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E n trev ista co m A lessa n d ro L a ro ca co n ced id a à R o sa n a S tefa n o n i em 2 0 /0 7 /2 0 1 4

R o sa n a : Q u a l o seu ca m in h o a té o so m ?

A lessa n d ro : E u era m ú sico , eu so u d e u m a cid ad e p erto d e C u ritib a q u e ch am a C astro , fu i estu d ar em

C u ritib a, fazia arq u itetu ra e trab alh av a com m ú sica. R eso lv i larg ar o cu rso de arq u itetu ra pra ficar

trab alh an d o co m m ú sica. C o m o eu tin h a esse en v o lv im en to co m artes, eu já g o stav a d e cin em a. C in em a

era um d esejo , m as n a ép o ca n ão ex istia n ad a, n a ép o ca só ex istiam três facu ld ad es n o B rasil, q u e era a

E C A , a U F F e a F A A P , e eu nem sab ia d isso . C in em a era u m a co isa co m p letam en te d istan te, eu p eg u ei

bem aq u ele m o m en to o n d e, eu en trei n a facu ld ad e d e arq u itetu ra n o m o m en to em q u e o cin em a acab o u

n o B rasil, co m o C o llo r. O c i n e m a a c a b o u , n ã o ... N a q u e l e m o m e n t o a l i . E u v i m m orar em S ão P au lo p ra

trab alh ar co m m ú sica, tin h a u m a g alera lá d e C u ritib a q u e já to cav a e m e co n v id aram , e eu v im pra cá pra

trab alh ar co m m ú sica. N o p rim eiro an o em q u e eu estav a aq u i, trab alh an d o co m o m ú sico , u m a b an d a n a

q u a l e u t o c a v a f o i d a r u m a e n t r e v i s t a p r a ... E u n ã o v o u m e l e m b r a r , c h a m a v a T V A nhem bi acho, eu não

lem b ro o q u e era, e a L aís B o d an sk i era a d ireto ra d esse p ro g ram a d essa tv . E eu n ão fu i p articip ar, eu n ão

p u d e ir n essa en trev ista, m as u m cara fico u co n v ersan d o co m ela e d isse q u e ela fazia cin em a, e eu fiq u ei

sab en d o d o cu rso d e cin em a d a F A A P . N ão p en sav a em fazer v estib u lar, m as reso lv i fazer o v estib u lar e

en trei. A í eu co m ecei a estu d ar cin em a, só q u e co m o eu era m ú sico , e eu g o stav a m u ito em m ú sica d a

p ar te técn ica, e u g o stad e d e fazer as g rav açõ es. N a ép o ca estav a co m eçan d o a h istó ria d e h o m estu d io , e

eu g o stav a d isso , estu d av a so b re isso , já fazia as m in h as p ró p rias g rav açõ es, an tes m esm o d o h o m estu d io

eu já g rav av a n aq u eles p o rta estú d io s, em f i t a c a s s e t e , e r a u m a c o i s a r i d í c u l a ... T o d a e s s a c o i s a d e t e r e s s a

in clin ação artística/técn ica , tu d o sim u ltan eam en te, isso m e fez sem p re d esen v o lv er u m a co isa d e g o star d e

so m , além d e m ú sica, e co m ecei a co m p o r trilh a p ra teatro . Q u an d o eu en trei n a facu ld ad e d e cin em a, tem

aq u eles ex ercício s d e esco la e eu co m ecei a fazer trilh a p ra esses ex ercício s, m ú sica, e a m ed id a q u e eu

fu i fazen d o m ú sica, eu já fu i m eio q u e fazen d o o so m , ia m eio q u e m ix an d o e fu i ju n tan d o tu d o isso . E

to d o m u n d o en tra n a facu ld ad e d e cin em a ach an d o q u e v ai ser d ireto r, e en tra p ra d irig ir, só q u e lá d en tro

com eçam a ap arecer essas co isas, o u p o r afin id ad e o u p o r n ecessid ad e, en tão eu m eio q u e fu i ju n tan d o

to d as essas co isas, e co m o n in g u ém trab alh av a co m isso , eu fu i fazen d o , estu d an d o e cad a v ez cu rtin d o

m ais. S ó q u e ain d a q u an d o eu m e fo rm ei, eu n ão im ag in av a q u e eu ia trab alh ar só co m so m p ra cin em a,

n ão p assav a isso p ela m in h a cab eça, m esm o p o rq u e eu n ão tin h a larg ad o co m p letam en te a m ú sica e ain d a

im ag in av a q u e tam b ém p o d eria d irig ir. S ó q u e eu m o rei aq u i em S ão P au lo p o r sete an o s, e q u an d o eu

v im p ra cá eu to cav a, m as eu q u eria alg o d o tip o trab alh ar em estú d io , e cin em a já m e in teressav a, m as eu

nunca co n seg u i, eu fiq u ei sete anos aqui e não co n seg u i arrum ar um estág io . Ia pros lu g a res, fazia

en trev ista, fu i p ed ir em p reg o p ra M iriam , e a M iriam n ão m e d eu . P ed i em p reg o p ro A rm an d o , e ele n ão

m e deu.

R o sa n a : E m q u e a n o v o cê se fo rm o u ?

A lessa n d ro : E m 1 9 9 7 . E u n ão arru m av a em p reg o aq u i, e reso lv i v o ltar p ra C u ritib a, e u m estú d io d e lá,

que era um estú d io d e g rav ação d e m ú sica, era d e u m cara q u e eu co n h ecia q u e d isse q u e se eu v o ltasse

ele m e co n tratav a. V o ltei e co m ecei a g rav ar d isco , e u m a n o ite eu tav a g rav an d o lá u m d isco e lig aram

n o estú d io , era u m cin easta d e C u ritib a q u e d esco b riu q u e eu tav a m o ran d o lá, q u e eu tin h a feito cin em a,

e com o eu lid av a com so m , ele m e co n v id o u pra fazer o so m d ireto de um cu rta. E u não tin h a o

eq u ip am en to en tão n ão d ei m u ita aten ção , n u n ca lig u ei d e v o lta, sei q u e aq u ele cu rta acab o u sain d o co m

um técn ico d o R io d e Jan eiro . Q u an d o eles fo ram fazer um o u tro cu rta, ele in sistiu , m e p ro cu ro u d e n o v o ,

e eu reso lv i e fiz esse cu rta, e já em en d ei d o is cu rtas em q u e eu fiz o so m d ireto . N e sse estú d io d e m ú sica

onde eu trab alh av a, q u e era u m estú d io b acan a, o cara d isse: v am o s fin alizar! A í a g en te já m ix a, m o n ta

um s i s t e m a 5 .1 , a g e n t e e s t a v a n a q u e l a t r a n s i ç ã o d o 5 .1 , a í a g e n t e a c a b o u m o n t a n d o u m sistem a e a g en te

m ix o u esses cu rtas, e m eio q u e fo i em en d an d o alg u n s film es lá. E aí fo i q u an d o eu v o ltei, ach o q u e já era

1 9 9 9 , p o r aí, p o rq u e eu já estav a m ais d ecid id o q u e eu q u eria trab alh ar co m so m p ra cin em a. E u v o ltei p ra

ten tar alg u m a co isa, e tam b ém n ão co n seg u i. F iq u ei p o r lá, só q u e co m ecei a fazer v ário s cu rtas o n d e eu

fazia o so m d ireto , fazia a ed ição d e so m e f a z i a a m i x a g e m . C o m p l e t a m e n t e ... E u a p r e n d i f a z e n d o .
R o sa n a : A F A A P n ã o te d eu g ra n d es b a ses? F o ley n em p en sa r?

A l e s s a n d r o : I m a g i n a ... O q u e é f o l e y ? N i n g u é m sab ia o q u e era fo ley. É q u e ag o ra já se fala d isso . E x istia

u m a co isa n essa ép o ca em q u e eu fazia esses cu rtas, e o lh a q u e eu tô falan d o já d e 2 0 0 0 p o r aí, as p esso as

atrib u íam esse term o “ fo ley” a q u alq u er tip o d e so m ad icio n al. V o cê tratav a efeito s, so u n d effects, h a rd

effects, q u alq u er co isa com o fo ley. O s fo leys do film e era to d o o so m ad icio n al acrescen tad o na pós

p ro d u ção . E u fu i fazen d o m u ito s d esses film es e m an tin h a co n tato co m u m a p esso a d a ép o ca d a F A A P

q u e era a A lessan d ra C aso lari, ela era m u ito m in h a am ig a e ela tin h a id o estu d ar p ó s-p ro d u ção em N ova

Iorque, e com o eu era um cara m u ito in teressad o n essa co isa to d a, en tão a g en te estu d av a e tro cav a, a

g en te co n v ersav a m u ito so b re esses p ro cesso s q u e a g en te tin h a n a ép o ca: p u ll d o w n , telecin ag em , co m o

faz, co m o cap ta, co m o lid a co m tim eco d e, q u e era u m a co isa q u e era u m m istério p ra m u ita g en te, a g en te

nunca se prepara pras t r a n s f o r m a ç õ e s ... E aí n esse co n tato , ela sab en d o q u e eu v in h a fin alizan d o esses

film es, fo i q u an d o ap areceu o “C id ad e d e D eu s” , ela trab alh av a n a O 2 . Já se sab ia q u e o F ern an d o q u eria

fazer fo ra, m as ele q u eria q u e a ed ição d e d iálo g o fo sse feita n o B rasil , p o r cau sa d a lín g u a, d as g írias e

co isas d esse tip o . E la p erg u n to u se eu n ão q u eria fazer, co n v ersei co m o F ern an d o e ele fo i co m a m in h a

cara, e eu acab ei fazen d o . A í tu d o m eio q u e m u d o u . E u n ão tin h a estú d io , n ão tin h a n ad a, eu trab alh av a

n esse estú d io d e m ú sica, d ep o is d o “C id ad e d e D eu s”, p o r co in cid en cia, esse estú d io d e m ú sica se m u d o u

d e C u ritib a p ra S ão P au lo e eu arren d ei aq u e le esp aço e co m ecei a trab alh ar. A í sim já sab ia q u e eu ia

trab alh ar co m so m p ra cin em a. C o m ecei a fazer alg u m as co isas p eq u en as p ra O 2 , m eio q u e so zin h o , aí

co n h eci o E d u ard o , q u e h o je é m eu só cio . O E d u ard o estav a v o ltan d o d e L o s A n g eles, o n d e ele m o ro u

p o r q u atro an o s trab alh an d o em um estú d io p eq u en o d e so m p ra cin em a, aí a g en te se co n h eceu p o rq u e o

E d u ard o estav a co m um film e p ra fazer e a g en te co m eço u a trab alh ar ju n to s n esse film e, e fo i en tão q u e

ap areceu p ela p rim eira v ez a co isa esp ecífica d e fo ley. P o rq u e n o “C id ad e d e D eu s” eu trab alh ei só co m

d iálo g o e d u b lag em , e n esse film e q u e a g en te fo i fazer, q u e era o film e d o P au lo M o relli, ch am av a “O

preço da paz”, e é um film e d e 2 0 0 2 , e tin h a q u e ser feito m eio ráp id o , eu p e g u ei o d iálo g o p ra ed itar e a

g en te n ão tin h a estru tu ra p ra fazer tu d o , eu p eg u ei o d iálo g o e a m ú sica p ra ed itar e a g en te p eg o u o fo ley,

e o B eto F erraz fez am b ien te e efeito . E aí v am o s fazer fo ley. C o m o é q u e a g en te faz isso ? T u d o a g en te

fo i d esco b rin d o n a o relh ad a, n ão tev e m u ito jeito , fo i m u ito en g raçad o , a p rim eira co isa q u e a g en te fez, e

n a é p o c a o G o o g l e n ã o d a v a n a d a ... Q u a n d o e u e s t a v a e m L o s A n g eles e fu i aco m p an h ar a m ix ag em do

“C id ad e de D eu s”, lá eu com prei o liv ro d o T o m lin so n H o lm an e a li as fich as co m eçaram a cair, eu

co m ecei a co n ectar u m a co isa n a o u tra, o q u e o s caras faziam lá em L o s A n g eles, m as era tu d o m u ito

n eb u lo so , era m u ito o b scu ro , e eu en ten d i m ais o u m en o s o q u e era fo ley. A g en te tem q u e fazer fo o tstep s,

p ro p s, ro u p as, co m o é q u e se faz isso ? O E d u ard o tin h a u m a lib ra ry q u e ele tro u x e d e lá e q u e tin h a u m

m o n te d e p asso s, e ele ed ito u u m a cen a. E ram p asso s já g rav ad o s, n ão sei se eram ex traíd o s d e film e, o u

se eram gravados em am b ien te, o u seja, eles já tin h am u m a p resen ça d e fu n d o b em grande. E ra um a cena

em v o lta d a fo g u eira e tin h am u n s d o ze cas se ap ro x im an d o d essa fo g u eira, e eu m e lem b ro q u e q u an d o

ele m e m o stro u aq u ela cen a co m to d o s o s fo o tstep s eu falei: “v o cê já fez a fo g u eira!” . E n ão , só tin h am os

p asso s, é q u e co m o iam so m an d o aq u eles am b ien tes to d o s, ficav a u m ro ar. A g en te n ão sab ia, a g en te fo i

a c h a n d o ... A g en te g rav av a alg u m as co isas e fo i fazen d o b an co s, e ed itan d o esses b an co s. E u m e lem b ro

da g en te assistir a cena, o E duardo gravava na sala d ele alg u m as co isas, e ele tin h a que d eslig ar o

eq u ip am en to pra g rav ar, en tão ele assistia a cen a, d eco rav a a cen a, d av a u m sh u t d o w n e gravava. E ra

estú p id o , tem g en te que tem sau d ad e do p a s s a d o ... A g en te só foi gravar em sin c m esm o , o lh an d o a

im ag em e ex ecu tan d o a p artir de 2 0 0 4 , se não m e en g an o fo i o “O lg a” q u e a g en te co m eço u a fazer

v erd ad eiram en te em sin c. A g en te gravava m u ito , fazia b an co s e b an co s d e co isas e saía ed itan d o . S e

v o cê o lh ar n o sso s p rim eiro s film es, até o “O lg a” , v o cê v ai v er q u e te m cin co o u se is ed ito res d e fo ley,

p o rq u e se faziam b an co s e tin h a q u e b o tar u m a g alera p ra ficar ed itan d o , era m u ito rid ícu lo .

R o sa n a : E ra m só v o cês d o is?

A lessa n d ro : N ão, a g en te com eçou a trab alh ar ju n to s e lo g o d ep o is d esse film e a g en te co m eçou a

ch am ar u m as p esso as. C o m o eu tin h a g rav ad o d isco s, eu co n h ecia m u ito p esso al d e b an d a, e fo i u m cara

d e u m a b an d a q u e eu p ro d u zi, q u e fo i o A n d erso n T ieta, ele fo i o p rim eiro cara q u e fo i lá n o estú d io

q u eren d o arru m ar co isa p ra fazer e a g en te estav a q u eren d o co lo car m ai s g en te, e ele ch am o u m ais u n s
caras, u n s am ig o s d ele n a ép o ca, alg u n s ch eg aram a trab alh ar lá, e a g en te fez u m cu rsin h o p ra eles, p ra

eles co m eçarem a trab alh ar, e ao s p o u co s a g en te co m eço u a co lo car p esso as q u e fo ram trab alh an d o co m

a g en te. D esen v o lv e n d o o m éto d o a v id a in teira, tev e film es q u e tin h am b astan te g en te, m esm o n aq u ela

ép o ca, tin h a g en te q u e ed itav a u m ro lo e ia em b o ra, era u m a zo n a.

R o sa n a : Q u a n d o n a sce a sa la d e fo ley?

A lessa n d ro : N aq u ele estú d io q u e fo i arren d ad o , ele tin h a u m a sala g ra n d e d e g rav ação , era u m estú d io d e

m ú sica. E ra u m a técn ica g ran d e, u m a sala g ran d e d e g rav ação , tin h a u m a seg u n d a sala q u e p o d ia ficar

ab erta e ser um a co n tin u ação d aq u ela, m as eram salas m u ito v iv as. D ava pra gravar um a pequena

o rq u estra, e eu m e lem b ro que o dono do estú d io g o stav a d e ter u m a sala b em v iv a. E pra fo ley era

terrív el. E tin h a u m a sala p eq u en a, q u e era o n d e o E d u ard o ficav a co m o eq u ip am en to d ele, ele g rav av a

n a m esm a sala d e ed ição . A m ed id a em q u e a g en te fo i co lo can d o p esso as lá d en tro , a g en te fo i o cu p an d o

to d as essas salas, cada um com um fone de o u v id o , porque não estav a fo rm atad o , o d esen h o com

p eq u en as salas d e ed ição a g en te só co m eço u a ad o tar lo g o d ep o is d o “O lg a”, q u an d o a g en te m u d o u d e

casa, e aí sim eram v árias salas d e ed ição . N o estú d io an terio r ex istiam essas salas d e g rav ação , m as co m o

era tu d o b an co , d ia de sessão d e g rav ação era só d e g rav ação , a g en te ficav a o fim d e sem an a in teiro

g rav an d o , g rav av a v ário s tip o s d e sap ato em v ário s tip o s d e p iso q u e a g en te fo i co n stru in d o . Q u an d o a

g en te m u d o u p ra essa casa e co m eço u a g rav ar em sin c, aí su rg iu a sala d e fo ley, ali a g en te crio u , fez o s

p its p ro s tip o s d e p iso , era u m a sala u m p o u co g ran d e, h o je ela d im in u iu , a g en te d iv id iu e crio u sala d e

ed ição , a g en te d eu u m a en x g u d a p o rq u e tin h a tran q u erad a d em ais q u e v o cê v ai jo g an d o lá d en tro e n u n ca

u sa, e en tão eu p o sso d izer q u e a sala d e fo ley su rg iu m esm o em 2004.

R o sa n a : E co m q u a l id eia ? In sp ira d a em a lg u m a o u tra sa la ?

A lessa n d ro : H o je se eu escrev o fo ley sta g e no g o o g le vem m u ita co isa, n a ép o ca v in h a p o u ca co isa,

en tão a g en te v ia as m ais clássicas, d e S kyw a lker d a v id a, eram p o u cas salas q u e a g en te v ia. A m in h a

form ação em cin em a, co m o q u alq u er estu d an te d e cin em a, era d aq u ele cin em a ab so lu tam en te au to ral, n a

época em q u e eu estav a n a facu ld ad e d e cin em a, m eu d ireto r p referid o era o T ark o v sk i, eu g o stav a d e

n eo realism o , n o u velle va g u e, cin em a n o ir, d e to d as essas co isas, q u an d o eu co m ecei a m e in teressar m ais

por so m , fo i a p rim eira v ez q u e eu v irei e o lh ei p ro lad o d e H o lly w o o d . D ig am o s q u e p o r lid ar co m

m ú sica, eu g o stav a m u ito do esq u em a de gravação e produção da m ú sica am erican a, cin em a eu não

g o stav a, m as q u an d o eu co m ecei a estu d ar so m e aq u ele era o m eu fo co , as m in h as p rim eiras au d içõ es

5 .1 , porque quando eu ia pro cin em a eu nem sab ia o que eu estav a o u v in d o , m esm o na época de

facu ld ad e, m as q u an d o o V íto r, d o n o d o estú d io , co m p ro u aq u ele p rim eiro D V D co m seis saíd as, a g en te

m o n t o u o p r i m e i r o s i s t e m a 5 .1 , o n d e e u p o d i a f i c a r s o l a n d o e m u t a n d o c a d a c a n a l , é ó b v i o q u e o s f i l m e s

q u e eu v ia eram o s am erican o s. A p artir d esse m o m en to , aq u ele era o m eu referen cial d e so m , era aq u ilo

q u e eu q u eria b u scar e m e in teressav a. Q u an d o a g en te co m eço u a fazer fo ley p ra esse p rim eiro film e q u e

eu falei, d o M o relli, a g en te sab ia q u e tin h a p asso s, o b jeto s, m esm o o s p ro p s a g en te fazia p o u ca co isa,

era d ifícil v o cê p erceb er, ex iste u m d esen v o lv im en to n atu ral, u m am ad u recim en to d as co isas, tem co isas

q u e v o cê n ão o u v e, aq u ilo está sen d o m o strad o p ra v o cê o tem p o in teiro , m as v o cê n ão o u v e, aí u m d ia d e

rep en te parece que um a chave v ira. E n tão isso é n atu ral, é n o rm al, o en ten d im en to das co isas e a

percepção das co isas fu n cio n a assim , às vezes você está no cin em a, assiste um f ilm e e de rep en te

q u in h en tas fich as e d ez m il p o n to s se co n ectam lá atrás. E u lem b ro q u e eu v i q u e tin h a q u e fazer ro u p a,

m as com o faz roupa? O p rim eiro film e q u e v eio n a m in h a cab eça n a ép o ca fo i “O S ex to S en tid o ”, q u e é

um film e que alg u ém errou alg u m a c o isa p ra estar 1 0 d B m ais alto q u e q u alq u er co isa! É m u ito alto ,

ex ag erad am en te alto e b rilh an te. S ó q u e q u e b o m ! P o rq u e aq u ilo m e fez p erceb er q u e ex iste ro u p a em

film e, se fo sse u m a co isa su til e d iscreta eu n ão tin h a essa p ercep ção . A g en te o lh av a m u ito p ra essas

film es, se eu tiv e alg u m a in sp iração p ra fazer a sala d e fo ley, p ro v av elm en te fo i n as fo to s q u e eu v i, n as

co isas q u e eu ten tav a b u scar já n a in tern et, n ão m e lem b ro se n a ép o ca já h av ia alg u n s m a kin g o fs o u

co isas assim , acho que nem tin h a. A í o o lh ar se v o lto u co m p letam en te pra H o lly w o o d . A esco la, a

fo rm ação n o ssa d e so m ela d eriv a d iretam en te d o m o d elo d e o rg an ização , m eto d o lo g ia, sistem atização d e

H o lly w o o d , não n ecessariam en te a so n o rid ad e, H o lly w o o d vem m udando m u ito , a so n o rid ad e m uda

sem p re, e ag o ra a g en te está aten to a isso , m as h o u v e u m a ép o ca q u e p o r m u ito tem p o eu fiq u ei lig ad o a
um p erío d o , q u e fo i esse p erío d o o n d e eu m e fo rm ei, q u e era o s film es q u e se faziam ali n o co m eço d o s

anos 2000. O film e q u e era m eu m aio r referen cial d e fo ley era “S in ais”, q u e tin h a u m trab alh o m u ito

b acan a d e fo ley, eu m e lem b rav a m u ito d o “O Q u arto d o P ân ico ”, d o R en C ly ce. O p ap el d o fo ley v aria d e

film e p ra film e, en tão tem film es q u e a g en te co stu m a falar q u e é d e so u n d effects, film e d e fo ley, film e d e

am b ien te, e esses d o is film es q u e eu citei era m film es d e fo ley, eles se ap o iav am m u ito em fo ley. S e v o cê

o lh ar n ão tem g ran d es efeito s no “O Q u arto d o P ân ico ” , eles ficam d en tro d e u m a casa o tem p o in teiro .

E ra um film e d e fo ley e ele ch am a a aten ção , e n ão só p o r ch am ar a aten ção , a p artir d o m o m en to q u e

você p recisa m ais d aq u ilo , você p recisa elab o rar m elh o r aq u ilo , en tão era um fo ley ab so lu tam en te

elab o rad o e ch eio d e d etalh es, m as é u m a esco la q u e já tem m ais d e d ez an o s, d e lá p ra cá m u ita co isa

m udou.

R o sa n a : V o cê ia fa la r d e q u a n d o co m eço u a fa zer o so m em s i n c r o n i a ..

A lessa n d ro : n o “O lg a”, q u e fo i em 2 0 0 4 , p o rq u e to d o s o s film es q u e a g en te fez an tes d o “O lg a” a g en te

fazia esse esq u em a d e g rav ar b an co , e ed itav a d ep o is. O “O lg a” fo i o p rim eiro q u e a g en te co m eço u a

g rav ar alg u m as co isas em sin c. A lg u m as, n ão era tu d o . O q u e eu p erceb ia q u e a g en te co n seg u ia n essa

co isa d e g rav ar b an co e ed itar, era q u e a g en te co n seg u ia n atu ralid ad e, p o rq u e as p esso as q u e ex ecu tav am

não eram n ecessariam en te ed ito ras de fo ley, elas n ão estav am o lh an d o n en h u m a im ag em e n ão tin h am

co m p ro m isso n en h u m . A g en te fazia u m b an co m u ito g ran d e, eu ten h o até h o je u m a caix a d e cd s o n d e

v o cê tin h a v ário s tip o s d e p iso co m v ário s tip o s d e sap ato em v árias v elo cid ad es. A g en te sistem atizo u

u m a co isa d o tip o : an d an d o co m bpm 60, bpm 7 0 , v árias v elo cid ad es, d ep o is só m o v im en tação , e to d o s o s

sap ato s eram d o m esm o jeito . E n tão se eu p recisav a d e b o ta n u m p iso d e co n creto , eu já sab ia q u e era n o

cd num ero tal. A g en te crio u um lo g pra isso , e se eu o lh av a a cena e sab ia que o cara tav a n u m a

v elo cid ad e “x ”, eu já sab ia q u e tin h a q u e p ro cu rar a faix a cin co . E ra u m a co isa m u ito ráp id a, en tão v o cê

já co lo cav a aq u ilo e era só aju star o sin c, era u m a co isa já b em n o lu g ar, e ao m esm o tem p o n atu ral,

p o rq u e m u itas p esso as ex ecu taram p ra g en te, m u lh er era m u lh er an d an d o , h o m em era h o m em , era m u ito

n atu ral, e o m eu m ed o q u an d o fo sse fazer em sin c era q u e so asse artificial, e realm en te n o co m eço era.

E n tão o “O lg a” não tem 30% ain d a em sin c. A m aio r p arte era d e b an co , a g en te co m eço u a fazer o

h íb rid o . A í eu ach o q u e a g en te co m e ço u a fazer m ais p ro p s d o q u e fo o tstep s. T ev e u m cam in h o n atu ral,

n ão fo i d a n o ite p ro d ia, p o rq u e eu , in felizm en te p o r co n ta d a m in h a g eração , ap ren d i fazen d o , eu n ão tiv e

u m a p esso a p ra m e en sin ar isso .

R o sa n a : Q u a n d o a b re a sa la e co m eça a g ra v a çã o em sin c, q u em co m eça a g ra v a r é o A n d erso n ?

A lessa n d ro : O A n d erso n é o cara q u e aco m p an h o u esse p ro cesso to d o , essa ép o ca to d a. o A n d erso n é u m

p u ta artista d e fo ley, só q u e ele n ão q u er ser, ele o d eia ser artista d e fo ley, ele g o sta d e ed itar, ele g o sta d e

g rav ar, e ele tem rin ite, en tão ele so fre d en tro d a sala d e fo ley. A g o ra a n o ssa sala é lim p in h a e b o n itin h a,

m as era terrív el. O A n d erso n era d e u m a b an d a q u e eu tin h a g rav ad o , ele era o b aterista d essa b an d a, e eu

p ro d u zi o d isco d eles. E le ch am o u o g u itarrista d a b an d a tam b ém , q u e eu já co n h ecia, q u e era o R o g er. A í

o R o g er co m eço u a aco m p an h ar o q u e o A n d erso n fazia e ao s p o u co s co m eço u a fazer, en tão o co m eço

d a sala d e fo ley fo i co m o T ieta e o R o g er, e o R o g er d eu co n tin u id ad e à sala. E n tão a m aio r p arte d as

co isas q u e eram ex ecu tad as eram com o R o g er, o n o m e d o s d o is está asso ciad o a esse in icio d a sala. O

q u e aco n tece é q u e eu m esm o g o sto d e ed itar d iálo g o , g o sto d e ed itar efeito , g o sto d e ed itar fo ley, g o sto

d e ed itar tu d o , g o sto d e fazer p ré d e tu d o , g o sto d e m ix ar tu d o , m as eu o d eio g rav ar fo ley. E u ten h o a

ten d ên cia d e, q u an d o u m a co isa v ai p assar p o r m im d ep o is, aliv iar. E u só ia p ra sala d e fo ley q u an d o eles

m e cham avam pra p erg u n tar alg u m a co isa ou quando, e isso aco n teceu um as duas ou três vezes na

h istó ria d o estú d io , a g en te d av a u m a p arad a p ra m u d ar o s m éto d o s o u co isa d o tip o . E u m e lem b ro d e

um a vez que a g en te fez ex ercício s, a g en te p eg o u três cen as, u m a d o “O Q u arto d o P ân ico ”, u m a d o

“A m elie P o u lain ” e u m a d o “G an g s d e N o v a Y o rk ”. E les n ão sab iam com o era o fo ley d a cen a e eu fiz

eles sp o tarem , g rav arem , ed itarem e m ix arem aq u elas c en as co m o p arte d e u m ex ercício . N aq u ilo a g en te

m u d o u , m ex eu n a sala, em fo rm atação d a sala, co m eço u a m u d ar m icro fo n e . T in h a q u e d ar essas p arad as,

p o rq u e d en tro d essa co isa d a zo n a d e co n fo rto n atu ral d o ser h u m an o , ex iste u m a ten d ên cia m u ito fo rte d e

to d o m u n d o , e co m o fo ley n ão é d iferen te, d e trab alh ar n o p ilo to au to m ático , d e sair fazen d o . E eu tô

sem p re n o fin al, p o rq u e d esd e o in ício so u eu q u em faço , d esd e 2 0 0 6 p ra cá, so u eu q u e faço as p rés d e
fo ley, en tão eu tô n o fin al e sei o q u e está d an d o certo e o q u e n ão está, e às v ezes eu p reciso fazer u m as

in terv en çõ es. A g o ra aco n teceu isso , d ep o is q u e o R o g er saiu , e u ch am ei o T ieta e o R en an , q u e é o cara

q u e está b em m ais p ró x im o d e fo ley lá, o P rin ce, q u e é o cara q u e tá g rav an d o fo ley, ch am ei e fiq u ei

m o stran d o cen as d e film e, v en d o q u e a g en te ain d a está fazen d o n o esq u em a d e d ez an o s atrás, e m u ita

co isa m u d o u . E n tão em alg u n s m o m en to s d a v id a eu p reciso fazer alg u m as in terv en çõ es, m as eu m esm o

n ão esto u lá d en tro . S e v o cê m e p erg u n tar técn icas d e ex ecu ção eu n ão v o u n em sab er, n em m e in teressa,

eu d eix o eles à v o n tad e.

R o sa n a : A estru tu ra çã o d a sessã o d e g ra v a ç ã o d e o n d e v em ? A s ca teg o ria s? D e o n d e v o cês tira ra m

os n om e?

A lessa n d ro : p ro v av elm en te procurando esse referen cial n o sso que é a esco la h o lly w o o d ian a, fo i em

alg u m m o m en to da v id a que eu vi que eles d iv id iam n essas três categ o rias que é b asicam en te o q u e

ad o tam o s, q u e é p rim eiro p asso s, e a g en te u sa in clu siv e n o m en clatu ra em in g lês, F S , P P pra props e

C L T H S p ra clo th es, essa é a categ o ria n o rm al.

R o sa n a : o E d u a rd o tev e a lg u m a co isa a v er co m isso p o r ter tra b a lh a d o lá ?

A lessa n d ro : eu ach o q u e sim , a g en te n ão fica fazen d o reu n iõ es em to d o s o s film es, co m o a g en te está

to d o m u n d o n o m esm o estú d io , n u m a m esm a casa, a g en te tem m u ita co n v ersa d e co rred o r, co n v ersa n o

café, n ão v o u m e lem b rar co m o a g en te ch eg o u n essa d iv isão , m as fo i ju n to co m o E duardo com certeza,

n aq u ele co m eço . E ssas são as categ o rias b ásicas, m as ex iste u m a co isa, p rin cip alm en te p o r a g en te estar

num a casa onde tu d o é feito lá d en tro , ex iste um a co m iu n icação que a g en te forçou, que é um a

co m u n icação en tre fo ley e efeito . E x istem co isas q u e fo ley g rav a p ara efeito , eles g rav am e a ed ição o u a

o rg an ização , o seg m e n to o n d e ele v ai ficar é efeito . N esse film e q u e estam o s fazen d o ag o ra a g en te tem

v árias d iv isõ es, e tem u m a d as d iv isõ es q u e a g en te ch am a d e V H q u e são o s v eícu lo s. T em as prés de

v eícu lo s, são v ário s g ru p o s d e v eícu lo s e tem um cam in h ão v elh o q u e tá o tem p o in teiro co m o cara, ele

carreg a areia co m aq u ele cam in h ão , e tu d o o q u e v o cê o u v e d a carro ceria d o cam in h ão f o i g rav ad o n a sala

d e fo ley, só q u e ele f o i ed itad o co m o u m efeito , fo i feito n a p ré d e efeito e está n a m ix d e efeito s e v ai p ro

stem d e efeito , m as ele fo i g rav ad o em fo ley. E ex istem co isas d e am b ien tação , ex iste u m a categ o ria q u e a

g en te u sa que a g en te ch am a d e so u n d scap e. A g en te d iv id e o s am b ien tes co m a cam a, aq u ele b afo , a

g en te u sa u m n eg ó cio ch am ad o d e efeito b ase, en tra ch u v a, v en to , co isas d esse tip o , aí en tram o s efeito s

d e am b ien te, q u e são o s b ack g ro u n d effects, a n o m en clatu ra q u e a g en te u sa é B X , e d e n tro d isso ex iste o

so u n d sca p e. V ou dar um ex em p lo clássico : um restau ran te. V ocê está d en tro do restau ran te, tem as

p esso as, v o zes, w alla, aq u elas co isas, o s talh eres e co p o s q u e v o cê o u v e p ró x im o s, ali n a co zin h a, m as

in tern am en te, eles são so u n d sca p e, e eles são feito s e ed itad o s no fo ley. E les são g rav ad o s, n o geral

w o rd izad o s, já co m um certo rev erb , m as n o estú d io d e fo ley. C av alo , p o r ex em p lo , q u em faz é fo ley, m as

ela n ão fica n a ed ição d e fo ley, é u m a ed ição d e efeito feita a p artir d e so n s g rav ad o s n a sala d e fo ley, as

p atas são fo ley, o s p en d u ricalh o s são fo ley, a resp iração é fo ley, p o rém o s relin ch o s são efeito . E aí v o cê

tem q u e co m u n icar, sen ão v o cê fica co m um so m aqui e um o u tro n u m a o u tra p ré q u e v o cê v ai co lo car

d ep o is, v o cê tem q u e ter esse en tro sam en to . E n tão esses d o is d ep artam en to s p recisam ser p ró x im o s. T em

u m a co isa m u ito leg al q u e a g en te ad o ta lá n o estú d io q u e são o s b o u n ces, q u e é assim : to d o m u n d o , n ão

im p o rta q u al d ep artam en to d o q u al v o cê faça p arte, v o cê está fazen d o u m a co isa n u m d eterm in ad o ro lo ,

v o cê já sab e o q u e to d o s o s o u tro s d ep artam en to s estão fazen d o . P o rq u e a cad a m o m en to q u e a ed ição v ai

sen d o feita vão sain d o bounces e vão se atu alizan d o to d o s, o u seja, v o cê está ed itan d o fo ley, m as já

co n h ecen d o a ed ição d e d iá lo g o , co n h ecen d o o q u e am b ien te está co lo can d o , o q u e efeito está co lo can d o

e tu d o m ais. Isso faz co m que você pegue um telefo n e e v o cê tem o s so n s d as teclas d e fo ley e o b eep

b eep d e efeito e o s d o is estão em sin c. Q u an d o eu p eg o as d u as p rés as d u as est ão em sin c, p o rq u e o efeito

já co n h ece o q u e fo ley fez.

R o sa n a : Q u a l é a fu n çã o d o fo ley n a trilh a ?

A lessa n d ro : C o m o eu so u d essa esco la m ais d e lá, q u e é u m a esco la q u e g o sta m u ito d e fo ley, fo ley é

tu d o p ra g en te, p o r v ário s m o tiv o s. N ú m ero 1 , é u m a q u estão estética d o tip o , eu v o u d ar u m ex em p lo ,
an tig am en te o A rm an d o receb ia p ré d e d iálo g o , p o rq u e n o m eu m éto d o d e trab alh ar co m o A rm an d o , ele

fica sem p re co m a p ré d e d iálo g o e eu sem p re fico co m p ré d e fo ley. A m b ien te às v ezes co m ele, à s v ezes

co m ig o , d ep en d e. A í o A rm an d o co m eçav a a fazer d iálo g o , e a g en te tin h a u m a ed ição d e d iálo g o até

certo p o n to lim p a. A g en te lim p a m u ito , essas co isas d e p ro p s d e so m d ireto a g en te lim p a. E q u an d o ele

receb ia o so m d ireto d e to d o film e era u m d ram a, p o rq u e o A rm an d o ach av a q u e o film e n ão ia ficar b o m

porque o so m d ireto tav a um a b o sta. E eu falav a que ia ficar b o m , p o rq u e eu já estav a lá n a fren te,

fazen d o a p ré d e fo ley. P o rq u e ele v ai fazen d o aq u i, m e m an d a e eu v o u fazen d o lá e d ep o is m an d o , e a

g en te tin h a u m a m an ia d e d izer, tin h a o h áb ito d e d izer q u e fo ley m elh o rav a o so m d ireto , p o rq u e fo ley te

d á m u ita d efin ição d as co isa s. V o cê d ev e ter aco m p an h ad o essas m esas d a A B C , eu assisti n o y o u tu b e,

eu v ejo essas d iscu ssõ es d as p esso as aq u i. H o je o so m d e cin em a aq u i está red u zid o a u m a u tilização d e

lap ela o u b o o m , e aí fica aq u ela co isa d e q u e o b o o m é n atu ral, e as p esso as g o stam d aq u ela so n o rid ad e

que vem d as co isas co m essa p re sen ça d e o b jeto s n o so m d ireto . E sses o b jeto s to d o s q u e a g en te o u v e,

p rin cip alm en te p ela p o sição d o m icro fo n e b o o m n u m a cen a, essa co isa m ais aérea, m ais p ró x im a d a v o z,

faz com que to d o s esses o b jeto s no geral eles so em m ais o u m en o s n a m esm a p r o fu n d id ad e e co m o

m esm o tim b re . A g en te sem p re tem aq u ela co isa m u ito m éd ia ag u d a, rasp ad a, co m p letam en te in d efin id a,

e ch ap ad a. E sse so m que a g en te tem chapado fu n cio n a m u ito bem n essa co isa que o E du cham a de

cin em a v erd ad e, q u e é essa fo rm ação an o s 6 0 , p rin cip alm en te d e d o cu m en tári o , m as q u e te d á u m so m

ab so lu tam en te p lan o , ela fu n cio n a m u ito b em p ra tex tu ras o n d e a im ag em p eça isso . A p artir d o m o m en to

em q u e v o cê p recisa d e m ais d efin ição , p o rq u e a tu a im ag em tem m ais d efin ição , essa so n o rid ad e n ão d á

co n ta. E n tão a g en te co stu m a d izer q u e o fo ley to rn a o film e 3 d , p o rq u e v o cê co m eça a ter p ro fu n d id ad e,

você cap tar um so m e ter to d a a so n o rid ad e e ter to d o s esses o b jeto s ap en as co m o b o o m , é m ais o u

m en o s co m o v o cê ilu m in ar u m a cen a co m u m a lâm p ad a só . V o cê tem u m a lu z ab so lu tam en te ch ap ad a,

por m ais que ela clareie tu d o , m as você tem aq u ela co isa ab so lu tam en te chapada e dura, a p artir d o

m o m en to em q u e v o cê co m eça a ilu m in ar p o n to s d e lu z, v o cê co m eça a d ar d im en sõ es e p ro fu n d id ad es

d iferen tes p ro film e, o fo ley faz isso . F o ley cria o 3 d d o so m , v o cê co m eça a p erceb er relev o s n o so m ,

v o cê co m eça a criar a p artir d o m o m en to em q u e co lo ca isso , é claro q u e o s efeito s e am b ien tes tam b ém

têm essa fu n ção , n essa esco lh a estética, tu d o isso aju d a a fazer esse tip o d e co isa, m as fo ley tem um a

b rin cad eira b o a q u e é: n ão é o so m q u e é, é o so m q u e eu q u ero q u e seja. E n tão eu co m eço a criar tim b res,

co m eça a criar to d a essa p ro fu n d id ad e e essa riq u eza a p artir d esses elem en to s, p o rq u e aí v o cê tem tan to

p ro fu n d id ad e q u an to de range, de eq u lizaç ão , porque aí você co lo ca o cara andando, e a p artir do

m o m en to q u e v o cê co lo ca u m p en d u ricalh o ju n to , v o cê tem um ag u d o to can d o co m um grave e com um

m éd io , o u seja, v o cê co m eça a criar tex tu ras, essa criação d e tex tu ra p ra fo ley, essa p o ssib ilid ad e d e cr iar

riq u eza d en tro d e ran g e e d e p ro fu n d id ad e é u m a co isa ab su rd a, isso acen d e o film e d e u m je ito q u e aí

m elh o ra o so m d ireto . A í até p arece q u e o d iálo g o fica b o m . E ssa é a q u estão m ais estética, em term o s d e

so n o rid ad e. A q u estão n arrativ a en tão é u m ab su rd o , a g en te tam b ém co stu m a d izer q u e fo ley é o m elh o r

am ig o d o ato r, p o rq u e v o cê d eix a a atu ação d ele m elh o r, e eu n ão falo só d e co lo car in ten sid ad e o u co isa

d esse tip o . À s v ezes a m u lh er v ai b ater ali n a m esa e a m ão d ela está em o ff, e ao in v és d e au m en tar o

n ív el v o cê ad ian ta u m fram e, se v o cê ad ian ta u m fram e o u d o is fram es, ela fica m ais d ecid id a. A trasa e

e l a f i c a h e s i t a n t e . R e f o r ç a e s s e p a s s o a q u i , e o c a r a t o m o u u m a d e c i s ã o , h e s i t o u ... E n f i m , v o c ê c o m e ç a a

criar esse tip o de co isa onde você co n seg u e dar co n to rn o s d ram ático s pra um film e de um a form a

ab su rd a, n ão v iv o sem o n eg ó cio ch am ad o fo ley. É u m a d as co isas m ais im p o rtan tes d o p o n to d e v ista

n arrativ o . O u ço há m u ito s an o s q u e fo ley só serv e p ra b an d a in tern acio n al, é u m p e cad o q u e se faz, a

grande m aio ria das p esso as ain d a trab alh a assim n o B rasil, e m esm o a fo rm a co m o fazem fo ley ain d a

com o um a p resen cin h a, sem ex p lo rar esse recu rso ab so lu tam en te d ram ático , é um d isp e rd ício m u ito

g ran d e. É claro q u e ex iste aq u ilo q u e eu fa lei n o co m eço , tem film es q u e são d e fo ley, tem film es q u e n ão .

T em film es q u e se p eg a cen as em q u e realm en te o fo ley n ão é n ecessariam en te im p o rtan te, en tão v o cê

p recisa in v estir em o u tras co isas, e isso é o fo co , e d en tro d e u m m esm o film e isso p o d e m u d a r d e cen a

pra cena. A g en te v ê isso m u ito em série, q u e p recisa ser u m a co isa m u ito en x u ta, q u e em cenas onde

p recisa d e fo ley, v o cê tem um fo ley ab so lu tam en te rico e b em elab o rad o , e tem cenas que parece que nem

tem , é u m a p ista só fazen d o o resto . É n o rm al isso , q u an d o v o cê p recisa, v o cê p recisa.

R o sa n a : O s p ro d u to res estã o p en sa n d o a m esm a co isa ?
A lessa n d ro : P ára co m isso . O p ro d u to r n ão sab e n em o q u e é so m , v ai sab er o q u e é fo ley? C laro q u e

não. A g en te está n essa esco la ain d a m u ito au to ral aq u i n o B r asil. Q u em d ecid e a eq u ip e d e so m , em

g eral, é o d ireto r. O d ireto r te co n trata e faz u m n eg ó cio ch am ad o sp o ttin g , o n d e v o cê sen ta d o lad o d o

d ireto r e ele te d iz o q u e ele q u er d o film e. E le v ai falar d e co isas p o n tu ais, aq u i eu q u ero o u v ir isso o u

aq u ilo , ele n ão v ai ficar falan d o d e fo ley e efeito e n em eu p erg u n to . T iran d o u m a o u o u tra co isa q u e o

cara fala, p o r ex em p lo , u m a co isa em o ff: aq u i é im p o rtan te o u v ir q u e a m u lh er caiu n o ch ã o . E ssa é u m a

o rien tação im p o rtan te n arrativ a, essa o rien tação n arrativ a eu p reciso p ra alg u n s p o n to s, m as o q u e a g en te

v ai p recisar fazer p ra fo ley, isso é d ecisão n o ssa. É claro q u e isso v aria d e u m d ireto r p ra o u tro , o Jo sé

P ad ilh a g o sta m u ito d e fo ley. Q u an d o a g en te fo i fazer o “T ro p a d e E lite”, n o sp o ttin g ele fico u falan d o

um m o n te d e co isa d e fo ley, e eu até falei p ra ele q u e n ão p recisav a, q u e a g en te sab ia q u e ia fazer. M as

e l e q u e r i a a l g u m a s c o i s a s e x a g e r a d a s , o p e s o d a s c o i s a s ... E m g eral eles n em sab em o q u e é isso .

R o sa n a : V o cês n ã o v en d em fo ley sep a ra d o d a ed içã o ?

A lessa n d ro : A g en te fez u m a v ez p ro “C o n to s d o E d g ar”, m u ito tem p o atrá s, a g en te fez alg u m as co isas

p ro B eto , o u seja, a g en te ain d a n ão fazia to d as as co isas. M as n ão , n ão é q u e a g en te n ão v en d a, a g en te

nem é p ro cu rad o p ra isso . A g en te fez u m a an im ação n o an o p assad o q u e fo i “A té q u e a esb ó rn ia n o s

sep are”. A co n teceu u m a c o isa d iferen te, eles q u eriam fazer com a g en te m as n ão d eu certo p o r q u estõ es

fin an ceiras e d e ag en d a. E les acab aram fazen d o lá n o S u l, n ão sei q u em fez, n ão fo i o K ik o . E aí já tin h a

m u ita co isa q u e tin h a sid o feita, eles n ão p o d iam p ag ar o q u e a g en te p e d ia, e a g en te fez u m acordo com

eles de pegar aq u ilo e fin alizar o film e. A g en te tev e q u e p eg ar em fo ley já g rav ad o , só refo rçan d o e

ad icio n an d o . N o s créd ito s v ai ter o n o m e d o estú d io d e lá e v ai ter o n o sso . A g en te m an tin h a, refo rçav a

o u su b stitu ía. M as em g eral a g en te n ão é ch am ad o p ra fazer fo ley, e a g en te n em está fo rm atad o p ra isso ,

p o rq u e o n o sso estú d io fu n cio n a co m to d o s o s d ep artam en to s ao m esm o tem p o , a g en te n ão co n seg u iria.

A g en te n u n ca p rep aro u o estú d io p ra ter u m d ep artam en to q u e aten d a fo ley p ra fo ra, e u m a o u tra co isa,

eu n ão assisti o “E d g ar” co m o fico u , m as u m a co isa é g rav ação , o u tra co isa é ed ição , m as a p ré d e fo ley é

m u ito im p o rtan te, eu n ão ab ro m ão d isso , tan to q u e aq u i so u sem p re eu q u e faço .

R o sa n a : F a la n d o em o rça m en to , o fo ley v a le a p en a ?

A lessa n d ro : O n o sso v alo r é p aco te, em g eral, in felizm en te. E u n ão g o staria q u e fo sse, m as tem q u e ser.

N o p aco te é sem p re a g en te q u e p ed e, é n o rm al. A g en te d eix a esp ecificad o n o o rçam en to o v alo r d e cad a

co isa e o fo ley está esp ecific ad o . E u n ão sei se é 1 0 0 % real o u se tem que fazer um b alan ço en tre as co isas

p ra q u e a g en te ch eg u e n o v alo r fin al , m as ele já está lá em p aco tad o . E u n ão cu id o d essa co isa d e g ran a,

não sei d izer se u m a co isa co m p en sa a o u tra, se ele é d eficitário o u n ão . O q u e eu sei d izer, e isso é

terrív el, m as a p ré d e fo ley, q u e so u eu q u e faço , é a m ais d em o rad a d e to d as, e é can sativ a. F o ley é m u ito

v o lu m o so , e eu p reciso atu ar n o so m d e u m a fo rm a q u e eu n ão p reciso tan to em efeito e am b ien te. M esm o

o w alla, a g en te g o sta d e g rav ar m u ita co isa fo ra, v ai p ra p arq u e e lev a u m a g alera. O W alter M u rch

achava que não co n seg u ia com d eterm in ad o s so n s, n o s anos 1970, com câm ara de eco , d eix ar o so m

n atu ral, en tão ele rep ro d u zia o so m d en tro d e u m am b ien te e reg rav av a, já co m rev erb n atu ral, e ch am av a

isso de w o rld izin g . F o ley não é w o rld izad o . 8 0 % do que a g en te ouve é gravado m u ito p ro x im o do

m icro fo n e, e en tão p ra v o cê co n seg u ir u m a n atu ralid ad e, v o cê é o b rig ad o a trab alh ar co m rev erb e co isa

d esse tip o . T em um trab alh o d e rev erb b acan a, tem o u tra co isa q u e é b acan a, é q u e sala d e fo ley tem

m u ito to m , en tão a g en te tem sem p re q u e filtrar, ficar tiran d o to m . E n tão acab a sen d o m u ito v o lu m o so . E

eu m ex o m u ito em p ré -m ix n a in terp retação , o m o m en to em q u e o artista d e fo ley faz até o m o m en to em

q u e eu esto u p ré -m ix an d o , m u ita co isa n a ed ição d e so m d o film e já ap areceu , e a g en te tem q u e lem b rar

q u e p o r m ais q u e se criem essas categ o rias, a g en te tem um ran g e ali d e 2 0 h z a 1 4 k H z q u e é onde vai

estar to d o m undo. V ai estar d iálo g o , v ai estar am b ien te, v ai estar fo ley, v ai estar efeito e v ai estar a

m ú sica. E n tão você tem que sep arar as co isas, tem que por d en tro de um a o rg an ização e de um a

so n o rid ad e onde as co isas não v irem um a m assa. M u itas vezes eu so u o b rig ad o a red esen h ar a

in terp retação n a p ré -m ix p o r co n ta d e elem en to s d e m ú sica o u d e efeito q u e ap areceram , en tão tem um

p ro cesso . S e eu v o u fazer u m carro q u e é g rav ad o m ais w o rld izad o , é m ais fácil, fo ley n ão , eu ten h o q u e

ter u m rev erb d e p ro fu n d id ad e, p o rq u e ele v em do fundo, é um reverb d e cen tro , u m reverb d e L eft e
R ig h t, eu ten h o m u ita co isa p ra m ex er. E tem u m a p ercu rsão d a m ú sica q u e está em b o lan d o co m o fo ley e

eu p r eciso sep arar essas d u as co isas. E n tão a p ré d e fo ley é a m ais d em o rad a d e to d as e a m ais can sativ a.

R o sa n a : C o m o fo i a tra n siçã o co m a sa í d a d o R o g er?

A lessa n d ro : q u em está trab alh an d o co m a g en te ag o ra é a A n d reia. A g o ra a g en te está fazen d o u m a série.

N esse m o m en to em q u e eles saíram , o T ieta fez co m o artista u m o u d o is ep isó d io s d a série e fez u m

film e, até a A n d reia se m u d ar. E la fez u m p erío d o d e u m a sem an a co m ele m o stran d o , e ag o ra é ela q u em

está ex ecu ta n d o , m as ela ain d a está d ev ag ar. Q u an d o é alg u m a co isa q u e tem q u e ser m ais elab o rad a , v ai

ele. E le ain d a está m eio q u e d irig in d o ela , está n u m p ro cesso d e fo rm ação . T em u m a co isa lá n o estú d io

q u e aco n tece, eu ach o q u e 1 0 0 % d as p ess o as q u e trab alh am com a g en te são fo rm ad as lá. A g en te fo rm a.

In felizm en te, co m o a g en te n ão tem m éto d o s d efin id o s aq u i n o B rasil, n ão tem esco las m ais d efin id as, e

q u an d o eu falo d e esco la é d e m eto d o lo g ia m esm o , n ão é d e so n o rid ad e, eu n ão co n sig o ach ar p esso as,

en tão a g en te sem p re fo rm o u , tem u m a p o lítica d e estag iário s. A in d a q u e ela ten h a ficad o u m tem p o aq u i

n o A r m an d o , é m u ito d iferen te o q u e ela está fazen d o , lev a u m t e m p o ... E p ro v alv elm en te a g en te v ai

co lo car m ais p esso as tam b ém estag ian d o com o papel de artista de fo ley. Já tem um o u tro cara que

trab alh av a em estú d io d e g rav ação d e m ú sica, en tro u n o estu d io e d itan d o d iálo g o , e ag o ra está n o estú d io

g rav an d o a A n d reia, co m o T ieta su p erv isio n an d o . A lém d isso , o R en an , q u e é o cara q u e m ix a co m ig o ,

ele cu id a b astan te d e fo ley tam b ém , ele tem u m a co n v ersa b o a co m o T ieta, ele en ten d e o s m éto d o s e o s

p ro cesso s. Q u an d o se trab alh a co m eq u ip e g ran d e, tem q u e ter u m a m eto d o lo g ia u m p o u co clara, tem que

p ad ro n izar, tem q u e sistem atizar, n ão tem m u ito jeito . A g en te está n u m p ro cesso , n ão v o lto u p ro zero , e

n essa m u d an ça, a g en te ap ro v eito u p ra m u d ar alg u m as co isas q u e o R o g er m an tin h a m u ito n o estilo d ele,

que eu já v in h a p ed in d o pra m udar, en fim . M as agora sim u ltan eam en te a g en te q u is d im in u ir um

p o u q u in h o o núm ero de film es, n ão só por cau sa de fo ley, m as n ão tav a d an d o , o s d o is ú ltim o s an o s

f o r a m ... F i q u e i u m an o e m eio sem d o m in g o , sem N atal, sem an o n o v o , fo i trab alh o d ireto . V o cê fica n o

p ilo to au to m ático , além d e can sad o , v o cê co m eça a ficar rep etitiv o . A n tig am en te, q u an d o era u m film e

p o r v ez, a g e n te saía e g rav av a, elab o rav a u m a g ran d e q u an tid ad e d e m aterial, m as ag o ra a g en te co m eça

a u sar b ib lio teca, e co isa d esse tip o .

A p esar de há m u ito tem p o eu ach ar isso q u e eu falei so b re a q u estão estética e d ram ática d e

fo ley, a g en te erro u m u ito n o p assad o , ex istiu m u ito film e n o sso , m ais an tig o , o n d e tin h a fo ley d em ais, é

u m a m an ia d e ach ar q u e tu d o tem q u e ter so m , e aí v o cê erra o fo co . O leg al d o fo ley é q u e ele n ão p o d e

ser p erceb id o , q u an to m ais n atu ral m elh o r, se o esp e ctad o r p erceb e é p o rq u e tá ru im . E n tão ach o q u e

ex istiu film es o n d e a g en te b rig av a co m a m ú si ca, h o je a g en te está d e certa fo rm a m ais in telig en te n essa

q u estão n arrativ a, d ram ática, d e co n seg u ir m ais d esen h o n as co isas.

R o sa n a : V o cê ch eg o u a ter co n ta to co m o q u e se fa zia a n tes?

A lessa n d ro : N u n ca.