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5 Fundamentos da Ética da Responsabilidade
Tratar dos fundamentos da Ética da Responsabilidade em Hans Jonas é
consideradamente complexo, já que a “responsabilidade” (em alemão: verantwortung)
é o fundamento primeiro da própria ética a qual o filósofo se dedica. Embora os
antigos filósofos também tratassem da mesma, a responsabilidade adquire
centralidade na estrutura ética a partir de Hans Jonas e Lévinas. Para ambos, a
preocupação é com as gerações futuras e com a sobrevivência das mesmas. Portanto,
em oposição a Platão, Jonas não se ocupa previamente com a eternidade, contudo
com o “tempo vindouro, compatível com a era da ciência e da tecnologia” (cf.
KUIVAVA, E. A responsabilidade como princípio ético em H. Jonas e E. Lévinas: uma
aproximação).
A responsabilidade se origina como resposta a um vocativo, ao contrário do que se
possa pensar a partir de uma “boa vontade”. Esta aponta para outra dimensão do eu.
Kuivava define que prévio ao ato de consciência, anterior ao sujeito intencional o eu já
responde a um chamado. Em outras palavras, a responsabilidade por outrem é
anterior à representação do conceito ou a intercessão de um imperativo da ética.
Assim, a responsabilidade é obediência deste vocativo e a mesma determina a
liberdade do eu.
Considerando a ótica filosófica tradicional, a responsabilidade é constituída em
decorrência da liberdade. Essa exige consciência dos atos postos em prática e a
faculdade intelectiva (para além de si) adequada aos princípios éticos. Em outra
perspectiva, a ausência da responsabilidade é a inexistência da liberdade. Sem a
responsabilidade, a liberdade fenece e libertinagem toma espaço. No ocular ético, o
sujeito é responsável a partir da faculdade de autodeterminação quando está em
consciência.
O princípio da ética proposta por Jonas está frente ao domínio da política pública e
não apenas à ação privada de cada agente da sociedade. Nesse sentido, é uma
orientação para uma política responsável. É um chamado a cada sujeito a expandir os
horizontes da ética e da política para somar na construção de um mundo mais
humano.
Considerando as diversas fórmulas negativas do “princípio da responsabilidade”, tais
como: “Age de tal maneira que os efeitos da tua ação não sejam destrutivos para a
possibilidade futura de uma tal vida”; “não comprometas as condições para a
sobrevivência indefinida da humanidade na terra.”; “inclui na tua escolha presente, a

Por isso. é que enquanto este se dirige ao comportamento privado. embora estes não lhe deixem de lhe reconhecer a . A diferença entre o imperativo jonasiano e o kantiano. e terceiro. coloca-o igualmente em guarda obrigando-o a tomar decisões reflectidas. aproveitando a argumentação de Maria Fernandes. a crítica dos seus contemporâneos. poucas semanas antes de morrer. p. As posições de Jonas valem-lhe. equivalente ao nada. Assim. Daí que a vulnerabilidade ameaça perene de destruição. meramente lógico. este imperativo permite ao homem responder – sentido etimológico de responsabilidade – ao autonomizado poder tecnológico. (FERNANDES. para o filósofo. a humanidade autêntica não é uma qualquer mas uma humanidade criadora. Segundo Maria Fernandes. O ser do homem cria valor – uma humanidade não criadora não seria estritamente humana. a preferência do ser ao aniquilamento é atribuída ao valor e ser coincidem embora sejam vulneráveis. a existência de um mundo habitável. logo exige um imperativo categórico que pressuponha o valor do ser de preferência ao nada – que inclua a vida. a inexistência da humanidade é absurda. é emersa a concepção da heurística do medo – “respeito misturado com medo”. formal. o homem deverá ser o “guardião do ser”. também para Maria Fernandes. Por isso. trabalhada mais à frente. se percebe que as mesmas têm o dever como axioma. Em resumo. da causa e da finalidade da natureza e do valor para enraizar no ser o novo dever do homem – a responsabilidade. Porquanto. sem humanidade não existe valor e o ser. 2002. Assim.. porque o mundo dos homens é. então. pois.integridade futura do homem como objeto secundário do teu querer”. M. O medo obriga a atuar imperativamente – já que pondo o homem alerta prevendo o pior. exija o imperativo de responsabilidade face ao ser. citado abaixo. A assumir a acção como um risco que não o leva à inactividade mas à tomada de decisões responsáveis que privilegiam precisamente o ser em detrimento do nada. A vida corre perigo. o jonasiano dirige-se ao comportamento coletivo – público e social. não servindo para fazer face à nova realidade da contemporaneidade. segundo Maria Fernandes. não é qualquer mundo que pode ser espaço digno de uma vida humana autêntica. como diz Jonas em uma entrevista em 1993. Jonas considera o imperativo kantiano. Jonas traz a lume as velhas questões da ligação do ser ao dever-ser. o dever compreende três aspectos: primeiro.38) O ser tem o direito de ser porque vale mais do que o nada. segundo. para escapar ao relativismo dos valores.

implícita ou explicitamente. Coleção Filosofia 203. 40) O desafio humano. passando por todas as ciências da vida sendo polo de grande reflexão no campo filosófico (cf. mencionar o imperativo (fórmula positiva) de Jonas. surgem..) SOUZA. N. de responsabilidade. de totalidade e de direito das gerações vindouras. A responsabilidade transforma-se numa obrigação que tem como paradigma a relação parental em que o cuidado é uma dádiva total. No campo da gestão pública. p. a qual se mede pelos compromissos livres de uma consciência egoísta. os conceitos de liberdade. de vulnerabilidade.40). Ed. ___________ REFERÊNCIAS: FERNANDES. de heurística do medo. por conseguinte. biotecnologia. Porto Alegre: 2008.. é fundamental criar projetos que fomentem a justiça social em que a ética seja incorporada ao lado dos saberes técnico e/ou legal para o favorecimento de todos. é deixar que a responsabilidade passe além dos limites da liberdade. Fenomenologia hoje III: bioética. R. de alteridade.F. Celorico de Basto. de limite.T. (Orgs. “O princípio responsabilidade” de Hans Jonas: em busca dos fundamentos éticos da educação contemporânea. 1995. da ecologia à educação. sem exigência de reciprocidade. . M. p. como reformulação do imperativo kantiano “age de tal forma que tu possas igualmente querer que tua máxima se torne lei Universal”: “age de tal forma que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana sobre a terra” (JONAS.F. OLIVEIRA. Em todas as circunstâncias. Ed. biopolítica. ibidem. Essa é um dos conceitos chaves da ética contemporânea.originalidade de pensamento e o contributo inovador que deu para recolocar a ética no centro da reflexão filosófica contemporânea. Porto: 2002.A. Vale aqui por fim. Idem. de mistério. ao longo da sua argumentação levantando tópicos de reflexão e incertezas à contemporaneidade em áreas muito diversificadas que vão da ética à política.