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Re\isU) faz Ciência. 07.01 f20Q5pp. 27--10 ijNiOßSTL ISSN i6t7-o..!

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"O CIENTIFICAMENTE COMPROVADO":
REFLEXÕES SOBRE A AUTORIDADE DA
CIÊNCIA NA SOCIEDADE
CONTEMPORÂNEA
T h u i m c M e d e i r o s Vilela1
A r m a n d o Daros Junior-

Resurno

Com o objetivo de p r o m o v e r a reflexão sobre vínculos entre Ciência e poder, e s t e
artigo procura instigar a d i s c u s s ã o sobre o poder de persuasão cia Ciência na
sociedade c o n t e m p o r â n e a tornando-se c o m o referência a expressão p o p u l a r m e n t e
utilizada ''cientificamente c o m p r o v a d o " . Partiu-se do principio de que a Ciência
reveste-se de uni poder de autoridade tamanho que muitas elaborações teóricas
tem servido c o m o meio de j u s t i f i c a r a visão de m u n d o da classe d o m i n a n t e . C o m o
exemplo, foram escolhidas a l g u m a s teorias do século XÍX por d e f e n d e r e m e m
comum o princípio da s u p e r i o r i d a d e racial e cultural das potências européias, lisse
pensamento alcançou grande difusão neste período em especial, sendo muitas v e z e s
revisitada no século atual. A p o n t a - s e para a necessidade de se refletir sobre a crença
na Ciência c o m o verdade absoluta e a tornada de uma postura crítica em relação à
ideologia a ela inerente.

P a l a v r a s - c h a v e : Ciência, ideologia, poder.

introdução

A abrangência dos m e i o s de c o m u n i c a ç ã o atuais possibilita que as
conquistas científicas s e j a m difundidas e conhecidas r a p i d a m e n t e por u m
n ú m e r o c r e s c e n t e de p e s s o a s : as p e s q u i s a s r e a l i z a d a s d o c a m p o da
nanotecnologia, robótica, astrofísica são repetidamente c o m e n t a d a s nas
rodas de discussão das casas e praças ao redor do planeta. A s descobertas
da m e d i c i n a , biologia e p s i c o l o g i a , a p e n a s para citar a l g u m a s áreas d e
pesquisa, tem trazido t a m a n h o s benefícios à qualidade e longevidade d e
vida do c i d a d ã o c o n t e m p o r â n e o q u e as "verdades" expostas pela C i ê n c i a
são s a t i s f a t o r i a m e n t e b e m aceitas. A Ciência ultrapassou os fechados
círculos a c a d ê m i c o s , d o s l a b o r a t ó r i o s d e p e s q u i s a : u l t r a p a s s o u os l i m i t e s

' Pôs-»raduandn dc Especialização cru Filosofia i: Politicas Educacionais pela Universidade Estadual do
Oeste do Paraná - campus de Foz. dei Iguaçu. Cai>.a PuMal 1051, Foz do Iguaçu, PR. CEF: SsSíí^ouu. E-
mail: ihtiinieC^cunipi!bras.com.br
Fòs-gradunndu de Espcciali/açâo um Filosofia c Politicas Educacional pela Universidade Estadual do
Oeste do Paraná - campus de Foz do Iguaçu. CatMi Postal M151, Foz do Iguaçu, PR, CEP: 8586;;;900. li-
mai!: daro.sjuiiiorí' htjl.coni.bi'. Fone: .55 574.^171

Em contrapartida. o chocolate.. que até há pouco tempo q u e s t i o n a r a positividade e a validade enquanto tal seria 110 mínimo ingenuidade. classe ou etnia por meio da explicitação cias características de sua pretensa supremacia intelectual. levantar subsídios à discussão sobre a relação entre a representação de autoridade exercida pela Ciência e o projeto h e g e m ô n i c o da c l a s s e d o m i n a n t e . O cientista ganhou o status que outrora fora do sacerdote p e r m i t i n d o f r e q ü e n t e m e n t e suas cooptação pela classe dominante para justificar com sua obra os interesses hegemônicos e econômicos dessa classe. porém o que está implícito em ambas as pesquisas é o interesse mercadológico do produto. c o m o os s a b e r e s e s p e c i a l i z a d o s . até onde p o d e m o s p e r c e b e r diante dos avanços tecnológicos que nos c e r c a m . a autoridade da Ciência t e m sido acolhida sem que haja suficiente reflexão sobre suas "verdades''. assim como sua ingestão em excesso pode prejudicar a saúde. Em par com os seus êxitos. Para t a n t o . a maconha. c o n f o r m e afirma Demo (29S8. A titulo de exemplo. não só faz sentido como. p o s s u í u m a c a p a c i d a d e considerável de legitimação nas sociedades c o n t e m p o r â n e a s . sobre o o r g a n i s m o h u m a n o apontaram para os possíveis prejuízos à saúde do c o n s u m i d o r assíduo. sobretudo a cafeína. "O científicnmente c o m p r o v a d o " : Reflexões sobre a a u t o r i d a d e da. procura-se descrever sinteticamente de m o d o a permitir ao leitor uma aproximação ao coriLexto histórico que caracterizou o século XIX como um período fértil para o amadurecimento da Ciência enquanto referencial de "verdade absoluta". O texto foi organizado da seguinte forma: num primeiro momento.12) u O que se chama lógica científica não passa muitas vezes de reles lógica do p o d e r ' . parece ser realmente a única interpretação sobre a realidade absolutamente válida. a visão de m u n d o dada pela Ciência. apenas para iniciar a polêmica. Pretende-se portanto. racial ou biológica.. O m e s m o foi verificado em pesquisas sobre o vinho. Num uivei de consistência íeórico-metodológica menos 2S . Pode ser que as duas afirmações estejam corretas: uma quantidade pequena de café pode trazer benefícios. É de tal ordem o grau de influência da Ciência sobre o h o m e m e a tudo que lhe diz respeito. A C i ê n c i a . experiências recentes apontam para os efeitos benéficos que a ingestão diária da bebida pode trazer ao h o m e m c o m o descreve a revista National Geographic-Brasíl (2005) num artigo de capa no qual se descreve os sobre os efeitos bio-psicológicos da cafeína no ser h u m a n o . f o r a m e l e n c a d a s em perspectiva histórica algumas das referências teóricas de cunho cientifico ou pseudocientífico típicas do século XIX (muitas delas adentrando o século posterior) nas quais surge como princípio c o m u m a tentativa de justificar o domínio econômico de um determinado grupo. pesquisas sobre a ação das substâncias que c o m p õ e m o café. pois afinal. p. estabelecidos por seu próprio rigor metodológico para "ganhar as ruas".

1 9 S S . O trabalho d e s u m a n o nas m i n a s de carvão e f á b r i c a s . de m e d i c a m e n t o s p a r a d o e n ç a s até então incuráveis. t e r m o d i n â m i c a .s e a m e n i z a d o s t e m p o r a r i a m e n t e pelo c r e s c i m e n t o e c o n ô m i c o que. Inglaterra. m a s t a m b é m às t r a n s f o r m a ç õ e s sociais e e c o n ô m i c a s que a c o m p a n h a m esta época. os p r i n c i p a i s o b s t á c u l o s que s e o p u s e r a m ao p r o g r e s s o b u r g u ê s c o n t í n u o e p r e s u m i v e l m e n t e i l i m i t a d o p a r e c i a m ter s i d o r e m o v i d o s .s e n o p o d e r p o r toda a E u r o p a . A C i ê n c i a é s o l i c i t a d a a t r a n s p o r o s e s q u e m a s outrora b e m aceitos e n q u a n t o os impasses. A l e m a n h a . m a s de r e f l e x ã o e crítica s o b r e a m e s m a . Itália.A r m a n d o Dnro? j ú n i o r rigorosa. m e s m o em níveis d e s i g u a i s . p e r m i t e a l g u m a melhoria nas c o n d i ç õ e s cie v i d a d o s m a i s p o b r e s : " E m s u m a . são d e s c r i t a s a l g u m a s das p s e u d o c i ê c n i a s que g o z a r a m p o r um p e r í o d o b r e v e d e r e s p e i t a b i l i d a d e no m e i o social da é p o c a . N e s t a fase. Século XIX: o desenvolvimento econômico p r o p o r c i o n a d o peia Ciência Conforme Aranha (1996) o século XIX representa o período da c o n s o l i d a ç ã o do p o d e r d o s b u r g u e s e s ." ( H o b s b a w m .s e cada v e z m a i s evidentes. i n s t a l a m . A t é e n t ã o t i n h a m sido o p o s i t o r e s d o r e g i m e aristocrático e f e u d a l . além da teoria e v o l u c i o n i s t a de D a r w i n . m a s a p ó s as revoluções ainda na sua p r i m e i r a m e t a d e . p r o c u r a . Bélgica. Se por um lado houve um rápido a u m e n t o na p r o d u ç ã o industriai. í h u i n i e M e d e i r o s Vilula . Procura-se também ressaltar o positivismo cuja doutrina filosófica a f i r m a v a s e r a Ciência o e s t á g i o m a i s a v a n ç a d o do c o n h e c i m e n t o h u m a n o . por outro.24). É um p e r í o d o de c r e s c i m e n t o industrial. em b u s c a da m a t é r i a p r i m a n e c e s s á r i a ã m a n u t e n ç ã o de s e u s p ó l o s i n d u s t r i a i s e a m p l i a ç ã o d o s m e r c a d o s c o n s u m i d o r e s d i v i d e m e n t r e si os t e r r i t ó r i o s c o l o n i z a d o s na Á f r i c a e Á s i a . A s p o s s í v e i s d i f i c u l d a d e s d e r i v a d a s d a s c o n t r a d i ç õ e s i n t e r n a s d e s t e p r o g r e s s o ainda não p a r e c i a m s e r m o t i v o d e i n q u i e t u d e i m e d i a t a . A partir do c r e s c i m e n t o no s e t o r industrial dos países da E u r o p a .s e ressaltar c o m o c o n s i d e r a ç ã o final a n e c e s s i d a d e de se t o r n a r m a i s c l a r o os m é t o d o s c i e n t í f i c o s a t r a v é s d o p r o c e s s o p e d a g ó g i c o d a organização escolar cujo espaço permite não só o incentivo e d e s e n v o l v i m e n t o da C i ê n c i a . H o u v e m e n o s socialistas e s o c i a l . ao m e n o s na s e g u n d a m e t a d e deste s é c u l o e n c o n t r a m . d e d e s c o b e r t a s na m i c r o b i o l o g i a de P a s t e u r e Koch.r e v o l u c i o n á r i o s na E u r o p a nesse período cio que em q u a l q u e r outro. F r a n ç a . não se limita a p e n a s aos a v a n ç o s t e c n o l ó g i c o s resultantes da p e s q u i s a científica. T a m b é m são grandes os a v a n ç o s na q u í m i c a . as insurgências da classe trabalhadora m o t i v a d a s por m e l h o r e s c o n d i ç õ e s de trabalho e de vida. as c o n t r a d i ç õ e s inerentes a o m o d e l o t o r n a r a m . a C i ê n c i a se vê d e s a f i a d a a e n c o n t r a r s o l u ç õ e s aos p r o b l e m a s d e c o r r e n t e s d a s n e c e s s i d a d e s de se a u m e n t a r a c a p a c i d a d e de p r o d u ç ã o do setor. p. m a s com a m e s m a c r e n ç a na a u t o r i d a d e científica. A q u e s t ã o c o n t u d o . a e x p l o r a ç ã o da m ã o de obra infantil o b r i g a d a a .

e n f r e n t a r u m a j o r n a d a d e t r a b a l h o d e 14 a 16 h o r a s e x p õ e um contraste cruel entre a r i q u e z a d a c l a s s e b u r g u e s a e a p o b r e z a d a classe trabalhadora. p o d e ser lida c o m o u m a v a r i a n t e do d a r w i n i s m o social." ( H o b s b a w m . 3Ü . r e m e t i a à n a t u r e z a a " c u l p a " das d e s i g u a l d a d e s s o c i a i s : " O s p o b r e s e r a m p o b r e s p o r t e r e m n a s c i d o inferiores.. d e i x a v a m i g u a l m e n t e e v i d e n t e s as t e n t a t i v a s d e se j u s t i f i c a r o d o m í n i o d a s p o t ê n c i a s e u r o p é i a s (ou°o d o m í n i o da c l a s s e b u r g u e s a sobre a classe t r a b a l h a d o r a nos m e s m o s p a í s e s ) . resultou num arcabouço teórico necessário à j u s t i f i c a ç ã o do d o m í n i o b u r g u ê s s o b r e a s o c i e d a d e . p. A crença d a qual a classe d o m i n a n t e f a z uso.. D e m o (1988. m a s t a m b é m e l a b o r e r e f e r e n c i a i s teóricos q u e j u s t i f i q u e m a e x p l o r a ç ã o . c a l c a d a no c o n c e i t o d e e v o l u ç ã o d e s e n v o l v i d o por Charles Darwin. i S . PseudoCiências: justificativas das desigualdades humanas A biologia da é p o c a . de seleção natural: ". " O c i e n t í f i c n m e n t e c o m p r o v a d o " : Reflexões s o b r e a a u t o r i d a d e da. e x i g e m u m a p a r a t o militar b a s t a n t e o n e r o s o às p o t ê n c i a s e u r o p é i a s . dos n ã o e u r o p e u s e dos recursos naturais exige q u e a C i ê n c i a não só d e s e n v o l v a m á q u i n a s m a i s p o t e n t e s e técnicas m a i s e f i c i e n t e s para a c u m u l a ç ã o d o capital b u r g u ê s . Significa dizer q u e cada u m a trata de r e a l i d a d e e s p e c í f i c a .. e m b o r a a m b a s f a ç a m p a r t e da ideologia da classe d o m i n a n t e da é p o c a . d e q u e a natureza é responsável pelas d e s i g u a l d a d e s sociais. s o c i a i s e ideologia da seguinte forma: Entre Ciências sociais e naturais há unia diferença . A s C i ê n c i a s n a t u r a i s p e r m i t i r a m u m a v a n ç o na i n v e s t i g a ç ã o e u t i l i z a ç ã o de n o v o s m a t e r i a i s e n c o n t r a d o s n a s c o l ô n i a s . a natureza e explora a c r i a ç ã o b r u t a . p . 1 9 8 8 . g e r a l m e n t e na s o m b r a do d a r w i n i s m o e c o n v e n i e n t e m e n t e aceitas. A e x p l o r a ç ã o d o p r ó p r i o p o v o . A d o m i n a ç ã o dos territórios coloniais. E m b o r a t e n h a m se d e s e n v o l v i d o m u i t a s v e z e s à m a r g e m da C i ê n c i a o r t o d o x a .neste c a s o u m a s e l e ç ã o d e s t i n a d a a p r o d u z i r a nova raça dos ' s u p e r . torna o s é c u l o X I X u m a é p o c a privilegiada para a p r o l i f e r a ç ã o d e p s e u d o c i ê n c i a s . 351). ibidem).1 9 ) explica a d i f e r e n ç a e os a s p e c t o s das relações entre as C i ê n c i a s n a t u r a i s . m u i t o s deles s o m b r a s das p o d e r o s a s civilizações da A n t i g u i d a d e . não absoluta ou exclusiva. i n v e s t i g a ç õ e s p o u c o consistentes.suficiente. q u e iria d o m i n a r os h u m a n o s i n f e r i o r e s c o m o o h o m e m . e n q u a n t o as Ciências sociais elaboravam teorias s u f i c i e n t e m e n t e plausíveis para justificar o d o m í n i o e u r o p e u .h o m e n s ' . M e s m o q u a n d o se t o m a N i e t z s c h e c o m o m o d e l o de c o n t e s t a ç ã o das " v e r d a d e s " p e r t e n c e n t e s ao século X I X . " ( i b i d .. uma de s u a s o b r a s m a i s i m p o r t a n t e s intitulada Vontade de Poder. e l a b o r a ç õ e s s o b r e a h i e r a r q u i a d a s r a ç a s q u e p o s s i b i l i t a v a m a exploração dos territórios colonizados pelas potências e c o n ô m i c a s e u r o p é i a s .

] U m dos c o m p o n e n t e s q u e p e r f a z e m a d i f e r e n ç a s u f i c i e n t e é a ideologia. teve uma grande influência no desenvolvimento de políticas racistas da Europa. fisiognomia. P o r t a n t o . A i d e o l o g i a j á está n a p r ó p r i a realidade social. E m b o r a t e n h a m sido desmascaradas. A característica c o m u m à frenologia. porém a obra que o tornou mundialmente famoso foi o seu Essai sur Llnéligaliiâ das roces hitmciines ( E n s a i o s o b r e a desigualdade das raças h u m a n a s ) . feita no c o n t e x t o d o p o d e r . até p o r q u e no f u n d o c o i n c i d e m . c a b e m os m é t o d o s dé c a p t a ç ã o d a s C i ê n c i a s n a t u r a i s . A e u g e n i a s u p o s t a m e n t e garantia a possibilidade de se manter a pureza da raça m e d i a n t e a p r i m o r a m e n t o genético. c o m o q u a l q u e r matéria. fisiognomia. m e s m o c o n s i d e r a n d o p r o c e s s o s de f o r m a ç ã o c r o n o l ó g i c a [. afirmava a priori que a decadência da sociedade européia era inevitável tendo em vista a miscigenação c o m as "raças inferiores". diplomata. A r e a l i d a d e n a t u r a l é d a d a . naquilo que tem de igual à realidade natural. faz parte da n a t u r e z a c o m o tal. C o m o diplomata. nascido em Ville D'avray na França. conde de Gobineau. A s s i m . ganhassem notoriedade aos olhos da elite social da época. q u e faz parte i n t r í n s e c a d a r e a l i d a d e social e d a s C i ê n c i a s s o c i a i s ." (Cravo. as "ciências novecentistas" gozaram de relativo prestígio n e s s e p e r í o d o .28) G o b i n e a u foi um a p r e c i a d o a u t o r de h i s t ó r i a s e de livros s o b r e História e crítica literária. na p i o r d a s h i p ó t e s e s . "Joseph-Artur. p r á t i c a . í h u i n i e M e d e i r o s Vilula .. Teórico do determinismo racial.. p. p o r s e r histórica. escritor e filósofo. a c r a n i o m e t r i a . no u s o q u e d e l a s se faz ou na m a n e i r a c o m o as c o n s t r u í m o s . É u m a f a s e produtiva de " p e s q u i s a d o r e s " que afirmavam ter a c a p a c i d a d e de explicar os motivos pelos quais a E u r o p a havia c o n s e g u i d o d o m i n a r cultural e e c o n o m i c a m e n t e o r e s t a n t e do m u n d o . a ideologia e m C i ê n c i a s s o c i a i s está tanto n o s u j e i t o q u a n t o no o b j e t o . a ideologia n ã o a p a r e c e só d e m o d o extrínseco. 1976. inclusive no Brasil e quando se refere à passagem pelo país. publicado de i S 5 3 . A realidade social é s u f i c i e n t e m e n t e diferente da realidade n a t u r a l naquilo q u e é feita pelo h o m e m . Q u e r dizer. craniometria. P o r m a i s q u e a r e a l i d a d e social tenha p r o p r i e d a d e s s i n g u l a r e s . a antropometria e a eugenia. S ã o n u m e r o s o s os e x e m p l o s de p s e u d o c i ê n c í a s . A teoria do determinismo racial não precisava de c o n f i r m a ç ã o para seus princípios. c o m o n a s C i ê n c i a s n a t u r a i s .A r m a n d o Dnro? j ú n i o r m a s se i n t e r c o m u n i c a m n e c e s s a r i a m e n t e . c o m o obra histórica opcional. a frenologia. ou s e j a . a n t r o p o m e t r i a era a a f i r m a ç ã o de se c h e g a r a uma descrição do perfil intelectual e p s i c o l ó g i c o do indivíduo através do estudo de s u a s características físicas. T a m b é m é matéria. D e n t r e as q u e m a i s g a n h a r a m n o t o r i e d a d e e s t ã o a t e o r i a d o d e t e r m i n i s m o racial. em quatro v o l u m e s . nunca deixa de referir-se a sua vinda c o m o uma péssima experiência. serviu em diversos países. p e r m i t i n d o q u e s e u s a u t o r e s .

apesar de sua inegável importância como obra de antropologia filosófica" (Schiavoni. p r o f e t i z a n d o u m a i n t e r v e n ç ã o americana que mais tarde ocorreu. terriLório americano.. Somente os a l e m ã e s haviam preservado a pureza ariana.o estudo da estrutura do crânio de moclo a determinar o c a r á t e r das p e s s o a s e a sua c a p a c i d a d e m e n t a l . a lógica cio vitalismo racial era óbvia. Estes altos e . Segundo H e r m a n (2001. a 1S55. 1977. dos Estados Unidos nas relações c o m a R e p ú b l i c a do Haiti. liberdade. mas creio que estamos indo nessa direção" (Schiavoni. U m rebelde da sua época. T h o m a s . de 650 páginas cujo título é uma paródia ao livro de Gobineau: L'égalité des races humaines (A igualdade das raças humanas) em 1885. " O d e n t í t i c a m e n t e c o m p r o v a d o " : Reflexões sobre a a u t o r i d a d e da. 1977. incluindo um "órgão da morte'" presente em assassinos. 187) Continuando na sua teoria. u m h a i t i a n o de o r i g e m a f r i c a n a q u e p u b l i c o u u m monumental ensaio em francês. p. Os povos que ele discriminara pouco reagiram.. a m o r à pátria. onde quer que e n c o n t r e m o s cultura temos de admitir sua presença". somente a raça ariana ou branca. Segundo Gobineau. qualidades que p o d e r i a m ser perpetuadas apenas se a raça permanecesse pura. mas a evolução do mundo m o d e r n o os condenava também aos cruzamentos intei- r a d a is e a degenerescência. p.67): "Para Gobineau. tanto física quanto intelectual. possuía as virtudes mais elevadas do h o m e m : honra. C o m o a história nasce apenas do contato com o h o m e m branco. Os órgãos que eram usados tornavam-se maiores e os não usados e n c o l h i a m . foi exilado em St. É atribuída a ele a frase "Eu não acredito que viemos dos macacos. As teorias de Gobineau foram em geral bem aceitas e se tornaram de certo modo populares nos países europeus. Ele c o m p a r o u o cérebro do h o m e m nas diferentes etnias e a f i r m o u que havia uma relação entre seu v o l u m e e o grau de civilização. 1S9) A Frenoiogia .1 S 2 8 ) a f i r m o u existirem 26 "órgãos" na superficie do cérebro que afetam o contorno da cabeça. B a s e i a . fazendo o crânio subir ou descer c o m o desenvolvimento do órgão. Além da obra em resposta à Gobineau. p.s e na falsa afirmação de que as f a c u l d a d e s mentais estão l o c a l i z a d a s em "órgãos" cerebrais na superfície deste e que podem ser detectadas por inspeção visual da c a b e ç a . etc. O físico v i e n e n s e Franz J o s e p h Ga 11 ( 1 7 5 8 . a mistura das raças era inevitável e levaria a raça h u m a n a a graus maiores de degenerescência. Sua opinião sobre os j u d e u s e os p o v o s m e d i t e r r â n e o s era que h a v i a m se d e g e n e r a d o devido à sistemática m i s c i g e n a ç ã o ao l o n g o da História. "Enquanto o livro racista de Gobineau foi traduzido em diversas línguas e viria a influenciar na formulação da ideologia nazista. nas ilhas Virgens. criadora da civilização. publicou em 1905. um livro de grande repercussão sobre o presidente Roosevelt. exceto por Joseph A n t e n o r F i r m i n . o livro de Firmin ficou na obscuridade.

G a l l c h a m o u a este estudo de "cranioscopia". The Constitiition ofMan. j u s t i ç a e sucesso e aos mais pobres a tendência para c o m e t e r crimes. ao longo do século X I X . c u j o D e p a r t a m e n t o p a r a o ." (Schiavoni. U m a das indicações dessa popularidade é o livro escrito p o r Combe. A p e s a r da frenologia ter sido desacreditada e não possuir n e n h u m mérito científico p e r m a n e c e u popular. que identifica criminosos pelas características faciais. que v e n d e u m a i s de 3 0 0 .1 8 5 8 ) prosseguiram c o m ainda mais divisões e d e s i g n a ç õ e s do cérebro e do crânio. inteligência. N o século XIX. de a c o r d o c o m Gall. 1977. p a r a d e t e r m i n a r o t e m p e r a m e n t o e c a r á t e r de u m a p e s s o a . O s f i s i o g n o m i s t a s c o m o Coclès a f i r m a v a m coisas c o m o "pessoas com n a r i z e s e m p r o a d o s são vãs.58) "O uso r e m a n e s c e n t e d a a n t r o p o m e t r i a foi f e i t o p e l o s n a z i s t a s . t e m p e r a m e n t o c r i m i n o s o . Os racistas a i n d a u s a r a m a f i s i o g n o m i a para j u l g a r caracteres e personalidades. A n t r o p o m e t r i a . C e s a r e L o m b r o s o e m Criminal Anthropology (1895) afirma que o s assassinos têm maxilares p r o e m i n e n t e s e barba espessa. a i n d a foi usado na França um século após a sua introdução. S e g u n d o Z u c k e r (2981. p. A Fisiognomia criada por Barthélemy Coclès (1533). Outros c o m o J o h a n n K a s p a r Spurzheim (1776-1832) que espalhou a palavra nos Estados Unidos e G e o r g e C o m b e ( 1 7 7 S S . o que g e r a l m e n t e g a r a n t i a aos mais ricos características v i n c u l a d a s à b o n d a d e . N o s séculos XVIII e XIX. Os crânios irlandeses teriam a forma d o s h o m e n s de C r o . Os frenologistas avançaram seus e x p e r i m e n t o s no estudo inicial de c r i m i n o s o s mortos e serviu c o m o base da investigação na investigação de suspeitos "vivos".A r m a n d o D n r o ? j ú n i o r b a i x o s r e f l e t i a m . especialmente nos Estados U n i d o s . í h u i n i e M e d e i r o s Vilula . especialmente d a f a c e .a medida das características do crânio de m o d o a c l a s s i f i c a r as p e s s o a s de a c o r d o c o m raça. q u e c o n s i d e r a v a m raças inferiores. a antropometria era uma pseudociência usada principalmente p a r a classificar potenciais criminosos pelas características faciais. infiéis e sedutores. N o século X I X e início d o X X . Por e x e m p l o .M a g n o n e eram aparentados dos macacos.o estudo das m e d i d a s do corpo h u m a n o para u s o em classificação antropológica e c o m p a r a ç ã o . E m 1 8 1 5 . instáveis. Craniometria . os britânicos usaram a craniometria p a r a j u s t i f i c a r as políticas racistas c o n t r a os irlandeses e os a f r i c a n o s . prova da s u a inferioridade. p . do grego "mente"). como o u t r o s antes e depois dele. T h o m a s Foster c h a m o u o trabalho de Gall e S p u r z h e i m de " F r e n o l o g i a " (phrenos. c o m o o "espírito metafísico" e o "wit". O trabalho d e Eugene Vidocq. tal c o m o cios africanos. 3 4 ) . os físiognomístas usaram o seu m é t o d o p a r a d e t e c t a r t e n d ê n c i a s c r i m i n o s a s . etc. áreas específicas do cérebro q u e d e t e r m i n a m as f u n ç õ e s e m o c i o n a i s e intelectuais de u m a pessoa. tentou na sua obra Physiognomia elaborar uma C i ê n c i a q u e se utilizava da interpretação da aparência exterior. 0 0 0 cópias entre 182S e 1868.

o positivismo desenvolve-se com bases filosóficas diversas.1 9 2 0 ) . E r a . foi m u i t o a n t e r i o r à g e n é t i c a .. Segundo H e r m a n (2001. isto é o s u c e s s o do ser h u m a n o passa necessariamente p o r seu a p r i m o r a m e n t o racial t o m a n d o . Dentre os representantes mais significativos do positivismo estão A u g u s t e Com te (1798-1857) na Franca.352) "os eugenistas extremistas acreditavam que as condições do h o m e m poderiam ser m e l h o r a d a s através da melhoria genética da espécie humana por meio da concentração e do incentivo às estirpes h u m a n a s de valor (em geral i d e n t i f i c a d a s à b u r g u e s i a ou à r a ç a s a d e q u a d a m e n t e coloridas. u m m o v i m e n t o político. Os nazistas m o n t a r a m institutos de certificação para a p r o f u n d a r as suas políticas raciais. um p r o g r a m a para a aplicação às pessoas. Certificados c r a n i o m é t r i c o s eram exigidos por lei. Muito antes de Darwin. em sua e s m a g a d o r a maioria c o m p o s t o de m e m b r o s da classe m é d i a e b u r g u e s i a que p r e s s i o n a v a m os g o v e r n o s para que i m p l a n t a s s e m p r o g r a m a s de a ç õ e s p o s i t i v a s ou n e g a t i v a s v i s a n d o a melhorar a c o n d i ç ã o genética da espécie h u m a n a . e para m u i t o s os c a m p o s da morte. "O c i e n t í f i c n m e n t e c o m p r o v a d o " : Reflexões sobre a a u t o r i d a d e da. e s s e n c i a l m e n t e . s e m p r e exaltando e favorecendo o período de d e s e n v o l v i m e n t o pelo qual a Europa transcorre. Positivismo: o p r o g r e s s o da h u m a n i d a d e e f é n a Ciência Cercado pelo espírito cle otimismo e crença na Ciência e no h o m e m . John Stuart Mill (1S06-1S73) e Herbert Spencer (1820-1903) na Inglaterra.. o positivismo t o m a características peculiares de cada uma 3-1 . a teoria racial a f i r m a v a que as leis unificadas do progresso não eram políticas n e m e c o n ô m i c a s (a exemplo de Marx). c o m o a 'nórdica') e da eliminação das indesejáveis (em geral identificadas com os pobres. colonizados ou estrangeiros impopulares). N e s t e c o n t e x t o de t r a d i ç õ e s c u l t u r a i s diferenciadas. O n o m e data de 1 8 S 3 . A eugenia. A recusa equivalia a p e r m i s s õ e s de casamento ou trabalho.s e c o m o padrão as c a r a c t e r í s t i c a s r a c i a i s da p o p u l a ç ã o d o s p a í s e s m a i s a v a n ç a d o s economicamente. p. esclarecimento da Política de População e Bem Estar Racial r e c o m e n d o u a classificação de arianos e não-arianos com base nas m e d i d a s do crânio e outras características físicas"'. S e g u n d o H o b s b a w m (1988. mas b i o l ó g i c a s " . p. Ernest Heckel (1834-19119) e R o b e r t o A r d i g ó ( 1 8 2 8 . a teoria racial era apenas um p r o l o n g a m e n t o científico da 'história universal' da h u m a n i d a d e apresentada pelo Iluminismo.63) "Para os simpatizantes da idéia no século XIX. na qual a pompa do progresso h u m a n o passa a estar relacionada c o m uma só causa subjacente. do processo de c r u z a m e n t o seletivo utilizados na agricultura e p e c u á r i a .

T h u í n t e M e d e i r o s Vííeln . b) O método das ciências naturais (relações de causa e efeito) serve também ao estudo da sociedade. É possível no entanto. metafísico e positivo. as suas leis efetivas. Segundo Kolakovvski citado por Anti se ri e Reali (1991. com o uso bem c o m b i n a d o do raciocínio e da observação. só é compreensível como parte de seus projetos de reforma universal. complementado pelo evolucionismo. e s p e c i a l m e n t e a sua d o u t r i n a c i e n t í f i c a . No estágio teológico. particularmente no desenvolvimento de teorias pedagógicas posteriores. como aponta Aranha (1996. e m p i r i s m o e u t i l i t a r i s m o i n g l ê s . 166) quando afirma que o "positivismo interfere vivamente na concepção de mundo e sobretudo constitui p r e s s u p o s t o f i l o s ó f i c o das ciências h u m a n a s de t e n d ê n c i a naturalista. A filosofia positivista atravessou o século XIX tendo forte influência nas ciências h u m a n a s . a Ciência é tida como único caminho possível para se alcançar a solução de todos os problemas h u m a n o s e sociais. 1973. c) A s o c i o l o g i a é tida c o m o a c i ê n c i a a d e q u a d a ao e s t u d o d o s fenômenos sociais. desde Bacon. Segundo Comte. c e r t e z a no p r o g r e s s o p e r m a n e n t e do s e r h u m a n o a t r a v é s de s e u t r a b a l h o e engenhosidade. tidos como "fatos sociais". são explicados em função de essências. c o n s e q ü e n t e m e n t e . Conforme Comte (1973. p. conseqüentemente. idéias ou forças abstratas. d) O t i m i s m o g e r a l . "todos os bons espíritos repetem. como a sociologia de Durkheim e a psicologia behaviorista. 298) "toda a d o u t r i n a de C o m t e . f) Concepção determinista do homem: o ato humano é determinado por sua origem biológica. e) Superação da metafísica e da teologia. os fenômenos são vistos como 'produtos da ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos. mas é somente no "estágio positivo que o espírito h u m a n o reconhecendo a impossibilidade de sua origem. qual o destino do universo e quais as causas íntimas dos f e n ô m e n o s para procurar somente descobrir. p. destacar algumas características gerais a todas as correntes: a) Confiança na estabilidade e no desenvolvimento da ciência. no estágio metafísico. o cientificismo alemão e naturalismo italiano. P-57). isto é.A r m a n d o D n r o s J u n i o r d e l a s : do r a c i o n a l i s m o f r a n c ê s . que somente são reais os conhecimentos que repousam sobre fatos observados". considerado o "pai" do positivismo a evolução do conhecimento h u m a n o e da sociedade atravessaria três estágios sucessivos (a lei dos três estágios) de evolução: teológico. as suas relações invariáveis de sucessão e semelhança" (COMTE. que 35 . p. 11). geográfica e histórica.

era a religiosidade. visão reducionista s e g u n d o a qual a C i ê n c i a seria o ú n i c o c o n h e c i m e n t o válido. e x p e r i m e n t a ç ã o e m a t e m a t i z a c ã o típicas das Ciências exatas. deu origem a princípios que orientaram o desenvolvimento de u m modelo de investigação científica único no sentido de igualai. c o m o sua origem racial ( d e t e r m i n i s m o biológico). c a p a z de r e v o l u c i o n a r o m u n d o c o m u m a t e c n o l o g i a cada vez m a i s e f i c a z : 'saber é p o d e r ' . são determinadas por causas das quais ele não pode escapar.. na qual o cientista toma hoje o papel que ontem foi do sacerdote visto que A u g u s t e Comte realmente pretendia criar uma nova religião. " O científicnmente c o m p r o v a d o " : Reflexões s o b r e a a u t o r i d a d e da. as t a m b é m os outros setores da vida humana. a t e o r i a do d e t e r m i n i s m o r a c i a l .. e x p e r i m e n t a ç ã o e m a t e m a t i z a c ã o . o método das Ciências da n a t u r e z a .C i ê n c i a s e x a t a s e h u m a n a s . O positivismo. c o m o para seus discípulos positivistas. e m b o r a não se estruture c o m o u m a Ciência. o meio ( d e t e r m i n i s m o g e o g r á f i c o ) e o m o m e n t o (determinismo histórico). que. utilizar-se dos m e s m o s p r o c e d i m e n t o s metodológicos para alcançarem o rigor e objetividade das Ciências exatas. Dessa f o r m a .d e v e r i a s e r e s t e n d i d o a t o s o s os c a m p o s cki i n d a g a ç ã o e a t o d a s as a t i v i d a d e s h u m a n a s . calcada na Ciência e na deusa razão. A crença de que a Ciência tem o poder de explicar a realidade tal qual ela é parece encobri-la n u m a aura místíca. Considerações finais N o s d i a s a t u a i s . Segundo A r a n h a (1996. Esse e n t u s i a s m o d e s e m b o c a no c i e n t i f i c i s m o . Uma nova religião da h u m a n i d a d e . a sociologia. :>õ . Outra c a r a c t e r í s t i c a do p e n s a m e n t o p o s i t i v i s t a é a c o n c e p ç ã o determinista da humanidade: as ações do ser h u m a n o não s ã o livres. p. Para Comte. a n t r o p o m e t r i a e e u g e n i a f a z e m parte de u m e l e n c o de pseudociências consideradas c o m o uma interpretação ingênua do mundo tal qual fora idealizado pelos teóricos do século XIX. a sociedade industrial. baseada em princípios científicos constituía o g r a u m á x i m o de desenvolvimento das sociedades. C o m b a s e na n e u t r a l i d a d e . f r e n o l o g i a . mas c o m o uma doutrina filosófica. psicologia e economia deveriam portanto. para ele. abrangem não s o m e n t e a ciência.139): o positivismo: E x p r i m e a e x a l t a ç ã o p r o v o c a d a p e l o a v a n ç o da C i ê n c i a m o d e r n a . m e s m o que secular. que deveria substituir o que ele considerava resquício de uma forma primitiva do pensar. c r a n i o s c o p i a . baseado na observação.

não p o d e ser q u e s t i o n a d o . p o r t a n t o . e s t a r í a m o s assim. N ã o significa que o século XIX e suas teorias evolutivas t e n h a m d e s a p a r e c i d o sem deixar vestígios. S e g u n d o . n ã o sua v e r d a d e . 37 . p. advindo do século X I X . s u a s r a c h a d u r a s . n ã o c o m o o p r e s s ã o . o s t e n s i v o . a organização curricular das universidades brasileiras.A r m a n d o D a r o s j u n i o r Seus m é t o d o s de investigação. a hierarquia das ciências. c o m o s u b l i m e . Por outro lado. 1 9 8 S . muitas vezes fruto da c a p a c i d a d e criativa de s e u s autores foram p e r d e n d o sua frágil credibilidade à m e d i d a q u e a C i ê n c i a a v a n ç o u n o d e s e n v o l v i m e n t o de n o v o s c r i t é r i o s e i n s t r u m e n t o s de pesquisa.20). c o m o n e c e s s á r i o . para p r o t e g e r os fracos. foi possível que muitas dessas "verdades científicas" f o s s e m postas por terra.s e . precisa loucamente e s c o n d e r s u a s f r a q u e z a s . m a s c o m o o r d e m natural d a s c o i s a s . A ciência. não existe um m é t o d o para a descoberta de u m a teoria. p o r q u e e m p r e s t a aos d o m i n a d o s o s e n t i d o da vida. N ã o são as idéias que eles t o m a r a m c o m o verdadeiras o q u e i m p o r t a . c o n f o r m e aponta A l v e s (1994. a u t ô n o m o e neutro. os m é t o d o s e m p r e g a d o s . T e o r i a s científicas podem ser metodicamente testadas e é isto que separa o discurso da ciência de todos os d e m a i s discursos: o m é t o d o para testar a teoria. M a s existe um m é t o d o para seu teste. neste caso. s e u s vazios. p r o v o c a t i v o . o caráter autoritário e disciplinador das relações sociais reflete seus princípios. Existe um substancial avanço nos dias atuais na c o m p r e e n s ã o de q u e a C i ê n c i a f a z p a r t e de u m p r o c e s s o de r e p r e s e n t a ç ã o s i m b ó l i c a e n q u a n t o s a b e r i n d e p e n d e n t e . d a n d o a i m p r e s s ã o f i r m e de c o m p a c t o e i n a m o v í v e l ( D e m o . a alguns é espantoso o fato de se utilizar de elaborações teóricas ditas científicas com base n o critério d e diferenças biológicas para justificar as diferenças sociais tenha feito a l g u m sentido. De fato. típicos do m o d e l o positivista. O positivismo comteano.n ã o e x e r c e r a o p r e s s ã o de m o d o b r u t a l . A partir do d e s e n v o l v i m e n t o da Genética. Primeiro. se determinaria pelo seu método. N ã o a p e n a s o e n g a n o s e p a r a a C i ê n c i a do s é c u l o X X de s u a antecessora: um m o d o diferente de julgar a Ciência possibilitou a contestação dessas teorias ou pseudoteorias: critérios metodológicos mais rígidos p e r m i t i r a m em g r a n d e parte refutar suas afirmações. faz de tudo p a r a c o n v e n c e r os d e s i g u a i s de q u e não f o r a m u s u r p a d o s . m a s m e r e c e r a m e. ainda mostra sinais de resistência ao tempo. T e r c e i r o . m a s a m a n e i r a c o m o t r a b a l h a r a m c o m e l a s . c o n s e q ü e n t e m e n t e d e métodos de investigação mais rigorosos.s o b r e t u d o q u a n d o inteligente e c o m p e t e n t e . no qual emerge c o m o o parceiro ideal no processo de afirmação h e g e m ô n i c a da classe d o m i n a n t e : É p r ó p r i o d o p o d e r . é f u n d a m e n t a i v e n d e r . T h u i n i e M e d e i r o s Vilela . p-145) "em condições de resolver o impasse e m que nos e n c o n t r á v a m o s .

"Seria uma visão cândida aceitar a Ciência c o m o procura desinteressada da verdade. num mundo já formado pela mídia moderna (no dizer de Karl Kraus. descontextualizada e superficial. como é o povo c o m u m e n t e . Einstein se tornara. vivem bem à sombra das oligarquias e do Estado" ( D e m o . " O denliTicameníe c o m p r o v a d o " : Reílexões sobre a a u t o r i d a d e dn. que amiúde decidem suas opções por este ou aquele ponto de vista. N o t a . de maneira geral. as noções vulgarizadas das principais mudanças intelectuais não demorariam a ser absorvidas por um público mais ampio. determinam em parte o sentido das hipóteses levantadas e. conforme escreve H o b s b a w m (1988. Em 1914. Há de se c o n s i d e r a r q u e a escola possui um p a p e l central na desmitificação da Ciência e do cientista: "parece-nos que seria de grande . resultantes desse d e s e n v o l v i m e n t o tecnológico-científico p a s s a s s e m pelo m e s m o processo de reflexão. pelo público leigo instruído do mondo inteiro. c o m o j á ocorrera num p r o c e s s o s e m e l h a n t e no século XIX.. talvez o único cientista depois de Darwin cujo nome e imagem eram reconhecidos. 1988. p a r a l e l a m e n t e ao desenvolvimento da medicina e da biologia por exemplo. o d e s e n v o l v i m e n t o dos m e i o s de c o m u n i c a ç ã o p o s s i b i l i t o u q u e a v i s ã o d e m u n d o da c l a s s e d o m i n a n t e f o s s e p a u l a t i n a m e n t e aceita. apesar da total impenetrabilidade de sua teoria para a maioria dos leigos. o nome de Einstein não era conhecido fora das famílias dos próprios grandes físicos. esquecendo que é igualmente fonte de poder. Os cientistas têm suas ideologias. sobretudo. no final da guerra mundial. estão na origem das resistências que o p õ e m às novas teorias científicas.s e que os cientistas não são deserdados da terra. No curto lapso da Primeira Guerra Mundial. satírico e inimigo da imprensa). p. A forma com que os m e i o s de c o m u n i c a ç ã o m o d e r n o s v e i c u l a m a i n f o r m a ç ã o . p r o c u r a n d o . O d e s e n v o l v i m e n t o d o s d i v e r s o s s e t o r e s da C i ê n c i a v e i o a p r o p o r c i o n a r g r a n d e s m e l h o r i a s na q u a l i d a d e de v i d a d o h o m e m c o n t e m p o r â n e o contudo. De m o d o geral.s e v a l i d a r através da C i ê n c i a s e u s i n t e r e s s e s particulares.362) : Ademais. mas. tornam-se ainda mais confusas e as possibilidades de manipulação tornaram-se m a i o r e s e nestes termos os avanços obtidos pela Ciência se popularizaram sem que as implicações sociais c a u s a d a s pelo aumento da poluição e devastação do meio ambiente p o r e x e m p l o .15). Esta parceria Ciência-poder faz c o m que existam f r e q ü e n t e m e n t e tentativas de apropriação abusivas desse conhecimento por parte da classe d o m i n a n t e . suas crenças. políticas. m e s m o religiosas. p a u t a d a pelo controle de tempo de exposição da notícia e tendenciosa do ponto de vista dos interesses corporativos veio a trazer mais d ú v i d a s que esclarecimentos: as idéias que j á eram fragmentadas. p. a 'relatividade'já era tema de piadas apreensivas nos cabarés da Europa central.

a t i n g e inclusive a p r ó p r i a c o m u n i d a d e científica na m e d i d a e m que o a v a n ç o da especialização torna i m p o s s í v e l ao cientista. c o m p r e e n d e r o q u e s e p a s s a (e p o r q u e passa) à v o l t a do h a b i t á c u l o ( c a d a v e z m a i s estreito) e m q u e a C i ê n c i a se d e s e n v o l v e " . C o n f o r m e M a c h a d o ( 1 9 S 2 . F i l o s o f i a d a C i ê n c i a : i n t r o d u ç ã o ao j o g o e s u a s r e g r a s . 41). points itself with respect to the necessity of if reflecting on the belief in science as absolute truth and the taking of a critical position in relation to the ideology inherent. p . o a p r i m o r a m e n t o dos m é t o d o s c i e n t í f i c o s .A n i l a n d o D a r o s j u n i o r validade educativa demonstrar sempre ao estudante que sendo a Ciência u m p r o d u t o h u m a n o . A s e x a m p l e . S ã o P a u l o : B r a s i l i e n s e . 39 . Referências A L V E S . K e y . p a s s o u a s e r p r o p r i e d a d e de a l g u n s o u d e u m a classe p r i v i l e g i a d a . 9 8 ) .w o r d s : Science. p. A d e s m i t i f i c a ç ã o da C i ê n c i a o c o r r e r á n a m e d i d a em q u e a e s c o l a p r o p i c i a r a o s a l u n o s não só a a p r e n d i z a g e m . It. U m a l i n g u a g e m q u a s e e s o t é r i c a p a s s o u a e x i g i r níveis d e f o r m a ç ã o e s c o l a r c a d a v e z m a i s e l e v a d o s . T h u i n i e M e d e i r o s Vilela . p o r f i m . being many times revisited in the current century. power. p o u c o a p o u c o . m a r g i n a l i z a d o do s a b e r científico que. 2 0 0 0 . n o t a d a m e n t e d a q u e l e s q u e d i s p õ e s de c o n d i ç õ e s e c o n ô m i c a s para a d q u i r i - lo. " H o j e . e já não a p e n a s ao c i d a d ã o c o m u m . v e m m a r c a d a d a s riquezas e das p r e c a r i e d a d e s d o h o m e m ' 7 ( M o r a i s citado p o r D a l a r o s a . this article l o o k s for to instigate the quarrel on the p o w e r of persuasion of science in t h e society c o n t e m p o r a r y being o v e r c o m e as reference the expression popularly used "scientific evidence". C o m o os s i s t e m a s e s c o l a r e s n ã o g a r a n t e m o acesso ao c o n h e c i m e n t o para toda a sociedade. 1994. ideology. some theories of century X I X for in c o m m o n defending lhe principle of the racial and cultural superiority of the e u r o p e a n p o w e r s had been chosen. It w a s broken of the principle with that science a r m s an authority p o w e r so great that m a n y theoretical elaborations has served as half to j u s t i f y the vision of world of the ruling class. o c o m p l e x o d i s c u r s o c i e n t í f i c o . Abstract W i t h the o b j e c t i v e to promote the reflection on b o n d s between science and power. s o b u m p o n t o d e v i s t a h i s t ó r i c o e social d e m o c r a t i z a r o acesso à C i ê n c i a ao e x p l i c i t a r a s r e l a ç õ e s . T h i s thought reached great diffusion in this period in special. m a s u m a p o s t u r a crítica em r e l a ç ã o à C i ê n c i a e ao cientista q u e p a s s a d e í d o l o à especialista. v a l e d i z e r . R u b e m . A escola t e m p o r c o m p r o m i s s o p o r t a n t o . grande parte dos i n d i v í d u o s foi. n e m s e m p r e tão e v i d e n t e s c o m o p o d e r r e s u l t a n d o n u m a d e m o c r a t i z a ç ã o dos r e s u l t a d o s da C i ê n c i a e d o s limites c o n t i d o s n a afirmação "cientificamente comprovado".

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