VOLUME II

Cadernos de Apontamentos – Nº 7 - 13

Documentos para a história
de

SALVATERRA DE MAGOS
Património:
Geográfico, Monumental, Cultural,
Social, Político, Económico e Desportivo
Séc. .XIII – Séc. XXI

O Autor
JOSÉ GAMEIRO
(José Rodrigues Gameiro)

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2ª Edição Revista e Aumentada
Indíce:
COLECÇÃO RECORDAR, TAMBÉM É RECONSTRUIR !
Cadernoss / Livros:
7 – A Escola Obrigatória ( Um Marco na mudança da cultura do Povo)
8 – Honra ao Mérito (Servir para além da coisa pública)
9 – Quando Vindimar, Era uma Festa !
10 – Uma Zona Industrial (Um desejo que vem do passado)
11 - Fragateiros, Cagaréus e Avieiros (Gente que viveu do Tejo)
12- O Parque Infantil, e as suas Piscinas (Um sonho – uma realidade)
13 – Os seus Transportes Públicos de Passageiros
( Da Diligência ao Automóvel, viagens até ao Cabo)
********
Autor: Gameiro, José
Editor: Gameiro, José Rodrigues
Edição: 100 volumes Brochado (Papel)
Morada: B.º Pinhal da Vila – Rua Padre Cruz, 49
Localidade: Salvaterra de Magos
Código Postal: 2120-059 SALVATERRA DE MAGOS
************************************

Tipo Publicação: Versão PDF * Revista e Aumentada * Março 2015
*************************************
Contactos: Tel. 263 505 178 * Telem. 918 905 704
e-mail: josergameiro@sapo.pt
O Autor desde texto não segue o acordo aográfico de 1990
Fotos da Capa: Escola Primária inaugurada em 1913 * Chegada do Carro para a da
Empresa Viação Salvaterrense – Alfredo Rodrigues Piedade ( Alfredo Calafate)

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CADERNO DE APONTAMENTOS Nº 7

Documentos para a história
de

SALVATERRA DE MAGOS
Património:
Geográfico, Monumental, Cultural, Social,
Político, Económico e Desportivo
Séc. .XIII – Séc. XXI
Um marco na mudança da cultura do povo !

O Autor
JOSÉ GAMEIRO

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Primeira Edição
FICHA TECNICA:
Titulo:
A ESCOLA OBRIGATÓRIA :
Um marco na mudança da cultura do povo !
Colecção: RECORDAR, TAMBÉM É RECONSTRUIR !
Autor: Gameiro, José
Editor Gameiro, José Rodrigues
Edição: 100 exemplares (brochado – papel)
Morada: Bº Pinhal da Vila – Rua Padre Cruz, 94
Localidade: Salvaterra de Magos
Código Postal: 2120- 059 SALVATERRA DE MAGOS
ISBN:
978– 989 – 8071 – 07 – 1
Depósito Legal – 756459/07
Edição: 100 exemplares – Março 2007
********************
2ª edição em PDF - Revista e Aumentada – 2015
********************
Contactos: Tel. 263 504 458 * Telem. 918905704
e-mail: josergameiro@sapo.pt
O autor desta edição não segue o Acordo ortográfico de 1990
Foto da Capa: Escola Primária “ O Século” inaugurada em 1913

*************

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O MEU CONTRIBUTO
Certo é, que o professor
primário, em tempos remotos,
tinha no seu contacto diário com
os educandos, uma influência
que mais tarde se reflectia na
personalidade destes, na vida
privada, social e até laboral.
É justo aqui recordar –
homens e mulheres, que à causa da instrução, nas escolas
desta freguesia de Salvaterra de Magos, instruíram gerações
de alunos, nestes últimos 70 anos.
De uma escola de professores, como: o casal Pinhão, que
no inicio da República aqui se fixou, um outro; Manuel Duarte
Assunção e sua esposa, Natércia Rita, chegados após o
segundo conflito mundial, vindos de Rabat (Marrocos), onde
tinham iniciados as suas carreiras, numa escola portuguesa.
Outros como: Armando Duarte Miranda, Júlia Barata,
Prazeres Estudante, Maria de Lourdes Henriques (Fontes
Pina), Maria Cecília (Antão), Fernando Assunção, deixaram
marcas profundas nos seus alunos que, ainda hoje não os
esquecem, até porque alguns deles já “saborearam” o
obrigado, que lhes prestaram em homenagens os seus
antigos alunos. Estão “arrolados” neste estudo os nomes de
outros mestres-escola, até porque os seus alunos, ainda
falam deles “embevecidos”. Agora volvidos alguns anos notase a necessidade de publicar estes Cadernos, devidamente
revistos e aumentados, nesta segunda edição.
ABRIL: 2015

O Autor
JOSE GAMEIRO
(José Rodrigues Gameiro)

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A ESCOLA, NA MUDANÇA DA CULTURA DO POVO !

Quando da revolução de Outubro de 1910, o novo sistema político
republicano, recebeu a pesada herança de um povo demasiado
analfabeto. No campo da educação, poucas escolas existiam, o mestreescola, era uma prática generalizada no ensino em Portugal que, só os
filhos dos mais abastados tinham acesso.
Com uma população maioritariamente ignorante, o país recebeu das
novas leis republicanas, uma obrigação, em que o estado fizesse delas
um benefício para o povo, nos campos da instrução e sociocultural.
Ao longo dos anos, os esforços legislativos tem tido dificuldades em se
implantar no país na sua plenitude, o que mostra ainda, sucessivas
gerações com um elevado grau de analfabetismo, ou mesmo de pouca
literacia.

A INSTRUÇÃO E AS ESCOLAS PRIMÁRIAS

No dobrar do século XX, tinha a vila de Salvaterra de Magos, três
edifícios escolares do ensino primário.
Um, construído após o terramoto de 1909, com uma subscrição pública
levada a cabo pelo jornal “O Século”, no antigo Largo do Palácio, agora
conhecido por Largo dos Combatentes

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O outro, veio a ser edificado uns anos mais tarde,
no início de
1934, nos terrenos que foram do Largo de S.Sebastião, que estava
devoluto, pois ali também tinham ocorrido estragos provocados por
aquele sismo, a escola com o nome “Presidente Carmona”, destinava-se
a alunos dos sexo masculino. O velho hábito de algumas crianças, filhas
de gente abastada terem aulas escolares, com mestre-escola, num
edifício público, teve grandes dificuldades em se “abrir” aos novos
processos do ensino obrigatório.

1950– Edifício escolar “O Século”

Tinha ficado a recordação e saudades do casal de professores de
apelido Pinhão, tinham deixado nesta vila, por volta de 1925.
A professora Cármen Marques Ferreira Pinhão, veio a faleceu em
Dezembro de 1983, em Lisboa. (1) A matriz literária: “Cartilha de João de
Deus”. Tinha sido o primeiro contacto das crianças da terra,
especialmente os filhos da gente urbana.
Os rapazes do meio rural, tinham como escola a faina da grade,
enquanto as raparigas encontravam nos canteiros, a monda do arroz, ou

a sacha do milho, vida que iniciavam aos 7/8 anos de idade.

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Os primeiros alunos a inaugurarem as salas de aulas
da escola “ O Século” em 1913

Já na juventude, os homens, escolhiam a arte braçal de trabalhar a
terra, ou da campinagem, como modo de vida, para seu sustento e da
família, depois de casados. As raparigas, essas, eram encaminhadas,
**************
(1)-Algumas aulas escolares funcionaram, no edifício Pombalino – próximo
da Câmara Municipal e Capela Real

para outras actividades agrícolas, ou então passavam a trabalhar como
serviçais em casa de pessoas que, precisavam de uma criada de servir.
Ainda nos anos 50, a ama, a mestra e a creche da Igreja, eram locais

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1940 – Escola Presidente Óscar Carmona

Ano: 2000 – Escola Primária Carmona

Para os bebés e as crianças serem recolhidas , enquanto os pais
trabalhavam. Os casais que, não tivessem algumas posses económicas,
no caso dos trabalhadores rurais , levavam seus pequenos filhos de
madrugada, para os campos, regressando com eles pela noite dentro.
Na juventude, os homens, escolhiam a arte braçal de trabalhar a terra,
ou da campinagem, como modo de vida, para seu sustento e da família,
depois de casados.

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AS MESTRAS

No início dos anos 20, uma senhora, tinha na sua habitação na Trav. do
Forno de Vidro, uma sala onde ministrava a sua escola particular, era
conhecida “Mestra da Varandas ” ,ainda durou alguns anos e por lá
passaram muitos alunos. Por volta de 1950, terminada a segunda guerra
mundial, uma jovem teve a ideia, na habitação dos pais, na rua Cândido
dos Reis, aproveitar uma sala, e abriu a sua mestra, a troco de uma
remuneração mensal – era a Mestra da Moíses. Depressa, aquele espaço
de ensino, ganhou fama de tal modo, que os alunos, passaram a ficar
inscritos a aguardar vez de entrada. Durante muitos anos, foi local de
ensino, onde as crianças – rapazes e raparigas – aprendiam até
entrarem, nas escolas do sistema público Além da sacola dos livros, um
pequeno banco de madeira, eram apetrechos que levavam e traziam
diariamente daquele local de ensino. Foi ali, que aprendi pela primeira
vez a “escrevinhar” e, sendo canhoto, muito bofetão levei para alinhar
com todos os outros alunos que escreviam à direita, pois só se podia
escrever com aquela mão. A escolaridade era obrigatória, nas escolas
públicas mas a sua normalização nesta terra, levou alguns anos, com
dois edifícios escolares.

Profª Carmem Pinhão

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BIBLIOTECA MUNICIPAL

Nos anos 60, o gosto pela leitura, apossava-se da juventude
salvaterrense, incentivo dado pelo exemplo de muitos adultos que, na
biblioteca da Fundação Gulbenkian “bebiam” cultura num carro biblioteca
que, visitava a vila uma vez por mês, e estacionava em frente à Igreja
matriz. Muitos foram os anos da presença daquela biblioteca em
Salvaterra. Em 1985 após vários esforços do então vereador do pelouro
da cultura, da Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, Joaquim Mário
Antão, reuniu algumas boas vontades e até da Gulbenkian, que se
disponibilizou para apoiar a criação de uma biblioteca fixa na terra.

A 10 de Junho daquele ano, foi inaugurada a biblioteca municipal de
Salvaterra de Magos, aproveitando-se a velha escola primária que vinha
do após Terramoto de 1909, e, ali foi instalado um vasto património
literário que, incluiu muitas obras, da biblioteca itinerante daquela
Fundação, que foram oferecidas pondo assim à disposição dos leitores
cerca de 4.000 livros. O autor deste texto, sendo funcionário público,
esteve no “amanho” da sua funcionalidade e sendo uma novidade
depressa as novas gerações, se juntaram aos leitores mais antigos, que
ali procuravam uma nova forma de cultura.

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Outros eventos culturais preenchiam constantemente as suas salas,
com a presença de escritores convidados, dando um novo dinamismo à
vila,.
ESCOLA DO PARQUE

Ainda na década de 50 aqueles terrenos eram usados, para a
realização da Feira Anual e Campo de Futebol. No início dos anos 60, ali
perto tinha sido edificado um grande pavilhão gimnodesportivo da

INATEL, mesmo ali ao lado dos Celeiros da FNPT, no terreno da Casa do
Povo. A câmara municipal, cedeu mais um espaço, ao Ministério das
Obras Públicas – MOP, para construção de um conjunto de dois edifícios,
um escolar de dois pisos, com várias salas de aula e, outro destinado a
cantina.

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ESCOLA SECUNDÁRIA
DR. GREGÓRIO FERNANDES

Eram onze horas da manhã do dia 15 de Outubro, de 1985, estava
inaugurada a escola secundária, em Salvaterra de Magos, terminava
assim um vasto e complexo processo que, anos antes o então vereador,
José Teodoro Amaro, dera inicio em 1980, tendo sido publicado o valor
do seu preço base, em 51.285.622$00, conforme anúncio publicado no
Jornal “Diário de Notícias” de 29 de Outubro.
Como era uso, procurou-se que aquele edifício tivesse a simbolizá-lo,
uma figura de destaque, nascida na terra, para tal foi solicitada a minha
ajuda na procura, a escolha recaiu no nome do médico,- cirurgião Dr.
Gregório Fernandes. Já na fase da construção, o então presidente da
câmara municipal, António Moreira e o vereador, António Gonçalves
Lopes, tiveram papel preponderante na concretização da obra, levando-a
à sua inauguração.

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ESCOLA PROFISSIONAL

Uma Escola Profissional, era uma velha aspiração da população. O
então presidente da câmara municipal, António Moreira e, o seu
vereador, Joaquim Mário Antão, encetaram esforços e numa parceria
com privados, criaram a “ESCOLA PROFISSIONAL DE SALVATERRA DE
MAGOS”, que viria a ser uma emblemática escola de profissionalização
dos jovens estudantes do concelho até mesmo da região ribatejana.
Oficializada, através do Dec. - lei 26/89, de 21 de Janeiro, instala-se
na rua Heróis de Chaves, abrindo a suas portas, no dia 24 de Agosto de
1990, com os cursos:

Cozinha * Foto José Gameiro

Gestão, Informática e Artes e Ofícios

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A Escola Profissional de Salvaterra de Magos, depressa se impôs pelo
seu elevado grau de ensino, e em poucos anos passou a ser frequentada
por centenas de alunos, nas mais diversificadas áreas educativas da
formação profissional.
A procura na área da Restauração, levou à abertura de um Polo de
ensino em Lisboa. Outros cursos se seguiram, como Artes-Gráficas,
dando origem à instalação de um Parque Gráfico, sendo convidado a
administrá-lo, António Pepe, profissional com grande experiência nesta
área. No ano 2000, com uma nova denominação, passou a Instituto de
Educação do Sorraia, Ldª, continuando com a sede nas primitivas
instalações.
Todos os anos, após os cursos ali ministrados, os alunos têm vindo a
enriquecer o sector laboral nas áreas da restauração, indústria dos
serviços., onde se destaca a informática. No seu grande e moderno
auditório, ao longo dos anos, têm sido apresentadas as mais variadas
“comunicações”, por entidades oficiais e privadas.
ESCOLA DO CICLO PREPARATÓRIO
- PROF. ANTÓNIO LOPES

Muitas dezenas de anos se passaram desde o tempo, em que os
primeiros alunos foram à primária, na escola no Largo dos Combatentes
– rapazes e raparigas

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Agora a população estudantil do concelho, tinha necessidade de uma
outra unidade escolar, para além da escola secundária, construída em
Salvaterra de Magos.
O professor, António Gonçalves Lopes, então vereador da câmara
municipal, empenhou-se no projecto da construção de um moderno
edifício para o Ciclo Preparatório.
Quando da sua inauguração, havia pouco tempo que se tinha registado
o seu falecimento, aquela estrutura escolar,
recebeu o seu nome, como homenagem ao
seu interesse pela causa do ensino, na sua
terra natal.
Enquanto durou a construção da obra,
um antigo edifício, que tinha servido de
unidade fabril, na área do arroz, junto à EN
118, foi local escolhido para algumas salas
de aulas e serviços administrativos.
O então presidente da câmara, José Gameiro dos Santos, em 1996,
adquiriu para o município,
uma construção de préfabricados, em madeira que,
foram instalados, a título
provisório, em terreno
próximo do GAT.

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Desde esse tempo é local de ensino do ciclo primário e local de apoio ao
ensino de crianças com problemas na aprendizagem, com técnicos
especializados. Por todo o concelho de Salvaterra de Magos, quando o
século passado estava a meio, muitas escolas primárias já tinham sido
construídas no concelho, através do plano há muito em curso no país,
levado a cabo pelo Ministério das Obra Públicas – MOP.
HOMENAGENS A PROFESSORES

Professores, houve que dedicaram uma vida ao ensino primário nesta
terra, alguns têm recebido a homenagem merecida dos seus ex-alunos.
Natércia Rita (Assunção), foi uma das contempladas, viu-se rodeada em
dia festivo, por mais de duas centenas de antigos alunos sentiu quanto
eles lhe estavam gratos, pelo ensino ministrado e formas de cultura
social que lhes ensinou, que muito os beneficiou pela vida fora.
Os poderes públicos de Salvaterra de Magos, reconhecendo os seus
méritos, associaram-se à festa e uma rua da vila, passou a recordá-la
na toponímia local. Alguns anos depois, uma outra festa de homenagem
teve lugar, alguns antigos alunos de Lurdes Pina, promoveram um bonito
convívio entre professora e antigos alunos, então retirada após 40 anos
de actividade.

A Profª. Natércia Assunção,
acompanhada dos seus
antigos alunos, em dia que
lhe prestaram homenagem

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A Profª Lurdes Pina acompanhada dos seus ex-alunos,
que lhe prestaram homenagem

A CÃMARA MUNICIPAL, INAUGURA NOVOS
ESPAÇOS PARA O ESTUDO

A nova tecnologia informática, tem vindo a ocupar espaço na vida das
pessoas passando a ser um instrumento de trabalho e de acesso ao
estudo, das novas gerações. O executivo autárquico de Salvaterra de
Magos, nos últimos anos depois de ter construído e inaugurado um vasto
edifício, no antigo espaço do cais da vala real, onde a população jovem
passou ter acesso a novos conhecimentos e contactos através da
Internet, a par de se poder ver periodicamente algumas exposições
sobre vários temas do passado da terra e mesmo do concelho.
NOVA BIBLIOTECA MUNICIPAL

Em 2005 após grandes obras de recuperação no antigo edifício
manuelino, na praça da República, ali foi instalado a nova biblioteca

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municipal. O espaço existente na primitiva biblioteca, no antigo edifício
escolar da vila (construído após o terramoto
de 1909), já não suportava o vasto espólio
bibliotecário municipal e, as visitas diárias de
utentes
Uma vasta rede informática também ali foi
instada, dando agora novas oportunidades ao
povo de ter acesso a novos conhecimentos.
NOVO PARQUE ESCOLAR
. O concelho de Salvaterra de Magos, foi dotado de novos Parques
Escolares. O primeiro, foi na sede do concelho, inaugurado em 5 de
Outubro 2010, concentrando o ensino secundário e básico, para albergar
todos os 232 alunos do ensino, que estavam dispersos pelas suas
escolas primárias - do parque, escola da avenida e pinhal da vila
(provisória). O de Marinhais, foi inaugurado em 2014.

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Inauguração da Nova Escola Secundária e Básica, com creche
Fotos José Gameiro

UM SÉCULO DEPOIS

Entre o ensino escolar de alguns, nos finais do séc. XIX e, a exigência
da escolaridade obrigatória nos meados do séc. XX, esperou a população
de Salvaterra de Magos, para ter melhores condições e, meios para
adquirir mais cultura escolar, mesmo assim, nos dias que correm as
gerações nascidas antes dos anos 50, ainda apresentam grandes índices
de analfabetismo, ou de pouca literacia

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Os filhos de uma camada socialmente mais abastada, passou a mandar
os filhos ao colégio, muitos houve que chegaram aos estudos
universitários. Nos dias que correm, não se nota a diferença dos que
frequentam os estudos superiores, para tal muito tem contribuído o
estado socioeconómico das famílias, que fazendo grandes sacrifícios,
não quiseram que os seus filhos tivessem a mesma sorte da sua !

Comemoração do centenário da inauguração “Escola o Século”

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Bibliografia Usada:
* Revista “ A Hora” - 1936
* Jornal “Aurora do Ribatejo” – 25.9.78, 15.9.1982 (Nº343)
* Jornal “Ribatejo” – 31.12.87
* Jornal Vale do Tejo – Out.1999
* Documentação recolhida pelo autor
* Jornal “ Correio da Manhã”
(1) - Jornal “Diário de Notícias” de 21.12.1983 *
Carmen Marques Ferreira Pinhão
**********
Fotos usadas: Do autor e A/D
Página 14 – Inauguração da Escola Dr. Gregório Fernandes,
Prof José Augusto Seabra, Ministro da Educação, recebe
explicações do Prof. António Lopes
*No grupo dos convidados, o autor (fato cinzento à esquerda)
esteve presente na inauguração, da Escola Secundária de
Salvaterra de Magos ouvindo as explicações do Vereador,
Prof. António Lopes
*************

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CADERNO DE APONTAMENTOS Nº 8

Documentos para a história
de

SALVATERRA DE MAGOS
Séc. .XIII – Séc. XXI
“SERVIR PARA ALÉM DA COISA PÚBLICA”

Património:
Geográfico, Monumental, Cultural, Social, Político,
Económico e Desportivo

Autor
JOSÉ GAMEIRO

Primeira Edição

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FICHA TECNICA:
Titulo:
HONRA AO MÉRITO !
“Servir para além da coisa pública”
Tipo de Encadernação: Papel A5 Brochado
Autor: Gameiro, José
Colecção: RECORDAR, TAMBÉM É RECONSTRUIR !
Edição: 100 exemplares – Março 2007
Editor Gameiro, José Rodrigues
Morada: Bº Pinhal da Vila – Rua Padre Cruz, 64-1º
Localidade: Salvaterra de Magos
Código Postal: 2120- 059 SALVATERRA DE MAGOS
ISBN:
978– 989 – 8071 – 08 – 8
Depósito Legal: 256460 /07
Edição: 100 exemplares – Março 2007
********************************
2ª edição em PDF – Revista e Aumentada – Março 2015
*********************************
Contactos: Tel. 263 504 458 * Telem. 918905704
e-mail: josergameiro@sapo.pt
O autor desta edição não segue o acordo ortográfico de 1990

*Fotos da Capa: - Gaspar da Costa Ramalho* Dr. Gregório Fernandes
* Pe José Rodrigues Diogo * João Manuel Santa Bárbara

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O MEU CONTRIBUTO
HONRA AO MÉRITO – SERVIR PARA ALÉM DA COISA PÚBLICA

Com tantos documentos aqui reunidos, especialmente sobre a
vida de algumas pessoas, não pretendo que seja uma
bibliografia de cada um deles, mas
decerto muito vai ajudar os interessados
por este tipo de estudos. Certo, que
também devem ser lembradas, as
instituições,
pelos
seus
serviços
prestados à população do concelho de
Salvaterra de Magos, como: a Santa Casa da Misericórdia,
Bombeiros Voluntários, Centro Paroquial, e Grupo de
Escuteiros, entre muitas outras, como a já extinta Casa do
Povo e Montepio.

No caso individual, existem os de rosto visível, como
os que à coisa pública - Órgãos Autárquicos – se
entregaram de alma e coração, mas a memória do povo
nem sempre os guarda, por ser um desempenho político.
Outros há, que se enobreceram no anonimato, são eles
os dirigentes das instituições, muitas vezes anos a fio,
sempre sujeitos à ingratidão dos seus concidadãos.
Outros tantos ainda, praticando a benemerência,
oferecendo devotadamente os seus bens, era uma forma
de estar na vida, ensoberbeceram-se a si, suas famílias e
amigos - são exemplos a seguir !
Em todos as áreas, os vamos encontrar, especialmente
no campo da assistência médica social - não podemos
deixar de registar, a colaboração benemérita, que foi
praticada, pelos já desaparecidos médicos: Armando dos

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Santos Calado, José António Vieira e: Dr. Roberto
Ferreira da Fonseca
Na tão nobre oferta dos seus actos médicos, não posso
deixar de aqui registar, e divulgar, mesmo que fira a sua
modéstia, o Dr. Fernão Marçal Correia da Silva, que há
anos devotadamente vem também dando graciosamente,
assistência aos idosos da Misericórdia local, na
continuação do exemplo que os seus pares anteriores
fizeram. Muitos certamente, não tiveram a sorte, mesmo
merecendo-o de ficarem na memória dos documentos.
Neste campo das homenagens, certo é que, ao longo dos
tempos, a história regista a ingratidão, especialmente dos
poderes públicos. Neste espaço, não deixamos mesmo
que modestamente de aqui registar a homenagem pública
que recebemos, em 2014 do Município desta vila, pelos
50 anos que aproveitamos a nossa colaboração na
comunicação social, para divulgarmos os valores da terra
Por isso, aqui registamos nós, a vida e obra de alguns
dos que ficaram nesta galaria “ Honra ao Mérito!”

ABRIL: 2015
O Autor:
JOSE GAMEIRO
(José Rodrigues Gameiro)

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I
GASPAR COSTA RAMALHO

A Homenagem publica, que teima em não chegar.
Pedir tão pouco, para quem deu tanto !
Quase sempre, nunca, ou tardiamente, as pessoas sabem ser
agradecidas porque os seus preconceitos ultrapassam os desejos. Na
população de Salvaterra de Magos, ainda existe uma geração que o
conheceu e, beneficiou da benemerência que,
ele soube distribuir dos haveres que tinha,
pelos pobres seus concidadãos.
Até agora o poder político da nossa terra,
não soube, ou não quis prestar-lhe a merecida
homenagem pública.

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Gaspar da Costa Ramalho, nasceu no dia 20 de Outubro de 1868, em
Salvaterra de Magos, viveu na actual rua Alm. Cândido dos Reis – antiga
rua de S. António – onde construiu duas moradias para a família.
Foram seus pais; José de Sousa Ramalho e Joaquina Victoria. Uma
vida de 94 anos, onde uma fortuna recebida de seu tio e sogro, José
Vicente da Costa, fez dele um grande lavrador, com propriedades nos
concelhos de Azambuja, Vila Franca, Benavente, e na sua terra natal Salvaterra. de Magos. A sua imensa riqueza foi gerida com sabedoria e
benemerência humilde.
Quando do terramoto de 1909, as populações de Samora Correia,
Benavente e Salvaterra, sentiram os seus efeitos devastadores, mas
Gaspar Ramalho, chamou a si um grupo de pessoas de boa vontade e,
depressa se deu inicio, ao necessário apoio ao povo carecido.
Dez anos depois, em 1919, na construção da Praça de Toiros, quando a
“Comissão Construtora” se debatia com dificuldades financeiras para
concretizar o que esperava ser uma realidade, logo um “anónimo”
suportou os valores em falta. Soube-se mais tarde que com mais este
acto generoso, contribuiu ajudando aqueles que estavam empenhados na
construção do belo edifício tauromáquico, que Salvaterra tem à entrada
da vila, hoje considerado um ex-libris da terra.
Não ficou por aqui o seu apoio, pois quando do ciclone, de 15 de
Fevereiro de 1941, logo chamou a si o encargo das despesas da
construção das novas bancadas em cimento, tendo Jorge de Melo e Faro
(Conde de Monte Real), e sua esposa, suportado a reconstrução das
paredes daquela praça Com o seu coração sempre preocupado com o
bem-estar dos desprotegidos da sorte, no início dos anos 30, o espaço

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cultural da vila, foi enriquecido com a construção de um Cine-Teatro. Foi
uma obra que, utilizando alguns dos seus celeiros, na rua Machado
Santos – antiga rua S. Paulo – a ofereceu aos Bombeiros Voluntários de
Salvaterra de Magos.
Já muitos anos antes, por volta de 1900, construiu uma grande
adega e armazéns, aproveitando as ruínas do que foi o Palácio das
Damas, com frente para o actual Largo dos Combatentes.
Continuando a pugnar pelo bem estar da população, nunca
esquecendo os mais necessitados, em 1935, cria a “Casa do Povo de
Salvaterra de Magos”, onde tomou lugar de Presidente da Comissão
organizadora e, depois da sua legalização foi Presidente da Assembleia
Geral, durante alguns anos.
Para o efeito utilizou uma sua casa na Rua Cândido Reis, junto ao
palácio do Barão, e ofereceu à Instituição durante anos o valor de renda
que, na altura era de 600$00 anuais, e os encargos de um funcionário
administrativo.
Como a sua maneira de estar na vida era de grande humildade e
descrição, todos os anos conseguia retirar da sua imensa fortuna os
valores que pudessem minorar as carências dos mais aflitos. Aos
cortejos de oferendas promovidos pela Misericórdia, local, que na
década de 1950 ainda se realizavam, Gaspar Ramalho assumia a sua
responsabilidade de cidadão, ofertando grandes quantidades de
produtos agrícolas para o respectivo leilão.

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Uma outra oferta, também ficou emblemática, na obra filantrópica de
Gaspar Ramalho, por volta de 1936, mandou construir e ofertou aos
Bombeiros Voluntários de Salvaterra, um grande edifício de primeiro
andar que, viria a servir de quartel e sede à corporação
.
Espaço grande e moderno para a época, onde as viaturas do corpo
activo tinham o seu estacionamento e, a Banda de Música, lugar para o
seus ensaios.
Gaspar Ramalho, faleceu a 13 de Junho de 1962 e, o seu corpo
recolheu ao repouso de um jazigo da família no cemitério da terra que o
viu nascer - Salvaterra de Magos. Deixando testamento, repartiu
benesses pelas instituições, que em vida já vinha apoiando. Quando se
registaram 131 anos do seu nascimento, e 37 após o falecimento, o autor
deste texto, que ainda conheceu este insigne filantropo, uma campanha
abriu na comunicação social, lembrou aos autarcas da terra, que tinha
chegada a hora (algo tarde), de deixar-mos de ser ingratos, pois nem
uma rua ostentava o seu nome, foi preciso esperar mais de duas
vintenas de anos, para a autarquia local, atribuir o seu nome a uma rua
que, vai da rua Padre Cruz até às instalações da Misericórdia local.
****************
*************

32

II
DR. GREGÓRIO FERNANDES
Nasceu em Salvaterra de Magos, no dia 4 de Janeiro de 1849, na casa
onde se encontra uma lápida que, os seus conterrâneos, em preito de
homenagem, ali mandaram colocar em 1913.
Outra homenagem para recordar este vulto
da ciência portuguesa, foi feita em 1971, numa
proposta do então vereador da câmara de
Salvaterra de Magos, José Teodoro Amaro, em
atribuir o seu nome, á Escola Secundária
inaugurada naquele ano. Gregório Fernandes,
muito jovem foi para Lisboa, onde fez os primeiros estudos no Colégio de
Santo Agostinho.
Seguidamente no Porto, fez os preparatórios na Academia
Politécnica, voltando a Lisboa, para Escola Médica, onde concluiu o seu

33

curso, com grande brilho e distinção, defendendo tese no ano de 1873,
tendo então 24 anos de idade.
Estudioso e inteligente, andou sempre na vanguarda da ciência médica
praticada na época e, publicou vários trabalhos, entre os quais, a

“Patogenia da Febre Traumática” Glaucoma” e “ Recessão do Joelho”.

Este último trabalho relatando uma intervenção altamente apreciada,
pois foi ele o primeiro cirurgião a realizar em Portugal, mas o seu maior
êxito foi alcançado em 1892, com uma extração “Útero ovariana“,
operação cirúrgica que, nunca até aquela data se tinha feito.
Operação, que lhe
mereceu os maiores
louvores, tanto dos seus
colegas
portugueses,
como do resto da Ciência
Médica Mundial.
Semelhantes
operações, feitas em Viana (Áustria), Paris e Londres, não lograram tão
bons resultados.
Este ilustre mestre da ciência médica, que foi incontestavelmente um
figura luminária da cirurgia portuguesa desempenhou o cargo de
cirurgião extraordinário do hospital de S. José e, foi director da
enfermaria de S. Francisco que, tem hoje o seu nome.
Acumulou o cargo de delegado de Saúde de Lisboa e, o de presidente
da Sociedade das Ciências Médicas. Sob a sua orientação foi construído

34

o Sanatório de Santa Ana (Parede/Oeiras), para 60 crianças afectadas
pela tuberculose óssea.
Naquele edifício também foi construído um espaço para albergar 20
idosos afectados por doenças cardiovasculares, bem como, igual
número de camas para cancerosos, de harmonia com as prescrições
testamenteiras da grande benemérita, a sua doente D. Amélia Biester.
No decorrer da construção
recebeu grandes dissabores, mas
acabou por ver realizada a obra
consoante a vontade daquela
ilustre senhora.
Dotado de grande probidade de
carácter moral, aliada a uma bondade sem limites, Gregório Fernandes,
a todos os a que a ele recorriam, sem distinção de classes, tratava com
a maior solicitude, sem nunca olhar a retribuição. Os seus conterrâneos,
os pobres em especial, encontravam sempre nele, um amigo prestável e
generoso, até porque se privava dos dias de folga, e todas as quintasfeiras, vinha de Lisboa, até Salvaterra, consultava-os graciosamente.
Muitos dos mais ilustres médicos da sua geração, como: Sousa
Martins, Boaventura Martins Pereira, Serrano, Bombarda e outros, lhe
pediam conselho para os casos mais graves dos seus doentes. Este
homem, modesto que, foi um espelho de virtudes, faleceu aos 57 anos de
idade, no dia 24 de Junho de 1906 na sua casa de Lisboa após, uma
intervenção cirúrgica. Pena é que, a ingratidão dos novos tempos – em
plena democracia - tenha retirado o seu nome do edifício escolar que,
foi inaugurado com o seu nome, nesta vila ribatejana, quando outras
terras continuam mantendo o nome daqueles que são suas referências.

35

III
HENRIQUE XAVIER BAETA

* Henrique Xavier Baeta, nasceu em Salvaterra de Magos, em 22 de
Fevereiro de 1776 – filho de: José Dias Baeta e Ana Rosa Joaquina.
* Frequentou a Faculdade de Filosofia de Lisboa, tendo concluído o
Bacharel em 1795.
Em 10 de Julho de 1797, receoso da perseguição que se fazia sentir
em Coimbra, aos estudantes, acusados de partilharem as doutrinas da
Revolução Francesa, emigrou para Inglaterra,
tendo-se doutorado em medicina pela
Universidade de Edimburgo, em 1800. Nesse
mesmo ano regressou a Lisboa onde exerceu a
sua profissão.
* Na sessão de 12 de Outubro de 1821, foi
apresentado como Deputado por Santarém, às Cortes Gerais e
Constituintes, num grupo onde se encontrava também, Luiz Rebello da

36

Silva (1821-1822) .Contava entre os seus amigos, com; Francisco Xavier
Monteiro de Barros, Cosmógrafo-Mor, da Comarca de Santarém, que lhe
dedicou uma poesia “ Hino ao Sol ” Entre os seus trabalhos, registaram
merecimento, em 1806, duas obras médicas sobre a sintomatologia e
tratamento da febre, uma sobre medicina o “Resumo do Sistema de
Medicina”, e uma dedicada ao “Belo Sexo Português”
Escreveu “Uma Memória”, sobre o desenvolvimento de uma Febre
Contagiosa em Lisboa, que ocorreu entre o fim de 1810 e Agosto de 1811:
indicou as razões para a combater – Pelágica.
* Por ser Liberal, foi preso em 1831 e solto em 1833, voltou a ser eleito
Deputado às Cortes, em 1834, e nomeado “Recebedor da Fazenda
Pública”, cargo que exercer até 1836. * Faleceu em 21 de Novembro de
1854

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*************

37

IV
OS TOUREIROS IRMÃOS ROBERTO (s)
Nascidos em Salvaterra de Magos, na primeira metade do século
XIX, os três irmãos: Vicente, Roberto e João, oriundos da família
Jacob da Fonseca, muito cedo iniciaram a
prática do toureiro a pé, continuando
assim a arte de seu pai, António Roberto
da Fonseca.
Este, nascido nos Açores em 1801,
ainda menino, veio com seus pais para
Salvaterra, onde na sua juventude
começou a lidar com toiros e, a fama de bom praticante lhe deu
oportunidade de tourear em várias praças do país.
Esteve como toureiro, em Lisboa, na inauguração da extinta praça
do Campo Sant’ Ana, em 1831, mandada construir por D. Miguel.

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Em 1849, como lhe começassem a escassear as faculdades para o
toureiro a pé, dedicou-se à arte de praticante a cavalo. Retirou-se
das arenas, definitivamente, dez anos mais tarde, tendo falecido
nesta vila em 1882.
Dos seus filhos, João Roberto da Fonseca, menos
dotado, cedo se retirou das arenas, dedicando-se à
agricultura.

Os outros dois, o Vicente e o Roberto, formando uma dupla de
bandarilheiros, que se tornou afamada e logo a sua arte foi
reconhecida nas praças de toiros de Portugal, sendo solicitados a
actuar durante vários anos na vizinha Espanha.
Um ano após a morte de Vicente
Roberto da Fonseca, em 1897, foi
publicado num semanário da época
“Branco e Negro”, um trabalho
jornalístico de autoria de António Vale de
Sousa, que descreve os méritos destes
dois afamados irmãos que, muito
honraram e engrandeceram a sua terra
- Salvaterra de Magos.

“Vimos hoje, com a alma alanceada por uma profunda saudade, registar
o primeiro aniversário do falecimento dessa simpática individualidade
que se chamou Vicente, prestando a devida homenagem a esse
incomparável amigo que soube conquistar um nome imorredoiro no
toureio português, onde é contado entre os seus grandes mestres,

39

notabilizando-se por actos de filantropia em que se reflectiu a bondade
da sua alma
Amigo delicado galgava por cima das maiores dificuldades e sacrifícios
para servir os seus amigos, fazendo um perfeito contraste com a
sociedade actual, tão degenerada; filantropo benemérito, via na
felicidade dos outros a sua própria felicidade; era assim que despendia
uma grande parte da sua fortuna, angariada nas arenas de Portugal e
Espanha.
Protegeu hospitais, montepios e outras casas de beneficência, e em
socorrer muita pobreza ignorada, fazendo renascer a esperança no
peito dos desgraçados.
Como bandarilheiro Vicente Roberto ocupou desde muito novo um dos
primeiros lugares entre os mais ilustres artistas da tauromaquia
portuguesa.
Vicente Roberto, nasceu em Salvaterra de Magos em 1836, sua mãe
Maria Gestrudes, preocupada com o seu futuro, ainda o recomendou a
um alfaiate de Vila Franca de Xira, onde aprendeu o ofício.
Com 13 anos, de idade, toureou em Almada, onde o Conde de Vimioso,
estando presente, desceu à arena abraçando-o, e lhe ofereceu um fato
completo de bandarilheiro. Aos 18 anos começou a apresentar-se
como toureiro de profissão, juntamente com seu pai e seu irmão Vicente,
que foi igualmente um excelente artista.

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Em 1858, estreou-se na praça do Campo de Sant’ Ana, e estão bem
vivas na memória de todos as ovações que ali alcançou, como também
no ano de 1865, correndo toiros desembolados, toureou com seu irmão
Roberto na corrida à portuguesa que inaugurou a praça do Campo
Pequeno. Quando toureava, em 1888, na praça da Figueira da Foz ficou
gravemente ferido e, teve que recolher ao hospital da Misericórdia local.
Durante vários dias, esteve entre a vida e a morte, acabando por se
recompor com grande carinho e cuidados médicos daquele
estabelecimento hospitalar.
Já recomposto doou àquela instituição um importante donativo, e no
seu testamento deixou-lhe um legado, manifestando assim a sua
gratidão. Depois deste lamentável desastre, agravou-se cada vez mais a
sua saúde e após um doloroso e prolongado martírio, que suportou com
paciência dum mártir. Faleceu às 11horas da manhã do dia 1 de Junho de
1896. A lúgubre notícia do seu falecimento, se bem que há muito
esperada, trouxe a Salvaterra de Magos, uma multidão de admiradores e
amigos, que na companhia do povo da terra desfilaram perante o
féretro, espargindo mil bênçãos sobre aquele que foi um dos seus filhos
mais dilectos e, um dos seus mais devotados protectores.
Vicente Roberto, foi repousar no jazigo do cemitério da sua terra que,
entretanto já tinha mandado construir para a família. Em testamento
deixou vários legados à Misericórdia de Salvaterra de Magos, Figueira da
Foz, Coruche, e ao Montepio da terra que, o viu nascer, evidenciando
mais uma vez, os seus sentidos piedosos”

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41

V
DR. ANTÓNIO VIANA FERREIRA ROQUETTE

António Viana Ferreira Roquette, nasceu em Salvaterra de Magos, Filho
de José Ferreira Roquette, neto do primeiro Barão de Salvaterra de
Magos; Luiz Ferreira Roquette Pestana de Melo Travassos.
António Viana Roquette, estudou em
Coimbra, Direito, tendo concluído o curso de
Bacharel, com 20 anos de idade, e
classificação de grande registo.
Como advogado, estabeleceu escritório, em
Lisboa e Salvaterra de Magos, terra onde
vinha uma vez por semana, e assistia
graciosamente aos seus conterrâneos
pobres, nas suas dificuldades com os tribunais. Algum tempo depois foi
até Moçambique, onde esteve cerca de 20 anos.
Já em Lourenço Marques, exerceu a sua actividade, fez parte do antigo
Conselho do Governo., como Vogal eleito pelo Distrito de Quelimane.

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Neste Distrito, exerceu também o cargo de Delegado do Ministério
Público e Conservador do registo Predial. Ocupou também o cargo, por
eleição, Presidente da Associação dos Proprietários, com representação
no Conselho Legislativo daquela então colónia portuguesa, com
desempenhou o cargo de Vogal do Tribunal Administrativo, Fiscal e de
Contas. Em 1925, regressa ao Distrito de Moçambique, onde instala
escritório de advocacia, e tomou conta da Direcção de várias empresas.
Em 1929, voltou a fazer parte do Conselho do Governo da Colónia
moçambicana, como Vogal eleito pelos Distritos de Nyassa e Cabo
Delgado. Após a reforma administrativa, em 1935, foi eleito pelo Distrito
de Moçambique, Vogal da Junta Provincial do Nyassa, lugar que ocupou
até 1936, ano em que regressou ao continente, por falecimento de seu
irmão Luiz Ferreira Roquette, dedicando-se exclusivamente à
administração da casa agrícola da família. Em 15 de Novembro 1938,
tomou posse do cargo de Presidente da câmara de Salvaterra de Magos.
Por andar sempre acompanhado, de um varapau (Cajado), nas visitas ao
campo, a população rural com carinho, passou a conhecê-lo, como o Dr.
Cajado. Após a sua morte, a municipalidade de Salvaterra, atribuiu a um
pequeno arruamento da vila, uma toponímia com o seu nome, a que deu a
designação de Avenida.

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VI
José Maria Rita Vasconcellos e Sousa
(José Maria Rita de Castelo Branco Correia da Cunha
Vasconcellos e Sousa)

Nasceu em Salvaterra de Magos, em 5 de Fevereiro de 1788 * Filho
de: José Luís de Vasconcelos e Sousa e de Maria Rita de Castelo Branco
Correia da Cunha, marquesa de Belas.
José Maria Rita Vasconcellos e Sousa, foi Nobre, Militar e Politico. A
carta régia de 30 de Abril de 1826 elegeu-o par do reino, prestando
juramento com tomada de posse na sessão da respectiva câmara, a 31
de Outubro do mesmo ano. Era igualmente grande de Espanha, de 1.ª
classe, sendo Marquês de Olias e Zursial, na Catalunha, e Marquês de
Mortara, no Ducado de Milão.

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Em 1817, fez parte da expedição portuguesa a Pernambuco, tendo
ocupado o cargo de Governador de Capitania de São Pedro do Rio
Grande do Sul, de 19 de outubro de 1818 a 22 de setembro de 1820. Em
1833 serviu o infante D. Miguel, como Ajudante de Campo e
desempenhou o cargo de comandante em chefe, foi um fidalgo sempre
dedicado ao Partido Miguelista.
Obteve, no dia 6 de Fevereiro de 1818 a da Ordem de Nossa Senhora
da Conceição de Vila Viçosa, e em 1820 a grã-cruz da Ordem da Torre e
Espada José Maria Rita Vasconcelos e
Sousa, casou duas vezes: O 1.º Casamento
foi com: Maria José de Melo Menezes e
Silva, não teve descendência. Casou 2ª
vez com: Maria Amália Machado Eça Castro
e Vasconcelos Magalhães Orosco e Ribera.
Filha de Luís Machado de Mendonça Eça
Castro e Vasconcelos e de Maria Ana de Saldanha de Oliveira e Daun. Do
casal são conhecidos 9 filhos:
D. Ana Maria de Jesus Machado de Castelo-Branco Correia Cunha
Vasconcelos Sousa * D. Maria Rita da Conceição Machado de CastelloBranco Mendonça e Vasconcellos casada com D. Lourenço José Maria
Boaventura de Almada Cyrne Peixoto, 3º conde de Almada.
José Jorge Machado de Mendoça Eça Castro Vasconcelos de CasteloBranco, 2º conde da Figueira, casado com Isabel Maria de Oliveira Pinto

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da França * D. Maria Ana Isabel Apolónia Machado de Mendonça Eça
Castelo-Branco casada com António Pereira da Cunha e Castro * D.
Maria Amália Machado de Castelo-Branco casada com Duarte Taveira
Pimentel Carvalho Meneses * D. Maria da Santíssima Trindade Machado
de Castelo-Branco. D. Maria de Jesus Bárbara Machado de CasteloBranco casada com António Augusto de Almeida Portugal Correia de
Lacerda (governador de Moçambique), e Luís Paulino de Oliveira Pinto
da França, 2º conde da Fonte Nova * D. Maria das Dores Machado de
Castelo-Branco * D. Maria da Conceição Machado Castelo-Branco
casada com José Correia de Sá e Benevides Velasco da Câmara, filho do
6º visconde de Asseca. José Maria Rita Vasconcellos e Sousa, faleceu
em Lisboa 16 de Março 1872.

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VII
José Carlos Hipólito
“O Tímpanas”
(Figura típica da nossa terra)
As saudades das suas traquinices

“ As festas do Foral dos Toiros e do Fandango de Salvaterra de Magos,
terminaram à pouco dias, teve a sua Comissão, a feliz ideia de este ano
fazer-lhe uma homenagem. O “Timpanas”, desde à muito que merecia um
reconhecimento público.
Há 18 anos, quando ele contava com 53
anos de idade, fizemos-lhe uma entrevista
que, foi publicada no extinto jornal regional
“Aurora do Ribatejo” de onde vamos recordar
algumas passagens.

“Homem pequeno dotado de traquinice que o
faz estar constantemente bem disposto, levando-o todos os anos pelo
carnaval, ou o entrudo com antes se dizia, sempre arranjávamos

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imaginação e talento nas figuras por si encarnadas que, ainda hoje
deixam saudades.”
Muitos anos antes, foi bombeiro voluntário de Salvaterra, sempre
vigilante e activo, todos contavam com ele nas horas difíceis. Quando da
entrevista, o seu grande “martírio” que o corroía eram as saudades, da
festa brava. Ao falar de tauromaquia, todo o seu pequeno corpo se
modificava, notando-se na sua face os seus nervos de aço com que
empolgou multidões nas praças de toiros, ficavam fluídos - era um
homem, cheio de saudades !..
Tivemos ocasião de verificar estas situações naquela pequena
conversa que mantivemos. Exercendo a profissão de metalúrgico, foi na
vida de campo que, começou os seus primeiros contactos com os toiros,
pois naquele tempo, ainda havia a grade - uma forma de trabalhar a
terra- onde se utilizava alguns toiros bravos que, depois de “ bruxedos,”
tornavam-se dóceis. Mas voltando à tauromaquia foi-nos dizendo:
“Tenho muita estima pelo Sebastião Nabiço e, também pelo Manuel Faia,
ainda vivos. O Albino Fróis Marques , e o seu irmão Manuel – “o Manel
Lazão”, a eles devo muito do que sei da difícil arte de pegar toiros. Uma
das salas da sua casa estava repleta de quadros, onde se podia apreciar
várias sequências de pegas de caras, por si efetuadas em várias
actuações nas praças de toiros tanto no país como no estrangeiro.
No entanto não me posso esquecer do já falecido, Manuel Ferrador,
pois com ele tive tardes inesquecíveis, bom companheiro!
Ao vermos uma fotografia onde José C. Hipólito estava na cabeça de
um possante toiro (510 Kg), diz-nos que esta pega se realizou na Nazaré.

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Este pigmeu com braços de aço, era a legenda de uma notícia, onde o
Timpanas era enaltecido por ter pegado um “bicho,” de 600 Kg, da
ganadaria da Casa Roberto numa corrida realizada aqui em Salvaterra
sua terra natal. “Olhe, aqui nesta foto, foi quando o Manuel dos Santos a
sua festa de despedida no Campo Pequeno. Neste grupo - o de Adelino
Carvalho estou eu e o Manuel Ferrador, tem uma dedicatória do Manuel
dos Santos, a mim.” “Numa digressão que fiz à China, a convite de
Manuel dos Santos, éramos três forcados, e pegamos toiros ainda em
Hon- Kong. As praças de toiros eram construídas em canas de bambu, e
comportavam cerca de 8 mil espectadores.
Numa dessas corridas, actuei nas pegas com as costelas partidas. Em
cerca de cinco meses que lá estive peguei 36 toiros, que foram levados
enjaulados em navios”.
E assim deixámos, o “Timpanas” de Salvaterra, esperançado no
reconhecimento do povo da sua terra pelo menos com uma palavra
amiga. Que a sua ambição se realize, dissemos-lhe!
Já em 2016, aproveitando uma exposição de vida, cerimónia levada a
cabo pelo Município de Salvaterra de Magos, à cavaleira tauromáquica;
Ana Batista, um espaço foi destinado para mostrar os valores deste
salvaterrense, que se enalteceu nas arenas, levando o nome da sua
terra a alguns cantos do mundo.

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49

VIII
PROF. ANTONIO GONÇALVES LOPES
(A saudade começou a 9 de Julho)

Cada geração tem destas coisas. Na minha meninice, as crianças não
conheciam o que é uma creche, nem sonhavam com a pré-primária, a
rua essa, era toda nossa !
O “Mosquito” e, o “Mundo de Aventuras”,
eram jornais de banda desenhada, que
serviam de inspiração às brincadeiras da
juventude da década de cinquenta.
Um exemplar custava 2$50 na época, e
muito choro dava a quem os queria comprar.
Com a GNR à perna, as brincadeiras noturnas terminavam com o
recolher das crianças por volta das 10 da noite., e se alguma fosse
apanhada, os pais eram multados.

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Aos 4/5 anos de idade, o convívio com o António Lopes, foi o início de
uma amizade duradoira. O Largo dos Combatentes (também conhecido
pelo largo do Manuel Lopes, avô paterno deste meu amigo), local térreo
onde as nossas brincadeiras ingénuas nos levavam ao desenvolvimento
físico. Mais tarde, na escola primária, a nossa amizade fortaleceu-se,
apesar de termos professores diferentes.
O António Lopes , nascido em 12 de Julho de 1943, de uma família
economicamente florescente para a época, continuou os seus estudos
em Santarém e, eu fico-me pelo mundo do trabalho logo aos treze anos
de idade, sendo o
nosso convívio a ser
mais limitado.
O

meu

amigo
António Lopes evoluiu
na sua carreira
académica no Instituto
Superior Técnico, no curso de engenharia, que interrompeu quando as
várias frentes da guerra ultramarina nos “apanha” na idade das sortes,
e da tropa. Em 1964, presta serviço militar com o posto de alferes
miliciano. De regresso à vida civil, no Instituto Superior de Educação
Física, frequentou o curso de educação física, o desporto foi a sua
actividade no ensino, como professor, nas escolas da sua terra. Contraiu
matrimónio com a professora; Maria Elisa Lázaro Ferreira (Lopes), do
qual nasceram os filhos; Pedro Jorge, e o António Miguel Ferreira Lopes.

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Pessoa dotada de grande espírito de colaboração, no ano de 1976,
quando das primeiras eleições autárquicas foi eleito pelo partido

socialista, como vereador na câmara municipal de Salvaterra de Magos.
No desempenho do cargo mostrou grande interesse em dotar a
população com novos edifícios escolares.
Mais tarde, no cargo de membro do conselho directivo, lá estava o
António Lopes a assistir, em 15 de Outubro de 1983, à inauguração da
escola secundária da vila que recebeu o nome de um outro ilustre
salvaterriano, Gregório Fernandes. Numa experiência de grande
inovação para a terra, com uns amigos instala na rua Luís de Camões,
um ginásio com várias actividades de manutenção, destacando-se um
método que aplica para os problemas respiratórios.
Infelizmente esta experiência empresarial dura pouco tempo, em
meados do ano de 1973, quando se encontra na companhia da família em
Sevilha (Espanha), a gozar um curto período de férias, é confrontado
com uma nova mobilização militar para Moçambique. Ali, foi prestar
serviço militar, com o posto de capitão, regressando em Dezembro
daquele ano, após mais seis meses de presença nas fileiras do exército
português. Faleceu a 9 Julho de 1990, com 47 anos de idade e desde
então, a saudade tem sido sentida pela família e pelo grande número de
amigos Em 1991 o edifício escolar, do ciclo preparatório, de Salvaterra
de Magos, quando aberto ao ensino recebe o seu nome, como
homenagem a título póstumo.
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52

XIX
PADRE, JOSÉ RODRIGUES DIOGO
Um Homem, uma Obra !
Naquele ano de 1945, era um dia de Verão, chegou a Salvaterra de
Magos, um jovem padre que vinha ocupar o cargo da paróquia local.
Tinha pouca experiência paroquiana, pois
havia deixado o seminário, onde foi educado
sobe as mais rígidas regras usadas nos finais
do séc. XIX.
O entusiasmo era grande, depressa como pastor, ao serviço da sua
causa, a Igreja Católica, apercebeu-se das grandes carências do seu
“rebanho”, pois a guerra tinha deixado ficar as suas mazelas.
O padre José Rodrigues Diogo, nascido em Seiça (Ourém) lá para os
lados de Torres Novas, em 1919, chegado à freguesia foi viveu para um

53

espaço, na Igreja Matriz, há muito destinado a residência dos
sacerdotes. Depressa foi com algum desespero que viu a forma de viver
destas gentes da Lezíria ribatejana. Os seus 26 anos de idade, deram-lhe
muitas forças e com a sua fé, começou a pensar em dar melhores
condições de vida às famílias, especialmente do povo rural, que na sua
maioria vivia em barracas, num terreno arenoso, junto ao cemitério da
vila e, que nos finais do séc. XIX, ainda pertencia ao pinhal da vila, restos
da que foi sua Coutada Real.
A fome acompanhada de uma forma de viver, onde as crianças na sua
maioria não iam à escola, pois eram encaminhadas param os trabalhos
do campo, logo nos primeiros anos de vida – o trabalho da grade.
Entretanto com o dinamismo próprio de quem sonha consegue – inicia a
construção de uma nova residência Paroquial, na Praça da República,
conseguindo da câmara municipal a doação do respectivo terreno.

Edifício da Casa Paroquial de Salvaterra de Magos
Foto de José Gameiro

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Em 1947, o padre José Diogo, iniciava a sua obra social, com a criação
do Centro de Assistência que, o governo legaliza através de um
despacho da secretaria de estado da segurança social. Recebeu de D.
Maria Carolina Rebelo de Andrade, a oferta de um edifício, na rua
Cândido dos Reis, onde é instalado aquele centro, com a sua creche.
Depressa conseguiu o apoio de algumas pessoas castas da terra e,
mesmo do concelho, para a oferta de cereais destinados às refeições,
que começou a distribuir, através da recém criada “Sopa dos Pobres”.
Para residência Paroquial
No entanto o seu grande
objectivo era a construção de um
bairro social, afim de acabar com
as barracas - uma forma de
habitação, considerada desumana
para as famílias pobres da terra
poderem viver com dignidade.
Quem se debruçar no estudo, da actividade do Centro Paroquial de
Bem-estar Social, entidade que sucedeu à Sopa dos Pobres, e Centro de
Assistência Social, poderá encontrar um trabalho

Lançamento 1ª Pedra - local
escolhido para
a construção do Bairro Social

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Cerimónia do Lançamento da 1ª Pedra, no primeiro terreno
escolhido para a construção do Bairro, uma obra da Igreja

Primeiras casa construídas no bairro social
Foto José Gameiro

de grande humanismo, onde muitos paroquianos colaboraram ao
longo dos anos, através da Fábrica da Igreja de Salvaterra de Magos. Em
1956, uma nova obra social dá os primeiros passos - O Património dos
Pobres.
O Património dos Pobres. O seu aparecimento, cria um fundo de
doações e legados destinados à construção de habitações sociais na
Paróquia de Salvaterra de Magos, que veio a comportar 150 casas, em
dois bairros a que foram dados os nomes de: S. Paulo. e S. José, com

rendas de valor social

O médico veterinário, José de Menezes e sua esposa, Maria de Lurdes
Vinagre, grandes proprietários na terra, e Manuel da Silva Valente,
oferecem terrenos, para tão importante obra social.

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A obra social, do Padre José Diogo, chegou ao fim em Salvaterra de
Magos, com o arranque dos trabalhos da construção de um moderno
edifício materno-infantil (creche).
O autor deste Apontamento, convidado em 1969, pelo padre Diogo para
integrar a direcção da Fábrica da Igreja (Centro Paroquial), com Refino
Morais Andrade, depressa sabem das grandes dificuldade porque passa
a Fábrica da Igreja, em levar a bom termo as suas obras em curso.
O padre Diogo, viu-se na necessidade
de fazer várias deslocações ao
estrangeiro,
para
junto
das
comunidades religiosos e não só,
angariar algumas verbas para
satisfazer compromissos financeiros
assumidos. Em outros projectos esteve
empenhado, como: A construção de
Igrejas – Foros de Salvaterra, Marinhais,
Glória do Ribatejo e Granho.
Uma área que, que também o atraiu, o Escutismo, levou-o a juntar a
juventude da terra, e fazer nascer em 1964, o Agrupamento local. Anos
antes da sua morte, o executivo da câmara municipal , prestou justa
homenagem a este homem que, tudo fez em prol do bem-estar do povo
de Salvaterra, dando o seu nome, a uma rua de acesso aos bairros
sociais da vila.
A população de Foros de Salvaterra, incluindo o lugar da Várgea
Fresca, em preito de homenagem, rogaram-lhe em 27 de Março de 1989,
que após a sua morte viesse a repousar no cemitério local, o que

57

aceitou. Aos 77 anos de idade, veio a falecer em Fátima, onde estava
recolhido, e ali junto aos Foreiros foi sepultado em campa rasa no dia 25
de Abril de 1987.
.
50 ANOS DO CENTRO PAROQUIAL
Para comemorar o 50º aniversário do Centro
Paroquial de Salvaterra de Magos, entendeu o
município, atribuir-lhe o galardão máximo do
concelho; A Medalha de Mérito Municipal “Grau
Ouro”, pelos serviços prestados com diploma
aprovado em deliberação de câmara municipal, no
dia 8 de Outubro de 1997, além de ser atribuído o
seu nome a uma artéria da urbanização do pinhal
da vila que, passou a ”Rua Centro Paroquial”,
mesmo ali junto àquela grande obra social que
iniciou - a Creche.

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X
DR. JOAQUIM GOMES DE CARVALHO
(Um Benemérito na Misericórdia Local)

Joaquim Gomes de Carvalho, nasceu no Brasil, filho de pais imigrantes,
atingindo a idade dos estudos, veio para Portugal, estudar medicina,
acabando por se licenciar. Casou com D. Mariana Calado, oriunda de
uma abastada família alentejana, vindo para Salvaterra de Magos, onde
abriu consultório. Com a medicina praticada com o decorrer dos
tempos, era um respeitado médico na época. Durante anos foi

No Almoço comemorativo, dos 100 anos
da Farmácia Carvalho, o
, Dr. Joaquim Gomes de Carvalho, é o 4º (lado direito)
*O autor também esteve nesta comemoração
(5º lado esquerdo)

59

Delegado de Saúde Pública, no concelho e fez oferta dos seus serviços
clínicos, à Santa Casa da Misericórdia de Salvaterra de Magos, durante
largo tempo. Um dia, por volta 1939, sonhou, com um Parque Infantil
para as crianças na terra, e disso deu conta escrevendo num artigo,
com o titulo “A Obra de Protecção á Infância em Salvaterra de Magos
que ocupou a página 184, do Jornal Ilustrado Português “A Hora”, de
1939, que dedicava a sua edição ao concelho, no entanto foi uma obra
que outros viriam a concretizar só em 1975.
A Misericórdia local, em devido tempo, prestou-lhe uma homenagem,
agradecendo os favores recebidos, de tão grande benemerência para
com os pobres doentes daquela casa. Também o Ministério dos Assuntos
Sociais, em 3 de Abril de 1979, através do seu ministro, Acácio Manuel
Pereira Magro, fez sair em Diário da República daquele ano, o despacho
ministerial:

“ Por relevantes serviços prestados à saúde pública, ao longo de
quarenta anos, como Delegado de Saúde no Centro de Saúde do
Concelho de Salvaterra de Magos, condecoro o Dr. Joaquim Gomes de
Carvalho, com a medalha de prata de comportamento exemplar do
Ministério”
Nos últimos anos do mandato autárquico, da Junta de Freguesia de
Salvaterra de Magos, chefiado por João Nunes dos Santos, algumas ruas
da freguesia, receberam novos nomes toponímicos, onde calhou
também uma ao Dr. Joaquim Gomes de Carvalho
*********

60

XI

JOSE LUÍS SERRA BORREGO, e JOSÉ
TEODORO AMARO

( homens de boas causas)
Cada sonho, cada realização, torna o ser humano mais digno de si
mesmo. Nas boas causas que abraça, o homem liberta-se !
A dignidade, está também visível na forma de vida que em união de
esforços consegue buscar para si, ou para o bem estar da comunidade
onde está inserido. Em Portugal, os lares para idosos não eram e, ainda
não são bem aceites pelas gerações, que foram educadas onde o dogma
é a família e, a sua respeitabilidade indelével.
Aqui em Salvaterra, “os velhos” sempre viveram e acabaram os seus
últimos dias de vida, dependendo das disponibilidades e carinhos dos
filhos, ou familiares mais próximos.

61

Na década de 70, as instituições de solidariedade social, mormente as
misericórdias levaram a cabo no nosso país, a implementação dos
Centros de Dia para Idosos, ou mesmo a criação de lares com
internamento.
No mês de Maio de 1980, no programa “As cidades e as Serras” da
Rádio Comercial, foi dado a conhecer ao público português, uma notícia
cujo original o autor deste trabalho, fez publicar no já extinto jornal
“Aurora do Ribatejo”.
Uma iniciativa levada a cabo, em Salvaterra de Magos, por um grupo
de amigos da Santa Casa da Misericórdia local que, constava do esforço
para tornar realidade a criação de um Centro de Dia para Idosos.

Grupo de amigos da Misericórdia, em dia de Peditório, para a construção do novo
Centro Dia – Praça da República * Foto José Gameiro

Grupo que iniciou fundou o Centro de Dia em Salvaterra de Magos, Praça da República * José R Gameiro, José Luis Borrego, Armando

62

Oliveira, José Teodoro Amaro, José da Silva, João Castanheira, Eurico
Borrego, João Nunes da Silva. A chamada terceira idade, tem dado
assunto para páginas e páginas de literatura, horas de conferências,
onde ficaram registadas sábias lições sobre gerontologia.
Naquela iniciativa, de boa vontade, lá estava o grupo de oito amigos de
boas causas. Sendo um peditório feito à população da vila, previamente
anunciado, não teve a recetividade esperada, o povo alheou-se de
comparticipar, e magros proventos foram contabilizados após tão
cansativa missão.

José Teodoro Amaro, junto das funcionários juntos
do carro (novo meio de transporte), para recolha de
idosos para o Centro de Dia * Foto José Gameiro

No entanto, o Centro de Dia, foi inaugurado no dia 3 de Junho de 1985.,
e as inscrições passaram a pertencer a uma lista de espera. Os
dirigentes, mais activos: José Teodoro Amaro e José Luís Serra Borrego,
promoveram um serviço de apoio aos idosos no seu domicílio, foi uma
iniciativa que viria a servir de projecto para levar a cabo a nível
nacional, pois as visitas de outras instituições eram periódicas.

63

LAR DE IDOSOS E CENTRO DE DIA DA MISERICÓRDIA

No dia 15 de Abril de 1992, a comunicação social, noticiava a
inauguração do edifício do Lar para Idosos com Centro de Dia,
construído pela Misericórdia de Salvaterra de Magos, uma iniciativa do
mesmo grupo de amigos da instituição que anos antes já tinha criado o
Centro de Dia, na Praça da República da vila. Ao acto solene da
inauguração, esteve presente o Secretario de Estado da Segurança
Social, Dr. Vieira de Castro.
Entre a multidão anónima lá estava, alguns dos oito obreiros do
projecto que, desde 1997, esperaram a aprovação no Departamento de
Equipamento Social, do Ministério da Segurança Social que veio apoiar a
sua construção.
O então provedor da Santa Casa, Armando Rafael Oliveira naquele dia
memorável, para a história da Santa Casa de Salvaterra de Magos, fez
da sua intervenção, as palavras que decerto seriam de todos, mesmo
daqueles ausentes e que se tinham empenhado na concretização daquela
obra.

“Para que a velhice não seja um peso, mas sim um continuar da vida,
onde o amor e fraternidade são postos ao serviço do seu semelhante seja tudo isto o que damos aos outros, faz-nos mais humildes e felizes,
segundo disse: Rafael Oliveira”.
Chorar de emoção, em dia de alegria !

64

Naquele momento, muitos de nós, os poucos obreiros ali presentes, não
deixaram de ver uma lágrima de emoção, lembrando o entusiasmo e
esforço denodado que o José Luís, José Teodoro Amaro, se tinham
empenhado, naquela obra. O José Luís Borrego, foi músico, durante
dezenas de anos na banda de música dos bombeiros, empenhou-se
naquilo que gostava. Nas instituições, por onde passou foi um homem
que defendeu o bem da sua terra, aceitando ocupar os cargos com
espírito de solidariedade e bem servir, como foi ocupar a presidência da
Junta de Freguesia da terra onde nasceu. O José Luís, tinha-nos
deixado há pouco, após uma doença prolongada que, o vinha
apoquentando há anos.
O José Teodoro Amaro, nasceu em Salvaterra de Magos, na
juventude aprendeu o ofício de carpinteiro civil, depressa não deixou de
prestar apoio às instituições da terra, os bombeiros foi uma delas. Já
como comerciante, empenhou-se na fundação de uma Associação de
Comerciantes do concelho de Salvaterra de Magos, que teve associada
uma outra do concelho de Coruche. Como autarca, empenhou-se e deu o
seu contributo no aparecimento da Escola Secundária “Dr. Gregório
Fernandes”. A família, os amigos e, as instituições da vila sentiram a
perda destes dois homens que em vida foram solidários, com a
comunidade onde viveram.

**************
**********

65

XII
JOÃO MANUEL
SANTA BÁRBARA DOS SANTOS
(UMA GLORIA NO ANDEBOL PORTUGUÊS)

O desporto levou-o aos píncaros da fama !
O Andebol, ainda não é uma modalidade muito antiga praticada em
Portugal, documentos informam-nos que uma variante – onze jogadores,
foi praticada na cidade do Porto, em 1929.
Nos anos 1967/68, em Salvaterra de Magos,
a modalidade tinha sido implementada e, poucos
anos depois, era já uma referência para a
juventude da terra. Todos os jovens,
especialmente os rapazes, procuravam praticar
o andebol, o pavilhão desportivo da casa do povo, tornava-se já pequeno
para tanta procura.
De uns tantos que singraram na prática deste desporto, alguns foram
“cobiçados” por clubes credenciados no panorama desportivo
português.
Caso, de Vitor Cabaço, Júlio Piçarra, António Figueiredo e João Santa
Bárbara.
Este último, pela sua excecional carreira de atleta, representando
vários clubes e, a selecção nacional, veio a ser galardoado com a
medalha de mérito desportivo, em documento oficial onde consta o
seguinte:

66

MEDALHA DE MERITO DESPORTIVO,
ATRUIBUIDA A JOÃO SANTA BARBARA

“Considerando a excecional carreira de João Manuel
Santa Bárbara dos Santos, como praticante de andebol;
e tendo em atenção que é considerado o atleta mais
internacional na modalidade de andebol.
Considerando que representou a selecção nacional
por 108 vezes, tendo sido capitão por 49 vezes;
Considerando que, ao lado destes números, assumiu
sempre uma postura ética; Considerando que foi várias
vezes distinguido com o prémio de melhor guardaredes, e melhor jogador.”
Determina-se:
“ É concedida a João Manuel Santa Bárbara dos
Santos, a medalha de mérito desportivo, nos termos dos
art.º 3º e 6º do decreto-lei 55/86, de 15-3 ”
08 de Janeiro de 1993
O Ministro da Educação,

António Fernando Couto dos Santos

67

XIII
JOSÉ ANTÓNIO DAMÁSIO LAPA
“ O Dezoito”
Em criança, andou comigo na escola, pouco aprendeu. Na rua,
brincamos as mesmas brincadeiras.
Um dia, ainda jovens rapaz, como tantos
outros membros da sua família - os Lapas; já
o tinham feito, foi aprender o ofício da
construção civil, e Pedreiro foi a sua
profissão.
As suas dificuldades de perceber a escrita, levava-o quando disso
carecia, a procurar-me.
O seu espirito altruísta, começou a revelar-se ainda jovem, ao entrar
como voluntário, nos bombeiros de Salvaterra, onde seu irmão Eugênio
já “militava”. Foi-lhe atribuído o número 18, na corporação, que veio a
ajustar-se à sua traquinice. Depressa, passou a ser uma pessoa muito
solicitada, pois a sua disponibilidade em ajudar os outros era constante.
O José António “o dezoito “ , raro era o mês que não fosse dar sangue
para alguém que estivesse hospitalizado e, precisa-se daquele bem tão
preciso para a vida humana.

68

No entanto foi essa mesma vida, muito madrasta para com ele, pois
vários infortúnios familiares, levaram-no a procurar a bebida, o álcool
era o seu refúgio.
Ainda novo, ficou sem duas
companheiras queridas, as
mortes da mulher e da mãe, foi o
inicio de uma pesada caminhada
que, pelo rumo da sua desdita
culminou com a morte do filho,
ainda na pujança da juventude.

O Dezoito na escadaria de uma Instituição Bancária

Na rua, as escadas e bancos dos jardins, eram os lugares onde o
encontrávamos, sempre brincalhão e, por vezes conflituoso, servindo de
bobo as jovens e adultos, quando em estando de embriaguez. Ainda, e

69

sempre disponível, para a sua jornada de bem-fazer, continuava a dar
sangue, a quem dele precisava. Um dia de 1979, recebeu uma carta, e
como era habitual em mim se socorreu para a sua leitura.
Estava nervoso, era uma carta do Estado, e tinha razão para isso; O
Instituto Português do Sangue (IPS), tinha-o galardoado, recebeu o
diploma e medalha de mérito daquela instituição, pelas suas 70 vezes,
como dador benévolo de sangue, mas a sua vida de boémio, continuou
na mesma, passou a viver de pequenos “biscates” de trabalhos de
pedreiro.
Alguns anos passaram, agora após uma trombose, que lhe tolheu
parte do corpo, aos 60 anos de idade está recolhido no Lar da Santa
Casa da Misericórdia de Salvaterra de Magos, onde vive sossegadamente
amparado a uma bengala, e sem beber álcool, esquecido pela
comunidade, especialmente, de quem dele muito precisou.

**************
***********

70

BIBLIOGRAFIA USADA:

* I - Pág 17 Gaspar Costa Ramalho: Artigo Jornal Vale do Tejo
- JVT 139 – 12/3/98 * JVT 196 –28/10/1999 * II – Pág 31 Dr.
Gregório Fernandes: Pág. 35 * JVT 144 –21/5/1998* III –
Henrique Xavier Baeta (Internet) * IV –Pág 34 Irmãos
Roberto(s), Semanário “Branco e Negro” N.º 66 de 4/7/1897 –
Jornal “ O Ribatejo” - JVT 154 – 5/11/1998 * V – Pág 41 Dr.
António Viana Ferreira Roquette – Revista A Hora edição
1939 * VI – Pág.43 José Maria Vasconcellos e Sousa - Internet
*VII – Pág.46 José Carlos Hipólito “O Timpanas” -: Aurora do
Ribatejo –25/12/1 * JVT 146 – 18/6/1998 * VIII – Pág 49
António Manuel Gonçalves Lopes,: JVT – 1983 * JVT 147 –
2/7/98 * XIX – Pág 52 – Pe José Rodrigues Diogo:, JVT
7/7/1995 * JVT 30/4/97 * JVT –15/12/1987 ( Creche do Centro
Paroquial) * X – Pág 58 - Dr. Joaquim Gomes de Carvalho:
Revista a “Hora” –1939 * DR - 3/4/1998 * XI – Pág 60 - José
Luís Serra Borrego e José Teodoro Amaro JVT 148 –
16/7/1898 * XII – Pág 67 João Manuel Santa Bárbara dos
Santos * XIII - Pág.70 José António Damásio Lapa “O Dezoito”,
JVT 336 – 4/7/00
FOTOS USADAS:
 Autor e a/d

71

COLECÇÃO DE APONTAMENTOS nº 9
CADERNO DE APONTAMENTOS Nº 9

Documentos para a história
de

SALVATERRA DE MAGOS
Património:
Geográfico, Monumental, Cultural, Social, Político,
Económico e Desportivo
Séc. .XIII – Séc. XXI

QUANDO VINDIMAR ERA UMA FESTA

Autor
JOSÉ GAMEIRO

72

Primeira Edição
FICHA TECNICA:
Titulo:
QUANDO VINDIMAR ERA UMA FESTA
Tipo de Encadernação: Brochado (Papel A5)
Autor: Gameiro, José
Colecção: RECORDAR, TAMBÉM É RECONSTRUIR !
Editor Gameiro, José Rodrigues
Edição: 100 exemplares – Março 2007
Morada: Bº Pinhal da Vila – Rua Padre Cruz, 64-1º
Localidade: Salvaterra de Magos
Código Postal: 2120- 059 SALVATERRA DE MAGOS
ISBN:
978– 989 – 8071 – 09 – 5

Depósito Legal: 256461/ 07
************* *******

73

Fotos da Capa: Em dia de Vindima, mulher com cesto de uvas à cabeça - 1970

74

************* *******

2ª edição Revista e Aumentada – Março 2015
*****************************

Contactos: Tel. 263 504 458 * Telem. 918 905 704
e-mail: josergameiro@sapo.pt
******************

O texto desta edição não segue o acordo ortográfico de 1990

75

O MEU CONTRIBUTO
Não só pelos meus companheiros de meninice, onde
as brincadeiras diárias na rua, que era nossa nunca tinham fim - mas para que toda aquela
cambada de rapazes, do tempo da escola, não seja
esquecida, é dedicado este trabalho! Uma boa meia
dúzia de anos, não tinha ainda passado, do após
guerra, entre outras coisas, a penúria da fome e, o
andar descalço, que para a maioria
das crianças, não era um desejo, mas
um sofrimento, também existia
nesta terra. Quando chegavam as
vindimas, todos os anos, corria-mos
desesperados, à velha ponte da vala
real, atrás dos carros, para o “roubo” de um cacho
de uvas. O “assalto”, se fosse bem sucedido, seria ali
a única oportunidade do ano, para alguns
provarem aquele fruto, mas normalmente era
acompanhado por uma varada, ou o chicote que
zurziam no ar. “Grande Cambada! Rapazes dum
corno” que, me estragam a carrada toda”, gritavam
os carroceiros, ou os condutores das juntas de bois
que
pachorrentos
faziam
a
caminhada
transportando as dornas de uva, do campo até às
adegas. na vila.
Março: 2015

JOSE GAMEIRO
(José Rodrigues Gameiro)

76

QUANDO VINDIMAR ERA UMA FESTA!

Em 1953, naquela tarde, já com Verão a dar sinais de dar lugar ao
Outono, ainda a mulher rural à soleira da porta, aproveitava a sombra, e
o silêncio que envolvia a sua casa, para passajar algumas roupas,
“sonhando” com o mês de S. Miguel, setembro era mês das vindimas.
Uns tempos antes com o
calor a fazer correr o suor na
cara, tinham terminado, as
ceifas e as eiras, ocupando
grandes ranchos de homens e
mulheres.
A mecanização dos trabalhos do campo, já se fazia notar com a
presença de algumas máquinas agrícolas, como; tractores,
debulhadoras e enfardadeiras. O uso do gado por sua vez estava a
ser substituído progressivamente nos trabalhos da grade e, no
lavrar das terras, as tralhoadas, era agora mais escasso, deixavam
de existir. A lavoura tradicional de muitos séculos, estava em
transformação, os campos da Lezíria Ribatejana, desde o século
anterior que estavam estudados, e até se escreveu “Terrenos
com bacias aluvionares de espaços lodosos férteis, chegam a
atingir os 30 metros de profundidade nos campos de Vila
Franca e, 50 no mar da Palha”, “estas profundezas, que vêm
desde o período;

77

Quaternário, acentuaram a actual bordadura do Vale do rio Tejo que,
confina com uma outra a do Sado.”
As vinhas plantadas em grandes arroteamentos, nos meados do séc.
XIX, foi um trabalho lento, em terrenos junto à imensa margem do leito
do rio e, naquele ano de 1953, um manto pardo escuro prometia dar uma
grande produção de uva.
A fama dos vinhos do Ribatejo é anterior à fundação da nacionalidade,
referiu-se a eles D. Afonso Henriques, em 1170, no foro da cidade de
Santarém. Também Gil Vicente, no auto “ Pranto de Maria Parda”, alguns

séculos depois continuam a ser procurados

O clima do Ribatejo mediterrâneo, temperado dada a proximidade da
bacia do rio que a banha, com uma queda anual pluviométrica, verificada
nos últimos 50 anos em cerca de 500-600 mm.
A moderna nomenclatura, que agrega os vários padrões agrícolas na
área da vinicultura, existe regiões como a “Lezíria, ou borda-d’água”, o
“Bairro” e a Charneca”. Terras que são contempladas pela riqueza da
bacia hídrica do rio Tejo. Na planície ribatejana com suas terras de
Lezíria, onde os terrenos de aluvião, sendo inundáveis, têm no seu solo a
humidade necessária para a cultura da vinha e dos cereais.
O “Bairro”, são terras localizadas na margem direita do rio Tejo, tem
nos seus solos arenitos, calcários e argilosos, onde a vinha não tem a
importância que é dada à oliveira e outras culturas arbustivas e
arbóreas.

78

A “Charneca”, são terrenos que se estendem desde a margem
esquerda do rio até ao Alentejo, detentores de solos pobres, como os
areno-arenosos, são revestidos de floresta que a enriquecem, onde
predomina o sobreiro.
As suas areias quentes pelo sol, têm uma grande importância no grau
alcoólico dos vinhos ali produzidos.
Por volta de 1950, os tradicionais carros de bois e carroças, com as
dornas de madeira, davam lugar aos transportes motorizados.
Camionetas de carga e, tractores com reboques, eram agora a grande
novidade nos trabalhos agrícolas.
As adegas também tinham sofrido as necessárias adaptações para
este género de transportes e cargas, agora mais rápidas, em relação à
tradicional descarga das dornas, onde o homem usava a forquilha (ou
gadanho), o esmagar das uvas é agora em modernas adegas e, em
muitas já com sistema eletrónico e computorizado.
Sabia o agricultor/vinicultor de Salvaterra, da baixa graduação do
vinho dali extraído, em contraste com os dos terrenos areno-arenosos
da charneca. Destes provinha um grau alcoólico, de grande qualidade
que, juntos dava bons lotes de vinho para comercializar, especialmente
para Lisboa. O inicio do Outono, estava próximo, havia nos agricultores,
quem deixasse para o mês Outubro, por todos conhecido por - Piedade,
para “arrumar o campo” das terras baixas, frescas férteis, recolher o
gado às terras altas da charneca.
Na linguagem do calendário do homem rural, o ano era conhecido e

79

repartido por alguns meses sem santos: Assim tinham: Janeiro,
Fevereiro, Março, Abril, Maio, S. João, S. Tiago, Agosto, S. Miguel, Piedade,
Santos e Natal.
AS PRAÇAS DA JORNA

Ao Domingo, após o almoço, as mulheres, algumas com os filhos
pequenos, iam à praça da jorna,
na Av. junto ao armazém
(taberna) do Dr. Lino. Em
pequenos grupos algumas
sentadas no chão, porque a
tarde era longa, esperavam
que fossem “faladas”, para a
semana seguinte. Os homens
por sua vez preferiam juntarem-se junto aos muros dos currais da Casa
Freire. Estes mercados de “apanhar” trabalho, estavam também a sofrer
algumas mudanças, após muitas e muitas dezenas de anos de uso (2).
*********
*********
(2)- Os mais antigos ainda se lembravam da Praça da Jorna, ser junto ao
Cruzeiro, na rua do Calvário, este depois transferido para o cemitério da
freguesia, por volta de 1925.

*******

********

Os agricultores, ou os seareiros sazonais, utilizavam as rainhas para
as mulheres e, os capatazes para os homens que, se encarregavam de
contratar (falar) aos trabalhadores necessários para a faina semanal.

80

O homem rural, esse, estava também a mudar os seus hábitos de
transporte, a bicicleta era agora o seu meio de deslocação pelos
caminhos do campo, enquanto a
mulher ainda se deslocava a pé,
percorrendo grandes distâncias,
muitas vezes com os filhos à ilharga.
O esmagamento da uva ainda era
feito à moda antiga, num pisar leve e
suave, por um grupo de homens jovens que, no lagar da adega iam dando
voltas sem fim, em posição de alinhamento, com as mãos nos ombros,
uns dos outros, para que o passo fosse certo e cadenciado.
Todo aquele mundo de prensas e lagares na antiga adega do Gaspar
Ramalho, mais tarde vendida a Francisco Ribeiro “Ribeiro Minhoto”,
estava sempre numa grande azáfama.
No campo, as mulheres usavam a entretenga das cantigas, com o
cortar dos cachos de uva, passando o tempo - utilizando o verso – no
verbo de dizer mal e bem, até mesmo o escárnio. Se no grupo estivesse
alguém, passando um mau bocado, na sua vida privada, logo era alvo de
cantigas de mal dizer:

81

1935 - Pisando a uva, nos lagares da antiga Adega
de Gaspar Costa Ramalho

Para quem no seu, o olho alivia !
Tarde ou cedo, o saco no ombro pesará !
Foi-se a riqueza que teria !
Pedindo aqui e ali, comerá !
As raparigas solteiras, que se descuidavam, no namorico, sofriam
com o escárnio de uma cantadeira mais afoita.

Nos dias grandes, para comer à melão !
Tomate quente, nem vê-lo !
Tens a barriga cheia, que nem um leão !
Quem teria sido o gajo a mete-lo !
Muitas destes escárnios e cantigas, são agora conservadas pelos
ranchos folclóricos !
AS VINHAS

O segundo e terceiro quartel foram de intensa actividade vinícola, mas
chegados ao dobrar do século XX, era notório o abrandamento desta
actividade, até porque a produção já estava regulada pela Junta Nacional
dos Vinhos – JNV, mais tarde substituída pelo Instituto do Vinho.

82

Nos campos de Salvaterra, dos antigos vinicultores como: Irmãos
Roberto, António Jorge Carvalho, Roquette (Barão de Salvaterra),
Gaspar Costa Ramalho e José de Menezes e Irmão, à muito tinham
deixado a vinicultura.
Ainda persistiam e tinhas as adegas abertas, Dr. José Henriques Lino,
José Adelino Fernandes, Dr. José Cardador, Alberto Lapa, Virgolino
Torroaes, Conde Monte Real, António H. Antunes,
A grande adega e vinhedos de Gaspar Ramalho, à muitos anos já era
pertença de Francisco Ribeiro, um conceituado agricultor do Cartaxo.
Devido à natureza do fruto, a vindima tinha que ser rápida, cerca de
três semanas, mobilizava muita gente, especialmente mulheres
.

Vinha no campo de Salvaterra - Lezíria ribatejana, junto ao Rio Tejo

83

A ENTREGA DA BANDEIRA !

Quando estava prestes a terminar a faina, as vindimadoras,
especialmente as jovens raparigas, nos últimos dias, era com grande
entusiasmo que faziam a “Bandeira”, colocada na última dorna de uvas,
depois era acompanhada pelo rancho e, em cânticos percorriam as ruas
da vila até à adega, fazendo a entrega ao patrão.
Por fim metia um pé de dança, com os pisadores da uva, junto à adega
e, era esperar até ao ano seguinte !
Entre outras cantigas, ouviam-se os versos:

A vindima do nosso patrão, já terminou !
Deus lhe dê boa aguardente e vinho !
A nós ter trabalho, muito ajudou !
Agora é esperar até ao S. Martinho !
Os trabalhadores mais endinheirados, lá compravam um garrafão de
Água-pé, pelo São Martinho, pois também era a época das castanhas
assadas. Os tempos mudaram, nos anos da década de 90, com
imposições vindas da

, na

1950 Trabalhadores
entregam a
bandeira
Adega da Casa
Henriques Lino

84

comunidade europeia, Portugal viu muitos terrenos deixarem de ter
vinhedos, que passaram a ser utilizados para outro tipo de agricultura,
especialmente a de regadio, onde a cultura da
cenoura e tomate passou a ter lugar de destaque, nos campos de
Salvaterra de Magos
Nas poucas vindimas que ainda existem, nem se dá pela presença da
mão-de-obra feminina, até a do homem é escassa. Vindimar é agora
triste como um funeral, frio e silencioso !
O ASSALTO ÁS DORNAS !
Aquela espera, muitas vezes de horas, era alertada pelo grito de “lá
vem um !...
Logo o rapazio que descalço estava jogando a bola no caia da vala,
depois do horário escolar, depressa preparavam os “ganchos de
arame”, (as ganchetas / ou fateixas) para o assalto às

Rapazes (descalços), sentados na Ponte,
esperando a chegada dos carros com uvas,
o autor é o penúltimo da fila

85

dornas de uvas, nos carros de bois, ou carroças que se aproximavam
da ponte.
Tal desejo de comer algumas uvas era muitas vezes infrutífero, pois o
condutor do carro já preparado dificultava a investida dos mais afoitos,
pois a vara e, o chicote zumbiam no ar. O pouco tempo que se tinha para
actuar - no atravessar da ponte – levava a que muitos, desistissem de
tamanha ousadia. Os rapazes mais lestos de lançamento das armas,
“esses terríveis instrumentos”, quando tinham a sorte de “ferrar”, a
maior parte das vezes, deixavam cair por terra o fruto tão apetecido,
que se resumia afinal a um pequeno e “esfarelado” cacho de uvas sendo
logo comido numa sofreguice.

Um ou outro, ainda lá ia à Fonte do Celeiro da Companhia, junto à
taberna do Camilo Espanhol, lavar do mostro, aqueles poucos bagos, pois
eram muitas vezes os únicos que, comiam durante o ano.

86

ADEGAS E VINICULTORES DE OUTROS TEMPOS !

A moderna nomenclatura, que agrega os vários padrões agrícolas na
área da vinicultura, do Ribatejo, regista regiões como a “Lezíria, ou
borda-d’água”, o “Bairro” e a Charneca”. Terras que são contempladas
pela riqueza da bacia hídrica do rio Tejo. Na planície ribatejana com suas
terras de Lezíria, onde os terrenos de aluvião, sendo inundáveis, têm no
seu solo a humidade necessária para a cultura da vinha e dos cereais.
O “Bairro”, são terras localizadas na margem direita do rio Tejo, tem
nos seus solos arenitos, calcários e argilosos, onde a vinha não tem a
importância que é dada à oliveira e outras culturas arbustivas e
arbóreas.
A “Charneca”, são terrenos que se estendem desde a margem
esquerda do rio até ao Alentejo, detentores de solos pobres, como os
areno-arenosos, são revestidos de floresta que a enriquecem, onde
predomina o sobreiro.
As suas areias quentes pelo sol, têm uma grande importância no grau
alcoólico dos vinhos ali produzidos. Algumas publicações guardam a
quantidade de vinho produzido e registado em Salvaterra de Magos
* 1933 – 35.017.840 (litros)
* 1936 – 2.366.220 (litros)
* 1939 – 3.707.000 (litros)

87

VITIVINICULTORES
GASPAR COSTA RAMALHO

Abastado Lavrador/Vinicultor, com três grandes edifícios, de adegas,
num deles com caldeira para a destilação da aguardente. Durante a sua
vida não deixou de praticar filantropia às gentes e instituições da sua
terra.
Quando da sua construção, já foram usados
os depósitos em cimento que, vinham substituir
os antigos túneis de madeira e, ali guardavam
milhares de hl de vinho, ainda por trânsfuga.
A adega de Gaspar Ramalho, construída por
volta de 1900, no espaço onde existiu o novo edifício das damas, e dele
usou a pedra A adega foi demolida no ano de 1988, para dar lugar a uma
nova área de urbanização de habitação e comercio.

Largo dos
Combatentes –
Edifício da Adega
Que um dia foi
construída por
Gaspar Ramalho,
em tempo de
destruição

88

CASA AGRICOLA FRANCISCO
FERREIRA LINO
Agricultor/vinicultor: Francisco Ferreira Lino,
foi um grande benemérito da sua terra natal,
Salvaterra de Magos. Em 1858, mandou construir
a sua adega em terreno limpo, na rua do Calvário,
próximo dos moinhos da vila. Anos depois, por volta de 1912, com a nova
urbanização na zona, após o terramoto de 1909, a existência do edifício
ajudou a “alindar” os arruamentos ali abertos.
O acesso pela nova rua –
Marquês de Pombal, uma moderna
caldeira de destilação de
aguardente, foi instalada.
O
edifício foi demolido em 2000,
dando o seu espaço lugar à
construção de uma nova
urbanização de habitações e áreas
comerciais.
Mais tarde, seu filho Dr. José
Henriques Lino, especializado em
Agronomia, foi professor na
Escola Agrícola de
Santarém,

Edifício que foi Adega da
Família Henriques Lino,
em fase desmantelamento

89

continuou a tradicional “Faina Agrícola” da casa Lino, tendo a sua
habitação Omina.
O bisneto, José Durão Lino, neste início do séc. XXI, sucedeu a seu pai,
o Eng.º Francisco Manuel Lino, na responsabilidade de continuar a
atividade desta secular e afamada casa agrícola. (*)

José Durão Lino
*******

********

1950 Adegueiro – José Rato

90

*******

******

(*) - Um seu adegueiro, de nome José Rato, durante anos
ajudou a afamar os vinhos e aguardentes desta casa agrícola,
pela arte e saber que tinha neste género de trabalhos, usando
nos transportes dos barris uma carroça construída em ferro

*******

******
CASA AGRÍCOLA DO BARÃO
DE SALVATERRA DE MAGOS

(Luiz Ferreira Roquette de Melo Travassos)

Vinha muito detrás a árvore genealógica da família Roquette, mas foi
em 1770, que Luiz Ferreira Roquette de Melo Travassos, recebeu o título
de Barão.
A família muito investiu na compra de
grandes manchas de terrenos em
propriedades que estavam espalhadas pelo
novo ordenamento do concelho de Salvaterra
de Magos, após a venda da casa real.
Os vinhedos, especialmente os dos campos de
Salvaterra, eram a principal fonte dos vinhos
desta casa agrícola.
A grande adega Instalada nos seus terrenos na Av. do Calvário, (mais
tarde; Vicente Lucas de Aguiar, agora com o nome do Dr. Roberto
Ferreira da Fonseca), era para a época, uma referência em todo o
Ribatejo, deixou de trabalhar, por volta de 1940, com o progressivo

91

abandono da actividade agrícola da família.. Com o decorrer dos anos o
seu estado de ruína era um facto, sendo mais visível
com o telhado a cair.. Em Novembro de 2002, foi totalmente demolido,
para dar lugar a uma nova urbanização de habitações e comércio.

1996 - As ruínas da antiga adega
,família Roquette (Avª Dr. Roberto da Fonseca)

urbanização no espaço onde existiu a Adega da
Família Roquette

92

CASA AGRÍCOLA COSTA FREIRE
Esta família tendo sido brasonada, em
1749, através de José dos Santos Freire,
homem da casa real de Salvaterra, ao longo
dos séculos teve na agricultora a sua forma
de actividade.
Propriedades que foram terras desta
casa, como: Fazendas da Lezíria de Sacra Botão, Cortes da Pardaleira

dos Cavalos, D. Verdeana, Cágados, Sesmarias de D. Maria, Nogueira,
Chaparral de Pêro Galego e Boinheiras, eram muitas entre a mais
importante, a Corredora da Caldeira, conhecida pelo nome do “Marquez
dos Freiras” Com seu solar, na rua João Gomes, além de vários
palheiros e armazéns na vila, a adega estava instalada nos antigas
cocheiras do palácio real, hoje junto à EN 118.

CASA AGRÍCOLA IRMÃOS ROBERTO

Na casa agrícola Roberto, as searas de sequeiro, a par da criação de
gado, especialmente o toiro bravo., foram sempre a sua maior actividade
agrícola, desde os irmãos Roberto, Jacob e Vicente, até aos seus
sobrinhos. Uns anos antes de 1940, a zona sul de Salvaterra de Magos,
passou a comportar a passagem da EN 118. Uma outra pequena via, a 1182, foi construída fazendo a ligação da vila, até a um cruzamento, que o
povo

93

chamava sitio das cavalariças. Antes era um
caminho aberto, no início do séc. XX, que tinha
num dos lados um valado. No outro lado ainda
existiam velhas construções que foram
antigas instalações que vinham do tempo do
palácio real. Era aí que a casa agrícola dos
irmãos Roberto, tinha a sua antiga adega. No
dobrar daquele século já a estrada se apresentava ladeada de celeiro.

ANTONIO JORGE DE CARVALHO
Homem dotado de grande espírito de iniciativa,
no campo empresarial e comercial, onde se
destacava uma farmácia. Na agricultura
manifestou grande empenho, tendo no campo de
Salvaterra, alguns terrenos de vinhedos, que lhe
deram fama no produto final- o vinho.
No início do século XX,
para além da Loja de
Drogas/Mercearia, e da
Farmácia,
mandou
construir um grande
edifício, para adega nos
restos do que foi o palácio
real, no Largo dos Combatentes.

94

Nos primeiros tempos serviu
de garagem para as
camionetas da carreiras,
depois já transformado em
adega, com grandes lagares e
tonéis em madeira, recebiam
os primeiros líquidos da uva.
Uma grande e moderna caldeira, fazia aguardente. Depois da sua morte,
seu genro António Henriques de Sousa Antunes, continuou com a
vitivinicultura, e também aproveitou para Armazém de vinhos um outro
edifício, que em tempos tinha servido para a realização de peças
teatrais de um grupo existente na vila

ALBERTO DOS SANTOS LAPA
A entrada da sua adega, era pela EN 118, as janelas na rua Heróis de
Chaves, recebiam as descargas da uva, no
interior além dos lagares existiam filas de
túneis de madeira, albergando muitos hl de
vinho.

Adega de Alberto Lapa

95

Seguindo as pisadas do pai, António Lapa, também se dedicou com
afinco à criação do gado cavalar.
A cultura da vinha e do vinho, promovido por este agricultor, no último
quartel do séc. XIX e primeira metade do séc. XX, muito contribuiu na
área da economia de Salvaterra.

CASA AGRICOLA MONTE REAL

Há mais de 100 anos que a vinicultura existiam nas propriedades, hoje
da casa Monte Real, registos existem que desde os finais do século XX, a
família Brito Seabra, tinha terras de aluvião, na margem Sul do rio Tejo.
Jorge de Melo e Faro, II Conde Monte Real, no primeiro quartel deste
século, já na posse daquelas propriedades de José Luís Brito Seabra,
incluindo

A residência solarenga, por volta de 1930, continuou a actividade
agrícola aumentando até a área da vinha plantada.

96

A família Brito Seabra Roquette, tinha uma Adega situada na antiga
rua “Jogo da Bola”, agora incluída na Av. José Luís Brito Seabra. O
Conde de Monte Real, no mesmo espaço mandou construir um novo e
grande edifício, para adega dotada de nova tecnologia para a época.
.
Mais tarde, na década de 1950, a casa agrícola, Monte Real, devido à
grande quantidade de vinho produzido abriu um posto de venda “
Taberna do
Conde”,
principal
venda a

na avenida
da vila, com
retalho.
A

modernização da adega “Monte Real”, fruto do dinamismo do detentor
daquele titulo, era constante, procurando sempre estar a par das
últimas tecnologias.
Depois da sua morte, a “empresa” foi herdada pela filha, Madalena,
única herdeira que por sua vez entregou aos seus três filhos a
responsabilidade de administrar os negócios. O autor destas páginas,
num artigo que publicou no jornal Vale do Tejo, com sede em Salvaterra,
recolheu informações junto dos novos administradores, agora como
sociedade agrícola Moena, que decidiram então desenvolver o
engarrafamento, e nova comercialização dos vinhos, não só em Portugal,
mas também no estrangeiro. Escreveu o autor: “com o objectivo em

97

divulgar este vinho ribatejano, um pouco por todo o mundo. Neste
momento, a casa Monte Real, utiliza 50 hectares de terreno de uva tinta
e, 35 hectares de uva branca. As vinhas estão divididas em talhões,
cada talhão tem a sua casta, cuja idade oscila entre os 20 e os 25 anos.
O vinho branco, produzido para o engarrafamento, é seleccionado a
partir das castas Fernão Pires, Vital e Tália.
No vinho tinto são usadas as castas Trincadeira Preta e Piriquita.
Depois de vindimadas, as uvas são rapidamente levadas para a adega,
onde se procedia à maceração a baixa temperatura. No caso das uvas
brancas, o mosto é centrifugado, limpo e arrefecido, sendo depois as
leveduras escolhidas. A temperatura é controlada a 16º C Nas uvas
tintas, são “desengaçadas” e fermentadas à temperatura de 22º C.
Depois da fermentação alcoólica, procede-se à maceração, e
posteriormente à fermentação malo-láctica. Para o vinho tinto é feito
um único lote, do qual é retirada uma porção que estagia em casco novo
de carvalho francês, num período de seis meses.” “ As castas brancas

são vindimadas e vinificadas separadamente e só posteriormente são
misturadas, cabendo à melhor mistura o engarrafamento “Conde Monte
Real” e à mistura dos restantes o engarrafamento “D. Sofia”, isto no
caso do vinho branco. Ainda comercializa um outro lote de vinho com a
marca “Bico da Goiva”.

O vinho tinto é feito num único lote, do qual é retirada uma porção que
estagia em casco novo de carvalho francês, num período de seis meses.
A este vinho cozido em madeira, cabe o rótulo “D. Sofia” é o que resulta
do resto do lote que não passa pelos cascos de carvalho. Nos concursos
de provas de vinho realizadas, no país, apresentou os seus vinho”

98

“ CONDE MONTE
REAL”

– Colheita de 1996

BRANCO - Aroma fino, com alguma distinção mas no fundo um pouco
ligeiro. Bem na boca, boa acidez, conjunto agradável
TINTO - Muito ligeiro na cor e no aroma. Delgado e demasiado simples
para ser levado a sério. T ** ¾.
VINHOS E AGUARDENTES TORROAES
Entre a qualidade de vinhos produzidos nas Adegas de Salvaterra,
muitos estiveram na 1ª exposição Agro-industrial, realizada nesta vila
em de 1930. Os da pequena Adega de Virgolino José Torraes, na rua
Cândido dos Reis, depressa ganharam fama, estiveram por vezes
nalguns certames, em vários pontos do país. obtendo bons prémio,

99

Com o inicio da Feira do Ribatejo em Santarém, passou ali a ter espaço
permanente para a colocação de um stand, onde o filho José Manuel
Torroais, não deixava de ser procurado para contratos na sua
comercialização, em garrafas e garrafões, tinto e branco com a marca –
Botelhas. Depressa as suas aguardentes vinícolas – S. Baco, Toiro Real,
e vinho licoroso Torroaes, passaram a ter grande procura no país.

*****
******
Nota: Das muitas adegas, que se identificam neste
“Apontamento” outras existiram que, vale a pena
localizar a sua existência, pelos proprietários
referenciados nestas páginas: Dr. José Cardador (Rua
Gago Coutinho), José Adelino Fernandes (Trav. do
Forno Vidro).
*******
*******

Casa Habitação com Depósitos
Rua Gago Coutinho

100

OS LICORES E AGUARDENTES – LOPES ROSA

Foi em 1930, na Exposição agro - industrial, realizado em Salvaterra de
Magos, que ALVARO LOPES ROSA, viu as suas bebidas premiadas. Álvaro
Lopes, uns anos antes, já tinha os seus produtos bem aceites no
mercado, fora de Salvaterra, pois os seus licores eram fabricados em
moldes de uma pequena empresa, de âmbito familiar, o que lhes dava um
cunho de grande qualidade e originalidade. Um século depois, ainda
estão no mercado, comercializadas, pelos descendentes do seu filho
José Lopes Rosa. Entre as muitas bebidas fabricadas, a Aguardente
Especial Velha 1910, continua a ter um lugar de destaque, pois vem desde
o início da sua actividade.

101

Anexo:
A VINICULTURA UMA RIQUEZA NA ACTIVIDADE AGRICOLA
DE SALVATERRA DE MAGOS

A fama dos vinhos do Ribatejo é anterior à fundação da nacionalidade,
referindo-se a eles D. Afonso Henriques, em 1170, no foro da cidade de
Santarém. Gil Vicente, a eles se referiu um dia, no auto “ Pranto de Maria

Parda”, alguns séculos depois continuam a ser procurados

O clima do Ribatejo mediterrâneo, temperado dada a proximidade da
bacia do rio que a banha, com uma queda anual pluviométrica, verificada
nos últimos 50 anos em cerca de 500-600 mm.
A moderna nomenclatura, que agrega os vários padrões agrícolas na
área da vinicultura, existe regiões como a “Lezíria, ou borda-d’água”, o
“Bairro” e a Charneca”. Terras que são contempladas pela riqueza da
bacia hídrica do rio Tejo. Na planície ribatejana com suas terras de
Lezíria, onde os terrenos de aluvião, sendo inundáveis, têm no seu solo a
humidade necessária para a cultura da vinha e dos cereais.
O “Bairro”, são terras localizadas na margem direita do rio Tejo, tem
nos seus solos arenitos, calcários e argilosos, onde a vinha não tem a
importância que é dada à oliveira e outras culturas arbustivas e
arbóreas.
A “Charneca”, são terrenos que se estendem desde a margem
esquerda do rio até ao Alentejo, detentores de solos pobres, como os
areno-arenosos, são revestidos de floresta que a enriquecem, onde
predomina o sobreiro.

102

As suas areias quentes pelo sol, têm uma grande importância no grau
alcoólico dos vinhos ali produzidos.

CASA CADAVAL
– Colheita de 1996 –

FERNÃO PIRES: BRANCO – Não são evidentes as notas aromáticas da
casta, havendo alguns aromas de feno que se mostram muito.
Atraente na boca, boa acidez e boa leveza.
É menos típico mas pode ganhar com isso. B **, 5
PADRE PEDRO: TINTO – 1996 * Muito novo, muito verde, boa
concentração de cor e revelando saúde. Bastante vinoso, redondo na
boca e com boas características de um vinho jovem. T *** 4/5
Casa Agrícola Vieira da Cruz
– Propriedade na Palhota – Salvaterra de Magos

103

VINHO AREIAS GORDAS – 1996

Produzido na propriedade junto à margem Sul do rio Tejo, apresenta boa
presença na boca, com uma acidez um pouco baixa, mas que aguenta o
vinho.
Precisa de ganhar elegância em próximas colheitas. B ***
VINHO PEPINOS: Branco e Tinto:
Produzido e engarrafado pela Sociedade Agrícola Henriques &Henriques,
com sede em Marinhais - uma empresa com características de âmbito
familiar.

*********************
******

Dias a fio com cestas às costas, por aquelas
terras muitos sacrifícios eram vividos, para que o vinho
Ilumina-se os espíritos!

104

Bibliografia usada:


Salvaterra de Magos,” Seus usos e costumes” José Gameiro
Salvaterra de Magos Actividades Económicas:
Agrícola/Florestal, Pesca/Comércio, Indústria/Turismo * José
Gameiro
Os Avieiros “Nos Finais da Década de Cinquenta” Maria Salvado

* Fotos inseridas nesta publicação *
Pág. 2 – Mulher à sombra “cozendo” roupa” * Pág. 4 – Edifício da antiga
taberna Dr. Lino (Local da Praça da Jorna das mulheres rurais – (1953) *
Latada de videiras junto a um poço de água * Pág. 5 - Mulheres em dia de
Vindima nos campos de Salvaterra * Pág. 7 – Vinhas no campo de Salvaterra *
Pág. 8 - Um grupo de rapazes esperam os carros com as dornas de uvas (O 3º
a contar da esquerda é o autor) * Pág. 9 - Carro de bois, transportando uma
dorna com uvas * Pág. 10 - Lavrador, Gaspar Costa Ramalho-1939 * – Edifício
da Adega construída por Gaspar Costa Ramalho-1900 (Largo Combatentes),
mais tarde do Vinicultor, Francisco Ribeiro (Minhoto), em 1988, em trabalhos de
demolição * Pág. 11 - O Lavrador, Francisco Ferreira Lino-1939 * Edifício da
Adega, “Casa Agrícola Família Henriques Lino”, no dia do início da sua
demolição-2000 * Pág. 11 – Lavrador, José Durão Lino, 1998 * Pág. 12 - Barão

105

de Salvaterra, 1º donatário da Casa Agrícola Roquette, 1939 * Adega do Barão
(Casa Roquette) demolida em Nov. /2002 * Pág. 13 - Lavrador, Ernesto Costa
Freire-1939
* Pág. 14 - Lavrador, Vicente Roberto, Casa Agrícola, Irmãos Roberto * O Autor,
no ano 2000, mostra a janela da entrada da uva, na antiga Adega da Casa
Roberto, na EN 118/2 * Pág. 15 - António Jorge de Carvalho (1939), antigo
proprietário da Adega que, foi de (seu genro) António Henriques de Sousa
Antunes * Armazém de Vinhos (Largo dos Combatentes) da mesma família – *
Pág. 16 – Alberto Santos Lapa, Lavrador/Vinicultor-1939 * Pág. 17 - Interior da
Adega, Alberto Lapa – 1935 * Rotulo da “Ginja” uma das muitas bebidas
fabricadas pela firma José Lopes Rosa & Filhos, Ldª * Pág. 21 – Solar da família
Monte Real * Pág. 22 - Garrafas de vinho “Conde Monte Real” e “D. Sofia” *
Adega Monte Real “Casa do Alambique” *Pág. 27 – No campos de Salvaterra –
homens transportam cestos com uva, em dia vindima - 1935

**************

106

**********

*********

Obs. Algumas fotografias, com a devida vénia foram utilizadas
“O Distrito de Santarém-1939 * Um Olhar Sobre o Concelho de
Salvaterra de Magos - Edição da CMSM
**************

**********

107

*************
RECORDAÇÕES

O autor, quando menino, viu pesados carros de madeira,
puxados por juntas de 2 bois, a descarregar dornas de uvas
para a adega da casa agrícola Irmãos Roberto(s). O tempo
passou, muitos anos depois, em 1995, visitou o local, a pedra
que servia de suporte aos homens, na descarga, ainda se
encontrava no edifício, situado na EN 118/2
Ainda em 2010, na antiga adega, depois de ter
servido a oficina de carros e carpintaria, na rua se mantinha
umas pedras de lioz que, serviu de suporte à descarga da uva,
onde os homens se apoiavam com os pés.

Em 2010, José Gameiro,
mostra a pedra que servia
de acesso às descargas
das dornas com uvas
para os lagares

108

CADERNO DE APONTAMENTOS CADERNO Nº 10
Documentos para a história
de

SALVATERRA DE MAGOS
Séc. .XIII – Séc. XXI

UMA ZONA INDUSTRIAL
(Um Desejo que vem do Passado)
Património:
Geográfico, Monumental, Cultural, Social, Político,
Económico e Desportivo

O Autor
JOSÉ GAMEIRO
(José Rodrigues Gameiro)

109

Primeira Edição
FICHA TÉCNICA:
Titulo:
UMA ZONA INDUSTRIAL: “ UM DESEJO DO PASSADO”
Tipo de Encadernação: Brochado (Papel A5)
Autor: Gameiro. José
Colecção: RECORDAR, TAMBÉM É RECONSTRUIR !
Editor Gameiro, José Rodrigues
Morada: Bº Pinhal da Vila – Rua Padre Cruz, 64-1º
Localidade: Salvaterra de Magos
Código Postal: 2120- 059 SALVATERRA DE MAGOS

ISBN:
978– 989 – 8071 – 10 – 1 * 1ª edição
Depósito Legal: 256462/07
Edição: 100 exemplares * Março 2007

**********************
2ª edição Revista e Aumentada – Março 2015

**********************
Contactos: Tel. 263 504 458 * Fax: 910 905 704

O texto desta edição não segue o acordo ortográfico de 1990
Foto da Capa: 1960 * Edifício do Descasque de Arroz – EN 118

110

O MEU CONTRIBUTO
O século XX estava a meio, a
população do concelho de Salvaterra de
Magos, ainda maioritariamente rural, para
aí continuava encaminhando os filhos;
rapazes e raparigas.
Aqueles que descendiam dos mestres;
Carpinteiros, Pedreiros, ou Ferreiros, logo
iniciavam a sua aprendizagem naqueles ofícios, após a saída
da escola.
Notava-se algo que mexia na vida das famílias, a imigração
interna, já uma década antes, lentamente vinha “convidando”
os homens jovens, de abalada para as fábricas de Alhandra,
Azambuja Sacavém, e Setúbal. As indústrias, que aí se
instalavam, abriam novos horizontes, “roubando” mão-de-obra
ao campo. As raparigas, tinham ainda uma outra porta de
saída, serem criadas de servir, ou a costura Naquela época,
a população de Salvaterra de Magos, andava agitada com as
novas notícias que corriam, as fábricas, mesmo que
pequenas empresas estavam de chegada.
Na vila, a sua economia dependia há séculos, das Lojas de
Mercearia, Tabernas, Fazendas e Ferragens com Drogas
( nestas últimas estavam incluídas as tintas ). Do movimento
no rio Tejo, através do cais da vala real, era o tráfico de
produtos agrícolas e industriais que, provinham receitas para
o erário público. Para que se recorde aquele tempo, aqui
ficam registados algumas instalações da pequena indústria
em Salvaterra de Magos.
Março 2015

JOSÉ GAMEIRO
(José Rodrigues Gameiro)

111

O COMERCIO TRADICIONAL,
À ESPERA DA INDUSTRIA

Por volta de 1940, exista em Salvaterra de Magos;
um Descasque com Secador de Arroz, junto à
estrada E.N.118, onde a família de Manuel da Silva
Valente, tinha os seus interesses económicos.
Esta unidade industrial, tinha
vindo juntar-se a uma outra,
uma Moagem de farinhas que,
António
Henriques
Sousa
Antunes, explorava na Av. José
Luís Brito Seabra, herdada do
sogro, o empresário António
Jorge de Carvalho.
Era uma actividade, que vinha dos primeiros anos
do século, que o empresário juntou à exploração
que tinha de uma
Farmácia e de uma
Drogaria.

Era no comércio,
nas artes e nos
ofícios,
que
a
população urbana retirava o seu sustento. O balcão
do comércio, com a venda dos produtos
alimentares, dava trabalho ao agregado familiar, e
numa outra loja de maior clientela, alguns

112

empregados aí obtinham o vencimento mensal. Os
ofícios, tinham nos mestres como os Carpinteiros
de limpos, Ferreiros e Barbeiros, uma classe social
acima dos Sapateiros, que eram considerados ,
artesãos.
A Farmácia Carvalho, vinha de 1891, e era um
novo e moderno espaço de apoio à população,
antes prestado pela antiga Botica, do senhor
Albano Gonçalves, com porta aberta na rua Direita.
Esta casa, festejou o seu
centenário no dia 25 de Maio
de 1991, em ambiente
familiar, com um almoço,
onde
estiveram
alguns
convidados, no Restaurante Bar “Casa Branca” em
Salvaterra de Magos
Manoel Joaquim Ferreira
Gomes, acompanhado dos
actuais proprietários, os
seus
dois
filhos,
na
companhia das noras e
netos, nesta data festiva,
dos 100 anos da que foi a sua farmácia, agora o
estabelecimento mais antigo no concelho.

113

O alvará do estabelecimento, está na posse da
família, há mais de 70 anos, pois Manuel Joaquim
Gomes, adquiriu-o ao seu fundador e patrão,
António Jorge de Carvalho, em 1920.
Uns
anos
depois,
repartiu
a
sua
administração, com a Dr.ª.
Florescia
Fernandes
Gomes,
sua
esposa,
especializada
naquela
área, que passou a Directora-Técnica, que tendo
falecido em 1988, foi lembrada na festa, como:
esposa, mãe e avó.
Para o repasto foram convidados, os distintos
médicos,
Joaquim
Gomes de Carvalho e
Fernão Marçal Correia.
da Silva., o então director
farmacêutico
da
Farmácia,
Dr.
.José
Vitorino, e sua esposa
Maria Luísa, e o autor destas linhas.
Os quatro empregados; Cassiano Manuel
Rodrigues Gameiro e António Manuel Pires Gomes,
Joaquim Maria Gomes Silva e João Luís Aleluia
Travessa, também ali foram, na companhia de suas
esposas.

114

Ainda se encontravam, presentes a D. Joana F.
Gomes, senhora de idade avançada, irmã de
Manuel Joaquim Gomes, e que foi durante anos,
sua colaboradora, na venda ao balcão e um
cunhado, destes, agora viúvo, Mário Barroso.
No final do festim, Manuel Joaquim Gomes foi
convidado, pelos seus dois filhos, Francisco e
Manuel João Ferreira Gomes e netos, a apagar as
velas do bolo comiserativo dos 100 anos de
existência da FARMÁCIA CARVALHO(*), em Salvaterra
de Magos.
A EXPOSIÇÃO AGRO-INDUSTRIAL

Em 1930, a Câmara Municipal, quando da FeiraAnual, promoveu a Exposição Agro-industrial, onde
as pequenas indústrias caseiras, e viticultores
tiveram oportunidade de mostrar os seus produtos.
Nela foram premiados, além de outros produtos,
os vinhos de mesa; Paul e as Aguardentes “Toiro
Real” e “Botelhas”, o vinho licoroso velho
“Torroaes”, da adega de Virgolino José Torroaes.
(1), Os licores e Xaropes da pequena fábrica
artesanal de âmbito familiar de Álvaro Lopes, Rosa
(1) – Ver Apontamentos N.º 9

115

estiveram presentes, e foram premiados, tal como
a Aguardente 1910, envelhecida.

INDUSTRIA DE TANSFORMAÇÃO DO TOMATE
No ano de 1963, nas Fontes das Somas, ou das
Sombras, a IDAL, tinha começado a construção do
seu
complexo
industrial,
para
a
transformação
do
tomate aproveitando a
via rodoviária, que por
volta de 1938, uniu os
dois
concelhos
vizinhos., Salvaterra e
Benavente, a EN 118. A agricultura, com a
instalação na zona, desta moderna unidade
industrial, teve que se adaptar às novas técnicas
agrícolas, mesmo a de regadio.
Os campos depressa passaram da vinha e do
pinhal, para a nova cultura, que era o tomate em
grande escala, e novos seareiros, vieram dar lugar
aos tradicionais agricultores da Lezíria ribatejana.

116

UMA UNIDADE NA TRANSFORMAÇÃO DA MADEIRA
Estava-se no início da década de 60, a Serração
Central de Salvaterra, Lda., tinha acabado de
comprar um bom pedaço de terreno, ao agricultor e
veterinário, Dr. José de Menezes, mesmo junto ao
depósito da água, que abastecia a rede da vila.
Há muito com a chegada dos tractores e outras
máquinas agrícolas, no amanho das terras, a
dispensa dos animais, até aqui tradicionais, e o
trabalhador
braçal,
era
cada
vez
mais
excedentários, nos campos.
A
população
estava ansiosa, com
este
empreendimento, na
área da indústria das
madeiras esperavase algum espaço laboral para homens e mulheres,
especialmente dos jovens. Algum tempo passou, e
em 1961, a Serração Central, iniciou a sua
actividade, dando trabalho a uma boa dúzia de
trabalhadores.
.As grandes dificuldades económicas que, o
povo português estava a passar, também a
população de Salvaterra de Magos, não ficou

117

imune ao novo surto que, foi a emigração, até
porque havia notícias do início da guerra colonial.
A Emigração passou a ser efectuada na maioria
clandestina, para a Europa: O Luxemburgo, França
e Alemanha, foram os países de acolhimento de
muitas dezenas de famílias salvaterrianas..

FABRICA DE ALIMENTAÇÃO
ANIMAL “GALÚ”
Aproveitadas
umas
velhas instalações da
Casa Agrícola, Irmãos
Roberto, na estrada da Peteja, ali foi instalada uma
fábrica de farinhas para aves.
Estávamos em 1968, e a produção em grande
escala de frangos em aviários, dava os primeiros
passos em Portugal.
A GALÚ, nome da empresa fabricante, depressa
deu emprego a meia dúzia de trabalhadores, mas
pouco tempo esteve em actividade, após um
violento incêndio nas velhas instalações, deixou de
existir.

118

PRODUTOS ALIMENTARES
Na Ómnía de S. José, em terreno da família,
João Rocha e Melo, iniciou uma construção
industrial, no início de
1960, implementando
em Salvaterra de
Magos, uma unidade
fabril, cujos produtos,
ali produzidos, eram
desidratados
(farináceos
e
hortícolas secos), técnica à muitos anos já usados
na alimentação americana. Embalados em
pequenos sacos de papel, foi bem aceite na área
comercial, e o seu consumo augurava vida longa,
mas poucos anos depois teve de fechar as suas
portas e, algumas dezenas de trabalhadores
ficaram no desemprego.

INTEXTA CONFECÇÕES, LDº.
Empresa de capitais e técnica alemã, aqui
acabada de chegar, situada na área das
confecções têxteis, aproveitou as instalações
desactivadas, de uma antiga fábrica de produtos
alimentares, que existiu nos arredores da vila de

119

Salvaterra de Magos. Esta unidade fabril, durante
as décadas de 60 e 70, foi uma fonte de trabalho
para
muitas
dezenas
de
trabalhadores,
especialmente mulheres, do concelho, recrutando
também. mão-de-obra. nos concelhos vizinhos.
Após a revolução de Abril de 1974,os
trabalhadores, apoiados pelos sindicatos, entraram
num constante processo reivindicativo, com greves
constantes, na busca de melhores condições de
trabalho e salários, tais pretensões levaram a
Intexta a encerrar as portas dois anos depois,
deslocalizando-se.
A ORINCA – FÁBRICA DE COURO ARTIFICIAL
Estávamos nos primeiros anos da década de 60,
um grupo empresarial, vinha desde há algum
tempo procurando terreno para a instalação de uma
unidade fabril, em Salvaterra de Magos.
A procura foi facilitada,
com a ajuda do pároco
da vila, Padre José
Diogo, que levou a
família proprietária dos
terrenos da antiga
Coutadinha Real, junto
à estrada do Convento, à venda de uma parcela.

120

A Organização Industrial de Cartões, Orinca,
Sarl, depressa começou a construção da sua
unidade fabril. No terreno um pequeno poço foi
aberto para o abastecimento de água à obra.

A fábrica do papel, como então ficou a ser
conhecida, logo foi uma nuvem de esperança
naquela agitada procura de trabalho, na indústria
que, teimava em não aparecer na terra. O edifício
com uma única

grande

nave,

121

destinada à produção, tinha alguns espaços no seu
interior, como os tanques para “demolhar o papel e
o couro”, suas principais matérias-primas, do
produto ali produzido.

A ORINCA, já com as instalações prontas, foi
aberto um furo artesiano, para o fornecimento de
toda água necessária, incluindo uma caldeira a
vapor, que consumia lenha e óleos. O seu
armazém de papelejo, era abastecido por
empresa especializada (papel de jornais, sacos de
cimento, etc), e os pedaços de couro, vinham das
várias indústrias de curtumes, da zona de Minde
e Mira de Aire.
Junto à fachada, próximo da entrada principal, foi
instalada uma balança (tipo basculante) para a
pesagem de carros de grandes tonelagens.
O Couro Artificial, ali produzido foi colocado no
mercado, por volta de 1968, era um produto que se
apresentava em aglomerado (placa), levando na
sua composição; papel, couro, corantes e óleos,
sendo este último de baleia, que lhe dava o cheiro
a couro natural.
De início com um quadro de pessoal reduzido,
mas em 1974, dava já trabalho a cerca de 30
operários (homens e mulheres), mais 1 técnico, 1

122

gerente, 1 Fogueiro e Ajudante e 2 Escriturários. O
produto, foi bem recebido no mercado afecto à
indústria do calçado, e depressa enveredou para o
sistema de trabalhos

por turnos, tendo em
1973/74, chegado a
fornecer o mercado
ultramarino português.
Nos anos que se
seguiram à revolução
de Abril de 1974, em
pleno PREC, as greves e saneamentos das fábricas
e nos campos agrícolas, trouxe graves problemas à
economia do país. Nesta empresa, as perturbações
foram graves, especialmente no fabrico do produto,
chegando mesmo a ser adulterado, por um grupo
de operários. Tal situação trouxe uma grande
instabilidade à firma e, em Outubro de 1978, a
Orinca, uma promissora unidade industrial,
construída em Salvaterra de Magos, encerrou as
suas portas.

123

A COMPRA DA ANTIGA FÁBRICA DO PAPEL

Em 1997, as antigas instalações, da Orinca,
estavam em franca degradação, o então Presidente
da Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, José
Gameiro dos Santos, diligenciou a compra daquele
importante imóvel industrial, para a autarquia,
conforme foi dado conhecimento à população,
através do Boletim Municipal, N.º 2 do Ano II, e do “
O FORAL”, do 1º Trimestre de 1997.
DELIBERAÇÕES MUNICIPAIS

Diversos
* Foi deliberado apresentar á Assembleia Municipal a
aquisição da antiga fábrica do papel situada nas
Gatinheiras para instalação de serviços municipais –
Oficinas de mecânica, Carpintaria, Electricidade,
Águas. (14.2.97)
Por não ter continuado, à
frente dos destinos do
município, o processo foi
retomado
pelo
novo
executivo, de Ana Ribeiro,

124

no seu mandato, 1997-2001, após as necessárias
negociações, a câmara municipal adquiriu o imóvel e
o terreno da antiga fábrica de Couro Artificial (Fábrica
de Papel), o que foi amplamente notícia na
comunicação social
OUTRAS INDÚSTRIA EM SALVATERRA
E NO SEU CONCELHO

Em plena década de 80, algumas pequenas
unidades fabris, estavam instaladas no concelho de
Salvaterra de Magos, fruto de um processo
implementado uns anos antes na autarquia, que
visava o aproveitamento de terrenos na Freguesia
de Muge, e outros entre Salvaterra e Foros de
Salvaterra, caso da Quinta do Pinheiro.O processo,
conheceu atrasos e dificuldades, mesmo sendo
promovido a sua divulgação em terras estrangeiras,
como a Holanda. Lento tem sido a sua
concretização, mas pequenas unidades de
Artefactos de Alumínio, Electricidade, Plástico,
Fibrocimento, Farinhas para bebés, Carpintarias
Mecânicas de Móveis, aqui se instalaram. Algumas
destas unidades fabris, uns meses após as suas
inaugurações com pompa e circunstância, pois ali
foram investidas verbas vindas do Fundo Europeu,
a falência foi o caminho encontrado.

125

**************************
Fotos inseridas:

* Página 2 * 1- António Henriques Antunes, Industrial e Agricultor *. A
Moagem de Farinhas (1950) * Pág. 3 – Manuel Joaquim Gomes, antigo
proprietário da Farmácia Carvalho * Manuel João Ferreira Gomes * Dr. José
Vitorino, Director Técnico da Farmácia Carvalho * Pág. 4, Cassiano Gameiro,
empregado mais antigo da Farmácia Carvalho * Pág. 5 Publicidade da Idal
(1967)* Pág. 6 – Publicidade da Serração Central de Salvaterra, Lda. *Logótipo das Farinhas “Galú”* * Pág. 7 – Pub. Indústria Alimentar de
Salvaterra * Pág. 8 * Construção das instalações da fábrica “Orinca”* Pág. 9
*Grupo de três operárias da Orinca, junto ao poço de água, na hora de almoço
(Maria Gertrudes Pessoa Peste, Fátima Cavaleiro e Lurdes Fróis Marques –
1973) * As duas fotos mostram operárias, nas instalações da caldeira a vapor
(1973).* Pág. 10 - O autor, empregado escritório da Orinca (1974)* Pág. 11 –
Assinatura de Compra/Venda: Fábrica do papel – 2003
Bibliografia usada:
* Documentos do autor * Comunicação social * Boletins
editados, pela Câmara Municipal de Salvaterra de Magos

126

CADERNO DE APONTAMENTOS Nº 11
Documentos para a História
De

SALVATERRA DE MAGOS
Séc. XIII – Séc. XXI

Património:
Geográfico, Monumental, Cultural, Social, Político,
Económico e Desportivo

GENTE QUE VIVEU DO TEJO

FRAGATEIROS, CAGARÉUS AVIEIROS

O Autor
JOSÉ GAMEIRO
(José Rodrigues Gameiro

127

Primeira Edição
FICHA TECNICA:
Titulo:
CAGARÉUS, FRAGATEIROS E AVIEIROS
( Gente que veio do mar ! )
Tipo de Encadernação: Brochado
Autor: Gameiro. José
Colecção: RECORDAR, TAMBÉM É RECONSTRUIR !

Editor Gameiro, José Rodrigues
Morada: Bº Pinhal da Vila – Rua Padre Cruz, Lote 49
Localidade: Salvaterra de Magos
Código Postal: 2120 - 059 SALVATERRA DE MAGOS

ISBN:
978– 989 – 8071 – 11– 8
Depósito Legal: 256463 /07 – 1ª edição
100 exemplares editados – Março 2007

128

Fotos da Capa: - Fragatas aportadas ao cais da Vala real * Maria e Antónia
Rosa; Irmãs da família Naia, oriundas das Gentes da Murtosa * Rancho
Folclórico dos Avieiros (Escaroupim)

129

*******************************
2ª Edição Revista e Aumentada - Março 2015
*******************************

Contactos: * Tel. 263 504 458 * Telem. 910 905 704

O texto desta edição não segue o acordo ortográfico de 1990

130

O MEU CONTRIBUTO
Ainda menino de escola, fui com os meus pais viver
para o Botaréu, junto à Capela da Misericórdia, e
depressa o convívio com as gentes que, viviam dos
proventos da vala e do rio Tejo, se estabeleceu.
Nos seus barcos e nas suas casas, comi das suas
ementas, como também na rua brinquei com os seus filhos. Aquele convívio,
foi para mim uma oportunidade de ouvir aos mais velhos, muitas histórias dos
Fragateiros e dos Varinos/ ou Cagaréus e Avieiros . Estas duas comunidades,
há muitos séculos, que o rio Tejo as conhece. Os pescadores desceram lá
muito de cima, do norte, e em Lisboa, até existe um dos seus bairros, junto à
ribeira. Aqueles que viviam em Salvaterra, eram dos mesmos sítios, das
mesmas famílias, vindas também da Murtosa, Estarreja, Ovar, Aveiro, e há
muitas gerações que andavam rio abaixo, rio acima, na faina do peixe, para
depois ser enviado, para muitos lados, inclusive o Porto. Primeiramente era
em carros puxados a animais, até que o advento do caminho-de-ferro. em
Portugal, lhes facilitou mais a vida, enviavam o pescado, em cestas de verga,
através da estação de Muge. Antes deles, os Fragateiros já eram “donos” do
cais da vala real, pois movimentavam nas suas Faluas e Fragatas, as
mercadorias, com destino a Lisboa, e outros portos, então navegáveis àquelas
embarcações à vela. Quanto aos Avieiros, a sua presença no Tejo, é posterior,
são pescadores vindos de Vieira de Leiria., cujos registos da sua presença se
notou no séc. XVI. Para estes, o Escaroupim, foi um sítio de aporto, como
muitos outros ao longo do rio. No local, existia uma vasta plantação de Pinhal,
do tempo de D. Dinis o comércio e a indústria, especialmente a naval,
requeriam muita madeira e, Lisboa ficava mesmo ali a meia centena de km de
Salvaterra, com um curso de água, para o seu transporte no rio Tejo.
ABRIL 2015

JOSÉ GAMEIRO

( José Rodrigues Gameiro)

131

***********************
*****
Introdução
DO MAR DESCERAM AO RIO !
Os Pescadores Cagaréus e Avieiros
..........” Desço a praia – ao fio da areia enconchada, cheia de
mulheres que carregam peixe ou que o despejam ainda vivo
nas grandes chalavaras,
por
entre
barcos
agrupados,
onde
se
encontram , chatas e
lanchas de galeões, alguns
com
lindos
nomes
:
Formosa, Ana, Luz do Sol,
Senhora da Memória, Mar
da Vida ..” “.. O patrão
Joaquim Lobo, de grandes barbas brancas, afirma que esta
gente veio de Ílhavo – Algumas teimas: Somos de Ílhavo...
viemos de Ílhavo... também tenho a ideia de que foram os
Cagaréus que povoaram os melhores e mais piscosos pontos
da costa portuguesa......”
“Descendo, acompanhando o crescer de Portugal chegando à
ponta de Sagres”
(In – Pescadores)

“Raul Brandão

132

I
OS AVIEIROS
Remonta ao século XVI, as primeiras notícias da presença do
homem/pescador, de Vieira de Leiria, no Ribatejo.
Pescava em águas do rio Tejo e, fazia periodicamente algumas
incursões para descanso, nas suas margens.
Por estes tipos de vida, eram conhecidos, por “Ciganos do rio”, estas
famílias, buscavam o seu sustento aqui nas águas menos agrestes e
revoltosas do que no mar, em época invernosa. No Inverno e Primavera,
a abundância de pescado, especialmente do Sável, Fataça e Saboga, no
Tejo, fazia-os primitivamente pescar e, viver nas suas bateiras.

1950 – Família Avieira, vivendo no Rio Tejo

133

O APARECIMENTO DAS ALDEIAS
Com o decorrer dos anos, era de vê-los em terra firme, onde
arribaram em vários núcleos habitacionais como: no Alfange, na Caneira,

Valada, Reguengo, Escaroupim, Casa Branca, Vau, Vila Franca e
Conchocho.

Aqui, em Salvaterra, nos meados século XX, ainda com fartura de
peixe no rio, os Avieiros, recorriam ao trabalho do homem rural, que
estando parado na sua laboração campestre, nos meses de invernia,
puxavam as redes cheias de sável e fataça, para as margens do rio.

134

A mulher avieira, ajudava o marido, e tratava dos filhos no barco, logo
a seguir, lá ia sempre a pé com a canastra do peixe à cabeça, horas a
fio, dias inteiros por terras do concelho, vendendo o produto de uma
faina dolorosa que, os fazia ciganos do rio.
A ALDEIA DO ESCAROUPIM
No primeiro quartel do século passado, no Escaroupim, já era visível,
algumas famílias viverem na borda de água, dando origem a uma
pequena aldeia de casas abarracadas, em madeira, assentes em
estacas, onde algumas famílias já se começavam a fixar. Por volta de
1950, a escolaridade chegou aos jovens pescadores, o alfabeto era coisa
desconhecida naquela comunidade, recordo que nas aulas, em
Salvaterra comigo andaram, o José Moreira, o Rabita, o Antão e o Botas.

1950 Escaroupim - Construções em madeira
* Foto Maria Adelaide Salvado

Vinham e regressavam todos os dias ao Escaroupim. que fica a uma
boa meia dúzia de Kms, de Salvaterra, naquele andar de solidão,

135

trazendo para além do saco escolar, um outro mais pequeno, com uma
“bucha”, que muitos dias intercalava o peixe frito, com uma omelete de
ovos, num pedaço de pão.
Os jovens continuaram com os usos e costumes daquele
povo que, um dia deixou o mar em Vieira de Leiria, e por volta
de 1958, as suas danças eram divulgadas num rancho
folclórico, que actuava na vila, no Restaurante Típico
Ribatejano. Nos anos 70, a mulher avieira moderna, já
trabalhava no campo, as pequenas casas de madeira, foram
dando lugar às de alvenaria, até porque duas dezenas de anos
antes já os rapazes encontraram na construção civil uma nova
profissionalização – iam deixando as artes do rio, sendo uma
comunidade muito religiosa, tiveram na igreja da freguesia,
sempre o apoio necessário.

1950 – Escaroupim * Foto Maria Adelaide Salvado

Na década de 90, estando o Padre Agostinho de Sousa, à
frente da Paróquia de Salvaterra de Magos, foi construída uma
pequena capela na aldeia do Escaroupim.
***********

136

II
OS VARINOS
(Cagaréus)

Nos últimos anos que antecederam o findar do século XIX, vinham da
vasta zona de Aveiro; especialmente de Estarreja, Torreira, Pardelha e
Murtosa, pescar no rio Tejo, eram Varinos. aqui o povo chamava - lhes
“Cagaréus”. O tempo de inverno e primavera era mais fértil para a sua
faina em contraste com a pouca actividade nas águas revoltosas da Ria.
Uma ou outra família, ainda tinha
parentes em Lisboa, na Madragoa.
Sabe-se que a partir do século XVIII,
quando do repovoamento de Lisboa,
após o terramoto de 1755, vieram
famílias inteiras de pescadores da
região de Ovar e Aveiro. Ali, naquele
bairro, as mulheres dedicavam-se à venda de legumes e peixe, não
deixando estas de serem conhecidas de varinas, pela “algazarra” que
faziam no apregoar dos produtos, de canastra à cabeça. Por volta de
1930, esta comunidade já tinha casa em Salvaterra, vivia em casa
própria, ou alugada, ali próximo do cais da vala, onde funcionava a lota. A
azáfama diária era grande, com o peixe vendido sob a vigilância da
Guarda-fiscal, e do empregado municipal. Estas autoridades também
tinham a tutela das cargas e descargas das Fragatas ali aportadas.

137

Entre esta comunidade de Varinos, imbuída do legado cultural e
histórico da sua origem, conservava
em muitas famílias de gerações
antigas alcunhas como: Carrasco,
Rabuço, Aresta, Regateiro, Preguiça,
Calafate, Carramila, que deixaram aos
seus descendentes.
Muito
do
seu
negócio da venda do peixe,
especialmente do sável, fataça, barbo,
tinha um destino: o norte do país,
especialmente nas zonas do Porto e
Coimbra. O pescado, era enviado através do comboio, a partir da
estação de Muge, em cestas de vime, enrolado em espadanas frescas.
Os pescadores cagaréus, na sua actividade piscatória usavam uma
pequena bateira (barcos de calado liso) e tinham um camarada quase
sempre um homem da família, se fosse estranho pagavam e davam
sustento, especialmente jovens que traziam das suas terras de origem.
Quando a safra era grande, a mulher lá iam, a pé, de canastra à cabeça,
percorrendo as areias de Foros de Salvaterra. Com o passar dos anos
já no dobrar do séc. XX, a faina no Tejo por falta de peixe, já não atraía
os mais jovens que na esperança de melhor sustento, e tendo grande
espirito emigratório, foram de abalada até ao Canadá, Austrália e
América. Os que ficaram depressa procuraram outras profissões, e
volvido 50 anos, por aqui ainda vivem descendentes das famílias dos
Lagouncha, Carramila, Carinhas, Pereira, Naia e Tavares da Cunha, que

138

entre si são muito aparentados. Vimos o velho pescador João José
Soares Carinhas; entretinha-se a coser em fogueiras de lume, as cordas
(para as amarras dos barcos) com casca de pinheiro. Assistimos seu
genro António Miranda “O Preguiça”, calafate de profissão, homem que
bebia demais – um dia construiu uma bateira, dentro da pequena oficina,
depois teve dificuldade em a tirar de lá pela porta, teve de remodelar o
seu formato.

Ruas de Salvaterra de Magos *No dobrar do séc. XX , habitações
de Fragateiros e Pescadores “Cagaréus”
Fotos: José Gameiro

139

III
OS FRAGATEIROS
Não se pode ignorar uma comunidade que eram ”Os Fragateiros”,
homens marítimos que fazendo parte de uma actividade primitiva, que
laborava no rio Tejo, no escoamento dos produtos necessários ao
abastecimento do povo.
Agora já não existem na vila de Salvaterra de Magos, e um ou outro
descendente recorda com saudade uma profissão já extinta, na sua vala
real.
Das muitas dezenas de barcos que aportavam ao cais, dois houve com
especiais funções: a Falua, e a Fragata. Do
primeiro barco, havia dois em Salvaterra, o
de José Damásio e do seu filho, João Luís, e
um outro de José Paulino e do filho Carlos,

homens que conhecemos bem quando rapaz
brincávamos por ali, na borda de água. As
Faluas, de calado chato (quando de vela aberta e vento de feição parecia
que voava por cima da água), transportavam de e para Lisboa duas
vezes por semana a carreira do transporte das mercadorias,
destinadas ao comércio da vila, chegando mesmo a Coruche, e ao
Alentejo dentro.
Na foto: Arrais – Vicente Francisco

O cais da vala, servia de ancoradouro, para As fragatas - barcos de
grande porte, que vinham de muitas partes do Tejo, para angariarem os
mais diversos transportes de produtos e delas guardou boas

140

recordações nas suas memórias, o Arrais Vicente Francisco, nas suas
memórias – em dois livros editados pela Câmara Municipal de Salvaterra
de Magos. Vicente Francisco, dá-nos conta em fabulosas narrações
escritas desta faina marítima, que pertence a um passado da vida diária
nas águas do rio, e que terminou por volta de 1951, quando da construção
da ponte de Vila Franca de Xira.

1950 – Fragatas No cais da Vala Real Salvaterra de Magos
Fotos: Alex. Cunha

Várias gerações de Fragateiros, passaram por Salvaterra, algumas
deixaram nome de grandes navegantes, caso dos Soares, também
conhecidos pela família Diogo.. Estes navegantes, em parceria com
os pescadores “Varinos”, não deixavam de ter a seu encargo a
decoração do largo vizinho da Capela, quando das procissões de
Nossa Senhora, transportando mesmo o seu andor pelas ruas da
vila.

141

IV
A GASTRONOMIA
No dobrar do século XX, a actividade no cais da vala de Salvaterra,
entra em declínio, após a construção da ponte sobre o rio Tejo, em Vila
Franca de Xira, até ai, os fragateiros na sua alimentação, tinham um
prato que ficou famoso
“A Caldeirada à Fragateiro” para além de
ser uma refeição entre a faina do dia-a-dia, quantas vezes convivas não
foram recebidos a bordo daquelas embarcações para uma boa
almoçarada, em passeios nas águas calmas do rio, em plena época de
Verão. Fragateiros como: João Maria Côdea, João Tapada e Manuel
Galvão, homens que tinham “dedo” para a culinária, deixaram nome, que
ainda vai perdurando, e são agora percursores destes modernos
cozidos, encontrados na restauração do concelho de Salvaterra de
Magos
Entre as comunidades pescadoras que viviam no rio Tejo (Varinos e
Avieiros), na feitura do mesmo prato usando os mesmos peixes do rio,
tinham sabores/ paladares diferentes.

ENSOPADO DE ENGUIAS
(Fragateiros)

As enguias depois de bem lavadas abertas e limpas, são levadas ao
lume num tacho, ou panela. Para uma mesa de 4 pessoas, 2/3 Kgs deve
chegar, onde entra os seguintes ingredientes: Pimentos encarnados,

142

Louro, Colorau, Piri-piri, Cebola, Alho, Coentros, Pimentos verdes, Salsa,
Tomate (maduro) e Sal - q.b.
A preparação do refogado, faz-se com os produtos acima descritos –
sem esquecer de juntar o vinho branco que é o liquido principal e, de
grande importância. Quando este
estiver cozido, passa-se o molho
por cima das enguias, e estas são
cozidas, temperadas com sal e piripiri.
O pão torrado em pedaços
grandes, ou fatias (também se usa
frito), deve estar em descanso (frio).
Depois de estar pronto, serve-se em pequenos tachos de barro, onde
previamente no fundo foram inseridos pedaços, ou fatias de pão torrado
(ou frito), a fechar o ensopado salpica-se com coentros.

A CALDEIRADA DE ENGUIA
(Pescadores Cagaréus)

Os Pescadores, oriundos da Murtosa, que em Salvaterra, vinham fazer
a sua pesca sazonal, em tempo de Inverno/Primavera, utilizavam a
Enguia, como um prato de grande requinte para a família, ou mesmo em
dias de receberem visitas. A Caldeirada era um prato simples de
confecção que em tempo de fartura estava sempre na mesa. Numa
refeição para 4 pessoas usava-se cerca de 2/3 Kgs, de enguia que
estando aberta e bem lavada (algumas famílias temperavam algumas

143

horas com vinagre/ou limão), recebia a cosedura. Ingredientes – Água,
Azeite, Sal, Alho, Louro, Cebolas e batatas (às rodelas) e hortelã – q.b.
*Algumas vezes (por ser mais
barato) eram usadas o molho do
toucinho (unto), em substituição do
azeite. * No caso do colorau e
pimenta, também se usava a
pimenta de açafrão (Amarela).

Preparação – No fundo de um tacho de barro ou de alumínio de boca
larga e com tampa, eram colocadas as cebolas às rodelas, por cima uma
camada de batatas.
Em cima destas, uma camada de enguias que recebiam uma outra de
batatas que, fecha com uma ou duas cebolas às rodelas.
AÇORDA DE SÁVEL
(Avieiros do Escaroupim)

Ingredientes: - Sável, Azeite, Alho, Água, Salsa, Sal, Pimenta. Piri-piri,
Pão e Óleo para fritar o peixe. – q. b. para 4 pessoas.
Confecção: - Cozem-se as ovas, com a cabeça e o fígado do sável, em
água temperada com sal. Depois da cozedura, o caldo é “passado e
limpo” para ensopar o pão cortado às fatias finas, já colado num tacho.
O pão depois de “embebedado” é mexido para ser desfeito. Em
frigideira tapada, o azeite com o alho esmagado, ou cortado, vai ao lume
e depois de fritos os alhos são retirados.

144

Com o azeite rega-se a açorda, que volta ao lume e para não pegar
vai-se mexendo. A pimenta, o piri-piri, e a salsa picada são agora
introduzidas. O Prato serve-se ainda quente em tacho de barro
apropriado. O sável cortado às postas finas, depois de frito em óleo, é
servido em recipiente próprio.

************

*********

**************

***********

* segundo hábitos primitivos e conservados no tempo, algumas famílias
pescadoras da área da Murtosa, faziam; no fritar do peixe e da enguia,
em vez do azeite/ ou óleo, usava o toucinho de porco derretido em
frigideira, com lume brando – um pouco salgado,.
*No tempo da sardinha assada, via-se em algumas famílias, escamarem
a sardinha, e quando limpa (marinavam) em vinagre/ ou limão, depois
eram assadas em lume baixo

145

*******

*******

Nota: As fotos acima publicadas: Pescador Varino
Manuel José Pereira – entrevistado para a Revista
“O Seculo Ilustrado” * Maria Naia da Silva e sua irmã
Rosa Antónia Naia – filhos de Pescadores de origem
Da Murtosa

********

********

V
O MÊS DA ENGUIA EM SALVATERRA!
O Restaurante Típico Ribatejano, já em 1955, punha à disposição da
sua clientela, o famoso prato “Açorda de Sável”, a sua procura durou
cerca de 30 anos, data em que a empresa fechou a actividade.
Em Março de 1996, numa iniciativa e patrocínio da câmara municipal
de Salvaterra de Magos, o então presidente José Gameiro dos Santos,
deu início ao mês da enguia, como tema gastronómico e turístico no
concelho.
Para o primeiro evento demos a nossa colaboração, com a ajuda de
alguma informação que guardávamos.

146

O hábito em atribuir Março, o mês da Enguia ficou, e este
acontecimento turístico, com a participação da restauração local, faz
chegar ao concelho milhares de visitantes, em busca destes pratos, que
um dia foram alimentação das gentes da borda de água

VI
A CASA MUSEU DO PESCADOR AVIEIRO

Na década de 80, do séc.
XX, das primitivas casa
abarracadas, construídas em
madeira, já poucas existiam,
e para conservar a memória
deste povo que, um dia veio
do mar até ao rio, sob proposta do vereador, Joaquim Mário
Antão, a câmara municipal, comprou uma para Casa Museu e

147

iniciou um projecto para aproveitamento turístico de toda
aquela zona ribeirinha ao Tejo.
Nos dias que passam, no
Escaroupim, uma meia
dúzia
de
pescadores
avieiros ainda tiram o seu
sustento da pesca, no Tejo,
pois o peixe como: Sável,
Fataça, Saboga, Barbo e Enguia, que um dia levou os seus
antepassados ali a fixarem-se, já pouca abunda naquelas
águas.

VI
EXPLORAÇÃO TURÍSTICA
No ano de 1999, notícias corriam que, várias zonas do rio Tejo, seriam
arranjadas no campo urbanístico, com um programa apropriado, onde a
intervenção do estado e das câmaras municipais, seria proporcionar
para além das obras de
recuperação, há muito
identificadas
nas
suas
margens, poderiam dar lugar
a locais de atracção turística.
O Escaroupim, e a Vala Real, estavam incluídos nesses
planos!

148

Em 2003, o programa foi executado, e os espaços, que receberam as
obras, foram transformados, sendo agora diariamente mais visitados,
deseja-se que o turismo os descubra.
No Escaroupim, na Praia Doce, ou no Cais da Vala real, foram
colocadas novas “Casotas em Madeira”, que pela sua construção, nada
têm a ver com as originárias que um dia por ali foram construídas pelos
avieiros.
*************************
***********
Alves Redol e os Pescadores Avieiros
Andas tola, andas vaidosa,
Eu, não quero ir ao campo,
em namorares um varino;
que lá faz muito calor !
também eu tenho vaidade
Eu, não quero ser campina,
Em namorar um campino. Quero o meu bem, que é pescador
!
(In - “Cancioneiro do Ribatejo”

***********
*************************

149

AO RIO TEJO
Primavera tem várias flores,
Já o vi com a maré subir,
Mas nenhumas são iguais,
E com água dos montes a
Primavera vai e vem com flores
descer !
A mocidade, não volta mais !
Mas só deixa de existir
A mocidade não volta mais
Quando o que é, deixar de ser !
Meus pais, foram-se embora
Teve barcos varinos nas margens

(In) Vicente Francisco “ Arrais Vicente”

150

BIBLIOGRAFIA USADA:









*

Os Avieiros – Alves Redol
“In Cancioneiro do Ribatejo” – Alves Redol
Recordações de Navegação, e Cantos do Tejo
- Vicente Francisco
Francisco Câncio – 1957 – “Vida Ribatejana”
Cantos do Tejo – Vicente Francisco (2ª Edição)
Salvaterra de Magos “Uma Vila no Coração do Ribatejo”
Monografia – 1ª, 2 e 3ª Edição – do Autor
Anais de Salvaterra de Magos – José Estevam – 1959
Os Avieiros (Nos Finais da Década de Cinquenta) –
Maria Adelaide Neto Salvado – 1985
Boletim Municipal da Câmara Municipal de
Salvaterra de Magos

************************************************++

151

FOTOS USADOS:
* Maria Adelaide Neto Salvado (1950) * Alexandre Varanda da
Cunha (1945/50. * Autor (José Gameiro) - 1968
Pág. 133 – Família de Pescadores Avieiros, no barco * Pág. 134 –
Rancho Folclórico dos Avieiros do Escaroupim – 1950 * Grupo de
mulheres Avieiras, no Escaroupim, junto ao lume, fazendo a comida
e reparando as redes * Pág. 135 – Conjunto de habitações em
madeira, dos pescadores do Escaroupim – 1950 * * Pág. 137 –
Calafate – Pintado Bateira, Vala real (1950) * Pág. 138 – Mulher
Varina, com Canastra à Cabeça * Pescador Varino:Manuel Pereira,
pescando na Vala real Pág. 148 – Habitação de uma família de
Avieiros, construída em madeira (com o seu varandim), adquirida
pela câmara municipal de Salvaterra de Magos, para Casa Museu do
povo do Escaroupim, em 1980 * A mesma casa já recuperada e
pintada * Pág. 149 - Casotas em madeira instaladas no Escaroupim,
Praia Doce e Cais da Vala de Salvaterra, em 2003.

152

INDICE:
I – OS AVIEIROS …… ………………. Pág. 133
II - OS PESCADORES
VARINOS/CAGARÉUS … Pág. 137
III – OS FRAGATEIROS ……………… Pág. 140
IV – GASTRONOMIA ……................... Pág. 142
- Pág. 143 ………Ensopado de Enguia (Fragateiros)
- Pág. 144 …….. Caldeira de Enguias (Pescador Varino/Cagaréu)
- Pág. 145 …….. Açorda de Sável (Pescadores Avieiros)
V – A CASA MUSEU
DOS PESCADORES AVIEIROS Pág. 148
VI – EXPLORAÇÃO TURISTICA …….. Pág. 149

153

CADERNO DE APONTAMENTOS N.º 12
Documentos para a história
de

SALVATERRA DE MAGOS
* Séc. XIII – Séc. XXI *

UM SONHO, UMA REALIDADE
Património:
Geográfico, Monumental, Cultural, Social, Político,
Económico e Desportivo

O Autor
JOSÈ GAMEIRO
(José Rodrigues Gameiro)

154

Primeira Edição
FICHA TECNICA:
Titulo:
O PARQUE INFANTIL, E AS SUAS PISCINAS !
“ Um sonho que se tornou realidade !”
***** Edição revista e aumentada ****
Tipo de Encadernação: Brochado
Autor: Gameiro. José
Colecção: RECORDAR, TAMBÉM É RECONSTRUIR !
Editor Gameiro, José Rodrigues
Edição: 100 exemplares – A5 (Brochado) * Março 2007
Morada: Bº Pinhal da Vila – Rua Padre Cruz, 64 - 1º
Localidade: Salvaterra de Magos
Código Postal: 2120- 059 SALVATERRA DE MAGOS
ISBN:
978– 989 – 8071 – 12 – 5 * 1ª edição 2007
Depósito Legal: 256464 /07

155

Fotos da Capa: Festa Lançamento Primeira Pedra * Dia da Inauguração
* Piscina Grande do Parque Infantil

156

**********************************
2ª edição Revista e Aumentada – Março 2015
**********************************
Contacto: Tel. 263 504 458 * 918 905 704
e-mail: josergameiro@sapo.pt

O texto desta edição não segue a ortografia do acordo de 1990

157

O MEU CONTRIBUTO
Os poderes públicos, durante anos
continuaram insensíveis, à necessidade da sua
construção, mesmo com o aviso dado naquele
Verão de 1935, onde o Subdelegado de Saúde e
médico, Dr. Joaquim Gomes de Carvalho,
denunciou as péssimas habitações, em que viviam muitas famílias que,
mais não eram do que barracas que, afectavam a saúde da maioria das
crianças da terra. A vila de Salvaterra de Magos, desde que o alerta foi
dado, não conseguia dotar as suas crianças de um espaço, que servir-se
de Parque Infantil. O tempo passou, a alvorada de Abril de 1974, trouxe
ao povo possibilidades de sonhar!
Um belo dia, um grupo de pessoas de boa vontade, puseram mãos à
obra e, iniciaram a construção daquele tão desejado recinto para as
crianças da terra. Durante meses, os trabalhos, a angariação de fundos,
foram ultrapassados com grande alegria, pois sabia-se da riqueza
patrimonial que ia nascer. Tristezas houve, porque não dizei-lo, e logo
no primeiro dia, mas com o apoio da juventude, tudo foi ultrapassado,
pelas duas equipas responsáveis pela feitura de tão bela obra O sonho
foi concretizado em 25 de Julho de 1975., dia da sua inauguração. Com
a “amostra” desta obra, por quem a viveu por dentro, aproveito estas
páginas para dar algumas informações sobre outros espaços
ajardinados da vila.
ABRIL 2015

O Autor
JOSÈ GAMEIRO

I

158

UM SONHO, TORNADO REALIDADE
É PRECISO UM PARQUE INFANTIL

AS CAUSAS DO ALERTA !

“O hospital ficou cheio de crianças, que sofrem de Paludismo, que, afecta
em cerca de 50% a população infantil da freguesia, registando-se
algumas mortes. Sem apoio Materno-Infantil, a doença, na falta de
higiene e do lazer para as crianças, era uma porta aberta para outra
terrível doença “A Tuberculose” que, as acompanharia para os restantes
anos de vida. Os Quartos na zona do Arneiro da vila, são para muitas
famílias, a sua casa de alvenaria.” Escrevia então o Dr. Carvalho (1), em
1935, concluindo: “Nesta época, muitos países da Europa, já dão mais
atenção às suas crianças, construindo, além de infra-estruturas no
campo materno-infantil, protecção à maternidade, parques infantis com
arvoredo a envolve-los”
MALHANDO EM FERRO FRIO !

Ano após ano, outras pessoas da vila, se vão preocupando com a
situação, Filipe Hipólito Ramalho, escreveu no jornal “Aurora do
Ribatejo” e José Teodoro Amaro, em 1980, no jornal “ O Século ”.

************
(1)

- Anos depois veio a receber o grau de benemerência da Misericórdia
de Salvaterra de Magos, pelo préstimo de actos médicos àquela
instituição, durante anos

159

Também retomamos o assunto na comunicação social, em 1972.
Naquele tempo, tocar nestes temas era deveras delicado, só conseguido
com a anuência dos directores dos jornais.
O POVO SONHOU, O POVO FEZ !

Finalmente chegou a liberdade, a revolução de Abril de 1974, com a
sua Aurora, trouxe grandes motivações à população, levou a que após
várias reuniões na Casa do Povo local, o povo ali reunido disse :
“Constituem-se Comissões, e avancem com a obra ”

Foram constituídas duas Comissões:
COMISSÃO DE OBRAS: Alfredo Bernardino, Manuel Marçal,
Eduardo Filipe Andrade, Lourenço Santana Rato, Armando
Rafael de Oliveira, António Feliciano Jorge e António Neves
Travessa
COMISSÃO DE FUNDOS: António Luís Santa-Bárbara, José
Rodrigues Gameiro, Noémia dos Santos, Deolinda Santos
(Nabiço), Maria Elvira Damásio, Fortunato Ferreira Hortelão,
Leonor Delgado e António Eduardo Andrade.

160

A Comissão Administrativa da Câmara Municipal, prestou grande
apoio, especialmente na doação do terreno, onde já tivera lugar, um
campo de futebol, a realização da Feira Franca e Festas Anuais.
LANÇAMENTO
DA PRIMEIRA PEDRA-1974

Naquele dia 25 Agosto de 1974, a manhã estava a meio, o sol queimava,
a população estava presente, para festejar o lançamento da primeira
pedra, do Parque Infantil.
Um pouco depois as obras
tiveram o seu início, mas um grave
acidente enlutou um dia que se
queria de festa. Um tractor com
reboque, que transportava uma
cisterna de água, rebentou a cinta
que o segurava, acabando por
vitimar duas crianças; Manuel Luís
de Carvalho Amaro, Jorge Manuel
Gomes Dias e o jovem Jorge Fernando Lino Duarte, que seguiam em cima
daquele atrelado. Quando da conclusão das obras, os seus nomes foram
dados às ruas dentro do recinto para guardar as suas memórias .

161

O TEATRO
AO SERVIÇO DO PARQUE

Tão triste acontecimento, mais ânimo deu à população de Salvaterra
de Magos, para fazer o seu Parque Infantil e, onze meses depois, as
Comissões, de Trabalho e Angariação de Fundos, com o apoio de um
grupo teatral que, se constituiu para aquele fim.
INAUGURAÇÃO DO PARQUE INFANTIL

Em 1975, no dia 20 de Julho, o mesmo povo que incentivou e apoiou a
construção - dando donativos, e assistindo aos espetáculos de
angariação de fundos, lá estava numeroso na inauguração do seu Parque
Infantil. Com a presença dos representantes municipais e dos membros

das Comissões, que levaram por diante o empreendimento, sob uma
guarda de honra dos bombeiros voluntários da vila, com a sua banda de
música, foram feitos os discursos oficiais. Abertos os portões depressa
as duas Piscinas, os Escorregas e Baloiços, se encheram de crianças,
em alegres brincadeiras. Uma satisfação, trespassou as antigas
gerações que, tiveram de esperar mais de 40 anos, para ver aquela

162

obra, e um ano após a colocação da primeira pedra, estava agora
consumado os desejos do povo. O imenso arvoredo plantado meses
antes, já mostrava as suas primeiras sombras. Uns meses depois, as
contas estavam apuradas, e por alguns cálculos mais modestos, a obra
custou cerca de 650 mil escudos (onde se incluía 250 mil escudos
angariados, material e mão-de-obra ofertado)

II
“Os Amigos do Parque”
Em 1978, uma “Comissão de Amigos do Parque” geria a sua
conservação, sendo na altura composta por: António das Neves
Travessa, Artur Fernandes da Silva Lúcio, José Manuel Damásio Cabaço,
António Eduardo Morais Andrade, Manuel Santana da Silva Lobo e
Lourenço Rato. Sob a tutela da Junta de Freguesia de Salvaterra de
Magos.

1980 – Bancadas, uma obra da “ Comissão de Amigos do Parque”

Foto: José Gameiro

163

Cerca de uma dezena de anos depois, com a morte de alguns e, a saída
de outros, Manuel Santana Lobo, era a figura mais representativa
daquela equipa. Este, grande amigo do recinto infantil, com os seus
contactos, em 1987, conseguiu a oferta, de
algumas bancadas, em cimento, vindas do Estádio da Luz, que na época
estava em obras. A zona do lado sul do parque, passou assim a contar
com bancadas, que em tempo de Verão, acomodava os espectadores,
nos jogos de Hóquei em Patins , no seu Ringue, e até de futebol.
Na conservação daquele espaço, notava-se cada vez mais a presença
dos poderes municipais, especialmente da Junta de Freguesia, acabando
esta por intervir totalmente no seu destino.

III
OBRAS DE CONSERVAÇÃO E MANUTENÇÃO

A Junta de Freguesia de Salvaterra de Magos, presidida por João
Nunes dos Santos , em 2000, levou a cabo grandes obras de conservação
colocando uma nova vedação, e outros arranjos no recinto com material
moderno para as brincadeiras das crianças. Os custos de tais obras de
intervenção, foram significativos pesando no orçamento daquela
autarquia de fregueses locais, que não foi pacifico naquele executivo,
pois as divergências depressa eram do domínio público.
Logo correram rumores, quanto às verbas ali gastas, e ao destino a
dar às duas piscinas, que já algum tempo estavam descativadas (

164

alegava-se que serviços públicos de higiene e segurança tinham dado
parecer desfavorável à utilização das piscinas por estarem a céu
aberto).
Tais desavenças naquele executivo, foram mais notórias porque o
autarca presidente – João Nunes dos Santos, pretendia dar uso
diferente às piscinas, especialmente à grande, o que contrariava os
desejos inicialmente previstas e concebidas pelos seus promotores, em
1975.
Face a tais desentendimentos entre os eleitos, que provocou alguma
agitação na população, muitos dos fundadores daquela obra, estiveram
presentes numa Assembleia de Freguesia, convocada expressamente,
pois desejava-se saber na realidade o que o executivo pretendia para
aquele património. público da vila.
Naquele debate público, o autarca, João Santos (1), foi
responsabilizado em continuar a conservar a construção daquele
recinto tal como foi concebida e, acabou por assumir publicamente as
obras ali efectuadas, informando que brevemente iria melhorar o
sistema de água no funcionamento das piscinas, com a adaptação de
bombas eléctricas.
Os dias
correram,
os
compromisso
assumidos não foram satisfeitos
naquele espaço de utilidade pública.

165

O CORTE DE ÁRVORES

O ano de 2004, tinha acabado, com um Inverno pouco chovouso para
a época, era de esperar que a Primavera, decorre-se normal para
aquelas bonitas e frondosas árvores ali plantadas, como vinha
acontecendo há 30 anos.
Para alguns Choupos, e outras espécies, o seu destino chegou ao fim,
em Fevereiro de 2005, o executivo da Junta de Freguesia, estava a
iniciar uma nova série de obras no recinto do Parque Infantil.
O abate das árvores, logo fez correr entre a população uma onda de
indignação, que se ouvia aqui e ali, com comentários de condenação pelo
trabalho ali efectuado. O executivo de João Nunes, fez correr a
informação que a população queixava-se de “alergias” que as árvores
estavam a provocar. Com a confusão instalada, dizia-se: “Se doença
existia em algumas espécimes, poderia ser solicitada intervenção dos

serviços oficiais da especialidade, e nunca o corte puro e simples., que
seria a última decisão a tomar”

Depressa os utentes do Parque Infantil, que por ali levavam as suas
crianças a brincar, tomaram conta - o interior de uma Arrecadação, foi
transformada em sala de jogos, especialmente de cartas para idosos,
servindo o bar daquele recinto infantil, para servir bebidas com teor
alcoólico aos praticantes daquele entretenimento. Correu a informação
pública, que tal ocupação daria aos pais e avós a oportunidade de
estarem mais atentos às suas crianças. Estava assim, consumado o
trabalho de transformação ali iniciado em 2000.

166

***************

*********************

(1) – Conforme consta na acta daquela reunião pública
Nota do autor : Desde o tempo, em que fizemos parte da construção
daquela obra - que é o Parque Infantil - sempre foi voz maioritária
entre os seus fundadores, uma solução futura para o uso das
Piscinas: Poderiam ser aproveitadas, para um recinto com água,
onde Aves Aquáticas, especialmente Patos, dariam novo
enriquecimento ao Parque infantil, para divertimento das crianças.
(*) - No final daquelas obras, o pavimento do Ringue de
Patinagem, estava substituído por um tapete de relva sintética, e a
Piscina Pequena, tinha sido “entulhada” e, relvada por cima.
**************

**********************

IV
OS JARDINS DA VILA

Jardim da Praça da República

Este espaço ajardinado, de Salvaterra de Magos, tornou-se uma
curiosidade fotográfica, nos últimos tempos, pois as mesmas têm sido
imensamente reproduzidas e, agora são motivo de decoração em tudo
quando é sítio.

167

Foi um espaço emblemático da terra, pois era o único, e as suas
primeiras fotos conhecidas datam de 1940. Um tempo antes da
destruição daquele espaço original,
que ocorreu em 1957 (1), existiu ali
uma zona de grande arvoredo,
conforme nos mostra um mapa dos
finais do século XIX, o local tinha o
nome – Dr. Oliveira Feijão.

Jardim do Largo Combatentes
Situado num grande espaço no centro de Salvaterra de Magos, mesmo
ali em frente ao edifício escolar “O Século”, passou a ser conhecido pelo
jardim do Lopes, ou do Ribatejano
A sua urbanização como jardim público, ronda o ano de 1957, pois até
aí, no local apenas existiam algumas árvores, já de idade avançada, e o
terreno era de argila com pequena pedra redonda.
O abastecimento da rede pública
de electricidade à vila, trouxe a
possibilidade de aí serem colocados
quatro candeeiros de grande altura,
construídos em cimento, de
configuração redonda, sendo o seu
espaço, ocupado, com um quadrado, cujo chão recebeu calçada
portuguesa (2), e grandes canteiros, que para além da relva,
sustentavam flores, nas quatro épocas do ano.

168

.
Avenida Dr. Roberto F. Fonseca
No início do século XX, era uma artéria de grande trânsito da vila,
especialmente de manadas de animais.
Desde tempos remotos, povo chamava-lhe rua do Calvário, pois nela
existia uma grande cruz,
que durou até ser
mudada
para
o
cemitério local, pois um
grande
investimento
urbanístico, estava em
projecto para aquele
espaço, na década de 40
- uma avenida com cerca de 900 metros - com os seus grandes
canteiros para relva e flores, onde se viam árvores em fila, de ambos os
lados.
A Avenida, recebeu o nome de Vicente Lucas de Aguiar, um antigo
presidente da câmara municipal, no século XIX, quando da sua morte,
ainda foi a enterrar no cemitério da antiga capela real.
Depressa, passou a emblemática da vila, e passou a Dr. Roberto F.
Fonseca, um outro antigo presidente do concelho local, Os seus grandes
canteiros de relva e flores, disso davam conta todo o ano, para mais
tinha num dos seus topos, uma bonita Praça de Toiros. O seu lindo
arvoredo é substituído periodicamente.

169

*************
Nota: Quando das obras que deram origem à transformação do Jardim, foi o
empregado José Gameiro Cantante, na companhia de um colega, de nome André,
destruíram o seu muro, “à marretada”, trabalho que durou uma semana.
(2) – Trabalho executado por um grupo familiar, naturais da vila de Muge, que se
dedicava a este género de trabalho, pois já tinham calcetado várias ruas da vila, com
pedra preta.

****************************

170

Fotos publicadas:
Página 3 – Terreno cedido pela Câmara Municipal, para o local da
construção do Parque Infantil de Salvaterra de Magos * Foto a/d
Página 4 – Lourenço Santana Rato, da Comissão e Leonardo
Cardoso, Presidente da C. A. da Câmara, colocam a primeira pedra
para o Parque Infantil de Salvaterra de Magos * Foto - Autor
Página 5 - Dia da Inauguração do Parque Infantil – Germano Jorge,
um dos colaboradores das obras, abre os portões * Foto Autor
Página 8 – Edifício com do bar, recebendo obras de conservação, e
abertura do espaço para idosos – Foto Autor
Página 10 – Praça da República 1940 * Foto Alexandre Cunha
Página 11 – Antiga Escola Primária (Largo dos Combatentes)
década 50 séc. XX * Foto Alexandre Cunha
Página 11 – Avenida Dr. Roberto Fonseca, vendo–se nos lados
grandes canteiros, que tinham flores todo o ano. – 1985 * Foto A/d
Nota: Quando da inauguração, na abertura dos portões, as duas
primeiras crianças a entrar são filhas do autor
Bibliografia usada:
* Revista “A Hora-1936 ” Aurora do Ribatejo
* Diário do Ribatejo
* Diário de Lisboa * Século * Jornal Vale do Tejo
* Documentos do Autor, e outras fontes
************************
(*)- Notícia publicado nos jornais “Aurora do Ribatejo” e “ Diário do
Ribatejo”, em 26/7/1975

171

1975 – Brinquedos no Parque Infantil

2013 – Desativação total da Piscina grande

172

CADERNO DE APONTAMENTOS Nº 13
Património:
Geográfico, Monumental, Cultural, Social, Político,
Económico e Desportivo
******
Documentos para a história
De
Séc. .XIII – Séc. XXI

SALVATERRA DE MAGOS

( Da Diligência ao Automóvel, viagens até ao Cabo)

O Autor
José Gameiro

173

Primeira edição
FICHA TECNICA:
Titulo:
0S TRANSPORTES PÚBLICOS DE PASSAGEIROS !
( Da Diligência ao Automóvel, viagens até ao Cabo )
Colecção: RECORDAR, TAMBÉM É RECONSTRUIR
Papel Brochado – A5

Autor: Gameiro. José
Editor Gameiro, José Rodrigues
Morada: Bº Pinhal da Vila – Rua Padre Cruz, 94
Localidade: Salvaterra de Magos
Código Postal: 2120- 059 SALVATERRA DE MAGOS
ISBN:
978– 989 – 8071 – 13 – 2 * 1ª edição * Março 2007
Depósito Legal: 256465 /07
Edição : 100 exemplares – Março 2007

174

Fotos da Capa: - Carro (Diligência) puxado a dois animais, Marca “ Rippert”–
1920, da família Torroaes * Veiculo Automóvel. para Transporte Colectivo de
12 Passageiros – Marca Ford - Modelo T 2, no Dia da Chegada a Salvaterra
de Magos – O empresário Alfredo da Piedade, com a filha (Maria) ao colo,
junto de amigos. - 1925

175

******************************

2ª edição Revista e Aumentada – Março 2015
**********************************

Contactos: Tel. 263 504 458 * Telem. 918 895 704
e-mail: josergameiro@sapo.pt
O Autor neste texto não usa o acordo ortográfico de 1990

176

O MEU CONTRUBUTO

Por volta de 1951, ouvia o meu pai contar
que quando chegou o carro de carreira de
passageiros, de um membro da família
Torroaes, empresário do ramo, aí no
dobrar da década de 20 do séc. XX, vinha
substituir a velha diligência puxada a dois cavalos. Este novo
meio de transporte, passou a ser conduzido pelo “João
Chauffeur”, motorista que veio de Santarém trabalhar para a
firma. O carro ia a casa dos passageiros para os receber no
inicio da viagem. Dois ou três anos depois, a empresa foi
adquirida por Alfredo Piedade “Alfredo Calafate”, ficou
registada de Empresa de Viação Salvaterrense, e adquiriu um
novo veiculo de passageiros, uma Ford que passou a receber
os passageiros em frente à Igreja, passando a fazer também o
transbordo na estação de Muge.
Por volta de 1940 o alvará da exploração foi adquirido pela
família Anastácio, de Benavente, e passou a usar o nome
Empresa de Viação Benaventense, e tinha a recolha de
mercadorias “Central” (para a estação de Muge), na rua Trás
da Igreja/ou rua das sentinas. No final de 1948, a empresa
Setubalense, de João Cândido Belo, adquiriu aquela empresa,

177

pretendia alargar a sua exploração no Ribatejo, até porque a
Ponte de Vila Franca de Xira, estava em construção.
Depressa a “Central” passou para a rua Heróis de Chaves,
e as camionetas tinham paragem em frente à antiga Escola
Primário “O Século”, no Largo dos Combatentes.
Quando o ano de 1957, já ia longo, passei a ser empregado da
Setubalense –entrando assim, ainda jovem no mundo trabalho,
prestando serviço na Central.
Com o decorrer dos anos, ali tive ocasião de ouvir relatos
de antigos passageiros, cujas histórias de velhos hábitos de
transporte, me encantavam. Fui tomando boa nota delas,
decerto não ficaram perdidas, porque aqui as guardo nestas
páginas, cuja edição teve lugar em 2007, e que agora volto a
publicar, com edição revista e aumentada.
Março 2015
O Autor:
JOSÉ GAMEIRO
( José Rodrigues Gameiro )

178

I
A VALA REAL, UMA VIA DE TRANSPORTES
Salvaterra de Magos, é uma povoação situada junto à margem
esquerda do rio Tejo, em pleno coração da Lezíria ribatejana, e pelos
Forais que recebeu o povo teve a obrigação de abrir uma vala, que
escoasse as águas que se acumulavam nas suas terras.
Já no séc. XIII, para Santarém, os
caminhantes a pé e a cavalo, usavam
um caminho do tamanho de cinco
léguas, de Salvaterra até Santarém,
que atravessava o campo, desde a
Ponte da Vala, saindo para lá de
Almeirim, muito próximo do rio Tejo, com a cidade à vista.
.
As viagens, através do campo eram penosas e demoradas, em
charretes, puxadas a um ou dois cavalos
Dando realce a alguns relatos do séc. XVIII, o paço real de Salvaterra
de Magos recebia com frequência a presença da realeza, o que dava uma
nova vida à povoação, pois fazia dela um grande centro de movimento
cultural e político.
As viagens de e para Lisboa pelo rio, nas embarcações,
especialmente em Bergantim, pelo elevado número viajantes, levava a

179

que se forma-se um transporte colectivo de passageiros, muitas vezes
animados com músicos a bordo.
Os barcos de carga, as fragatas, que manobravam diariamente no
leito do rio, com mercadorias, no fornecimento à capital do país, ou
mesmo para Santarém, eram aproveitados pelo povo para uma “boleia”
para aquelas cidades. Até aos meados do século XX, ainda era usado
este sistema de viagem, especialmente pela população mais pobre,
sendo o Poço do Bispo, em Lisboa, quase sempre o local de destino. Em
dias de vento favorável, as viagens duravam entre 3 a 4 horas, em
barcos pequenos, como as faluas.

1950 - Barcos Fragateiros no Cais da Vala Real
Foto: Alex. Cunha

180

II
OS TRANPORTES PUBLICOS DE PASSAGEIROS
A hora dos transportes públicos colectivos de passageiros, chegou a
Salvaterra de Magos, por volta de 1920, com a família Torroaes, a utilizar
uma carruagem do tipo, Rippert, puxada por dois animais da raça
cavalar.
O único caminho existente até ao Pontão do Cabo, para o acesso a Vila
Franca de Xira, era a estrada do Convento, e o campo de Benavente,
onde uma barcaça atravessava o Tejo.
Este tipo de transporte durou
pouco tempo, deu lugar a uma
viatura para 12 passageiros.
Com a venda da exploração do
ramo a Alfredo Rodrigues, este
depressa, adquiriu uma pequena
e moderna viatura automóvel da
marca Ford, Modelo T, com capacidade para 12 passageiros.
A sua sede, era numa casa no Largo da Igreja Matriz, situada ali
próximo da sua torre, mesmo à estrada da rua Dr. Gregório Fernandes.
A exploração deste serviço público de passageiros, em 1940, foi
vendida a Alfredo da Piedade (Alfredo Calafate), antigo calafate, de
pequenas embarcações de pesca na vila.

181

Este novo empresário, colocou ao serviço, dos passageiros, mais uma
viatura, do mesmo tipo e modelo, com destino à estação dos caminhosde-ferro, em Muge, dando assim início ao aparecimento da Empresa de
Viação Salvaterrense, Ldª
Um dos motoristas daquelas viaturas, João Pedro de Jesus Silva,
homem de poucas letras, que veio dos lados de Santarém, passou a ser
conhecido pelo o “João Chaufeur”. “Contava-se, muitas estórias sobre
este motorista, retiramos uma: Ao informar das contas do serviço
prestado no dia, tinha uma forma peculiar de o fazer quanto à
quantidade passageiros transportados: Se o total fosse 10 – eram
identificados assim: três homens, duas mulheres, três velhos um rapaz e
um guarda.”
AS GARAGENS

Num antigo espaço do palácio real, agora Largo dos Combatentes,
sendo aproveitada muita da sua pedra, foi construído um grande edifício,
que mais tarde veio a ser adega, serviu de garagem, como no Rossio da
Vila (Trás Monturos) houve recolha da camioneta da carreira.

Carreira atravessando uma cheia entre
Benavente e Salvaterra

182

O TRANSPORTE DE PASSAGEIROS EM TÁXI
Naquela época já a população tinha ao seu dispor, um carro de aluguer
(taxi) de 5 passageiros, da marca Ford, mais tarde substituído por um da
marca BuicK, modelo descapotável.
Era seu condutor, Mário Luís das Neves, mais conhecido pelo Mário
Puto, devido à sua pequena estatura.

Táxi – Motorista; Mário Neves (penúltimo) * Foto A. Cunha,

Com o decorrer dos tempos, vários alvarás (licenças), foram passados
a novos industriais do ramo, sendo hábito o passageiro ir a casa do
taxista, requisitar a viatura para a sua deslocação, costume que foi
mudando com a instalação da “praça”, no Largo dos Combatentes, num
espaço que a câmara municipal, atribuiu, onde aguardavam os
passageiros.
.

183

Este serviço de viaturas ligeiras de passageiros, aumentou e novos
empresários como: Amadeu Eduardo da Silva, João Cardoso, também
conhecido pelo nome de João Boneco, e os irmãos, Manuel e João
Oliveira (Capadão).
A exploração, deste tipo de transporte
públicos, foi cedida à então criada Empresa de
Viação Benaventense, Ldª, (da família
Anastácio), com sede na vizinha vila de
Benavente. Esta empresa por volta de 1948,
negociou com a Empresa Setubalense, de João
Cândido Belo & Irmãos, Ldª, com sede em Vila
Fresca de Azeitão (Setúbal), o alvará de
exploração nesta vasta zona ribatejana. A Ponte de Vila Franca de Xira,
estava em construção
Após a inauguração da ponte, em 1951, o acesso ao comboio, pelo Cabo,
atravessando o Tejo, deixou de se praticar. Uma nova etapa no transito
passou a ser de grande importância, e a Transportadora Setubalense,
soube aproveitá-la alargando assim o âmbito da sua exploração do
serviço público de passageiros, para várias zonas do país.
Entre os vários percursos nesta zona, tinha: Coruche/ Vila Franca de
Xira, Vila Franca de Xira/Glória do Ribatejo, Benavente/Muge. Dos
vários itinerários, que passavam por Salvaterra de Magos, o primeiro
horário, era à 6,30 da manhã, vindo de Coruche, enquanto o último ia
para a Glória do Ribatejo, passava às 22,30 horas.
Para Santarém, as ligações faziam-se junto à estação de Muge, com a
Empresa de Camionagem Ribatejana, com sede naquela cidade.

184

A ligação com Évora, procedia-se através de Coruche,
ficando Mora, no caminho, onde os passageiros, para aquela
cidade alentejana, e mesmo com destino ao Algarve, tinham a
viagem assegurada através da Empresa de Viação do Algarve
(EVA). Lisboa, passou a ser um destino directo, quando da
abertura da auto-estrada A1, completando -se um ciclo que já
abrangia Setúbal.
NOVA CENTRAL DE CAMIONAGEM
A Setubalense, mantendo o “velho”
contrato existente com os caminhos de
Ferro – CP, existia uma “Central” para o
trânsito de mercadorias, através da
Estação de Muge, próximo da Igreja
Matriz. Em 1956, mudou os serviços para
a rua Heróis de Chaves ocupando uma pequena casa alugada
(1), à família Vieira Lopes, com um empregado devidamente
fardado, tal como os motorista e cobradores, como era uso e
obrigatório na época. O local de paragem das viaturas, passou
a efectuar-se no Largo dos Combatentes (junto à escola
primária), e um outro tipo de movimento de mercadorias
(pequenas embalagens) a transportar nas carreiras passou a
ser movimentado. Os despachos dos mesmos, eram feitos em
comissão de serviço, pelo Café Ribatejano, fazendo tal tarefa o
seu empregado de balcão, José Tiago Andrónico, em
simultâneo com os afazeres do estabelecimento.
***********
(1) – Casa de habitação, onde o autor nasceu em 1944

185

Naquele tempo, existia um homem que, fazia duas vezes por semana,
o trabalho de comprar em Lisboa, pequenos produtos, Era o Estafeta
Vitor, de Vila Franca., sendo esperado à chegada da carreira, para as
entregas, recebendo o pedido de novas encomendas.
Em 1957, a paragem das carreiras passou para a “Central”, na rua
Heróis de Chaves, até porque a vila tinha pouco movimento automóvel, e
naquela rua, pouco mais passava do que meia dúzia de carros ligeiros ao
longo do dia.
Em 1963, com o início das obras levadas a
cabo pela família Vieira Lopes, que
transformou aquele seu velho espaço de
casario (ainda restos de instalações
pertencentes ao palácio real ), numa nova
urbanização.
A construção incluiu três andares, para
habitações, e o piso térreo, foi aproveitado
para área comercial e serviços. Enquanto durou a construção da obra, a
“Central”, esteve provisoriamente no Largo dos Combatentes, num
espaço, que muitos anos antes tinha sido taberna daquela família, e
ainda mantinha os seus vestígio.

186

INAUGURAÇÃO DA ESTAÇÃO DE CAMIONAGEM
No dia 4 de Abril de 1964, teve lugar a inauguração das novas
instalações da nova “Central” ou Estação de Camionagem, (ocupando o
mesmo espaço térreo que tinha a antiga moradia). As mercadorias,
eram agora todas movimentadas a partir daquele local, pelos
empregados da empresa, nas suas carreiras diárias.
Os veículos transportavam os passageiros e suas bagagens., as
bicicletas que eram o transporte da época do trabalhador rural., eram
colocadas no tejadilho dos carros.
Uma grande rede as cobria e, os horários, nunca eram cumpridos, o
tempo que em cada localidade levava a carregar e descarregar as
mercadorias, muitas vezes de toneladas, era um trabalho penosos, de
todo o pessoal, onde os “Cobradores” eram os mais atingidos, pois
tinham de arrumar conforme as localidades ainda a percorrer.
Nova Estação,
José Gameiro
No dia da
Inauguração

O descarregar ferro (chapas e barras), vindo de um armazém
em Vila Franca, para as oficinas de ferreiros, carregar madeira
(portas e janelas para habitações), Marinhais, Glória e Foros de

187

Salvaterra, era um trabalho diário, pois as carpintarias aqui instaladas,
também usavam este meio de transporte. A empresa dos irmãos Belos,
continuava a alargar a sua influência nesta área de transportes,
adquirindo os Alvarás da Camionagem Ribatejana (Santarém)
Camionagem Vilela (S. Pedro de Muel) e Empresa Martins, de Évora.
Com as transformações verificadas após a revolução de Abril de 1974,
a Transportadora Setubalense, como muitas outras no país, foi alvo das
nacionalizações, dando origem a uma única : A Rodoviária Nacional – RN.
Anos depois, desmembrada esta em pequenas empresas, por via das
privatizações, Salvaterra de Magos, ficou servida pela nova empresa,
denominada “Belos” que, mais tarde deu lugar a uma outra, a
“Ribatejana”, que agora serve as povoações da zona.

1964 – 1) As Carreiras em frente à nova Estação
2) Mulheres Foreiras

José Gameiro,
Camionagem 30
da Inauguração *
Gameiro

visita a Estação de
anos depois
Fotos de: José

188

*****************
A fechar este pequeno Apontamento histórico, dos
transportes públicos de passageiros, muitas estórias
conhecidas, ficaram por nele incluir, como aquelas da Rosa
Sena ir, primeiro carro de carreira que parava em frente à
Ibreja Matriz, e o rapazio ia brincar para cima do seu tejadilho,
e dos despachos dos cestos das galinhas para Lisboa, através
do caminho-de-ferro, em que à partida o empregado de nome
Magalhães fazia “surripiar” uma, para um petisco da rapaziada
sua amiga de petiscos, mas a contagem à chegada à capital
estava sempre certo !
********************

1968 - Camionetas da Carreira, na rua Heróis de Chaves
Fotos: José Gameiro

189

Anexo:
UMA GALINHA PARA O ALMOÇO DE TRÊS,
QUE ERAM QUATRO, E AINDA SOBROU GALINHA !
O século XX, estava a meio, quinze anos já tinham
passado, mas ainda se falava do assunto, quando vinha à
baila qualquer referência à fome que grassava em muitas
casas da vila de Salvaterra de Magos. Por volta de 1935,
o jovem José filho de Carlos Torroaes, empresário de
transportes públicos de passageiros, da vila, era muito
conhecido pela forma pitoresca de contar as suas
diabretes Esta é uma delas:
Um dia teve necessidade de se deslocar a Lisboa, para
a necessária mudança do alvará que a família possuía,
pois tinha ao serviço duas Diligências; uma para Vila
Franca, e uma outra até à estação dos caminhos de ferro,
em Muge.
A que levava e
recebia passageiros de e para
Vila Franca de Xira, era servida
pelo pontão do Cabo, que
atravessa o rio Tejo, com a
estação dos Caminhos de Ferro
mesmo ali defronte.
Estávamos na era da implementação das viaturas
mecanizadas, mas aquela família ainda conservava o
transportar dos passageiros com ida de manhã e regresso
à tarde, em diligência.
Em Lisboa, na Repartição do Estado já depois dos
problemas resolvidos, convidou o funcionário que o

190

atendeu (pela fala dava mostras de ser nortenho) se
aceitava um almoço em Salvaterra, em pleno Ribatejo.
Este de imediato aceitou, mas que seriam dois, pois fez
questão de apresentar um outro colega.
Na véspera, daquele Domingo de Agosto, tinha
organizado com a esposa, o repasto para os convidados,
seria uma galinha, daquelas que existiam na capoeira dos
pais. No que dizia respeito ao final da comida e antes do
café, teria lugar uns doces feitos por sua mãe.
A fruta, melão daqueles que, um amigo de Muge, lhe
oferecera uns dias antes, por lhe ter ajudado a preencher
um requerimento na câmara municipal. O vinho doce
para entrada antes do início do banquete mesa, enquanto
duravam as apresentações, tal como o vinho servido à
mesa, seria da adega do tio Virgolino José Torroaes.
No dia aprazado, manhã cedo, o Torroais, lá estava no
Pontão do Cabo, numa Charrete tirantada a um cavalo,
esperando os seus convidados.
Um comboio do outro lado do rio, dava mostras de
paragem. Os convidados lá chegaram, no batelão e
apressaram-se nos cumprimentos habituais com abraços
à mistura saiu a informação como tinha decorrido a
viagem no comboio, Lisboa-Vila Franca. De seguida
veio o necessário pedido de desculpa, pois apresentavase mais um colega convidado de última hora.
A viagem até Salvaterra foi iniciada, o cavalo em
marcha troteada, percorria a recta do cabo, pelo caminho
empedrado aqui e ali. O campo apresentava-se nos dois
lados, separado por uma vedação de arame e, por duas
pequenas valas que corriam ao longo do trajecto,

191

transportando um pequeno fio de água, naquela época do
ano. Ali próximo da Ermida de Alcamé, já alguns
ranchos de homens e mulheres ceifavam o que restava
das cearas de sequeiro, especialmente trigo – estava-se
em final da temporada agrícola.
Algumas manadas de gado bravo, vigiadas pelos
campinos, chegavam-se até às valas, afim de se
sedentarem, da noite passada ao relento. A viagem
correu, sem grandes sobressaltos, pelos campos da
Lezíria, em direcção a Benavente., com anfitrião dando
as necessárias informações das atividades rurais que ali
se desenvolviam. Mais de hora se tinha passado e
chegados ao trilho da Fonte das Somas, que o levaria
pelo caminho do Convento até Salvaterra,
O José Torroaes, da algibeira do colete retirou o
relógio, e vendo que eram apenas 8 horas da manhã,
mudou de caminho, e seguiu viagem para os lados da
Aldeia do Peixe, rumo aos Foros de Salvaterra., tinha
tempo e queria mostrar todo o potencial daquela região
foreira.
Algum tempo depois, chegados à taberna do António
Querido, já seu velho conhecido, apresentou-lhes tão
ilustres viajantes.
Depressa, o A. Querido, passou a convidante e serviu
sem cerimónias, um petisco, à base de carne de porco
assada, acompanhada com um bom vinho das terras
arenosas dos Foros. Perto de uma hora, demorou a
pequena refeição e retomada a viagem, a comitiva

192

acenava com os chapéus, em resposta a alguns grupos
familiares, onde os homens de barrete na mão,
cumprimentavam, e os rapazes com os jovens faziam
alguma vozearia, estavam nas suas terras e faziam tarefas
de pequena agricultura, aproveitando o domingo.
Uma nova paragem foi no Estanqueiro, na taberna
local, foram convidados para apreciarem um petisco. Uns
chouriços caseiros, cortados às rodelas, acompanhados
com pão ainda fresco (cosidos na véspera no forno a
lenha), e um vinho branco, retirado de um garrafão que
estava no fundo do poço a refrescar.
Os viajantes, estavam deslumbrados com tal recepção,
a viagem continuou a caminho das Buinheiras dos
Freires, eram quase 11 horas, o caminho de areia ladeado
por valados, que o estreitavam, faziam com que várias
famílias num lado e de outro, estivessem quase juntas
nos afazeres das suas terras. As manchas de vinhas e
pinhal davam um novo colorido ao local.
Os acenos continuavam, o entusiasmo era de alegria na
comitiva, ali próximo das terras da Alagoa, o chefe de
uma família conheceu o Carlos Torroais, pois era a ele
que recorria quando precisava de alguma coisa nas
repartições públicas da vila. A paragem foi inevitável,
apresentados os viajantes, logo todos foram convidados
para petiscarem na casa mesmo ali próximo, debaixo da
latada de vinha que sombreava a casa.
Aceite o convite, a família composta pela mulher e
mais duas filhas ainda moças e um rapaz, acabado de

193

chegar havia três semanas da vida militar, pois tinha
estado nos Açores, desdobravam-se em simpatias,
perante tão ilustres visitantes, em casa.
Carlos Torroaes, aproveitou para desengatar o animal
da charrete, e dar-lhe de comer e de beber um balde de
água fresca, que foi retirada do poço!
Uma mesa foi preparada. As moças, serviram sopa de
carne de porco, estava quente dentro do tripé de ferro, na
chaminé em lume brando, alguma carne que estava na
salgadeira havia três dias, foi assada, pois tinha-se morto
o porco da engorda daquele tempo. Um jarro de barro
com bom vinho tinto, retirado da adega, acompanhou a
refeição. Depois foi servido algumas fatias de melão.
Todos os homens já bem comidos e bebidos, a alegria
estava estampada no vermelhão das suas faces. Um
deles, dava mostras de algumas aptidões em cantorias, a
ocasião, deu azo a que o jovem regressado a casa, sendo
bom tocador de gaita de beiços, logo tocou uns viras,
músicas da região ribatejana. Eram 3 horas da tarde, foi
retomada a viagem, através das Buinheiras, a caminho do
Paul de Magos, onde nova paragem, ocorreu na taberna
no cimo do Paul, inaugurada havia pouco tempo, um
lanche foi oferecido pelo dono da tasca, umas postas de
Atum (embebido em azeite numa barrica), foram postas
no balcão, um pão grande e, um vinho branco, foi mais
tarde acompanhado de uma prova de melões que se
encontravam numa parga (em pirâmide), debaixo de uma
árvore, esperando comprador.

194

Um dos convidados, olhava constantemente o relógio
com corrente, que tinha na algibeira do colete, no entanto
não deixava de participar nas anedotas que o grupo ia
contando, até porque uns clientes também entraram na
roda dos dichotes.
Já a caminho de Salvaterra, cantarolando de contentes
pelo dia bem passado no Ribatejo, chegaram à vila, na
antiga rua do Pinheiro, junto à casa do Torroaes, onde
um pequeno grupo de vizinhos, fazia companhia à
família na espera e comungando das preocupações, pois
eram já cerca das 6 horas da tarde e, a chegada estava
prevista para as 9 horas da manhã. Todos os
convidados, dando mostras de algum nervosismo, muito
agradeceram a oferta, e o dia inesquecível, mas
insistiram na viagem de regresso a Lisboa.
O cavalo lá voltou agora numa correria, ao encontro
do comboio, que não esperava!..
***********

195

BIOGRAFIA USADA:
Documentos do autor
FOTOS USADOS:
* Pág. 2 – Bergantim real - barco de transporte
pessoas
* Pág. 4 – Sede da Empresa Transportes
Públicos - Família Torroaes
* Pág. 5 – Igreja Matriz de Salvaterra, local de
Paragem das carreiras, até 1957
*Pág. 6 - Em 1957, José Gameiro - Empregado
da Camionagem Setubalense –
(Central Caminho de Ferro - CP de Salvaterra
de Magos – estação Muge)
* Pág. 9 – Modelo de Charrete, usado no
transporte dos convidados (a/d)
**********

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Índice:

7 – A Escola Obrigatória ( Um Março na mudança da
cultura do Povo)
8 – Honra ao Mérito (Servir para além da coisa
pública)
9 – Quando Vindimar, Era uma Festa !
10 – Uma Zona Industrial ( Um desejo que vem do
passado)
11 - Fragateiros, Cagaréus e Avieiros
(Gente que viveu do Tejo)
12- O Parque Infantil, e as suas Piscinas
(Um sonho – uma realidade)
13 – Os seus Transportes Públicos de Passageiros
( Da Diligência ao Automóvel, viagens até ao Cabo)

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