saberes, práticas e narrativas

história e loucura:

universidade federal de uberlândia

reitor Alfredo Júlio Fernandes Neto vice-reitor Darizon Alves de Andrade diretor da edufu Humberto Guido

conselho editorial
conselheiros

Adão de Siqueira Ferreira Daurea Abadia de Souza Décio Gatti Júnior Gina Maira Barbosa de Oliveira

João Carlos Gabrielli Biffi Paulo Roberto de Lima Bueno Roberto Rosa

Técnica adminisTraTiva

Maria Amália Rocha

Editora da Universidade Federal de Uberlândia Av. João Naves de Ávila, 2121 - Campus Santa Mônica - Bloco 1S - Térreo CEP 38408-100 - Uberlândia - Minas Gerais Tel: (34) 3239-4293 www.edufu.ufu.br e-mail: livraria@ufu.br

Yonissa MarMitt Wadi nádia Maria Weber santos organizadoras

saberes, práticas e narrativas

história e loucura:

2010

Editora da Universidade Federal de Uberlândia

Copyright © Edufu – Editora da Universidade Federal de Uberlândia/MG Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução parcial ou total sem permissão da editora.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
H673l História e loucura : saberes, práticas e narrativas / Yonissa Marmitt Wadi, Nádia Maria Weber Santos, organizadoras. - Uberlândia : EDUFU, 2010. 368 p. Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-7078-235-9 1. 1. Psiquiatria - História. 2. Loucura - História. I. Wadi, Yonissa Marmitt. II. Santos, Nádia Maria Weber. III.Universidade Federal de Uberlândia.

CDU: 616.89(091)
Elaborados pelo Sistema de Bibliotecas da UFU / Setor de Catalogação e Classificação – MG

Equipe de realização Revisão gramatical Revisão ABNT Assistente editorial Projeto gráfico e diagramação Capa Foto capa Graciana Marie Oliveira Maira Nani França Gabriela Silva Garcia Ivan Lima Alexandre Carvalho “Taia” - Edy das Graças Braun

suMário
7 ApresentAção I – Saberes e práticas: medicina, instituições psiquiátricas e direitos 15 51 85 105 143 177 capítulo 1 Um sistema instável: as teorias ginecológicas sobre o corpo feminino e a clínica psiquiátrica entre os séculos XIX e XX Ana Paula Vosne Martins capítulo 2 Política assistencial psiquiátrica e o caso da Colônia Juliano Moreira: exclusão e vida social (1940-1954) Ana Teresa Acatauassú Venancio e Janis Alessandra Cassilia capítulo 3 Misticismo e doença mental em Xavier de Oliveira Artur Cesar Isaia capítulo 4 A loucura sob um outro olhar: reorganização dos serviços de atendimento em saúde mental (Uberlândia-MG, 1984-2005) Maria Clara Tomaz Machado e Riciele Majori Reis Pombo capítulo 5 A ordem psiquiátrica e a máquina de curar: o Hospício Nossa Senhora da Luz entre saberes, práticas e discursos sobre a loucura (Paraná, final do século XIX e início do século XX) Maurício Noboru Ouyama capítulo 6 A loucura entre dois mundos: práticas de intervenção médica e assistencialismo no Sanatório Espírita de Uberlândia (1932-1970) Raphael Alberto Ribeiro

II – Narrativas: literaturas, escrituras ordinárias, escritos médicos e outras narrativas 217 253 287 307 331 363 capítulo 7 Narrativas da loucura em Dyonélio Machado Mauro Gaglietti capítulo 8 Psiquiatria e história cultural: a literatura como fonte e a loucura como objeto Nádia Maria Weber Santos capítulo 9 “Quem senta na pedra fica doente, vadio e com preguiça”: a invenção do trabalho numa colônia agrícola gaúcha (1972-1982) Viviane Trindade Borges capítulo 10 A cura em saúde mental: história e perspectivas atuais Vládia Jucá capítulo 11 Um lugar (im)possível: narrativas sobre o viver em espaços de internamento Yonissa Marmitt Wadi sobre os Autores

apresentação

O livro História e loucura: saberes, práticas e narrativas foi organizado visando suprir uma lacuna na publicação da produção sobre a temática da loucura, tão cara aos pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, especialmente das Ciências Humanas e das Ciências da Saúde. A ideia do livro surgiu após contatos estabelecidos pelas organizadoras com colegas – da História, da Antropologia, da Psicologia, da Psiquiatria, etc. – que se encontraram pelos caminhos da formação ou do interesse acadêmico pelo tema em destaque. Encontros em eventos científicos, bancas de avaliação de dissertações e teses ou bate-papos informais nos fizeram conhecer um conjunto de trabalhos interessantes, fruto de produção recente e oriunda, em sua maioria, de pesquisas acadêmicas ainda não publicadas. O convite a alguns destes pesquisadores deu origem a este livro, ora apresentado, que está dividido em dois grandes eixos, contemplando discussões variadas, ricas e instigantes, organizadas a partir de dois subtemas propostos aos autores. No primeiro eixo, intitulado Saberes e práticas: medicina, instituições psiquiátricas e direitos, consta um conjunto de seis artigos que redimensionam o estudo sobre o espaço institucional, bem como discutem a prevalência de algumas práticas exercidas sobre os ditos loucos, em determinadas épocas e cidades brasileiras.

7

O artigo Um sistema instável: as teorias ginecológicas sobre o corpo feminino e a clínica psiquiátrica entre os séculos XIX e XX, de Ana Paula Vosne Martins, analisa as contribuições teóricas da ginecologia para a clínica psiquiátrica, considerando a relação entre feminilidade e loucura compartilhadas pelos médicos das duas especialidades. Nesta análise, a autora chama atenção para a centralidade da categoria gênero na formulação do pensamento psiquiátrico e para o estabelecimento de terapêuticas associadas às distinções de gênero. Política assistencial psiquiátrica e o caso da Colônia Juliano Moreira: exclusão e vida social (1940-1954), de Ana Teresa Acatauassú Venâncio e Janis Alessandra Cassilia, coloca-nos frente à história desta colônia, apresentando, em primeiro lugar, as linhas gerais da articulação entre a assistência psiquiátrica e as políticas de saúde dos anos 1940 e, a seguir, a constituição de um espaço institucional, ao mesmo tempo produtor de isolamento dos internos e construtor de um núcleo urbano de vida social que envolvia estes internos, funcionários e famílias. O artigo de Artur Cesar Isaia, Misticismo e doença mental em Xavier de Oliveira, estuda o posicionamento deste médico, herdeiro de Juliano Moreira, frente a este binômio. O autor destaca a posição do médico cearense que, no primeiro quartel do século XX, ao denunciar o misticismo e detectar a misticopatia indicava a periculosidade e a subversão da ordem urbana por indivíduos adeptos de tais práticas, concatenando-se com a então fase da Psiquiatria voltada para a classificação social e ação preventiva frente aos indivíduos considerados perigosos. O texto A loucura sob um outro olhar: reorganização dos serviços de atendimento em saúde mental (UberlândiaMG, 1984-2005), de Maria Clara Tomaz Machado e Riciele Majori Reis Pombo, analisa as práticas de cuida-

8

dos com os portadores de sofrimento psíquico a partir do advento da reforma psiquiátrica no Brasil. As autoras centram-se na análise do processo de organização de uma rede de atendimento em saúde mental na cidade de Uberlândia-MG, a partir da década de 1980, considerando os recursos políticos, humanos e materiais investidos neste processo específico. A ordem psiquiátrica e a máquina de curar: o Hospício Nossa Senhora da Luz entre saberes, práticas e discursos sobre a loucura (Paraná, final do século XIX e início do século XX), de Maurício Noboru Ouyama problematiza o processo de constituição da primeira grande instituição psiquiátrica paranaense – o Hospício Nossa Senhora da Luz –, num período histórico situado entre o final do século XIX e o início do século XX, em que uma tecnologia asilar específica toma conta das práticas exercidas sobre a loucura, evidenciando a complexa teia de relações de poder que marcam tal constituição. Por fim, neste primeiro eixo, encontra-se o artigo de Raphael Alberto Ribeiro, A loucura entre dois mundos: práticas de intervenção médica e assistencialismo no Sanatório Espírita de Uberlândia (1932-1970), que retrata a institucionalização da loucura nesta cidade do Triângulo Mineiro, a partir de uma especificidade: sua relação direta com o Espiritismo kardecista. O autor destaca, por meio da análise e dos discursos e práticas dos praticantes desta religião na região, os significados desta relação desde os seus primórdios. No segundo eixo, intitulado Narrativas: literatura, escrituras ordinárias, prontuários e outras narrativas, há cinco trabalhos que centrados na análise de diferentes narrativas, oriundas do campo literário, do saber médico, da experiência da internação psiquiátrica, ressignificam nosso entendimento sobre a loucura, em seu aspecto histórico, abrangendo algumas vias de reflexão, bastante contemporâneas no estudo sobre a temática.

9

No artigo intitulado Narrativas da loucura em Dyonélio Machado, Mauro Gaglietti tem como objetivo examinar as narrativas acerca da loucura presentes em alguns textos do médico/escritor Dyonélio Machado. O autor aponta, por meio de um diálogo estabelecido entre o pensamento de Dyonélio Machado e uma releitura das ideias de Michel Foucault, para a relativização dos conceitos de loucura e lucidez, evidenciada tanto nos escritos científicos do primeiro, quanto em sua literatura, mais especificamente em O louco do Cati, de 1942. Psiquiatria e história cultural: a literatura como fonte e a loucura como objeto, de Nádia Maria Weber Santos, discute a contribuição da História Cultural na construção de um novo olhar sobre a questão da saúde e da doença, especialmente sobre a loucura e a história da Psiquiatria, seu foco específico de análise. Considerando textos literários, a autora problematiza a noção de loucura, evidenciando a perda da autonomia do indivíduo e da cidadania dos ditos loucos, questão esta que perpassa a história da Psiquiatria no Brasil e no mundo. Em “Quem senta na pedra fica doente, vadio e com preguiça”: a invenção do trabalho numa colônia agrícola gaúcha (1972-1982), Viviane Trindade Borges analisa o discurso médico que instituiu visibilidades e dizibilidades a respeito do trabalho realizado pelos internados do Centro Agrícola de Reabilitação, localizado no Hospital Colônia Itapuã, em Viamão-RS. O objetivo principal da autora foi perceber como, numa trama discursiva que perpassou a instituição, sujeitos tidos como loucos tornaram-se trabalhadores aptos a reabilitação. O texto A cura em saúde mental: história e perspectivas atuais, de Vládia Jucá, remete o leitor a uma discussão original sobre o problema da cura, fazendo uma breve viagem pelo tempo, pelas noções surgidas e perpetradas de cura da

10

doença mental. A autora chega até o momento da reforma psiquiátrica na década de 80 do século XX, quando ressignificações do conceito são exigidas, a fim de que um novo modelo se instale, perpetuando a ética nos cuidados aos pacientes. O artigo de Yonissa Marmitt Wadi, Um lugar (im) possível: narrativas sobre o viver em espaços de internamento, fecha o segundo bloco de artigos. Por meio da análise de narrativas orais e escritas de mulheres que viveram a experiência da internação, a autora problematiza os processos de construção de subjetividades nos locais de internamento, bem como o fato destes se constituírem como espaços paradoxais, ou seja, são ao mesmo tempo lugares de exclusão e violência e lugares onde sujeitos acreditam encontrar um lugar para si. Desejamos uma ótima leitura e esperamos que o leitor encontre nesta obra questões que o estimulem a (re) pensar conosco as questões históricas acerca da loucura e, consequentemente, a compreender que, cada vez mais, os tabus surgidos ao longo de tantos séculos precisam ser removidos, para que estes indivíduos loucos tenham sua cidadania resgatada e seus anseios respeitados.

As organizadoras

11

i - saberes e práticas: Medicina,
instituições psiquiátricas e direitos

Capítulo I

uM sisteMa instável: as teorias ginecológicas sobre o corpo feMinino e a clínica psiquiátrica entre os séculos xix e xx
Ana Paula Vosne Martins1

A partir das últimas duas décadas do século XIX, a Psiquiatria passou a ser uma especialidade médica reconhecida e institucionalizada. As transformações da clínica psiquiátrica em curso desde meados do século XX foram consideradas pelos contemporâneos como responsáveis por uma nova compreensão das patologias mentais, assentadas na observação dos comportamentos, como também nas Ciências Biológicas, em particular nos estudos anátomofisiológicos do cérebro. Cada vez mais intervencionista, a Psiquiatria não se contentava com o controle dos internos dos asilos, procurando desenvolver terapias que fossem além, ou seja, que efetivamente convertessem à normalida1

Professora do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná e coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero. Doutora em História Social pela Unicamp, com pós-doutorado na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Um sistema instável

• 15

de o estado patológico, seguindo uma tendência presente no conhecimento médico finissecular e que só se intensificou ao longo do século XX. Esta mudança epistemológica que visava à erradicação da doença mental por meio de terapias intervencionistas e de cirurgias está registrada nas páginas das centenas de publicações especializadas que divulgaram o conhecimento médico psiquiátrico da época, especialmente em língua francesa, alemã e inglesa. Apesar de tratarem dos mais diferentes tipos de doenças mentais é notável como a experimentação de novas terapias na Psiquiatria atingiam mais certos grupos de indivíduos do que outros. Também se percebe que algumas doenças em particular estimularam a curiosidade médica, propiciando não só as condições para o desenvolvimento de novas terapêuticas, como a comunicação dos casos clínicos nas publicações médico-científicas o que possibilitou a interlocução entre médicos de especialidades diferentes. Esta seletividade de doentes e de doenças mentais não pode ser explicada por um aumento quantitativo de patologias que exigiram maior atenção dos psiquiatras. A historiografia que analisa as relações entre a medicina e a sociedade demonstrou como determinados grupos sociais foram transformados em objeto dos saberes e das práticas médicas não por alguma especificidade patogênica – como os portadores do vírus da varíola ou da gripe, por exemplo –, mas porque estavam inseridos em determinadas relações de poder que os definem por uma alteridade que é percebida como impura, perigosa, contagiosa, enfim, como ameaça à normalidade e à ordem.2
2

CHALHOUB, S. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1996; COSTA, J. Ordem médica, norma familiar. 1. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979; DONZELOT, J. A polícia das famílias. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986; EHRENREICH,

16 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

No que diz respeito à tipologia dos doentes mentais a historiografia também revelou como as categorias de raça e de gênero estão fortemente presentes na formulação do discurso médico oitocentista não como variáveis da nosografia, mas como condições determinantes dos quadros patológicos. A classe social também era uma categoria presente neste quadro explicativo, mas o pensamento médico e científico voltado para as diferenças humanas tinha profundos alicerces assentados no determinismo naturalista. Como construções categoriais naturalizadas, o gênero e a raça foram recorrentemente utilizados para explicar as diferenças, mas também para sustentar teorias deterministas tanto na ciência racial quanto na ciência sexual, ambas contemporâneas e articuladas entre si.3 Neste capítulo, procuramos analisar como o gênero foi uma categoria central na formulação do pensamento médico psiquiátrico e das terapêuticas desenvolvidas para tratar das doenças mentais associadas à feminilidade.4
B.; ENGLISH, D. Para o seu próprio bem. 150 anos de conselhos de especialistas para as mulheres. 1. ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2003; MACHADO, R. Danação da norma: medicina social e constituição da Psiquiatria no Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1978; ROHDEN, F. Uma ciência da diferença: sexo e gênero na medicina da mulher. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2001. JORDANOVA, L. Sexual visions: images of gender in science and medicine between the eighteenth and twentieth centuries. 1. ed. London: Harvester Wheatsheaf, 1989; SAID, E. W Orientalismo: o Oriente . como invenção do Ocidente. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1996; STEPAN, N. L. Raça e gênero: o papel da analogia na ciência. In: HOLLANDA, H. B. (Org.) Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. Gênero é uma categoria de análise para pensar relações sociais e de poder. De acordo com a historiadora Joan Scott o gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas na percepção das diferenças sexuais, mas é também um primeiro modo de dar significado ao poder. Desta forma, entendemos que esta categoria não só organiza e significa as relações sociais, mas é uma categoria de percepção, de conhecimento e de ação que legitima práticas, representações e saberes. SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, v.

3

4

Um sistema instável

• 17

Para tanto é preciso entender qual era a definição de feminilidade estabelecida pelos psiquiatras. Contudo, nesse exercício epistemológico e político, eles compartilharam com outro grupo de especialistas os mesmos conceitos, definições e valores ideológicos de gênero. Trata-se dos ginecologistas, os especialistas da natureza sexual da mulher. Nosso objetivo é analisar as contribuições teóricas da ginecologia para a clínica psiquiátrica, especialmente no que se refere à teoria sobre a natureza essencialmente sexual das mulheres e às correspondências entre os órgãos sexuais e o cérebro. Recorremos aos escritos médicos produzidos no século XIX e no início do XX para demonstrar como o gênero fundamentou as teorias e as práticas destes dois importantes especialistas do corpo e da mente das mulheres. Da mesma forma, discutimos como a contribuição da ginecologia foi além da formulação teórica da natureza feminina. As terapias e a cirurgia ginecológica – esta bastante desenvolvida a partir de 1880 – tiveram um papel preponderante na Psiquiatria. Como a etiologia sexual estava na origem de todas as doenças mentais das mulheres, os ginecologistas e os psiquiatras não só encontraram nos corpos femininos as causas de manias, psicoses, histeria, melancolia e tantas outras patologias, como também defenderam que a cura, ou pelo menos a amenização dos sintomas para os casos mais graves, demandava terapêuticas ginecológicas. Compartilhando da mesma definição sexual da feminilidade, psiquiatras e ginecologistas desempenharam um importante papel nas estratégias de normalização e de marginalização das mulheres, mesmo que para isto precisassem alterar seus corpos e dobrar suas vontades.
16, n. 2, p. 5-22, jul/dez. 1990; BOURDIEU, P A dominação masculina. . Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 133-184, jul./dez. 1995.

18 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

O sexo nervoso Desde meados do século XVIII, as Ciências Biológicas vinham desenvolvendo modelos explicativos para as diferenças humanas, em particular as diferenças sexuais e as raciais. O pensamento político liberal e seus desdobramentos na filosofia das Luzes encontraram dificuldades em articular o modelo naturalista de organização política e social com as realidades histórico-sociais, em particular aquelas colocadas pelo gênero e pelas relações entre os europeus e outros povos no contexto da expansão colonial. Por mais que se sustentasse filosoficamente que os homens nasceram livres e iguais, a organização das relações de poder exigia uma explicação para a não uniformidade deste princípio naturalista. Argumentava-se que a mesma natureza produzira diferenças na espécie humana, tornando alguns mais aptos não só para o entendimento, mas também para definir o que era melhor para os outros considerados menos aptos. Tanto o liberalismo racionalista quanto o iluminismo compartilharam esta visão de uma natureza humana cindida em diferenças físicas observáveis e mensuráveis que começaram a ser encontradas pelos anatomistas, craniologistas, naturalistas, viajantes e também pelos médicos. É neste contexto que começaram as investigações científicas sobre duas das mais importantes diferenças humanas, o sexo e a raça, sustentando os discursos e as práticas sociais de dominação e de exclusão de mulheres ocidentais e de homens e mulheres de outras culturas considerados racialmente inferiores.5 As ideias emancipacionistas em curso na época da Luzes não eram extensivas, portanto, a todos os indivíduos. Ser livre para agir e se expressar, exercer direitos e ser
5

SAID, 1996; STEPAN, 1994.

Um sistema instável

• 19

reconhecido como um cidadão partícipe da construção de uma nação soberana, eram atributos para poucos no século XVIII e, principalmente, no século XIX. Alguns homens e mulheres esclarecidos perceberam estas contradições do pensamento político e filosófico, reivindicando direitos de participação social e política para todos os cidadãos, bem como condenaram a escravidão, entre outras formas de exclusão e exploração que foram alvo do pensamento crítico e radical do final do século XVIII.6 No entanto, as contradições do liberalismo não foram superadas pela crítica social e política, sendo fortalecidas pelo conhecimento científico que então começava a se institucionalizar e conquistar reconhecimento social e político. Os filósofos que defendiam a igualdade e apontavam para a origem histórica e social das desigualdades constituíram uma minoria frente àqueles que defendiam a naturalidade das diferenças entre homens e mulheres, sustentando hierarquias sociais e a exclusão das mulheres das esferas públicas de decisão, do debate político e de todas as possibilidades de autonomia. Os discursos da diferença sexual recorreram ao argumento da determinação natural e apoiados nas investigações sobre a anatomia dos corpos femininos reforçaram a ideia da inferioridade física e intelectual das mulheres. Para além das querelas de fundo moral e religioso que sustentaram os argumentos da tradição misógina no Ocidente, o determinismo naturalista encontrou um lugar para elas na nova ordem social e política que se configurava no final do século XVIII: a maternidade. Para este discurso naturalista
6

BADINTER, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. 1. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985; HOFFMAN, P La femme dans la . penseé des Lumières. 1. ed. Paris: Edition Ophrys, 1976; SCHIEBINGER, L. Nature’s Body: sexual politics and the making of modern science. 1. ed. London: Pandora, 1994.

20 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

as mulheres não foram criadas como uma versão defeituosa dos homens, conforme a antiga tradição filosófica sustentara por séculos. Pelo contrário, a natureza criara seres irredutivelmente diferentes dos homens para exercer uma função cujo corpo era dotado de capacidades e órgãos especificamente adequados para tal função, as mamas lactíferas e o útero.7 Mesmo que mais frágeis e menos racionais, o discurso naturalista encontrara um lugar para as mulheres no exercício exclusivo da maternidade e teve muitos defensores, inclusive entre as próprias mulheres que viram nesta definição natural da feminilidade uma forma de reabilitação e enaltecimento que as protegeriam da violência dos maridos e também da maledicência cultural. Faca de dois gumes, esta definição contribuiu, sem dúvida, para a elevação moral das mulheres num momento de valorização dos sentimentos e do fortalecimento da família e dos laços entre pais e filhos. Mas esta valorização tinha um alto preço, ou seja, o discurso naturalista operava com categorias binárias e complementares; à razão se opunha a emoção, o masculino ao feminino, o público ao privado, a mente ao corpo, os homens às mulheres; contudo não se excluíam, pelo contrário, encontravam-se numa relação hierárquica que fora estabelecida pela ordem natural das coisas. Ir contra esta ordem significava opor-se à natureza e instaurar a desordem e o desequilíbrio. As mulheres foram incluídas neste quadro ideológico da normalidade natural e social se cumprissem o que delas era esperado: casar, ser mãe e cuidar do marido e dos filhos. É neste contexto iluminista de valorização moral das mulheres pela maternidade que os médicos passaram a ter um
7

HOFFMAN, 1976; BERRIOT-SALVADORE, E. O discurso da medicina e da ciência. In: FARGE, A.; DAVIS, N. Z. (Org.) História das mulheres. Do Renascimento à Idade Moderna. 1. ed. Porto: Edições Afrontamento; São Paulo: Ebradil, 1994; SCHIEBINGER, 1994.

Um sistema instável

• 21

papel cada vez mais importante, pois o bom exercício desta função social e natural dependia das noções de normalidade e de saúde. Era imperioso, portanto, conhecer a mulher, não a partir de aforismos e de generalizações que tanto a cultura das classes superiores quanto a cultura popular difundiam por meio de provérbios e ditados que contribuíram para as representações preconceituosas sobre o feminino, mas a partir da verdade que somente o conhecimento dos fatos observados poderia produzir. Tal necessidade de conhecer e de responder à pergunta o que é a mulher é o que explica a expressiva produção de tratados de Obstetrícia ainda no século XVIII, voltados para os fenômenos pouco conhecidos da gravidez e da parturição. É também neste contexto que tais fenômenos começam a interessar aos cirurgiões, que passam a entrar na cena do parto, primeiro para intervir em situações difíceis que as parteiras não conseguiam resolver, depois nos chamados partos naturais até se instituir a figura do cirurgião parteiro e do obstetra já no século XIX.8 Se a Obstetrícia se constituiu como a especialidade médica voltada para a mulher no exercício das suas funções reprodutivas para que ela bem cumprisse suas determinações naturais, no século XIX outra especialidade médicocirúrgica passou a enunciar a verdade sobre a natureza feminina. Mais ambiciosa do que a Obstetrícia, a ginecologia foi constituída como a ciência da mulher, retomando o fio ideológico da alteridade feminina. Explicar o que era a mulher demandava um aprofundamento na complexidade da sua natureza e esta era percebida então com sendo essencialmente sexual, portanto, os ginecologistas se voltaram para a pélvis feminina, para o locus da sua definição; lugar instável e responsável pelo destino da mulher, seja na reali8

EHRENREICH; ENGLISH, 2003; MOSCUCCI, O. The science of woman: gynecology and gender in England: 1800-1929. 1. ed. London: Cambridge University Press, 1993.

22 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

zação socialmente esperada de esposa e mãe, seja nos seus desvios patológicos. A descoberta da sexualidade feminina e a sua colocação em discurso por diferentes saberes não admitia qualquer margem de confusão na definição dos sujeitos.9 Os médicos exerceram o importante papel de peritos nesta subjetivação sexual, mas não foram os corpos masculinos, nem a sexualidade masculina que estimularam a investigação médico-científica e mesmo a escrita e a imaginação literária e artística no século XIX. A sexualidade masculina foi problematizada pelos saberes médicos e pelos peritos judiciais somente nos casos de homossexualismo, hermafroditismo e todas as outras classificações que a ciência sexual estabeleceu como anomalias em relação ao corpo e ao sexo masculinos.10 No contexto oitocentista de redefinição dos saberes e das práticas de subjetivação, foram os corpos das mulheres e a sexualidade feminina que se tornaram mais problemáticos para médicos, escritores e artistas oitocentistas. Para uns, fonte da beleza, do mistério, do desejo e do amor; para outros, senão para a maioria, o corpo e o sexo femininos eram compreendidos como sinônimos e vistos como ameaça à integridade física e moral masculina. De qualquer forma é possível afirmar que independente do lado que aqueles homens estivessem tanto o conhecimento médico-científico quanto a imaginação artística não separavam a mulher do sexo, como até os dias de hoje podemos verificar. Portanto,
9

10

FOUCAULT, M. História da sexualidade. A vontade de saber. 3. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1980. BLEIR, R. Science and gender: a critic of biology and its theories on women. 1. ed. Nova York: Pergamon, 1984; DARMON, P Médicos e as. sassinos na Belle Époque: a medicalização do crime. 1. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991; KELLER, E. F. Reflections on gender and science. 1. ed. Nova York: Yale University Press, 1985; LAQUEUR, T. Making sex: body and gender from the greeks to Freud. 1. ed. Cambridge: Harvard University Press, 1992.

Um sistema instável

• 23

entender o que era a mulher requeria entender o que era o sexo feminino, tendo em vista que para os especialistas e para a cultura masculina de maneira geral, a mulher dependia muito mais do seu sexo do que os homens. Muitos autores oitocentistas defendiam que se para os homens o sexo era importante em alguns momentos de suas vidas, especialmente quando era premente a reprodução, para as mulheres ele era determinante ao longo de toda a sua vida, tanto para o bem quanto para o mal. A partir desta definição da natureza sexual feminina uma teoria ganhou sustentação e adeptos entre os ginecologistas. Conhecida como teoria da ação reflexa, fundamentava-se nos conhecimentos anátomo-fisiológicos produzidos nos laboratórios de patologia sobre as relações entre útero, ovários e o cérebro. Estudos desenvolvidos por Claude Bernard e outros fisiologistas do século XIX buscavam compreender como funcionava o sistema nervoso ao realizarem experiências com animais e com os corpos humanos autopsiados. Os fisiologistas já estavam familiarizados com a noção de simpatia, ou seja, da relação que existiria entre dois ou mais órgãos, mesmo que distantes entre si, sendo a vitalidade de um modificada pela do outro, tanto no estado fisiológico quanto no patológico.11 O experimentalismo nas Ciências Biológicas reforçou estas ideias que, por sua vez, sustentavam o raciocínio que a ideologia formulara: as mulheres eram mais instáveis porque eram mais nervosas; eram mais nervosas porque estavam mais sujeitas à excitabilidade sexual; eram mais excitáveis porque estavam mais submetidas às impressões e ao império de seus órgãos sexuais. As experiências anátomopatológicas levaram à conclusão que as simpatias entre os órgãos sexuais e o cérebro nada mais eram do que relações
11

CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1995; MOSCUCCI, 1993.

24 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

estabelecidas por uma rede nervosa que ligava ovários e útero através de gânglios e de uma complexa ramificação de nervos ao eixo cérebro-espinhal. Portanto, uma excitação de origem sexual, mesmo que fraca, mas contínua, poderia exercer uma ação simpática ou reflexa sobre o cérebro. Por que esta teoria da ação reflexa não foi utilizada para explicar patologias que acometiam os homens? A melhor resposta para esta pergunta encontramos numa tese de um médico brasileiro que também se debruçou sobre a especificidade sexual das patologias femininas e seu interesse para a Medicina Legal e a Psiquiatria. Segundo Hildebrando José Baptista, era preciso considerar a excitação nervosa segundo o indivíduo sobre a qual ela se exerce:
Se o homem é a parte muscular do gênero humano, a mulher é a parte nervosa. Este estado nervoso particular que constitui o fundo mesmo de seu temperamento, não é um terreno admiravelmente preparado para a eclosão de todas as perturbações de ordem reflexa?12

Amparada nas observações de experimentalistas como Claude Bernard, Pierre Flourens e outros fisiologistas que estudaram as chamadas irritações reflexas de origem útero-ovariana, a resposta dada por Baptista é exemplar do funcionamento ideológico do gênero na ciência sexual. Como bem demonstraram Jordanova e Moscucci,13 os médicos e os cientistas encontravam o que procuravam, pois suas observações nas salas de autópsia, nos hospitais de mulheres ou nos manicômios não eram neutras e descomprometidas ideologicamente. As teorias
12

13

BAPTISTA, H. J. A mulher e a medicina legal. 1909. p. 21. Tese (Doutorado) – Faculdade de Medicina da Bahia, Salvador, 1909. JORDANOVA, 1989; MOSCUCCI, 1993.

Um sistema instável

• 25

e os conceitos foram formulados a partir das categorias da diferença sexual e elas eram dadas pelo determinismo. A frase de Baptista poderia ter sido enunciada por qualquer outro contemporâneo, pois ela se sustenta nos pares dicotômicos que a ideologia de gênero formulou na cultura científica ocidental. Desta forma, a teoria da ação reflexa não poderia ser utilizada para explicar a fisiologia/patologia masculina, pois se existiam simpatias entre órgãos do corpo masculino elas eram menos pronunciadas e não tinham a mesma origem na excitabilidade sexual como na fisiologia feminina. A teoria da ação reflexa teve muitos adeptos não só na ginecologia, mas entre outros especialistas e também entre o público leigo que se interessava pelas descobertas da medicina e da ciência sobre a natureza feminina. O impacto destas explicações foi imediato na vida e nas representações das mulheres, pois contribuíram para o fortalecimento das imagens de instabilidade emocional, fragilidade física e debilidade moral. Como franquear a seres tão instáveis uma educação superior, o exercício da cidadania, o acesso a espaços racionais da cultura e da ciência? Os estreitos limites colocados pela ideologia de gênero se fundamentavam, portanto, nos estreitos limites colocados pela natureza que parecia ter destinado as mulheres a uma fisiologia reprodutiva ou a um imenso território patológico. Neste terreno, as doenças de origem ginecológica ganharam grande visibilidade, não só entre os médicos, mas também na literatura e na escrita leiga ensaística. Conforme vamos nos aproximando do final do século XIX, notamos que diferentes especialidades médicas passaram a compartilhar interesses, e mesmo espaços científicos e institucionais; e a etiologia sexual para diferentes doenças que acometiam mulheres começou a ser não só do conhecimento dos ginecologistas, mas de outros especialistas, como

26 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

é o caso dos psiquiatras. Se a teoria da ação reflexa contribuiu decisivamente para a definição nervosa do sexo feminino, para a Psiquiatria de finais do século XIX e começo do século XX os conhecimentos produzidos pela ginecologia foram muito bem-vindos à clínica. Comportamentos associados às manifestações mórbidas do psiquismo feminino encontraram explicação compatível com os valores ideológicos sobre as diferenças sexuais, mas a ginecologia poderia ser ainda mais útil para a Psiquiatria ao fornecer modelos terapêuticos localizados ou cirúrgicos para o tratamento das manias e de outras doenças mentais das mulheres. O sexo e a loucura feminina

Ao estudar a natureza feminina e sua especificidade sexual, os obstetras e ginecologistas do século XIX construíram um modelo de normalidade extremamente restrito para as mulheres. Todos os fenômenos fisiológicos relacionados à sexualidade feminina e à capacidade reprodutiva foram considerados por eles como predisponentes às condições patológicas. A fisiologia feminina seria de tal forma determinante na vida das mulheres que mesmo nas condições de normalidade as alterações físicas, mas principalmente as comportamentais, poderiam evoluir para estados patológicos. Deste modelo, surgiu uma questão comum para ginecologistas e psiquiatras: como os fenômenos fisiológicos se transformavam em fenômenos patológicos no corpo feminino? Paradoxalmente, os médicos afirmaram que nas mulheres a linha que separava a fisiologia da patologia era tênue, quase imperceptível, ou seja, mesmo na normalidade de suas funções o corpo feminino era doente ou potencialmente doente. O fatalismo deste modelo também sustentava que certos fenômenos fisiológicos exerciam maior império sobre a vontade das mulheres, ou seja, justamente
Um sistema instável • 27

aqueles fenômenos que estavam relacionados à definição sexual da feminilidade eram os responsáveis pelas maiores e mais profundas transformações no corpo e no psiquismo das mulheres. Era para o sexo que os médicos oitocentistas voltavam sua atenção e seus maiores temores. Os obstetras e ginecologistas que escreveram sobre esta questão foram unânimes em afirmar que fenômenos como a menstruação, a gravidez, o parto e a menopausa mesmo que não evoluíssem para estados patológicos estavam na origem de perturbações físicas e intelectuais.14 Coerentes com a teoria da ação reflexa e sustentados nas observações clínicas e nos dados estatísticos, os médicos e fisiologistas do século XIX defenderam que a íntima relação entre fisiologia e patologia no corpo feminino se manifestava com mais frequência e de forma mais acentuada nas doenças mentais. Os tratados de medicina legal, de ginecologia e de Psiquiatria trazem vários capítulos sobre as alterações de comportamento e doenças mentais, demonstrando o fatalismo da natureza e reforçando a necessidade de se conhecer as condições dos órgãos sexuais das mulheres no estabelecimento dos diagnósticos psiquiátricos e nos exames periciais sobre a responsabilidade criminal. A teoria da ação reflexa encontrou adeptos entre os alienistas desde a primeira metade do século XIX. Os principais nomes da história da Psiquiatria como Esquirol,
14

A produção sobre o assunto é extensa e publicada principalmente em inglês, francês e alemão. BERTHIER. Des névroses menstruelles ou la menstruation dans ses rapports avec les maladies nerveuses et mentales. Paris: Adrien Delahaye, 1874; BUMM, E. Précis d’Obstétrique. Lausanne: Librairie Payot, 1914; DEPAUL, J. A. H. Leçons de clinique obstétricale. Paris: V Adrien Delahaye Libraires-Éditeurs, 1876; LEBLOND, A. Traité . élementaire de chirurgie gynécologique. Paris: H. Lauwereyns LibraireÉditeur, 1878; SIMPSON, J. Clinique obstétricale et gynécologique. Paris: J. B. Baillière et Fils, 1874; TAIT, R. L. Diseases of Women. Birmingham: Cronish Brothers, 1887; WEST, C. Leçons sur les maladies des femmes. Paris: F. Savy, 1870.

28 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Ball, Icard, Viray, Berthier, referiram-se às simpatias entre órgãos sexuais e o cérebro, mas foi após a publicação do livro de Adam Raciborski15 que a teoria da ação reflexa encontrou maior aplicabilidade. Este especialista no estudo da menstruação e de seus estados mórbidos tornou-se uma autoridade bastante citada, uma referência obrigatória pelo menos até o início do século XX. Seu livro está dividido em três grandes partes, sendo que a última trata da patologia e da terapêutica relacionadas à menstruação, abordando detalhadamente o seu papel nas doenças nervosas. Exemplo de como um fenômeno fisiológico podia ser ao mesmo tempo patológico, a menstruação foi considerada como uma das principais fontes de perturbações e doenças nervosas. Embora os médicos recorressem às metáforas poéticas para descrever o aparecimento da menstruação na puberdade e para afirmar que este era o principal indício de que o corpo feminino havia despertado para cumprir o papel para o qual a natureza o havia preparado, não esqueciam da linha tênue que separava o botão em flor da loucura.16 Quase todas as perturbações mentais e as manias tinham sua origem na menstruação, segundo os médicos. Uma alteração orgânica no útero e nos ovários, mesmo de natureza fisiológica, causava uma irritabilidade nervosa intensa. Para algumas mulheres esta alteração podia ser passageira, manifestada em dores de cabeça ou outras sensações físicas mais ou menos perceptíveis. Contudo, os médicos estavam con15

16

RACIBORSKI, A. Traité de la menstruation. 1. ed. Paris: J. B. Baillière et Fils, 1868. Os médicos aos quais nos referimos nesta discussão abrangem obstetras, ginecologistas, alienistas e posteriormente psiquiatras, higienistas e médicos legistas. Como de uma forma ou de outra estas especialidades acabavam se cruzando na produção de seus saberes sobre as diferenças sexuais e raciais preferimos manter a categoria profissional sem especificar a especialização a não ser quando se fizer necessário tal discriminação.

Um sistema instável

• 29

victos de que a maioria das mulheres era afetada de forma intensa por esta irritabilidade nervosa de origem menstrual, evoluindo para patologias mentais graves. Os dados recolhidos das observações clínicas pareciam se multiplicar assustadoramente. Os médicos afirmavam que sob a influência da menstruação as mulheres podiam ficar loucas, chegando a cometer os atos mais insensatos, até mesmo o suicídio. A observação das mulheres alienadas levou médicos famosos como Esquirol a sustentar que a época da menstruação era um tempo terrível para elas, agravando os sintomas da doença mental. Comentando estas observações Hildebrando José Baptista afirma:
todos os autores que têm escrito sobre a alienação mental são de acordo que as mulheres alienadas apresentam frequentemente perturbações da menstruação e que na iminência e durante o curso de suas regras, mesmo quando estas são normais, elas experimentam um aumento mais ou menos forte dos sintomas que caracterizam a moléstia.17

Também a gravidez e o parto foram considerados fenômenos predisponentes de doenças mentais. Tanto os obstetras quanto os médicos legistas observaram que da mesma forma que a menstruação, os fenômenos fisiológicos da gravidez e do parto podiam se transformar em fenômenos patológicos devido à intensidade da irritabilidade nervosa dos órgãos sexuais. Apesar de reconhecerem a extensão das transformações físicas da gravidez em outros sistemas como o digestivo e o circulatório, os tratados de Obstetrícia e de medicina legal dispensaram mais atenção para as relações entre gravidez, parto, lactação e doenças
17

BAPTISTA, 1909, p. 22.

30 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

mentais. Estas relações receberam a denominação de loucura puerperal, abrangendo todos os tipos de alterações psicológicas até as manias. Da mesma forma que na menstruação, os médicos encontraram uma frequência muito alta de perturbações psíquicas causadas pela gravidez e pelo parto. Espécie de loucura temporária, a loucura puerperal era uma patologia que demonstrava de forma inequívoca as simpatias entre útero, ovários e o cérebro. Se uma mulher nestas condições cometia algum ato criminoso deveria ser considerada irresponsável judicialmente, pois os médicos afirmavam que sendo as mulheres de natureza mais frágil e menos capazes de sobrepor sua vontade ao império dos fenômenos fisiopatológicos, não poderiam ser responsabilizadas por atos que foram praticados involuntariamente. A menopausa também foi considerada uma fonte de perturbações psíquicas. Embora a ginecologia não tenha associado a menopausa às condições patológicas os tratados e manuais produzidos a partir da segunda metade do século XIX observavam que o desaparecimento fisiológico da menstruação poderia desempenhar um papel desestabilizador no sistema nervoso, da mesma forma que o seu aparecimento por ocasião da menarca. De qualquer forma, ginecologistas e psiquiatras atribuíram à menopausa a origem de distúrbios psicológicos ou de manias e psicoses nos casos mais graves, como também a consideraram fonte do agravamento de quadros psicóticos e maníacos entre as internas de asilos que chegavam ao climatério, confirmando a aplicabilidade da teoria da ação reflexa também nesta simpatia entre os órgãos sexuais e o cérebro. O modelo determinista da natureza feminina criado pela ciência e pela medicina da mulher sustentava que todos os comportamentos e as funções do corpo feminino estavam sob a dependência dos órgãos sexuais. No entanto,

Um sistema instável

• 31

não só os fenômenos fisiológicos relacionados diretamente a eles foram vistos como predisponentes às doenças mentais. A maior parte dos transtornos psíquicos em mulheres foi interpretada como de etiologia sexual e grande parte dos ginecologistas e dos psiquiatras atribuiu um caráter patológico para a sexualidade feminina, muito mais do que para a masculina. Desta forma, exames ginecológicos na clínica e no hospital psiquiátrico passaram a ser aceitos pelos médicos por volta das décadas de 1880 e 1890, porque os comportamentos femininos considerados inadequados passaram a ser vistos concomitantemente como sintomas de doença mental e ginecológica. Em seu livro sobre a ninfomania a historiadora Carol Groneman18 explica que quase todos os comportamentos femininos associados à autonomia e à manifestação livre do desejo sexual foram tratados pelos médicos como sintomas de doença e de perversão. Categorias como hiperssexual, ninfomaníaca, masturbadora, delinquente sexual, psicopata sexual, entre outras, eram recorrentes tanto na formulação de diagnósticos quanto na casuística. São vários os casos narrados em publicações médicas da segunda metade do século XIX e de boa parte do século XX que sustentam a imagem de uma sexualidade feminina mórbida, de um desejo feminino insaciável, descontrolado e ameaçador para a sociedade por ser capaz de disseminar vícios e perversões. Daí a necessidade de controlar as mulheres, pois, potencialmente, qualquer mulher poderia desenvolver patologias sexuais por ter uma constituição frágil e estar submetida ao império de seus órgãos sexuais. Até meados do século XIX, os alienistas ainda defendiam que doenças como a histeria e a ninfomania tinham etiologia nervosa causada por alguma inflamação no cére18

GRONEMAN, C. Ninfomania: história. 1. ed. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

32 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

bro, pelo esgotamento dos nervos, pela excitação de causa exterior como o consumo de álcool, ou então a leitura de romances e conversas sobre paixões que pudessem despertar a imaginação. Segundo Groneman os alienistas mais progressistas defendiam o tratamento moral para as loucas do sexo, ou seja, acreditavam que o internamento nos asilos associado a uma terapêutica que visasse à transformação do comportamento era o mais adequado para as insanas:
embora incertos sobre as causas de distúrbios femininos como a histeria, a histeromania e a ninfomania, os alienistas permaneceram confiantes, até o final do século, de que uma mudança positiva poderia ser alcançada através deste método novo e humano.19

Contudo, conforme o modelo experimental das ciências biológicas foi se impondo ao longo do século XIX e contribuindo para a transformação dos diagnósticos e terapêuticas das doenças mentais, a teoria da ação reflexa ganhou adeptos também entre os psiquiatras do final daquele mesmo século. Embora nem todos os psiquiatras concordassem com esta teoria, da mesma forma como os ginecologistas não eram unânimes sobre esta questão, desde as últimas décadas do século XIX nota-se o abandono do modelo alienista de tratamento moral e a adesão à teoria da ação reflexa e da terapêutica ginecológica para as loucas do sexo.20 Estes tratamentos foram muito diversificados, mas quase todos se fundamentaram na intervenção no corpo ou mais diretamente nos órgãos sexuais das mulheres e para tanto encontraram na ginecologia os seus fundamentos teóricos e clínicos. A medicina da mulher ou ginecologia se constituiu tendo como referência uma imagem hipers19 20

GRONEMAN, 2001, p. 28. GRONEMAN, 2001; MOSCUCCI, 1993.

Um sistema instável

• 33

sexualizada da mulher. No entanto, a maioria destes novos especialistas defendia que a mulher normal era anestesiada para o sexo e que o exercício da sua sexualidade visava tão somente à reprodução. Lombroso, um dos autores mais citados no final do século XIX sobre a natureza feminina, recorreu a este modelo interpretativo da ginecologia ao dizer:
O amor feminino nada mais é do que um aspecto secundário da maternidade e todos os sentimentos de afeto que ligam a mulher ao homem não nascem do impulso sexual, mas são instintos de sujeição e devoção adquiridos por adaptação.21

Para os ginecologistas, qualquer manifestação de desejo sexual ou de inadequação das mulheres à vida conjugal era sintoma de algo errado com as suas pacientes, pois elas não se encaixavam nos estreitos limites da normalidade médica. O debate em torno da sexualidade feminina na segunda metade do século XIX ocorreu no terreno da patologia; daí a proliferação das anomalias que requeriam a intervenção médica. Qualquer sinal era indicativo de uma anomalia sexual: corrimentos, doenças uterinas e ovarianas, dores menstruais excessivas ou ausência de menstruação, enfim, qualquer sintoma de alterações no trato genital feminino era interpretado como sinal de excesso ou de abstinência sexual. Como os exames ginecológicos também passaram por aperfeiçoamentos no sentido de retirar qualquer obstáculo que impedisse o olhar investigador do médico, o corpo passou a ser inquirido em cada detalhe.22 Seios flácidos, pigmentação da pele, o tamanho do clitóris e dos lábios vaginais, a posição do útero e o
21

22

LOMBROSO, C.; FERRERO, G. La donna deliquente: la prostituta e la donna normale. 4. ed. Torino: Fratelli Bocca Editori, 1923. p. 92. MARTINS, A. P V Visões do feminino. A medicina da mulher nos sécu. . los XIX e XX. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2004.

34 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

que os médicos chamavam de pudor feminino – algo que era interpretado pela maior dificuldade em se realizar os exames ginecológicos devido à vergonha das mulheres – eram indicativos do comportamento sexual, sinais de uma sexualidade excessiva e patológica.23 Alguns médicos defenderam os tratamentos morais para a sexualidade feminina patológica, como a proibição da leitura de romances, o controle sobre as companhias e amizades e em alguns casos a vigilância restrita do comportamento, especialmente para aquelas que foram diagnosticadas como ninfomaníacas. Este tipo de tratamento não dispensava algumas formas de terapêuticas mais localizadas, como o uso de purgantes, escalda-pés, banhos frios, aplicação de sanguessugas nos genitais e o uso de ventosas. No entanto, a fama da ginecologia está associada à sua transformação em uma especialidade cirúrgica, especialmente entre as décadas de 1860 e 1870. Várias patologias de difícil tratamento até então começaram a ceder graças à cirurgia ginecológica, como é o caso do câncer uterino e ovariano e as fístulas vésico-vaginais. Para além dos benefícios que este tipo de intervenção trouxe à saúde das mulheres, a cirurgia ginecológica teve um importante papel na definição médica de normalidade sexual, ampliando significativamente o controle que os médicos, as famílias e as instituições hospitalares exerciam sobre os corpos e comportamentos femininos. Talvez em nenhum outro terreno o controle e o poder fundamentados na ideologia de gênero tenham tido maior aplicabilidade sobre os corpos e as mentes femini23

Há que se ressaltar que nem todos os indícios resultavam da observação nos exames, mas da imaginação médica e dos seus preconceitos. Alguns se referiam aos “olhares lascivos”, aos comportamentos pouco condizentes com o “natural pudor feminino”. Outros, como o próprio Lombroso encontravam indícios de precocidade e excesso sexual associados ao tipo feminino, entrecruzando diferenças físicas como a cor dos cabelos e da pele com categorias sociais e raciais. MARTINS, 2004.

Um sistema instável

• 35

nas do que no tratamento ginecológico para as doenças mentais. Conforme a terapêutica cirúrgica se consolidava e os médicos ganhavam mais segurança e determinação no desenvolvimento das técnicas e no aperfeiçoamento do instrumental, a prescrição da cirurgia e de outras terapêuticas ginecológicas eram recomendadas para atenuar ou mesmo curar doenças mentais. Como vimos, se a natureza feminina era essencialmente sexual; se os órgãos sexuais controlavam o regime fisiológico e patológico no corpo feminino; se a medicina experimental havia comprovado a íntima relação entre o sexo feminino e o sistema nervoso, os fatos levavam a uma conclusão: os tratamentos morais para as doenças mentais entre as mulheres não eram suficientes. Fazia-se necessário enfrentar o mal na sua origem e esta fora encontrada pelo saber médico ginecológico nos órgãos sexuais, portanto a terapêutica adequada deveria voltar-se para eles. Os periódicos psiquiátricos do final do século XIX divulgaram artigos nos quais se defendia o uso das terapêuticas ginecológicas para tratar de mulheres diagnosticadas como doentes mentais. Os dados estatísticos apresentados pelos autores apontavam para uma grande frequência de doenças ginecológicas entre as alienadas e são vários os casos narrados de cura de doença mental pela cura das doenças ginecológicas.24 Contudo, nem sempre os médicos tratavam das doenças ginecológicas. Há vários relatos que indicam que as terapêuticas ginecológicas foram utilizadas para mudar comportamentos, ou seja, para curar as mulheres diagnosticadas como hiperssexuais, histéricas e as masturbadoras. De acordo com Masson25 tais relatos e as práticas mé24

25

TELLES, A. L. Importância dos exames ginecológicos em medicina mental. 1930. Tese (Doutorado) – Faculdade de Medicina da Bahia, Salvador, 1930. MASSON, J. M. A dark science. Women, sexuality and psychiatry in the

36 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

dicas que são narradas heroicamente por seus autores revelam um território escuro e pouco conhecido da Psiquiatria. As abordagens históricas feministas da medicina da mulher também apontaram para o caráter punitivo das terapêuticas que visavam curar a sexualidade feminina considerada anormal e patológica pelos médicos. Como bem demonstraram Smith-Rosenberg & Rosenberg e Showalter26 as teorias e as práticas médicas desenvolvidas no século XIX desempenharam importante papel na exclusão social e política das mulheres não apenas por meio das prescrições dos limites aos quais deveriam se restringir para cumprir seu papel natural e manter a saúde física e mental. Aquelas que por qualquer motivo não se adequaram às normas sociais e às prescrições médicas foram trancafiadas nos quartos sob os cuidados vigilantes da família ou nos hospitais psiquiátricos. Contudo, não bastava confiná-las. A medicina dos séculos XIX e XX é intervencionista e se empenhou numa verdadeira luta contra o mal e a doença, estejam eles presentes num agente patógeno microscópico ou numa configuração patológica do corpo que poderia ser alterada por medicamentos, por agentes físico-químicos, pela eletricidade ou pela cirurgia. Cada vez mais seguros de que a intervenção podia trazer resultados mais imediatos e permanentes do que o tratamento moral, os psiquiatras e os ginecologistas usaram diferentes terapêuticas ginecológicas visando curar o sexo nervoso. Nas décadas de 1880 e 1890, um tratamento médico para doenças nervosas em mulheres obteve grande repercussão. Trata-se da cura pelo repouso
Nineteenth Century. 1. ed. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 1986. SMITH-ROSENBERG, C.; ROSENBERG, C. E. The female animal: medical and biological viewa of woman and her role in NineteenthCentury America. In: LEAVITT, J. W. (Org.). Women and health in America. 1. ed. Madison: University of Wisconsin Press, 1999; SHOWALTER, E. The female malady: women, madness, and English Culture, 1830-1980. 1. ed. Nova York: Penguin, 1987.

26

Um sistema instável

• 37

absoluto (rest cure) desenvolvida pelo médico neurologista norte-americano S. Weir Mitchell. Este tratamento podia ser realizado na casa da doente, sendo uma variante do tratamento moral com a utilização de outras técnicas terapêuticas como a dieta alimentar, as massagens e o uso da eletricidade. O tratamento pelo repouso absoluto ficou famoso também pela publicação do livro The yellow wallpaper, da escritora norte-americana Charlotte Perkins Gilman, em 1892. Submetida a este tratamento, Gilman escreveu um relato do impacto causado por ele, pois tinha que ficar completamente isolada no quarto, sem poder levantar-se da cama, sendo proibida a leitura, a escrita e mesmo a pintura. Ela narra como o tratamento agravou seu quadro de depressão, motivo que a levou procurar Mitchell, famoso na época por tratar das doenças nervosas, em particular aquelas que acometiam as mulheres, como a neurastenia e a histeria. Mitchell compartilhava das ideias em voga entre seus contemporâneos de que a vida moderna e as ambições femininas em querer se igualar aos homens estavam na origem das doenças nervosas que podiam evoluir para a demência. Portanto, seu tratamento visava eliminar qualquer estímulo e contato com o mundo, confinando as suas pacientes em quartos fechados, submetidas a uma alimentação frugal e sem nenhum movimento físico e intelectual.27 Embora a rest cure fosse ainda muito próxima ao tratamento moral, trata-se de um aperfeiçoamento, pois não se restringe ao isolamento e aos bons hábitos que deveriam ser incutidos nas doentes. Mitchell queria acalmar os nervos das mulheres e para tanto acreditava que as afastando do mundo, bem como fazendo-as literalmente parar, recobrariam
27

ABELSON, E. S. The invention of kleptomania. In: LEAVITT, J. W . (Org.). Women and health in America. 1. ed. Madison: University of Wisconsin Press, 1999.

38 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

a saúde e poderiam voltar para a condução de seus lares. O uso de outras técnicas como a dieta, as massagens e os estímulos nervosos pelo uso da eletricidade são indicativos da transição deste tipo de tratamento para uma intervenção de maior intensidade nos corpos e nas mentes femininas. Recorrer às terapêuticas intervencionistas para os casos de ninfomania e de algumas outras formas de patologias mentais associadas à sexualidade feminina passou a ser mais frequente a partir das últimas décadas do século XIX. Começando pelos medicamentos, os médicos psiquiatras prescreviam drogas já conhecidas pelos alienistas como a beladona, o ópio e o clorofórmio para acalmar os estados de alucinação e de euforia. Desde 1857, as mulheres diagnosticadas como epilépticas e masturbadoras começaram a ser medicadas com sais, especialmente o brometo de potássio (KBr). Estes medicamentos calmantes deixavam as mulheres num estado de torpor, pois as doses eram elevadas, tendo em vista que os médicos visavam ao aquietamento e, principalmente, ao controle sobre os comportamentos e a excitação sexual.28 Contudo, a terapêutica medicamentosa não esteve associada aos maiores desenvolvimentos da Psiquiatria nem da Ginecologia no tratamento das doentes mentais como ocorreu posteriormente, a partir de meados do século XX. No final do século XIX, foram as terapêuticas físico-químicas e cirúrgicas que deram aos médicos mais confiança na capacidade curativa daqueles tipos de intervenção, tendo em vista que eram mais agressivas no que então consideravam a origem orgânica das patologias mentais de etiologia sexual. Algumas destas terapias já eram conhecidas como a hidroterapia ou tratamento com jatos ou imersão em água fria, geralmente. Contudo, ao
28

MASSON, 1986.

Um sistema instável

• 39

lermos os relatos médicos de então nota-se que frente a um comportamento considerado inadequado ou intolerável por parte dos familiares ou dos médicos, recorria-se à combinação de diferentes terapêuticas. Esta combinação foi bastante frequente nos tratamentos para conter as masturbadoras e as ninfomaníacas, independente da idade das pacientes. O relato que o médico Démétrius Alexandre Zambaco publicou no famoso periódico francês L’Encéphale, em 1882, mostra claramente como o internamento, o uso de drogas e de terapêuticas mais agressivas, inclusive a cirurgia ginecológica, foram combinados, revelando o esforço do médico em extirpar qualquer sinal de uma sexualidade indomada. Zambaco conta que tratou de duas crianças do sexo feminino que se entregaram ao vício terrível da masturbação de forma vergonhosa e incontida. As meninas eram irmãs e tinham dez e seis anos. Ele começou o tratamento prescrevendo medicamentos, em especial o brometo de potássio e de ferro. Não houve melhorias, pelo contrário, ao examinar os genitais das meninas Zambaco notou que os abusos continuavam e o comportamento da menina mais velha foi descrito pelo médico como indecente e revoltante. Para tão reticente paciente os tratamentos mais suaves não faziam efeito, então foi necessário mudar de tática e usar tratamentos mais severos, “mesmo [aqueles] mais cruéis e brutais”.29 Estes tratamentos severos incluíram o uso de camisa de força, amarrar as pernas e os pés mantendo as crianças no leito, hidroterapia, medicamentos de efeito calmante e por fim, como narrou Zambaco, quando todos os tratamentos falharam no controle da masturbação, ele decidiu experimentar no corpo da menina mais nova um novo tratamento: a cauterização do clitóris. Ele fez três cauterizações,
29

ZAMBACO. Masturbation and psychological problems in two little girls apud MASSON, 1986, p. 65.

40 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

apesar dos soluços, das lágrimas e gritos e para puni-la pela desobediência em voltar a se masturbar, cauterizou também as nádegas e a região lombar. Segundo Zambaco a menina mais nova “voltou a ser uma criança novamente”.30 Os mesmos tratamentos foram prescritos para a menina mais velha, também mais resistente às tentativas curativas e punitivas de Zambaco. Segundo ele, a menina era mais inteligente e sagaz, bem como mais perversa e indecente, demonstrando por meio de seu comportamento o quanto era uma neurótica depravada. Apesar de todas as tentativas de Zambaco a menina continuou resistente, mesmo com as cauterizações no clitóris e na entrada da vagina. Apesar de não ter curado as duas crianças, pois elas foram afastadas do médico e ele narra não saber o que aconteceu posteriormente às suas pacientes, nas reflexões finais Zambaco confirma que ambas eram neuróticas. Diz que mesmo frente ao fracasso dos diferentes tratamentos empregados acreditava que nos casos de masturbação o tratamento mais eficaz era a cauterização para reduzir a sensibilidade e com a aplicação repetida do mesmo se poderia
destruir totalmente o clitóris. Finalmente, o medo despertado pela visão do instrumento de tortura e as imagens que o ferro quente produz na imaginação das crianças podem ser considerados efeitos benéficos da cauterização elétrica.31

Nem todos os médicos são tão sinceros na explicitação de seus valores, na denominação de suas práticas e na determinação em punir as pacientes recalcitrantes quanto Zambaco. Contudo, a bibliografia especializada explica que
30

31

ZAMBACO. Masturbation and psychological problems in two little girls apud MASSON, 1986, p. 83. ZAMBACO. Masturbation and psychological problems in two little girls apud MASSON, 1986, p. 88.

Um sistema instável

• 41

tais práticas punitivas se tornaram muito comuns na segunda metade do século XIX. Nota-se em Zambaco e nos textos de alguns contemporâneos a consciência da assimetria que o saber e a prática médica estabelecem entre médicos e pacientes, especialmente quando estes são mulheres. Portanto, os tratamentos considerados pelos próprios médicos como crueis e brutais foram prescritos e encontraram defensores renomados e de prestígio porque viam as mulheres que estavam sob seus cuidados por meio dos preconceitos de gênero. As lentes da ideologia de gênero e da misoginia não podem ser subestimadas, muito menos as relações de poder que sustentam a produção do saber sobre os corpos e as mentes femininas, como se pode notar nas afirmações seguras demonstradas por Zambaco frente à sexualidade e ao corpo de duas crianças. Destruir o clitóris significava muito mais do que colocar fim na excitabilidade sexual: significava colocar fim na sexualidade feminina, tornar as meninas e as mulheres recalcitrantes indivíduos dóceis e vergados pelo saber que deveria reconduzi-las à normalidade do sexo reprodutivo. Mas foi no terreno da cirurgia que os médicos ginecologistas e depois os psiquiatras realmente inovaram e se diferenciaram dos tratamentos mais conservadores.32 Embora o debate sobre a cirurgia ginecológica, em meados do século XIX, mostre que não havia uma posição homogênea entre os médicos sobre as suas indicações, este tipo de cirurgia passou a ser largamente praticada, tanto que muitos médicos começaram a questionar a transformação da ginecologia numa especialidade cirúrgica e a criticar os excessos. Apesar das divergências e das polêmicas, a ginecologia encaminhou-se para o aperfeiçoamento das técnicas cirúrgicas especialmente na Inglaterra, na França e nos Estados
32

Conservador significa aqui os tratamentos menos intervencionistas, como o tratamento moral, o uso de medicamentos calmantes associados às dietas alimentares e ao repouso, como também a homeopatia.

42 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Unidos. Porém, a cirurgia não foi utilizada para tratar somente de problemas ginecológicos como os tumores ou as fístulas, mas para tratar das patologias femininas de maneira mais geral, ou seja, de outras doenças que por ação reflexa tivessem origem nos órgãos sexuais. É neste contexto que algumas cirurgias em particular devem ser analisadas, assim como deve ser analisado o interesse que elas suscitaram entre os cirurgiões, como é o caso da histerectomia, da ovariotomia e da clitoridectomia, realizadas para curar a ninfomania, a histeria, a masturbação e algumas doenças mentais.33 Interessa-nos compreender porque estas cirurgias foram consideradas apropriadas para o tratamento de doentes mentais. Conforme apontamos, os médicos psiquiatras notaram que muitas de suas pacientes tinham algum distúrbio ginecológico, ao mesmo tempo em que alguns ginecologistas perceberam que muitas das mulheres que os procuravam com alguma queixa ginecológica apresentavam sintomas de doenças mentais. Esta articulação entre sistema nervoso e órgãos sexuais levou ginecologistas e psiquiatras a desenvolverem terapêuticas mais agressivas e intervencionistas visando à cura dos problemas psíquicos das mulheres. As cirurgias mais polêmicas foram aquelas desenvolvidas pelos médicos que se tornaram especialistas nas doenças nervosas das mulheres: a ovariotomia e a clitoridectomia.34 O recurso à extirpação dos ovários nos casos de
33

34

Lombroso comentou em seu livro que os cirurgiões europeus acreditavam que as mulheres resistiam mais à dor que os homens: “Bilbroth disse que tendo que fazer uma operação nova tentava pela primeira vez numa mulher, porque é menos sensível e mais resistente, porque, acrescentava ele, a mulher é como os selvagens, um ser inferior e por isso apresenta maior resistência aos ferimentos”. LOMBROSO; FERRERO, 1923, p. 49; MARTINS, 2004; MOSCUCCI, 1993. Na história da cirurgia ginecológica narrada nos livros de história da medicina destacam-se os nomes de Ephraim McDomwell, Charle Clay, Charles Péan, Wilhelm Freund e James Marion Sims como responsáveis pelas inovações desta terapêutica. Contudo, o debate em torno da indica-

Um sistema instável

• 43

diagnóstico de histeria e ninfomania era bem conhecido na literatura médica do século XIX, embora fosse muito polêmico e não contasse com a aprovação de muitos cirurgiões, pois além de duvidarem da eficácia da cirurgia no tratamento das doenças nervosas havia também a questão moral que a castração suscitava tanto entre os profissionais da medicina quanto entre os leigos. O que significava remover os ovários de uma mulher? Ela não se tornaria mais masculina sem os órgãos definidores de sua feminilidade? Apesar das oposições, muitas mulheres internadas em asilos para doentes mentais tiveram seus ovários retirados pela cirurgia ginecológica, pois segundo a teoria da ação reflexa, fazia-se necessário remover a origem da irritação nervosa.35 A clitoridectomia foi outra cirurgia bastante praticada entre as internas de asilos nos Estados Unidos e na Inglaterra. Diferentemente da ovariotomia, esta cirurgia não suscitou, no início, reações, pois o clitóris não era considerado uma estrutura anatômica importante para as mulheres, segundo médicos como Isaac Baker Brown e Gustav Braun. Sua extirpação em casos de doenças mentais não traria maiores inconvenientes, pelo contrário, livraria as mulheres da fonte do vício da masturbação e do longo cortejo de doenças associadas a esta prática.36 O debate em torno da
ção da ovariotomia e da clitoridectomia para curar outras doenças, como é o caso das doenças mentais, dividiu os médicos e se restringiu mais aos Estados Unidos e à Inglaterra. MITCHINSON, W Gynecological operations on insane women. The . Journal of Social History, London, Ontário, 1895-1901, Spring, 1982. Na década de 1860 o debate sobre a clitoridectomia foi bastante intenso, especialmente após a expulsão do médico Isaac Baker Brown da Obstetric Society de Londres em 1867. Brown publicou um livro no qual defendia ter encontrado a cura para a epilepsia, a histeria e outras formas de doenças mentais em mulheres através da extirpação do clitóris. Sobre esta polêmica ver Sheehan. SHEEHAN, E. Victorian clitoridectomy: Isaac Baker Brown and his harmless operative procedure. Medical Anthropology Newsletter, New York, v. 12, n. 4, p. 9-15, Aug. 1981; BRASLOW J. Mental ills and bodily cares: psychiatric treatment ,

35

36

44 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

clitoridectomia ocorreu mais motivado por tensões internas à profissão médica do que pelos motivos e fundamentos desta prática, como explicou Sheehan em seu artigo sobre a questão que envolveu os cirurgiões obstetras e ginecologistas na Inglaterra na década de 1860. A clitoridectomia continuou a ser praticada até a década de 1940 nos hospitais psiquiátricos e na clínica ginecológica, pois o modelo explicativo que a sustentava manteve-se intacto, ou seja, a sexualidade feminina continuava a ser interpretada como a fonte da maioria dos distúrbios psicológicos e psiquiátricos. Ginecologistas e psiquiatras escreveram um capítulo sombrio da medicina entre os séculos XIX e XX, conforme observou o psicanalista Jeffrey Masson. Mulheres que procuraram voluntariamente seus serviços ou que foram levadas a eles por seus familiares ou pelas autoridades, porque elas agiam de forma inadequada ou indecente segundo os padrões culturais, quase sempre desconheciam os tratamentos a que foram submetidas, especialmente aquelas que estavam nos asilos. Desconfiados da sexualidade feminina, muitos médicos acreditavam que a origem dos males que acometiam as mulheres se encontrava no que paradoxalmente as definia, ou seja, na sua própria natureza, que se não podia ser alterada, podia ser controlada ou (talvez pudéssemos dizer) domada. Nesse sentido, compreender este capítulo sombrio da história da Psiquiatria e da Ginecologia nos leva para o território da apropriação cultural dos valores da ideologia de gênero pela ciência e pela medicina, processo este que nos ajuda a entender não só a formulação de teorias deterministas, mas também o voyeurismo, ansiedade e de misoginia presentes nas ideias e nas práticas médicas sobre o corpo e a mente das mulheres.

in the firts half of twentieth century. 1. ed. Los Angeles: University of California Press, 1997.

Um sistema instável

• 45

referências

ABELSON, E. S. The invention of kleptomania. In: LEAVITT, J. W . (Org.). Women and health in America. 1. ed. Madison: University of Wisconsin Press, 1999. p. 390-399. BADINTER, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. 1. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. BAPTISTA, H. J. A mulher e a medicina legal. 1909. Tese (Doutorado) – Faculdade de Medicina da Bahia, Salvador, 1909. BERRIOT-SALVADORE, E. O discurso da medicina e da ciência. In: FARGE, A.; DAVIS, N. Z. (Org.). História das mulheres. Do Renascimento à Idade Moderna. 1. ed. Porto: Edições Afrontamento; São Paulo: Ebradil, 1994. p. 409-455. BERTHIER. Des névroses menstruelles ou la menstruation dans ses rapports avec les maladies nerveuses et mentales. Paris: Adrien Delahaye, 1874. BLEIR, R. Science and gender: a critic of biology and its theories on women. 1. ed. Nova York: Pergamon, 1984. BOURDIEU, P A dominação masculina. Educação e Realidade, . Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 133-184, jul./dez. 1995. BRASLOW J. Mental ills and bodily cares: psychiatric treatment in , the firts half of twentieth century. 1. ed. Los Angeles: University of California Press, 1997. BUMM, E. Précis d’Obstétrique. Lausanne: Librairie Payot, 1914. CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1995. CHALHOUB, S. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

46 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

COSTA, J. Ordem médica, norma familiar. 1. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979. DARMON, P Médicos e assassinos na Belle Époque: a medicalização . do crime. 1. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. DEPAUL, J. A. H. Leçons de clinique obstétricale. Paris: V Adrien . Delahaye Libraires-Éditeurs, 1876. DONZELOT, J. A polícia das famílias. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986. EHRENREICH, B.; ENGLISH, D. Para o seu próprio bem. 150 anos de conselhos de especialistas para as mulheres. 1. ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2003. FOUCAULT, M. História da sexualidade. A vontade de saber. 3. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1980. GRONEMAN, C. Ninfomania: história. 1.ed. Rio de Janeiro: Imago, 2001. HOFFMAN, P La femme dans la penseé des Lumières. 1. ed. Paris: . Edition Ophrys, 1976. JORDANOVA, L. Sexual visions: images of gender in science and medicine between the eighteenth and twentieth centuries. 1. ed. London: Harvester Wheatsheaf, 1989. KELLER, E. F. Reflections on gender and science. 1. ed. Nova York: Yale University Press, 1985. LAQUEUR, T. Making sex: body and gender from the greeks to Freud. 1. ed. Cambridge: Harvard University Press, 1992. LEBLOND, A. Traité élementaire de chirurgie gynécologique. Paris: H. Lauwereyns Libraire-Éditeur, 1878. LOMBROSO, C.; FERRERO, G. La donna deliquente: la prostituta e la donna normale. 4. ed. Torino: Fratelli Bocca Editori, 1923.

Um sistema instável

• 47

MACHADO, R. Danação da norma: medicina social e constituição da Psiquiatria no Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1978. MARTINS, A. P V Visões do feminino. A medicina da mulher nos . . séculos XIX e XX. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2004. MASSON, J. M. A dark science. Women, sexuality and psychiatry in the Nineteenth Century. 1. ed. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 1986. MITCHINSON, W Gynecological operations on insane women. . The Journal of Social History, London, Ontário, 1895-1901, Spring, 1982. MOSCUCCI, O. The science of woman: gynecology and gender in England: 1800-1929. 1. ed. London: Cambridge University Press, 1993. RACIBORSKI, A. Traité de la menstruation. 1. ed. Paris: J. B. Baillière et Fils, 1868. ROHDEN, F. Uma ciência da diferença: sexo e gênero na medicina da mulher. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2001. SAID, E. W Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. 1. . ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. SCHIEBINGER, L. Nature’s Body: sexual politics and the making of modern science. 1. ed. London: Pandora, 1994. SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 16, n. 2, p. 5-22, jul/dez. 1990. SHEEHAN, E. Victorian clitoridectomy: Isaac Baker Brown and his harmless operative procedure. Medical Anthropology Newsletter, New York, v. 12, n. 4, p. 9-15, Aug. 1981. SIMPSON, J. Clinique obstétricale et gynécologique. Paris: J. B. Baillière et Fils, 1874.

48 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

SMITH-ROSENBERG, C.; ROSENBERG, C. E. The female animal: medical and biological viewa of woman and her role in Nineteenth-Century America. In: LEAVITT, J. W (Org.). Women and . health in America. 1. ed. Madison: University of Wisconsin Press, 1999. p. 111-130. SHOWALTER, E. The female malady: women, madness, and English Culture, 1830-1980. 1. ed. Nova York: Penguin, 1987. STEPAN, N. L. Raça e gênero: o papel da analogia na ciência. In: HOLLANDA, H. B. (Org.) Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 72-98. TAIT, R. L. Diseases of Women. Birmingham: Cronish Brothers, 1887. TELLES, A. L. Importância dos exames ginecológicos em medicina mental. 1930. Tese (Doutorado) – Faculdade de Medicina da Bahia, Salvador, 1930. WEST, C. Leçons sur les maladies des femmes. Paris: F. Savy, 1870.

Um sistema instável

• 49

Capítulo 2

política assistencial psiquiátrica e o caso da colônia juliano Moreira: exclusão e vida social

(1940-1954)

Ana Teresa Acatauassú Venancio1 Janis Alessandra Cassilia2

A história da Colônia Juliano Moreira (CJM) nos anos 1940 e início da década seguinte, deu-se no contexto da formulação de uma assistência à doença mental, articulada a uma política de saúde voltada para o planejamento e implantação de diretrizes modernizadoras de organização do próprio Estado. Neste período, a partir da criação do Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM), em 1941, observa-se uma expansão quantitativa e qualitativa da assistência ofertada na Colônia, com o incremento de seus métodos de tratamento originais e o uso de novas terapêuticas
1

2

Doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ, pesquisadora do Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz (COC/ Fiocruz) e professora do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (COC/Fiocruz). Graduanda em História pelo IFCS/UFRJ e bolsista de iniciação científica CNPq/Fiocruz na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 51

que produziram, ao mesmo tempo, um quadro de exclusão e de vida social. Nesse sentido este artigo visa apresentar as linhas gerais da articulação entre a assistência psiquiátrica e as políticas de saúde dos anos de 1940, demonstrando como a Colônia neste período foi, paradoxalmente, lugar produtor de isolamento e de relações sociais. Do ponto de vista historiográfico, trata-se de investigar um momento da Psiquiatria brasileira pouco estudado. As pesquisas históricas sobre a Psiquiatria no Brasil têm se detido, principalmente, no período entre a criação do primeiro hospício brasileiro (1852) até meados dos anos 1930.3 A década de 1940 aparece mais citada em outros conjuntos bibliográficos que podem ser caracterizados de dois modos distintos. O primeiro deles pode ser identificado em trabalhos ainda hoje publicados, majoritariamente, em periódicos da área psiquiátrica, de autoria de médicos-psiquiatras interessados na construção da história de sua disciplina (e, portan3

Como exemplo destes trabalhos, desenvolvidos, sobretudo, a partir de 1980, podemos citar: AMARANTE, P. Psiquiatria social e colônia de alienados no Brasil (1830-1920). 1982. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1982; CARRARA, S. Crime e loucura. O aparecimento do manicômio judiciário na passagem do século. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 1998; COSTA, J. F. História da Psiquiatria no Brasil: um corte ideológico. 4. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1989; CUNHA, M. C. P. O espelho do mundo: Juquery, a história de um asilo. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1986; ENGEL, M. G. Os delírios da razão: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2001; ODA, A. M. G. R. A teoria da degenerescência na fundação da Psiquiatria brasileira: contraposição entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira. Psychiatry On-line Brazil. 2001. Disponível em: <http://www.polbr.med.br/arquivo/wal1201.htm>. Acesso em: 14 jun. 2004; PORTOCARRERO, V. Arquivos da loucura: Juliano Moreira e a descontinuidade histórica da Psiquiatria. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2002; WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002.

52 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

to, de sua própria história). Nestes artigos, as referências à década de 40 têm o mérito de registrar a memória de personagens e de seus feitos pontuados pelo registro das datas relevantes. As citações à década de 1940 são traduzidas numa certa cronologia muitas vezes divergentes nos diferentes textos e sem citação das fontes primárias originais de referência. Na maior parte dos casos trata-se de uma história que não prioriza o modo pelo qual esta se processou, deixando de analisar tanto a multiplicidade de elementos que a conformam quanto o contexto, sempre contingente e determinante, em que se deu cada evento, a partir da posição pessoal dos diferentes atores que dela fizeram parte. No entanto, um breve registro cronológico presente nesses trabalhos às vezes nos serve como pista para o estabelecimento de elos interpretativos. Na realização de nossa pesquisa, a única referência encontrada sobre a mudança de nome, em 1935, de Colônia de Psicopatas (Homens) para Colônia Juliano Moreira (CJM) – nos parece indicativo de que, à época, estavam sendo geradas ali algumas das condições de possibilidade e de comprovação de um projeto de fortalecimento e expansão da assistência psiquiátrica no contexto das políticas públicas de saúde da época. A mudança de denominação resulta de um olhar diferenciado que certos atores passaram a ter de seu objeto – no caso a CJM –, explicitando-se aí um alargamento dos significados e práticas passíveis de conformar a instituição. Portanto, a partir de 1935 se tornava plausível pensar o projeto dessa colônia mista em que a construção dos novos núcleos, para mulheres, aparece como uma das expressões do processo de expansão qualitativa e quantitativa da assistência psiquiátrica prestada que se efetivará na década de 1940. Um outro modo pelo qual são citados a década de 1940 e o início dos anos 50 é como parte de um amplo período homogêneo da história da Psiquiatria, que serve de

Política assitencial PsiqUiátrica

• 53

base para a apresentação e afirmação de uma genealogia do movimento de transformação da assistência psiquiátrica brasileira,4 promovido por profissionais do campo. Esses trabalhos, ao tomarem a reforma psiquiátrica desenvolvida a partir de fins dos anos 70 como objeto, resumem os períodos precedentes a ela como expressão do processo de mercantilização da loucura, ao qual a mudança proposta se opõe. Essa razão prática que embasou tais trabalhos trouxe como consequência um olhar muitas vezes anacrônico sobre os diferentes momentos da história da Psiquiatria no contexto brasileiro, considerada em última instância, apenas como a implantação de um modelo de exclusão social a ser superado, destinado à população menos favorecida e reunida sob a rubrica de doentes mentais. Não sem razão, tais trabalhos fundamentaram-se, sobremaneira, no pressuposto de que a Psiquiatria foi seguidamente expressão paradigmática do poder disciplinador de corpos e mentes, embora, muitas vezes, a partir de uma leitura reducionista das contribuições foucaultianas. Mesmo considerando-se inegável o grau de isolamento e de maus-tratos produzido pelas instituições psiquiátricas asilares, cumpre entender que essa história de exclusão foi produzida pari passu a outros processos sociais entrecruzados; pesquisá-los é explorar, em parte, o modo como tais instituições existiram na história. Dentre esses processos sociais destacamos o de constituição e consolidação de uma política assistencial e de uma ciência psiquiátrica que em diferentes períodos esteve articulada às discussões so4

LOUGON, M. Os caminhos da mudança: alienados, alienistas e a desinstitucionalização da assistência psiquiátrica pública. 1987. Dissertação (Mestrado) – Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, rio de Janeiro, 1987; SAMPAIO, J. J. C. Hospital psiquiátrico público no Brasil: a sobrevivência do asilo e outros destinos possíveis. 1988. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1988.

54 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

bre um projeto nacional para o país. Em trabalhos anteriores, já tivemos oportunidade de demonstrar como, nas duas primeiras décadas do século XX, a ciência psiquiátrica no Brasil, liderada pelo psiquiatra baiano Juliano Moreira, relacionou-se ao desenvolvimento de um projeto civilizatório para a jovem República, ancorado, em grande medida, em propostas de saúde pública que tomavam a capital federal ao mesmo tempo como laboratório e modelo.5 Nosso argumento, neste sentido, é de que, durante a década de 1940, as ações assistenciais psiquiátricas também participaram do projeto de construção de uma identidade nacional pautado pelo fortalecimento de um Estado modernizador, o qual incluía as ações relativas à saúde pública. Partindo da constatação de que os resultados dessa assistência geraram um processo social de exclusão de indivíduos e de grupos amplos de pessoas, entendemos que essa política assistencial psiquiátrica foi também produtora do próprio Estado brasileiro e de instituições cujas histórias são marcadas pelas relações sociais que lá se formaram. Observar essas produções nos remete a outras questões que estiveram articuladas a essa realidade de exclusão social: a conformação de um Estado nacional, a realização de um planejamento da União, a construção de uma lógica terapêutica que pudesse operar um imaginário sobre a loucura observada em suas diferentes fases, mas também a vida cotidiana daqueles que moravam na CJM e ali criavam suas famílias. Por meio da consulta a fontes se5

VENANCIO, A. T. A.; CARVALHAL, L. Juliano Moreira: a Psiquiatria científica no processo civilizador brasileiro. In: DUARTE, F. D.; RUSSO, J.; VENANCIO, A. T. A. (Org.). Psicologização no Brasil: atores e autores. 1. ed. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2005. p. 65-83; VENANCIO, A. T. A.; CARVALHAL, L. A classificação psiquiátrica de 1910: ciência e civilização para a sociedade brasileira. In: JACÓ-VILELA, A. M.; CEREZZO, A. C.; RODRIGUES, H. de B. C. (Org.). Clio-Psyché ontem: fazeres e dizeres psi na história do Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Relume/Dumará, 2001. p. 151-160.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 55

cundárias e primárias, como registros médicos, documentos do Ministério da Educação e Saúde, relatórios, legislação e artigos e notícias em periódicos, visamos discutir esses diferentes processos sociais envolvidos na história da Colônia no período referido. Assistência psiquiátrica e políticas públicas de saúde na década de 1940 A assistência psiquiátrica nacional começou a ser reorganizada em 1927, a partir dos serviços existentes no Distrito Federal (vale ressaltar que o Distrito Federal, até década de 60 situava-se no Estado do Rio de Janeiro).6 Para tanto, eram prescritas as situações próprias ao internamento, o atendimento por manicômios judiciários, as condições adequadas aos hospitais, o pessoal necessário para tal fim e o modo de provimento dos cargos, definindo-se como suas unidades o Instituto de Psicopatologia, o Hospital Nacional, o Manicômio Judiciário e as colônias especiais para homens e mulheres, dentre as quais a Colônia de Psicopatas (Homens), futuramente renomea-da CJM.
6

Decretos n° 5.148-A de 10 de janeiro de 1927 e n° 17.805 de 23 de maio de 1927. No documento do Departamento Nacional de Saúde, intitulado Plano Hospitalar Psiquiátrico (s/d), é feita menção ao Serviço de Assistência a Psicopatas do Distrito Federal (SAP-DF), embora a legislação analisada mencione apenas a reorganização da assistência a psicopatas no Distrito Federal, sem citar a existência de um órgão de planejamento e centralização das ações empreendidas e referindo que “ao Governo da União incumbe manter a assistência a psicopatas no Distrito Federal, dependente direta e exclusivamente do Ministro da Justiça e Negócios Interiores” (Decreto nº 5.148 A, 1927, artigo 16). DEPARTAMENTO NACIONAL DE SAÚDE. Plano Hospitalar Psiquiátrico. Sugestões para a Ação Supletiva da União. Localizado no Centro de Pesquisa e Documentação Histórica Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV). Rio de Janeiro. In: Arquivo Gustavo Capanema, série Ministério da Educação e Saúde – Saúde e Serviço Social, GCh 34.08.03 II–14, 22 pp, s/d.

56 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Este quadro manteve-se até 1930, quando o primeiro governo Vargas (1930-45) deu nova configuração às instituições políticas e à estrutura do sistema de saúde pública, no contexto das disputas políticas presentes no cenário nacional: a crise de hegemonia decorrente do processo de industrialização do país, com queda significativa da relevância econômica do setor agroexportador; e a tensão entre os projetos políticos de centralização ou de dispersão do poder para as localidades; em ambos os casos implicados por disputas entre as oligarquias.7 O campo da saúde pública expressava o quadro de negociação política daí decorrente, com a pasta do Ministério da Educação e Saúde Pública (Mesp) – criado em 1930 – sendo ocupada até 1934 por três ministros diferentes (Francisco Campos, Belisário Penna e Washington Pires) até 1934, quando então Gustavo Capanema foi nomeado para o cargo. A criação do Mesp instituiu uma diferenciação entre as ações de saúde promovidas pelo Estado. As ações relacionadas aos trabalhadores, à força de trabalho formal e às entidades corporativas da área previdenciária ficaram sob cuidado do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (MTIC), que priorizava a assistência médica individualizada ao cidadão trabalhador, caracteristicamente urbano. Os pobres, desempregados, trabalhadores informais, aqueles que não podiam contribuir para as caixas e institutos previdenciários passaram a ser objeto das diretrizes do Mesp, correlacionando-se saúde e educação. Desse panorama emergem duas perspectivas para o âmbito das ações de saúde pública:
7

FONSECA, C.; HOCHMAN, G.; TRINDADE, N. L. A saúde na construção do Estado Nacional no Brasil: Reforma Sanitária em Perspectiva Histórica. In: LIMA, N. T. et al. (Org.) Saúde e democracia: história e perspectivas do SUS. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2005. p. 38 et seq.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 57

a associação entre assistência médica previdenciária e trabalhadores urbanos e a ênfase das ações de saúde pública como políticas e modelos de serviços voltados predominantemente para a população rural.8

Esta organização pode ser vista como a consolidação do processo de centralização que advinha da Primeira República, corroborado pela intelectualidade que desprezava os valores localistas das oligarquias, pois eram entendidos como um obstáculo à civilização no país. O Mesp era encarregado dos assuntos relativos ao ensino, saúde pública e assistência hospitalar. Era formado pelo Gabinete do Ministro, Diretoria de Contabilidade e os Departamentos Nacionais de Ensino, de Saúde Pública, de Medicina Experimental e de Assistência Pública. Sob a alçada do Departamento de Saúde Pública ficaram os órgãos que já o integravam, incluindo, dentre suas finalidades, ações de prevenção e combate aos males como a febre amarela, enquanto que o Departamento de Assistência Pública ficava responsável pelos serviços destinados a psicopatas e pela assistência hospitalar. Em 1937, o Departamento Nacional de Saúde, do então Ministério da Educação e Saúde substitui o Departamento Nacional de Saúde Pública, buscando melhorar a fiscalização e a execução das políticas de saúde pública. Por contraste à área da educação, e sob a rubrica mais geral da saúde, todos os órgãos relacionados à saúde passam a integrar o Departamento Nacional de Saúde (DNS), incluindo-se aqueles relativos à assistência a psicopatas. O DNS seria então composto de quatro divisões: Divisão de Saúde Pública, Divisão de Assistência Hospitalar, Divisão de Amparo à Maternidade e à Infância
8

FONSECA; HOCHMAN; TRINDADE, 2005, p. 42.

58 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

e a Divisão de Assistência a Psicopatas. Esta última ficaria encarregada
dos serviços relativos à assistência a psicopatas e à profilaxia mental, de caráter nacional, bem como dos que, de caráter local, sejam executados pela União, competir-lhe-á ainda promover a cooperação da União nos serviços locais, por meio de auxílio e da subvenção federais fiscalizando o emprego dos recursos concedidos.9

O que se observa nesse período, no campo da saúde, é um processo tanto de centralização política quanto de descentralização no que se refere à implantação efetiva dessas políticas, buscando uma interação entre as esferas federal, estadual e municipal de governo. Essas novas ações seguiam as diretrizes de políticas de saúde pública que vinham sendo discutidas internacionalmente em eventos e congressos patrocinados principalmente pelos Estados Unidos. Entre 1930 e 1945, a Organização Pan-Americana de Saúde havia promovido várias reuniões preconizando o modelo de centralização normativa e descentralização executiva,10 criando distritos sanitários que compreendiam grupos de municípios. Através destes distritos é que seria feito o controle das ações de saúde. A intenção era de instituir a fiscalização dos municípios sob responsabilidade dos estados, garantindo hierarquicamente o controle federal sobre todas as instâncias, sem, entretanto, deixar de dialogar com os poderes locais que detinham, dessa forma, alguma relevância no jogo do poder. João de Barros Barreto, primeiro diretor do DNS, que se manteve no cargo até 1956, observava as dificuldades em controlar devidamente as ações de saúde passando a regulamentar as atividades relativas a essa área, por
9 10

Artigo 17° da Lei n° 378 de 13 de janeiro de 1937. FONSECA; HOCHMAN; TRINDADE, 2005, p. 45.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 59

meio de uma intensificação do caráter centralizador do órgão. Em abril de 1941, a reforma do DNS promovida por Barros Barreto foi institucionalizada, segmentando as ações de saúde relativas às doenças determinadas. A realização da I Conferência Nacional de Saúde, de 10 a 15 de novembro de 1941, confirmava as novas diretrizes ao expor como agenda:
(a) a organização sanitária estadual e municipal; (b) ampliação e sistematização das campanhas nacionais contra a lepra e tuberculoses; (c) ações para o desenvolvimento de serviços básicos de saneamento; (d) plano de proteção à maternidade, à infância e à adolescência.11

As ações de saúde do DNS passaram a ser então implantadas por meio dos seguintes órgãos específicos: Serviço Nacional de Lepra, Serviço Nacional de Malária, Serviço Nacional de Peste, Serviço Nacional de Tuberculose e Serviço Nacional de Febre Amarela.12 Nesse contexto foi criado também o Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM),13 o qual reunia a Divisão de Assistência a Psicopatas (DAP) de abrangência nacional e a assistência a psicopatas prestada no Distrito Federal. O DNS ampliava sua ação na área psiquiátrica, até então nitidamente mais centrada na atuação no Distrito Federal. A tarefa de formulação de uma política assistencial psiquiátrica de âmbito nacional saía fortalecida.
11

12 13

FONSECA, C.; HOCHMAN, G. A I Conferência Nacional de Saúde: reformas, políticas e saúde pública em debate no Estado Novo. In: GOMES, A. de C. (Org.). Capanema: o ministro e seu ministério. Rio de Janeiro: Ed. FGV 2000. p. 181. , Decreto-Lei n° 3.171 de 2 de abril de 1941. O SNDM permaneceu ativo até 1970, quando foi substituído pela Divisão Nacional de Saúde Mental (Dinsam), conforme Decreto n° 66.623 de 22/05/1970.

60 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

É expressiva, nesse sentido, a realização, pelo DNS, do inquérito sobre a situação da assistência aos psicopatas no país, do qual decorreria em 1941, a elaboração do Plano Hospitalar Psiquiátrico, intitulado como um conjunto de sugestões para a ação supletiva da União na área psiquiátrica.14 O inquérito, iniciado em 1937, tinha por finalidade obter um diagnóstico da assistência psiquiátrica, resultando na demonstração de sua diversidade nos diferentes estados brasileiros, classificados como: os estados que não prestavam assistência a seus doentes (Sergipe, Goiás e território do Acre); os que ofereciam uma assistência rudimentar, sem tratamento diferenciado e especializado (Mato Grosso, Espírito Santo e Piauí); os que prestavam alguma orientação especial, ainda que a assistência fosse considerada bastante deficiente (Amazonas, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas e Santa Catarina); os que ofereciam assistência especializada, mas ainda reduzida (Paraíba, Pará, Bahia e Rio de Janeiro); os que assistiam seus doentes com base nos métodos psiquiátricos considerados mais modernos e preocupados com a prevenção (Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco, São Paulo e Minas Gerais).15 Com base nesse inquérito, a partir de 1941, o SNDM passaria a gerenciar a expansão da assistência psiquiátrica em todo o território nacional. Em 13 de junho de 1941, Barros Barreto enviou ao ministro Gustavo Capanema os regimentos dos Serviços do DNS, incluindo-se aí o do SNDM, o qual teria como principais objetivos:
superintender os estabelecimentos oficiais de assistência a
14

15

DEPARTAMENTO NACIONAL DE SAÚDE. Plano Hospitalar Psiquiátrico..., op. cit. Este documento em papel timbrado do DNS ao Ministro da Edcuação e Saúde, sem data, foi produzido após 1938 (pois cita legislação deste ano) e antes de 1941 dadas as referências a DAP e ao SAP . DEPARTAMENTO NACIONAL DE SAÚDE. Plano Hospitalar Psiquiátrico..., op. cit., p. 13.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 61

psicopatas no Distrito Federal; [...] planejar, para todo o território nacional, os serviços de assistência e proteção a psicopatas, orientando, coordenando e fiscalizando as respectivas atividades dentro de normas unificadas, relativas também às instalações e ao funcionamento.16

O regimento do SNDM só seria aprovado em 1944, embora desde 1941 já funcionasse sob a direção de Adauto Botelho, que se manteve no cargo até 1954. O Decreto 17.185, de 18 de novembro de 1944, manteve os objetivos centrais citados anteriormente, estabelecendo a organização do SNDM na Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, em órgãos centrais (administrativos) e em órgãos locais de caráter assistencial. Neste caso estavam incluídos o Centro Psiquiátrico Nacional (CPN), a CJM e o Manicômio Judiciário. Implantando as diretrizes para a área da saúde, em 1946,17 o Ministério da Educação e Saúde ficava autorizado a celebrar acordos com os estados visando intensificar a assistência psiquiátrica nas regiões em que os estudos realizados pelo órgão especializado do DNS tivessem revelado deficiências. A intensificação se faria pela construção, instalação e funcionamento de hospitais e serviços psiquiátricos nos estados. Nas propostas contidas no Plano Hospitalar Psiquiátrico a estrutura privilegiada como padrão pela então Divisão de Assistência Psiquiátrica do DNS foi o hospital-colônia; diretriz que a “futura ação – como a que agora se projeta – não se
16

17

CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA CONTEMPORÂNEA DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS (CPDOC/FGV). Regimento do Serviço Nacional de Doenças Mentais. 9 p. Rio de Janeiro. In: Arquivo Gustavo Capanema, série Ministério da Educação e Saúde – Saúde e Serviço Social, GCh 34.08.03 III – 1.Este documento é precedido de carta do diretor do DNS, Barros Barreto, ao Ministro Gustavo Capanema encaminhando os regimentos dos orgãos que integravam o DNS. Decreto 8.550 de 03 de janeiro de 1946.

62 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

vê na contingência de abandonar o que até aqui foi realizado”.18 O formato do hospital-colônia expandia-se nos moldes de um complexo hospital. Ocupava área física considerável e, portanto, nos casos por nós conhecidos, afastado dos núcleos mais urbanizados dos estados, formado por pavilhões e por outras estruturas assistenciais que passavam a incluir o tratamento com modernas técnicas biológicas – como as psicocirurgias – associadas à praxiterapia voltada para o trabalho agrícola e ao isolamento. Desse panorama, cumpre ainda destacar as categorias classificatórias que informavam a separação das populações internadas em tuberculosos, crônicos, homens, alcoolistas, sub-agudos, ressaltando-se, em vários casos, pavilhões específicos para mulheres e crianças. Durante a gestão de Adauto Botelho (1941-1954) no SNDM a instituição padrão hospital-colônia foi largamente implantada em diferentes estados brasileiros. Dentre os 20 estados (incluindo-se o Distrito Federal) 14 deles são citados como contemplados com a construção ou ampliação de hospital-colônia ou colônia. Para os seis estados restantes (Amazonas, Pará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia e Paraná) é mencionada a construção de hospitais ou de pavilhões no interior destes.19 De um modo geral, portanto, as ações político-assistenciais iniciadas na década de 1940 para a área psiquiátrica foram organizadas no contexto de um processo de modernização, centralização e nacionalização da assistência mais ampla em saúde. Nesse contexto, o tipo padrão proposto e executado foi o de grandes estruturas hospitalares: sob a alcunha de hospital-colônia essas estruturas buscavam
18

19

DEPARTAMENTO NACIONAL DE SAÚDE. Plano Hospitalar Psiquiátrico..., op. cit., p. 14. BRASIL. Ministério da Saúde. DNS. SNDM. Noticiário. Realizações do Serviço Nacional de doenças Mentais. Arquivos do Serviço Nacional de Doenças Mentais, Rio de Janeiro, v. 4, n. 4, p. 287-288, 1955.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 63

ao mesmo tempo modernizar a assistência e reproduzir o modelo institucional centrado na praxiterapia e na assistência hetero-familiar, já planejado no Brasil desde os anos de 1910 e implantado a partir dos anos 20. Histórias da Colônia Juliano Moreira Instalada na área de um dos mais antigos engenhos de cana de açúcar de Jacarepaguá, a Colônia foi inaugurada em 1924, mas já em 1912 o Governo do Marechal Hermes da Fonseca desapropriara o Engenho Novo,20 seguindo as recomendações do dr. João Augusto Rodrigues Caldas, de se buscar um novo espaço para as atividades das colônias de alienados situadas na Ilha do Governador – Colônia Conde de Mesquita e Colônia S. Bento – já consideradas em condições inadequadas. A partir da liberação das terras para a União em 1918, tem início o processo de construção da então Colônia de Psicopatas (Homens).21 Documentos relativos aos primeiros anos de funcionamento da CJM22 demonstram os investimentos necessários e solicitados ao Ministério de Justiça e Negócios Interiores para a implantação da Colônia em Jacarepaguá e para o trabalho de aparelhamento da mesma, que iam desde aquisição de material elétrico e telefônico, conservação de carros de bois, caminhões, adubos e sementes, até a necessidade de drogas, reativos e material de pesquisas para laboratório. Quando de sua inaugu20 21

22

Decreto nº 9.743 de 31 de agosto de 1912. ALMEIDA, A. G. de. Colônia Juliano Moreira: sua origem e um pouco de sua trajetória histórica (1890-1946). Revista Brasileira de Saúde Mental, Rio de Janeiro, ano 13, v. 11, p. 162-163, 1967. CALDAS, J. A. R. Relatório de 1924. Colônia de Alienados em Jacarepaguá, 30 de março de 1924. Cadernos do NUPSO, Rio de Janeiro, ano 1, n. 1, maio 1988; CALDAS, J. A. R. Proposta orçamentária para 1926. Colônia de Alienados em Jacarepaguá, 12 de fevereiro de 1926. Cadernos do NUPSO, Rio de Janeiro, ano 1, n. 2, nov. 1988.

64 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

ração, a Colônia já possuía redes de luz, água e esgoto, 15 pavilhões construídos, além de lavanderia, refeitório, cozinha, casas para empregados, farmácia, laboratórios, necrotério e enfermaria. A nova instituição estava apoiada em dois alicerces básicos: a praxiterapia e a assistência hetero-familiar. A praxiterapia para o universo masculino que formava a instituição seria montada por meio de atividades voltadas, principalmente, para a lavoura. O tratamento hetero-familiar, por sua vez, fundamentava-se na proposta, de 1910, de Juliano Moreira, relativa à construção de uma colônia de alienados em Jacarepaguá que previsse o contato sistemático dos doentes com pessoas normais e sadias, com a instalação de funcionários que ajudassem a inserção dos pacientes numa vida social mínima, e propiciassem um convívio doméstico:
anexo ao hospital-colônia, em seus limites, deve o governo construir casinhas hygiênicas para alugar as famílias dos empregados que poderão receber pacientes susceptíveis de serem tratados em domicílio. Far-se-há assim assistência familiar. Se nas redondezas da colônia houver gente idônea a quem confiar alguns doentes, poder-se-há ir estendendo essa assistência hetero-familiar e até tentar a homo familiar.23

Preconizado, originalmente, pela Psiquiatria europeia no século XIX, esse modelo inspirava-se na experiência vivida pela aldeia de Geel, na Bélgica, que desde o século XVII recebia romarias de alienados. Esta afluência de doentes para a pequena aldeia acabou fazendo com que muitos camponeses, mediante pagamento, recebessem em suas casas os
23

MOREIRA, J. Quaes os melhores meios de assistência aos alienados. Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal, Rio de Janeiro, v. 6, n. 3/4, p. 19, 1910.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 65

alienados e seus parentes, na época das festas religiosas, ou passassem a cuidar dos doentes que ali eram deixados pelas famílias até o ano seguinte.24 Essas diretrizes centrais – a praxiterapia e o tratamento hetero-familiar – estariam presentes também nas ações terapêuticas levadas a efeito na CJM durante a década de 1940. A proposta de regimento do SNDM apresentada em 1941, reproduzida no artigo 37 do Decreto de 1944, destacava a CJM como instituição destinada àqueles que pudessem se beneficiar da praxiterapia, havendo menção explícita à oferta de assistência hetero-familiar e confirmação da construção de casas para tal fim iniciada nos anos de 194125 e 1945.26 Mantinha-se a ideia de que o tipo hospital-colônia expressava um dos mais modernos e humanizados tratamentos psiquiátricos, pois o contato com uma vida bucólica, com uma vila residencial e as oficinas da praxiterapia ajudaria muito mais à recuperação do doente crônico do que o sistema asilar, que vinha sendo caracterizado pela superlotação, a exemplo do hospício da Praia Vermelha. A vocação original da instituição para o atendimento aos crônicos era destacada em 1935 quando da destinação de crédito para a construção de novos pavilhões na referida Colônia, para onde seriam transferidos os doentes deste tipo advindos da Praia Vermelha. No entanto, em julho de 1942, o então Ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema expedia um aviso ministerial,27 prescrevendo
24 25

26

27

AMARANTE, 1982, p. 52. SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS. Relatório do Serviço Nacional de Doenças Mentais de 1941. Arquivos do Serviço Nacional de Doenças Mentais, Rio de Janeiro, p. 129, 1943. SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS. Relatório do Serviço Nacional de Doenças Mentais de 1945. Arquivos do Serviço Nacional de Doenças Mentais, Rio de Janeiro, p. 33, 1949b. AVISO MINISTERIAL nº 367, 16 de julho de 1942. Diário Oficial (Secção l), Segunda-feira, 20 de Julho de 1942. Ano LXXXI, nº 167,

66 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

que a Colônia deveria receber não só os pacientes do antigo hospício, em processo gradativo de extinção, mas todos os que fossem remetidos pela polícia, inclusive os agudos. Dois anos mais tarde, em maio de 1944,28 ficava a Colônia Juliano Moreira desobrigada de receber doentes agudos, fato que seria confirmado pelo Decreto de novembro de 1944 que aprovava o regimento do SNDM. Naquele momento, processava-se uma reorganização das instituições psiquiátricas existentes no Distrito Federal, com a criação em 1944 do Centro Psiquiátrico Nacional (CPN), no Engenho de Dentro, que tinha como uma de suas unidades o Hospital Pedro II (anteriormente denominado Hospital Psiquiátrico), que também deveria acolher os pacientes antes existentes no antigo hospício da Praia Vermelha. Nessa nova organização, estabelecia-se uma divisão entre doentes agudos e crônicos a serem tratados, respectivamente, pelo Hospital Pedro II e pela CJM. No entanto, as opiniões da Colônia e do Hospital Pedro II sobre a execução desta partilha não seriam unívocas; tal execução foi considerada responsável por consequências indesejáveis nas duas instituições. O relatório de 1945, que expõe a situação do Hospital Pedro II referente ao ano de 1944, informa que o referido hospital, a partir de março de 1944, deveria acolher em suas instalações no Engenho de Dentro os pacientes advindos da Praia Vermelha. Apesar de superlotado, também estaria recebendo doentes agudos remetidos pela polícia, antes internados na Colônia, e mesmo pacientes crônicos, ainda que transferisse para a CJM apenas estes últimos.

28

p. 11.396. Biblioteca do Ministério da Fazenda, Rio de Janeiro apud SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS, 1949b, p. 119. OFÍCIO n. 00322 de 24 de maio de 1944 apud SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS, 1949b, p. 128.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 67

A quase totalidade de enfermos transferidos para Colônia Juliano Moreira é constituída de casos crônicos; apenas um pequeno número de pacientes com perturbações mentais agudas tiveram que se transferidos para lá por motivo de tuberculose, de estado adiantado de gravidez e de afecções cirúrgicas que exigiam cuidados urgentes. A grande massa de enfermos crônicos que é internada no Hospital Pedro II, para onde não deveriam ir, de enfermos que tem que ser examinados e. não raro, medicados antes de serem transferidos para a Colônia Juliano Moreira, rouba aos médicos do estabelecimento o precioso tempo que deveriam dedicar a observação e ao tratamento dos psicopatas com perturbações mentais agudas.29

Contrariando tais informações, a Colônia informava que continuava a receber pacientes agudos, provenientes da polícia ou do próprio CPN,30 como confirma a consulta às fichas de observações do pacientes para lá enviados após 1944. O discurso da direção da Colônia refletia um desejo de retorno à finalidade inicial da instituição de cuidar apenas dos doentes crônicos, o qual também era manifesto em ofícios e notas dirigidos a instâncias jurídicas que para lá encaminhavam pacientes. Segundo essa direção, a instituição estava destinada a “recolher doentes tranquilos-crônicos e curáveis a longo prazo – que se beneficiassem com o regime de liberdade semi-vigiada, gozando as vantagens da vida campestre, ao ar livre”.31 Entretanto, há muito esta
29

30

31

SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS. Situação anterior. Relatório do Hospital Pedro II de 1945. Arquivos do Serviço Nacional de Doenças Mentais, Rio de Janeiro, p. 100-101, 1949c. SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS. II – Colônia Juliano Moreira. Relatório do Serviço Nacional de Doenças Mentais de 1945. Arquivos do Serviço Nacional de Doenças Mentais, Rio de Janeiro, p. 19, 1949a. OFÍCIOS de 1948 entre o diretor da CJM Heitor Peres e o Juiz das Execuções Criminais. “A Colônia Juliano Moreira não pode nem deve

68 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

instituição já se encontraria com lotação inadequada, permanecendo sem estrutura assistencial-terapêutica e quadro de funcionários para atender tal demanda. A CJM já não seria mais apenas uma colônia voltada para a recuperação de crônicos, mas também uma instituição para os chamados agudos e mesmo para os criminosos. Esse debate se articulava também à discussão sobre os tipos de internação realizados pela CJM. O tipo serviço fechado fazia referência, principalmente, às transferências de pacientes de outras unidades do SNDM ou da polícia, que incharam quantitativamente a instituição e, muitas vezes, enviavam para lá muitos pacientes agudos. O tipo serviço aberto, por sua vez, definia a internação de um indivíduo que não tivesse passado por outras instituições, podendo ser internado pela própria família ou por autorização do diretor da Colônia. As opiniões sobre a importância do serviço aberto não foram uníssonas durante este período. Em relatório do SNDM sobre o ano de 1941,32 o diretor da Colônia, Carlos Matoso Sampaio Corrêa, avaliava o serviço aberto como benéfico, entendendo que os pacientes internados por essa via eram os que mais se reajustavam socialmente. Já em 1948,33 o diretor Heitor Péres, afirmou que este serviço teria contribuído em larga medida para uma superlotação da instituição, fato que procurava sanar desde o início de sua gestão em 1946. O modelo hospital-colônia previa também grandes áreas que serviriam para abrigar mais adequadamente um número significativo de doentes, como acontecia com a
ser considerada como ‘Casa de Custódia e Tratamento’”. Memorial enviado pelo Diretor da C.J.M. ao Juiz das Execuções Criminais. Boletim da Colônia Juliano Moreira, Rio de Janeiro, v. 3, n. 2, set./out. 1948. SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS, 1943, p. 50. MEMORIAL enviado pelo Diretor da C.J.M. ao Juiz das Execuções Criminais. Boletim da Colônia Juliano Moreira, Rio de Janeiro, v. 3, n. 2, p. 12-17, set./out. 1948.

32 33

Política assitencial PsiqUiátrica

• 69

Colônia a partir da década de 1940. Ampliada em sua estrutura assistencial e física, essa instituição receberia um quantitativo cada vez maior de pacientes, já previsto no regimento do SNDM de 1941: “a CJM terá seus doentes distribuídos em um bloco médico cirúrgico e quatro núcleos coloniais, cada um destes com um mínimo de 600 (seiscentos) leitos”.34 As fichas de observações produzidas quando da entrada dos internos35 demonstram também que foi durante a década de 1940 que houve maior afluxo de novos doentes para tratamento na Colônia. Em nossa pesquisa pudemos contabilizar 122 fichas de pacientes masculinos na década de 1920, 1.602 fichas de pacientes homens na década de 1930, enquanto que na década de 1940 este número subiu para 2.805, decaindo na década seguinte para 1.054. Segundo nosso levantamento, a entrada de pacientes mulheres na instituição também demonstrou ser maior na década de 1940 se comparada às décadas anterior ou posterior. Nesse projeto para abrigar os diversos pacientes enviados para a CJM, a seção de obras do SNDM ficou encarregada da construção de novos pavilhões, inaugurados com a presença de várias autoridades.

34

35

Artigo 10º, Parágrafo 1º, Regimento do Serviço Nacional de Doenças Mentais. 9 p. Arquivo Gustavo Capanema, série Ministério da Educação e Saúde – Saúde e Serviço Social, GCh 34.08.03 III–1. Rio de Janeiro: CPDOC/FGV 1941. Destaque nosso. , As fichas de observações contabilizadas encontram-se no acervo da CJM existente no Núcleo de Documentação e Pesquisa do atual Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira (IMAS-JM) da Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura do Rio de Janeiro.

70 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Figura 1 – “Visitando a CJM, o presidente Getúlio Vargas com um enfermo ali internado”.36

36

Anais da Assistência a Psicopatas, 1941.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 71

Figura 2 – O presidente Getúlio Vargas e o Ministro Gustavo Capanema percorrem as novas enfermarias da CJM, acompanhados pelo dr. Waldemiro Pires, diretor da Divisão de Assistência a Psicopatas.37

Observa-se ao longo da década de 1940 e início dos anos 50, a solicitação de construção de diversas unidades, muitas delas realizadas: o bloco médico-cirúrgico Álvaro Ramos, Pavilhão de Tisiologia para Tuberculosos, Clínica Psico-cirúrgica Egaz Muniz, dois pavilhões para adolescentes de ambos os sexos, dois pavilhões de admissões e reformatório para alcoolistas, residências para o tratamento hetero-familiar e para o diretor, pavilhão da administração, forno de incineração, novo necrotério, Núcleo Teixeira Brandão (para mulheres), centro desportivo, entre outras. Em 195138 a Colônia abrigava cerca de 3.800 enfermos
37 38

Anais da Assistência a Psicopatas, 1941. As informações a seguir foram coletadas de Informe Publicitário de março de 1951, intitulado “Algo sobre a Colônia Juliano Moreira”, encontrado dentro do exemplar de Boletim da Colônia Juliano Moreira: COLÔNIA JULIANO MOREIRA. Algo sobre a Colônia Juliano Moreira: informe publicitário. Boletim da Colônia Juliano Moreira, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1,

72 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

de ambos os sexos e tinha como principais unidades hospitalares 4 clínicas psiquiátricas (dois nos núcleos masculinos Ulysses Viana e Rodrigues Caldas e dois nos núcleos femininos Teixeira Brandão e Franco da Rocha), bloco médico cirúrgico (de clínicas especializadas), dois pavilhões de tisiologia (feminino e masculino), a pupileira e o ambulatório de higiene mental, situado fora da área física da Colônia, com endereço na então Avenida Taquara. O ambulatório de higiene mental da CJM tinha como objetivo o diagnóstico do paciente agudo e encarregava-se da triagem dos pacientes que entravam na Colônia. Localizado fora dos terrenos da instituição, o ambulatório certamente produzia uma maior proximidade da assistência psiquiátrica com os moradores das áreas vizinhas. No que se refere aos recursos terapêuticos utilizados ao longo da década de 1940, a Colônia mantinha como método básico a praxiterapia, empregando também a convulsoterapia (elétrica e química), o choque insulínico, o eletronarcose e a psicocirurgia. As atividades do trabalho terapêutico eram, principalmente, lavoura (cereais e hortaliças), pecuária e pequenas indústrias, destacando-se entre estas as de artefatos de vime e de colchões, com cerca de 1.600 doentes, “classificados em trabalho”.39 Segundo o próprio diretor da Colônia à época, Heitor Peres,
os esportes, os exercícios coletivos, as recreações modernas como o rádio e o cinema, a música desenvolvida que se faz dentro da terapêutica ocupacional, a musicoterapia ou meloterapia, o teatro, são ainda de grandes possibilidades humanizadoras, a leitura, bem dirigida e bem dosada, a biblioterapia etc.40
mar. 1951. Biblioteca Nacional, Seção de Periódicos. COLÔNIA JULIANO MOREIRA, 1951. PÉRES, H. Praxiterapia integral. Boletim da Colônia Juliano Moreira, Rio de Janeiro, v. 3, n. 8/9, p. 6, mar./abr. 1949.

39 40

Política assitencial PsiqUiátrica

• 73

Paralelamente ao trabalho, a praxiterapia era então realizada por meio de atividades voltadas para o cinema, os esportes (futebol, basquete, voleibol, peteca etc.), a rádio (rede de autofalantes em toda a Colônia) e as artes aplicadas, inclusive a pintura, com a exposição em 1950 de trabalhos de pacientes resultantes dessa atividade. Já em 1951, o Boletim da Colônia Juliano Moreira noticiava a “Instalação Definitiva do Sistema de Amplificação Sonora e Autofalantes da CJM”, afirmando que a rádio servia como meio de fixação temporal e espacial dos pacientes, não os deixando desambientados de seu tempo. Inicialmente previsto para funcionar apenas em um pavilhão, o serviço de rádio se estendia por toda a área da instituição, sendo considerado como benéfico tanto para os doentes quanto para os servidores e suas famílias. Como já mencionado, além da população hospitalar, vivia na Colônia considerável número de funcionários do estabelecimento cujas famílias serviam à normalização do convívio dos doentes, dando ao ambiente a vida de uma verdadeira cidade. A própria instituição tinha um papel central neste desenvolvimento. As reivindicações para construção de novas casas para o tratamento hetero-familiar, de melhoria das estradas internas da Colônia e do transporte para seu acesso, que aparecem no relatório do SNDM de 1945, refletem os anseios para a comunidade que se desenvolvia. Soma-se a isso a criação pela Colônia de órgãos auxiliares destinados à assistência à sua população normal: a Escola Primária Municipal e o posto de puericultura Maria Solange Pinto destinados aos filhos dos servidores, a Cooperativa de Consumo, o Curso de Educação de Adultos e o Clube Atlético da CJM. Desde 1946, a instituição criara também A Pequena Ação Social, entidade não governamental, subvencionada pela prefeitura do Distrito Federal e reconhecida como órgão de utilidade pública

74 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

a partir da proposta de projeto de autoria do vereador Álvaro Dias, apresentada na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Sob os auspícios da direção da Colônia, a Pequena Ação Social tinha por objetivos,
velar pelo bem-estar dos doentes internados na Colônia Juliano Moreira; elaborar com a direção da Colônia o amparo e assistência aos referidos enfermos, seus filhos e suas famílias; pugnar pela recuperação social e proteção ao egresso da Colônia; associar-se a todos os movimentos oficiais ou particulares, que visem à reabilitação do psicopata, em geral; cooperar no auxílio médico-social aos servidores Colônia Juliano Moreira e suas famílias.41

A nova entidade era composta em sua maioria por mulheres, muitas delas esposas dos médicos e psiquiatras da instituição, reforçando a importância e valorização das relações familiares na sociabilidade que conformava a história da Colônia: as famílias dos servidores para a assistência hetero-familiar e as dos próprios médicos para ajudar na reinserção social do doente e na assistência aos funcionários e seus familiares. A vida da instituição expressava assim não apenas uma política assistencial psiquiátrica, mas também a produção de toda uma rede de relações sociais, ancoradas na família e na Igreja.

41

COLÔNIA JULIANO MOREIRA. Boletim da Colônia Juliano Moreira, Rio de Janeiro, v. 9, p. 2, 1954.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 75

Figura 3 – Vida Religiosa – Aspecto da procissão de N.S. dos Remédios na Colônia, uma das várias cerimônias deste tipo, que se realizaram em 1954, em que compareceram as famílias dos servidores-residentes, habitantes das proximidades e os nossos hóspedes como se pode ver na foto.42

No que se refere à família, cumpre ainda destacar as ações voltadas para os filhos dos funcionários da instituição, como o Parque Infantil, inaugurado em 23 de dezembro de 1954.
Sob uma tarde maravilhosa de verão, um magnífico espetáculo vermos cerca de 1.000 crianças brincando álacres e felizes, dando vida e alegria ao Parque. Com isso a colônia devolve aos servidores – na felicidade de seus filhos – um pouco do muito que eles dão à instituição e aos seus hóspedes.43

42 43

COLÔNIA JULIANO MOREIRA, jan./jun. 1954. COLÔNIA JULIANO MOREIRA, jan./jun. 1954, p. 86.

76 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Conforme é relatado no Boletim da Colônia Juliano Moreira, o Parque Infantil ficava situado junto ao Posto de Puericultura e consistia numa praça com aparelhos especializados (gangorras, voadores, balanços, deslizadores etc) cuja recreação era orientada por uma funcionária “para tal designada, pois as finalidades do mesmo são recreativas-educacionais, dentro das modernas técnicas dos playgrounds”.44 A Igreja, por sua vez, incrementava os espaços coletivos com a realização de cerimônias religiosas relatadas no Boletim da Colônia Juliano Moreira de 1954 pelo novo capelão: a novena da Imaculada Conceição, a primeira comunhão dos alunos da Escola “Juliano Moreira”, assim como de alguns “hóspedes”,45 as festas de Natal e Ano-Novo, a celebração de missas no bloco médico-cirúrgico, nos pavilhões de tisiologia masculino e feminino em um dos núcleos e, regularmente aos domingos, na igreja Nossa Senhora dos Remédios. Esse retrato da instituição no início da década de 1950 nos informa, portanto, que a implantação da Colônia voltada para a assistência hetero-familiar produzia, juntamente com as ações assistenciais propriamente ditas, toda uma vida social na instituição que incluía outros atores sociais, além dos pacientes e funcionários, os quais era também população alvo dos objetivos da instituição. Considerações finais A assistência psiquiátrica prestada na Colônia Juliano Moreira no período em questão corrobora análises já feitas

44 45

COLÔNIA JULIANO MOREIRA, jan./jun. 1954, p. 86. Termo utilizado pelo capelão para designar os pacientes internados na CJM e também presente notícia sobre a inauguração do parque infantil, mencionada a seguir.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 77

sobre a prática de internamento nos asilos e manicômios,46 o abandono e a despersonalização a que os internos são submetidos e a consequente perda dos vínculos sociais.47 No caso da CJM, entretanto, a percepção que podemos ter desse processo de internamento e isolamento dos pacientes, caminhou pari passu a dois outros movimentos que engendraram a instituição em questão. O primeiro movimento foi o de constituição de uma política assistencial psiquiátrica empenhada no planejamento e implantação de diretrizes modernizadoras de organização do próprio Estado. Vale acrescentar que esta política visava constranger o afluxo de pacientes de outros estados para os grandes centros urbanos da região sudeste, em particular o Distrito Federal, o qual historicamente por muito tempo, acolheu os então alienados de diferentes regiões do país. O que estava em jogo era a possibilidade de gestão de um acordo entre as unidades da federação, tendo-se em vista a implantação de uma política pública em âmbito nacional e que considerasse as especificidades assistenciais regionais. No planejamento dessa política para a área psiquiátrica, colocava-se a diferenciação entre o que, ao menos a partir de então, seria considerado como distintivo para a execução da assistência a ser prestada: de um lado os pacientes crônicos e de outro os chamados agudos. Na justificativa para as ações terapêuticas a serem implantadas nas novas instituições e na ampliação daquelas como a Colônia, encontramos menção as mais modernas técnicas de tratamento: sejam as mais científicas, ancoradas numa visão orgânica do paciente e balizada por estudos e análise de casos clínicos (como os diferentes tipos de tra46

47

FOUCAULT, M. História da loucura na idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 1978; CUNHA, 1986. GOFFMAN, E. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 1974.

78 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

tamento por choque); sejam as de cunho mais socializante, como a praxiterapia, então caracterizadas como o cinema, a rádio (sistema de alto-falantes), entre outras. Nesse sentido, ao mesmo tempo em que a implantação das novas políticas assistenciais psiquiátricas na Colônia implicou de fato, em isolamento, acabou por desenvolver também uma vida social envolvendo pacientes, moradores, funcionários e suas famílias. Este segundo movimento foi engendrado pelos tratamentos mais socializantes que, independente do êxito dos mesmos, acabaram por produzir um ambiente que em certa medida diluía os sentidos de isolamento e internamento próprios dos lugares asilares. Constituía-se uma vida social em que os doentes eram chamados de hóspedes, em que o lugar de cura dos enfermos e de trabalho para os profissionais passava a ser também locus de moradia dos funcionários, e onde diversos equipamentos sociais – o clube, o cinema, o rádio por autofalantes, a igreja, o parque infantil, a escola – eram providenciados e mantidos pela instituição. A CJM passa assim a ter uma outra função social que não apenas a do tratamento e da exclusão social decorrente do internamento prolongado dos pacientes e do afastamento geográfico do centro urbano; ela passa, paradoxalmente, a reproduzir um núcleo urbano, tomando como população alvo dessa empreitada as pessoas consideradas comuns e sadias.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 79

referências

ALMEIDA, A. G. de. Colônia Juliano Moreira: sua origem e um pouco de sua trajetória histórica (1890-1946). Revista Brasileira de Saúde Mental, Rio de Janeiro, ano 13, v. 11, p.162-163, 1967. AMARANTE, P Psiquiatria social e colônia de alienados no Brasil . (1830-1920). 1982. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1982. BRASIL. Ministério da Saúde. DNS. SNDM. Noticiário. Realizações do Serviço Nacional de doenças Mentais. Arquivos do Serviço Nacional de Doenças Mentais, Rio de Janeiro, v. 4, n. 4, p. 287-288, 1955. CALDAS, J. A. R. Proposta orçamentária para 1926. Colônia de Alienados em Jacarepaguá, 12 de fevereiro de 1926. Cadernos do NUPSO, Rio de Janeiro, ano 1, n. 2, nov. 1988. CALDAS, J. A. R. Relatório de 1924. Colônia de Alienados em Jacarepaguá, 30 de março de 1924. Cadernos do NUPSO, Rio de Janeiro, ano 1, n. 1, maio 1988. CARRARA, S. Crime e loucura. O aparecimento do manicômio judiciário na passagem do século. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 1998. COLÔNIA JULIANO MOREIRA. Algo sobre a Colônia Juliano Moreira: informe publicitário. Boletim da Colônia Juliano Moreira, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, mar. 1951. Biblioteca Nacional, Seção de Periódicos. COSTA, J. F. História da Psiquiatria no Brasil: um corte ideológico. 4. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1989. CUNHA, M. C. P O espelho do mundo: Juquery, a história de um . asilo. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1986.

80 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

ENGEL, M. G. Os delírios da razão: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2001. FONSECA, C.; HOCHMAN, G. A I Conferência Nacional de Saúde: reformas, políticas e saúde pública em debate no Estado Novo. In: GOMES, A. de C. (Org.). Capanema: o ministro e seu ministério. Rio de Janeiro: Ed. FGV 2000. p. 173-193. , FONSECA, C.; HOCHMAN, G.; TRINDADE, N. L. A saúde na construção do Estado Nacional no Brasil: Reforma Sanitária em Perspectiva Histórica. In: LIMA, N. T. et al. (Org.). Saúde e democracia: história e perspectivas do SUS. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2005. p. 27-58. FOUCAULT, M. História da loucura na idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 1978. GOFFMAN, E. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 1974. LOUGON, M. Os caminhos da mudança: alienados, alienistas e a desinstitucionalização da assistência psiquiátrica pública. 1987. Dissertação (Mestrado) – Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1987. MEMORIAL enviado pelo Diretor da C.J.M. ao Juiz das Execuções Criminais. Boletim da Colônia Juliano Moreira, Rio de Janeiro, v. 3, n. 2, p. 12-17, set./out. 1948. MOREIRA, J. Quaes os melhores meios de assistência aos alienados. Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal, Rio de Janeiro, v. 6, n. 3/4, p. 19, 1910. ODA, A. M. G. R. A teoria da degenerescência na fundação da Psiquiatria brasileira: contraposição entre Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira. Psychiatry On-line Brazil. 2001. Disponível em: <http://www.polbr.med.br/arquivo/wal1201.htm>. Acesso em: 14 jun. 2004.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 81

OFÍCIOS de 1948 entre o diretor da CJM Heitor Peres e o Juiz das Execuções Criminais. “A Colônia Juliano Moreira não pode nem deve ser considerada como ‘Casa de Custódia e Tratamento’”. Memorial enviado pelo Diretor da C.J.M. ao Juiz das Execuções Criminais. Boletim da Colônia Juliano Moreira, Rio de Janeiro, v. 3, n. 2, set./out. 1948. PÉRES, H. Praxiterapia integral. Boletim da Colônia Juliano Moreira, Rio de Janeiro, v. 3, n. 8/9, p. 6, mar./abr. 1949. PORTOCARRERO, V Arquivos da loucura: Juliano Moreira e a . descontinuidade histórica da Psiquiatria. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2002. SAMPAIO, J. J. C. Hospital psiquiátrico público no Brasil: a sobrevivência do asilo e outros destinos possíveis. 1988. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1988. SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS. Relatório do Serviço Nacional de Doenças Mentais de 1941. Arquivos do Serviço Nacional de Doenças Mentais, Rio de Janeiro, p. 129, 1943. SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS. II – Colônia Juliano Moreira. Relatório do Serviço Nacional de Doenças Mentais de 1945. Arquivos do Serviço Nacional de Doenças Mentais, Rio de Janeiro, p. 19, 1949a. SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS. Relatório do Serviço Nacional de Doenças Mentais de 1945. Arquivos do Serviço Nacional de Doenças Mentais, Rio de Janeiro, p. 33, 1949b. SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS. Situação anterior. Relatório do Hospital Pedro II de 1945. Arquivos do Serviço Nacional de Doenças Mentais, Rio de Janeiro, p. 100-101, 1949c. VENANCIO, A. T. A.; CARVALHAL, L. A classificação psiquiátrica de 1910: ciência e civilização para a sociedade brasileira. In: JACÓ-VILELA, A. M.; CEREZZO, A. C.; RODRIGUES, H. de B. C. (Org.). Clio-Psyché ontem: fazeres e dizeres psi na história do Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Relume/Dumará, 2001. p. 151-160.

82 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

VENANCIO, A. T. A.; CARVALHAL, L. Juliano Moreira: a Psiquiatria científica no processo civilizador brasileiro. In: DUARTE, F. D.; RUSSO, J.; VENANCIO, A. T. A. (Org.). Psicologização no Brasil: atores e autores. 1. ed. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2005. p. 65-83. WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002.

Política assitencial PsiqUiátrica

• 83

Capítulo 3

MisticisMo e doença Mental eM xavier de oliveira

Artur Cesar Isaia1

Na primeira metade do século XX uma tendência bastante clara passou a caracterizar a atuação dos médicos psiquiatras brasileiros: ao mesmo tempo em que aprofundavam a tendência à medicalização da loucura, passaram a arvorar-se legítimos intérpretes da realidade social. Por um lado os psiquiatras aprofundaram uma produção científica com explícitas interfaces com as ciências sociais, por outro, passaram a credenciar a Psiquiatria como disciplina capaz de uma intervenção preventiva na sociedade, auxiliando o estado no afã de construir uma sociedade sã e um homem apto ao trabalho e à cidadania. Essa valorização do médico psiquiatra fazia-se, ao mesmo tempo, com tensões e acomodações. Tensões frente a outros profissionais como os juristas, que conflitavam nesses propósitos e acomodações com os mesmos, acordando todos na necessi1

Professor associado, Universidade Federal de Santa Catarina, Departamento de História, Programa de Pós-Graduação em História.

misticismo e doença mental

• 85

dade de extirpar a anormalidade e instaurar a tão almejada norma no meio urbano. Engel2 mostra como médicos e juristas, ao mesmo tempo em que disputavam a prioridade da disciplinarização da sociedade, partiam para alianças estratégicas, quando o mais importante era livrar o espaço urbano de indivíduos indesejáveis, internando o considerado delinquente no hospício e não na prisão. Entre os médicos brasileiros que desenvolveram uma obra reveladora de um olhar interventor e com interfaces com as ciências sociais sobre os dramas urbanos e rurais brasileiros, salienta-se o nome de Antônio Xavier de Oliveira.3 Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, esse cearense de Juazeiro preocupou-se com as manifestações do que detectava como misticismo. Sua percepção do que nomeia como fenômenos místicos está relacionada, tanto com a formação médica por ele recebida, quanto com sua condição de católico e com os preconceitos sociais que impregnavam o discurso médico-psiquiátrico brasileiro da época. Os místicos urbanos e rurais aparecem em sua obra como evidências de um Brasil ainda não civilizado, de um país que necessitava da intervenção da ciência médica a fim de libertar-se do atraso, da superstição e de toda a sorte de patologias físicas e mentais. A periculosidade dos místicos O olhar de Xavier de Oliveira sobre os fenômenos místicos não pode ser analisado desconhecendo-se a formação por ele recebida na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. No primeiro quartel do século XX a influência do
2

3

ENGEL, M. G. Os delírios da razão. Médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). 1. ed. Rio de Janeiro: Editora da Fiocruz, 2001. p. 98. Até o presente momento não possuímos informações mais detalhadas sobre a biografia de Xavier de Oliveira.

86 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

baiano Juliano Moreira se fez sentir na formação de toda uma geração de médicos psiquiatras. Juliano Moreira trouxe da Alemanha as análises de Emil Kraepelin. Fiel ao modelo de Kraepelin, Juliano Moreira insistia em um trabalho classificador da doença mental, ao mesmo tempo em que buscava relações entre as mesmas e as patologias físicas. Juliano Moreira ao trazer o modelo de Kraepelin, longe estava de reduzir a etiologia da doença mental a causas simplesmente físicas. A partir do modelo alemão, Juliano Moreira batiase pela interação entre causas fisiológicas e psicológicas na explicação e classificação dos considerados anormais. O psiquiatra deveria, então, conhecer, tanto as especificidades fisiológicas do paciente, quanto a dimensão moral e social do mesmo. Especificidades fisiológicas e conhecimento de todo um em torno sócio-cultural informariam ao psiquiatra os dados fundamentais para o diagnóstico. Essa nova leitura do doente e da doença mental possuía interfaces políticas bem claras em uma sociedade de gritantes desigualdades físicas e sociais. Fatores como raça e hereditariedade deixavam de aparecer como o fundamento determinante da doença mental e da chamada anormalidade. Ao contrário do pessimismo racista, a contribuição de Juliano Moreira mostrava a viabilidade do povo brasileiro, não condenado ao atraso por suas especificidades genéticas. Ao contrário do que afirmava Raimundo Nina Rodrigues não pairava no Brasil uma anormalidade constitucional, nem a raça apresentava-se como chave explicativa para o homem e a sociedade. Comentando a obra de Juliano Moreira e Afrânio Peixoto, escrevem Venâncio e Carvalhal:
não tínhamos com certeza o mesmo grau de civilização das sociedades européias. Mas isso não devia significar que estaríamos atrelados a condições da ordem da natureza, irreversíveis, que nos tornassem irredutivelmente mais afeito

misticismo e doença mental

• 87

às doenças mentais do que outros povos. Bastaria investirmos na higiene e na educação da população brasileira, a fim de alcançarmos os mesmos padrões civilizatórios: um indivíduo com condições de vida higiênicas e profiláticas, bem-educado, em nada ficaria a dever a seus pares europeus, independente da raça a que pertencesse.4

Contudo, a contribuição de Juliano Moreira não conseguiu apagar totalmente a presença da raça como importante fator explicativo da doença mental na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Integrante de um círculo próximo a Juliano de Moreira, o catedrático de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Henrique Belford Roxo, ainda vai apresentar uma produção científica na qual a raça aparecia, se não como fator determinante da anormalidade, pelo menos com um peso ainda considerável. Professor de Xavier de Oliveira, Roxo apresenta ainda os ecos de uma visão racista. Para Roxo, os negros, se não aparecem como naturalmente predispostos a patologias físicas e mentais, se não trazem a marca genética da degeneração, aparecem como retardatários no processo de evolução mental, física e cultural. Roxo remetia a condição negra, tanto para inferioridade física quanto cultural. Herdando um cérebro não desenvolvido, carecia aos negros, condições de credenciarem-se à plena vivência da cidadania, presos às origens atávicas, às doenças oportunistas, a uma herança cultural eivada de superstição e incultura. Para chegarem ao estágio do branco seria necessário não apenas transformações mesológicas, conducentes à extirpação do atraso cultural, mas também transformações físicas, advindas da evolução:
4

VENANCIO, A. T. A.; CARVALHAL, L. A classificação psiquiátrica de 1910: ciência e civilização para a sociedade brasileira. In: JACÓ-VILELA, A. M. et al. (Org.). Clio-Psyché. Fazeres e dizeres psi na história do Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: FAPERJ, 2001. p. 154.

88 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Suponhamos, porém, que um negro, com esta má tara hereditária, se transportasse para um centro adiantado e com sua congênere viesse a ter descendência. Imaginemos, demais, que esta fosse pouco a pouco progredindo e que de pai a filho se fosse legando, cada vez mais um cérebro exercitado, ativo. Dentro de um certo número de descendentes, chegaria, finalmente um com o cérebro tão evoluído quanto de um branco. Seria tão inteligente quanto este. Vê-se que o meio é o agente por excelência. Vai aprimorando pouco a pouco a raça e o indivíduo e consegue nivelar, após progressão crescente, lenta e laboriosa, os extremos da série.5

As ideias de inferioridade racial serão criticadas por Xavier de Oliveira ao desenvolver estudos sobre a presença do misticismo no meio rural e urbano brasileiro. Nessas ocasiões vai romper com a tradição de Nina Rodrigues, ainda claramente referenciada na explicação racial desses fenômenos. Um dos momentos mais explícitos dessa oposição à Nina Rodrigues aparece na crítica que faz ao diagnóstico deste sobre a morte de Antônio Conselheiro. Ao lado de reafirmar sua filiação às ideias de Kraepelin, Xavier de Oliveira rechaçava a relação apresentada por Nina Rodrigues entre misticismo e mestiçagem. Assim, criticava o diagnóstico de Nina Rodrigues, para o qual o misticismo de Antonio Conselheiro aparecia como delírio crônico de evolução sistemática, caracterizado pela involução contínua na capacidade de perceber lucidamente a realidade, terminando por embarcar em alucinações místicas, que o apartavam totalmente do meio circundante. Xavier de Oliveira contestava totalmente este diagnóstico, mostrando que o Conselheiro enquadra5

ROXO, H. B. Moléstias mentais e nervosas. Aulas professadas durante o ano letivo de 1905 pelo dr. Henrique de Brito Belford Roxo. 1. ed. Rio de Janeiro: [s.n.], 1906. p. 190.

misticismo e doença mental

• 89

va-se como um típico paranoico, na noção de Kraepelin. O Conselheiro não era um alucinado, totalmente fora de realidade. Ao contrário, seus delírios mantinham uma certa coerência, unidos em um contexto lógico, capaz de tornar verossímil sua pregação.6 Por outro lado, sua misticopatia não encontrava fundamento, conforme queria Nina Rodrigues, na sua condição de mestiço. Para corroborar esse posicionamento Xavier de Oliveira socorria-se de Jean Finot, que havia negado estatuto de veracidade à raça como critério de análise social.7 Xavier de Oliveira compara a descrição de Finot sobre os chamados irmãos da boa morte, que chegam ao suicídio coletivo na Rússia do final do século XIX, levados por um misticismo exacerbado, com a narrativa de Nina Rodrigues sobre a Hecatombe de Pedra Bonita, ocorrida em Pernambuco, na primeira metade do mesmo século e que, igualmente, acabou em uma sucessão de mortes por suicídio. Por outro lado, comparando o Conselheiro a Rasputin, escreve Xavier de Oliveira:
se compararmos o que se passa nos sertões nordestinos, habitados por mestiços, com o que sucede na Rússia dos brancos eslavos, nenhuma diferença encontraremos. Não há inverter os fatores de uma questão, que, em matéria de Psiquiatria comparada, deve ter por termos a cultura, a civilização e o meio, e não a cor branca, preta ou parda da pele dos indivíduos. Visto o Conselheiro, tal como no-lo descreve o sábio mestre brasileiro,8 e vista a sua cultura e o seu meio, comparemo-lo com Rasputin, a sua com a cultura e o meio onde agiu o monge russo, e nenhuma diferença fundamental se pode notar num ou noutro, além da que,
6

7 8

KRAEPELIN, E. Introduction à la psychiatrie clinique. Paris: VigotFrères, 1907. (1905). FINOT, J. Le préjugé des races. 1.ed. Paris: Alcan, 1905. Refere-se a Nina Rodrigues.

90 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

naturalmente, existia entre o arraial de Canudos e a corte de São Petersburgo.9

A análise de Xavier de Oliveira sobre os fenômenos místicos estava estribada no reconhecimento de uma oposição abissal entre os últimos e a religião. O que chama de misticismo aparecia em sua obra com um sentido restritivo, de deturpação da vivência da religião. É mister que se diga que o termo misticismo está intimamente relacionado à possibilidade de uma união direta entre o homem e a divindade. Nesse sentido, começou a ser usado a partir do século V por Dionísio, o Aeropagita, tendo o neoplatonismo como ponto de referência básico. No sentido em que o cristianismo entendeu o termo, o mesmo opõe-se totalmente a ideias ocultistas, ou com práticas mágicas, que refletem um diferente uso do termo.10 Em Xavier de Oliveira, o termo foi usado sempre com o sentido de uma busca do transcendente, da divindade, totalmente fora da igreja,11 da sua hierarquia, do seu magistério. Nesta acepção, o termo místico refere-se em sua obra, tanto a um ser carente da verdade ensinada pela igreja, quanto a um desequilibrado, portador de um primitivismo mental, passível de tratamento adequado. Incluía-se nesta categoria, tanto os profetas que estudou no Pavilhão da Assistência aos Psicopatas da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro ou os beatos do sertão nordestino, os quais biografou. Católico convicto (uma de suas obras é dedicada à memória de Jackson de Figueiredo), Xavier de Oliveira via
9

10

11

XAVIER DE OLIVEIRA. Espiritismo e loucura. 1. ed. [S.l.]: GEEM, 1930. p. 50. ABBABNANO, N. Dicionário de filosofia. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000; GRENA, S. J. et al. Dicionário de teologia. São Paulo: Vida, 2000. O IV Concílio de Latrão, no século XIII firmou o ensinamento agostiniano sobre a impossibilidade de salvação fora da igreja.

misticismo e doença mental

• 91

o sucesso dos místicos e do misticismo no Brasil diretamente vinculado à situação de miserabilidade e incultura do povo brasileiro. A essa situação somava-se a pouca presença do estado no esforço civilizador das populações. Notadamente no nordeste brasileiro, a ausência do estado contrastava, na sua visão, com a presença da igreja católica. A igreja aparecia como instituição, cujo trabalho civilizador deveria ser seguido pelo estado brasileiro:
A Igreja brasileira, em todos os tempos há trazido um grande contingente de benefícios à nossa civilização. Seja nas selvas, aos indígenas dos ínvios sertões brasileiros, naquelas paragens onde, a não ser o missionário evangelizador, só chegam a coragem indômita e o patriotismo ardente de Cândido Rondon; seja na zona rural do Brasil, semi-civilizada e semi-bárbara ainda, lá vai ela, carinhosa e audaz na sua nobre missão evangelizadora, levar um pouco de luz ao espírito rude da humilde e boa gente sertaneja. Sejamos coerentes: no Nordeste, ainda foi a Igreja que chegou primeiro, precedendo do Estado. Na região dos tormentos já ela ergueu, corajosa as fortalezas da fé, nos pontos estratégicos do campo a conquistar [...] Cumpre, pois, que os governos, ao menos, secundem a ação do clero, neste de ponto de vista. E com os elementos deste, que lá estão espalhados por toda parte, fundem Colégios, para instrução secundária dos moços, e Escolas Normais oficializadas, onde a mulher sertaneja se possa habilitar para exercer com proveito a nobre missão de dar a instrução e educação primárias à infância desvalida e desprezada daquelas regiões.12

12

XAVIER DE OLIVEIRA. Beatos e cangaceiros. História real, observação pessoal e impressão psicológica de alguns dos mais célebres cangaceiros do Nordeste. 1. ed. Rio de Janeiro: [s.n.], 1920. p. 20.

92 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

A impossibilidade de a igreja atuar mais efetivamente, somada ao descaso do estado estava para Xavier de Oliveira na raiz social do problema da proliferação do misticismo e dos místicos:
Lá onde a justiça e a Lei primam pela ausência, quando falta a Igreja verdadeira, começa o perigo. À falta desta, certamente, é que o Conselheiro edificou a sua em Canudos. Tipo de fanático, astucioso e audaz, revoltado e egoísta, delirante e paranóico, formou sectários. No sertão nada mais natural. Esses fanáticos são, comumente, do mesmo nível intelectual e moral que o povo, em geral, e, por isso, as suas idéias e as usas palavras estão ao alcance de todos. Ademais, a sua vida simples, de fingida humildade, a encobrir o seu egoísmo doentio; as aparentes penitências que fingem fazer, a bondade calculada com que procuram reviver a vida do Cristo, que todos conhecem através da bíblia, tudo isso impressiona as multidões de uma maneira estonteante. Um “milagre”, quase sempre a cura de uma histérica, é o selo de santidade do psicopata.13

Tanto Antônio Conselheiro quanto os beatos nordestinos e os místicos urbanos que estudou eram portadores, para Xavier de Oliveira, da chamada misticopatia. Esta seria caracterizada como uma psicose de feitio religioso e de caráter claramente contagioso quando desenvolvidas em um caldo de cultura próprio, como o sertão nordestino. As misticopatias não são, para Xavier de Oliveira, caracterizadas simplesmente como loucuras religiosas. Como católico convicto, o autor não aceitava que a vivência da verdadeira religião pudesse levar à patologia. Encarando a religião católica como portadora da verdade, esta não poderia levar
13

XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 62.

misticismo e doença mental

• 93

ao erro e à doença. Havia, isto sim, vivências mórbidas da religião, em tudo opostas à verdade revelada e à tradição da igreja:
Se não há uma loucura religiosa, sintomatologicamente individualizada, na patologia mental, existem, entretanto, psicoses de feitio religioso, que se podem generalizar como uma verdadeira epidemia em certas coletividades, muitas vezes, acarretando, nesses casos, as mais funestas consequências.14

As epidemias místicas deveriam levar à ações preventivas do estado, capitaneadas, obviamente, pela autoridade médica, nunca à pura e simples repressão:
É um crime pretender dominar pelas armas, indivíduos ou coletividades atacados dessas modalidades clínicas da Psiquiatria; devem ser tratados como doentes, que são, e, uma vez comprovado o seu mal, o quanto antes, internados num Asilo-Colônia de Alienados, onde fiquem em tratamento e em segurança, para o seu próprio bem, para resguardo da sociedade, e, até, pra tranquilidade dos governos.15

Afrânio Peixoto (a quem Xavier de Oliveira dedica Beatos e Cangaceiros) tinha a mesma opinião. Na introdução do seu romance Maria Bonita, refere-se a um personagem, um velho de longas barbas brancas, um santão do sertão, nas suas palavras, que à maneira de Antônio Conselheiro e Padre Cícero, contagiava as multidões de todo o Brasil, levando-as ao fanatismo coletivo. Ao contestar o diagnóstico de Nina Rodrigues sobre o Conselheiro, Afrânio Peixoto reafirma14 15

XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 185. XAVIER DE OLIVEIRA, 1930.

94 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

va a necessidade de combater essas manifestações, não pela repressão, mas pela educação e condução das populações incultas. Nesse trabalho educador e condutor, logicamente, a medicina credenciava-se como elemento de proa:
Talvez o diagnóstico de loucura que lhe fez Nina Rodrigues, ou de crime, a que aludiu Euclides da Cunha, seja indevido e injusto, salvo transpondo os termos: loucos e criminosos serão aqueles, representantes de uma civilização incapaz, que não souberam ou não puderam esclarecer e governar essas rudes massas populares, largadas pela ignorância a todos os impulsos, e no momento do perigo destroem, brutalmente, o que não conseguiram educar e conduzir, quando não transigem, vergonhosamente à força maior deles. Canudos e Juazeiro são as duas soluções, que ambas depõem contra nós.16

Na sua análise dos casos de misticopatias, Xavier de Oliveira permanece fiel ao modelo classificatório proposto por Juliano Moreira. Este, a partir de Kraepelin, buscava classificar os doentes mentais, chegando mesmo ao considerado inclassificável pela ciência médica do século XIX: os anormais. Para Portocarrerro,17 a concepção de anormalidade como psicopatologia é a grande novidade da Psiquiatria do século XX, manifestando-se o comportamento anormal nas chamadas personalidades psicopáticas, incluídos nesta categoria os criminosos, instáveis, querelantes. Os misticopatas estudados por Xavier de Oliveira, enquadravam-se totalmente na noção de anormalidade enquanto psicopatologia. A partir do seu diagnóstico, só restava aos misti16 17

PEIXOTO, Afrânio. Maria Bonita. 1. ed. [S.l: s.n.], 1914. PORTOCARRERO, V Arquivos da loucura. Juliano Moreira e a des. continuidade histórica da Psiquiatria. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora da Fiocruz, 2002. p. 39.

misticismo e doença mental

• 95

copatas submeterem-se à autoridade do médico, capaz de submetê-los à disciplina. Daí o porquê do autor justificar a internação dos mesmos, invocando o resguardo da sociedade e a tranquilidade dos governos. É interessante que a análise de Xavier de Oliveira sobre as misticopatias, se contestava as teses de Nina Rodrigues, coincidia com as mesmas em um ponto: no reconhecimento da periculosidade e no reconhecimento do caráter subversor dos místicos. Os mesmos eram encarados como anormais, portadores de um comportamento antissocial e extremamente contagioso quando tinham como cenário um meio sócio-cultural atrasado. Faziam parte de todo um repertório de reivindicadores, querelantes, que infestavam o meio rural e urbano brasileiro. Esses reivindicadores apresentavam um comportamento com explícitas interfaces com a negação da república e da cidadania. Os misticopatas apresentavam, para Xavier de Oliveira, delírios no qual imaginavam, interpretavam e reivindicavam. Imaginavam coisas relacionadas à religião, ao sobrenatural, interpretavam a seu modo, portanto, heterodoxamente, os ensinamentos religiosos que receberam e reivindicavam um lugar proeminente para o divino numa ordem política a ser constituída, já que a atual era julgada oposta à vontade de Deus. Nina Rodrigues, anteriormente, já admitia um comportamento político totalmente anti-republicano em Antônio Conselheiro e seus seguidores. Com isso, Nina Rodrigues propunha uma explicação do comportamento dos povos considerados primitivos baseado no estágio de evolução mental apresentado pelos mesmos. Endossava uma linearidade universal entre o primitivo e o civilizado, no qual o primeiro movia-se por um horizonte intelectual claramente apartado dos códigos lógicos que norteavam os últimos. Daí por que Nina Rodrigues referirse aos alienados como primitivos institucionalizados e antecipar, para Marisa Correa, o conceito de mentalidade pré-

96 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

lógica de Levy-Bruhl.18 A Vendéia brasileira que Euclides da Cunha propalava no início de sua cobertura jornalística a Canudos coincidia com a narrativa de Nina Rodrigues. Para ele as provas da psicose progressiva de Antônio Conselheiro tornavam-se mais consistentes à medida que as terras sob a sua autoridade passavam a representar a alternativa monárquica à república que condenava. As leis eram as da monarquia, a moeda aceita somente a que ostentasse a esfinge de D. Pedro II, o povo era incitado contra o pagamento de impostos ao governo republicano e não reconhecia validade nos atos de um estado que julgava opressor e usurpador do poder religioso. Todas essas evidências corroboravam o primitivismo mental do Conselheiro e seus seguidores:
Para acreditar que pudesse ser outro o sentimento político do sertanejo, era preciso negar a evolução política e admitir que os povos mais atrasados e incultos podem, sem maior preparo, compreender, aceitar e praticar as formas de governos mais liberais e complicadas. A população sertaneja é e será monarquista por muito tempo, porque no estágio inferior da evolução social em que se acha, falece-lhe a precisa capacidade mental para compreender e aceitar a substituição do representante concreto do poder pela abstração que ele encarna, – pela lei. Ela carece instintivamente de um rei, de um chefe, de um homem que a dirija, que a conduza, e por muito tempo ainda o presidente da República, os presidentes dos Estados, os chefes políticos locais serão o seu rei, como, na sua inferioridade religiosa, o sacerdote e as imagens continuam a ser os seus deuses. Serão monarquistas como são fetichistas, menos por ignorância, do que por um desenvolvimento intelectual, ético e religioso, insuficiente ou incompleto.19
18

19

CORREA, M. As ilusões da liberdade. A escola de Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil. 1. ed. Bragança Paulista: Edusf, 1998. NINA RODRIGUES, R. A loucura epidêmica de Canudos. Antônio

misticismo e doença mental

• 97

Por outro lado, no relato de Nina Rodrigues sobre a Hecatombe da Pedra Bonita, referenciado por Xavier de Oliveira, aparece a figura de João Santos, que consegue levar a população de Flores, situada no centro de Pernambuco a cultuá-lo como rei. O rei João Santos pregava que naquele lugar existia um país encantado, fabulosamente rico, onde um outro rei, d. Sebastião, viria trazendo fortuna e felicidade aos seus seguidores: “os negros e os mestiços se tornariam brancos, os velhos rejuvenesceriam, os pobres ficariam imediatamente milionários poderosos e imortais”.20 Os ecos do posicionamento de Nina Rodrigues aparecem, sem dúvida, em Xavier de Oliveira, ao coincidirem ambos quanto à periculosidade e subversão dos místicos frente às instituições republicanas. Os místicos aparecem, não apenas como à margem da civilização, como em íntima conexão com o crime. Assim, o autor via um círculo vicioso, que unia o jagunço de Canudos ao romeiro de Juazeiro em uma comum galeria terrorista. Na introdução de Beatos e Cangaceiros, escrevia Xavier de Oliveira, fazendo menção a duas figuras emblemáticas deste círculo vicioso, marcado pela ausência de civilização e descaso do estado: Pedro Pilé e o Beato Vicente.
desde a figura macabra de Pedro Pilé, o jagunço baiano que defendeu, do princípio ao fim, o reduto do Conselheiro, seu Bom Jesus de Canudos, até a individualidade, essencialmente fanática do Beato Vicente, o pernambucano de origem holandesa, que, de quando o conheço, só deixou o machado de lenhador, para pegar no bacamarte boca de sino, com que defendeu heroicamente o lugar santo de seu “padrinho” Cícero de “sua Mãe das Dores! Sem o querer,
Conselheiro e os Jagunços. In: RAMOS, A. (Org.). As coletividades Anormais. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1939. p. 70. NINA RODRIGUES, 1939 apud XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 55.

20

98 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

caí num círculo vicioso: vim do jagunço de Canudos ao romeiro de Juazeiro. Mas, é nesses dois extremos que se acha a galeria terrorista, que me proponho movimentar.21

Os delirantes do sertão nordestino não esgotavam, para Xavier de Oliveira, as possibilidades de desenvolvimento das chamadas misticopatias. Ele relata casos de pacientes diagnosticados como misticopatas, entrados na Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (Instituto Teixeira Brandão). O que diferia de um caso a outro era o meio social, capaz, o sertão, de representar o caldo de cultura ideal para a contaminação da patologia e a cidade, de dificultar a ação contagiosa dos místicos. Assim, comparando o Conselheiro com Teófilo Conceição, um interno que se dizia amante de Deus e profeta de Santo Inácio, escreve:
Estou que o Conselheiro não lhe levaria vantagem ponderável como fanatizador de gente inculta, crédula e belicosa dos sertões. E assim, bem se compreende o perigo de uma incursão sua àqueles lugares de onde veio e para onde, acaso, volte... Atualmente, seu campo de ação é o subúrbio de Inhaúma, a cujo cemitério chama “Vale de Josafá, Terra da Promissão” para onde hão de vir todos os povos do mundo a escutar a palavra de Deus por sua voz.22

Na descrição que fez de Teófilo Conceição e sua seguidora, a italiana Cecília Paniche, tida como profetisa e capaz de manter contato direto com Santo Inácio, Xavier de Oliveira mostrava o colorido monárquico dos delírios à dois por eles revelados. Por intermédio de Cecília Paniche,
21

22

XAVIER DE OLIVEIRA. O magnicida Manço de Paiva. Rio de Janeiro: Benedito de Souza, 1928. p. 14. XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 105.

misticismo e doença mental

• 99

Santo Inácio teria previsto o assassinato do rei D. Carlos de Portugal, tendo, inclusive a profetisa escrito à rainha dona Amélia, relatando o aviso.23 Por outro lado, na descrição do comportamento de outro interno, Laureano Ojeda, o Profeta da Gávea, Xavier de Oliveira relata que o mesmo dizia-se pertencer a uma família privilegiada com contatos com a divindade. Seus irmãos, já falecidos estariam, atualmente, na corte celeste, à sua espera.24 Os místicos figuravam, para Xavier de Oliveira, entre os reivindicadores que poderiam chegar aos comportamentos mais radicais e antissociais, podendo suas ideias fixas de missão, eleição, contato com o sobrenatural, transformá-los em lideranças perniciosas, difusoras da doença mental. Imersos em uma estrutura de pensamento primitiva (a aproximação com Nina Rodrigues é evidente, apesar da contestação a suas teses), Xavier de Oliveira associava sempre a presença da monarquia nos delírios megalomaníacos dos místicos. Assim, sempre haveria uma tendência a aparecer delírios com associações monárquicas, girando em torno, não só de reis, rainhas, como de símbolos reais, como coroas, cetros. Xavier de Oliveira cita como exemplo de magnicidas místicos, Aimée-Cecile Renault, acusada de conspirar contra a vida de Robespierre e o monge Jacques Clément, assassino de Henrique III. A primeira, apresentada como uma fanática, capaz de expor sua vida pela volta da monarquia e o segundo, como um regicida, mas que, apesar disso, apresentava visões noturnas reveladoras de delírios de colorido explicitamente monárquicos. Nessas visões, um anjo lhe apresentava uma clava, prometendo-lhe atributos reais em troca da morte do rei: “pensa, pois em ti, como te irá bem a coroa do martírio que te está sendo

23 24

XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 109. XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 164.

100 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

preparada”.25 Como em todos os reivindicadores místicos, Xavier de Oliveira identifica nos atos de Jacques Clément um conteúdo claramente avesso à noção de cidadania republicana: “há sempre uma aproximação entre os místicos e os monarquistas”.26 Na atualidade, o médico via persistir o caráter patológico e primitivo desses “reivindicadores místicos”, no espiritismo, “visto como uma nova epidemia de loucura religiosa, igual a tantas outras que a tem castigado em épocas diversas de sua evolução, e no só domínio do sentimento religioso”. O mesmo primitivismo mental dos sertanejos, a mesma periculosidade social, o mesmo caráter contagioso a exigir uma pronta ação do estado. O sucesso do espiritismo no século XX é visto como prova da sobrevivência, da “mesma mentalidade do totem e do tabu”.27 O olhar de Xavier de Oliveira é típico de uma nova fase da Psiquiatria, voltada para a classificação social e ação preventiva frente aos considerados perigosos. Esquadrinhando a população, a Psiquiatria classificava, não só o desvio da norma, como passava a prever o próprio comportamento anormal. A obra de Xavier de Oliveira integra, com a de outros psiquiatras do período, uma tendência ao alargamento na ação da Psiquiatria, que passa a ocupar-se com a medicalização da sociedade como um todo. Nesse sentido, é importante atentarmos para medidas como a criação da Liga Brasileira de Higiene Mental, com funções claramente preventivas e interventoras. Assim, ao denunciar os místicos e detectar a misticopatia, ao avaliar a periculosidade e o caráter subversor dos mesmos, Xavier de Oliveira cumpria as funções interventoras e preventivas, com as quais se armou a Psiquiatria a serviço da disciplina.
25 26 27

XAVIER DE OLIVEIRA, 1928, p. 70. XAVIER DE OLIVEIRA, 1928, p. 66. XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 12.

misticismo e doença mental

• 101

referências

ABBABNANO, N. Dicionário de filosofia. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. CORREA, M. As ilusões da liberdade. A escola de Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil. 1. ed. Bragança Paulista: Edusf, 1998. ENGEL, M. G. Os delírios da razão. Médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). 1. ed. Rio de Janeiro: Editora da Fiocruz, 2001. FINOT, J. Le préjugé des races. 1.ed. Paris: Alcan, 1905. GRENA, S. J. et al. Dicionário de teologia. São Paulo: Vida, 2000. KRAEPELIN, E. Introduction à la psychiatrie clinique. Paris: VigotFrères, 1907. NINA RODRIGUES, R. A loucura epidêmica de Canudos. Antônio Conselheiro e os Jagunços. In: RAMOS, A. (Org.). As coletividades Anormais. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1939. p. 70. PEIXOTO, Afrânio. Maria Bonita. 1. ed. [S.l: s.n.], 1914. PORTOCARRERO, V Arquivos da loucura. Juliano Moreira e a . descontinuidade histórica da Psiquiatria. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora da Fiocruz, 2002. ROXO, H. B. Moléstias mentais e nervosas. Aulas professadas durante o ano letivo de 1905 pelo dr. Henrique de Brito Belford Roxo. 1. ed. Rio de Janeiro: [s.n.], 1906. VENANCIO, A. T. A.; CARVALHAL, L. A classificação psiquiátrica de 1910: ciência e civilização para a sociedade brasileira. In: JACÓ-VILELA, A. M. et al. (Org.). Clio-Psyché. Fazeres e dizeres psi na história do Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: FAPERJ, 2001. p. 154.

102 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

XAVIER DE OLIVEIRA. Beatos e cangaceiros. História real, observação pessoal e impressão psicológica de alguns dos mais célebres cangaceiros do Nordeste. 1. ed. Rio de Janeiro: [s.n.], 1920. XAVIER DE OLIVEIRA. Espiritismo e loucura. 1. ed. [S.l.]: GEEM, 1930. XAVIER DE OLIVEIRA. O magnicida Manço de Paiva. Rio de Janeiro: Benedito de Souza, 1928.

misticismo e doença mental

• 103

Capítulo 4

a loucura sob uM outro olhar: reorganização dos serviços de atendiMento eM saúde Mental

(uberlândia-Mg, 1984-2005)
Maria Clara Tomaz Machado1 Riciele Majori Reis Pombo2

Pedaços Meu primeiro pedaço que ficou para trás e esvanece na memória que tento recordar. Olho em mim e sinto saudade dele, entretanto consegui prosseguir minha caminhada, sentindo sua falta, remendando o que restou,
1

2

Doutora em História Social, professora do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia e do Programa de Pós-Graduação de História da Universidade Federal de Uberlândia. Mestre em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Uberlândia.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 105

achando-me feliz e dando-me por satisfeita. Havia muitos pedaços intactos. O tempo se alonga, se arrasta e brinca de esconder com a gente e nossas delongas e arrastar do tempo fui desfalecendo como se feita de barro mal amassado e não cozido. Perdendo pedaços, buscando-os e muitas vezes sem achá-los, sem conseguir saber os porquês de tantas perdas continuo andando sem rumo, sem vontade, sem certeza, com medo... perdendo pedaços3

Quando pensamos na experiência da loucura, uma das primeiras imagens que surgem em nosso imaginário é a de instituições superlotadas, de cor cinza, que transmitem uma morbidade estanque, congelada no tempo e no espaço, e as pessoas que ali encontramos são partícipes de um enredo de miséria, solidão e descaso. Outra imagem recorrente é a loucura poética, com personagens pertencentes ao outro mundo, ao outro lado do espelho, com o dom de revelar segredos do aqui e do além.4
3

4

VALÉRIA, A. Pedaços. Notícias do Caps, Informativo do Centro de Atenção Psicossocial do Distrito Sanitário Sul, Uberlândia, n. 4, p. 1, jan./mar. 2004. Sobre a História da loucura conferir: COSTA, J. F. História da Psiquiatria no Brasil: um corte ideológico. 4. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Xenon, 1989; FOUCAULT, M. A história da loucura na idade clássica. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 1999; FOUCAULT, M. Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991; FOUCAULT, M. Nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003; FOUCAULT, M. Os anormais: Curso do Collège de France (1974-1975). São Paulo: Martins

106 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Entretanto, esta realidade modificou-se desde os últimos anos da década de 1980 no país e, de forma gradual, permitiu a milhares de pessoas que sofrem do adoecer psíquico saírem da lógica de eternas internações em hospitais psiquiátricos sombrios, com a possibidade de receber tratamento em outros moldes, de forma mais humanizada e complexa. Partindo deste marco, este trabalho discute e apresenta alguns pressupostos fundamentais que modificaram o tratamento médico da loucura, principalmente a partir de reinvindicações do movimento de reforma psiquiátrica. Tal situação, apoiada em outros paradigmas, propunha romper as grades que enclausuravam o louco, possibilitando sua convivência com a família e outros grupos sociais. Essa foi uma luta política travada no âmbito da saúde pública, cujos sujeitos sociais (médicos, psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, entre outros) se envolveram em debates, congressos e exposição pública por mais de duas décadas, enfrentando conflitos, incompreensão e críticas. Neste contexto, pretende-se analisar quais foram os aspectos que compuseram esta nova realidade e quais os principais entraves e deficiências para sua implementação. Este texto parte de um trabalho interdisciplinar, contudo, respeita os limites de cada campo do saber e propõe o diálogo com disciplinas como a Psiquiatria, a Psicologia, a Assistência Social, que contribuem de forma profícua não só ao debate, como também à articulação do movimento de reforma psiquiátrica no país. A intenção é que o viés historiográfico apresente um novo olhar sobre a temática, por
Fontes, 2001; MACHADO, R. Danação da norma. Rio de Janeiro: Graal, 1978; PORTER, R. Uma história social da loucura. Rio de Janeiro: Zahar, 1991; PEREIRA, J. F. O que é loucura. São Paulo: Brasiliense, 1993; PESSOTTI, I. A loucura e as épocas. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 107

meio de pressupostos teóricos diferenciados que permitam desvelar aspectos complexos desta trama, colaborando, assim, com a discussão de outros campos de saber. As análises referentes ao processo de desarticulação do sistema asilar no país, que apresentam os avanços logrados pelo movimento de reforma psiquiátrica são, em grande parte, elaboradas por profissionais de saúde ou militantes deste movimento, sujeitos intimamente envolvidos nesta trama. A meta é que este trabalho traga à tona novas indagações e suscite debates, ao se revelar os meandros dessa luta social. De antemão, vale a pena ressaltar que a defesa de um projeto parte dos interesses de um determinado grupo social, que demarca sua participação na realidade em que vive, constituindo-se enquanto sujeito histórico. Para compor o cenário e o roteiro desta trama social, a pesquisa travou um diálogo com os vários sujeitos sociais que participaram ou participam ativamente do processo de reforma psiquiátrica, que trabalham com saúde pública, privilegiando recortes analíticos diferenciados para a compreensão das várias teias de relações estabelecidas neste processo, desvendando os diversos aspectos sociais, políticos e culturais nele envolvidos. A articulação e as conquistas alcançadas pelo movimento de reforma psiquiátrica permitiram modificar, de forma significativa, o cotidiano de pessoas com sofrimento psíquico. Atualmente, estes sujeitos em todo o país têm a possibilidade de realizar diversas atividades de forma mais autônoma, concomitante ao tratamento recebido em instituições na modalidade de serviços substitutivos de saúde mental.5 Este fato transpõe a lógica manicomial que con5

Os serviços substitutivos oferecem atendimento em saúde mental a partir de parâmetros de abordagem que comportam equipes com profissionais diversos, como por exemplo: psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, entre outros, desenvolvendo práti-

108 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

denava seus pacientes a uma vida de isolamento e anulava qualquer possibilidade de cura e retorno às suas atividades. O psiquiatra argentino Alfredo Moffatt descreve, em linhas gerais, em quais condições se vivia, geralmente, em um manicômio:
uma vez que se deve permanecer aí durante vinte e quatro horas por dia, ou seja, por não existir um tempo a ser vivido fora do hospício, todo o seu ambiente tem um peso psicológico enorme pois não há mudança, são sempre os mesmos lugares, os mesmos detalhes; com o passar dos anos chegase a conhecer cada cantinho desse túmulo de vivos.6

Os vários asilos implementados tinham, entre seus principais objetivos, esquadrinhar e excluir do espaço urbano sujeitos que atentassem à ordem social, atendendo a interesses diversos da sociedade – entre eles, afastar os sujeitos que perpetrassem contra a ordem, ou mesmo que não se adaptassem às exigências do sistema de produção –, escamoteando mazelas sociais para a manutenção da ordem vigente. Como demonstra Luz:
a preocupação com a loucura é maior do que com o louco. Ao louco, com o hospício, atribui-se um status, uma identidade institucional. À ordem, subtrai-se o problema de discutir a loucura, sua origem. Subtrai-se, portanto, à sociedade, a discussão das condições sociais do distúrbio psíquico.7
cas terapêuticas diferenciadas e utilizando o recurso da internação psiquiátrica como última alternativa para o tratamento do sofrimento psíquico. MOFFATT, A. Psicoterapia do oprimido: ideologia e técnica da Psiquiatria popular. São Paulo: Cortez, 1983. p. 20. LUZ, M. T. A história de uma marginalização: a política oficial de saúde mental. In: AMARANTE, P D. de C. (Org.). Psiquiatria social e reforma . psiquiátrica. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1994. p. 92.

6

7

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 109

Entretanto, este processo foi permeado por avanços e inovações em suas práticas enclausuradoras, quase sempre sofisticando a forma de abordagem, o que legitimou o nascente saber médico psiquiátrico. Os primeiros grandes manicômios foram implementados pelo Estado como, por exemplo, o Asilo Juquery8 criado em 1898 em São Paulo, um dos baluartes do tratamento psiquiátrico no Brasil. Vários trabalhos historiográficos analisaram a proposta destas primeiras instituições psiquiátricas, que refletiam diversos aspectos do imaginário social desta doença. O que se observa é que diversos padrões de normalidade da sociedade da época eram levados em consideração para a realização de diagnósticos nestas instituições.9
8

9

Cf.: PEREIRA, L. M. de F. Os primeiros sessenta anos de Terapêutica Psiquiátrica no Estado de São Paulo. In: ANTUNES, E. H.; BARBOSA, L. H. S.; PEREIRA, L. M. de F. (Org.). Psiquiatria, loucura e arte. Fragmentos da história brasileira. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002. p. 33-53. Entre os trabalhos historiográficos que contribuem para desvelar os meandros que envolviam o estigma da loucura no país merecem destaque: BOFF, A. B. Espiritismo, alienismo e medicina: ciência ou fé? Os saberes publicados na imprensa gaúcha da década de 20. 2001. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2001; CUNHA, M. C. P. O espelho do mundo: Juqueri, a história de um asilo. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1998; CUNHA, M. C. P. Cidadelas da ordem. São Paulo: Brasiliense, 1990; POMBO, R. M. R. A loucura sob novo prisma: políticas de Saúde Pública em Uberlândia. Implantação dos CAPS. (1983-2004). 2005. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em História) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2005; POMBO, R. M. R. A nova política de saúde mental: entre o precipício e paredes sem muros. (Uberlândia 1984-2006). 2007. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2007; POMBO, R. M. R. História e loucura: práticas e terapêuticas do Sanatório Espírita de Uberlândia. (1940-1970). Cadernos de Pesquisa do CDHIS, Uberlândia, n. 33, p. 292-300, 2005; RIBEIRO, R. A. Almas enclausuradas: práticas de intervenção médica, representações culturais e o cotidiano do Sanatório Espírita de Uberlândia. (1932-1970). 2006. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2006; SANTOS,

110 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Todavia, desde o final da década de 1970, sob a égide do governo militar, várias foram as denúncias contra os quadros de negligência, falta de cuidados terapêuticos e superlotação de diversos manicômios em todo o país, feitas por diversos profissionais de saúde, com o intuito de reivindicar mudanças na estrutura asilar do país, além de denunciar o descaso aos quais os pacientes psiquiátricos eram mantidos em manicômios – públicos e privados. Ao questionar e repudiar essas formas de abordagem e gestão, colocava-se em xeque a eficácia de seu tratamento, criticando vários pressupostos do saber psiquiátrico e, consequentemente, de suas práticas terapêuticas. O movimento de reforma psiquiátrica brasileiro foi influenciado por diversas experiências desenvolvidas em outros países,10 que pautavam suas discussões na crítica ao modelo manicomial e apresentavam, em seu cerne, o questionamento de práticas psiquiátricas tradicionais caracterizadas pela extrema violência física e simbólica, as quais cerceavam seus pacientes de qualquer possibilidade de cura. Tal espaço institucional era essencialmente marcado pela impossibilidade de qualquer tipo de manifestação, não se preocupando em promover a melhora do quadro clínico de
N. M. W. A tênue fronteira entre a saúde e a doença mental: um estudo de casos psiquiátricos à luz da nova História Cultural (1937-1950). 2000. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2000; WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos. Uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002. O movimento de reforma psiquiátrica brasileiro foi muito influenciado pelas experiências de Psiquiatria comunitária implementadas na Itália por Franco Basaglia, que apresentava um viés progressista e que entre suas propostas inscreviam-se a (co) participação da sociedade no processo de cura de pacientes psiquiátricos. Sobre esta experiência conferir: BASAGLIA, F. A instituição negada. Rio de Janeiro: Graal, 1985; BASAGLIA, F. A Psiquiatria alternativa. Contra o pessimismo da razão, o otimismo da prática. São Paulo: Brasil Debates, 1979.

10

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 111

seus pacientes, baseando-se, antes de tudo, no isolamento que rechaçava qualquer possibilidade de inclusão social. Concomitante às diversas críticas ao sistema manicomial, estes movimentos apresentavam em comum a elaboração e a implementação de novas formas de abordagem do adoecer psíquico que atentassem ao respeito, à diversidade e à subjetividade de pacientes psiquiátricos. Várias foram as propostas e experiências desenvolvidas por movimentos de reforma psiquiátrica em diversos países, como destaca Luz:
A partir da Segunda Guerra Mundial, surgem também variadas experiências de reformas psiquiátricas, dentre as quais destacam-se as comunidades terapêuticas, de psicoterapia institucional, de Psiquiatria de setor, de Psiquiatria preventiva e comunitária, de anti-Psiquiatria, de Psiquiatria democrática, para ficar apenas nas mais importantes.11

Estas propostas se amparavam em uma abordagem voltada ao aspecto social, incentivando a participação e envolvimento da comunidade no processo de cura, e a desconstrução de aspectos negativos ligados à experiência da loucura. Este tipo de prática também criticava o modelo social excludente, e inseria nesta discussão a defesa da cidadania e da autonomia deste grupo, considerando-os como sujeitos políticos e participativos. O movimento de reforma psiquiátrica brasileira, influenciado por estes pressupostos, propunha a criação de instituições de tratamento construídas sob novos moldes, repelindo práticas violentas como eletrochoques, uso de celas fortes e tratamento com altas doses de medicação. Neste viés, ampliavam-se as formas de abordagens a partir de diferentes experiências concretas em todo o país, agregando
11

LUZ, 1994, p. 79.

112 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

profissionais de diversos campos do saber, que vinham elaborando práticas terapêuticas mais complexas. Foi no seio destas discussões que se forjou o projeto de organização de uma rede de atendimento em saúde mental na cidade de Uberlândia-MG, e a partir da década de 1980 diversas modificações foram adotadas na infraestrutura de atendimento e na forma de abordagem desta enfermidade. Para tal, elaborou-se novos paradigmas para o cuidado do adoecer psíquico e o principal agente propulsor foi o setor público municipal que, sob influência de discussões realizadas no âmbito do movimento de reforma psiquiátrica nacional, constituiu gradualmente formas diferenciadas de abordagens para esta questão na cidade. A cidade, desde 1940 até meados da década de 1970, contava com o Sanatório Espírita de Uberlândia – instituição assistencial – como espaço de abrigo e controle da loucura, idealizada por um grupo ligado ao Centro Espírita Fé, Esperança e Caridade. Este associava sua imagem religiosa à caridade e ao assistencialismo, o que contribuiu para o reconhecimento da religião espírita na cidade, legitimando suas ações no sanatório como de utilidade pública. Esta instituição contou, para sua criação e funcionamento, com a mobilização de setores da classe média intelectualizada da cidade: industriais, médicos, jornalistas, entre outros. O projeto de pesquisa Almas Enclausuradas: Práticas de intervenção médica, representações culturais e cotidiano no Sanatório Espírita de Uberlândia (1932-1970),12 analisou o período de implantação do Sanatório Espírita de Uberlândia, que teve início no ano de 1942, apreendendo
12

Este projeto de pesquisa foi coordenado pela professora dra. Maria Clara Tomaz Machado, desenvolvido junto a um grupo de alunos do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia, durante o período de outubro de 2001 à outubro de 2003, contando com a parceria da Fapemig/CNPq.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 113

quais foram os elementos e os personagens que tornaram possível este processo bem como quais foram as modificações em relação ao cuidado da loucura desde então. Contou-se, nesta pesquisa, com uma quantidade inestimável de fontes documentais, uma vez que representantes do Centro Espírita Fé, Esperança e Caridade disponibilizaram 29 livros de registros de fichas médicas do Sanatório Espírita de Uberlândia, que datavam do período de 1942 a 1959. Foi realizado um trabalho de catalogação de aproximadamente 877 fichas médicas. Estas contêm diversas informações sobre os pacientes da instituição, como idade, estado civil, etnia, religião, cidade de origem, diagnóstico, prognóstico, nomeclatura de remédios e práticas terapêuticas utilizadas à época, além de históricos de doença, fotos e mensagens psicografadas. A análise destas fichas demonstrou práticas e terapêuticas utilizadas na instituição, diagnósticos mais frequentes, e possibilitou a percepção de qual era a interferência da doutrina espírita no cuidado de seus pacientes. Nos históricos de doença encontramos relatos de parentes ou responsáveis que narram comportamentos desviados dos pacientes, como sintomas de sua enfermidade. Estes estavam permeados na atmosfera dos valores da época, que primavam, sobretudo, pelo ideal do trabalhador dedicado e da mulher casta e dedicada à família. O Sanatório Espírita de Uberlândia atendia aproximadamente cem pacientes, contando com um quadro de funcionários composto por médicos, enfermeiros práticos e voluntários, e várias de suas práticas terapêuticas revelavam o uso de celas fortes, eletroconvulsoterapia e choques de cardiazol, que eram de uso comum em diversos manicômios do país. Com um caráter essencialmente assistencialista, esta instituição era administrada por representantes da religião espírita local, que interferiam em vários aspectos

114 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

da gestão do sanatório, definindo e proibindo, em alguns momentos, a aplicação de determinadas terapêuticas, como por exemplo, a eletroconvulsoterapia. A concepção e definição do fenômeno da loucura do sanatório estava imersa na acepção da doutrina espírita, concebendo-a como obsessão13 e a partir dela aplicando práticas espíritas de tratamento juntamente ao tratamento médico ministrado, tais como sessões de desobsessão, água fluidificada, leitura de evangelho, entre outras. Desta forma, o atendimento psiquiátrico da cidade foi relegado ao setor filantrópico até meados da década de 1970, momento em que foi implantado no Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia o setor de Psiquiatria, uma das últimas especialidades a ser criada pela instituição, devido, em parte, à falta em seu quadro profissional de especialistas nesta área. Tal fato também impedia o oferecimento desta disciplina pela Escola de Medicina – ligada ao Hospital de Clínicas. O setor de Psiquiatria iniciou suas atividades principalmente com a chegada da psiquiatra Mirian Andraus14 à cidade, pioneira na organização do saber médico psiquiátrico em Uberlândia. Contudo, devido à falta de infraestrutura, as primeiras aulas práticas desta especialidade foram realizadas na clínica particular desta psiquiatra. Somente em 1983 foi orga13

14

A doutrina espírita define a loucura como obsessão, interferência de espíritos encarnados e desencarnados no comportamento de pessoas obsediadas, que pode ser resultado de vingança destes espíritos ou devido a uma conduta deSr.egrada do obsediado, o que faz com que esteja na mesma sintonia energética que estes espíritos decaídos. A obsessão pode ser tratada, segundo a doutrina espírita, a partir do processo de evangelização do obsediado. A dra. Mirian Andraus foi uma das primeiras psiquiatras da cidade de Uberlândia e criou em 1977, a primeira unidade de estudo da especialidade psiquiátrica da cidade em sua clínica particular, onde ministrava aulas práticas. Somente em 1983 foi inaugurado o setor de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 115

nizado uma pequena infraestrutura de atenção psiquiátrica no Hospital de Clínicas da UFU com a criação de uma ala psiquiátrica. O viés de então era essencialmente acadêmico, legitimando a abordagem médico-psiquiátrica em uma instituição federal de ensino, voltada para a formação de profissionais. Entretanto, mesmo com a ampliação do atendimento psiquiátrico na cidade, disponibilizado por estas duas instituições, não foi possível suprir de forma eficiente a demanda de atendimento local, uma vez que a infraestrutura oferecida era reduzida, inclusive em termos de leitos. Uma das alternativas encontradas pelo poder público municipal frente a essa falta de infraestrutura foi disponibilizar um veículo para o transporte de pacientes psiquiátricos graves a outras cidades como Uberaba, Goiânia, São Paulo, onde eram internados em asilos e manicômios. Esta medida, insuficiente e deficitária sob vários aspectos – tanto terapêutico quanto econômico – nos leva a recordar, de forma perversa, a experiência medieval da “Nau dos Loucos”,15 analisada por Michel Foucault, na qual um barco recolhia loucos das cidades pelas quais passava, enviando-os a uma viagem eterna, sem identificação com lugar algum, tornando-os errantes, limpando as cidades de seu estigma e loucura. Esta forma de lidar com o fenômeno da loucura sofreu lentas modificações a partir da metade da década de 1980, principalmente na primeira gestão do prefeito Zaire Rezende (1983-1986), médico remanescente do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), grupo político que apresentava várias propostas sociais progressistas frente ao conservadorismo político local.16
15 16

Cf. FOUCAULT, 1999. Tal administração carregava como insígnia de governo a frase que marcaria a sua atuação: “Democracia Participativa”. Esse slogan, como explicita Chauí, teve suas raízes na política social-democrata italiana, cujo viés de

116 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Entre as propostas de ação do governo Zaire Rezende, inscrevia-se a de organização do setor de saúde pública, a partir da criação de uma Secretaria Municipal de Saúde, a qual posteriormente criaria um setor de saúde mental, implementando abordagens com práticas terapêuticas mais complexas e regionalizadas. A organização desta secretaria teve início em 1984 e dispunha de profissionais de saúde diretamente envolvidos nas discussões promovidas pelo movimento de reforma sanitária nacional17 que, à época, já se caracterizava por um viés mais social e propunha a organização de um sistema de saúde pública que contemplasse toda a população e oferecesse serviços de forma gratuita.
esquerda foi inaugurado no Brasil por Franco Montoro, que apresentava como solução para a crise democrática que o país atravessava na época a participação dos cidadãos nos diversos conselhos públicos. Tal teoria pressupunha, fundamentalmente, uma maior participação na vida coletiva: de espectador, o homem contemporâneo deveria atuar como agente transformador de sua realidade social. Cf.: CHAUÍ, M. A questão democrática. In: ______. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. São Paulo: Moderna, 1982. p. 137-162. Sobre o governo Zaire Rezende conferir: ALVARENGA, N. M. Movimento popular, democracia participativa e poder político local: Uberlândia 1983/88. Revista História & Perspectivas: Poder local e representações coletivas, Uberlândia, n. 4, p. 103-129, jan./jun. 1991; PACHECO, F. P Mídia e po. der: representações simbólicas do autoritarismo na política. Uberlândia – 1960/1990. 2001. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia. 2001. JESUS, V F. Poder público e movimentos sociais. Aproximações e dis. tanciamentos. Uberlândia – 1982-2000. 2002. Dissertação de (Mestrado em História) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2002; CARDOSO, H. H. P SANTOS, C. M. S. Uberlândia nas linhas de .; enfrentamento: a democracia participativa nas páginas da imprensa. Cadernos de Pesquisa do CDHIS, Uberlândia, n. 33, p. 231-241, 2005. O movimento de reforma sanitária propunha, desde o final de década de 1970, a modificação na forma de gestão da saúde pública, criticando e apontando a ingerência do sistema previdenciário, caracterizado por sua alta complexidade e custo que, em contrapartida, não atendia às necessidades básicas de grande parte da população. Sua proposta voltava-se essencialmente a implantação de ações básicas de saúde, como programas de prevenção, vacinação, vigilância sanitária entre outros.

17

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 117

Uma das primeiras ações desta instância foi a descentralização de unidades de atendimento em saúde, com a criação e expansão de Centros de Saúde localizados em bairros periféricos. Em suas equipes de profissionais, incluía-se a participação de psicólogos e assistentes sociais, que voltaram suas ações ao trabalho realizado com a comunidade. Esta prática criava uma demanda para o atendimento psicológico e social de forma regionalizada, lançando as bases da rede de atendimento em saúde mental municipal à posteriori. Data desta época a elaboração do plano de saúde mental da rede municipal, idealizado por sua equipe técnica, sob a coordenação da psicóloga Lucina Giffoni,18 e entre suas diretrizes se destaca a proposta de atendimento em saúde mental oferecida de forma regionalizada e descentralizada, a partir dos Centros de Saúde. Concomitante a estas medidas, salientou-se a necessidade de aproximação e busca por diálogo com as demais instituições psiquiátricas da cidade: o Hospital de Clínicas da UFU e o Sanatório Espírita de Uberlândia. Foi a partir deste período que, gradualmente, o setor municipal tomou a frente na organização do serviço de saúde mental da cidade. Contudo, este processo forjou-se de forma lenta, modificando a infraestrutura das instituições, assim como as práticas terapêuticas de abordagem do sofrimento psíquico, muitas vezes implementadas a partir de experiências cotidianas, inserindo elementos diferenciados na estrutura vigente da época por meio de outros paradigmas técnico/ científicos e políticos. Esta readequação foi essencialmente influenciada pelos pressupostos do movimento de reforma psiquiátrica nacional que, a partir da década de 1990, ga18

Luciana Giffoni é psicóloga, com formação sanitarista e teve uma importância fundamental na elaboração de propostas diferenciadas de atendimento em saúde mental da cidade de Uberlândia. Foi eleita pela equipe profissional a primeira coordenadora de Saúde Mental do município.

118 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

nhou força política em suas reivindicações, desarticulando vários entraves e práticas retrógradas do sistema asilar. Uma de suas conquistas foi o encaminhamento de um projeto de lei ao Congresso Nacional, em 1989, pelo deputado federal Paulo Delgado (PT-MG), que trazia em suas linhas a proposta de reorganização do atendimento psiquiátrico no país e a desarticulação progressiva da estrutura asilar. Este fato incitou o surgimento de diferenciadas experiências na abordagem do adoecer psíquico, em instâncias municipais e regionais em todo o país, legitimadas pela sanção de várias portarias do Ministério da Saúde que as regulamentavam. Sua aprovação como projeto de lei nacional – Lei 10.21619 – tornou concreta a diretriz de atendimento que já vinha sendo implementada, servindo como ferramenta de defesa dos direitos dos portadores de sofrimento psíquico, pautando-se em princípios básicos de atenção e cuidado, como é possível observar nos seguintes parágrafos: Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental:
I – ter acesso ao melhor tratamento de sistema de saúde, consentâneo às suas necessidades; II – ser tratada com humanidade e respeito no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade; III – ser protegida contra qualquer forma de abuso ou exploração; IV – ter garantia de sigilo nas informações prestadas; V – ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para esclarecer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária;
19

A Lei 10.216 é conhecida como Lei Paulo Delgado, nome do parlamentar que encaminhou o projeto à Câmara dos Deputados.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 119

VI – ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis; VII – receber o maior número de informações a respeito de sua doença e de seu tratamento; VIII – ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis; IX – ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental.20

A mobilização pela aprovação do projeto ocorreu concomitante às experiências concretas, que traziam em seu bojo formas de tratamento mais complexas e humanizadas. Estas se concretizaram nas práticas terapêuticas que envolviam os aspectos sociais, culturais e subjetivos da doença, com equipes de profissionais diversificadas que atuavam em outros espaços de tratamento, muitas vezes extrapolando a abordagem do patológico e do normativo. Tenório dá o tom desta mudança de abordagem:
A intensificação do debate e a popularização da causa da reforma desencadeadas pela iniciativa de revisão legislativa certamente impulsionaram os avanços que a luta alcançou nos anos seguintes. Pode-se dizer que a lei de reforma psiquiátrica proposta pelo Deputado Paulo Delgado protagonizou a situação curiosa de ser uma “lei” que produziu seus efeitos antes de ser aprovada.21

Entre as medidas do Ministério da Saúde que vi20

21

Lei n° 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. In: BRASIL. Ministério da Saúde. SecretariaExecutiva. Secretaria de Atenção à Saúde. Legislação em saúde mental. 1990-2004. Brasília, DF, 2004. p. 17. (Série E. Legislação de Saúde). TENÓRIO, F. A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais: história e conceitos. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 36, jan/abr. 2002.

120 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

savam realizar mudanças na abordagem do adoecer psíquico, destaca-se a portaria 22422 aprovada em 1992, que apresentava entre suas diretrizes a proposta de funcionamento de instituições na modalidade de serviços substitutivos, como os Núcleos de Atenção Psicossocial (Naps) e os Centros de Atenção Psicossocial (Caps),23 delimitando sua estrutura, equipe profissional e abordagem terapêuticas. Estas disposições encontram-se da seguinte forma:
1.1 O atendimento em saúde mental prestado em nível ambulatorial compreende um conjunto diversificado de atividades desenvolvidas em unidades básicas/centros de saúde e/ou ambulatórios especializados, ligados ou não a policlínicas, unidades mistas ou hospitais. 1.2 Os critérios de hierarquização e regionalização da rede, bem como a definição da população referência de cada unidade assistencial serão estabelecidas pelo órgão gestor local. 1.3 A atenção a pacientes nestas unidades de saúde deverá incluir as seguintes atividades desenvolvidas por equipes multiprofissionais: – atendimento individual (consulta, psicoterapia e outros);
22 23

Portaria n° 224, de 29 de janeiro de 1992. In: BRASIL, 2004, p. 243. Os NAPS e os CAPS são unidades de tratamento de saúde mental, que apresentam diferenciados níveis de complexidade, contando ou não com leitos psiquiátricos; Dispõe de equipe e tratamento terapêutico complexificado. Os Naps atendem a demanda de saúde mental da região de referência e sua estrutura e funcionamento é de alta capacidade de resolução em termos de atendimentos externos, articulando-se com diferenciados dispositivos e atendimento de emergência, sendo que algumas destas unidades oferecem atendimento de emergência durante 24 horas a partir de uma estrutura mínina de leitos. Os Caps são preferencialmente regionalizados em termos de descrição da clientela e não têm necessidade de oferecer a mesma capacidade de resolução para as emergências e dar conta da totalidade de demanda de saúde mental, geralmente atendem uma clientela inscrita no serviço e às triagens, funcionando durante o dia, restringindo-se aos dias úteis e não possuem leitos de internação psiquiátrica.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 121

– atendimento grupal (grupo operativo, terapêutico, atividades socioterápicas, grupos de orientação, atividades de sala de espera, atividades educativas em saúde); – visitas domiciliares por profissional de nível médio ou superior; – atividades comunitárias, especialmente na área de referência do serviço de saúde.24

Uberlândia, nesta época, contava com uma rede de atendimento em saúde mental razoavelmente organizada que tinha à frente o setor municipal, dispondo de várias unidades de atendimento. Contudo, este setor não era organizado para atender a demanda específica de cada nível de complexidade, não havendo clareza na definição de terapêuticas, clientela específica e organização da infraestrutura das unidades de saúde. Desta forma, houve dificuldades na concretização das diretrizes apresentadas pela portaria 224. Foi necessário a adequação desta rede às prerrogativas do Ministério de Saúde, visando ao atendimento de necessidades específicas. Um dos principais entraves foi a falta de capacitação da equipe profissional, que até então não trabalhava no acolhimento de pessoas portadoras de sofrimento psíquico grave ou severo, como relata a ex-coordenadora de saúde mental Marisa Alves Santos:
Aí você cria um impasse aqui: o ambulatório, os psicólogos do ambulatório de UAI e UBS, da rede, já estavam assustadíssimos de ter que atender o grave, e aí eu só posso mandar para o Naps se estiver em crise, e quando ele não estiver em crise, o que eu faço com ele? Outras vezes, o psicólogo falava o seguinte: “– Tá! Eu acho que está em
Portaria n°. 224. In: BRASIL, 2004, p. 243.

24

122 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

crise, vou mandar para o Naps”. E o Naps dizia: “– Não está em crise”, devolvia. Então criou-se um impasse que é o seguinte: qual tipo de assistência dar? O que mais esse paciente precisa?25

Este relato pontua a falta de instrumentais e referenciais de abordagem da equipe profissional à época. Tal situação se devia, em grande parte, a deficiências das instâncias de formação de profissionais de saúde, que não ofereciam disciplinas acerca da temática de saúde mental em áreas de saber como a Psicologia, a Enfermagem e a Assistência Social. Uma vez constatada esta deficiência na prática terapêutica, a Secretária Municipal de Saúde de Uberlândia promoveu uma série de congressos e seminários como forma de suprir esta lacuna, realizando discussões e apresentando métodos de abordagem segundo as diretrizes das portarias ministeriais. As dificuldades enfrentadas por este setor também eram resultado de sua prática cotidiana, uma vez que, anteriormente, o setor público disponibilizava atendimento essencialmente aos portadores de sofrimento psíquico mais leves, atendidos em unidades básicas de saúde. Em contrapartida, os pacientes que necessitavam de atendimento mais complexo, maior acompanhamento terapêutico ou mesmo aqueles propensos à internação psiquiátrica eram encaminhados diretamente ao Ambulatório de Saúde Mental ou às outras unidades integradas a esta rede – como o Hospital de Clínicas da UFU e a Clínica Jesus de Nazaré. Neste período, a rede de saúde mental da cidade estava dimensionada da seguinte forma:

25

SANTOS, M. A. dos. Depoimentos. Uberlândia, dez. 2005. Psicóloga, foi coordenadora do setor de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia de 2001 a 2003.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 123

Existia a Jesus de Nazaré, que era um hospital-dia na época, mas a gente não sabia direito nem encaminhar, a gente encaminhava para o Pronto-Socorro da UFU e lá eles tinham que articular... Mas com a Reforma (Psiquiátrica) o que a Coordenação da época fez: existia um Ambulatório de Saúde Mental, isso existia, um Ambulatório de Saúde Mental. Então tinha psicólogo em todas as UAI e um psiquiatra em cada UAI. Quando montou as UAI, a equipe de Saúde Mental conseguiu fazer uma mini-equipe em cada UAI, então com duas psicólogas e uma assistente social e um psiquiatra em cada UAI. Mas mesmo o psiquiatra, ele atende os crônicos sim, egressos alguns, mas o psicólogo não, só o psiquiatra, e os moderados e graves, ele atendia. Então, a gente tinha uma mini-equipe de Saúde Mental nas UAI e tinha o Ambulatório Central. Esse Ambulatório atendia egressos, os egressos de internação psiquiátrica. Tinha uma equipe interdisciplinar no Ambulatório.26

A partir da redefinição da estrutura dos serviços em saúde mental, assim como os constantes processos de capacitação, foi possível redimensionar as necessidades específicas em meio a um processo envolto em diversas deficiências e dificuldades de gestão, criando-se, de forma gradual, atendimento a partir de diferentes graus de complexidade, diferenciando-se a função e a capacidade de cada unidade de saúde mental. Neste contexto, o poder público municipal tomou a frente no processo de articulação da rede de saúde mental, contando com outras instâncias que foram primordiais ao funcionamento desta complexa rede. Uma das protagonistas deste processo foi a Clínica Jesus de Nazaré, criada em 1994 a partir do projeto de um grupo de mocidade espírita da cidade – a Juventude Espírita
26

SANTOS, M. A. dos. Depoimentos. Uberlândia, dez. 2005.

124 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

de Uberlândia, que apresentou a proposta de atendimento psiquiátrico em todos os níveis de complexidade –, nas modalidades de tratamento ambulatorial e internação psiquiátrica. Visava, especialmente, ao cuidado de portadores de sofrimento psíquico grave ou severo, principalmente, egressos de internações psiquiátricas, que na maioria das vezes, contavam em seu histórico com experiências permeadas de sofrimento e exclusão, às quais eram submetidos em manicômios que ministravam terapêuticas violentas e invasivas. Esta clínica, organizada segundo parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Saúde, desde sua implantação agregou-se à rede de serviços em saúde mental da cidade, trabalhando em parceria com unidades do poder público municipal e o Hospital de Clínicas da UFU. Neste sentido preenchia, em parte, a lacuna deixada pelo Sanatório Espírita de Uberlândia, totalmente desativado em 1992.27 Definida como Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS), esta clínica agregava diferenciadas modalidades de atendimento, como Naps I, Naps II, Naps 24 horas, definidas segundo sua infraestrutura, equipe técnica e terapêuticas ministradas, atendendo aproximadamente 200 usuários por mês entre todas as modalidades listadas. Dispunha, para tal, de 44 leitos psiquiátricos para internação e acompanhamento de pacientes graves. O diferencial desta instituição inscrevese no caráter de sua gestão, reconhecida como filantrópica, oferecendo maior diversidade de modalidades de tratamento. O diretor e fundador da instituição nos apresenta a estrutura:
27

O Sanatório Espírita de Uberlândia sofreu grande pressão principalmente por parte da Secretaria Municipal de Saúde e outras instâncias de fiscalização, como o setor de Vigilância Sanitária, para que readequasse sua infraestrutura e equipe profissional aos parâmetros exigidos pelas portarias ministeriais. Contudo, era sustentada por doações da comunidade local, não conseguindo atender às prerrogativas a ela impostas (principalmente devido a sua falta de recursos), o que levou a sua total desativação no ano de 1992.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 125

Então nós tínhamos Naps I, Naps II e o ambulatório. O Naps I é o que o paciente vem meio período, Naps II vem no período da tarde, um de manhã e um à tarde. E tem o Naps integral que fica oito horas, para aquele que é mais grave. E nós conseguimos também o ambulatório. A nossa sorte é eles terem dado o Naps e o ambulatório, pois nós tínhamos muitos pacientes. Eles vieram aqui e nós tínhamos muitos pacientes. Porque o Naps, só atendia quarenta e cinco pacientes e como nós tínhamos duzentos, tinha que ter ambulatório. Então eles puseram Naps e ambulatório.28

Outros protagonistas se inscrevem no quadro de modificação da estrutura de atendimento psiquiátrico da cidade, como o Hospital de Clínicas da UFU, que a partir da década de 1990 sofreu inúmeras reformas em sua forma de abordagem, várias delas prerrogativas impostas pelo Ministério da Saúde. A partir de então, desenvolveu experiências que agregaram novos setores profissionais como psicólogos e terapeutas ocupacionais. O objetivo era modernizar e ampliar práticas terapêuticas, explorando elementos sociais e subjetivos em sua abordagem. Estas modificações são apresentadas por Dantas:
Segundo a psicóloga Maria José de Castro Nascimento, o serviço hospitalar e o extra-hospitalar foi organizado pela Portaria 224 de 1992, em relação ao tipo de profissional, tipo de atividade que deveria ser executada pelos pacientes, número de pacientes e as características dos locais de tratamento. Essa lei proibiu práticas abusivas em hospitais psiquiátricos, como as celas fortes, e definiu-se como co-responsáveis em seu cumprimento os níveis estadual e
28

MORAIS, M. Depoimentos. Uberlândia, dez. 2005. Radialista, liderança do grupo de mocidade Juventude Espírita de Uberlândia, idealizador e diretor da Clínica Jesus de Nazaré desde sua fundação, em 1994.

126 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

municipal do sistema de saúde. Também foram definidos os profissionais específicos para atendimento nos Naps/ Caps: médico psiquiatra, enfermeiro, profissionais de nível superior e profissionais de nível médio e elementar. Já os leitos/unidades em hospital geral, como é o caso da enfermaria de Psiquiatria no Hospital de Clínicas da UFU, deveriam contar com médico psiquiatra, psicólogo, enfermeiro, profissionais de nível superior (psicólogo, assistente social e/ou terapeuta ocupacional) e profissionais de nível médio e elementar para o desenvolvimento das atividades.29

Na década de 1990, estas três instâncias compunham a rede de atendimento em saúde mental em Uberlândia, e cada uma delas forjou seus pressupostos de forma diferenciada. Porém, todas agregavam ao seu funcionamento e infraestrutura princípios da reforma psiquiátrica, obedecendo a interesses políticos e sociais diversos em busca da legitimação de suas práticas e abordagens. Em várias oportunidades, houve embates e lutas simbólicas pela definição de qual conceito de saúde mental seria o hegemônico na cidade. Estas sutilezas são desveladas pelo psiquiatra Sérgio Maldi, que elenca nestes posicionamentos reflexos de práticas assistencialistas, cientificistas, algumas delas pautadas nos princípios do movimento de reforma psiquiátrica:
A Prefeitura tem a noção diretamente ditada pelo movimento de reforma psiquiátrica, a noção de que não é apenas a doença mental que deve ser pensada, mas como se dá a inserção deste paciente na sociedade. A noção da Universidade é mais científica, mais médica e menos social,
29

DANTAS, V de F. Arte, loucura e terapias: uma reflexão contemporâ. nea (O Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia e as Oficinas Terapêuticas). 2006. p. 146. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2006.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 127

vamos dizer assim. Então, lá na Universidade, o doente é visto realmente como uma pessoa que está passando por problemas de saúde. Lá na Prefeitura a visão do doente mental é de uma pessoa que tem problemas de saúde, mas que o maior problema dele não é a saúde, e sim o modo como ele convive com a sociedade na qual ele está inserido, entendeu? E a Clínica Jesus de Nazaré tem uma noção do doente que mistura as duas, entende, a dimensão médica e tenta abordar também uma questão social. Prova disso é aquilo que eu comentei, dos pacientes que permanecem aqui a despeito da alta médica. Então são três unidades que, independentes da auto-suficiência, da auto-afirmação, são três unidades que disputam o nome que vão dar aos seus usuários. É uma questão conceitual, o nome que a Prefeitura dá, o nome que a Universidade dá e o nome que a Clínica Jesus de Nazaré dá para aquele problema, isso é a essência da coisa. Poderia ter um diálogo? Poderia ter, mas é muito complicado.30

A proposta de reorganização dos serviços de saúde mental apresentada pelo Ministério da Saúde, a partir da aprovação da Lei 10.216, em 2001, deparou-se em Uberlândia com uma infraestrutura de atendimento composta pela rede municipal – com UAI, UBS, Naps Adulto e Infantil, três Centros de Convivência –, Hospital de Clínicas da UFU e a Clínica Jesus de Nazaré – que mesmo oferecendo psicoterapia e internação psiquiátrica não atendia às necessidades da população local, pois apresentavam diversas deficiências:

30

MALDI, S. A. G. Depoimentos. Uberlândia, dez. 2005. Médico psiquiatra. Atua nas três instâncias de atendimento em saúde mental da cidade de Uberlândia (Clínica Jesus de Nazaré, Caps e Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia).

128 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

A partir de todos esses dados, procede a seguinte análise: – Os 3 (três) Naps (Adulto, Infantil e da Clínica Jesus de Nazaré) realizavam somente, conforme definição da portaria GM/MS 336/02, o atendimento intensivo; – Os 3(três) Centros de Convivência davam cobertura assistencial somente a 3 (três) regiões específicas do município (Distrito Sul, Oeste e Central Norte) e contando com equipe técnica de nível superior composta somente por assistentes sociais e psicólogas “itinerantes”, já realizava o atendimento semi-intensivo proposto para Caps; – Não era oferecida modalidade de atendimento intensivo e nem semi-intensivo para pacientes de faixa etária de 12 a 18 anos. – Era inviável viabilizar projetos arquitetônicos para o processo de credenciamento, de um imóvel alugado de alto custo que mesmo assim teria que ser ajustado segundo exigências da resolução SES/MG 793/93, onde funcionava o Naps adulto e do imóvel onde funcionava o Naps Infantil por total inadequação. – Volume populacional dos Distritos Sanitários comportava até um Caps II por distrito; – Com pequeno investimento em recursos humanos e com baixa nos custos de aluguel seria possível a realização de projetos de Caps II regionalizados e pelo menos um Caps III (para infância e adolescência); – Não se teria recursos necessários para implantação imediata de Caps III e Caps ad II.31

A partir da análise destes dados percebe-se que a rede de saúde mental municipal necessitava realizar uma infinidade de adequações, principalmente no setor público, já que contava com embriões de organização, sem
31

UBERLÂNDIA. Prefeitura Municipal de Uberlândia. Secretaria Municipal de Saúde. Relatório de gestão 2002. Uberlândia, 2002. p. 84-85.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 129

apresentar uma estrutura clara de cada uma de suas unidades, definição de clientela-alvo e terapêuticas disponibilizadas para seus usuários. Contava entre suas unidades com o Ambulatório de Saúde Mental Infantil32 – que aplicava práticas terapêuticas específicas para crianças no cuidado ao sofrimento psíquico –, assim como os Centros de Convivência33 – que se inspiraram na experiência da cidade de Belo Horizonte –, mas apresentava limitações, pois estes se restringiam aos espaços de psicoterapia com uma equipe profissional itinerante. Desta forma, o poder público municipal adequou suas unidades de atendimento, principalmente os Naps Adulto e Infantil e os Centros de Convivência para o credeciamento como Caps. Todavia, somente duas unidades apresentaram os parâmetros exigidos pelo Ministério da Saúde, recebendo a partir de então recursos diretamente da instância nacional. As outras unidades, organizadas na modalidade Caps, compunham a mesma estrutura e recebiam subvenções da Secretaria Municipal de Saúde. A Clínica Jesus de Nazaré, que continha várias modalidades de Naps, foi descredenciada neste processo, visto
32

33

O Ambulatório de Saúde Mental Infantil foi implantado em 1992 e sua proposta de atendimento à criança portadora de sofrimento psíquico constituía-se em um dos projetos do setor público municipal. É voltado ao trabalho de cuidado e prevenção de enfermidades mentais de crianças autistas e psicóticas, assim como acompanhamento de crianças com dificuldades de aprendizado escolar. Este projeto vislumbrava criar um centro de referência neste setor, funcionando como um observatório de práticas e estratégias de abordagens terapêuticas. Os Centros de Convivência de Uberlândia, criados pelo setor público municipal foram o esboço dos Caps locais e compunham-se de unidades que em um primeiro momento, ofereciam oficinas terapêuticas, atendendo usuários dos serviços de saúde mental que necessitavam de acompanhamento mais constante, desvinculando-os das unidades básicas de saúde como as UAI e UBS. Estes centros contavam com uma equipe profissional itinerante, uma vez que faltavam recursos para a contratação de novos profissionais, enfrentando também dificuldades financeiras para a manutenção de sua infraestrutura.

130 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

que o Ministério da Saúde privilegiava o financiamento de instituições públicas, seguidas por instituições filantrópicas – modalidade na qual inscreve-se esta instituição –, seguida de instituições particulares. Tal fato gerou certa tensão entre a Clínica Jesus de Nazaré e a Secretaria Municipal de Saúde, beneficiada com esta medida. Para dar continuidade ao seu funcionamento, a clínica se tornou dependente de recursos provenientes da Secretaria Municipal de Saúde para o pagamento de sua equipe profissional, perdendo, desta forma, sua autonomia. Com a reorganização dos serviços de saúde mental da cidade, o poder municipal legitimou ainda mais seu poder de decisão sobre a forma de organização desta rede, que passou a ser composta da seguinte forma: Todos os Caps passaram a operar como tal a partir do mês de novembro/2002 e a rede de assistência em Saúde Mental de Uberlândia passou a ser constituída da seguinte forma:
Ambulatórios Distritais – atendimento psicológico a usuários e familiares com transtornos psíquicos graves prioritariamente, contando com um(a) psicólogo(a) em cada UBS (exceto: UBS Custódio Pereira, São Jorge, Tocantins e Martins) que conta com 2 (dois) em cada UAI. Quatro Caps II regionalizados – cada Caps II conta com uma equipe de 5(cinco) psicólogos, 2 (dois) assistentes sociais, 1 (um) ou 2(dois) auxiliares /técnicos de enfermagem, serviços gerais oficiais administrativos, médico psiquiatra. O Caps II credenciado conta com 1(uma) enfermeira; todos contam com coordenadora de unidade (psicóloga); desenvolvem atividades de acolhimento diário, atendimento individual (medicamento, psicoterápico e orientação), atendimento em grupos, atendimentos em oficinas terapêuticas, visitas domiciliares, atendimento à família, busca ativa e atividades comunitárias).

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 131

Caps III de referência municipal – conta com uma equipe de 5 (cinco) psicólogos, 2(duas) assistentes sociais, 1 (uma) fonoaudióloga, 1 (uma) fisioterapeuta, 2 (duas) auxiliares de enfermagem, 1(uma) enfermeira e a coordenadora da unidade (psicóloga). No final de 2002, contava com atendimento psiquiátrico somente de referência na UFU. Realiza atividades de acolhimento diário, atendimentos individuais, de grupo (psicoterapia orientações), acompanhamento social, atendimento fonoaudiólogo e fisioterapêutico, acompanhamento da equipe de enfermagem, oficinas terapêuticas, atendimento à família, atividades comunitárias e de inserção social e escolar e visita domiciliar. A Clínica Jesus de Nazaré – se mantêm como referência de ambulatório especializado e de internação integral (30 leitos). A internação integral se mantém da mesma forma excetuando ao fato de melhores relacionamentos com HC – UFU na tentativa de organizar o fluxo de atendimento dentro da rede de Assistência em Saúde Mental.34

A rede de saúde mental de Uberlândia, estruturada a partir de 2001, lançou as bases de sua estrutura definitiva, tal como encontramos hoje. No entanto, várias foram as modificações na infraestrutura de cada unidade e em suas formas de abordagem e práticas terapêuticas, dadas em meio a uma série de dificuldades e limitações. Esta rede tornou constante sua participação em vários eventos promovidos pelo movimento de reforma psiquiátrica nacional e regional, com a representação de delegados que encaminhavam propostas pautadas em experiências desenvolvidas localmente.35
34 35

UBERLÂNDIA, 2002, p. 86. Os delegados que participam de congressos locais, regionais e nacionais são profissionais de saúde e usuários dos serviços de saúde mental ligados ao poder público municipal, Clínica Jesus de Nazaré e Hospital

132 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Destaca-se entre os avanços da organização desta rede a fundação, em 2001, da Associação dos Usuários dos Serviços de Saúde Mental de Uberlândia (Adusmu),36 que desde então atua como instância de controle e defesa dos direitos dos portadores de sofrimento psíquico da cidade, fiscalizando serviços e apresentando propostas de melhoria no atendimento em saúde mental na cidade, assim como protegendo seus direitos. Atualmente, a cidade de Uberlândia, com uma população de 650.000 habitantes, conta com cinco instituições municipais na modalidade Caps – distribuídas em seus cinco distritos sanitários, atendendo a uma população de 100.000 pessoas por distrito cada uma – além dos serviços disponibilizados pelo Hospital de Clínicas da UFU e a Clínica Jesus de Nazaré –, com uma média de 200 usuários atendidos por mês, inclusive com o oferecimento de leitos psiquiátricos, segundo diretrizes do Ministério da Saúde.37 Comparando estes números com a média nacional e estadual, nota-se que a cidade dispõe de uma estrutura de atendimento razoável, porque entre as 68938 unidades de serviços em saúde mental
de Clínicas da UFU. Em 2001, no III Congresso Nacional de Saúde Mental, um dos Caps ligado ao setor público municipal recebeu o Prêmio Capistrano de Abreu, que premiou os dez melhores serviços desta modalidade no país, devido a sua forma de gestão e terapêuticas desenvolvidas. A Associação dos Usuários dos Serviços de Saúde Mental de Uberlândia (Adusmu) foi criada em 2001 na cidade de Uberlândia e muito de sua organização pautou-se em experiências já existentes em outras cidades, recebendo grande influência da Associação de Usuários da cidade de Belo Horizonte. Uberlândia têm uma população de aproximadamente 650.000 habitantes e conta com sete unidades de atendimento intensivo de saúde mental (cinco Caps, o Hospital de Clínicas da UFU e a Clínica Jesus de Nazaré), distribuídos de forma razoavelmente equivalente na cidade. Disponível em: <http//portal.saude.gov.br>. Acesso em: 8 jul. 2007. Estes dados foram extraídos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estimativa populacional do ano de 2005. Obs.: Para o cálculo do indicador Caps 100.000 habitantes. Considera-se que o Caps I dá resposta efetiva a 50.000 habitantes, que o Caps II dá cobertura

36

37

38

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 133

do país, 88 localizam-se no Estado de Minas Gerais, o que abrange uma população de 19.237.450 habitantes.39 Estes números demonstram um grande crescimento na abertura deste tipo de serviço em todo o país, principalmente depois da implementação da Lei 10.216, com programas de incentivo promovidos pelo Ministério da Saúde e pelas iniciativas de diversos municípios em modificar parâmetros de atendimento em saúde mental. Entretanto, mesmo com a constante pressão e fiscalização do movimento de luta antimanicomial em instituições asilares, reivindicando a extinção deste tipo de instituição, esta meta não foi totalmente cumprida, tendo pela frente vários entraves à superação deste modelo. Observa-se ainda várias lacunas e demandas de atendimento em diversas regiões do país, como demonstra reportagem da revista Caros Amigos, publicada em abril de 2006, em comemoração ao aniversário da aprovação da Lei 10.216:
O Brasil hoje tem 42.000 internos em 240 hospitais psiquiátricos. É o terceiro repasse do SUS (Sistema Único de Saúde) e, apesar da política do Ministério da Saúde de diminuição gradual dos leitos, 63 por cento das verbas de saúde mental vão para manicômios.40

Desta forma, percebe-se que a cidade de Uberlândia, assim como várias outras localidades do país, passaram por um profundo processo de modificação dos serviços de saúde mental, com a desarticulação de vários manicômios e asilos que utilizavam práticas violentas. Porém, ainda ena 150.000 habitantes e que o Caps II, Capsi e Capsad dão cobertura a 100.000 habitantes. Disponível em: <http//portal.saude.gov.br>. Acesso em: 8 jul. 2007. DIP A. Cidades Esquecidas. Revista Caros Amigos, São Paulo, ano 10, n. , 109, p. 20, abr. 2006.

39 40

134 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

frenta diversos desafios, como a necessidade de (re)inserção de milhares de usuários dos serviços de saúde mental, que muitas vezes, mesmo não estando atrás dos muros dos manicômios, continuam isolados e excluídos de várias instâncias de participação social, que muitas vezes encontramse fechadas a estes sujeitos. Como demonstra Jubel:
A superfluidade dos “válidos inúteis”a que me referi, caracteriza decerto um dos pontos de impasse de serviços de (re) inserção na esfera da cidadania, sendo um fator adicional de uma nova cronicidade, que surpreendeu a quantos esperavam que a mera derrubada dos muros dos manicômios resultasse na abolição do processo de cronificação. É forçoso reconhecer com certa amargura que a “sétima cavalaria” da reforma chegou demasiado tarde, encontrando já parcialmente em ruínas a construção inacabada do welfare state e já instalada um nova e inclemente discriminação a barrar a passagem aos que se habilitassem a tentar o ingresso nesse mundo, depois de superada a exclusão prévia do estigma da doença mental.41

Vários são os desafios desta nova fase do movimento de reforma psiquiátrica, que hoje enfrenta a difícil (re)inserção de milhares de usuários dos serviços de saúde mental em uma sociedade extremamente excludente e elitista. Além disso, muitas vezes o corpo profissional apresenta deficiência e limitações no cuidado do sofrimento mental, uma vez que desvincula os sujeitos de suas particularidades e facetas variadas – características do indivíduo –, enxergando apenas a enfermidade. Neste sentido, muitas vezes não são capazes de perceber a dimensão social que envolve o paciente:
41

BARRETO, J. O umbigo da reforma psiquiátrica: cidadania e avaliação de qualidade em saúde mental. Juiz de Fora: Ed. da UFJF, 2005. p. 46.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 135

Ao modelo sintomatológico seria preciso opor um campo processual em que a fala de um paciente, por exemplo, não fosse apenas indício de um sintoma, mas “produção de um sujeito social dentro dos limites, certamente problemáticos, que a loucura impõe”. Há aqui uma exigência clara, que é ao mesmo tempo de caráter ético, político, teórico e clínico: não perder de vista o paciente concebido como uma matéria a um só tempo existencial e social que incessantemente se produz na instituição. A partir desta ótica, a subjetividade não pode ser concebida como um dado, muito menos como a encarnação de uma entidade nosográfica. Ela é uma produção social e existencial singular.42

Sendo assim, nota-se que mesmo com os avanços apresentados ao longo desta análise muito tem que ser feito para a modificação da condição de vida de diversas pessoas que hoje sofrem de distúrbios psíquicos. Uma das primeiras coisas que podemos listar é a tentativa de desconstruir estigmas que ainda os atam e os submetem a uma exclusão branda, uma vez que os muros simbólicos ainda não foram totalmente derrubados e as portas para a participação real na sociedade não foram abertas. Como demonstra Pelbart:
A análise do modelo instituicional vigente no atendimento aos doentes mentais no serviço público mostra a hegemonia da tecnologia médica, seja na avaliação terapêutica (priorização da sintomatologia), na prescrição da medicação (ajuste à expressividade do sintoma), seja ainda na utilização de técnicas psicológicas mediadas pela palavra, que apenas adaptam o paciente “às figuras do sintoma”. Nesse sentido, continua-se nos parâmetros que Foucault
42

PELBART, P P Os loucos trinta anos depois. Revista Novos Estudos . . Cebrap, São Paulo, p. 173, n. 42, jul. 1995.

136 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

havia denunciado: a figura do médico ainda é depositária de todas as expectativas do tratamento. Com o agravante de que a doença é compreendida majoritariamente como fruto de disfunções de ordem biológica.43

A possibilidade da real inserção do portador de sofrimento psíquico não depende somente de políticas públicas. O nó está hoje no envolvimento e discussão desta enfermidade com a sociedade atual. Não bastam leis para impor mudanças, só por meio do debate é possível conscientizar os sãos da aceitação de diferenças, do convívio com o outro que, apesar de seu sofrimento, é capaz de contribuir na construção de uma outra história. Um passo foi dado para a desconstrução da exclusão dos portadores de adoecer psíquico, agora devemos nos voltar a formas concretas de reinserção e participação social destes sujeitos.

43

PELBART, 1995, p. 173.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 137

referências

ALVARENGA, N. M. Movimento popular, democracia participativa e poder político local: Uberlândia 1983/88. Revista História & Perspectivas: Poder local e representações coletivas, Uberlândia, n. 4, p. 103-129, jan./jun. 1991. BARRETO, J. O umbigo da reforma psiquiátrica: cidadania e avaliação de qualidade em saúde mental. Juiz de Fora: Ed. da UFJF, 2005. BASAGLIA, F. A instituição negada. Rio de Janeiro: Graal, 1985. BASAGLIA, F. A Psiquiatria alternativa. Contra o pessimismo da razão, o otimismo da prática. São Paulo: Brasil Debates, 1979. BOFF, A. B. Espiritismo, alienismo e medicina: ciência ou fé? Os saberes publicados na imprensa gaúcha da década de 20. 2001. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2001. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria-Executiva. Secretaria de Atenção à Saúde. Legislação em saúde mental. 1990–2004. Brasília, DF, 2004. (Série E. Legislação de Saúde). CARDOSO, H. H. P SANTOS, C. M. S. Uberlândia nas linhas de .; enfrentamento: a democracia participativa nas páginas da imprensa. Cadernos de Pesquisa do CDHIS, Uberlândia, n. 33, p. 231-241, 2005. CHAUÍ, M. A questão democrática. In: ______. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. São Paulo: Moderna, 1982. p. 137-162. COSTA, J. F. História da Psiquiatria no Brasil: um corte ideológico. 4. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Xenon, 1989.

138 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

CUNHA, M. C. P Cidadelas da ordem. São Paulo: Brasiliense, 1990. . DANTAS, V de F. Arte, loucura e terapias: uma reflexão contemporâ. nea (O Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia e as Oficinas Terapêuticas). 2006. p. 146. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2006. DIP A. Cidades Esquecidas. Revista Caros Amigos, São Paulo, ano , 10, n. 109, p. 20, abr. 2006. FOUCAULT, M. Os anormais: Curso do Collège de France (19741975). São Paulo: Martins Fontes, 2001. FOUCAULT, M. Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991. FOUCAULT, M. A história da loucura na idade clássica. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 1999. FOUCAULT, M. Nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. JESUS, V F. Poder público e movimentos sociais. Aproximações e dis. tanciamentos. Uberlândia – 1982-2000. 2002. Dissertação de (Mestrado em História) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2002. LUZ, M. T. A história de uma marginalização: a política oficial de saúde mental. In: AMARANTE, P D. de C. (Org.). Psiquiatria social e . reforma psiquiátrica. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1994. p. 92. MACHADO, R. Danação da norma. Rio de Janeiro: Graal, 1978. MOFFATT, A. Psicoterapia do oprimido: ideologia e técnica da Psiquiatria popular. São Paulo: Cortez, 1983. PACHECO, F. P Mídia e poder: representações simbólicas do au. toritarismo na política. Uberlândia – 1960/1990. 2001. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia. 2001. PEREIRA, J. F. O que é loucura. São Paulo: Brasiliense, 1993.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 139

PEREIRA, L. M. de F. Os primeiros sessenta anos de Terapêutica Psiquiátrica no Estado de São Paulo. In: ANTUNES, E. H.; BARBOSA, L. H. S.; PEREIRA, L. M. de F. (Org.). Psiquiatria, loucura e arte. Fragmentos da história brasileira. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002. p. 33-53. PESSOTTI, I. A loucura e as épocas. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. POMBO, R. M. R. História e loucura: práticas e terapêuticas do Sanatório Espírita de Uberlândia. (1940-1970). Cadernos de Pesquisa do CDHIS, Uberlândia, n. 33, p. 292-300, 2005a. POMBO, R. M. R. A loucura sob novo prisma: políticas de Saúde Pública em Uberlândia. Implantação dos CAPS. (1983-2004). 2005. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em História) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2005b. POMBO, R. M. R. A nova política de saúde mental: entre o precipício e paredes sem muros. (Uberlândia 1984-2006). 2007. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2007. PORTER, R. Uma história social da loucura. Rio de Janeiro: Zahar, 1991. RIBEIRO, R. A. Almas enclausuradas: práticas de intervenção médica, representações culturais e o cotidiano do Sanatório Espírita de Uberlândia. (1932-1970). 2006. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2006. SANTOS, N. M. W A tênue fronteira entre a saúde e a doença mental: . um estudo de casos psiquiátricos à luz da nova História Cultural (1937-1950). 2000. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2000. TENÓRIO, F. A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais: história e conceitos. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 36, jan./abr. 2002.

140 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

UBERLÂNDIA. Prefeitura Municipal de Uberlândia. Secretaria Municipal de Saúde. Relatório de gestão 2002. Uberlândia, 2002. VALÉRIA, A. Pedaços. Notícias do Caps, Informativo do Centro de Atenção Psicossocial do Distrito Sanitário Sul, Uberlândia, n.4, p. 1, jan./mar. 2004. WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos. Uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002. DEPOIMENTOS MALDI, S. A. G. Depoimentos. Uberlândia, dez. 2005. Médico psiquiatra. Atua nas três instâncias de atendimento em saúde mental da cidade de Uberlândia (Clínica Jesus de Nazaré, Caps e Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia). MORAIS, M. Depoimentos. Uberlândia, dez. 2005. Radialista, liderança do grupo de mocidade Juventude Espírita de Uberlândia, idealizador e diretor da Clínica Jesus de Nazaré desde sua fundação, em 1994. SANTOS, M. A. dos. Depoimentos. Uberlândia, dez. 2005. Psicóloga, foi coordenadora do setor de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia de 2001 a 2003.

a loUcUra sob Um oUtro olhar

• 141

Capítulo 5

a ordeM psiquiátrica e a Máquina de luz entre saberes, práticas e discursos sobre a loucura (paraná, final do curar: o hospício nossa senhora da

século xix e início do século xx)1
Maurício Noboru Ouyama2

“O asylo bem organizado é o mais poderoso instrumento contra as doenças mentais.” Rodolfo Pereira Lemos, médico do Hospício Nossa Senhora da Luz, 1912. “Se existe classe que mereça uma vigilância esclarecida, benévola e ativa é a dos doidos”. Sigaud, Reflexões acerca do livre trânsito dos doidos pelas ruas do Rio de Janeiro, 1835.
1

2

Este trabalho foi escrito como resultado parcial das pesquisas feitas para a confecção de minha tese de doutorado apresentada ao curso de PósGraduação em História da Universidade Federal do Paraná em março de 2006. Doutor em História – Universidade Federal do Paraná.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 143

Figura 1 – Edifício André de Barros Figura 1 Fonte: Castro (2004, p. 36).

– Edifício André de Barros3

Um espaço, um jardim patológico: o mundo dos loucos Quem entra no Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz4 tem a sensação de que a liberdade foi deixada para trás.5 Logo na entrada, a imponência do edifício André de Barros assusta.6 Mas, um pouco depois, a natureza se destaca do concreto no amplo jardim central em que se distribuem os pavilhões de internamento. E o que os olhos registram é a passagem para um outro cenário, que muitas vezes não tem volta.
3

4

5

6

CASTRO, E. A arquitetura do isolamento em Curitiba na República Velha. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 2004. p. 36. Agradeço a Elisabeth A. de Castro pela autorização das imagens referentes ao Hospício Nossa Senhora da Luz. Cf. CASTRO, 2004. Visitei o Hospício Nossa Senhora da Luz pela primeira vez em 2001 na época do meu mestrado. Foram várias visitas no período entre 2001 e 2005 em que alternei minha pesquisa entre a documentação existente no Hospício Nossa Senhora da Luz, nos arquivos da Santa Casa de Misericórdia, na Casa da Memória e Arquivo Público do Paraná. O edifício André de Barros abriga o setor administrativo e a capela do Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz.

144 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Quem quer que visite um hospital moderno tem a sensação de que dentro do asilo, nos confins da cidade, uma estranha e perturbadora fauna e flora hospitalar emergem, desencadeando velhos gestos do passado, toda uma maquinaria do asilamento.7 A rotina do hospital parece inalterada há mais de cem anos. Fotografias tiradas por ocasião do seu cinquentenário assemelham-se a realidade que conheci por ocasião de minhas pesquisas no hospital em 2001. Entrar no hospício Nossa Senhora da Luz e deparar-se cara a cara com a loucura contemporânea – drogada, medicalizada, classificada – é uma experiência perturbadora. Exemplos de abandono familiar são comuns naquele lugar: pessoas que por suas atitudes diferentes ou por algum outro motivo são levadas para lá. Rostos solitários de indivíduos sem identidade, que não se lembram do sobrenome e que não tem para onde ir. Lembranças expressas na fala balbuciante e no gesto desconexo de uns ou no silêncio guardado a sete chaves de outros. Em cada rosto, quase sempre a mesma característica: olhar parado, curioso, que fica imóvel em frente à televisão. Às vezes, um grunhido incompreensível é acompanhado de um dedo em riste, outras vezes, acompanhado de urina calça abaixo. Uma confusão reinante que chamamos de loucura. Criado em março de 1903 pelo monsenhor Alberto Gonçalves, provedor da Santa Casa de Misericórdia, o Hospício Nossa Senhora da Luz foi idealizado para ser referência no Paraná,8 tendo como modelo o hospício do Juquery em São Paulo.9 O Hospício Nossa Senhora da Luz
7

8

9

Cf. os grandes rituais da maquinaria asilar ou do Tratamento Moral dos loucos estão descritos em FREMVILLE, B. La Raison du plus fort: traiter ou maltraiter les fous? Paris: Seuil, 1987. MUNHOZ VAN ERVEN, H. Breve histórico do Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz. Curitiba: Mundial, 1944. CUNHA, M. C. O espelho do mundo: Juquery, a história de um asilo. São Paulo: Paz e Terra, 1988.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 145

teve duas sedes. Primeiramente, funcionou no terreno construído no bairro do Ahú. Quatro anos após sua inauguração, o hospício foi transferido para sua sede atual no outro lado da cidade, na Rua Marechal Deodoro da Fonseca, bairro do Prado Velho. Atualmente, o hospital é administrado pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. São 130.000 m2 de área construída, cinco pavilhões na ala masculina e três pavilhões na ala feminina. Uma instituição mais que centenária, é, ainda hoje, um dos hospitais psiquiátricos do Paraná. Sua história confunde-se com a própria história da Psiquiatria paranaense. As jaulas dos quartos de confinamento do passado sumiram, mas a solidão continua a rondar o espaço.10 Diante dos mil rostos da desordem, perceber o espaço hospitalar como uma experiência histórica requer a exigência de ultrapassar a esta questão urgente para os Direitos Humanos: o que fazer com os loucos? – e perceber o hospício como uma instituição social, como objeto privilegiado para o campo da análise histórica. Hospital e história social Durante muito tempo, o hospital e, sobretudo, o hospital psiquiátrico, manicômio ou hospício, não era objeto de investigação nos círculos acadêmicos por ser considerado um tema inferior ou secundário. Domínio exclusivo
10

Num ensaio sobre Win Wenders, Peter Pál Pelbart comenta que o Hospital-Dia, forma em que os pacientes não são internados, mas voltam para casa no final do dia, é como a Nau dos Loucos descrita por Michel Foucault em História da Loucura. “[...] mas que ao invés de vagar à deriva das águas, como na Renascença, aportou em solo urbano”. A explicação nos pareceu oportuna, pois o Hospital-Dia, forma adotada pelo Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz, também pode despontar como um dispositivo a mais de homogeneização social. Cf. PELBART, P. P. A Nau do Tempo-Rei: sete ensaios sobre a loucura. Rio de Janeiro: Imago, 1993. p. 22.

146 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

da doença e da morte, da técnica e do sobrenatural num mesmo gesto, o hospital não era digno de discussão pelos estudiosos. Mas os tempos mudaram. Agora, o hospital e as políticas de saúde pública são objetos dos cálculos econômicos, como demonstrou Michel Foucault em seus cursos Em defesa da Sociedade e Nascimento da Biopolítica.11 O campo social se alargou imensamente. Deste modo, o hospital tornou-se objeto da historiografia recente, inspirada nos trabalhos de Robert Castel e Michel Foucault,12 Pois o estudo da instituição asilar tornou-se um terreno fértil para engendrar discussões a respeito do papel político e social dos saberes. Efetivamente, o meio médico tem tentado revestir o discurso sobre o hospital de modo hegemônico, do ponto de vista da evolução da técnica, recobrindo as críticas de seus opositores. Mas a complexidade das relações do espaço hospitalar não deve limitar-se ao foco da sua gestão e das constantes evoluções técnicas. O hospital, o hospício, o asilo de alienados, não pode ser visto como simples técnica de gerenciamento, nem pode ser entendido como algo descolado de seu campo social. Mesmo o estabelecimento hospitalar não é administrado da mesma forma que o organismo público. Médicos e psiquiatras estão imbuídos numa teia complexa de relações de poder. Nem tudo na vida deve ser revestido da sacralidade com que alguns pretendem circundar o ato médico ou sua criação maior, o hospital. Para transformar o hospital (e suas variações: o leprosário, o
11

12

Michel Foucault realizou os cursos “É preciso defender a sociedade” (1975-1976) e “Nascimento da Biopolítica” (1978-1979) no Collège de France, cujos resumos encontram-se disponíveis em FOUCAULT, M. Resumo dos cursos do Collège de France. 1970-1982. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. FOUCAULT, M. História da loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1999a; CASTEL, R. A ordem psiquiátrica: a Idade de Ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 147

hospício, a casa de internamento, o lazareto), é preciso ir além da técnica e explicar suas razões e seus conflitos dentro do campo social. Foi dentro destas discussões que este trabalho surgiu, tendo como referência os estudos seminais de Michel Foucault em História da Loucura. Tendo iniciado minha pesquisa em 1999, este trabalho resultou na feitura de uma tese de doutorado, em 2006, com o título de Uma máquina de curar: o Hospício Nossa Senhora da Luz e a formação da tecnologia asilar13 cujo teor evoco brevemente nas linhas a seguir. “(Re)construindo o cenário”: Curitiba no final do século XIX e início do XX “A velha vila enfezada marcha para um novo desenvolvimento”.14 Estas palavras do viajante AveLallemant definem bem o período de transformações pelo qual Curitiba passou nas últimas décadas do século XIX. Para entender o surgimento do Hospício Nossa Senhora da Luz em Curitiba é preciso conhecer a Curitiba de um século de mudanças que significou, entre outras coisas, na transformação da cidade em capital da Província do Paraná. O Paraná Província, independente de São Paulo desde 1853, teve de se adaptar a partir da segunda metade do século XIX a uma série de exigências político-administrativas do Império para sua transformação à condição de capital. Nesta época, como nos demonstrou o historiador curitibano Romário Martins em seu livro Curitiba de outr´ora e de hoje, a cidade era
13

14

Agradeço imensamente a minha orientadora Ana Paula Vosne Martins e igualmente a banca examinadora composta por Yonissa Wadi (Unioeste), Luiz Otávio Ferreira (Fiocruz), Ana Maria Oda (Unicamp) e Ana Maria Burmester (UFPR) pelas sugestões pertinentes. AVÉ-LALLEMANT, R. Viagens pelas Províncias de Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.

148 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

uma insignificância, que de cidade só tinha o predicamento official. Possuía 27 quarteirões, com 308 casas, 52 em construção, 38 estabelecimentos comerciais de fazendas e 35 secos e molhados.15

Da mesma forma que cidades como Paris, Viena, Londres e Rio de Janeiro passaram por grandes transformações urbanas no fin-de-siècle, Curitiba também atravessava um momento de transformação, palco de construções públicas, bulevares, avenidas, casebres, praças e jardins, logradouros e macadam. A cidade outrora descrita como um acampamento militar, agora ganhava novos traços. Não se pretenderia dizer que Curitiba oitocentista, pacata e provinciana, imprimiu um mesmo ritmo de mudanças das grandes metrópoles do mundo. Mas também nesta cidade, as transformações se fizeram presentes. Foi necessário que uma nova concepção de cidade surgisse. Como capital de Província, Curitiba deveria passar a ser um exemplo de civilização, de morigeração,16 como diziam as elites paranaenses. A partir daí, a cidade passaria a ser construída como uma cidade idealizada, ideal, determinando o modus vivendi da população urbana. Curitiba já teve seu primeiro plano urbanístico em 1857, que ficou sob a responsabilidade engenheiro francês
15

16

MARTINS, R. Curityba de outr´ora e de hoje. Curitiba: Ed da Prefeitura Municipal de Curitiba, [19--]. p.170-171. Morigerar ou morigerado eram termos frequentemente usados na documentação oitocentista do Paraná. Atualmente em desuso, o termo morigerar correspondia à ida de “comportar-se de acordo com os costumes”, de portar-se segundo regras socialmente aceitas pela elite. Naquela sociedade, eram considerados não morigerados os escravos, as prostitutas, os andarilhos, os vadios, os mendigos, jogadores, trapaceiros etc. que se opunham a ordem e aos bons costumes impostos pela elite paranaense. Cf. PEREIRA, M. Perigosos, imorais e não-morigerados. In: ______. Semeando iras rumo ao progresso: ordenamento jurídico e econômico da Sociedade Paranaense (1829-1889). Curitiba: Ed. da UFPR, 1996. p. 89.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 149

Pierre Taulois.17 Uma das concepções adotadas pelo engenheiro era o paralelismo das ruas, apontando para o modelo de cidade com forma regular, quadrilátera, com quadras perfeitamente adensadas, tendo o cruzamento em ângulos retos e bem definidos. Demonstrava-se com o plano urbanístico de Taulois a preocupação com a circulação dentro da malha urbana, trazendo os princípios científicos da engenharia francesa, em que o gerenciamento da circulação espacial já estava sendo encarado como uma necessidade, desde as reformas do Barão de Haussman em Paris, para a construção de uma sociedade homogeneizada e disciplinada. Na mesma época, por volta de 1858, o viajante alemão Robert Avé-Lallemant passou por Curitiba e a descreveu da seguinte forma:
Chegara eu a cidade de Curitiba. Por isso talvez é que me surpreendeu muito agradavelmente a cidade de uns cinco mil habitantes. Naturalmente nela nada se encontra de grande ou grandioso. Em tudo, nas ruas e nas casas, mesmo nos homens, se reconhece uma dupla natureza. Uma é a da velha Curitiba, quando esta ainda não era uma capital de província, mas um modesto lugar central, a quinta comarca de São Paulo [...]. Na segunda natureza, ao contrário, se expressa decisiva regeneração, embora não apareça nenhum grandioso estilo renascença. Em resumo, a velha vila marcha enfezada rumo ao um novo desenvolvimento.18

17

18

Pierre Taulois, engenheiro francês, foi um dos fundadores da Colônia Thereza (1847) situada próximo a Guarapuava-PR. Logo após a sua chegada a Província do Paraná, foi contratado como Inspetor Geral de Medição e Demolição das Terras Públicas. Cf. OS FRANCESES em Curitiba. Boletim Informativo da Casa Romário Martins, Curitiba, v. 16, n. 84, p. 13-15, jul. 1989. AVÉ-LALLEMANT, 1980, p. 274.

150 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Ave-Lallemant descreveu Curitiba de meados dos oitocentos como uma velha vila enfezada que marcha para o novo desenvolvimento. Porém, outros viajantes europeus que passaram pela cidade na mesma época, acostumados com as grandes metrópoles, emitiram pareceres diferentes, como é o caso do inglês Thomas Bigg-Wither, que esteve em Curitiba em 1872:
A falta de agulhas de terrores ou de edifícios altos ou mesmo das usuais chaminés dá a Curitiba, vista de longe, aspecto muito diferente de uma cidade inglesa. Quase se podia classificá-la de aglomerado de tendas e cabanas, formando o campo de um exército na expectativa de receber ordens de partir para outra localidade. O costume, quase universal, de pintar as casas de branco fortalece esta semelhança.19

A cidade doente: o discurso dos médicos sanitaristas Apesar das descrições do engenheiro Thomas BiggWither, ao longo do século XIX, encontram-se diversos documentos como Relatórios dos Presidentes de Província e nas Posturas Municipais, e escritos dos médicos sanitaristas como Trajano dos Reis e seu filho Jayme dos Reis, preocupações sobretudo com a questão da salubridade, tema corrente no século XIX, que se faz presente por meio das leis e decretos emitidos pela Câmara Municipal. Já que a cidade começava a se adensar, transformando-se em local de aglomeração de pessoas de diferentes classes sociais e costumes, o meio urbano se transformava em local favorável a transmissão de doenças e epidemias.
19

BIGG-WITHER, T. Novo caminho no Brasil Meridional: a província do Paraná. Três anos de vida em suas florestas e campos 1872-1875. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1974. p. 51.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 151

A segunda metade do século XIX demonstrou uma necessidade de transformar estes espaços em um local de ordem e urbanização. O combate à insalubridade que se desencadeou na capital paranaense nas últimas décadas do século XIX originou um processo de planejamento de novas formas de organização, base da urbanística moderna, e uma formulação de leis e decretos no que tange a questão da saúde e salubridade pública nas posturas municipais. O médico Trajano Reis escreveu seu trabalho intitulado Elementos de Hygiene Social, em 1894, apontando para a necessidade de trazer à população hábitos de higiene e asseio.20 Seu filho, quatro anos mais tarde, publicou no Rio de Janeiro, sua tese de medicina, na cadeira de Higiene, intitulada Das Principais Epidemias e Endemias de Curitiba.21 O projeto de civilização e morigeração abraçado pela elite paranaense na segunda metade do século XIX, que supunha implementar a riqueza, o progresso, a modernização e a civilização na capital da Província, esbarrava-se com o temor das epidemias e da insalubridade urbana, território também dos conflitos, do não morigerado, do escravo, das classes perigosas.22 O meio urbano tinha esta outra face, hostil, ameaçadora, perigosa. Dentro desta experiência da nova estética e ideologia burguesa, a oposição estava clara entre a intensidade da pobreza e o deslumbramento do mundo burguês.23 Oposição irreconciliável que levava ao desejo de domesticação ou vigilância do homem pobre nos espaços públicos. A partir daí o meio urbano passou a ser à medida que
20

21

22

23

REIS, T. dos. Elementos de hygiene social. Curitiba: Typ. Paranaense, 1894. REIS, J dos. Dissertação das principais endemias e epidemias de Curityba. Rio de Janeiro: Typ Ribeiro Macedo, 1898. DE BONI, M. I. M. O espetáculo visto do alto: vigilância e punição em Curitiba. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998. RAGO, M. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar. São Paulo: Paz e Terra, 1985.

152 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

dá a esse homem pobre a conotação patológica, conforme seu odor, sua habitação, seu vestuário, enfim, seu modus vivendi. A imprensa local alardeava a existência incômoda de uma “romaria de cegos, aleijados, tísicos, etc. com seus farrapos, com suas chagas, com sua pugentíssima miséria”24 nas ruas da capital paranaense. A estratégia das elites paranaenses no final do século XIX provoca a distinção entre o burguês desodorizado e o pobre infecto,25 induzindo a estratégia higienista de Trajano e Jayme dos Reis que assimila a desinfecção do espaço público a submissão e docilização do homem pobre. Foi neste cenário, que reconstruímos brevemente, que se desenvolveram as primeiras estratégias de medicalização da loucura em Curitiba. Nos anos finais do século XIX e início do século XX a loucura passou a ser tratada com outro olhar. O louco que emerge desta discussão como um problema social, vai se ver dotado de um completo status de alienado: medicalizado, classificado, confinado em cubículos, excluído do convívio social. Transformação da loucura em doença, em fenômeno patológico, mas doença diferente, exigindo, por este motivo, um tipo específico de medicina para tratá-la: justamente a Psiquiatria. Um saber de tipo médico que torna a loucura objeto, que a considera como uma doença e uma prática com finalidade de curá-la por meio de um tratamento físico e moral só se consolida em Curitiba nas décadas finais do século XIX. Donde a tese principal desta pesquisa, considerando que é impossível compreender a constituição da Psiquiatria no Paraná sem elucidar as práticas e discursos sobre a loucura que levaram a construção do primeiro asilo de alienados em Curitiba, o Hospício Nossa Senhora da Luz. Situada à margem das grandes metrópoles,
24 25

Diário da Tarde, 05 jun. 1909. Cf. CORBIN, A. Saberes e odores: o olfato e o imaginário social nos séculos dezoito e dezenove. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 153

a Psiquiatria no Paraná desenvolveu estratégias semelhantes de consolidação de seu poder (consolidação de um espaço institucional, extensão geográfica e político-administrativa dos médicos rumo ao cargo de médico-chefe, desenvolvimento do papel de perito atribuído ao médico, desqualificação de outros discursos leigos sobre a loucura etc.). Se no Paraná, o atraso em relação ao surgimento da primeira instituição psiquiátrica se explica pela falta de um espaço adequado, a emergência do discurso sobre a necessidade de um hospício em terras paranaenses demarca as primeiras conquistas de um saber em formação. O objetivo deste trabalho é mapear as origens das primeiras práticas em que o tratamento destinado aos loucos começa a se distanciar dos demais desajustados ou excluídos da sociedade. A loucura é retirada da universalidade abstrata da miséria e ganha um estatuto médico. Mapear este deslocamento decisivo nos ajuda a entender o processo de medicalização da loucura no Paraná e o desenvolvimento de uma tecnologia alienista em que o hospício se tornaria uma máquina de curar loucos. Aos loucos, o hospício! A emergência do discurso sobre a necessidade de construção de um hospital psiquiátrico em Curitiba se dá quase 50 anos após a criação do primeiro hospício no Brasil, o D. Pedro II.26 Se no Rio de Janeiro, o surgimento do primeiro hospício brasileiro foi fruto de um movimento desencadeado pelos médicos da Academia Imperial de Medicina como Francisco Xavier Sigaud, Luiz Vicente de Simoni, José Martins Cruz Jobim, Jean Maurice Faivre,27 entre outros,
26

27

Cf. MACHADO, R. et al. Da(n)ação da norma: medicina social e constituição da Psiquiatria no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1978. p. 365 et seq. ENGEL, M. Delírios da razão: médicos, loucos e hospícios. Rio de Janeiro: Ed. da Fiocruz, 2001.

154 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

que utilizavam periódicos médicos O Semanário de Saúde Pública, Diário de Saúde e a Revista Médica Fluminense, para veicular o movimento em defesa da construção do hospício, em Curitiba não há nenhum movimento organizado da classe médica. O movimento desencadeado para a construção do hospital psiquiátrico, ou como era chamado na época asilo de alienados, foi desencadeado primeiro na imprensa e na fala dos Secretários dos Negócios do Interior, Justiça e Instrução Pública. É significativo que o discurso sobre a necessidade da construção de um estabelecimento especial para os loucos não tenha sido motivado pela classe médica.28 Outros atores, os filantropos, os políticos, a Santa Casa de Misericórdia, os Chefes de Polícia, dão vozes aos ecos dos primeiros discursos sobre a necessidade de um espaço diferenciado. Este trabalho mapeia a emergência do discurso sobre a loucura no Paraná usando como base dois cenários distintos. O primeiro é o da Santa Casa de Misericórdia, cenário em que se deram as primeiras reivindicações sobre a construção de um asilo de alienados no Paraná. O segundo cenário é o do próprio Hospício Nossa Senhora da Luz, neste cenário mapeamos as falas dos médicos, seus argumentos, seus conflitos com a administração e a mesa diretora da Santa Casa de Misericórdia, a luta pela consolidação do discurso médico para se tornarem os legítimos detentores do discurso sobre a loucura, mas não sem lutas e desafios.
Este argumento já foi desenvolvido por Yonissa Wadi quanto a institucionalização da loucura no Rio Grande do Sul. Parece-me que também em Curitiba como em Porto Alegre, a classe médica ainda não era suficientemente forte para impor esta hegemonia. O discurso pela necessidade do hospício surge, nas duas cidades, dentro da fala dos filantropos da Santa Casa de Misericórdia. Sobre o Hospício São Pedro em Porto Alegre vide WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002.

28

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 155

O primeiro cenário: a Santa Casa de Misericórdia de Curitiba A liberdade das ruas As primeiras referências aos loucos em Curitiba aparecem na documentação do século XIX por meio dos relatórios dos chefes de polícia e dos secretários dos Negócios do Interior, Justiça e Instrução Pública. Se bem que os loucos não passavam de algumas dezenas de alienados vagando pelas ruas da capital paranaense ou detidos na cadeia civil situada na praça Tiradentes em meio aos gatunos, prostitutas, desordeiros, embriagados, mendigos. Durante o século XIX, a maioria das prisões efetuadas na cadeia civil de Curitiba aparecia sob a rubrica de embriaguez e desordem. Os alienados eram classificados entre tranquilos e furiosos. Até a década de 1880, os alienados sequer tinham um espaço diferenciado para enclausurá-los, sendo trancafiados nas enxovias da Cadeia Civil com outros contraventores e indivíduos que eram retidos por perturbarem a ordem pública. Quando não eram trancafiados na cadeia civil de Curitiba, os loucos perambulavam livremente pelas ruas da capital paranaense. Perambulando pelas ruas, vagando livremente, estes tipos de rua acabavam tornando-se pessoas estimadas e queridas pela população urbana. Presentes nas ruas movimentadas da cidade, nas praças, nos jardins, na igreja do Rosário e na Matriz, não há dúvida de que os loucos já fizessem parte da paisagem urbana, com seus guizos e vesânias, faziam parte da alma da cidade. Uns faziam rir com suas extravagâncias outros provocavam pena. Muitos deles chegaram até mesmo a ser caricaturados no periódico Olho d’Água, que fazia crônicas sobre o cotidiano da cidade na virado do século.29
29

Cf. KARVAT, E. A sociedade do trabalho: discursos e práticas sobre a mendicidade em Curitiba. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998.

156 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Reais ou lendárias, as histórias destes personagens foram registradas pelas crônicas da cidade, que apesar de reproduzidas e recolhidas por cronistas e memorialistas, nos dão pistas de que havia uma outra modalidade da loucura nas ruas. Muitos deles recebiam donativos, alimentos e até mesmo um teto para se abrigarem nas casas de famílias vizinhas e amigas. Outros sobreviviam da venda de bilhetes de loteria, de esmolas, e dependiam da simpatia dos transeuntes. Frequentemente eram alvo de chacotas dos moleques e das agressões físicas de outros, mas também eram objeto de piedade e compaixão. Alguns eram até mesmo respeitados pelo seu profundo conhecimento ou por serem seres mistificados, eram estimados e admirados. Neste aspecto, a loucura se assemelha a um espetáculo das ruas. Pobres ou miseráveis, tendo ou não relações familiares, maltrapilhos ou vestidos a rigor, o fato é que estes personagens circulavam pelas ruas, Neste sentido, é correto afirmar que existia certa tolerância com a loucura. Trata-se da possibilidade de sublinhar a existência de várias modalidades de experiência da loucura. O saber médico, com sua aparente vitória, não conseguiu abolir das ruas a existência destes típicos personagens do espaço urbano. Na alvorada do século XX, para contragosto daqueles que desesperadamente queriam transformar a capital paranaense em um espaço homogeneizado, civilizado, morigerado, havia estes personagem exóticos que com sua extravagância tornavam o delírio um espetáculo. Sendo confundidos com os vadios e mendigos que perambulavam nas ruas com seus andrajos, com seus farrapos, com suas chagas, com sua pungentíssima miséria, os loucos eram associados aos perturbadores da ordem pública, inseriam-se no universo do não trabalho, nas fronteiras da legalidade e da liberdade. O que tornava a loucura um problema social. Por um lado, o louco era visto como um perigoso, figura generalizada de

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 157

associabilidade e da desordem. Ele não transgredia explicitamente nenhuma lei, portanto, não podia ser qualificado como criminoso. Mas ao mesmo tempo, ele não podia ser contido por nenhuma lei que preside a sociedade e certamente ele transgredia todas as leis que presidem a organização social, tornando-se, por isso, um problema de ordem pública. A figura do louco estava associada ao do nômade, ao animal selvagem, aos sem pátria, que por não estar preso a nenhum mecanismo de controle social, vagueia livremente sem direção, ameaçando, pela sua própria existência, o conjunto da sociedade. Vaguear pelas ruas tornava-se então, um problema de ordem pública, e cada vez mais se evidenciava a necessidade de criar um estabelecimento especial para os loucos. Quando não estavam vagueando pela cidade ou trancafiados nas enxovias da cadeia civil, os loucos eram enviados para a Santa Casa de Misericórdia. Muitos registros de loucos que eram enviados para o pio estabelecimento estavam sob guia da chefatura de polícia, que os recolhia das ruas quando estes representavam algum problema para a ordem pública. É provável que a livre circulação dos loucos em espaço público provocasse problemas de conduta, levando-os a serem enquadrados nas contravenções previstas pelo Departamento de Identificação da Polícia (embriaguez, desordem, prostituição, vadiagem e mendicância). Particularmente os crimes de ofensa à moral, bem como a vadiagem, podiam eventualmente levá-los a cadeia. Além disso, muitas vezes os loucos eram mantidos sob a responsabilidade de sua família, tornandose uma vizinhança incômoda e, às vezes, insuportável. Pelos cuidados que exigiam e pelos problemas que podiam criar, esses loucos acabavam tornando-se um fardo penoso para as famílias. Enviá-los para a Santa Casa

158 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

de Misericórdia parecia ser, enfim, uma alternativa tanto para os loucos que circulavam pela cidade quanto uma alternativa para as famílias que quisessem se livrar do fardo penoso da loucura. Foi dentro da Santa Casa de Misericórdia, instituição criada para consolar, assistir e abrigar30 o sofrimento dos pobres e inválidos na doença e na morte, que surgiram as primeiras críticas em relação à necessidade de criação de um hospício no Paraná. Curitiba contava então apenas com cerca de 12 leitos ou cellulas especiaes para os loucos dentro da Santa Casa. Estes eram um número reduzido de cubículos que já estavam cada vez mais lotados pelo constante envio de alienados de cidades de Santa Catarina e do interior do Paraná. A crítica à falta de espaço adequado na Santa Casa de Misericórdia é parte central da argumentação pela necessidade de um hospício. A ideia básica é que o hospital de Misericórdia, onde se encontravam os loucos, não oferece condições para abrigar medicamente e tampouco para recuperar o louco. As condições em que se encontram os loucos estavam em desarmonia com os preceitos da ciência, das luzes e do sentimento de humanidade dos homens. Delineava-se claramente a oposição en30

A Santa Casa de Misericórdia era a instituição de benemerência por excelência da Província do Paraná. Durante o século XIX ela desempenhou um papel fundamental no cuidados dos pobres e inválidos atuando diretamente nas políticas de amparo aos necessitados. Esta vocação já está implícita nos discursos dos filantropos da Santa Casa e aparece textualmente no documento firmado pela Irmandade de Misericórdia em 1864. No capitulo III do Compromisso da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, afirma-se que: “Serão recebidos no hospital, e tratados com desvelo e caridade: 1º Os irmãos pobres; 2º Todos os pobres e mendigos; 3º Todas as mais pessoas que quiserem ser tratadas pela Santa Casa de Misericórdia. Estas serão admittidas havendo proporções para isto, e entre ellas serão preferidas os escravos que pertencem a família dos irmãos, pegando por dia o que for estabelecido no regimento”. Cf. IRMANDADE DE MISERICÓRDIA. Compromisso da Santa Casa de Misericórdia. Curitiba: Typ. de Lopes, 1864. p. 10-11.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 159

tre hospital de caridade e hospício. O hospital de caridade tem células especiais para o louco, mas não o trata nem o recupera, assemelhando-se a gaiolas humanas em que o louco encontra-se numa espécie de antecâmara da morte, ali não há tratamento nem esperança. Curiosamente, este discurso não emana da classe médica. Em meados do século XIX os médicos ainda encontram-se à margem para impor esta hegemonia. A principal crítica emana dos discursos públicos e se direciona para a crítica em relação aos loucos no Hospital de Caridade e nos espaços públicos. Paradoxo que não se pode resolver simplesmente isolando o louco, privando-o de sua liberdade. Para estes, o lugar do louco não é a cadeia, nem a rua, nem o hospital de caridade, mas o hospício. A loucura não se trata com liberdade, nem com repressão, mas com disciplina e autoridade médica. O hospício então é o grande pilar da Psiquiatria nascente e atesta o nascimento de uma especialidade. A ofensiva do discurso dos filantropos da Santa Casa de Misericórdia e dos Secretários do Interior, Justiça e Instrução Pública, os principais enunciadores desta proposta configura-se na medida em relação ao louco que prevê a criação de um estabelecimento especial, uma instituição capaz de medicalizá-la. Para combater a loucura o modelo escolhido foi o hospício, instituição criada pela Psiquiatria francesa no século XVIII por Pinel e Esquirol. Um espaço próprio em que o louco é retirado do seu meio natural e tratado segundo os preceitos da Ciência e da Humanidade, meio capaz não só de dominá-lo em um ambiente fechado, mas também de destruir seus efeitos, subjugar sua ameaça, integrá-lo a vida urbana por um processo de recuperação e reinserção nos círculos produtivos da sociedade.

160 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

O segundo cenário: o Hospício Nossa Senhora da Luz O eco das reivindicações começa a sair do discurso para a prática quando assume a provedoria da Santa Casa de Misericórdia, o monsenhor Alberto Gonçalves. A luta pela criação de um estabelecimento especial em Curitiba, portanto, não é isolada nem quixotesca. Articula-se com perfeição aos projetos de dom Alberto Gonçalves. A luta pela criação de um hospício em Curitiba encarna-se, portanto, na figura adequada. Além de circular nos altos postos políticos,31 dom Alberto é o elemento mais importante da instituição possuidora dos meios materiais para elevar um hospício. Desde a década de 1890, portanto, dom Alberto Gonçalves encabeça o movimento pela construção do asilo de alienados na capital paranaense. A Santa Casa de Misericórdia aparece como naturalmente capacitada a elaborar a tarefa de construção e administração do um novo tipo de estabelecimento destinado a cuidar dos loucos. Tendo o precedente do encargo dos necessitados, dos pobres e dos inválidos. O saber médico instrumentaliza-se na figura do provedor para promover a filantropia. Nos relatórios de sua gestão, apresentados à Mesa Diretora da Irmandade de Misericórdia, o provedor expõe as deficiências do Hospital de Caridade e propõe mudanças na administração do hospital mantido pela Santa Casa de Misericórdia e a criação de um novo estabelecimento destinado exclusivamente aos alienados, já que nos últimos anos, o provedor vinha recebendo diversas críticas dos secretários dos Negócios do Interior, Justiça e Instrução Pública e dos chefes de polícia quanto à falta de um local adequado para enviar os loucos. Tendo num mesmo ambiente os pobres invá31

Cf. CARNEIRO, D. Galeria de ontem e de hoje. Curitiba: Vanguarda, 1963. p. 314-315.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 161

lidos, os doentes contagiosos e as mulheres grávidas, os alienados não podiam receber os cuidados necessários. Vivem encarcerados nos quartos que lhes são destinados sem ter ar e liberdade. Faltam-lhe meios e um lugar mais espaçoso com um amplo jardim para que possam ser realizados os passeios. Capacitado pela função de provedor e membro da Irmandade de Misericórdia, d. Alberto Gonçalves tomou medidas no sentido de lançar as primeiras atividades concretas para a criação do hospício: a formação de uma comissão32 encarregada de levar a construção do hospício a cabo e da arrecadação de fundos, que foi feita por meio da organização de uma loteria autorizada pelo governo do Estado. Apesar da morosidade do processo e dos constantes atrasos e paralisações, enfim o Hospício Nossa Senhora da Luz é inaugurado em 25 de março de 1903, no distante bairro do Ahú, tendo seu acesso principal pela Avenida Anita Garibaldi. Um edifício de arquitetura eclética, contendo dois pavimentos de paredes grossas, espaçoso e amplo, que recebeu elogios de Ermelino de Leão em seu Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná como um marco da filantropia paranaense.33 E o historiador do Instituto Geográfico e Histórico do Paraná, Herberth Munhoz van Erven, exclama em seu Contribuição ao Histórico do Hospital de Nossa Senhora da Luz “São João de Deus ou Pinel não exigiriam, para o meio e para a época, cousa melhor”.34 Em 4 e 5 de abril, o hospital começava a receber os primeiros pacientes matriculados enviados da Santa Casa de Misericórdia. Segundo Van Erven, o primeiro matriculado do hospício era um homem chamado Antônio Ângelo K., de 35 anos de idade, cor branca, filiação ignorada, natural da Polônia,
32

33 34

A Comissão Especial foi formada em meados da década de 1890 por Joaquim Monteiro, José Loureiro, Manoel Martins de Abreu e encabeçada por D. Alberto Gonçalves. LEÃO, E. Dicionário histórico e geográfico do Paraná. [S.l.: s.n.], 1926. MUNHOZ VAN ERVEN, 1944, p. 9.

162 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

lavrador, analfabeto, residente de Ferraria, foi internado com guia da chefatura de polícia. A primeira mulher registrada foi Vitória M., de quem o autor não faz maiores menções. Várias outras pessoas, como a enfermeira Marcolina, após sua recuperação, sem ter para onde ir, continuaram no hospício, efetuando pequenos serviços em troca de moradia e alimento.35 Em 25 de março de 1903 o jornal Diário da Tarde saúda a criação do Hospício Nossa Senhora da Luz como um verdadeiro marco filantrópico no Paraná, um suntuoso palácio de guardar doidos:
Com a inauguração do Hospício Nossa Senhora da Luz, o Estado do Paraná deu hoje um dos mais brilhantes passos no caminho do Progresso e da Civilização. Aquele soberbo palácio da desventura que assoma o campo verde, como atalaia do bem, é o attestado mais convincente do sentimento altruístico do povo paranaense.36

O hospício era dividido em duas partes: uma ala para os pensionistas e outra para as enfermarias gerais, destinadas aos loucos pobres e sem família. O hospital era financiado pelo dinheiro arrecadado com as pensões e por uma subvenção vinda do governo do Estado, além de contribuições da Sociedade de Socorro aos Necessitados e de donativos eventuais. O primeiro médico-chefe foi o diretor Rodolfo Pereira Lemos. Faziam parte do serviço clínico também os médicos Cláudio Lemos, seu filho; José Guilherme Loyola o único com titulação em Psiquiatria, com uma tese apresentada no Rio de Janeiro sobre o Livre-Arbítrio e Simulação da Loucura;37 e João Evangelista Espíndola, um dos mais respeitados cirurgiões
35 36 37

Boletim Informativo da Casa Romário Martins, n. 62, p. 22, fev. 1982. Diário da Tarde, 25 mar. 1903. LOYOLA, J. G. Livre arbítrio e simulação da loucura. 1900. Tese – Faculdade de Medicina, Rio de Janeiro, 1900.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 163

curitibanos na época, editor da revista Paraná Médico. O serviço de atendimento do Hospício Nossa Senhora da Luz também ficava a cargo das irmãs de caridade. Desde a criação da diocese de Curitiba, as irmãs de caridade francesas de São José de Chambery atuavam como enfermeiras e caridosas na Santa Casa de Misericórdia. No Hospício Nossa Senhora da Luz o serviço foi incumbido a um grupo de religiosas: irmã Maria Lúcia (Jeanne Marie Rolland), irmã Flávia (Virginie Borlet) e irmã Maria Francisca (Victoire Michel), entre outras.38 O hospital ainda possuía uma capela dirigida por quinze anos pelo padre francês Maurice Dunard, e também pelos padres cordimarianos Germano Beroud, Alphonse Lebrut e Geronimo Mazzaroto. Como não havia igrejas nas redondezas do Ahú a capela servia como local para batizado, casamentos e missas, sendo também local de encontro de comunidades católicas (marianos, vicentinos etc.).39 O Hospício Nossa Senhora da Luz funcionou quatro anos no recém-inaugurado casarão eclético próximo da Avenida Anita Garibaldi. Porém, na mesma época o governo do Estado necessitava começar a construção de um sistema penitenciário, já que a Cadeia Civil não comportava o número de prisioneiros. Os sentenciados cumpriam prisão provisória no quartel do Regimento de Segurança. Em janeiro de 1905, o governador do Estado do Paraná, Francisco Xavier da Silva, entrou em contato com a Mesa Ordinária da Irmandade de Misericórdia, presidida por dom Alberto Gonçalves, e firmou um acordo em que o Estado ficava com o edifício do Ahú onde funcionava o hospício Nossa Senhora da Luz para ali construir uma penitenciária do Estado. Em troca, o Estado ofereceu à Santa Casa de Misericórdia, os subsídios
38

39

Cf. PIZANI, M. A. O cuidar na atuação das irmãs de São José na Santa Casa de Misericórdia de Curitiba (1986-1937). 2005. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2005. PIZANI, 2005.

164 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

necessários para a construção de um outro estabelecimento em local escolhido pela Santa Casa de Misericórdia.40 Firmado o contrato entre o governo do Estado e a Santa Casa de Misericórdia, iniciaram-se as construções da nova sede do Hospício Nossa Senhora da Luz. Se o casarão do Ahú, prédio suntuoso e monobloco, assemelhava-se a outras construções típicas da segunda metade do século XIX como o Hospício São Pedro em Porto Alegre ou o Asilo São João de Deus na Bahia, que tinham como referência a grande instituição da época, o Hospício D. Pedro II, a nova sede do Hospício Nossa Senhora da Luz, construída no bairro do Prado Velho, começava tomar como referência uma nova instituição: o Juquery em São Paulo. Criado por Franco da Rocha e projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo em São Paulo, o Juquery começava a transformar-se numa grande referência em fins do século XIX e início do século XX. Ao invés de um prédio monobloco (característica do principal hospício até então, o d. Pedro II no Rio de Janeiro) o Juquery se dividia em um pavilhão administrativo, cercado por um jardim central onde se distribuíam os pavilhões de internamento.41 O cronista da História da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, Francisco Negrão, afirma que a proposta de construir uma nova sede para o Hospício Nossa Senhora da Luz se mostrava vantajosa, pois
uma vez que a prática faz ver que a construção de um novo estabelecimento deve ser feita de accordo com as regras da sciencia e hygiene, que manda ser em pavilhões separados, a exemplo do que foi construído em São Paulo.42
40

41 42

Cf. NEGRAO, F. Memória da Santa Casa de Misericórdia de Curityba. Curitiba: Imprensa Gráfica Paranaense, 1933. p. 23. CUNHA, 1988. NEGRÃO, 1933, p. 25.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 165

Ou seja, os princípios de higiene e ciência determinavam que a nova sede deveria ser construída com base em pavilhões separados. Este foi o modelo adotado na segunda sede do Hospício Nossa Senhora da Luz, inspirado nitidamente no Juquery.43 A característica deste modelo é a simetria, com a implantação de pavilhões isolados. Os edifícios de alvenaria possuíam dois pavimentos.44 A teoria médica que fundamentava esta distribuição era a de entremear pavilhões por áreas de lazer, em torno de um jardim central, de forma a dividir os pacientes em grupos mais reduzidos com separação por sexo, classe social e conduta. Cada pavilhão possui uma área aproximada de 1.500 a 1.900 m2. Além dos pavilhões de internamento, onde funcionavam o serviço e o refeitório, foram construídos pavilhões de apoio, destinado a abrigar a cozinha, a lavanderia e a usina elétrica, destruídas em um incêndio em 1916 e logo reconstruídas.45 A construção do edifício administrativo foi iniciada em 1923 e recebeu o nome de André de Barros em homenagem ao antigo provedor da Santa Casa de Misericórdia Os médicos em cena: discursos e práticas sobre a loucura no Paraná Até a virada do século XIX para o XX não percebemos em Curitiba um discurso médico coerente acerca das práticas da loucura. A fala dos médicos está ausente no discurso sobre a necessidade de construção de um Asilo de Alienados que se delineia nas décadas finais do século XIX. Como vimos, os enunciadores desta fala são os filantropos da Santa Casa de Misericórdia e as autoridades públicas como os chefes de
43 44 45

CASTRO, 2004, p. 40 CASTRO, 2004, p. 46. MUNHOZ VAN ERVEN, 1944, p. 10-11.

166 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

polícia e os secretários dos Negócios do Interior, Justiça e Instrução Pública. Domínio da discussão sobre a ordem pública e a piedade, a loucura não era essencialmente encarada como uma doença especial, sendo objeto de uma medicina que a dispunha tratar de acordo com um tratamento físico e moral herdada do saber científico francês. Se o hospício existia nos moldes da instituição criada por Philippe Pinel na França, dentro da instituição, o médico ainda não tinha poder suficiente. O surgimento destes novos agentes no cenário da loucura, como operadores práticos na lida com a doença mental, demarca, a nosso ver, a emergência das práticas psiquiátricas no Paraná. Daí a importância de analisar o Hospício Nossa Senhora da Luz como o próprio palco em que se desenvolveram as lutas e estratégias da Psiquiatria nascente, sendo importante para entender a constituição da institucionalização da loucura no Paraná. A primeira linha de expansão do movimento alienista é em direção ao controle das funções administrativas dentro do hospital. Na fundação da Psiquiatria, o hospício é considerado o lugar de exercício da ação terapêutica, o tratamento moral. Tendo por objetivo destruir a loucura, caracterizando-se por uma ação que não se dá como negativa, mas dedicada a impedir, afastar, tolher e neutralizar os seus efeitos, a Psiquiatria precisa ser instrumentalizada de uma série de dispositivos que possibilitem sua máxima eficácia de intervenção. Daí o hospício ser um espaço criado especialmente para o louco, que não é acidental ou exterior ao núcleo básico da ação psiquiátrica, mas que, obedecendo aos requisitos básicos postulados pela medicina mental, deve canalizar a ação do espaço para possibilitar a máxima eficácia. Assim, ao contrário de outras formas de isolamento, no hospício, o que cura é o próprio hospício. O asilo, diziam os alienistas, é o

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 167

instrumento mais poderoso contra as doenças mentais.46 Entre o hospício e a Psiquiatria, portanto, não há relação de exterioridade. A prática psiquiátrica tem como núcleo a ação hospitalar, a organização do espaço e o controle. Ele é mais que um espaço utilizado a favor da ação médica, é a própria ação médica. O hospício é uma instituição concebida medicamente. Mas se analisarmos mais de perto o espaço em questão, o Hospício Nossa Senhora da Luz, percebemos que mesmo em sua seara, o médico do Hospício acabava tendo que compartilhar a autoridade sobre a loucura com outros poderes. Subordinação que se percebe na estrutura administrativa da instituição, que continua a ser ligada a Mesa Diretora da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, assim como o Hospital de Caridade. Além do serviço sanitário, composto pelos médicos, o Hospício ainda contava com o governo das irmãs de caridade de São José e um serviço religioso. Instâncias que escapavam ao controle imediato do médico. Mas uma das questões que denota a maior falta de poder dos médicos na cena hospitalar é a inscrição dos alienados. Domínio exclusivo da administração da Irmandade, a seleção dos loucos não é feita segundo o critério médico. Cabe ao provedor da Santa Casa efetuar a matrícula mediante a requisição oficial do Juiz de Órfãos ou do Chefe de Polícia ou delegado do distrito de residência do alienado, ou do lugar onde foi encontrado circulando livremente; ou
46

A tese de que o hospício é o núcleo central da ação psiquiátrica é um consenso no meio alienista francês do final do século XVIII e início do XIX. Transformar o espaço hospitalar em um instrumento de curar é parte integrante da chamada Grande Reforma dos Hospitais, da qual fizeram parte Pinel, Tenon, Esquirol, Cabanis, Poyet, entre outros. Ao longo de vários textos como os de Pinel, Esquirol, Marc, Briere de Boismont, Lasegue, Voisin, Falret, Leuret e outros alienistas do chamado “Grupo da Salpêtrière” aparece essa defesa generalizada do hospício como locus da ação terapêutica. A literatura sobre este axioma alienista é vasta e inabarcável para os limites deste estudo. Para maiores informações sobre o contexto europeu. Cf. CASTEL, 1978, p. 85-95.

168 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

sendo militar ou religioso, mediante a requisição de seu superior; ou ainda, petição oficial do pai, marido, mulher ou senhor (se escravo) do alienado. Os alienados internados deveriam passar um período de aproximadamente quinze dias de avaliação da autenticidade e julgamento da sua demência. Após este tempo o administrador era obrigado a notificar sua admissão ao Juiz de Órfãos da cidade. Assim, se de acordo com a perspectiva médica, a entrada, permanência e saída dos loucos no hospício deveria ser um assunto estritamente do âmbito médico, no caso do Hospício Nossa Senhora da Luz, tratava-se de uma decisão compartilhada por várias instâncias do poder: o provedor da Santa Casa, o Juiz de Órfãos do distrito, o chefe ou delegado de polícia, os familiares, tutores, curadores ou senhores de alienados etc., cabendo ao médico apenas a tarefa de validar a petição mediante um certificado de atestado de loucura apresentada ao Juiz de Órfãos. Portanto, desde meados do século XIX emerge um discurso em favor da construção de um hospício no Paraná. A criação do Hospício Nossa Senhora da Luz representou o primeiro passo concreto na implementação deste projeto, assinalando não apenas a intenção de excluir a loucura, mas de tratá-la e até mesmo curá-la. Entretanto é preciso considerar que, embora tendo representado uma conquista importante para a apropriação médica sobre a loucura, a criação deste estabelecimento não assegurou, na prática, a consolidação do predomínio médico sobre a loucura. Como foi visto, mesmo dentro das fronteiras que isolavam o mundo do asilo, a autoridade médica em relação ao louco era bastante cerceada. Este tinha que dividi-la com outros poderes, familiar, jurídico, policial etc. No funcionamento cotidiano, o poder médico estava subordinado a administração leiga da Santa Casa de Misericórdia, inclusive no que se referia às decisões do âmbito clínico. O pequeno número de médicos existentes no estabelecimento

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 169

também impunha limites a medicalização da loucura. Por todos os aspectos assinalados aqui, pode-se concluir que a função de medicalização do hospício foi uma tarefa cumprida de forma precária, mas apresentou um marco importante na constituição das práticas médicas no Paraná. Ao longo das primeiras décadas do século XIX, os diretores do serviço clínico do Hospício Nossa Senhora da Luz, como Rodolfo Lemos, Cláudio Lemos e José Guilherme Loyola, revelariam uma crescente consciência da fragilidade e dos limites do poder alienista dentro e fora da instituição. Admissões indiscrimidas de pobres e necessitados enviados pela Sociedade de Socorro aos Necessitados ou recolhidos das ruas transformavam o hospício em um depósito de mendigos, comprometendo não apenas o papel curativo do estabelecimento, mas também a intenção de o hospício se tornar um laboratório da loucura, de observação clínica exata. Caracterizadas, entre outras coisas, pelo problema da superlotação, as primeiras décadas do século XX foram marcadas pelas críticas ao hospital. Curiosamente, as críticas que surgem nos anos de 1920 e 1930 não são críticas externas, protestos, desconfianças, denúncias de quem se sentiu prejudicado pelo arbítrio médico, mas as críticas partem dos próprios médicos e mesmo dos diretores do serviço clínico. Delineiam-se assim os primeiros sintomas da insatisfação médica quanto aos resultados concretos de sua primeira conquista, o hospício. Embora tímidas, feitas no âmbito dos relatórios institucionais apresentados na mesa da Santa Casa de Misericórdia, as críticas e lamentações não cessam de crescer: críticas quanto à superlotação, críticas quanto à mistura e promiscuidade dos loucos e indigentes, críticas às deficiências materiais do estabelecimento (como falta de água). O tom áspero das queixas, as denúncias, fundamentadas em argumentos cada vez mais rebuscados, revelam algumas mudanças intimamente ligadas

170 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

ao surgimento formal da Psiquiatria no Paraná. Assim, podemos perceber que a emergência dos discursos dos médicos diretores do hospício demarcam uma tripla estratégia de conquista: conquista do espaço hospitalar, conquista das funções de médicos-chefes e conquista dos saberes privilegiados e dos discursos sobre a loucura. Incursão difícil, mas também rica em desenvolvimentos futuros. Inegavelmente, as estratégias elaboradas pelos médicos alienistas no final do século XIX e, sobretudo nos anos iniciais do século XX, foram conduzidas até o seu termo. No final deste processo, a loucura, que emergiu como um problema social, um problema de ordem pública, vai se ver dotada de um extenso aparato clínico: o definido como doente mental receberá um local apropriado para o seu tratamento e o surgimento de um saber especializado para tratálo. Tripla dimensão que define até hoje as bases da síntese psiquiátrica: o hospício, a doença, o médico. *** Recentemente, por ocasião do Centenário do Hospício Nossa Senhora da Luz (março de 2003), a instituição promoveu uma verdadeira reforma psiquiátrica ao abolir os muros que circundavam o hospital (foram substituídos por grades), aludindo ao gesto fundador da Psiquiatria, a libertação dos loucos por Philippe Pinel em 1793. Mais de trezentos anos separam estes dois gestos, mas a estrutura que rege os dois momentos pode ser qualificada como a mesma. Por trás dos muros, esboça-se toda uma maquinaria do isolamento que não cessa de crescer: mudam suas roupagem, suas linguagens, efetua-se aggiornamentos, mas a ordem psiquiátrica resiste. Não necessitamos dos muros do asilo para romper os diques desta estranha vizinhança entre os loucos e sãos. Ao borrarmos as fronteiras simbólicas entre os sãos e os loucos, sob o pretexto de acolher

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 171

a vizinhança não estaremos domesticando-a? Será que a estratégia da libertação simbólica do louco (abolir os muros) não é de fato uma homogeneização do social? Quando os loucos se tornarem estes vizinhos pacíficos o que restará da loucura? Ou melhor, desta dimensão desarrazoada que até hoje insiste em ser patrimônio da própria loucura?

Figura 2 – Pavilhão de Internamento47
Figura 2 – Pavilhão de Internamento Fonte: Castro (2004, p. 42).

Figura 3 – Pavilhão de Internamento48
Figura 3 – Pavilhão de Internamento Fonte: Castro (2004, p. 42).

47 48

Fonte: CASTRO, 2004, p. 42. Fonte: CASTRO, 2004, p. 42.

172 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

referências

ACKERKNECHT, E. La medecine hospitalière à Paris. 1784-1845. Paris: Payot, 1986. ADORNO DE ABREU, S.; PUGLIESE DE CASTRO, M. A arte de administrar a pobreza: assistência social institucionalizada em São Paulo no séc. XIX. In: TRONCA, I. Foucault vivo. Campinas, SP: Pontes, 1987. p. 101-109. AGAMBEN, G. Homo Sacer: poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2002. ALEXANDER, F.; SELESNICK, S. História da Psiquiatria. São Paulo: Ibrasa, 1968. AVÉ-LALLEMANT, R. Viagens pelas Províncias de Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980. AZOUVI, F. L’ Institution de la Raison: la révolution culturelle des Ideologues. Paris: Vrin, 1992. BIGG-WITHER, T. Novo caminho no Brasil Meridional: a província do Paraná. Três anos de vida em suas florestas e campos 1872-1875. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1974. CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997. CARNEIRO, D. Galeria de ontem e de hoje. Curitiba: Vanguarda, 1963. CARRARA, S. Crime e loucura. Rio de Janeiro: Ed. da UERJ, 1998. CASTEL, R. A ordem psiquiátrica: a Idade de Ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978. CASTRO, E. A arquitetura do isolamento em Curitiba na República Velha. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 2004.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 173

CISNEROS, Z. Manual de historia de los hospitales. Revista Venezoelana de Historia de la Medicina, Caracas, v. 2, n. 4, 1954. CORBIN, A. Saberes e odores: o olfato e o imaginário social nos séculos dezoito e dezenove. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. CUNHA, M. C. O espelho do mundo: Juquery, a história de um asilo. São Paulo: Paz e Terra, 1988. DE BONI, M. I. M. O espetáculo visto do alto: vigilância e punição em Curitiba. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998. ENGEL, M. Delírios da razão: médicos, loucos e hospícios. Rio de Janeiro: Ed. da Fiocruz, 2001. FERMAND, C. Les hôpitaux et les cliniques: architetures de santé. Paris: Le Moniteur, 1999. FOUCAULT, M. História da loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1999a. FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1977. FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1999b. FOUCAULT, M. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008. FOUCAULT, M. Resumo dos cursos do Collège de France. 19701982. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. OS FRANCESES em Curitiba. Boletim Informativo da Casa Romário Martins, Curitiba, v. 16, n. 84, p. 13-15, jul. 1989. FREMVILLE, B. La Raison du plus fort: traiter ou maltraiter les fous? Paris: Seuil, 1987. GARRABÉ, J. Philipe Pinel. Paris: Col. Les Empecheurs de penser en rond, 1994.

174 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

GOLDSTEIN, J. Consoler et Classifier: L´Essor de la Psychiatrie Française. Paris: Col. Les Empecheurs de penser en rond, 1997. IRMANDADE DE MISERICÓRDIA. Compromisso da Santa Casa de Misericórdia. Curitiba: Typ. de Lopes, 1864. JACCARD, R. A loucura. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. KARVAT, E. A sociedade do trabalho: discursos e práticas sobre a mendicidade em Curitiba. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998. LEÃO, E. Dicionário histórico e geográfico do Paraná. [S.l.: s.n.], 1926. LOYOLA, J. G. Livre arbítrio e simulação da loucura. 1900. Tese – Faculdade de Medicina, Rio de Janeiro, 1900. MACHADO, R. et al. Da(n)ação da norma: medicina social e constituição da Psiquiatria no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1978. MARTINS, A. P V Visões do feminino: a medicina da mulher nos . . séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Ed. da Fiocruz, 2004. MARTINS, R. Curityba de outr´ora e de hoje. Curitiba: Ed. da Prefeitura Municipal de Curitiba, [19--]. MUNHOZ VAN ERVEN, H. Breve histórico do Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz. Curitiba: Mundial, 1944. NEGRAO, F. Memória da Santa Casa de Misericórdia de Curityba. Curitiba: Imprensa Gráfica Paranaense, 1933. p. 23. PELBART, P P Da clausura do fora ao fora da clausura: loucura e . . deSr.azão. São Paulo: Brasiliense, 1989. PELBART, P P A Nau do Tempo-Rei: sete ensaios sobre a loucura. . . Rio de Janeiro: Imago, 1993. PEREIRA, M. Perigosos, imorais e não-morigerados. In: ______. Semeando iras rumo ao progresso: ordenamento jurídico e econômico da Sociedade Paranaense (1829-1889). Curitiba: Ed. da UFPR, 1996. p. 89.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar

• 175

PIZANI, M. A. O cuidar na atuação das irmãs de São José na Santa Casa de Misericórdia de Curitiba (1986-1937). 2005. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2005. PORTOCARRERO, V Arquivos da loucura: Juliano Moreira e a . descontinuidade da Psiquiatria brasileira. Rio de Janeiro: Ed. da Fiocruz, 2003. RAGO, M. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar. São Paulo: Paz e Terra, 1985. REIS, J dos. Dissertação das principais endemias e epidemias de Curityba. Rio de Janeiro: Typ Ribeiro Macedo, 1898. REIS, T. dos. Elementos de hygiene social. Curitiba: Typ. Paranaense, 1894. SZASZ, T. A fabricação da loucura. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. SWAIN, G. Le sujet de la folie. Toulose: Privat, 1977. WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002. VALDÉS, A. História da medicina. Madri: Interamerica, 1987.

176 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Capítulo 6

a loucura entre dois Mundos: práticas de intervenção Médica e assistencialisMo no sanatório espírita de uberlândia

(1932-1970)

Raphael Alberto Ribeiro1

Muitas questões concernentes à institucionalização da loucura, no final do século XX, serviram, principalmente, para mostrar o descaso e os abusos sofridos pelos internos das instituições psiquiátricas. Desde a década de 70, muitos grupos têm lutado por melhores condições no tratamento psiquiátrico, questionando inclusive o monopólio da Psiquiatria com relação à decisão de trancafiar ou não determinados pacientes. Esses questionamentos motivaram novos estudos sobre a loucura, que colocam em discussão o saber médico. Como resultado de inúmeras denúncias e lutas, a penosa realidade dos manicômios foi exposta em diversos meios midiáticos, provocando um certo descrédito na terapêutica psiquiátri1

Mestre e doutorando em História Social pela Universidade Federal de Uberlândia.

a loUcUra entre dois mUndos

• 177

ca. A materialização disto pode ser percebida, por exemplo, na Lei Paulo Delgado,2 que possibilitou várias experiências no tratamento dos transtornos mentais. O intuito deste trabalho é estudar a institucionalização da loucura em Uberlândia, focando a influência que determinados segmentos da sociedade tiveram no tratamento de loucura desta cidade. A história do tratamento da loucura em Uberlândia iniciou-se na década de 30 com a criação do Penate Allan Kardec, sob direção do Centro Espírita Fé, Esperança e Caridade, numa rua do Centro da cidade. O Penate tinha capacidade para atender, aproximadamente, 20 pessoas. Com o crescimento da cidade foi preciso construir uma casa maior, com uma estrutura mais apropriada para atender os inúmeros casos que requeriam cuidados. Antes da criação do Sanatório, caso um membro de determinada família fosse portador de transtornos mentais, ele era mantido em casa, em algumas circunstâncias, amarrado, uma vez que não era possível tratar destas pessoas de outra forma. Alguns desses enfermos se tornavam indigentes pela recusa da família nos cuidados necessários ou encaminhados a outras cidades pelas instituições por excesso de internados. A implementação de um manicômio na cidade só foi possível devido à participação de uma instituição filantrópica, neste caso, a espírita. A presença de espíritas faz-se perceber no poder público, e também no processo de legitimação e institucionalização da assistência social da própria sociedade, pois o cumprimento de atividades essenciais relativas aos cuidados com a saúde, e não filantrópicas, es2

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Lei nº 10.216. Brasília, DF, 06 abr. 2001. Não é a proposta deste trabalho discutir os grupos de luta antimanicomial e diversos outros importantes contribuíram para a humanização do tratamento da loucura.

178 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

tavam a cargo de entidades religiosas quando, em teoria, deveriam ser dever do Estado. É por causa desse descaso do poder público em relação aos problemas sociais, que surgiram personagens que ficaram marcados no imaginário da cidade. A aceitação que muitos espíritas tiveram perante a sociedade uberlandense, neste período da implementação do Sanatório Espírita, pode ser comprovada pelo número de doações. As feitorias dos seus adeptos alcançaram números surpreendentemente expressivos, assumindo uma estratégia eficiente de divulgação da sua doutrina. Diante das diversas obras assistencialistas edificadas pelas instituições espíritas em todo o país, aquelas que visavam o tratamento da loucura merecem maior destaque. Segundo a premissa kardecista, o reconhecimento da loucura como obsessão faria com que muitos adeptos da doutrina religiosa se empenhassem na edificação de sanatórios por todo o país. Essa visão favoreceu a criação do Penate Allan Kardec em 1932.3 No final da década de 30, intensificou-se a campanha para angariar fundos em prol da construção do novo hospício, desta vez com uma arquitetura própria para abrigar os internos a exemplo dos asilos existentes em outros locais. Alcindo Guanabara, espírita atuante trabalhou em várias instâncias, promovendo ampla divulgação do que viria a ser, o mais importante feito para a instituição espírita a construção de um sanatório adequado. O fato de ter sido chefiado por espíritas – doutrina religiosa de pouquíssimos adeptos e perseguida por alguns representantes do catolicismo – não impediu as doações vindas dos católicos, que foram inclusive, indispensáveis para o funcionamento do hospício. A existência deste manicômio e a sua eficácia em garantir o isolamento dos doentes remontam à ações comple3

VITUSSO, I. R. Terra fértil semente lançada. A história do espiritismo em Uberlândia. Uberlândia: Aliança Espírita Municipal, 2000.

a loUcUra entre dois mUndos

• 179

xas, como as relacionadas aos dispositivos de controle defendidos por diversos setores urbanos, e à receptividade das pessoas diante dessa instituição. Mais ainda, às próprias maneiras pelas quais setores da sociedade se fizeram presentes, lutaram para que projetos higienizadores fossem realmente implantados. Portanto, entender as relações de forças estabelecidas, e o imaginário delineado em torno dos transtornos mentais e do tratamento assistencialista, possibilita-nos o entendimento da maneira como os diversos setores da comunidade local se empenharam na transformação, limpeza e ordenação do espaço urbano. Em 1942, representantes do poder público, da maçonaria, médicos e os membros da Associação Comercial e Industrial (Aciub), reunidos, celebraram a inauguração do Sanatório Espírita de Uberlândia, uma instituição asilar que correspondia aos interesses de membros tão diversos. Depois de intensas cobranças, a notícia do evento foi editada na primeira página do jornal local mais importante:
Conforme já é do domínio publico, inaugurou-se no dia 29 do mês de Abril próximo findo, o Asilo de Dementes Allan Kardec, instituição essa, construída pelo espírito altamente dinâmico e caritativo do povo desta grandiosa Uberlândia e, patrocinada pela Associação Espírita.4

Foram internadas no primeiro ano da instituição 17 pessoas, segundo os prontuários do sanatório. Além do médico Moysés de Freitas, clínico geral e radiologista, o sanatório dispunha de uma enfermeira voluntária, dona Marolina, que fora contratada posteriormente. A casa tinha ainda outro enfermeiro, assalariado, chamado Rosalvo,
4

SOB a mais viva satisfação, inaugurou-se domingo em nossa cidade, O “Asilo de Dementes”. Correio de Uberlândia, Uberlândia, p. 1, 1 abr. 1942.

180 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

e, posteriormente, teria-se contratado outro enfermeiro, o Bitencourt. As cozinheiras e outros ajudantes trabalhavam realizando as tarefas gratuitamente com amor e dedicação à religião que professavam. Nenhum dos enfermeiros tinha formação acadêmica para a prática da profissão.5 No começo da década de 60, o psiquiatra Lázaro Sallum assume as atividades no hospício. Ele foi aprovado em um concurso estadual para atuar como psiquiatra na cidade, mas Homero Santos, deputado estadual na época, conseguiu que o médico fosse atuar no sanatório, não precisando, com isso, que os espíritas arcassem com as despesas referentes ao salário do psiquiatra. Esta parceria do poder público com a entidade religiosa possibilitou que o manicômio continuasse a existir, mostrando-nos o jogo político estabelecido e a aceitação e prestígio que militantes kardecistas desfrutavam. Quanto à chegada de Sallum ao Sanatório:
Quando o senhor Gladstone [diretor da instituição neste período] e Sr.. João Dorneles Santos Junior [militante espírita e posteriormente diretor do hospício], não sei se você chegou a conhecer, que é um dos diretores do Sanatório, eles vieram através do meu pai. Então através que eles eram maçons e insistiram muito comigo, eu ainda não sabia se ia ficar em Uberlândia ou não, certo. Então eu aceitei dirigir lá, dar o nome como diretor clínico do Sanatório porque eles estavam na iminência de fechar o Sanatório porque não tinha psiquiatra. Então eu aceitei assinar como diretor clínico do Sanatório e quando eu vi que não ia sair mesmo o curso do CAPS e que se eu fosse pra Uberaba eu não ia ter grandes vantagens, certo?

5

CASTRO, M. Depoimentos. Uberlândia, jan. 2001.

a loUcUra entre dois mUndos

• 181

Eu fiz concurso do Estado e fiz concurso pro INSS também. E, felizmente eu fui aprovado nos dois e aí eu fixei em Uberlândia definitivamente. Como médico perito, fazia perícia na parte neurológica e psiquiátrica para trabalho e médico do posto de saúde. Foi aí que entrou a diretoria do Sanatório, através do deputado Homero Santos que foram lá e conversaram na época, era o governador de Minas, era o Magalhães Pinto.6

Em última instância, poderíamos até considerar que a inauguração do manicômio representava para a população local a solução dos problemas referentes ao isolamento e tratamento dos loucos. No entanto, as ruas não deixaram de ser habitadas pelos doentes. A convivência era garantida desde que não perturbassem o espaço do mundo são. É comum ouvir entre os moradores da cidade histórias envolvendo loucos e casos extravagantes vivenciados por eles. Em um ano de funcionamento, o sanatório internou menos de 20 enfermos. O projeto arquitetônico da casa, desenhado por João Jorge Cury, arquiteto famoso na cidade, foi delineado acreditando-se no rápido crescimento urbano logo, era capaz de comportar em media uma centena de pessoas. Uberlândia, na década de 40, era essencialmente rural e tentava se espelhar, por influência dos poucos intelectuais, filhos das elites ruralistas, às metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo. Para estes moradores, com mentalidade provinciana, a inauguração do sanatório significava, além da extirpação de comportamentos morais reprováveis, a ideia de progresso, pois era a realização de uma obra que só os centros importantes do país desfrutavam neste período. A responsabilidade da manutenção do hospício era defendida como uma obrigação que a po6

SALLUM, L. Depoimentos. Uberlândia, 20 maio 2005. Este foi o primeiro psiquiatra do hospício, hoje aposentado, reside em Uberlândia.

182 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

pulação deviria assumir, uma conquista que precisava ser preservada. Seguindo esse raciocínio, ainda que se perceba um descaso do poder público na geração de rendas para o sanatório, os militantes kardecistas conseguiam que pessoas ligadas a outras religiões contribuíssem para a manutenção desta casa asilar. Não somente o sanatório conseguia as doações como também outros projetos assistencialistas promovidos por estes religiosos. Como podemos observar, há um reconhecimento dos feitos espíritas:
Das instituições beneméritas com que conta o patrimônio social de nossa terra, destaca-se pelas finalidades filantrópicas o Sanatório Espírita, destinado ao tratamento de dementes. Creado [sic] por um grupo de abnegados filantrópicos, em que o sentimento de humanidade cristã a luz merediana da doutrina espírita se empunha aos seus elevados sentimentos para com o próximo ergueram esse monumento de piedade que agasalha a todos sem exceção, ricos e pobres igualados ali, quer pelo infortúnio, quer pela assistência absolutamente gratuita conseguida a custa de insanos sacrifícios entre as pessoas de coração bem formado e que em todas as ocasiões estão aptas a compreender seus deveres para com o próximo, facultando de sua abastança e da sua felicidade, um pouco que mitigue a dolosa trajetória de seres humanos que o destino marcou neste mundo de sofrimentos e lágrimas. A atual direção mentora do Sanatório Espírita, vem realizando esforços sobre- humanos para conseguir o suficiente para manter em franca atividades a 30 dementes permanentes.7
7

SOCORRAMOS o Sanatório Espírita de Uberlândia. Correio de Uberlândia, Uberlândia, p. 2, 27 jul. 1946.

a loUcUra entre dois mUndos

• 183

São frequentes as notas jornalísticas em deferência aos fiéis espíritas:
A nossa cidade conta, felizmente, com algumas instituições de assistência social que prestam relevantes serviços. Além da Santa Casa de Misericórdia, que é a de maior, há o Sanatório Espírita e alguns asilos que se esforçam denodadamente para satisfazer as finalidades para que foram fundados. Mas é forçoso reconhecer que essa missão é difícil de levar a cabo. Sem dúvida nenhuma que há almas generosas que fazem doações maiores ou menores, conforme as posses de cada um, representando sempre boa vontade, espírito caritativo, solidariedade humana. Mas toda renda auferida é sempre insuficiente para as despesas que são exorbitantes em face da carestia dos artigos indispensáveis para o seu funcionamento. Só a alimentação dos asilados com os preços que agora são exigidos no mercado local, absorve todos os proventos conseguidos pelos institutos assistenciais. Mas temos ainda que computar os artigos de utilidades, o mobiliário, a roupa de cama que é de duração limitada, equipamento de cozinha, combustível para o fogão, luz, força e, sobretudo medicamentos que custam uma fortuna e se consomem necessariamente em grande quantidade.8

Devido ao descaso do poder público em relação aos problemas sociais, surgiram personagens inesquecíveis. Por exemplo: José Gonzaga de Freitas – espírita, de família abastada de empresários, médicos e profissionais liberais – tornou-se autor de ações beneméritas em Uberlândia. Como partícipe do centro espírita Fé, Esperança e Caridade, arrecadava com toda a sociedade, comércio, indústria e famílias,
8

O PROBLEMA da assistência. O Repórter, Uberlândia, 15 maio 1959.

184 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

auxílio financeiro, medicamentos, comida, roupas, entre outras coisas para o asilo. Aonde chegasse com seu caderno, era certo o auxílio conseguido, por isso, mesmo não tendo sido efetivamente o diretor geral, era o rosto que simbolizava a obra social. E esta imagem certamente foi reafirmada por seus programas de rádio e de televisão, nos quais atuou por mais de 30 anos. Vejamos o depoimento de sua filha:
E era sustentado porque o papai andava nas ruas pedindo, nas casas, nunca foi sustentado pelo poder público, nunca ganhamos nada. Foi a população uberlandense que sempre sustentou. Nunca faltou a carne, a verdura, os ovos, nunca faltou, remédios.9

A aceitação que muitos espíritas obtiveram perante a sociedade uberlandense neste período da implementação do Sanatório Espírita pode ser vista pelo número de doações. Nas entrevistas realizadas para este trabalho, foi unânime a resposta de que o sanatório não recebia subvenções da prefeitura. Segundo Gladstone Rodrigues da Cunha, diretor do Sanatório Espírita na década de 60:
Com referência a manutenção financeira do nosso Sanatório Espírita, se existia algum amparo oficial, ou por parte da prefeitura, ou por parte do Estado, durante a minha gestão, eu não tive conhecimento disso. Nunca perguntei, nunca indaguei. O que era do meu conhecimento é que o nosso irmão, muito admirado por mim como um grande trabalhador da seara espírita, José Gonzaga de Freitas, esse irmão dava o seu tempo integral em busca de recursos muito, das empresas, das máquinas de arroz, naquele tempo tínhamos dezenas, centenas de máquinas de
9

FREITAS, N. Depoimentos. Uberlândia, 17 jun. 2005.

a loUcUra entre dois mUndos

• 185

arroz em Uberlândia, ele vivia diariamente batendo na porta de quem tinha condições de dar algum apoio financeiro, angariando recursos para a manutenção dos irmãos que viviam no Sanatório. E com isto, pelo menos durante os oito anos que nós lá estivemos, graças a Deus nunca faltou nada para amparar aqueles irmãos.10

Dona Marta, filha de Florisbela (segunda esposa de José Gonzaga de Freitas e ex-diretora da instituição) relatou a dificuldade de manter a instituição, uma vez que não era subsidiada pelo poder público.
Não nós tínhamos SUS não. Não tínhamos SUS, não tínhamos nem convênio com nada. A única, o único órgão que nos dá ajuda até hoje é a Cemig, ela nos dá oitenta por cento da luz. Só. É o único, a Cemig. A prefeitura nunca nos isentou, nem de IPTU, nem de água. Nunca nos isentou. Lá nós pagamos, o IPTU de lá é muito, é muito grande, que a área é muito grande. Eu quero dizer, era uma casa de utilidade pública, né? Nó. Temos isenção federal, estadual, não paga imposto é tudo isento, mas não tinha, desde essa época o seu José, sempre o seu José que trabalhou nas ruas. Ganhava um não aqui, um sim ali.11

Apesar de serem escassas as doações do poder público, existia uma subvenção da Prefeitura Municipal, não só para o sanatório, mas também para outras obras assistenciais espíritas como o Dispensário dos Pobres, o Lar Alfredo Júlio, o Educandário Emmanuel, como podemos atestar na publicação do orçamento a seguir:

10 11

CUNHA, G. R. da. Depoimentos. Uberlândia, abr. 2002. DEUS, M. M. T. de. Depoimentos. Uberlândia, dez. 2002.

186 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Tabela 1 Subvenções, Contribuições e Auxílios – Despesas diversas
Ao Dispensário S. Vicente de Paulo Ao Asilo S. Vicente de Paulo Ao Delegado de Polícia A Sociedade Mineira de Proteção aos Lázaros e Defesa com a Lepra A Associação de Tuberculosos Proletários Ao Serv. Anti-Rábico de Uberaba Ao Sanat. Espírita de Uberlândia Fonte: Correio de Uberlândia, 21 jan. 1943. Cr$ 36.000,00 Cr$ 1.200,00 Cr$ 3.600,00 Cr$ 500,00 Cr$ 1.000,00 Cr$ 500,00 Cr$ 6.000,00

A partir de uma intensa pesquisa nos jornais, notamos que não há nenhuma nota negando a importância do sanatório para a cidade, ao contrário, percebe-se o enaltecimento das obras espíritas pelos meios de comunicação. Na Câmara Municipal, o vereador João Pedro Gustin faz uma intervenção na assembleia para engrandecer os feitos espíritas, dizendo que:
Reconhece que em nosso município o desempenho da igreja do Espiritismo e do Protestantismo, tem dado o melhor atendimento aos necessitados. Não nega o trabalho realizado pela Santa Casa, Lar Alfredo Julio e igrejas evangélicas que dão escolas aos nossos filhos [...] (Vereador João Pedro Gustin).12

Todos os militantes espíritas reiteram as dificuldades enfrentadas pela manutenção material da instituição, mas
12

CÂMARA MUNICIPAL DE UBERLÂNDIA. Ata da nona sessão da terceira reunião ordinária realizada no dia 22 abr. 1968. Uberlândia, 1968.

a loUcUra entre dois mUndos

• 187

afirmam que nunca faltou nada aos internos. Havia comida, roupas, remédios, conseguidos por meio das doações, porém, no depoimento de Lázaro Sallum, o maior motivo de sua saída, em 1982, foi por não aguentar a falta de alimentos e a escassez de medicamentos. Em várias oportunidades, chegava ao sanatório e notando que não havia comida, ele doava um montante em dinheiro para que se fizesse uma compra:
Bem, então larguei a escola de medicina e aí continuei só com o consultório. E nessa época o Sanatório começou a passar por uma situação tremenda, com dificuldades financeiras e de repente eu acordei, pode parecer absurdo isto, acordei tirando dinheiro do bolso. De chegar e não, não tem arroz, mandava comprar um saco de arroz do meu bolso. Depois cheguei um ponto, eu falei não, chega, eu, né. Nós tínhamos, por exemplo, tínhamos pessoas, o dr. Salim também, outro que cê [sic] conheceu. O dr. Salim também, por exemplo, que sistematicamente, certo, sistematicamente, ele e o dr. Kasan dava dez salários mínimos pro Sanatório. Todo mês! Quer dizer, acontece que pra manter cem doentes. Era um saco de arroz de sessenta quilo dava pra três refeições. Era vinte quilo de arroz por dia. Quer dizer, e foi chegando um ponto em que a situação foi ficando precária, precária, não tinha como comprar medicamentos, não tinha como comprar mantimentos e aí eu deixei o Sanatório. Não adianta querer dar murro em ponta de faca. Aí eu saí, na época, eu consegui convencer um garoto que tinha chegado aqui em Uberlândia, recém-formado, era psiquiatra, ficar lá no Sanatório no meu lugar, e ele ficou, mas ele ficou me parece que uns quatro ou cinco meses, eles mataram ele lá na escola.13
13

SALLUM, 2005.

188 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Os benefícios conseguidos dependiam de acordos. Lázaro nos disse que, em certo período, o chefe do Serviço Nacional de Doenças Mentais simpatizou com a maneira que os diagnósticos eram aplicados, passando a garantir, todo o mês, o suprimento da medicação utilizada. Quando mudava o chefe, interrompia-se a remessa. O mesmo acontecia em relação à doação de alimentos, pois faziam um acordo com determinado sargento do Exército para que estes fossem doados e, quando este oficial mudava de cidade, o fornecimento era cortado.
O município dava quando o Renato de Freitas assumiu a prefeitura de Uberlândia, o Renato de Freitas teve o descaramento de votar uma verba de mil Cruzeiros pro Sanatório. Mil Cruzeiros naquela época equivaleriam a cinco salários mínimos anual. Não dava pra comprar o arroz. Mas eu tinha um aluno, da Faculdade de Medicina, que era major do Exército aqui, quando o Exército aqui não era batalhão, era regimento. Então era o major que dirigia. Eu esqueci o nome dele. Foi um dos primeiros que teve aqui. Eu conversando com ele, que a situação, que eu levava, na hora de aula na Faculdade de Medicina, eu ia pro Sanatório, enchia o carro de doente, levava pro Sanatório, dava aula naquele doente, voltava com isto pro Sanatório, cê entende como é que é? Porque eles não aceitavam levar estudante lá. A cabeça deles era aberta que era uma maravilha. Nossa Senhora! Chegava uma tonelada de peixe, eles mandavam duzentos quilos pro Sanatório, cê entendeu como é que é? Chegava, por exemplo, um caminhão de arroz, ele mandava dez sacos pro Sanatório. Ele ajudou tremendamente. Mas aí tiraram o major, passou pra batalhão e veio um coronel. O coronel, primeira coisa que ele

a loUcUra entre dois mUndos

• 189

fez foi cortar essas ajudas que eles davam. O Sanatório passou a viver.14

Havia inúmeras reclamações por parte dos militantes espíritas acerca do descaso dos governantes municipais e estaduais em gerir recursos às obras assistenciais. Porém, a não atenção do poder público, possibilitou a ascensão do espiritismo. Os espíritas se fizeram presentes em setores estratégicos da sociedade, tendo representantes na política, no meio intelectual e na imprensa, como também conseguiram uma convivência harmônica com segmentos não espíritas, compondo os quadros conservadores da época. Isto não quer dizer que todos os espíritas eram conservadores, como não o eram também todos os médicos e políticos. É preciso ficar claro a distância existente entre a doutrina religiosa professada e as práticas sociais e isto vale para todas as religiões. Sem entrar no mérito da essência que move as religiões, nem tampouco classificar se são produtos de revelações divinas ou criações humanas, podemos asseverar, contudo, que as pessoas reelaboram aquilo que sentem, que vivenciam, incorporando valores pertencentes à sua cultura. Não há conteúdo puro, pois alguém já o transformou e o readaptou de acordo com as suas próprias necessidades. O estudo da trajetória do Sanatório Espírita de Uberlândia nos permite pensar no movimento constante da cidade, refletido no modo de vida das pessoas que se organizam e criam seus próprios conceitos com relação a esta cidade. Por outro lado, é necessário que percebamos a confluência das vertentes de pensamentos no Brasil, relacionando-os com as representações simbológicas dos adeptos do espiritismo associados às práticas do tratamento da loucura, a fim de fazer referência ao processo histórico,
14

SALLUM, 2005.

190 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

vivenciado por diferentes grupos sociais, alguns dos quais causadores de injustiças e desmandos com os portadores de transtornos mentais. Analisando a documentação, percebemos a maneira como os interesses das elites empresariais e políticas se uniram com o projeto assistencialista dos espíritas. Eram frequentes as homenagens de políticos aos fiéis espíritas engajados em atividades filantrópicas. Estas alianças dependiam dos acordos políticos em questão, não necessariamente das perspectivas ideológicas partidárias. Por outro lado, estes grupos não viviam em harmonia e as contradições geradas por interesses diversos não deixam de aparecer. O artigo de Alcindo Guanabara na imprensa local nos permite visualizar estes conflitos:
Para que ninguém alegue ignorância de boa, ou má fé e como é para o bem de todos e felicidades geral, levo ao conhecimento que não tem nenhum fundamento quaisquer boatos de camuflagem forjados sobre a Obra, ou o que eu tenha dado por terminado “Azilo de Dementes” continuo firme trabalhando internamente, já, tendo entrado na 4ª etapa no desenrolar dos acontecimentos, aguardem para breve, meu pronunciamento, para que os incomodados é que si ... ou inteirem de toda verdade nua [sic] e crua. Dispensando todo e quaisquer elogios, no cumprimento dos meus deveres sem artifícios, pois o que eu sou está em mim, trabalho por ideal independente, sem temer os arreganhos dos lobos, ou o disfarce das ordas reacionárias de Satam!!! encarnados ou desencarnados, sem compactuar atendendo a bastardos ou corrompidos interesses pessoais laterais e de quaisquer procedência, Seilassie ou, não ... (Alcindo Guanabara – Diretor Tesoureiro, por conta própria).15
15

GUANABARA, A. Campanha pró-Construção do Asilo de Dementes. Correio de Uberlândia, Uberlândia, p. 2, 26 ago. 1941.

a loUcUra entre dois mUndos

• 191

Nesta fala áspera de Alcindo, percebemos a tensão dos grupos sociais disputando a legitimação e o poder. Embora a construção do sanatório – como outras obras assistencialistas – coadunava com os interesses das elites uberlandenses, a convivência com outros grupos políticos ou religiosos não deixava de ser conflituosa. Neste caso, a cobrança por prestação de contas é um definidor instigante para pensarmos os embates pelo reconhecimento social. Percebemos a constante dialética que seria a integração dos variados segmentos sociais na realização de seus projetos com interesses afins e, ao mesmo tempo, as disputas que emergem da visão e interesses que estas pessoas têm do mundo e da maneira como se fazem reconhecer como sujeitos. A construção do Sanatório Espírita em Uberlândia, legitimando práticas do tratamento psiquiátrico, está fortemente associada à própria ascensão da religião espírita na cidade, entidade religiosa que controlava tanto o tratamento ministrado aos doentes mentais como também a parte administrativa. Sendo assim, é importante discorrermos acerca dessa trajetória delineada por adeptos do espiritismo em busca de reconhecimento. Segundo o IBGE, o espiritismo no Brasil cresceu aproximadamente 40% nos dois últimos censos, somando cerca de 20 milhões de espíritas, não contabilizando as pessoas que, mesmo não se considerando adeptas, de uma maneira ou de outra, aproximaram-se das práticas espiritualistas, tanto no que se refere às curas espirituais – muito difundidas por esta religião –, quanto pela busca por fenômenos paranormais. Segundo revela a pesquisa, os seus adeptos se encontram em uma situação financeira mais confortável, possuem uma renda 150% maior que a média do país e apresenta uma maior taxa de escolaridade se fizermos uma comparação com os praticantes de outras religiões. O país se urbanizava em busca da propagada moder-

192 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

nização que se assentaria no ideal de desenvolvimentismo de J.K., uma industrialização cujo suporte estaria nas tão discutidas cinco metas. O fato é que o perfil da sociedade brasileira se transformava de maneira irreversível desde 1960. Compreendendo a cultura como parte inerente dessa mudança, o catolicismo tradicional, arcaico, não respondia mais com a mesma intensidade às crises experimentadas no novo cenário social. Assim, fazendo referência à conceituação de Camargo, as religiões internalizadas, entre elas a pentecostal, a espírita e a carismática, oferecem respostas mais consistentes àqueles que se vêem envolvidos neste processo. É nesse sentido que Pierucci e Prandi afirmam:
Quando a umbanda, o espiritismo, o pentecostalismo, o candomblé, curam, suprindo o mal físico ou a loucura, aplainando a crise existencial, repondo a certeza na ação, ainda que a ciência possa constatar a mudança operada, podendo até comprovar ou não a eficácia terapêutica, não pode interromper o sentido da experiência religiosa da cura. [...] Estas modalidades religiosas são capazes, cada qual a seu modo, se dar forma e impregnar de sentido um estilo de vida relativamente adequado ao setor que se moderniza na sociedade brasileira.16

Alguns pontos fundamentais do espiritismo, como reencarnação, comunicações e curas espirituais estão disseminados na sociedade brasileira e também no mundo, em diversas linguagens e representações artísticas, embora de forma não muito clara. Na literatura, na produção cinematográfica, em programas de televisão, entre outros, a discussão sobre reencarnação, comunicação espiritual, curas mediúnicas e outros dogmas adotados pelo espiritismo
16

PIERUCCI, A. F.; PRANDI, R. A realidade social das religiões no Brasil: religião, sociedade e política. São Paulo: Hucitec, 1996.

a loUcUra entre dois mUndos

• 193

são bem recorrentes, despertando a curiosidade de inúmeros adeptos de outras religiões. Em 1994, apenas para citar um exemplo, a novela de Ivany Ribeiro, A Viagem, exibida pela Rede Globo, obteve considerável número de audiência, abordando, entre outros temas, fenômenos paranormais e a vida após a morte. A mesma trilha percorreu os folhetins Alma Gêmea, da Rede Globo, apresentada em 2005, que obteve o melhor índice de audiência no horário das seis na última década, e, em 2006, O Profeta, versão dos anos 70 de Ivany Ribeiro, que fora transmitida pela primeira vez na TV Tupi. No programa Linha Direta, também da emissora Globo, os episódios que tiveram maior repercussão estão relacionados à mediunidade, entre eles a história sobre cartas psicografadas de 13 mortos do edifício Joelma, que pegou fogo em 1974. Além disso, filmes de sucesso como Ghost, Os Outros,17 Sexto Sentido,18 entre tantos outros também abordam as temáticas que envolvem o espiritismo. O mercado editorial referente às obras espíritas constitui-se em um tópico à parte. Várias obras atingiram o status de best-sellers. Muitos deles, há dez anos, não saem da lista dos dez mais vendidos, tem-se como exemplo vários livros da autora Zibia Gasparetto; Chico Xavier já vendeu mais de 25 milhões entre seus 400 títulos psicografados; Waldemar Falcão, autor de Encontro com Médiuns Notáveis é um dos mais vendidos nas maiores livrarias; e a biografia As Vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior, chegou à casa dos 300 mil exemplares vendidos.19 Tais recordes aguçam a curiosidade de pesquisadores. A questão é como explicar tal repercussão. Flávio Pierucci,
17

18

19

OS OUTROS. Direção: Alejandro Amenábar. EUA: Miramax Films: Dimension Films, 2001. 1 filme (114 min.), son., color. O SEXTO sentido. Direção: M. Night Shyamalan. EUA: Buena Vista International, 1999. 1 filme (106 min.), son., color. MENDONÇA, M. O novo espiritismo. Revista Época, São Paulo, 03 jul. 2006.

194 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

sociólogo da USP tenta explicar o porquê da crescente ade, são da classe média ao espiritismo:
O espiritismo é uma religião confortável. Ela suaviza o drama da morte e dá respostas lógicas ao que acontece de bom ou ruim. Sem falar que podemos levar créditos ou débitos para outras vidas. Por isso, há três grandes razões para esta atração das classes médias: 1. a doutrina espírita se baseia num conjunto de idéias bem sistematizadas e, portanto, possível de aceitação racional; 2. ela é flexível e acolhe gente de todas as religiões; 3. a forma original da religião fundada por Kardec de lidar com a questão da morte.20

Identificado com algumas correntes de pensamento europeu, o espiritismo foi trazido para o Brasil por imigrantes europeus letrados. Apoiado na ideia da reencarnação e da evolução, o espiritismo surgiu com Hippolyte Leon Denizard Rivail, conhecido pelo pseudônimo de Allan Kardec, pedagogo, nascido em 1804, fortemente influenciado pelas ideias liberais, inspirado nas doutrinas de Rousseau. Na década de 1850, trava forte contato com fenômenos paranormais, principalmente com as sessões de mesas girantes, passando, a partir disso, a estudar tais ocorrências. Kardec, convicto da existência de comunicação com espíritos lança, em 1857, a obra intitulada O Livro dos Espíritos, em forma de perguntas e respostas, supostamente respondidas pelos espíritos. As perguntas eram direcionadas aos médiuns, uma vez que Kardec se dizia não possuidor de dons mediúnicos. Entre outras abordagens, o livro realça a existência do mundo espiritual, a natureza e a pluralidade das vidas passadas e
20

MENDONÇA, 2006, p. 70.

a loUcUra entre dois mUndos

• 195

as leis morais. Segundo defendem os seus seguidores, esta doutrina propõe uma comunhão da religião com a ciência, tratando as revelações divinas por meio da manifestação dos espíritos, e que podem ser explicadas racionalmente, dentro dos parâmetros adotados pela ciência.21 Kardec publicou outras obras, entre as mais importantes, O Evangelho segundo o espiritismo, A gênese, O céu e o inferno, O livro dos médiuns, além de ser responsável pela organização de um periódico denominado Revista Espírita, que tinha como objetivo a divulgação da religião que se iniciava. Alan Kardec morre em 1869, deixando vários seguidores, entre eles: Leon Denis, Pierre Leymarie, Cammile Flamarion, Charles Richet, William Crookes, entre outros. Houve intensa divulgação dos preceitos espíritas por diversas partes da Europa e, em 1869, após a morte de Allan Kardec, esta religião alcançou mais de quinhentos adeptos na Europa. Segundo Laplantine e Aubrée,22 a Europa possuía, no final do século XIX, uma verdadeira cultura espírita, dada a curiosidade despertada pela suposta possibilidade de comunicação espiritual, difundida por meio de inúme21

22

Para um aprofundamento sobre o processo de aceitação do espiritismo no Brasil e sua construção ideológica e religiosa no país e também na Europa, conferir entre outros: GIUMBELLI, E. O cuidado dos mortos: uma história da condenação e legitimação do espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997; SILVA, R. M. da. Chico Xavier: imaginário religioso e representações simbólicas no interior das Gerais – Uberaba, 1959-2001. 2003. 269 f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2003; DAMÁZIO, S. F. Da elite ao povo: advento e expansão do espiritismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994; JURKEVICS, V I. . Crenças e vivências espíritas na cidade de Franca (1904-1980). 1998. 137 f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de História, Direito e Serviço Social, Universidade do Estado de São Paulo, Franca, 1998; STOLL, S. J. Entre dois mundos: o espiritismo da França e no Brasil. 1999. 255 f. Tese (Doutorado em Antropologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999. LAPLANTINE, F.; AUBRÉE, M. La table, le livre et les espirits. Paris: J.C. Lattès, 1990 apud GIUMBELLI, 1997.

196 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

ras obras literárias e por seus militantes espíritas. Havia, na França, 13 periódicos em circulação; na Espanha, era possível localizar 36 revistas. Na última década do século XIX, contavam-se, aproximadamente, 90 periódicos em toda a Europa, tamanho era o movimento espírita que, em 1989, propiciou que a França sediasse o I Congresso Internacional Espírita e Espiritualista.23 Num depoimento, Kardec ressalta:
Por toda parte a idéia espírita começa a ser difundida partindo das classes mais esclarecidas ou de mediana cultura. Em nenhum lugar ascende das classes mais incultas. Da classe média ela se estende às mais altas e mais baixas da escala social. Em muitas cidades os grupos de estudo são constituídos quase que exclusivamente por membros dos tribunais, pela magistratura e o funcionalismo. A aristocracia fornece também seu contingente de adeptos, mas até o presente eles têm se contentado em ser simpatizantes e, na França pelo menos, pouco se reúnem. Grupos desse tipo são mais comuns na Espanha, Rússia, Áustria e Polônia [...].24

O autor Artur Isaia25 faz um estudo dos discursos produzidos pelo espiritismo à luz do século XIX, na Europa, momento em que emergem as teorias positivistas de Auguste Comte e evolucionistas com Charles Darwin. Para este autor, tal doutrina religiosa surge num período conturbado, momento de intensa miséria na França, quando a classe operária vivia em péssimas condições, e culminava
23 24

25

GIUMBELLI, 1997. KARDEC, A. Viagem espírita em 1862. São Paulo: O Clarim, [19--]. p. 21-22. ISAIA, A. C. Allan Kardec e João do Rio: os jogos do discurso. In: MACHADO, M. C. T.; PATRIOTA, R. História & historiografia. Uberlândia: Edufu, 2003. p. 11-31.

a loUcUra entre dois mUndos

• 197

o risco de uma revolta ou uma revolução. A nova doutrina religiosa serviria para acalmar os ânimos dos trabalhadores, aspecto evidenciado tanto no que se refere às práticas de assistência aos pobres e desvalidos quanto à parte doutrinária, que prega um sentimento de conformidade com a realidade social vivida, justificando o sofrimento que muitos sujeitos enfrentavam naquele momento. As pessoas deveriam se resignar, pois mereciam a situação de miserabilidade que viviam. Era a oportunidade de expiar os erros de reencarnações passadas. Assim, a legitimação do espiritismo se explicaria, em parte, devido à postura dos espíritas de aceitação do status quo, e, por conseguinte, por agirem em consonância com os interesses da elite europeia. No Brasil, em meados dos anos 70 do século XIX, o espiritismo teria seguidores identificados com o ideal republicano, com a bandeira abolicionista e com as teorias positivistas e evolucionistas. Em 1875 e 1876, são traduzidas, para o Brasil, quatro das cinco obras mais importantes de Kardec. Em 1884, é criada a Federação Espírita Brasileira, instituição importante para promover um trabalho de propaganda da religião.26 Reportando à cidade de Uberlândia, nas palavras de Vitusso,27 o surto espírita no Triângulo Mineiro teve como justificativa a atuação de importantes nomes para a religião, indivíduos que, segundo a autora, mostraram-se como ícones da divulgação doutrinária, multiplicado ainda mais pela popularidade de Chico Xavier, médium espírita residente em Uberaba até 2002, ano de sua morte. Remontar a história da legitimação do espiritismo em Uberlândia ajudará a compreender melhor as práticas vivenciadas na cidade. O espiritismo encontrou forte disseminação no Brasil e a recepção desta doutrina foi bem diferente à de outros pa26 27

GIUMBELLI, 1997. VITUSSO, 2000.

198 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

íses europeus. Para Sylvia Damazio, a doutrina de Kardec é apreciada, principalmente na França, pelo seu caráter científico, diferentemente do Brasil que adquirira uma característica mais religiosa, facilmente percebida nas práticas assistenciais e na ênfase pela caridade e moral propalada.28 As características culturais brasileiras, entre elas, o sincretismo religioso e as condições sócio-econômicas aqui engendradas ao espiritismo, envereda-se pela perspectiva religiosa, explicando assim, sua aceitação e o respeito a sua doutrina. Isto está fortemente evidenciado no respeito que a figura de Chico Xavier conquistou, mesmo por parte de não espíritas.29
Como o Islamismo na Indonésia, o Espiritismo é uma religião importada, que se difunde no país confrontando-se com uma cultura religiosa já consolidada, hegemônica e, portanto, conformadora do ethos nacional. Sua difusão, como postulam certos autores, foi em parte favorecida pelo fato das práticas mediúnicas já estarem socialmente disseminadas, de longa data, no âmbito das religiões de tradição afro. No entanto, em contraposição a estas o Espiritismo define sua identidade, elegendo sinais diacríticos elementos do universo católico. [...] O Espiritismo brasileiro assume um “matiz perceptivelmente católico” na medida em que se incorpora à sua prática um dos valores centrais da cultura religiosa ocidental: a noção cristã de santidade.30

No final do século XIX, três vertentes de pensamentos se evidenciam no Brasil: uma visão cientificista, influenciada pelo positivismo e pelo darwinismo; outra liberal, empenhada na instauração da República e o fim da escravidão; e, finalmente, a vertente conservadora, marcada pela reli28 29 30

DAMÁZIO, 1994. STOLL, 1999. STOLL, 1999, p. 48.

a loUcUra entre dois mUndos

• 199

gião católica. Os espíritas mantiveram relações com estas três vertentes. Aproximaram-se dos maçons, defenderam os ideais republicanos e abolicionistas, tanto quanto as teorias científicas e, mesmo se contrapondo ao catolicismo, incorporaram práticas desta religião. Para Fábio Luiz da Silva,31 a sedimentação do espiritismo no Brasil aconteceu em meio à imagem do paraíso, do fantástico, presentes nos discursos dos europeus. Na obra psicografada por Chico Xavier, Brasil coração do mundo e pátria do evangelho,32 bastante lida na década de 1940, está presente o ideário da responsabilidade que cabia ao cristão em relação ao Brasil. A repercussão desta obra, supostamente escrita por Humberto de Campos, mobilizará inúmeras atividades dos espíritas. Neste momento de receptividade da obra pelos kardecistas, a Federação Espírita, instituição importante na legitimação do espiritismo, já se encontrava forte, detentora de uma editora com larga distribuição no Brasil, além de inúmeros jornais, reafirmando o valor científico da doutrina lançada por Allan Kardec.33 Em relação à importância de Chico Xavier para a ascensão do espiritismo no Brasil, Bernardo Lewgoy34 discute o imaginário que envolve a religião e os seus adeptos, mostrando, na figura deste médium, a elaboração de símbolos e significados em torno da mediunidade, da reencarnação,
31

32

33

34

SILVA, F. L. da. Espiritismo: história e poder (1938-1949). Londrina: Eduel, 2005. XAVIER, F. C. Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho. Rio de Janeiro: FEB, 1977. Nesta obra psicografada por Chico Xavier é evidente uma representação cronológica da história do Brasil que pactua e explica as injustiças sociais, a ditadura Vargas, em que os desmandos políticos tem um caráter conservador justificando e propagandeando o ideário burguês das elites brasileiras. A Federação Espírita Brasileira (FEB) foi fundada em 1884 no Rio de Janeiro. Para melhor aprofundamento da influência desta entidade na legitimação do espiritismo neste período cf. GIUMBELLI, 1997. LEWGOY, B. Chico Xavier, o grande mediador: Chico Xavier e a cultura brasileira. Bauru: Edusc, 2004.

200 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

da vida após a morte e, fundamentalmente, a forma como esta doutrina se organiza para se expandir. É relevante mencionar a importância de Chico Xavier para a doutrina espírita na medida em que a sua extensa produção literária, além da imagem de santidade que o circunda, influenciou na construção de um ideário de conduta espírita, norteando, de maneira significativa, um vasto campo de atuação dos espíritas.35 Acrescido a isto, é importante destacar o caráter assistencial adotado pelo espiritismo. Entendemos que este aspecto, acima das questões envolvendo a paranormalidade e os fenômenos espirituais, foi crucial para a sua legitimação no Brasil. Assim, a caridade e a reencarnação estão intrinsecamente ligados, porém, se destacarmos o respeito que seus adeptos adquiriram de outros setores privilegiados da sociedade, concluímos que as práticas de assistência social foram fundamentais para que se construísse um ideal humanitário que, enquanto rótulo, garantiu sua aceitação. Partindo do pressuposto de que a religião deve ser compreendida inserida num processo histórico, produto de um conjunto de práticas sociais, observa-se que não há diferenças significativas na atuação dos espíritas em Uberlândia. Embora haja intensos conflitos internos na maneira de conduzir a religião, as práticas kardecistas são as mesmas para todos os grupos kardecistas, como por exemplo: a utilização do passe; a defesa pela prática da caridade; a comunicação mediúnica; a crença na vida após a morte e a reencarnação. As análises do processo de legitimação e a compreensão das representações do campo simbólico dos adeptos nos darão elementos para avançarmos no entendi35

Sobre a construção da idéia de santidade envolvendo Chico Xavier, cf. SILVA, R. M. da; MACHADO, M. C. T. O jeito católico de ser espírita nas terras brasilis. Revista História & Perspectivas, Uberlândia, n. 31, p. 120-138, jul./dez., 2004.

a loUcUra entre dois mUndos

• 201

mento da cultura uberlandense e nacional, investigando em que medida tais práticas forjaram projetos político-sociais e o resultado disto para a população de maneira geral. O esforço dos espíritas em atuarem no tratamento da loucura foi um traço marcante em várias localidades do país. A justificativa para tamanho empreendimento está na fundamentação central da doutrina religiosa: a relação do mundo espiritual com a reencarnação. Para esta religião, a loucura, na maioria dos casos, não é um aspecto patológico, como assevera a Psiquiatria, mas problemas psíquicos causados pelas dívidas adquiridas, supostamente, de outras reencarnações. Segundo esta teoria, a insanidade seria motivada por dois fatores, sendo o primeiro deles o sentimento de culpa originado nos erros de outras reencarnações, sentimentos que emergem do inconsciente; e o outro fator preponderante, como reitera o kardecismo, é a obsessão, ou seja, a perturbação mental ocasionada pela influência direta de um espírito sobre outro. Segundo Kardec:
Os Espíritos exercem incessante ação sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico. Atuam sobre a matéria e sobre o pensamento e constituem uma das potências da Natureza, causa eficiente de uma multidão de fenômenos até então inexplicados ou mal explicados e que não encontram explicação senão no Espiritismo. As relações dos Espíritos com os homens são constantes. Os bons espíritos nos atraem para o bem, nos sustentam nas provas da vida e nos ajudam a suportá-la com coragem e resignação. Os maus nos impelem para o mal: é-lhes um gozo ver-nos sucumbir e assemelhar-nos a eles.36

A terapêutica que os adeptos do espiritismo dizem
36

KARDEC, A. O livro dos espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1996. p. 25.

202 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

promover tem por base a realização de preces, o passe, a água energizada, além das sessões de doutrinação do espírito obsessor, instigando-o a perdoar seu inimigo de outras reencarnações, evitando, dessa forma, a sua manifestação maléfica sobre o louco. Há vários níveis de entendimento da obsessão para a religião kardecistas. Segundo defendem os seus seguidores, considera-se a mais grave a subjugação, que é a completa dominação de uma mente pela outra. Estudiosos do espiritismo apontam a subjugação como um problema de difícil solução, em que a cura é praticamente impossível de ser obtida. Os casos mais comuns, evidenciados inclusive nos prontuários do Sanatório Espírita de Uberlândia, seriam em virtude do louco ser médium e não conseguir controlar a comunicação espiritual. Vejamos nesta ficha, retirada dos prontuários do Sanatório Espírita de Uberlândia, a mensagem psicografada por Eurípedes Barsanulpho:
Para a Irmã Aurora Araújo – 20 anos Rua Machado de Assis. Obsedada por ser médium descontrolada, sim convém depois fazer a sua educação mediúnica, tendo por base os evangelhos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Convém internar-se para o tratamento. Paz em Deus.37

O campo de atuação espírita estava definido e era preciso cuidar da alma deste povo tão sofrido. A militância desses religiosos esteve quase sempre ligada à cura de doenças com as quais a medicina não obtinha êxitos, e o cuidado com a loucura passa a ser a sua maior preocupação. Até a década de 60, os kardecistas conseguiram fundar várias casas por todo o país, com o intuito de atenderem portadores de transtornos mentais. Em Uberlândia, a fachada do manicômio é rigorosamente idêntica ao de Uberaba, o que
37

PRONTUÁRIOS do Sanatório Espírita de Uberlândia, ficha 117, 1944.

a loUcUra entre dois mUndos

• 203

nos faz crer numa rede que se constituía na região e desta com outras cidades do país. Os exemplos encontrados na Enciclopédia Ilustrada das obras espíritas permitem pensar em um novo paradigma arquitetônico asilar, tendo como referência os parâmetros do Panóptico de Jeremy Benthan.38 Todos eles ocupam uma área vasta, cuja entrada principal se abre em um pórtico que abriga, de imediato, o setor administrativo. Este setor, do lugar em que se estabelece, tem pleno domínio do interior do prédio cuja estrutura lembra o corpo de um avião, distribuído por alas/alojamentos/refeitórios/lavanderias, intercaladas por pátios internos que separam os homens e as mulheres, os enfermos mais perigosos dos mais pacíficos.

Figura 1 – Sanatório Espírita de Uberaba39

Este modelo de construção não condiz com os mo38

39

Em relação aos edifícios prisionais e toda a sua estrutura pensada para dinamizar a vigilância e disciplina, conferir: BENTHAM, J. O panóptico. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. Disponível em: <http://www.uberaba.com.br/uberaba/uberaba.cgi?flag web=mostrafoto&codigo=14>. Acesso em: 05 abr. 2004.

204 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

delos de hospícios do século XIX e XX tradicionais, casas pensadas de modo a isolar completamente o louco da sociedade. Os muros dos manicômios de Uberlândia e Uberaba são baixos e com grades de ferro, possibilitando aos internos o contato com pessoas de fora, situação que não ocorre em outros asilos.

Figura 2 – Sanatório Espírita de Uberlândia40

O Sanatório Espírita de Uberaba, fundado em 1933, teve, desde o início de suas atividades, um psiquiatra espírita. Nesta instituição, ainda em atividade, a presença do médico Inácio Ferreira,41 que defendia a terapêutica espiritual, foi uma espécie de referência para diversos locais do país. Outros sanatórios foram criados espelhados nesta instituição, inclusive a de Uberlândia. Inácio Ferreira não podia ser
40

41

SANATÓRIO Espírita de Uberlândia. In: ORLANDI, V Enciclopédia . ilustrada das obras Espíritas. São Paulo: Editora Urânia, 1961. v. 1. Formado na Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, no estado do Rio de Janeiro, este psiquiatra editou importantes livros para a difusão da realização do tratamento da loucura. Cf. FERREIRA, I. Novos rumos à medicina. São Paulo: Edições FEESP 1993. v. 1/2; FERREIRA, , I. Psiquiatria em face da reencarnação. São Paulo: Edições FEESP 2001. ,

a loUcUra entre dois mUndos

• 205

processado por prática de medicina ilegal, uma vez que tinha o registro de médico. Nenhum sanatório espírita podia funcionar se não atendesse as exigências mínimas, tais como: a presença de médicos, enfermeiros, além, obviamente, das condições materiais de sobrevivência dos internos (roupas, remédios, comida, entre outros). A figura do psiquiatra Inácio Ferreira atuou no imaginário não apenas dos adeptos do espiritismo, como de toda a sociedade, legitimando as práticas espíritas de cura, como também contribuiu para validar a cientificidade das teorias de Kardec. Nesta nota jornalística, afirma-se que:
O dr. Inácio Ferreira, um estudioso da grande ciência de Allan Kardec, acaba de fazer publicar o magnífico livro de sua autoria “ESPIRITISMO E MEDICINA”. É uma obra maravilhosa, só não pela facilidade de linguagem, como também, ela é escrita por um estudioso que alia aos seus conhecimentos, uma grande e sólida cultura.42

Antes de Inácio Ferreira, outro médico já defendia o tratamento psiquiátrico pelo espiritismo. Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900), presidente da FEB em 1895 e um dos articuladores do periódico O Reformador. Escreveu um livro intitulado A loucura sob um novo prisma, defendendo a matriz das doenças e da insânia advindos da espiritualidade e de traumas vividos supostamente em outras reencarnações. Na literatura espírita, este personagem foi figura central para a difusão da religião espírita, sendo alguém recorrentemente evocado pelos fiéis kardecistas. O fato de alguns kardecistas estarem ligados à intelectualidade, mesmo que não seja um número significativo, reordenou a maneira de atuação dos crentes espíritas. O
42

FERREIRA, I. Espiritismo e medicina. Livraria da Federação Espírita Brasileira. Correio de Uberlândia, Uberlândia, p. 5, 18 mar. 1941.

206 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

discurso destes militantes encontrou ressonância em camadas diferenciadas, se não como força hábil para a conversão religiosa, ao menos como garantia de serem respeitados. Isto é essencial para compreendermos o campo de atuação dos espíritas. Prestemos atenção nas falas publicadas destes intelectuais, na tentativa de legitimarem suas práticas religiosas:
Não ha Idea nova que não soffra [sic] o ataque impiedoso dos homens. Esse ataque se estende a tudo, ás innovações materiaes e ás espirituaes, como se o progresso devesse abrir caminho atravez das maiores difficuldades. [...] O Espiritismo foi, pois, o espantalho que surgiu no século passado e contra elle e contra sua these formou-se uma colligação geral. Todos os corpos doutrinários, todas as instituições, até então conflagradas pelas mais profundas divergências, se ardunaram como as cidades gregas diante da alude persa. Sciencia e religião, que viviam em divorcio, irmanaram-se para combater o “inimigo”, como irmanadas ficaram as igrejas, até então umas com as outras em perpetua guerra. É que o Espiritismo vinha alterar os processos que a sciencia tinha estabelecido sobre a matéria e a vida, e perturbar os meios que a religião firmara para a salvação das almas.43

É comum a utilização de membros letrados para a divulgação do espiritismo, facilmente constatado nas crônicas editadas nos jornais locais, nos quais os desbravadores e espíritos empreendedores da difusão kardecista, expressão utilizada por Vitusso, são intelectuais. Agora, um engenheiro escreve para atestar o caráter racionalista-científico do espiritismo:

43

BARBOSA, A. Espiritualismo. Jornal de Uberlândia, Uberlândia, p. 2, 24 jan. 1937.

a loUcUra entre dois mUndos

• 207

O espiritismo, de acordo com as teorias kardecianas, demonstra cientificamente a existência da alma humana e do perispírito. Este é inseparável do principio pensante. Há uma demonstração desta verdade, pelo estudo feito das manifestações da alma, não só durante a vida do homem, como depois de sua morte.44

O caráter de cientificidade defendido pelos espíritas mostra a busca pela legitimação religiosa e o reconhecimento de suas práticas, aliás, característica vivenciada em todo o Ocidente. Não queriam ser confundidos como supersticiosos, fanáticos, e faziam sempre a alusão aos fenômenos espirituais como atividades que podem ser comprovadas até em laboratórios. Não admitiam ser comparados a feiticeiros, charlatões ou macumbeiros. A umbanda e o candomblé eram, para eles, práticas primitivas e degradantes, ainda mais quando afirmam que o espiritismo e
seus ditames, já foram amplamente divulgados por sábios e psicólogos de renome mundialmente conhecidos e não se confundem com o linguajar inferior desses que querem passar como espíritas, ou profetas.45

No campo simbólico dos adeptos desta doutrina religiosa existe uma hierarquia de espíritos, em que os espíritos mais evoluídos ficariam responsáveis pela difusão do espiritismo. Este imaginário explica, por parte dos fiéis, a veneração de importantes personagens kardecistas como Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo, Chico Xavier, entre outros, assemelhando com a concepção católica de
44

45

MENDES, J. F. A alma dentro da ciência espírita. O Repórter, Uberlândia, p. 3, 19 fev. 1952. SILVA, G. J. da. Fúria de Deus? Correio de Uberlândia, Uberlândia, p. 4, 26 jul. 1942.

208 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

santidade.46 O fato de Chico Xavier não ter tido escolaridade poderia representar, de certa forma, uma contradição nos preceitos hierárquicos desta doutrina religiosa, respaldados no espírito iluminista. Esta contradição é apenas aparente, pois, para seus praticantes, Chico Xavier já teria vivido outras reencarnações nas quais conseguiu desempenhar avanço intelectual. Algumas obras psicografadas asseveram que ele teria sido a reencarnação de Allan Kardec. Para esta doutrina espiritual, como para tantos outros segmentos religiosos, há uma verdade universal, que é anterior à existência humana e que é revelada gradativamente. As descobertas científicas que tanto influenciaram o Iluminismo foram consequências diretas da vontade divina, portanto, missões que os crédulos deveriam seguir e lutar para abraçá-las, não cabendo questionamentos. No imaginário destes fiéis a noção de temporalidade se transforma, uma vez que os acontecimentos se repetem na medida em que consideram a existência de vidas em outros planetas, anterior à vida terrena. Os acontecimentos vividos por nós teriam sido experimentados de maneira similar por outros espíritos que se encontram, segundo defende a doutrina religiosa, em estágios evolutivos mais avançados. Situações como a guerra, a corrupção, o ódio, a desigualdade, a miséria, o sofrimento, a ganância, os crimes de modo geral, são consequências da imperfeição moral de cada espírito e somente com a evolução espiritual passariam a não mais existir. Diante disso, para os kardecistas, estes espíritos evoluídos conheceriam as nossas dificuldades terrenas e saberiam dispor de mecanismos para que buscássemos a felicidade, eliminando, gradativamente, tudo que gera o sofrimento humano. Esta concepção de que o que se fez, aqui se paga,
46

Nesta abordagem destacam-se as obras de: SILVA, 2003; LEWGOY, 2004; STOLL, S. J. Religião, ciência ou auto-ajuda? Trajetos do espiritismo no Brasil. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 45, n. 2, p. 361-402, 2002.

a loUcUra entre dois mUndos

• 209

justificaria-se pelo próprio axioma adotado pela ciência, e, ainda segundo seus preceitos, de que para toda ação, há uma reação. A compreensão do sofrimento humano como advindas de karmas adquiridos em reencarnações anteriores, de certa forma, propiciaria, sob o aspecto religioso, um abrandamento das penas do espírito. Assim, o espírito que antes teria o sofrimento eterno, passa agora a ter o alívio e oportunidade para se recuperar. Talvez, por isso, a religião kardecista ganhou novos adeptos. O sofrimento humano passa a ser explicado não como erros de Deus, mas como falhas do próprio indivíduo, que precisa ser resgatado para que evolua espiritualmente.

210 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

referências

BARBOSA, A. Espiritualismo. Jornal de Uberlândia, Uberlândia, p. 2, 24 jan. 1937. BENTHAM, J. O panóptico. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Lei nº 10.216. Brasília, DF, 06 abr. 2001. CÂMARA MUNICIPAL DE UBERLÂNDIA. Ata da nona sessão da terceira reunião ordinária realizada no dia 22 abr. 1968. Uberlândia, 1968. DAMÁZIO, S. F. Da elite ao povo: advento e expansão do espiritismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994. FERREIRA, I. Espiritismo e medicina. Livraria da Federação Espírita Brasileira. Correio de Uberlândia, Uberlândia, p. 5, 18 mar. 1941. FERREIRA, I. Novos rumos à medicina. São Paulo: Edições FEESP , 1993. v. 1/2. FERREIRA, I. Psiquiatria em face da reencarnação. São Paulo: Edições FEESP 2001. , GUANABARA, A. Campanha pró Construção do Asilo de Dementes. Correio de Uberlândia, Uberlândia, p. 2, 26 ago. 1941. GIUMBELLI, E. O cuidado dos mortos: uma história da condenação e legitimação do espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997. ISAIA, A. C. Allan Kardec e João do Rio: os jogos do discurso. In: MACHADO, M. C. T.; PATRIOTA, R. História & historiografia. Uberlândia: Edufu, 2003.

a loUcUra entre dois mUndos

• 211

JURKEVICS, V I. Crenças e vivências espíritas na cidade de Franca . (1904-1980). 1998. 137 f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de História, Direito e Serviço Social, Universidade do Estado de São Paulo, Franca, 1998. KARDEC, A. O livro dos espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1996. KARDEC, A. Viagem espírita em 1862. São Paulo: O Clarim, [19--]. LAPLANTINE, F.; AUBRÉE, M. La table, le livre et les espirits. Paris: J.C. Lattès, 1990. LEWGOY, B. Chico Xavier, o grande mediador: Chico Xavier e a cultura brasileira. Bauru: Edusc, 2004. MENDES, J. F. A alma dentro da ciência espírita. O Repórter, Uberlândia, p. 3, 19 fev. 1952. MENDONÇA, M. O novo espiritismo. Revista Época, São Paulo, 3 jul. 2006. PIERUCCI, A. F.; PRANDI, R. A realidade social das religiões no Brasil: religião, sociedade e política. São Paulo: Hucitec, 1996. OS OUTROS. Direção: Alejandro Amenábar. EUA: Miramax Films: Dimension Films, 2001. 1 filme (114 min.), son., color. O PROBLEMA da assistência. O Repórter, Uberlândia, 15 maio 1959. SANATÓRIO Espírita de Uberlândia. In: ORLANDI, V Enciclopé. dia ilustrada das obras Espíritas. São Paulo: Editora Urânia, 1961. v. 1. O SEXTO sentido. Direção: M. Night Shyamalan. EUA: Buena Vista International, 1999. 1 filme (106 min.), son., color. SILVA, F. L. da. Espiritismo: história e poder (1938-1949). Londrina: Eduel, 2005. SILVA, G. J. da. Fúria de Deus? Correio de Uberlândia, Uberlândia, p. 4, 26 jul. 1942.

212 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

SILVA, R. M. da. Chico Xavier: imaginário religioso e representações simbólicas no interior das Gerais – Uberaba, 1959-2001. 2003. 269 f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de História, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2003. SILVA, R. M. da; MACHADO, M. C. T. O jeito católico de ser espírita nas terras brasilis. Revista História & Perspectivas, Uberlândia, n. 31, p. 120-138, jul./dez., 2004. SOB a mais viva satisfação, inaugurou-se domingo em nossa cidade, O “Asilo de Dementes”. Correio de Uberlândia, Uberlândia, p. 1, 01 abr. 1942. SOCORRAMOS o Sanatório Espírita de Uberlândia. Correio de Uberlândia, Uberlândia, p. 2, 27 jul. 1946. STOLL, S. J. Entre dois mundos: o espiritismo da França e no Brasil. 1999. 255 f. Tese (Doutorado em Antropologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999. STOLL, S. J. Religião, ciência ou auto-ajuda? Trajetos do espiritismo no Brasil. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 45, n. 2, p. 361-402, 2002. VITUSSO, I. R. Terra fértil semente lançada. A história do espiritismo em Uberlândia. Uberlândia: Aliança Espírita Municipal, 2000. XAVIER, F. C. Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho. Rio de Janeiro: FEB, 1977. Depoimentos CASTRO, M. Depoimentos. Uberlândia, jan. 2001. CUNHA, G. R. da. Depoimentos. Uberlândia, abr. 2002. DEUS, M. M. T. de. Depoimentos. Uberlândia, dez. 2002. FREITAS, N. Depoimentos. Uberlândia, 17 jun. 2005. SALLUM, L. Depoimentos. Uberlândia, 20 maio 2005. Este foi o primeiro psiquiatra do hospício, hoje aposentado, reside em Uberlândia.

a loUcUra entre dois mUndos

• 213

ii – narrativas: literaturas, escrituras ordinárias, escritos
Médicos e outras narrativas

Capítulo 7

narrativas da loucura eM dYonélio Machado

Mauro Gaglietti1

Este texto tem o propósito de examinar as narrativas acerca da loucura presentes em alguns textos de Dyonélio Machado. Antes de mais nada, é oportuno frisar que a temática em questão enseja uma releitura dos escritos de Michel Foucault, sobretudo dos que apresentam uma reconstrução genealógica do anormal, conceito esse erigido durante o século XIX em meio ao embate entre os saberes jurídicos e penal, até encaminhar-se para uma psiquiatrização do desejo e da sexualidade, já no fim daquele século. Tal reconstrução, efetuada pelo filósofo francês, apresenta elementos que servem para definir as diferentes personagens que antecedem o anormal, os dispositivos que permitem a
1

Mauro Gaglietti é doutor em História/PUCRS, mestre em Ciência Política/UFRGS, professor visitante do mestrado em Direito da Universidade Integrada do Alto Uruguai e Missões (URI), em Santo Ângelo-RS, professor e pesquisador do Complexo de Ensino Superior Meridional (IMED) e Coordenador da Editora IMED em Passo FundoRS – Linha de pesquisa: Novos Direitos, Cultura, Jurisdição, Efetividade e Desenvolvimento. E-mail: maurogaglietti@via-rs.net

narrativas da loUcUra

• 217

sua definição e, simultaneamente, assinala a raridade ou a frequência da aplicação dessa noção, identificando a tecnologia de poder que lhe corresponde. A primeira aula ministrada por Foucault no Collège de France2 acerca do assunto inicia pela abordagem da função do exame psiquiátrico de imputabilidade penal, uma prática discursiva em que se destacam a medicina mental e o direito penal. Essa sobreposição torna ambos alheios às suas regras específicas, levando-os a compor um discurso grotesco, que tem o poder de manter e, ao mesmo tempo, de produzir verdade. Dessa forma, o exame psiquiátrico tem um triplo papel. Ele reduplica tanto o delito prenunciado – uma vez que monta um quadro no qual é rememorada uma miríade de características pessoais que não infringem lei alguma, mas que, em seu conjunto, acabam sendo indícios que permitem antever o delito – quanto o réu na condi2

Michel Foucault (1926-1984) é admitido no Collège de France em 1970, sucedendo Jean Hyppolite na cátedra então recém-criada de História dos Sistemas de Pensamento. A sua principal atribuição como professor dessa instituição aberta de ensino é oferecer um curso anual, no qual exponha semanalmente o estágio atual de suas pesquisas. Os treze cursos que Foucault oferece no Collège de France entre 1971 e 1984 originam o livro Os anormais, que concentra os temas das onze aulas do curso ministrado em 1975. Os demais cursos são Théorie e institutions pénales (1972), La société punitive (1973) e Le pouvouir psychiatrique (1974), que, em seu conjunto, abordam desde os procedimentos jurídicos tradicionais da punição no medievo até a lenta formação de um saber intimamente relacionado a um poder de normatização. No curso Em defesa da sociedade (1976), o autor passa a identificar os mecanismos pelos quais, desde o fim do século XIX, é desenvolvido o princípio da necessidade de defesa social contra aqueles indivíduos ou classes considerados perigosos. Nesse sentido, pode-se observar como, cada vez mais, o seu pensamento está preocupado com o governo dos vivos ou, como ele afirmará posteriormente, com as formas de poder e saber que tornam os indivíduos sujeitos. Assim, Os anormais ocupa um lugar de destaque na transição de Foucault do estudo das estratégias do poder em suas manifestações mais repressivas e disciplinares, voltadas majoritariamente aos indivíduos para um momento no qual as estratégias do governo das populações – baseado em um certo biopoder – serão o seu foco principal.

218 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

ção de delinquente, na medida em que reconstitui todos os antecedentes do acusado. Assim, o efeito da reconstituição é o de fazer com que o suposto autor do crime se pareça com o delinquente, mesmo antes de ter cometido o crime. Pode-se afirmar, portanto, que o exame psiquiátrico acaba corroborando a natureza constitutivamente criminosa da personalidade do réu:
descrever seu caráter delinquente, descrever o fundo das condutas criminosas ou paracriminosas que ele vem trazendo consigo desde a infância, é evidentemente contribuir para fazê-lo passar da condição de réu ao estatuto de condenado.3

Outro aspecto ressaltado por Foucault é o de que, a partir do momento em que o alienista passa a ter um papel no tribunal, no início do século XIX, há uma progressiva tendência à distinção entre as funções do médico e do juiz nos julgamentos. Forma-se, então, uma área limítrofe entre as funções desempenhadas por esses dois profissionais, os quais tratam de crimes para os quais não havia qualquer explicação racional e cujos agentes não sofriam influência de delírios. Esse tipo de situação origina um movimento amplo no alienismo francês: Pinel (1800) identifica as manias sem delírio; Esquirol fala nas monomanias (1838). Contudo, apenas com Baillarger desenvolve-se, em meados do século XIX, o que Foucault chama de princípio de Baillarger, segundo o qual a ocorrência de delírios deixa de ser o indicativo para a loucura, que passa a ser definida, então, pelo eixo do voluntário-involuntário, ou seja, um crime impulsivo, fruto de um automatismo, mesmo que sem caráter delirante, e sobre o qual seu agente nada pode dizer, pode ser
3

FOUCAULT, M. Os anormais. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 27.

narrativas da loUcUra

• 219

entendido como uma alienação, no caso, uma monomania impulsiva.4 Por fim, Foucault destaca que, por mais que o louco criminoso tenha feito a sua aparição inicial nos tribunais por meio de manifestações monstruosas – como a de Charlotte Cornier5 ou a do conhecido caso do fratricida Pierre Rivière6 –, ele passa a ser, apenas gradativamente, definido por meio da associação entre loucura e perigo. Essa relação foi estabelecida, inicialmente, pela legislação francesa, a qual regulou as instituições de tratamento mental em 1838, uma vez que, com as internações ex officio, o vínculo loucura-perigo é criado sem necessidade da mediação teórica anteriormente oferecida pela concepção de monomania. Segundo Foucault, a partir de então
não se precisa mais de monomaníacos. A demonstração política que se buscava na constituição epistemológica da monomania, essa necessidade política é agora, pela administração, satisfeita e mais que satisfeita.7

De modo geral, no curso Os anormais o autor reconstitui o modo pelo qual a Psiquiatria se livra da alienação, ao adotar o princípio do instinto como substituto ao delírio na identificação da loucura. Ao mesmo tempo, o filósofo francês salienta que a teoria da degeneração, de Morel, serviu de base para que a Psiquiatria definisse, etiologicamente, o seu objeto de investigação. A partir desse movimento, a Psiquiatria produz os seus efeitos de poder de um modo mais geral na sociedade como um todo, pois se erige como
4 5 6

7

FOUCAULT, 2001, p. 199. FOUCAULT, 2001, p. 141-142. FOUCAULT, M. (Org.). Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão. Rio de Janeiro: Graal, 2003. FOUCAULT, 2001, p. 179.

220 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

ciência dos anormais e das condutas anormais. Segundo o filósofo,
Não será mais simplesmente nessa figura excepcional do monstro que o distúrbio da natureza vai perturbar e questionar o jogo da lei. Será em toda parte, o tempo todo, até nas condutas mais ínfimas, mais comuns, mais cotidianas, no objeto mais familiar da Psiquiatria, que esta encarará algo que terá, de um lado, estatuto de irregularidade em relação a uma norma e que deverá ter, ao mesmo tempo, estatuto de disfunção patológica em relação ao normal.8

Dessa forma, a Psiquiatria propicia a definição de políticas profiláticas de defesa social contra a suposta degeneração, políticas que, em sua forma extrema, podem ser encontradas no nazismo e no fascismo, como Foucault propõe na última aula do curso de 1976, intitulada Em defesa da sociedade.9 O pensamento de Foucault a respeito da loucura pode ser associado, sob alguns aspectos, à produção teórica e ficcional sobre o mesmo tema realizada por Dyonélio Machado nos anos 1930 e 1940, no Brasil.10 A fim de evidenciar a conexão entre as ideias dos dois intelectuais, cabe analisar os seguintes escritos de Machado: a tese intitulada Uma definição biológica do crime, de 1933,11 que guarda profunda atualidade, sobretudo se for levada em consideração a
8 9

10

11

FOUCAULT, 2001, p. 205. FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2002. Sobre a loucura, ver estudos sobre o Hospital São Pedro: WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002; SANTOS, N. M. W Histórias de . vidas ausentes: a tênue fronteira entre a saúde e a doença mental. Passo Fundo: Editora da UPF, 2005. MACHADO, D. Uma definição biológica do crime. Porto Alegre: Globo, 1933.

narrativas da loUcUra

• 221

categoria de psicopata tal como é estabelecida pelas convenções psiquiátricas internacionais contemporâneas; o relatório técnico da viagem de estudos que o escritor e psiquiatra realizou a Buenos Aires, o qual foi publicado em 1944, sob o título Eletroencefalografia;12 os pronunciamentos que fez, na condição de deputado constituinte,13 em 1947, constantes nos Anais da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul,14 e o romance O louco do Cati, publicado em 1942.15 A medicina de Dyonélio e a biopolítica16 Dyonélio Machado, nas décadas de 1930 e 1940,17 realizou pesquisas pioneiras no campo da neurociência, in12 13

14

15 16

17

A expressão biopolítica lembra a formulação de Michel Foucault, cf. FOUCAULT, M. O sujeito e o poder. In: DREYFUS, H. L.; RABINOW , P Michel Foucault: uma trajetória filosófica. Para além do estruturalismo e . da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. p. 231-249. Além disso, salienta-se que as informações sobre a atuação do deputado Dyonélio Machado no âmbito da medicina foram extraídas das seguintes obras de sua autoria: Uma definição biológica do crime (MACHADO, 1933); Neurose traumática (Arquivos do Departamento Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, v. 4, 1943); Eletroencefalografia (MACHADO, 1944). Ver CID – 10: décima edição do Manual Internacional de Doenças, manual de classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS); DSM – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, da Associação Psiquiátrica Americana. Como principal leitura, sugere-se o artigo de OSÓRIO, C. M. da S. Dr. Dyonélio, um médico. In: BARBOSA, M. H. S.; GRAWUNDER, M. Z. (Org.). Dyonélio Machado. Porto Alegre: Unidade Editorial, 1995. p. 61-66. (Cadernos Porto & Vírgula, n. 10).

MACHADO, D. O louco do Cati. São Paulo: Ática, 1981.

MACHADO, D. Eletroencefalografia. Porto Alegre: Globo, 1944. Dyonélio Machado foi eleito em 1947 para a Assembléia Estadual Constituinte no Rio Grande do Sul, foi líder, na condição de parlamentar, da bancada do Partido Comunista. Sua eleição deveu-se, sobretudo, à sua condição de médico que possuía um amplo prestígio junto a população. Sugere-se a leitura de GAGLIETTI, M. Dyonélio Machado e Raul Pilla: médicos na política. Porto Alegre: EDIPUCRSE, Instituto Estadual do Livro, 2007. ANAIS da Assembleia Estadual Constituinte do Rio Grande do Sul de 1947. Porto Alegre: Imprensa Oficial, abr./ago. 1947.

222 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

vestigando, mais especificamente, os potenciais cerebrais bioelétricos e o metabolismo da glicose no cérebro. Em 1944, três anos antes da sua eleição, fez uma viagem de estudos a Buenos Aires. Designado pelo então Departamento Estadual de Saúde, o médico foi à Argentina estudar a aplicação do eletroencefalograma na avaliação das consequências dos diversos tratamentos de choque – insulinoterapia, cardizol e metrazol, eletroconvulsoterapia ou eletrochoque (ECT). Especialmente a insulina e o ECT eram muito utilizados no Rio Grande do Sul naquela época.18 Em um capítulo do relatório intitulado “O controle eletroencefalográfico nos tratamentos de choque”, no qual descreve o resultado das pesquisas que realizou na Argentina, Dyonélio apresenta a comprovação, tanto experimental como anatomoclínica, de alterações histopatológicas no cérebro, provocadas por vários agentes utilizados na terapêutica de choque. Essa descoberta levou investigadores brasileiros interessados no tema a analisarem as modificações do potencial elétrico do encéfalo com esse tipo de tratamento. Em 1944, o referido relatório daria origem à obra intitulada Eletroencefalografia, que oferece aos estudiosos uma apurada revisão bibliográfica sobre os efeitos não desejados dos tratamentos biológicos no sistema nervoso central e sobre as causas ou as bases biológicas dos transtornos mentais. Impressiona, no material, além do rigor científico e do cuidado com a metodologia, a atualidade do tema.
18

A provocação de choque com insulina ainda era usada na década de 1960, no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Daquelas técnicas, sobreviveu a eletroconvulsoterapia, tratamento seguro, eficaz e indispensável em alguns casos, embora alvo de controvérsias, em particular na literatura considerada não científica. Os modernos hospitais psiquiátricos, ou as unidades de internação psiquiátrica de hospitais não especializados em Psiquiatria, atualmente empregam aparelhos para aplicação da eletroconvulsoterapia que já vêm acoplados a um eletroencefalógrafo, o que demonstra a atualidade do que já preocupava Dyonélio há mais de 60 anos. Para maiores informações a esse respeito, ver OSÓRIO, 1995, p.64.

narrativas da loUcUra

• 223

Grande parte do conhecimento contemporâneo nas áreas de psicofarmacologia e psicofarmacoterapia foi gerada por essa linha de investigação, aplicada, a partir da década de 1960, na pesquisa das alterações bioelétricas e neuroquímicas produzidas nos tratamentos com drogas antipsicóticas e antidepressivas.19 No que diz respeito ao pioneirismo de Dyonélio Machado, também chamam a atenção outros aspectos de sua formação acadêmica. Em 1934, a Editora Globo editava, em Porto Alegre, a obra de Edoardo Weiss, psicanalista italiano, intitulada Elementos de psicanálise, com prefácio de Sigmund Freud. Tratava-se de uma obra de iniciação aos estudos psicanalíticos, fruto das conferências feitas pelo autor na Associação Médica de Trieste, quatro anos antes. A tradução da obra ficou a encargo de Dyonélio, considerandose, para tanto, o fato de o médico gaúcho haver se dedicado, entre 1930 e 1932, à então jovem ciência da Psicanálise, com o intuito de aplicar os conhecimentos dessa área à Psiquiatria. Como resultado desse ambicioso e inovador projeto científico, ele concluiu e publicou, em 1933, a tese intitulada Uma definição biológica do crime.20
19

20

Cf. OSÓRIO, 1995, p. 65. Segundo o autor, Dyonélio, após ter estudado os trabalhos de Engel & Marcolin (1941) e de Pauline Davis (1943) sobre os efeitos da hipoglicemia no eletroencefalograma em indivíduos acometidos de patologias e em sujeitos normais sob experimentação, concluiu “pela alta significação desses dois últimos trabalhos, no esforço de uma melhor interpretação das modificações (bioelétricas) operadas durante a hipoglicemia”. Afirma Dyonélio Machado: “achei conveniente inseri-los no capítulo onde diligenciei por agrupar as principais alterações que sofre a atividade elétrica cortical, sob influência dos diversos agentes empregados em terapêutica de choque”. Nessa tese, o autor ratifica as afirmações de Freud em Totem e tabu, de acordo com as quais o homem contemporâneo pode reproduzir, em vários momentos da sua vida, o homem primitivo, cuja mentalidade sobrevive mesmo nos nossos próprios hábitos e costumes. Cf. MACHADO, 1933, p. 20-74. Ainda Osório mostra que, vinte anos mais tarde, outros pesquisadores ampliavam esse conceito de dúplice atitude do meio social. O psicanalista Eissler afirmava que a sociedade é composta por

224 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Nesse estudo, Dyonélio Machado recorre a um conjunto de autores de diversas áreas – antropologia física e criminal, criminologia, medicina legal, Psiquiatria e psicanálise, por exemplo –, privilegiando a referência a estudiosos estrangeiros, mesmo no caso de temas que já haviam sido abordados por pesquisadores brasileiros.21 Em sua tese, o autor concebe o delito de homicídio como um fenômeno da natureza diretamente relacionado ao estado mental do ser que praticou o crime.22 De acordo com Cláudio Maria da Silva Osório, esse “seria um estado pré-psicótico, correlacionado com a psicologia do caráter ou da personalidade”.23 Osório salienta, ainda, que embora Dyonélio não descarte as influências secundárias dos chamados fatores sociais, aponta para a preponderância do fator psíquico de natureza individual nos casos de homicídio. Pode-se afirmar, além disso, que ele antecipou-se às atuais concepções da criminologia e da vitimologia, ao identificar o que chamou de
indivíduos em que habitam tanto os desejos criminosos inconscientes (os impulsos homicidas) quanto as necessidades de punição (as proibições do superego), daí o favorecimento, inconsciente, dos atos criminosos. Robert Merton, eminente expoente da sociologia, em 1976 desenvolveu a mesma ideia, indicando que a sociedade aprova e desaprova o comportamento delinquente. OSÓRIO, 1995, p. 62-63. Dyonélio não cita Nina Rodrigues, nem Afrânio Peixoto, e muito menos Franco da Rocha, apesar de serem, os dois últimos, as principais referências no Brasil nas áreas da medicina legal e da Psiquiatria forense naquele período. Franco e Ramos afirmam que Dyonélio publicou, também, os trabalhos intitulados Um falso caso de eutanásia, O delito passional e o tabu e Teoria das nevroses. A data de publicação desses trabalhos – não mencionados nas outras fontes consultadas que contêm dados sobre a biografia do intelectual – não é informada pelos autores, que também registram a participação de Dyonélio no 2º Congresso Latino-Americano de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal, realizado no Rio de Janeiro, em 1930, outra referência não encontrada nas demais fontes bibliográficas consultadas. Cf. FRANCO, Á.; RAMOS, S. M. (Org.). Panteão médico rio-grandense: síntese cultural e histórica: progresso e evolução da medicina no estado do Rio Grande do Sul. São Paulo: Ramos, Franco Editores, 1943. p. 527. OSÓRIO, 1995, p. 62.

21

22

23

narrativas da loUcUra

• 225

“dúplice atitude do meio social: consentindo e punindo sucessivamente as mesmas práticas”.24 Mesmo tendo recorrido à psicanálise, Dyonélio25 faz questão de frisar que sua orientação em Psiquiatria não é psicanalítica, e sim eclética, o que ficaria demonstrado pelo fato de ter utilizado, inclusive, elementos da psicogenética em algumas situações particulares.26 O autor entrou em contato com a psicanálise no momento em que fazia o curso de especialização no Rio de Janeiro,27 sobretudo por meio das aulas dos professores Antônio Austregésilo e Júlio Porto-Carrero.28 Ao retornar a Porto Alegre, no início
24 25 26

27

28

MACHADO, 1933, p. 174. MACHADO, 1933, p. 164. O ecletismo de Dyonélio na sua relação com a psicanálise, a partir da década de 1930, não era produto de uma atitude superficial perante a nova ciência. O médico valia-se de procedimentos psicanalíticos em benefício dos seus pacientes internados no Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Ele chegou a utilizar, nesse período, métodos que, dez anos depois, foram denominados – na Europa e nos EUA – como comunidades terapêuticas e socioterapia. Visando qualificar o corpo técnico, Jacinto Godoy estimulou os médicos a especializarem-se em clínica psiquiátrica, pois ambicionava transformar o Hospital São Pedro em um centro de pesquisa. Cf. GODOY, J. Psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: [s.n.], 1955. Visando cumprir esse intento, Dyonélio transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro, onde redigiu, entre 1930 e 1932, a tese inaugural Uma definição biológica do crime (MACHADO, 1933). Antônio Austregésilo (1876–1960) era professor titular da cátedra de neurologia da Faculdade de Medicina, tendo sido o orientador da tese Uma definição biológica do crime, defendida por Dyonélio Machado. Júlio Pires Porto-Carrero (1887-1937) foi professor de Medicina Legal na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, membro fundador da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Procurou aplicar a teoria de Freud à criminologia, tema ao qual dedicou os livros Criminologia e psicanálise e Psicologia judiciária, ambos publicados em 1932. Para maiores informações, sugere-se a leitura de: CAMPOS, R. H. F. de (Org.). Dicionário de psicologia no Brasil: pioneiros. Rio de Janeiro: Imago: UnB: CFP 2001; GAGEIRO, A. M. L´histoire , de la psychanalyse au Brésil et de la formation de la société psychanalytique de Porto Alegre (1963). 2001. Tese (Doutorado) – Universidade de Paris VII, Paris, 2001; OLIVEIRA, C. L. M. V de. Os primeiros tempos da psicanálise . no Brasil e as teses pansexualistas na educação. Agora: Estudos em Teoria Psicanalítica, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 134-153, jan./jun. 2002.

226 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

dos anos 1930, empregou a psicanálise, de forma pioneira, na clínica psiquiátrica no Hospital São Pedro, tendo sido um dos três primeiros médicos aprovados por concurso para o Hospital, concurso esse realizado no momento em que Jacinto Godoy (1883-1959) assumiu a sua direção, em 1927, e buscou estimular a criação de um ambiente científico na principal instituição de internamento psiquiátrico do Rio Grande do Sul.29 Em sua tese, Dyonélio delimita o tema a ser investigado, focalizando, exclusivamente, o assassínio/homicídio, considerado um comportamento extremo, por meio do qual o mecanismo biológico que determina a tendência individual ao crime pode ser deduzido.30 Contudo, ao contrário do que o título da tese sugere, o autor não pressupõe a determinação biológica do crime como sua causa principal ou última, o que era comum às correntes criminológicas consideradas científicas nas três primeiras décadas do século XX. O propósito do médico, com isso, é, inicialmente, descrever o crime não como um ato decorrente da maldade
29

30

Desde 1925, Jacinto Godoy dirigia o Manicômio Judiciário do Rio Grande do Sul, que funcionava nas dependências do Hospital São Pedro. Após o falecimento do diretor do Hospital São Pedro, em 1926, foi criada a Diretoria de Assistência a Alienados, para cuja direção foi nomeado Jacinto Godoy, que passou a acumular as funções de diretor do Manicômio Judiciário e do Hospital entre 1926 e 1932. Nesse período, além de Dyonélio Machado, Godoy contratou os médicos Januário Bittencourt, enviado à Europa em 1929 para tomar contato com a teoria e as técnicas clínicas que pudessem ser aplicadas no Hospital São Pedro, e Décio Souza, que foi orientado por Godoy e defendeu sua tese inaugural em 1930, intitulada Demência precoce e eschizophrenia. Ver GODOY, 1955. Dyonélio Machado, embora se mostre muito próximo do pensamento evolucionista e da antropologia criminal, desenvolve uma argumentação, ao longo de sua tese, que o leva a distanciar-se, gradativamente, da escola italiana e de suas classificações criminais. Nas páginas finais da tese, o autor propõe a valorização da caracterologia de Krektschmer, então pouco conhecida no Brasil, de modo a permitir uma classificação das tendências criminais individuais calcadas em sua base psicológica, até então colocada em segundo plano frente aos determinantes biológicos e sociais.

narrativas da loUcUra

• 227

humana, mas como fenômeno comum a todas as espécies animais, resultante da forma anormal que a concorrência vital toma em alguns indivíduos. Para o autor, o crime deriva de tendências individuais, tanto nos animais quanto nos seres humanos. Assim, o fato de que o fenômeno do assassínio/homicídio pode ser regido por leis naturais constitui apenas a sua causa primeira, não permitindo explicá-lo por inteiro. Para tanto, faz-se necessário compreender sua causa última, a qual – a despeito das restrições sociais impostas aos indivíduos – reside na constituição psíquica, no temperamento de alguns seres humanos, os quais tendem a um excessivo autocentramento que os impele, de forma mais frequente e intensa, a cometer atos criminosos. Dessa maneira, Dyonélio Machado identifica, na personalidade daqueles que cometem homicídio, uma tendência psíquica ao exagero, que se manifesta no modo anormal pelo qual o instinto de conservação opera sobre essas pessoas, levando-as a agir com excesso na luta pela existência. O autor distingue, portanto, o temperamento criminoso (determinado psicologicamente, e não de modo atávico), que leva determinados indivíduos a acreditarem que é necessário matar outro ser humano para garantir sua autopreservação, em condições nas quais pessoas normais não o fariam. O criminoso seria, assim, um pré-psicótico, que percebe, subjetivamente, uma ameaça à sua existência, a qual, objetivamente, não existe. Isso não implica, porém, que ele sofra qualquer delírio cognitivo. Embora tais assertivas situem a argumentação no âmbito das categorias limítrofes entre sanidade e loucura, no tocante ao crime, Dyonélio, a seu modo, não segue a tendência predominante na Psiquiatria brasileira da época, segundo a qual os criminosos eram considerados insanos e diagnosticados como tendo personalidades psicopáticas. Portanto, o autor, mesmo partindo da ideia de que o crime decorre de uma constituição psíquica

228 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

anormal, não considera todos os criminosos como doentes mentais. Além disso, Dyonélio se opõe às classificações criminais vigentes, o que o leva a sugerir uma revisão dos critérios utilizados para construí-las e a destacar a necessidade de se colocar em pauta a discussão acerca da responsabilidade penal dos criminosos. Com isso, ele demonstra ter consciência de que os rumos de sua pesquisa, por destoarem das tendências então em voga na área da Psiquiatria, provocam sentimentos ambíguos no universo acadêmico, oscilando entre ódio e a admiração. Da mesma forma que na área médica, também no parlamento por diversas oportunidades, é possível perceber o senso de responsabilidade31 do deputado Dyonélio Machado no que diz respeito ao trato dos assuntos públicos e, de modo particular, dos temas relacionados à saúde da população. A expressão maior disso talvez esteja no fato de o parlamentar do Partido Comunista do Brasil (PCB) ter participado – por meio de apartes e pronunciamentos sobre o Anteprojeto de Constituição e o Projeto do Ato das Disposições Transitórias da Assembléia Constituinte – de todos os debates relacionados, de alguma maneira, à área da saúde. Valendo-se do tempo reservado ao líder de bancada, o deputado32 posicionou-se, por exemplo, sobre a alienação mental no Rio Grande do Sul, sendo que ao final de tal pronunciamento fez questão de dirigir-se aos autores da matéria em pauta, registrando a sua constante disposição de colaborar na discussão dos assuntos que considerava prioritários. Nessa ocasião, não apenas a sua condição de médico, mas, também, a de grande conhecedor dos temas relativos à saúde psíquica do ser humano serve para reforçar seus argumentos sistêmicos.
31 32

Cf. GAGLIETTI, 2007, p. 109-199. Cf. ANAIS..., maio 1947, p. 41-43.

narrativas da loUcUra

• 229

Também merece destaque a sua participação no debate de outro assunto relativo à saúde pública: no dia 2 de maio de 1947, o parlamentar33 dirigiu-se ao presidente da mesa diretora dos trabalhos constituintes com o firme propósito de discutir o artigo 21 do Projeto do Ato das Disposições Transitórias, o qual trata da aplicação, no Rio Grande do Sul, da lei federal referente à obrigatoriedade da profilaxia mental. Dyonélio, ao examinar a matéria, constatou a necessidade de se proceder, na Assembleia, à discussão exaustiva e à análise detalhada do projeto, que, segundo suas próprias palavras, permitiria a aplicação desse dispositivo, uma vez aprovado. No debate acerca do artigo 21 do Projeto do Ato das Disposições Transitórias, o deputado apontou os constrangimentos enfrentados pelos profissionais responsáveis pelos portadores de sofrimento psíquico, mencionando as normas da legislação federal relativas à matéria que então apresentavam aspectos entendidos como negativos. Como tal temática está diretamente relacionada à saúde pública, o médico-parlamentar valia-se dos conhecimentos adquiridos ao longo de sua formação acadêmica e do desempenho de suas funções profissionais para, do alto da respeitabilidade técnica que lhe fora conferida pela especialização em Psiquiatria, construir uma argumentação altamente convincente. Seu ponto de partida consistia em mostrar que, além de ser um médico com expressiva trajetória no exercício da profissão, já ocupara o cargo de chefe do Departamento de Profilaxia Mental do Hospital São Pedro, sendo, portanto, como um conhecedor da legislação federal que falava sobre a complexidade da aplicação das normativas que regulavam a prestação de serviços de profilaxia mental no Rio Grande do Sul. Com base em um apurado diagnóstico da situação,
33

ANAIS..., maio 1947.

230 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

o deputado citou casos concretos que lhe serviam como provas, dotadas de força simbólica e que assumiam, em seu discurso, um estatuto de argumento de autoridade. Não se tratava meramente da opinião de um político, e sim da diagnose de um médico que possuía, inclusive, experiência administrativa na área de saúde pública.34 O deputado Dyonélio Machado, à luz de sua experiência profissional, afirmava que o problema da alienação mental concentra-se em dois aspectos: a profilaxia e a assistência. Destacava, ainda, que essa última deve levar em conta duas instâncias: os doentes agudos e os crônicos. A preocupação do parlamentar do PCB relacionava-se à infraestrutura que o Estado deveria garantir aos estabelecimentos de saúde de Porto Alegre e das demais cidades-pólo no sentido de assegurar a aplicação da legislação federal, que determinava a oferta de um serviço de profilaxia mental. Embora considerasse difícil a concretização desse dispositivo constitucional, o deputado compreendia não ser impossível contornar os obstáculos que se opunham à execução das leis. O líder da bancada comunista na Assembleia Constituinte lembrava que, no Hospital São Pedro, por mais de uma vez, ocupara a chefia do Departamento de Profilaxia Mental, e denunciava, “lealmente e corajosamente”,35 que nunca se fizera profilaxia mental em Porto Alegre, pois o que se oferecia, sob tal nome, era, nada mais, nada menos, do que um serviço ambulatorial para o atendimento de psicopatas. Dyonélio citou, então, a única experiência de profilaxia mental que dizia conhecer e que teria se desenvolvido
34

35

Cf. GAGLIETTI, M. Os discursos de Dyonélio Machado e Raul Pilla: o político e suas múltiplas faces. 2005. Tese (Doutorado em História) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. 2005. GAGLIETTI, 2007, p. 111-113.

narrativas da loUcUra

• 231

por ocasião da enchente de 1941, quando o Hospital São Pedro dera abrigo aos flagelados. Segundo ele, em tal episódio obtivera, da direção do Hospital, permissão para colocar todos os asilados sob o regime de rotina do ambulatório, havendo aproveitado a oportunidade de estarem abrigados no local elementos do povo para submetê-los a testes clínicos e descobrir possíveis formas de alienação mental. O médico-deputado, talvez por consciência de que tal atitude seria passível de censura ou de questionamentos de natureza ética, fez questão de esclarecer que tais testes consistiam em um procedimento sumário, composto de um exame clínico e de alguns exames de laboratório, que não acarretavam qualquer constrangimento aos abrigados. Além disso, relatou – ainda que, ao que parece, sem satisfação – um dos resultados de tais exames, por meio dos quais pôde se antecipar em um diagnóstico que, de outra forma, só seria realizado tardiamente:
Num dos nossos flagelados que apenas se queixava de dores na cabeça o início da doença mais grave na nosografia mental: a paralisia geral progressiva. É a única experiência que posso dar aqui sobre serviços de profilaxia mental. Esse doente nos iria procurar dentro de um ou dois anos, quando sua doença, a sífilis maligna, aquela contra a qual ainda esbarram os mais modernos meios de combate, só nos iria procurar, repito, quando a doença estivesse em pleno desenvolvimento, e, portanto, inacessível à terapêutica especializada. Mas eu me interesso muito por esse assunto e pude colher uma experiência de um grande psiquiatra, o professor Mira y Lopez. Numa cidade argentina da província, em Santa Fé, quando dirigia o Hospital Psiquiátrico, ele aplicou o seguinte método: oferecer à população em condições de emprego particular ou público, um atestado de vocação profissional. Atraído por esta grande vantagem

232 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

que dava um Hospital do Estado, um Hospital Oficial, fornecendo ao candidato um atestado que teria uma força persuasiva e real perante os seus prováveis e futuros empregadores, ele conseguiu fazer passar pelo serviço clínico do seu estabelecimento uma população de 10.000 pessoas. É uma grande experiência que não se aplicou ainda no Brasil. Infelizmente, ela não atinge os setores que mais necessitam do carinho do médico em matéria de profilaxia, e que é a criança. Em todo caso, é uma ajuda que poderá ser aproveitada entre nós.36

Partindo disso, Dyonélio sugere, ao governo, a criação, se possível em todos os municípios, de postos de triagem, informando que Pelotas, por iniciativa do Departamento Estadual de Saúde e com a colaboração direta do Hospital São Pedro, contava com um deles. Tais postos, que poderiam seguir o modelo do antigo Posto Municipal dos Psicopatas de Porto Alegre, encaminhariam todos os doentes, agudos e crônicos, para os hospitais regionais, nas zonas da serra, da fronteira, do litoral ou outras. Porém, em todas as cidades, e em particular em Porto Alegre, que recebia, inclusive, psicopatas de outros Estados, a terapêutica especializada deveria contar com uma melhor infraestrutura, que seria um mecanismo valioso no combate à alienação mental, pois propiciaria a necessária separação de duas espécies de nosocômios.
Não se compreende que, até hoje, depois de 5 ou 6 anos em que o Departamento Estadual de Saúde elaborou o projeto de uma colônia de psicopatas, quando mesmo o Hospital São Pedro já conta com terra onde deva construir a sua colônia de Psicopatas, nada de concreto tenha sido feito
ANAIS..., maio 1947, p. 41.

36

narrativas da loUcUra

• 233

neste sentido. O que acontece é que o Hospital São Pedro, com alojamentos para menos de 700 doentes, abriga atualmente cerca de dois mil e quinhentos doentes. Isto traz uma enorme indisciplina no Hospital, por parte de doentes difíceis de serem conduzidos, apesar do alto nível da nossa enfermagem especializada. De modo que, ao lado de um hospital de agudos, deve haver os hospitais de evacuação de alienados, que é a colônia. [...] A lei federal obriga a separação, nesses hospitais, das crianças alienadas, as quais devem receber tratamento nosológico perfeitamente diferenciado do que é dispensado aos adultos. A mesma exigência quanto aos toxicômanos. E o que vemos é a máxima promiscuidade.37

Dyonélio chama a atenção para essa separação que a legislação federal impõe, frisando que a lei prevê punição criminal ao médico que atenda um toxicômano em domicílio. Como há essa restrição, mas inexistem, na época, locais adequados para o tratamento dos toxicômanos, os médicos veem-se obrigados a levá-los para um regime comum de alienados perigosos, agitados e sórdidos. O deputado do PCB considerava que o toxicômano, quando ainda na fase inicial da moléstia, não apresentava um estado psicótico nem oferecia perigo, estando em sua perfeita lucidez raciocinante, embora seja um paciente cuja doença a população não admita como tal, considerando-a um vício, um defeito passível de contágio social. O parlamentar comunista parte para a defesa da corporação médica ao aludir aos possíveis constrangimentos dos especialistas, que, não tendo outra alternativa, eram levados, muitas vezes, a infringir a lei e a tratar o toxicômano em domicílio. No entanto, colocando-se
37

ANAIS..., maio 1947, p. 42.

234 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

na condição de médico que ocupa a tribuna, ele orientava seus colegas a adotarem alguns procedimentos capazes de conduzir ao êxito o tratamento desse tipo de paciente. De acordo com Dyonélio, o doente precisaria ser submetido a um regime semicarcerário, fechado, porque, de outra forma, não se alcançaria a toxi-privação, visto que ele, se mantido em sua casa, tenderia a continuar fazendo uso do tóxico que o escravizava e a subornar os próprios familiares para obtê-lo. Assim, somente sob um regime semicarcerário o toxicômano poderia observar as prescrições médicas necessárias para a conquista de um resultado satisfatório e definitivo no tratamento. Ao que parece, Dyonélio relacionava-se com a medicina, sua profissão, movido pelo mesmo “deus interior”38 – o entusiasmo – que habitava os mais notórios médicos brasileiros das primeiras décadas do século XX. Pedro Nava é um desses casos, assemelhava-se a Dyonélio não apenas por também se dedicar à medicina e à literatura: em sua posse na Academia Nacional de Medicina, Nava39 procurou mostrar que não fora só a técnica que os médicos brasileiros haviam adquirido na profunda revolução operada pelas descobertas científicas.40 Também ele chamou a atenção para
38

39 40

Cf. Pasteur, que, em seu discurso de recepção na Academia Francesa, afirmou : “les Grecs nous ont legué un des plus beaux mots de notre langue, le mot ‘enthousiasme’ qui signifie un Dieu intérieur”. O discurso é citado por NAVA, P Discurso de recepção de Pedro Nava na Academia . Nacional de Medicina. Brasil-Médico Cirúrgico, Rio de Janeiro, ano 71, n. 28. abr./jun. 1957. NAVA, 1957, p. 14-30. NAVA, 1957, p. 16. No ano de 1922, Banting e Best isolaram a insulina, o que abriu uma nova era para a medicina e, particularmente, para a terapêutica. Trinta e cinco anos depois, a ciência progrediu mais do que nos milênios anteriores de existência histórica da arte da medicina. Esse foi o período da agonia da sífilis, da malária e da tuberculose. As infecções passam a ser controladas e suprimidas com o advento das sulfanilamidas e da penicilina. Enquanto isso, a quimioterapia e a medicação antibiótica enriquecem-se com novos produtos – cada vez mais ativos e cada vez

narrativas da loUcUra

• 235

esse entusiasmo que tomara conta de boa parte desses profissionais da saúde. Tal envolvimento com a profissão talvez esteja relacionado à capacidade que os médicos acreditam ter de aliviar a dor alheia, de retardar a morte e, sobretudo, de trazer de volta a vida. Ao que parece, essa crença anima a militância médica, que, nas décadas de 1940 e 1950, viveu o milagre cotidiano da revolução científica, a qual alterou a mentalidade daqueles que então tratavam da saúde alheia. Essa transformação foi tamanha que a Medicina, antes definida, de forma pessimista, como uma sombria meditação sobre a morte – pois vivia nessa “espécie de ato gratuito que era diagnosticar no vivo e confirmar no morto” –, tornouse a arte vigorosa da meditação sobre a vida. A geração de médicos das décadas de 1940 e 1950 assistiu, então, a uma profunda revolução nos conhecimentos da área. Em parte por viverem no mesmo período, Dyonélio Machado e Pedro Nava têm em comum o sentimento e a ideia de amor à Medicina, a profunda fé no bem, na purificação e no pentecostes – a iluminação divina – que a profissão representa para quem a exerce com sinceridade e tendo a exata compreensão do significado da função que desempenha. Além disso, ambos, a fim de servirem não apenas aos pacientes, mas, também, ao próprio sistema de saúde, assumem encargos de administração médica, o que, nas palavras de Pedro Nava, “é ato heroico e significa para quem tem sensibilidade moral, acometimento e arrojo semelhanmais destituídos de efeitos secundários e maléficos. O grupo das doenças curáveis nesses 35 anos é integrado por doenças graves ou mortais, como as febres do grupo tífico, as septicemias, as endocardites bacterianas, as meningites cóccicas e bacilares. A medicina preventiva resgata, continuamente, milhares de vidas. Os médicos já dominam a temperatura do corpo, a respiração, os batimentos cardíacos. As máquinas substituem, momentaneamente, o organismo no desempenho das funções respiratória e circulatória. A cirurgia nervosa fabrica prodígios.

236 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

tes ao daquele que se dispusesse a caminhar descalço num serpentário”.41 A representação ficcional da loucura A obra O louco do Cati tem como protagonista um indivíduo permanentemente atormentado por recordações de fatos de sua infância, vivida em Quaraí-RS: as prisões que testemunhou e que foram realizadas pelos homens do general João Francisco e os comentários por parte da mãe e da população em geral sobre casos de tortura e morte ocorridos no Cati. O terror causado na personagem por tais acontecimentos é tanto que provoca o seu desequilíbrio mental.42 Isso faz com que O louco do Cati possa ser caracterizado como um desses romances que, numa primeira leitura, inevitavelmente deixa o leitor um tanto desnorteado, confuso e perplexo: tudo se passa num clima de imprecisão, gerado pela ausência de dados que poderiam esclarecer os fatos. As indicações de tempo e de espaço ocorrem no texto de forma assistemática, ou se deixam entrever envoltas em brumas, como acontece, por exemplo, com aquelas que se misturam aos farrapos de lembranças que assaltam o misterioso personagem denominado louco. Dele não se sabe nome, idade, direção, nada. No início do romance,43 as cenas presenciadas e imaginadas pelo protagonista, quando criança, constituem
41 42

43

Cf. NAVA, 1957, p. 15. Como Grawunder e Barbosa sugerem, os causos e horrores dessa revolução, que Dyonélio ouviu desde menino, dão-lhe matéria para a criação do romance intitulado O louco do Cati, publicado em 1942. Cf. GRAWUNDER, M. Z. Curso e discurso da obra de Dyonélio Machado: uma análise da legitimação. 1989. p. 40. Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1989; BARBOSA, M. H. S. A paródia em O louco do Cati. Porto Alegre: Edipucrs: Prefeitura Municipal de Quaraí, 1994. p. 17-19. Cf. MACHADO, 1981, p. 11.

narrativas da loUcUra

• 237

um ponto à sua frente que ele, então adulto, põe-se a apagar com um olhar sem conteúdo. Quando pela primeira vez o narrador se refere ao personagem – no início da narrativa –, ele é apenas o passageiro do bonde. Na sequência, o tratamento dispensado ao protagonista não muda muito: ele é apenas o passageiro de uma estranha aventura; aquele que viaja por muitos lugares; sai do Rio Grande do Sul, vai parar numa prisão do Rio de Janeiro e depois faz o mesmo percurso em sentido inverso, sem que em momento algum se possa vê-lo como sujeito de sua trajetória. No começo do relato, o Louco ocupa um lugar no bonde que o leva de um ponto a outro de Porto Alegre, cidade para onde se transferira ainda menino. A palavra que, no segundo parágrafo do primeiro capítulo, aparece formando, solitariamente, um período – atarantamento – é o signo que serve para representar o protagonista até o final da narrativa. É esse estado ou condição que explica o fato de seu andar ser, inúmeras vezes, referido como um trancão de maluco e, também, a insistente comparação feita entre o seu modo de ser – os traços de seu rosto, descarnado – e o comportamento ou a aparência de um cachorro:
O maluco engolira o seu bocado com a sofreguidão serena e irracional dum cachorro, sem mastigar, o focinho horizontal, olhando para adiante. [...] E ficou olhando ao seu redor, sem compreender, levantando lentamente a face para todos os lados – a sua face muda, quase sem carne, de cão...

Assim, assinala-se a quase absoluta ausência da fala do protagonista no texto. Ele manifesta, ainda que de forma breve, sua aquiescência quanto ao que é proposto, mas do mesmo modo que não é sujeito de suas ações, também não aparece como senhor do seu discurso. Ele não é mudo, e

238 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

também não é o caso de não compreender o que lhe dizem: ouve e compreende, a seu modo, a fala alheia, mas raramente pronuncia uma palavra. Assim, é o narrador onisciente que filtra os pensamentos do protagonista e revela-os por meio do discurso indireto livre, fundindo a sua voz com a voz interior do personagem. Trata-se de um recurso estilístico capaz de denunciar determinada situação existencial, aquela em que um indivíduo – por um motivo que resta ainda investigar44 – encontra-se destituído de sua condição de ser humano e do livre arbítrio sobre seus próprios atos. Nas raras ocasiões em que se torna sujeito de um discurso, sujeito de uma ação, o protagonista grita, protesta, foge. Isso ocorre quando ele transita por espaços ou vivencia situações que considera semelhantes às lembranças traumáticas que lhe ficaram da realidade do Cati. Nos primeiros seis capítulos, o louco é apenas isso – um maluco. No entanto, no decorrer da viagem que realiza, levado por um grupo de rapazes – ativistas que procuravam despistar a polícia do Estado Novo –, ele se depara com uma hospedaria cujo conjunto lembra um reduto militar. Essa é uma das passagens em que ele expressa todo o seu pânico: “– Isto! Isto é o Cati”. A aterrorizante lembrança que aquela visão lhe acende na memória faz com que ele superponha alucinação e realidade, e leia, na atitude estupefata daqueles que eram seus companheiros de viagem, o perigo de um cerco. Por isso, foge. O momento do grito é, também, o instante de seu batismo, pois, a partir de então, ele passa a ser reconhecido como o Louco do Cati. Para os leitores, os
44

Acredita-se que todo texto carrega sua própria chave explicativa. Assim, investigar o Cati é, ao mesmo tempo, esclarecer o contexto para o qual apontam as referências espaço-temporais do texto, bem como as implicações que resultaram na sua obscuridade. Dessa maneira, pode-se devassar os bastidores do projeto literário e buscar, quem sabe, os nomes que se escondem no hermetismo dessa ficção que diz do fogo sem falar das chamas. Ver BARBOSA, 1994.

narrativas da loUcUra

• 239

fragmentos de lembranças dos outros personagens, sobre as histórias que haviam ouvido acerca do Cati, são, parcialmente, esclarecedores:
– Quem é que não conhece o Cati?”, pergunta Norberto; “[...] – Sim... Conheço, lógico, o Cati. O João Francisco...”, admite Seu Ricardo, o dono da hospedaria; “[...] – A sua fama ultrapassou o Rio Grande. [...] No próprio Rio da Prata... [...] Um caudilho perigoso. Cabeleira de gaúcho. [...]”, completa Norberto; “[...] – Hiena do Cati”, volta a manifestar-se Seu Ricardo.45

No silêncio das reticências, o peso das revelações que devem permanecer nas brumas. Norberto, entretanto, conta para os outros esta história:
Havia terminado a revolução com a vitória do governo. Era um fim de século – século dezenove. Fim de mundo... A campanha, principalmente a fronteira – ninho de revolucionários – não estava ainda “pacificada”. Fazia-se necessário isso que depois as guerras iriam chamar “operações de limpeza” (Compreendiam... Compreendiam...). Bem: essa limpeza se inaugurou, se consolidou, se prolongou. Tornou-se coisa regular. – Uma espécie de banditismo legal, entronizado naquele “Castelo”, sobre uma elevação às margens dum arroio, nas caídas dum dos rios que têm mudado de pronúncia com a mudança da fronteira de dois povos inquietos. – Mas, é claro, uma tarefa de tal ordem (“Ordem pública! Ordem pública!”) punha nas mãos dos homens do Cati uma enorme soma de poder pessoal: poder pessoal, poder político, poder!... Já nada mais se fazia então naquela vasta zona sem consulta ao Cati. O Cati era
45

MACHADO, 1981, p. 26.

240 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

o subestado. Era o Estado para aquela região. [...] Todos os que caíram eram degolados: por motivos pessoais, por motivos políticos, comerciais, por qualquer motivo... Ativo e frio, o Cati apertava, arrastava, triturava. E durante anos, anos. Fez-se uma legenda, real, verdadeira de sangue, de morte, de terror feudal. – Nós ficamos um pouco célebres, respeitados, admirados por essa legenda.46

A história relatada por Norberto, que está em conexão com as recordações de infância do protagonista, dá a dimensão do seu problema. Não importa para onde o levam: ele segue submisso, cachorro manso que acompanha quem lhe oferece um osso; importa apenas distanciar-se do Cati, fugir do Cati. Nas suas obsessivas lembranças, está o medo das atrocidades cometidas no Cati. Pela sua mente, passam insistentes as figuras vestidas com dólmãs pretos, em que refulgia o brilho metálico dos botões doirados; assustamlhe as sombras daqueles tenentes, que traziam rastros de sangue e provocavam pânico. O homem com problemas mentais, o personagem atarantado é, sem dúvida, um louco do Cati, um produto do Cati, não porque o seu grito o nomeie, mas porque ele carrega, nas marcas de um passado traumático, uma experiência na qual o Cati desempenhou o papel mais forte. Constata-se, ao analisar a narrativa, que os fantasmas têm o poder de aparecer onde menos se espera. O homem sai do Rio Grande do Sul ao ser adotado por um ativista que foge da polícia, e, assim, acaba cruzando com o Cati no meio do caminho. Norberto, o homem a quem o protagonista acompanhava – involuntariamente, como vai acompanhar tantos outros – é preso antes que cheguem a Florianópolis. Então, o Louco novamente entra em pânico, ao ver o apa46

MACHADO, 1981, p. 25-26.

narrativas da loUcUra

• 241

rato policial: “Isto! Isto é o Cati!”. Desse modo, em meio à imprecisão de dados, o tempo da ação vai-se delineando. Trata-se de um período que repete a época do Cati. Na infância do protagonista, situam-se as revoluções do final do século XIX no Rio Grande do Sul, a disputa do poder por republicanos (os pica-paus) e federalistas (os maragatos), os abusos cometidos por caudilhos sanguinários. No presente da ação, momento em que o personagem se encontra, provavelmente na faixa dos 40 anos, vigora o clima de terror instaurado pelo Estado Novo (1937-1945) – repressão feroz, perseguição e morte –, regime que levou às masmorras do governo ditatorial de Vargas o escritor Graciliano Ramos e o próprio Dyonélio Machado. As indicações do tempo representado surgem, no romance, de forma dispersa, passando quase despercebidas. Porém, uma série de dados situam a volta do homem para o Sul na segunda metade do ano de 1938: o jornal em que se lê sobre a guerra na Espanha em seu ponto crítico faz menção à resistência de Madrid, cuja rendição ocorre no final de março de 1939; há, também, referências anteriores ao mês em curso, agosto, e, mais adiante, às chuvas de primavera, bem como ao fato de um dos personagem estar programando sua próxima viagem a São Paulo para o mês de outubro. Geraldo, um dos que cuidaram do louco do Cati durante algum tempo, explica à mulher que ele próprio conheceu o Cati:
Quero dizer: o lugar chamado Cati. Fica no município de Santana, no Rio Grande. Perto da fronteira com o Estado Oriental. Ele então contou à mulher muita coisa que sabia: os horrores, as torturas, as perseguições, os degolamentos. O povo sofria muito com esse lugar – rematou.47
47

MACHADO, 1981, p. 195.

242 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Nessa fala, alguns elementos apontam para o sentido do Cati: o lugar chamado Cati fica no Rio Grande do Sul, mas também é possível vê-lo em outro espaço, tal como ocorre com o protagonista, ao chegar à prisão, no Rio de Janeiro:
O maluco teve um movimento de fuga. Quis retroceder. Um dos guardas pôs-lhe a mão. Mas ele já soltava um grito: – É o Cati! Não me digam que não! – E depois de uma respiração, ruidosa e difícil, numa voz berrada e choramingada a um tempo: – Não me levem para o Cati! (“– o que é que vão fazer com o homem, mãe? – Vão matar ele lá no Cati...”) O guarda segurou-o com força. Foi arrastando-o para a frente. Ele se debatia. E sempre protestando que não queria que o metessem no Cati. [...] Ele não queria entrar, nem por nada. [...]. Atropelo (o maluco vem de arrasto, gritando). [...] À frente do cubículo onde deverá ser metido com Norberto, o maluco tem um arranco supremo. Emprega-se a violência.48

Há uma superposição das duas imagens: a dos horrores, torturas e degolas, mencionada por Geraldo quando se refere ao Cati e a que é descrita no excerto acima. Assim, Dyonélio retorna à imagem de um passado igualmente terrível e coloca em cena um personagem que é a consequência viva deste outro tempo – o Estado Novo49 – talvez para lu48 49

MACHADO, 1981, p. 91-92. Ver análises da obra O louco do Cati (MACHADO, 1981); A paródia em O louco do Cati (BARBOSA, 1994); MARIA, L. de. Sortilégios do avesso: razão e loucura na literatura brasileira. São Paulo: Escrituras, 2005, p. 272-299; BARBOSA, M. H. S.; STUMPF, D. Imagens do Estado Novo na narrativa ficcional e memorialística de Dyonélio Machado. In: GAGLIETTI, M.; SANTOS FILHO, F. C. (Org.). Ratos de biblioteca: itinerários de leituras. Passo Fundo: UPF, 2007. p. 68-80; BARBOSA, M. H. S.; ROSSATO, B. D. O tempo histórico e sua figuração no espaço em O louco do Cati e Os ratos. In: GAGLIETTI, M.; SANTOS

narrativas da loUcUra

• 243

dibriar a censura vigente à época de publicação do romance. O narrador dessa obra ficcional fornece, assim, os sinais que permitem alcançar o sentido mais profundo do texto: a loucura coletiva vigente durante o Estado Novo (19351945), período em que foram levadas à prisão mais de 10 mil pessoas, em sua maioria privadas de liberdade por simples delação ou desafeto pessoal. Esse tempo encontra na obsessão do personagem perseguido pelo terror do Cati sua mais flagrante metáfora. O louco, um produto de outro momento em que também vigorava a insanidade, é trazido à cena para desmascarar essa engrenagem ativa, que, no final da década de 1930, põe em funcionamento uma nova fábrica de loucos, de mutilados e de degradados. De acordo com Nasser,
De 1935 a 1945, a casa da Rua da Relação onde funcionava a polícia central se transformou em fábrica de morte e de loucura. Centenas de homens e mulheres saíram de lá mutilados ou inutilizados para o resto da vida.50

A figura do protagonista associada à imagem de um cachorro; o modo como ele reage, acompanhando as pessoas de forma irracional; sua incapacidade de decidir o próprio destino; a sua peregrinação, movido pela vontade alheia; enfim, todos esses elementos dão à sua vida a conformação de uma existência degradada. O absurdo do seu percurso, a inutilidade de todos os esforços que empreende para fugir do Cati, imaginando-o num dado local – lá onde ele não passava de toscas ruínas – e vindo a encontrá-lo onde não o supunha, permite que o personagem seja lido como uma metáfora do homem coagido por um regime de terror. O clima de obscuridade e
FILHO, F. C. (Org.). Ratos de biblioteca: itinerários de leituras. Passo Fundo: UPF, 2007. p. 81-89. NASER, D. O parceiro da Glória. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985. p. 101-109.

50

244 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

imprecisão que domina a narrativa – personagens aparecem e somem durante o que se pode considerar a viagem existencial do protagonista – é o reflexo de um tempo em que as ameaças pairam no ar, em que o perigo exige cerrada vigilância, tempo de silêncio e sussurros, de meias-palavras e reticências. No encerramento da narrativa, depois de muito viver fugindo, o protagonista alcança, finalmente, o Cati. Em um sentido psicanalítico, pode-se ler, na cena final, a cura que se atinge depois de se conseguir encarar de frente os próprios fantasmas. Em outro sentido, é possível identificar nesse capítulo final – intitulado Já não chovia – sinais da esperança no advento de um tempo melhor, pois, após um longo período de chuvas insistentes, se entrevê a bonança, ainda que por entre os escombros deixados pela tempestade. O Cati de então é apenas um conjunto de ruínas, traspassadas pelos raios do sol:
E pôde ver então, lá à sua frente, o sol atirando-se contra as próprias ruínas, inundando-as. As ruínas, sim! As ruínas do Cati!... Porque aqueles panos de parede (vejam todos! Todos! Venham ver!); aqueles cacos de paredes que mal se equilibram em que ele nem quisera reparar, eram o Cati! Dum Cati que ele deixara para ver, quando já não era mais do que escombros... O homem-cachorro de ainda um instante quase não acreditava! Mas afugentava a assombração num relâmpago, para sempre!... Queria, dali donde estava, defronte o sol, queria – era poder estender umas mãos vingativas de gigante, para sentir nos próprios dedos frisados de luz o esfarelar do pó do Cati, do Cati que se esboroava – lentamente, através desses anos, numa serenidade melancólica de coisa morta, que apenas vive a vida de espectro... Mas sorria...51
51

MACHADO, 1981, p. 255.

narrativas da loUcUra

• 245

A expressão o louco do Cati – como destaca Barbosa52 –, na ausência de um nome, serve para definir, mesmo que de forma precária, a identidade do protagonista. Aquilo que, para as outras personagens, é somente uma suposição fica evidente aos olhos do leitor: a palavra Cati indica o local de procedência do indivíduo e, principalmente, a origem de sua loucura. O apelido ganha uma posição privilegiada no livro, pois funciona como título e, embora apareça, inicialmente, somente na boca das demais personagens, logo em seguida passa, também, a fazer parte do discurso do narrador. Todavia, é preciso atentar para o fato de que a loucura do protagonista nunca é atestada ou comprovada por um diagnóstico autorizado. Dr. Valério, instado a dar o seu parecer, é taxativo: “ – Só examinado”. Em sua opinião, o médico “é o único que não pode” afirmar “assim se um homem é um louco ou não”.53 Essa resposta, ao mesmo tempo em que mostra a fragilidade de um juízo orientado pelo senso comum, revela que a questão é bem mais complexa do que se pensa. A réplica do médico é associada a vários outros fatores que, reunidos, induzem ao questionamento dos padrões de normalidade e sugerem que as fronteiras entre a saúde e a doença são demasiado tênues. Em primeiro lugar, destaca-se o número de personagens com deficiência auditiva que desfilam nas páginas do livro, o que leva a concluir que nada é mais raro do que a perfeita normalidade. Em segundo lugar, estão: o caso do homem examinado pelo professor Castel, que, embora não possua doença alguma, é considerado incurável; o do próprio professor, um especialista em cuidar da saúde alheia, que, de uma hora para outra, fica paralítico; a história da menina, filha de dona Josefina, que morrera de repente. É preciso lembrar, ainda, que o prota52 53

BARBOSA, 1994, p. 49-52. MACHADO, 1981, p. 188.

246 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

gonista é visto pelos policiais como alguém que pertence a um “novo gênero de agitadores”,54 e dos mais perigosos: de fato, no contexto da obra, o seu discurso – desde o silêncio até o grito – tem mais força do que as vozes das demais personagens, consideradas normais. O poema que Leandro, um dos prisioneiros, cria, inspirado na entrada do Louco do Cati no pavilhão onde ficam os cubículos, também institui a relativização dos conceitos de loucura e lucidez, invertendo-os. O poema cujo título é “Almas Penadas”, apresentado pelo poeta como uma das “Sugestões do Cárcere”, dialoga com o discurso de Norberto sobre o Cati. A fala desta última personagem possui um sentido referencial e fornece ao poema um fundo dialógico que evidencia sua significação social e ideológica; por outro lado, o texto poético, por meio de uma linguagem de caráter conotativo, proporciona à fala de Norberto um contexto, dado pela atmosfera patética, que torna flagrantes os efeitos negativos da repressão sobre os indivíduos.55 Como ressalta Barbosa,56 ao proceder à comparação dos dois discursos, o poeta retoma um verbo empregado por Norberto – entronizar –, colocando-o lado a lado com um substantivo – Insano:
Havia terminado a revolução com a vitória do governo. [...] Fazia-se necessário isso que depois as guerras iriam chamar “operações de limpeza”. [...] Bem: essa limpeza se inaugurou, se consolidou, se prolongou. Tornou-se coisa regular. – Uma espécie de banditismo legal, entronizado naquele “Castelo”.57

54 55 56 57

MACHADO, 1981, p. 66. Ver BARBOSA, 1994. BARBOSA, 1994, p. 51. MACHADO, 1981, p. 28.

narrativas da loUcUra

• 247

Não se sabe quem foi. Só se sabe que os Céus um dia se fecharam; que um profundo oceano de fogo e de sofrer se abriu para esses réus. – O Inferno, assim criado, entronizava o Insano.58

Esse diálogo entre as duas linguagens demonstra que a insanidade é, na verdade, um atributo dos sistemas sociais e dos regimes políticos que, por meio de uma ação violenta, provocam o surgimento de distúrbios mentais. Como se pode perceber, a presença de um demente na história favorece a parodização das convenções sociais, desautorizando o discurso oficial e interrogando os métodos adotados pelo aparelho do Estado. Conclui-se, desse modo, assinalando que as definições de loucura e de razão – examinadas no romance em questão e focalizadas por Dyonélio Machado na tese Uma definição biológica do crime, no relatório técnico intitulado Eletroencefalografia e nos pronunciamentos que fez no parlamento – não são, em tempo algum, dadas de antemão. Convém salientar, ao final deste trabalho, que, para Dyonélio Machado, loucura e lucidez não constituem categorias objetivas – eternas, imutáveis ou estáveis – à espera de uma descrição. Ambas sofrem variações e são, permanentemente, problematizadas ao longo dos tempos.

58

MACHADO, 1981, p. 170.

248 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

referências

ANAIS da Assembleia Estadual Constituinte do Rio Grande do Sul de 1947. Porto Alegre: Imprensa Oficial, abr./ago. 1947. BARBOSA, M. H. S. A paródia em O louco do Cati. Porto Alegre: Edipucrs: Prefeitura Municipal de Quaraí, 1994. BARBOSA, M. H. S.; ROSSATO, B. D. O tempo histórico e sua figuração no espaço em O louco do Cati e Os ratos. In: GAGLIETTI, M.; SANTOS FILHO, F. C. (Org.). Ratos de biblioteca: itinerários de leituras. Passo Fundo: UPF, 2007. p. 81-89. BARBOSA, M. H. S.; STUMPF, D. Imagens do Estado Novo na narrativa ficcional e memorialística de Dyonélio Machado. In: GAGLIETTI, M.; SANTOS FILHO, F. C. (Org.). Ratos de biblioteca: itinerários de leituras. Passo Fundo: UPF, 2007. p. 68-80. CAMPOS, R. H. F. de (Org.). Dicionário de psicologia no Brasil: pioneiros. Rio de Janeiro: Imago: UnB: CFP 2001. , FOUCAULT, M. Os anormais. São Paulo: Martins Fontes, 2001. FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2002. FOUCAULT, M. (Org.). Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão. Rio de Janeiro: Graal, 2003. FOUCAULT, M. O sujeito e o poder. In: DREYFUS, H. L.; RABINOW P Michel Foucault: uma trajetória filosófica. Para além do , . estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. p. 231-249. FRANCO, Á.; RAMOS, S. M. (Org.). Panteão médico rio-grandense: síntese cultural e histórica: progresso e evolução da medicina no estado do Rio Grande do Sul. São Paulo: Ramos, Franco Editores, 1943.

narrativas da loUcUra

• 249

GAGEIRO, A. M. L´histoire de la psychanalyse au Brésil et de la formation de la société psychanalytique de Porto Alegre (1963). 2001. Tese (Doutorado) – Universidade de Paris VII, Paris, 2001. GAGLIETTI, M. Os discursos de Dyonélio Machado e Raul Pilla: o político e suas múltiplas faces. 2005. Tese (Doutorado em História) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. 2005. GAGLIETTI, M. Dyonélio Machado e Raul Pilla: médicos na política. Porto Alegre: EDIPUCRSE, Instituto Estadual do Livro, 2007. GODOY, J. Psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: [s.n.], 1955. GRAWUNDER, M. Z. Curso e discurso da obra de Dyonélio Machado: uma análise da legitimação. 1989. Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1989. MACHADO, D. Uma definição biológica do crime. Porto Alegre: Globo, 1933. MACHADO, D. Eletroencefalografia. Porto Alegre: Globo, 1944. MACHADO, D. O louco do Cati. São Paulo: Ática, 1981. MARIA, L. de. Sortilégios do avesso: razão e loucura na literatura brasileira. São Paulo: Escrituras, 2005, p. 272-299. NASER, D. O parceiro da Glória. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985. NAVA, P Discurso de recepção de Pedro Nava na Academia Nacio. nal de Medicina. Brasil-Médico Cirúrgico, Rio de Janeiro, ano 71, n. 28 abr./jun. 1957. OLIVEIRA, C. L. M. V de. Os primeiros tempos da psicanálise no . Brasil e as teses pansexualistas na educação. Agora: Estudos em Teoria Psicanalítica, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 134-153, jan./jun. 2002.

250 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

OSÓRIO, C. M. da S. Dr. Dyonélio, um médico. In: BARBOSA, M. H. S.; GRAWUNDER, M. Z. (Org.). Dyonélio Machado. Porto Alegre: Unidade Editorial, 1995. p. 61-66. (Cadernos Porto & Vírula, n. 10). SANTOS, N. M. W Histórias de vidas ausentes: a tênue fronteira . entre a saúde e a doença mental. Passo Fundo: Editora da UPF, 2005. WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002.

narrativas da loUcUra

• 251

Capítulo 8

psiquiatria e história cultural: a literatura coMo fonte e a loucura coMo objeto

Nádia Maria Weber Santos1

A História Cultural (HC), desde as décadas finais de século XX (década de 80, mais especificamente), destacouse pela abertura de fronteiras no pensamento histórico e, de forma radical, pela revolução realizada na forma como é escrita a História, em suas mais variadas vertentes. Pensa-se a cultura como um conjunto de significados partilhados e construídos pelo homem, que tenta, com isto, explicar e dar sentido ao mundo em que habita. Por meio de pressupostos teóricos bem formulados e de uma metodologia que até então não constava nas historiografias (por exemplo, o método indiciário de Ginzburg, ou o método da montagem benjaminiano),2 abriram-se novas
1

2

Médica, psiquiatra e doutora em História/UFRGS; pesquisadora EST/ FAPERGS. Para compreender estas questões, ler o capítulo “Em busca de um método: as estratégias do fazer História”, presente na obra intitulada História

PsiqUiatria e história cUltUral

• 253

correntes ou tendências para os historiadores, bem como reaparecendo uma pluralidade de temas e campos a serem pesquisados e analisados sob uma outra ótica – muitas vezes estando inter-relacionados num mesmo texto histórico. Dentro de um quadro teórico e metodológico diversificado e trabalhado por historiadores nacionais, além dos franceses, italianos e americanos, principalmente, podemos destacar alguns pressupostos que são de grande valia para lançarmos um novo olhar sobre a questão da saúde e da doença, no caso particular da loucura e da história da Psiquiatria em nosso meio, que é meu foco particular de pesquisa e reflexão. São eles, principalmente: a rediscussão do conceito de representação, com a introdução da noção de simbólico, fazendo parte de um sistema de ideias e imagens de representações coletivas denominado imaginário: a noção de sensibilidade, implicando na percepção e tradução sensível da experiência humana no mundo, por meio de práticas sociais, discursos, imagens e materialidades, tais como espaços e objetos construídos. O diálogo da HC com outras áreas do conhecimento, e, neste nosso enfoque, com a História das Representações, ou mais especificamente, com a História do Simbólico (em suas diferentes perspectivas histórica, antropológica, psicológica, artística etc.) abre um campo imenso e frutífero de investigações, as quais, num processo nitidamente dialético, trarão novas possibilidades ao historiador da cultura e aos pesquisadores das outras áreas. Porém, estabelecendo limites dentro de questões que poderiam não suportar limites tão estreitos, como o imaginário de uma certa época, a HC abre fronteiras, cruza espaços e noções que antes eram tratadas de forma estanque. E, nesta nova situação de abertura das fronteiras entre
e História Cultural, de autoria da historiadora Sandra Pesavento (Editora Autêntica, 2003).

254 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

as ciências e as artes, a HC abriu-se também à interdisciplinaridade e à comunicabilidade entre os diferentes discursos que falam do real, a permitir a viabilidade de um verdadeiro diálogo multidisciplinar. Entretanto, nesta abertura, a história cultural não abriu mão de seu território, como que a demonstrar que a outra conotação da fronteira – a de dividir, fechar, encerrar – não estava de todo apagada: nesta abertura para os outros campos discursivos, a história preservou seu lugar como o reduto a partir do qual se estabelece a pergunta e se constrói o objeto, problematizando o real. Ou seja, a abertura multidisciplinar não implicar em perda de identidade ou de formação específica. Pelo contrário, a multidisciplinaridade, enquanto atitude intelectual implica em soma, em acréscimo de experiência e de conhecimento, em abertura do olhar e em ampliação das capacidades de interpretação da realidade.3 Conforme nos diz Pesavento,4
entre as provas – as marcas de historicidade encontradas nos arquivos – e a imaginação criadora do historiador (o lado ficção de sua escrita, porque não?), se constrói a narrativa histórica, como versão plausível dos acontecimentos.

Todo historiador sabe que descontinuidades nas fontes são inevitáveis e, às vezes, ocorrem por razões bem simples: extravio de documentos, retirada para preservação ou mesmo outras razões que nunca conheceremos. Mas, sen3

4

PESAVENTO, S. J. Apresentação do dossiê “História cultural e multidisciplinaridade”. Fênix, Revista de História e Estudos Culturais, Uberlândia, v. 4, ano 4, n. 4, out./dez. 2007a. Disponível em: <http:// www.revistafenix.pro.br/PDF18/APRESENTACAO_DO_DOSSIE_ SENSIBILIDADES_A_MARGEM_FENIX_JAN_FEV_MAR_2009. pdf >. Acesso em: 15 maio 2008. PESAVENTO, S. J. História & história cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. p. 23.

PsiqUiatria e história cUltUral

• 255

do o método de construção da narrativa histórica uma renovada montagem, é na base desses quebra-cabeças que se possibilitam as explicações, pela composição das peças, as correspondências, as justaposições e os contrastes. Isto é, por suas representações.
A representação, no âmago de seu entendimento – estar no lugar de –, já apresenta em si uma condição basculante e de imprecisão, pois assinala uma relação ambivalente e ambígua entre ausência e presença. Ambivalente porque a representação é tanto exposição e presença quanto ausência e referência a um outro distante. É, pois, ser e não ser, ou, no limite, é ser ela mesma e ser um outro. E, neste ponto, revela-se a sua ambiguidade, ou seja, a insinuação de um deslizamento de sentido e de uma manifestação de uma terceira idéia/ser oculto. Twilight zone, sem dúvida, que joga com uma tríade: o referente, a imagem e o significado. Ora, sendo o texto histórico representação, ele pretende trazer informações sobre uma realidade exterior. No caso, um referente que já não mais existe e que não pode ser sujeito à verificação. Isto passa a se tornar problema quando se tem em conta que a narrativa histórica é um tipo especial de representação, porque estabelece um pacto com a verdade.5

Assim, a HC assume a concepção do imaginário como função criadora que se constrói pela via simbólica, e que expressa a vontade de reconstruir o real num universo paralelo de símbolos. Partimos da definição de que imaginário referese a um conjunto de imagens, isto é, ele constitui um depositário de imagens, um conjunto de representações. E, assim, re-colocamos esta conceituação dentro de novas fronteiras,
5

PESAVENTO, 2007a.

256 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

que parecem pertinentes ao estudo multidisciplinar sobre a questão do simbólico, elemento intrínseco ao imaginário.
O que define a história cultural? De certa forma, os indivíduos que vivem um mesmo período não são contemporâneos. A história cultural é feita de recobrimentos, de sedimentações, de inércias, isto é, não se sente as mesmas coisas, segundo uma série de critérios: o sexo, a idade, a categoria social, o local geográfico, a tradição, ou a cultura que se recebeu. O historiador da cultura deve sempre tentar entender essa complexidade, essa simultaneidade de atitudes muito diferentes segundo os indivíduos e segundo os grupos.6

Desta forma, concebi, em trabalhos anteriores, duas maneiras de perceber o imaginário, ou melhor, de resgatar suas manifestações no ser humano. 7 A primeira forma trata de uma concepção de imaginário desde dentro, surgindo espontaneamente na psique dos indivíduos, tomando forma, por meio de imagens, no mundo exterior consciente. Remete-nos ao caráter criativo do inconsciente humano e ressalta o caráter simbólico das imagens das fantasias humanas, as quais aparecem em suas mais variadas manifestações provindas do âmbito do inconsciente. Inconsciente este, conforme a concepção de Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço que formatou sua obra na primeira metade do
6

7

Trecho que entrevista de Alain Corbin a Laurent Vidal, “Alain Corbin, o prazer do historiador”. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 25, n. 49, p. 17, jun. 2005. Remeto o leitor à minha obra, Histórias de vidas ausentes – a tênue fronteira entre a saúde e a doença mental, onde, no capítulo 1, discuto esta questão de forma mais aprofundada, sob o título “As representações simbólicas e o inconsciente nas ciências humanas”, e mais especificamente na terceira seção deste capítulo: O símbolo como mediador entre inconsciente e história: o homem como animal symbolicum e a Nova História Cultural.

PsiqUiatria e história cUltUral

• 257

século XX.8 A segunda concepção de imaginário é aquela que apresenta sua face voltada para o exterior, para a realidade social, possibilitando quase que uma construção consciente de um imaginário (imaginário desde fora). Esta face realiza-se no tempo e no espaço de seu aspecto consciente e é aquela que os cientistas sociais e os historiadores, de forma geral, estudam, pois surgem, muitas vezes, de movimentos sociais e políticos, prestando-se à manipulação e jogos de poder. Por exemplo, quando tratam a imagem de Getúlio Vargas como um mito nacional, estão criando um imaginário que embora verdadeiro (verdadeiro, também, porque tem um respaldo em nossos sentimentos e reflexões enquanto nação) é forjado pelas práticas políticas e sociais imbricadas na relação do governante com o povo, de forma consciente. Estas duas vertentes do imaginário, possivelmente, não vivem uma sem a outra. E, ao discutirmos as representações e as sensibilidades da loucura a partir de textos literários, tema do qual trata este artigo, estamos mesclando em análise estas duas concepções de imaginário. Pois, tanto fazemos referência ao aspecto externo das representações em relação a nosso objeto – por exemplo, aquelas que estão na base das práticas históricas de exclusão em manicômios, forjadas por noções sociais, entre outras –, quanto àquele interno, ou seja, as sensibilidades dos próprios loucos – e aqui retratada em textos literários, o que também não deixa de ser uma representação externa, pois nem todos estes literatos foram pacientes psi8

“[...] a psique é constituída essencialmente de imagens. A psique é feita de uma série de imagens, no sentido mais amplo do termo; não é porém, uma justaposição ou uma sucessão, mas uma estrutura riquíssima de sentido e uma objetivação das atividades vitais, expressa através de imagens. E da mesma forma que a matéria corporal, que está pronta para a vida, precisa da psique para se tornar capaz de viver, assim também a psique pressupõe o corpo para que suas imagens possam viver”. JUNG, C.G. Espírito e vida. In: ______. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 1984. p. 267.

258 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

quiátricos, como no caso de Lima Barreto. Outra noção muito pertinente aos atuais estudos de HC, mencionada no parágrafo anterior, é a de sensibilidade. Esta é colocada como uma outra forma de apreensão do mundo, para além do conhecimento científico. As sensibilidades corresponderiam a este núcleo primário de percepção e tradução da experiência humana no mundo que se encontra no âmago da construção de um imaginário social. O conhecimento sensível opera como uma forma de reconhecimento e tradução do mundo que brota não do racional ou das construções mentais mais elaboradas, mas dos sentidos, que vêm do interior de cada indivíduo. Às sensibilidades compete esta espécie de assalto ao mundo cognitivo, pois lidam com as sensações, com o emocional, a subjetividade, os valores e os sentimentos. Novamente citando Pesavento,9 “medir o imensurável não é apenas um problema de fonte, mas de uma concepção epistemológica de compreensão da história”. Ela refere que a preocupação da HC com as sensibilidades trouxe para os domínios de Clio a emergência da subjetividade nas reflexões do historiador. É a partir da experiência histórica pessoal que se resgatam emoções, sentimentos, ideias, temores ou desejos, o que não implica abandonar a perspectiva de que esta tradução sensível da realidade seja historicizada e socializada para os homens de uma determinada época. Os homens aprendem a sentir e a pensar, ou seja, a traduzir o mundo em razões e sentimentos.
As sensibilidades seriam, pois, as formas pelas quais indivíduos e grupos se dão a perceber, comparecendo como um reduto de representação da realidade através das emoções e dos sentidos. Nesta medida, as sensibilidades não
9

PESAVENTO, 2003, p. 10.

PsiqUiatria e história cUltUral

• 259

só comparecem no cerne do processo de representação do mundo, como correspondem, para o historiador da cultura, àquele objeto a capturar no passado, à própria energia da vida. Sensibilidades se exprimem em atos, em ritos, em palavras e imagens, em objetos da vida material, em materialidades do espaço construído. Falam, por sua vez, do real e do não real, do sabido e do desconhecido, do intuído ou pressentido ou do inventado. Sensibilidades remetem ao mundo do imaginário, da cultura e seu conjunto de significações construído sobre o mundo. Mesmo que tais representações sensíveis se refiram a algo que não tenha existência real ou comprovada, o que se coloca na pauta de análise é a realidade do sentimento, a experiência sensível de viver e enfrentar aquela representação. Sonhos e medos, por exemplo, são realidades enquanto sentimento, mesmo que suas razões ou motivações, no caso, não tenham consistência real.10,11

Trabalha-se, assim, com a tradução do sensível, como uma forma de conhecimento do mundo – imaginário social, subjetividade, emoções, sentimentos etc. Nas representações e sensibilidades encontradas nos objetos do sensível, nas marcas objetivas deste sensível, busca-se o sentido do passado, aquele que fica nas entrelinhas, se assim podemos dizer, dos grandes acontecimentos. Ou, como no dizer de Alain Corbin: “Seria isso, então, a história das sensibilidades: identificar a utilização dos sentidos que permitiu construir imagens do outro, dar forma ao imaginário social”.12
10 11

12

PESAVENTO, 2003, p. 58. Ver também PESAVENTO, S. J. Sensibilidades: escrita e leitura da alma. In: PESAVENTO, S. J.; LANGUE, F. Sensibilidades na história: memórias singulares e identidades sociais. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2007b. p. 9-21. Trecho de entrevista de Alain Corbin a Laurent Vidal. Revista Brasileira

260 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Estes objetos do sensível, ou evidências do sensível têm sua materialidade em textos (literatura, história, memória), imagens (pintura, cinema, fotografia), espaço (paisagem, arquitetura), práticas sociais (comportamento e valor). Estas novas posturas epistemológica e metodológica abrem uma vertente enorme de novas correntes, novos campos temáticos e fontes, ou nos permite rever antigas e profícuas fontes sob um novo olhar. Por exemplo: a escrita e a leitura sob o prisma das representações; a imagética urbana, as imagens das obras de arte e mesmo a literatura como novos campos temáticos de pesquisa, bem como o são as representações da saúde e da doença, e a diversidade de fontes daí decorrentes: os textos mais variados – romance, cartas, processos-crime, prontuários médicos, crônicas de jornal, escritos pessoais ou as escrita-de-si; imagens – fotografia, cinema, monumentos etc. Assim, chegamos ao tema específico sobre as representações da loucura, em que a HC e a Psiquiatria podem se encontrar. No contexto da saúde e da doença, trabalhamos com o corpo e a com a psique, suas representações, imagens e sensibilidades. É cada vez maior o número de pesquisadores/historiadores debruçados sobre análise e interpretação histórica da trajetória da saúde em nosso país, desde os tempos coloniais até os dias de hoje. Tanto nos macro-espaços do social – hospitais gerais, cadeias públicas, manicômios, hospitais assistenciais como as santas casas de misericórdia, manicômios judiciários, entre outros – quanto nos micro-espaços das vidas individuais, busca-se investigar representações e imagens, maneiras sensíveis de perceber o outro, em seu contexto de saúde/doença, bem
de História, São Paulo, v. 25, n. 49, p. 19, jun. 2005.

PsiqUiatria e história cUltUral

• 261

como observar como agem estes diversos atores históricos e qual o sentido que dão às suas ações e saberes.13 É no contexto da loucura, meu campo de pesquisa, em que posso exemplificar melhor o que quero dizer. Torna-se possível a busca das representações e imaginário, no momento em que se pesquisa todo o arsenal de motivos, elucubrações e práticas que levam as pessoas de certa comunidade a internarem (excluírem) o paciente num hospital psiquiátrico, antigos manicômios ou hospícios. Junto à questão do simbólico, pertinente ao imaginário sobre a doença mental, também se pode lançar mão de outros conceitos relacionados às noções de representação, dos quais a HC também dá conta – como: identidade, cidadania e exclusão.
13

Nesta área temática, pesquisa-se acerca da representação/imaginário/sensibilidade sobre saúde e doença, orgânicas e psíquicas, sob o ponto de vista histórico das ciências da saúde, bem como dos posicionamentos leigos; desde as práticas exercidas sobre elas e seus sucedâneos, até discursos e atitudes, tanto dos médicos gerais, médicos psiquiatras, psicólogos e dos outros profissionais de saúde, como das variadas instituições e governos. Incluímos, também, neste debate, as manifestações discursivas e expressões narrativas (falas, escritas, expressões artísticas e simbólicas) de pacientes e dos agentes históricos sobre os quais as práticas foram exercidas. Corpo e psique, saberes e práticas vistos a partir das mais variadas fontes e interpretados em seus múltiplos significados para a sociedade... Uma fonte muito profícua e cada vez mais utilizada são os prontuários médicos. Seria muito extenso colocar aqui todos os trabalhos que temos notícias e as temáticas dentro deste campo específico da história cultural da saúde e da doença. Mas vale notar que no Simpósio Temático que as organizadoras deste livro coordenaram dentro do III Simpósio Nacional de História Cultural em 2006 em Florianópolis, tivemos 37 inscrições com os mais diversos temas, de pesquisadores de várias regiões do Brasil, todos tratando de práticas, representações e sensibilidade na saúde e na doença. Para citar alguns (os leitores podem ter acesso à maioria destes trabalhos nos Anais do evento): loucura no RGS e institucionalização da Psiquiatria, corpo feminino, gestão documental, crime e loucura, literatura & saúde, loucura e ficção, sanitarismo e modernização, alcoolismo, discursos científicos sobre doença e cura, lepra/hanseníase, tuberculose, isolamento do doente, trajetórias de vidas doentes, trajetórias de agentes de cura, medicina e o sagrado, Aids e cinema, representações de tumores, eugenia, entre outros.

262 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Por um lado, no momento em que o doente é excluído do convívio social, sendo internado com um suposto diagnóstico de doença mental no hospício, tem-se, já, uma primeira representação que é a de não cidadão. A sua identidade, assim, foi privada de sentido social, sendo estigmatizada; e sua cidadania constrangida em camisas-de-força sociais, sejam estas camisas confeccionadas pela sociedade como um todo, pela medicina ou pela família.14 Por si só, isto já seria uma representação – negativa – sobre a loucura, naquela faixa que compreende o imaginário desde fora. A estes excluídos da História, os loucos, a sociedade negou o papel de cidadãos, privando-os de sua dignidade respeitada, de sua autonomia realizada e seus direitos e deveres exercidos em todas as instâncias individuais e sociais. Pensar o ser humano cidadão – sendo ou não considerado um louco – é pensá-lo na relação das forças sociais que instauram a diferença, pois é sendo e sentindo-se um não diferente que ele pode ser incluído na sociedade dos iguais. Cidadania e exclusão são representações da ordem social que orientam práticas e instauram paradigmas sociais, sendo, portanto, conceitos construídos historicamente.15 Conforme a historiadora norte-americana Barbara Weinstein,16 a História Cultural17 abriu um espaço para recuperar a questão da cidadania:
14

15

16

17

Identidade, aqui, entendida como um fenômeno que emerge da dialética entre indivíduo e sociedade, na qual as premissas de um se equacionam com as representações do outro – constituindo um imaginário de pertencimento e não de exclusão. PAUGAM, S. L´exclusion, l´état de savoirs. Paris: Éditions la Découverte, 1996. “ A pesquisa sobre identidade e cidadania nos EUA: da Nova História Social à Nova História Cultural” – texto apresentado em seminário no PPG em História UFRGS, em 1998. Na época, a história cultural era tratada por esta autora como Nova História Cultural, pois estava começando a ser repensada por autores de diversos países, especialmente os norte-americanos.

PsiqUiatria e história cUltUral

• 263

Se todas as identidades, comunidades etc. são “imaginadas” ou “inventadas” ou “socialmente construídas”, então o conceito de cidadão não é nem mais nem menos “real”, e chega a ser um tema legítimo e importante para estudar.

Bem como acontece nas questões de raça, gênero e orientação sexual, a questão da noção (ou representação) da idiossincrasia mental18 está inserida na discussão e no estabelecimento de grupos marginalizados, atualmente – e cada vez mais – denominados de excluídos. Sendo psiquiatra, sempre defendi a ideia de que o diagnóstico social de loucura não deveria significar um parâmetro de exclusão de qualquer indivíduo de seu meio sócio-cultural. Por quê? É comprovado cientificamente que a grande maioria dos primeiros surtos ou crises da doença mental/loucura19 pode ser evitada, ou plenamente tratada com sucesso, fora do ambiente hospitalar e quando diagnosticados no início de sua evolução, desde que não tenham sido ainda manipulados com medicamentos, eletrochoque ou outros meios deteriorantes de terapias. Aliás, esta é uma das premissas básicas da reforma psiquiátrica.20
18

19

20

Idiossincrasia significa o estado de saúde ou maneira de ver, reagir, sentir, própria de cada pessoa (o que nos aproxima da ideia de representação) cujo desvio, atualmente, está sob o rótulo genérico de transtornos psíquicos. Os termos doença mental e loucura são utilizados de forma indistinta neste texto, embora prefira deixar o primeiro para a área médica e o segundo, quando se fala de um fenômeno social, que se modifica com as épocas e com as sociedades, isto é, com suas representações sociais. Não entrarei, no texto, em pormenores sobre reforma psiquiátrica, mas este debate, muito contemporâneo, se faria pertinente neste tipo de discussão. Existem acertos e erros na implementação da reforma, matéria esta muito discutida nos fóruns atuais de saúde mental. Resumidamente, podemos dizer que a Lei Federal 10.216, sancionada em 6 de abril de 2001, regulamentou as internações psiquiátricas e promoveu mudanças no modelo assistencial aos pacientes portadores de sofrimento mental, destacando-se o processo de desospitalização, implementado por meio da criação de serviços ambulatoriais, como os hospitais-dia ou hospitaisnoite, os lares protegidos e os centros de atenção psicossocial (Caps).

264 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Como historiadora, procuro compreender as origens das práticas de exclusão, pois diferentes ideias/representações de cunho histórico e cultural permeiam esta discussão, todas relacionadas às representações que estão em sua base. Cito como exemplo algumas representações do imaginário coletivo/social: a doença mental vista como degeneração moral do ser humano, vigente ainda nos séculos XVIII e XIX; a doença como um mal em si ou como uma degenerescência da raça, o que fez consolidar a noção de eugenia tão realizada nos regimes totalitários do início do século XX; distúrbio psíquico causado pela sexualidade pervertida ou reprimida, ligada ou não ao meio sócio-cultural do indivíduo, como pregou Freud em seu dogma psicanalítico, tentando criticar a sociedade vitoriana da qual era caudatário;21 doença mental
Seu objetivo foi, inicialmente, humanizar o tratamento, de modo que a internação fosse o último recurso – e ainda assim, cercado dos devidos cuidados e do absoluto respeito à cidadania do paciente. Há, ainda, a preocupação de evitar as internações prolongadas e em reduzir as compulsórias. A proposta foi, desde então, privilegiar o convívio do paciente com a família. Neste novo modelo, a sociedade é chamada a assumir sua responsabilidade com os portadores de transtornos mentais, o que certamente implica a conscientização de que o regime aberto não oferece risco para ninguém, que o doente mental não é um incapaz e de que a inserção social é mais eficaz para a sua recuperação. A reforma psiquiátrica elegeu os agentes fundamentais neste processo: os médicos e a família, que passam a ser peças fundamentais. Para aprofundar esta temática, ver: OLIVEIRA, A. G. B. de; ALESSI, N. P Cidadania: instrumento e finalidade do processo de trabalho na . reforma psiquiátrica. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, p. 191-203, mar. 2005; AMARANTE, P Loucos pela vida: a traje. tória da Reforma Psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003; TENÓRIO, F. A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais: história e conceitos. História, ciência, saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 25-29, jan./abr. 2002. Acho ótima a seguinte reflexão de Alain Corbin, feita no momento de sua entrevista, já citada acima: “Foucault teve o gênio de se dar conta de que aquele século colocava a sexualidade acima de tudo, e que, por conseguinte, ela governava a parte física e a parte moral do homem, sua história natural, também. O que me interessa é o período anterior à patologização que se desenvolve a partir de 1860 – aquele que Foucault estuda. Os médicos do final do século são horrorosos de ler. São apenas perversões e

21

PsiqUiatria e história cUltUral

• 265

como doença da alma, noção esta vinda de alguns povos ditos primitivos e mesmo dentro de algumas concepções religiosas, como o espiritismo nascido no século XIX etc. Por outro lado, podemos debruçar-nos sobre o delírio do louco, ou, em outras palavras, mostrar a pertinência de seu imaginário como algo não louco. Isto significa, de certa forma, um desafio, que orienta uma leitura em direção ao simbólico, pois o que se chama delírio, nada mais é do que conteúdo simbólico do imaginário de uma pessoa,22 retratando, muitas vezes, também um imaginário coletivo. Na verdade, este sistema simbólico constituinte do imaginário de um paciente, também traz à tona a sensibilidade sobre a loucura de certa época, na qual ele se insere na corrente histórica que lhe deu origem. Novamente, aqui, podemos perceber o quanto estas duas vertentes de imaginário andam juntas, em um franco processo dialético. E vemos isto mais ainda quando trabalhamos com literatura como fonte histórica. A fala de um personagem literário está prenhe de significado, neste sentido, mostrando tanto aquilo que um louco pode sentir como o que uma época pode pensar/representar a respeito da loucura. Uma das premissas de minha pesquisa histórica é avaliar de que forma o imaginário de uma época trabalhou com estas questões e serviu para legitimar as práticas científicas de exclusão do louco e vice-versa. O espírito de uma época, a Weltanschauung, ou Cosmovisão, o surgimento de símbolos coletivos em momentos de crise, as sensibilidades, as ideologias sociais, enfim todo o imaginário, de certa forma, individual e coletivo, consciente e inconsciente, de uma sofetichismo. Michel Foucault demonstrou que aquele final de século quis criar uma ciência do sexo, uma sexologia fundada na taxonomia das perversões. É sinistro. Em compensação, tudo está para ser escrito sobre a primeira parte do século”. E aqui se fala sobre o imaginário desde dentro.

22

266 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

ciedade contribui intrinsecamente para a existência destas práticas sociais. Uma outra, é aquela que parte do próprio sujeito, aquelas subjetividade e sensibilidade intrínsecas (idiossincrasia) ao fato de estar sendo um louco ou considerado como tal.23
23

Em meados do século XIX, no Brasil, seres humanos rotulados como improdutivos, inadaptados e inúteis vagueavam pelas ruas das cidades, havendo a necessidade destas serem limpas destes desafortunados seres indesejáveis – que muitas vezes iam parar em porões de casas particulares, em hospitais gerais e mesmo nas cadeias públicas. A modernização crescente das cidades, a economia competitiva e a necessidade de higienização moral da urbe levou à exclusão de muitos destes indivíduos não adaptados aos padrões de vida aceitáveis pela sociedade, improdutivos que eram economicamente. Estes desajustados sociais, os loucos ou alienados mentais como foram chamados na época, precisavam de um lugar que os contivesse e excluísse da sociedade. Pode-se dizer que a partir de motivações diversas, lutas políticas distintas, brigas por poderes e saberes, o resultado foi um só: a construção de manicômios nas cidades brasileiras cada vez mais populosas. O hospício surgiu, assim, como uma necessidade de uma época histórica, ligada a outras transformações do período, sociais e urbanas. Ainda no século XIX, numerosos foram os embates, realizados pelos diversos setores da sociedade (como as instituições religiosas assistenciais como santas casas de misericórdia, a comunidade médica, os políticos) para o que se convencionou chamar de institucionalização da loucura. O primeiro manicômio brasileiro (Hospício Nacional de Alienados) foi fundado em 1852, no Rio de Janeiro, por um decreto do Imperador Pedro II, sendo de caráter assistencialista e vinculado à Santa Casa de Misericórdia, embora tenha surgido por solicitação de médicos. Daí para frente, muitas lutas foram travadas nos diversos estados brasileiros, para a criação de hospícios, e, com o advento da República e a ascensão dos médicos psiquiatras a cargos de poder nesta área, toda esta questão tornou-se matéria médica e de especialistas. Em suma, aos loucos o hospício, no século XIX e aos médicos psiquiatras o poder do saber, no século XX, foram motes que vingaram, no Brasil, até a instalação da reforma psiquiátrica, em 2001, que, por sua vez, ainda está longe de desinstitucionalizar a loucura e dar cidadania aos loucos. Não entrarei em maiores detalhes sobre a história da Psiquiatria no Brasil e no RGS (local onde atuo como historiadora), pois muito já foi publicado sobre esta temática. Cito apenas alguns, os quais já se tornaram referenciais de contingência aos nossos trabalhos, estando presentes nas bibliografias de nossas teses e estudos. COSTA, J. F. História da Psiquiatria no Brasil, um corte ideológico. Rio de Janeiro: Editora Documentário, 1976; CUNHA, M. C. P O espelho do mundo: Juquery, a história de um asilo. . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986; ENGEL, M. G. Os delírios da razão:

PsiqUiatria e história cUltUral

• 267

Embora tenha sempre trabalhado com fontes diversas, é a fonte literária aquela que, ao meu entender, mais se aproxima de forma profícua das sensibilidades e das realidades que se exprimem nos delírios (nem tão delirantes assim) de seus personagens loucos.24 A literatura é um tipo especial de fonte, pois entre tantas outras funções, possui o papel de dialogar com o seu tempo de forma sensível e profunda, porque é criação e é simbólica. A ficção, e no caso presente ficção literária, por meio de sua linguagem simbólica, coloca em evidência o poder da representação na vida cotidiana humana. Ela comporta o estatuto do real intrínseco à capacidade de representação de todo ser humano, isto é, seu sistema simbólico,
médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Editora da Fiocruz, 2001; MEDEIROS, T. Formação do modelo assistencial psiquiátrico no Brasil. 1977. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Psiquiatria, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1977; SANTOS, N. M. W Histórias de vidas ausentes: a tênue fronteira . entre a saúde e a doença mental. Passo Fundo: Editora da UPF, 2005b; SCHIAVONI, A. A institucionalização da loucura no Rio Grande do Sul: o Hospício São Pedro e a Faculdade de Medicina. 1997. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1997; VENÂNCIO, A. T. Ciência psiquiátrica e política assistencial: a criação do Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 10, n. 3, p. 833-900, set./ dez. 2003; WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela a construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002. Menciono as fontes utilizadas em minhas pesquisas de mestrado e doutorado, além das literárias, que envolveram um período histórico do Brasil, ao todo, de 1900 a 1950: prontuários médicos do Hospital Psiquiátrico São Pedro – HPSP –, atualmente arquivados no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APRS); alguns relatórios da administração; o livro do médico e diretor do hospital em duas longas gestões (1926-1932; 1937-1951) dr. Jacintho Godoy (JG) sobre a Psiquiatria no RS, editado por ele mesmo em 1955; jornais da época (principalmente Correio do Povo e Diário de Notícias) e uma publicação interna do hospital, em forma de periódico ou folhetim, de 1975-9, que relatam um pouco da história deste com alguns depoimentos de funcionários e pacientes (feito pelo chefe da recreação da época e por uma professora); teses de mestrado e doutorado.

24

268 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

como foi evidenciado acima. Assim, na literatura utilizada como fonte histórica, revela-se o conjunto de pressupostos da História Cultural, isto é, podemos perceber onde e de que forma as representações, o imaginário, e as sensibilidades estão atuando. Observemos alguns exemplos retirados da melhor literatura. E, para sairmos um pouco do foco do Brasil e pensarmos este fenômeno da reclusão e da exclusão como algo globalizado – utilizando uma nomenclatura atual – vejamos dois contos de autores estrangeiros.25 O conto de Gabriel García Márquez “Só vim telefonar”,26 escrito em abril de 1978, dá-nos uma contundente descrição literária sobre o imaginário acerca da loucura, a forma como desde sempre foi tratada, incluindo a perda de autonomia e da cidadania que são impostas a quem recebe este rótulo. Resumidamente, a personagem central, Maria, é uma atriz mexicana, casada com um prestidigitador de salão, que, viajando sozinha, fica sem o seu carro numa estrada, em um dia chuvoso de primavera, quando este estraga. Ao buscar socorro, o único veículo que atende ao seu sinal para lhe dar uma carona é um ônibus estranho, repleto de mulheres sonolentas, todas envoltas em cobertores. Maria, sem o saber, entra em um ônibus que carrega mulheres loucas para um hospício e não imagina que neste lugar também vai entrar. Sigamos um trecho inicial do próprio conto:
25

26

Infelizmente, em função de limitação de um artigo, não poderemos contextualizar a vida e a obra destes autores, como fizemos em outros trabalhos, mencionados na nota 26. Este conto faz parte de um livro de contos intitulado Doze contos peregrinos, publicados em 1992 pela primeira vez neste formato, porém escritos sob diversas formas durante 18 anos. Vide prólogo do autor em Márquez (1992). MÁRQUEZ, G. G. Só vim telefonar. In: ______. Doze contos peregrinos. Rio de Janeiro: Record, 1992. p. 101-125.

PsiqUiatria e história cUltUral

• 269

Maria olhou por cima do ombro e viu que o ônibus estava ocupado por mulheres de idades incertas e condições diferentes que dormiam enroladas em mantas iguais à dela. Contagiada por sua placidez, Maria enroscou-se no assento e abandonou-se ao rumor da chuva. Quando despertou era de noite e o aguaceiro havia se dissolvido num sereno gelado. Não tinha a menor idéia de quanto tempo havia dormido nem em que lugar do mundo estava. Sua vizinha de assento tinha uma atitude alerta. – Onde estamos? – perguntou Maria. – Chegamos – respondeu a mulher. O ônibus havia entrado no pátio empedrado de um edifício enorme e sombrio que parecia um velho convento num bosque de árvores colossais. As passageiras, iluminadas apenas por um farol do pátio, permaneceram imóveis até que a mulher de aspecto militar as fez descer com um sistema de ordens primárias, como em um jardim-de-infância. Todas eram mais velhas, e moviam-se com tal parcimônia na penumbra do pátio que pareciam imagens de um sonho. Maria, a última a descer, pensou que eram freiras. Pensou menos quando viu várias mulheres de uniforme que as receberam na porta do ônibus, e cobriam suas cabeças para que não se molhassem, e as colocavam em fila indiana, dirigindo-as sem falar com elas, com palmas rítmicas e peremptórias. Depois de se despedir de sua vizinha de assento, Maria quis devolver-lhe a manta, mas ela falou que cobrisse a cabeça para atravessar o pátio e que a devolvesse na portaria. – Será que lá tem telefone? – perguntou Maria. – Claro – disse a mulher. – Lá mesmo eles mostram.27

27

MÁRQUEZ, 1992, p. 33.

270 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

A personagem ainda queria telefonar e ainda não tinha percebido que estava num hospício. Era tratada sem piedade como todas as outras, não importando às pessoas que ela não se cansasse de repetir que só tinha vindo telefonar, explicando que o carro estragara na estrada e ao pedir carona aquele ônibus havia parado. Neste momento, é óbvio que o ônibus, o motorista e a ajudante já haviam partido e não poderiam ser testemunhas do ocorrido. No hospício, não encontram o nome de Maria na lista das pacientes e a enfermeira-chefe estranha que ela não leve a identificação num cartão costurado no sutiã, como todas as recém-chegadas. A razão primeira para ela ser uma louca, embora a sua não identidade (sugestivo este fato), era que estava no ônibus do hospício; sua identidade passou a ser um número no interior de um hospício, como em tantas outras descrições que se vê na vida real. Ou seja, identidade e cidadania estilhaçadas ao entrar no ônibus e depois pela porta do manicômio, pois o discurso de Maria não vale pelo que diz, significando apenas um sintoma e não uma lucidez:
– Por aqui, gracinha, o telefone é por aqui. Maria seguiu com as outras mulheres por um corredor tenebroso, e no final entrou em um dormitório coletivo onde as guardas recolheram as mantas e começaram a repartir as camas. Uma mulher diferente, que Maria achou mais humana e de hierarquia mais alta, percorreu a fila comparando uma lista com os nomes que as recém-chegadas tinham escrito num cartão costurado no sutiã. Quando chegou na frente de Maria surpreendeu-se que ela não levasse a identificação. – É que só vim telefonar – disse Maria. Explicou-lhe com muita pressa que seu automóvel havia

PsiqUiatria e história cUltUral

• 271

quebrado na estrada. O marido, que era mago de festas, estava esperando por ela em Barcelona para cumprir três compromissos até a meia-noite, e queria avisá-lo que não chegaria a tempo para acompanhá-lo. Eram quase sete da noite. Ele sairia de casa dentro de dez minutos, e ela temia que cancelasse tudo por causa de seu atraso. A guarda pareceu escutá-la com atenção. – Como é o seu nome? – perguntou. Maria disse como se chamava com um suspiro de alívio, mas a mulher não encontrou seu nome depois de repassar a lista várias vezes. Perguntou alarmada a uma guarda, e esta, sem nada para dizer, sacudiu os ombros. – É que eu só vim para telefonar – disse Maria. – Está bem, beleza – disse a superiora, levando-a até a sua cama com uma doçura demasiado ostensiva para ser real –, se você se portar bem vai poder falar por telefone com quem quiser. Mas agora não, amanhã. Alguma coisa aconteceu então na mente de Maria que a fez entender por que as mulheres do ônibus moviam–se como no fundo de um aquário. Na realidade, estavam apaziguadas com sedantes, e aquele palácio em sombras, com grossos muros de pedra e escadarias geladas, era na realidade um hospital de enfermas mentais. Assustada, escapou correndo do dormitório, e antes de chegar ao portão uma guarda gigantesca com um macacão de mecânico agarrou-a com um golpe de tigre e imobilizou-a no chão com uma chave mestra. Maria olhou-a de viés paralisada de terror. – Pelo amor de Deus – disse. – Juro pela minha mãe morta que só vim telefonar.28

28

MÁRQUEZ, 1992, p. 34.

272 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Não vai demorar muito, pelo enredo, até que a personagem perceba que está em um hospício. E, então, vai se tornar uma verdadeira louca aos olhos de todos, pois vai passar por várias tentativas de fuga, horror e descontrole emocional diante do que vê e do que percebe. Torna-se uma louca agitada, como escreve o médico na papeleta. O saber médico ratifica a doença, o que se torna na escrita de García Márquez um momento emocionante e trágico do conto – principalmente para quem já viu isto acontecer inúmeras vezes em manicômios reais de nossas cidades modernas:
Maria desafogou-se sem pudor, como nunca havia conseguido com seus amantes casuais nos tédios de depois do amor. Enquanto a ouvia, o médico a penteava com os dedos, arrumava o travesseiro para que respirasse melhor, a guiava pelo labirinto de sua incerteza com uma sabedoria e uma doçura que ela jamais havia sonhado. Era, pela primeira vez em sua vida, o prodígio de ser compreendida por um homem que a escutava com toda a alma sem esperar a recompensa de levá-la para a cama. Após uma longa hora, desafogada até o fim, pediu-lhe autorização para telefonar para o seu marido. O médico levantou-se com toda a majestade de seu cargo. “Ainda não, princesa”, disse, dando em sua face o tapinha mais terno que ela jamais havia sentido. “Cada coisa tem sua hora”. Da porta, fez uma bênção episcopal, e desapareceu para sempre. – Confie em mim – disse a ela. Naquela mesma tarde, Maria foi inscrita no asilo com um número de série, e com um comentário superficial sobre o enigma da sua procedência e as dúvidas sobre sua identidade. Na margem ficou uma qualificação escrita à mão pelo diretor: agitada.29
29

MÁRQUEZ, 1992, p. 35.

PsiqUiatria e história cUltUral

• 273

Maria só vai conseguir avisar o marido do seu destino quando aceita as seduções sexuais da guarda da noite, Herculina, em troca do favor do telefonema. E, quando o marido chega para conversar com o diretor do hospício ele ouve: “A única certeza é que o seu estado é grave”, diz o diretor. “Que esquisito”, responde Saturnino, “ela sempre foi de gênio forte, mas de muito domínio”.
Há condutas que permanecem latentes durante muitos anos, e um dia explodem. Porém, é uma sorte que tenha caído aqui, porque somos especialistas em casos que requerem mão forte, conclui o diretor, como um grande sábio ao finalizar a explicação para um leigo, de cima de seu saber poder.

E com isto, Maria fica mais louca ainda: por seu marido não acreditar nela, ela tem um ataque de fúria com ele e resolve não querer mais recebê-lo. O conto se estende até o momento em que seu marido, depois de muito sofrer, a esquece no hospício e desaparece para sempre. Fica a incógnita e uma esperança:
Nunca mais se soube dele, exceto que tornou a se casar e que voltou ao seu país. Antes de ir embora de Barcelona deixou o gato meio morto de fome com uma namoradinha casual, que além disso se comprometeu a continuar levando cigarros para Maria. Mas também ela desapareceu. Rosa Regas recordava ter visto a moça no Corte Inglês, há uns doze anos, com a cabeça rapada e a túnica alaranjada de alguma seita oriental, grávida até não poder mais. Ela contou-lhe que continuara levando cigarros para Maria, sempre que pôde, e resolvendo para ela algumas urgências imprevistas, até o dia em que só encontrou os escombros do hospital, demolido como uma lembrança ruim daqueles

274 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

tempos ingratos. Maria pareceu-lhe muito lúcida na última vez em que a viu, um pouco acima do peso e contente com a paz do claustro. Naquele dia, levou-lhe também o gato, porque havia acabado o dinheiro que Saturno deixou para a comida.30

O que foi feito de Maria e do manicômio? Maria só queria telefonar e ficou presa para sempre em um manicômio, talvez até sua morte. Esta é uma história ficcional contundente e emocionante a respeito da perda da autonomia e da própria cidadania do indivíduo tido como louco. Suas súplicas não são atendidas, sua voz não é ouvida, e inexiste ao olhar dos outros um momento sequer de lucidez nestas criaturas. De forma nua e crua, sabemos que isto acontece também fora da literatura. Porém ainda é na fonte literária que percebemos a sensibilidade mais acurada a este respeito, exceção feita a alguns breves relatos que tive oportunidade de ler em prontuários médicos, de alguns médicos um pouco mais sensíveis, ou mesmo em outro tipo de narrativa, quais sejam, breves notas ou missivas (sob o termo genérico de escrita-de-si), deixadas por loucos internados.31 O conto de Tchecov “A enfermaria número 6”, publi-

30 31

MÁRQUEZ, 1992, p. 40. Remeto o leitor à obra Histórias de vidas ausentes – a tênue fronteira entre a saúde e a doença mental na qual são relatados casos, nos capítulos 2 e 3, sobre pessoas internadas no Hospital Psiquiátrico São Pedro de Porto Alegre, entre 1937 e 1945, as quais recebem tratamento clínico/ psiquiátrico independente de suas histórias de vida e dos motivos de seus adoecimentos. SANTOS, 2005b. Também sobre estas narrativas ordinárias, ou “escritas-de-si”, ver os trabalhos de Yonissa Wadi, principalmente A história de Pierina: subjetividade, crime e loucura. Uberlândia: Edufu, 2009; e minha tese de doutorado Histórias de sensibilidades: espaços e narrativas da loucura em três tempos: Brasil 1905, 1920, 1937. 2005. Tese (Doutorado) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005a.

PsiqUiatria e história cUltUral

• 275

cado em 1892,32 narra a história de um médico numa cidadezinha remota da antiga Rússia czarista, o qual faz vistas à enfermaria número 6, o pavilhão dos loucos do hospital onde ele trabalha, enquanto medita sobre a vida e sobre a morte. A partir da relação de Andrei Efímich, o médico, e de sua relação com um louco, Ivan Dmítrich, internado na enfermaria número 6, o autor reflete, por meio do mote da loucura, sobre o mundo e a (des)humanidade nele contida.
Um mundo cada vez mais repleto de avanços científicos e tecnologias, além de filosofias e ideologias ditas racionais em profusão, entretanto vasto de degradação moral, indiferença e desumanidade ante o próximo; um mundo em que os direitos humanos são deSr.espeitados das maneiras mais sutis, cruéis e mesquinhas.33

O doutor Efimich, de dentro de sua ética, não compreendia como é que poderia haver local como aquele hospital:
Depois de uma revisão geral, Andrei Efimich chegou à conclusão de que semelhante instituição hospitalar era imoral e altamente nociva para a saúde das pessoas. Parecia-lhe que a única solução era mandar os doentes para casa e encerrá-la. Considerou, no entanto, que isto não dependia somente de sua vontade e que não seria eficiente: se se eliminasse a imundície física e moral de um local, aquela provavelmente transferia-se para outro. Havia que esperar que desaparecesse por si própria. Além disto, se tinham aberto este hospital e o toleravam, era sinal de que as pessoas necessitavam dele; os males desta vida e todas as suas vilanias são necessários, já que se convertiam com o tempo
32 33

TCHECOV A. A enfermaria número 6. São Paulo: Veredas, 2005. , TCHECOV 2005, p. 25. ,

276 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

em qualquer coisa de útil, como o estrume em terra negra. Não há no mundo bem que na sua origem não contivesse uma ação abjeta.34

O médico da narrativa literária, que possui o hábito de se autoexcluir da sociedade em que vive, pois não vê nela pessoas inteligentes com as quais possa conversar, vê neste louco da enfermaria uma pessoa interessante, com o qual passa horas a discutir as questões filosóficas sobe a vida, a morte e a própria loucura. Andrei, antes de conhecer este paciente, deleitava-se na hora em que chegava à sua moradia, no próprio hospital, e podia ler um bom livro, tomar sua cerveja e comer o que a cozinheira lhe preparava. Embora monótona, sua vida se enriquecia com a leitura de muitos livros antigos. Passou a não acreditar mais na Medicina. Em determinado momento da trama, um outro médico do hospital o vê e o ouve conversando com o doente Ivan, sentado ao seu leito. Imediatamente tem a clara certeza de que seu colega está também louco:
Não tardou a propagar-se no hospital o rumor de que o doutor Andrei Efimich começara a visitar a enfermaria número seis. Ninguém, nem o assistente Nikita, nem as enfermeiras, compreendiam a razão desta atitude, nem porque passava ali as horas mortas, ou de que assunto falava, e porque nunca receitava [medicação ou outro tratamento]. As suas atitudes [de ficar horas a fio conversando com um louco] causavam estranheza. Mikail Averianich [um amigo que frequentava sua casa rotineiramente] frequentemente não o encontrava em casa, coisa que antes nunca acontecia. E Dariushka [sua empregada] sentia-se desorientada, em virtude de o médico ter deixado de tomar a sua cerveja a
TCHECOV 2005, p. 20. ,

34

PsiqUiatria e história cUltUral

• 277

determinada hora, e até às vezes chegar tarde para comer. Numa ocasião – passava-se isto já em fins de junho – tendo o doutor Kobotov tido a necessidade de falar com Andrei Efimich, foi à sua casa; como não o encontrasse, procurou no pátio, onde lhe disseram que o velho médico estava no pavilhão com os doentes mentais. Ao entrar no pavilhão, parou no vestíbulo ouvindo a seguinte conversa: – Nunca chegaremos a um acordo, não conseguirá convencer-me – dizia Ivan Dmitrich, irritado. – O Senhor não conhece o que é a realidade e nunca sofreu. A única coisa que fez foi alimentar-se como uma sanguessuga com os sofrimentos alheios; eu, pelo contrário, sofri desde o dia em que nasci até o dia de hoje. Por isso lhe digo francamente que me considero superior a si e mais competente em todos os sentidos. Você não é ninguém para me dar lições. – Não pretendo de modo algum convertê-lo às minhas convicções – murmurava Andrei Efimich em voz baixa e como lamentando que não quisessem entendê-lo. – Não se trata disto, meu amigo. Não se trata de você ter sofrido e eu não. As alegrias e os sofrimentos são efêmeros. Ponhamo-los de parte e que os leve o vento. Trata-se do que você e eu pensamos; vemos, um no outro, duas pessoas capazes de pensar e raciocinar, e isto torna-nos solidários por mais diferentes que sejam nossos pontos de vista. Se você soubesse, amigo, como me aborrecem a loucura geral, a falta de talento, a torpeza, e como me alegra conversar consigo! Você é uma pessoa inteligente e encanta-me a sua conversa.35

O médico Kobotov, lançando olhares cúmplices com o atendente Nikita sai do pavilhão com uma certeza. No dia seguinte, leva um assistente para ver a cena, que se repetia: a
35 TCHECOV 2005, p. 41. ,

278 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

conversa entre um louco (quase furioso em seus argumentos) e o doutor Andrei. Estava lançada a sentença de morte deste médico, sem ele o saber. O fato de ser solidário a um louco internado, de chamá-lo de amigo, de estar numa posição submissa ao discurso do outro... Isto foi imperdoável. Em pouco tempo, na cidade pequena, isto se espalhou e o dr. Ifimich é chamado à Câmara Municipal, onde estão presentes várias autoridades da cidade, dos vários poderes e alguns médicos. Sem ele perceber, está sendo testada a sua sanidade mental. Todos falaram um pouco, perguntaram sobre sua vida, etc. Embora soubessem de antemão o que queriam, principiaram por acordar com o doutor, dizendo-lhe que sabiam sobre a monotonia da vida daquela cidade para um homem culto como ele. Até que chegaram a perguntar sobre a enfermaria número seis e sobre o doente, “um extraordinário profeta”. Dr. Efimich responde que aquele rapaz era “um jovem com muito interesse, e, então, não voltaram a lhe perguntar mais nada”. Enquanto Andrei vestia o sobretudo na antecâmara, o chefe de Polícia colocou-lhe a mão no ombro e disse com um suspiro: – “Chegou a hora de nós, os velhos, nos retirarmos para descansar!”. Logo ao sair da Câmara, o médico se dá conta sobre o que está acontecendo a ele e, sentindo, “pela primeira vez em sua vida, profunda lástima pela carreira médica”, pensa: “– Meu Deus – pensou recordando a maneira como os médicos acabaram de julgá-lo –, não foi assim há tanto tempo que estudaram Psiquiatria e ficaram aprovados; como podem ser tão ignorantes? Não fazem a menor ideia do que é Psiquiatria!”. Uma semana depois lhe chega uma carta solicitando seu afastamento do hospital. Seu amigo, Mikail Averianich, um ex-militar, convida-o a viajar para Moscou, São Petesburgo e

PsiqUiatria e história cUltUral

• 279

Varsóvia. Um tanto a contragosto, ele vai, mas já nos primeiros dias de viagem se irrita com tanta extroversão do amigo, tanto passeio e conversa. Acaba por ficar muito tempo nos quartos dos hotéis. Quando voltam à sua cidade, ele se isola cada vez mais. Perdeu o espaço de moradia no hospital, não recebeu nenhuma pensão em dinheiro (o que se poderia esperar de uma aposentadoria) e passou a viver do favor de uma mulher que lhe alugara um pequeno quarto de pensão. Vai perdendo aos poucos até sua vontade de ler, questiona o mundo em que vive, os desagrados daquela cidade. Seu amigo Averianich e o médico Kobotov ainda o visitam, este último levando remédios. Certo dia, Andrei se desespera e grita com ambos, dizendo que não mais os quer ver por ali. Coitado, sentença final sub-reptícia: transformou-se em um louco furioso. Embora tenha ido ao dia seguinte pedir desculpas ao amigo, o médico Kobotov vai até sua casa, ao final da tarde, e o leva a um passeio, dizendo que precisava de sua ajuda para esclarecer um caso. Fica contente, o velho doutor. Porém, ele é levado ao hospital, deixado na enfermaria número 6, até que se dá conta do que está acontecendo: ele é internado como um louco, despojado de suas roupas e pertences (veste a roupa do hospital, isto é, o uniforme de louco) e é largado sem que nenhum médico fale com ele. À noite, querendo sair do quarto para caminhar um pouco no pátio, ele é proibido por Nikita, o guardião dos loucos. Em um ataque de fúria, atira-se contra as grades, tenta bater no serviçal e é espancado por este. No dia seguinte, o ex-médico morre.36
36

Estas reflexões trazidas por Tchecov são muito semelhantes ao que nos mostra Rocha Pombo, em seu romance simbolista “No hospício”, escrito em 1900 e publicado em 1905. POMBO, Rocha. No hospício. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1970. Resumidamente, o romance revela certo pano de fundo: o sanatório hospeda o protagonista louco, Fileto, um rapaz sensível e filósofo-místico, levado à internação compulsória pela família, e também o narrador, que se internou aí voluntariamente,

280 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Este conto é riquíssimo para levantarmos várias questões pertinentes à loucura. Em primeiro lugar, o que é a loucura? Algumas noções ligadas ao comportamento incomum, são sugeridas, como o louco gostar de filosofar e pensar o mundo de seu entorno. Cabe ressaltar o que não disse antes: que o louco interessante que estava na enfermaria, tinha ido parar lá por motivos semelhantes ao doutor, pois havia perdido família, era inteligente e sentia desprezo pelas pessoas da cidade, com suas vidas sedentárias e torpes; vivia isolado e irritadiço, lia muito.
Há de pensar que a leitura era para ele um hábito doentio, porque se lançava com igual avidez sobre tudo que lhe chegava às mãos, até mesmo jornais e calendários de anos anteriores.37

Embora sua cultura e inteligência, passou a se sentir perseguido pelas pessoas da cidade – e esta parte é belamente contada por Tchecov em várias páginas – chegando a um ápice de loucura que o fez interná-lo no hospital e ali ficar para sempre: não tinham como tratá-lo em casa.38 Como o doutor, ele era amado na cidade, sempre tinha sido inofensivo até seus surtos de perseguição,
a fim de ter a maior aproximação possível com este louco, que ele queria conhecer melhor. Isolado em sua cela, Fileto escrevia. Ele escrevia, em uma quantidade grande de cadernos, registros estes de cunho pessoal, que davam conta de sua vida e do mundo em que vivia, ao mesmo tempo em que mostravam grande capacidade de reflexão filosófica e mística. Porém, no romance do brasileiro, o médico teve maior sorte e quem morreu foi o louco internado, Fileto. Mas existe uma semelhança muito grande no que tange à sensibilidade sobre a loucura e suas representações literárias, socialmente validadas no mundo concreto e real das práticas de exclusão. Maiores detalhes de análise deste romance estão em minha tese de doutorado Histórias de sensibilidades. (SANTOS, 2005a). TCHECOV 2005, p. 12. , TCHECOV 2005, p. 16. ,

37 38

PsiqUiatria e história cUltUral

• 281

mas, depois de internado, bastou um ano para a cidade esquecê-lo.39 Alguns parâmetros de cidadania deveriam ser discutidos neste percurso analítico: dignidade, auto-estima/subjetividade, autonomia, direitos e deveres, alteridade, solidariedade, responsabilidade. Tchecov apresenta as práticas e os discursos de segregação e mostra que a internação é utilizada como modo de repressão social. Porém, é mais do que isto: vista sob o prisma apresentado, a loucura priva o ser humano da sua capacidade de julgamento e de decisão, ou seja, sua condição de sujeito torna-se inexistente, incapacitando-o como cidadão. Sua subjetividade não é levada em conta, sua dignidade de ser humano é perdida junto com seus pertences. A ficção trouxe simbolicamente aquilo que existe na realidade. O fato de tirarem os pertences e as roupas de um interno é paradigmático para a noção de que o louco é espoliado de tudo o que é seu de mais íntimo. Se os argumentos acerca da existência de delírios (e, claro, alucinações) são suficientes para colocar o louco numa posição de incapacidade para distinguir entre a fantasia e a realidade, também acabam por servir ao status quo ao mantê-los sem sua cidadania, podendo ser internados à revelia, interditados e
39

Em 1937, no Hospital Psiquiátrico São Pedro de Porto Alegre, um homem de 34 anos foi internado pela família, apresentando mania de perseguição e ideias de grandeza. Seu pai e irmão, responsáveis pela baixa hospitalar, responderam ao médico que o paciente lia e escrevia demais, e isto era um dos motivos de sua loucura. Este paciente escreveu cartas durante a internação, que são um documento importante sobre a sensibilidade da loucura. Outras semelhanças entre a ficção e a realidade são notórias: o bom relacionamento com as pessoas, a inteligência mal aproveitada, o sentimento de reclusão e isolamento, por exemplo. Este caso foi analisado e interpretado em dois trabalhos anteriores que realizei – vide Histórias de vidas ausentes (SANTOS, 2005b); Histórias de sensibilidades (SANTOS, 2005a).

282 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

terem seus bens confiscados – por exemplo, muitas famílias ficam com o dinheiro da aposentadoria de seu familiar, quando este é interditado por doença mental. A solidariedade, que, por exemplo, o amigo do médico demonstrava para com ele, pode ser considerada falsa se prestarmos atenção em suas atitudes durante a viagem: ele queria se divertir, pouco se importando se o amigo ficasse recluso no quarto de hotel. Isto poderia significar também o que vemos na realidade: a solidariedade para com o louco vai somente até onde o auxílio não atinge os propósitos egoístas dos demais. É muito raro vermos alguém ajudar e se debruçar verdadeiramente sobre os problemas do outro: o doutor Ifimich nunca foi ouvido com respeito, nunca tentaram compreender seus pontos de vista sobre a doença mental, sobre a importância que dava às suas leituras e mesmo ao louco que tinha muita lucidez em suas arguições. Se, por um lado, as terapêuticas antigas e obsoletas deram origem às novas condutas e a reforma psiquiátrica veio para tentar colocar um fim nestas práticas explicitadas pela ficção, por outro, na vertente biológica, com os grandes coqueteis medicamentosos de última geração, ainda prevalece e coloca todos num buraco negro em relação às curas de seus problemas. E, se o mundo continua cada vez mais repleto de pessoas com problemas emocionais, não seria o momento de reavaliar mais uma vez o paradigma vigente?

PsiqUiatria e história cUltUral

• 283

referências

ALAIN Corbin, o prazer do historiador. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 25, n. 49, p. 11-31, jun. 2005. AMARANTE, P Loucos pela vida: a trajetória da Reforma Psiquiá. trica no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003. COSTA, J. F. História da Psiquiatria no Brasil, um corte ideológico. Rio de Janeiro: Editora Documentário, 1976. CUNHA, M. C. P O espelho do mundo: Juquery, a história de um . asilo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. ENGEL, M. G. Os delírios da razão: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Editora da Fiocruz, 2001. JUNG, C.G. Espírito e vida. In: ______. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 1984. p. 267. MÁRQUEZ, G. G. Só vim telefonar. In: ______. Doze contos peregrinos. Rio de Janeiro: Record, 1992. p. 101-125. MEDEIROS, T. Formação do modelo assistencial psiquiátrico no Brasil. 1977. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Psiquiatria, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1977. OLIVEIRA, A. G. B. de; ALESSI, N. P Cidadania: instrumento e . finalidade do processo de trabalho na reforma psiquiátrica. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, p. 191-203, mar. 2005. PAUGAM, S. L´exclusion, l´état de savoirs. Paris: Éditions la Découverte, 1996. PESAVENTO, S. J. Apresentação do dossiê “História cultural e multidisciplinaridade”. Fênix, Revista de História e Estudos Culturais, Uberlândia, v. 4, ano 4, n. 4, out./dez. 2007a. Disponível em: <http://www.revistafenix.pro.br/PDF18/APRESENTACAO_ DO_DOSSIE_SENSIBILIDADES_A_MARGEM_FENIX_JAN_ FEV_MAR_2009.pdf >. Acesso em: 15 maio 2008.

284 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

PESAVENTO, S. J. História & história cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. PESAVENTO, S. J. Sensibilidades: escrita e leitura da alma. In: PESAVENTO, S. J.; LANGUE, F. Sensibilidades na história: memórias singulares e identidades sociais. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2007b. p. 9-21. POMBO, Rocha. No hospício. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1970. SANTOS, N. M. W Histórias de sensibilidades: espaços e narrati. vas da loucura em três tempos: Brasil 1905, 1920, 1937. 2005. Tese (Doutorado) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005a. SANTOS, N. M. W Histórias de vidas ausentes: a tênue fronteira en. tre a saúde e a doença mental. Passo Fundo: Editora da UPF, 2005b. SCHIAVONI, A. A institucionalização da loucura no Rio Grande do Sul: o Hospício São Pedro e a Faculdade de Medicina. 1997. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1997. TCHECOV A. A enfermaria nº 6. São Paulo: Veredas, 2005. , TENÓRIO, F. A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais: história e conceitos. História, ciência, saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 25-29, jan./abr. 2002. VENÂNCIO, A. T. Ciência psiquiátrica e política assistencial: a criação do Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 10, n. 3, p. 833-900, set./dez. 2003. WADI, Y. M. A história de Pierina: subjetividade, crime e loucura. Uberlândia: Edufu, 2009 WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002.

PsiqUiatria e história cUltUral

• 285

Capítulo 9

“queM senta na pedra fica doente, vadio e coM preguiça”: a invenção do
trabalho nuMa colônia agrícola gaúcha

(1972-1982)

Viviane Trindade Borges1

O objetivo deste estudo é analisar o discurso médico que instituiu visibilidades e dizibilidades a respeito do trabalho realizado pelos internados do Centro Agrícola de Reabilitação. A referida instituição foi tema de meu trabalho de mestrado, no qual me propus analisar o quotidiano e a resistência dos internados frente ao controle psiquiátrico, procurando nos não ditos possibilidades inscritas nas entrelinhas da documentação institucional.2 O que proponho aqui, diante das mesmas fontes, é inteiramente diferente. Objetivo debruçar-me somente sobre aquilo que foi dito, não buscando significados ocultos nos silêncios das fontes, mas sim procu1 2

Doutoranda do PPG em História da UFRGS. Bolsista Capes. Ver BORGES, V T. Loucos (nem sempre) mansos da estância: controle . e resistência no quotidiano do Centro Agrícola de Reabilitação (19721982). 2006. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2006. “qUem senta na Pedra fica doente...” • 287

rando problematizar o emaranhado discursivo que instituiu como pacientes aptos à reabilitação, os sujeitos que passaram a habitar a nova colônia agrícola gaúcha. Enredados pela fala médica, os atores desta narrativa foram constituídos como sujeitos trabalhadores, os quais deveriam se concentrar em suas tarefas a fim de obterem a cura. Pretendo assim, recompor uma intriga, pensando nas imagens constituídas a partir de tais falas, nas características que instituíram aos sujeitos loucos, e nas reverberações na maneira como estes personagens passaram a perceber a si próprios. A proposta: inventando sujeitos trabalhadores Segundo o Relatório Anual da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul de 1972:
Na área da saúde mental merece [...] destaque a implantação de um projeto agrícola para a produção hortograngeira, aproveitando-se de uma área de 360 ha nas glebas pertencentes ao Hospital Colônia Itapuã. Esse projeto agrícola serviu para a experimentação de um processo terapêutico, sem tirar as funções produtivas do paciente. Ao mesmo tempo, oportuniza uma redução do número de pacientes internados no Hospital Psiquiátrico São Pedro (Unidade de Planejamento da Secretaria da Saúde e Meio Ambiente, 1972).

Em virtude do referido Projeto, em 1º de julho de 1972, um grupo de cerca de 12 internados foi transferido do Hospital Psiquiátrico São Pedro para o recém-inaugurado Centro Agrícola de Reabilitação, localizado no Hospital Colônia Itapuã, em Viamão-RS. Até então, tais homens não eram considerados aptos à vida social e ao trabalho, eram pacientes psiquiátricos pertencentes à massa humana que

288 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

superlotava o grande nosocômio gaúcho. A possibilidade de retornar as suas comunidades de origem não era percebida como possível para muitos destes senhores. A partir desta data, um novo discurso inventa os sujeitos selecionados com as qualidades necessárias para a reabilitação, ou seja, institui sujeitos aptos ao trabalho. Assim, os diferentes sujeitos que perpassam este estudo não são percebidos como produtores centrais dos acontecimentos, e sim como resultados dos discursos que procuraram instituí-los. Neste sentido, objetivo colocar em evidência a teia discursiva que procurou definir quem eram os loucos que passaram a habitar a nova colônia agrícola gaúcha.3 A invenção dos sujeitos trabalhadores inicia-se, portanto, com a proposta que apontava possibilidade de cura e reinserção social aos internados de origem rural e do sexo masculino, os quais constituíam o contingente mais numeroso de internados no grande nosocômio gaúcho. Justificando a construção de uma colônia agrícola, o depoimento de um médico que atuava no São Pedro, aponta que no ano de 1971, dos 4.600 internados, 3.500 eram crônicos e possuíam condições de reabilitação.4 Nesta perspectiva, cerca de 3.500 internados não eram reabilitados, pois o referido hospício não contava com recursos para que isso se efetivasse. É ai que entra o Projeto Centro Agrícola de Reabilitação, no intuito resgatar os vínculos sociais destes homens por meio de atividades agrícolas. A criação do Centro surge sob a inspiração das anti3

4

Refiro-me aqui ao conceito de discurso proposto por Foucault, pensando este como prática discursiva. De acordo com Rago: “recusando a concepção do discurso como reflexo do real, o filósofo explicava que o discurso é prática, e que as práticas discursivas instituem figuras sociais, constroem identidades e objetivam o fato histórico, dando-lhe visibilidade e imprimindo-lhe um sentido determinado”. Cf. RAGO, M. As marcas da pantera: Foucault para historiadores. Resgate, Revista de Cultura, Campinas, SP n. 5, p. 28, 1993. , Jornal Zero Hora, p. 3, 19 mar. 1971. “qUem senta na Pedra fica doente...” • 289

gas colônias agrícolas propostas por Pinel, na primeira metade do século XIX, e difundidas no Brasil na segunda metade do século XX.5 Embasado por tais práticas discursivas, o discurso médico que funda a colônia gaúcha propõe-se a reabilitar os internados por meio do trabalho. Nascido em meio aos questionamentos levantados pela antiPsiquiatria,6 o Centro Agrícola é marcado por um discurso que tentava se diferenciar das propostas anteriores e mesmo dos grandes hospitais psiquiátricos como o São Pedro. Nesta perspectiva, os discursos que cercam sua criação parecem preocupados em assinalar este suposto diferencial, alegando que a nova instituição procurava valorizar os aspectos culturais dos pacientes, mantendo e incentivando, por exemplo, costumes bem característicos dos gaúchos, como gosto pelo churrasco e as rodas de chimarrão, além de privilegiar, entre os cerca de 3.500 crônicos, a transferência daqueles que realmente tivessem experiência ou afinidade com atividades agrícolas. A instituição condenava a homogeneização dos internados, não prevendo o uso de uniformes e determinando a utilização de quartos individualizados. Conforme um dos psiquiatras envolvidos:
os pacientes do São Pedro eles tinham um uniforme que era chamado o “uniforme de louco”, era um macacão, uma roupa azulada, escrito bem grande nas costas: HPSP Então . eles, para ir para Itapuã, tiraram essa roupa e colocaram roupas normais. Já começa por aí, eles tinham quartos in5

6

A primeira colônia agrícola foi criada por um discípulo de Pinel, André Marie Ferrus, em Saint-Anne, na França, em 1828. Cf. PESSOTTI, I. O século dos manicômios. São Paulo: Ed. 34, 2001. p. 189. Buscando “deslocar, mascarar, eliminar ou anular” o poder e o saber médicos, surge entre 1958 e 1960, a antiPsiquiatria, movimento que colocava questão o papel do psiquiatra como responsável por produzir a verdade da doença no espaço hospitalar. FOUCAULT, M. Mesa redonda em 20 de maio de 1978. In: ______. Estratégia, poder e saber. Ditos & Escritos IV Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. p. 337. .

290 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

dividualizados, eles tinham um tratamento diferenciado, eles se sentiam menos doentes que no São Pedro. E isso aí, já de início, deu um outro aspecto, uma valorização, uma melhora na auto-estima desses pacientes, que não havia no hospício.

Contudo, a instituição valia-se de um discurso fundamentado nos conceitos a respeito da laborterapia que se aproximava, em alguns aspectos, das antigas colônias que procurava se diferenciar, estabelecendo horários rígidos de trabalho para cada setor, rotinas, esquadrinhamento minucioso do espaço, revistas aos quartos dos internados, motivações (ou coações) para o trabalho, além de uma vigilância ininterrupta. Tal perspectiva passa a relacionar o cumprimento de tais normas à suposta cura e consequente reabilitação do internado. Conforme o discurso médico, era o fazer, ou seja, o processo de realização das atividades laborativas, que levaria ao resgate de vínculos antigos e consequentemente à reabilitação. A nova proposta efetivamente não apresentava nada de novo, ligando-se a ideia de ilusão de liberdade que cercava as concepções psiquiátricas do século XX, procurando reforçar a relação deste saber com a percepção de homem normal, moldando trabalhadores caracterizados como tranquilos.7 Da mesma forma que ocorria nas colônias da primeira metade do século XIX, o trabalho dos doentes dentro do manicômio deixa de ser algo informal e esporádico, para tornar-se terapia, passando a ser controlado pelos médicos. Com isso, o discurso psiquiátrico estabelece um vínculo que liga o trabalho à possibilidade de reabilitação, instituin7

Segundo Portocarrero, tal percepção reforça a “relação da Psiquiatria com a ideia de homem normal, trabalhador tranquilo, força produtiva”. PORTOCARRERO, V Arquivos da loucura: Juliano Moreira e a descon. tinuidade histórica da Psiquiatria. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2002. p. 143. “qUem senta na Pedra fica doente...” • 291

do a capacidade de trabalhar como característica que define a normalidade, sendo justamente a possibilidade de tornarse normal a diferença mais marcante entre a prática psiquiátrica do século XX e a do século XIX.8 Creio que Foucault parece bem esclarecedor a este respeito, trazendo para a atualidade tal perspectiva:
primeiramente, no que concerne ao trabalho, mesmo nos dias de hoje, o primeiro critério para determinar a loucura em um indivíduo consiste em mostrar que é um homem inapto ao trabalho.9

Tais discursos implicavam uma série de práticas não discursivas que passaram a operar dentro das instituições psiquiátricas, instituindo novas visibilidades e dizibilidades a respeito da loucura. No Rio Grande do Sul, estas procuravam garantir o bom andamento da proposta de criação da nova colônia por meio de uma série de normas que estabeleciam punições para aqueles que não se enquadrassem à rotina institucional. Estas medidas variavam do retorno ao São Pedro, o qual significava a desqualificação do internado para o projeto e o caracterizava novamente como inapto à reabilitação, à castigos como, por exemplo, o não recebimento de alguma refeição ou de cigarros. Nesta mesma perspectiva, surge uma série de determinações a respeito do trabalho a ser realizado. Este, não poderia exceder nove horas diárias, devendo abranger variados tipos de atividades, tais como: olaria, transporte (caminhão e lenha), calçamento e limpeza de ruas, jardinagem, capina, horta, barreira, corte de lenha, serviço geral,
8 9

PORTOCARRERO, 2002, p. 110. FOUCAULT, M. Ditos e escritos I. Problematização do sujeito: psicologia, Psiquiatria e psicanálise. São Paulo: Forense Universitária, 2004. p. 261.

292 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

lavanderia, refeitório, valetamento, limpeza de campo, oficina mecânica, marcenaria, serra de lenha, cozinha e colheita no período de safras. Tais atividades eram exercidas em três áreas diferentes que se afastavam gradualmente da instituição. Conforme o discurso psiquiátrico, a intenção deste afastamento era proporcionar aos internados “o mesmo fenômeno vivenciado no crescimento sadio do indivíduo”, ou seja,
as áreas tornam-se progressivas e geograficamente mais distantes, imitando o desenvolvimento [...] do indivíduo rumo à maturidade, de forma gradual e conforme as possibilidades de cada um.10

O emaranhado discursivo proposto pela Psiquiatria passa a construir uma imagem diferenciada a respeito do trabalho dos internados dentro das colônias agrícolas. De acordo com a nova perspectiva, o trabalho não deveria ser forçado nem exercido como uma forma de castigo, e sim em virtude da recompensa, não apenas material, mas principalmente por ser encarado como a possibilidade de cura e consequente retorno ao convívio social. Na tentativa de recompor esta intriga é possível perceber que, estimulados a trabalhar, os internados deveriam seguir rotinas fixas que os mantinham permanentemente ocupados, pois, na perspectiva da equipe médica, somente desta forma seria efetivada a proposta terapêutica de reabilitação por meio do trabalho. Tais práticas instituem determinadas características antes não selecionadas para definir os antigos loucos esquecidos no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Mediante a transferência para o Centro Agrícola de Reabilitação es10

CASTELLARIN, C. et al. Pesquisa avaliativa: reabilitação de doentes mentais crônicos no Centro Agrícola de Reabilitação (1972/82). Porto Alegre: PUC/RS, 1983. “qUem senta na Pedra fica doente...” • 293

tes passam a serem definidos como trabalhadores. Alguns documentos institucionais referem-se aos internados apenas desta forma, por exemplo, o regimento que instruía os pacientes mais experientes a ensinar seu ofício aos novos internados estabelece que estes deveriam ajudar os recémchegados “sempre que tiver um novo trabalhador ou quando mudar o trabalho”.11 Não apenas trabalhadores, mas trabalhadores tranquilos e mansos. Conforme um dos psiquiatras que atuou no Centro Agrícola, a origem rural dos pacientes encaminhados a instituição deveria lhes conferir uma personalidade mais tranquila, caracterizando estes personagens como os loucos mansos da estância. Tais dizibilidades e visibilidades antecedem a criação do Centro e parecem fazer parte de todo o processo que envolve o surgimento de instituições semelhantes. A título de exemplo cabe citar que tanto Borges de Medeiros12 quanto Jacintho Godoy,13 ao tratarem respectivamente das colônias agrícolas fundadas no Rio Grande do Sul em 1917 e 1949, atestam que a estas deveriam ser enviados apenas os doentes “tranquilos”.14 Tais concepções foram inventadas, ou seja, fo11

12

13

14

HOSPITAL COLÔNIA ITAPUÃ. Unidade de Internação Psiquiátrica. Livros de ocorrência. Itapuã, Viamão, 1972/1973. Destaque nosso. Mensagem enviada por Antonio Augusto Borges de Medeiros à Assembleia dos Representantes do Estado do Rio Grande do Sul. 20 de set. de 1920. AHRS. GODOY, J. História da Psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Edição do Autor, 1955. p. 227. Cf. BORGES, 2006, p. 57. Existiram duas colônias agrícolas anteriores ao Centro Agrícola de Reabilitação no Rio Grande do Sul. A primeira delas foi fundada em 1917 e denominava-se Colônia Jacuhy; a segunda, cujo nome não é citado nas fontes consultadas, foi criada em 1949. In: Mensagem enviada por Antonio Augusto Borges de Medeiros à Assembleia dos Representantes do Estado do Rio Grande do Sul. 20 de setembro de 1918. Ver: Mensagem enviada por Antonio Augusto Borges de Medeiros à Assembleia dos Representantes do Estado do Rio Grande do Sul. 20 de setembro de 1918. AHRS; GODOY, 1955.

294 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

ram construídas por meio do discurso médico que instituiu os sujeitos trabalhadores que habitavam o Centro de Reabilitação. Nesta perspectiva, pode-se pensar que tais personagens são o resultado final do discurso que os constituiu como trabalhadores. Apesar de seu caráter médicocientífico, creio que o uso do termo invenção enfatiza a subjetividade que também perpassa tal discurso, remetendo “para uma abordagem do evento histórico que enfatiza a descontinuidade, a ruptura, a diferença, a singularidade, além de afirmar o caráter subjetivo da produção histórica”.15 Até o presente momento, pretendi dar conta das práticas discursivas e não discursivas que produziram os personagens reabilitáveis de Itapuã, problematizando as falas que os instituíram como trabalhadores. Passo agora a analisar a reverberação de tais dizibilidades e visibilidades naqueles tidos como loucos. A reverberação: aqueles que sentaram na pedra Objetivei demonstrar a maneira como o discurso médico procurou instituir os sujeitos trabalhadores que passaram a habitar o antigo Centro Agrícola de Reabilitação. Agora, cabe tentar problematizar a maneira como tal discurso foi recebido por estes sujeitos, como as visibilidades e dizibilidades instituídas reverberaram no modo como os personagens em questão viam a si próprios. A fala que dá título a este estudo foi proferida por J., um internado do Centro Agrícola de Reabilitação. Segundo este, quem senta na pedra fica doente, vadio e com preguiça, era desta forma que ele justificava sua loucura. De acordo com o prontuário médico, J. teria enlouquecido após ter perdido uma colheita devido as fortes chuvas que dizima15

ALBUQUERQUE JUNIOR, D. M. de. História a arte de inventar o passado. São Paulo: Edusc, 2007. p. 20. “qUem senta na Pedra fica doente...” • 295

ram as safras de julho de 1973. Diante disso, a reverberação da proposta institucional fundamentada num discurso que enfatizava a importância do trabalho na recuperação dos internados, parece ter feito sentido para o ex-agricultor. A capilaridade da fala médica instituiu visibilidades e dizibilidades que, de alguma forma, legitimaram as razões atribuídas por J. para sua loucura. Sentar-se na pedra passava a significar preguiça, vadiagem, interrupção das atividades a serem realizadas, compondo a imagem de trabalhadores que deveriam manter-se sempre ocupados, ligando a cura à capacidade de trabalhar. Desta forma, muitos internados passaram a se perceber por meio do discurso institucional, ou seja, não se viam mais como pacientes e sim como trabalhadores que logo estariam de volta ao convívio social. Neste sentido, num relatório escrito por um interno líder do grupo que trabalhava na horta, é feita a seguinte observação a respeito de seus colegas, todos pacientes como ele: “se os trabalhadores não forem mais ou menos homogêneos o trabalho fica prejudicado”.16 Percebe-se que o internado se refere aos trabalhadores e não a pacientes, apropriando-se da fala médica, constituindo-se a partir deste novo lugar de sujeito. Instituídos pelo discurso psiquiátrico, alguns pacientes-trabalhadores de Itapuã levaram as últimas consequências às implicações que esta nova posição de sujeito sugeria. Um destes casos extremados foi relatado por um psiquiatra que atuou na instituição e teve um desfecho dramático. Segundo este, entre 1977 e 1978 houve um aumento na safra de cebolas produzida pelos internados, a qual não seria totalmente consumida e deveria, portanto, ser descartada:
16

HOSPITAL COLÔNIA ITAPUÃ, 30 abr. 1973. Destaque nosso.

296 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

então nós enterramos a cebola, fizemos um buraco e mandamos enterrar a produção que estava apodrecendo e fedendo lá. Nesse momento, um cidadão chamado [...] pegou um pedaço de arame e [...] enforcou-se deixando um bilhete dizendo que ele pensava que ele ia ficar bom da cabeça, que ele passou muitos anos no Hospital São Pedro, que aqui disseram que ele ia ficar bom da cabeça e que agora chegou lá e viu que aquilo tudo era mentira. [...] se contava desse exemplo sempre. Um doente que se suicidou porque se desiludiu com a coisa, na verdade, um grande entusiasta do trabalho.17

A reverberação da fala médica teve consequências desastrosas para o referido paciente. Imbuído por tal discurso o internado, considerado pela equipe médica como um entusiasta do trabalho, passou a constituir a si próprio como parte daquilo que os psiquiatras legitimavam como verdade, ligando a possibilidade de cura ao trabalho realizado. Diante da perda e desperdício dos frutos de seu esforço, o internado acreditou perder também a possibilidade de reabilitação, percebendo o tratamento empregado na instituição como uma mentira. Após ter passado muitos anos no Hospital São Pedro, ele finalmente havia encontrado a esperança de ficar bom da cabeça. Tal esperança foi enterrada junto com as cebolas. Diante da decepção, sua opção foi o suicídio. Assim, a imagem de trabalhadores permanentemente envolvidos em suas atividades, tão bem desenhada pelo discurso psiquiátrico, nem sempre pareceu clara aos olhos dos pacientes. Como pode-se perceber, muitas vezes os internados formavam outras visibilidades a partir de tal discurso e a proposta de reabilitação por meio do trabalho passava a ser percebida de formas que escapavam do controle
17

Apud BORGES, 2006, p. 139. “qUem senta na Pedra fica doente...” • 297

médico. Nesta perspectiva, em alguns casos, a proposta do Centro Agrícola não foi entendida como possibilidade de cura e sim como exploração. Alguns pacientes reclamavam da dura jornada de trabalho e da série de normas a que eram submetidos, mostrando, que nem todos estavam de pleno acordo com a referida proposta. Tais falas, por vezes indignadas, podem ser apreendidas nos registros deixados por alguns internados na documentação institucional. Como exemplo cabe citar a anotação deixada pelo paciente A.:
eu vos comunico que estou aguardando alta, que já faz um ano que estou hospitalizado sem ser doente, e se meu tratamento é o trabalho então eu o farei em casa, que em meu lar também tenho trabalho.18

A fala de A. interpela a coerência do discurso médico, descosturando a teia que procurava ligar a cura à capacidade de trabalhar. Subvertendo a lógica psiquiátrica o internado parece desnaturalizar a suposta coerência da trama discursiva que passa a instituir os sujeitos trabalhadores de Itapuã. O discurso do paciente inverte a lógica médica, pois se sua cura estava relacionada a seu trabalho, este poderia ser realizado fora do hospital, até mesmo em sua própria casa, sem a necessidade do internamento. A reverberação da trama discursiva que institui os sujeitos reabilitáveis possibilitou que alguns internados se percebessem por meio deste novo discurso. Contudo, ocupando tal posição de sujeito, alguns pacientes passaram a questionar a proposta da instituição. Neste sentido, alguns reclamavam que apesar de serem considerados trabalhadores, não recebiam dinheiro por seu trabalho.19 Nada mais
18 19

HOSPITAL COLÔNIA ITAPUÃ, 28 ago. 1973. Cabe salientar que o dinheiro para as gratificações dos pacientes era retirado da própria produção: “o produto do trabalho de nossos

298 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

justo, porém nada mais complicado. O hospital não possuía verba para remunerar todos os internados. Se para o discurso médico a importância do trabalho estava no processo de realização das atividades, o qual supostamente resgataria os vínculos sociais dos internados levando a esperada cura, para alguns pacientes a ausência de remuneração regular tornava-se algo quase incompreensível. Diante deste impasse, tem-se a configuração de uma imagem sombria que passa a ligar a proposta de tratamento à exploração, conforme o registro de um dos pacientes: “eu estou baixado a mais de um ano neste hospital e o meu tratamento é trabalhar de graça, e permanecer trancado nos pavilhões”.20 Somente recebiam dinheiro aqueles que trabalhavam na área 3, último estágio do internamento, denominado também de trabalho a terceiros, visto que os pacientes eram, em sua maioria, contratados pelos proprietários das pequenas propriedades agrícolas que circundavam o hospital. Contudo, estes ainda permaneciam como internados, voltando a instituição para dormir. À espera da alta muitos já se percebiam como sujeitos trabalhadores, reabilitados, prontos para voltar ao convívio social e, diante desta nova imagem de si, se questionavam se deveriam obedecer ao patrão ou ao psiquiatra, conforme pode ser percebido neste registro:
O paciente D. discutiu muito hoje pela manhã dizendo que o Dr. [...] não manda nele porque o doutor não paga ele sepacientes na lavoura teria a finalidade de abastecer os hospitais mantidos pelo Estado. A verba destinada a esta despesa seria usada para pagamento dos pacientes e manutenção do CAR (Centro Agrícola de Reabilitação)”. CONCEIÇÃO, C. D. et al. Um Centro de Reabilitação de Doentes Mentais Crônicos: comunicação preliminar. In: JORNADA SUL RIOGRANDENSE DE Psiquiatria DINÂMICA, 6., 1972, Pelotas. Anais... Pelotas: [s.n.], 1972 apud BORGES, 2006, p. 98. HOSPITAL COLÔNIA ITAPUÃ, 27 set. 1973. “qUem senta na Pedra fica doente...” • 299

20

manal e que quem manda nele é o seu patrão, porque paga todas as semanas ele e que segunda feira ia trabalhar [...].21

Instituindo sujeitos trabalhadores, a proposta do Centro não conseguia afastar a ideia do trabalho como mercadoria. Tal percepção é inerente à proposta de reabilitação por meio do trabalho, tecendo dizibilidades e visibilidades conflitantes, as quais, muitas vezes, contradiziam a nova imagem de si formada pelos pacientes diante da reverberação do discurso médico, ou seja, eles eram trabalhadores, mas nada recebiam em troca de seu trabalho. Cabe ainda apontar que alguns destes senhores, ainda hoje, percebem-se pelo trabalho que realizaram, ou que ainda julgam realizar dentro da instituição. G., por exemplo, sempre que vê uma pessoa conhecida, imediatamente relata todas as atividades realizadas até aquele momento. Em sua entrevista, ele fez questão de dizer tudo o que já havia feito durante os seus 25 anos de internamento:
Eu trabaiei em várias coisa, no almoxarifado, em cozinha, trabalhei na manutenção, carregava botijões, carregava brita, trabaiava em bota poste no chão [...] fazia arroz na cozinha, trabalhava lá, [...] mexia os panelão, tudo eu fazia isso.

Cito ainda outro paciente, R., o qual ficava sentado diariamente num banco em frente a um dos prédios do hospital-colônia. Certa vez, ele me informou que não estava descansando, e sim trabalhando, pois acreditava ser guarda da instituição e sua função era vigiar o referido prédio. A partir da década de 1980, os sujeitos que permaneceram no Centro foram considerados inaptos para reabilitação:
21

HOSPITAL COLÔNIA ITAPUÃ, 02 set. 1972.

300 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

a idade avançada da maioria, a doença crônica incurável que requer tratamento ininterrupto e a ausência de suporte familiar consistente acaba impossibilitando a reintegração à sociedade [e] caracterizam a UIP como área asilar.22

Institui-se, portanto, uma nova posição de sujeito que constitui os internados remanescentes como incuráveis, condenados à vida asilar. Diante de tal discurso, a imagem que se configura mostra apenas as feições de velho hospício, semelhante a tantos outros existentes no Brasil, aguardando pacientemente um novo destino, esperando que a morte forneça alta a cerca de 84 pacientes que ainda hoje habitam a referida instituição. Considerações finais Procurei mostrar ao leitor que os homens que passaram a habitar o Centro Agrícola de Reabilitação nem sempre foram pensados como sujeitos aptos ao trabalho, ou mesmo como sujeitos aptos à reabilitação. Contudo, a partir de 1972, com a criação do Centro Agrícola de Reabilitação, alguns destes senhores antes internados no Hospital Psiquiátrico São Pedro, passaram a ocupar tal posição de sujeitos, desenhados como trabalhadores suscetíveis de cura pelo discurso médico. Problematizando a trama discursiva que apresentei ao leitor neste estudo, objetivei demonstrar que os senhores que passaram a habitar o Centro Agrícola de Reabilitação, são resultado final de práticas discursivas e não discursivas, responsáveis por instituir uma nova imagem a respeito da
22

Conforme o “Histórico do Centro Agrícola de Reabilitação” (1991), no início da década de 1990 a instituição passou a se chamar Unidade de Internamento Psiquiátrico (UIP), ligando-se administrativamente ao Hospital Colônia Itapuã. 12. “qUem senta na Pedra fica doente...” • 301

loucura, são resultado de um discurso que os instituiu como trabalhadores, como reabilitáveis. Este novo discurso médico propõe novas características a determinados pacientes do São Pedro, as quais passam a ser elencadas para definir os novos sujeitos instituídos. Os selecionados para o tratamento na nova Colônia passam a não ser mais percebidos somente como loucos, responsáveis por superlotar o grande nosocômio gaúcho, mas também, e principalmente, como trabalhadores dóceis, ou melhor, sujeitos tranquilos, mansos. A reverberação de tal discurso pelos internados entrelaça-se de diferentes formas a esta tessitura discursiva. Muitos pacientes passaram a ocupar a nova posição de sujeito que a Psiquiatria lhes conferia naquele momento, e tomados por esta perspectiva, não se percebiam mais como pacientes, e sim como trabalhadores. As práticas discursivas e não discursivas reverberaram de diferentes formas sob os sujeitos instituídos, variam em suas nuances desenhando acontecimentos que variaram em sua intensidade: da aceitação total ao questionamento, da esperança ao suicídio. Objetivei, portanto, problematizar o emaranhado discursivo que procurou definir quem eram (ou quem deveriam ser) os pacientes da última colônia agrícola gaúcha. Tal exercício interpretativo não é simples, afinal, nós, historiadores, temos muita dificuldade em pensar o sujeito como um exercício, como uma função que se exerce numa ação, num discurso, como algo que não esteja pronto no início da ação, que não venha antes do discurso, mas que seja seu resultado final.23 Propondo tal análise, busquei na trama de discursos que perpassa a instituição, perceber o modo como os loucos do São Pedro tornaram-se os trabalhadores aptos
23

ALBUQUERQUE JUNIOR, D. M. de. A história em jogo: a atuação de Michel Foucault no campo da historiografia. Anos 90. Revista do Programa de Pós-Graduação em história da UFRGS, Porto Alegre, v. 11, n. 19/20, p. 94, jan./dez. 2004.

302 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

à reabilitação do Centro Agrícola gaúcho, pensado estes como resultados das práticas discursivas e não discursivas que procuraram defini-los como sujeitos.

“qUem senta na Pedra fica doente...” • 303

referências

ALBUQUERQUE JUNIOR, D. M. de. História a arte de inventar o passado. São Paulo: Edusc, 2007. ALBUQUERQUE JUNIOR, D. M. de. A história em jogo: a atuação de Michel Foucault no campo da historiografia. Anos 90. Revista do Programa de Pós-Graduação em história da UFRGS, Porto Alegre, v. 11, n. 19/20, p. 79-100, jan./dez. 2004. BORGES, V T. Loucos (nem sempre) mansos da estância: controle e . resistência no quotidiano do Centro Agrícola de Reabilitação (19721982). 2006. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2006. CASTELLARIN, C. et al. Pesquisa avaliativa: reabilitação de doentes mentais crônicos no Centro Agrícola de Reabilitação (1972/82). Porto Alegre: PUC/RS, 1983. CONCEIÇÃO, C. D. et al. Um Centro de Reabilitação de Doentes Mentais Crônicos: comunicação preliminar. In: JORNADA SUL RIOGRANDENSE DE Psiquiatria DINÂMICA, 6., 1972, Pelotas. Anais... Pelotas: [s.n.], 1972. FOUCAULT, M. Ditos e escritos I. Problematização do sujeito: psicologia, Psiquiatria e psicanálise. São Paulo: Forense Universitária, 2004. p. 261. FOUCAULT, M. Mesa redonda em 20 de maio de 1978. In: ______. Estratégia, poder e saber. Ditos & Escritos IV Rio de Janeiro: Forense . Universitária, 2003. p. 337. GODOY, J. História da Psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Edição do Autor, 1955. HOSPITAL COLÔNIA ITAPUÃ. Unidade de Internação Psiquiátrica. Livros de ocorrência. Itapuã, Viamão, 1972/1973. PESSOTTI, I. O século dos manicômios. São Paulo: Ed. 34, 2001.

304 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

PORTOCARRERO, V Arquivos da loucura: Juliano Moreira e a . descontinuidade histórica da Psiquiatria. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2002. p. 143. RAGO, M. As marcas da pantera: Foucault para historiadores. Resgate, Revista de Cultura, Campinas, SP n. 5, p. 28, 1993. ,

“qUem senta na Pedra fica doente...” • 305

Capítulo 10

a cura eM saúde Mental: história e perspectivas atuais

Vládia Jucá1

O tema que vamos abordar em seguida – a cura – tem sido pouco discutido na saúde mental.2 Em parte, podemos entender essa lacuna pelo significado que o termo adquiriu na língua portuguesa, na qual o mesmo se tornou fortemente associado às noções de solução absoluta ou retorno à normalidade. Além da questão semântica, outro agravante para o silêncio sobre o termo diz respeito a questões epistemológicas e técnicas, em função do modo pelo qual a loucura foi concebida e tratada pela medicina e pela psicologia desde a invenção desses saberes até um tempo bem recente. Nesse sentido, deve-se notar, por
1

2

Psicóloga, doutora em saúde pública pela Universidade Federal da Bahia e professora do departamento de psicologia da Universidade Federal do Ceará. Uma exceção importante é o texto de TEIXEIRA, M. Algumas reflexões sobre o conceito de cura em Psiquiatria. Cadernos IPUB: por uma Assistência Psiquiátrica em Transformação, Rio de Janeiro, n. 3, p. 85-94, 1999. O autor traz, em seu texto, também uma perspectiva histórica e nos incita a refletir acerca do tema.

a cUra em saúde mental

• 307

exemplo, o fato de que a assistência nesse campo foi, durante séculos, muito mais produtora de cronificação do que promotora de novas possibilidades existenciais para o sujeito que padece com o sofrimento que desorganiza sua vida e corrói seus laços sociais. Ao eleger a cura como tema, é importante explicitarmos que um pressuposto que adotamos é a impossibilidade de abordá-la como um elemento isolado. Só é possível pensá-la, atentando para sua inserção em uma rede semântica, conceito utilizado por Byron Good3 para indicar a interconexão existente entre as noções de saúde/doença/tratamento/cura, associadas a partir de um determinado contexto cultural. O caminho que seguiremos nesse escrito não nos levará a formulação de um conceito de cura. A proposta é analisar como tal noção foi pensada (de modo implícito ou explícito), ao longo da história, na saúde mental. Ao final, lançaremos apenas o que categorizamos como algumas pistas para a elaboração de uma nova concepção de cura em saúde mental mais afinada com as diretrizes éticopolíticas traçadas pela reforma psiquiátrica. Consideramos de extrema pertinência colocar em pauta essa discussão no momento atual, no qual proliferam tentativas de ofertar não apenas uma assistência mais digna, mas de transformar o lugar culturalmente reservado para o dito louco. Nesse sentido, concordamos com Bezerra4 quando o autor afirma que:
qualquer proposta de transformação da assistência com um todo tem suposta, pressuposta, debatida ou não, algumas

3

4

GOOD, B. Medicine, and Experience: an Anthropological Perspective. New York: Cambridge University Press, 1994. BEZERRA, B. A clínica e a reabilitação psicossocial. In: PITTA, A. (Org.) Reabilitação psicossocial no Brasil. 2. ed. São Paulo: HUCITEC, 2001. p. 139.

308 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

noções básicas sobre o que é o sujeito, o que é a interação humana, sobre o que é um sintoma ou se não quiserem sintoma, sobre o que é o sofrimento, sobre o que é terapêutico, sobre o que é cura, enfim, várias dessas noções.5

Pinel: o tratamento moral e a cura Apesar da forte associação entre cura e restabelecimento de um estado anterior, ao realizarmos um resgate etimológico do termo cura, encontramos outra possibilidade de significação para o mesmo. A origem da palavra reside no radical cur derivado do latim curae que significa cuidado, preocupação, direção, administração, curatela (em linguagem jurídica), cuidado, tratamento (em linguagem médica), guarda, vigia, intendente, superintendente, objeto ou causa de cuidados e preocupações, amor ou objeto amado.6 Assim, curar é também cuidar ou ocupar-se de alguém. O cuidado dedicado ao portador de transtorno mental passou por importantes transformações ao longo do tempo. Transformações no tocante ao modo de interpretar a loucura, de tratá-la e de definir os objetivos desse tratamento. É importante lembrarmos, inclusive, que antes de ser uma questão médica, a loucura foi (e continua a ser) um problema social para o qual respostas diversas foram criadas; algumas dessas respostas estão muito bem apresentadas na obra clássica de Foucault, a História da Loucura, como a famosa “Nau dos Loucos”; embarcação que retirava os insanos que perambulavam pelas ruas das cidades e os lançava a própria sorte:
5

6

HOUAISS, A.; VILLAR, M.; FRANCO, F. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. FOUCAULT, M. A história da loucura. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1993. p. 12. Destaque nosso.

a cUra em saúde mental

• 309

confiar o louco aos marinheiros é com certeza evitar que ele ficasse vagando indefinidamente entre os muros da cidade, é ter a certeza de que ele irá para longe, é torná-lo prisioneiro de sua própria partida. Mas isso a água acrescenta a massa obscura de seus próprios valores: ela leva embora, mas faz mais do que isso, ela purifica. Além do mais entrega o homem à incerteza da sorte: nela cada um é confiado ao seu próprio destino, todo embarque é, potencialmente, o último.7

No século XVII, aconteceu o que Foucault chamou de a grande internação. No entanto, essa internação não seguia critérios médicos stricto sensu nem reservava um lugar particular para os loucos. Ela era sustentada por motivos que diziam respeito essencialmente à necessidade de fazer uma assepsia das cidades, além de gerar uma mão-de-obra que produzia gratuitamente. O marco dessa prática, ainda de acordo com o autor, foi o Hospital Geral (criado em Paris, em 1656) que passou a abrigar toda uma gama de miseráveis – loucos, prostitutas, mendigos, portadores de sífilis, entre outros. Foi apenas em meados do século XVIII que o asilo se tornou um espaço exclusivo para os loucos – tratados doravante por meio do saber psiquiátrico (que nascia com seu objeto de estudo e intervenção). Até este período, os cuidados destinados a estes não pertenciam à medicina nem o hospital era o espaço mais adequado para sua realização. Como no caso de outras enfermidades, a família constituía o lugar natural em que os tratamentos deviam acontecer e as intervenções obedeciam aos princípios gerais da medicina clássica. Segundo Foucault, foi justamente a era clássica que deu à noção de cura seu pleno sentido. No entanto, é preciso observar que se trata de uma cura em que os pro7

FOUCAULT, 1993, p. 474.

310 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

tagonistas não são nem o médico, nem a medicação, nem tampouco o doente. A cura é um possível desdobramento do curso natural da doença, assim como a morte. A grande virada no sentido de tornar a loucura um objeto de saber e de intervenção médica contou com um personagem que se tornou ilustre – Philippe Pinel. O médico francês iniciou um trabalho de reforma asilar em Bicêtre, continuado na Salpêtrière, no qual separava os loucos dos outros excluídos e arrancava das correntes os que viviam contidos, por meio de um ato humanitário, mas também extremamente disciplinar. No lugar de se conter a loucura pela força, teve início o trabalho de regrá-la através da introjeção de normas de conduta social, mediante um regime de recompensas e punições. A cura, almejada por Pinel, obedecia antes de tudo a uma norma moral: “O que constitui a cura, para Pinel, é sua estabilização num tipo social moralmente reconhecido e aprovado”.8 Neste momento, é importante acentuar que, para o alienismo francês, do qual Pinel foi um dos principais expoentes, as doenças mentais eram passíveis de cura. Este olhar sobre a história nos convida a romper com uma leitura atemporal e descontextualizada da problemática da cura no campo psiquiátrico, sendo fundamental observar que, apesar das variações temporais e culturais, tal problemática já nasce atrelada a outra questão: a existência ou não de lesões que funcionem como base orgânica das doenças mentais. Para Pinel, se era possível localizar nos idiotismos congênitos, uma má-formação crânio-encefálica, nas outras formas de doença mental, alterações desta ordem não eram visíveis. Pinel concluiu, portanto, que era provável que, na imensa maioria dos casos
8

BECHERIE, P Os fundamentos da clínica: história e estrutura do saber . psiquiátrico. Rio de Janeiro: Zahar, 1989. p. 44.

a cUra em saúde mental

• 311

a loucura estava isenta de lesões materiais do cérebro. Essa tomada de posição teve uma primeira consequência: fornecer à ideia da curabilidade da loucura uma base teórica; o cérebro não era atingido, e apenas a mente estava perturbada em seu funcionamento, pelo menos no tocante à mania e à melancolia não complicada.9

Pinel foi anterior ao movimento anátomo-patológico iniciado por Bichat (por uma diferença de menos de dez anos) e inaugurou, simultaneamente com a Psiquiatria, uma leitura que, de certo modo, preparava o modelo que seria dominante na clínica moderna (pautado no olhar e na descrição dos sintomas), mas que, por outro lado, distanciavase da clínica que surgirá então. Nesta nova clínica o olhar deve ser dotado de profundidade e adentrar o corpo até encontrar as lesões tissulares nele presentes. As correntes psiquiátricas que vieram após Pinel tiveram que enfrentar a querela que marcara o surgimento do próprio campo (uma clínica do olhar que nem sempre encontra lesões que expliquem as patologias manifestas). De modo geral, as hipóteses condizentes com os princípios de Bichat, se nunca foram completamente comprovadas na Psiquiatria, paradoxalmente, ganharam força no decorrer do tempo. A percepção de que haveria algum tipo de desvio biológico, por mais que não tenha sido precisamente determinado, tornou-se um elemento estruturante da cultura psiquiátrica e desde a década de 80 ganhou uma força impressionante com o fortalecimento da Psiquiatria Biológica com forte apoio da indústria farmacêutica. No decorrer do século XIX, encontramos sutis alterações no saber e prática psiquiátricas. Por um lado, ga9

FOUCAULT, 1993, p. 512.

312 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

nharam raízes algumas das sementes lançadas no período anterior que delinearam a percepção da loucura como uma “espécie de infância cronológica e social, psicológica e orgânica do homem”.10 Para lidar com este homem infantilizado, ao lado da Psiquiatria, surge a Psicologia positiva, erguida sob o paradoxo de definir o normal sempre por meio do patológico. Por outro lado, nasce ainda no século XIX, a Psicanálise. Com ela, surge uma nova compreensão do normal e do patológico e, por consequência, uma forma diferenciada de abordar a loucura, em que os delírios passariam a merecer escuta. As contribuições da Psicanálise Com Freud, o normal e o patológico passam a conviver intimamente, como duas faces indissociáveis de uma mesma moeda. Tal compreensão se faz presente, por exemplo, na Psicopatologia da Vida Cotidiana e nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.11 No primeiro, Freud, a partir da análise de pequenos atos falhos e lapsos que cometemos no nosso cotidiano, demonstra que o patológico está intimamente entrelaçado com o que supomos ser nossa normalidade. Por sua vez, nos Três Ensaios, estudando práticas e fantasias sexuais reconhecidas pela cultura e pela ciência de sua época como desvios ou perversões, Freud verifica que a sexualidade humana implica no rompimento com os instintos naturais. Freud afasta-se da conotação moral e pas10

11

FREUD, S. Psicopatologia da vida cotidiana. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980c. (1901). (Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, VI); FREUD, S. Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980d. p. 117-230. (1905). (Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud,VII). FREUD, S. Análise terminável e interminável. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980a. p. 239-287. (1937). (Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, XXIII).

a cUra em saúde mental

• 313

sa a reconhecer nas perversões a existência de uma outra versão de experiência sexual que não está inscrita na ordem da natureza. Afinal, não nos relacionamos apenas com fins reprodutivos. Beijos, carícias, fetiches e todos os outros elementos que compõe o cenário amoroso humano fazem Freud reconsiderar o normal da sexualidade humana. Considerando que o normal e o patológico não se colocam como par de opostos na Psicanálise, poderíamos nos perguntar se seria possível, de algum modo, falar em doença mental e mesmo em cura a partir da Psicanálise. Para Freud, certamente existe o sofrimento mental, o qual caracteriza o adoecimento no caso dos neuróticos por meio da intensificação de suas angústias e de suas inibições. Resta pensar se, nestes casos, seria plausível vislumbrar alguma perspectiva de cura. Este é um tema polêmico entre os próprios psicanalistas, sendo um dos traços de diferenciação entre algumas correntes. Freud, em Análise Terminável e Interminável,12 afirma que a expressão término de análise é ambígua e que, por conseguinte, é necessário explorar seus sentidos a partir de dois pontos de vista:
1) o ponto de vista prático, segundo o qual psicanalista e analisando deixam de se encontrar quando o paciente pára de sofrer excessivamente com seus sintomas; 2) o ponto de vista ambicioso, que corresponderia a levar o paciente a um nível de normalidade absoluta.

No decorrer do artigo, Freud afirma ser possível, sim, pensar no fim de análise, mas a partir do primeiro ponto de vista. Essa opção nos convida a algumas reflexões. Em primeiro lugar, a condição de que o paciente não esteja sofrendo com os seus sintomas não implica necessariamente no desapa12

FREUD, 1980a, p. 268.

314 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

recimento dos mesmos. Em outros termos, o fim da análise não se confunde com o controle ou com a total erradicação dos sintomas. Não encontramos, deste modo, em Freud, nenhuma promessa de restituir à sociedade, homens e mulheres completamente normais ou assintomáticos. Se fosse esta a finalidade da análise, Freud teria adotado a perspectiva ambiciosa e apostado numa normalidade absoluta. No entanto, pensar na normalidade como o estado de pleno funcionamento psíquico seria demasiado arriscado, posto que: “um ego-normal [...] é, como a normalidade em geral, uma ficção ideal. O ego anormal, [...] infelizmente, não é ficção. Na verdade, toda pessoa é apenas normal na média”.13 Um dos exemplos mais relevantes da subversão das fronteiras entre o normal e o patológico pode ser encontrado em um dos casos clínicos mais famosos apresentados por Freud (1911): a análise do livro autobiográfico Memórias de um doente dos nervos de Daniel Paul Schereber, no qual o autor descreve os pormenores de sua experiência psicótica e de como a revelação final de estar predestinado a ser a mulher de Deus dava sentido à sua vida. A partir desse testemunho, Freud sustenta a hipótese de que o delírio psicótico pode ser estabilizador e que o mesmo constitui-se numa tentativa de restabelecimento, não sendo mero signo da patologia, como costuma ser interpretado na nosologia psiquiátrica: “a formação delirante, que presumimos ser o produto patológico, é, na realidade, uma tentativa de restabelecimento, um processo de construção”.14 Além da qualificação do delírio como estabilizador (mesmo
13

14

FREUD, S. Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980b. p. 94-95. (1911). (Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, XII). SOURNIA, J. C. L’Explosion du Savoir et des Techiniques. In: ______. Histoire de la Médicine. Paris: La Découvert, 1992. p. 278-334; TUBIANA, M. Des Difficultés Psychologiques aux Désordres Mentaux et a l’Étique Médicale. In: ______. Histoire de la Pensée Médicale: les Chemins d’Esculape. Paris: Flammarion, 1995. p. 349-438.

a cUra em saúde mental

• 315

que se trate de uma tentativa malsucedida), a própria ideia de estabilização vai se tornar um termo-chave da semântica psicanalítica, expandindo-se para o campo da saúde mental. A Psicanálise, que terá importantes desdobramentos após Freud, deixa-nos alguns pontos de reflexão importantes no âmbito dessa discussão: 1) não existe uma fronteira rígida entre o normal e o patológico; 2) a ideia de cura é substituída pela problematização do que seria o término da análise, evitando-se assim uma associação entre o fim do tratamento e uma solução definitiva para o sofrimento mental; 3) o fim do tratamento não implica numa erradicação dos sintomas; 4) não existe um fim absoluto – há sempre uma possibilidade de retorno ao processo analítico; 5) nos casos de psicose, o fim do tratamento será redefinido a partir da ideia de estabilização pelo delírio. É importante destacar que sobre o tratamento da psicose, esse será um tema de interesse maior para pós-freudianos do que para o pai da Psicanálise propriamente dito. Apesar das considerações traçadas em sua obra sobre a psicose, Freud apresentava uma série de reticências sobre a possibilidade de aplicar a técnica por ele desenvolvida com os acometidos por essa forma de sofrimento. O século XX e o refinamento técnico da Psiquiatria Em termos de Psiquiatria propriamente dita, grandes mudanças apareceram no século XX. Vale lembrar três momentos importantes: a disseminação dos eletrochoques nas décadas de 40 e 50; o uso abusivo da lobotomia durante a década de 50, e o surgimento dos neurolépticos em 52, os quais diminuíram consideravelmente o uso das duas técnicas anteriores.15
15

TUBIANA, 1995.

316 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

O uso da medicação teve um papel de extrema relevância, pois, com seu advento, foi possível passar de uma contenção física para outra de ordem química. Se, por um lado, essa mutação trouxe novos problemas e sofrimentos para os que passaram a sofrer os impactos dos efeitos colaterais, por outro lado, foi intensificada a possibilidade de se pensar na reinserção do sujeito que se encontrava num estado de exclusão intensa. Por sua relevância, vamos traçar algumas considerações sobre a medicação e seus efeitos na saúde mental. Em 1952, Henri Laborit descobre, no laboratório Rhône-Poulene, o primeiro neuroléptico, por acaso. Segundo autores como Sournia (1992) e, Ginest e Kapsambelis (1995), a descoberta ocorreu quando Laborit desenvolvia uma substância que deveria funcionar como pré-anestésico. Na versão de Tubiana (1995), o cientista testava um antialérgico para a anestesia. Encontramos ainda a leitura de Zarifian (1995) que nos diz ter sido o achado possível por meio das tentativas de Laborit de melhorar as condições de anestesia de seus pacientes, ministrando-lhes diversos coquetéis medicamentosos. Pequenas divergências históricas à parte, o fato é que Laborit se deparou, em suas pesquisas, com uma substância denominada clorpromazina que provocava, nos sujeitos que a recebiam, um estado de sedação. Um estudo feito no Hospital Saint-Anne, conduzido por Jean Delay e sua equipe, na qual se destacava Pierre Deniker, demonstrou a efetividade da droga para controlar agitação, delírios e estados alucinatórios. Os neurolépticos, nos quais a clorpromazina era a substância essencial, tornaram-se rapidamente conhecidos na França e no restante da Europa, demorando um pouco mais para serem incorporados pela cultural médica norte-americana que, naquele período, encontrava-se impactada pela difusão da Psicanálise.16
16

ZARIFIAN, E. Les Limites d’une Conquête. La Recherche: Les Mèdicaments de l’Esprit, Paris, p. 74-78, oct. 1995. Segundo Ginest e

a cUra em saúde mental

• 317

De qualquer modo, os neurolépticos, assim batizados pelos seus inventores pelo poder de prend les nerfs, ou seja, de prender os nervos,17 acabam ganhando terreno e substituindo, em grande parte, as outras técnicas. Os neurolépticos fazem parte das drogas denominadas como psicotrópicos, compreendidas como substâncias que, agindo sobre o cérebro, têm o poder de modificar as funções psíquicas ou o comportamento. Além dos neurolépticos, fazem parte dos psicotrópicos, os seguintes medicamentos do espírito:18
os ansiolíticos, os antidepressivos e os reguladores do humor (em destaque o lítio), os quais foram desenvolvidos, em sua maioria, entre as décadas de 50 e 60. Além da clorpromazina, podemos destacar, por exemplo, o surgimento de antidepressivos derivados de anti-histamínicos (antialérgicos), em 1957, e a descoberta do efeito do lítio como estabilizador do humor, na década de 60.19

A Psiquiatria, com a descoberta de tais medicamentos assume, desde a década de 50, uma direção contrária com relação a outras especialidades clínicas: “ela possui os medicamentos, mas não possui ainda o diagnóstico no sentido
Kapsambelis, os neurolépticos foram inicialmente denominados de “gânglios basais”. O batismo aconteceu em função dos efeitos colaterais por eles produzidos, caracterizados como a “síndrome extrapiramidal”, que se subdivide em três categorias: mal de Parkinson, movimentos involuntários (disquineias agudas) e a impaciência (hiperquinese). Assim, surgiu a hipótese de que os neurolépticos atuavam sobre os gânglios basais. Depois, pelo mesmo motivo, tais drogas passaram a ser denominadas de ganglioplégicos, posteriormente, neurolíticos, neuroplégicos e, finalmente, neurolépticos, do grego leptikos, ou seja, “que prende”, no caso, os nervos. GINEST, D.; KAPSAMBELIS, V Des Médicaments pour la Folie. La Recherche: Les . Mèdicaments de l’Esprit,Paris, p. 78-84, oct. 1995. ZARIFIAN, 1995. SOURNIA, 1992. ZARIFIAN, 1995, p. 75. Tradução nossa.

17 18 19

318 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

médico do termo”.20 Ou seja, a Psiquiatria, com o avanço da Psicofarmacologia, encontrou formas de controle dos sintomas, mas nunca conseguiu se enquadrar por completo no modelo de medicina científica ocidental baseada na anatomia e na fisiologia. Segundo este modelo, é necessário localizar no corpo, as lesões ou disfunções que justificam a doença. A Psiquiatria nunca realizou este projeto de cientificidade, não obstante os esforços neste sentido existam até hoje. Na prática, no entanto, a terapia medicamentosa, na Psiquiatria, precede a identificação geográfica da doença no corpo e, muitas vezes, precede mesmo a clareza diagnóstica, pois, nem todos os casos são facilmente enquadráveis nas inúmeras patologias descritas na nosologia do DSM-IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – Fourth Edition). O uso das medicações psiquiátricas, em ampla escala, coloca alguns pressupostos da Psiquiatria em evidência. Um desses pressupostos reforça justamente o modelo da medicina moderna, não obstante a doença mental se constitua como um objeto que resiste a uma abordagem estritamente biológica. O pressuposto em questão seria o de que a doença mental envolve distúrbios neuro-químicos. Existe um tipo de materialismo químico21 que é colocado em jogo quando refletimos sobre os motivos pelos quais a medicação psiquiátrica é efetiva em inúmeros casos. O problema que podemos levantar acerca deste pressuposto é: com ele, não apenas se estabelece uma correlação entre processos mentais e orgânicos (o que nos parece legítimo e merecedor de mais aprofundamento), mas cria-se uma hierarquia entre corpo e mente, em que o primeiro funciona como causa de tudo aquilo que se passa na vida mental. Segundo Widlocher:
20 21

SOURNIA, 1992. WIDLOCHER, D. Le Cerveau et laVie Mentale. La Recherche: Les Mèdicaments de l’Esprit, Paris, p. 102, oct.1995.

a cUra em saúde mental

• 319

O essencial é admitir que a todo evento mental corresponda um evento fisiológico. Num dado instante, um estado mental exprime um certo estado cerebral. Nós podemos dizer que o estado cerebral determina o estado mental na medida em que lhe produz [...] A prescrição de um psicotrópico determina uma mudança do estado cerebral e seu efeito clínico realiza uma modificação do estado mental. O erro que cometem o neurobiologista “reducionista” e o psicogeneticista “puro” é o de não perceberem que a recíproca é necessariamente verdadeira. Uma mudança do estado mental deve ser acompanhada de uma mudança do estado cerebral.

De qualquer modo, no caso da saúde mental, durante anos, os psiquiatras se contentaram com o que podiam fazer: controlar provisoriamente os sintomas de seus pacientes com o uso das medicações disponíveis no mercado farmacológico. Apenas para ilustrar, vejamos o que informa o vocabulário médico Medterms, no caso da esquizofrenia:
As medicações antipsicóticas (também chamadas de neurolépticos) tem estado disponíveis desde meados da década de 50. As drogas antipsicóticas são o melhor tratamento disponível na atualidade, mas elas não “curam” a esquizofrenia nem garantem que não haverá novos episódios psicóticos.22

Outra referência com relação às possibilidades de intervenção em casos de esquizofrenia, que segue na mesma direção apontada pelo Medterms, é assinalada por Oliveira: “infelizmente, os neurolépticos apenas aliviam a intensidade dos sintomas esquizofrênicos, sendo incapazes de curar tais
22

SCHIZOPHRENIA. In: MEDTERMS. Disponível em: <http://www. medterms.com>. Acesso em: 03 jul. 2001.

320 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

pacientes”.23 Para alguns profissionais o controle medicamentoso é tudo, ou quase tudo, que se pode conseguir. Para outros, contudo, trata-se de um ganho provisório, enquanto a cura propriamente dita ainda permanece no horizonte dos possíveis, cada vez mais tangível graças aos avanços das neurociências ou ainda por meio do avanço da genética. Nesse sentido, é fundamental considerarmos que, na segunda metade do século XX, mais especificamente, a partir da década de 80 assistimos a um fortalecimento da Psiquiatria Biológica que teve repercussões importantes na classificação das doenças e na retomada das expectativas em torno de uma cura pautada no modelo de identificação da patologia no corpo e, por meio desse mapeamento, a retirada do mal. Isso é facilmente percebido pelo clima de otimismo genético, frequentemente alimentado pelos meios de comunicação de massa.24 Sobre o impacto em termos da classificação das doenças, observa-se uma mudança fundamental na terceira edição do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais), publicado pela American Psychological Association. As duas primeiras edições seguiram uma orientação psicanalítica, adotando como base a semiologia desenvolvida por essa corrente teórica. No DSM-III (1980) e, posteriormente, no DSM-IV (1994), acontece uma clara separação do discurso psicanalítico,25 sendo priorizadas interpretações neuroquímicas da doença mental. Este movimento de afirmação da Psiquiatria Biológica, que marca o final do século XX, contribuiu, inclusive, para que a mor23

24

25

OLIVEIRA, I. Manual de psicofarmacologia clínica. Rio de Janeiro: MEDSI, 1994. p. 73. CONRAD, P Genetic Optimism: Framing Genes and Mental Illness in . the News. Culture, Medicine and Psychiatry, Dordrecht, v. 25, n. 2, p. 225-247, June 2001. HENNING, M. F. Neuroquímica da vida cotidiana. Cadernos IPUB, Rio de Janeiro, v. 4, n. 18, p. 123-132, 2000.

a cUra em saúde mental

• 321

te da Psicanálise fosse constantemente anunciada. O DSM passa então a trabalhar com uma perspectiva muito mais sindrômica do que psicopatológica propriamente dita, ou seja, descreve um conjunto de sintomas que deverão ser medicados até que se descubra o que está fora da norma na anatomia ou fisiologia cerebral. Apesar das sérias implicações éticas do incremento da Psiquiatria Biológica, não se pode negar que assistimos nos últimos anos do século XX o surgimento de novas medicações que podem ser extremamente úteis na implementação de uma nova assistência ao portador de sofrimento mental. Trata-se das medicações atípicas, assim chamadas por apresentarem um número menor de sintomas colaterais. Para entendermos a relevância desse fato, é importante atentarmos para o seguinte fato: os sintomas colaterais das medicações mais tradicionais provocavam, pelo menos, dois efeitos, o mal-estar físico e o aumento da estigmatização, haja vista que provocam reações que facilmente fazem com que o sujeito seja identificado como alguém que toma remédio de louco. Reforma psiquiátrica, cura e direção do tratamento A mudança na assistência a qual fizemos referência também teve início em meados do século XX, quando surgiram as primeiras iniciativas no sentido de transformar o hospital psiquiátrico em um espaço mais humano e menos cronificador. Compartilhando essa missão, apesar de suas particularidades, alguns movimentos se destacaram, dentre os quais, podemos citar: a comunidade terapêutica (1946), na Inglaterra; bem como a Psiquiatria Institucional (1952) e a Psiquiatria de Setor na França (final da década de 40 do século XX). A Psiquiatria Preventiva nos Estados Unidos (década de 60 do mesmo século) também teve relevância,

322 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

no entanto, seu diferencial foi ir além dos muros hospitalares, na tentativa de realizar a prevenção em termos de saúde mental da população, o que levou a adoção de medidas moralizantes e higienistas. Nas experiências citadas anteriormente, um movimento primeiro de alterar a ordem hospitalar tornou-se mais evidenciado. No entanto, a ruptura maior acontece com Franco Basaglia que vem propor mudanças epistemológicas, técnicas e culturais no modo de se conceber e tratar o dito louco.26 Basaglia propõe substituir o tradicional modelo asilar por outro que funcione como uma rede que possa promover a reinserção do sujeito portador de um sofrimento mental maior na malha social. Essa perspectiva tem grande influência no Brasil que inicia seu processo de reforma, por meio do movimento dos trabalhadores de saúde mental, na década de 70. Tal movimento nasce com o objetivo de funcionar como lugar de debate e encaminhamento de propostas para a renovação da assistência psiquiátrica e surge em função das condições precárias e ameaças e violências às quais se encontravam submetidos tanto os pacientes internos quanto os funcionários dos hospitais. A partir principalmente da segunda metade da década de 80,27 a reforma psiquiátrica é impulsionada graças ao processo de redemocratização do país. Além da nova carta constitucional de 1988, outros acontecimentos serão marcantes nesse período, sendo importante destacar: 1) o surgimento da proposta do Sistema Único de Saúde; 2) a realização da primeira Conferência de Saúde Mental (1987); 3) o nascimento do primeiro Centro de Atenção Psicossocial (Caps Luis Cerqueira, em São Paulo) em 1989 e 4) a apresentação ao Congresso do projeto de lei
26

27

AMARANTE, P Loucos pela vida. Rio de Janeiro: SDE: ENSP 1995. . , (Coleção Panorama). AMARANTE, 1995.

a cUra em saúde mental

• 323

de autoria de Paulo Delgado28 que propunha a substituição progressiva dos hospitais psiquiátricos por uma rede de outros dispositivos terapêuticos. Apesar do surgimento do primeiro Caps ter ocorrido ainda na década de 80, esse momento é marcado pela disseminação dos ambulatórios de saúde mental.29 Os ambulatórios surgem como uma tentativa de romper com a cronificação resultante das sucessivas internações as quais os usuários eram submetidos. Um diferencial desses serviços era contar com uma equipe multidisciplinar, o que, a princípio, promoveria uma ruptura com a concentração de poder na figura do psiquiatra. O intuito, portanto, era passar do discurso psiquiátrico para a construção de um campo então emergente – o da saúde mental, que não pertencia a um protagonista apenas, mas que deveria se configurar como campo de negociação entre profissionais, usuários e seus familiares. Como destacam Birman e Costa:
a Psiquiatria Clássica vem desenvolvendo uma crise tanto teórica quanto prática, detonada principalmente pelo fato de ocorrer mudança radical no seu objeto, que deixa de ser o tratamento da doença mental para ser a promoção da saúde mental.30

Fizemos essa breve incursão na reforma psiquiátrica para contextualizar o momento no qual vivemos hoje, marcado pela tentativa de fazer acontecer essa reforma, o que nos defronta com alguns ganhos e outros tantos problemas a serem resolvidos. Nesse cenário, a cura também precisa ser
28 29

30

Lei que foi sancionada, pelo presidente da república, apenas em 2001. VASCONCELOS, E. M. Desinstitucionalização e interdisciplinaridade em saúde mental. Cadernos do IPUB: Saúde Mental e Desinstitucionalização – Reinventando os Serviços, Rio de Janeiro, n. 7, p. 17-39, 1997. Apud AMARANTE, 1995, p. 21-22.

324 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

revista. Basaglia, nos primórdios da reforma italiana, lançou o desafio de que, naquele momento, a doença mental fosse colocada entre parênteses para que fosse resgatado o sujeito com seu sofrimento multidimensional (pois é simultaneamente físico, psíquico e social). Hoje, é preciso repensar o que compreendemos como saúde, doença, tratamento (ou cuidado) e cura. Tal tarefa é certamente árdua, mas isso não nos exime do compromisso de nos defrontarmos que tais questões que podem fortalecer a criação de um novo ethos na saúde mental. A partir dessa reflexão, gostaria de lançar o que poderiam ser duas pistas para essa elaboração de uma compreensão de cura mais arejada e adequada à saúde mental. A primeira seria a de seguirmos a proposta de Teixeira de tornarmos tal noção menos avassaladora:
De certo modo, [a cura] perde um pouco seu sentido, na medida em que cura, no senso comum médico, pressupõe uma ação de restituo ad integrum, de intervenção sobre algo que está funcionando de forma errada, para que volta a funcionar de forma adequada. É contra essa implicação determinista da idéia de cura que temos que nos haver, ao lidar com uma problemática tão complexa quanto a loucura.31

A segunda seria de considerarmos cura como cuidado. No entanto, não pode ser um cuidado sem rumo, pois, do contrário, o mesmo se tornaria tão cronificador quando aquele ofertado no modelo anterior, mesmo que mais humanizado. É preciso que o tratamento tenha uma direção, podemos afirmar, parafraseando um texto do psicanalista pós-freudiana, Jacques Lacan32 no qual o mesmo, referindo31 32

TEIXEIRA, p. 92, 1999. LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios do seu poder. In:

a cUra em saúde mental

• 325

se ao trabalho do analista, sustenta a ideia de que é necessário dirigir o tratamento, mesmo que não se dirija o paciente. Isso implica a adoção de uma posição particular, na qual não sabemos de antemão o caminho que cada um seguirá, nem tampouco temos o domínio do que seria o bem do portador de transtorno mental. Mesmo considerando que Lacan tratava em seu texto de um trabalho muito específico, o do analista, acreditamos que a concepção de que o tratamento tem uma direção e de que o profissional tem um papel na construção dessa direção pode e deve ser aproveitado no atual momento da reforma. Afinal, o tratamento não é acéfalo; ele tem um percurso e aquele que se dispõe a secretariar tal trajetória deve minimamente estar preparado para construir possíveis vetores a serem seguidos durante a mesma. Considerações finais – ou preliminares? Esperamos, ao longo do texto, termos propiciado ao leitor uma viagem histórica, que certamente, privilegiou alguns pontos de ancoragem, por meio da qual tentamos apresentar a cura, na saúde mental, como um elemento contextualizado e que, portanto, só pode ser compreendido por meio: da rede semântica na qual se inscreve; da teoria e do solo epistemológico na qual se enraíza; e de questões sócioculturais com as quais se articula. Ao longo do percurso feito, observamos que a cura se coloca como um problema para a Psiquiatria desde seus primórdios e, por vezes, aparece como pano de fundo não explicitado no debate maior que envolve a etiologia do sofrimento mental: problema resultante de conflitos psicodinâmicos ou epifenômeno de uma disfunção da neuroquími______. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 591-652.

326 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

ca cerebral? Secularmente, estamos tão embaraçados com essa questão (uma falsa questão, arriscamos afirmar) que o debate em torno de noções relevantes como a cura é relegado ao esquecimento. No cenário atual, com as tentativas de fazer valer a reforma psiquiátrica, parece-nos imprescindível nos defrontar com o problema crucial que diz respeito aos objetivos do tratamento: reinserir, reabilitar, desinstitucionalizar, construir ou reconstruir laços sociais, o que queremos dizer com tudo isso? Modelos diversos convergem para apontar algumas possíveis direções do tratamento,33 mas todos devem compartilhar do mesmo compromisso ético: o de curar (ou cuidar) do paciente, com o objetivo de lhe abrir possibilidades existenciais e minimizar o sofrimento e a solidão vivenciados. Tentamos fornecer alguns elementos para enriquecer essa discussão; sem a pretensão de fechá-la, por sua complexidade. Assim sendo, encerramos esse texto com considerações muito mais preliminares do que finais, na expectativa de que, ao reconstruirmos essa história, possamos contribuir para construção de novos rumos na saúde mental.

33

TENÓRIO, F. Da reforma psiquiátrica a clínica do sujeito. In: QUINET, A. (Org). Psicanálise e Psiquiatria: controvérsias e convergências. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2001. p. 121-131.

a cUra em saúde mental

• 327

referências

AMARANTE, P Loucos pela vida. Rio de Janeiro: SDE: ENSP 1995. . , (Coleção Panorama). BECHERIE, P Os fundamentos da clínica: história e estrutura do . saber psiquiátrico. Rio de Janeiro: Zahar, 1989. BEZERRA, B. A clínica e a reabilitação psicossocial. In: PITTA, A. (Org.) Reabilitação psicossocial no Brasil. 2. ed. São Paulo: HUCITEC, 2001. p. 137-142. CONRAD, P Genetic Optimism: Framing Genes and Mental Ill. ness in the News. Culture, Medicine and Psychiatry, Dordrecht, v. 25, n. 2, p. 225-247, June 2001. FOUCAULT, M. A história da loucura. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1993. FREUD, S. Análise terminável e interminável. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980a. p. 239-287. (1937). (Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, XXIII). FREUD, S. Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980b. p. 15-108. (1911). (Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, XII). FREUD, S. Psicopatologia da vida cotidiana. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980b. (1901). (Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, VI). FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980c. p. 117-230. (1905). (Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud,VII).

328 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

GINEST, D.; KAPSAMBELIS, V Des Médicaments pour la Folie. . La Recherche: Les Mèdicaments de l’Esprit,Paris, p. 78-84, oct. 1995. GOOD, B. Medicine, Rationality, and Experience: an Anthropological Perspective. New York: Cambridge University Press, 1994. HENNING, M. F. Neuroquímica da vida cotidiana. Cadernos IPUB, Rio de Janeiro, v. 4, n. 18, p. 123-132, 2000. HOUAISS, A.; VILLAR, M.; FRANCO, F. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios do seu poder. In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 591-652. OLIVEIRA, I. Manual de psicofarmacologia clínica. Rio de Janeiro: MEDSI, 1994. SCHIZOPHRENIA. In: MEDTERMS. Disponível em: <http:// www.medterms.com>. Acesso em: 03 jul. 2001. SOURNIA, J. C. L’Explosion du Savoir et des Techiniques. In: ______. Histoire de la Médicine. Paris: La Découvert, 1992. p. 278334. TEIXEIRA, M. Algumas reflexões sobre o conceito de cura em Psiquiatria. Cadernos IPUB: por uma Assistência Psiquiátrica em Transformação, Rio de Janeiro, n. 3, p. 85-94, 1999. TENÓRIO, F. Da reforma psiquiátrica a clínica do sujeito. In: QUINET, A. (Org). Psicanálise e Psiquiatria: controvérsias e convergências. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2001. p. 121-131. TUBIANA, M. Des Difficultés Psychologiques aux Désordres Mentaux et a l’Étique Médicale. In: ______. Histoire de la Pensée Médicale: les Chemins d’Esculape. Paris: Flammarion, 1995. p. 349-438. VASCONCELOS, E. M. Desinstitucionalização e interdisciplinaridade em saúde mental. Cadernos do IPUB: Saúde Mental e Desinstitucionalização – Reinventando os Serviços, Rio de Janeiro, n. 7, p. 17-39, 1997.

a cUra em saúde mental

• 329

WIDLOCHER, D. Le Cerveau et laVie Mentale. La Recherche: Les Mèdicaments de l’Esprit, Paris, p. 97-102, oct. 1995 ZARIFIAN, E. Les Limites d’une Conquête. La Recherche: Les Mèdicaments de l’Esprit, Paris, p. 74-78, oct. 1995.

330 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Capítulo 11

uM lugar (iM)possível: narrativas sobre o viver eM espaços de internaMento

Yonissa Marmitt Wadi1

Poucos, dentre os vários sujeitos anônimos ou famosos, que foram internados e viveram curtos ou longos períodos em asilos ou hospitais psiquiátricos, relataram em escritos (na forma de bilhetes, cartas, poesias, diários, romances etc.), em imagens (desenhadas no que encontravam pela frente, nas paredes das instituições, em telas ou papeis oferecidos nas oficinas terapêuticas) ou mesmo por meio da fala (capturada em gravações) suas experiências no interior das instituições. Alguns dos internos delinearam em seus escritos o processo de sua enfermidade, os tratamentos buscados (antes e depois da internação), seu encontro com as práticas e o poder médico; alguns outros se limitaram a reivindicar sua condição de não louco, condição esta atestada
1

Doutora em História; professora do CCHS e dos programas de mestrado em História e em Desenvolvimento Regional e Agronegócio – Unioeste; bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq.

Um lUgar (im)Possível

• 331

por médicos psiquiatras (ou não) quando da internação nas instituições; outros ainda rememoraram suas vidas até o momento da internação, ora no sentido de defenderemse da acusação de serem loucos, ora acusando outrem (especialmente familiares, amantes, inimigos etc.) pela imputação da loucura a eles dada. Além destes aspectos mais comuns, outros aspectos surpreendentes das experiências dos sujeitos no interior de instituições manicomiais emergem das narrativas, ultrapassando os majoritários relatos negativos, chocantes ou mesmo brutais sobre o tratamento asilar, suas dores e horrores. Em algumas narrativas – mais raras ainda – tais instituições emergem sob perspectivas que soam, a primeira vista, como absurdas, considerada a configuração histórica das instituições psiquiátricas como lugares de exclusão e violência: a dos sujeitos que acreditaram encontrar nelas um lugar para si (para morar, para trabalhar, para amar etc.) ou, por outro lado, como um espaço de criação artística (incentivada ou não pelos médicos). Como afirma Canal,
Estos relatos fragmentarios que emergen en los expedientes se acercan a una cierta presentación oficial de si en la cual estos seres recluidos en el encierro se exhiben y muestran, cual si el nombre y el cuerpo lograsen sustancia por el peso de la letra y la vida comenzara a agitarlos. La palabra escrita hace posible que el grito se articule en voz y la voz se haga audible, al tiempo que toma la forma de una demanda precaria, de una exigencia que se disloca… de una declaración sin más de sus odios y rencores, de sus amores, sus culpas y resentimientos; de sus deseos y esperas… Un reclamo insistente de justicia…2
2

CANAL, M. I. G. La relación médico-paciente en el Manicomio de La Castañeda entre 1910-1920, tiempos de revolución. Nuevo Mundo

332 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

As lutas contemporâneas pelo fim dos manicômios, aliadas ao incremento das pesquisas acadêmicas sobre a emergência e desdobramentos históricos de uma forma de tratamento da loucura apoiada em tais instituições, trouxeram a tona com maior intensidade o terror e as misérias vividas pelos habitantes dos chamados “cemitérios de vivos”,3 denunciadas pelos internos de diferentes formas. Porém, paradoxalmente,4 certas narrativas de internos mostram dimensões dos lugares de internamento que contrastam com estas, ainda que possam ter sido formuladas em ambientes em que parecia “que nada vivo podia vingar”.5 No mundo do hospício, alguns internos – conforme indicam suas narrativas – enxergaram possibilidades novas, que vão além de uma possível quebra dos sujeitos pela prática psiquiátrica. Este olhar dos internos, expresso nas narrativas, torna possível entrever algo que constantemente escapa a
Mundos Nuevos, Coloquios, 2008. 02 janv. 2008. Disponível em: <http:// nuevomundo.revues.org//index14422.html>. Acesso em: 19 fev. 2008. BARRETO, A. H. de L. O cemitério dos vivos: memórias. São Paulo: Brasiliense, 1956. Por paradoxal entendo uma posição (ou opinião) que desafia o que é dominante, ortodoxo, contrário a tradição, o que no caso da história da institucionalização da loucura ou da assistência psiquiátrica significa contemporaneamente a crítica ao saber e as práticas da Psiquiatria, à manutenção de grandes instituições (hospícios ou manicômios). Assim, soa como paradoxal a posição daqueles que vivendo dentro de tais instituições como internos, sob os auspícios de certas terapêuticas psiquiátricas, enxergam neste viver algo positivo. Se como diz Lancetti, ao apontar para os dilemas que cercam o processo de desinstitucionalização, “a pragmática da desconstrução manicomial é o reinado do paradoxo”. LANCETTI, A. Loucura metódica. Saúde e loucura, São Paulo, n. 2, p. 139-147, 1990, viver (e conviver) em instituições manicomiais é condição paradoxal sempre, pois o “o manicômio, à diferença do que se acredita, não é um usurpador, e sim, um produtor maciço de identidade do doente mental e seus médicos”. (LANCETTI, 1990, p. 143). Assim, procurar compreender os dilemas existenciais paradoxais dos que vivem a experiência da loucura é condição sine qua non para toda e qualquer crítica ao que aí esta e para a produção de algo novo, em termos de cuidados em saúde mental. WAHBA, L. L. Camille Claudel: criação e loucura. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1996. p. 104.

3

4

5

Um lUgar (im)Possível

• 333

muitos – aos próprios especialistas das diversas ciências, dos psiquiatras aos historiadores da loucura –, que acreditam ser a loucura uma totalidade fora da história, constante universal, regularidade a-histórica. Permite compreender que toda experiência, inclusive a da loucura, têm múltiplas dimensões e temporalidades, elementos dispares, lógica incomum, cenas e falas próprias, sendo constituinte de sujeitos. Ao olhar para as experiências particulares, contextualizadas em situações históricas precisas, torna-se possível perceber as questões de vida envolvidas em cada história. Neste capítulo, discuto estas dimensões paradoxais do espaço manicomial, além de refletir sobre os processos de construção de subjetividades nos lugares de internamento, por meio de diferentes olhares lançados pelos sujeitos sobre sua experiência da internação. Com o intuito de atingir estes objetivos analisei três conjuntos de fontes documentais constituídos, em temporalidades diversas, a partir da escritura ou fala de mulheres: cartas escritas pela escultora francesa Camille Claudel no período de sua internação (1914-1943) no Hospício de Montdevergues, em Montfavet, no sul da França; cartas escritas por uma camponesa brasileira interna no Hospício São Pedro de Porto Alegre – Rio Grande do Sul – Brasil (1909-1911) e falas transcritas de gravações realizadas com uma mulher – que se intitulava doméstica –, que foi internada inicialmente no Centro Psiquiátrico Pedro II (1962-1966) e depois na então Colônia Juliano Moreira (1966-1992), ambos na cidade do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro – Brasil. Camille... Camille Claudel, a genial escultora francesa foi redescoberta pelo cinema, pela literatura e mesmo pela história

334 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

na década de 1980, tornando-se conhecida de todos nós.6 Porém, como afirma a historiadora Maria Clementina P . Cunha,
Não deixa de ser curioso que, apesar de sua obra vigorosa e original, as primeiras credenciais com que [...] é apresentada ao público sejam precisamente aquelas que dizem respeito aos homens ilustres com os quais ela manteve diferentes tipos de relação ao longo de sua vida: Paul Claudel, seu irmão; Auguste Rodin, de quem foi amante e companheira de trabalho por muitos anos; Claude Debussy, com quem manteve uma convivência amiga e afetuosa. O dado de que tenha enlouquecido é também tomado como importante e significativo, tornando-a uma personagem “maldita” e fascinante.7

Para Cunha, a história de Camille
é a da dificuldade, compartilhada por muitas mulheres em diferentes situações de vivenciar com sucesso escolhas que se caracterizavam pela transgressão às normas socialmente definidas.

Assim, a autora utiliza-se daquilo que visualiza na vida de Camille como um rico material de reflexão: “relativo à experiência levada às últimas consequências de uma vida à margem do padrão aceito socialmente como ‘bom’
6

7

Refiro-me aqui ao filme Camille Claudel, de Bruno Nuytten (França, 1988); a biografia Camille Claudel, uma mulher, de Anne Delbée (São Paulo, Martins Fontes, 1988); ao livro Dossier Camille Claudel, de Jacques Cassar (Paris, Librarie Séguier / Archimbaud, 1987); ao texto “Loucura, gênero feminino: as mulheres do Juquery na São Paulo do início do Século XX”, de Maria Clementina P Cunha (Revista Brasileira de . História, São Paulo, v. 9, n.18, p. 121-144, ago./set. 1989); e ao já citado livro de Wahba, entre outros. CUNHA, 1989, p. 121.

Um lUgar (im)Possível

• 335

para as mulheres de sua condição” no período em que viveu. Ou seja, Camille uma jovem oriunda da “classe média, apoiada nos rígidos padrões morais do período”, tornouse escultora (profissão tida como masculina), além de viver “plenamente sua paixão amorosa por Rodin [um homem casado], seu principal mestre no ofício, incentivador de seu talento profissional e também seu primeiro amante”.8 Sem dúvida a abordagem proposta por Cunha é instigante e rica em possibilidades, porém – considerando as proposições da autora como referentes fundamentais para entender a trajetória de Camille –, debruço-me, neste texto, sobre outros aspectos de sua vida, especialmente os relativos a seu olhar sobre as instituições de reclusão na qual viveu, quiçá, aqueles que poderiam ser os anos mais ricos de sua vida e ao processo de subjetivação9 vivido por ela durante os longos anos de sua internação. Com 49 anos, Camille foi internada, em 1913, no manicômio de Ville-Évrard em Paris e, no ano seguin8 9

Entendo subjetivação na perspectiva de Michel Foucault, para quem esta consiste em transpor a linha de força, ultrapassar o saber-poder, curvar a força. Segundo Gilles Deleuze, é “[...] fazer com que ela mesma se afete em vez de afetar outras forças: uma dobra, segundo Foucault, uma relação da força consigo. Trata-se de ‘duplicar’ a relação de forças, de uma relação consigo que nos permita resistir, furtar-nos, fazer a vida ou a morte voltarem-se contra o poder. [...] processos de subjetivação são inteiramente variáveis, conforme as épocas, e se fazem segundo regras muito diferentes. Eles são tanto mais variáveis já que a todo o momento o poder não para de recuperá-los e de submetê-los às relações de força, a menos que renasçam inventando novos modos, indefinidamente [...]. Um processo de subjetivação, isto é, uma produção de modo de existência [...], é um modo intensivo e não um sujeito pessoal. É uma dimensão específica sem a qual não se poderia ultrapassar o saber nem resistir ao poder”. DELEUZE, G. A vida como obra de arte. In: ______. Conversações (1972-1990). São Paulo: Ed. 34, 1998. p. 123.

CUNHA, 1989, p. 122.

336 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

te, transferida para o hospício de Montdevergues em Montfavet (perto de Avignon, no sul da França), onde morreu em 1943. Em sua longa internação nas instituições francesas – trinta anos –, jamais se conformou com o destino imposto a ela por sua família, referindo-se, em suas cartas, ao que chamava “casas de loucos”, como “lugares especialmente feitos para causarem sofrimento”, onde não se podia fazer nada, “principalmente quando nunca se vê ninguém”.10 Em cartas escritas ao longo de seu tempo de internação, comumente dirigidas à mãe ou ao irmão, o poeta Paul Claudel, Camille implorava que a tirassem dos asilos de alienados ou que ao menos a transferissem para mais perto de casa, dizendo-se “desolada” por continuar a viver em lugares nos quais não se identificava mais como “uma criatura”, mas sim como “um mero número de uma casa de saúde”.11 Afirmava desesperadamente que seu único desejo era ir embora de um lugar em que “todos gritam, cantam, esgoelamse a plenos pulmões de manhã à noite e de noite à manhã”, cheio de “criaturas cujos familiares já não podem suportar, de tal modo se mostram desagradáveis e perniciosas”.12 A maioria das referências de Camille, especialmente ao hospital de Montdevergues e aos seus habitantes, mantêm-se neste tom, esboçando com muita lucidez o ambiente de degradação em que viviam os internos, até mesmo na primeira classe onde ficou instalada a escultora:
Querida mamãe, Demorei muito para lhe escrever, pois fez tanto frio que eu não podia mais manter-me de pé [...]
10 11 12

Carta de Camille Claudel à mãe (02/02/1927), em WAHBA, 1996, p. 15. WAHBA, 1996. Carta de Camille Claudel a Paul Claudel (em 1927), em WAHBA, 1996, p. 104.

Um lUgar (im)Possível

• 337

Não voltei a me aquecer durante todo o inverno, estou gelada até os ossos, cortada em duas pelo frio. Estive muito gripada. Uma de minhas amigas, uma pobre professora do Liceu Fénelon que veio encalhar aqui, foi encontrada morta na cama em razão do frio. É de meter medo. Nada pode dar a idéia do frio de Montdevergues. [...] [As internas] Passam o ano inteiro com disenteria, o que não é sinal de que a comida seja boa. A base da alimentação resume-se a isto: sopa, quer dizer, água e legumes malcozidos, sem qualquer pedaço de carne. Um velho ragu de carne de vaca, escuro, gorduroso, amargo, durante todo o ano, um velho prato de macarrão nadando em óleo mil vezes reaproveitado ou um velho prato de arroz do mesmo tipo, em suma, parecem restos de comida [...] Quanto ao quarto, é a mesma coisa, não há nada ali, nem um edredom, nem um balde higiênico, nada, um miserável urinol a maior parte do tempo rachado, uma miserável cama de ferro onde se fica tiritando a noite inteira [...].13 Meu querido Paul, [...] sua irmã se acha presa. Presa, e com loucas que gritam o dia inteiro, fazem caretas, são incapazes de dizer coisa com coisa. É esse o tratamento que há quase vinte anos se inflige a uma inocente; enquanto Mamãe viveu, não parei de suplicar-lhe que me tirasse daqui, que me colocasse onde quer que fosse, no hospital, num convento, mas não no meio dos loucos. E sempre esbarrava contra um muro. Parece que em Villeneuve era impossível. Por quê? [...]14

13

14

Carta de Camille Claudel à mãe (02/02/1927), em WAHBA, 1996, p. 1314. Carta de Camille Claudel a Paul Claudel (após 1929, s.d), em WAHBA, 1996, p. 104.

338 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

O diagnóstico dado a Camille quando de sua internação, em 1913, mantido durante todo o período de sua internação foi psicose paranoide “com delírio de perseguição à base de interpretações”.15 Em seus certificados de situação – documentos encaminhados ao Procurador da República confirmando a necessidade de internação –, os médicos não apontaram em momento algum, em todo o período em que esteve Camille reclusa, a cura de sua doença, afirmando sempre estar ela atingida “por delírios de perseguição à base de interpretações delirantes” ou “delírio sistematizado de perseguição à base de interpretações falsas”.16 Porém, nos boletins internos do hospício – que não chegavam às mãos do procurador –, apesar de insistirem em não vislumbrar uma cura, os médicos fizeram recomendações à família para atenuar a “prisão perpétua” de Camille.17 Em diversos relatórios, especialmente entre os anos 1920 e 1925, os psiquiatras que a acompanharam indicaram este caminho:
A Sr.ta. Claudel continua calma, com postura correta, quase não manifesta suas idéias de perseguição, que estão muito atenuadas. Se os senhores não podem retomá-la, poderiam colocá-la numa casa de saúde mais próxima à família, que poderia vir vê-la às vezes. Esta ausência de visitas é com efeito muito penosa para a Sr.ta. Claudel. 18
15

16

17 18

WAHBA, 1996, p. 61. Segundo a autora: “A psicose paranoide ou paranoia, pela definição psiquiátrica, é caracterizada pelo delírio dito sistematizado, pois se desenvolve na ordem e na clareza. O paciente manifesta uma convicção dogmática que se constroi logicamente a partir de elementos falsos ou ilusórios; ele se conduz e pensa em função de sua concepção delirante, em vez de seguir a realidade comum. Quando conversa sobre assuntos que não atinjam o foco perturbado, aparenta normalidade e juízo perfeito”. WAHBA, 1996, p. 61-62. Cópia da ordem de admissão entregue pelo prefeito – dr. Chapernel (1924); Certificado de situação ao sr. Ferté, procurador (1929), em WAHBA, 1996, p. 66-67. WAHBA, 1996, p. 67. Boletim interno – dr. Brunet (01/07/1920), em WAHBA, 1996, p. 68.

Um lUgar (im)Possível

• 339

A Sr.ta. Claudel é atualmente pouco visitada. Ela reclama sua saída com insistência. Decepcionou-se por não ter recebido ainda nenhuma visita de sua família, visita que ela aguardava neste período do ano.19

Como já se sabe, a saída do hospício ou ao menos a internação em um asilo mais próximo de seus familiares jamais ocorreu, pois os familiares de Camille não a quiseram de volta, num tempo e lugar em que este querer era fundamental para decidir o destino de um interno em instituição manicomial. Apesar dos apelos dos médicos, a mãe de Camille não a quis mais por perto, “por ter todos os vícios” – como disse a um dos médicos em 1915 – e por acreditar – em razão das cartas de Camille – que “nada tinha mudado, e que tais doentes, soltos, retomam a conduta anterior”.20 Já o irmão, apesar de prometer a Camille cuidar dela – cuidado que talvez acreditasse efetivo ao pagar uma internação na primeira classe ou ao enviar-lhe algum dinheiro eventualmente –, também não demonstrou nenhum empenho em retirá-la do espaço de reclusão. Neste longo tempo de internação, pouco se sabe dos tratamentos a que Camille foi submetida. Em razão dos delírios e seus desdobramentos – “medos vagos de envenenamento”, “desconfiança extrema quanto a alimentação”, “família a mantém aprisionada para tomar sua fortuna”21 –, os médicos indicam nos certificados de situação que “a paciente deve ser mantida em tratamento no asilo”.22 Porém, além da própria reclusão no hospício – que configura-se como tratamento na perspectiva da Psiquiatria da época –,
19 20 21

22

Boletim interno – dr. Chapernel (out. 1924), em WAHBA, 1996, p. 70. WAHBA, 1996, p. 68. Certificado de situação ao sr. Procurador da República de Avignon – dr. Brunet (26/06/1919); Cópia de ordem de admissão entregue pelo prefeito – dr. Chapernel (03/11/1924), ambos em WAHBA, 1996, p. 66. Certificado de situação ao Sr. Ferté, procurador – Dr. Chapernel (1925).

340 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

nenhum tipo de terapêutica parece ter sido indicada para Camille. Gradativamente, os próprios documentos médicos, além dos relatos constantes em suas cartas ou nas de seus raros visitantes, indicam a decadência física e existencial daquela que fora considerada uma mulher, que além de sua estupenda criatividade, era muito bonita e de personalidade forte. Abandonada pela família e submetida ao ambiente inóspito de diferentes instituições de internação – a despeito de ser ela uma interna pagante – e as suas práticas acachapantes de individualidades, que acabam igualando todos e todas através de atividades ditas terapêuticas ou da falta total delas, Camille se degradou mais e mais. As tentativas de transpor a linha de força, ultrapassar o saber-poder, curvar a força – processo de subjetivação –, foram esboçados por Camille numa escritura em que exigia sua liberdade aos gritos. Porém, além da escritura, não parece ter Camille estabelecido qualquer outro gesto que lhe permitisse resistir, furtar-se ou fazer com que sua vida se voltasse contra o poder. Pelo menos não de dentro do espaço manicomial. “Triste surpresa para uma artista: em vez de uma recompensa, veja o que me aconteceu!”, diz ela sobre sua internação reclamando ao irmão que gasta “seu dinheiro num asilo de alienados. Dinheiro que poderia ser útil para fazer belas obras e viver agradavelmente”.23 A genial escultora Camille Claudel não aguentou. Nada produziu de arte durante sua permanência nas instituições francesas e morreu em suas instalações em 1943, depois de trinta anos de internação, sem nunca mais ter voltado a rever a casa de sua família, os arredores de Paris ou mesmo a cidade de seus anos gloriosos, objeto de seu desejo tantas vezes expresso nas cartas que escreveu.
23

Carta de Camille Claudel a Paul Claudel (em 1927), em WAHBA, 1996, p. 85-86.

Um lUgar (im)Possível

• 341

Pierina... A narrativa da camponesa Pierina sobre a vida no hospício, expressa em cartas que escreveu quando interna no Hospício São Pedro de Porto Alegre – capital do Estado do Rio Grande do Sul – por cerca de dois anos, entre 1909 e 1911, contrasta com a percepção de Camille de seu tempo nas instituições francesas. 24 Paradoxalmente àquela, esta não parece ter considerado o hospício – no qual passou pouco tempo, é certo – um lugar impossível de se viver. Lá, do outro lado do espelho,25 no cemitério dos vivos,26 Pierina acreditou encontrar um lugar para si.27 Cerca de três meses antes de ser internada no hospício de Porto Alegre, Pierina afogara sua filha de 17 meses numa tina no porão da casa em que morava, na pequena cidade de
24

25

26 27

As cartas de Pierina, escritas no período em que esteve internada no Hospício São Pedro de Porto Alegre – entre 5 de julho de 1909 e 11 de maio de 1911 – encontram-se anexadas ao seu Prontuário Psiquiátrico, atualmente sob a guarda do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APRS). Apenas uma das cartas foi datada, a dirigida a sua “querida Mãe”, em 8 de outubro de 1909. Sem nenhuma datação – apenas algumas pistas que permitem situá-las temporalmente – Pierina escreveu uma carta endereçada a seu cunhado oficial de justiça, para ser entregue ao Juiz de Garibaldi (em razão das informações contidas pressuponho que esta foi a primeira carta escrita por Pierina dentro do hospício); um bilhete para a “Sinhora infermeira Bernadeta da Santa Casa da Seção 15 Porto Alegre”; e uma carta dirigida aos “Senhores dottores”, possivelmente os médicos legistas da Chefatura de Polícia, responsáveis legais por avaliar se ela “sofria das faculdades mentais”. In: Hospício São Pedro. Prontuário n. 38120 – P C. (APRS – Cx. 06). . Cf. CUNHA, M. C. P O espelho do mundo: Juquery, a história de um . asilo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. Cf. BARRETO, 1956. Uma discussão sobre a experiência de Pierina no hospício e sua particular visão sobre a vida neste foi publicada em: WADI, Y. M. Um lugar todo seu!? Paradoxos do viver em uma instituição psiquiátrica. Varia História, Belo Horizonte, n. 32, p. 75-101, jul. 2004. A trajetória da experiência de loucura de Pierina foi contada em: WADI, Y. M. A história de Pierina: subjetividade, crime e loucura. Uberlândia: Edufu, 2009. Esta parte do capítulo é inspirada em tais textos.

342 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Garibaldi, interior do Rio Grande do Sul. Por solicitação do Juiz Distrital, Pierina fora examinada por peritos médicos da chefatura de polícia da capital que, por cerca de um mês, a observaram e diagnosticaram ser ela portadora da
sýndromo mental – impulso por obsessão psychastenica – sýndromo este que se correlaciona, na doente [...] com estygmas psychicos peculiares á degeneração inferior (typo: moral insanity dos ingleses) e com estygmas de ordem depressiva, proprios a psychose hystero-neurasthenica.28

Segundo os peritos, no caso em questão, havia a necessidade de “[...] uma observação demorada de meses para uma classificação psiquiátrica exata e segura [...]”, e assim atestaram as “[...] condições de [Pierina] ser internada no Hospício São Pedro, a fim de ser convenientemente observada”.29 Em 5 de julho de 1909, por ordem do chefe de polícia e anuência dos peritos médicos, adentrou Pierina o portão do Hospício São Pedro onde permaneceu até 11 de maio de 1911. Na primeira carta que escreveu no hospício, logo ao ser internada, dirigida ao Juiz do Crime do Município de Garibaldi, Pierina rememorou o dia de sua internação bem como os dias subsequentes a esta data:
Elle me disse não vai no ospicio, la no Partenão tem cadeia, eu dise la no Partenão, e ospicio não e cadeia não. Elles
28

29

“Atestado médico-legal dos drs. João Pitta Pinheiro e Antonio Carlos Penafiel, em 5 de julho de 1909 – Gabinete Médico Legal da Chefatura de Polícia do Estado do Rio Grande do Sul”. Juizo Districtal do Civel e do Crime do Município de Garibaldi. Processo-crime n. 1009 – P C. (APRS . – maço 30 – est. 29 – ano 1909). A grafia original das fontes foi mantida nesta e nas demais citações. Juizo Districtal do Civel e do Crime do Município de Garibaldi. Processocrime n. 1009 – P C. (APRS – maço 30 – est. 29 – ano 1909). .

Um lUgar (im)Possível

• 343

falarão, entres elles dicerão, ella vai no caro bem fechado ella não sabe pradonde vai, eu respondi os Senhores pençon que eu não intendo o que estão dizendo, intendo sim, intão, não queria me levanta, elles me disserão intão vai na cadeia, e daí intrei no caro. Quando seguei na porta do ospicio, que vi os critos dos locos, que parecia tantos casos. Eu dise não abbre aporta que aqui não quero ficar, elle me dise aqui é cadeia, Eu dise não aqui e ospicio, não e lugar pra mi eu não so loca eu so criminosa quero ir na cadeia, e daí veio uma sinhora me tirou do caro, entrei numa sala tinha muitas mulheres locas, eu dise pro favor me bote sozinha que eu não so loca, intão me botarão sozinha. Aqui secome peior dos cachorros, e não se pode dormir pelos critos que os locos e as locas fazem, as infermera, eo infermero medise que aqui eu não posso ficar e o Dotor, elles me dise aqui e lugar dos locos e locas mas não das criminozas, Eu lhe mandei dizer ao chefe que venha me boscar maz elle em todo o tempo que estou nas mãos delle faiz tanto causo de mi como dum cachorro que não tem dono. Sinhor Juiz lhe mando diger por favor de me tirar deste inferno, e me botar na cadeia, em meu lugar pode entrar o desgrasado loco chefe que elle e mas loco, de todos os locos que estão aqui.30

Nesta carta, as imagens esboçadas sobre o hospício são de rebeldia e horror quanto a sua internação: não era louca, era uma criminosa, o hospício era um inferno, não aguentava nem podia dormir com os gritos dos loucos, a comida do hospício nem os cachorros podiam comer, era tratada como um cachorro sem dono. Porém, como indi30

“Carta ao Juiz de Garibaldi”. Hospício São Pedro. Prontuário n. 38120 – P C. (APRS – Cx. 06). Partenon é o nome do antigo arrabalde – atual . bairro – da cidade de Porto Alegre, onde foi construído o Hospício São Pedro.

344 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

cam as fontes disponíveis – os documentos médicos e as cartas –, Pierina mudou sua percepção quanto ao significado de sua internação e das condições de vida no São Pedro. Em pouco tempo, sobreveio uma imagem positiva da instituição, como indicou na carta dirigida aos doutores, que não está datada, mas que suponho, tenha sido escrita depois da dirigida ao juiz e contemporaneamente a carta escrita para sua mãe: “[...] eu para sair daqui, ficaria, muito sentida por que, medou muito com as empregadas [...]”.31 Elogios ao tratamento que lhe era dispensado no São Pedro, também foram registrados na carta que escreveu para sua mãe em 8 de outubro de 1909, apenas quatro meses depois de internada: “minha querida Mãe. Eu vou, indo, muito bem, bem tratada, e respeitada de todos, que nem mereço [...]”.32 É impossível saber o que, de fato, fez com que mudassem as impressões de Pierina sobre sua internação no hospício. Teria sido a rotina e disciplina asilar que cercava por todos os lados, dia e noite, os internos com atividades voltadas a revigorar sua moral e bons costumes? 33 Ou teriam sido as terapêuticas (morais, físicas, higiênicas) destinadas a quebrar resistências e rebeldias de todo gênero – como se sabe, configuravam-se as utilizadas nas instituições psiquiátricas no tempo em que Pierina esteve internada34 –, que mudaram sua percepção do lugar de reclusão?
31

32

33 34

“Carta aos dottores”. Hospício São Pedro. Prontuário n. 38120 – P C. . (APRS – Cx. 06). “Carta de Pierina à mãe”. Hospício São Pedro. Prontuário n. 38120 – P . C. (APRS – Cx. 06). CUNHA, 1986. CASTEL, R. A ordem psiquiátrica: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978. Sobre terapêuticas médicas utilizadas no Hospício São Pedro, na época em que Pierina esteve internada, ver: WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002 e WADI, 2009.

Um lUgar (im)Possível

• 345

Não há respostas conclusivas para tais perguntas e sei apenas que, a despeito da dura rotina asilar a qual certamente também foi submetida – buscando incitar a “normalidade de sua afetividade”, a fazer com que afastasse as “ideias anormais que a acompanhavam como parasitas do pensamento”35 –, Pierina passou a ver no São Pedro uma possibilidade de encontrar um lugar para si. Não pela aceitação da condição de louca, que ela negava, mas como empregada, como se pode perceber em sua carta aos doutores:
[...] eu não tenho duensa ne um grasas a Deus eu, poço trabalhar dia e noite, eu tenho uma boa, memória que desda idade de simco annos, sei lhe contar a minha vida, etão, bem quando, vejo, fazer um trabalho, um veis sega, noutro dia já sei fazer. Se os senhores me dese um inpreguinho aqui, no hospício, de ganhar um 15, mereis, por méis, pra mise garia.36

A mudança de sentimentos em relação à instituição, bem como a recuperação de sua afetividade e de sentimentos que vinha negando, segundo os legistas, esboçada em suas cartas e em entrevistas com eles, poucos meses depois do internamento – mas após já estar integrada a rotina asilar –, fez com que os médicos legistas, acreditassem estar Pierina curada de sua síndrome mental:
Pierina C., com o repouso, com o afastamento do meio familiar (isolamento hospitalar), com o remorso do crime,
35

36

“Relatório Médico Legal dos drs. João Pitta Pinheiro e Antonio Carlos Penafiel, em 10 de maio de 1911 – Gabinete Médico Legal da Chefatura de Polícia do Estado do Rio Grande do Sul”. Juizo Districtal do Civel e do Crime do Municipio de Garibaldi. Processo-crime n. 1009 – P C. . (APRS – maço 30 – est. 29 – ano 1909). “Carta aos dottores”. Hospício São Pedro. Prontuário n. 38120 – P C. . (APRS – Cx. 06).

346 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

com a saudade da família e outros incitamentos a normalidade de sua afetividade, com o tratamento médico, sobretudo moral (psicoterapia), com a mudança de ar e de alimentação, com melhores cuidados higiênicos de certo, começou em pouco tempo a melhorar no Hospício S. Pedro, engordou, adquiriu logo bem estar com o aproveitamento físico e moral, passando de todo o seu estado depressivo cerebral e, com este, as idéias anormais que a acompanhavam como parasitas do pensamento, pelo que, em última análise, opinamos atualmente pela retirada a paciente do hospício, afim de que possas dar a ela o destino que julgardes conveniente [...].37

Vivendo no mundo do hospício, que pretendia corrigir os vícios do mundo real por meio de seu próprio espaço, no olhar dos médicos Pierina podia voltar a ocupar seu lugar, inclusive respondendo à justiça por seu crime. Porém, partindo quase do mesmo lugar – ou seja, do seu acostumar-se ao São Pedro –, a escrita desta mulher mostra-me uma dimensão que certamente contrasta profundamente com a dos médicos, ainda que possa ser confundida a primeira vista, com suas posições: no mundo do São Pedro (mundo das terapêuticas, da disciplina, da rotina médica) acredito que Pierina enxergou – paradoxalmente – possibilidades novas para sua vida, o que não torna tão simples dizer que ela foi simplesmente vencida, dobrada ou quebrada pelas práticas psiquiátricas. Escrevendo para sua mãe Maria, em 8 de outubro de 1909, Pierina disse:
Eu desejo saber noticias de toda, a minha, zente, mormente, da senhora, e do meu marido, Minha querida mandahime
37

Relatório Médico Legal dos Drs. João Pitta Pinheiro e Antonio Carlos Penafiel, em 10 de maio de 1911. In: Hospício São Pedro. Prontuário n. 38120 – P C. (APRS – Cx. 06). .

Um lUgar (im)Possível

• 347

vossas, noticias, e toda a minha roupa eu que não presizo, e das cobertas, quero dois, trabeceiros, bem seios, os meus cadernos, o livro, de missa, ou vosso retratto, aquelle, da, Minha Amiga Luiza, aquelle do Senhor, Eugenio Pizzi, e dos meus, compadres, e também do meu marido, e das familhas dos irmanas e irmãos se [sic], memandar, Madaime bastante, palha branca, e de cor de numero 1, 3,5, 7,9, que, queiro, fazer, treis, ou quatro, tapetes mas que seja bem bonita; Minha querida mãe muitas saudades de toda a minha zente, mas eu, em Garibaldi não desejo de voltar mais.38

Sua recusa a voltar para casa e seu desejo de viver no São Pedro, ficou explícito também na carta que escreveu aos doutores:
Senhores, Dotores, eu lhe peço por favor, eu tenho dois lugares ou cadeia por toda vida ou aqui, mas não nas familhias, não, quero, ir não, desejo mais de passar nem um, dia de vida familha, pelos meus feios nomes, que tenho, porém pra sair da qui pra ir num lugar mas, triste não, saria contente , eu aqui za estou me acostumando, sou muito bem tratada, que não, mereço [...]. Os senhores, intende que, eu não tenho coragem de dizer que estou, arrendida de medo de ser absolvida [...]. 39

Apesar do arrependimento pelo crime cometido, das saudades da família, dos amigos e conhecidos, a recusa em sair do hospício e, principalmente, em voltar para casa – a qual os médicos, ao que parece se fizeram surdos –, revela muitas questões. Questões estas que ultrapassam os senti38

39

“Carta de Pierina à mãe”. Hospício São Pedro. Prontuário n. 38120 – P . C. (APRS – Cx. 06). Destaque nosso. “Carta aos dottores”. Hospício São Pedro. Prontuário n. 38120 – P C. . (APRS – Cx. 06).

348 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

dos que a elas podem dar os operadores de diversos saberes, como os médicos que trataram Pierina. Enquanto estes usavam as terapêuticas que tinham, no próprio uso do espaço do Hospício São Pedro, a garantia de grande parte de sua eficiência, buscando neste espaço enquadrar a paciente, readaptá-la ao que acreditavam ser seu verdadeiro lugar, fazê-la assumir seus papeis no mundo, recuperando sentimentos que ela vinha negando; Pierina via naquele mundo – pois era um outro mundo, não obstante um espelho do mundo – um lugar para si. Certamente, pressionada pelas rotinas e exigências da terapêutica, ela passara a cumprir certas tarefas como cozinhar, lavar, costurar, tecer artesanato.40 Porém, estas eram coisas que ela sabia fazer e, não necessariamente, não gostasse de fazer. Por outro lado, na aplicação do dito tratamento moral, Pierina encontrara espaço para fazer coisas que lhe inspiravam muito, como ler e escrever, como se percebe em sua narrativa. Primeiro, talvez mesmo incentivada pelos psiquiatras, escreveu as cartas que conheci e analiso aqui. Mesmo que pareça improvável – pois não são conhecidas outras cartas, além daquelas anexas ao prontuário, provavelmente escritas no primeiro ano de sua internação –, ela pode ter seguido escrevendo. Quem sabe mesmo nos cadernos que pedira a mãe que enviasse. Ou, visto que sua mãe parece nunca ter recebido tal carta,41 em qualquer lugar possível, como “[...] tiras de papel, às vezes em rabiscos nas
Sobre as atividades ditas terapêuticas desenvolvidas nas instituições psiquiátricas, que tinham formatos estabelecidos a partir dos papéis de gênero construídos socialmente, ver: CUNHA, 1989, p. 140-142; ENGEL, M. Psiquiatria e feminilidade. In: DEL PRIORE, M. (Org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997. p. 322-361; WADI, 2009. As cartas anexas ao prontuário de Pierina parecem ser todas elas, as cartas originais. Era comum nos hospícios não enviar a correspondência dos internos, utilizadas como documentos médicos para averiguação de sintomas das doenças mentais.

40

41

Um lUgar (im)Possível

• 349

paredes [...]”.42 Muitos internos em instituições psiquiátricas fizeram isto, Pierina não seria a primeira pessoa nem a última a fazê-lo. Da mesma forma, Pierina não foi nem o primeiro nem o último dos chamados pacientes psiquiátricos internos em instituições manicomiais – lugares comumente identificados como destituidores de singularidades, desejos, individualidades e subjetividades – a desejar permanecer no lugar de seu desterro. Frente às adversidades que via lá fora, no lugar de sua desgraça, junto a uma família com a qual não podia mais combinar, junto a um marido cujas ações lhe desagradavam profundamente e que, segundo escreveu, foram o impulso para sua desgraça, Pierina preferia ficar.
o Senhor Juiz [...] Quando estava na S. Casa lhe mandei uma carta que se eu ir responder o zuro quero ser condenada envida, que pello meu crime que tenho cometido e tudo o resto que tenho feito mersaria deser fuzilada, mais para eu sair daqui para ir com a minha gente nem depois, de morta, não quero ir nem com o marido nem com os, parentes, eu não posso, mais, combinar.43 O meu marido, a vida delle era esta, se a sema, era todos os dias de festa, elle era capaz, de passar a sema intera nas vendas, e quando vinha a qualquer, horas da noite, bêbedos como, um porco, elle lansava tudo, e assim, eu ficava muito braba e ralhava com elle, se lhe dizia semos tão pobre, e tu sempre bêbedo a eta maneira. Eu quando, era moça gostava de ir bem arrumadinha e depois, me, vi que logo, tinha, de ir pedir esmola, a minha Elvira era tão bonita, que paresia
42

43

PORTER, R. Uma história social da loucura. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. p. 245. “Carta ao Juiz de Garibaldi”. Hospício São Pedro. Prontuário n. 38120 – P C. (APRS – Cx. 06). Destaque nosso. .

350 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

um anzinho, eu de vella de ir mal arrumada não gostava, e não tinha nada pra vestir ella, eu se não cometia este crime, e se ficava junto com o marido, e se Deus me dava mais filhos eu tinha de ir com toda aminha trosa a pedir esmola, eu sou mais contemte, de passar, ou resto, da minha vida, aqui, ou na cadeia antes, de ir pedir, esmola, e de passar o que tenho passado com o marido [...] Mas Deus e messericodioso, elle a deter missericordia, de mi, este tudo que passei na minha vida, e o que tenho, de passar, Eu gostaria que estas cartas fosse, tudo, num jornal para tudo o povo, saber, mas, eu não tenho dinheiro, para mandar no Coreio do povo.44

O que pode parecer acomodação, dobramento, enquadramento pode também não ser bem isto, mesmo que contenha um pouco disto. No afirmar as benesses do hospício, dizendo que lá podia trabalhar, que se dava bem com as empregadas, voltando a comer bem, a realizar seu artesanato; no pedir à mãe que mandasse seu baú, com seus cadernos, suas roupas, retratos, enfim, tudo o que era só seu – porque não queria voltar mais para casa, pois não podia mais combinar. Pierina estabeleceu um processo de subjetivação, tentou recriar seu lugar no mundo, no mundo que descobrira no São Pedro. Um mundo muito especial ao certo, por vezes horrível, espantoso e triste, mas paradoxalmente também, um mundo mais amplo, mais seguro, e até, mais agradável, para muitos. Um mundo onde sonhos que podem parecer pequenos – ter o que comer, ter algo “[...] pra vestir [...]”, andar “[...] bem arrumadinha [...]”, não ter de “[...] pedir esmolas [...]” e, porque não, escrever – podiam se realizar.45 Assim, Pierina parece ter
44

45

“Carta aos dottores”. Hospício São Pedro. Prontuário n. 38120 – P C. . (APRS – Cx. 06). Destaque nosso. Hospício São Pedro. Prontuário n. 38120 – P C. (APRS – Cx. 06). .

Um lUgar (im)Possível

• 351

estabelecido uma relação consigo – naquele momento e naquele lugar – que lhe permitiu resistir, furtar-se, fazer a vida voltar-se contra o poder. Porém, Pierina recebeu alta do São Pedro em 11 de maio de 1911 e, já em Garibaldi, em 23 de maio, o Juiz Distrital resolveu não pronunciá-la pelo crime cometido, julgando que “a denunciada, no ato de praticar o crime era irresponsável”. Assim, foi expedido alvará de soltura em seu favor.46 Apesar dos apelos insistentes e do desejo tantas vezes expresso de não retornar, Pierina voltara a Garibaldi, para uma liberdade com a qual não sonhara. Não passaria o resto dos seus dias, nem no hospício, nem na cadeia, mas junto aos seus. Não por desígnio do destino, mas pelo jogo dos saberes e das verdades que deviam ser firmadas e mantidas. Pierina faleceu em 1962. Stela... Stela do Patrocínio que viveu, entre 1962 e 1992, como interna em hospitais psiquiátricos, esboçou de forma diferente de Camille e Pierina o seu olhar sobre a própria vida e as instituições nas quais passou a maior parte dela: a palavra falada. A palavra falada em formato poético, foi sua forma preferida de expressão. Transcritas, as falas de Stela tornaram possível aproximar-me dela e de sua compreensão sobre o viver em tais lugares. Aos 21 anos, Stela foi internada, em 1962, no Centro Psiquiátrico Pedro II, na cidade do Rio de Janeiro, com o diagnóstico “personalidade psicopática mais esquizofrenia hebefrênica, evoluindo sob reações psicóticas”.47 Foi trans46

47

“Despacho do Juiz da Comarca, em 23 de maio de 1911”. Juizo Districtal do Civel e do Crime do Município de Garibaldi. Processo-crime n. 1009 – P C. (APRS – maço 30 – est. 29 – ano 1909). . MOSÉ, V Apresentação: Stela do Patrocínio: uma trajetória poética em .

352 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

ferida, em 1966, para a então Colônia Juliano Moreira, na mesma cidade, onde faleceu em 1992. Stela, que nasceu em 1941, se dizia “solteira, doméstica, de instrução secundária” e pouco, além disso, sabe-se sobre seu passado.48 Em 1986, então com 45 anos, passou a frequentar um ateliê, no núcleo de mulheres da Colônia, coordenado por artistas plásticos – e sem fins terapêuticos – e foi nesta época que suas falas poéticas foram gravadas. Segundo Mosé:
Stela do Patrocínio chamou atenção por sua singularidade, naquele lugar uniforme. Parecia uma rainha, não se portando como as outras, que se aglomeravam, pedindo sempre. Diferenciava, em um silêncio agudo, sua foram própria de se colocar no espaço. Impossível era não vê-la: negra, alta, com muita dignidade no porte, algumas vezes enrolada em um cobertor com o rosto e os braços pintados de branco. Apesar de frequentar o ateliê, raramente utilizava os materiais propostos. Quando desenhava, o que era raro, eram coisas quase minimalistas, expressões pequenas, muito próximas a escrita. Algumas vezes escrevia em papelão, frases ou números. Mas o que realmente diferenciava Stela no grupo era sua fala. Ao contrário das outras internas, que aceitavam se relacionar com tintas e papéis, ela preferia a palavra. E parecia ter clareza desta preferência. Em sua fala desconcertante, incisiva, cada sílaba era pronunciada com gosto.49

Ser considerada uma doente mental fez com que Stela fosse internada e permanecesse até sua morte em instituições manicomiais, porém, contrariamente a qualquer diaguma instituição psiquiátrica. In: PATROCÍNIO, S. do. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001. p. 21. MOSÉ, 2001, p. 20. MOSÉ, 2001.

48 49

Um lUgar (im)Possível

• 353

nóstico, era vista por outros sujeitos (seus companheiros de internamento ou mesmo alguns operadores de saberes como psiquiatras ou psicólogos), para além do redutor atributo de doente mental. Era considerada uma filósofa /poeta que refletiu as dores, os horrores, mas também o processo de subjetivação no hospício. Por um lado, suas palavras – transformadas em texto – podem ser consideradas:
um depoimento sobre o que foi a assistência psiquiátrica nas décadas de sessenta, setenta e início dos anos oitenta, num grande manicômio do Rio de Janeiro, bastante próximo do que ocorre em todos os asilos e hospitais psiquiátricos brasileiros tradicionais.50

Por outro, podem servir para compreender melhor as questões de vida de quem habita tais lugares. Para Pelbart, somente uma atitude que recuse “suturar as questões de vida dos loucos alguma chance de responder a seus problemas de vida”. Porém, tais questões, a despeito de serem expressas pelos tidos como loucos, constante e repetidamente, como vimos com Camille e Pierina – e veremos com Stela – pouco ou nada ressoaram junto aos operadores dos saberes, para responder aos problemas de vida destas pessoas.51 Para Stela, o espaço de internação, “o hospital parece uma casa”, mas “o hospital é hospital”.52 O olhar de Stela
50

51

52

AQUINO, R. Estrela. In: PATROCÍNIO, S. do. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001. p. 14. PELBART, P P Os loucos, trinta anos depois. Novos Estudos CEBRAP, . . São Paulo, n. 42, p. 176, jul. 1995. Destaque do autor. Patrocínio, S. do. Parte I: Um homem chamado cavalo é o meu nome. In: ______. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001b. p. 51. A organizadora do livro, Viviane Mosé, estruturou-o em partes a partir de sua percepção dos encadeamentos entre os assuntos, a conexão de temas, a malha de sentido expressa nas falas. Segundo a organizadora, esta primeira parte fala da situação de Stela no hospital.

354 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

remete ao significado comumente atribuído às práticas e à instituição psiquiátrica – lugar de controle e exclusão, de criação de doença, não de cura:
Estar internada é ficar todo dia presa, Eu não posso sair, não deixam eu passar pelo portão Maria do Socorro não deixa eu passar pelo portão Seu Nelson também não deixa eu passar lá no portão Eu estou aqui há vinte e cinco anos ou mais.53 Eu estava com saúde Adoeci Eu não ia adoecer sozinha não Mas eu estava com saúde Estava com muita saúde Me adoeceram Me internaram no hospital E me deixaram internada E agora eu vivo no hospital como doente...54 O remédio que eu tomo me faz passar mal E eu não gosto de tomar remédio pra ficar passando mal Eu ando um pouquinho, cambaleio, fico cambaleando Quase levo um tombo E se levo um tombo eu levanto Ando mais um pouquinho, torno a cair55

Mas viver neste espaço, apesar de ser “[...] seguida acompanhada imitada assemelhada; Tomada conta fiscalizada examinada revistada [...]”,56 não significa o apagamento
53 54 55 56

PATROCÍNIO, 2001b, p. 55. PATROCÍNIO, 2001b, p. 51. PATROCÍNIO, 2001b, p. 54. PATROCÍNIO, S. do. Parte II: Eu sou Stela do Patrocínio, bem patro-

Um lUgar (im)Possível

• 355

do sujeito, a despeito dos investimentos de um saber-poder, durante muito tempo comprometido com práticas violentas de reclusão e submissão. O poder não é apenas olho e ouvido, incita, suscita, faz falar, provoca subjetivação57 e, nos processos de subjetivação, a todo momento recuperados pelo poder e submetidos às relações de força, pessoas renascem “inventando novos modos, indefinidamente”.58
Tem esses que são igualzinhos a mim Tem esses que se vestem e se calçam igual a mim Mas que são diferentes da diferença entre nós É tudo bom e nada presta59 Eu sou Stela do Patrocinio Bem patrocinada Estou sentada numa cadeira Pegada numa mesa nega preta e criola Eu sou uma nega preta e criola Que a Ana me disse60

Stela se reinventou pela poesia, criando os “meios de viver o que de outra maneira seria invivível”:61
A vida a gente tem que aceitar como a vida é E não como a gente quer Se fosse como eu queria
cinada. In: ______. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001a. p. 63. Nesta parte, segundo Mosé, Stela “se distingue do contexto hospitalar, se diferencia; aqui Stela adquire nome próprio, adquire palavra”. MOSÉ, 2001, p. 29-30. FOUCAULT, M. A vida dos homens infames. In: ______. O que é um autor? Lisboa: Vega, 1992. p. 89-128. DELEUZE, 1998, p. 123. PATROCÍNIO, 2001a, p. 63. PATROCÍNIO, 2001a, p. 66. DELEUZE, 1998, p. 141.

57

58 59 60 61

356 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Eu não queria ver ninguém no mundo Não queria ver ninguém na casa Queria estar toda hora comendo bebendo fumando Assim é que eu queria que fosse meu gosto Mas como eu pulei muro despulei muro Pulei portão despulei portão Pulei lá de cima pro lado de fora Do lado de fora pro lado de dentro Quer dizer que eu...62

Da mesma forma, em diversas poesias, Stela demonstrou ter consciência dos limites de sua fala, especialmente no sentido de livrá-la das amarras institucionais:
Eu já não tenho mais voz Porque já falei tudo o que tinha que falar Falo, falo, falo, falo o tempo todo E é como se eu não tivesse falado nada Eu sinto fome matam minha fome Eu sinto sede matam minha sede Fico cansada falo que tô cansada Matam meu cansaço Eu fico com preguiça matam minha preguiça Fico com sono matam meu sono Quando eu reclamo.63

62

63

PATROCÍNIO, S. do. Parte VI: Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. In: ______. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001c. p. 109. Para Mosé, esta parte do livro retoma falas de Stela relativas a condição asilar, “só que sob a metáfora dos animais e do zoológico”. MOSÉ, 2001, p. 30. PATROCÍNIO, S. do. Parte VIII: Procurando falatório. In: ______. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001d. p. 142. Segundo Mosé, esta parte da obra traz poemas que mostram “a consciência que Stela tinha de sua palavra”. MOSÉ, 2001, p. 30.

Um lUgar (im)Possível

• 357

Me transformei com esse falatório todinho Num homem feio Mas tão feio Que não me aguento mais de tanta feiúra Porque quem vence o belo é o belo Quem vence a saúde é outra saúde Quem vence o normal é outro normal Quem vence um cientista é outro cientista.64

Produzindo um modo de existência por meio de seu vestir, de seu portar-se, mas especialmente pelas suas palavras, Stela ultrapassou – dentro do hospício – o poder e resistiu ao saber, porém, trinta anos de internação debilitaram seu corpo. Em 1992, “em função de hiperglicemia grave, teve uma perna amputada. Ficou muito triste, parou de falar e comer. A ferida não cicatrizou. Stela morreu de infecção generalizada”.65 Um lugar (im)possível... A análise das fontes tornou visíveis as dimensões paradoxais que cercam o espaço manicomial – lugar de desterro e violência ou lugar para si – e o processo de construção de subjetividades nos lugares de internamento. Através dos diferentes olhares lançados pelos sujeitos sobre sua experiência de internação, expressos em cartas ou poesias faladas, foi possível compreender aspectos constituidores dessas experiências, que por sua vez construíram sujeitos que nunca mais foram os mesmos de outrora. O processo de sofrimento e enfermidade, o encontro com as práticas e o poder médico, as formas de negociação e questionamentos
64 65

PATROCÍNIO, 2001d, p. 143. MOSÉ, 2001, p. 21.

358 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

de diagnósticos e tratamentos, os mecanismos utilizados para serem escutados pelos que se acreditavam os detentores legítimos do saber sobre a loucura (os alienistas ou psiquiatras) ou por familiares, foram referidos nas narrativas, ora de forma dramática, ora de forma poética como se pôde observar nos fragmentos citados acima. Camille deixou, como marco principal de sua existência, esculturas espetaculares. E estas, o destino trágico a ela reservado, não pôde apagar. Stella – pelo empenho de sujeitos comprometidos com o resgate da cidadania dos loucos, tanto tempo silenciados – nos deixou um livro contendo suas falas poéticas transcritas, sinais da produção de uma estética da existência, apesar do lugar durante tanto tempo ocupado (o hospício) e do limite do rótulo doente mental. Pierina legou-nos apenas suas cartas do hospício, que ela sonhava “foce, tudo, num jornal para tudo o povo, saber”66 (o que motivara seu crime, o que ela sentia, como ela vivia etc.), mas que jamais deixaram o hospício, permanecendo em seu prontuário como marcas de uma memória, talvez impossível de resgatar de outro jeito. As vidas (e também as obras delas), aqui precariamente resgatadas e compreendidas através de fragmentos de suas escrituras ou falas, são estímulos para que não deixemos de buscar compreender aqueles que nos parecem diferentes – mas que também são semelhantes e contém algo de nós –, para que inventemos novas formas de nos relacionar com o acaso, com o desconhecido, com a força e a ruína.67 Elas – Camille, Pierina e Stella –, como tantos de nós, cotidianamente, tornaram possível o que parecia impossível. Suas
66

67

“Carta aos dottores”. Hospício São Pedro. Prontuário n. 38120 – P C. . (APRS – Cx. 06). PELBART, P P Manicômio mental: a outra face da clausura. 3. ed. São . . Paulo: Hucitec, 1990. p. 131-138. (Saúde e loucura, n. 2).

Um lUgar (im)Possível

• 359

palavras – de um jeito ou de outro – ultrapassaram os muros das instituições de reclusão, venceram outras palavras que determinaram sua própria exclusão. Assim, ainda que não tenha escrito sobre tudo, não tenho mais o que expressar por ora. Como disse Stela:
Já falei de mundo de casa De prédio de família De que mais eu vou falar? Então eu já vou...68

68

PATROCÍNIO, 2001d, p. 144.

360 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

referências

AQUINO, R. Estrela. In: PATROCÍNIO, S. do. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001. p. 14. BARRETO, A. H. de L. O cemitério dos vivos: memórias. São Paulo: Brasiliense, 1956. CANAL, M. I. G. La relación médico-paciente en el Manicomio de La Castañeda entre 1910-1920, tiempos de revolución. Nuevo Mundo Mundos Nuevos, Coloquios, 2008. 02 janv. 2008. Disponível em: <http://nuevomundo.revues.org//index14422.html>. Acesso em: 19 fev. 2008. CASTEL, R. A ordem psiquiátrica: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978. CUNHA, M. C. P O espelho do mundo: Juquery, a história de um . asilo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. CUNHA, M. C. P Loucura, gênero feminino: as mulheres do Ju. query na São Paulo do início do Século XX. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 9, n. 18, p. 121-144, ago./set. 1989. DELEUZE, G. A vida como obra de arte. In: ______. Conversações (1972-1990). São Paulo: Ed. 34, 1998. p. 118-126. ENGEL, M. Psiquiatria e feminilidade. In: DEL PRIORE, M. (Org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997. p. 322-361. FOUCAULT, M. A vida dos homens infames. In: ______. O que é um autor? Lisboa: Vega, 1992. p. 89-128. LANCETTI, A. Loucura metódica. Saúde e loucura, São Paulo, n. 2, p. 139-147, 1990.

Um lUgar (im)Possível

• 361

MOSÉ, V Apresentação: Stela do Patrocínio: uma trajetória poética . em uma instituição psiquiátrica. In: PATROCÍNIO, S. do. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001. p. 21. PATROCÍNIO, S. do. Parte II: Eu sou Stela do Patrocínio, bem patrocinada. In: ______. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001a. p. 63. PATROCÍNIO, S. do. Parte I: Um homem chamado cavalo é o meu nome. In: Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001b. p. 51. PATROCÍNIO, S. do. Parte VI: Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. In: ______. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001c. p. 109. PATROCÍNIO, S. do. Parte VIII: Procurando falatório. In: ______. Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001d. p. 142. PELBART, P P Os loucos, trinta anos depois. Novos Estudos CE. . BRAP, São Paulo, n. 42, p. 171-176, jul. 1995. PORTER, R. Uma história social da loucura. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. WADI, Y. M. A história de Pierina: subjetividade, crime e loucura. Uberlândia: Edufu, 2009. WADI, Y. M. Um lugar todo seu!? Paradoxos do viver em uma instituição psiquiátrica. Varia História, Belo Horizonte, n. 32, p. 75-101, jul. 2004. WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002. WAHBA, L. L. Camille Claudel: criação e loucura. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1996.

362 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

sobre os autores

ANA PAULA VOSNE MARTINS é doutora em História pela Unicamp, com pós-doutorado pela Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, é professora do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná e uma das coordenadoras do Núcleo de Estudos de Gênero desta universidade. Publicou os livros Visões do feminino: a medicina da mulher nos séculos XIX e XX (Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2004) e Um lar em terra estranha. A Casa da Estudante Universitária de Curitiba e o processo de individualização feminina nas décadas de 1950 e 1960 (Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2002). E-mail: ana_martis@uol.com.br ANA TERESA ACATAUASSÚ VENANCIO é socióloga, mestre e doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional (UFRJ), coorganizadora do livro Psicologização no Brasil: atores e autores (Contracapa, 2005) e autora de vários artigos sobre ciência e assistência psiquiátrica no Brasil no século XX. Atualmente, é pesquisadora do Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), professora e coordenadora adjunta do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS/COC/Fiocruz). E-mail: anavenancio@coc.fiocruz.br ARTUR CESAR ISAIA é doutor em História Social pela USP com , pós-doutoramento pela EHESS (École de Hautes Études en Sciences Sociales) de Paris, pesquisador do CNPq e professor do Departamento de História e Programa de Pós-Graduação em História da UFSC. Atualmente, centra suas investigações na relação religiões mediúnicas e discurso médico-psiquiátrico no Brasil da primeira metade do século XX, tendo publicado a esse respeito artigos e capítulos de livros, bem como organizado a obra Espíritos e Orixás: o debate interdisciplinar na pesquisa contemporânea (Edufu, 2006). E-mail: arturci@uol.com.br JANIS ALESSANDRA CASSILIA é graduanda em História pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ) e bolsista de iniciação científica CNPq/ Fiocruz na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. E-mail: janis_ufrj@hotmail.com

363

MARIA CLARA TOMAZ MACHADO é mestre e doutora pela USP professora dos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Histó, ria da UFU, foi diretora da Editora da Universidade Federal de Uberlândia entre 2003–2008. Dentre os vários trabalhos publicados destaca-se o capítulo “Almas Enclausuradas práticas de intervenção médica, obsessão e loucura no cotidiano do Sanatório Espírita de Uberlândia/ MG (1932-1970)” que compõe o livro Orixás e Espíritos: o debate interdisciplinar na pesquisa contemporânea, publicada pela Edufu em 2006. Organizou, em 2007, o livro Caleidoscópio de saberes e práticas populares, também pela Edufu, no qual possui dois textos sobre religiosidade popular. E-mail: mclaratmachado@yahoo.com.br MAURíCIO NObORU OUyAMA é historiador, doutor em História pela Universidade Federal do Paraná. Estudou a formação da Psiquiatria no Paraná no século XIX. É autor da tese Uma máquina de Curar: o Hospício Nossa Senhora da Luz e a formação da tecnologia asilar (Curitiba, final do século XIX, início do XX). E-mail: rizhoma@yahoo.com.br MAURO GAGLIETTI é mestre em Ciência Política pela UniFRGS e doutor em História pela PUCRS, coordena a Editora IMED e o grupo de estudos Culturas jovens, cartografias da subjetividade: estudo sobre a violência nas escolas; autor de vários artigos e livros entre os quais se destaca a obra intitulada Dyonélio Machado e Raul Pilla: médicos na política (EDIPUCRS e IEL). Atualmente, é professor e pesquisador na IMED (Passo Fundo, RS), professor visitante do PPG em Direito na URI (Santo Ângelo, RS) e integra o GT de História Cultural da ANPUH, RS (Associação Nacional de História – Seção Regional do Rio Grande do Sul ). E-mail: maurogaglietti@via-rs.net NÁDIA MARIA WEbER SANTOS é médica, psiquiatra junguiana, mestre e doutora em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenadora do Grupo de Trabalho de História Cultural da ANPUH, RS (Gestão 2006-2008), com publicações de vários artigos no Brasil e na França sobre a temática história e loucura. Autora dos livros Histórias de vidas ausentes – a tênue fronteira entre a saúde e a doença mental (Editora da UPF, 2005) e Narrativas da loucura & Histórias de sensibilidades (Editora da Universidade/ UFRGS, 2008). Atualmente, é pesquisadora pela FAPERGS (Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul) na Escola Superior de Teologia, desenvolvendo projeto sobre construção de espaços de cidadania para a loucura nos municípios do Vale do Rio dos Sinos. E-mail: nmws@terra.com.br

364

RAPHAEL ALbERTO RIbEIRO é mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia e membro do Núcleo de Cultura Popular (Populis). Autor da dissertação Almas enclausuradas: práticas de intervenção médica, representações culturais e cotidiano no Sanatório Espírita de Uberlândia (1932-1970) e, em coautoria com Maria Clara T. Machado, do capítulo “A Institucionalização da loucura em Uberlândia: discursos de controle e políticas de higienização”, do livro Uberlândia Revisitada: memória, cultura e sociedade. E-mail: raphaelhis@yahoo.com.br RICIELE MAJORI REIS POMbO é graduada em História pela Universidade Federal de Uberlândia e mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia. Autora da dissertação A nova política de saúde mental: entre o precipício e paredes sem muros (Uberlândia, 1984-2006). E-mail: riciele_pombo@yahoo.com.br VIVIANE TRINDADE bORGES é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (bolsista Capes) e mestre em História pela mesma instituição. Sua atual pesquisa trata da biografia histórica do artista plástico Arthur Bispo do Rosário, por meio da problematização dos diferentes discursos que instituíram o personagem como louco e como artista renomado. E-mail: borgesviviane@hotmail.com VLÁDIA JUCÁ é psicóloga, formada pela Universidade Federal do Ceará; mestre em comunicação e cultura contemporânea e doutora em saúde pública pela Universidade Federal da Bahia. Trabalha como psicanalista e professora das seguintes instituições: Fundação Bahiana de Medicina e Saúde Pública e Faculdade Social da Bahia. Atualmente, é professora e preceptora da Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva com ênfase em Saúde Mental (ISC-UFBA). E-mail: vladiajuca@gmail.com

365

yONISSA MARMITT WADI é mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutora em História pela PUC de São Paulo, bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq, professora do Centro de Ciências Humanas e Sociais e dos Programas de Pós-Graduação em História e em Desenvolvimento Regional e Agronegócio da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE. Dentre os vários trabalhos publicados destacam-se os livros Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da Psiquiatria no Rio Grande do Sul (Editora da Universidade/UFRGS, 2002) e A história de Pierina: subjetividade, crime e loucura (Edufu, 2009). E-mail: yonissamw@ uol.com.br

366

Sobre o livro

Formato Tipologia Papel Tiragem

16 cm x 23 cm Baramond Sulfite 75 g 1.000 exemplares

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful