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Libélula de Ouro Por Rogério Cathalá

CENA 1

O leilão acontece dentro de um cubo. O pregoeiro no centro exibe uma libélula em um envolucro transparente. Ao redor 5 clientes querem arrematar a peça por motivos diferentes.

PREGOEIRO Sei que cada um dos presentes tem um motivo pessoal para querer levar a peça para casa. Cada um de vocês leva uma nostalgia que se encaixa de algum modo na carapaça da libélula.

Madrepérola começa a chorar.

MADREPÉROLA É pra mim, só pode ser minha.

PREGOEIRO Muito bem dê o seu lance!

MADREPÉROLA Quando estava vindo pra cá, no caminho me dei conta de um arrependimento, um arrependimento de árvore.

PIRATA (SARCÁSTICO) Dá pra ver pelos seus cabelos de raíz e seus pés de mangabeira. Eu cruzei doze mares

PREGOEIRO (INTERROMPENDO)

doze mares para chegar onde chegou, cara ao sol,

vento em vela, saudade a bombordo e desejo a estibordo. O pirata deu maior lance que

arrependimento: O desejo.

MADREPÉROLA Eu dobro o desejo!

OLHOS MOLES Eu triplico o desejo e mostro a cicatriz, cicatriz de amor

Olhos Moles puxa a manga da camisa para cima e antes de revelar a cicatriz é interrompido pelo Pregoeiro.

PREGOEIRO (INTERROMPENDO)

a cicatriz é de amor contra a parede e dois tipos

de angústica. Será vendida para Olhos Moles por passado de sangrante autocomiseração. Dou-lhe uma, dou-lhe duas. Espera Vendaval andes ve você lenvantar

sua mão.

Ao mesmo tempo que o pregoeiro fala "mão" Salustiano Vendaval levanta a mão timidadmente.

2.

SALUSTIANO Você já sabe, qual a nescessidade de que eu fale?

PREGOEIRO Salustiano encontrou a libélula quando ainda era viva, quando todos nós éramos vivos. Ela pousou leve entre seus dedos, ela cintilava ao sol, era uma joia viva, suas patas agarravam seus dedos por que o único lugar que o vento respeito e não desagrega é na superfície do corpo de Salustiano Vendaval. Madrepérola

SALUSTIANO Madrepérola meu amor

MADREPÉROLA É minha, é minha por direito!

MARCO ANTÔNIO LOBO FILHO FILHO Eu tenho dinheiro, muito. Eu cubro qualquer oferta e triplico aí

PREGOEIRO Aí eu quintoplico, compro e manipulo qualquer sentimento. A libélula será vendida para Marco Antônio Lobo Filho Filho, por um punhado de ambição sem medida, oportunismo e sabotagem e nenhum níquel a

mais ou a menos

Dou-lhe uma

PIRATA Nem eu conseguiria ser tão mesquinho.

SALUSTIANO Ainda sinto suas patas roçarem meus dedos

MADREPÉROLA Me foi dado!

PREGOEIRO Dou-lhe duas

Zé Tortoise tosse quase impeceptivelmente e para dentro.

PREGOEIRO Zé Tortoise dobra a oferta por despretenção. A libélula será vendida para Zé Tortoise. Dou-lhe uma

Madrepérola vai até a parede do cubo e desmaia. Salustiano vai em sua ajuda.

SALUSTIANO Eu criei a libélula.

3.

PREGOEIRO Ele criou a libélula e viu quando ela rompeu a carapaça

SALUSTIANO

Vi quando ela rompeu a carapaça e se foi

PREGOEIRO Viu quando ela se foi e em suas mãos a carapaça era outra libélula: Oca, leve. E ele arrancou seu dente

de ouro

SALUSTIANO

Eu arranquei meu dente de ouro.

PREGOEIRO

E fundiu e espalhou uma fina camada no exoesqueleto joia e entalhou uma caixa, e costurou o veludo,

roubou o alfinete de cristal que mantinha sua vó viva

e espetou a libélula na caixa e foi até a casa de Madrepérola e tocou a campainha

SALUSTIANO

E bati na porta.

PREGOEIRO

E tocou a campainha e entregou a libélula para seu amor.

Madrepérola desperta.

PREGOEIRO

E disse:

Salustiano para Madrepérola.

SALUSTIANO Case comigo.

MADREPÉROLA

Sim.

PREGOEIRO Não, ela dise não. E nesse momento Salustiano penhorou a libélula. Para ter como pagar os litros de esquecimento que tomou nos últimos anos. E não esqueceu.

SALUSTIANO

E não esqueci.

MADREPÉROLA

E não esqueci.

PIRATA Inês é morta.

4.

OLHOS MOLES E a fortuna roda.

MARCO ANTÔNIO LOBO FILHO FILHO Eu dobro a oferta.

PREGOEIRO Dou-lhe três. Vendida à Zé Tortoise por desatenção.

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