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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 453.464 - MG (2002/0091989-1)

VOTO-VISTA

MINISTRA NANCY ANDRIGHI :

Cuida-se de recurso especial interposto por Banco Bandeirantes
S/A, com fundamento nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional.
A ora recorrida JZ Outdoor Ltda. ajuizou ação, sob o rito ordinário,
em face do recorrente. Alegava que, durante quatro anos (de 1994 a 1998),
manteve contratos bancários com o réu, sendo que as cobranças das taxas por
prestações de serviços, bem como dos juros e encargos contratuais, eram
lançadas diretamente em sua conta corrente. Após realizar um aprofundado
exame sobre a regularidade dos lançamentos, a autora constatou a existência de
várias cobranças indevidas, sob diferentes rubricas, além de juros acima do
índice pactuado. Requereu a repetição dos valores pagos indevidamente,
corrigidos segundo as mesmas taxas cobradas pela instituição financeira.
Pleiteou, também, o ressarcimento dos danos emergentes e lucros cessantes.
O pedido foi julgado parcialmente procedente, entendendo o juízo
de primeiro grau que não ficaram provados os danos materiais. O ora recorrente
foi condenado "no ressarcimento das quantias apuradas pela perícia sob
rubrica de JUROS, nos valores nominais constantes da planilha de f. 673/674,
três primeiras colunas identificadas por 'efeito s/ juros', 'valor juros' e 'total',
e ainda as quantias referentes a lançamentos sob rubrica de DIVERSOS - OUT
DEBIT - DEB AUTOR, nos valores nominais da planilha de 675/677, coluna
'valor'" corrigidos "pelos índices da tabela adotada pela contadoria judicial,
aprovada pela Egrégia Corregedoria de Justiça, e com juros de mora de 1%
ao mês, tudo a partir de cada um dos lançamentos ilícitos, como ficar apurado
em liquidação por mero cálculo aritmético" (fl. 958).
Ambas as partes apelaram.
O Tribunal a quo julgou totalmente procedente o apelo da ora
recorrida e parcialmente procedente o apelo do recorrente, somente para
redistribuição das custas e honorários advocatícios. Colhem-se os seguintes
fundamentos do acórdão recorrido:
"Embora ainda não se trate de matéria imune a
controvérsias, vai-se sedimentando nesta Corte o entendimento de
que, em hipóteses como a dos autos, o reembolso ao correntista
deve ser corrigido pelas mesmas taxas e encargos praticados pela
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do Dec.contrariedade aos arts. II. restou fundamentadamente decidida no aresto vergastado. sob o entendimento de que a recorrida não tem direito à devolução do pagamento indevido. o mutuante estaria premiado com juros módicos e correção monetária oficial. § 3º. Contudo. por legislação específica. 535." (fls. Para melhor exame. que não é instituição financeira. pedi vista.003 e 1.626/33.ofensa aos arts. Daí o presente recurso especial.VOTO VISTA . 1. do CPC.030 do CC. estes foram rejeitados. Relator Min. do CPC. o ora recorrente alegou contradição entre o acórdão recorrido e dispositivos legais. acrescido dos encargos praticados pelo banco. pois somente este pode realizar tais cobranças. da Lei 4. Com relação à ofensa ao art. uma vez que não poderia ser determinada a repetição de indébito relativo a contratos já extintos por novação.Site certificado Página 2 de 5 . cobrar juros e encargos que somente são lícitos quando exigidos por tal entidade. à Lei 6. I. III. uma vez que não se pode permitir à correntista. I e II. 159. 1º. IV.dissídio jurisprudencial a respeito do direito de cobrar taxas de juros acima de 12% ao ano. tem-se que. Documento: 612702 . autorizado que está. 4º. haveria tratamento desigual dos contratantes. Brevemente relatado o processo. 22. e à Súmula 596/STF.violação ao art.062 do CC.negativa de vigência aos arts. O em. inexistindo omissão a esse respeito. 1.000. Enquanto o mutuário sempre esteve sujeito a encargos onzenários. V. IX. a questão da aplicação das taxas e juros cobradas pela instituição financeira. além de omissão por não ter sido analisada a apontada impossibilidade da recorrida em cobrar os mesmos encargos financeiros que o banco. pois o acórdão recorrido possibilita um enriquecimento sem causa da correntista. Superior Tribunal de Justiça instituição financeira . em sede de embargos de declaração. porque não sanadas as omissões e contradições apontadas em sede de embargos declaratórios. no qual se alega: I. 535. superiores a 10% a/m.096 do CC. I e II. de outra forma. 999. 1. 161 e 1.088) (negritou-se) Interpostos embargos de declaração. na devolução do indébito.595/64. É que. passo ao exame das questões federais.895/81.087/1. Carlos Alberto Menezes Direito proferiu voto no sentido de dar provimento ao recurso especial. 1.

e não em indenização por danos materiais advindos de ato ilícito. no pedido de repetição de indébito deve se entender por Documento: 612702 . que tal alegação.030 do CC). ora recorrida. ademais.062. a Súmula 7 do STJ obsta a pretensão. em doutrina. apenas analisar a questão relativa à ofensa aos arts. o qual está fundado na repetição do indébito. 1º. É de se observar. Superior Tribunal de Justiça Além disso.003 e 1.000. Portanto. realmente. (afronta aos arts. 161 e 1. ainda que verdadeira fosse. 4º. Todavia. pois os paradigmas versam sobre a inaplicabilidade da limitação da taxa de juros à instituição financeira. não restou demonstrado. O apontado dissídio jurisprudencial. seja por cobrança de taxas a maior. a seu turno. Não restou provada a alegação dedudiza pela ora recorrida. tema sobre o qual não se ateve o acórdão recorrido. perante outras instituições financeiras. por novação. seja por total ausência de autorização contratual.089). No tocante à alegada extinção dos contratos anteriores. a violação ao art. como já exposto. de ação de repetição por enriquecimento injustificado. 1. IX.096 do CC. acrescidas das mesmas taxas e juros aplicadas pela instituição financeira. é de se afastar. Cuida-se. não se insere no pedido formulado na petição inicial. assim. também chamada.VOTO VISTA .626/33. que se resume em saber se o correntista tem direito à devolução das quantias cobradas indevidamente pelo banco. do Dec.895/81. de ação de repetição de indébito. 964 do CC. à Lei 6. da Lei 4.Site certificado Página 3 de 5 . 22. O juízo de primeiro grau condenou o ora recorrente na devolução de todos os valores cobrados indevidamente.088/1. cuja pretensão está amparada pelo art. Assim. inclusive aqueles provenientes da incidência de encargos moratórios sobre as dívidas inexistentes. pois o Tribunal a quo entendeu inexistirem provas nos autos relativamente ao animus novandi (fls. Resta. 1. a rigor. entende-se que tal decisão permite uma perfeita recomposição da perda patrimonial sofrida pela correntista.595/64. § 3º. 999. a ofensa a dispositivos legais não se traduz em contradição ensejadora de embargos declaratórios. de que a cobrança de encargos excessivos pela ora recorrente levou aquela a contrair novos empréstimos. monetariamente corrigidos e acrescidos de juros de mora. 159. 535 do CPC. 1. 1. Restou comprovado o enriquecimento injustificado do banco-recorrente pela retirada indevida de quantias da conta-corrente da ora recorrida.

1971. dos rendimentos advindos a este com a livre disposição do patrimônio usurpado.. Superior Tribunal de Justiça incluído todos os valores injustificadamente auferidos pelo réu com a cobrança de encargos indevidos. em contrato de cheque especial pactuado à taxa de 11% ao mês. Parte Especial. é a + x que se há de prestar. é direito do titular de contrato de abertura de crédito em conta-corrente (cheque especial) obter a restituição de valores indevidamente cobrados pela instituição financeira. pois o destino usual da remuneração obtida pela instituição financeira é a concessão de novos créditos a clientes. dar a alguém a oportunidade de obter lucro.)" ("Tratado de Direito Privado". obrigar a instituição financeira a devolver não só as quantias que indevidamente reteve do correntista. ora recorrida. afronta à própria noção de eqüidade. mas também por encargos que venham a remunerar o indébito à mesma taxa praticada pela instituição financeira no empréstimo pactuado (acessório). mas com o demandado passou a valer a + x. isto é. O montante do indébito a ser restituído deverá ser composto não apenas pelo valor cobrado indevidamente (principal). Se o bem. é razoável presumir que o banco obteve rendimentos. Tomo XXVI. Se. também. é o valor tal qual enriquece o demandado no momento em que se exerce a pretensão. o autor não tem direito somente à devolução do que pagou indevidamente ao réu.. (. 3ª ed. mas. não é o valor do bem ao tempo em que se deu o enriquecimento. Além disso. valeria a. p. mediante contratos que prevêem encargos semelhantes.Site certificado Página 4 de 5 . Documento: 612702 . pelo que deve ser afastada.. 167). ficando com o demandante. qualquer solução jurídica que venha a acolher o enriquecimento ilícito. iguais às taxas e juros que pactuou com a correntista. Deve-se. ao máximo. Ensina Pontes de Miranda. 11% ao mês.VOTO VISTA . Para isso. no mínimo. em caso de repetição por enriquecimento injustificado. Assim. deverá restituí-lo acrescido da mesma taxa. por meio da prática de ilícito. ao contrário. que "o que se presta. como é o caso. a instituição financeira cobrou valor de seu correntista indevidamente. mas também a efetiva remuneração que auferiu com tal procedimento. Nesses termos.

repita-se. Trata-se. a remuneração do indébito à mesma taxa praticada para o cheque especial se justifica. violação às normas que regulam o sistema financeiro. Nesses termos. É o voto.a quem não tem . Apenas se está aplicando o mencionado art. de pedido vinculado tão-somente à reparação do dano causado e à coibição do enriquecimento ilícito. Em conclusão. mas apenas busca restituir o que lhe foi cobrado indevidamente.Site certificado Página 5 de 5 . que dá ao autor da ação de repetição de indébito o direito de cobrar tudo que represente enriquecimento injustificado do réu. tampouco. porquanto o correntista não concedeu crédito à instituição financeira. restaria ineficaz a norma contida no art. pois é manifesta a impossibilidade de produção desta prova. com a devolução da remuneração obtida pelo banco ao utilizar o dinheiro usurpado da correntista. Não se vislumbra. a prova sobre quais os lucros advindos ao banco com a utilização do dinheiro usurpado.VOTO VISTA . como a única forma de se impedir o enriquecimento sem causa pela instituição financeira. Forte em tais razões. na hipótese. pois não se está concedendo . a solução adotada não fere a Lei de Usura.o direito de cobrar juros acima da taxa legal ou outros encargos somente permitidos às entidades participantes do sistema. Documento: 612702 . por imperativo legal. 964 do CC. NÃO CONHEÇO do recurso especial. Superior Tribunal de Justiça Do contrário. 964 do CC. por sua vez. e tal direito somente pode ser satisfeito. caso se exigisse da autora da ação de repetição de indébito.