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o DIREITO INTERNACIONAL E O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

*
CARLOS MÁRIO DA SILVA VELLOSO **

1. Palavras iniciais. 2. A extradição e seu controle jurisdicional. 2.1. A
deportação do estrangeiro. 2.2. A expulsão do estrangeiro. 2.3. A extradição. 2.3.1. Causas excludentes da extradição. 2.3.2. Crime político, crime
comum e atos de terrorismo. 2.3.3. A extradição política disfarçada. 2.3.4.
A questão da prisão perpétua. 2.3.5. O objeto da defesa: sistema de contenciosidade limitada. 2.3.6. Os tratados de extradição e a lei brasileira. 3.
A entrega de acusados nacionais ao Tribunal Penal 1ntemaci01wL. 4. O
conflito entre o direito interno e os tratados e a posição da Corte Suprema
brasileira. 4.1. O artigo 98 do Código Tributário Nacional. 4.2. Os direitos
e garantias e os tratados firmados pelo Brasil. 4.3. A questão das isenções
heterônomas e a isenção de tributos estaduais e municipais por tratado
internacional. 5. Conclusão.

1. Palavras iniciais
No desenvolvimento do tema - o Direito Internacional e o Supremo Tribunal
Federal - procurarei situar-me em três aspectos deste, que me parecem relevantes:
primeiro, a extradição e seu controle jurisdicional, segundo, a questão da entrega de
nacionais acusados ao Tribunal Penal Internacional e, terceiro, o conflito entre o
direito interno e os tratados internacionais e a posição do Supremo Tribunal Federal.
O segundo aspecto do tema - a entrega de acusados nacionais ao Tribunal
Penal Internacional - não foi, ainda, apreciado pelo Supremo Tribunal. Parece-me,
entretanto, que, ao cuidarmos da extradição, essa questão não poderia deixar de ser
ventilada.

* Texto básico da palestra proferida no I Congresso Internacional de Direito Internacional, promovido
pelo Centro de Direito Internacional - CEDIM-MG e pela Faculdade de Direito da UFMG, em Belo
Horizonte, MG, em 26.04.2002.
** Ministro do Supremo Tribunal Federal. Professor-Emérito da PUC-MG e da Universidade de
Brasília - UnB. Membro da Academia Brasileira de Letras Jurídicas.
R. Dir. Adm.,

Rio de Janeiro, 229: 5-25,

Jul./Set. 2002

2. A extradição e seu controle jurisdicional
Em trabalho que escrevi e que se encontra no prelo, examinei a matéria em
pormenor - " A Extradição e seu Controle pelo Supremo Tribunal Federal".
Questões lá versadas. que nos parecem essenciais, serão aqui postas. ainda que
resumidamente.
Esclareça-se que a extradição de que cuidaremos é a extradição passiva, que
diz respeito basicamente ao estrangeiro, na qual o Brasil põe-se na situação de Estado
requerido. E diz respeito basicamente ao estrangeiro, por isso que estabelece a
Constituição da República que" nenhum brasileiro será extraditado, salvo o natu-

ralizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, na forma
da lei . .. Cuida o dispositivo constitucional da extradição passiva, dado que não há
vedação no caso de o Brasil pedir a extradição de brasileiro que haja cometido crime
no Brasil e que tenha se refugiado no exterior.
A extradição do estrangeiro distingue-se dos institutos da deportação e da
expulsão, que são também formas de exclusão do estrangeiro do território nacional.
2.1. A deportação do estrangeiro
Poderá ser deportado o estrangeiro que haja entrado irregularmente no Brasil,
ou cuja estada no território nacional tenha se tornado irregular, seja por excesso de
prazo, seja porque, tendo entrado na condição de turista, aqui esteja exercendo
atividade profissional remunerada. A deportação poderá ocorrer por ato da autoridade
policial, por exemplo, podendo o estrangeiro, regularizada a sua situação, retornar
ao Brasil. A deportação está disciplinada nos artigos 57 até 64 do Estatuto do
Estrangeiro, Lei 6.815, de 1980, republicada em 10.12.81, por determinação da Lei
6.964, de 1981. Estabelece o art. 63 do Estatuto que não se procederá à deportação
se esta implicar extradição inadmitida pela lei brasileira.

2.2. A expulsão do estrangeiro
Poderá ser expulso, vedado, em princípio, o retorno ao Brasil, o estrangeiro que
for condenado por um ou mais dos crimes mencionados no art. 68 da Lei 6.815, de
1980, ou cujo procedimento o torne nocivo à conveniência e aos interesses nacionais
(Lei 6.815/80, art. 65). O parágrafo único do art. 65 do Estatuto elenca, ainda, uma
série de faltas que podem ensejar a expulsão do estrangeiro: art. 65, parágrafo único,
alíneas" a" até" d" . A expulsão pressupõe inquérito no Ministério da Justiça (art.
70 do Estatuto), cabendo ao Presidente da República decidir sobre a conveniência
e a oportunidade da expulsão ou de sua revogação (art. 66 do Estatuto). Não se
procederá à expulsão, se esta implicar extradição inadmitida pela lei brasileira ou
quando o estrangeiro tiver cônjuge brasileiro, do qual não esteja divorciado ou
separado, de fato ou de direito, e desde que o casamento tenha sido celebrado há
mais de cinco anos, ou tenha filho brasileiro que, comprovadamente, esteja sob sua
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a extradição solicitada por Estado estrangeiro (C. art. . originariamente. 5°. 102. artigos 207 a 214. Lei 6. Mirtô Fraga . e a pedido deste. Forense. cuidando-se" de uma relação executiva." I A extradição. art. na promessa de reciprocidade.. com base em sentença final de privação de liberdade. Lei 6.. alíneas" a" e "b" . 199. praticado antes da naturalização. "g".ante sua Justiça.. pág. ou será executória. 1998. Del Rey Ed . tribunal ou autoridade competente do Estado requerente. o pedido de extradição poderá ser recusado pelo governo. portanto. o divórcio ou a separação.. ) não goza. "A Relação ExtradicionalllO Direito Brasileiro". será instrutória. de uma prerrogativa de decidir sobre o atendimellto do pedido senão depois de um pronunciamellto da Justiça local. salvo o naturalizado. 1985. §§ 1° e 2°). art. em caso de crime comum. Carolina Cardoso Guimarães Lisboa.815/80. I. LII). de 1980. por um Estado a outro. competindo ao Supremo Tribunal Federal processar e julgar. a recusa não poderá ocorrer. RUSTF. A Lei 6. Rezek. artigos 76 a 94. Belo Horizonte. ou quando prometer ao Brasil a reciprocidade".815/80 dispõe. com envolvimento judiciário de ambos os lados: o governo requerellte da extradição só toma essa iniciativa em razão da existência de processo penal . Verificado o abandono do filho. ob. O novo Estatuto do Estrangeiro Comentado". págs. em geral. 2 Francisco Rezek. F. entretanto. 321.guarda e dele dependa economicamente. que "a extradição poderá ser concedida quando o governo requerente se fundamentar em tratado. Saraiva. 7" ed . caso em que há um processo penal em andamento no Estado-requerente. na falta do tratado. art. I e 11. pág. Direito Internacional Público" .findo ou em curso . ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins. em tratado.. 207 a 214). e o governo do Estado requerido (. 2001. págs. de fato ou de direito. cit. ou. 2 7 . Fundada. impedimento à expulsão a adoção ou o reconhecimento de filho brasileiro superveniente ao fato que a motivar. no seu artigo 76. 2. O Ministro Francisco Rezek define a extradição como sendo" a entrega. na forma da lei" (inc. incisos LI e LII. de indivíduo que em seu território deva responder a processo penal ou cumprir pena" . a expulsão poderá efetivar-se a qualquer tempo (Estatuto do Estrangeiro... arts. 75. 197-198. e no Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal. 83.. autorizada a prisão do extraditando por juiz.F. A extradição o instituto da extradição passiva tem as suas linhas mestras inscritas na Constituição.. Funda-se o pedido de extradição num tratado entre os dois países. Apoiada em promessa de reciprocidade. 122 e segs. Não constituem.815. entretanto. Está a extradição disciplinada no Estatuto dos Estrangeiros.3. LI) e que" não será concedida a extradição de estrangeiro por crime político ou de opinião" (inc. a estabelecerem que "nenhum brasileiro será extraditado. se assim o permitir a legislação local.

de coincidência entre os tipos. 267-Iugoslávia. perante Tribunal ou Juízo de exceção. Não existindo. ou quando o crime comum. ReI. Min.95. determinar. VII quando o fato constituir crime político não impedirá a extradição quando o fato constituir. a apreciação do caráter da infração (§ 2°).9. não sendo. no crime complexo que é um misto de crime comum e de crime político. Tem-se. seqüestro de pessoa. decidiu o Supremo Tribunal Federal 3 . oujá houver sido condenado ou absolvido no Brasil pelo mesmo fato.F. T. incisos I a VIII. Min.se tratar de brasileiro. devendo a prescrição ser perquirida. à luz da legislação do Estado requerente e do Estado requerid0 4 • VII . 638-Itália. RTJ 50/145.2. 77.3. quando a lei brasileira impuser ao crime a pena de prisão igualou inferior a um ano. da Lei 6. 571-Suíça. há de existir a dupla tipificação: que a conduta esteja tipificada como crime no Estado requerente e no Brasil. segundo suas leis.quando estiver extinta a punibilidade pela prescrição segundo a lei brasileira ou a do Estado requerente.quando o extraditando houver de responder. entretanto. VI . II quando o fato que motivar o pedido não for considerado crime no Brasil ou no Estado requerente. Ext. separadamente. a questão do concurso de jurisdição penais. na forma da lei". no caso. terrorismo..1.. V . no Estado requerente.quando o fato constituir crime político. exclusivamente. procedimento penal-persecutório. ReI. ReI. bem assim os atos de anarquismo. cabendo ao Supremo Tribunal. conexo ao delito político. Celso de Mello. pela diversidade de seus elementos 3 Ex!. "de comprovado envolvimellto em tráfico ilícito de elllorpecentes e drogas afins. no Brasil. RTJ 148/10. VIII .815. Dr de 15. ou. É dizer. ou que importem propaganda de guerra ou de processos violentos para subverter a ordem política ou social (§ 3° do art.2. sem necessidade.quando o Brasil for competente. 8 . em face das circunstâncias peculiares de cada caso. 5° da Constituição. podendo o Tribunal deixar de considerar crimes políticos os atentados contra chefes de Estado ou de quaisquer autoridades. 77). salvo se a aquisição dessa nacionalidade verificar-se após o fato que motivar o pedido.. constituir o fato principal (§ 1° do art. principalmente. pois. Crime político. infração da lei penal comum. Na Extradição 399-França. para o acórdão o Ministro Moreira Alves. 2. Thompson Flores. IV quando tratar-se de crime de pequena gravidade. prevalecerá a jurisdição estrangeira. III . ou seja. Causas excludentes da extradição As causas excludentes da extradição estão inscritas no art. de 1980: não se concederá a extradição: I . 4 Ex!. acrescenta o inc.quando o extraditando estiver respondendo a processo no Brasil pelo mesmo fato. Min. o Supremo Tribunal Federal decidiu que" cabe ao S. crime comum e atos de terrorismo A excludente do inc. para julgar o crime imputado ao extraditando. LI do art. sabotagem.3. 77). ReI. Carlos Velloso .

do crime comum . sabotagem. 399-França.constitutivos. i. sem utilização de armas de perigo comum nem criação de riscos generalizados para a população civil. à qual se vincularam illdissoluvelmellle. após cerrado debate . em princípio. propaganda de guerra e processos violemos de subversão da ordem . à luz do critério da preponderância. seqüestro de pessoas. são crimes políticos puros. homicídios e danos materiais. refere-se ao caso Firmenich." Na ocasião. Relator para o acórdão o Ministro Oscar Corrêa. a matéria foi amplamente discutida. No caso Firmenich .Extradição 493-República Argentina. da França6 . preponderância. de modo a constituírem delitos políticos relativos. lembrando que a extradição "foi concedida por maioria. a rebelião armada. Denegação.entendimento adotado pela Corte. § 3D . A associação ilícita qualificada e a rebelião agravada.Extradição 417 -República Argentina. ob. Vale a transcrição da ementa do acórdão: "EMENTA: Extradição. na linha do voto do Ministro Relator. perpetrados em 5 6 7 8 Ext.. Moreira Alves. Francisco Rezek. 77. está-se a ver. 3." E mais: "não constitui terrorismo o ataque frontal a um estabelecimento militar. invasão do quartel de La Tablada. pág. no caso Firmenich. 204. se as circunstâncias do caso evidenciam que o assumiu o Governo do Estado estrangeiro. ter ocorrido a preponderância do crime comum sobre o político. o Tribunal entendeu dispensável o exame da constitucionalidade do art. RTJ 132/J083. O Supremo Tribunal Federal. Criminalidade política. de exclusiva apreciação da Corte". do Estatuto dos Estrangeiros. 8. Pedido de extradição: dele se conhece. terrorismo. RTJ 1081l8. aplicando-se os §§ r a 3° do artigo 77 da Lei n° 6. ao lecionar que "a extradição pressupõe crime comum. não se prestando à entrega forçada do delinqüeme político" e que" ao Tribunal incumbe. ReI.. como definidas no vigente Código Penal argentino. pIo acórdão Min. Argentina. qualificar os casos fromeiriços".Fatos enquadráveis na lei penal comum e atribuídos aos rebeldes roubo de veículo utilizado na invasão do quartel. RTJ 111116. e privações de liberdade. No caso Falco . 9 . decidiu. foi no sentido de que os fatos ditos delituosos" estariam contaminados pela natureza política do fato principal conexo. lesões corporais. 7. Decidiu o Supremo Tribunal Federal pela "prevalência dos crimes comuns sobre o político. cit. acrescenta que" isso dá ensejo.. o Supremo Tribunal Federal não destoou do entendimento manifestado na Extradição 399. eventualmellle. embora formulado por carta rogatória de autoridade judicial.. dado que os fatos "caracterizam. Relator o Ministro Octávio Gallotti. 5. Relator o Ministro Sepúlveda Pertence a matéria foi novamente discutida e o . para efeito de extradição. à divisão de vozes". Por isso mesmo. ou não. 2. Na Extradição 486-Reino da Bélgica.8i5/80. Francisco Rezek. (a) . tendo em vista que decidiu pela inocorrência de terrorismo. delito intrinsecameme político se há.

é outro exemplo de que a Justiça brasileira cuida de não permitir a extradição dissimulada e que o controle jurisdicional sobre os institutos da expulsão. também. Ditos fatos. em 1980. estariam contaminados pela natureza política do fato principal concxo. 3. no momelllo histórico considerado. ademais. )" 11. O caso Ronald Biggs. por ol/tro lado. 11 Ex!. <) 10 10 •• . no direito brasilciro. Ex!.345-DF. Plenário. 77. Relator o Ministro Maurício Corrêa caso general Oviedo constando da ementa do acórdão: "( . na Ext. deve ser negada a extradição. Nesse sentido decidiu o Supremo Tribunal Federal. pelo menos. a denominada extradição política disfarçada. Não constitui terrorismo o ataque frontal a U111 estabelecimento militar. Sepúlveda Pertence. assim. 794-Paraguai. a rebelião armada. 17): falta. 5° da Carta da República. hoje Ministro do Supremo Tribunal Federal.A imputação de dolo eventual qualllo às mortes e lesões graves não afasta necessariamellle a unidade do crime por elas qualificados. sem utilização de armas de perigo comum nem criação de riscos generalizados para a população civil: dispensável. pois. evidenciem que a posição política do extraditando. 1980.combate aberto. Min. a estabelecer que" não será concedida extradição de estrangeiro por crime político ou de opinião". ReI. ReI. em relação a eles.12. (b) .3. RTJ 132/652 Anais da VIIl Conferência Nacional da OAB".. julgado pelo antigo Tribunal Federal de Recursos. mas de fato dissimula perseguição política. inclusive por não oferecer o Estado requerente.( .3. Min. na conjuntura real do Estado requerente. Extradição política disfarçada: ocorre quando o pedido revela aparência de crime comum. ainda quando considerados crimes diversos. na VIII Conferência Nacional da OAB. 67-69. o exame da constitucionalidade do art. 794-Paraguai. à qual se vincularam indissoluvelmellle. 11 HC 3. Peçanha Martins. pelo atentado l'iolento ao regime.74. Lecionou Pertence que" quando as circunstâncias demonstrem que a persecução fonnalmente desencadeada por imputação de delitos comuns dissimula o propósito de perseguir inimigos políticos Oll.. são absonidos. ) 4. § 3°. art. págs. de modo a constituírem delitos políticos relativos. do Estatuto dos Estrangeiros. quando embora l'ÍSando a repressão de crimes comuns. Min. a hipótese possa configurar extradição política disfarçada.2001. da deportação e da extradição é eficaz I1 . tipo qualificado pela ocorrência de lesões graves e de mortes (Lei de Segurança Nacional.. Essa matéria foi exposta pelo então advogado Sepúlveda Pertence.07. LlI do art. 20. A extradição política disfarçada Há que se tomar em linha de conta. ReI. Manaus. 5. 4. influirá desfavoravelmente no seu julgamento". o requisito da dúplice incriminação. garantias de fato de um julgamemo isento" 10. 493-Argentina. TFR." 9 2. 110 contexto da rebelião -. 17. mas. Maurício Corrêa. "não apenas quando fundada na acusação ou lia condenação por crime político.. que trata mal a garantia inscrita no inc.

) 2. que. assim sob o pálio da CF/67. RTJ 119/22. que é o teto estabelecido pela legislação brasileira. o que é grave". entretanto. J53. Se ainda não condenado. o Tribunal manifestara idêntico entendimento: "( . 75 do Código Penal? Lavra. no julgamento da Ext. J53 também o garante). J53 e não pode ser extraditado para cumprir prisão perpétua..4. depois de concedida a extradição".tal como ocorre com a pena corporal ou de morte. por falta de previsão na lei ou 1/0 tratado. polêmica a respeito do tema." 14 13 14 Ex!. estaria o Supremo Tribunal Federal" obliquamente comutando pena imposta por justiça estrangeira. ·Q6·EEUU. está cronicamente vestido pelo manto protetor do art. nos subjuga.no sentido de que a prisão perpétua deverá limitar-se a trinta anos. porque residente no Brasil. que ele não pode também ser extraditado para ser julgado por Ill1l Juiz singular em crime doloso contra a vida (porque o art. geralmente. improcedente a alegação de ressalm para a comutação de prisüo perpétua em pena limitativa de liberdade. Entende o Tribunal. RTJ 115/969. pode-se redarguir que esses direitos e garantias são dados" quaildo se defrontem com allloridade brasileira e não na hipótese em que devam comparecer ante justiça estrangeira. na forma do disposto no art. No julgamento da Ext. por coerência. Min. não obstante as últimas decisões terem sido no sentido da dispensa da ressalva. 426-EEUU. E aduziu mais: "Aquele argumento comparativo. Min.l2. somente. tomadas. ReI. indaga-se: deverá o Supremo Tribunal consignar a ressalva . foi o Ministro Francisco Rezek. se já condenado o extraditando à prisão perpétua. A questão da prisão perpétua Diante da possibilidade de o extraditando estar sujeito à prisão perpétua. J53). J53. É extraordinário o alcance que acabaríamos por dar ao art. que deverá ser comutada em pena privativa de liberdade . Rafael Maycr. em tal hipótese. por sua maioria. ReI. Ao argumento de que os direitos e garantias constitucionais são assegurados aos brasileiros e estrangeiros residentes no país. garallle o júri popular).3. Ex!. O defensor da tese de que não poderia a Corte incluir a ressalva. estar-se-ia limitando. que já vaIeI/no precedente. Djaci Falcão. Se admitimos que o estrangeiro extraditando. fazendo-o I'aler como norma para uma justiça que não está sujeita à soberania desta Constituição que a nós. II . O Tribunal não admitiu a ressalva. tem plena pertinência no caso concreto. o exercício pleno da jurisdição estrangeira ".85 13. ou mesmo de já estar ele condenado à prisão perpétua. estamos obrigados a admitir. "por antecipação. não pode ser extraditado para ser punido por delito que se apurou mediante quebra do sigilo de correspondência ou de comunicações telefônicas (porque também isto é proscrito pelo art. por seis votos a cinco.2. aduziu que. julgamento realizado em 1 l. 429·Alemanha. 429-Alemanha. não pode ser extraditado para cumprir pena resultante de processo em que não houve contraditório (porque o art.. no seio da Corte Suprema.

Carlos Velloso. RTJ 145/428. na ocasião.96. Ext. 588-França.. que a jurisprudência da Corte orienta-se no sentido da dispensa da ressalva quanto à prisão perpétua 16. 21 F. ReI. por seis votos a cinco.No julgamento da Ext. Min. o Supremo Tribunal. ReI. O objeto da defesa: sistema de contenciosidade limitada A defesa do extraditando versará sobre a identidade da pessoa reclamada. RTJ 132/1083.12. 507-Argentina. Rezek . Min.727DF. ReI. Min. 19 HC 51. RTJ 115/969: Ext. Min. Min. 548-Suíça (Pedido de Extensão). 793. Plenário. decidiu o Supremo Tribunal que" a existência de Tratado. Ext. p/acórdão o Min. que o fazia porque se cuidava de "01" de 28.2000. Thompson Flores. 486-Bélgica.3. o tratado. limitando-se a autoridade judicial à aferição da regularidade extrínseca do pedido de extradição l8 . não obstante a lição de Francisco Rezek. Brasília. defeito de forma dos documentos apresentados ou ilegalidade da extradição (§ IOdo art. Ext.5. Ext. Rezek. Min. quando em conflito com a lei. Carlos Velloso. vale dizer. RTJ 70/333. RTJ 150/391: Ext. Sepúlveda Pertence. 601-Itália. 2.01. com a ressalva. voto de desempate. Estudos de Direito Público em Homenagem a Aliomar Baleeiro". 1976. no sentido de que" em qualquer hipótese de conflito entre o tratado externo e a lei de extradição. Min. I~ Ext. em . da lição de Rezek. A constitucionalidade desse dispositivo legaL que estabelece o sistema de contenciosidade limitada. regulando a extradição. Relator o Ministro Sepúlveda Pertence. ReI. que rejeitou a argüição de inconstitucionalidade do mencionado § IOdo art. No HC 58. Os tratados de extradição e a lei brasileira A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal tem-se orientado no sentido da primazia do tratado sobre a lei brasileira. ReI.3. Ed.200 1. constante do voto do Relator. prevalecerá o dispositivo mais favorável ao Estado requerente" 21. F.França. 85 da Lei 6. 248-249. sobre ela prevalece porque contém normas específicas" 1'1. DF. UnB. Perspectim do Rexime Jurídico da Extradição". de origem belga. Relator o Ministro Thompson Flores. Min. Relator o Ministro Soares Mufioz. em 22.2000. Ext.977-DF.. I. Ext. ReI. Rafael Mayer. o Brasil filiou-se ao sistema misto. no ponto. Registrei. Celso de Mello. manteve o entendimento l5 . Min. 15 16 12 . Maurício Corrêa. ReI.. Celso de Mello. nO-Portugal. RTJ 160/433. Néri da Silveira.815/80). RTJ 158/403. 17. predominando esta. Galvão. 669-EEUU. 426EEUU. 20 RTJ 10011030. Min. 773-Alemanha. O. entretanto. Min. 17 Ext.03. "Dl" de 19. O Tribunal divergiu. ReI. Ext. RTJ 1611409. Proferi. foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal. ReI. ReI. RTJ 1701746. 85 17 • No particular. decidiu o Supremo Tribunal pela prevalência do tratado. 541-Itália. não foi outro o entendimento adotado pela Corte 2U . ReI. dado que entre o tratado e a lei doméstica tem-se a relação da lei geral com a lei especial. págs. No HC 51.6. então. 2.977-0F.04. ReI. No julgamento do PPEx 194 (questão de ordem). Gallotti. 654-EEUU.

11). os crimes contra a humanidade. pois constitui uma antiga aspiração da comunidade internacional e vem suprir uma lacuna apontada pelos estudiosos do direito internacional" 22. 5°. sua jurisdição será em razão da matéria. A jurisdição do Tribunal ocorrerá sobre crimes cometidos após a entrada em vigor do Estatuto (art. a jurisdição do Tribunal sobre os crimes a que se refere o art. crimes elencados no Estatuto. O Tribunal Penal Internacional. um pedido de caplllra e entrega de um indivíduo. artigos 6°. dado que a Constituição. por esse ato. 5° e nele definidos.. Lei 6. I). A entrega de acusados nacionais ao Tribunal Penal Internacional o Congresso Nacional acaba de aprovar o projeto de Decreto Legislativo que autoriza o Brasil a integrar o Tribunal Penal Internacional. a questão se torna complexa. Os artigos 86 a 102 cuidam da cooperação que os países signatários prestarão ao Tribunal. 13 . O artigo 89 prevê a entrega de pessoas ao Tribunal. artigo 5°. inc. 5°. por isso que foi dada aplicabilidade ao tratado. 200 I. alíneas" a" até" d"). primeiro que tudo. "tem sido considerada um marco na história da humanidade na luta contra a impunidade. cooperarão plenamente com o Tribunal na investigação e persecução de crimes sob a jurisdição do Tribunal Penal Internacional (art. 60. em detrimento da lei geral. A primeira reunião do Tribunal ocorrerá em setembro de 2002. 3. em 1998. os crimes de guerra e o crime de agressão (Estatuto de Roma. que se incorpora ao ordenamento jurídico interno. 89. Examinemos a questão. 1: "O Tribunal poderá transmitir. Registre-se. Registre-se que a orientação jurisprudencial foi mantida.. 86 do Estatuto). em conformidade com o art. a não ser nos casos expressamente ressalvados (C. Tribunal Penal Internaciona/".815. 77. O Tribunal terá caráter complementar às jurisdições nacionais (artigo 1° do Estatuto de Roma). vale dizer. Del Rey Editora. 7° e 8°. pág. a severo sistema constitucional de garantias da liberdade. dispondo: art. que já conta com 66 países integrantes. No caso do Brasil. 91. E mais: os EstadosPartes. sujeita. vimos linhas atrás. não admite a extradição passiva de brasileiro. certo que o crime de agressão ainda não foi tipificado. Está no art. leciona MarrielIe Maia." O Estatuto não prevê a recusa de cooperação. 102: ~~ Marrielle Maia . que o Estatuto conceitua os termos" entrega" e "extradição". de 1980. art. art. Belo Horizonte. em conformidade com o disposto na presente Parte e com os procedimelllos previstos em seu direito interno. Os Estados-Partes cumprirão os pedidos de captura e entrega. que estabelece que o Estado que se tornar Parte no Estatuto aceita. "A adoção. O Tribunal transmitirá tal pedido a qualquer Estado em Cl/jo território tal indil'íduo possa se encontrar.. art.prisão. no Brasil. que foi instituído em 1998 pelo Tratado de Roma. do Estatuto do Tribunal Penal Internacional" . julgará o crime de genocídio. em conformidade com o Estatuto.F. com força de lei especial. também conhecido como Estatuto de Roma. acompanhado do material probatório. 1. LI.

4°. E essa distinção da .815/80. entre" entrega" e . .. 5°. Portamo. para a . lI. 1. "c" . ou de brasileiro naturalizado.. "a" e "b"). CIII conformidade com o disposto no presente Estatuto. UI/1 olllro Estado também dotado de soberania ou competência. prevê que os requisitos estabelecidos pelos Estados-Partes. não constitui uma jurisdição estrangeira em relação a seus Estados criadores. el/1 que se l'enJique {[ incapacidade oujálta de disposiçüo dos Eswdos-parte de processar os rcspollsúl'eis pelos crimes previstos pelo Estatllto c. . Entrega de nacionais au Tribunal Penal Internacional". conl'enç{lo ou I/U dircito inteJ'1/o . "não poderão ser mais onerosos que os aplicâl'l'is a pedidos de extradiçüo prel'istos e1/l tratados ou arranjos concluídos pelo Estado rcquerido e outros Estados e. Assim. a distinção que o Estatuto faz. mas a 1II1Ul instillliçüo illleJ'1/acional desenhada por esforço de todos os Estados" 23. a país estrangeiro (Estatuto do Estrangeiro. art. não custa repetir. porque a extradição. Acentua-se. E~clareça-~e.. art. entrega" . extradição" .!:'. O Tribunal Penal Internacional. "o Tribunal é um fórum imparcial ao qu 'I 05 Estados poderüo e111regar pessoas que talvez eles não extraditassem a outros Estados por várias razões políticas que. em nível infraconstitucionaL definição de "entrega". LI? Penso que sim. b) Por 'cxtradiçüo' sc e1111:'ndcrá a e111rego de um indil'Íduo por um !:stlldo a oulro.. vimos linhas atrás. no território de qualquer outro Estado (art. Tem o Tribunal personalidade jurídica intern:lcional e capacidade jurídica necessária ao desempenho de suas funções e à realização de seus propósitos (artigo 4°. 76). 10ào Grandino Rodas .2). Incorporado o Tratado ao direito interno. 91. art. pelo que estabelecerá.09.+ . leciona João Grandino Rodas. entrega" da "extradição" seria compatível com a norma constitucional inscrita no art. certamente. A uma. Para os fins do presel/te Estatuto: o) Por 'el/trcga' se entcnderú a entrega de um indivíduo ao Tribunal. estaria1/l na base dessa extradição e poderiam não estar na e111rega. vale dizer. ademais. promovido pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da 1usti"'a Federal. conforme falamos. 5°... se possível.. 102. porque. em relação aos Estados-Partes. 1). b" . no art. tendo e1/l COl/ta (I caráter específico do Tribunar. que difere da definição de . O Tribunal Penal Internacional e a Constituição Brasileira". os Estados-Partes. .n.99. Lei 6. LI do art. podendo exercer suas funções e prerro. observadas as exceções inscritas no inc. "a" e .. em conformidade com o disposto em tralado. o Tribunal tem caráter complementar às jurisdições nacionais (Tratado. diz respeito à entrega de estrangeiro.. A três. não tem primazia de jurisdição relati vamente ús jurisdições dos Estados-Partes . 102. mediante acordo especial. A duas.. valerá como lei federal. o Tribunal destina-se a illlerl'ir somel/le IWS siluaçiies mais gr(H'('S. nesse dispositivo. 1°). porque. vas em conformidade com o Estatuto no território de qualquer EstadoParte e. em 30. no art. extradição" (Estatuto.. não se trata mais de entregar algllém para um olllro ente de Direito Público llllemacional de igual cl/tcgoria. que o Tribunal não constitui uma jurisdição estrangeira em relação a seus Estados criadores.. É verdade que o Estatuto. conferência proferida no Seminúrio Internacional. serão 1/Ienos onerosos.

"a possibilidade de duas espécies de mOllis/IIo: 1//11 que a/ir/llo a supremacia do Direito Illternacional e oulro que propugna a prima:)a do Direito illterno"27 . mio sendo passíveis de conflito entre si. ~'exata quaestio. E porque somos juízes. a esperallça de que aforça do direito possa preJ'{tlecer em detrimcllIo do direito da força" 25. Re\. ({ ser resolvida pelo tradicional mecallismo: 'lex posterior derogat legi priori"· 2ó . c loc. :!ó João Grandino Rodas . O monismo surgiu com Kelsen. pelo que nega coexistirem duas ordens jurídicas distintas. A Constituinte e os Tratados Internacionais". sobrellldo. 27 João Grandino Rodas. Dar' . o estatuto aplica-se a todos os Estados-partes. ressalvamos que com a mesma não nos comprometemos. O conflito elllre o direito illtemo e os tratados e a posiçüo da Corte Suprema brasileira o conflito entre norma interna e norma internacional. sobre a qual dirá a última palavra o Supremo Tribunal Federal. E acrescenta Flávia que" o Tribullal Penallntemaciollal celebra. relaciona-se com as doutrinas do monismo e do dualismo." :!4. como faz Flávia Piovesan. . Basta acellar que a criaçüo de recellles tribu/lais ad hoc basearam-se em resoluções do Conselho de Segurança. ou entre norma brasileira de produção doméstica e norma brasileira de produção internacional. Folha de ~ <lO Paulo". acrescenta Grandino Rodas. Para que uma Ilorma illternaciollal possa rale r Ila esfera illlema é necessário que a mesma sofra um processo de recepçüo. 02. Registre-se. Mas há. A partir daí.de Roma. que teve como precursor Triepel. cit. :!5 . representa. 4.2002. ob. do~ Tribs" 624/43. "A força do direito rersus () direito da forç·(/·· . que o tribunal "limita o grall de seletil"idade política no caso da respollsabikaçâo criminal em riolaÇ"ôcs de direitos humallos. na verdade.. a ordcm internacional e a ordem interna süo duas ordens jurídicas que coexistem independentemente. Mas a questão da entrega de nacionais ao Tribunal Penal Internacional é. Segundo essa doutrina.. ob. Por isso. que prega o primado do Direito Internacional. simplesmente. questão controvertida relevante. Ao adotar () princípio da ullirersabilidade. ademais. Flávia Piovesan. transformalldo-se em regra jurídica illterna. criado por Alfred 2~ Marrielle Maia. cits. O monismo kelseniano é o monismo radical.. admite a possibilidade da ocorrência de conflitos entre normas internas e internacionais . existe apenas uma orde'11 jurídica. Segundo a doutrina dualista. para as quais é necessário o consenso dos cinco membros permanellles. com poder de reto.05. das mais brilhantes expositoras da teoria geral dos direitos humanos... por ora. instigação para a reflexão e para o debate. Essa nossa abordagem do tema constitui primeira leitura do Estatuto. .. que selo iguais /10 Tribullal Pellal" . pág. o monismo moderado. 78.. só é possível conflito entre duas normas internas. também.

. Alguns países dão aos tratados internacionais prevalência sobre o direito interno infraconstitucional: França. p/acórdão Min. antiga jurisprudência do Supremo Tribunal Federal sustentava o primado do direito internacional sobre o direito interno 32 . "que sustenta que os juízes Ilacionais derem aplicar tanto o direito naciollal quanto o illternacional de acordo com a regra 'Iex posterior derogat legi priori·. 32 Haroldo Valadão. 75. Hoje. prevalecendo. cits. RTJ 58170. ReI. entretanto. sobre a legislação dos Estados-membros. da Constituição norteamericana. Cunha Peixoto. juntamente. mas de restrição constituciona/" 31." 33 A mais importante decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal. 28 16 . e loc. 34 RE 80. Constituição de 1958. que lima lei federal pode fazer 'repelir' a eficácia jurídica de tratado amerior. entretanto. Assim decidiu o Supremo Tribunal. 96. aplicada pela jurisprudência americana e brasileira" 2R. Forense. em 04.. No Brasil..77 34 . cits. pág. pág. 1971. É certo. relator para o acórdão. a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal orienta-se no sentido da paridade entre o tratado e a lei federal. Constituição de 1979. e loc. 23. Nos Estados Unidos da América o tratado equipara-se à lei federal. Jacob Dolinger. art.assim uma terceira escola monista . 3" ed.8. "Direito Internacional Primdo" . supreme law of the land. Peru. 29 Jacob Dolinger. Direito dos Tratados". suas normas têm aplicaçiio imediata. Francisco Rezek. e regularmente promulgada. págs. relator originário o Ministro Xavier de Albuquerque e. portando o acórdão a seguinte ementa: "Lei Uniforme sobre o Cheque. ob. 55.. 10 130. art.Verdross. cit. Se assim niio fosse obsen'a Bernard Schwartz estar-se-ia dando ao tratado niio força de lei. 465. ob. 463-464: João Grandino Rodas. pois. pág. prevalece IIOS Estados Unidos o texto mais recellte. que define as leis e os tratados. entretanto. julgamento realizado em 0l. Assim tem entendido a jurisprudência da Suprema Corte. foi tomada no julgamento do RE 80. 33 RE 71. "As soluções da Suprema Curte Brasileira para os cunflitus entre o Direito Internu e o Direito IllIernacional: um exercício de ecletismo". 2. no plano illterno. inclusi\'e naquilo em que modificarem a legislaçiio interna. 1984. Aprovada essa Convenção pelo Congresso Nacional.acabou absorvida pela doutrina dualista 2lJ . Constituição de 1975.. ado((uh pela Convençiio de Genebra. o Ministro Cunha Peixoto. . ReI. Oswaldo Trigueiro. VI. A escola monista que defendia a primazia do direito interno . 333171. "em caso de cOllflito entre tratado internacional e lei do Congresso.154-PR. RTJ 83/809. art. 31 J.71. discípulo de Kelsen. Destarte..06. Min. 30 J. Rev. como suprema lei do País. Francisco Rezek. "Direito dos Tratados".004-SE. à base do princípio 'Iex posterior· . § 1°. Forense. Grécia. interpretando o art. nota 19.004-SE.

L. Prevaleceu. segundo Rezek. A maioria. "Direito dos Tratados". 17 . o D. REsp. enquanto em vigor. Dispõe o mencionado art. com o apoio dos meus eminentes pares: "Em caso igual. também a lei posterior derroga o tratado anterior. É o que dispõe o art. O artigo 98 do Código Tributário Nacional No campo tributário. tendo em vista a paridade entre o tratado e a lei nacional.002-PR. Jacob Dolinger. Thompson Flores e Cunha Peixoto votaram no sentido de que. Quando integrava o Superior Tribunal de Justiça.700/79. 93. . que regula o endosso dado após o vencimento 37 . Segundo Leitão de Abreu. o meu entendimento é no sentido do primado do direito internacional sobre o direito interno. Lei 5. Relator o Ministro Soares Munoz. de 1966. vencido. pág. esta posterior àquele. Rodrigues Alckmin. na verdade. da mesma forma que o tratado posterior derroga a lei. pág. Os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária illlerna e serão observados pelo que lhes sobrevenha.o relator originário. n° 846-SP. sustentou. cit.L. pelo D. voto que.. Leitão. O Ministro Antônio Neder com base em argumentos diferentes.. as normas do tratado com ela incompatíveis". o Supremo Tribunal Federal continuou a aplicar as Convenções de Genebra 36 .966-SP. O voto mais importante foi do Ministro Leitão de Abreu. 472. Ministro Xavier de Albuquerque. revogado. no julgamento do RE 95. garantiu a autoridade da lei nacional. 4. Os Ministros Cordeiro Guerra. melhor equacionou a controvérsia 35 . 98. posteriormente. ao votar no julgamento do REsp l. Assim o voto que proferi no citado REsp 846-SP: 35 36 37 J. entretanto. reconhecendo o conflito entre o tratado e a lei nacional. J. por isso que. segundo a regra lex posterior derogat legi priori. Francisco Rezek. tive oportunidade de manifestar-me no sentido da possibilidade de o Código Tributário Nacional. l. no campo tributário. Guerra. 98. julgamento ocorrido em 15. recebida pela CF/67 e pela CF/88 como lei complementar. Realmente. o entendimento de Leitão de Abreu.9.. 98 do Código Tributário Nacional. acompanhou a conclusão dos votos dos Ministros Peixoto. ob.81. sustentei. se revogada a lei que impediu a aplicação das prescrições ne/e consubstanciadas". RTl 103/779. pelo que" voltará ele a aplicar-se. mais recente.172. a lei posterior não revoga o tratado anterior. na condição de lei complementar à Constituição. Alckmin e Flores. estabelecer o primado do Direito Internacional sobre o Direito Interno. CTN: "Art. o Supremo Tribunal aplicou o art. 20 da Lei Uniforme sobre Letras de Câmbio e Notas Promissórias. 427. cit. "mas simplesmente afasta. o primado do Direito Internacional.

o Distrito Federal e os Municípios e regularia as limitações constill/cionais do poder de triblllar. DestarTe. ReI. 98. qUllndo o CTN consagrou. 146. simplesmente prel'a/ecem sobre estas. RE n° 92.099-SP. . ne/o foi decidida 110 mellcionado RE n° 80. que a lei complementar estabeleceria Ilormas gerais de direito tributário. já que essa matéria constiTui. RTJ 96/921.. no sentido de que talFe. 98. CTN. porque entendo que. assim I'álida a disposiçiio inscrita no arT.foi bem recebida pela ConsTiTuiçe/o de 1988. Vale dizer. da mesma forma. porque a matéria discutida ali nüo era Tributária (RTJ 83/809). UI. O Supremo Tribunal F edeml. ReI. Assim. CTN. entretalllo. . ao que me parece. 73/454. em dil"ersos acórdàos.1g 18 REsp l. RelaTor Min.90. Leitào de Abreu. CTN 3x .704-SP. § r. O que sustenTo é que a COllstiTuiçe/o de 1967 prescrevia.004-SE. Decidiu o Superior Tribunal de Justiça. 110 campo tributário. fiel ao comalldo constitucional. 98. . de validade ou 1/(10 do art. "DJ" de 16.:: nâo fosse possível ao Código Tributário Nacional estabelecer o primado do Direito InTernacional sobre o DireiTO Illlemo. no caso concreto. por isso que apenas a ConsTiTuiçào poderia fazê-lo. Lembrou bem o Sr. o primado do direito eXTerno. desde que incorporados ao direiTO inTerno.::açe/o constiTucional. sempre emprestei validade ao que está disposto no art. Relator Min. arT. CTN. deu pela \'alidade do art. admitiu. jamais entendendo que citado dispositi\'O fosse incollStitucional. Min. no julgamento do RE n° 80.004-SE. poderia a lei complementar estabelecer o primado anteriormenTe referido. A queste/o. É verdade que. 18. fê-lo com expressa autori. pela prevalência do Tratado do GA TT. que cabe à lei complemenTar estabelecer normas gerais em matéria triblllária. os tratados e as conl'enções internacionais. norma geral de direito tributário. por mais de uma ve.0-+. de olllro lado. que a mencionada disposiçe/o inscrita no art.088-RJ. no arT. adiro (/0 \'Oto do SI' MinisTro RelaTor.966-SP. Ministro limar Gall'âo que a Corte Suprema. desde que regularmente incorporados ao direito interno. Relator Min. 98. Ilmar Galvào. RE n° 87.966-SP. força é concluir que. CTN. RTJ 104/1244). 98.'Sempre entendi que. Alckmin. RTJ 93/1180. o primado do direito eXTerno (RE 76. por isso que as normas internacionais nüo rel'ogam as leis internas. de passagem. Oscar Corrêa. tendo em vista o disposto no art. Rafael Mayer. disporia sobre os conflitos de competência nessa matéria elltre a Ulliiio. RE 97. R. os tratados e as conl'enções internacionais. 98.::. Do exposto. Min. no campo tributário. RTJ. os Estados. prevalecem sobre a leg islaçe/o inTerna. nüo obstante reconhecer incorreta a sua redaçe/o. prevalecem sobre a legislaçüo tribwária illlema. no citado REsp 1. Vale acrescentar. no art. a dizer. na órbita da legislaçâo TribUTária. 98. algumas Fo. CTN.::es se manifestaram. 982-SP. .

de que os tratados sobre matéria tributária não podem ser afetados por lei posterior. cits . Min.824-SP. 41 1. as decisões baseadas na natureza cOlllratual do tratado e as decisões baseadas 110 art. Forense. a lei ordinária conflitante cO/n tratado preexistellle há de sucumbir. 125. Hans Kelsen. 98 do CTN. Esta não se confunde com a própria carta constitucional. 44 Sacha Calmon Navarro Coelho. e loc. in . no domínio tributário. 98 do CTN é de ser observada.. Direito Trihutário Internacional do Brasir. Em suma. . pág. 5' ed . 475.. págs. deril'a do fato de que estes tratados são acordos contratuais e. após mencionar o art. 97. que pertenceu à Suprema Corte. 98 do Código Tributário Nacional. Francisco Rezek. Sacha Calmon Navarro Coelho registra que" o Ministro Rezek..T .Abran· gência -.Aplicabilidade a Trihutos Estaduais e Municipais". a propósito. conclui: . ReI. tem vigência o princípio do primado do direito internacional sobre o direito interno. relator: "( . corifeu da teoria monista que dm'a primazia aos Direitos das Gentes sobre os Direitos Nacionais. 353. Jacob Dolinger que.. 98 do CTN são praticamellle idênticas . Tratados Internacionais em Matéria Tributária". lacob Dolinger. independelllemente da natureza do tratado internacional. pág.. deixou expresso que a disposição inscrita no art. tendo natureza de lei complementar. 185.. em matena triblllária. hierarquicamellle. 98 do CTN. no campo tributário. 42 Alberto Xavier. que l'eda a este. Alberto Xavier leciona" que o (/rt. RTJ 95/350.)" 39 Leciona. Ministro Moreira Alves. não podem ser afetados por normas legais posteriores.. A posição de Sacha Calmon está reafirmada em obra posterior 44 . uma regra de primado do direito internacional sobre o direito interno ("Tratado e Legislação /Illema em Matéria Tributária ". obsen'a-se o princípio comido no artigo 98 do Código Tributário Nacional: ( . a norma insculpida no art. como tais... mas em razão de outro conflito: o que a cOlllrapõe à lei complementar.-11.. Sacha Calmon Navarro Coelho. mas subjuga a lei ordinária inscrita em seu âmbito temático . de Direito Tributário 59/180.-10.824-SP. o Relator. "Direito dos Tratados". dissertando a respeito. ob. Direito Tributário COll/empo· râneo".. Em tal quadro. RE 90. 1997. ABDF n° 22). Rezek. Está no voto do Ministro Moreira Alves... 142 e segs. Rev. R. qualljuer desobediência ao tratado" 41. ficaria finalmellfe satisfeito.No julgamento do RE 90. 98 (CTN) construiu. Misabcl Abreu Machado Derzi e Humberto Theodoro lr. cOlllém um comando adicional ao legislador ordinário. ) De feito. Moreira Alves. O Ministro Rezek indubiwl'elmellle está certo" 43. pôde dizer que o art. Ed. 43 Sacha Calmon Navarro Coelho . cit.. pág. "na realidade. 39 40 19 . . "Isenções DecorreJltes de Tratadm Internacionais ..

:rr ~~~i:1 .. mediante o estudo da teoria geral dos direitos fundamentais. dá-se com status constitucional.561-SP..2. são as concedidas mediante lei da entidade política titular da competência para instituir o tributo. Min. 45 20 IIBtrnr.-.05. entretanto.01. ao direito interno. ReI. art. em tal caso. claramente. art. ReI. repito.'ÇAO - -. "Dl" de 02. tenho sustentado que são três as vertentes. diante de direito fundamental material.01. Nesse caso. Nelson Jobim. 27. O Supremo Tribunal Federal. .480 (Med. conforme deixei expresso em voto que proferi na Ação Direta de Inconstitucionalidade 1. Nelson Jobim.3. pág. por meio de lei complementar. direito fundamental com status constitucional. como. b) direitos e garantias decorrentes do regime e dos princípios adotados pela Constituição. art. HC 76. a incorporação desse direito e garantia. 4. inscrito em Tratado firmado pelo Brasil. Estudos em Homenagem a Geraldo Ataliba.. Estas.01. isenção de impostos estaduais e ADIn 1.561-SP. c) direitos e garantias inscritos nos tratados internacionais firmados pelo Brasil (Constituição Federal. item 7. Cláusulas Pétreas.ií.4.02. . ReI. item 7. Celso de Mello. 7°. .iL.. não acolheu essa tese 47 . força é reconhecer que se tem. do citado Pacto de São José da Costa Rica. Plenário. Reforma Constitucional. Min. Min.w'. Malheiros Ed .05. que é preciso distinguir os direitos fundamentais materiais dos direitos fundamentais puramente formais. na visualização dos direitos e garantias. -:'S!If Gt. é preciso distinguir. "Dl" de 18. é direito fundamental em pé de igualdade com os direitos fundamentais expressos na Constituição (Constituição. Cautelar)-DF.01. Celso de Mello.~ fUl~~. § 2°). Se é certo que. A questão das isenções heterônomas e a isenção de tributos estaduais e municipais por tratado internacional Uma das formas de classificação das isenções tributárias enuncia que estas podem ser autônomas e heterônomas. 5°.""':. em "Direito Administrativo e COllstitucional".. por exemplo. se é certo. assim com primazia sobre o direito comum.~. . que diz respeito à liberdade. 162. o que está expresso na Convenção de São José da Costa Rica. Aquelas. não é menos certo. no caso de tratar-se de direito e garantia decorrente de Tratado firmado pelo Brasil. dos direitos e garantias: a) direitos e garantias expressos na Constituição. 1997.05.. HC 76. Cautelar)-DF.. na Constituição da República. § 2°).. organizado por Celso Antônio Bandeira de Mello.J . 7°. Especialmente a dos Direitos FUlldamentais e a Reforma Tributária". ReI.02. que limitou a prisão por dívida à hipótese de inadimplemento de obrigação alimentícia.497 -DF e em trabalho doutrinário que escrevi 46 . Min. Os direitos e garantias e os tratados firmados pelo Brasil Em votos proferidos no Supremo Tribunal Federal 45 . É o que deflui.:i .05..H. 46 Carlos Mário da S. 47 ADIn 1. 5° da Constituição da República. 5°. Plenário. "Dl" de 18.98. 27.. "Dl" de 02.98. o art. É dizer.-r. são concedidas mediante lei de entidade política que não é titular da competência para instituir o tributo a que se refere a isenção. todavia. que. os direitos fundamentais materiais dos direitos fundamentais puramente formais.. A Constituição pretérita autorizava à União a conceder. Velloso. do disposto no mencionado § 2° do art.480 (Med. as heterônomas.

vale dizer. "a" (C.. 59/180. e" )~8. A resposta que dou é positiva. Malheiros Ed. 151. artigos 1° e 18 dentro no todo.. A União. A Constituição vigente. institui hipótese de tal isenção: cabe à lei complementar excluir da incidência do ICMS. art. XII. 84. c.. assim proibidas as isenções heterônomas.11988.. constituindo pessoa jurídica de Direito PÚblico interno. no art. celebrados pelo Presidente da República. . O que precisa ser entendido é que num Estado Federal convivem entidades parciais União e Estados. "Leis Nacionais e Leis Federais no Regime Constitucional Brasileiro Estudos em Homenagem a Vicente Raó". por isso que. federalismo clássico. dois conceitos: o de entidade parcial e o de Estado total. 1976. art. 141. 155. indaga-se se seria possível a concessão de isenções de impostos estaduais e municipais mediante tratados internacionais. Com propriedade. 19" ed. Hans Kelsen formulou a teoria das três ordens jurídicas: a coletividade central. pois.. 192-193. . Vedado à União instituir isenções de tributos da competência dos Estados. As entidades parciais são dotadas de autonomia. a Constituição anterior permitia a concessão de isenção heterônoma.. de Direito Tributário. as coletividades-membros e a comunidade total. ClIrso de Direito Constitucional PositÍl'o". será possível a instituição de isenções de impostos estaduais e municipais. mediante tratados internacionais. I1I). apresenta. § 2°). pág. veda à União instituir isenções de tributos da competência dos Estados. autônoma em relação aos Estados e a que cabe exercer as prerrogativas da soberania do Estado brasileiro. 50 José Afonso da Silva. art. XII. escreve Sacha Calmon que" a conjunção das ordens jurídicas parciais da União.. Curso de Direito Triblltário". 48 21 . "Tratados Internacionais em Matéria Tributária". "A União é a entidade federal formada pela reunião das partes componentes. dos Estados-membros e dos Municípios fonna a ordem jurídica total sob a égide da Constituição" 51. 51 Sacha Calmon Navarro Coelho. serviços e outros produtos além dos mencionados no inciso X.F. Penso que. do Distrito Federal ou dos Municípios (C.F. União. Resenha Tribut.. I1I). artigos 49. Distrito Federal e Municípios. enquanto o Estado Federal total detém "personalidade jurídica de Direito Público imemacional"49. 19" ed. federalismo brasileiro. na Constituição Federal.. art. Ed. "e". dotadas de autonomia e também de personalidade jurídica de Direito Público interno" 50. referendados pelo Congresso Nacional (C. Rev. 51 Geraldo Ataliba. Lembra Hugo de Brito Machado que a Constituição vigente não proíbe de todo as isenções heterônomas. vale dizer. e loco cits. quem melhor sintetizou o pensamento kelseniano foi Hugo de Brito Machado . Segundo Geraldo Ataliba 51 ... do Distrito Federal e dos Municípios (C. ob.F. Malheiros Ed . pág. entretanto. 104. I. dentro do Estado Federal total. Os Estados-membros são entidades federativas componemes. 18. 155.. 2001. É dizer.municipais (Constituição de 1967. Estados. § 2°. 183.. na forma preconizada na Constituição Federal. firmados pela República Federativa do Brasil. 49 José Afonso da Silva.F. VIII) e incorporados ao direito interno. § 2°. págs. nas exportações para o exterior.F. 151.

A constituição da União dispõe somente sobre as competências da coletil'idade central. abarca as duas ordens jurídicas parciais unicio e membros e surge na sua completa integridade. As duas primeiras ordens são juridicame1l1e iguais. 84. Ia ed . A federação compreende três ordens jurídicas distintas: a coletit'idade central.a da comunidade total. Desse modo. Lecionou Bandeira de Mello: . portanto. tem-se outorga de competência internacional ou de relações internacionais 54 . do Chefe da Escola de Viena. delegadas pela constituiçüo total.e o Estado federal . que regem as competências outorgadas pela Constituiçâo total às coletiI'idades parciais. aliás. 45-46. que forças estrangeiras transitem pelo território nacional ou nela permaneçam temporariamente (art. 54 Carlos Mário da Silva Velloso. Elas são ordens jurídicas parciais. A constituição total compreende a verdadeira constituição federal e regula. Del Rey Ed . art. Assim. opositor. Ed. pois. As ordens jurídicas parciais. tem como destinatária a entidade parcial União e não a República 5.. a proibição inscrita no art. as coletil'idades-membrus e a comunidade total.. ob. m.1 Oswaldo Aranha Bandeira de Mello. I1I). Ela se encontra em plano idêntico ao das constituições dos Estadosmembros.. 11): permitir. os poderes do Estado federal. quando a União celebra um tratado. "/:. se el'ita/ll confusões como as que quotidianamente ocorrem entre a União uma das coletil'idades parciais . Noutras palavras. em "Temas de Direito Público". 1997.a comunidade total" 53.O Equilíbrio Federati\'(J". dos Tribs . art. 4° da Constituição. págs. Ap. ao passo que se acham subordinadas à ordem jurídica total . ou a República Federativa do Brasil que o faz. pág. arts. nos casos previstos em lei complementar... 21. como ordem jurídica toral. . quando à União é conferida competência para manter relações com Estados estrangeiros e participar de organizações internacionais (CF. VIII e 49.sfado Federal e Estados Federados na Constituição Brasileira de 19/\8 .Oswaldo Aranha Bandeira de Mello. subordinadas à ordem jurídica superior . competência que deve ser exercida com observância dos princípios inscritos no art. Empresa Gráfica da Rev. São Paulo. págs. na mesma medida. 2a tiragem. ao vedar à União instituir isenções de tributos da competência dos Estados. não é a entidade parcial União que o faz.. Esta constiflli I'erdadeiramente o Estado federal. 151. Geraldo Ataliba. Essa competência é conferida à União como Estado total e dela decorrem as competências do Presidente da República para celebrar tratados.. cit. IV). do Distrito Federal e dos Municípios (CF. 391. 151. A coletil'idade celllral e as coletividades-membros compreendem dois sistemas harmônicos que se encerram //(/ coleth'idade total. 1937. A chamada 'constituição federal' pode ser desdobrada em duas cartas distintas: a constituição total e a constituição da União.encontram-se e1l1re si numa relação de coordenação. I). convenções e atos internacionais e do Congresso Nacional para referendá-los (CF. pois as suas competências se circunscrn'em somente a certas matérias que lhes foram conferidas pela ordem jurídica total. declarar a guerra e celebrar a paz (art. da Constituição. a proibição dirige-se à União como entidade parcial e não à União como Estado total.. Assim. Disso resulta conclusão irrefutável: quando a Constituição veda a concessão de isenções heterônomas. é a União. Estado total. "Na/tlre. porque estão.a Jurídica do ESTado Federa/". 21.que possui a suprema competência . 21. 141-142. 1).

ao assim proceder. a expressão mesma de uma comunidade jurídica global. Sob tal perspectiva. a cláusula de vedação imcrita 110 art. I. em autoridade. 'nada impede' que o Estado Federal brasileiro 'celebre tratados illlemacionais' que veiculem cláusulas de exoneração tributária. no plano de nossa organização política. investida do poder de gerar uma ordem normativa de dimensão nacional. dado que são ordens jurídicas parciais. o Ministro Celso de Mello: "A vedação constitucional em causa 'incide' sobre a União Federal. 'pois' a República Federativa do Brasil. lecionou. UI. ] 0). UI. mediante tratado internacional. à República Federativa do Brasil). que detém 'em face' das unidades meramellle federadas o 'monopólio' da soberania e da personalidade internacional. Daí a proibição de instituir à União isenções de impostos estaduais e municipais. 'sem' que. no voto que proferiu na ADln ] . rigorosamente 'pacificada'. estará 'praticando' ato legítimo 'que se inclui' na esfera de suas prerrogativas como pessoa jurídica 'de direito internacional público'. pode ser colltrastado com o da competência estadual e municipal. da Constituição 'é inoponível' ao Estado Federal brasileiro ('vale dizer'. nessa 'específica' condição. 'enquanto' entidade estatal de direito público 'intemo. 'unicamente'. às demais comunidades jurídicas 'parciais'. 'emendo' que se revela 'possível' à República Federativa do Brasil. no plallo das relações institucionais 'domésticas' que se estabelecem entre as pessoas políticas de direito público' intemo'. no Supremo Tribunal Federal. em matéria de ICMS. 151. 'essencialmente diversa'. como I'isto. 'pois' tal regra constitucional 'destina-se'. 1/0 direito interno. incida em transgressão ao que dispõe o art. em matéria de ICMS.F. Não se deve confundir a República Fede- . 'em sua qualidade' de sujeito de direito internacional público. art. 'enquanto' pessoa jurídica de direito público 'interno'. em sua eficácia. responsável. 'Na realidade'. 'como o são' os Estados-membros e os Municípios. nessa 'específica' condição institucional.6OO-DF. da Constituição. A União é uma pessoa jurídica de direito público interno. a t'incular.. 'conceder isenção'.Federativa do Brasil "formada pela União indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federa/" (C. 'inconfundível' com a posição institucional 'de soberania' do Estado Federal brasileiro. ao exercer o seu 'treaty-making pm'v'er'. a União. pela instauração de uma ordem normativa autônoma meramente parcial. Por isso o exercício de sua competência. 'incidindo'. de dimemão meramente regional e local. " Não é outra a lição de José Souto Maior Borges: "5. que ostenta a qualidade de sujeito de direito internacional público e que constitui. 'daquela' que se consubstancio nas leis e atos de caráter 'meramente' federal. eficácia e aplicabilidade. unicamente. Com exemplar propriedade. 151. Por isso mesmo.

áreas dil'ersas e autônomas de vinculação jurídica.rativa do Brasil COIII uma entidade que a integra a União. 280. IOB/Jurisprudência. "Tributação no Mercosul". r. Essas reclamam paradigllla dil'erso de análise.. Welber BarraI e Tatiana Lacerda Prazeres 58 . José Souto Maior Borges. COIIIO já o fizera dantes COIII as leis 'nacionais'. 56 Sacha Calmon Navarro Coelho. Rev. Trib . o Presidente da República ou Ministro de Estado. Rev. Triblllação 1/0 Mercosul". pois. não como Chefe do Governo Federal. em . pág. 57 Waldir de Oliveira Rocha. Direito Triblllário·'. Dialética de Dir. ) Que UIII agente ou órgâo da União. . 174-176. Tratados IllIemacionais em Matéria Triblllária". "Isen\. COIIIO a CF.. 60 Luciano Amaro. págs. 1997. a isenção heterônoma e ditatorial que existia na Carta autoritária de 67"56. A esse ato interestatal. dos Tribs. porém. 'in fine'. págs. Muito menos os Estados-membros e Municípios. Precisalllellfe o contrário é o que ocorre na hipótese.. equívoco elementar transportar os critérios constitucionais de repartição das competências para o plano das relações imerestatais. a CF dá à União competência para vincular o Estado brasileiro em nome dela e também dos Estados-membros e Municípios.iío de Tributos Estaduais por Tratados l11temaciol1ais".. Saraiva. 59/183-184. Hugo de Brito Machado 59 e Luciano Amaro 60 . na ordem jurídica imerna. Constitui. arts.2. Sâo. do Distrito Federal e dos Municípios. Trib. "Isenções em Tratados Internacionais de Impostos dos Estados-Membros e Municípios". "Estudos em homenagem a Geraldo Ataliba". 151. também os Estados-membros e Municípios. 11197: . 176 e segs. r e 18) que celebra o tratado e é por ele vinculada. § da CF. No mesmo sentido: Valdir de Oliveira Rocha s7 . e. "lsel1çeies Tributárias 110 Mercosu/". Malheiros Ed . 90-91. págs. Rev. "Direito Triblllário Brasileiro". "Pesquisas Triblllárias". vol. ao referir expressamellfe os 'tratados internacionais em que (/ República Federativa do Brasil ('sic: não a União Federal') é parte'... 'infine'. o Presidente da República comparece. 5. Ed. 1I1 da Constituição Federal veda à Uniâo a faculdade de instituir isenções de tributos da cOlllpetência dos Estados. 5°. (. 5°. e não apenas a União. mas apenas proibindo. 59 Hugo de Brito Machado." 55 o entendimento de Sacha Calmon é coincidente: "quando o art.. Nesse campo. portanto. Insiste-se: é a República Federativa do Brasil (CF. . Nenhum desses é em si mesmo dotado de personalidade internacional. de Dir. 58 Wclber Barrai e Tatiana Lacerda. mas como Chefe de Estado.. 70/140. § 2°. que não é sujeito de direito internacional. U167. 55 24 . São Paulo. não está limitando a competência do Estado brasileiro de concluir acordos tributários que en\'olvam tributos estaduais e municipais. A procedência dessa ponderação é corroborada pelo art. art. subscrel'G 11111 tratado lIão significa que os Estados e Municípios estejam pré-excluídos dos vínculos decorremes da sua celebração. deixa claro.

no prefácio da edição brasileira. muito teve que construir e muito tem. Por isso. que construir.. . A grandeza daquela está na razão direta das dificuldades que deve a Corte enfrentar e vencer. A Diplomacia das Grandes Potências". " 61 Oswaldo Othon de Pontes Saraiva Filho. vale invocar o poeta espanhol. Afinal. no tema versado. labora o Tribunal em terreno nunca antes trilhado. Conclusão É hora de concluir. no cumprimento dessa missão. 62 Henry Kissinger.o culto Procurador Oswaldo Othon de Pontes Saraiva Filho escreveu excelente trabalho sobre o tema. Tratado Internacional pode ou não isentar tributos estaduais e municipais?". Francisco Alves Ed. ainda. tal qual fez Henry Kissinger. certo que essa construção implica construir o direito. 5. Aliás. 25 . no hay camino. . O Supremo Tribunal Federal. De regra. Se hace camino ai andar.. 451. pág. ao encerrar o seu" A Diplomacia das Grandes Potências" . Merece ser lido o trabalho do Procurador Oswaldo Othon 61 . lOS/Jurisprudência. livro que. é "dos mais importantes estudos já publicados sobre a história internacional dos últimos séculos" :62 "Caminallte. 1999. segundo Luiz Felipe Lampreia. 18/98. no qual analisou os argumentos da corrente doutrinária que entende que o tratado internacional pode isentar tributos estaduais e municipais e bem assim os argumentos da corrente contrária e da corrente intermediária.. no fazer construção jurisprudencial está a tarefa maior da Corte Suprema.

Impugnação de Mandato Eletivo José Antonio Fichtner Esta obra é publicada num momento el1l que aJustiça Eleitoral e o Direito Eleitoral brasileiros estão postos em xeque: a emenda permissiva da reeleição dos titulares do Poder Executivo nos três níveis da Federação .Guerra Interna e Direito Internacional Celso D. Sociologia e História.cuja vedação constituía uma das poucas constantes centenárias da história institucional da República quebrou um dos eixos que o sustentavam e apagou um dos focos irradiantes do sistema que aos poucos se consolidava. bem como o estatuto dos revoltosos. Ref. O Direito não é visto de modo isolado. E os primeiros sinais da experiência em curso da inovação constitucional .agra\'ados IlOS pequenos Estados e que permitem antever o que será a sua introdução amanhã nos ~u­ nicípios . É uma obra interdisciplinar em que o autor se utiliza do DI Público. apesar de tudo. 14x21 1985 230 págs. 0195 Form. O regime jurídico da guerrilha e a sua diferenciação do terrorismo são igualmente versados. as guerras civis do nosso século. 0001 Brochura Form. Ciência Política. 14x21 Brochura 1998 260 págs.. São estudadas suas causas. e sob o ponto de vista jurídico. Ref. Direito Constitucional. li l~ - . des\'e!a riscos graves da retomada de práticas eleiçoeiras que parecia estarem superadas. São examinadas as normas aplicáveis na conduta da guerra. mas como uma ciência social e cultural. de Albuquerque Mello A guerra moderna é a guerra interna.