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Inferno , de Patrícia Melo

:
Patrícia
gênero e representação
Lúcia Osana Zolin

A leitura do romance Inferno (2000), da escritora brasileira contempo-
rânea Patrícia Melo, desconcerta o/a leitor/a acostumado/a com a já tradi-
cional literatura de autoria feminina que fez história entre nós a partir da
segunda metade do século XIX. Isso porque essa tradição literária que foi
paulatinamente se tornando visível tem sua trajetória marcada por signifi-
cativas mudanças acarretadas com os avanços do movimento feminista. À
medida que o feminismo vai se consolidando e se avolumando, também a
tradição literária de autoria feminina vai ganhando, no mesmo compasso,
novos contornos: os primeiros textos literários escritos por mulheres no Bra-
sil, datados de um momento em que o movimento feminista apenas
engatinhava entre nós, representam figuras femininas oprimidas pela ideo-
logia patriarcal que silenciava a mulher e lhe tolhia a liberdade. São textos
que internalizam os valores vigentes, reduplicando a tradição, tanto no
que se refere às questões éticas e ideológicas, quanto no que tange às
estéticas, de tal modo que a postura crítica que, timidamente, daí se abs-
trai acerca da então disfórica situação social da mulher é da ordem do
simples registro da opressão, numa espécie de desabafo velado, sem maiores
discussões e reivindicações. O dado dissonante estaria no fato de as vozes
femininas estarem se fazendo ouvir na seara literária, até então, reservada
exclusivamente aos indivíduos do sexo masculino/dominante.
Mais tarde, em meados do século passado, quando Clarice Lispector
publica Perto do coração selvagem (1944), uma nova fase da literatura
brasileira de autoria feminina é inaugurada. Trata-se de um momento de
ruptura com a simples reduplicação dos valores patriarcais que marcava a
fase anterior. De modo geral, a obra clariceana estrutura-se em torno das
relações de gênero, trazendo para o primeiro plano das discussões as dife-
renças sociais cristalizadas historicamente entre os sexos, as quais vinham
cerceando sobremaneira as possibilidades de a mulher atingir sua pleni-
tude existencial. A exemplo do que ocorre com a ficção de Clarice
Lispector, a maioria das escritoras que vão surgindo na esteira de sua

pôs em discussão o seu direito à sexualidade. durante quase toda a segunda metade do século XX. na berlinda a legitimidade da dominação masculina e da conse- qüente opressão feminina. o próprio conteúdo desses escritos: as temáticas memorialistas. por ver minimizada. além de se levantar contra a ditadura militar e a censura. como ocorre em Acqua Toffana (1994). Além de legitimar a publicação de textos de grande valor literário. ao prazer e ao aborto. também.72 Lúcia Osana Zolin produção literária (e já não são tão poucas como no século anterior) tam- bém tem suas obras caracterizadas pela problematização do modo de a mulher estar na sociedade regulada pelo pensamento patriarcal. A referida explosão de publicações de textos de autoria feminina coinci- de. . que dizem res- peito não apenas às mulheres. Isso im- plica dizer que. aos poucos. com o ponto alto do feminismo entre nós: depois de conquistar o direito da mulher à propriedade. São romances que apontam para a prefe- rência da escritora em construir livros narrados em primeira pessoa. tem sido publicada em vários países da Europa e Estados Unidos. sem dúvida. A própria legitimidade da autoria feminina faz. ilustra muito bem essa situação. O resultado foi a alteração radical dos costumes. parece estar influen- ciando. além do mercado nacio- nal. mas à humanidade em geral. há que se renderem tributos ao movimento feminista. É como se a mulher escritora já se sentisse à vontade para falar de outras coisas. medo e/ou des- crédito. enfim. O matador (1995) e Elogio da mentira (1998) – livros em que os narradores-protagonistas são identifica- 1 Duarte. que. com ênfase no universo feminino domés- tico e no eu. tal- vez. passim. pôs. A produção literária de Patrícia Melo. Mulheres no mundo. questionou. o pensamento feminista. discutiu. cedendo espaço para temáticas diversas. por narradores masculinos narrando o próprio universo e outras questões afins. que terminou por tornar senso comum o que era antes apenas reivindicações1. nos últimos anos. que dominaram a literatura de mulheres por várias décadas vão. o feminismo nos anos setenta. a ficção nacional escrita por mulheres desnudou. autobiográficas. não por acaso. parte do rol de conquistas do feminismo. a opressão que tradicionalmente incidia sobre seu sexo. com o declínio do patriarcalismo. antes engavetados por vergonha. Mais uma vez. ao trabalho profissional e ao voto.

Trata-se. enfoca uma galeria de personagens masculinas e femininas. a escritora vai enfocando progressivamente as misérias da realida- de contemporânea. com toda uma comunidade lhe rendendo tributos –. que. de Patrícia Melo 73 dos como assassinos. Assim. romance que consiste no objeto deste artigo. espécie de vigia que. marcados pela libertação da mulher. justamente por isso. desajustado com os novos tempos. que pare- ce ter por objetivo fazer uma espécie de retrato do caos do mundo moder- no. consiste na única possi- bilidade de transcendência que ele conhece. em que a violência assume muitas formas. partindo da posição de olheiro. Também Valsa negra (2003) põe em cena um narrador- protagonista. é ignorado. rico e pode- roso. narrando as mazelas de seus relacionamentos amorosos. enlouquecido de ciúmes. que. posicionado em lugar estratégi- co. en- . Já Inferno. desta vez. ora violências veladas como a da relação patroa-empre- gada. como bem aponta a crítica. diminuída na sua individualidade pela prepotência da patroa que se sente autorizada a subjugá-la em função das “seis notas de cinqüenta” com que mensalmente lhe remunera – e o de Miltão – líder absoluto do tráfico no morro do Berimbau. trata-se de um maestro bem situado no meio em que vive. revela e põe em discussão ora a violência mais divulgada dos disparos de metralhadoras por dinheiro e poder. a dor da mãe que somatiza o fato de não conseguir manter os/as filhos/as longe das tragédias sociais. também. é narrado em terceira pessoa por um narrador onisciente que. Inferno. a gravidez indesejada e reincidente da adolescente do morro. na verdade. o da mãe – empregada doméstica. Ao pôr em sua mira a trajetória do menino favelado que queria ser “rei”. que abarca não apenas a periferia. ele não titu- beia em optar pelo caminho trilhado por este último. os espaços nobres da cidade. o olho incômodo de Patrícia Melo enfoca. em que o desnudamento da diferença de mundos e problemas cau- sa estranhamento. ou. valendo-se do discurso indireto livre. Assim. observa atentamente a aproximação de figuras indesejadas para. da banalização do mal. no entanto. construída em torno de José Luís Reis. embora esteja em toda parte. mas. A trajetória do protagonista Reizinho é marcada pelo desejo de ascen- são no mundo do narcotráfico. no mundo do tráfico de drogas. Diante de dois modelos. de modo a fornecer ao leitor um interes- sante perfil masculino.

até. Alzira e Caroline estão. subalterno). toddynhos e outros produtos industrializados que lhe fascinavam e que na sua infância pobre lhe eram proibidos. trai. tornar-se o próprio líder. por fim. que. seguindo a “tradição do morro”. entregador de drogas. ele assume a posição almejada ainda na sua me- ninice. Se o protagonista. ele passa a exercer o cargo de “avião”. seguindo-se o número de página. ele o elimina pessoalmente e. atua na defesa dos interesses de seu líder. normalmente. à medida que a liderança vai perdendo seu caráter cor. para. intimida. São construídas como mulheres objetificadas3 e outremizadas4 dentro do sistema de relações em que estão inseridas. Essa consciência ele vai adquirindo aos poucos. sem se dar conta de que. 3 Termo referente à dialética do sujeito (agente) e do objeto (o outro. . o tempo todo. a mãe e a irmã. tais termos – associados aos pares binários sujeito/objeto e sujeito/o outro – são tomados no âmbito das relações de gênero. 4 Termo derivado do conceito de Outro/outro da filosofia existencialista de Sartre. danoninhos. portando armas pesadas. do lado mais fraco. sugerido e sintetizado. arrasta-o até o bar do Onofre e dispara sua metralhadora para o céu. em romances de autoria 2 Doravante. 215). as referências à obra Inferno. após destituir Miltão do posto. Consiste no processo pelo qual o Outro. metaforizado pela novíssima geladeira de seu escritório abarrotada de yakults. de posse do discurso dominante. mata. Na posição diametralmente oposta. as situações vivenciadas se estabelecem como paradigmas do caos social. os mesmos efeitos dos desmandos praticados. no mundo do crime. num ciclo previsível. o excluído que passa a existir pelo poder do discurso. no título do roman- ce – Inferno. já aguardada pelo/a leitor/a atento/a. Do núcleo familiar de onde provém Reizinho. o Berimbau estava sob seu comando”(I2. a condição de líder é sempre provisória. de Patrícia Melo. sobrevir a queda. Embora sem muita satisfação. finalmente. não por acaso. conspirações e tocaias conferem ao seu reinado um ritmo tenso. Não no mesmo sentido em que. As- sim. serão indicadas por meio da letra I. para galgar a posição de soberano na hierarquia do crime. aos dezessete anos.de-rosa. fabrica o outro. em que o constante estado de alerta vai lhe dando o tom. depois o de soldado. constituído por ele. A suces- são de traições. bem como da formação do sujeito de Freud e Lacan.74 Lúcia Osana Zolin tão. antes de experimentar. avisar o grupo. o Outro (que desempenha o papel de sujeito) é aquele que produz o discurso que imprime características ao excluído (submetido ao papel de objeto). comunicando que “a par- tir daquele momento.

aos poucos. numa espécie de círculo vicioso. desprovida que é do senso crítico. embora tenha se relacionado com os referidos parceiros por livre vontade. Nesse sentido. entregando-se a eles de corpo e alma para. ao final. assim foi com Walmir. ela sucessivamente se deixa manipular pelos homens com quem se relaciona. As ações que a permeiam pressupõem claramente a dialética do sujeito e do outro. do dominador e do dominado. ela ia sonhando com os príncipes . do mesmo modo como foi com Leitor. em especial. Assim foi com José Paulo. tudo indica que assim será com Edson ou Zino. do mesmo modo. Certamente Caroline não escolheu ser mãe de quatro filhos. regulado mais por razões sexuais do que emocionais. numa clara refe- rência à ideologia patriarcal. ocorre de forma velada. fica evidenciado que tais relacionamentos se inscrevem em uma hierarquia. sem que ela própria se dê conta. invariavelmente. Isso porque. enquanto. o segundo. exceto por um prazo bem curto. pai de Júnior. de frente da televisão. Sem conseguir esta- belecer a diferença entre esses contos de fadas modernos e a realidade do morro do Berimbau. não sonhou em se relacionar com homens comprometidos com outros interesses e projetos que não a incluíam. sustentam. pai de Alex. Essa realidade foi se lhe apresentando. Mas a objetificação e a outremização de Caroline. ainda na adolescência. amam e. com uma lata de leite condensado nas mãos. de Patrícia Melo 75 feminina de décadas anteriores. os quais as protegem. respeitam. não há como o/a leitor/a não equacionar sua trajetória em termos de objetificação e de outremização. Inferno. pai do Alas. em que as mocinhas sempre terminam ao lado dos galãs por quem se apaixonam. o terceiro. encontrar-se. não raro. abandonada e grávida. de tal modo que ela se constitui sempre como o objeto e como o outro. sem qualquer infra-estrutura. Na sua fantasia de adolescente. prováveis pais do quarto filho que o narrador sugere estar ela esperando ao final do romance. ela se curva a certo tipo de domi- nação imposta pelo universo fictício das telenovelas. conforme já sugerimos. e. à moda da maioria das adolescentes de sua classe e ambiente. seu primeiro filho. em que a parte mais fraca é fixada pela falta de lucidez. embora a personagem não se sinta angustiada com ques- tões relacionadas à famigerada dominação masculina que tanto atormen- tava as heroínas dos romances escritos por mulheres datados de poucos anos atrás. de discernimento e de senso crítico advindos de sua realidade social.

Daí ir entregando. sua construção enquanto sujeito inscrito na categoria “mulher” ocorre no interior de um campo de poder matizado por uma variedade de determinantes. sobretudo. Judith Butler. universal. sucessivamente. No caso de Alzira (e também de Caroline). em que a opressão assume um caráter voltado para diferenças de direitos e deveres. na tradição literária de autoria feminina. tal condição de objeto. . em Problemas de gênero (2003). Em ambas as situações. que arcar sozinha com a parte menos romântica e cor-de-rosa da história. queria se esquivar. põe em discussão uma série de problemas que envolvem o conceito de gênero – tão amplamente utilizado nos apontamentos da crí- tica literária feminista – sobre cujas estruturas fundamentais que produ- zem as assimetrias que lhe são peculiares repousam agudas discordâncias. que rejeita “a multiplicidade das intersecções culturais. de outro. porém deturpada. ela considera o equívoco que en- volve sua construção como uma categoria coerente e estável. sociais e políticas em que é construído o es- pectro concreto das ‘mulheres’”5. até se ver descartada e ter. as rédeas da própria vida nas mãos daqueles por quem vai se apaixonando. a exemplo do ocorre com Caroline. Trata-se no seu entender de um problema político a que o feminismo tem que gerenciar sob pena de reduzir uma realidade múltipla e disforme a uma representa- ção estável. tanto quanto o irmão. Novamente. Quanto a Alzira. duas situações lhe determi- nam a trajetória: de um lado está a Alzira-mãe. maldiz por se sentir humilhada e subjugada na sua posição subalterna. a quem venera em função de certas “regalias” que recebe e.76 Lúcia Osana Zolin encantados que a salvariam da realidade opressora e medíocre em que a mãe se inseria e da qual ela. como bem informa o título do livro. no âmbito conjugal. configura-se de modo diferente daquele recorrente. lutando com as armas que tem para manter os filhos longe das influências negativas do morro. sua mãe e de Reizinho. ao mesmo tempo. sendo que o que 5 Butler. vivendo uma relação não menos conflituosa com a patroa. Problemas de gênero. das relações heterossexuais de gênero. a que já nos referi- mos. trata-se de uma figura feminina objetificada e outremizada pelo sistema opressor. pp. sempre. 34-5. está a Alzira-empregada doméstica. No que tange à categoria “mulheres”. ou seja.

no entanto dá início a uma trajetória que seria marcada por uma série de outros determinantes que. Pare. Inferno. Caroline? Pela bunda. afirmava Alzira. nunca vingavam coisas boas. modelos. Meninas grávidas. 27). Juro. Meninas estupradas. nessa nossa tentativa de contornar-lhe o perfil. Foi até o portão. e em se tratando das perdas acarretadas pela sua condição de mulher-mãe-sozinha-pobre. Caroline reclamava. Patrícia Melo resgata. Coisas ruins aconteciam a toda hora.. rua. alcoólatra e violento. apresentadoras de televisão. Virgem. Nessa empreita- da. se engravidar. Sabe como são escolhidas as apresentadoras de programas infantis. sobretudo quando promove. com muita pro- priedade a discussão da referida teórica. parecem-nos fundamentais: Menina boba. Conhecia a vida. dissera. O trecho destacado põe o/a leitor/a face a um dos inumeráveis possí- veis componentes da categoria “mulheres”. A pior coisa do mundo era ter uma moça em casa. (.. Que não fizessem bobagem6 (I. Caroline não seria modelo. Meninas que se envolviam com os traficantes. Seguem alguns recortes que. nesse sentido. passou pano úmido no chão. mas eu me mato mesmo. minha filha. Ao banir Francisco de casa. não por acaso. Caroline não havia chegado do curso de computação. Isso porque ela já inicia sua trajetória em Inferno livre de qualquer influência do marido adúltero. no caso específico de Alzira. Pegou o balde e rodo.. de que fala Butler.) Juro que me mato se você engravidar. portanto. de Patrícia Melo 77 menos pesa é a opressão advinda da relação conjugal heterossexual. e que a torna. pare de dizer que vou engravidar. igualmente.) E mais. lhe conferem a posição de objeto e de o outro em uma socie- dade regulada pelos valores dos mais fortes e poderosos. faz toda a diferença ter em casa uma moça virgem. Dava ordens. Que eles estudassem. por não saber cozinhar bem o salmão. dizia. Todas as moças da favela queriam ser loiras. Gostava daquele cheiro de limpeza. marcada pela incompletude que lhe é essencial. de falar assim. Varreu a sala. outro tanto lhe é sugado na relação com a patroa que a espezinha e maltrata. .. dona 6 Grifos nossos. o banheiro. a comparação da situação de Alzira com a de sua patroa. E cobrava. ela rompe com a clássica opressão masculina. boa parte de sua força é exaurida na tentativa de manter os filhos longe das misérias sociais que rondam o morro. Catorze anos. mãe. entre outras coisas. (. que Caroline soubesse de uma vez por todas. as coisas simplesmente não acontecem para nós.

ninguém poderia detê-la. eu ensino. a mão ia sozinha. e era bom que não falasse. meni- no sonso. a dona da mão. Aspargo é isparjo. dizia dona Juliana para alguém na sala.. Eu ensino. sentia uma vontade feroz de machucar o menino. ambiente. Isparjo . e batia. e. Vou comprar isparjo. José Luís? Observou a ferida. a outremização no âmbito da relação patroa-empre- gada consiste em mais uma das peculiaridades desta figura feminina. que ouvia e se divertia. espancar. mas não adianta. burrice não tem perdão. Na reflexão do filho. sabia o caminho. es- tigmatizada por tantas variantes. menino. eu sabia. incontrolável. Alzira é a pessoa mais burra que já vi na minha vida.). nem ia mais a escola. Do mesmo modo. Miltão e todos aqueles cafajestes que morriam aos vinte anos. uma amiga. ele ouvira a patroa da mãe dizer (. nem ela mesma. singularizado ainda mais pela opressão e impotência frente à força do narcotráfico: desprovida de armas mais eficazes para lhe com- bater a influência sobre o filho. na bochecha.78 Lúcia Osana Zolin Juliana. Com esses traficantes? Eu me matando para você ir a escola. prometera para si mesma. inflada e gritadora”. menino burro. nem precisava falar. e bateu. inclinações particulares. fala. a mão se levantou. não dói? Tem que apanhar para aprender (I. agora. numa tentativa desespera- da de defendê-lo. conforme mostra o fragmento a seguir. Faz isso de modo a não deixar dúvidas que circunstâncias como classe. garoto? Alzira havia prometido que não bateria mais no filho. o/a leitor/a pode ver equacionada a disparidade que há na com- paração entre o seu dia-a-dia de menino no mundo do tráfico e o de Alzira no trabalho doméstico: Quatro notas de cinqüenta nas mãos. E rúcula? Risos. bater na cabeça. batia. ela disse. A Alzira é uma burra. dona Juliana. O salário da mãe eram seis notas de cinqüenta. en- tre outros agravantes. peça para ela repetir a palavra “brócolis”. mas aquilo era de matar. que apanhasse. Você está metido com esses bandidos. a violência explode nas mãos de Alzira. Nessa mesma ordem de idéias. veja o que ela faz com os talheres. Um trabalho muito pior. 31). com força. grau de instrução.. identidades femininas. influências do meio e da mídia. o burro. ela o espanca. idiota. sobremaneira. mãe “zelosa” dos filhos Otavinho – menino “bom” e “quieto” – e Marcelinha – “igualzinha à mãe. a impotência e/ou a ineficácia dos argumentos con- sistem em marcas que singularizam. e ele não reclamava. como mais uma faceta que lhe compõe o perfil. que abaixo desta- camos. Peça para ela pôr uma mesa. Responda. taf.

Só porque eu manchei. engolida por uma ferida gi- gante. outras interessantes figuras femininas completam a galeria de personagens do romance. filha de Zequinha. vê Caroline mãe de três filhos de pais diferentes. grávida do quarto. Paralelamente ao percurso dessas mulheres marcadas pela histórica opressão de seu sexo (revestida com outra roupagem nesse início do sécu- lo XXI). O reflexo de tudo é a amputação da perna. Só porque eu esqueci. Só porque não sei. o líder do narcotráfico no Berimbau. lamuriante. assiste a ascensão e queda de José Luís no mundo do narcotráfico. inicialmente com Miltão. essa Alzira. Não dei o recado. Falamos de Suzana. de sua cama. Seis notas de cinqüenta (I. depois. Ao final de seu percurso na narrativa. cujo envolvimento com o nosso . os gritos na minha cabeça. ela se torna “coisa”. com Zequinha. A dor de ver os sonhos que nutria em relação aos filhos engolidos pelo sistema – “inferno” que dá título ao romance – parece ser mais intensa. Ainda assim. as quais levantam e implementam a discussão acerca do modo de desenvolvimento da literatura brasileira de autoria feminina hoje. Risos. em que a degradação da dignidade da persona- gem e o aniquilamento de sua auto-estima são patentes. Inferno. que ocupa a mesma posição no morro dos Marrecos. Rúcula é rucum. casada. 22). De ser humano e. em função do lugar que ocupa e das “seis notas de cinqüenta” que recebe. também. a qual parece funcionar como uma espécie de metáfora das perdas acarretadas ao longo de sua história. estou morta. onde a mãe dormia com a irmã. Falamos. não é essa a ferida que mais lhe dói. Tanta humilhação por apenas seis notas de cinqüenta (I. de Patrícia Melo 79 é ótimo. Noites abafadas. Isparjo. Se dependo dessa infeliz. ouvia as duas conversarem. Queimei. Quebrei. ela se reconhe- ce subalterna e reificada face à arrogância patronal. 21). não agüento mais minha filha. Uma burra completa. é lerda. de Marta. Nesses fragmentos. na sua trajetória. Estraguei. portanto. Reizinho. segredando. Daí ser a responsável pela guerra que se instaura entre as duas lideranças que acaba por culmi- nar na queda de Miltão e ascensão de Reizinho para o posto. sujeito por definição. sem qualquer rumo ou perspectiva na vida. A voz da mãe. não suporto. madrinha do protagonista. chuvas. e. É bronca. sobretudo no que tange à representação da mulher. é sonsa. separada por uma chapa de madeira compensada da cama de casal.

. os quais lhe rendem uma dupla jornada de trabalho. numa espécie de retrocesso. construídas como contestadoras da suprema- cia da ideologia patriarcal calcada. res- pectivamente assinalado pela violência e pela retórica da vitimização: “entre a mulher-criança (a vítima indefesa) e a mulher-mãe (em nome da necessidade da paridade). no tema da eterna opressão feminina. a liberdade feminina deve-se à desconstrução do con- ceito de natureza. O modo de construção dessas figuras femininas. p. e da hipócrita pureza sexual que lhe é atribuída. tão diferentes das mulheres emblemáticas da literatura de autoria feminina dada a público a partir da segunda metade do século passado. Rumo equivocado. que era a da luta pela igualdade entre os sexos. vai ao encontro de determinadas discussões con- temporâneas acerca dos rumos do feminismo. a posse do morro dos Marrecos. numa espécie de vingança da morte do pai. sobretudo. que lugar resta para o ideal de mulher livre com que tanto sonhamos?”7. propor a melhoria das relações entre eles. como aquela empreendida por Elizabeth Badinter. materializada em práticas que tomam qualquer penetração e/ou sedução sexual como sendo da ordem do estupro. em que a mulher é vitimizada em função de seus encargos relacionados à maternidade. colaborando com a edificação de um novo estatuto da personagem feminina na literatura brasileira escrita por mulheres. posse provisó- ria.80 Lúcia Osana Zolin protagonista desencadeia nova guerra. Sua vitória rende-lhe. de tal modo a reinscrever homens e mulheres no ideário tradicional. 7 Badinter. recolocado no seu justo lugar. A teórica francesa chama de “rumo equivocado” certa tendência do feminismo contempo- râneo de se centrar. já que Marta decide reclamá-la para si. também. o movimento tem perdido de vista sua principal frente de atuação. de tal modo a abrir espaço para o desabrochar do pensamento culturalista que facultou subs- tanciais modificações na condição social da mulher. no lugar. fazendo crer que o sexo do indivíduo não lhe pode determinar o destino. Para Badinter. entre ele e seu pai. sem qualquer preocupação com barreiras de gênero. 150. Assim. na dominação masculina e na opressão feminina. agora. Nesse sentido. para. ela entra na ciranda da liderança do tráfico de drogas nos referidos mor- ros. intensamente envolvidas com as questões de gênero. em Rumo equivocado (2005).

O/a leitor/a acostumado/a com as . o fato é que quando decide se unir a ele. os entraves são de outra ordem. também. Mesmo em se tratando de Alzira e Caroline. Desde o início de sua trajetória nesse romance que conta a saga do menino que queria ser rei. mais determinadas pela classe a que elas pertencem do que pelo gênero. ao indicar ao marido poderoso o nome dele para a sucessão de Miltão. já que ela se encanta por ele ao receber de presente a jóia com a inscrição “Cleópatra Suzana. dá mostras que. a quem protege e aconselha desde a infância. ao trazer à baila personagens femininas tão ousadas como Suzana e Marta. ela pas- sa a exercer. transforma-se. Na verdade. não nos parece que as perdas que lhes marcam as trajetórias sejam da ordem da natureza. em relação aos planos que traça para si. ela o faz. embora os atributos que melhor as definem sejam. Suzana exibe um perfil que em nada faz lem- brar a mulher vitimizada pela dominação masculina que. nessa em- preitada. de Patrícia Melo 81 Patrícia Melo. na sua “fada madrinha”. sobretudo esta última. a objetificação e a outremização. do nosso ponto de vista. tem dado “boas manchetes” nas revistas femininas dos últimos tempos. agora. Sendo a madrinha de José Luís. Mas. forte influência no desenrolar dos acontecimentos que constituem a grande virada do romance. Inferno. bem como ante a guerra que ele declara contra Zequinha e contra o Morro dos Marrecos com o objetivo de resgatá-la. em termos de mudança de paradigmas no status quo da representa- ção da mulher na literatura de autoria feminina. estou apaixonado”. seguida do anel de ouro “vinte e quatro qui- lates”. demonstra não comungar com a estratégia da vitimização da mulher. no dizer de Badinter. é Marta a bola da vez. Ao substituir na cama o homem caracterizado pelo que ela chama de “a foda automática” pelo outro que “só faltava rezar antes do sexo”. Ainda que a mola propulsora de sua decisão de abandonar Miltão para se ligar a Zequinha tenha sido de ordem material. antes queremos crer que o que lhes aterrorizam o destino são as leis sociais. conforme dissemos anteriormente. o gênero que lhes compõe a identidade não se constitui como empecilho na busca pelos seus ideais. também não se contentaria com menos. tão criticada no texto de Elizabeth Badinter. sem recuar ante a intimidação de Miltão. Bem mais esclarecida. marcada pela queda de Miltão na liderança do narcotráfico no Berimbau.

pediatras” – é prontamente ignorado. Vem atestar isso o episódio do presente de aniversário. Inserida no universo do crime. ao invés de vestir a roupagem tradicional feminina e se colocar como vítima da opressão imputada a seu sexo. também Marta desencadeia nova guerrilha entre os morros do Berimbau e dos Marrecos. acostumado a se dispor a seu bel prazer do destino alheio. No entanto. ela se coloca ao lado do parceiro. atividade/passivi- dade ou sujeito/objeto. enredadas nos problemas advindos das relações de gênero. respectivamente sob a lide- rança do namorado Reizinho e do pai Zequinha. engenheiros. ele age como se pu- desse manipulá-la. Vive pedindo para traba- lhar comigo. só aos poucos vai se dando conta que se trata de uma mulher libertária que. aliás. em que ela lhe dá mostras de se identificar com um estatuto bem diferen- te daquele tradicionalmente conferido à mulher: Essa aí. Marta age tendo em vista o pressuposto da igualdade entre os sexos. ô paspalhona? (I. Assim. O que o pai toma como brincadeira. não causa estranhamento o fato de suas escolhas se pautarem nesse referencial. os quais remetem a outras estruturas binárias igualmente marcadas por oposições como dominação/subordinação. Numa espécie de opção ideológica. tanto quanto Reizinho. o que você quer de presente? Sabe o que a danada respondeu? Uma pistola Glock. Sua trajetória em Inferno refuta o ideal que subjaz à estruturação binária dos gêneros masculino/feminino como se se tratassem de dois pólos antagônicos. 203). contra . dentistas. agora. comentou. é na verdade os primeiros sinais do modo como se daria a declaração de sua independência em relação ao percurso usual da mulher no âmbito das relações sociais. Como Suzana. bem pouco tempo. Pode? Os três riram. orgulhoso. Faz aniversário na semana que vem. adora ouvir minhas conversas. Numa espécie de materialização de um antigo anseio do feminismo. conseqüentemente. essa menina.82 Lúcia Osana Zolin tradicionais personagens femininas. O caminho que o pai lhe esboça. ela simplesmente se declara sujeito e age todo o tempo como tal. por mais que viva sob a tutela do pai dominador. filha. convicto de que suas filhas teriam que se casar com cidadãos respeitáveis – “advogados. tão absurdo lhe soa o pedido da filha. Zequinha mexericou. sua liberdade e independência seria uma questão de tempo. Perguntei. Pode? Tem fibra. Quase perguntei: mas tem que ser equipada com mira a laser também.

para o/a leitor/a soa como resposta feminista para quem não tolera “rece- ber ordens de mulher”. também. Investida da posição de líder. se para a personagem não é proposital. instigar-lhe a aproximação com Suzana para obter informações. da mesma maneira que o eram as tra- jetórias dos líderes que a antecederam. afastar José Luís do “esquema”. con- ferindo a Reizinho a posse das “bocas” que estavam sob o seu comando. porque sabia demais. disfarçado de gerente de su- permercado. numa espécie de confirma- ção do processo cíclico que marca a trajetória dos líderes do crime. Os recursos para minimizar o preconceito de seus pares. ela passa a ambicionar-lhe o posto. o/a leitor/a vá se dando conta dos contornos da identidade dessa audaciosa personagem feminina. acostumados que estão a lidar com o outro sexo (ou com o sexo outro) apenas em duas situações. de Patrícia Melo 83 o pai que pretendia direcionar-lhe o destino. 335. decidindo suas escolhas amorosas. eliminar Suzana. tênis. daí. numa espécie de revide que. até a adoção do comportamento “empedernido” e “ameaçador” do pai. aos poucos. tão logo o pai é morto. No entanto.6). camisetas largas. Talvez até em um patamar superior. tendo em vista a sutileza das armações que engendra a fim de atingir seu objetivo. e comandar tudo sozinha. A inteligente arquitetura do romance permite que. Daí providenciar-lhe a prisão. tudo para deixar claro que agora “era a dona do mor- ro”. qual seja. daí. admi- tindo na comunidade o policial Denílson. cujas ações colocam-na no mesmo patamar dos demais profissionais do tráfico que integram a história. além das constantes manifestações de poder com vistas a “colocar o sujeito no seu devido lugar”. por conta dos desafetos instaurados entre eles a partir do assassinato de Zequinha. Inferno. o cabelo curtíssimo e boné” –. A sucessão das ações que vai construindo sua trajetória de líder do tráfico de drogas nos morros do Berimbau e dos Marrecos é marcada pelas mais variadas formas de violência. “na cozinha e na cama” (I. de modo a instituir o romance . por fim. relutantes em aceitar “mocinha bonita assim passeando por aí com fuzil israelense” vão desde o novo visual que em muito lembra o deles – “cal- ças militares. ela adota uma postura que em nada deixa a desejar face ao modo masculino de liderar no universo do narcotráfico. independentemente de seu sexo e dos sentimentos que nutre por ele. como bem lembra nossa heroína.

movida pelo desejo de realização pessoal. . A imagem da mulher como vítima da violência masculina é constantemente ali- mentada. ela prati- ca outras formas de violência. a violência feminina constitui-se como uma espécie de assunto proibido. pro- metendo botar-lhes fogo na “boceta de Bom Bril”. em contrapartida. Para Badinter. há um considerável aumento de casos de mulheres que espancam seus mari- dos. no âmbito da violência conjugal. a prática da violência consiste em uma espécie de inadaptação ou maldade patológica. corromper. com o da vitimização da mulher. Em Inferno. em Inferno. ao assumir a liderança do “esquema” tão logo José Luís é preso. à qual homens e mulheres estão sujeitos. delatar. além de matar. ou seja. em essência. do mesmo modo que se referem ao considerável aumento da violência entre as adolescentes que. homens e mulheres não são tão diferentes assim. caso voltassem. Marta passa a atuar em todas as frentes que o mundo do crime impõe. vai ao encontro de uma realidade feminina pouco explorada nos estudos de gênero. em Rumo equivocado. concernente à violência histórica que. intimidar. No que se refere à questão da violência feminina. conforme atesta uma série de estudos levantados por Badinter. Conforme as ponderações de Badinter.84 Lúcia Osana Zolin como um interessante interlocutor das idéias defendidas por Elizabeth Badinter. como os meninos marginais. são igualmen- te refutadas quaisquer atitudes que possam vir a contribuir. de um lado. como desalojar as “adolescentes ‘lombriguentas’”. tem lhe marcado a trajetória. como também apontam que. Noutras palavras. a ponto de serem classificados em duas categorias hete- rogêneas. impensável. mais ainda. não raro. en- quanto a violência masculina é equacionada. de outro. torturam e matam. fazendo lembrar que. os quais fazem referência à ex- pressiva participação das mulheres nas práticas nazistas do genocídio. mesmo sendo mais numerosa entre os homens. A representação dessa faceta da mulher. espécie de revide das supostas humilhações que teria sofrido enquanto mulher de Reizinho. a feminina o é em termos de “contraviolência”. supostas amantes dele. para a diminuição do conceito da dominação masculina e. a teórica levanta a questão do tabu que envolve o tema como sendo mais um dos equívocos do feminismo contemporâneo. agridem. consiste em resposta à violência masculina. em termos de “maldade natural do macho”. de maneira menos tênue do que se possa imaginar. raspar-lhes a cabeça e enxotar-lhes do morro.

No mundo do crime. consiste no argumento definitivo que inscreve essa destemida personagem feminina no mesmo patamar das masculinas que compõem o romance. Sem desconfiar da emboscada. de Patrícia Melo 85 O projeto de matar José Luís. ela completa o ciclo. Inferno. Causando certa surpresa no/a leitor/a que. por terra a tese de que a representação da mulher na literatura é sempre marcada pela sua vitimização no âmbito das rela- ções de gênero. pelos homens do Volnei. como já nos referi- mos. Assim foi quan- do José Luís teve que matar Miltão. Como qualquer outro líder do narcotráfico. Tudo ocorrera exatamente duas semanas após a partida de José Luís. de um modo ou de outro. que alçou a liderança. como que para demons- trar que. em essência. Como qualquer outro traficante. Marta cai. cuja história. acaba por idealizar-lhe um desfecho triunfante. metralhada na principal rua do morro. Do mesmo modo. cujas traje- tórias são movidas por interesses que tangem à esfera do poder. independentemente do sexo que a identifica. retratado no romance. à medida que Marta vai tomando “gosto pelo esquema”. de edificar as mes- mas obras e. tão bem representado por Patrícia Melo nesse romance de cunho realista. ela planeja eliminar aquele que ocupa o posto almejado. E a que mais trouxera alterações para a vida do Berimbau fora a trágica morte de Marta. e abriu as portas do Berimbau para os inimigos (I. na qualidade de seres humanos que são. os interesses “profissionais” estão acima dos emocionais. 361). . Marta emprestou seus soldados. tangencia a sua. a despeito dos laços afetivos que os unem. condizente com sua passagem pelo universo masculino do tráfico de drogas. ela decide eliminar aquele que lhe ocupa o posto almejado e só não o faz porque ele foge antes. igualmente foi assim quando teve que matar o amigo Fake quando o tomou como ameaça à sua permanência no poder. definitivamente. fazendo cair. ganhando mais dinheiro e aumentando a complexidade de seus negócios com Gavião. a quem admirava e respeitava desde a infância. também. homens e mulheres. diante de uma figura feminina tão diferente daquelas tradicionalmente representadas na literatura (inclu- sive na de autoria feminina). de sofrer as mesmas penalidades para os mesmos crimes: Muita coisa mudara desde a fuga do irmão. para tomar-lhe o lugar. embora não se concretize. são capazes de desempenhar os mesmos papéis. sem qualquer atenuante conferido por sua con- dição de mulher. Marta recebera um telefonema de Gavião pedindo homens para uma operação de urgência.

. marginalidade e diáspora. Nadilza Martins de Barros (org. Constância Lima. Recebido em junho de 2006. E. 2004. BUTLER. João Pessoa: Idéia. julho-dezembro de 2006. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Mu- lheres no mundo: etnia. MELO. Rio de Janei- ro: Civilização Brasileira. nº. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. 2000.86 Lúcia Osana Zolin Referências BADINTER.). de Patrícia Melo: gênero e representação”. em MOREIRA. 2005. Brasília. “Literatura e feminismo no Brasil: primeiros apontamentos”. Rumo equivocado: o feminismo e alguns destinos. Patrícia. 2003. 28. pp. São Paulo: Companhia das Letras. 71-86. Aprovado em novembro de 2006. Lúcia Osana Zolin – “Inferno. Inferno. J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. DUARTE.