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SOBRE O EVANGELHO SEGUNDO SATANÁS, ROMANCE-ENSAIO DE

Luis Eustáquio Soares

Publicado primeiramente em espanhol, pela editora El perro y la rana, da
Venezuela, a narrativa O Evangelho segundo satanás se apropria da
potência metamorfoseante de demo sem cracia; de demo no lugar do
poder, logo no lugar da transcendência e, portanto, de Deus,
inscrevendo-se, assim, como legião de vozes no rés-do-chão das
revoluções de existir com. Um pouco à maneira de O Evangelho
segundo São Mateus, de Paolo Pasolini, este aqui, segundo satanás,
parte também do horizonte da pobreza, do sub-operariado urbano,
descolando os lugares tradicionais do sagrado e do profano, de tal
maneira que Cristo é Satanás, que é Deus, que é José Cemí, um
personagem fora das tramas e dos panoramas do mercado formal e
também do informal; um sem lugar que reescreve os evangelhos oficiais
e apócrifos, inclusive O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de
Saramago, dotando-os de imprevistos deslocamentos estéticos, eróticos
e políticos, a partir de um intenso diálogo desconstrutor com
encruzilhadas contemporâneas, como as do terrorismo, as do império, as
do endividamento do terceiro mundo, as da crise ecológica, as relativas
às novas aventuras e empreendimentos da biotecnologia, do genoma
humano e da clonagem, referências que desnorteiam aquilo que
pensamos ser o humano, e antes de tudo o humano entendido
ocidentalmente, ao qual Derrida disse alhures que está marcado
divinamente pela egocêntrica pretensão corporal-abstrata de um
fantasmático espírito europeu, com sua metafísica da presença a si, de
senhorial humanidade transcendental: sagrada escritura que se esboça,
como efígie, no rosto-posse do dinheiro, cuja circulação abstrata e divina
submeteu o mundo ao inferno do sequestro, da pilhagem e do roubo da
mais-valia vital. O Evangelho segundo satanás desfundamentaliza os
fundamentalismos contemporâneos, religiosos, econômicos, culturais,
políticos, afetivos, geográficos, etários, étnicos, femininos, masculinos,
homo e hetero, sendo, por isso mesmo, livro presentemente utópico, por
delinear uma abertura de possibilidades para o humano e o não humano,
de tal maneira a nos mostrar que tudo ainda está por se fazer, que nada

trans-possibilidades. Como ficção anômala e vadia. Bush. O peso dessa trans-história da opressão ou a metafísica desse peso. sexuais. Nascemos muito velhos. como o lugar do sujeito. e é do fora que retira manhãs desse longo noturno pesadelo que temos feito. suas hierarquias econômicas. para não dizer vagabunda. tido. Esta mesma tradição que. inscrevendo-a. de tabus. do cultivo sem fim de nossas impotências. é regra geral precisamente porque é uma exceção. natimortos que temos sido. de não a tudo que seja SIM à verdade imanente do não matarás! Fora das palavraas de ordens da tradição do oprimido. pois sabe que esta viceja. repleta de realismos. assim como suas plásticas publicitárias formas de individuais desindentidades. que mal conseguimos perceber o óbvio: tudo pode ser diverso do que tem sido. tal que um faz devir com outro. como Fidel Castro. Tanto mais sujeitos. aberturas. de totens. sejamos nós mesmos os nossos opressores-oprimidos. ainda que. a submissão. como regra geral. de parentela. sob o signo da servidão voluntária. nem subjetivo nem objtetivo. O evangelho segundo satanás assume o impossível: . para dentro e para fora. mais assujeitados – e estamos imbecilmente felizes. sido. seus valores. porque é um estado de sítio imposto e posto para manter o roubo dos excedentes coletivamente produzidos. epistemológicas. E para lidar com esse antifundamentalismo e antideterminismo. enfim. matamos. e vice-versa. de tal sorte a constituírem-se como instável equilíbrio ou estável desequilíbrio da trama perturbada da longa história de tradição do oprimido em que vivemos. a um tempo dentro e fora da tradição do oprimido. Ainda que a exceção seja regra geral porque absurdamente desejamos nossa própria submissão. o conjunto transhistórico deste peso. constituindo uma visada radicalmente antideterminista. seus sistemas de aparência. o próprio Derrida. na transhistória da tradição do oprimido. com suas verdades. nos tolhe tanto que mal conseguimos vislumbrar saídas. segundo Walter Benjamin. O evangelho segundo satanás é livro-exterioridade. pois sabe que a tradição do oprimido é a própria impotência divina encarnada. a narrativa se desdobra rizomaticamente. fazendo emergir personagens fictícios e outros nem tanto assim. culturais. Roberto Marinho. suas estanques formas de identidades. suas divisões sociais do trabalho. vivos. Lula. étnicas. foras.está pronto. eis sua regra geral. em que nada está dado. em que nada seja definitivo ou inevitável. E natimortos porque. Edward Said. Romance-manhã. O evangelho segundo satanás é ficcional-inaugural narrativa de nascimentos.

na destradição dos desoprimidos. romance-povo sem Deus. das palavras. romance desoprimido. assim.a revolução experimental de ser o último e o primeiro. porque livre. demos. Já não era sem tempo! . É. sendo o dilatado meio sem começo e sem fim da dança festiva.