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OKÊ TIÃO! AMÉM, ODÉ!

(Naquela estrada de areia / Lá onde a lua clareou / Todos caboclos paravam / Para ver a
procissão / De São Sebastião)

As guerras de fundação do Rio de Janeiro, no século XVI, lançam algumas flechas que nos
marcam até hoje: entrincheirados nas paliçadas de Uruçumirim (o atual Morro da Glória), os
índios resistiram, infernizaram a vida dos colonizadores, foram escravizados, combateram até o
final de suas forças e acabaram relegados ao subterrâneo da história oficial.

Quem ficou bem na fita na história contada pelos vencedores foi Araribóia, o chefe
temiminó que se converteu ao catolicismo, aliou-se aos portugueses, virou cavaleiro
da Ordem de Cristo e recebeu, por ter lutado ao lado dos europeus contra os
tamoios, a sesmaria do Morro de São Lourenço, origem da cidade de Niterói.

São Sebastião é o padroeiro do Rio de Janeiro. Um padroeiro que ressalta as
incongruências, potências e desafios da cidade. Diz a tradição, afinal, que ele
participa da vitória dos portugueses sobre os índios tupinambás, aliados dos
franceses, que habitavam a macaia carioca. Contam que o santo foi visto de espada
na mão, ao lado da turma de Estácio de Sá, lutando na Guanabara contra os índios
insurgentes que emboscaram os lusitanos.

Mas como o Rio de Janeiro não é mesmo para principiantes, as coisas se
transformaram. Resumo da ópera: o mesmo São Sebastião que combateu os índios
acabou sincretizado (aviso logo que encaro o sincretismo como incorporação de força
vital e fenômeno de fé) nas macumbas cariocas com o inquice Mutalambô e o orixá
Oxóssi, deuses caçadores das florestas africanas que viraram protetores dos caboclos
do Brasil.

Oxóssi e Mutalambô, que também se amalgamaram virando praticamente uma única
divindade, são donos da flecha. Atiravam flechas! São Sebastião sofreu o suplício. Foi
flechado!

São Sebastião é santo padroeiro porque abençoou a vitória portuguesa contra os
índios. Sebastião, pelo fetiche da flecha, virou Oxóssi por obra, subversão e graça da
nossa gente, nos mistérios cruzados da fé das esquinas cariocas. O padroeiro
abençoou os portugueses na guerra contra os índios tamoios e acabou sincretizado
com um orixá que protege exatamente a falange dos índios contra quem os ameaça.
Quem gosta desses babados - vou usar uma expressão da moda - de ressignificação
tem aí um prato cheio;

Que São Sebastião seja celebrado em sua procissão e cerimônias oficiais não me
surpreende. Mas eu desconfio que, de alguma forma, os índios derrotados pelos fiéis
do santo acabaram desvirando a morte em vida encantada. São eles, os tupinambás
trucidados ontem, que dançam hoje, trazidos pelo mistério dos ventos, nas canjiras
guanabaras: galopando os corpos de seus cavalos de santo, nos terreiros do Rio, em
cada dia do padroeiro, saravando generosamente a nossa banda tão ferida e
bradando o que a gente ainda pode ser quando cai a tarde.

Okê! Amém! .

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