem sofre sonhando e espera. na luz da prece. Lede o roteiro dos Evangelhos. De quem me lembro na luz do Além. Abrindo os olhos tranqüilamente Numa alvorada linda e louçã. que ficastes no mundo ingrato.

Sonhos diletos de sofredor. E a Morte trouxe-me a liberdade. Perdi na Terra doces afetos. Mas recebendo na grande escola A grande esmola do meu Senhor.Fim --- 388 .Parnaso de Além-Túmulo Nas desventuras da provação. --. A piedade. o amparo e a luz! Feliz quem pode na dor terrestre Seguir o Mestre com sua cruz.Francisco Cândido Xavier .

colabore com a divulgação dos ensinamentos trazidos pelos benfeitores do plano espiritual. financeiramente.” Paulo. os seus escritores. morais e científicos dos espíritos mais evoluídos. 3. “Porque nós somos cooperadores de Deus. estes são abnegados trabalhadores na seara de Jesus. Irmão W. também auxilia no custeio de inúmeras obras de assistência social. escolas para crianças e jovens carentes. etc. versículo 9. além de divulgar os ensinamentos filosóficos. Adquira um bom livro espírita e ofereça-o de presente a alguém de sua estima. Se você leu e gostou desta obra.Francisco Cândido Xavier .) . (1ª Epístola aos Coríntios. em busca constante da paz no Reino de Deus. O livro espírita.Parnaso de Além-Túmulo 389 Amigo(a) Leitor(a). As obras espíritas nunca sustentam.