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UNIVERSIDADE   FEDERAL   DE   SÃO   CARLOS 
  
   
  
BRUNA   QUINSAN   CAMARGO 
RA   573760 
  
  
  
  
1ª   AVALIAÇÃO   DE   ANTROPOLOGIA   CONTEMPORÂNEA   II 
  
ANTROPOLOGIA   E  ESTUDOS   DE   GÊNERO 
  
  
  
  
  
  
  
  
  
  
  
  
  
  
São   Carlos 
  
2016 

  Com  sua  célebre  frase  “não  se  nasce  mulher.  Sendo.  assim  como  Engels.  Cavalcanti  e  Heilborn.  consequentemente. parte  do  estudo  de  dados  da  biologia  que  só  existiriam  com  significação  num  contexto  social.  costumes  e  quaisquer  outras  capacidades  e  hábitos  adquiridos  pelo  homem  enquanto  membro  da  sociedade”.  visão  que anula a alteridade. em sua obra O segundo sexo.  talvez.  moral.  a  opressão  universal  da  mulher  como  arbitrária.  definida  inicialmente  por  Tylor  em  1871 como “todo complexo que  inclui  conhecimento.  a  cultura  um  conjunto de regras que dão sentido ao mundo  social  e  natural. nasce  o  feminismo  nos  países de capitalismo avançado no final da década de 1960.    Os   feminismos   materialistas    Os  feminismos  materialistas  tentam  historicizar  a  dominação  masculina  embebidas   em   uma   compreensão   evolucionista   e  linear   própria   do   século   XIX. a partir do desenvolvimento da disciplina e da pesquisa  etnográfica  detalhada  passou  a  ser  manifestada  como  o  fator  unificador  da  humanidade.  as  autoras  ressaltam  que  toda  realidade  é  socialmente  construída.  . Desse  questionamento  vem  a.  crença.  o  que  é  ser  mulher?  Como  afirmam  Franchetto.  A  feminista  localiza  a  família  como  detentora  de  um  papel  central na opressão de gênero.  A   mulher   como   um   produto   da   sociedade    Questionando  a  divisão  dos  papéis  sociais  entre homens e mulheres. Já Evelyn Reed  aponta.  Assim também aponta Simone de Beauvoir que.  principal  pergunta  dos  estudos  de  gênero:  Afinal.   assim.  Shulamith  Firestone  dá  maior  ênfase  na  fisiologia  do  corpo  feminino  e  na  maternidade  para  explicar  a  raiz  da  opressão  às  mulheres.  tornando.  aprisionando  a  mulher  no  espaço   doméstico   e  limitando.  torna­se  mulher”  localiza  o  gênero  como  uma  construção  social.  A  cultura.  artes.  provinda  da  sua  capacidade  de  reprodução.  a  antropologia  pode   ser   uma   ferramenta   para   a  busca   da   resposta   a  essa   questão.  leis.  e  abrindo   a  possibilidade   de   transformação   dessa   realidade.  que  a  opressão  da  mulher  se  dá  com  o  surgimento  da  propriedade  privada  e  a  divisão  sexual  do  trabalho.   seu   papel   na   sociedade.  portanto.

 R. e Atkinson.1980.  isto  é.  A  libertação  feminina  para  Reed  se  daria  com a entrada das mulheres  na  produção  e  com  a sua participação no processo revolucionário dos trabalhadores  para   a  eliminação   de   todas   as   formas   de   estratificação   social.   p.  G.    Antropologia   e  feminismo    Devido  a  expansão  do  movimento  de  mulheres  na  década  de  1970  os  problemas  de  gênero  se  consolidaram  como  problemas  da  antropologia. tinha­o no passado.  É  o  presente  que  é  excepcional.  Rosaldo  e  Atkinson  discorrem  sobre  a  determinação biológica da condição feminina.  isso  se  dá  pela  oposição  entre  os  conceitos  de  dar  a vida e tirar a vida.  e  voltará  a  tê­lo  na  utopia  do  futuro.  As  autoras  de  “Antropologia  e  Feminismo”  dissertam  sobre  a  existência  histórica  do  matriarcado.  (Franchetto. na idade de ouro  do  matriarcado. Firestone aposta  no  desaparecimento  da  “cultura”  através  de  uma  revolução  feminista  de  recusa  à  maternidade.  uma  vez  que  mesmo  nas  sociedades  com  sistemas  matriliniares  ainda  existe  a  hierarquia   entre   os   gêneros.  Rubin. Os  ilongot  atribuem  significados  positivos  as  atividades  de  caça  masculinas  e  negativos  as  atividades  de  cultivo  e  colheita  femininas. são mobilizadas como representantes dessa literatura que  encara  a  assimetria  ou  a  opressão  com  uma  origem  lógica  ou  sociológica  e  não  mais   histórica.  Rosaldo.  precisando  apenas  inverter  a  hierarquia  valorativa;  quem  não  tem  agora  o  poder. J..25)  Com  o  avanço  da  produção  etnográfica  a  teoria  do  matriarcado  é  refutada.  As  duas  feministas  materialistas  tem fé em um futuro justo.  as mulheres. onde dar a vida não é capaz de transcender os  processos  “naturais”  da  terra  e  o  ato  de  matar  garante  um  controle  sobre  esses  processos.  .  Bachofen  e  utilizada  por  diversas  feministas:  As  feministas que procuraram refletir sobre a evolução por uma ótica “do lado  das  mulheres”  encontraram  assim  um  esquema  já  pronto  para  suas  explicações.J.  Analisando  a  assimetria  sexual  entre  os   ilongot  das  Filipinas.  Cavalcanti  e  Heilborn.  postulada  por  J.  marcado  por  signo  negativo.

  para  Rubin.1980.   percebendo   que   “o   pessoal   é  político”.  Já Gayle Rubin apresenta que embora as categorias homem e mulher sejam  socialmente  construídas.1980.  Os  valores  individualistas  do  movimento  feminista  também  podem  ser  percebidos  pelo  seu  foco  na  vida  privada  e  nas  relações  socialmente  consideradas  como  pessoais.   Ora.   Sendo  a  luta  por  igualdade  de  direitos  entre  os  “sexos”  o  carro­chefe  da  atuação  política  desse  movimento.  tendo  surgido  nos  países  de  capitalismo  avançado.    Feminismo   enquanto   movimento   social    As  antropólogas  Franchetto.  só  os  homens  são  beneficiários  da  circulação  (tráfico)  de  mulheres   descrita   por   Lévi­Strauss.  Essa  lógica  permite  ao  feminismo  escancarar  as  relações  hierárquicas  da  sociedade  e  promover   transformações   efetivas.  na  história  da  humanidade.30).  (Franchetto. (Franchetto. Cavalcanti e  Heilborn.  as  mulheres  tenham  sido  sempre  submetidas  a  uma  ordem  dominantemente  masculina. ou  seja.  pode  ser  localizado  em  diversos  lugares  do  mundo?  O  que  aconteceu  para  que  as  mulheres  tomassem  consciência   de   sua   opressão?  [o  feminismo]  Postula  que.  Cavalcanti  e  Heilborn  apresentam  algumas  questões:  Por  que  o  feminismo  surge  como  movimento  na  década  de  1960?  Por  que.   p.  E  é  justamente  nessa  discussão  da  vida  privada  que  se  forja  a  dita  “consciência  feminista”.  entendendo  a  realidade  pessoal  como  produto do social.  A  teoria  do  social  em  Lévi­Strauss  é.  a  mulher  é  afirmada  como  um  indivíduo.   p.  Cavalcanti  e  Heilborn.  uma  teoria  implícita  da  opressão  feminina.  Analisando  o  plano  das  reivindicações  e  o  plano  da  organização  elas  dissertam  sobre  alguns  aspectos  do  movimento  feminista  que  podem  ressaltar  sua  matriz   individualista   e  a  interação   dessa   matriz   com   um   movimento   social.  se  é  o  estabelecimento  da  aliança  por  casamento  entre  grupos  o  que  realiza  a passagem da Natureza à Cultura.  .35). a derrota histórica da mulher seria  simultânea  à  criação  da  cultura.  mas que  agora  “adquiriram  consciência  de  sua  opressão  milenar”  e  dos  seus  interesses  ­  que  só  elas  mesmas  podem  defender.

  que  transforma  os  produtos  da   natureza   em   criações   culturalmente   moldadas.   p.  Strathern  parte  de  várias  relações  ou  oposições:  “nós/eles”.  servindo  para  que  as  mulheres  se  firmam  como  sujeito  social.  Propondo  um  diálogo  interno  à  linguagem  de  análise.  isto  é.  “dádiva/mercadoria”  e  “antropológico/feminista”.   (Strathern.  essa  matriz  individualista  do  movimento  feminista  pode  conduzir   à  sua   universalização.  A  autora  traz  o  exemplo  dos  estudos   sobre   os   povos   da   Melanésia.  (Strathern.  Conquanto  as  três  sejam  ficção.  Observadores  tomaram  ritos  de  iniciação.  Isso  se  daria  identificando  as  normas  que  aprisionam  as  mulheres  e  indicando  direções  de  transformação.   p.  A  antropóloga  critica  a  vasta  produção  de  monografias  individuais  sobre  a  Melanésia  e  a  forma  sistemática  dessas  análises  que  impossibilitam  o  exercício  comparativo.  A  eficácia  política  desse  movimento  se  encontra  no  fato  de  que  ele  busca  um  maior  espaço  de  representação  feminina.33).  Para  a  autora  é  como  se  a  linguagem  analítica  inventasse  a  si própria  de  forma  cada  vez  mais  distante  da  “realidade”  e  da  linguagem  dos  povos  retratados.  como  essencialmente  um  processo  de  “socialização”.  Partindo  da  premissa  de  que  a  identidade  feminina  é uma construção social  se  afirma  que  a  prática  política  pode  transformar  essa  construção.  dado  que  o  próprio  exercício  não  é  mais  independente  de  contexto  do  que  a  matéria  que  ele  trata.  Portanto.  as  razões  culturais  para  escolhê­las  situam­se  para  além  do  exercício.   2006.  .    A   antropologia   feminista   de   Marilyn   Strathern    Marilyn  Strathern  questiona  o  conceito  da  antropologia  ocidental  de  “sociedade”  apontando  que  os  pesquisadores  tentam  encaixar  nossos  conceitos  e  nossos  problemas  ocidentais  nos  povos  estudados.   as   análises   seriam   uma   espécie   de   ficção   controlada.  por  exemplo.  mesmo  com  as  diferenças  sociais  e  culturais  que  a  constituem.   2006.27).  embora  essas  oposições funcionem  estritamente  no  interior  dos  limites  da  trama.

  STRATHERN.   1980.  Através  da  etnografia  a  antropologia  pode  responder  ao  debate  feminista  e  a  autora  propõe  a  prática  de  uma  “antropologia  feminista”.  da  província  das  Terras  Altas  Ocidentais  de  Papua­Nova Guiné.   Campinas.   Estratégias   antropológicas;   2.   In:   Perspectivas   antropológicas   da   mulher   1.   Marilyn:   “Introdução:   1.   Zahar   Editora.   2006.  Portanto.  na  realidade  dos  Hagen.        REFERÊNCIAS   BIBLIOGRÁFICAS  FRANCHETTO.   Um   lugar   no  debate   feminista”.  O  método  comparativo  por  vezes  descontextualiza  os  constructos  nativos  privilegiando  construtos  do  contexto  analítico.  Strathern  apresenta  uma  crítica  ao  pensamento  binário­ocidental  da  pesquisa  feminista.  Elas  contém  dentro  de  si urna socialidade generalizada.  evidenciando  a  “natureza  contextualizada  dos  construtos  nativos  através  da  exposição  contextualizada   dos   construtos   analíticos”   (Strathern.  (Strathern.   p.   Rio   de  Janeiro.  A  partir  do  material  etnográfico  sobre  os  Hagen.  A  pessoa  singular  pode  ser  imaginada  como  um  microcosmo  social.  nossa  autora  propõe  que  as  generalizações  analíticas  devem  ser  obtidas  por  outros  meios.  um  híbrido   que   mistura   o  método   etnográfico   e  as   reflexões   de   gênero.   2006).   Problemas   com   as   mulheres   e  problemas  com   a  sociedade   na   Melanésia.  que  através  desse  pensamento  seria  “radical  pela  metade”.   Bruna;   CAVALCANTI. Com efeito.  as  pessoas  melanésias  são  concebidas  tanto  dividual  como  individualmente.  Longe  de  serem  vistas  como  entidades  singulares.;   HEILBORN.  A  partir  disso.   C.   Maria   Luiza:  “Antropologia   e  Feminismo”.   In:   O  gênero   e  a  dádiva.   2006.  para  o  pesquisador  formado  na  tradição  europeia  uma  performance  masculina  observada  pode  ser.   Editora   Unicamp.  a  antropóloga  reflete  sobre  o  fato  que  eles  não  conseguiriam pensar  em  algo  que  seja  comparável  ao  que  entendemos  como  a  relação  entre  natureza  e  cultura.   Maria   Laura   V. as pessoas são freqüentemente  construídas  como  o  locus  plural  e compósito das relações que as produzem. que não definem os sexos através de rituais  de  puberdade.40­41).  .  a  imagem  da  unidade.