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GOLPE ANTOL

ANTOLOGIA-M
LOGIA-MANIF
MANIFESTO G
ESTO GOLPE

GO

ORGANIZADORES
ANA RÜSCHE
-MA
CARLA KINZO
LILIAN AQUINO
STEFANNI MARION

OLPE
ANTOLOGIA-

ANIFESTO

PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA-
–MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA
| ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA
CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO
FRESSIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI
| ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS
| ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA
DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER
| BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK
| CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO
GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES |
CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO
DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI |
DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE
HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS
| DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ
| EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN
MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA
FALEIROS | FLÁVIO CAAMAÑA | FRANCESCA CRICELLI
| FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA
| GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR
FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA |
JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO
CUENCA | JR. BELLÉ | JULIÁN FUKS | JULIANA

CALDERÓN | JULIANA CORDARO | KARINE KELLY
PEREIRA | LAERTE | LEONARDO COSTA | LEONARDO
MATHIAS | LETÍCIA NOVAES | LILIAN AQUINO
| LINEKER | LUANA VIGNON | LUBI PRATES |
LUIZ RUFFATO | LUIZA ROMÃO | MAEVE JINKINGS |
MAIARA GOUVEIA | MAÍRA MENDES GALVÃO | MANOEL
HERZOG | MANOEL QUITÉRIO | MANU MALTEZ |
MARCELINO FREIRE | MARCELO ARIEL | MÁRCIA
DENSER | MARCIA TIBURI | MARCÍLIO GODOI |
MARCO DUTRA | MARCOS GOMES | MARCOS SISCAR |
MARIA CLARA ESCOBAR | MARIA GIULIA PINHEIRO
| MARIANO MAROVATTO | MEI OLIVEIRA | MEL
DUARTE | MICHELE SANTOS | MICHELINY VERUNSCHK
| NICOLAS BEHR | NOEMI JAFFE | ODYR | PÁDUA
FERNANDES | PAULA FÁBRIO | PAULO FERRAZ
| PEDRO TIERRA | PEDRO TOSTES | PRISCILA
GONTIJO | RAFAEL ROCHA DAUD | REGINA AZEVEDO |
RENAN NUERNBERGER | RENAN QUINALHA | REYNALDO
DAMAZIO | RICARDO ESCUDEIRO | RICARDO LÍSIAS
| RONALDO BRESSANE | SHEYLA SMANIOTO | SHIKO
| STEFANNI MARION | TARSO DE MELO | TATÁ
AEROPLANO | TATIANA SALEM LEVY | THELMA
GUEDES | THIAGO MATTOS | TONY MONTI | TULA
PILAR | VANDERLEY MENDONÇA | VERONICA STIGGER

PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA-

Não existe poesia depois do golpe. Não existe poesia atrás do
golpe. Não há poesia que vá à frente do golpe. Não há poesia que
nos proteja do golpe.
A poesia não entra na fila do golpe como um pagador de con-
tas atrasadas, a poesia não carrega o caixão da democracia num
féretro infeliz puxado pelo golpe. A poesia não é uma oração pelo
golpe. A poesia não é o cortejo, não é como flores no velório para
tornar menos feia a morte. Não é ostentação, não é choro, não é
conforto, não é jeito. E o golpe não é a morte.
Porque a morte é mais digna que o golpe.
A poesia não é sobre o golpe. A poesia não é sob o golpe. A poe-
sia não faz explicar o golpe. Não é para suportar o golpe. A poesia
não é o bálsamo que conforta os pés queimados do golpe sobre
as brasas apagadas da democracia.
Não existe poesia que ligue um cidadão ao golpe. Não existe
poesia que permita pensar o golpe. Não há poesia para dialogar
com o golpe. O golpe não é mensurável, o golpe não é incomen-
surável. A poesia não é uma medida do golpe.
Nenhuma teoria da poesia é capaz de dar conta do golpe. Não
é possível uma teoria do conhecimento do golpe. Uma filosofia
política do golpe. Uma estética do golpe. O golpe não se explica
na ciência, na medicina ou na botânica, na antropologia ou na
psicologia, na geologia ou na física quântica, na cartomancia ou
na leitura das mãos dos golpeados ou dos golpistas. A poesia não
é a expressão que sobrevive ao golpe porque a ciência falhou em
impedir o infarto, em ver a anatomia do golpe.
É que a poesia não tem nada a ver com o golpe. O golpe não vê
a poesia. O golpe aparece quando a poesia desaparece.
O golpe está onde a poesia não se deu.
É onde não há nudez.
Não há poesia onde há golpe. A poesia não conversa com o
golpe, a poesia não concorda, a poesia não sucumbe. A poesia
não se perde, não se entrega, não se impõe, não entra em traba-
lho de parto pelo golpe. Não dá a mão em cumprimento amigá-
vel com o golpe. A poesia não morre por um golpe. Por quantos

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onde corpo e espírito nunca foram diferentes. Nenhuma elaboração do golpe é suficiente. a greve geral. Em que parte de nosso corpo a picada venenosa. que facada. o pontapé. Não existe uma poética do golpe. que teto. o golpe atinge é dentro de cada um. venha de cima. Sentimos o golpe sem saber onde ele se deu. que tiro. a pedrada. nunca entenderemos o golpe. No lugar onde somos. venha pelas costas. o pneu em chamas. Não existe poesia depois do golpe. a pedra. que coice. as vias impedidas. que parede. A poesia persiste e nos dá a mão com que escrevemos o texto. seja contra nós. o golpe pode ser gigante. a relação que a poesia tem com o golpe é única: a poesia é contra o golpe. Mesmo que o golpe venha de fora. A poesia é o fora do texto para onde o texto olha a abrir com as armas perigosas da palavra a passagem para a vida revolucionária. que soco intransponível. a poesia se insurge. O tamanho do golpe é o da tristeza que ele causa. o soco. um texto que se lança como pedra contra as vidraças transparentes do golpe sempre pronto a impedir a vida para dar lugar a espectros. seja contra cada um. Não importa o tempo. por mais que o golpe seja contra todos.golpes o golpe seja capaz de produzir. O golpe é grande. A poesia pode ter apenas uma relação com o golpe. O que existe é a poesia con- tra o golpe. venha de baixo. 8 . a encosta. O golpe surge. não importa como. A poesia contra o golpe é o cuspe.

Sociedade fissurada (Record. 9 . todos publicados pela edi- tora Senac-SP. Filosofia em comum (Record. 2008). 2011). Filosofia brincante (Record. Olho de vidro (Record. 1999). Unisinos. 2012). 2004). É colunista da revista Cult. Publicou diversos livros de filosofia. 2013). Diálogo/ci- nema (2013) e Diálogo/educação (2014). Filosofia pop (Bregantini. Publicou também romances: Magnólia (2005). Filosofia prática: ética. Diálogo/dança (2011). 2014). A mulher de costas (2006). É autora ainda dos livros Diálogo/desenho (2010). filosofia ou coisas do gênero (EDUNISC. 2011). 2015).Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia (UFRGS. Em 2015 publicou Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (Record. O manto (2009) e Era meu esse rosto (Record. Diálogo/fotografia (2011). vida virtual (Record. entre eles  As mulheres e a filosofia” (Ed. Mulheres. Filosofia cinza: a melancolia e o corpo nas dobras da escrita (Escritos. 2008). vida cotidiana. 2002). 2010).

por certo. um dia serão grandes e irão se orgulhar de terem nascido numa época de lutas. .ao estêvão ferraz e a todos os pequenos que nasceram durante a idealização e fechamento da antologia-manifesto.

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todos sabem

as pessoas
como todos os dias
jantam
guardam a louça, tomam café
fumam
conversam sob a lua
urinam, transam, contam piadas
falam sobre autopeças
ou um lateral-direito de um time
as pessoas escrevem artigos, publicam poemas, produzem chips
e pneus
fazem planos de viajar, tomar sol, mudar os móveis da casa
as pessoas cuidam de seus filhos, prosperam, brigam pelo
direito a uma vaga no estacionamento do shopping
as pessoas se previnem, ou não, contra o HIV, o H1N1 e o aedes
aegypti
vejo
daqui da janela
os prédios em seus lugares, as casas em seus lugares
os pés e as cabeças das pessoas nos seus mesmos respectivos
lugares
e alguém assobia na rua enquanto leva um cão para passear
hoje e amanhã
como dias quaisquer
nascendo naturalmente de noites, madrugadas
com a sacudida do sol ou a lufada gelada do vento
as pessoas

mas
maquinaram um golpe
e o país
vive
neste exato momento

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em estado de exceção
os homens e as mulheres que eu vejo daqui não se espantam
não cerram os dentes atônitos
não sangram pelos olhos, não gritam
continuam empurrando seu dia, saboreando seu silêncio
ressonando o sono cínico
(os sonsos essenciais de Clarice
o que somos)
na sala do apartamento esperando

a infâmia abateu o país?
estamos vivos, inabaláveis, inamovíveis na firme rotina

a nação foi usurpada?
o usurpador dorme tranquilo
ou toma chope em Ipanema
seguindo liso seu caminho
o riso escarninho
dos que maquinam golpes
e golpeiam
sorrindo
sem nenhum ruído

a voz dos pobres dos pretos dos índios
é divertida
a voz do usurpado, banguela, mal fala
divertida
a voz do peão nordestino puta bicha bandido drogado sapata
traveco morador de rua
divertidos
quando horrorizada, essa voz
é divertida
o ditador ri
apanha o riso no ar
é aplaudido

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o ditador é esperto, sério, reto, engraçado
divertido
o salário mínimo do peão, a carteira de trabalho da empregada
doméstica
divertidos
ingênuos, ridículos
conduzindo jegues, pronunciando “conzinha”
eles são, todos sabem disso, divertidos pra caramba
o mundo não pode ter perdido toda sua graça, vejam só, o
ditador comenta
e ri
é aplaudido
ladrões craqueiros pedreiros favelados sapatas bichas lésbicas
não são exatamente gente
é diferente ser gente
todo mundo sabe disso, está no ar
ele ri
o ditador fala em tortura
é aplaudido
fala em defesa da família
da moralidade, do brasão com seu nome
sobram aplausos
“eles não são exatamente gente”
afinal gente
não se deixa levar
gente não deixa barato
olha isso: gente é menos engraçada
desses aí, ó – dá dó
mal sabem pegar elevador, escada rolante
e obrigar-lhes a andar por bibliotecas, pegar avião, trem
noturno na Europa
é lamentável
um desperdício
dá dó, vergonha
índio preto pobre

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comem paçoca
farinha
feijão
mandioca
são acostumados
todos sabem
imploram esmolas
são também espertos
inventam traquitanas
dão corres
mas
as mudanças se aproximam
Hoje é
um novo
dia
de
um novo
tempo
que
começou
alvissareiros dias
tudo se encaixando novamente em seu
perfeito
lugar de origem
coisa sagrada isso, gente:
a sagrada família romana protegida da conversa encachaçada
dos bolivianos
a sagrada família livre da promiscuidade de mulheres que
falam em direito
e sabem que não são nem um pouco
direitas
todos sabem
os índios os pretos
as bichas
os travecos

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todos sabem
não há golpe,
nunca houve
é só a vontade do mais forte.

Adriano de Almeida é professor e pesquisador em literatura, au-
tor do livro Entulhos e do blog não basta. Quer usar todas as letras
possíveis para denunciar o GOLPE.

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| GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR
FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA |
JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO C

Jornal do Brasil, 
11 de maio de 2036.
Por Alessandra Safra, São Paulo, 23h13

Vinte anos do manifesto A Greve do Ventre 

Encerraram-se há pouco os atos nas capitais do país sobre os
vinte anos do manifesto A Greve do Ventre. Os movimentos
sociais culminaram, nesta noite, na representação central das
Mulheres em Luta e fizeram um balanço geral do que aconteceu
nesses vinte anos pós-golpe de 2016. Embora tenham apurado os
índices e impactos significativos do apoio positivo das mulheres
à greve, não houve absolutamente nenhuma comemoração. 
As autoridades já buscam insistentemente dialogar, no entanto a
decisão foi unânime: não haverá diálogo, o manifesto é inegociável. 
A questão central de A Greve do Ventre objetiva basicamente
não gerar “escravos modernos”, de acordo com a inferência de
que o sistema vigente transformou os seres humanos, e propõe
assim uma nova ordem mundial com “direitos universais e ética
prática no respeito à vida e ao meio ambiente, em toda plenitude
e complexidade que isso implica”.
O golpe das eleições “teocráticas” – e alguns estudiosos afir-
mam ter sido este o objetivo inicial da tomada de poder em 2016
– contou com a seguinte e bem-sucedida estrutura: 1) A mídia
nativa engendrava os fatos, fazia uso de psicologia de manipu-
lação das massas e repetia mentiras até torná-las verdades; 2)
Grupos financiados inflamavam a população e falavam em nome
dela; havia mercenários em todas as instituições. Além disso,
políticos corrompidos e empresários corruptos geravam crimes
implantando provas contra quem se opusesse à conspiração; 3)
E, para finalizar o golpe, anunciavam processos jurídicos, via
sentenças graves em que o oponente do regime era punido com
prisão quase perpétua; sem defesa, já que não havia justiça. Tudo
era vendido como natural e legal. 

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obrigados a seguir as leis de Deus e gerar muitos filhos em suas esposas. 2012). de forma ininterrupta. como Gera- ção em 140 caracteres (microcontos. Dedos Não brocham. [dedosnaobrocham@ gmail. que há cinco anos quei- maram os meios de comunicação a serviço da ditadura teocrá- tica capitalista. Geração Editorial). mas de toda a humanidade. o primeiro pastor foi eleito presidente. publicou  Dedos não bro- cham (Draco. a igualmente terrível le- galização do “estupro dos maridos”. o manifesto A Greve do Ventre tornou-se o mais inquestionavelmente revolucionário ato da história. Desde então. Após os atos das Mulheres em Fúria. o horror se sucedeu. Neste cenário. segundo a Vontade de Deus”. O inominável ocorreu também nos presídios femininos – muitos e lotados –. afinal “toda mulher com 18 anos ou mais precisa cumprir sua missão genitora. A história registra desde a brutalidade nos campos de trata- mento da sexualidade. em que as primeiras a aderirem à Greve do Venw tre foram sub- metidas ao estupro para que a “lei de Deus fosse respeitada”. visto que diversas nações opressoras se afligem hoje com a possibilidade de o manifesto ser incorporado por mulheres insurgentes. Ale Safra  (São Paulo/SP) é escritora. não só bra- sileira. Tem textos publicados em várias revistas eletrônicas e mantém sua página. que eram mantidos pelo governo teocrá- tico com a finalidade de tratar os “distúrbios do pecado” – como informavam as propagandas estatais. Participa de algumas antologias. ativa no Facebook.com] 19 .

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artista-educadora. Pronta pra luta em tempos de golpe.Alessa Menezes é pernambucana. Costuma sorrir quando é chamada de Maria Bonita. 21 . acredita que o “ideal seria se não precisássemos lutar todos os dias pela causa feminina”.

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matando toda esperanza.“…Y asi van destruyendo el mundo. Como estan secos y huecos. y ya no se acuerdan de cuando eran humanos. aniquilan todo sentimiento real con el cual se en- cuentren. todo latido de vida los molesta…”  (Performer: Alessandra Cestac / Foto: Pedro Bigali) .

Como estan secos y huecos. de mandatos. Ma- tan indirectamente. Hay que reconocer que entre ellos hay un codigo muy fuerte y se cuidan entre ellos. Y si uno anda dolido. matando toda esperanza. no porque ella los disguste. porque saben que ya no pueden volver a ser humanos. mas cínicos. les cree ciegamente. les es imposible volver atrás. Sombrios. desesperanzado.Los vampiros existen. Ellos no se alimentan de sangre como se piensa. se alimentan de la dignidad humana. casi porque cuando la luz del dia desaparace ellos no pueden evitar mostrarse tal como son. es donde se vuelven cada vez mas fuer- tes. todo latido de vida los molesta. las ganas y la vida. (Veronica Cestac 13/05/16) 24 . han aprendido a mimetizarse con los hombres. lo que importa es que venga. Huyen de la oscuridad porque es ahi donde son desenmascarados. Han aprendido a disfra- zarse de hombres casi a la perfección. frios y sin corazón. Se aprendieron todas las palabras acertadas y empezaron a dar otros nombres a las si- tuaciones. mas mónstruos. seduciendo con su oralidad. Los vampiros ocupan muchos cargos de poder. quieren que todos sufran porque estan arrepentidos y su deseo desmedido y su terrible envidia por vol- ver a estar vivos los tortura dia a dia. vida tras vida. escondiendo sus intencio- nes. Y asi van destruyendo el mundo. aniquilan todo sen- timiento real con el cual se encuentren. Han apren- dido a parecerse buenos y confiables. detras de leyes. chupan el alma. de contratos y firmas. y como mienten dicen que otros nos mienten y si uno anda distraido les cree. Mienten porque no podrían decir la verdad. Los vampiros no van a parar hasta que el mundo deje de existir. Como hace mucho tiempo que están en este mundo. Como pre- cisan mucho mucho dinero para esconder su jodida condición de vampiro y su hambre insaciable no les importa de donde venga el billete. y ya no se acuerdan de cuando eran humanos. asi que tienen muchas maneras para que no los descubran y asi puedan seguir alimentandose libremente. Se aprendieron muchos artilú- gios para poder pasar como hombres de bien. La oscuridad es su habitat.

argentino/brasileiras. irmãs. das fotos. sem pressa e com muita fé. vão fabricando e propondo um melhor lugar para se viver. Netas de artesãos. filhas de artistas plásticos. não são capazes de viver e enxergar o mundo fora de uma visão cheia de arte. 25 . mi- metizadas e construídas nessas duas culturas. do tear. Através da escritura.Alessandra e Veronica Cestac.

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assim o valor fica razoável para ambos. não dá pra ver de tudo ou acaba a franquia. acho que men- talmente trocamos confissões. mas não direto. pois agora mulher só trabalha mesmo como diarista. paz. Desliguei o note e olhei para o cronômetro. Fui espiar a net e assim que conectei acionei o cronômetro. os aplicativos ficaram inviáveis e chat então nem pensar. Precisava ir ao mercado e separei o dinheiro. No elevador. Face. cuidar do lar e ser a mulher literalmente atrás do homem. Brasil Acordei com vontade de esfregar na sua cara minha viadagem. mas com os novos planos. Ele me contou que andava subindo pelas paredes. whatsapp e celular nem pensar e as operadoras andam mais rápidas no corte do que a Revolução Francesa. caixa e essas profissões em que um toque feminino é essencial. mulher jovem que abandonou a carreira para cuidar do marido e filhos.Bom dia. Vesti a roupa mais discreta e seguro de que nada estava afron- tando. Esperando o elevador encontro uma vizinha. Comecei com um pornô em baixa resolução (HD nem pensar!) aliás. amor e trechos do evangelho. estava tudo lindo. enfermeira. descemos olhando 27 . divididos até o fim do mês. tão baixa que não sabia se eram pessoas trepando ou um teste Rorschach. Chamei um amigo no inbox e pedi que ligasse no fixo. peguei a sacola e fui. Ficamos num silêncio amargo. desliga e liga para o outro. cartões só para morte ou acidente. O telefone tocou em seguida e temos um esquema. todos viraram tem- plos. ainda rola uns dez minutos de Netflix. fora isso tem de ser recatada. Depois. cada um fala cerca de três minutos. desisti. choramos nossas mágoas e nos despedimos. mas agora a polícia pega pesado e como entre o hospital e a ca- deia nenhum é boa opção. cinemão e boite é coisa do passado.

O mercado estava lotado e as filas quilomé- tricas. Nos separamos à rua. Alexandre Willer Melo – Pode ser fantasia e deveria mesmo ser. compro meia dúzia de produtos que o dinheiro permite e vou pra fila. sem troco. quarenta minutos depois saio do mercado com um sacolinha. a eterna vigilância pegou há tempos no sono. suor escorrendo pela testa e a certeza de que amanhã será um dia muito pior. 28 ... caso não fosse algo tão próximo de nossa realidade atual.os números em contagem regressiva que para nós acabou há tempos.

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caminhou um instante com o rosto meio tonto de quem não sabe bem o que fazer. Gos- tava do parque por causa do silêncio repentino que se instala na Avenida Paulista. Henrique entrou pela aleia principal. o alívio de ter deixado para trás horas e dias em estado de seriedade. todos com caras escondidas atrás do rosto. piadas. Mas o senhor desculpe a demora. detivemos muita gente. no outro lado dessas vidas que Hen- rique via ao redor dele e nas quais sempre valerá a pena penetrar. – Cercamos todo o parque. Não devia estar fazendo nada de bom naquele lugar. Foi andando pela Avenida Paulista com dois colegas – conver- sas. e aqui fora o céu azul das tardes majestosas de setembro. caras ocultas que Henrique gostava de descobrir. Seria mais fácil uma boa conversa e um papo já era uma aventura. um travesti assassinado. quando ficou só. as bancas de revista. como se desafiasse à cidade. não era o melhor momento. Demorou-se nas despedidas com os colegas. – Foi um crime sem importância. Estava bem con- corrido nessa hora. uma cerveja.Parque Trianon essa sexta-feira henrique Montes saiu contente da faculdade. Olhava para os homens. e. pois acreditava ter aprendido a viver sem sofrer ditaduras e gol- pes que ferissem sua juventude. as que se filtram pelas fissuras 30 . Trouxemos seu filho porque ele não apresentou documentos. Henrique sentia o tempo apenas passar: era liberdade demais dentro dele. ver os caras na hora de afrouxar a gravata e descontrair-se já é ace- der a aventuras minúsculas. Henrique atravessou a Alameda Casabranca e não soube se con- tinuava até a Rua Augusta ou se entrava no Parque Trianon. pessoas sorrindo. mas sempre ha- verá mais aventura no parque que nas galerias da avenida. a tarde azul e alheia. a juventude anda perdida. Dezoito anos.

O silêncio das 31 . fez o gesto – a cara ainda de Fauno – para que Henrique entrasse com ele na cabine. A coisa não demorou. Presos no camburão. disse um jovem. chegou polícia”. aos dezoito anos. pre- cisava possuir de alguma maneira. – Claro que seu filho não tem nada com o crime. desviou o olhar: aquela estátua trazia azar. e da viagem só ficava o suor. como sempre. durante o qual o rosto ainda é de pedra. tinham os rostos outra vez pétreos depois da viagem por caras transfiguradas. atrás do colégio Dante Alighieri. “Sujou. foi assassinado com uma navalha. um leve movimento do nariz. o banheiro público – não era a primeira vez que o frequentava . Passou frente ao Fauno e. Quando saíram. frágeis do rosto: um olhar. Por isso o colocamos nessa sala com aquele outro que parece que é professor. Sentou-se e aconteceu o que o irritava. as caras que Henrique. meio experiente. que o jogo se invertesse e fossem os outros os que penetrassem pelas fis- suras do seu rosto. meio assustado.que será sempre o lugar mais propício para essa espécie de ma- gia que torna as caras brandas e inocultáveis depois de algum manuseio na braguilha. nascido no Uruguai. um rosto de pedra. Encontrou lugar num dos bancos antes da Ala- meda Santos. Ninguém falou. Veja com que companhias anda seu filho. – Sim. Já sabemos que ele é estudante. como o Fauno. Pensamos que seu filho era menor. Veremos que aulas vai dar a ele. O Indivíduo. um lábio apertado. por isso intimamos o senhor em Santos. Foi então quando Henrique viu o guarda do banheiro fazendo para os Faunos presentes o gesto solidário – pensava em dinheiro? – de avisar que saíssem rápido. Levantou-se e não hesitou: iria ao banheiro. iam duas tra- vestis e um rapaz de vinte e cinco ou vinte e seis anos. músico de profissão. além de Henrique Montes. de aliança no dedo e pasta na mão.

No rosto do quarto homem estava estampada a cara da humilhação. Alfredo Fressia é brasileiro e nasceu há 326 anos em Montevidéu. igual aqueles anjos de mediana elegância que viviam dentro dos poemas. 32 . Sempre foi torto. O silêncio de Henrique era de surpresa. Queimou incunábulos em Santos e folheou histórias da democracia de Péricles sentado na ágora de Éfeso.travestis era um silencio profissional. no Uruguai.

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Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte. apavorem-se com estas palavras feitas de hífens bem no meio: ninguém está aqui para esclarecer a que veio. 34 . descon- tente com um país em que cultura e educação são sempre os pri- meiros pilares a serem golpeados. esse mesmo: tão distante de vocês quanto a dignidade. 40 anos.Mesó-crise consertá-lo-ei (não temos compromisso – com o erro) encantem-se com meu português castiço.

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6. carne solar. 9. até desinfetar. só as flores e os incêndios podem ser legítimos e os sapatos sangue. à revelia elas erguem-se transparentes – pelo contágio. só por sangue. Em tempos mais sombrios. 4. 5. amanhã não haverá lenha de todas as manhãs que ainda podemos ter é apenas hoje esse fogaréu. gravatas. 3. junho. essas águas tão mínimas. gravatas. 2. as primaveras estão encubadas nas retinas. nódoa. flancos. ternos cinzas. tenta sempre se lembrar de que “a arte é garantia de sani- dade” / “a arte é garantia de sanidade” / “a arte é garantia de sanidade. girar. é amargo o coração do poema. há ratos em toda parte.” 36 .dos fogos. não cabem nesses dias. girar. cortado a prumo à golpe frio como disse o Herberto. ainda sim. estamos entre cavalos cegos é tudo o que há para ver: galopes galopes mesmo que nos digam que abaixo há somente pedais. não há mais mulheres escondam as sombras debaixo da tapeçaria disfarcem com lenços. 7. Ana Estaregui vive e trabalha em São Paulo. ternos azul petróleo. 8. a faca 1. que tem escarpa. 10. escondam os rostos.

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a má fortuna e as flores tamo aqui na mágica do embuste de ficar em pé como pedra de gelo ao sol de sacudir a poeira. de segurar a água com a peneira te digo. Sonhos bonitos também dão medo. Nem sempre dá certo. 38 . Tem dias em que o assombro é tanto que se refugia nos fones de ouvido. não desce não assanha o formigueiro se o céu cai a gente fica Ana Rüsche sempre tenta estar nas ruas escutando. aqui não é lugar pra principiante se não guenta.sobre o céu que agora cai em nossas cabeças te digo. um golpe não abolirá o acaso não abolirá a sorte.

BELLÉ | JULIÁN FUKS | JU .PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS |FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR.

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. Republicano. aprecia golpes em campeonatos de judô.André Dahmer é carioca do ano de 1974.

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André Vallias é poeta. 43 . foi contra o desmonte da gestão Gilberto Gil no MinC e é contra  qualquer governo que construa Belo Monte.

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– Mãe. O gestor de conheci- mento avisou: se eu falhar em outra meta. A luz ainda entrava pe- las paredes de vidro. Eu não. E tentava dormir. Mesmo que com algumas interrupções – uma bomba que caia mais perto. Cada minuto se fincava no chão como uma grade. então. o que restringia a minha possibilidade de sono ao período das oito às onze. mas moralmente fraca. Eu já havia transitado por uma gama de sensações diante do mesmo episódio. eu me sentia culpada. ficávamos deitados. Eu respon- dia aos protestos como uma atriz que sabe eficientemente de- sempenhar seu papel.Muralha A hora mais difícil era às cinco da tarde. Era absolutamente cansativo ouvir a argumentação dos dois todos os dias. um invasor que usava o megafone para ampliar seus grunhidos de ordem para a turba – os meninos dormiam.. que há mais de um século tinha escrito algo sobre como uma criança mere- ceria mais do que um teto escuro e sem estrela. a gente precisa mesmo desligar a luz agora? Ainda não tô ouvindo nada. O fracasso dessa aspiração a tinha feito desistir da vida. Nos primeiros meses. Depois. antes que os disparos de balas e explosões. Talvez um pouco como a poeta americana. Quando a fachada do condomínio era trancada. o cansaço foi destruindo minha empatia. Dizia o que mais rapidamente fizesse aca- bar a conversa. que se fechava às sete em ponto. O tempo.. vou ser rebaixado. adormecer e acordar em inter- valos curtos me deixavam não só fisicamente desfigurada. atingissem seu auge. ganhava uma estrutura me- tálica. No resto da noite. – E eu não terminei de fazer as tarefas. Naquela época em que as pessoas escreviam e se matavam (Hoje não há mais tempo para o suicídio). Diante do espelho. mas já começávamos a espalhar os tatames pelo chão da casa. lá pela meia-noite. uma estranha ia surgindo. íris pardacentas transformavam os olhos – antes janelas – em 45 . Pálpebras roxas.

desde sua primeira foto oficial. Acredita que é preciso união para levantar uma enorme carranca contra quem dá como certa a vitória das leis de mercado sobre os direitos humanos. relinchando aguda- mente quando encontrava a morte diante dos nossos muros. sozinha. A cara feia só piorou nos últimos meses.abismo escuro. E pouco a pouco fui odiando cada vez mais tudo o que me sobressaltasse. Mas nesses dias difíceis. não assusta. quando fez três anos. A população que diariamente insistia em atacar e saquear o condomínio. estava brava. meu único alento era A Guarda Unificada com seus can- tos de guerra e pés marchando ordenadamente. 46 . As perguntas impertinentes das crianças. Andréa Catrópa. mas. Talvez voltar a sonhar. Os risos ocasionais dos vizinhos. Eu precisava reencontrar algo que rompesse com essa sensa- ção de aprisionamento.

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Amanhã ele vai ajudar Osório pentear o café no terreiro. assim ele não trabalharia debaixo de sol. testa. 48 . pega um mato pra chá que ele tá com dor de garganta. nem adiantava. curau. – Nico já perdeu uma mãe. os braços. fogo. que daquele jeito não ia render. por fim todo o balde pelo corpo magro. Nico abriu e revelou uma amígdala inflamada. Molhou a nuca. Levou com ela o garoto. fingiu dar a ele o unguento certo. o filtro de barro era seco e vazio. – Ser teu filho vai mudar nada. – Vai deitar. Amanhã ele começa no café – ordenou Geraldo. Dei- xou que a garganta inflamasse até um limite possível. A febre se mantinha. boto ele pra trabalhar do mesmo jeito. – Deixa ver tua boca. Tratou de Nico com uma erva qualquer. levantou-se e foi à cozinha. Nico levava para o cafezal o almoço dos trabalhadores. ia dar mais trabalho. papel de tabaco. Os dias correram. a lenha em brasa deu um halo vermelho ao menino. moleque – disse Tizica de camisola. Dia seguinte. Na tua idade. Tizica veio dizer que o garoto estava febril. óleo. não demora ele perde outra – respondeu Geraldo. Tizica cuidava da casa e tirava o que podia de uma espiga de milho: angu. Numa madrugada. Foi à cisterna puxar um balde com água. cintilando. – Como ficou o corpo da tua mãe? A empregada não descansava desde a chegada do menino. – Vai te esfriar. que sorveu o frio madrigal. – Vou ficar com o Nico. Levantou a camisa dele. numa manhã foi ter com o patrão. os sabugos de milho estalavam no calor do fogão. vestígios do raio ficaram nos olhos. Ao encostar nele percebeu a febre. Tizica levava bolo para o quarto e especulava Nico. – Tizica. dei- xando o pulmão tomar raios lunares. mais um pouco matava as enzimas que transformam farinha de trigo em célula humana.

Questão de minuto e o patrão engatilhou no alpendre. Alemanha. afronta e revela. Andréa del Fuego nasceu em São Paulo. A literatura foi a maior descoberta da sua vida. Fosse. pois tem por certo que ela é um software que gera paisagens. publicado em Israel. Não viu os dois no terreiro. Nico gritou com o tiro. Tizica ouviu barulho no mato. direções. França. Portu- gal. Geraldo sairia com a espingarda. romance vencedor do Prêmio Saramago. O lobo caiu perto das cebolinhas. podia ser lobo indo sondar gali- nhas. ela estava sentada. e. Trecho de Os Malaquias. 49 . Mais ainda. Itália. imóvel. mesmo quando se conforma. mapas. acredita que literatura é resistência porque ela mesma não se conforma com a gramática. Suécia e Argentina. O barulho se aproximou. Romênia. Nico adormeceu no colo de Tizica.

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Não esquece de pagar o plano de saúde. amor. Eu não apoiei o golpe.. Eu não apoiei o golpe. Cuidado com ela! 51 . Bora num supermer- cado maior. baby. Ah. por favor. pode ser uma gol- pista por tabela. compra óleo de soja. Como esse povo tem coragem de apoiar este golpe? Pelo amor de Deus. Não dá pra colocar ele na escola pública. é. amor! Acho que dá pra pagar em 20 anos. bem no fundo.. não. Que tipo de formação ele vai ter? Eu não apoiei o golpe. No whatsapp: linda.Tô morrendo de vergonha do Brasil Acabei de ver aquele apartamento da Odebrecht. O povo brasileiro é muito ignorante. você viu meu post sobre isso no Facebook? Anita Deak acha que no fundo. que gente burra! Será que eles não estudam? Pois. Eu não apoiei o golpe.. tem mais opções de marcas. Eu não apoiei o golpe. e a direita só pensa no lucro. não vamos no mercadinho. Aliás..

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poeta e professora. Tem medo das ditaduras silenciosas e dos microfascis- mos.minhas palavras batem nas paredes alguém em casa? quais são as dúvidas maiores diante da porta fechada diante de um muro só teríamos de perguntar como abatê-lo como fazê-lo esses cacos ruínas de uma velha divisão hoje nada é partido ao meio nada além de uma mesma ordem mesma história de todos alguém em casa? alguém que nos ouça quando gritamos descalços no corredor com os cabelos molhados alguém nos ouvindo? minhas palavras batem nas paredes vazias ouço o eco das minhas palavras o golpe no vazio as dúvidas maiores diante de um muro a única coisa a fazer abatê-lo mas as palavras ecoam no vazio elas mesmas vazias golpes sem sentido se o sentido é aquilo que importa elas perdem isto: aquilo que importa perdem se perdem sem sentido em um mundo tornado único em um mundo que contempla ruínas mas alguma coisa havia antes abater um muro arrombar a porta fechada um mundo esperava por detrás hoje as palavras batem nas paredes batem golpeiam o oco das paredes e alguém ainda poderia ouvir? Que peut-on contre um mur sinon l’abattre? Edmond Jabès Annita Costa Malufe.  53 . Só vê saída na educação. nasceu em São Paulo em 1975.

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Sem chão A faca nas costas Sem crime A faca nas costas Sem constituição A faca nas costas Sem presidenta A faca nas costas Sem legitimidade A faca nas costas Sem mulheres nos ministérios A faca nas costas Sem negros nos ministérios A faca nas costas Sem LGBTT a faca nas costas Sem MinC. sem desenvolvimento agrário A faca nas costas Sem ganhar eleições A faca nas costas Sem plano de governo aprovado nas urnas A faca nas costas Sem direitos constitucionais inalienáveis A faca nas costas Sem investigações A faca nas costas Sem previdência A faca nas costas Sem SUS A faca nas costas Sem farmácia popular A faca nas costas Sem cotas. sem direitos humanos. sem Prouni. a faca nas costas Sem Bolsa Família 55 . sem Fies.

56 . Beatriz Seigner é cineasta e não consegue acreditar naquilo que estamos vivendo. sem Mercosul A faca nas costas Sem autonomia do FMI a faca nas costas Sem Reforma Política A faca nas costas Sem auditoria da divida pública A faca nas costas Sem reforma agrária A faca nas costas Sem democratização da mídia: A faca nas costas.A faca nas costas Sem comida na mesa a faca nas costas Sem fundo de garantia para trabalhadores domésticos A faca nas costas Sem pré-sal A faca nas costas Sem BRICS.

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e vive em São Paulo. em Duque de Caxias (RJ). 58 . não reconhece Michel Temer como presidente. É poeta.Bruna Beber nasceu em 1984. publicou alguns livros e. claro.

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Vocês sabem quem. Nada a temer a quem não tem nada. O que eles temem mesmo é aquela mulher de vermelho. Menos aos que venderam a alma. pano puído e pútrido. de mil e uma cores. eles não sabem dizer. Eles não são capazes de dizer. as que sempre foram. As palavras em uma bandeira. elas têm estrelas e ferramentas e caveiras dos que morreram. puídas e pútridas. aquelas. artista. Máscara mortuária.Blasfêmia de vermelho As cores. voltarão a ser. mas da máscara. As palavras agora são outras. Nossas bandeiras da dor e da luta. Blasfêmias. que tomara sejam outras. nós as brandimos e estendemos com nossos corpos. pano roto. canto. reinando no patíbulo. mulher. não sabem dizer o que amam. As bandeiras. acuados pelo vomitório da geral. As palavras. a dor da doença não dói no corpo. que não dói. As palavras. dança. das máscaras. As ban- deiras agora são outras. Nossas palavras de luta e de dor. eles estão sem palavras e eles as procuram em bandeiras rotas. que não re- presentam mais. bandalheiras. que são outras. Levante. a dor que alimenta. vagabundo. não do suor ou do gozo. instalados no cadafalso. deveriam ter sido. As palavras que lemos. já são. mas eu sei. Mas eles não podem dizer a que vêm. vestida em vida. o corpo sem nada. não sabem dizer o que temem. A dor da tortura não dói no útero. Não da limpeza. nem valiam. elas são de sete tons. blas- femas. que não se vestem mais. As bandeiras. Não sabem o que amam. Blasfemas. que devem ser outras. não da terra. contragolpe. O que eles temem mesmo. 60 . vertida em privado. Menos aos que odeiam o corpo. o corpo solto. Eu sei o que eles temem. que deve ser outra. as pa- lavras vestidas de ordem e progresso. o corpo que dança. ocupação. Uma bandeira que hoje. As palavras que hoje. Agora. A dor do golpe dói na alma. sempre. menos aos que não sabem o que é o corpo. Quem tem é que tem a temer. desses aí. As cores. vivendo no purgatório. menos aos que não têm corpo. blasfêmia. que não valem mais. nada a temer. a dor da injustiça não dói na pele. A dor. baderna. nem nunca. Uma bandeira que hoje é pano sujo. Quem tem a temer são eles.

Este texto prosaico. 61 . a Clara. é dedicado à presidenta de vermelho. inspirado em poesia (salve Angélica Freitas e Ricardo Aleixo!). com quem está há uma década.Bruno Zeni. e ama a Sílvia. tem uma filha de um 1 ano e meio. 41.

BELLÉ | JULIÁN FUKS | JULI .PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS |FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR.

OK. ele disse isso no século passado. Fato é: após o golpe constitucionalista não tivemos outra opção. Espero que deixe de valer o quanto antes. fala. Já não sei mais o que fazer com nossa esquerda. acabou dando na eleição do Bush. esquerda caviar ou esquerda avatar.Camarada Don’Otoni. da PM. Eu sei o que esperar dos políticos. A ideologia vinha primeiro. No caso. Fazer-se compreender a sutil diferença entre “coup” e “putsch” por exemplo. Pelo visto ainda vale. não se trata de picuinha com A ou B. tendo sempre em mente: todo ser humano é um monstro em potencial. dividida entre 1937 e 1964. Pra talvez conseguir entender de vez no que aquela tormenta 63 . Ninguém parecia se dar conta de que não. Economia? Desonestidade intelectual é hoje nossa pior crise: assolando (dicunforça) o país desde junho de 2013. estamos em 2016. que se “esses movimentos vão conseguir algum efeito político imediato (.. Venho aprendendo o que esperar da esquerda com o passar dos anos. nem é hora de picuinha. É a política alucinatória”. Vê bem.. Cecília Fonseca? “Teve época que eu piamente acreditei que bastava ter opiniões de esquerda pra ser de esquerda. mas quem quer parar de falar um pouco pra escutar? Lembra do que a Ana C. não é de hoje.) pode ser um efeito negativo”. A gente fala. Com certeza valeu em 2013. Sabe. disse pra M. O que me faz lembrar do que o Mailer disse. O que não quer dizer que não possa piorar. O que esperar do judiciário. Em março minha TL estava num surto coletivo. Só acho que outras questões tão fundamentais pra além do iMediatismo das hashtags acabam ficando de lado. eu sei o que esperar da Globo.

Questão da mais pura lógica analítica. Onde já se viu. Nem quero pensar no desfecho desse desfile da Independência depois das não-Olimpíadas nesse Vermelho Agosto que mal começou. Talvez esteja na hora. Judas deu seu beijo. Até quando vamos pensar que a direita é burra? Não é. sobre o regime do Ceausescu na Romênia. Enforcou-se de tanto remorso na cadeia. os cem anos de reclusão. Há quem confunda política com intelligenza. Otoni. o progresso. quando muito. Não se trata de apelar pro método hipotético- dedutivo. Já não nos bastava o gigante nessa terra sem João nem pé de feijão? Lembro da vez em que a gente viu aquele filme. Há quem não tenha entendido nada sobre o Bessias. ao contrário: maior oportunidade pro direito enfim largar mão de vez do positivismo. de assumirmos cada qual seu brinquedo chapéu mexicano. “como recuperar a humildade sem cair na inferioridade? E como recuperar as pessoas que eu pisei nessa cavalgada das valquírias?” Como reverter essa onda reaça a tempo das eleições em outubro? Porque sim. 64 .polarizada pré-Temer deu: tanto direita quanto esquerda foram responsáveis pelo golpe. Dilma sabia estar sendo gravada. no quanto tu te empolgou com o que chamou de esquerda brinquedão. temos “eleições” em outubro e outubro é logo ali. “Contos da era de ouro”. Atearmos fogo na aldeia espanhola do Tio Nelson e nos embrenharmos pelo que ainda sobra de floresta América Latina adentro sem pedir licença pra malária nem milico. ordem? Importa. Até quando vamos rir dos Bolsonaro como rimos do Trump? O meme acordou. jogada estratégica de gênio. Não à toa. A questão primordial no entanto é: frente a esse Frankenstein sfeziano.

Nos vemos em breve. G. terrorista segundo o Estado e redige suas notas esteganográficas dos subterrâneos em http:// ciaocretini. os loucos anos 20.org 65 . Atento y fuerte. mas em bons trilhos. Foco e risco. Beijos na Ninoca.E que venham. Porro y suerte. porque hão de vir. Ishak PS: O casamento segue nos vagões da clandestinidade. Caco Ishak é escritor e pai da Malu.

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CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO
DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI |
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HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS
| DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ
| EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN
MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA
FALEIROS |FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI
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CUENCA | JR. BELLÉ | JULIÁN FUKS | JULI

verdamarelista
ou a voz do comprimido

xega de corrupisão!

a Gente sente ódio
da iguinorançia

sabe que as polícias
são pra defender o povo
- e descer cacete nos vandalos -

que uma mulher no plan’Alto
mesmo sem roubar, não presta

a Gente sabe
há mais de kinhentos anos
que preto e pobre não tem vez
num é, Gente?

vamos lutar pelo nossos direitos
em time que tá sempre ganhando
não se méxi!

Caco Pontes / é poeta brasilêro / sem ser ufanista / não dialoga /
com (des)governo / golpista / nem teme(r) quem te adora / a pró-
pria morte. Site: http://www.cacopontes.net/

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uma certa distância no tempo simplifica as coisas

permite que quase todo mundo diga o estado nazista cometeu
crimes terríveis
por exemplo

embora
numa sociedade mergulhada no regime nazista
na máquina de propaganda nazista
no projeto econômico nazista
em 1938
digamos
a frase o estado nazista comete crimes terríveis
provavelmente fosse amplamente contestada

a despeito das evidências

 *

é claro que os nazistas foram derrotados
o que simplifica as coisas

o estado brasileiro cometeu crimes terríveis durante a guerra
do paraguai
digamos
mas não há muito por que repetir por aí essa frase
a despeito das evidências

foi uma guerra menor
somos um povo pacífico
quem perdeu foi o paraguai

 *

não é preciso pensar muito sobre o nazi-fascismo

69

para dizer o estado nazista cometeu crimes terríveis

o que simplifica as coisas

podemos reproduzir práticas do estado nazista
digamos
e
a despeito das evidências
seguir repetindo essa frase
sem constrangimento

 *

a ditadura militar brasileira cometeu crimes terríveis
isso podemos repetir sem tanta contestação
digamos
mas seria melhor não falar muito mais do que isso
a distância no tempo não é tão grande assim
não é preciso esmiuçar esses crimes
ou que ideias os alimentavam
ou o que disso permanece
- a despeito das evidências

apenas essa frase já é plenamente satisfatória

o que simplifica as coisas

 *

não nos apressemos
somos um povo pacífico

talvez em alguns anos se possa repetir
houve um golpe parlamentar-jurídico-midiático no brasil em 2016
sem que a frase cause incômodo a ninguém

70

digamos

uma certa distância no tempo simplifica as coisas

vamos evitar os verbos conjugados no presente

a despeito das evidências

Caetano Gotardo é cineasta, escreve e tenta cotidianamente
olhar para as coisas sem negar nelas suas contradições e com-
plexidades.

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DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER
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MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA
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FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA |
JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO
CUENCA | JR. BELLÉ | JULIÁN FUKS | JUL

que fogem da sua sombra como uma criança que não tem dimensão de nada e buscam através de um golpe acobertar a verdade que escancara suas misérias. fotógrafo.  Estou a cada dia tentando destruir os resquícios dessa educa- ção que me assola por todos os lados e ao ver esse cenário polí- tico e lidar com um sentimento de derrota terrível. Uma mulher me ensinou a meditar e a minha guia espiritual é uma mulher. um país regido por homens ricos. pois não me identifico com esse universo. acreditar e tentar mudar o que for possível. covardes. Estou a cada dia tentando destruir os resquícios dessa educa- ção que me assola por todos os lados e ver esse cenário político é lidar com o sentimento de derrota. Não consigo nem ao menos estar próximo de seres como esses. desejos e motivações. A pessoa que me ensinou a duvidar e não ter certezas de nada é uma mulher.com seus sonhos. E para continuarmos a lutar. Minha refe- rência intelectual é uma mulher. só me resta ouvir e erguer a cabeça. brancos e criminosos é o cenário do maior pesadelo possível. 73 . Não somente para mim. Minha cineasta favorita é uma mulher. Converso neste instante como uma mulher que me diz efu- sivamente que não devemos desistir e nem ao menos nos sen- tirmos culpados diante dessa situação. montador. Busca desespe- radamente formas de dizer que não compactua com esse horror. Minhas me- lhores professoras foram e são mulheres. não me identifico com a cultura que proliferam . Caetano Grippo. já que estamos em cons- tante processo de luta por acreditar em mil formas de mudar o mundo.Minha melhor amiga é uma mulher. E estou atualmente perdidamente apaixonado por uma mulher. assim como meu maior exemplo de quem muitas vezes transformou o mundo é uma mulher. Então. cineasta.

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ainda. 75 . que a palavra possa refundar o mundo.grito a palavra como coisa dura cheia de pontas estatelada na parede tantas vezes atirada ao chão pisada a palavra seca partida ao meio cacos indecifráveis miúdos sílabas trincadas rascunhos tentando dizer desse tempo ou do que não há de durar como ela Carla Kinzo acredita.

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Glosa catanada bordoada cutilada  mossa pisadura cortadura incisão   gume corte intersecção  ablação  abscisão   paço palácio poda  pugilato pulsação  taça tapona  zurbada bernarda esborralhada délabrement débâcle bouleversement viravolta giravolta soçobro ura-naguê cambadela cambalhota sismo cataclismo varinha de fada quid pro quo recambó satrapismo cesarismo vexação 77 .

) Carol Rodrigues vive em São Paulo na urgência de um encanta- mento ágil. irrestrito e pós-racional. aesthetica manent” (O poder voa. a estética permanece. 78 .Mote “Potestatem volant.

BELLÉ | JULIÁN FUKS | JULI .PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS |FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR.

Manchas que só saem com muito alvejante (ment- ira). Mancar passos em aços batidas de ódios (em óleos) antigos. Marchar.Guia da semana. Go! Selecionar. A culpa que cabe a cada cu cura quem ataca e (pro- grama) impedimento ou linha-burra: Gol Vídeo Show Sessão da Tarde Vale a pena ver de novo Malhação: seu lugar no mundo Êta mundo Bom! Golpe 80 . Marcar. Go.

de es- querda. – É tarde. Charles Marlon: belo (há controvérsias). mas votou nele. antes do sono-justo- o silêncio dos inocentes. que teme. dor- mindo) e do bar (informação inconteste). Poeta de Osasco. te deitas. 81 . aquietas aprenda. pensa que golpe é golpe e é contra e não aceita o governo de Temer. recatado (às vezes. acha que o PT não é de esquerda. mas não compactua.

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  Considera-se um poeta armado que fornece as balas-poemas. pois que força mais poderosa que o grito das ruas dizendo BASTA? Claudinei Vieira acredita que as palavras têm força e que a Poe- sia é uma tremenda arma. 83 . é a rua a reclamar. a chacoalhar ouve esse som? são os gritos de indignação das vozes abertas. Mas são as ruas que têm o poder.a força das ruas sente esse tremor? é o ribombar do peso das pisadas determinadas a mudar o mundo. a bradar percebe esse sol? é o reflexo do brilho da força da rua que acordou e que não parará de crescer os pés marcam o ritmo as gargantas retomam o ritmo e de nada valerão as baixezas pois nada é maior que a rua de nada adiantará a escuridão pois nada brilha mais do que a rua de nada adiantará a força ah. é a rua a reclamar.

BELLÉ | JULIÁN FUKS | JUL .PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS |FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR.

três poemas dos cadernos bestiais hino à polícia Toca o terror – cabeças de arimãs reverberam féretros assanha-se histérica turba de behemoths damballas beherits capacetes visores escudos tonfas vidro moído ferro esturricado pneus incendiados entre balas de borracha rasgando rasgando vielas entrevértebras fantoches toscos fantoches-ferrabrás com fuzis automáticos de mira telescópica escarnecidos espectros em carros blindados para a contrainsurgência nas avenidas furiosas .

Asmático. Tem tremores nas mãos. O Apresentador do Grande Telejornal foi acometido de taquicardia supraventricular ou taquicardia patológica (há divergência entre os especialistas). O Apresentador do Grande Telejornal sofre de erisipela. E peida muito. hino ao congresso nacional Cabeças à venda – corvos corcundas traficam trevas. É cardíaco.de meu próprio país. 86 . antimídia vii (macumba poética) O Apresentador do Grande Telejornal sofre de terríveis dores estomacais. O Apresentador do Grande Telejornal tem dispneia paroxística noturna. É obeso. Tosse. Diabético. Psicótico. É impotente.

jornalistas. deputados. Claudio Daniel. pênfigo e dermatite herpetiforme. os Cadernos bestiais volumes i e ii (Lumme Editor. O Apresentador do Grande Telejornal tem câncer no reto. poeta e militante político. humoristas e outros setores envolvidos na deposição do governo legítimo e democrático da presidenta Dilma Rousseff. 87 . 2015). senado- res. apresentando retratos satíricos de juízes. publicou. policiais.eritema ab igne. nos quais faz uma alegoria crítico-poética do golpe de estado em curso no país. entre outros livros.

BELLÉ | JULIÁN FUKS | JULI .PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS |FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR.

89 . cantor e compositor.VOU COMER SEU CORAÇÃO Porque seguimos sorrindo quando não está bom Porque continuamos fingindo com as luzes apagadas com as trilhas abafadas Porque ainda nos seguimos Deixa ser bonito Deixa ser mistério Deixa ser possível Passarinho não morre na janela Amarildo não dorme no chão A neguinha não dança na boleia Carnaval de gigante exportação Ostentação Deixa ser bonito Deixa ser mistério Deixa ser possível Dan Nakagawa é diretor da Cia Àtropical.

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desritmia.sta.tes.ad.s p. esse projeto de país. bambeiam pecados. pimentam. ledo engano. ogum proteja. 91 .ia.s. nenhum ombro amigo.os. e tantas mãos projetam amarguras. nenhum ombro. poros há. nenhum. nenhum amigo.os l. d.or.t.s d.e p.d. esse pecado.ro. se lei ciam.o. to. esses dias de barulho desafiam não meus sambas. es. cuicam ideias.es.esses dias de guerra sangram meus olhos.mp. essa fumaça. esse projétil. ogum. a falta que rosa faz. amigo. esses dias de sangue molham meus olhos. silenciam júris silenciam justos. meu coração tolo soluça em vão.ido.s e.

é de todo osso que me diz o silên cio. de estouro e carne. Daniel Minchoni não é ninguém até que se restabeleça a demo- cracia. ou ao menos a anarquia. acredite não. são de enxofre esses slogans. não importa o que faz você feliz.** acredite. acredite. é de flor e de sol. acredite não. não é de mudanças que falam os coros. jamais do canto dos nossos passos. jamais dos braços que se perdem e das vozes tortas destoadas. são de ecos que falam os hinos. que se faz o vento a luz e até a tempestade e as ranhuras os rancinzas rezas e também os corvos e rancores. 92 . não acredita nessa cleptocracia.

BELLÉ | JULIÁN FUKS | JU .PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS |FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR.

hoje. 94 . nós acreditamos em você! – Mas eu não estava falando com vocês. é lutar contra o golpe em nosso país. que acredita na ideia de bem e julga que de- fender o bem. você nos enganou! – Eu? Vocês é que se enganaram. – Você nos enganou. – Não. Denise Bottmann. Tema de hoje: “O poder e as massas”.Curso avançado de filosofia política.

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A jovem abriu um tablet. não mais viu. Mataram. cabelos longos. que a praça era sua. Machucaram. morenas. Zalila as culpava – e se fechar às palavras poderia ser uma escolha? E escolher palavras como os japoneses chegaram ao país para inventar o pastel era uma escolha? Elas fugiam do interior da palavra.. canalhas! roubaram meu dinheiro! eu te amo. com o lar. 96 . ocupava toda a tela do aparelho. gor- duchas ou magricelas. não me machuquem! me deixem viver! eu tenho esse direito! fora. Imaginava as últimas palavras que aquelas pessoas – e eram tantas – poderiam ter dito e de nada adiantaram: parem. não mais voltou. mesmo que doa. quando dói e a gente entende.. A garota tinha no máximo quinze e a senhora. O que importava era a ordem e a segurança. não me deixe.. adoles- cente bonitinha. tristes hortaliças que ficavam contentes com alguns copos de cerveja. expectoradas nunca adianta- ram? Zalila pensava. no mínimo setenta. que poderia dizer minha mãe é uma hortaliça.. ao banco. aquelas. Pensava. meu pai é um pé de milho. Divas das couves de flores brancas. a beleza e o recato. por favor. O amor foi embora. nem sei explicar direito. O dinheiro. algumas fotos patéticas. Canalhas permane- cem. Naquele dia se dispôs a implicar com a palavra: e as palavras têm força mesmo? Começava a duvidar. porque. algo muda. Dói. a menina. toda vez que lia notícias bár- baras. sabia. Por que essas palavras gritadas. Pensava. Puseram-se a ler juntas um texto enorme. Então se sentaram juntas. com a missa no domingo. café em copo de plástico do Starbucks – queria sentir que a cidade era sua.colheita Zalila. mas me sinto tão feliz por entender tudo. Pensava em hortaliças loiras. Tiraram direitos. vó? Pensar dói e ler essas coisas também. Escolhiam somente as prontas. de cabelos bran- cos e bem curtinhos. mas de gestos enérgicos. uma garota e uma se- nhora miúda e frágil. magra. banco de praça. com crian- ças para cuidar. com uma pitadinha de tristeza pelos maus tratos contra os ani- mais.

tem mestrado em literatura brasileira. é justamente criar meios de fazer da palavra ferramenta do pensamento res- ponsável. vovozinha.mas a professora disse que. como professora e escritora – e que lhe traz grandes e produtivos conflitos –. crítico. justo e humano. Zalila experimentou certa ternura. entende? A senhora fez que sim com os lábios finos. mas com amor. 97 . Seu caminho é árduo e sua maior luta. aquela cena de passado e futuro debruçando-se sobre palavras presentes começou a signi- ficar alguma coisa que podia chamar de esperança. embora agora compreendesse. se eu quiser. Formada pela Universi- dade de São Paulo. Você entende agora como eu. Denise Sintani é professora e escritora. A ga- rota olhou-a como se fosse mais sábia que a velhice. logo aprendo também a explicar. assim como toda ela se fazia fina e enérgica. aquele amor que muitos adolescentes sabem sentir com a vida toda.

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além do mais. o adesivo de dilma com pernas abertas colado nos tanques de gasolina dos carros o adesivo que remetia à nossa primeira presidenta sendo perfurada foi ideia de uma mulher. aquela que joão luiz qualificou como uma insone sem erotismo. pediu pra ser estuprada. mais uma diagnosticada histérica mais uma desequi- librada. além do mais. por não estar apertadinha não estar molhadinha por ser ou não ser mais novinha. desde que nascem mulheres sofrem golpes são golpeadas às vezes só sobrevivem golpeando outras mulhe- 99 . a voz da mulher que confeccionou o adesivo a voz da idealizadora da capa da revista a voz de um espelho femi- nino que papagaia “dilma mal comida dilma mal amada” é uma voz que estupra mas antes uma voz que no berço uma voz que no útero foi estuprada. se joana se tainá se priscila se vanessa se daiane.a beleza ela não podia ter dado mole assim. além do mais. para cada femi- nista há um espelho feminino em forma e idade batendo panela no prédio em frente ou gritando no cortiço ao lado que aquela é mal comida aquela é mal amada e não tem a menor condição de governar um país. recuperar a voz e transfor- má-la em denúncia. o golpe teve muito pouco a ver com dilmanta ser mulher. maria era espancada por vinícius mas ouviu na fila do supermercado sobre um caso semelhante ao seu ouviu que a mulher é culpada sem dúvida a mulher tem culpa provoca o ma- rido. de santa não tem nada. talvez venha a se deparar com o número 5069/2013. se uma dessas mulhe- res. o golpe teve pouco a ver com aquela vaca que nem bolsonaro nem frota encarariam. anda quase pelada depois reclama. que integram um corpo coletivo e feminino um corpo a cada onze minutos invadido e abusado. a capa da revista na qual dilma aparenta ser louca. aline ouviu joão contar bem alto aos amigos sobre o nojo do gosto do cheiro sobre o enorme nojo de chupar sua buceta mas leu que um terço dos homens é como joão e culpa a mulher tem culpa por não estar aparadinha. a mulher é culpada sem dúvida tem culpa mas isso não vem ao caso. foi ideia de uma mulher.

diana pensa em representatividade igualitária de gênero e raça. conhecer o golpe pela rede globo é conhe- cer o conto de andersen pela disney.res que golpeiam novas mulheres que seguem se arrastando sob o peso de terem a culpa são as culpadas. escritora e diretora teatral. de marquês de sade. quando o tema é política. toda joana toda tainá toda priscila toda vanessa toda daiane sente que o estupro ante- cedeu o coito. não há beleza na banditocracia dos homens brancos que sitiaram a câ- mara e os ministérios. Diana de Hollanda. há beleza em se desgrenhar na batalha pela sororidade com mulheres cujas vozes estupram por terem sido estupradas. há beleza em se desgrenhar para combater o golpe ao começar por combater um golpe muito mais primitivo de que a-mulher-tem culpa-a-mulher-é-a-culpada. toda mulher que foi ou não a uma DEAM sente a violação da própria voz. há beleza em se desgrenhar na batalha pela restituição da própria voz e as das pequenas se- reias ao nosso lado. enxerga o ilegí- timo governo de temer como a mais realista versão dos 120 dias de sodoma. não há beleza no ato de a pequena sereia sacrificar sua voz para estar ao lado do homem-príncipe. 100 .

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tinha dúvidas entre realidade e ficção dia não. trazia no coração na mente na alma no corpo as marcas do golpe que de- ram nela dia sim e dia não.dia sim. sua forma de andar não era a mesma dia sim. tinha paciência para ser eloquente dia não. foi às ruas dia sim e dia não. se achou novamente nas ruas  dia sim. achou força nas ruas dia não. transbordava de tristeza dia sim. estava pronto para lutar pelo que acredita 102 . tinha esperança dia não. sem ela dia sim e dia não. ignorava o que acontecia dia não. desacreditava dia sim. democracia dia não. se fortaleceu dia sim e dia não. em casa sentia derrota dia não. não havia paciência que chegasse dia sim.

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o que pensa e o que procura entender em letras. cinema e outras artes. 104 .corações vermelhos amam sem temer Diego Carvalho Sá expressa o que sente.

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garrafa e gasolina um murmúrio: j’accuse! ii é quando no sangue das cobaias também as cápsulas de placebo vertem veneno (e) não se distingue o urro dos coturnos da tropa de choque e os jornais moídos onde o rei está posto o rato está nu 106 .duplo cego i estes prédios crescem por tropismo caçando buracos nas nuvens feito buracos de bala sob o sol nenhuma reza fura a asfixia nunca termina de matar uma vela de pano.

e você também acusa o golpe Diego Vinhas nasceu em Fortaleza (CE) em 1980. ambos pela 7Letras (RJ). e não muito mais. Acredita em microrrevoluções. 107 . Nenhum nome onde morar (2014). Publicou Pri- meiro as coisas morrem (2004).

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porque está se manifestando. Gaudete. não vivem de resto ou rasteiro: reis na ratice. tradutor &. exumados de suas tumbas. nos golpes. cuidado: pois há ratos brotando dos bueiros. D. animais regressivos.“ratos brotando dos bueiros” foi escrito em 15 de março de 2015. ratos brotando dos bueiros você sabe bem que eles são roedores. quem não é rato. cheios de peste nas presas. eles se escondem até que então saem. o perigo anunciado de um Golpe de Estado: & uma vez que tudo o que vem de uma boa bola de cristal não tem prazo de validade. ratos dos grandes. com muita energia nervosa. até porque agora se aplica àqueles que assaltaram o poder imitando o exemplo de 1964. quando já se notava nas multidões verdamarelas de Integralistas. furtivos não mais. & ditam as regras de ratos pra todo mundo que seja um bom rato como eles — às vezes. & já fazem a destruição milagrosa de 30 anos de democracia em 7 dias de Golpe. 109 . segundo o Ministro da Injustiça. o poema de ação segue abaixo. os sempre velhos covardes de esgoto  na espessa violência de gangue: a sujeira em suas línguas de ralo ergue os ratos do escuro e antigo buraco. e que também são infectos: os ratos. Dirceu Villa é poeta. & às vezes depois de fugir por uns bons 30 anos. num país inteiro. contra o Golpe de Estado que pôs o golpista Michel Temer no poder. por escrito & nas ruas. um terrorista.

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já beijei todas as bocas de Judas que pude com a mesma lascívia de novo e no novo E cada saliva me pareceu um voto de amor à causa Qual causa. De minha parte. qual nada Ninguém te ama quando se está acima /ou/ muito debaixo [Cold turkey has got me on the run] Pra que crer? No que ser? Babel fala ora a mesma língua 111 .este gostoso beijo da faca I scratch your back And you’ll knife mine (J. L) i.

] Voto enfim: Digo sim.. pela porra dos paus: Voto sim[... Nem onde se cava liberdade se livra do estribo: Cobra comendo cobra 112 . quero sim. quero não...] Pelesbór ni amálgama Pelo fim [. ii. Língua falha.] Voto não [. Que tudo se foda disse ela e se fodeu toda disse o poeta que artis- talgum vai atrás por medo ou prudência por medo ou cautela por medo ou medo de o medo cristalizar no fundo da dita-cuja que sela a corda vocal condena forte e condena morte demo iii.Nheegatu esperanta. procissão Walking deadengajada Voto sim Voto não Pelo leite das tetas /pus de filhotes/..

não sou eleitor. (diga-se): Titã sou Sentido a quem cipreste Não sou poeta. Desta terra. Meu nulo ser exaspera /-/ te iv.Poeta fodendo poesia Boicote de democrata: Falange. Nadapologia Tudofôda Cerosão Terrengula Qualseja Ifim v. donde canta um sabiá 113 . burocracia Duvito Ergo sum Édito.

Todas as ilusões me caibam no peito Todas as ilusões currem o pleito Bandidos sodomizem minha segunda-feira que a mim e ao meu povo urge o grito da mais baixa capitulação. Que é mentira a máxima: “Plantando. que mesquinha é a pátria chã. quero um machado na raiz carcomida em cupim.morto. Que apolítica é a paragem 114 . no contorno do mapa. de Uruguaiana a Rio Branco vi. tudo dá” Que a falência vem de dentro. viii. Na base duma palmeira putrefeita. Mostra-me tua cara cazuza. latrina musa vii.

115 . mas não ingênuo. que não veio. Apolítico.final onde devo repousar meu intelectuálibintransigênte que. De mais a mais: Dor não se veta A legítima defesa Da morte almejada Meu sonho feliz Meu porto seguro Meu golpe certeiro Meu último alento Donny Correia é um poeta e cineasta desgostoso com tudo e que desconfia que o mundo acabou mesmo em 2012 e o que vemos são os escombros... E vou me vestir com o desvelo do pouco que me traz o fenômeno vida ix. de traidor. Carótida rota em meio aos votos por esse ou aquele [. basta-me existir. acreditou num novo pleito.] prefiro extinção: Mais segura e preventiva x.

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O sentido original dos vocábulos foram estuprados. Alienação é uma palavra 117 . As palavras que interessam derivam do grego. Economia já não significa ‘administração da casa’. E assim. por sermos ignorados nos tornamos ignorantes. São milhares a cada segundo. ignorados. Os princípios das melhores ações. de alguma dignidade. O futuro é ignorado.kólaphos As palavras já não significam nada. Concreto para as pessoas em geral. O corpo é ignorado. Politeia é o papel dos cidadãos no Estado. Bofetadas nos restos mortais de algum sentido. Eliminados do horizonte a cada não reflexão. Qual Estado? Quais cidadãos? Anacronismo é nossa vivência cotidiana. Isso é duro para um poeta. O ser é ignorado. O cinismo gera mais sofrimento aos que já sofrem. Todos são ignorados.

Incisão. Rasgo. incluindo as da respiração. Abalo. Elas parecem estar mais bem equipadas do que nós. Conseguem ficar até um mês sem comer nada. Nos acostumamos com as bombas e com Auschwitz. Trama. porque somos mortais. Como o seu corpo tem um revestimento 118 . permitindo que fujam das ameaças. Desgraça. Rombo.chique demais para o momento. Lesão. no sentido literal. Murro. Há milhares de acepções para o estado das coisas. As estruturas vitais ficam espalhadas pelo abdômen. Caso percam a cabeça. Ardil. Choque. E ainda são capazes de sobreviver por até outro mês sem a cabeça. Lance. Pancada. Somos piores do que as baratas. Mas somos sobreviventes. um gânglio nervoso no tórax coordena seus movimentos. semanas sem ingerir água.

Pobres mortais. Mas. E nada. às vezes. 119 . E sobreviveremos porque somos mortais. com muita convicção. nem mais as palavras nos protegerão. Acreditar também é uma escolha e exerce-a.de células sensíveis à luz. Pois já estamos na sombra. nem isso. Nós. no ser humano. apesar de tudo. ainda sim. elas ainda podem localizar e correr para as sombras a fim de se proteger. Acredita na vida e. Edson Cruz é poeta e budista. somos piores do que as baratas.

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” Olhos em forma de x. tantas praças atravessadas. Esses patos estampam anúncios nas revistas que enchem as bancas de escuridão e de caras de presidente sem beijos de amor para legitimá-las. Muitos que envergam a bandeira da “Ordem e Progresso” não devem ainda saber pra que serviam os alicates. canção de Caetano e Gil. Em um país de exilados em seus próprios quintais. As classes que não respiram. O sangue que correu nos porões do Dops. E suscitaram outro tipo de estrofe. Por que não seguir vivendo. Divino. Caetano e Gil exilados em 1969. uma. Em 1969. quatro anos antes. Brincam com patos de borracha que revoam sem João Gilberto. sem bossa alguma.tudo é perigoso Era uma vez um tanque. maravilhoso era estar atento e forte. muita coisa que era da rua virou ce- nário de novela e maquete de plenário. E parece que ainda não estancou. E história não passa de matéria nada exata no irrespirável fundo da classe. amor? Porque a criança feia e morta de “Tropicália”. Alegria”. Gal pedia atenção para as janelas no alto e o sangue sobre o chão em “Divino. Maravilhoso”. Mais de 50 anos depois. caras de presidentes e gran- des beijos de amor na mesma estrofe e o sol ainda nas bancas de revista. cantava alegremente pelas cordas de João Gilberto. zumbis da cor da camisa de futebol. os olhos dos mortos. Porque mesmo essa canção virou trilha sonora de novela. de 1968. “Sobre a cabeça os aviões. sem tempo de temer a morte. A sangue quente. Nessa música. em 1960. 121 . Esses tanques atropelaram o pato que. também de 1968. estende de novo a mão. quando não havia mais “Ale- gria. muitos tanques. cinco anos depois do golpe.

como em 1968. A morte.” Temer. Há os olhos firmes desses jovens ocupando escolas. 122 . É preciso ferver todo sangue de barata. Das janelas no alto ouvi- mos a artilharia das panelas. “Não temos tempo de temer a morte. Mas ainda há estudantes. Maravilhoso” pela primeira vez aos 8 anos. como cantava a Gal. Negar o sangue ao vampiro. Edson Valente escutou “Divino. Não parou mais de ouvir a música e hoje tem vontade de pintar as ruas com o batom vermelho da Gal. muitas canções e tanto sangue derramado depois. A simbologia além da mera coincidência. Se era uma vez. Não há coincidências. O sangue nos olhos desses jo- vens. mais de 50 anos. “Você vem? Quantos anos você tem?” Vem. que não seja de novo. A sangue frio. Tudo é perigoso. O que ecoa no Planalto é artilharia pesada.

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no entanto e pergunto:                                               – o que pode o amor contra o poder?  – o amor. mas único movimento legítimo – Eduardo Lacerda realmente acredita que poderemos mudar o mundo (para melhor). a galope vem meu plano: amo é claro que choro. 124 . este gesto mínimo. Ouço dizer que há tiroteio ao alcance do nosso corpo.Para L. É a revolução? o amor? (Drummond) conquanto seja ano              do golpe.

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mais viva do que nunca. Cílios bastardos e peda- 126 . mas também está acorrentada. A co- munidade negra se assenhoreia do que sempre lhe pertenceu. Em poucos instantes. jornais mostram com exclusividade o es- pólio do rosto do atual governante. somadas. e do envio de 16G de material tóxico aos bancos suíços. Dias depois. Indígenas se dirigem ao castelo. E o vencedor patrocinado por uma marca de inseticida. Diante da conjuntura. já vemos outra cor se misturar à correnteza. barricadas escolares se armam de artefatos culturais. algumas toalhas brancas são estiradas à lona. para encobrir a notícia. enquanto uma testemunha anônima relata os detalhes. E uma cela de tortura é exibida pelo Canal7.Às vezes um botão. decidem colar chicletes em seus olhos. enquanto a mulher ainda está presa na torre mais alta. Em assembleia. antes de estender os braços na janela. Litros de botox são colocados às pressas e inauguram um novo jardim vertical. No congresso. hastearem bandeira feita com velhos trapos. furacões revelam a masmorra escondida no Minis- tério. Camaleões e percevejos se unem aos gafa- nhotos. Um jogo de bo- liche é televisionado. Sangue. mesmo a poucos dias das olimpíadas. As torres não caem. Já vimos isso antes na tv. O chorume produzido é enterrado em hectares de soja. as minorias que. determinados a tecer com suas próprias mãos o amanhã. Vemos os usurpadores tomarem o castelo. Uma pilha de livros é montada pela brigada LGBT. O barro ainda não se dissolveu e. Frigideiras de inox aplaudem desde seus armários de madeira envelhecida no óleo de peroba. Chove prata em seus bolsos. Ela não é uma princesa. que resgata a mulher da torre. desta vez. Após a quebra do grampeador. Outra bomba é lançada. Um sacrifício diante das últimas emissões. Bem longe das câmeras. desabitam a metanarrativa ficcional e a transformam em fuzis de aniquilamento da ignorância. não caem. suspeitam ser mais de 80% da popu- lação. Alguns juízes prometem pensar com carinho sobre o assunto. As paredes. uma nuvem de gafanhotos tenta deslegiti- mar a lista de delações como documento histórico. injeta frases da bíblia em sua página web. no entanto.

ços de pastas tutti-frutti caem constrangidos. finalmente. assim como Alberto Laiseca. Nomeados os bois. desde a madrugada. 127 . alvissareiros. inflam o peito. Trabalhadores que. Ellen Maria acredita. economizam até o ar que respiram. que um poema serve para não estar só. a construção coletiva da democracia dos sonhos. é instaurada. Apesar da seriedade posta. suas palavras favoritas são rio e ria.

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embora sejam uma dúzia. As professoras. da vernissage. meteu o balde embaixo da torneira. Para que. outra vez. o ivory black. da galeria de arte. Primeiro a base. porque tinha. duas espátulas. e mais uma chave de fenda. uma siena queimada. mesmo que por só uns dias. Mas passou e ela limpa os tubos já quase secos. Vai olhar o viaduto. o mau-humor na cara. guarda tudo. Então se revezavam. os professores. quando então ele fica tão transparente e tão lindo que dá von- tade de cobrir o mundo com ele. o corte 129 . o jaune transparent vert. o corte cortando tudo e ela do lado de cá. Cada um dizendo: é só apertar e a beleza vem. uma vontade enorme de a qualquer hora do dia só olhar. Não que não tivesse homem. Mas ela faz. para juntar o bleu phtalo vert com o óleo de linhaça. E que é onde está também a faquinha do tableau aux fromages da época da bolsa. acha falso. Mas ela então limpa. mistura e cobre o mundo.quem faz empada hoje em dia? . caso não houvesse o corte cinza. Mas não que se dispusessem a ajudar. E o masculino no substantivo aqui é um pudor da língua. vai cuidar da vizinha. limpa com o pani- nho. Ela ainda deve fazer isso de vez em quando.e que ela usa. limpar a cal- çada. objetos grandes difíceis de guardar. tomar o café que o marido faz. estudou depois de velha por causa dessa bolsa o que sem- pre quis estudar. Nos rótulos e na memória estão o ama- relo cromo. as manchas tornem a falar de uma possibilidade. Depois um azul cobalto. uma só. o que poderia ser. a pintura. esse sempre lá. Olha por uns dias. E aí ela para. a faxineira com o menorzinho doente outra vez e alguém tem de dar um jeito nos banheiros dos meninos. deixando só a promessa. Depois vê. Vera teve uma bolsa do go- verno. Pega a forminha. tantas vezes. e para quê? Mas põe. E depois torna a guardar na caixa de madeira que o marido fez para ela. Depois apaga para tornar a cobri-la. um branco sujo. o do Viaduto da Mangueira. umas forminhas de empada .Vera de Freitas (fragmento) A mão da diretora de escola pública de favela que.

Como não acreditar com- pletamente. Elvira Vigna não gosta de gente esperta há 68 anos. E ela olha com a indiferença de quem os conhece muito bem. e os carros. E isso era o que eu queria aprender.de tudo. mesmo enquanto está bom. 130 . PhD em se- miótica de rua:  acredita que pedido de ‘paz’ é medo de levar troco. Foi passada pra trás em vários concursos e programas culturais.

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atento. O traço de ar puro acima das cabeças. Agridem uns aos outros. limpa do rosto o suor e recomeça tudo outra vez. de bosta. vão caindo. e uns com os outros vão caindo. Talvez o inverso disso. depois o outro. Talvez o cheiro de sangue. talvez. encerrar a luta e se jogar no precipício. Se sente fraco. passado o instante de fraqueza. exaurido. Não sabe dizer o que o levou a parar. Sente vontade de fechar os olhos e se deixar levar. Se pergunta o que o fez parar. se joga para o lado. Tenta se firmar contra a terra. Talvez fosse mais fácil. até que os chifres lhe doam na cabeça. histriônico e indefinido. ele para. dos cornos retorcidos. sabendo que sua vida depende disso. pés quebrados dos coices. mas para. Empurram uns aos outros. Mas esse é um talvez que se recusa a aceitar. Os animais desabam uns sobre os outros. A percepção do abismo. olhos cegos do ódio vazio. o corpo arrastado pelos outros animais que sequer o enxer- gam no caminho. Manobra como pode e como não pode. ele para. Para um segundo antes do fim. Mas ele para. de barro. à beira do precipício. e que só há dor e tris- teza no abismo. 132 . Grita até que a garganta inche e a voz desapareça. existe outro caminho. um resto de si. enfim. Acerta um ombro. e consegue esca- par daquele caudal de morte. Despencam como peças interligadas a formar um animal maior. muito tempo atrás. irracional. As pernas tremem.Um segundo antes do fim Ele para. Barrigas rasgadas dos chifres. quebrar o fluxo que o empurra em direção à morte. Primeiro um pé. mas está vivo. Com a força que lhe resta. ajoelhado. lembrando que sim. aos encontrões. em tempo de ver a manada caindo. aproveita uma nesga de espaço. Tenta gritar à manada que foi dali que eles vieram. Assim. Mas o barulho é alto demais. Ofegante. o corpo dói.

se vira para trás. apesar de tudo. nem dá audiência pra close errado. Sem voz. O importante é que ele para. Ou talvez ninguém. quem sabe dois. E que o mundo pode ser um lugar menos babaca e careta. Eric Novello é autor e tradutor. atento. dez. Para um segundo antes do fim. à beira do precipício. ainda temos solução. Fica de pé. em tempo de ver a manada caindo. se limita a olhá-los nos fundos dos olhos. 133 . ele para. Não bate palma pra maluco dan- çar. Acredita que. E por desejar esse caminho. Pode ser que convença um deles.

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Eu escuto. Sou as horas que ganhei. Gosto de usar o micro- fone para sair do corpo. Estou na rua. Não caio mais no buraco que se abre entre o palco e o público. Para ficar mais perto da terra que tem ferro. JE SUIS meu corpo. em palcos que não existem. o sono. Me levanto. Minhas mãos sustentam o corpo que estava no chão. A minha voz. Elxs dizem: JE SUIS jesus. Eu sou o tempo. Vou até o chão porque eu quero. 136 . Eu falo muito. Você me ouve. mulher também tem cu atrás e que quero todo o meu dinheiro de volta. Sou o que se ouve. Falo sobre amor e dinheiro. JE SUIS você. Tenho dito que mulher também tem cu demais. As coisas são dos outrxs. O dinheiro é público e a buceta é minha. E a sua. Gosto de usar o microfone para ter outra voz. Assim como o sangue. E repito. Não sou da lei.Eu sou a Lady Incentivo. Não trouxemos o projeto e nem somos o proponente. Para fazer sair do corpo dxs outrxs o que elxs dizem.

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2016). 138 . desertão do Ceará.Os criadores de baratas os criadores de baratas amam limpeza amam água sanitária pura ou diluída amam o cheiro das próprias mãos limpas os criadores de baratas detestam mau cheiro odores estranhos a sua íntima geografia jogam o desinfetante sobre o liso ladrilho os criadores de baratas amam as baratas adoram suas patas esculturais e delicadas idolatram as finas asas de fios em relevo os criadores de baratas vivem pelas baratas acocoram-se dia e noite pelas baratas adormecem e sonham com gordas baratas os criadores de baratas homens opiados com rostos petrificados e dedos untados no caldo que expele do sexo das baratas os criadores de baratas alimentam as baratas com a gordura de suas peles e das vísceras com o torrão ainda morno de suas fezes os criadores de baratas não têm nenhum lucro nenhum centavo do governo nem credenciais os criadores de baratas morrem sem perdão Flavio Caamaña é um trabalhador braçal e poeta nascido em Tamboril. Vivenciou o auge da ditadura. No início dos anos noventa participou como voluntário em campanhas de apoio às vítimas da Aids. a in- fâmia e a injustiça. É autor do livro de poemas Aquedutos (Patuá.

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G. de ossos partidos. eu já não canto só ouço uma viola dedilhar o coração que lá fora só a escuridão .ossos partidos Para Z. Cantá seja lá cumu fô Si a dô fô mais grandi qui o peito Cantá bem mais forte qui a dô [Gildes Bezerra] lança que atravessa o peito nessa terra não se canta são os olhos que no leito anoitecem a visão aqui tudo corre o sangue escorre mas o tempo não anda pássaro ferido sobre o peito emudecido faz-se rasgo e clarão vem a morte e não se vê. é mais uma vida na lida que não vale a ascensão faz escuro.

ainda sob a ditadura.Francesca Cricelli nasceu no Brasil. pelos direitos das mulheres. viveu na Itália durante as duas tragédias berlusconianas e a insurgência do movimento separatista e xenófobo lega-nord. todos os dias. 141 . é contra o retrocesso dos direitos civis e traba- lhistas. na embaixada do Brasil. Votou pela primeira vez aos 16 na Malásia. luta e resiste. Continua lutando pela democracia.

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que buscava opositores ao golpe de 31 de março. um espião. rápido. patíbulo. desacordo. 143 . espantos. injustos. derrisão. premiadas. viu sua casa no Recife cercada e invadida pelo exército. aos três anos. O estado é de denúncia: vazias. O estado é desespero: todo grito é mudo todo gesto. muitos. rápidos. mas o mais sórdido. tantos. é o golpe de estado. Guarda marcas e medos. Desamor. Os golpes são tantos ávidos. divórcio. Os golpes são muitos. pouco cada vizinho. denúncias em promoção. Desprezo. em 1964. Frederico Barbosa.O Dezesseis Os golpes são vários. Cochichos. calúnias. diários. cadafalso. difamação. O estado é de alerta: todo cuidado. ávido. sórdidos. demissão. uma ilusão. conchavos. São vários.

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De onde Fujo Para onde volto Últimas palavras De uma boca Escancarada: “Dói!” Na superfície Da folha em branco: Sangue No canto Do olho Roxo: Pranto Do fundo do poço Onde ela está: Tic tac tic tac O tempo é bomba Para quem vive Na sombra Tic tac tic tac Dentro dela O sangue Congela Tic tac tic tac Últimas palavras De uma boca Amordaçada: (não deu para entender .um grito abafado é mesmo uma coisa pavorosa) Tic tac tic tac Que dia é hoje? Que ano é hoje? Que tempo é hoje? 145 .

.Quase para Mas torna a bater Últimas palavras De uma boca Ressecada: (é um sopro quente E vivo! Realmente uma coisa curiosa) Taparam o poço Porque “vai que.” As pessoas andam Despreocupadas Ao redor da tumba As pessoas riem As pessoas gritam As pessoas bradam Mas quando aquietam Quando quase-morrem No sono-desespero À noite Em suas camas De espuma e bruma Elas ouvem Baixinho Entrando pelas frestas das janelas O sopro De uma boca Que nunca se cala: “De onde foges É para onde voltarás” E quando o sol nasce 146 .. Ninguém mais vem Para ver Como ela está O coração ainda bate .

Prometendo vida. Margarina E uma ponte Para o futuro Convém olhar para trás E ver as flores Pisoteadas Que ficaram no caminho E o corpo Que persiste Dentro do poço E que sopra O sopro Que ainda agita: Os lençóis As bandeiras As folhas As roupas Os papeis Os cabelos As árvores As casas E as bigornas de mil toneladas Gabriela Amaral Almeida é cineasta e reside em São Paulo. 147 .

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depois de quinhentos anos de sinistra exploração a multidão começava a aprender a dizer não o patrão teve uma ideia pra tentar silenciá-la a chave da casa-grande fica agora com a senzala desde que não atrapalhe os negócios da fazenda não divida minha terra nem tribute minha renda que justiça não fizesse o salário não aumentasse por acaso não cismasse em fazer luta de classe a senzala prometeu que não ia comer nada ficaria trancadinha lá no quarto de empregada só que tinha aprendido a mentir com o patrão bastou chegar ao poder pra mudar a situação dentre os pobres os mais pobres ganharam uma ajudada quem antes não tinha nada tinha agora quase nada e o patrão até gostou de ver pobre no mercado comprando televisão tablet ar-condicionado mas o pobre tem mania de querer o que não tem bastou ter um dinheirinho 149 .

já quis estudar também quando viu queria tudo saúde salário terra o patrão ficou cabreiro mas assim você me ferra o chofer queria subir de elevador social as mulheres vejam só queriam ganhar igual a justiça investigava não importava quem fosse tua conta na suíça acabou-se o que era doce era só o que faltava puta falta de noção botar pobre na escola e milionário na prisão desse jeito. pessoal o país não vai pra frente não dá pra fazer justiça desse jeito impunemente o rico tomou de volta o que era seu de direito mulheres mandou pro lar negros tirou do pleito e cada qual no seu canto em cada canto uma dor tudo tomou seu lugar depois que o golpe passou mas o que eles ignoravam e o que o patrão esquecia é que a tal da liberdade é um negócio que vicia mas o que ninguém sabia e quem sabia estava mudo 150 .

é que o povo ganharia o morro o asfalto tudo agarrado no poder viciado igual crackudo Gregorio Duvivier tem a idade da democracia no Brasil e não quer morrer junto com ela. 151 .

BELLÉ | JULIÁN FUKS | JULIA .PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS | FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR.

não queria que fosse mas é preciso estar presente e resistir aos mesmos erros pretéritos Gustavo Nagib não criou a luta. faço-me futuro mas presente me prende e restabeleço o laço com a terra: minha terra por ora. o tempo ao tempo. o espaço o chão do outro é o mesmo chão do outro que também é o nosso mesmo chão apesar d’eu estar sem chão posso usar o chão do outro que é o nosso mesmo chão para expressar dramaticamente meu presente estado de estar sem chão ii.sobre golpes e galopes i. É apenas mais um que luta para que a vida deixe de ser uma luta injusta 153 .

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De injustiças enormes. A literatura ajudou-o a entender o lugar privilegiado que ocupa nessa sociedade e a brigar por um país igualitário. sem a presença asquerosa dessa elite. que nunca se afastou do poder e agora quer novamente nos impor sua política antidemocrática e fascista. vio- lento e perverso. Cresceu num país retrógrado.Domingo Hoje é um dia estranho Na varanda onde sento para fumar um cigarro e ler alguns poemas o sol do outono bate fresco no lado esquerdo do meu rosto e me aquece um pouco enquanto ouço no ar invadido e subtraído o ruído aterrador de helicópteros o alarido de crianças brincando em salões de festa uma histeria angustiante que se alastra contra as pilastras mais radiantes do sol 17/04/2016 Heitor Ferraz nasceu em 1964. 155 .

BELLÉ | JULIÁN FUKS | JULI .PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS | FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR.

e Ralé.[fala da personagem do filme Ralé interpretada pela atriz Bar- bara Vida] Enquanto na sociedade machista algumas mulheres forem inva- didas. somos todas livres. com a exibição de 6 filmes em que trabalhou como atriz ou diretora. somos todas vadias. 157 . somos todas santas. Ela dirigiu os filmes Reinvenção da Rua. na Suíça. selecionado para o 67º Festival del Film Locarno em 2014. como no 20º Fribourg International Film Festival. Feio. humilhadas por serem consideradas vadias. na Índia. com mais de 50 anos de produção nos vários cam- pos das artes cênicas e cinematográficas. A Miss e o Dinossauro – Bastidores da Belair. com a Mostra «La Femme du Bandit» com 25 de seus filmes e no 17º Festival of Kerala. E fora traidores golpistas! Helena Ignez. Canção de Baal. Se ser vadia é ser livre somos todas vadias. eu? e Poder dos Afetos. Luz nas trevas. somos todas for- tes. já foi homenageada na Ásia e na Europa.

BELLÉ | JULIÁN FUKS | JULIAN .PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS | FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR.

de muito sangue o sangue que escorria e fez poça. ainda que fosse pouco antes das sete. Sumiria. de tudo-pra-fora as vísceras que se mostravam. E por que ele pulou?. da senhora de moletom e tênis esportivo que. verde e amarelo e vermelho não eram cores. desalojadas. com fios vindo de algo que lhe tapava os ouvidos. de corpo o resto dele no chão. perto do me- trô. Ela avisou o porteiro. disse. seguiu caminhando e não chamou de ônibus o ônibus. pois estava ao telefone. passou a acredi- tar no nome que lhe deram. e rua. tentava atravessar a rua. palavras de 1964. Do quê? As vozes não cessavam: diziam uns. Ele não pulou. nem de. ela chorava. sozinha com as vozes que vinham e não vinham do homem baixo de gravata azul que abria a porta do quatro por quatro preto. e coxinha e mor- tadela não eram comida. foi sereno: este cão. muito antes das sete da manhã – não eram dias de precisão. Sumida. não. outra raça. pessoas e prédio também pararam. O porteiro demorou a sair da cabine. Um pouquinho. diziam outros. Caminhava pelo bairro. Ela parou. brilhantes à luz do sol das quase sete da manhã. Não chamaria de. da mulher que corria de short. bichos. patos e feras. sim. eram dias de necessidade. ela decidiu se calar. pois pediu que antes de qualquer coisa ela se identificasse. E seu grito chamou de suicídio o pulo do animal. de cabeça baixa. O cão mudou tudo. O cão que caiu do 14o andar do prédio que ela não disse. nem de semáforo o semáforo. apenas se deixava. nem de calçada a calçada. um pastor. respondeu o homem.O nome do cão Eram tantas e tão desconexas vozes que ela não ouvia. 159 . Não diria: é! Ou: não é! Não diria nada. Foi por isso que aconteceu. sim. do 14º andar. Neces- sidade. nem de prédio o prédio. não. O cão que caiu quase em cima dela. nojentas. pa- lavras reinventadas e feias. Silêncio! Ela rompeu com um berro que escapou para chegar perto do horror. Quando ele veio. palavras de 1992. Até que o cão. da mulher de branco que empurrava um carrinho com um bebê choraminguento. e deixando-se estava atônita e anoitecida. não importa: eles o chamavam de Pássaro. Cansada do vozerio.

por paixão. acredita em Educação e Cultura. e em dar a cada coisa o seu nome. em pessoas que gritam por horror. 160 .Isabela Noronha é escritora e jornalista.

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uma mulher torturada na ditadura. uma menina torturada. é golpe. de um golpe só. é golpe. e uma menina torturada. todo santo dia. é golpe. é 33 × 1 todo dia. com propostas de educação para todos e uma carta do vice decorativo recebe a maioria dos votos favoráveis ao seu impea- chment por um congresso e um senado que. é golpe. todo dia santo. enfiado goela abaixo. é golpe.33 × 1 Uma mulher torturada na ditadura foi vaiada em plena aber- tura da Copa do Mundo em 2014. é golpe. 6 × 1. 2 × 1. é uma menina torturada na ditadura de um golpe. é uma mulher torturada na ditadura que teve um rato enfiado em sua vagina. é uma mulher. trinta e três contra uma. é duro. é golpe. uma menina. eleita democra- ticamente duas vezes e com propostas de educação para todos não conseguiu governar um dia sequer do seu segundo mandato como presidente do país. é uma garota. é golpe. eleita democraticamente duas vezes. 1 × 1. é 30 × 1. engole. é golpe. sem qualquer crime co- metido. é 7 × 1 todo dia. é uma menina. 7 × 1. de luto. 3 × 1. por 33 homens. é 33 × 1. com propostas de educação para todos recebe uma carta do vice que se considera decorativo e ministra um golpe. sem luta. silenciada. é golpe.. é golpe. violada. é golpe. 33 × 1. ela tem só 16 anos. uma menina torturada por 162 . eleita democraticamente duas ve- zes. é golpe. é uma menina de 16 anos. uma mulher torturada na ditadura. é 7 × 1 todo dia. o ‘povo’ foi às ruas pedir o ‘impeachment’ desta mesma mulher. é golpe. 1 × 0. é golpe. 4 × 1. uma mulher torturada na ditadura. uma mulher torturada na di- tadura. uma mulher torturada na ditadura. sem gole. 33 vezes. com propostas de educação para todos e uma carta do vice decorativo é estampada na capa de uma revista com ‘acessos de raiva’. 5 × 0. é golpe. é golpe.. uma mulher torturada na ditadura e eleita democraticamente duas vezes to- mou posse e todas as notícias eram sobre a roupa que ela vestia. violentada. eleita democraticamente duas vezes. poderia ser você. uma mulher tor- turada na ditadura e vaiada na abertura da Copa do Mundo é eleita pela segunda vez a presidente do país.

é desvio de merenda. a luta é nula. arde. é golpe.33 homens. sem alma. é uma menina. ouve. o punho em riste. escuta. é bela. é golpe. e a culpa não é dela. a mão pra cima. 7 × 1. uma menina torturada na ditadura. pá. é golpe. é do lar. é recatada. torturada. produtora cultural. 30 × 1. não. polícia. é recatada. pesquisa litera- tura feita por mulheres e luta contra o golpe e o estupro no Brasil. só por hoje. uma mulher violentada por 367 homens que disseram sim. no lar. é bela. perfurada. dói. Jéssica Balbino é jornalista. 163 . muda. poderia ser sua filha. punho em riste. uma escola ocupada. é uma luta. trinta e três vezes. é uma menina. a alma sangra. um rato na vagina. um tiro. em silêncio. sangra.

BELLÉ | JULIÁN FUKS | JULIA .PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS | FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR.

Não é que eu goste do que estava incidindo e hoje aguardo escândalos como quem sofre baleado nas periferias parecendo estar na ditadura crua do poder autoafirmado.Não é que eu goste “Lúcidos? São poucos. Não é que eu goste do tempo como estava e quis crer na previsão de um falso método sinônimo de emboscada no final de um tempo que não chovia pingado.” Hilda Hilst Não é que eu goste ser viúvo de um Brasil na trama porque ocultam fatos entre almofadas e o caixão aberto na tv em comitiva histórica não se solta da Globo. Mas se farão milhares Se à lucidez dos poucos Te juntares. Não é que eu goste de um que não foi eleito 165 .

Não é que eu goste que o Brasil se afunde porque acredito morrer o quanto antes trucidado pelo ódio da não escolha jamais secreta se corpo vai à urna poucas vezes. Não é que eu goste da palavra golpe assim como a do homem que amo e não o deixo mesmo com sussurros 166 . Não é que eu goste da incerteza que estava e ainda assim preferia que deixassem o governo fazer ou não seu marketing por trás antes das eleições que o povo vive maquete. Não é que eu goste da saúde tão sem defesa da educação sem repasses pra municípios pequenos e impostos pra assegurar salário dos que ocuparam aquela sessão centrada.e por isso nego-lhe posto que apenas os seus ajeitou no jeito brasileiro senhor presidente somos olímpicos e recatadamente pelo lar.

Não é que eu goste de recomendar o óbvio na palavra democracia ainda traz antonímia com ditadura tirania e em seis meses o sol pode nascer quadrado. João Gomes é editor do selo virtual Vida Secreta e se espanta diariamente com a sabotagem da história brasileira. Não é que eu goste de preparar um poema que cita meus desgostos confirmando que cultura pro comando golpista não passa de desperdício pois é poeta o Temer. quando a antipatia parece ter mais valor que o respeito.do que fazer pro golpe não avançar por traição. Não é que eu goste de ocultar o pensamento às panelas emborcadas há uma divisão com erro e desprazer como crime da democracia ser mulher e golpe artigo pra história. 167 .

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em textos e inclusive ao vivo na Globonews (https://youtu.com/jp- cuenca/posts/10152295475288289). dando um contraponto imediato ao que exibiam – o que hoje em dia. (A impressão é que agora o massacre precisa ser total. nem mesmo por um minuto num canal a cabo. Diversas vezes apontei a manipulação dessa narrativa pela mí- dia e o absurdo da violência policial. o governo do PT. Em 2013. Feira de Frankfurt. sem nada que possa contradizer a narrativa hegemônica. Na época. sinal dos tempos.facebook. pesadelo 1 A notícia de que o MinC seria eliminado pelo presidente interino Temer. 169 . Educação. a oposição do PSDB e a grande imprensa estavam todos unidos em criminalizar as ma- nifestações de rua. me levou imediatamente a outubro de 2013. ao lado de Marta Suplicy. Marta Suplicy.be/p4UM5VsfidE?- t=3m24s). Tudo em 2013 foi de- cisivo para o que vivemos agora. MinC. em debates. Pareceria? Preciso construir alguma narrativa com isso para or- ganizar o pensamento. rua. me parece algo absolutamente impossível. então Ministra da Cultura. facebook. o PMDB.com/jpcuenca/posts/10152293115768289) e resolvi levar o tema aos colegas em Frankfurt (https://www. em 2013: Michel Temer. golpe. Globonews.Estava tudo lá. O pesadelo de agora. a hipótese de que ela apoiasse um golpe ao lado de Temer e o desaparecimento da pasta nos pareceria um delírio. Difícil era imaginar tamanho retrocesso. quando o Brasil foi país-convidado da Feira de Frankfurt e o vice lá estava. E lembrar de 2013. abaixo-assinado.) Na época eu andava bastante desgostoso com isso (https://www.

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facebook. E eu não queria sujar minha mão.elpais.srf. me ajudou clandestinamente a fazer cópias na sala de imprensa. Mandei traduzir o texto. com medo de algum tipo de confusão. Não lembro das platitudes que Marta disse quando inau- gurou o stand brasileiro. que na época trabalhava na Folha e hoje edita meu livro na Planeta. o sempre repugnante Michel Temer nos presenteou com um discurso constrangedor que recebeu sonora vaia.com/photo. 171 . apenas da cara de profundo desprezo que fez quando deparou-se com o abaixo-assinado que deixei no púlpito de onde ela discursaria. Marta Suplicy. Eles queriam a foto.com/…/…/politica/1462926904_504785.681378 73288. html). me procuraram oferecendo encontros com o vice-presidente Temer e com a então Ministra da Cultura. redigido numa viagem de trem entre Colônia e Frankfurt com o Luiz Ruffato e o Paulo Lins.Idealizei um abaixo-assinado apoiando professores em greve e denunciando a violência policial em manifestações:https://www. O El País publicou que Dilma passou seus últimos mo- mentos no Planalto cercada pelos movimentos sociais e longe dos políticos (http://brasil. 2 2013. Apenas mandei entregar o abaixo-assinado. (Há um vídeo curioso disso aqui: http://www.php?fbid=10152303042528289&set=a. Na abertura da feira.79443. A Raquel Cozer. 2016.ch/…/ video/brasilien-an-der-frankfurter-buch…) Uns funcionários do cerimonial do Planalto. Distribuí os papéis na cerimônia de abertura da feira e do stand brasileiro.685748288&type=3&theater.

esse frustrado abaixo assinado mostra o que falhou. a repressão policial apoiada pelo governo federal. foi decisiva para o que acontece agora. preferindo criminalizá-los e ecoar o dis- curso do “vandalismo” ao lado da imprensa que depois a rifaria. Era o momento decisivo para estender essa ponte e buscar apoio nas ruas. J. A democra- cia que nos foi cassada. e o que amanhã falhará pior: nosso sistema de educação básica. E uma repressão ainda mais severa dos direitos de expressão e ma- nifestação por um Ministro da Justiça. Mas ela não o fez.Demorou demais. Acordou num pior ainda. universidades como “gue- tos esquerdopatas e esquerdoides”. Com popularidade ainda em alta. E hoje o Ministro da Educação e Cultura é um representante do DEM. em 1978. Cuenca nasceu no Rio de Janeiro. Entre 2013 e agora. Um projeto de cidadania que nos parece cada vez mais distante com o Ministério da Educação nas mãos desse sacripanta. A pasta é de Mendonça Filho. partido que entrou no STF contra cotas nas universidades públicas. Um sujeito que manda sua polícia bater em crianças e mulheres. e desde então é um inconformista. auto- ritário e antagonista das liberdades civis. um investigado na Lava Jato que definiu. As costas que o seu governo deu aos movimen- tos populares em 2013. Dilma poderia ter aberto um caminho de reformas e diá- logo direto com o povo brasileiro.P. Alexandre de Morais. E que terá como mais um instrumento para criminalizar movimentos e organizações so- ciais uma vaga lei antiterrorismo sancionada pela própria Dilma.be/p4UM5VsfidE?t=3m24s) O Brasil dormiu e teve um pesadelo. em recente entrevista. (Volto ao vídeo de 2013: https://youtu. 172 .

BELLÉ | JULIÁN FUKS | JULIANA .PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS | FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR.

é uma ode à revolução.no lombo a chibata do abatimento operário sem alma sem cabimento labuta sem luta é esquecimento operário no lombo do abatimento a chibata sem alma sem cabimento sem luta labuta é esquecimento sem luta é esquecimento Jr. Bellé é poeta e sonha biografar Buenaventura Durruti. Seu li- vro mais recente. Fora Temer! Viva a anarquia! 174 . Trato de Levante (Patuá).

PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS | FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR. BELLÉ | JULIÁN FUKS | JULIANA .

gritavam mesóclises equívo- cas. Me juntarei agora às mulheres. afogar-se-ia. A tua nau garantia a certeza de que todo direito era excesso. Vi mulheres de olhos ferinos. 176 . tramando a revolta certeira. a engordar quanto pudessem. beberei suas palavras tão firmes. Antes te escrevo esta mensagem. Julián Fuks nasceu ao despontar de duas democracias. e os magros todos do outro. enquanto enchiam os bolsos de papéis das empreiteiras. Cogitei um instante me jogar no mar. vociferando em uníssono contra a cultura. Não imaginava ver uma delas morrer tão cedo. não conseguia fi- car ali em cima. a brasileira e a argentina. esta carta que emula o teu pobre poema.Desembarque Embarquei na tua nau. Na tua nau se dormia ao relento e sem nenhum cuidado médico. Soberbos em seus ternos. Antes te escrevo esta carta com rimas. meu caro Temer. A tua nau. sobre o passado que habita o futuro. sobretudo jovens negros. ocuparei com elas o convés. Antes te digo o óbvio. vi homens brancos velhos pregando ordem e progresso. o que tão logo dirá o tempo. Na tua nau o salário era mí- nimo: quem não aceitasse. Vi homens mais magros ainda. Pregavam medidas austeras em prol do equilíbrio do barco. Queriam os poucos gordos de um lado. a nau que dizias sem rumo. Dominavam todo o convés. mas não quis te dar esse prazer. a nau que cruzaria ao futuro. com poder concedido a si mesmos. padecendo a aspereza dos remos. Resolvi descer ao porão. acumu- lando apenas magreza. Acabado de chegar. é um navio negreiro. Acabá-la-emos a roubalheira. me embriagarei de sua resistência.

BELLÉ | JULIÁN FUKS | JULIANA .PREFÁCIO POR MARCIA TIBURI | ANTOLOGIA- JULIANA CALDERÓN –MANIFESTO | ADRIANO DE ALMEIDA | ALE SAFRA | ALESSA MENEZES | ALESSANDRA E VERÔNICA CESTAC | ALEXANDRE WILLER MELO | ALFREDO FRESIA | ANA ELISA RIBEIRO | ANA ESTAREGUI | ANA RÜSCHE | ANDRÉ DAHMER | ANDRÉ VALLIAS | ANDRÉA CATRÓPA | ANDREA DEL FUEGO | ANITA DEAK | ANNITA COSTA MALUFE | BEATRIZ SEIGNER | BRUNA BEBER | BRUNO ZENI | CACO ISHAK | CACO PONTES | CAETANO GOTARDO | CAETANO GRIPPO | CARLA KINZO | CAROL RODRIGUES | CHARLES MARLON | CLAUDINEI VIEIRA | CLAUDIO DANIEL | DAN NAKAGAWA | DANIEL MINCHONI | DENISE BOTTMANN | DENISE SINTANI | DIANA DE HOLLANDA | DIEGO CARVALHO SÁ | DIEGO VINHAS | DIRCEU VILLA | DONNY CORREIA | EDSON CRUZ | EDSON VALENTE | EDUARDO LACERDA | ELLEN MARIA | ELVIRA VIGNA | ERIC NOVELLO | FABIANA FALEIROS | FLÁVIO CAAMANA | FRANCESCA CRICELLI | FREDERICO BARBOSA | GABRIELA AMARAL ALMEIDA | GREGÓRIO DUVIVIER | GUSTAVO NAGIB | HEITOR FERRAZ | HELENA IGNEZ | ISABELA NORONHA | JÉSSICA BALBINO | JOÃO GOMES | JOÃO PAULO CUENCA | JR.

CALDERÓN | JULIANA CORDARO | KARINE KELLY PEREIRA | LAERTE | LEONARDO COSTA | LEONARDO MATHIAS | LETÍCIA NOVAES | LILIAN AQUINO | LINEKER | LUANA VIGNON | LUBI PRATES | LUIZ RUFFATO | LUIZA ROMÃO | MAEVE JINKINGS | MAIARA GOUVEIA | MAÍRA MENDES GALVÃO | MANOEL HERZOG | MANOEL QUITÉRIO | MANU MALTEZ | MARCELINO FREIRE | MARCELO ARIEL | MÁRCIA DENSER | MARCIA TIBURI | MARCÍLIO GODOI | MARCO DUTRA | MARCOS GOMES | MARCOS SISCAR | MARIA CLARA ESCOBAR | MARIA GIULIA PINHEIRO | MARIANO MAROVATTO | MEIRE OLIVEIRA | MEL DUARTE | MICHELE SANTOS | MICHELINY VERUNSCHK | NICOLAS BEHR | NOEMI JAFFE | ODYR | PÁDUA FERNANDES | PAULA FÁBRIO | PAULO FERRAZ | PEDRO TIERRA | PEDRO TOSTES | PRISCILA GONTIJO | RAFAEL ROCHA DAUD | REGINA AZEVEDO | RENAN NUERNBERGER | RENAN QUINALHA | REYNALDO DAMAZIO | RICARDO ESCUDEIRO | RICARDO LISIAS | RONALDO BRESSANE | SHEYLA SMANIOTO | SHIKO | STEFANNI MARION | TARSO DE MELO | TATÁ AEROPLANO | TATIANA SALEM LEVY | THELMA GUEDES | THIAGO MATTOS | TONY MONTI | TULA PILAR | VANDERLEY MENDONÇA | VERÔNICA STIGGER .

apenas e. branco. Era o tempo em que a diferença ainda não havia sido. Ele/ela não sabia o que era. não sabia se era rico. Era. homo. um trovão uma rajada de vento. antes do templo. Era antes do nome. pobre. antes do julgamento. apenas sendo. verde. ateu. preto. 179 . muçulmano. amarelo. hetero.Nós Um dia ele nasceu. Era o Infinito alento Era Vênus a expandir universos de fora pra dentro. não era mesmo nada disso. Ou era ela. ou vermelho. Aliás.

Preza pela defesa e constante apri- moramento do Estado Democrático de Direito e. E você? Quero ver todos os políticos e não políticos corruptos na cadeia. E você? Quero que políticos trabalhem para o bem da sociedade e não para atender aos interesses privados das mega corporações que pagaram por suas campanhas. E você? Quero respeitar e me sentir respeitada. E você? Quero o fim das ‘Doações’ milionárias a políticos. E você? Quero que as regras democráticas valham para TODOS. E você? Quero que os jornais façam jornalismo e não incitação ao ódio. E você? Quero que o Estado Laico seja Laico. comunicadora. huma- nista e idealista incurável.Eu × Você Quero transparência na política. Talvez queiramos a mesma coisa. é vee- mentemente contra o governo ilegítimo de Michel Temer. E você? Quero que meu voto tenha valor. cultura. portanto. E você? Quero me sentir representado pelo congresso nacional. E você? Quero que meus impostos sejam revertidos em saúde. canto-autora. Por que estamos brigando mesmo? Juliana Calderón é atriz. 180 . educação e transporte PÚBLICO de qualidade. E você? Puxa.

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resistência 182 .

Torce para que caiba mais do povo no mundo.Juliana Cordaro reafirma-se como mulher. um tipo de pescadora e costureira de possibilidades e pessoas. 183 . Viver coletivamente é revolucionário. e para que caiba mais do mundo no povo. artista e educadora.

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Empurre a janela Karine Kelly Pereira é feminista e poeta.) Deixe a esquerda livre 1 . 185 . minha boca. que forma as palavras – estado democrático de direito – passos em busca da Terra sem Mal. É o espaço.Puxe a alavanca 2 . Na sua primeira par- ticipação eleitoral não teve seu voto respeitado. o teu nariz. Mesmo que os teus olhos. meus ouvidos. a tua boca. meu nariz. mas insiste em lutar para amar e mudar as coisas. minhas mãos. fossem meus olhos. as tuas mãos sobre esse meu corpo. Upu que mora entre o meu umbigo e o meu sexo. os teus ouvidos.Estação Cuidado: veículos Para a sua segurança este veículo possui dispositivo que só permite a sua movimentação de portas fechadas Atenção: mudança de linha Acesso não permitido Mind the gap (Não são as palavras se formando aqui e agora que constroem o espaço.

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em 1951 – fez alguns cursos livres de pintura. Participou da redação de programas de tevê da Rede Globo: TV Pirata. n’O Bicho. TV Colosso. desenho e teatro. Sai de Baixo. entrou na USP. no Estado de São Paulo. em Comunicações. em várias revistas. Nasceu em São Paulo. . Foi autora da revista Piratas do Tietê – também o nome da tira diária que produz. Apresen- tou o programa Transando com Laerte.Laerte é autora de quadrinhos. no Canal Brasil. na Folha de São Paulo. pra fazer Música e de- pois Jornalismo – não se formou. É uma das criadoras da revista Balão (quadrinhos) e da empresa Oboré (assessoria de comuni- cação para sindicatos). cartuns e charges. Publicou seu trabalho n’O Pasquim.

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Leonardo Costa é astronauta e acredita que só a democracia é o caminho. pois sabe que o governo é quem deve temer o povo. Diariamente combate bestas extraterrenas.  191 .

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Letícia Novaes é atriz. Escreveu o livro Zaralha . 195 . escritora. cantora e compositora da banda Letuce.abri minha pasta. já lançou 3 álbuns com sua banda e em breve sai em projeto solo.

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da palavra e da arte como forma de enfrentamento con- tra o golpe em curso no país. emanava era um cheiro bom daquilo que mataria a fome o fogo preparando um futuro – mas não agora não neste país – aqui cozinharam meses a fio uma tramoia em banho-maria em fogo baixo e esse repasto saído da panela resulta podre.No fogo inimigo cozinhar. Acredita na força da ação coletiva. 197 . Lilian Aquino nasceu em São Paulo em 1979. mas o fogão segue aceso e a boca vai cuspir devolver à cozinha sua missão de alimentar saciar a sede sem temer. quando finalmente o irmão do Henfil pôde voltar ao Brasil. antes. fétido e à força empurram goela abaixo .disfarçado de aviãozinho manobrado com todo tipo de pirueta picareta.

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negam a sorte 199 . o contar dos corpos dentro da sala Entra na noite a brisa do medo. as putas. os roucos. irrompe em meu peito um fogo que inflama a dor da batalha. o sim ao degredo. um nó na garganta. a temer o açoite.golpe Um gosto amargo. talham seus ventres. o lodo que escorre esconde o sorriso ao cunhado golpe Seguem dormindo aqueles que outrora abriram caminho aos homens que agora são seus algozes silenciando o coro das vozes Correm os loucos. Certos da morte.

200 . a ser lançado em novem- bro de 2016. cantor e diretor.Lineker é bailarino. Esta é a letra da canção “Golpe”. Mineiro de Bambuí. que estará presente em seu próximo disco. reside em São Paulo desde 2013.

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202 . bêbados. traficantes. poetas. estudantes. atrizes e filósofos todos foram convocados para essa formidável festa de despedida os demais permanecerão em suas trincheiras buscando a sorte em jogos de azar colecionando peças amputadas da realidade dobrando a esquina enquanto uma horda de revolucionários escreve o poema do século em plena praça pública. operários. lindos carregados por guindastes alguns estão mortos Os vivos celebram a ignorância de seus grilhões com adoráveis bolas de ferro atadas aos tornozelos Meus olhos são duas granadas meus pulmões são artefatos de guerra palavras são como projéteis que se enchem de pólvora antes de explodirem em chamas sobre a cidade Atravesso o elevado Costa e Silva um senhor tira confetes do cabelo de sua namorada Na República uma criança chora suas bolas de gude confundiram-se com estilhaços Mendigos. putas.A Murilo e aos revolucionários Junto com o outono vieram os vikings os marujos toda sorte de bárbaros e piratas As ruas estão um tanto em pânico um tanto em festa Busco semblantes familiares entre os escombros de medo e alegria Uma estrutura de concreto armado sustenta meu coração no alto Vejo corpos translúcidos.

mais dança. mais música. subversão e exílio. você é o opressor. não são boas histórias. mais amor. O mundo precisa de mais poesia. 203 . Arrisca dizer que se você não está do lado do oprimido. Acredita no poder transformador da arte. essa é a verdadeira revolução que está em curso.Luana Vignon nasceu nos anos 80 e ouviu algumas histórias so- bre censura.

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assim como acredita na arte como forma de manifestação e resistência. uma névoa cinza cobre a cidade não é sobre poluição não é sobre o outono é sobre uma noite que insiste ao meio-dia é sobre uma noite que insiste dentro do que dizem: democracia dentro do que dizem: democracia queimaram nossos votos é essa fumaça que sobe diante dos olhos: há insegurança no ar.há insegurança no ar. Lubi Prates acredita na democracia como única forma de cons- truir um país com igualdade social. 205 .

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o mugido de vacas tangendo a alvorada.Os mortos vivos 1. estio. a comadre que se foi para São Paulo. um cachorro de nome Peri. eterna em seu mutismo. sua voz rouca pregava o livro santo para insetos e pássaros que inundavam as matas calcinadas da minha infância mais que obscura. 2. exausto. compreendia a invisibilidade de seu corpo inútil e vazio. um que não. borrasca. que diziam de origem dinamarquesa: três filhos que vingaram. O pai Nasceu meu pai do ar e com os ventos se criou. Guardavam imagens. vizinhas engraçadas. sombria matemática de outros tempos. vizinhas sisudas. Veludo. que a tudo ignora. aragem. Seus passos miúdos vasculhavam a cidade e. a água fresca da mina em seu rosto. quando enfim estabeleceu dessemelhanças entre areia e ondas. entre ruínas e posse. outro. 207 . placidez. A mãe Minha mãe sepultou as parcas alegrias em uma lata colorida de biscoitos. Foi tempestade. que se extraviaram incendiando as nuvens desta tarde clara. Ninguém o ouvia. Suas mãos queimadas de água-sanitária jamais colecionaram retratos ou sorrisos. às horas mortas. uma viagem de carro à praia longínqua.

A avó Amortalhada em seu quarto. substantiva. agarrando-se a rosários. secretamente. como se eu.3. Meu irmão acreditava em galinhas e alfaces. ciúme ou ingratidão. cultivava antúrios. minha avó. explodiu numa cinzelada manhã de gatos baldios. cicatrizes a envenenar estes dias vulgares que se abatem como látegos em meu dorso. As estrelas chuleadas no azul escuro fascinavam bocas cobiçosas de idades. inerte. minha avó enxaguava os longos cabelos grisalhos em bacias de estanho. quando. imerso o corpo nas águas límpidas do presente. e mantinha. acariciou-a certa feita. margaridas e rosas de plástico. e a alegria. Nas madrugadas. 208 . fiando promessas incumpridas. murmurando sentenças a ninguém mais compreensíveis. O irmão O rádio chovia a noite toda ondas curtas que meu irmão insone sintonizava. 4. Ignorava relógios e ampulhetas. vingativo e rancoroso. e não ela. Seu corpo frágil desconhecia sombra e. Mirava-me perplexa. Nunca conheceu a felicidade. excomungava os pesadelos. agrilhoado. aspirando com sofreguidão o fim inevitável. Ronronavam as horas quietas em seu colo e formigas escalavam a parede pacientes carreando fragmentos de conversas do quintal. sob a cama. Por inveja. um deus feroz. o fantasma.

209 .na cama. Luiz Ruffato é um cidadão brasileiro. debatia-se com vigor contra as paredes e as telhas que o asfixiavam. erradio. primavera entrada. enojado com a conspiração encabeçada por Michel Temer e apoiada pelo que há de pior na po- lítica brasileira para derrubar uma presidente legitimamente eleita. balbuciou o nome daquele pássaro que.

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  se você nunca sai de casa? tão importante quanto a bandeira é com quem tu caminha qual sua gente-parceira eu estou do lado 211 . a praga infestada eram tempos repetidos história como farsa história como força  história como falsa história como forca estouro com memória e faca e continuo nessa jornada enquanto falar não seja denúncia nem renúncia perante a barbárie entenda: sua panela de teflon não conhece a fome seu milagre faz crescer o bolo mas não multiplica os pães de que adianta ir pra rua.eram tempos de ódio e ferrugem antiga de muito grito e pouca voz tempos de ritalina amnésia aspirina eram tempos de roleta russa guerra fria requentada como se miami fosse terra prometida e cuba.

do acarajé da diversidade de fé do direito ao corpo da mulher qualé? se diz homem de bem mas discrimina quem vem de assaré qualé? quer um país que preste mas agride alguém pela cor que veste qualé? conclama justiça mas compactua com deputado racista qualé? quer melhorar o brasil mas qual humanidade se constrói na mira de um fuzil contradição tamanha só vi na alemanha antro de besteira versão atualizada do ensaio da cegueira pode até dizer que a intenção é pura mas não há justificativa pra ditadura que venham os touros furiosos continuarei erguendo minha bandeira vermelha porque meu sangue é rubro e não azul 212 .

Em 2014. carrego martelo e isso é mais que tomar partido é tomar coragem de enfrentar a cruz e a bala da sua bancada milionária se for preciso teremos guerra ressuscitaremos marighella essa é nossa conduta contra o golpe vai ter luta Luiza Romão é poeta. atriz e diretora de teatro. e integrante do coletivo de performance da palavra Literatura Ostentação.(muito menos amarelo) se pinta sua cara de verde na mão. Atualmente é atriz convidada no Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. publi- cou o livro Coquetel Motolove e participou de inúmeros saraus/ slams (sendo campeã do Slam do 13. 213 . Slam da Guilhermina e vice- campeã nacional via Slam BR).

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“a presidenta deixa a investigação cor- rer solta demais”. Saí do Brasil com uma Presidenta da República sendo afastada de seu cargo sob gritos de “chega de corrupção”. Gosto das palavras de Wim Wenders quando diz que a força misteriosa do cinema vem do fato de que filmes sobrevivem a todos nós. Tivemos apoio da Ancine para duas passagens aéreas. Talvez isso explique a paixão que mobilizou mais de 30 pessoas. hospedagem. mas nada me tocou tanto como assistir ao filme que fizemos e me dar conta de sua assustadora sincronicidade com o Brasil de hoje. E diante da eternidade nada é mais importante do que buscar a alma do momento presente. Há exatamente um mês estreávamos Aquarius no maior festi- val de cinema do mundo. quando já não estaremos aqui.Cannes começa em ny Fazer arte tem uma aura de emergência difícil de descrever. Enquanto corríamos de um lado pro outro escolhendo vestidos e smokings para o festival. sob a sombra de um ministério da cultura extinto pelo governo interino. E o roteiro parecia confuso. falar além desse tempo/espaço para gerações futuras. o roteiro de Kleber Mendonça é uma antena poderosa captando a sensibilidade de 215 . Voltei vinte dias depois com áudios vazados na imprensa escancarando o óbvio: o impeachment foi um plano pra estancar a Lava Jato e livrar políticos da cadeia. Foi uma experiência pessoal e profissional de proporções avassaladoras. tudo pra es- tarem juntos na première mundial de Aquarius no Festival de Cannes. comida. assistimos perplexos a uma série de acontecimentos políticos no Brasil dignos de uma narrativa de ficção. em competição. o que torna tudo uma questão de vida e morte. Segundo eles próprios. a tirarem dinheiro de seus próprios bolsos pra pagar passagem. entre equipe e amigos do filme. Tal paralelo não foi proposital. porém os gastos na Riviera Francesa vão muito além disso.

levantamos um papel A4 pra di- zer que vivemos um golpe. sobre o tapete vermelho. certamente esse gesto é eterno. não me surpreende que hoje a cultura represente uma ameaça para certos setores da socieda- de a ponto de alguns defenderem o fim do seu subsídio. se a câmera tem o poder de captar o além tempo. ainda que isso movimente a economia e represente apenas 0.6% da renúncia fiscal pela Lei Rouanet. E. Em maio de 2016 esteve no Festival de Cannes representando o filme Aquarius.uma sociedade dividida que despreza sua memória em nome da manutenção de privilégios de uma minoria. 216 . Maeve Jinkings é uma atriz brasiliense formada pela EAD/USP. Foi um pequeno e simbólico gesto. acima de tudo. E se artistas são como radares de subjetividades. segundo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho. mas a julgar pela atual juventude nas escolas que ensina como se apropriar dos espaços e multiplicar vozes. Mas a personagem de Sonia Braga em Aquarius é. para mim nada faz mais sentido do que minha memória em repetição constante recordando o instante em que. uma brava resistente.

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Recusa que o decorativo tome pra si o lugar do legítimo e defraude ainda mais nosso poder de escolha. com o punho enfiado no oco do boneco antigo/antiquado.  218 . sabemos.dissonâncias   porque os mesmos necromantes que evocam os mortos e os moribundos pra predizer um futuro de cartas marcadas. dentes  e cinismo a imposição de um futuro obscurantista invocam nesse ato outras vozes (e a voz. caiado com tinta fresca cunha falas de efeito. é secreção de corpo vivo)   antizumbis (porque a morte. uniformiza) e antiusurpadores inundamos o entorno da sala de espera com esta recusa musical e outras secreções de gente viva com a diversidade de corpos que se expõem insubmissos Maiara Gouveia  jamais terá o recato necessário pra brincar de doce lar enquanto a covardia comer solta. sabemos. vende nas revistas serpentes como evolução dos dinossauros) porque mesmo o punho do ventríloquo cerrado como porta burra na cara de quem é absorvido pela intriga porque os mesmos que defendem com garras. carcomidas porque os mesmos plutocratas que conduzem a farsa pra lucrar em cima de quem é absorvido pela intriga (esta: o ventríloquo.

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perdão. home dos bravo sinto afirmar. ingerências à parte. mas o miasma não mente: tem algo de pungente no reino das pizzas en regalia e a bestafera tripartite sofre de comorbidades digestórias: tricotilomania & refluxo decorrentes carepa nas barbelas e aliento de saburra. Azedou. mas no cardápio temos apenas os frutos de pele fina e sebolhosos servidos em bandejas importadas da lenda dos fri. 220 . stufffados. diria a tripa de podreres espumas e pipocos de gás no bucho inflamado. nosso humble abode seus grassos frutos de pele fina polpa de refugo chinchulina colostral quem se aburra? quem será ingerido primeiro? estamos em jejum. gravitástricos no sumo dos viraláticos peristaltas.hileia. mas recomidos estamos todos e enterinos semo-nos. Maíra Mendes Galvão gostava de viagem no tempo até que nos levaram de volta a 64.

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Manejo a língua bem. pobre e preto Ministro meu só macho adulto e branco Deixo o Brasil aos trancos e barrancos Na mão da pior corja. 222 . Oh avara búlgara. então aí vou Cortar onda de mulher. até Marília Me esculacharam. e no meu crivo Não vai passar quem outrora partiu-m’a Vaidade de poeta. minha filha: Tomanucu tu e teu bolsa-família! ii Achar-se-ia muita aleivosia Da parte das mulheres do Brasil Tomasse eu toco de mais uma tia - Não pode o meu governo expor-se a ardil. Bruna negou. sou altivo. e eis que choldra riu-m’a Submissa condição. queimou meu filme. ah. Mas me vinguei. Dona Dilma - Tu vais chorar amargo.sonetos de michel i Fizeste-me um anão decorativo. puta que pariu. Daniela. e um soneto Eu faço de vingança. Artista e o povo do bolsa-família Vão ver com quantos paus faz-se um xibiu. que saibas.

coloco mais um pinto. 223 . Aos inimigos. que a polícia açoite Neste país só otário vê cadeia Trabalho do meidia à meia noite Livro os parcêro e detono os mané C’ ajuda do paizinho Baphomet. a vitória é só querê-la Sinceramente. Pipoca. valeu. Um homem pode Tudo na vida. iii Na tua nau embarquei.Vou tentar mais dois lances na roleta: Regina. e agradar deuses com vela. Assim meti o país numa esparrela: Uns garotão bunito. Se não der. Os boy da academia Health & Body. sangue de bode. criado a toddy. até Marilena Chauí. sinto Muito. ebó. Minha intenção é colocar aqui Mandando na Cultura uma boceta Pra acalmar ânimos. enxofre. Galinha preta e farofa amarela Nem desconfiam que eu uso a mancheias.

Estes famélicos Que ganham bolsa. Que pisa no meu Mestre. Manoel Herzog nasceu em 1964. Não pen- sava de voltar a viver este horror depois dos cinquentinha. crentes. Ela há de amar-me além de quinze meses Tenho bem mais que onze contos de réis. Meu nome é o mesmo do Arcanjo Azul. 224 . farei de judeus Num campo de concentração nazista. todos fariseus. bélico. ademais.iv Eu sou poeta e tenho um nome angélico Meu pacto não é propriamente com Deus Mas nome bem parecido: Asmo-Deus Eu. com o golpe instalado. tenho apoio evangélico. mas enfim. estudou Direito. Trabalhou em fábrica. Retomarei pra mim número treze Exterminarei a nação petista E a minha musa eu encherei de anéis. Pastores. desencantou-se da Justiça dos homens e virou escritor.

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Recentemente. Expoente da nova cena da arte urbana em Pernambuco. Amsterdam. Tem também trabalhos em Israel. Bruxelas.Manoel Quitério é artista visual. sob a perseguição de órgãos fiscais e sob o risco das duras penas aplicadas aos artistas pelo governo local. denunciando o regime ditato- rial da Turquia. . realizou trabalhos que ganharam as ruas de Istanbul. Paris e por todo o continente Europeu. tem um trabalho que bate de frente com ideologias da dominação. ganhando rápido desta- que nas cenas independentes. de Recife.

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1977. 229 .“Imagens do Golpe” – Nanquim sobre papel. é mais um artista na luta pela volta da democracia no Brasil. 2016 Manu Maltez. São Paulo.

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Só vi coisa parecida nos Estados Unidos. Não seria menos dramático ter feito uma greve de fome? Nunca vi um corpo assim. quase um papel. Parecia um carvão. Uma fo- gueirinha de osso. Virou uma tocha em um se- gundo. O Brasil está virando os Estados Unidos. Ris- cou-se. Era negro? Nem sei se era homem. E fuuuuuuuuu. E pelo urro. coitado. em um palito. Veio vestindo um moletom. neste país. Correu urrando. Por que. O fôlego das chamas. E de uma toca. Não se pode jogar água não. queimado. E aqui está agora. na sombra. Foi muito rápido. ao vivo. à porta da Federação. Aí a batata dela assou. Uma testemunha disse que essa pessoa saiu de um ônibus vindo do Largo da Batata. Pólvora em polvorosa. Não vivem queimando ônibus? 231 . Chegou chamuscando da rua para dentro. E os movimentos? Terá sido um estudante? Se for um estudante. Meu Cristo. tudo acaba em piada? Não é em pizza? Tô pensando aqui se ele (ou ela) tivesse tocado esse inferno dentro do ônibus. E a cara disfarçada por debaixo da toca. Porque já estava acabando o gás. Tá explicado. Irreconhecível.fuuuuuuuuu (Conto inédito ) O corpo virou uma flâmula. não dava para ver se era mulher? Todo sexo e urro ficam iguaizinhos embaixo de um moletom. Desgraçar o futuro assim. Já chamaram os bombeiros? Já chamaram a polícia? Já chamamos. já chamamos.

E o corpo ocupando um chão inteiro. Estamos filmando. tem essa coragem. Que acha bonito ser super-herói. Quem protesta não acredita em Deus. aqui. A queimar fumo. Não reconhecemos filhinhos de papai. hoje já tem filmagem exclusiva vazando na Rede Globo. Coisa do Diabo. Nem fanáticos. Foi um mano. só o que so- brou aceso. Não reconhecemos extremistas. Acostumado a queimar pneu. Fósforo é arris- cado. Na internet. Temos a certeza. Ninguém vê evangélico protestando. E nada dos bombeiros. já derreteu. Como sabe? Quem entende de cozinhar. Ninguém está aí para nada. Acho que era uma mulher. para nada. Era algum filhinho de papai. E esse cheiro insuportável. brother? Mulher. não tenho dúvida. Acostumado a queimar favela. Do pó ao pó. Muito menos católico. Não reconhecemos religiosos. Muito menos se era um branquinho filho da puta. Fuuuuuuuuu. E nessa avenida bate um vento de lascar. Eu acho que só homem. E todo mundo riu. Mano. Meu Jesus. 232 . Drogado. Já pensou se a moda pega? Será que foi com isqueiro? Se foi. Mas alguém jura que ouviu o suicida (a suicida) gritar o nome de Deus. meu. Aposto que assistiu a essa cena no cinema. não já tem? Alguém sempre filma. E gente e mais gente na rua. Antes de desaparecer. Agora é esperar as imagens de alguma câmera da Federação. Pode não pegar.

gás. Só se for Brasa. thinner. E tudo. Mas não tem jeito. ma- luca. Puta que pariu. cheia de graça. desde pequeno. maluco.Por isso ele (ou ela) já virou. Alma é alma. Para para refletir um pouco. ligeiro demais. querosene. mas alma é masculina. E lugar de comunista é mesmo no lixo. Cometeremos um sacrilégio. Mas como ser contra a Petrobrás usando gasolina? E foi com gasolina? Pelo jeito. em nome do Brasil. dizem. E todo mundo riu. Brasil. Ave-Maria. Água raz. E se fosse o seu filho morto? A sua filha? Ensinei sempre para o meu filho. Por que não pegamos nós uma pá? E jogar essa coisa onde? No lixo? O que você faz com capim? Com resto de floresta? Com cinza de cigarro? Com comunista? Só comunista faz uma merda dessas. essa bola de fuligem. E se a gente se juntasse para rezar? Pela alma do infeliz? Ou da infeliz? Ah. uma ateia? Todo artista é assim. Estão lutando pelo Brasil. Eles sempre se queimam. Melhor não abusar. Era contra o quê? A Petrobrás. E se era um ateu. Quanto tempo vai demorar? O quê? Esse maço de chumaço em frente à Federação. é feminina. 233 . Fuuuuuuuuu. a não brin- car com fogo.

anual e gra- tuitamente. de “Angu de Sangue” (contos. evento que acontece. 49. “Contos Negreiros” (Editora Record) e “Nossos Ossos” (romance. É o criador e curador da Balada Literária. desde 2006 em São Paulo. entre outros. Ateliê Editorial). O conto acima foi escrito especialmente para esta antologia. Autor. Editora Record). acesse: www. Para saber mais sobre o autor.com 234 .wordpress.marcelinofreire.Marcelino Freire. é escritor.

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atravessamento. onde diferenças e alteridades serão reconhecidas como modos de ser do próprio mundo. como uma potência da fragilidade Algo que não está associado apenas ao feminino. mas ao humano seria uma parvoíce. empedramento e aridez do masculino e se estamos vivendo no mundo uma crise da água ela tem conexões profundas com uma crise de recepção do feminino Vejo como necessária a recuperação de um novo modo de pensar o potencial humano. sensibilidade. retirar o mundo e até destruí-lo Quando os homens reconhecerem em si também a potencialidade sensível da fragilidade. a fragilidade é uma força por onde o mundo pode passar. teremos o início de um mundo do dialógico. a fragilidade é como o aparente ser do orvalho esta potência da fragilidade está em oposição ao poder da brutalidade. elogio da força bruta.Sobre o feminino É possível associar o feminino com a água com a fluidez. uma estupidez programada associar a potência da fragilidade apenas ao feminino. abertura da água em contraponto com a rigidez. brutalidade. da própria Terra atuando sinergicamente e em ressonâncias dialógicas O feminino que foi construído como projeto e projeção de ideias de dominação e submissão ao modo de ser da Aética da brutalidade deve dar lugar a uma construção das próprias mulheres sem margem para estas projeções perversas que são 236 . começaremos a transformação de paradigmas da destruição em atos criadores de um reconhecimento do mundo e não apenas da projeção de dualismos e estratégias de dominação e submissão. Aética da brutalização que para ser instaurada necessita dominar a natureza.

mas como o caminho para o Paraíso. Autor dos li- vros O rei das vozes enterradas (Editora Córrego). 237 . da devoção. poeta e dramaturgo. entre outros. poderá ser implantada no mundo uma ética do cuidar.a base de um projeto político totalitário e secularizado que ignora o mundo como ser e como ente. O Pai também será mãe a mãe poderá ser reconhecida não apenas como um anjo do Paraíso. Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio (Editora Patuá). O Livro das ár- vores dentro do Livro dos salmos dentro do Livro dos anjos sem nome (Pharmakon). 1968. da serenidade ativa. uma ética a partir do feminino. a mulher poderá ser reconhecida como uma materialidade do Sagrado no Mundo porque desse modo o Mundo se torna ele mesmo Sagrado Marcelo Ariel. Santos.

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secularmente. as Organizações Roberto Marinho e a Rede Globo estão repetindo e ampliando a mesma atuação de 64. Afinal. silenciamento. não havia internet. de 17 de abril de 2016. após 20 anos de sacanagens. tortura. Folha de São Paulo. ar- rocho humano e mesmo assim. uma ma- nifestação de 300 mil pessoas na Praça da Sé em 25 de janeiro. seja pelos nanicos (os tabloides de esquerda e imprensa alternativa). o militar de 31 de março de 1964 e agora. censura. torturados e mortos. seja pela imprensa internacional. os grandes jor- nais como O Globo. quando se sabe de tudo. A diferença é que em 1964 – há 50 anos – não se sabia absolu- tamente nada graças à grande imprensa totalmente vendida aos militares e norte-americanos. já em 1984. O fato é que a elite brasileira é reiteradamente. Estado de São Paulo) de- sinforma e conspira contra a população! Aliás. confirmando plenamente que a história se escreve como tragédia e se repete como farsa. rádio e televisão. historicamente.Memórias do Golpe Confesso que vivi dois Golpes de Estado. maio de 2016. traições. Band. o midiático-jurídico-político. Record. O Brasil não precisava disto. E aí? Ocorrerá o alargamento do campo do possível (Sar- tre)?Ou o que poderemos fazer? Nós. seja pelos amigos e parentes dos desaparecidos. Razão pela qual agora. nada escapa ao domínio público. repito. canalhices. a Globo reportou como “multidão que comemorava o aniversário da cidade de São Paulo”. prestes a ocorrer a redemocratização. que se mantém ilesos à desinformação 239 . os 30% da população que escaparam à cooptação. irremediavelmente apátrida. SBT. novamente a mídia hegemô- nica (Globo. repressão. eis a razão das trevas terem durado vinte amargos anos de mentiras. violência encoberta. Eu sei porque eu lembro. mortes. daí os vinte anos de trevas abso- lutas quando então nos informávamos esparsamente. Não merecia isto.

Caim.diária e doutrinação inversa ministrada dia e noite em todas as tevês e rádio e jornais. 62 anos. o Brasil não é mais uma democracia? O Brasil não precisa disto. como Diana Caçadora. Márcia Denser é escritora paulistana. irremediavelmente apátrida. Sua obra já foi traduzida em 10 países e 9 línguas. no céu na terra em toda parte. e participação em 48 antologias. uma vez que. Tem 12 livros so- los publicados. Mas o fato é que a elite brasileira é reiteradamente. historicamente. Não merece isto novamente. 240 . como já apontam Tariq Aliq e Noam Chomsky. DesEstó- rias. Toda Prosa.

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242 . que nascerá da verdade. vê na alta noite o banquete dos conspiradores entorpecidos e o desespero do corpo violentado da democracia se debatendo no escuro. amada mãe-gentil. os gritos vêm da sala estão todos em transe na madrugada a laje balança à faina saqueadora tremem os lustres. saiba estão vivos. sob o pó. já faz noite me bate o queixo nesse frio de sombras e o pulsar frenético na antemarcha dos coturnos. o reboco do teto nos cai sobre os berços. ouve. no silêncio da desonra. já é quase noite ouve a festa dos corvos o esfregar das mãos imensas e o rumor afiado de rapinas à espera da carniça. mas teus filhos não dormem ó. vê.noturno do golpe vê. no escuro e um dia voltarão com o sol.

É pai de dois filhos. 243 . com os quais tenta compreender e evitar que a história se repita como farsa.Marcílio Godoi viu a Democracia brasileira ser reconquistada a duras penas e não vai se calar agora diante de mais um golpe.

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Mas sonhei. os desenhos das crianças pendurados nas paredes. Mas não nos peça para assinar nada porque não temos como segurar a caneta. um homem. – Votaremos em quem acredita que uma pessoa morta na ver- dade vale tanto quanto uma pessoa viva. noutra noite. – Sim. e ele ainda não sabia em quem votar. e ocupam espaço. É tudo parte do trabalho deles. e precisá- 245 . Pediu o documento-com-foto das mortas. das atividades que precisam execu- tar diariamente para manter a sociedade ectoplásmica em fun- cionamento. um rapaz. e no entanto até ontem só nos era dado o direito de dormir sob as camas e nos armários. Essa lei não nos serve. em quem não teme as pessoas mortas porque sabe que elas sempre ganham: elas são muitas. e fazem parte do mundo das pessoas vivas. Em geral são homens os fantasmas nos sonhos. então o mesário perguntou em quem elas votariam. através dos corpos delas. que fantasmas do sexo feminino apareciam na escola estadual em que eu costumava ser mesário. to- mar café. Seria bom ter a opinião de alguém que conhece as coisas de uma maneira que ele jamais poderia conhecer.O voto fantasma Sempre sonho com espíritos que aparecem para conversar. elas morrem há centenas de anos. O mesário era um menino. Elas são infinitas. Viemos votar. – Foram vocês os criadores dessa lei que diz que não podemos votar porque estamos mortas. Subiam as escadas em grupo e em silêncio no dia da eleição. e ele não queria estar ali. Dava para ver. meter medo. e se acumulam. possuir pessoas que usam roupa preta.

vamos esperar e esperar até a hora certa de dar o susto. Marco Dutra (36) é cineasta nascido e criado em São Paulo. . acre- dita na força da pena e no fim das tempestades. Tanta coisa... Há tanta coisa que nós. elas não puderam segurar a caneta tão material com seus dedos de éter. No sonho. 246 . fantasmas. podemos fazer. mas conseguiram apertar os botões das ur- nas.

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Recomeço (Trecho da peça Motel Rashomon) Mesmo que amanhã a mão invisível do tempo sobre os nossos corpos exaustos nos diga que sempre será amanhã apenas uma palavra mesmo essa palavra será sempre a possibilidade de um recomeço Alguém nessa sucessão eterna deverá sempre recomeçar Sobre o nada Sobre o silêncio Alguém se importa se eu começar de novo? Os corpos exaustos em terrenos baldios em cemitérios clandestinos Ossos à procura de sentido para a palavra amanhã Mas quem se importa? 248 .

autor do livro Luz fria. nem por deus. Não escreve pela família. 249 . nem pela propriedade.Marcos Gomes é dramaturgo.

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digamos uma “Pietà aos dessemelhantes”. flutuações que não se fixam e sem as quais não viveríamos. O grotesco da nossa semelhança me choca e me entristece. como se diz. Depois. estatelado. Ademais. O golpe não acabou. quando as palavras já nasciam en- colhidas e a semelhança entre elas era quase um ato reflexo. vestido de preto. Co- mecei a escrever com a Abertura e não demorei muito a perceber que se tratava de outro tipo de fechamento. acusar o golpe. fadado à consumação. Durante a Década Per- dida. onde quer que estejam. a propósito de golpe. como um corpo que se abate. Por isso hoje. Mas não tive forças de erguer esse espelho. Como se tivéssemos chegado a outro padrão de linguagem. Dessemelhante é aquele que não consegue se ver? 251 . denunciá-lo em mim. Confesso que nada do que se seguiu me surpreendeu muito. Estava fora do país. falei. aquilo que resta de um lance. flertarem com elas. Meus dessemelhantes são velhos e são jovens. são interessados e desinteressados. mas antes pelo desejo de que as novas palavras continuem a regrar os velhos equívocos. hoje sabemos: os dessemelhantes não leem.acusar o golpe Fui criança na época do medo. se golpe significa o inesperado. Mas já existe um cadáver do golpe. enquanto Collor caía. ensinarem-lhe a confiança. Durante uma década. Eram tempos de ansiedade. senti as palavras se aproximarem das coisas. as palavras viviam em completo desacordo com as coisas e manter-se acima da linha d’água já exigia grandes esforços. criaturas ávidas. Não have- ria nisso perdão nem incriminação. Poetas e contrabandistas pragmáticos sabem muito bem o quanto custa sustentar artifícios de paraíso. coradas como eu. abriu ao con- trário muitos outros caminhos. essas ideias fora do lugar. de um duro baque. É verdade que a história da gravidade é feita de golpes. pois as palavras não coincidiam com aquilo que pareceriam dizer. Queria expor os efeitos do golpe para. O século xxi. como eu. antes longínquo. voltei à universidade como professor. eu teria publicado um poema. ouvi. Ele está em curso. e esse ca- dáver são as palavras dos meus dessemelhantes. de um movimento ruim.

onde publicou um livro de ensaios chamado Poesia e crise. Em seus poemas. 252 . recentemente. cair nunca foi um problema. um Manual de flutuação para amadores. Por isso precisou escrever.bibliografia do golpe Marcos Siscar é professor na Unicamp.

CALDERÓN | JULIANA CORDARO | KARINE KELLY
PEREIRA | LAERTE | LEONARDO COSTA | LEONARDO
MATHIAS | LETÍCIA NOVAES | LILIAN AQUINO
| LINEKER | LUANA VIGNON | LUBI PRATES |
LUIZ RUFFATO | LUIZA ROMÃO | MAEVE JINKINGS |
MAIARA GOUVEIA | MAÍRA MENDES GALVÃO | MANOEL
HERZOG | MANOEL QUITÉRIO | MANU MALTEZ |
MARCELINO FREIRE | MARCELO ARIEL | MÁRCIA
DENSER | MARCIA TIBURI | MARCÍLIO GODOI |
MARCO DUTRA | MARCOS GOMES | MARCOS SISCAR |
MARIA CLARA ESCOBAR | MARIA GIULIA PINHEIRO
| MARIANO MAROVATTO | MEIRE OLIVEIRA | MEL
DUARTE | MICHELE SANTOS | MICHELINY VERUNSCHK
| NICOLAS BEHR | NOEMI JAFFE | ODYR | PÁDUA
FERNANDES | PAULA FÁBRIO | PAULO FERRAZ
| PEDRO TIERRA | PEDRO TOSTES | PRISCILA
GONTIJO | RAFAEL ROCHA DAUD | REGINA AZEVEDO |
RENAN NUERNBERGER | RENAN QUINALHA | REYNALDO
DAMAZIO | RICARDO ESCUDEIRO | RICARDO LISIAS
| RONALDO BRESSANE | SHEYLA SMANIOTO | SHIKO
| STEFANNI MARION | TARSO DE MELO | TATÁ
AEROPLANO | TATIANA SALEM LEVY | THELMA
GUEDES | THIAGO MATTOS | TONY MONTI | TULA
PILAR | VANDERLEY MENDONÇA | VERÔNICA STIGGER

Maio para junho, 2016

Cara amiga,
Escrevo-te do não lugar.
Entrei no avião, dois dias após ver, junto a alguns conhecidos,
um mundo e um sistema podre subir à presidência.
Homens defensores de uma visão de mundo que eu conside-
rava velha, e morta.
Tanta inocência.
Julgava finalmente vencida e virada uma página velha e ama-
relada de algo que acreditava ser uma geração autoritária der-
rotada pelo mundo, pela luta, e sobretudo pelo bom senso do
passar do anos.
Por aquilo que enchemos o peito para chamar de história.
Aquilo que por si só não diz mais nada.
Eu escrevo do não lugar.
Uma vez mais, a geração única, velha e caquética vai ven-
cendo a sua própria geração, e a nova, esperançosa, ainda por vir.
Estamos tan cerca, diria Celan.
E ainda sem lugar.
Os dias que antecederam esse lançamento da minha vida e
meu corpo ao espaço foram dias de destruição completa.
Como perdoar esses anos todos lidando com a política como
se fosse mais uma relação familiar?
Como deixamo-nos enganar que um “pai” ou uma “mãe” bons,
são melhores e não reprodutores do mesmo sistema paternalista,
patriarcal, masculino e branco de deus?
Quem olha por nós, senão nós?
Estivemos tão perto.
E, ainda, escrevo do não lugar.
Já não há para onde regressar, nem para onde partir.
Ficam as dores de um crescimento às custas de um golpe, au-
toritário, injusto e realista.
O real é da ordem da falta de construção de um espaço. Da
pobreza de interpretação.

254

Paramos, então, diante do abismo e estendemos as mãos em
um gesto singelo.
Damos adeus a tudo que foi.
Adeus que, turvo no espelho, se torna aos poucos – oh, será? –
oh, será? – em “alô”.
Em uma nova forma de se dizer “olá”.
Nos reinventamos, mais fúnebres, mais agressivos, mais tur-
vos, menos reais. E resistimos.
Resistimos de lugar nenhum para lugar algum.
Acenando, com um sorriso irônico, a todos aqueles que já não
existem porque não são nada além de cadeiras e títulos que já
não são traduzidos por palavra alguma.
Cadeira.
Título.
Título.
Cadeira.
Cadeira.
C a d i t e r a.

Ocupamos, então, suas palavras, suas origens.
Ocupamos suas famílias, suas netas, seus primos e titios.
Ocupamos a gramática e construímos uma coisa qualquer
que se define em coisa nenhuma.
Damos olá e acenamos do único lugar que agora existe.
O lugar nenhum, que agora é nosso, o não lugar.

Maria Clara Escobar tem 27 anos. Realizou filmes, como o longa
de documentário Os Dias Com Ele, escreveu roteiros e escreve tex-
tos curtos, a fim de tentar estabelecer diálogo com o mundo em
constante transformação.

255

CALDERÓN | JULIANA CORDARO | KARINE KELLY
PEREIRA | LAERTE | LEONARDO COSTA | LEONARDO
MATHIAS | LETÍCIA NOVAES | LILIAN AQUINO
| LINEKER | LUANA VIGNON | LUBI PRATES |
LUIZ RUFFATO | LUIZA ROMÃO | MAEVE JINKINGS |
MAIARA GOUVEIA | MAÍRA MENDES GALVÃO | MANOEL
HERZOG | MANOEL QUITÉRIO | MANU MALTEZ |
MARCELINO FREIRE | MARCELO ARIEL | MÁRCIA
DENSER | MARCIA TIBURI | MARCÍLIO GODOI |
MARCO DUTRA | MARCOS GOMES | MARCOS SISCAR |
MARIA CLARA ESCOBAR | MARIA GIULIA PINHEIRO
| MARIANO MAROVATTO | MEIRE OLIVEIRA | MEL
DUARTE | MICHELE SANTOS | MICHELINY VERUNSCHK
| NICOLAS BEHR | NOEMI JAFFE | ODYR | PÁDUA
FERNANDES | PAULA FÁBRIO | PAULO FERRAZ
| PEDRO TIERRA | PEDRO TOSTES | PRISCILA
GONTIJO | RAFAEL ROCHA DAUD | REGINA AZEVEDO |
RENAN NUERNBERGER | RENAN QUINALHA | REYNALDO
DAMAZIO | RICARDO ESCUDEIRO | RICARDO LISIAS
| RONALDO BRESSANE | SHEYLA SMANIOTO | SHIKO
| STEFANNI MARION | TARSO DE MELO | TATÁ
AEROPLANO | TATIANA SALEM LEVY | THELMA
GUEDES | THIAGO MATTOS | TONY MONTI | TULA
PILAR | VANDERLEY MENDONÇA | VERÔNICA STIGGER

saliva
a minha voz
a minha vez
o meu cuspe
o meu
cu

Queria ser minhoca pra arejar esta terra de ódio.
Meu corpo político
estético
oferecendo
os seios às
setas
da polícia.

Minhas raivas
obstétricas expostas
aos gritos vazios.

E meus cus
dados
aos mundos
avessos
aos sofrimentos
dos mortos de fome,
que já nem ouvem
aquilo
que não alimenta.

[Hoje menstruei um vermelho tão vivo.
Fiquei orgulhosa do erótico liberto
que trago comigo
ainda que meus
olhos públicos
sejam inundados
de um amarelo
insonso pálido sepulcro.]

Maria Giulia Pinheiro está mulher há 25 anos. Nunca viveu fora
da democracia e não quer. Acredita em Deus e também que quem
mais fala em nome dEle menos ouve o que Ele diz.

258

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PEREIRA | LAERTE | LEONARDO COSTA | LEONARDO
MATHIAS | LETÍCIA NOVAES | LILIAN AQUINO
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MAIARA GOUVEIA | MAÍRA MENDES GALVÃO | MANOEL
HERZOG | MANOEL QUITÉRIO | MANU MALTEZ |
MARCELINO FREIRE | MARCELO ARIEL | MÁRCIA
DENSER | MARCIA TIBURI | MARCÍLIO GODOI |
MARCO DUTRA | MARCOS GOMES | MARCOS SISCAR |
MARIA CLARA ESCOBAR | MARIA GIULIA PINHEIRO
| MARIANO MAROVATTO | MEIRE OLIVEIRA | MEL
DUARTE | MICHELE SANTOS | MICHELINY VERUNSCHK
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FERNANDES | PAULA FÁBRIO | PAULO FERRAZ
| PEDRO TIERRA | PEDRO TOSTES | PRISCILA
GONTIJO | RAFAEL ROCHA DAUD | REGINA AZEVEDO |
RENAN NUERNBERGER | RENAN QUINALHA | REYNALDO
DAMAZIO | RICARDO ESCUDEIRO | RICARDO LISIAS
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| STEFANNI MARION | TARSO DE MELO | TATÁ
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GUEDES | THIAGO MATTOS | TONY MONTI | TULA
PILAR | VANDERLEY MENDONÇA | VERÔNICA STIGGER

A poesia não vai salvar porra nenhuma. Hoje um homem carregava uma linda brochura da bíblia no metrô. Na mesma época entrei pela primeira vez no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira. fui à Biblioteca Nacional com minha turma de literatura portuguesa da faculdade. Eu não ouvia nada com meus fones de ouvido. Na minha mão um poema da Anna Akhmátova. Não sei mais se o filho de Akhmatova resistiu em São Petesburgo. Havia um computador na mesa em frente a cadeira do funcionário indicado pessoalmente pelo Sarney. O amigo dele domesticado pelo mesmo livro. havia. Um riso amarelo. grisalho. pançudo. segurava seu ombro.hoje Não há tempo para floreios. também estava lá acompanhando o novo presidente da Embratel. Havia lá a cadeira do funcionário indi- cado pessoalmente pelo José Sarney. um norte-americano. Amanhã. Os ideais serão arruinados até o cerne arqueológico. Entrava. postos os pés nas ruas. O regime não livrou. tudo será desconhecido. Não havia mesmo era o funcionário. Desaparecia com pastas debaixo do braço. branco. igual. Francisco Weffort. Um canto de meninos tupis saudando a chegada do Salvador. Havia um cômodo impro- visado para abrigar a cadeira do funcionário indicado pessoal- mente pelo Sarney. Não por nós. com um eterno semblante de estou derrotado me olhem. Voltava alguns meses depois. ministro da cultura. Dezesseis anos antes do golpe. Não se demorava muito. submetendo sua escrita aos esforços do regime para livrar o filho da cadeia. O norte-ame- ricano fingia melhor interesse pelos antigos livros portugueses do que Weffort com sua apática cara gorda de sono. O afago do Salvador serve somente aos im- punes. Vez ou outra. A destruição da delicadeza está em curso. muti- lado e adaptado para que caiba no futuro livro escrito pelos ven- cedores. Lembro ainda das baratas que acordavam mortas aos pés dos pesados arquivos metálicos onde eu e os outros funcionários 260 . O nosso livro é efêmero. escrito na época em que ela se ajoelhava aos pés de Stalin.

o prato do dia que era preparado no cômodo ao lado. com seu enorme penteado de dread locks. trancafiada. onde ha- via outra porta. me informaram. feito com pequenos cor- redores deslizantes. O arquivo metálico agora era outro e ocupava uma sala duas vezes maior. de terno. Francisco Weffort dizia que a cultura brasileira deveria ser resplandecente aos olhos dos visitantes europeus. Saio da estação em direção à escola 261 .guardávamos os papéis mais importantes da literatura brasileira. Antes de saltar do metrô. Algumas vezes eu era o responsável por retirar os cadáveres das baratas pela manhã. volto os olhos novamente para a be- líssima bíblia amarela na mão do homem domesticado. A sala dos papéis ficava atrás de uma velha porta de madeira. pensava eu. com exceção do Seu Miguel. climatizada. Weffort pare- cia um seguidor de Couto de Magalhães. Ontem uma mulher foi estuprada por mais de 30 homens e sei que quem carrega uma bíblia dessas na mão afirma. livro que explica as nossas raças primitivas aos homens interes- sados no Brasil entre o concerto das nações. Do outro lado dessa porta trancafiada estava a cozinha onde comiam os funcionários ter- ceirizados do prédio inteiro. num subsolo sem janelas. Uma fresta lateral no chão. sem pestanejar. o segurança que controlava a entrada e a saída dos visitantes. Para chegar até ele precisei passar por duas pesadas portas corta-fogo e por nenhuma barata morta. pelo cheiro. servia de respiradouro bem como de entrada das baratas. Pouco tempo depois informaram-me que o novo ministro Gil- berto Gil visitaria o Arquivo-Museu. que a culpa foi inteiramente dela. autor de “O Selvagem”. Gilberto Gil era a cultura em si com um violão em punho no grande salão da ONU. apático e branco. Lá estava ele numa manhã. Era o único negro no prédio. Com vassoura em punho. Voltei ao Arquivo-Museu depois de alguns anos. O funcioná- rio indicado pessoalmente pelo Sarney “havia se aposentado”. Colocávamos uma pano com inseticida para evitar sua invasão em massa. interessado no desconcerto desse Brasil gordo. cercado de assessores. tentava adivinhar.

lá onde o meu povo infelizmente estava”.ocupada onde lerei em voz alta o poema de Ana Akhmátova para os alunos e para as mulheres que lá estarão: “Eu estava bem no meio de meu povo. Tudo vai demorar. A destruição está em curso. mais uma vez.maro- vatto. Mariano Marovatto (Rio de Janeiro.org 262 . 1982) é também www.

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Mulher..” Cecília Meireles Eu. de dentes quebrados e passado aniquilado por um verme [hoje] exaltado aplaudido aclamado saio com o corpo e a alma usurpados pelo estupro pela perda dos direitos [esses eu nunca conheci] pela linha de frente pela chacota à minha feminilidade pelo descaso à minha humanidade pelo circo à minha governabilidade pelo destaque à minha fragilidade. ai! com letras se elabora. indignada e injustiçada. tenho nojo de apologia à tortura de ratos e baratas na vagina da cadeira do dragão [para as princesas sem recato e sem castelo]  de SIM pela família e pela destruição do grelo de SIM pelos filhos e pela destruição do útero de SIM por Deus e contra a fé na vida no futuro na existência.   Eu.Pagu sem Palanque “A liberdade das almas..   Só porque sou  MULHER TORTURADA VILIPENDIADA HUMILHADA INJUSTIÇADA VIOLENTADA 264 .

ao Amor e à Democracia. E hoje. Sendo parti- dária.2016] Mei Oliveira é pesquisadora em Literatura e Cinema. 265 . há 36 anos. por acredi- tar no poder transformador da Educação e da Arte.04. ela diz sempre SIM.18.mais uma vez . abomina silêncios e recatos. deixarei minha marca.DESACREDITADA ULTRAJADA VITIMADA pelo nosso Estado de não-direito não-acesso não-cidadão em nossa História que explica a minha má formação em nossa sociedade fraca submissa pequena nada igualitária. do livre pensar. ou flâneur sem nenhuma propriedade. sei que estou do lado da História da Democracia da Luta. É professora há 15 anos. Ao sair.   Mas eu luto desde jovem por convicção por paixão Mesmo quando a dor era física Mesmo quando eu achei que conseguiria. Não começou o fim A mulher que o mundo masculino nega vai fazê-lo dormir sob sua sombra nada mãe e nunca gentil. na minha madureza perpetrada [de sonhos ceifados e torturados] por pusilânimes ataques daqueles que não souberam perder. À Igualdade. [Da voz de uma brasileira silenciada e golpeada pelo sim rumo ao fim da democracia no país .

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fatos e provas legítimas Não se fizer entender essa manobra política Voltaremos de vez à Idade das Pedras Pra fazer valer com as próprias mãos a justiça. a revolta que instaura minhas palavras antes calmas. 267 . disputando egos maiores Bancada evangélica definindo o futuro de um estado laico? Democracia ditada por senhores do mato? Fui apunhalada. Um golpe certeiro perfurou minhas entranhas sagradas Foi a farda. Meu ventre sangra por todas Dandaras abortadas Minha consciência implora por respostas não dadas Hoje. tanta violência inescrupulosa? Como é possível dormir com as vozes em minha cabeça de tantas irmãs mortas? Nossas almas pedem por socorro num silêncio que ninguém nota. ACORDA!! Corrupção instaurada por uma corja Fortunas que ninguém descobre de onde brotam. a fala mal dada. Vem pra minimizar a dor perante essa situação tão caótica! E se com todas essas conversas grampeadas. a mídia comprada.. as maletas recheadas Foi o zombar da minha gente. mas é evidente onde faltam Senhores em seus altares..Fui apunhalada. as dores em doses homeopáticas O retrocesso é fato! Quero mais Freire menos Frota Quero ver as panelas batidas em varandas gourmets servirem merenda nas escolas Como será que um corpo suporta.

pois TEMER jamais! 268 .Mel Duarte é produtora cultural e poeta. guiada pela revolta. Movida pela arte. A hora é agora. utiliza suas palavras afiadas para lidar com o chicote vida todos os dias. Está indignada ao ver seu país sendo governado pelos assessores diretos do diabo que insistem em humilhar seus iguais. seguir em luta.

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dezessete de abril   capitão do mato portando sessentaeoito carregado espalha no púlpito da câmara os nomes dos homens da terra o santo nome. os da parentela suja as mãos de sangue  com a consciência limpa pr’encher os vãos da história de hieróglifos ilegíveis [os inscritos cravados nas tumbas obscurantistas do barulho de tambores ensandecidos   sua boca cheia de sin não cala o marulho dos nós   detrás da mesa de madeira-de-lei [O demo . condomínios. pius em voo 270 .seria? O demo se ria na cara dos cavaleirxs-contra-os-moinhos-de-vento a demo crash! ia   Ato 2. a um dia do 13 de maio   Descendo a rua asséptica árvores.excertos duma peça suja  Ato 1.

[de novo.   Quando fogos de artifício rangiram a vitória do artíficie a moça de vassoura em punho não parou de limpar a calçada da loja de doces finos   Ato 3.. A descoberta do Brasil   [nenhuma escrita substituirá a luta contudo – todo verso –  impulso do ato .. viceversamente.] 271 .Temer é transitório pros valentes: preenche: __________________________________ __________________________________ __________________________________ __________________________________   . mal um piu    Pessoas falavam – network Cartazes berravam –  sale Na portada do [mall O carro de publicidade no meio-fio:  lifestyle – gastronomia. a voz dos pios [sic] de povo.. luxo.

Acredita no que virá. edu- cadora nas redes públicas de ensino de São Paulo. no último verão. faz do alumbra- mento com a palavra matéria para a lida e para a vida.  272 .Michele Santos nasceu de inverno na metrópole paulistana e vive a buscar primaveras nos entremeios do cinza. Escritora. coorganiza- dora do Coletivo Cultural Sobrenome Liberdade. Lançou Toda via.

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Patópolis é aqui nosso deus está lá na porta do templo amarelo e inchado  de nosso orgulho Patópolis é aqui mergulho em apneia entre as moedas que escondemos  avaramente Patópolis é aqui nossas BMW nossas vacinas  contra o mundo as bundas brancas  rebolantes  de Pato Donald o Trump nosso ídolo. Zezinho. Luizinho vamos render graças ao velho tio quá quá quá 274 . nosso totem  quá quá quá Patópolis é aqui as crianças mortas  sobre a mesa nosso ódio o antigo ódio  colonial venham Huguinho.

Micheliny Verunschk é escritora entre a prosa e a poesia. 275 . acredita na arte de guerrilha. na pedra da palavra e que golpistas não passarão. Femi- nista em tempo integral.

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eis que se aproxima o maior conflito bélico de todos os tempos legiões romanas dominam o colorado e a linha do front candango se rompe do alto da torre de tv digital o inimigo coordena o ataque impiedoso a queda de brasília é iminente e mudará o curso da história tropas nazistas se concentram na ponte do bragueto e no balão do aeroporto dessa vez jan sobieski não virá salvar a cidade sitiada (viena que se dane) galés otomanas ocupam o paranoá e tomam o alvorada pela retaguarda guerreiros celtas explodem o noroeste. a tumba do fundador profanada escondam seus crachás omitam seus cargos 277 . incendeiam parte da asa norte quem capturar o memorial jk domina o ponto mais estratégico da cidade.

disfarcem a arrogância arqueiros mongóis e tanques sioux se posicionam no parque da cidade os ministérios carbonizados a catedral em chamas a rodoviária: escombros bombardeios sobre o congresso nacional o botim de guerra cobiçado por todos é o trono presidencial. incrustado de carimbos de ouro e clips de prata é a volta da blitzkrieg asteca é a volta dos kamikazes tupis as poderosas muralhas que protegem o lago sul começam a ruir. todos recusam) 278 . atacadas por aríetes e catapultas ceilandeses vingativos e desocupados da periferia se aliam aos rebeldes o exército de mercenários ingleses contratado pelo senado se debanda para o lado inimigo os deputados distritais são os primeiros a oferecer aos invasores cargos de confiança (desconfiados.

é integrante da geração que tenta dissociar Bra- sília da ideia de poder. criativa. anárquica. 279 . ensanguentada (ali é o eixão ou a via estrutural? pra que lado fica a asa sul?) o encouraçado potemkin direciona seus canhões para a praça dos três poderes que lampião e seu bando tenham piedade de ti Nicolas Behr nasceu em Cuiabá.cada superquadra organiza sua própria defesa: barricadas nas comerciais. blocos caídos – a cidade modernista em ruínas. como temos visto nos acontecimentos recentes. MT. mostrando uma cidade viva. Acredita no amadurecimento político através da parti- cipação popular. em 1958. Está em Brasília desde 1974. Poeta.

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falantes. ao contrário. a palavra golpe perde a coincidência sonora e soa mais como esquema. golpe baixo e golpe de estado. contemplamos. Noemi Jaffe é escritora.esse domínio do mistério . de vez. A palavra golpe se ajusta tão bem à instantaneidade.Como são bonitos o golpe de vista. Nós. Nesse caso. Ops. Por outro lado. “l” e “p”. 281 . pronunciadas assim. um transe. passa a soar não mais como algo súbito. Mas. como se nela só houvesse as consoantes “g”. São mesmo os golpes que a língua nos dá e que a realidade. entre outros. só e pobremente. inventamos palavras novas. ela. con- testamos. em quando.a mesma palavra soa feia quando usada nas expressões golpe do baú. à sur- presa e ao ineditismo do gesto. o golpe de ar e fazer algo de golpe. professora e crítica literária. foi um golpe. premedi- tado e calculado para a sabotagem. que até parece uma onomatopeia. passou. podemos até ouvir um “gulp”. e de forma inexplicável como quase tudo que ocorre na língua . a palavra antes de ser entoada. não há o que inventar. Livro dos começos (Cosac Naify). Como se o golpe final fosse o coroamento de uma trama urdida lentamente em detrimento de alguém. como um susto. um golpe. imponderável. um galope. Foi. aceitamos e. dá à língua. Escreveu Írisz: as orquídeas (Companhia das Letras). projeto e manipulação. nesse caso. Ressoando nela. Nesses casos. mas como um processo lento. Algo aqui soa como um lance.

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ocasionalmente forma frases.Odyr desenha e pinta. 283 . Tem alguma esperança que um dia. Mora num país tropical onde a democracia quase aconteceu. quem sabe.

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Em desacordo i – Entrevista – O voto importa para o golpe? – Sim. – O golpe valoriza a política? – Sim. sem campanha. jantares. ele soprará sobre ela e com isso encherá arquivamen- tos. – Segundo o golpe. o verde vale? – Defende a economia verde. Segue-se que somente pessoas jurídicas têm direitos políticos e. seguindo tecnicamente a gestão do descarte de sobras humanas. – O golpe é de direita ou de esquerda? – O Estado segue em frente. As paredes das usinas serão pin- tadas de verde. os rejeitos mudam de cor naturalmente com o tempo. governam por meio de seus pe- riódicos prepostos. que tem um espaço duplo: paraísos fiscais e valas anônimas. isso basta. não haveria campanha e. como em qual- quer democracia representativa. liminares e outros bonecos infláveis da política. sempre a seção mais atualizada. entende? As águas nadam a seco. porque ele a transforma em governabilidade. não teríamos financiadores. – É verdade que a democracia do país está tendo um caso com o golpe? – Acompanhe as notícias deste casal da tevê nas páginas de política. Trata-se de números. ou nas de fofoca ou simplesmente nos anúncios dos pa- trocinadores. a mudança é o que vale. pois sem voto. – O golpe combate a corrupção? – Claro. – Para o golpe. existe golpe? – Não existe ar para a própria atmosfera. 285 . isto é. usinas hidrelétricas em áreas indígenas e a ressignificação de bacias hidrográficas por meio de rejeitos de mineração.

passaram dois tiros da Guarda Nacional. nova Medida Municipal de tempo explodindo os Relógios Estaduais. o Calendário Nacional é sempre da eleição passada. ausentou-se a Maca Municipal que teria erguido o corpo antes que agentes de segurança pisassem sobre o membro enfim cortado para que a fazenda se erguesse em terras ancestrais.ii – Estrutura da federação Aqui. Nesta fossa. soava o Discurso Presidencial na vibração das bombas Estaduais sobre os corpos sem a Licença Municipal de carregarem nos punhos as palavras originárias. Durante o cartaz rasgado. onde existia uma perna. não passou a Ambulância Estadual. durante o cartaz rasgado e roubado 286 .

Futura. Originária.das mãos futuras. iii – Escuta e delação Oi Roliço Tudo bem Delícia Olhe sei que tem umas vagas aí para o meu grupo Ah mas a organizadora é osso duro de roer O que que a [inaudível] está querendo Ela quer critérios claros e trans- parentes e o seu grupo não se qualifica Posso qualificar ofere- cendo vaga na [inaudível] da faculdade tem muito seminário Mas é muito pouco Eu sei que o pessoal do tribunal pode oferecer muito mais ajuda de custo que eu mas os eventos da faculdade são mais divertidos Você não entendeu o trampo Não é tão pouco hoje seminário amanhã concurso depois de amanhã chefe de de- partamento é um investimento como tudo na vida Você não en- tendeu que ela não está interessada em nada disso ela não quer o seu grupo não se encaixa nos critérios Critério é uma [inaudível] a função social desta verba é ir para a gente não podemos deixar o desvio nas mãos dos desonestos Ela acha que por ser uma anto- logia de poetas de até 30 anos você não se encaixa Eu tenho duas vezes 30 meu grupo eu mereço o espaço em dobro vamos derru- bá-la dizer que ela está desviando o dinheiro oficial Vamos logo afastá-la ela não quis me incluir só porque estou organizando também e tenho uma idade [inaudível] A gente pode ser criativo e dizer que o governo não pode fazer propaganda de opção sexual Boa ideia os progressistas nos ajudam a antologia vai calçar 36 Quanto mesmo estão pagando pela participação nesta [inaudí- 287 . ou seja. a federação das bocas a calar os tiros. No entanto. Ancestral.

vel] [inaudível] Ah rejubilar-me-ei com a porcentagem sobre cada um do meu grupo isto começa a me soar poesia iv – Alarido Impasse no passo impedido pelo Internacionalistas em prol do governo que atacou o sistema internacional de direitos Rápido e ríspido raio que O estupro pauta a política na aliança entre a bala e a bíblia A bomba abrindo as bocas da Os sem-terra de mãos dadas com as longas unhas do latifúndio Vento avante o vórtice Queimar favelas o requisito para se esquentar com a cidade e suas verbas Sus- surro insidioso dos ossos sob os Corrupção é tudo igual para lide- rar o governo o homicídio é o diferencial Patinhos pisando a praça pagando o pato dos pactos aparelhados Aplaudiu o massacre de jovens negros premiado com o palácio e negros jovens que lhe baterão continência Impasse na pauta do raio A merenda furtada quem diria alimentou as festas da justiça Sussurro no vórtice da bomba A aliança entre o boi e o banco deputados que mugem executivos que pastam política Avante o impedimento da praça E se o governo só for isto mesmo a administração de quem cairá amanhã rindo lou- camente dos corpos que lhe amortecerão a queda só for isto mesmo a fratura dos discursos a osteoporose do público só for o consenso do protesto com a lápide – em desacordo todas as palavras são políticas – Pádua Fernandes é autor. em especial. aos golpes repetidamente sofridos pelos povos indígenas. de Cidadania da bomba e Cálcio. entre outros livros. 288 . ambos contrários às continuidades do autorita- rismo no Brasil e.

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Por essa razão. 290 . daí é que não sai nada. céu encoberto. o mais alto que pode. de entusiasmo. uma cartolina: Fora Lulla. acesse sempre um dicionário]) (onde: shopping em SP) (imagem: abre-se o elevador. aceleram. e sacode raivoso. lá de dentro. piso três. vestido com roupa social. Cena 1 Externa – manhã.Como dizia o Barão de Itararé. vazados na mente acovardada e melancólica da escritora. agita seu cor- panzil. (áudio: os vendedores. SP) (áudio: trilha sonora de rojões. Fora PT) (diálogo/monólogo que se escuta ao pé da faixa de pedestres) Senhora x: “Tudo isso porque o Lula morreu” Senhora y: “Por essas e outras que vou votar no Eduardo Cunha para a prefeitura” Cena 2 Interna – noite (quando: domingo pós-afastamento da presidenta [presidenta com a. para o alto. o coro ditado pela estratégia de marketing. buzinas de automóveis) (plano de fundo: carros passam. as ruas devem ser ouvidas: áudios verídicos. de onde menos se espera. frenético. (quando: dia da direção coercitiva do Lula) (onde: avenida Paulista. dão seu grito de guerra. no canteiro da ave- nida. se- gundos antes de iniciarem mais um domingo da crise financiada pela mídia). vemos a loja de depar- tamentos com as portas semiabertas). fogos de artifício. um homem gordo.

insubmissa. 291 . gira o pescoço à esquerda e à direita. “. só ouço Claudia Leite. Bem certo. (cinto fivelão. Per- gunta.. Nunca leia a caixa de comentários. dois milhões! ” Ca- tou a chave da Tucson sobre a mesa: “Por isso eu não vou ao show da Preta Gil. sabe muito. embolsou dois milhões com a lei ruanê. Em luta constante pela cultura e pela educação. (diálogo/monólogo que se escuta de olhos baixos. muito sobre tudo. sua impaciência não vê a loja. Não. shopping novamente). já devia estar nos quarenta. Que coisa mais sem vergonha.. por que rasgaram seu título de eleitora. (onde: praça de alimentação. Paula Fábrio é escritora. no fundo da caixa do elevador). Está bem certo disso. Com o rosto deformado pela careta. não era tão novo. ” Cena 3 Interna – noite (quando: primeiro dia pós-colóquio mui decoroso entre Ma- chado e Jucá). justo a mim. enerva-se. todos nós acossados. de um paizão”. descontente. Era só o que faltava. Sem comentários. meurmão”. Senhora z. músculos trabalhados. e espuma: “O quê? Agora trouxeram as manifestações para dentro do shopping? Esses vagabundos. tampouco a reunião dos vendedores. possivelmente vagabunda. carteirão na mão. Levan- tou. arrematou: “O Brasil precisa de pulso firme. Aponta o dedo para o rapazote que o escuta sem parar). após ouvir os gritos. invadirem este nosso espaço! ” Senhor k toma seu braço: “Por isso eu vou comprar a Veja. no spotfai. eles falam de todas essas pegadinhas que estão fazendo com a gente. a todo o momento. di- rige-se a mim.

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o vovô só lhes dava um cascudo. Até parece que nasci hoje. tinha sempre seis projéteis ungidos em sacros óleos pelo arcebispo.. pelos empresários. um tantinho de educação.. meninos.para não esquecer – nº 3 – contra os golpistas de ontem e de hoje     Com essa sacava o 38. debaixo das unhas. ali descobrirão sangue gravado que a senectude não apaga). com a aquela manejava o cassetete como quem brinca de espada – lembrança da criança antiga que surrava os empregados. 293 . Não se assustem. Paulo Ferraz é poeta e por dez anos viveu numa ditadura militar apoiada pela imprensa. agora todo mundo pra caminha. Pronto. pelos banqueiros e pela OAB. o avô contara que o mesmo dava aos pretos: um tantinho de educação. São as mesmas mãos frágeis que hoje só sabem afetos. as mesmas mãos que viris asfixiavam hoje a- lisam cabelos (as mesmas mãos – basta que seus netinhos escarafunchem nos vãos dos dedos.

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como na tela plana de um computador. Os rostos marcados por tantas batalhas.. tijolo e sonhos . teço com os dedos do espírito. Descrevemos uma larga parábola como se desenhássemos a cartografia de um improvável regresso ao que fomos um dia (e já não somos) ao largar do porto de partida: um chão de fábrica. talvez extintas. pelo calor dos corpos.. esperanças e enganos que me cercam. num relâmpago. Envolvido pela algaravia das vozes. E essa luz de estrelas. um remoto campo de futebol.Contra seu ventre. essa íntima geografia de tempo e silêncio por onde miro as sólidas estruturas de ferro. mais uma vez. Aqui estamos num verão tardio sobre esse chão castigado por séculos de suor. Cais do porto. nascemos. Armazém das Utopias. (Poema em voz alta para ser lido nas vigílias em defesa da Democracia) i. nos fere os olhos e o coração. Salgado pelos pés de negros e estivadores.

habitante do solar da Casa Grande para quem nunca deveríamos ter nascido? E saber que apesar dela nascemos.. de golpe. das caldeiras desse engenho tropical de mando movido à surda força de espora e rebenque e penso: como podemos esperar um ato de contenção ou respeito da mão que nos desce o látego sobre o lombo em carne viva? E maneja a lâmina.. desejou nos encarcerar no ventre? E nos negar a luz e o ar que respiramos? E nos calar a voz e interditar o gesto? Essa ibérica senhora coberta de rendas. por vergonha. Contra seu ventre.que nos abrigam. e arrogância. por um momento. Contemplo a fria lâmina dos ódios que desatamos. renascemos todos os dias.. Temperada por séculos no fogo lento dos banguês.. da ferocidade dos inimigos. 296 . contra a cabeça que se levanta? A mesma mão guiada pela fúria de quem dia após dia. nascemos.

renascemos. Será esse o lugar onde viemos beber canções pisadas pelos pés de negros. e acende aqui uma nova face. guiados pela batida dos tamborins.como se fôramos uma vingança da vida. nos morros da Providência e da Conceição para retomar a marcha? Aprendemos nos Pelourinhos que não se palmilha desertos tão vastos.. sem recuos. Que a cidade possa nos ouvir desde o Cais do Valongo. Renasce aqui o rumor das ruas entre a canção e o grito que se desata de dentro das veias para alcançar os ouvidos da multidão anestesiados pela Hidra de Lerna ou do Jardim Botânico? Pergunto. que se ouvem nos becos da Lapa. Que o país possa nos ouvir pela voz sobrevivente de João Cândido um dia enterrado em cal virgem. que ilude o cerco da sombra.. Sem erros na rota que traçamos e o vento varreu do areal durante a noite. ii. outra estrela recolhida no estoque infinito das utopias. 297 . com outra luz.

Sem traições, desvios, vilanias.
Sem as perdas de muitos
que a tempestade apartou de nós.

Sei, desde tempos subterrâneos,
que não estão vendados os olhos da Justiça.
Que Justiça pode fazer a justiça de uma só face?
Que Justiça pode fazer a justiça de classe?
Mira com um olho só
a justiça dos meninos de granja.

Invocamos nossos santos e orixás,
nossos combatentes e sua memória
para redesenhar o percurso.
Repercute no peito o som do surdo.
Ecoa a cadência de um samba antigo,
sempre novo, para alimentar esse delírio
que nos assalta a medula:
fomos condenados à liberdade.
Seguiremos proscritos
por uma ordem sem remédio.
Alimentados pela voz rouca do peão
que não se dobra ao açoite.

Devo curvar-me até ao chão
para recolher os estilhaços da estrela,
a palavra e o sal
que sustentam nossas dúvidas
e nossas certezas:
não seremos expulsos do tempo
que nos coube viver.

Contemplo vigas, tijolos, palavras.
Os rostos. Os corações abertos.
As cores, os abraços. As lágrimas.

298

Os olhos das pessoas inundados
pelo sublime veneno da esperança.

Estamos de pé,
para retomar a marcha interrompida.
Agora é a vigília.
Agora é a rua, a praça, os becos, os morros, os cais, os corações.
O chão da fábrica, o assédio à cerca do latifúndio.
As escolas ocupadas pelos que nasceram depois de nós.
A guerrilha digital contra a acidez do ódio
que sonha dissolver a invencível alegria de nossa gente.
Acreditem, os sonhos do ódio, não vingam.

Rio, 27/02/2016
Brasília, 10/03/2016

Pedro Tierra nasceu no Tocantins em 1948. Quando publicou
seus primeiros textos quem se interessou não foram os críticos
literários, foi o delegado de polícia. O primeiro livro, Poemas do
Povo da Noite, foi escrito durante os cinco anos de prisão que
cumpriu nos períodos Médici/Geisel e traz como epígrafe: “Há
os que vivem lamentando a opressão, eu viverei denunciando-a”
(Babeuf). Ela dá sentido ao que escrevo.

299

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O terror

o terror
o terror do estado
o terror
o terror fardado
o terror
o terror invade a tua casa
o terror de terno e gravata exclamando bordão
o terror nas manchetes de jornal
o terror em muros grades estacas de edifícios
o terror habitando mansões
o terror assombrando a multidão
o terror
o terror promove chacinas genocídios
o terror trancafia o bem no cofre dos peitos
o terror justifica o terror
o terror lincha culpados e inocentes
o terror está armado de argumentos
o terror quer te convencer que é inocente
o terror é um homem de bem
o terror
o terror sangrando os dentes
o terror em comentários de portais
o terror misturado no arroz feijão
o terror pra nos manter calados
o terror reformatando as almas
o terror organizando as filas
o terror levando pras prisões
o terror
o terror estampado nas vitrines
o terror em 30 segundos comerciais
o terror sufocando o teu ar
o terror te vê do alto de arranha-céus
o terror faz sombra nos mendigos

301

o terror não gosta de crianças
o terror
o terror
o terror
o terror vai estar lhe transferindo
o terror cochila às sextas-feiras
o terror não dorme nunca
o terror não te deixa dormir
o terror vende os teus rivotris
o terror é alucinógeno
o terror come teu fígado
o terror ainda vai te matar

Pedro Tostes guerrilha com as palavras há 20 primaveras de luta.
Mais famoso por seus entreveros com a lei do que pela eficácia
da lira.

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pertencimento: leitura de mundo
Novas Perspectivas frente ao golpe no Brasil

O problema social no Brasil é um problema de leitura. Não ape-
nas a leitura do livro, mas da notícia, da mensagem midiática,
dos acontecimentos, a leitura de mundo. A apreensão do narrado
se dá entre a história visível e a subjacente, a que se revela nos
interstícios da história. O que há por trás da notícia?
Quando, por exemplo, um taxista diz: “Também acho um ab-
surdo esse abuso cometido pela polícia militar que mata indis-
criminadamente os jovens universitários e é por isso que sou a
favor da intervenção militar no Brasil” podemos sugerir que esse
sujeito não possui leitura de mundo. Ele liga dois pensamentos
excludentes e, portanto, ilógicos. Isso não é um raciocínio dialé-
tico, é inabilidade crítica. Quando um grupo de pessoas se une
nas ruas para pedir a intervenção militar no Brasil, será que esse
mesmo grupo tem conhecimento das consequências nefastas
que tal exigência implica em suas próprias vidas?
A grande mídia orquestrou o golpe e assim, conseguiu afastar
do ministério mulheres, negros e gays, além de diminuir vários
programas sociais que alavancaram o surgimento de uma nova
geração periférica dentro das universidades. Deputados com-
provadamente corruptos tiraram uma presidente do cargo sem
prova de crime de responsabilidade.
Acusar, denegrir e punir não deve vir antes da comprovação
da inocência. Se a inocência é negligenciada pela punição ime-
diata, será que há uma leitura dos fatos correta ou apenas desejo
de punição e castigo? O problema social do Brasil é um problema
de leitura. E para que a mudança ocorra é necessário haver uma
real problematização sobre o que se vê e o que se lê. Nunca se viu
tanto, nunca se leu tanto. E nunca se compreendeu tão pouco. O
discurso TFP (Tradição, Família e Propriedade) que inunda hoje o
país, asfixiando qualquer singularidade, comprova uma cegueira
generalizada. A leitura de mundo pode ser o ato revolucionário
deste milênio se existir por trás a necessidade de aprofundar

304

Filha de jornalistas. Lutaremos até o fim pelo direito à nossa identidade (com al- teridade). Priscila Gontijo é carioca.  Eles querem tirar de nós o espanto. conviveu desde criança com militantes de movimentos sociais e figuras como Henfil e Frei Betto. a favor da democracia e luta contra o machismo. 305 . a misoginia e pelo fim da cultura do estupro. É contra o golpe. licenciada em Letras Português/Francês pela PUC/SP e artista-orientadora de teatro do Programa Vocacional da Secre- taria Municipal de Cultura da cidade de SP. É dramaturga. Com discursos autoritários.quais são as reais causas que impedem a tolerância e o convívio social com a pluralidade e a diferença. Com canhões. que a incentivaram a acreditar no contato direto com os movimentos nos quais os pobres se or- ganizam e lutam por seus direitos. Os Felicianos anseiam pela falta de pensamento próprio. que na verdade é justamente a única forma de desvendar a realidade que nos cerceia. pela falta de imaginação.  Porque a noção de pertencimento nasce da cultura. E a favor da volta de Dilma ao poder. roteirista. Não se arranca a alma com intervenções militares. radicada em São Paulo.

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não é nada demais As pessoas só estão assustadas não houve tempo e você sabe as cenas se desenrolam sem um ensaio sem sequer um roteiro as pessoas pegam o que têm à mão se você olha de longe pode perceber o medo e o em si mesmo curiosamente animal das pessoas Dirceu Villa – As pessoas só estão assustadas não é nada demais nós só estamos assustados hoje se fizer frio e se chover ao mesmo tempo e por causa disso só por causa disso não pudermos sair de casa nós só estamos assustados quando chegamos tarde da noite cansados e acendemos todas as luzes da casa nós só estamos assustados ao pedir para o garçom que nos troque de mesa ou os talheres por algo mais confortável só estamos assustados com os olhos pregados na embalagem de um alimento matinal que vem pronto nós olhamos assustados para os gatos à noite havíamos imitado os gatos à noite à noite quando olhamos bem assustados para os olhos de alguém e repetimos aquelas frases que escolhemos para declarar nosso amor que pode bem ser amor verdadeiro como os tais girassóis de Van Gogh para os quais nós também nós já olhamos assustados nós só estamos assustados e falamos o tempo todo de jogos de gato e rato e esperamos o tempo de olharmos em volta como o gato. nós somos os ratos nós só estamos assustados como quando começa o carnaval e sabemos que se chove ou não 307 .

sempre nos sobra alguma coisa porque todas as ruas são becos e todos os becos são avenidas intermináveis nós só estamos assustados mesmo quando você volta atrás e decide que agora sim vai me seguir embora não esteja clara a diferença entre amor e adoração para que eu te siga também e também assustado lhe digo que procuro a um bairro industrial antigo quando passo pela praça em frente de onde você mora e penso que se me visse agora ou não me reconhecia ou ficava muito surpresa nós só estamos assustados lado a lado pensando tratar de outro assunto nós estamos ficando assustados porque digo a você quero vê-la mesmo assim nós só estamos assustados querida nós dormimos assustados nos braços um do outro e acordamos ainda assustados nos braços um do outro quando é tarde da noite e passamos o dia todo em claro estamos mesmo muito assustados assustados quando olhamos para o calendário e nos parece ver ali outro futuro que não este a que estamos condenados ficamos mais assustados nosso futuro ainda não estava no calendário quer dizer que ainda não estamos com os dias contados nós só estamos vivendo numa época em que chamam luz à escuridão e embora minha língua esteja morta suas formas me enchem a cabeça nós só estamos vivendo num período cujo nome não sabemos e embora seja o medo o que me move meu coração está parando nós só estamos assustados quando vendemos nosso carro muito barato quando compramos outro carro mais caro nós só estamos assustados quando vendemos nosso carro por uma bicicleta porque nossos filhos terão de esperar tempos melhores para nascer .

teme o cansaço.nós só estamos assustados mas não chegue tão não chegue perto talvez não seja tempo ainda de se dizer que nós só estamos assustados Rafael Rocha Daud é poeta e psicanalista. teme o precisar de esperanças. assim chamado o inevitável. mas teme acima de tudo o governo do medo. teme o ridículo. 309 .

CALDERÓN | JULIANA CORDARO | KARINE KELLY PEREIRA | LAERTE | LEONARDO COSTA | LEONARDO MATHIAS | LETÍCIA NOVAES | LILIAN AQUINO | LINEKER | LUANA VIGNON | LUBI PRATES | LUIZ RUFFATO | LUIZA ROMÃO | MAEVE JINKINGS | MAIARA GOUVEIA | MAÍRA MENDES GALVÃO | MANOEL HERZOG | MANOEL QUITÉRIO | MANU MALTEZ | MARCELINO FREIRE | MARCELO ARIEL | MÁRCIA DENSER | MARCIA TIBURI | MARCÍLIO GODOI | MARCO DUTRA | MARCOS GOMES | MARCOS SISCAR | MARIA CLARA ESCOBAR | MARIA GIULIA PINHEIRO | MARIANO MAROVATTO | MEIRE OLIVEIRA | MEL DUARTE | MICHELE SANTOS | MICHELINY VERUNSCHK | NICOLAS BEHR | NOEMI JAFFE | ODYR | PÁDUA FERNANDES | PAULA FÁBRIO | PAULO FERRAZ | PEDRO TIERRA | PEDRO TOSTES | PRISCILA GONTIJO | RAFAEL ROCHA DAUD | REGINA AZEVEDO | RENAN NUERNBERGER | RENAN QUINALHA | REYNALDO DAMAZIO | RICARDO ESCUDEIRO | RICARDO LISIAS | RONALDO BRESSANE | SHEYLA SMANIOTO | SHIKO | STEFANNI MARION | TARSO DE MELO | TATÁ AEROPLANO | TATIANA SALEM LEVY | THELMA GUEDES | THIAGO MATTOS | TONY MONTI | TULA PILAR | VANDERLEY MENDONÇA | VERÔNICA STIGGER .

militante.quando você olhar pra essas pernas saiba que são pernas de ciranda pernas que marcham  e que dançam pernas que enfrentam homens armados pernas que se entrelaçam com outras pernas pernas pernas pernas pernas de luta  e de festa pernas de explorar o palco pernas parecidas com as suas pernas estendidas na rua pernas doídas de correr atrás do ônibus pernas que derrubam as suas pernas pernas pernas quando olhar pra essas pernas saiba que elas são minhas e não suas Regina Azevedo é natalense nascida em 2000. Ela se recusa a desistir e um dos seus meios de resistência é a poesia. 311 . Poeta. sente uma forte dor de barriga ao ver seu país entregue a ratos de terno e gravata.

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ele quer e acredita pôr tudo nos trilhos. queima o fogo das legiões – e somos muitos) . (contra a farsa. um homem – tão homem e velho e branco – prepara mais um discurso de posse. construir uma ponte. com seus ritos legais.uma manobra política a portas fechadas (grossas cortinas. com seus gestos certeiros no xadrez do mercado. pôr ordem na casa: seus atores. no grande teatro. no palco. verniz da impostura). repetem o bordão não me inveje. trabalhe. mas um NÃO (movimento com tantas mil faces) no meio da rua interrompe seu pacto. sua fala precisa (gravata alinhada) explana a si mesma e a seus pares as medidas necessárias para o grand finale.

está organizando um livro. mas como verbo. Luto. enfrentam a rígida ordem vigente.Renan Nuernberger (São Paulo. 314 . de diversas maneiras. cujo título quer ser lido não como substantivo. reencontra alegria na força renovadora dos movimentos sociais que. 1986) é poeta. No mo- mento. Embora se entris- teça com a política institucional e suas manobras.

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o espaço pelas “forças de segurança”. helicópteros nos sitiavam do lado de fora. daqueles nossos velhos conhecidos “cidadãos de bem” que tinham dinheiro de sobra . porrada de todos os lados. caminho por onde passavam os carros oficiais e de pas- seio rumo àquela grande festa. Nunca gostei do futebol. Enquanto uns tocavam vuvuzelas e xingavam a presidenta lá. Mas por outras razões. repletas de dentes bem clareados e alinhados.Teve Copa. não tão longe do Itaquerão. desde antes do 7x1. Fazíamos um protesto pacífico na margem da Avenida Radial Leste. um esporte que frequentou compul- soriamente minha infância. Ali. Mas não é só. eu estava na manifestação do “Não vai ter Copa”. A polícia é estadual. 316 . Enquanto isso.ou ao menos suficiente . mais como pedágio da violência simbólica de uma sociabilidade masculina forçada do que como vontade sincera de correr atrás da bola. sem ter pra onde correr. mas a ordem e a lei eram determinação federal. vai tomar no cu” era o grito torcido que ecoava das bocas das pes- soas brancas. no mesmo horário. spray de pimenta. balas de borracha. “Ei. viaturas. Por isso. eu também estava revoltado com Dilma. em um momento algo epifânico. tropas de choque. E teve golpe. No Brasil. perto do Tatuapé. em 2014. Também estava contra porque achava que a Copa encarnava o megae- vento da exclusão e representava a velha exceção brasileira po- tencializada na grande escala. en- fim. A única saída foi o refúgio dentro da quadra do Sindicato dos Metroviários. teve copa. que nos abrigou enquanto cavalos. Dilma. enxerguei o que já era evidente: nós perdemos. sem falar naquela empolgação verde-amarela desbotada de quem berrava ofensas como “va- gabunda” e “puta” para a presidenta no estádio. acuado diante da iminência de uma invasão violenta.para pagar um salário mínimo por um lugarzinho naquela abertura de ca- fonice estética ímpar. Fui contra desde antes do 7x1. aqui nós ganhávamos bombas de gás.

Perdeu o time brasileiro de 7x1. Perderam o senso de alteridade e de respeito aqueles que faziam panelaços com xingamentos machistas a cada pronunciamento da presidenta na televisão. Renan Quinalha é um ativista dos direitos humanos que tem certeza de que é um golpe contra nossas liberdades. Mas a sorte é que ainda não perdemos a história e a oportunidade de estar do lado certo nessa disputa. E logo teve golpe. Perdeu-se a dignidade com gente nas ruas pedindo volta de uma ditadura. em meio ao golpe. E. 317 . E também de que é preciso resistir com todas as boas armas: pedras. que fomos golpeados pelo autoritarismo deles e por erros nossos. Perdia Dilma que se reelegeu ao final daquele ano com promessas às esquerdas e fazendo um governo cada vez mais rendido às direitas até seu vice conspirar e tomar seu lugar. Perdemos nós. No fim. ainda vai ter Olimpíadas. noite e poemas. teve Copa.

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começou a escrever poemas (ruins) e peças de teatro na adolescência. 319 . numa família pequeno-burguesa. mais por teimosia que competência. formou-se em sociolo- gia e sempre trabalhou com livros e literatura. Ainda se considera de esquerda e costuma ver o mundo sob uma perspectiva rebelde.etimologias golpe de sorte vai bem golpe de ar às vezes resfria golpe de mestre nem sempre ensina ippon é o golpe preciso mas quando golpe vem de traição conchavo maracutaia vira golpe baixo golpe sujo golpe de Estado que serve para sitiar cidadão democracia esperança golpe que também é trapaça para burlar a lei garantir privilégios manter os poderes do usurpador a gula do capital o ódio fascista contra tudo o que pode ser libertário luta libido arruaça praça canção pedra noite poema esse golpe tramado mais abaixo do subterrâneo provoca náusea e medo dos ditadores de sua abominável sombra onde flores medrosas morrem Reynaldo Damazio nasceu às vésperas do golpe militar de 1964.

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do fundamentalismo de um lar mariazinha cresceu em uma casa bem família com pai de família na patente mais alta bem cidadão de bem firmemente orientada a ser mulher extremamente direita docilmente pela voz materna domesticada seja vaso e escrava mais nada mais ou menos quando deixava de ser menina se percebeu gostando de meninas a mulher que nela se precipitava divagou sobre as reações do tal lá do patente alta algumas gravadas no espelho por vezes em segredo negado rosto de mãe trincado pela mão de macho no quarto sozinha enquanto a corda terminava de estrangulá-la seu último sopro aliviou 321 .

já nem mulher nem menina passa agora a mais nada e desabitou a casa Ricardo Escudeiro é poeta e vive em Santo André/SP. Com alguns deles aprendeu a não crer em discurso de patrão e procurar a transgressão. Cresceu e trabalhou com metalúrgicos. 322 .

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– E aqui em São Paulo temos que aguentar o marido dela de prefeito. O Congresso Nacional está estudando o perdão à dívida dos convênios médicos. * A Universidade de Oxford está organizando um evento acadêmico de grandes proporções para discutir a situação política brasileira e os caminhos para superarmos a dicotomia. 324 . Quase todo mundo de direita. isso não acontecia. – Só sabe fazer ciclovia. aparentemente tranquilos. Ouvi a frase de um deles: – Se essa menina tivesse um macho que nem eu em casa. * Estou na fila do caixa do Fran´s Café da Haddock Lobo. não precisaria ser estuprada por trinta. Posso citar alguns nomes: Persio Arida. Se ela não tivesse no poder não teriam coragem. repito. Dois ga- ris conversavam perto de mim. Duas me- ninas estão namorando em uma mesa à direita. Todos brancos. Não convidaram nem um artista. (O título do evento é “Transcendig the dichotomy”. Na minha frente. * Vi que os lucros dos bancos continuam crescendo.história (às vezes oral) do tempo presente Parei na calçada agora cedo para esperar o farol fechar. Luis Roberto Barroso e o impagável Luis Felipe Pondé. nem um negro. – É culpa da Marta Suplicy. ninguém dos movimen- tos sociais e.) São 17 convidados. um casal um pouco mais velho que eu conversa: – Antes do PT. Entre eles. Celso Amorim. 2 mulheres.

não antes. acusado de corrupção em um tribunal que julga questões tributárias. estendeu as mãos e atravessou a rua correndo. * Jorge Coli publicou um artigo na Folha de S. Eu coloquei as latinhas no meio das minhas poucas compras e o menino saiu para me esperar lá fora.* O principal executivo do Bradesco. * Um menino com uma caixa de engraxate me pediu agora há pouco na fila do supermercado para eu comprar três latinhas de graxa para ele trabalhar. o senhor só pode me chamar de ladrão depois que eu te roubar. Uma senhora então se virou e disse que eu não devia gastar di- nheiro com esses vagabundos. ao lado do banco. Aconteceu há 20 minutos em uma esquina de Moema. 325 . Ouvi o que ele disse: – Não me assalta! O vendedor ambulante respondeu: – Tio. foi indiciado ontem pela polícia Federal. Paulo afirmando que o ambiente da performance contemporânea é frívolo. Na hora o cara deu um pulo para trás. Hoje. Todo mundo daqui o conhece. de sobrenome Trabuco. um homem subia a rua bem na minha frente. quase foi atropelado. * Na esquina ali atrás. sempre fica um rapaz de uns 16 anos vendendo chocolate. em São Paulo. quando o rapaz se voltou para ele e estendeu a caixa de chocolate (Charge).

tem quarenta anos. Estou almoçando um yakissoba no Ciclo Básico. Fiquei em Barão Geraldo com a intenção de. Ricardo Lísias publicou sete livros. e sua mãe achava que ele nunca iria assistir a um golpe de estado. tomar um café com o Leonardo e depois voltar para São Paulo no ônibus que sai do campus às 13 horas. 326 . Descobri agora que por conta da paralisação só teremos o carro das 17 horas. hoje.* Tuíte de uma pessoa chamada Rodrigo Constantino: * Fiz uma palestra-performance ontem no Departamento de Filo- sofia da Unicamp. Passaram duas mulheres ao meu lado agora há pouco e uma disse para a outra que a sua vontade é de cortar o pinto dele.

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Vazem. demônios das ruas aos palácios Lavem. bucetas e caralhos Queimem os patrimônios derrubem os armários fumem o Deuteronômio – se tudo virou adversário só a putaria total salva o Brasil Ronaldo Bressane (São Paulo. demônios Flecha que partiu beijo que traiu nude que mandou panela que bateu fofoca que fedeu espelho que trincou pasta de dente que saiu presidente que mentiu – porra nenhuma volta atrás Vazem. jorna- lista e quer eleições gerais já. 328 . ficcionista. 1970) é poeta. hormônios cus.

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vai dizer que sua carne não é minha? Eu não sou golpista. tem 26 anos e habita um corpo assombrado por mil mulheres. Eu não sou golpista. feminista adora já falei que não foi golpe. Eu não tinha como saber que você estava falando sério quando disse não. mas só se você renunciar. no fundo você gosta disso tudo que eu sei sua puta. eu achei que você também queria. resistindo um pouquinho. minha querida presta atenção. eu não tinha como saber que você não queria. Eu fiz tudo por você e não precisa gritar. vai dizer que você não estava gos- tando nem um pouquinho? Você brava fica tão bonita. ficou falando que ia resistir até o final e eu achei que você queria. Não é golpe se a gente se ama. Não foi golpe. querida. Sheyla Smanioto é escritora puta da vida e pronta pra luta. 330 .Legalidade jurídica   Golpe é uma palavra muito forte. como eu ia saber que você não tem senso de humor? Eu peço desculpas. eu não tinha como saber. poxa. também não precisa falar assim. você adora dizer que não e ficar toda sofrida você devia me agradecer por tudo que eu faço por você. Re- side na periferia de São Paulo. Anda. sua puta. Eu só estava brincando. você provocou. achei que você ia acabar gostando e foi tudo culpa sua. você é uma va- gabunda adora essas coisas como eu ia adivinhar que não queria? Achei que estivesse se fazendo de difícil. se tivesse cedido logo não ia ter sangrado tanto.

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332 .

graffiti e cinema. 333 . faz quadrinhos. ilustrações.Shiko é paraibano.

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interessada apenas em destruir e mascarar tudo que havia sido construído pelo governo nos últimos anos. pegar a vassoura e varrê-los dali o quanto antes. Seu despertador apitou. Enquanto os ratos insistiam em se debaterem e prolifera- rem abaixo de seus pés no porão da casa onde vive há pouco mais de quatro anos. afinal sentia dentro de si o quanto rechaçava toda e qualquer manipulação da mídia em desfavor de um governo democraticamente eleito. Entre canções. ligou seu pequeno radinho de pilha para tentar distrair a cabeça. precisava sair . o locutor anunciava um golpe de estado em tom de vitória.  Tomou um gole de café e abriu o jornal. ocultando dela frases tão cheias de mentiras onde se lia claramente uma direita manipuladora.Inteiro teor dELA ELA foi despertada por grunhidos de ratos e pela angústia vivendo dentro do seu estômago devido aos tempos de constante bruma onde a direita tentou dia após dia imperar e atrasar os rumos do Brasil. 335 . precisava levantar. distorcendo o fim da de- mocracia e o estupro de uma Constituição como algo positivo.era dia de ato no país.  Ao chegar na cozinha. A certeza de não fugir à luta crescia. Aquilo tudo era irritante por demais. Extraiu dali o que percebeu ser um poema-protesto e o inteiro teor dos seus sentimentos tão gol- peados nos últimos tempos. ELA pegou uma caneta pilot preta e começou a ra- surar uma notícia. as manchetes eram angustiantes. Foi então que se lembrou que antes de ir para as ruas ainda havia ratos interinos para serem retira- dos do porão e varridos para fora da casa.

336 . Hoje ela é sua alma. enfaixou-a no pulso feito um cordão umbilical e levou-a para morar com ele. estava lá vibrante misturada às cartas e contas para pagar. Sorriu. sem envelope. Sem remetente.Stefanni Marion um dia encontrou dentro de sua caixa de cor- reios uma pequenina bandeira vermelha.

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O desespero nos faz arriscar ou acreditar nas previsões mais variadas. O barco é e sempre foi um só: não dá para rir de quem achou que seria legal vê-lo afundar. A cada semana que passou perdemos mais. as ideias mais interessantes estão sob ataque. Aliás. seria bem tranquilo poder ficar aqui vendo a composição e as decisões do governo provisório-mas-defini- tivo e dando risada de quem apostou nas melhorias que viriam com o golpe. Mesmo os mais atentos observadores da política brasileira estão em sobressalto. prin- cipalmente pela constatação diária de que tudo aquilo que havia para não deixar tudo aqui ser ainda pior é bem mais frágil do que costumavam afirmar. Nem tem lugar para “eu te disse”. Você dorme imaginando que o trem vai para um lado e acorda vendo a máquina sumir na direção contrária. Es- tamos assistindo ao desmanche dos frágeis pilares de um país melhor: os melhores horizontes da Constituição estão sob ata- que. surpresos com as voltas e reviravoltas dos últimos meses. Não sei dizer o quanto disso tudo é irreversível. porque a vida política às vezes é surpreendente. se o país real nunca en- 338 . surjam outras forças políticas à esquerda. o (pouco) que há de mais democrático nas instituições está sob ataque. Perplexos. Mas não dá. mas é só desespero. para escarnecer de quem dizia “fora corruptos” ou “tchau querida”. Está tudo sus- penso.Sobre barcos bêbados e trens desgovernados Perdemos muito nos últimos meses. todos hesitam quando dizem “eu tenho direito”. enquanto afundamos junto. ninguém mais tem muita convicção quando diz “o Judiciário vai barrar com base na lei”. A cada um dos últimos dias perdemos mais in- tensamente. Fizemos de tudo pela governabilidade e acabamos escorregando para fora de qualquer normalidade – o Brasil de hoje é um país desamarrado. Ninguém mais se arrisca a dizer “não vai passar. Não é exagero. porque a Constituição proíbe”. não é drama nem charminho. estão todos surpresos. quem sabe. E é bem provável que amanhã e depois seja ainda mais veloz nossa derrota. Se as coisas por aqui nunca foram fáceis. caso o processo se reverta ou.

339 . Há tempos me dedico a defender que. a hora agora me parece ainda mais aterradora. UM PAÍS A TEMER Presidência Salvo-Conduto Vice-Presidência Roleta-Russa Ministério do Planejamento de Fuga Ministério da Defesa Criminal Ministério da Intransparência Ministério da Desfazenda e Antiprevidência Ministério da Deseducação Ministério da Saúde para Quem Pagar Ministério da Agricultura Gourmet Miniministério da Cultura Ministério do Trabalho Precário Ministério das Submissões Exteriores Tarso de Melo nasceu em 1976 e não sabia que. seu país vivia sob um golpe. estaria na mesma situação. há instrumentos no direito que podem ao menos ajudar a resistir na esfera local e preparar para lutas mais amplas contra a lógica do capital. É desse retrocesso que estamos falando.tregou o “país do futuro” que esperamos. por mais que os grandes males do país se devam à parte que cumpri- mos no capitalismo. muito menos que. 40 anos e um pouquinho de democracia depois. então. Ver agora tais instrumentos escorrerem entre os dedos é uma forma bem dolorosa de perce- ber que a luta por um país melhor se tornou mais difícil ainda.

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ergue mais um arranha céu no coração da cidade em meio às sinagogas no lugar de um antigo batalhão ergue mais um arranha céu no coração da cidade com a bênção da igreja destruindo um antigo quarteirão tira a criança no braço bota essa escola abaixo mete um prédio no alvo desse megacondomínio sampa judaico cristão a meninada deu lição de história resistiu ocupou encantou não adiantou truculência não adiantou força bruta não adiantou a violência desse estado velho e decadente fernão dias vaza fernão dias bandeirantes desprestígio fechou caminho 341 .

onde canta com vozes diferentes e encarna as enti- dades que vivem dentro dele. seu ter- ceiro disco. melodias espaciais e o chão de terra batido e pulsante que salta pra fora das caixas de som. 342 .fogo na mata faca nos índios virou grife virou marca virou nome de estrada virou nome de escola que agora é ocupada por meninas e meninos que sabem o que querem e cantam fernão dias vaza a escola fica fernão dias vaza a meninada fica fernão dias vaza a poesia fica Tatá Aeroplano lançou recentemente Step psicodélico. Adora o som derretendo pelas pa- redes.

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Não deixemos que se louvem torturadores. do meu (auto)exílio. 344 . Lembremos nossos mortos. então. Nossos cálices de vinho tinto. o monstro não demorou a reapare- cer. Nem os negros. Não havia um inimigo. E não deixemos que o retrocesso dê cabo de nossos valores. Pode um povo não ter memória? Pode um povo ter esquecido a barbárie ocorrida 50 anos atrás? Ter esquecido que faz muito pouco vivemos outro golpe.. Lembremos o que é viver num país sem democracia. Nietzsche já dizia que para esquecer é preciso.Aqui de Lisboa. mas uma vitória da população que foi pras ruas? Para o povo brasileiro? Se é que realmente existi- mos como povo. lembrar.. que a liberdade foi cerceada. À luta. até pode ser bonito. presas. assassinadas? Porque não temos memória. silenciadas. nem os homossexuais. Lembre- mos o que era o Brasil militar. Pois bem. nem os índios. Não deixemos que a política seja feita à nossa mercê. antes. mas já não se escrevem cartas. Para um amigo que reconhece o golpe e luta contra ele? Para um amigo que reconhece o golpe mas vai ao supermer- cado como se nada fosse? Para um amigo que diz não saber se é ou não é golpe? Para um amigo que diz que o impeachment da Dilma não é um golpe. então. Dito assim. Não deixemos as mulheres de fora em 2016. E também não saberia para quem escrevê-la. Quando eu era adolescente. que os militares to- maram o poder. eu queria escrever uma carta. Chega dessa he- gemonia branca e machista. Só o esquecimento pode fazer alguém acreditar que o PMDB quer limpar o Brasil da corrupção. Lembremo-nos de quem somos e só assim existiremos. Só o es- quecimento permite que um novo golpe político seja engendrado como se não fosse um atentado à democracia. que milhares de pessoas foram perseguidas. de nossas conquistas. de sangue. poético – imaginem se esquecêssemos diariamente que o sol se põe? Mas também tenebroso. ouvi várias vezes que a minha geração era acomodada porque não tinha motivo para lutar. Lembremos nossas bocas caladas. começamos sempre do zero.

Do Brasil. onde nasceu durante o exílio de seus pais. Não pode ir para a rua. chegam as mais terríveis notícias. 345 .Tatiana Salem Levy vive há três anos em Lisboa. mas acredita que as palavras têm seu poder de transformação.

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maio de 2016.Tempo de se envergonhar do filho no tempo de se envergonhar do filho anda-se curvado e de cabeça baixa rabo entre as pernas alma ulcerada no tempo de se envergonhar do filho não há como explicar à cria a fome o estupro o desprezo a tirania a bota no pescoço do desarmado no tempo de se envergonhar do filho tudo é causa de acanhamento o ar é ácido a água é podre o céu imundo a lei é surda a voz é muda a vida um perigo no tempo de se envergonhar do filho o passado é um peso o presente opressor o futuro temido no tempo de se envergonhar do filho há um planeta de primatas armados metralhando a infância a graça a alegria exilando beleza poesia e arte pendurando a liberdade num pau de arara antigo esse tempo de se envergonhar do filho eu não quero não aceito não me cabe não me venham eu engulo qualquer coisa menos isso menos isso menos isso São Paulo. 347 .

viu professores sumirem. como seu pai. viu seu país virar ditadura. protestou e. 348 . Com 44. Com 13. viu um nordestino operário. tirar o Brasil do mapa da fome. com 5 anos. viu a ditadura matar o povo de fome e falta de ar. viu a ditadura acabar. Lutou. luta contra o golpe que quer fazer o tempo voltar. Com 57.Thelma Guedes. com 26. Com 16.

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Usou-se marreta. 350 . sem tinta. Os aços entortaram e saltaram. fechando o vão quadrangu- lar. para que a porta pudesse desenrolar e deslizar. como de joelhos. Não vi quem eram. o outro saltou. Foram feitos nos lados verticais do retângulo. os tijolos abertos sob o sol a tudo indiferente. con- firmaria engenhos. o retângulo subitamente aberto tornado uma inva- riável superfície metálica. era uma casa. desfaleceu como uma doente. moldes que receberiam camada de graxa. talvez um país.Osso Era uma porta. que é o concreto fresco fixando os moldes e refazendo as quinas antes desfeitas a mar- retadas. No centro de uma parede acinzentada. entre as estruturas de aço rasgando o cimento fresco. desses que descem quando está terminado o expediente. cumpriria seus fins. Estourou cimento fresco. na primeira linha horizontal. deslizaria por ali. Na parte de cima. Ou: era uma porta a ser porta. A borda da porta. Mas não era um comércio. A porta seria porta. Foi quando passei em frente à porta que testaram a porta. fez-se um retângulo de quatro lados quase iguais. a porta dobrou e não fechou. enver- gou-se. Um molde envergou. O que temos agora é um vão quadrangular cujos lados verti- cais são borrados por uma mancha cinza. sulcos que seriam forrados por moldes de aço. presa de cada lado do interior dos moldes. prendeu-se um suporte de aço. Os moldes foram afixados com concreto fresco. as quinas desfeitas. Ouvi a porta descendo: uma chapa mole de aço escorregando para baixo.

Quer crer e ver que não é verdade. uma amiga de 70 anos lhe disse aos prantos: nem eu nem vocês nunca teremos visto a democra- cia.Thiago Mattos nasceu em Petrópolis. 351 . No dia seguinte ao golpe jurídico-midiático-parlamentar.

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No entanto.Eu tenho dúvidas sobre muitas coisas. Tony Monti acha que tem muita gente querendo microfone e palanque e pouca gente disposta a ser mais um na rua. Não sei se é hora para poemas ou pan- fletos (Michel Temer também escreveu seus poemas). eu acho. estarei na rua articulando minhas con- vicções provisórias e organizando o nojo e o ódio por esta máfia despudorada cheia de dinheiro e de mandatos. porque não é hora para vacilo. para jargão. para provar uma tese. sem esquecer as dúvidas. apesar das dúvidas. Não sei se é hora para usar vermelho. 353 . Antigamente as pessoas tinham dúvidas.

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já vivi na favela. Abro um sorriso.Sou uma garota ousada Meu cabelo é crespo. minha pele negra Já esperei um príncipe. não! Posso ser poesia Uso um turbante. tiro uma fotografia Ando na madrugada! Nos batuques de umbigada! 355 . minha pele é negra Meu esmalte é colorido. beijo um camarada Durmo com quem quiser e sigo sem compromisso Sou uma garota ousada! Meu cabelo crespo. sou da periferia Toco violão. Meu decote te incomoda? É melhor do que andar nua Mostrando minha pele negra.. já vivi mais de 100 Considerando meus conhecimentos Minha sabedoria Incluindo a rebeldia Não sou uma menina má. meu batom não tem cor Não tenho boca de mulata Minha pele é negra Gosto de salto alto Mas não uso meia fina. pego um violão.. Sou uma garota ousada! tenho 29 anos mas. escrevo poesia.

356 . acredita que é assustadora a traição sofrida por ela. performer. minha pele negra Tenho que ser corajosa. Sente muito por Dilma Rousseff. Mantém desde 2004. hip hop Mostro meus conhecimentos Canto com os camaradas! Sou uma garota ousada! Meu cabelo crespo.. ser “ousadas” na luta por mudanças em nossa sociedade. Está indignada e descontente com o ocorrido no país no dia 12 de maio de 2016. Tula Pilar é poeta. junto com seus três filhos e con- vidados..Tango. Mulheres (inclusive as negras) terão que se fortificar. o COLETIVO RAIZARTE. dançarina (dança negra. em nosso sistema político atualmente tão decadente. dança do ventre). persistente e abusada Carolinas e Dandaras Aqualtunes e Odaras Para ser uma garota ousada.

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Paulista  Fiesp Copacabana : 358 . Helio Bocudo Sergio Morto Michel Têmor Gilmar Mentes : escritores fascistas poetas conservadores cineastas corruptos filósofos reacionários pintores xenófobos psicanalistas mentirosos professores dedos-duros livreiros homofóbicos atores racistas designers sádicos músicos sectários atores pedófilos jornalistas de direita editores ignorantes : Suíça Panamá usa Curitiba : Seleção Brasileira Av.Miguel Reaça Jr.

: Vanderley Mendonça é jornalista. Crimes exemplares. 2005) e Greguerías. de Ramón Gómez de La Serna (Selo Demônio Negro. entre outros livros. 2005).PSDB Folha Estadão O (A) Globo Isto É Veja : tomem cuidado: sangue também germina a terra. É autor do livro Iluminuras (Patuá. tradutor e editor dos Selos Demônio Negro e Edith. Lecionou Editoração da ECA-USP. 359 . antologia bilíngue do poeta catalão Joan Brossa (Ateliê. 2003). Poesia vista. 2013). Traduziu. de Francisco Hinojosa (Amauta. Nunca aos domingos. 2010). designer. de Max Aub (Amauta.

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Vinha uniformizado. Quando finalmente levantou o rosto. debaixo da escuridão da noite. mãos juntas na altura do peito. Achava até que o amigo fosse ateu. deslocando um pouco para trás sua perna direita e inclinando ligeiramente o tronco e o joelho es- querdo. cabeça baixa. João encerrava sua suposta prece. quase num beijo. A dois passos do amigo. Não era o momento mais adequado para isso. Não queria interromper João. Como de cos- tume. Mateus escondeu o rosto no ombro do amigo. rezava. talvez fosse mesmo uma boa ideia rezar. pensou. apenas seus lábios se mexiam. Sejamos fortes.o maquinista Mateus chegou cedo. por isso. sussurrou-lhe no ouvido esquerdo. como se quisesse cheirar sua nuca. Não. pisando de leve sobre as pe- drinhas que atapetavam o chão. Enquanto este. considerava se se- ria ou não um problema fingir rezar em vez de rezar de fato. sozinho no meio dos trilhos. Mateus estranhou. Sejamos fortes. dizia. preocupado. pelo meio dos trilhos. mas desistiu. Mateus desvencilhou-se de João e perguntou se os outros já haviam aparecido. João estava tão concentrado que não percebeu a proximidade de Mateus. viu Mateus. em fa- lar que ele estava parecendo o Maquinista com aquele tipo de carolice. E se ele não esti- vesse rezando? E se ele estivesse apenas fingindo rezar?. Mateus. estacou. Porém. Abriu um largo sorriso e abraçou-o apertado. esperou. nunca o vira rezando. Mas ele não sabia e. Não era dia ainda. Seja- mos fortes. Pre- cisou sair de casa às quatro da manhã para não se atrasar para o encontro. repetiu uma vez mais João. Acordava-o. marcado para as cinco. Gostava de sentir o ar gelado da madrugada no rosto. mesmo de perto. Em pé. absorto. muito cedo. Lá já estava João. e estreitou-o ainda mais contra o próprio peito. eles 361 . como se cumprimentasse uma alta autoridade. Mateus se aproximou devagar. Parado feito uma estátua. também vestindo uniforme e o imprescindível capacete. certamente se juntaria ao outro. ele viera a pé. camarada. não era possível escutar o que dizia. Pensou em saudá-lo fazendo graça. Afinal. com capacete e luvas. Se Mateus soubesse rezar.

além dos uniformes e dos capacetes. resmungou Mateus. Roncava alto o suficiente para ser ouvido da rua. esticara as pernas para a frente. mal cabia no espaço exíguo.ainda não haviam aparecido. tentando se deslocar da maneira mais discreta e silenciosa possível. Vai por mim. indagou André. E o Maqui- nista? Está lá dentro. E vocês? André 362 . Mateus abaixou a mão direita e deixou cair de dentro de sua luva um canivete suíço. os abraçaram em seguida. camaradas. Tiago foi o primeiro a vê-los também. Em pé? Não sei se sempre em pé. Amanhecia. enquanto abarcava ao mesmo tempo João e Mateus. mesmo sendo um tipo franzino. resmungou Mateus. todos os três com seus respectivos uniformes e capacetes. os mais jovens da turma. sussurrou Mateus no ouvido de João. O Ma- quinista já está aí?. está vendo? Ele está sempre lá dentro. João fez um sinal para que Mateus o acompanhasse. O Maquinista. Cá estamos. Acho que ele mora aí. Já era dia. falou Pedro. João e Mateus avistaram os outros companheiros. companheiros. Eles saíram dos trilhos e contornaram o vagão em que se encontrava o Maquinista. um dia nublado com pesadas nuvens cinzas no céu. não resistiram e espiaram para dentro. Trouxeram as ferramentas? João abriu o casaco e mos- trou um martelo e um podão presos ao seu cinto de couro com tiras de tecido vermelho. ajeitara-se como pôde no com- primido vão entre uma parede e outra: recostara o quadril na divisória às suas costas. para o que der e vier. chegariam mais tarde. Gringo desgraçado. com o rosto chupado e os ossos saltados como os de um faquir. acho que ele mora aí. o Maquinista dorme aí. depusera a cabeça sobre os braços e assim dormia. Mateus depôs sua mão esquerda sobre o braço direito de João. onde estavam João e Mateus. rádios de comunicação. indicou João. É hoje. e os dois seguiram juntos. gru- nhiu João. sem ser ouvido. mas que ele dorme aí. Estes portavam. Acenou de longe e correu para abra- çá-los. Os irmãos Pedro e André. ele dorme. apoiara os braços no painel adiante. De pé. disse ele sorrindo. com os joelhos inclinados. Quando passaram ao lado da janela através da qual se via o Maquinista. João e Mateus iam abaixados. ao que João respondeu afir- mativamente.

camaradas. batendo palmas: vamos lá. Mateus. Recomposto. Autora. Pedro ergueu a camisa. a intervalos muito curtos e regulares. para forçar o músculo da coxa. não podemos cor- rer o risco de que os outros cheguem. uma chave de fenda. parando apenas para conferir as horas. Terminada a reza. roía as unhas. respirou fundo e concla- mou. Ficou segurando o pé durante uns vinte segundos e re- petiu o mesmo gesto com a perna esquerda. Vestiram seus óculos escuros. Tiago. ora para os lados. juntou as mãos na altura do peito em mais uma prece. Veronica Stigger é escritora. Todos sorriram. encostando-a ao glúteo. sem saber o que fazer. ainda que com certa tristeza. João. Pedro e André alon- garam-se como se estivessem prestes a praticar algum esporte. então. professora e crítica de arte. E Tiago tirou de um bolso uma grossa fita adesiva e do outro.​ 363 . ajeitaram os capacetes e se puseram em marcha. segurou o peito do pé direito e ergueu a perna para trás.arregaçou a barra da calça e apontou para uma faca presa a sua botina. João fez novamente sua estranha reverência. entre outros. Impaciente. Apenas João não colocou os óculos escuros. caminhava de um lado para o outro. de Opisanie świata. elevando os braços ora para o alto. se- guindo o exemplo dos dois. revelando a corda de sisal que trazia amarrada ao peito.

3. Vários autores. Stefanni. Kinzo. 2016. Carla. Marion. Poesia. 366 p. 2. Aquino.. Sobre os autores. São Paulo: Punks Pôneis. Política. cdu 304 / r593 .Dados Internacionais de Catalogação na Publicação [cip] Golpe: antologia-manifesto: Ana Rüsche. Arte visual.]. Lilian. ii. 5. 4.. 27 il. i. Fotografia. Prosa. [et al. 1.. iii.

2016. Gustavo Marchetti e Paulo André Chagas  ePub  Bruno Palma e Silva Revisão Ligia Ulian Lilian Aquino Mei Oliveira Revisão do espanhol Stefanni Marion . Copyright © dos autores. Lilian Aquino e Stefanni Marion Capa Rodrigo Sommer Logotipo Punks Pôneis Katia Spagnol Projeto gráfico e diagramação Bloco Gráfico – Gabriela Castro. Editores e organizadores Ana Rüsche.Copyright © Punks Pôneis. 2016. Carla Kinzo.

Woodkit .Fontes Andada.