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E n trev ista co m J o sé L u iz S a sso co n ced id a à R o sa n a S tefa n o n i em 0 6 /0 3 /2 0 1 4

R o sa n a : N os p rim eiro s p rojetos em que você tra b a lh o u já h a v ia fo ley ? Q u em fa zia ? C om o

so a v a m ?

S a sso : E n tão , eu com ecei no fin alzin h o da década de 6 0 . P recisam en te em 1968, m as eu já estag iav a

d esd e 1 9 6 7 lá n a an tig a A IC . O ficialm en te , 6 8 .

O fo ley n ão era v isto co m o é h o je. E ra feito o m u ito , m u ito b ásico , in clu siv e isso é u m a co isa

q u e v o cê p o d e p erceb er se v o cê p eg ar esses film es d a d éc ad a d e 5 0 , 4 0 , 6 0 n a C in em ateca. V o cê v ai v er

q u e p raticam en te n ão tem um fo ley n o s e n t i d o l i t e r a l c o m o n ó s c o n h e c e m o s h o j e . A s p e s s o a s f a z i a m ...

D e r e p e n t e ... B a t e r n a p o r t a q u a n d o p r e c i s a v a , a t e n d e r u m telefo n e, co isas m u ito b ásicas q u e eram m u ito

ev id en tes na im ag em . A b rir um a p o rta de guarda-roupa, um a v en ezian a, en fim , n ão tin h a to d a essa

p reo cu p ação d e fazer p asso s e m ais p asso s, e “arfearfes” e tim b rag en s d e ro u p as, co çan d o o cab elo , isso

era rid ícu lo p o rq u e in clu siv e o p ró p rio sistem a d a ép o ca n em se d av a a esse lu x o e o u tra, n ó s e stam o s

falan d o d e m ix ar o ito p istas, u m a su p er p ro d u ção n a d écad a d e 6 0 tin h a 8 p istas , se m u ito ! E u ch eg u ei a

m ix ar alg u n s lo n g as a p artir d e 1 9 7 0 , ap ro x im ad am en te, o n d e n o m áx im o o q u e v o cê fazia era u m a p ré d e

d iálo g o s, q u an d o m u ito tin h am 3 p istas d e d i álo g o s, n ão tin h a m ais d o q u e isso . N o rm alm en te aq u i em

S ão P au lo o s film es eram d u b lad o s, raro s eram o s film es em so m d ireto , o q u e d ev eria ter u m fo ley m ais

co m p leto , m as n ão era essa a lin h a d e racio cín io .

E q u an d o tin h a alg u m a su p er p ro d u ção , e isso é u m a co isa in teressan te, p o rq u e esse co n ceito era

u m a co isa m u ito d iferen te d o q u e tem h o je. E u ch eg u ei a fazer m esa d e g rav ação d e fo ley, assim com o de

d u b lag em , e não ex istia u m fo ley a rtist, ex istiam p esso as co m o eu e en trav a o m o n tad o r, o d ireto r d o

film e, o p ro d u to r, o m ix ad o r d o film e, ju n tav a to d o m u n d o d en tro d o estú d io co m d o is o u três m icro fo n es

e era n u m a p au lad a só , u m can al só . E n tão eu ficav a n a m esa m ix an d o q u atro m icro fo n es! E n tão a g en te

já en saiav a u m p o u q u in h o , n ão é q u e ia n a raça, n ão tin h a v ai e v em , era só v ai: erro u , v o lta e faz tu d o d e

n o v o , n ão ed itav a. E n tão o fo ley n aq u ela ép o ca era m u ito sem elh an te, an alo g izan d o a co isa, à so n o p lastia

d a rád io . E ra ig u al à rad io n o v ela, d a o n d e a m aio ria d as p esso as, até alg u n s d eles, v in h am . N a an tig a A IC ,

o n d e eu trab alh ei d u ran te m u ito s an o s, 5 an o s, tin h a o B en ito d e N ard o q u e era u m so n o p lasta, fo i d a

rád io S ão P au lo , d as rad io n o v elas. E ele é d essa g eração d e fazer tu d o , só q u e ele n ão fazia p ro s film es

b rasileiro s, ele fazia fo ley p ara o s film es estran g eiro s q u e iam p ara a telev isão , q u e eram lá d a d écad a d e

30, aq u eles film es da R K O P ictu res, C astle F ilm s, que n aq u ela época nem ex istia a v ersão banda

in tern acio n al, n ão ex istia u m a M & E . E n tão eram film es q u e n ão tin h am u m a M & E , n ão tin h am nada, m as

eram film es q u e estav am sen d o d u b lad o s p ara a telev isão , en tão ele refazia to d a a so n o p lastia d o film e.

R o sa n a : E ra sep a ra d o o fo ley d o efeito ?

S a sso : A ssim , o s ru íd o s eram : lig a carro , sai carro , co isas que você não tin h a co m o fazer d en tro d o

estú d io . N a A IC em p articu lar, tin h a u m a v elh a g elad eira W estlin g H o u se e to d as as p o rtas d e carro s eram

feitas n aq u ela W estlin g H o u se. T in h am d u as o u três p o rtas n u m a arm ação d e m ad eira e u m p o rtão zin h o
q u e ran g ia, to d as as p o rtas e p o rtõ ezin h o s eram f e i t o s ... T i n h a u m a v e n e z i a n a d e s u b i r e d e s c e r , q u e a b r e

aq u ela f o l h a ... A q u e l a s co isas a n t i g a s ... T u d o e r a f e i t o n a h o r a e t i n h a u m cara q u e fazia n a h o ra. N o

m áx im o , q u an d o essa p ista saía d essa etap a d e g rav ação ela ia p ra m o v io la p ro m o n tad o r, p o rq u e n em

ed ito r d e so m ex istia, b o tar em sin cro as co isas q u e estav am m u ito fo ra, d e rep en te u m t a p a n a c a r a ... N ã o

que nem h o je, q u e v o cê tem até co leçõ es d e tap as, co leçõ es d e p o n tap és, q u e fu n cio n am bem m ais q u e

f o l e y ... A í t a m b é m é u m a q u estão m in h a p esso al q u e eu v o u d iscu tir m ais p ra fren te, m as tin h am co isas

q u e n ã o t i n h a c o m o ... N ã o e x i s t i a c o l e ç õ e s d e e f e i t o s , h a v i a u m a c o l e ç ã o m u i t o f a m o s a n e s s a é p o c a q u e

era a M ajo r R eco rd s e era u m a co leção u sad a em rad io n o v ela , am erican a, e cu stav a o s tu b o s aq u i. N ó s

v iv íam o s n o B rasil, u m p aís q u e m al e p o rcam en te estav a p ro d u zin d o p reg o . A n o ssa in d ú stria aq u i, n a

d é c a d a d e 6 0 , e r a ... A g en te d ep en d ia d e m u ita co isa v in d a d o ex terio r. E n tão n a realid ad e, to d a essa p arte

d e ru íd o s, h av ia a p ista d e ru íd o s, efe ito s so n o ro s, q u e às v ezes as p esso as g rav av am . V in h a u m lo u co lá

com um gravador C row ncorder de fita de ¼ , d aq u elas p eq u en in h as, d e uns ro lin h o s d esses de cin co

cen tím etro s de d iâm etro , e de rep en te até gravava um fu sq u in h a sain d o , u m D K V ... A í v o c ê g r a v a v a

aq u ele so m num g rav ad o rzin h o b em ch u lé p o rq u e n em N a g r a ... N a g r a e r a u m lu x o ! P rin cip alm en te p ara

aq u elas p ro d u çõ es q u e eu co n h eci aq u i em S ão P au lo , o n d e p raticam en te tu d o era d u b lad o .

E n tão você tin h a esse ru íd o de sala, quando era um a produção m ais bem elab o rad a, q u e aí

ju n tav a q u atro ou cin co d en tro do estú d io e fazia de um a vez só , e essas p istas de ru íd o s que eram

e d i t a d a s ... T i r o s o u c o i s a s a s s i m .

R o sa n a : V o cês sa b ia m q u e esta v a m fa zen d o fo ley o u era u m a q u estã o d e co m p lem en ta r a trilh a ?

S a sso : C o m eça q u e fo ley é u m n o m e q u e co m eço u ag o ra, faz p o u co m ais d e 1 4 an o s. N a era d ig ital é q u e

tu d o m udou e co m eço u -se a u sar esse nom e. E u sem p re cham ei de ru íd o de sala o u co n trarreg ra, n a

m in h a cabeça sem p re foi isso , fo ley a g o r a ... A D R em vez de d u b l a g e m ... A u to m atic D ialo g u e

R e p l a c e m e n t ... P u t a v iad ag em ! F o ley p ra m im é ru íd o d e sala m esm o ! P o n to . E ssa am erican ização d o

n o sso cin em a p ra m im , p esso alm en te , é u m a g ran d e p alh açad a. M as tu d o b em , essa é u m a o p in ião m in h a

p esso al. E u ach o q u e a g en te tem o p é n o cin em a m u ito m ais eu ro p eu d o q u e am erican o . E n ão ad ian ta, o

d ia q u e alg u ém m e p ro v ar q u e isso n ão é v erd ad e eu falo : ah , realm en te ag o ra v o cês m e p ro v aram . N o sso

cin em a sem p re tev e esse p é n a E u ro p a p o rq u e v eio d e lá m esm o .

R o sa n a : E essa ru id a g em vem d e lá ? É in sp ira d a ?

S a s s o : A í q u e t á ... S e s e g u i a ... A q u i e m S ão P au lo , o s film es d e S ão P au lo , e aí v o cê tem que fazer um a

p esq u isa m u ito m aio r, se você pegar a cin em ato g rafia p au listan a, ela sem p re foi d iferen te da

cin em ato g rafia cario ca, q u e era u m p o u c o m a i s e l a b o r a d a ... T a n t o q u e o s o m d ireto en tro u n o B rasil p elo

R io d e Jan eiro e n ão p o r S ão P au lo . O s p rim eiro s film es co m so m d ireto d a d écad a d e 6 0 fo ram feito s n o

R io d e Jan eiro . S ão P au lo , p o sterio rm en te , co m eço u a fazer co isas, m as ain d a aq u i se film av a m u ito sem

so m . A lias, até v o u co n tar, tin h am situ açõ es d e d u b lag em em q u e se ch am av a u m cara q u e fazia leitu ra

lab ial p o rq u e a scrip t g irl, scrip t b o y , n ão tin h a an o tad o o q u e o cara falo u p o rq u e m u d o u o tex to ! E aí n a

h o r a q u e i a d u b l a r ... P u t a ! E l e t á f a l a n d o o q u e a l i ? E a í q u a n t a s v e z e s n ã o i a a l g u é m p ra fazer a leitu ra

lab ial p ra d esco b r ir o q u e o ato r tin h a in v en tad o . U m caco q u alq u er q u e n in g u ém sab ia o q u e era e n em
seq u er se g rav av a n u m a p o rcaria d e u m g rav ad o rzin h o . Q u an d o en tro u o casset e, já tin h a g en te q u e u sav a

o cassete p ra fazer g rav ação d o d iálo g o d e referên cia. O so m g u ia p ra fazer o scrip t, m as en fim .

E n tão esse co n ceito d o fo ley n ão era co m é h o je, era realm en te m ais u m p ro cesso p ra co b rir as

ev en tu ais faltas de d eterm in ad o s ru íd o s. S ó , n ad a m ais. N ão ex istia o d esen h o d e fo ley d o so m . U m a

m ix ag em n aq u ela época era m u ito sim p les. A pré de d iálo g o sem p re ex istiu e estam o s falan d o d e n o

m áx im o 3 p istas q u e v irav am u m a. A m b ien tes, q u an d o era u m film e m u ito ch eio d e am b ien tes, talv ez 3

p istas q u e v irav am u m a, p o rq u e tu d o era m o n o fô n ico . A í v o cê tin h a a p ista d e fo ley, o u ru íd o d e sala, q u e

já estav a p ro n ta n u m can al só . V o cê p o d eria ter u m a o u d u as p istas d e ru íd o q u e v o cê n ão fazia p ré e

tin h a u m a o u d u as p istas d e m ú sica. E n tão q u an d o v o cê ia p ra m ix ag em fin al v o cê tin h a 8 can ais e n ão

tin h a au to m aç ão . N ão tin h a n ad a d isso , e o u tra, m esm o já g rav an d o em fita m ag n ética p erfu rad a, a A IC ,

p rin cip alm en te, n em tin h a sistem a R o ck a n d R o ll. S e v o cê errav a , tin h a q u e v o ltar d o in icio e fazer d e

novo. E não dava nem p ra ed itar, p o rq u e se v o cê ed itasse, o g rav ad o r n ão tin h a u m sistem a q u e ap ag av a e

fazia um a em en d a eletro n icam en te p erfeita. E n tão v o cê en saiav a o s ro lo s d e m ix ag em u m a, d u as, três,

cin co v ezes e ia n u m a p au lad a só . E rro u m eu am ig o ? V o lta . E n ão tin h a m u ito o q u e fazer. E n tão esse

co n ceito de d esen h o de so m q u e a g en te tem h o je, d a d écad a d e 6 0 e in clu siv e n a d écad a d e 7 0 , n em

tin h a. E com um ag rav an te m aio r: co m o o so m d as salas d e ci n em a era m u ito ru im , e d aí v em to d a essa

cu ltu ra, o u esse estig m a , d e q u e o so m d o film e b rasileiro é ru im , m as n ão é ru im p o rq u e fo i cap tad o o u

m i x a d o d e f o r m a r u i m , n ã o é . A t é t e m ... N ã o v o u d i z e r q u e n ã o . E u q u e r e s t a u r e i a q u i v á r i o s t í t u l o s d a

cin em ateca, tem u m a s c o i s a s q u e s ã o i n o m i n á v e i s , é u m a c a g a d a d e e l e f a n t e ... T e m u m as co isas q u e são

rid ícu las, m ed ío cres d e se v er, e a g en te v ê q u e é co isa feita n as co x as, m as é ex ceção . M as as salas d e

cin em a eram m u ito ru in s, en tão você tam b ém não p o d ia ficar em p astelan d o d em ais, em p eriq u itan d o

d em ais o áu d io p o rq u e v o cê n ão co n seg u ia m ais o u v ir n a sala. A s salas n ão tin h am resp o sta d e g ra v es,

tu d o era n aq u ela cu rv a d e B ell, n a reg ião d e 2 0 0 0 /3 0 0 0 h ertz, p ra d ar m ais b rilh o . E n tão v in h a a v o z

telefô n ica e q u an d o en trav a m u sica era só m ú sica, raram en te se p u n h a m ú sica d eb aix o d e d iálo g o , p o rq u e

p o d ia co m p ro m eter a in telig ib ilid ad e. E q u an to m en o s em p etecad o se fazia ru íd o s e co isas d o g ên ero ,

m elh o r. E n tão o s am b ien tes tam b ém eram co isa sim p les, e eu d ig o isso : o fo ley aco m p an h a ex atam en te

to d o esse m esm o d esen h o . E n tão n ão d av a p ra v o cê fazer m u ito p o rq u e n ão tin h a n em esp aço , lem b ran d o

q u e v o cê tin h a u m a faix a d in âm ica d e 5 0 d B , 5 5 d B , co n tra 1 2 0 d B h o je n o d ig ital.

A qui em S ão P au lo , o s estú d io s to d o s, tan to a A IC q u an to a O d il, o Z an co v isk i, tin h a u m na rua

S ão P a u l o ... F ilm so m , que era do V itale, eram to d o s estú d io s que v in h am , carregavam co n si g o

eq u ip am en to s d a d écad a d e 4 0 . P o r ex em p lo , a A IC era a M aristela, co isas q u e so b raram d a M aristela,

co isas q u e so b raram d e o u tras em p resas, d a V era C ru z. T in h a u m estú d io d a V era C ru z , n a R u a 7 d e ab ril,

que u sav a aq u eles m esm o s eq u ip am en to s da década de 40. E n tão v am o s falan d o sério , d en tro d aq u ela

realid ad e era tu d o m u ito to sco . S en d o q u e fo ra d o B rasil, n o tad am en te n o s E stad o s U n id o s, já ex istiam

esses eq u ip am en to s R o ck a n d R o ll n o fin al d a d écad a d e 6 0 , já tin h a M ag n asin c, já tin h a M ag n atech , q u e

eram eq u ip am en to s em q u e v o cê g rav av a, ia p ra fren te, ia p ra traz, ed itav a. N ão tin h a au to m ação n a m esa,

m as v o cê p o d ia ed itar o q u e estav a g rav an d o e v o cê p o d ia g r av ar em 3 p istas, em 4 à s v ezes. N o in icio

eram sem p re 3 , u m m ag n ético d e 3 5 m m em q u e v o cê p o d ia g rav ar em 3 p istas. E n tão era n o rm al, v o cê

tin h a m esas co m j á ... C o n s o l e s a m e r i c a n o s c o m 2 0 , 1 8 , 1 6 ... A n t i g a m e n t e e r a t u d o m e i o m ú l t i p l o d e 3 .
M e s a d e 8 t i n h a , m a s e r a s e m p r e a s s i m : 1 2 , 2 4 , 3 6 , 4 8 ... E r a m o u tro s m ú ltip lo s, h o je é tu d o m ú ltip lo s d e

8 . N aq u ela ép o ca já saía m eio q u e co m 1 2 , o m ín im o era 1 2 , e aí d e 1 2 v o cê p o d ia p ed ir u m a m esa d e 2 4 ,

aí já p u lav a p ra 3 2 e aí p u lav a p ra 4 8 , e assim p o r d i a n t e ... N i n g u é m tin h a essas m esas aq u i em S ão P au lo ,

e n o B rasil, aí sim , lá n o R io d e Jan eiro en tra a S o m il co m as M ag n atech s. E já co m o u tro co n ceito , tan to

q u e é n o R io d e Jan eiro q u e o fo ley, n a realid ad e, co m eça a ter u m a o u tra co n o ta ção d en tro d o cin em a

b rasileiro . E n fim , aq u i n ão tin h a artista d e fo ley n o sen tid o literal d a p alav ra, era o p ró p rio m o n tad o r, co m

o p ro d u to r, o m ix ad o r q u e iam p ro est ú d io e faziam a m aio r alg azarra. A liás, v irav a u m a b ag u n ça, v o cê

literalm en te d av a so co em m elan cia, em co isas d o g ên e ro . N o R io d e Jan eiro n ão , a S o m il en tro u co m o

sistem a M ag n atech d e R o ck a n d R o ll, v ai e v em , e já tin h am m ais p istas. A m esa d eles, se n ão m e en g an o ,

era de 16 c a n a i s , e n f i m ... Q u e m pode te aju d ar em alg u m a co isa é o H ernani H efner, que é um dos

grandes p esq u isad o res de so m do cinem a b rasileiro . V ale a p en a p o rq u e ele tem d atas, se v o cê q u iser

fazer um trab alh o seg u in d o u m a cro n o lo g ia, ele tem d ad o s in clu siv e d e q u an d o fo i feito o p rim eiro film e

com so m d ireto . N ão sei d o fo ley se ele sab eria p o rq u e eu n ão sei se ex iste reg istro s d isso , m as en fim , o

H ern an i é u m a b o a, v o cê d ev eria p elo m en o s co n v ersar co m ele.

N o R io d e Jan eiro aí sim , lá já tin h a o co n ceit o d e fo ley em alg u m as p ro d u çõ es. L á já o so m

d ireto era u m a co isa m u ito m ais co m u m n a d écad a d e 7 0 , já em 6 0 já tin h a alg u n s eq u ip am en to s d e so m

d ireto , tan to q u e o H ir szm an u so u alg u m a co isa n o s p rim eiro s film es d ele, o G lau b er tam b ém fez testes.

E n fim , o H ern an i v ai te d ar d atas m ais p recisas. E lá já tin h a, p o r ex em p lo , G erald o Jo sé, q u e é u m dos

grandes fo ley a rtists, m as ele tam b ém já v in h a com aq u ela bagagem da rád io , da so n o rização de

rad io n o v ela, o A n tô n io C ésar , q u e foi d iscíp u lo , se não m e falh a a m em o ria, d o G erald o Jo sé, o M .

G u ilh erm e, q u e era o M an o el G u ilh erm e , q u e trab alh o u tam b ém ju n to co m o A n tô n io C ésar , o W alter

G o u lart, q u e é o u tr a fig u ra, são to d o s co n tem p o rân eo s. E u n ão esto u d an d o p referên cia a esse o u a q u ele,

são to d o s co n tem p o rân eo s. D ep o is, m ais p ra fren te, já n a d écad a d e 8 0 , tem o R o g ério , filh o d o G o u la rt,

q u e co n tin u a fazen d o fo ley ju n to co m o A n tô n io C ésar até a m o rte d o A n tô n io C ésar . E n tão n o R io já

tin h a essa co isa d o fo ley e v o cê já p o d ia g rav ar em 3 can ais. A m áq u in a tin h a u m m ag n ético 3 5 , en tão

v o cê já p o d ia fazer a d iv isão d e p asso s, esp ecífico s e m u m u n h as, co m o eles ch am av am n o R io d e Jan eiro ,

que eram aq u elas c o i s i n h a s ... P e g o u um n e g o c i n h o ... M u m u n h a s .... A i n d a s e t i n h a m u i t o e s s a c o i s a d e

g rav ar o s efeito s u san d o co isas co m o u m ap arelh o , n o fo ley, u m ap arelh o d e telefo n e, p eg ar a tam p a d a

p an ela e jo g ar água e m exer, fazer m esm o esse d esen h o com o in tu ito d e c riar u m a realid ad e so n o ra

co n d izen te com o que v o c ê e s t a v a v e n d o . M a s c o n t i n u a v a o p r o b l e m a d a d e f i c i ê n c i a d a s s a l a s ... T a n t o

q u e v o cê v ai p eg ar film es d a d écad a d e 7 0 em q u e v o cê p raticam en te n ão o u v e n ad a, aliás, recen tem en te

a g en te restau ro u aq u i o so m d o “ X i c a d a S i l v a ” e o f i l m e p r a t i c a m e n t e ... A g en te sab e q u e tá lá, v o cê

ouve que tem ru íd o s, tem am b ien tes, m as tá tu d o en terrad o pra p rio rizar o d iálo g o porque se não o

d iálo g o n ão era in telig ív el n a sala d e cin em a. N o R io , sim , co m eça essa co isa d e v o cê já g rav ar fo ley em

m ais d o q u e 1 can al e sem m ais to d a aq u ela p alh aça d a d e ter 3 o u 4 p esso as d en tro . P alh açad a n o sen tid o

d e q u e era u m a b rin cad eira, d e g rav ar isso d e u m a fo rm a to sca . E n tão já h av ia to d o u m critério , h av ia u m

m ap eam en to , m as ain d a n essa ép o ca n ão ex istia a fig u ra ex ata d o ed ito r d e so m . O ed ito r d e so m era um a

co isa q u e já se sab ia e q u em traz a ed ição d e so m p ara o B rasil é a fam ília B arreto , v em da E uropa, os

E stad o s U n id o s não ex iste no cin em a b rasileiro . E n tão tu d o q u e era fin alizad o tin h a to d a a esco la d o

cin em a n o v o , n o tad am en te italian o , p artin d o p ra F rança in clu siv e, co m alg u m as n u an ces b ritân icas d e
tip o d e g rav ação , p o rq u e v ieram estran g eiro s p ro B rasil. A q u i em S ão P au lo n o tad am en te d a In g laterra

p o r cau sa d a V era C ru z, e isso d eix o u m arcas, e alg u m as co isas o p eracio n ais ficaram d en tro d isso . N o

R io d e Jan eiro tev e m ais a co isa d a F ran ça, en tão q u an d o o L u iz C arlo s B arreto e a esp o sa, a D o n a L u ci,

com eçaram a fazer as p ro d u çõ es g ran d es, o s p rim eiro s film es d o B ru n o , aí sim já co m eçav a a ap arecer

essa fig u ra d o ed ito r d e so m , q u e v eio im p o rtad o d a F ran ça.

E o fo ley co n tin u av a com o n o sso s q u erid o s G erald o Jo sé, A n tô n io C ésar , M . G u ilh erm e,

in clu siv e o p ró p rio G o u lart, e aí sim já tin h a to d o u m d esen h o so n o ro . In clu siv e já co m eço u a en trar, o u a

se p en sar , q u e o film e p o d eria ser v en d id o p ara o u tro p aís, em fu n ção até d e u m a p o ssív el d u b lag em pra

o u tro id io m a, n ão ex istia h o m ev id e o , h o m e th eater, n ão ex istia n ad a, era cin em a. S e alg u ém ia d u b lar, ia

d u b lar p ra p assar n o cin em a, se m u ito p ra p assar n a telev isão . O q u e n ão era u m a co isa m u ito co m u m , u m

film e b rasileiro ir p ara a telev isão estran g eira, m as d e q u alq u er fo rm a, h av ia ess a p o ssib ilid ad e d e d u b lar

o film e em o u tro id io m a, n o tad am en te em italian o , em fran cês, em alem ão , em esp an h o l, p o rq u e são

p aíses q u e tem a sala q u e p assa o id io m a o rig in al, m as tem a lei d a d u b lag em , q u e é m eio q u e o b rig ató ria.

E n tão já co m eço u a criar -se n o s an o s 7 0 essa n o ção d e q u e o p ro d u to tin h a q u e ser m u ito m ais

bem elab o rad o , e isso v em d o R io d e Jan eiro . S ão P au lo ain d a co n tin u av a m ix an d o co m aq u eles m esm o s

v elh o s eq u ip am en to s cain d o ao s p ed aço s, só m u d a isso em 1 9 7 6 , até 1 9 7 6 S ão P au lo trab alh av a n o v ai e

n ão v o lta. M as a S o m il tam b ém en tro u em d ecad ên cia e co m eço u a ficar su catead a , co m o tu d o n esse p aís

se su cateia, p elo s m esm o s p ro b lem as que você, eu, e nós tem o s: nunca tev e um a p o lítica eco n ô m ica

v o ltad a pra im p o rtação e ex p o rtaç ão . P ara a im p o rtação d e eq u ip am en to s esp ecífico s, o s im p o sto s são

esco rch an tes, além d e a g en te ter v iv id o p o r v ário s p lan o s eco n ô m ico s, tin h a p ro b lem a d a d esv alo rização

d a m o ed a, a d iferen ça d o d ó lar o u d a lib ra esterlin a, q u e era u m a co isa ab su rd a. E n tã o a g en te v iv ia essa

realid ad e de que as co isas eram m u ito co m p licad as, trazer alg u m a co isa pro B rasil era um a co isa

co m p licad a, cara. E além d a g en te ter o s p ro b lem as in tern o s, q u e o n o sso d in h eiro sem p re fo i u m d in h eiro

in flacio n ad o , sem p re deu p ro b lem as, n a época do governo m ilitar a in flação era d itad a por lei, e de

alg u m a fo rm a isso até aju d av a a v o cê fazer p lan ejam en to p ra d o is, três, q u atro an o s, p o rq u e n ão m u d av a.

M esm o sen d o u m a in flação im p o sta, o s em p resário s co n seg u iam fazer u m a p rev isão o rçam en taria d e 2 , 3

a n o s , c o i s a q u e h o j e e u n ã o s e i f a z e r ... H o j e e u n ã o s e i f a z e r u m a p r e v i s ã o d a n o s s a á r e a , t a l v e z o u t r o s

seto res in d u str iais e d e co m ércio até co n sig am . N a n o ssa área d e cin em a, v o cê im ag in ar o q u e v o cê v ai

fazer agora pra i n v e s t i r d a q u i d o i s a n o s ... D e s c u l p a , m a s v o c ê e s t á e n f i a n d o u m cano de 12 na boca e

p u x an d o o g atilh o . E n tão v o ltan d o , n aq u ela ép o ca a S o m il tam b ém su cateo u e ap areceu a N eo S o m , q u e

era o p ró p rio d o n o d a S o m il, q u e m o n to u a N eo S o m bem su catead a, m as em 1 9 7 6 su rg e a Á lam o . A í

aparece a Á lam o aqui em S ão P au lo d en tro de um cen ário to talm en te d a d écad a d e 5 0 ain d a, a A IC

co n tin u av a com aq u eles m esm o s eq u ip am en to s, a O d il, o Z a n c a , m e l h o r a r a m ... A l g u n s en traram com

M ag n asy n c, m as era m u ito to sco . E cad a u m in v en tav a alg u m a co i sa p ra ser d iferen te d o o u tro e n o fim ,

falan d o fran cam en te, tu d o era u m a g ran d e d e u m a m erd a, p rin cip alm en te a g rav ação ó tica, a g rav ação

ó tica realm en te era um h o rro r. A té a d é c a d a d e 5 0 ... 6 0 ... Q u a n d o a i n d a v o c ê t i n h a m u i t o e s t r a n g e i r o

trab alh an d o n o n o sso cin em a, n o tad am en te o s eu ro p eu s, a q u alid ad e d o so m ó tico , a d u b lag em era feita

em so m ó tico , n ão tin h a m ag n ético , o m ag n ético ap arece d ep o is d a g u erra, e m esm o assim aqui era um a

co isa d o o u tro m u n d o . A S o m il tam b ém m u ito cain d o ao s p ed aço s, o s técn ico s q u e lá trab alh av a m , e
eram ex celen tes técn ico s, o R io d e Jan eiro tin h a g ran d es técn ico s, técn ico s d e m ix ag em , técn ico s d e so m

d ireto , já tin h a o in ício d o s ed ito res d e so m , q u e estag iaram com alg u n s ed ito res q u e era m da E uropa e

co isa d o g ên ero . E aí en tra a Á lam o em 1976 com a M ag n atech , já n u m a seg u n d a o u terceira g eração d e

eq u ip am en to s, que já eram to d as m áq u in as a cristal. A s m áq u in as an tig as eram m áq u in as to d as que

fu n cio n av am com m o to r in terlo ck , 6 0 H z. V o cê tin h a q u e ter u m a u sin a h id relétri ca p ra fazer aq u ilo ro d ar

e co n su m ia u m a en erg ia ab su rd a, tin h a q u e ter m o to r m aster… E ra u m a co isa… A A IC tin h a tam b ém , eu

m e lem b ro q u e q u an d o eu m ix av a n a A IC , q u e era u m sistem a m ais an tig o , e u tin h a u m m o to r in terlo ck ,

um m o to r d e sin cro n ism o , q u e p esav a p elo m en o s u m as d u as to n elad as, q u an d o v o cê lig av a, q u e lig av a o s

cam p o s d o m o to r, era ig u al a film e d e terro r, as lâm p ad as m eio q u e p iscav am , e é rid ícu lo , m as é v erd ad e.

A í en tro u a Á lam o , n essa ép o ca o so m já tin h a ev o lu íd o m u ito , m as o so m ó tico d eix av a m u ito a

d esejar… M as o n o sso assu n to é fo ley, resu ltad o : a Á lam o co m eço u a fazer as p rim eiras m ix ag en s, m as

n ão g rav av a fo ley, só d u b lav a e m ix av a. O s film es q u e lá ch eg av am era p o rq u e já h av iam sid o ed itad o s

p o r alg u ém e n o in ício eram só film es d e S ão P au lo , q u e ain d a tin h a o co n ceito d o m o n tad o r ed itar o so m .

E n tão quando tin h a ru íd o de sala, esse ru íd o era gravado em alg u m estú d io m enor e ain d a

m acarro n icam en te, co m o era até en tão . N em v árias p istas tin h a, o q u e tin h a ag o ra, já q u e a Á lam o já tin h a

n aq u ela ép o ca 1 6 p istas, q u e era u m a m esa d e 1 6 can ais, R o ck a n d R o ll. E n tão , d e rep en te, v o cê tin h a o

ru íd o de sala, à s v ezes, em duas o u três p istas, m as em 1 7 ,5 m m , n ã o n u m 3 5 m m , m as ain d a g rav ad o

d aq u ela form a bem m acarro n ica, m esm o pra produções m ais bem elab o rad as. Se você pega film es

an terio res, p o r ex em p lo , o P erso n , q u e era u m cara q u e cu id av a d o s film es, se v o cê o u v e o so m d ele, o

film e d ele n essa p arte d e fo ley, v o cê v ai v er q u e é tu d o b em sim p lesin h o , n ão ex iste essa ên fase q u e tem

h o je, co m o v o cê v ai p eg ar em “O P ag ad o r d e P ro m essa ” e tan to s o u tro s. O s ru íd o s q u e estão lá são o s

ru íd o s q u e in teressam , é o d esen h o d e so m q u e in teressa e q u e era o p ró p rio m o n tad o r q u e fazia.

Q uando com eça a Á lam o a m ix ar, aí já aparecem os fo leys em m ais can ais, m as em o u tro s

lu g ares. A Á lam o n ão tin h a u m estú d io p ra fo ley, e o u tra, a Á lam o era u m estú d io m u ito p eq u en o , n a

M ajo r S ertó rio , q u e tin h a u m an d ar e m eio d e p réd io , en tão n ão ro lav a. O estú d io era m u ito sim p les, m as

com u m a tecn o lo g ia d e p o n ta e u m so m ó tico m arav ilh o so .

A Á lam o cresce e se m u d a p ara a V ila M ad alen a, co m um p réd io já co n stru íd o p ra ser estú d io .

A í sim é feito u m estú d io p ra ru íd o s d e sala. E ra u m estú d io g ran d e, o m esm o estú d io d e m ix ag em , ele era

rev ersív el, p o d ia ser u sad o tam b ém co m o m ix ag em . E n tão lá tin h am v ário s p iso s, a acú stica d a sala era

flex ív el, o u seja, era m aleáv el, v o cê p o d ia d ar m ais esp aço o u m en o s esp aço . V o cê p o d ia co lo car 4 , 5 , 6

m icro fo n es, en tão fazer p ersp ectiv as, isso se fazia ain d a n o fo ley, alg u m a p ersp ectiv a d e so m sain d o era

feita q u an d o v o cê estav a n esse m icro fo n e p rin cip al e ab ria u m lá d o fu n d ão , p ra d ar esse d istan ciam en to .

A d u b lag em tam b ém u sav a isso , sem p re 2 , 3 , 4 m icro fo n es, p ra criar essas p ro fu n d id ad es, p ra n ão ficar

aq u ele so m chapadão - essa er a u m a característica d a Á lam o b em clara.

V o cê tin h a, p o r ex em p lo , p ra g rav ar ág u a, se v o cê p eg a o s film es an tig o s v o cê d á risad a, p o rq u e

n itid am en te v o cê está v en d o q u e as p es so as estão co m a m ão n u m a b acia. N ão tem p eso aq u ele “sch clep

sch clep ”, é um a c o isa m ed ío cre, u m cara p u la n u m a p iscin a e faz “p lash ”… M e p arece, eu n ão ten h o

certeza, q u e a Á lam o fo i o p rim eiro estú d io a trazer S o u n d Id eas p ro B rasil, em fita m ag n ética, em fita d e
1 /4 , o n d e o s so n s eram d iv id id o s p o r freq u ê n cia. C o m o v o cê o u v ia m u ito ráp id o e p recisav a ir p ra fai x a

trin ta, en tre u m ru íd o e o u tro tin h a u m a freq u ên cia d e 4 0 H z q u e co rren d o fazia v u u u v u u u u v u u u , e v o cê

co n tav a… À s v ezes v o cê errav a p o r u m a a m ais o u a m en o s… É rid ícu lo , m as era assim q u e a g en te

trab alh av a.

A í sim já tin h am o s ru íd o s, aí o seu M ich ael im p o rto u alg u n s d isco s d e efeito s d a A u d io F id elity

R eco rd s, o S o u n d Id eas, cassetes d a B B C , efeito s d a B B C só a Á lam o tin h a aq u i.

R o sa n a : Q u em gravava fo ley n a Á la m o ?

S a sso : N ão ex istia u m técn ico , n ão ex istia fo ley a rtist. N a Á lam o já era a fig u ra d o A n tô n io C ésar e d o M .

G u ilh erm e. T o d o s o s film es q u e m ix av am n a Á lam o a g en te in sistia p ara q u e ch am assem o u co n tratassem

esse d o is fo ley a rtists p ra fazer o s ru íd o s. P o rq u e já n ão d av a m ais p ra trab alh ar d aq u ele jeito , a p artir d e

7 8 , 7 9 e já n a d écad a d e 8 0 , tu d o aq u ilo q u e a g en te tin h a d e tecn o lo g ia n ão p erm itia m ais u m ru íd o to sco .

P o r ex em p lo , o L u zia H o m em , q u e fo i u m film e em D o lb y S tereo d o fin al d a d écad a d e 8 0 , tin h a 6 p istas

de fo ley, q u e pra época era um n eg ó cio do o u tro m undo. E ra um film e de ação, um film e ch eio d e

m o v im en to , além de ser D o lb y S tereo , D o lb y S tereo ó tico . E n tão a g en te su g eria q u e se ch am assem

p esso as pra fazer o fo ley que fo ssem p esso as do ram o e, às v ezes, - eu não m e lem b ro em q u an tas

o p o rtu n id ad es - até o G erald o Jo sé v eio g rav ar alg u m as co isas n a Á lam o , m as era m ais o A n tô n io C ésar e

o M . G u ilh erm e. E foram assim até a d écad a d e 9 0 , in clu siv e aq u i n a JL S id em . T razen d o isso já p ro

n o sso m u n d o m o d ern o , q u an d o a JL S tin h a o d ep artam en to d e ed ição d e so m , até fazíam o s aq u i, tin h a o

estu d io zin h o lá no fundo onde a g en te fazia alg u n s fo leys, o E d u , seu p ro fesso r E d u ard o S im õ es d o s

S an to s M endes fazia, eu fazia, D an iel F ernando B o n assi S asso fazia tam b ém , o p ró p rio L u iz A d elm o

tam b ém fazia, a N ath alia aju d o u a fazer. P o r ex em p lo , eu m e lem b ro u m d o s ru íd o s q u e o L u iz A d elm o

fez q u e p ra m im era m u ito b em feito e m u ito real, era n o ex trem o S u l, a n ev e cain d o , tin h a q u e ter aq u ele

ru íd o d e n ev e e ele fez b o lin h as d e p ap e l d e sed a q u e d av a essa tex tu ra. A M o n ica S ch im d t q u eria esse

ru íd o p o r cau sa d a tem p estad e e o L u iz A d elm o fez essas p elo tin h as d e n ev e q u e cai am , n ão eram bem

flo co s de neve porque eles estav am na m o n tan h a, era alg o q u e p o d ia ter u m ru íd o . V o cê v isu alm en te

v en d ia u m d esen h o d e so m assim , o L u iz fez esse trab alh o en tre o u tro s.

M as a g en te n ão tin h a u m fo ley q u e era in teg ral, a g en te fazia as co isas m u ito m ais p o n tu ais e

m u ito m ais d o d esen h o d a p ró p ria ed ição d e so m . N ão raram en te v in h am as co isa s, aí sim gravadas com o

R o g ério G o u lart, o A n tô n io C ésar , o M an o el G u ilh erm e já tin h a m o rrid o n essa ép o ca, o p ró p rio W alter

G o u lart fazia alg u m as co isas, e a g en te receb ia isso . E n essa ép o ca a n o ssa m íd ia, a m íd ia q u e se u sav a n o

B rasil, era a fita H i8 de 8 can ais, en tão o fo ley v in h a em 8 can ais. V o cê tin h a p asso s 1 , p asso s 2,

esp ecífico s 1 , esp ecífico s 2 .

R o sa n a : Isso eles já ju n ta v a m ?

S a sso : N ão , tá tu d o sep arad o .

R o sa n a : M a s eles n ã o tin h a m g ra v a d o em 4 ca n a is e red u zid o p a ra p a sso s 1 ?
S a sso : N ão … O s d o is d en tro d o estú d io g rav av am , e era to d o m u n d o d o s p rin cip ai s, p o rq u e p asso s 1 e

p asso s 2 … P o d ia até ter p asso s 3 se era u m film e co m m u ita g en te, en tão tin h a p rim eiro p lan o , seg u n d o e

terceiro . E ssa era u m a característica d eles, d e d ar p ara o m ix ad o r a ch an ce d e criar p ro fu n d id ad es en tre o

p rim eiro p lan o , seg u n d o e terceiro , sen d o q u e o terceiro era o p cio n al, o cara tá lá n a esq u in a, fech a essa

m erd a, e, aliás, eu fiz m u ito d isso .

E aí, n o rm alm en te, v o cê tin h a d o is esp ecífico s, im ag in an d o em d u p las, v o cê tin h a p asso s 1 e

p asso s 2 , esp ecífico 1 e esp eceifico 2 , m u m u n h as 1 e m u m u n h as 2 , e aq u eles ú ltim o s 2 eram a d ecid ir. O u

era alg u m a co isa q u e co m p letav a u m p asso , o u , às v ezes, n ão tin h a n ad a. S e era u m a cen a m u ito sim p les

d en tro de u m a sala, d u as p e sso as co n v ersan d o com u m a m o v im en tação b ásica, lev an ta d a cad eira e sai

an d an d o , isso aco n tecia n aq u eles p rim eiro s 4 can ais, q u e eram o s q u e estav am sem p re m ais u sad o s, m as

já tin h am to d as essas características p ara q u em m ix asse p u d esse criar essa p ro fu n d i d ad e.

Já n a Á lam o ex istia isso , v o ltan d o u m p o u q u in h o , as g ran d es p ro d u çõ es m ix ad as n a Á lam o , aí

v o cê en tra n o m eu cu rrícu lo e v o cê v ai v er, tem v ário s q u e tem , e tem es sa co isa d e ter g rav ad o em 5, 6

can ais, m esm o em film es m o n o . P o r ex em p lo , v o cê tem um film e m o n o q u e fo i g rav ad o em 5 o u 6 can ais

q u e é d o F áb io B arreto , o “Ín d ia”, e d ep o is ele faz “L u zia H o m em ”. O “Ín d ia”, p o r ex em p lo , é u m film e

riq u íssim o em fo ley, e aí já tin h a m u ito essa co isa d e ju n tar o fo ley e o ru íd o d e so m d ireto . E aí v em a

m in h a esco la p esso al, q u e está sem p re v o ltad a m ais à E u ro p a d o q u e ao s E stad o s U n id o s, d esd e q u e eu

com ecei a m ix ar. M eu p rim eiro m estr e de m ix ag em foi o C arlo s F o sco . M eu p rim eiro p ro fesso r fo i

aq u ele m eu cunhado com quem eu trab alh av a, W illian B o n as, m as o C arlo s F o sco era en g en h eiro d e

C in ecità, en tão ele trazia com ele to d a aq u ela b agagem de C in ecità, num a época que C in ecità era

C in ecità. E ele m e co n tav a co m o ele fazia as m ix ag en s, ele fo i o m ix ad o r d o “O P ag ad o r d e P ro m essa ”,

p o r ex em p lo , q u e tem u m a p u ta m ix ag em , tan to q u e é o film e q u e g an h o u P alm a d e O u ro , q u e n ão tem

n ad a a v er co m m ix ag em , m as en fim , o film e ag rad o u co m o u m to d o .

E n tão eu sem p re g o stei d o fo ley, m as d e u m a m an eira m u ito p arcim o n io sa…

R o sa n a : C h eg a m o s a essa p erg u n ta : q u a l a fu n çã o d o fo ley?

S a sso : M as aí é p esso al… E u , p o r ex em p lo , d isco rd o , p ro m eu g o sto p esso al, d o fo ley o sten siv o , p ra d izer

q u e tem alg u ém fazen d o aq u ilo . Já q u e a R o san a fez o cara escrev en d o , n ó s v am o s calcar isso ! N ão! A

m in h a b rig a p esso al co m as prés de fo ley é ex atam en te d e v o cê co lo car o so m d en tro d aq u ele co n tex to

cham ado im ag em . E h o je eu assisto m ix ag en s, p rin cip alm en te em dvd e b lu ray , já que eu q u estio n o

sem p re a q u alid ad e d a sala d e cin em a, e eu v ejo co isas q u e m e d eix am p ro fu n d am en te irritad o , a co isa d o

so m o f f ... O cara sai e v ai an d an d o , q u an to s m etro s tem aq u ela p o rra d aq u ela sala? A í q u an d o a câm era

co rta tin h a 3 m etro s. A í co m eça essa co isa q u e eu co m eço a m e q u estio n ar e q u estio n o q u em faz: o que

m u d o u isso ? O q u e acrescen ta? O q u e isso sig n ifica n o to d o ? F icar co n tan d o u m m o n te d e h isto rin h as n o

so m fo ra d a tela q u e n ão tem lig ação co m o film e? Isso v iro u m eio q u e u m a d o en ça, essa co isa d e co n tar

h i s t o r i n h a ... T e m alg u ém n a co zin h a fritan d o , se n a cen a seg u in te v am o s to d o s p ara a co zin h a to m ar u m

café o u to m ar u m a so p a, ad m ito ter o u v id o alg u n s ru íd o s d e p an ela, o u até a p an ela d e p ressão ao fu n d o ,

que é um o u tro so m q u e é característico e te rem ete a essas co isas, m as d e rep en te v o cê o u v e lá o cara
c o r t a n d o a c e n o u r a ...V o c ê a c h a q u e o e s p e c t a d o r t á p e n s a n d o q u e e x i s t e u m p alh aço n a co zin h a co rtan d o

u m a cen o u ra? S e essa cen o u ra n ão tem nada a ver com o film e? É aí q u e co m eça a p arte Z é L u iz ch ato :

eu g o sto do fo ley d esd e que ele esteja d e n tro d aq u ilo que eu esto u vendo e com n ív eis que sejam

m in im am en te co eren tes. N ão é p o rq u e o cara d á d ez p asso s q u e v o cê o u v e o s d ez p asso s, v o cê p o d e o u v ir

5! O cara sai, alg u ém v iu q u e tin h a u m tap ete? E m nenhum m o m en to d o film e, e isso é u m a co isa q u e

você vê em film e b rasileiro m u ito , aq u ela cen a q u e m o stra n o p rim eiro m o m en to sala e v o cê fala: tem u m

tap ete aí no m eio . A í fica: sai da m ad eira, v ai pro tap ete, sai d o t a p e t e e v a i p r a m a d e i r a ... B é é é é é !

P recisa? C o lo ca isso , m as d á d o is p assin h o s e aí já o u v e o “ch u ch u ch u f” d o tap ete. É o q u e eu ch am o d e

u m a co isa su b lim in ar, v o cê in d u z o cara a p en sar q u e ele está o u v in d o aq u ilo . Já p en so u v o cê fazer u m

film e d e trem d e d u as h o ras e v o cê fica co m o “cleclec” n a su a cab eça? A ssiste film e d e trem e v ê se é

a s s i m ? N ã o ... V o c ê o u v e l á n o f u n d o e à s v e z e s , p r a l e m b r a r q u e v o c ê t á n o t r e m , p a s s a u m a c a n c e l a . S ã o

so n s q u e v o cê tem n o seu su b co n scien te, q u e v o cê n e m sab e o q u e é, m as te rem etem à q u ilo . O p ró p rio

T itan ic, v o cê ach a q u e aq u ela m erd a n ão fazia b aru lh o ? C laro q u e f azia! L ó g ico ! E p o r acaso o film e

fico u co m aq u elas m áq u in as a v ap o r trab alh an d o ? N ão ! D e v ez em q u an d o , p ra lem b rar q u e v o cê estav a

d en tro d o n av io , além d as cen as ex tern as, v o cê o u v e o “b ó ó ó ó ó ó ”, p ra d ar u m a p itad in h a, p ra lem b rar,

en ten d eu ? É que nem av ião , eu m ix ei um a vez um film e que tin h a u m a seq u ê n cia d e av ião o tem p o

in teiro co m a q u e l a p o r r a d a t u r b i n a n a o r e l h a ! N ã o é a s s i m ! M a s n o a v i ã o é a s s i m ... M a s o e s p e c t a d o r t á

na sala de cin em a, ele não está no av ião , você tem que lem b rar que ele está no a v ião . A í v in h a a

aero m o ça, “p lo c p lec p lo c p lec ”, co m um sap ato g ro sso , p assan d o em cim a d aq u ele p iso q u e é o co , n ão

p recisa d isso !

R o sa n a : V o cê a ch a q u e isso fo i m u d a n d o co m o tem p o ? A n tes tin h a q u e ser sim p les e p o n tu a l?

S a sso : H o je está ex cessiv o e p o n tu al, h o je se v alo riza o ru íd o . E n ten d a d a fo rm a artística, o fo ley é u m a

co isa d e arte, ela tem to d o o lad o técn ico , v o cê tem q u e sab er m icro fo n ar, v o cê tem q u e sab er en co n trar

u m a p o sição d e m icro fo n e q u e faça co m q u e aq u ele ru íd o q u e v o cê está g rav an d o so e o m ais n atu ral, o

m ais v erd ad eiro p o ssív el, isso a g en te v ê em m ak in g o f d e q u ilo ! D esd e b atata ch ip s até esp o n jin h a d e

aço , v o cê faz m ilag res, v o cê co n seg u e fazer co isas m arav ilh o sas. H o je g rav a -se 1 6 , 2 0 , 5 0 , 6 0 p istas d e

fo ley p ra u m m o n t e d e c o i s a s q u e n ã o a c r e s c e n t a m ... A q u e l a v e l h a h i s t ó r i a , n ã o a c r e s c e n t a . P r a m i m , a

função de um ru íd o , seja ele d e fo ley seja ele m o n tad o , seja ele p ro d u zid o , p o rq u e é u m efeito esp ecial,

ele tem q u e ter u m a fu n ção p ra cen a, fazer u m r u í d o p o r f a z e r , p o r q u e o c a r a ... E s s a é u m a c e n a q u e e u v i :

o cara tá sen tad o n a v aran d a d a fazen d a, co n v ersan d o , o s d o is caras aq u i, a câm era p o r trás, d e v ez em

q u a n d o c o r t a p r a p l a n o e c o n t r a p l a n o e a í p a s s a u m a c a b r i t a , s e i l á ... A 3 0 m e t r o s .... “ T i c t i c i t i c t i c ” ... M a s

o s caras tão falan d o ! Q u e fu n ção tem aq u ela cab rita a 3 0 m etro s? É m ais fácil n o co n tracam p o , o ff, u m

“m éééé” lem b rar q u e p o r acaso tem u m a v id a an im al lá atrás q u e n ão é d o s d o is aq u i n a fren te. A q u ela

co isa d e p assar u m cara lá n o fu n d o , co m um c a r r i n h o d e m ã o ... N ã o é e s s e o f o c o d a c e n a ! V o c ê e s t á

crian d o u m a p ersp ectiv a q u e está tiran d o aten ção d aq u ilo q u e in teressa q u e são o s d o is ato res falan d o !

E sse é u m q u estio n am en to m eu m u ito p esso al. E se v o cê p eg ar o s film es q u e eu m ix ei, v o cê v ai v er q u e

to d o s eles, a ex c eção d aq u eles q u e m e o b rig am , m as v o u te d ar u m ex em p lo d e film e d e fo ley su til o

“H o je”, p o r ex em p lo , d a T ata. O film e é u m silê n cio , m as se v o cê estiv er n u m a sala d e cin em a b o a, o u

assistin d o n u m D V D ou num B lu ray b o m , v o cê v ai o u v ir q u an to ru id in h o tem n o fu n d o , m u ito p o n tu al,
crian d o aq u ela atm o sfera d e u m ap artam en to v azio q u e v ai m u d an d o co m o p assar d o film e. N ão tem essa

co isa d e o cara estar lá n o fu n d o co çan d o a cab eça p o rq u e n ão sig n ifica n ad a. P ra m im , d en tro d o q u e eu

esto u v e n d o ... N o co n tracam p o você ouve lá um cara, no caso do film e d a T ata , tin h a u m a m u d an ça

aco n tecen d o , en tão você o u v ia alg u n s ru íd o s com o um a m áq u in a de lav ar, um a g elad eira sen d o

carreg ad a, v o cê o u v ia u m b aru lh o m etálico , p ra lem b rar q u e está aco n tecen d o alg u m a co i sa fo ra d aq u ele

am b ien te e, d ep o is, a câm era m uda e vêm os caras en tran d o co m u m a p eça. V o cê já p rep aro u aq u ela

en trad a, p o rq u e o cara ch eg a e p erg u n ta: o n d e é q u e a sen h o ra q u er q u e a g en te p õ e isso ? T em função.

A g o ra, se n ão tem n a d a d i s s o a c o n t e c e n d o , e v o c ê f i c a e n c h e n d o , e m p e t e c a n d o n o 5 .1 , q u e t e m ru id in h o

aq u i, ru id in h o ali, m eu ! F ech a a p o rta d o cin em a q u e tá fazen d o b aru lh o ! E n tão o fo ley p ra m im é m u ito

d isso , n ão é u m a co isa d e v o cê ter q u e fazer tu d o q u e está lá e o m ix ad o r tem q u e p o r tu d o . N ão ! O

o u v id o do ser hum ano tem um a característica ab su rd am en te fan tástica , co m o a dos o u tro s an im ais, é

seletiv o . V o cê o u v e o q u e te in teressa, a g en te p o d e ag o ra ficar n o m eio d e u m a cach o eira, eu lig o u m

p u ta d e u m p in k n o ise aq u i d en tro e eu fico o lh an d o p ra v o cê e v o cê p ra m im , e v o cê m e o u v e e eu te

o u ço , e o n o sso o u v id o d escarta a c ach o eira.

R o sa n a : S e en tra r u m p a ssa rin h o , a í a g en te o u v e ?

S a sso : Se en trar u m ru íd o além , v o cê lo g o já p erceb e e v o cê v o lta d e n o v o p ro seu fo co . A g o ra n u m

film e, o m ix ad o r é o o u v id o d o esp ectad o r, p en sa d esse jei to q u e é m ais fácil d e en ten d er. O m ix ad o r, n a

realid ad e, é o grande o u v id o do film e, é aq u ele cara que vai ficar en co n tran d o to d o s os p o n to s de

eq u ilíb rio en tre as n situ açõ es so n o ras q u e ex istem . S e o cara tá falan d o e, d e rep en te , “co co ro có ”, p ra q u e

tem essa g alin h a? A lg u ém o lh o u p ra lá? S e v o cê tiv er alg u m a co isa p o rq u e o cara v ira, d a u m a o lh ad a e

v o lta, e aí p assa u m a m o to cicleta, o cara v iro u n a h o ra d a film ag em - p ela in terp retação d ele ele reso lv e

dar um a v irad a e v o lta - e aí v o cê ach a q u e n o d esen h o d e so m é cab ív el b o tar u m a m o to cicleta q u e

p asso u e co n d iz co m o o lh ar d ele, tu d o b em , ach o ó tim o , d esd e q u e o d ireto r ach e ó tim o . P o rq u e tam b ém

tem esse o u tro d etalh e, o film e n ão é n em m eu, nem seu , o d o n o é o d ireto r. N film es eu já m ix ei n a

m in h a v id a e o d ireto r d isse: Z é, tira essa m erd a ! Z é, n ão q u ero . N o in ício eu ain d a ficav a: ach ei leg al

essa co isa d esse p assarin h o ! N ão quero! A li tem aq u ele rapaz p assan d o no fundo, é leg al aq u ele

b aru lh in h o . Z é, não quero! Eu tam b ém era assim , m as com o tem p o eu aprendi que m u te ou d elete

fu n cio n am m u ito b em . E u co m ecei a en ten d er d e u m a o u tra fo rm a, essa é u m a ev o lu ção q u e cad a u m tem ,

e isso é m u ito p esso al. O A rm an d o m ix a d e u m jeito , o L u iz m ix a d e o u tro jeito , o P ed ro , o P au lin h o

m ix a d e o u tro jeito , o P ed ro S érg io m ix a d e o u tro jeito , o A n d ré T ad eu , cad a u m tem um estilo . A liás, é

com o se fo sse u m a p in tu ra. I m ag in an d o a m ix ag em co m o u m a p in tu ra, cad a p in to r tem o seu p ró p rio

estilo , u n s são m o d ern istas, o u tro s são m ais clássico s, o u tro s são ren ascen tistas, o u tro s são p arn asian o s,

v ai m u ito d e cad a u m . A g o ra tem u m a co isa n isso tu d o q u e é o film e n a tela, en tão n ão ad ian ta v o cê

querer in v en tar so n o rid ad es que pra m im n ão sig n ificam n ad a, ao co n trário . P rin cip al m en te p ro film e

b rasileiro , q u e é u m film e sem p re o n d e o fo co é tex to , n ó s n ão fazem o s film e d e g aláx ia, film e d e g u erra,

film e d e b an d id o raram en te fazem o s, film e d e ficção cien tífica - eu n ão co n h eço n en h u m film e b rasileiro

q u e u so u to d o s o s artifício s q u e a ficção cien tífica u sa . O s n o sso s film es são film es o n d e o ato r se ex p õ e,

in terp reta, e a câm era tá fo cad a n aq u ilo , en tão n ão ad ian ta a g en te q u erer in v en tar u m m o n te d e h isto rin h a

fo ra d o áu d io co m fo ley o u sem fo ley, p o rq u e n ão fu n cio n a .
R o sa n a : Q u a l é o p a p el d o d ig ita l n essa h istó ria ? A n tes d o d ig ita l já h a v ia isso ?

S a sso : S em p re! M as v am o s co lo car: n a ép o ca em que era um p astelão , n o sen tid o q u e era u m a p ista só ,

esse era o co n ceito , isso era o q u e eu co n h ecia, eu ach av a d iv ertid o , u m a d ro g a, m as d iv ertid o . E u tin h a

essa n o ção d o s film es q u e eu assistia estran g eiro s, eu sem p re g o stei m u ito d e i r ao cin em a. H o je eu n ão

vou m ais, eu p refiro alu g ar, co m p rar e assisto na m in h a casa, p o rq u e h o je o cin em a p ra m im é um a

estreb aria. E u esto u p en san d o em in v en tar u m p ap el q u e n ão faça b aru lh o p ra p ip o ca, p ra ju ju b a, o p ap el

crepon fu n cio n a, m as ele m an ch a. H o je p ra eu ir a o cin em a só se fo r n u m a sessão tip o o n ze h o ras d a

m an h ã p o rq u e n ão tem n i n g u é m , m a s m e s m o a s s i m ... E u e s p e r o u m an o p ra v er u m a co isa q u e e u q u ero ,

porque eu v ejo em casa, d escu lp a a m o d éstia, m as num p u ta dum h o m eth eater calib rad o p elo C arlo s

K lach q in , q u e sem p re q u e v em a q u i e l e v a i l á e r e c a l i b r a , t e n h o n a v e r s ã o 5 .1 e 7 . 1 e t e n h o n a v e r s ã o 3 d e

não 3d. M as v o ltan d o , esse co n ceito da co isa to sca já v em lá d e trás, m as era o q u e tin h a e era u m a

realid ad e. E u m e lem b ro que eu m esm o fiz m u ito s ru íd o s de sala e eu sem p re ach av a q u e p o d ia ser

m en o s, m as era o co n ceito d a ép o ca e eu estav a lá. I sso p erm an eceu d en tro d o s an o s seg u in tes, n a Á lam o

isso eu já co n tro lav a m ais, eu já d iscu tia m u ito , t iran d o fo ra o q u e n ão p recisav a. E q u an d o en tro u o

d ig ital, o n d e você já tem a m u ltip licação de can ais, tu d o já co m eço u a ficar ex ag erad o . V eja b em , o

d ig ital está d iv id id o em d u as etap as, tem o d ig it al n o p erío d o o n d e tu d o era D A 8 8 , a g en te g rav av a em

fitas d e 8 can ais, e d ep o is en tra a seg u n d a etap a d o d ig ital , q u e já é v o cê estar trab alh an d o d ireto co m as

w o rk statio n s, tip o P ro T o o ls e co isas d o g ên ero . N a p rim eira etap a, aq u ele q u e a g en te falo u d o fo ley e

c o i s a s d o g ê n e r o ...

R o sa n a : A s ed içõ es d a J L S sã o n essa fa se?

S a sso : A s p rim eiras sim , a JL S fo i q u em u so u d e cara D A 8 8 . A JL S fo i o p rim eiro estú d io D o lb y D ig ital

q u e tev e n a A m érica d o S u l. E u fu i o p rim eiro estú d io cred en ciad o e , n a ép o ca, a m in h a p latafo rm a d e

ed ição d e so m era o W av efram e, já tin h a 1 6 can ais, estam o s falan d o d e 1 9 9 5 , m áq u in a 1 6 can ais, o P ro

T o o ls n em ex istia co m o P ro T o o ls, era S o u n d T o o ls o u co isa p arecid a, eram d o is can ais, tin h a 1 u n d o e

eu tin h a 2 5 6 u n d o s. O co n ceito d o W av efram e era co m o se fo sse u m a g ran d e m o v io la co m um grande

gravador, ou seja, v o cê ed itav a e m ix av a n ele, n ão tin h a p lu g in s, n ad a, v o cê u sav a a m esa, u sav a o s

p eriférico s, o s h ard w ares ex tern o s, rev erb eração , co m p resso r, faziam p arte d aq u ilo lá. E n esse p erío d o o

d ig ital é to d o em D A 8 8 p ra m ix ag em fin al, o fo ley já o b ed ece aq u ilo q u e eu falei lá atrás, o n o sso q u erid o

A n tô n io C ésar e o G u ilh erm e, d ep o is p o ssiv elm en te co m o R o g erio G o u lart e o p ró p rio W alter, g rav av am

os ru íd o s de sala tan to d o s film es d e S ão P au lo q u an to d o s film es d o R io . V ai fazer sala, já lig a p ro

R o g ério , lá n a R G A , m arca co m ele, eu sei q u e v o cê v ai ficar feliz e eu m ais ain d a. E sem p re v in h a tu d o

arru m ad in h o , v in h a u m relato rio zin h o b em sim p les. A n tes tin h a u m a co isa im p o rtan te q u e tem q u e ser

d ita, n a ép o ca ain d a sem o d ig ital, a m ix ag em tin h a u m m ap a, co m o se fo sse u m a p artitu ra q u e o ed ito r

d esen h av a, o n d e v o cê tin h a to d as as p istas e o q u e en trav a e o q u e saía co m as m arcas d o q u e era fad e in

fad e o u t, o n d e tin h am o s fo leys, o s salas, u m a co isa q u e era m u ito im p o rtan te, b atid a n a p o rta, o ed ito r já

cham ava a aten ção p raq u ilo lá, p o rq u e aq u ilo tin h a que ser m u ito m ais alto que o resto , en tão você

m ix av a q u ase len d o u m a p artitu ra, u m p ian o . Q u an d o en tram as w o rk statio n s, v o cê já n ão p recisa m ais

d isso p o rq u e v o cê v ê as p istas n a su a fren te, en tão o m ap a p asso u a n ão ter m u ito sen tid o , se b em que eu
ain d a u sei d u ran te alg u m tem p o . E u sem p re fu i u m p o u co m ais co n serv ad o r em alg u m as co isas, co n tin u o .

À m ed id a q u e v o cê ia trab alh an d o , v o cê n ão tin h a to d as as p istas n o v íd eo , às v ezes, tin h am 30,

40 p istas e isso co m p licav a u m p o u co , m as v o cê já m eio q u e fazia as p rés e o film e já estav a n a su a

cab eça, p o rq u e tem essa co isa tam b ém , eu so u d a ép o ca q u e a au to m ação so y y o . E u so u d a ép o ca q u e eu

tin h a q u e assistir d u as o u três v ezes o ro lo d e film e, m em o rizar o q u e ia m ix ar , e se eu errasse, eu tin h a

q u e v o ltar. E n tão isso tam b ém é u m a co isa q u e m e d eu o u tro tip o d e v isão , u m a o u tra lin h a, q u e h o je

v o cês n ão tem . H o je v o cês são d o co p y /p aste/u n d o /red o e está tu d o reso lv id o , q u e , aliás, são as g ran d es

q u atro ferram en tas d o co m p u tad o r, o resto é acessó rio , só co m isso v o cê faz o q u e q u iser, e u m que é

leg al tam b ém , q u e eu g o sto é d elete. E n tão n esse p rim eiro p erío d o , n essa p rim eira etap a d o d ig ital, o

ru íd o d e sala ain d a m an tin h a aq u elas características d e 8 can ais, n ão m ais d o q u e isso , n as fitas D A 8 8 , e

já estam o s em 2 0 0 2 , 2 0 0 3 .. .

R o sa n a : Q u a l film e?

S a sso : O p rim eiro film e d ig ital, D o lb y D ig ital, feito n o B rasil, m as q u e n ão fo i o p rim eiro a ser ex ib id o ,

fo i “N o C o ração d o s D eu ses”, cu jo ru íd o d e sala fo i feito n a M irian p elo A n tô n io C ésar e n ão sei se p elo

G u ilh erm e ou o A n tô n io C ésar so zin h o . N ão lem b ro p o rq u e a M irian en tra já co m a E ffects fazen d o

ru íd o s de sala, m as ela cham ava o A n tô n io C ésar pra fazer, m as o p rim eiro film e a ser ex ib id o fo i

“S im ão , o F an tasm a T rap alh ão ”, q u e é o p rim eiro 5 .1 m ix ad o com o trab alh o de ed ição de so m do

L o u zeiro , d a S im o n e e d a M aria M u ricy e co m ru íd o s d e sala d o A n tô n io C ésar , e isso tu d o em D A 88.

N aq u ele m esm o an o , fizem o s “Z o an d o n a T v ”, “O p rim eiro d ia ”, d o W alter S alles, L u iz A d elm o q u em

f e z a e d i ç ã o d e s o m , e f i z e m o s o d a X u x a , q u e e u n ã o m e l e m b r o q u a l d e l e s , s e e r a o “ P o p S t a r ” ... E r a u m

d esses d a X u x a. E n tão n aq u ele an o , d e setem b ro d e 9 8 a d ezem b ro d e 9 8 , n ó s fizem o s 5 lo n g as em D o lb y

D ig ital, n o m eio d o cam in h o tin h a u m an aló g ico q u e era o “F é”, que era um d o cu m en tário d o R icard o

D ias. E n tão n essa ép o ca o co n ceito d o sala era esse ain d a, o ito can ais, n ão m ais d o q u e isso , q u e era u m a

fita D A 8 8 , en tão estam o s falan d o d e 9 8 , e até 2 0 0 1 co n tin u a m ais o u m en o s isso . Já em 2 0 0 2 , o p esso al

co m eça a u sar m u ito P ro T o o ls. E u ain d a n ão ad eri ao P ro T o o ls co m o m áq u in a d e g rav ação , eu já tin h a

os Pro T o o ls pra rep ro d u zir, m as saía p elo s co n v erso r es e ia pra m in h a m esa an aló g ica, eu m ix av a

an alo g icam en te n o W av efram e. Já aí o s ru íd o s d e sala co m eçam a m eio q u e sair d e 8 can ais p ra 1 6 , p ra

2 0 ... E a í v e m aq u ilo q u e eu to falan d o , u m m o n te d e co isas q u e , p ra m im , se n ão tiv esse ia d ar n a m esm a,

e c h e g a n d o h o j e a e s s e e x t r e m o d e 4 0 , 6 0 c a n a i s d e f o l e y , q u e e u m e q u e s t i o n o ... S e v o c ê m e p e r g u n t a r

q u al fo i o p rim eiro film e to d in h o feito n esse p ro cesso , ju ro p o r D eu s q u e eu n ão lem b ro , n u n ca tiv e essa

p reo cu p ação , n a realid ad e, eu m arq u ei to d as as m u d an ças q u e tiv eram , m as essa d e n o d ig ital, q u al fo i o

q u e c o m e ç o u ... A í t a m b é m p o rq u e já tin h am m ais estú d io s, en tão n em eu sei d izer, p o rq u e aí eu estav a

m ix an d o , o M eg a m ix av a, n o R io já tin h a a R o b F ilm s, en fim , tin h a o p ró p rio L o u zeiro q u e já u sav a

S o n ic S o lu tio n s. N o R io , o P ro T o o ls era u m a co isa, d a m esm a fo rm a q u e eu , era o lh ad a m eio d e lad o , a

p latafo rm a q u e o s ed ito res u sav am ain d a n o p erío d o d o s D A 8 8 era S o n ic S o lu tio n , q u e aq u i em S ão P au lo

n ão p eg o u . A q u i tin h a eu co m W av efram e, q u e a Á lam o tin h a trazid o em 8 8 o u 8 9 , fo i o p rim eiro estú d io

a ter w o rk statio n d e áu d io em 8 can ais e d ep o is em 16 com a JL S . O fo ley aq u i, q u an d o o L u iz g rav o u , eu

g rav ei, o D an iel gravou, en fim , uns dos n o sso s fo leys, a g en te gravava no w av efram e, ed itav a, e aí
tran sferia p ra D A 8 8 . O fo ley, p o r ex em p lo , d o “S erv a P ad ro n a”, d a C arla C am u rati, fo i o E d u q u e fez

ju n to co m ig o e ju n to co m o D an iel, en tão g rav am o s em v ário s can ais n o w av efram e, m as aí eu já d ei u m a

p ré m ix ad a n o p ró p rio w av efram e e já su b iu p ra m im ed itad o p ra m ix ar. A q u i a g en te tin h a essa co isa d e

g rav ar n o w av efram e, o R o g erio d a D ellarte, lá n a R G A , ele g rav av a d ireto n o D A 8 8 , ele ain d a m an tin h a

aq u ele co n ceito d e g rav ar, só q u e o D A v o cê ed ita, erro u v o lta e n ão rara s v ezes tin h a n u m a p ista: o p a,

errei! Q u e n ão ap ag av a, esq u ecia, e d u ran te a m ix ag em tin h a, e às v ezes tin h am co isas q u e se esq u ecia d e

ap ag ar e ficav a d u p licad o , co isa q u e n a w o rk statio n isso é ev id en te, é v isív el, se v o cê tem alg u m a m an ch a

lá v o cê já d eleta.

A Á lam o b em d ep o is, já en tro u em P ro T o o ls. A Á lam o fo i o ú ltim o estú d io a v o ltar a fazer

cin em a. E u saí d e lá em 9 3 , e eu ach o q u e ela só reto rn a ao cin em a 1 0 an o s d ep o is, se n ão 2 0 0 3 , 2 0 0 4 ,

q u an d o o A rm an d in h o saiu d o M eg a e fech o u a p arceria o p eracio n al co m a Á lam o , e aí co m eço u lá. L á

u sav a P ro T o o ls p ra cin em a e n ão sei se g rav av a fo ley, eu ach o q u e n ã o p o rq u e era o L aro ca q u e fazia. Já

ex istia o L aro ca e ele tin h a já o seu p ró p rio sistem a, n ão sei co m o fu n cio n a, eu n u n ca trab alh ei co m ele. A

p artir d e 2 0 0 4 , 2 0 0 5 , aí co m eçam a su rg ir n o v o s lu g ares esp ecializad o s em fazer fo ley.

R o sa n a : Q u e lu g a res sã o esses?

S a sso : E n tão vam os lá, a p arte do A n tô n io C ésar chega um p o n to que term in a, in clu siv e p o rq u e ele

m o rreu , en tão isso faz p arte d e u m a h is tó ria q u e fo i m u ito b o a, m u ito b o n ito . E le e to d o m u n d o q u e tá lá,

d o s v elh in h o s esto u eu , tá o G o u lart, o R o b erto L eite, é a tu rm a q u e n em eu , p ro teg id a p elo Ib am a, o

num ero 1 é o G o u lart, d ep o is o R o b erto e em terceiro esto u eu , são o s 3 p ro t eg id o s p elo Ibam a, raça

ex tin ta. E n tão aí co m eça assim , co m eço u a ter fo ley em o u tro s lu g ares, o L aro ca co m eçan d o a fazer fo ley.

A cho que o A rm ando an tes d o L aro ca , eu n ão sei co m o ele trab alh av a, m as alg u ém d ev ia fazer alg u m a

co isa para as co isas d ele q u an d o ain d a o L aro ca n ão era o ex p o en te q u e é h o je. A JL S eu nem co n to ,

porque nós fazíam o s m u ita co isa pra n ó s, m u ito p o n tu al, q u e é o term o q u e eu u so , en tão era m u ito

p o n tu al, p ro s n o sso s trab alh o s, m as eu ain d a u sav a m u ito a R G A . E u sem p re u sei m u ito o R o g ério , eu

g o stav a do trab alh o d ele, a M irian , q u e m o n to u o seu estú d io d e fo ley. E aí já ela tin h a a tu rm a d ela

fazen d o , n o tad am en te o R icard o R eis, o C h u í, co m o sen d o u m d o s caras q u e fazia co m o u tras p esso as q u e

trab alh aram , eu n ão sei q u em são . E m 2004 eu conheço o K ik o F erraz, lá em P o rto A leg re, e já tem a

T eleim ag e co m eçan d o , se não m e engano, em 2005, com o s eq u ip am en to s d eles e q u e tam b ém en tro u

com estú d io d e fo ley. N o R io d e Jan eiro , n ão sei q u em c o n t i n u o u f a z e n d o , p o r e x e m p l o , o L o u z e i r o ... N ã o

sei quem ele cham a, quem ele lev a, eu sei que o K ik o F erraz h o je é o que m ais aten d e o m ercado

b rasileiro . O K ik o tem m u ito clien te n o R io d e Jan eiro , co m o tem clien tes n o B rasil in teiro . O R o d rig o

N o ro n h a, m ix ad o r, m an d a co isa p ra ele, o R icard o K u tz m an d a co isa p ra ele, e ele tem um estú d io d e

fo ley m u ito bem m o n tad o , m as ele é d essa tu rm a dos 60 can ais. O técn ico d ele é o F elip e B urger,

realm en te é u m cara m arav ilh o so d e t rab alh ar. V o cê tem a G u ta, ela tam b ém tem um estilão m u ito b o m

n o trab alh o d ela, m as a G u ta já é m ais p ra cá, eu to fa lan d o d o s m ais an tig o s, d e 2 0 0 4 . E m 2 0 0 4 a G u ta

n ão tav a. E u co n h eci o fo ley d o R io G ran d e d o S u l aq u i co m o film e “O C árcere e a R u a”, d a L ilian a

S u sb ach . E u fu i aco m p an h ar, o P ed ro S érg io tav a m ix an d o n o v elh o estú d io 2 d a JL S , q u a n d o a JL S era

só u m a casin h a, em 2 0 0 4 , e tin h a u m fo ley q u e m e ch am o u a aten ção , m as m u ito . N ão é q u e m e ch am o u a
aten ção , m e ch am o u m u ito a aten ção . E eu n ão co n h ecia o K ik o , eu co n h ecia a L ilian a, o K ik o p ra m im

era um g aú ch o n o v o , ele fo i o m o n tad o r, in clu siv e, fez o d ese n h o d e so m e g rav o u o fo ley. M e ch am o u

m u ito a aten ção a q u alid ad e do trab alh o , a lim p eza no sen tid o de o rg an ização , n aq u ele trab alh o , a

au ten ticid ad e d e d eterm in ad o s so n s, e eu falei: K ik o , eu já fu i p ad rin h o d e tan ta g en te, se v o cê ace itar, eu

so u o seu p ad rin h o tam b ém .

R o sa n a : N esse fo ley já tin h a essa co isa p o n tu a l q u e v o cê g o sta ?

S a sso : E n tão , p o r ser u m d o cu m en tário as co isas eram m ais p o n tu ais. C o m o se p assav a n u m a cad eia e

d ep o is se p assav a d en tro d e casas, e o s p erso n ag en s são o s p erso n ag en s, en tão a so n o rid ad e d o film e era

de um d o cu m en tário , o n d e o realism o , aí v e m essa o u tra co isa, fazia p arte. T in h a essas p ersp ectiv as d e

quem está d o lad o d e fo ra d a cad eia e q u em ta d en tro , aq u ela m u lh er q u e p asso u p o r isso , aq u ela q u e

f u g i u ... E n t ã o t e m o lad o d o cu m en tal d e realism o , m as tem a co m p lem en tação d e o u tro s ru íd o s. E n esse

film e o fo ley era m u ito im p o rtan te, in clu siv e p ra m arcar d eterm in ad o s ritm o s, d eterm in ad o s m o m en to s,

co m p en etração e d em o ra p ra se falar alg u m a co isa, alg u m tiq u e n erv o so , e isso eu g o sto ! E esse fo ley

co m p leto u , o u co m p lem en to u , essas situ açõ es so n o ras d e u m a fo rm a tão au tê n tica, q u e n em p arecia fo ley,

e isso m e ch am o u m u ito a aten ção .

E aí n ão sei q u e film e ap areceu q u e eu falei: p o r q u e v o cês n ão ch am am o K ik o F erraz p ra fazer?

M as quem é esse cara? Lá n o R io G ran d e d o S u l. E x p erim en ta, se estiv er ru im , d ep o is v o cês b rig am

co m ig o , d u v id o q u e v o cês v ão ach ar ru im . E u n ão lem b ro q u al fo i o film e, o K ik o p o d eria te d izer is so . E

fo i o p rim eiro lo n g a d ele e fo i m ix ad o aq u i. A í o b o ca a b o ca esp alh o u p rin cip alm en te n o R io d e Jan eiro ,

q u e h o je ele é u m d o s caras q u e faz m u ito fo ley p ro R io d e Jan eiro .

N a v erd ad e, n ó s tín h am o s alg u m as co isas sérias p ra reso lv er n esse p aís, em v árias áreas, n ó s n ão

tem o s esco las técn ic as. N ós tem o s as U n iv ersid ad es, que form am p ro fesso res, d o u to res, m estres ,

b ach aréis em alg u m a área d e co m u n icação d e cin em a. N o tad am en te o cara sai d a U n iv ersid ad e p ra ser

ro teirista, p ra ser d ireto r, d ireto r d e fo to g rafia, co m raras e h o n ro sas ex ceçõ es, co m o a m in h a q u erid a

G ab riela C u n h a, q u e faz so m d ireto . E u ten h o u m o rg u lh o m u ito g ran d e d essa m o ça, ela fo i d a m in h a

p rim eira tu rm a. E m co n trap artid a tem o u tro s que foram da m in h a p rim eira tu rm a e h o je d irig em ,

p ro d u zem , m as ela , p o r ex em p lo , fo i u m a técn ica. O L u iz A d elm o , q u e era m eu alu n o o u v in te, fo i u m

técn ico m ais do que q u alq u er co isa, o Jo ão G odoy, com quem eu já trab alh av a, to d a essa tu rm a são

p esso as d o m ercad o , são p esso as q u e trab alh am , n ão saem d o s b an co s d as U n iv ersid ad es sem sab er co m o

é o m ercado. A G ab i fez m u ito estág io , fez estág io co m ig o , g rav o u fo ley co m ig o , aliás, eu tam b ém gravei

fo ley. A G ab i e eu fizem o s to d o o fo ley d o “T erra E stran g eira ”. E n tão o q u e tem h o je: as p esso as saem da

U n iv ersid ad e sem ter u m a fo rm ação técn ica b o a, n ão to d izen d o q u e a U n iv ersid ad e é ru im , m as falta

co n h ecim en to técn ico . T an to q u e n a ép o ca q u e eu d ei au la n a E C A , n o rm alm en te , a m in h a p rim eira au la

era assim : se v o cês v ieram p ra cá p ra fu g ir d e física, q u ím ica e m atem ática v o cês tão fu d id o s, p o rq u e eu

só v o u falar d isso . É acú stica, n ó s v am o s falar so b re g rav ação , n ó s v am o s ap ren d er a so ld ar fio e eu v o u

encher m u ito o saco de v o cês, ten h o um a ap o stilin h a com um m o n te de co isin h as que eu quero , no

m ín im o , q u e v o cês en ten d am d o q u e n ó s estam o s falan d o . Q u em n ão q u iser aco m p an h ar so m , v á em b o ra,

não vou nem ficar ab o rrecid o , fiq u e n a sala só q u em g o sta. E sem p re tin h am aq u eles 1 0 o u 1 2 q u e eram
ab so lu tam en te assíd u o s, alu n o s ferren h o s, e a m in h a au la em p articu lar era sem p re u m a co isa técn ica, n ão

que ab o rd asse fo ley esp ecificam en te, m as eu abordava a tecn o lo g ia do áu d io do lad o elet rô n ico . M as

d en tro d a U n iv ersid ad e , a p arte técn ica n a n o ssa área, d iferen tem en te d e m e d icin a e o u tras co isas, o n d e

v o cê tem q u e b o tar a m ão n o cad áv er p ra ap ren d er, n essa área tu d o é u m p o u co teó rico d em ais, o u sen ão ,

m u ito teó rico , e as p esso as saem d aq u ela redom a cham ada U n iv ersid ad e sem sab er com o é o m eio

am b ien te, q u e é u m am b ien te h o stil. O cara sai d e u m lu g ar p ro teg id o e cai n u m lu g ar o n d e a p rim eira

fera q u e ap arecer n a fren te co rta a cab eça d ele p o rq u e n ão v ai q u erer m ais u m p ra en ch er o saco . N ó s

tem o s p ro fissio n ais na n o ssa área d e so m , co m fo rm ação u n iv ersitária d e d o u to rad o in c lu siv e, q u e são

ex celen tes p ro fesso res e ex celen tes técn ico s, p o rq u e an tes d e tu d o co m eçaram o u tam b ém trab alh aram no

m ercad o . E stão ato lad o s até o jo elh o n a p arte técn ica, sab em o q u an to é im p o rtan te v o cê sab er p isar n o

lu g ar certo , co m co n h ecim en to d e té cn ica, e o q u e faz isso n a n o ssa co n v ersa d o fo ley: n ó s n ão tem o s essa

form ação técn ica. P o r isso que você pega sessõ es de fo ley, co m o eu p eg o sessõ es d e ed ição d e so m e

m ix ag em q u e são to talm en te d í sp ares, o u seja, as p esso as n ão tem n o ção , p rin cip alm en te co m essa área d a

in fo rm ática, d aq u ilo q u e eu ch am o d e o rg an ização , o rg an o g ram a d e trab alh o . M u ito s e m u ito s film es eu

já receb i p istas d e fo ley, d essas q u e v em com 4 0 o u 5 0 q u e n aq u ela p ista d e p asso s ap arece u m ru íd o d e

p o rta, q u e n ão tem n ad a a v er, o u seja, v ão g rav an d o m eio q u e aleato riam en te as co isas e n ão p assa p o r

u m a ú ltim a etap a d e reo rg an ização . P u ta, em v ez d e 6 0 p istas eu p o sso red u zir isso aq u i p ra 3 4 ! P o rq u e às

v ezes tem u m a p ista d e 1 5 m in u to s o n d e tem um ru íd o só e n o m esm o lu g ar tem m ais 1 8 p istas o n d e n ão

tem m ais ab so lu tam en te n ad a. V eja, eu n ão to d an d o ex em p lo d e q u e tu d o ta errad o e q u e tu d o está ru im ,

n ão ex iste é essa co isa co n sen su al técn ica, q u e ex iste lá fo ra p o rq u e isso se ap ren d e n a esco la, d e o cara

o rg an izar: d o can al 1 ao 8 é p asso s. N ão to d izen d o q u e as p esso as n ão fazem isso , m as v em tan ta p ista

ex tra, fix d isso , fix d aq u ilo , q u e aq u elas 3 2 p istas se to rn am 60 e você perde um tem p o d esco m u n al p ra

d esco b rir u m m o n te d e ru id in h o s e co isin h as q u e às v ezes co n so m em um tem p o d e trab alh o d e m ix ag em

m u ito g ran d e e q u e n o fu n d o n ão co n trib u em em nada. E aí vem u m a o u tra co isa q u e é m in h a, m u ito

p esso al, eu so u co n tra você lim p ar tu d o . A teo ria, com o cham a? A ed ição da d esco n stru ção para

reco n stru ção , eu , co m o técn ico , eu ach o isso ab o m in áv el. P ra m im , as p esso as q u e assim trab alh am , n ão

to b rig an d o co m n in g u ém , n ão to ach an d o n in g u ém ru im , p o rq u e p erd e o q u e o film e tem d e essên cia, q u e

são o s p ró p rio s ru íd o s am b ien tes, a s atm o sferas q u e já ex istem , e q u e v o cê p o d e trab alh ar d e u m a fo rm a

co rreta, sem p ro cessar tan to . E u ten h o v isto film es q u e ch eg am aq u i q u e p arece q u e p asso u u m a m áq u in a,

um ro lo co m p resso r p o r cim a, tá tu d o ach atad o , tu d o co m p rim id o , n ão tem faix a d in âm ica. E u v ejo isso

p o rq u e a g en te faz ch eck m ix , e aí eu rece b o co isas d e v ário s lu g ares. E aí v o cê v ê ru íd o d e sala d esco lad o

d em ais, é ev id en te que o cara está n aq u ela sala, o so m d ireto é esse m ais ou m enos da m in h a sala,

rev erb eran te, e v o cê v ê o so m d ireto sem nenhum rev erb , sem n en h u m a atm o sfera, em 4 0 , 5 0 can ais, e

co n tin u a u m a p o rcaria, e a d iferen ça q u e ex iste en tre o s v ário s lu g ares q u e fazem ru íd o d e sala. O u seja,

eu p o sso receb er u m fo ley v in d o d o K ik o q u e n ão tem nada a ver com o d a M irian , q u e n ão tem nada a

v er co m o o L o u zeiro , q u e n ão tem nada a ver com o d a C asab lan ca, é to talm en te d ísp ar, p arece q u e u m

fo i feito n a C h in a, o o u tro fo i feito em Israel, o terceiro fo i feito n a G ro en lân d ia, e n in g u ém se falo u .

R o sa n a : E ssa era um a p ergu n ta m u ito im p o rta n te que eu g o sta ria de fazer: ex iste tra d içã o de

fo ley?
S a sso : N o B rasil? N ão .

R o sa n a : O q u e v eio d o G era ld o e d o A n tô n io C ésa r m o rre a li n a M iria n ?

S a sso : M o rre co m e l e s ... A q u i l o q u e f o i u m estilo , m esm o q u e às v ezes u m p o u co to sco d ev id o à situ ação

técn ica da ép o ca. U m a co isa im p o rtan te d e ser d ita: tu d o o q u e a g en te faz é em fu n ç ão d o m o m en to

eco n ô m ico d o p aís. L em b re-se q u e n ó s p assam o s p o r m o m en to s eco n ô m ico s terrív eis, co m u m a in flação

de 60, 70% ao m ês, o u seja, se v o cê im ag in ar q u e v o cê tin h a u m a in flação d e m ais o u m en o s 2 % ao d ia,

s i g n i f i c a q u e d e m a n h ã v o c ê c o m p r a v a o p ã o z i n h o p o r 1 c r u z e i r o , a t a r d e e r a 1 ,2 0 . C o m o é q u e v o c ê i a

com prar um eq u ip am en to que cu stav a 50 m il d ó lares? E ain d a tin h a um a co isa cham ada d ep ó sito

co m p u lsó rio , o n d e você tin h a que d ep o sitar aq u ela m esm a q u an tia em d in h eiro n o B a n co C en tral p ra

receb er d e v o lta d ep o is d e u m an o , só co m co rreção m o n etária. E n tão v o cê tem q u e ter co m o referê n cia

q u e o s m o m en to s eco n ô m ico s, p o lítico s e eco n ô m ico s p o r q u e p asso u esse p aís e sem p re in flu en cio u o

cin em a. P rim eiro p o rq u e o cin em a n ão é u m a in d ú stria n esse p aís, n ão ex iste in d ú stria cin em ato g ráfica

p o rq u e a to rn eira está n o g o v ern o , n o d ia q u e alg u ém ch eg a lá, p eg a u m a ch av e d e g rifo e fech a o reg istro

g eral, acabou o cin em a, com o acabou o teatro , e q u alq u er o u tra co isa. O s ú n ico s que in v e stem em

eq u ip am en to s, pra m an ter um a in d ú stria, en tre asp as, rid ícu la, rid ícu la no sen tid o de que não tem

n en h u m a ap o io g o v ern am en tal, so m o s n ó s, são o s lab o rató rio s e em p resas d e p ó s-p ro d u ção d e im ag em e

d e so m , q u e n ão tem u m a p o rra d e u m a lei d e in cen ti v o p ra im p o rtar o u trazer eq u ip am en to . E isso an tes

ain d a era m u ito m ais ag rav ad o p o r to d o s o s p ro b lem as eco n ô m ico s. E n tão o q u e aco n tece: to d as essas

p esso as q u e trab alh aram até u m d eterm in ad o m o m en to , e q u e h o je d eix aram d e ex istir o u p o rq u e p aro u d e

trab alh ar o u p o rq u e já su b iu d e an d ar o u co isa d o g ên ero , fico u p ra trás. L em b ran d o q u e h o u v e u m buraco

q u an d o tam b ém o P resid en te C o llo r acab o u co m a E m b rafilm e, e aí su cateo u d e v ez, p o rq u e q u an d o tem

a reto m ad a do cin em a no B rasil, as tecn o lo g ias fo ra d o B rasil já eram d o m u n d o d ig ital. M o n tar em

sistem as não lin eares, A v id e o u tro s eq u ip am en to s, já era um a realid ad e, e aqui a g en te com eçou a

en g atin h ar, porque aq u ilo lá deu um a brecada. A p u b licid ad e se m an tev e m ais atu alizad a n aq u ele

m o m en to , n ão tem nada a ver com fo ley, m as ach o q u e p o liticam en te o u eco n o m icam en t e é im p o rtan te

v o cê sab er d isso . A p u b licid ad e q u e n ão tev e esse tip o d e in flu ê n cia co m eço u , a p u b licid ad e era m o n tad a

em A v id e n ão sei o q u e, aí as p ro d u to ras já n em iam m ais p ro s estú d io s m ix a r, p o rq u e já faziam tu d o

d en tro d as p ro d u to ras d e áu d io . H o u v e esse p erío d o em q u e a p u b licid ad e se m an tev e m ais o u m en o s n o

to p tecn o ló g ico , co m a s d e f i c i ê n c i a s d e i m p o r t a ç ã o ... M a s o c i n e m a n ã o , o c i n e m a v i n h a c o r r e n d o , t u d o

fu n cio n av a b em , aí su b iu u m m u ro , d e m ais o u m en o s u n s 5 0 m etro s d e altu ra p o r 4 0 d e larg u ra e to d o

m undo en fio u a cabeça e se esp atifo u . A té derrubar o m uro e co n seg u ir reto m ar tu d o , a tecn o lo g ia

n aq u ela época, em pequenos 3 an o s, m u d o u da água p ro v in h o . E a co isa fico u to d a em cacarecos de

n o v o , co m o fo i lá n a d écad a d e 5 0 co m o cin em a n o v o . A í tem a ab ertu ra d o s p o rto s, q u e b em o u m al, p o r

co n ta do P resid en te C o llo r, v aleu p o rq u e en traram as em p resas estran g eiras, e aí to d as as n acio n ais d e

d istrib u ição que eram um lix o fecharam , porque não dava pra co m p etir m esm o . N ão ten h o nenhum a

sau d ad e das em p resas b rasileiras, da p o rcaria que era. E n tão to d a essa co isa aí term in a em um

d eterm in ad o m o m en to , co m a m o rte d e cad a u m , p ra ter essa v o lta, co m um n o v o sistem a, co m um a nova

tecn o lo g ia, m as sem m an ter o u sem ter o s critério s q u e aq u ela tu rm a u sav a m ais o u m en o s co m o u m a

reg rin h a. N ão que não façam assim , é q u e h o je é m u ita p ista p ra p o u co so m . A co isa saiu u m pouco
d aq u ilo que eu cham o de realism o , se g asta um tem p o fen o m en al em d eterm i n ad as co isas q u e m u itas

v ezes n ão tem n ecessid ad e.

R o sa n a : E essa s p esso a s n o v a s q u e en tra ra m ap ren d eram com q u em ?

S a sso : N ão tem esco la, ap ren d eu co m o au to d id ata , trab alh an d o co m alg u ém q u e já fazia e q u e tam b ém já

ap ren d eu errad o . E sse é q u e é o p ro b lem a, se v o cê ap ren d e d e u m a fo rm a fo lcló rica, p o r isso q u e eu falo

q u e eu , o A n tô n io C ésar , o R o b erto L eite, o G o u lart, so m o s to d o s d o Ib am a, é p o rq u e à m ed id a q u e e sses

v elh in h o s v ão d esen carn an d o so m e to d a essa p arte d a h istó ria, o u d a m an eira d e trab alh ar. O n d e h av ia

u m a ro tin a, realm en te u m a ro tin a m u ito fix a, m u ito ríg id a d e se trab alh ar. E u n ão so u sau d o sista, é q u e a

tran sp o sição d e u m tem p o o co rreu d e u m a fo rm a b ru sca e co m um b u raco n o m eio , en tão v o cê tem um

g ap , e essa tra n sp o sição fico u m eio q u e ab erta. E n tran d o n u m p aralelo , a n o ssa p ró p ria telev isão saiu d o

m o n o p r o 5 .1 , s e v o c ê f o r i m a g i n a r , n e n h u m a t e l e v i s ã o p r o d u z i u q u a l q u e r c o i s a e m D o lb y S u rro u n d , q u e

n o s E stad o s U n id o s d u ran te an o s, “M iam i V ice ” e tan tas o u tras séries d e telev isão , estav am lá em D o lb y

Surround.

T an to q u e ex istem n h istó rias q u e eu p resen ciei d e film es q u e n ão fo ram v en d id o s p ro ex terio r

p o r n ão terem u m a M & E , q u e n a ép o ca ch am av a -se b an d a in tern acio n a l, o u terem u m a rid ícu la , co m um

fo ley rid ícu lo . M u ito s film es b rasileiro s n ão fo ram v en d id o s p ara h o m eth eater, n a ép o ca d o V H S , q u an d o

h av ia u m b u raco d e títu lo s faltan d o n o m u n d o , p o rq u e n ão p o d ia m ser d u b lad o s p o rq u e a q u alid ad e era

in aceitáv el. O p r ó p r i o p r o d u t o r b r a s i l e i r o d i z i a : é r u í d o d e s a l a , d e i x a ... P r i n c i p a l m e n t e q u a n d o t i n h a s o m

d i r e t o , e u c o m o m i x a d o r o u v i i s s o . E u d i z i a : a g o r a a g e n t e d e v i a f a z e r u m a v e r s ã o ... M a s Z é ? M a i s t r ê s

d ias? F o d a-se, n in g u ém v ai v er essa m erd a. E esse racio cín io ain d a co n tin u a, tem film es q u e v em aqui e a

g en te ex p lica n o o rçam en to q u e ele tem que fazer um b elo fo ley p o rq u e esse film e p o d e ser v en d id o . N ão

vai vender am anhã, nem h o je. N ão vou citar n o m es, m as d e cara 5 títu lo s: P o rra, Z é! V en d em o s p ra

F rança! A g e n t e p r e c i s a d a M & E . M a s v o c ê n ã o f e z M & E p o r q u e v o c ê a c h o u c a r o ... T i n h a q u e f a z e r u m

b elo fo ley, tin h a q u e fazer u m a b o a m ix ag em , tin h a q u e p ro d u zir alg u m as co isas m u sicalm en te, p o rq u e

tin h a u m cara to c an d o v io lão e tin h a q u e fazer sem fala em c i m a ... R e s u l t a d o : t e v e c a s o s d e 4 a n o s , c a s o s

d e 6 an o s e caso s d e 8 an o s d ep o is o film e ser v en d id o , film es fam o so s, m ix ad o s aq u i.

E n tão o que falto u , n esse g ap , aq u elas p esso as que tin h am essa técn ica m orrem e as p esso as

reto m am já co m essa v isão m ais n o rte -am erican a. P ro d u to d e m ak in g o f, q u e é aq u ela co isa q u e v o cê v ai

n a in tern et e v ê o m ak in g o f d o fo ley d e d eterm in ad o film e. S ó q u e é u m film e n o rte -am erican o , e o s caras

pagam u m a fo rtu n a p ra fazer o fo ley p o rq u e lev am a sério o fo ley. E aq u i n ão h o u v e isso , e aq u i n ão

houve o porque de se fazer. H o je não é bem assim , as p esso as in v estem n isso p o rq u e sab em q u e tem

m ercad o , m as n ão é to d o m u n d o ain d a.

R o sa n a : D e “ T erra E stra n g eira ” ?

S a sso : A h , en tão , o “T erra estran g eira ”, p o r ex em p lo , eu v o u falar d e d u as co isas. C o m o eu fiz o d esen h o

d e so m d esse film e, eu ed itei o film e, m ix ei o film e, até aco m p an h ei g rav ação d e m ú sica, m ix ag em de

m ú sica, eu p articip ei n esse film e 1 0 1 % d ele. E era a ép o ca q u e eu d av a a u la n a E C A e tin h a o s alu n o s,
en tra eles a G ab i, a D en ise, o L u iz A d elm o , o M ich el R u m an n , a F ern an d a R am o s, tin h a u m p esso al q u e

acom panhava os trab alh o s co m ig o . À s vezes eu dava au la no p ró p rio estú d io da JL S . E n tão u m a d as

co isas q u e eu ap ren d i n a fo rm a ção eu ro p eia, p rin cip alm en te v in d o d a D o lb y , p o rq u e a g en te fo i trein ad o

p elo s en g en h eiro s d a D o lb y , era, e eu tin h a u m lay o u t b o n ito d isso , q u e era assim : p ro s in g leses era u m a

co isa m u ito clássica, so m d ireto é so m d ireto , vam os trab alh ar esse so m d i reto da m elh o r m an eira

p o ssív el. E ssa co isa d e lim p ar e lim p ar, p ra ficar aq u ele so m ach atad o , n a cab eça d eles isso n ão ex iste,

co m o tam b ém n ão ex iste n o fran cês. E les retiram q u an d o tem u m a seq u ê n cia g ran d e o n d e a g en te sai d a

sala, ab re a p o rta, d esce e n in g u ém ab riu a b o ca. E les tiram aq u ilo e v ai p ra u m a p ista ch am ad a M & E

track , co b rem aq u ele b u raco , eles vão pegar o m esm o fundo vão co b rir aq u ele buraco d esses 10, 30,

1 m in , 3 m in u to s, v ão ed itan d o tu d o . A í q u an d o eles fazem aq u elas p ro jeçõ es d e av aliação , m u itas v ezes

se d iz: a seq u ên cia tal sem fo ley p o rq u e o q u e está aq u i o d ireto r já ap ro v o u . O u seja, tem m u ito d isso d o

d ireto r ter na cabeça d ele d eterm in ad o so n s, m o m en to s so n o ro s , q u e ele acom panhou do p ro cesso de

ed ição d e im ag em , q u e aq u ele so m já se to rn o u u m a realid ad e p ra ele. E aq u i tem a m an ia d e fazer tu d o

d e n o v o ... Q u a n t a s v e z e s n a m i n h a v i d a o d i r e t o r f a l a v a : e u n ã o q u e r o i s s o , e u q u e r o a q u e l e s o m lá d e

trás. E m u itas v ezes fo i d esp rezad o . E n tão , p o r ex em p lo , n o “T erra E stran g eira ” isso fo i u m a d as g ran d es

co isas q u e p ra m im era ev id en te, aq u eles q u e eram ru íd o s reais, e o film e tin h a g ran d es m o m en to s d e

silên cio d e v o z, e tin h a u m a am b ien tação b o n ita, q u e se p assav a aq u i e se p assav a em P o rtu g al, eu cag u ei

p ro fo ley. N em p erd i m eu tem p o , à s v ezes, alg u m as co isas, o s caras estav am lá o u v in d o u m fad o , alg u ém

ab re u m a g arrafa d e v in h o , tu d o b em , fo i co lo cad o aq u ele ru id in h o p o rq u e tin h a sen tid o , estav a em p lan o

m u ito p ró x im o . E u tô sen tad o aq u i, o cara tá sen tad o n a m in h a fren te e ab re p ra serv ir o v in h o , ó tim o , faz

p arte d a cen a, é u m o b je to d e cen a e v ai fazer u m ru íd o . A g o ra aq u ele cara co çan d o o saco lá n o o u tro

lad o , esq u ece, m e in teressa o u v ir a can to ra d o fad o . E u sem p re tiv e, n as co isas q u e eu ed itei, d as m in h as

ed içõ es, e eu d ig o o “T erra E stran g eira ” em p articu lar p elo trab alh o q u e eu tiv e, p o rq u e fo i u m film e q u e

n ão fo i p en sad o o so m pra pós produção, era um film e q u e o W alter e a D an iela q u eriam g astar o m en o s

p o ssív el, ta n to q u e fo i f ilm ad o em su p er 1 6 e era so m d ireto . E n tão n in g u ém fico u cap tu ran d o am b iên cias

de P o rtu g al, n ad a, n ad a, tan to q u e aí, d ep o is q u e a g en te fez to d a a ed ição , o G erald o tev e q u e ir p ra

P o rtu g al p ra d u b lar alg u m as cen as, alg u m as falas. E aí eu falei co m o W altin h o : ele tem que fazer pra

m im to d a a produção, eu p reciso d esse lu g ar, d esse lu g ar, d esse lu g ar, d isp ara o seu D A T , era D A T

n aq u ela ép o ca, m e g rav a d ez, v in te m in u to s d a jan ela d o seu h o tel, q u e d ev e estar n esse lu g ar, v ai lá p ra

p erto do P o rto , m e grava, não in teressa se tem b u zin a, g rav a e eu reed ito . E ele tro u x e u m a serie d e

ru íd o s, in clu siv e tiv em o s, p ra v o cê v er o q u e é n ão p en sar n o so m , h av ia u m a cen a q u e era u m carro, que

faz p arte d o fo ley en tre asp as, era u m a cen a n u m lu g ar ch am ad o C ab o d o E sp ich el, o n d e era im p o ssív el

fazer so m d ireto porque é um p en h asco com um v en to d esco m u n al, n ão tem m icro fo n e q u e seg u rasse

aq u ilo . Foi feito um so m g u ia, e n in g u ém gravou aq u ele sk o d a . E ra um carrin h o d aq u eles bem

v ag ab u n d o s, q u e en trav a por um lu g ar, fazia um a curva enorm e, parava n a fren te d o s caras, d o s d o is

ato res, q u e era a F ern an d a T o rres e o A n tô n io A lv es P in to , e aí o carro sai e ele p erg u n ta: são eles? A ch o

q u e n ão . E ssa é a ú n ic a fala q u e tin h a e q u e fo i d u b lad a, m as n in g u ém fez aq u ela g rav ação . F o i sem so m .

E aí fo i feito u m “ fo ley ” co m o Jo ão G o d o y ju n to co m o G erald o . F alei p ro W altin h o : n ão d á p ra m o n tar

esse carro co m co leção d e efeito p o rq u e v ai v irar u m F ran k stein , o cara v em d e lo n g e, ch eg a p erto , p õ e n o

p o n to m o rto , sai, ain d a d á u m a rézin h a, aí sai d e n o v o , n ó s tem o s q u e g rav ar isso . A í o Jo ão e o G erald o ,
num d o m in g o d e m ad ru g ad a, fo ram à U S P , o n d e tin h a u m a p arte m ai s afastad a co m p iso d e cascalh o .

M arcam o s to d o s o s te m p o s, eu fiz u m ro teirin h o p ra eles, e eles g rav aram u n s 5 o u 6 tak es o b ed ecen d o

aq u eles tem p o s. N in g u ém d iz q u e aq u ele carro n ão é aq u ele carro , ach o q u e n a terceira v ez eu tiv e q u e

ed itar u m a m u d an ça d e m arch a, isso é u m f o l e y ... E p r a t e r a q u e l e s o m ele s u saram ach o q u e u m a B elin a,

d aq u elas b em v elh as, q u e alg u ém tin h a e q u e o so m era bem p arecid o co m o d o carro . F u n cio n o u q u e fo i

u m a m arav ilh a. E n tão n as m in h as co isas, sem p re q u e eu p u d er v alo rizar o so m o rig in al, p o rq u e ele fo i

bem cap tad o , p o rq u e o té cn ico d e so m cap rich o u , u m ex em p lo clássico são o s film es d e so m d ireto d o

Jo ão G o d o y e d a G ab i C u n h a, eu v o u falar d esse d o is ag o ra p o rq u e são o s q u e eu m ais ten h o trab alh ad o ,

R o m eu Q u in to , id em . E ssa p arte d e ru id ag em , q u an d o eles cap tam p en san d o q u e tem u m a m ix ag em , q u e

tem u m a ed ição d e so m , e q u e isso p o d e ser u sad o d e u m a fo rm a m u ito rica, eles u sam , eles p en sam que

ex iste u m m ix ad o r lá n a fren te. E tá p en san d o : se é o Z é q u e v ai m ix ar, ele v ai q u erer isso aq u i, essa

m açan eta n ão tem em lu g ar n en h u m . T ev e u m caso aq u i d e u m film e q u e n in g u ém g rav o u a m açan eta, e

eram p o rtas co m m a ç a n e t a s a b s o l u t a m e n t e ...

M as o q u e eu d ig o é assim , o fo ley é ig u al tem p ero d e u m a co m id a, se v o cê tem um b elíssim o

p rato e v o cê ex ag era n o m o lh o , v ai ficar en jo ativ o . S e v o cê tiv er u m b elíssim o p rato e p õ e m o lh o d e

m en o s, v ai ficar in so sso , to talm en te sem g o sto . O fo ley p ra m im , co m o o u tras p eq u en as co isas d o fil m e,

m as o fo ley em si p ra m im é esse tem p ero , q u e tem q u e ser m u ito b em d o sad o , q u e se v o cê p u ser d em ais

en jo a e se v o cê p u ser d e m en o s v o cê sab e q u e tá faltan d o alg u m a co isa.

R o sa n a : Já que esta m o s fa la n d o d e tem p ero , q u em tem feito fo ley u ltim a m en te? Q u e ca ra tem ?

T ira n d o esses q u e já fa la m o s. E x iste u m a reg io n a liza çã o ?

S a sso : E x istem ten tativ as q u e a g en te receb e d e fo ley, m as são m u ito p o u cas e m u itas v ezes d e u m a fo rm a

to sq u in h a. E n tão h á essa reg io n alização , ain d a q u e h o je ex ista o R io G ran d e d o S u l, p o rq u e an tes era R io -

S ão P au lo . L em brando que sem p re o R io de Jan eiro m an tev e essa p arte m u ito m ais d esen v o lv id a e

v alo rizad a d o q u e S ão P au lo . A g o ra, d e u n s an o s p ra cá, a p artir d o s film es d ig itais, o fo ley p asso u a ter

u m a o u tra v isão . O s p ro d u to res co m eçaram a ter u m a o u tra v isão e essa v isão d e q u e tem q u e ter fo ley

p asso u a ser um a realid ad e, co m ain d a ex ceçõ es. T em p ro d u to r que nem lig a p o rq u e ach a que é um a

p erd a d e tem p o , e d e rep en te ele v ai p erd er u m a v en d a p o r cau sa d isso . M as an tig am en te era só R io e S ão

P au lo , e aí a p artir d e 2 0 0 4 h o u v e essa d escen tralização u m p o u c o m ais lá p ro R io G ran d e d o S u l e d e v ez

em quando aparece alg u m p a r a q u e d i s t a ...A h , e d e p o i s , o b v i a m e n t e , l e m b r a n d o a í o L a r o c a , n ã o s e i e m

q u e m o m en to ele tá en tran d o n o m ercad o , eu n ão sei ex atam en t e q u em é ele em term o s d e d ata.

R o sa n a : V o cê co n seg u e p erceb er u m a ca ra p ro fo leys?

S a sso : A G u ta é a ú n ica m o ça d o m eio , é a ú n ica q u e está n o clu b e d o b o lin h a, p o rq u e a m aio ria é tu d o

hom em que faz. A G u ta tem u m a co isa, eu ad o ro o trab alh o , in clu siv e até m ix ei alg u m as co isa s q u e ela

fez, eu g o sto d a lev eza d o ru íd o d ela. E , aliás, p o r ser m u lh er, n o “T erra E stran g eira ”, p o r ex em p lo , e em

o u tro s film es, eu sem p re ach ei q u e d a m esm a fo rm a co m o eu ach o q u e a d u b lag em d e crian ça d ev e ser

feita p o r crian ça, p asso s d e m u lh er tem q u e ser feito s p o r m u lh er, p o rq u e o d esen h o d a m u lh er é d iferen te,

a m an eira d e p isar é d iferen te, a an ca é d iferen te. É d iferen te. E n tão p o r ex em p lo , n o “T erra E stran g eira ”,
tu d o q u e fo i fo ley d a F ern an d a, fo i a G ab i q u e fez, eu sem p re g o stei d isso . E u sem p re fu i u m cara q u e u sei

m u ito as m ão s p ra fazer p asso s, p ra fazer co isa b em su til, p rin cip alm en te q u an d o é carp ete alto , co m o

d ed al, só esfreg an d o o d ed o . E n tão a G u ta tem essa c o isa d e ser lev e, o q u e m e ag rad a m u ito , p o rq u e eu

n ão p reciso ficar p ro cu ran d o m u ito o s tim b res. E essa co isa tam b ém d ela m u d ar d e sap ato , d e tên is, n ão

sei o q u e, isso é p ercep tív el.

Em relação ao K ik o , ao F elip e, q u e é o fo ley a rtist p rin cip al, tam b ém ele tem essa co isa d e

co leçõ es d e sap ato s, e o fo ley d ele tam b ém é b acan a, m as v o cê já sen te q u e ele é u m p o u co m ais, n ão v o u

d izer p esad o p o rq u e a p alav ra n ão é essa, m as v o cê tem qu e m udar um p o u co as so n o rid ad es. E u d ig o

assim , por ex em p lo , n o da G u ta n o rm alm en te eu eq u alizo m u ito pouco, eu não p reciso tirar aq u eles

m éd io s q u e m e irritam , eu p refiro sem p re ter u m so m m ais ab afad o , sem m u i to b rilh o . O d o F elip e, q u e é

b o m , so a b em , so a tu d o , m as p ro m eu g o sto ele sem p re está m ais ag u lh ad o , sem p re está u m p o u q u in h o

m ais rico em alg u m a m éd ia o u alg u m a alta freq u ên cia q u e p ra m im n ão so a b em , n ão q u e seja ru im , p elo

am o r d e D eu s, n ão tem n ad a a v er isso , e aí eu p reciso às v ezes eq u alizar m ais.

E x iste u m a co isa im p o rtan te q u e eu ach o leg al q u e é a h o m o g en eid ad e tan to d a G u ta q u an to d o

K ik o em m an ter as tim b rag en s. É m u ito b o a. N ão é p o rq u e ela term in o u v o cê h o je co m o u m a p erso n ag em

d o film e, e v o cê só ap arece d aq u i m ais 3 ro lo s, e isso sig n ificam 6 d ias p ra n ó s, q u e p erd eu o tim b re. E u

ach o isso m u ito b acan a, a co n tin u id ad e so n o ra.

V ocê pega, por ex em p lo , o R icard o , C h u i, ele é d etalh ista, ele é um ca ra alu cin ad o com

tim b rag en s, e à s v ezes a g en te p erd e u m tem p o g ig a n tesco p ra p ro cu rar d eterm in ad a so n o rid ad e q u e está

n a cab eça d ele e ele q u er tran sp o rtar aq u ilo . E n tão ele já tem u m a o u tra m an eira d e trab alh ar, à s v ezes ele

é tão rig o ro so co m ele m esm o e n ão h á n ecessid ad e. E ssa é a im p ressão q u e m e d á, m as eu sin to , en tre o s

ed ito res d e so m , o s fo ley a rtists q u e tam b ém ed itam , eu v ejo d iferen ças b astan te au d ív eis, v isív eis, co m

relação a p eso e a m an eira d e m icro fo n ar o q u e v o cê está g rav an d o .

E u v iajei p ara o s E stad o s U n id o s, e o s estú d io s d e fo ley são estú d io s, é u m p u ta estú d io . S e v o cê

p eg ar esse m eu estú d io 1 , q u e te m 1 3 ,5 m por 8m e por 6m d e altu ra, esse é u m estú d io d e fo ley lá, e co m

um silên cio , u m tratam en to acú stico in v ejáv el. O u seja, v o cê p o d e ab rir o g an h o d e m icro fo n e, v o cê p o d e

co lo car o m icro fo n e a 1 m etro d e d istân cia, a 2 m etro s d e d istân cia, p ra ter aq u ela p ersp ectiv a n atu ral já

n a to m ad a d e so m , p o rq u e isso tam b ém faz p arte d o trab alh o d o fo ley e d o técn ico d o fo ley . V o cê p eg a

film e am erican o e tá lá: fo ley a rtist, fo ley re-reco rd er, fo ley reco rd ist, tem cara q u e só faz isso . V o cê p o d e

trab alh ar co m m icro fo n es ab erto s, em term o s d e receb er m ais áu d io , e n ão tem ru íd o d e fu n d o . O u o ru íd o

d e fu n d o q u e tem é in sig n ifican te p erto d o resto d o f ilm e, d e am b ien tação , q u e aliás, tam b ém faz p arte d o

p ró p rio ru íd o d o film e. H o je tem essa d o en ça d e n ão p o d e ter h iss, n ão p o d e ter ch iad o . E n tão h o je, à s

v ezes, e isso n o fo ley é ev id en te, o ex cesso d e p ro cessam en to d e so m p ara tirar u m ru íd o d e fu n d o q u e d e

rep en te n ão sig n ifica n ad a d en tro d o co n tex to d aq u ela cen a, d o is n eg o co n v ersan d o d eb aix o d e u m a p u ta

tem p estad e d e ág u a, d e ch u v a, tem u m ro n q u in h o n o fo ley… M eu! S ão 76dB co n tra -2 0 d B !

R o sa n a : V ocê d isse que n u n ca tra b a lh o u com o L aroca e o A u d io 1 9 2 7 , m as você já o u v iu e

co n seg u e fa la r a lg o so b re eles?
S a sso : E u o u ço , eu ach o leg al tam b ém , eu só n ão sei co m o é o so m in n atu ra, p o rq u e eu só v i ele m ix ad o ,

m e so a bem … E u não ten h o nem com o fazer q u alq u er co m en tário , se é falso , se é v erd ad eiro , m as

tam b ém en tra o e stilo d o tip o d e g rav ação , q u e à s v ezes eu ach o u m p o u q u in h o ex ag erad o , m as isso é

u m a co isa m u ito p esso al, é q u e n em o artista q u e g o sta d e co res b erran tes e o o u tro artista q u e é p astel.

T rad icio n alm en te eu so u u m técn ico q u e, n ão q u e eu n ão v alo rize ru íd o , am b ien te e fo ley, ao co n trário , eu

v alo rizo m u ito , m as eu fico m u ito d en tro d a realid ad e d o q u e a cen a m e p assa.

P ra co m p letar o racio cín io , isso v ai m u ito d o q u e a p ro d u ção p reten d e co m o film e. V o cê n ão

p o d e fazer u m p u ta d u m fo ley p ra u m seriad in h o d e telev isão , p o rq u e n ão tem sen tid o .

R o sa n a : É m u ito ca ro p ra n a d a .

S a sso : Isso . A g o ra você tam b ém não pode fazer um fo ley de m erda pra um p u ta film e. S ó q u e isso

aco n tece. H o u v e u m caso u m a v ez o n d e eu falei: p ra fazer o fo ley, a p ré-m ix ag em b o n itin h a, eu p reciso

d e 5 d ias. V ai se fu d er, Z é! V o cê tá lo u co ? M as p recisa p ro film e. S e v o c ê v ai fazer, eu n ão v o u p ag ar. E

aí o q u e v o cê faz, co m o m ix ad o r e co m o em p resário ? O film e p recisa, o p ro d u to r n ão q u er pagar, vou

trab alh ar d e g raça? N ão , eu so u u m em p resário , so u cap italista. A í eu u so as m in h as artim an h as, m ete lá

um co m p resso r 3 0 p o r 1 5 p ro s p asso s, m ete u m co m p resso r d e 2 0 p o r 1 0 n o s efeitin h o s, jo g a tu d o n u m a

m an d ad a só e p õ e 3 can ais n a m esa e v ai fazen d o so b e e d esce , e tá feita a p ré d e fo ley… M as acabou

com o trab alh o d o s caras! O que eu vou fazer?

N a n o ssa realid ad e eco n ô m ica h o je tão co b ran d o q u an to ? V in te e cin co m il reais p ra fazer o

fo ley d e u m film e? V in te m il reais p ra u m p u ta film e? S e v o cê falar isso p ra u m am erican o , ele d á risad a

n a su a cara. V in te m il reais, n ó s tam o falan d o d e 8 m il d ó lares, q u e é o q u e o car a co b ra p o r 1 d ia d e

trab alh o . Eu co n v ersei com um cara, agora não lem b ro o nom e, ele com o fo ley a rtist, o cara que

p raticam en te faz tu d o , ele cob rava 60 m il d ó lares, 7 0 m il d ó lares. T rab alh ar p o r 1 d écim o d isso ? E u

p en so d o m esm o jeito , isso n ão só n o fo ley, n o co n tex to . E ssa m ix ag em , p ra ficar u m a b o a m ix ag em , v o cê

tem q u e in v estir p elo m en o s - e é in v estir, n ão é g astar, p o r q u e essa p alav ra g asta r assu sta - m eu am ig o ,

sen h o r p ro d u to r, v o cê tem q u e in v estir, p ra q u e esse trab alh o fiq u e b o m , 2 0 0 h o ras, o u seja, 5 sem an as d e

4 0 h o ras, v ai ficar 1 1 0 m il reais. M as eu só ten h o d in h eiro p ara p ag ar 1 2 0 h o ras. T u d o b em , v am o s fazer!

V ai ficar b o m ? N ão . C o m o é q u e eu v o u fazer em 120 horas um trab alh o q u e p recisa d e 1 6 0 p elo m en o s?

D u zen tas p ra ter co n fo rto ? E u seria in co eren te. V o cê v ai ter u m a m ix ag em d e 1 2 0 h o ras. O q u e sig n ifica

isso ? M ete u m m o n te d e co m p resso r, p lu g in p ra isso p lu g in p raq u ilo , p assa a rég u a, p assa u m a lix a,

m a s s a c o r r i d a e p i n t a . V o c ê a c h a q u e e u v o u f i c a r c o b r i n d o b u r a q u i n h o ? N ã o ...

N ó s, v o cê q u e faz p arte d isso , q u e estam o s trab alh an d o co m so m , n ó s so m o s o fin al d a lin h a,

o n d e v ai esp rem er p o r ú ltim o so m o s n ó s. N ão tem m ais d in h eiro , m as n ão é só aq u i, é n o resto d o m u n d o ,

só que no resto do m undo ex iste um a co isa cham ada co erên cia. V ocê não quer g astar 120 paus na

m ix ag em , en tão v am o s fazer o seg u in te, eu ap ertan d o co n sig o fazer p o r 1 1 0 , já tirei 1 0 p au … 12! T e dou

10% de d esco n to , agora não dá pra fazer por 60… M as é um a realid ad e que a g en te v iv e aq u i,

co n v ersan d o so b re o rçam en to . E o fo ley faz p arte d isso . V in te e cin co m il p o r fo ley ? N ão , faz u m por 15.

E aí v o cê faz fo ley d e b aciad a, v o cê v ai tr ab alh ar p elo v alo r q u e te p ag am . V o cê é artista , m as v o cê n ão
v ai ch eg ar lá n o su p erm ercad o e d izer: o lh a, eu g astei tu d o isso e eu fiz o fo ley d o film e tal. A m u lh er v ai

o lh ar p ra su a cara e d izer: o q u e é fo ley? E q u e film e é esse q u e eu n ão faço n em id eia? E v o cê v ai d eix ar

su as co m p rar lá n o caix a p o rq u e v o cê n ão tem d in h eiro p ra p ag ar.

É m ais o u m en o s p o i aí q u e eu p en so , n ão é u m a q u estão d e d izer q u e o fo ley n o B rasil é ru im , é

bom , o fo ley artisticam en te ev o lu iu m u ito , m esm o sen d o um a co isa que as p esso as aprend eram de

v iv ên cia, sem ter cu rso . C o m o eu já d isse an tes, o g ran d e p ro b lem a q u e n ó s tem o s é q u e a g en te n ão

fo rm a técn ico s, v o cê ach a q u e o cara q u e d esen h o u o b o ein g p ilo ta o b o ein g ? P o rra n en h u m a, v o cê tem

q u e ter u m p ilo to , q u e é aq u ele cara q u e co n h ece aq u ilo e tem h o r as, h o ras d e v o o .

R o sa n a : D a m in h a ép o ca , eu com ecei fazen d o fo ley, e fa zia tu d o , fa zia m u ito m esm o , p o r n ã o ter

n o çã o d a m ix a g em .

S a sso : M as é isso q u e falta, im ag in a o cara q u e tem um b u ffet e ele v ai aten d er a clien tela d ele, ag o ra ele

não tem a m enor noção do que é porção por p esso a. E n tão chega um a p esso a lá com um a festa de

casam en to co m 2 5 0 co n v id ad o s e v em o u tro co m 2 5 . S e ele n ão te m um a noção do que é 250 e o que é

2 5 , é cap az d ele m an d ar, ele v ai fazer u m a q u an tid ad e d e co m id a ab su rd a p ra d e 2 5 , co n tra o s 2 5 0 , v ai

faltar co m id a p ro s o u tro s, p o rq u e ele n ão tem a v iv ên cia. O fo ley a rtist, fazen d o essa co m p aração , co m o

v o cê n ão sab e o q u e v ai aco n tecer lá n a fren te p o rq u e n in g u ém falo u , ain d a q u e v o cê é d aq u elas q u e fala:

q u ero v er co m o é q u e fu n cio n a, e v ai lá e v ê. E isso faz p arte d o ap ren d izad o . M as tem v árias p esso as d e

o u tras áreas q u e n ão sab em o q u e aco n tece d en tro d e u m estú d i o d e m ix ag em . C o m o u m cara p erg u n to u

p ra m im , u m m ú sico : aq u i q u e é o L eft e o R ig h t? E u falei: é o su rro u n d left e o su rro u n d rig h t. E cad ê as

caix as? E u falei: O lh a… A trás d a tela. N ão m e d ig a! A caix a é atrás d a tela? É , tem u m b u raco . M as a tela

n ão ab afa? V ai o lh ar lá, ela é fu rad in h a. N ão é m en tira isso , tô falan d o v erd ad e, o cara n ão tin h a m en o r

n o ção q u e é left, cen ter e rig h t atrás d a tela. M as p o r q u e tem cen tro ? N ão é só L e R ? M eu filh o , é o

seg u in te, q u em tá sen tad o n a esq u erd a tem q u e sab er q u e o so m sai d o cen tro , q u e se o so m sai d aq u i, p ra

ele o cen tro é a esq u erd a. P ra esse o u tro q u e tá n a d ireita, o cen tro é n a d ireita. A g o ra se v o cê p u ser u m

so m no cen tro , esse cara que está na d ireita ouve no cen tro e esse d a esq u erd a o u v e tam b ém . N u n ca

p en sei n isso … T á v en d o q u e m arav ilh a q u e é a tecn o lo g ia, n ão ? E esse co n ceito v em lá d a d écad a d e 3 0 ,

o c o n c e i t o d o 5 .1 d o d i g i t a l , v e m lá d e 1 9 3 0 , n ão é d e ag o ra, tu d o isso q u e n ó s estam o s fazen d o h o je já fo i

feito , é q u e ag o ra v o cê tem o u tra tecn o lo g ia. F an taso u n d era L , C e R e já tin h a o V o ice o f G o d , q u e

agora é o que tem no m o m en to . Já tin h a um alto falan te no teto em 1 9 3 7 , 3 8 , an tes da guerra. O s

co n ceito s d e acú stica, d e resp o sta, d e L eft, C en ter e R ig h t fo ram escrito s lá em 1 9 0 0 e co n tin u am porque

o o u v id o n ão m u d o u . N ó s co n tin u am o s em u n id ad es d e carb o n o co m d u as o relh as, v o cê já im ag in o u o

m u n d o se o ser h u m an o tiv esse u m a o relh a n a testa? N ão tin h a stereo , v o cê só tem stereo p o rq u e v o cê

tem d u as o relh as.

A s p esso as h o je v iajam num p lan o q u e fo g e d a realid ad e q u e n ó s v iv em o s. D en tro d a terceira

d im en são , q u e é essa em q u e a g en te está, v o cê tem alg u m as características físicas q u e são ab so lu tam en te

co n stan tes n o sen tid o d e q u e elas ex istem , o u seja, o so m só se p ro p ag a o n d e tem ar, u m a atm o sfera, o

so m n ão se p ro p ag a n o v ácu o . A g en te tem u m a v isão q u e é 3 d , q u e n a realid ad e já tão d izen d o q u e tu d o

isso é o cérebro que in v en ta, é um a co isa m eio m atrix . N ão vou nem d iscu tir. P o n to . E v o cê tem a
estereo fo n ia ex atam en te p ra lo calizar d en tro d esse m u n d o 3 d , o so m q u e já é 3 d p o r n atu reza. S e v o cê

ouve um cach o rro latir d o seu lad o d ireito , o u esq u erd o , v o cê v ira. O ch iad o , o ru íd o , d esd e q u e d en tro d e

um p arâm etro , n u m a relação sin al ru íd o b o a, isso v ale pro fo ley, v o cê não p recisa estar n u m estú d io

an ecó ico , ab so lu tam en te silen cio so , sem nenhum a reverberação p orque d ep o is você co n stró i tu d o . N ão

p recisa, se v o cê tiv er u m estú d io co m um co eficien te d e ru íd o d e u m IN C 30, um IN C 25, 20, que é um

p u ta estú d io , já b em silen cio so , aq u ele ar d o estú d io , aq u ele ch iad o d o estú d io , d o p ré d e m icro fo n e, faz

p arte d o co n ceito so n o ro . V o cê n ão p recisa ficar lim p an d o , p in çan d o co isa p ra d ep o is p o r tu d o d e n o v o ,

d escu lp a, tem alg u m a co isa errad a… C ertam en te so u eu q u em está errad o .

A p ên d ice B eto F erra z

S a sso : O B eto F erraz d esen v o lv eu u m a tecn o lo g ia atrav és d e sam p ler, ele u sav a u m v elh o A tari, u sav a o s

D M X n ão sei d as q u an tas, d a R o lan d , e ele fo i u m d o s p recu rso res d e tecn o lo g ia d ig ital, ele u sav a m u ito

eq u ip am en to da R o lan d . E o B eto F erraz foi um d aq u eles caras q u e u so u a tecn o lo g ia ex atam en te n a

relação cu sto b en eficio , o u seja, ele fazia o ch am ad o fo ley eletrô n ico , aq u ilo q u e era a p arte, co m o v o u

c h a m a r ... R ep etitiv a do p ro cesso , o u seja, p asso s, p asso s e p asso s, ele m o n to u aq u ele sistem in h a d ele

onde ele sam p leav a e ia d isp aran d o v ia M ID I aq u eles ru íd o s esp ecífico s, n ão só d e p asso s, m as o u tras

co isas. O u seja, ele crio u u m a fo rm a d e fazer fo ley, q u e fu n cio n av a, eu n ão v o u d izer q u e n ão fu n cio n av a,

d en tro d o co n tex to d o film e fu n cio n av a e d o s cu sto s fu n cio n av a. E o fo ley eletrô n ico fo i u m n eg ó cio q u e

d eu certo , e ele fazia a co m p lem en tação “real” o u física em fu n ção d a n ecessid ad e d aq u ele tak e, d aq u ela

cen a, o n d e h av ia essa n ecessid ad e, sei lá, d e ser “m ais realista”, “m en o s realista”. E le d esen v o lv eu isso e

fu n cio n o u m u ito b em . E le ia lá co m aq u ela traq u itan a, in clu siv e eu m e lem b ro , só p ra citar, q u an d o n ó s

rem ix am o s o “L av o u ra A rcaica”, tav a co m ig o o A rm an d in h o , o R o d rig o N o ro n h a tin h a m ix ad o n o R io d e

Jan eiro , e ele tro u x e aqui as traq u itan as d ele, o n d e o fo ley tev e b asta n te co isa d isp arad a por M ID I.

In clu siv e ag o ra recen tem en te ele tav a rem o n tan d o esse sistem a, v eja b em , ele é u m fo ley a rtist, p o rq u e é

u m a o u tra v isão d e o u tra fo rm a, ele tem to d a u m a técn ica. E le fo i u m c ara q u e co n seg u iu en co n trar essa

fó rm u la e ad eq u á-la a realid ad e d e cu sto /b en efício ,

E u co m o fo ley a rtist, eu n u n ca f u i d a tu rm a d o s m u ito realistas. V o u co n tar u m a q u e eu fiz: tin h a

u m a seq u ên cia u m a v ez, n ão m e lem b ro em q u e film e fo i, q u e era d u b lad o , e era u m guarda chuva e era

d eb aix o de um a ch u v arad a, p recisav a ter o ru íd o d e ch u v a n o g u ard a ch u v a. E aí, v ai co m p rar g u ard a

ch u v a? E eu tin h a essas co isas assim , d av a u n s in sig h ts, eu falei: atrav essa a ru a aí, o M ilitão tin h a u m a

d essas m ercearias b em sécu lo X IX , o S eu M ilitão , ele tin h a d e tu d o lá. C o m p ram o s u m b alão d e ar n u m a

lo jin h a d e festas q u e tin h a n a R u a W isard , e lá co m p ram o s o arro z, eu fu i lá e falei: o m ais v ag ab u n d o q u e

t i v e r , d e s s e s t u d o q u e b r a d o , a g r a n e l ... E u g r a v e i a t é r u í d o s l á ! N a v e n d a d e l e ! T i n h a a q u e l e s n e g ó c i o s d e

pegar feijão , eu ia lá gravar pra m o n tar d ep o is. R esu ltad o : eu com prei um a b e x ig a de ar de festa,

g ran d o n a, e aí p ra fazer o b aru lh o d a ch u v a n o g u ard a ch u v a, arro z, eu co m p rei u m a p en eira g ro ssa, d e

fu ro q u e o arro z p assav a, m as q u e d issip av a b em , p ra n ão ficar tu d o m u ito ju n to , e fico u o ru íd o d e ch u v a

no guarda chuva. E n in g u ém d iz q u e aq u ilo n ão é ru íd o d e ch u v a n o g u ard a ch u v a. E se v o cê jo g asse o

arro z n o g u ard a ch u v a n ão d av a aq u ele so m , p o rq u e o q u e d av a aq u ele p eso d o s p in g o s era ju stam en te o

ar d en tro d o b alão , era a resso n ân cia.