De dentro e de fora

Um tempo onde as revistas nacionais antecipavam aquilo que seria publicado alguns meses depois nas melhores revistas da Europa e dos EUA. Este artigo é resultado parcial de uma pesquisa em andamento que parte desta necessidade de reflexão ou de re-descoberta da arquitetura brasileira, usando esta visão do estrangeiro formada por pouco mais de mil artigos publicados no exterior. Metodologia Usando-se o Avery Index da Columbia University como base de dados, uma busca de artigos sobre arquitetura brasileira publicados fora do Brasil gerou um total de 1007 artigos, de 1906 a 2000. Esta abordagem quantitativa serve de pano de fundo para levantar questões relativas à arquitetura brasileira e sua imagem vista através das lentes do estrangeiro. À análise quantitativa das informações deve-se sobrepor a análise qualitativa dos diversos momentos e contextos históricos paralelos, e dos próprios caminhos trilhados pela arquitetura brasileira deste século.

Primeiro corte: publicações por data O gráfico ao lado [figura 1] mostra o número total de artigos publicados no exterior para cada triênio desde o início do século. Em meados dos anos 60, o enfoque da arquitetura internacional se volta para uma crítica aos ideais modernistas (Archigram, Venturi, Tendenza, Metabolistas) e a arquitetura brasileira deixa então de fascinar a mídia estrangeira. No final dos anos 80, a conjuntura internacional passa a re-visitar e re-avaliar o modernismo e é grande o número de artigos sobre a arquitetura brasileira neste sentido. A abrangência e universalidade do projeto modernista é substituído pelo enfoque individualista e localizado da contemporaneidade. Mais interessante do que o número absoluto de artigos publicados é perceber a dinâmica destes números no tempo. Terceiro corte: local da obra ou projeto no Brasil O mapeamento no Brasil das obras e projetos citados revela, como era de se esperar, uma forte concentração no eixo Rio-SP [figura 3]. Também bastante publicados no exterior são os edifícios da Pampulha e o Museu de Niterói, de Niemeyer, o SESC da Pompéia de Lina Bo Bardi e o Aeroporto Santos Dumont, dos irmãos Roberto. Fica evidente neste grupo a pulverização regional dos arquitetos cujos escritórios representam diversas regiões do país, em contraste com a primeira geração que se concentrava no eixo Rio-SP. Quinto corte: publicações por autores e periódicos A variável periódicos mostra uma liderança da revista francesa Architecture d'aujourd'hui com mais de 150 artigos publicados sobre a arquitetura brasileira, seguida de longe pelas inglesas Architectural Review e a italiana Domus. Tomar qualquer tipo de conclusão baseada apenas nesses números seria precipitado, já que nesta fase da pesquisa não dispomos ainda de informações sobre linha editorial ou comercial dos periódicos constantes do Avery Index. Essa tendência coincide com o desenvolvimento da arquitetura como disciplina acadêmica e campo do conhecimento e nesse sentido passa a ser importante então discutir e investigar os autores dos artigos. Considerações finais Muito tem se falado sobre a crise da arquitetura moderna brasileira dos anos 70 e sobre a vitalidade e diversidade contemporâneas. A análise dos acont cimentos recentes é sempre e

difícil, pela falta de distanciamento e clareza, mas esse levantamento no Avery Index aponta claramente para uma volta do Brasil às publicações internacionais desde meados dos anos 80. Das questões panorâmicas aqui levantadas a maioria não é surpresa e vem apenas confirmar empiricamente aquilo que já sabíamos, como o vazio de publicações dos anos 70 e o aumento da diversidade regional das últimas décadas.

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