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E n trev ista co m R ica rd o R eis co n ced id a à R o sa n a S tefa n o n i em 1 4 /0 6 /2 0 1 4

R o sa n a : C o m o v o cê en tro u n o fo ley? Q u a l a su a h istó ria ?

R ica rd o : E u en trei m u ito sem q u erer, n ão co n h ecia n ão só o fo ley, a p arte d e ed ição d e so m , d e d esen h o

d e so m , n ão sab ia q u e ex istia. E u sem p re tiv e m u ita afin id ad e co m so n s, co m m ú sica n a v erd ad e, d esd e o s

1 0 an o s eu co m ecei a to car n a fan farra d o co lég io , n a ad o lescên cia co m b an d as, e q u an d o ch eg o u a h o ra

de seg u ir carreira, eu p recisav a arrum ar alg u m a co isa de su sten to ráp id o , en tão eu o p tei por fazer

co n tab ilid ad e n a U S P , o p tei n ão , v i lá q u al a ch an ce d e en trar n u m a facu ld ad e q u e n ão p recisasse p ag ar,

num a facu ld ad e p u b lica, eu o lh ei as n o tas de co rte, v i co n tab ilid ad e, q u e é um m ercado de trab alh o

g aran tid o , e deu certo . E u en trei e n o seg u n d o sem estre já estav a trab alh an d o n o B am erin d u s. E u n ão

term in ei o cu rso , eu fiz três an o s, e eu co m ecei a p eg ar firm e n a ag ên cia. D aí o co n flito d a teo ria e d a

p rática, eu trab alh av a n a co n tab ilid ad e d a ag ên cia, e tin h a q u e ap u rar o s p ro b lem as, e era u m a ép o ca d e

in flação , e aí tin h a v ário s tram b iq u es q u e o B am erin d u s fazia, e ficav a n aq u ela situ ação d e o q u e v o cê

aprende na facu ld ad e não se ap lica na p rática. O B am erin d u s foi com prado p elo H SB C e deu um a

co n g elad a, en tão eu fiq u ei m eio sem ru m o n a v id a, e d ecid i arriscar. O B am erin d u s fo i co m p rad o em 95

o u 9 6 e eu n ão fiq u ei m ais d o q u e d o is an o s, n a v erd ad e eu tav a p en san d o em ter u m h o b b y, e v o ltar p ra

m ú sica, e u m d o s n o sso s clien tes lá era o E v an d ro co m a M iriam , q u e era a T im b re F X . E u sab ia q u e era

um estú d io d e jin g le p ra p u b licid ad e, e em u m as férias eu p ed i p ra fazer estág io p o rq u e eu q u eria ter

co n tato co m so ftw a res e m o n tar u m h o m estu d io p ra h o b b y, e já tav a p en san d o em fazer carreira lá . M as o

q u e aco n teceu fo i q u e n essas féria s eu fiq u ei em co n tato e v i o trab alh o co m M ID I, q u e tam b ém era um a

co isa que eu já estav a in stitiv am en te, ou co in cid en t em en te, com eçando a ter co n tato . E u p esq u isav a

alg u n s ru íd o s p ra fazer lo o p e eu lem b ro q u e eu tin h a u m a so u n d b la ster em casa, e ali q u e eu v i q u e d av a

p ra ed itar, q u e era m u ito m elh o r q u e a fita cassete. E u já tin h a tam b ém , d ep o is d e v er q u e era assim que

eles faziam , eu ed itav a u m as fitas cassete em casa c o m d u rex , p u lav a m as fu n cio n av a. T iv eram alg u m as

co isas que eu g o stei de ed itar, d e m o d ificar, d e fazer cab er a m ú sica n o fin alzin h o d a fita, eu acab ei

fazen d o isso sem sab er q u e isso era feito p ro fissio n alm en te. N essas féri as eu fu i e co m ecei a trab alh ar. E u

fu i m ais p ela m ú sica, jin g les, p ra ap ren d er a g rav ar, m as a M iriam era só cia d o E v an d ro e q u an d o eu v i

q u e era assim q u e fazia eu falei: n o ssa q u e leg al! C o m ecei ed itan d o p asso , p recisav a fazer alg u m ru íd o

que não tin h a sid o g rav ad o p elo A n tô n io C é sar, q u e era q u em fazia o fo ley p ra M iriam , e o lan ce d a

técn ica d e g rav ação , q u e eu já tin h a tid o u m co n tato p o rq u e co m u m a d as m in h as b an d as a g en te ch eg o u a

gravar num estú d io m u ito p ro fissio n al. O n o sso b aterista n ão co n seg u ia g rav ar co m fo n e d e o u v id o e n em

g o stav a d e click , m as p re cisav a g rav ar a b ateria so z in h a, en tão ele u so u co m o referê n cia caix as d e so m ,

m as ele p o sicio n o u as caix as em relação ao m icro fo n e e em relação ao s in stru m en to s d e fo rm a q u e ele

co n seg u ia u m can celam en to q u ase to tal d o s so n s d e referên cia, q u an d o eu v i q u e ele fez isso , eu fiq u e:

n o ssa! F u n cio n a esse n eg ó cio ! E isso m e d esp erto u essa p aix ão d e co m o trab alh ar o áu d io , p rin cip alm en te

essa p arte técn ica, p ra m ú sica, eu tin h a u m a p reo cu p ação , eu m e co b rav a m u ito co m a tim b rag em dos

m eu s in stru m en to s, p o rq u e n u n ca fu n cio n av a n o sh o w ao v iv o , p o rq u e o eq u ip am en to era ru im , e v o cê

f i c a v a p r o c u r a n d o m é d i o , g r a v e e a g u d o ... E n e s s e e s t ú d i o q u e e r a m u i t o , p r a é p o c a , m u i t o p r o , e u v i q u e
a s c o i s a s f u n c i o n a v a m , v o c ê m e x i a e a s f r e q u ê n c i a s v i n h a m ... F o i i s s o q u e m e l e v o u a b u s c a r e s s e e s t á g i o

no estú d io pra aprender isso , e essa cu rio sid ad e de m e xer e ver que realm en te você tem co n d içõ es,

eq u ip am en to s b o n s, p ra tirar o so m q u e v o cê q u er. E eu v i q u e o s ru íd o s só fu n cio n av am se eles estav am

certo s, p o rq u e n ão ad ian ta v o cê co lo car u m ru íd o lá se n ão está certa a d istân cia d o m icro fo n e, a in ten ção ,

não vai casar. Isso é um a co isa que m e ap aix o n o u , v o cê to ca q u alq u er o b jeto e você tem que ter a

in ten ção , a d u ração , a in ten sid ad e p ra q u e ele fu n cio n e.

R o sa n a : J á era a q u i?

R ica rd o : N ão , era n u m a casa lá n a A p iacás, era b em m en o r. F o i tam b ém u m a p assag em lo u ca, p o rq u e é

m u ito caro v o cê m o n tar u m a estru tu ra, p rin cip alm en te q u an d o ali a estética co m fu n cio n ab ilid ad e. L á era

um a casa relativ am en te grande, e com eçou com o um estú d io p e q u en o , q u e n ão tin h a salas g ran d es p ra

g rav ar u m a b an d a, as salas d e ed ição já tin h a m um tratam en to b em leg al, m as seis m eses d ep o is o d o n o

p ed iu d e v o lta, p o rq u e ele tin h a v en d id o a casa, e eles tiv eram q u e sair co rren d o , aí co m p raram aqui e

tev e q u e lev a n tar esse p ro jeto , lev an to u até o n d e está, e d ep o is n ão co n seg u iu atu alizar, a g en te está aq u i

h á u n s 1 2 an o s já. Q u an d o eu co m ecei, n a v erd ad e, estav a o A rrig o B arn ab é e o P au lo B arn ab é fazen d o a

trilh a d o “A lô ”. E q u an d o eu v i, eu v i q u e era o q u e eu q u eria fazer.

R o sa n a : Q u a n d o v o cê p a ssa a fa zer o fo ley co m p leto ?

R ica rd o : E u faço o p aco te co m p leto so zin h o m esm o tem u n s 5 o u 6 an o s, m as a d in âm ica fo i m ais o u

m en o s essa: eu co m ecei, eu e o D an iel, e a g en te só ed itav a, q u em ex ecu tav a era o A n tô n io C é sar, lá d o

R io , q u e era su p er ex p erien te . F o i su p er leg al, só q u e an tes a g en te n ão g rav av a, n a A p iacás, q u an d o a

g en te v eio p ra cá, co m a sala u m p o u co m aio r, a g en te co m eço u a g rav ar e fo i q u an d o n a v erd ad e eu

co m ecei a v er co m o er a a co isa. E le fazia, ele já era u m sen h o r co m u n s 6 0 an o s, ele v in h a d o R io e ficav a

u m a sem an a o u d u as aq u i, e trazia a m ala d e o b jeto s d ele. S em p re q u e ele trazia tin h a u m a h istó ria p ra

co n tar, ele com eçava às dez e ia até às q u atro da tard e m ais ou m en o s, p arav a sem p re pra fum ar o

cach im b o d ele e co n tav a as h istó rias com o um bom cario ca sab e co n tar, tev e um a, que na época da

d itad u ra ele ia p ra cim a e p ra b aix o co m o s o b jeto s d ele e ele fo i p arad o n u m a b litze e ele tin h a u m a arm a

trav ad a p ra fazer ru íd o s, e q u ase e le fo i p reso , ap reen d eram o rev ó lv er d ele. E n tão , eu co m ecei ed itan d o ,

m as a E ffects fo i crescen d o e fo i ch am an d o m ais g en te, e tev e u m p erío d o em q u e eu ed itei, ach o q u e u n s

d o is an o s, d iálo g o s. D ep o is d o sala eu fu i fazer o s am b ien tes, efeito s, d iálo g o s, e aí eu v o ltei d e n o v o p ro s

efeito s já fazen d o d esen h o d e so m , e n essa ép o ca a g en te m o n to u p elo m en o s u m as 3 o u 4 eq u ip es, co m

u n s d o is an o s cad a u m a, p o rq u e lev a p elo m en o s u m an o até a co isa se ajeitar. P o r u m bom p erío d o d e

tem p o , q u em gravava e quem ed itav a ap ren d eu co m o A n tô n io C é sar. F o i o M arcelin o , o M arcelo A u tu o ri

e o M au rício . M as tev e m ais g en te, n ão to lem b ran d o d e to d o s o s n o m es, m as fico u m u ito tem p o , to d o

m undo aprendeu com o o S eu A n tô n io C é sar, e eu com o estav a fazendo o fech am en to , sem p re

acom panhei a m ix ag em , e n a v erd ad e é lá n a m ix ag em q u e a g en te v ia o q u e fu n cio n av a e o q u e n ão

fu n cio n av a. O S eu A n tô n io C é sar tin h a a m en eir a d ele trab alh ar e ele ten tav a à s v ezes red u zir m u ito , n o

co m eço eu lem b ro q u e a M iriam d av a b ro n ca n ele, eu era assisten te, b ro n ca n ão , m as p ed in d o , en tran d o

em co n flito co m ele p o rq u e q u eria q u e ele fizesse o s p asso s sep arad o s d o tecid o , esse tip o d e co is a q u e

pra ele era m ais trab alh o , e tam b ém ele era um sen h o r d e id ad e, e n a sala d e fo ley v o cê tem q u e se
restrin g ir d e seu s ru íd o s, v o cê n ão p o d e resp irar alto , e can sa, p o rq u e v o cê tem q u e ex ecu tar o m o v im en to

com um o u tro tip o d e fô leg o . E fo i isso , p elo m en o s p o r u n s sete an o s co m o S en h o r A n tô n io C ésar, até o

m o m en to q u e ele fico u in v iáv el, p o rq u e tam b ém tem isso , d a m in h a en trad a até ag o ra, co m certeza o s

o rçam en to s d im in u íram pra um terço o u u m q u arto já , e fico u in v iáv el trazer o A n tô n io C é sar, e o p esso al

que gravava com eçou a fazer. O que era in teressan te é q u e to d o m u n d o era m ú sico , e eu ach o q u e o

m ú sico tem um a facilid ad e em lid ar com a g rav ação , tem m ais noção do que ele ex ecu ta e com o o

m icro fo n e fu n cio n a e co m o é reg istrad o , p o rq u e u m a co isa m u ito im p o rtan te p ra q u em ex ecu ta é essa

in tim id ad e, n o b o m sen tid o , co m o m icro fo n e, p o rq u e aí d á p ra esco lh er u m m icro fo n e m ais d u ro , m ais

larg o , q u e é o g ran d e b arato d essa artesan ia, u m a p esq u isa d iária, n a v erd ad e, as co isas n ão estão lá fix as,

às v ezes m u d a, e as m u d an ças d ão a g raça d e co n tin u ar fazen d o e n ão ficar ch ato .

R o sa n a : E q u a n d o esse p esso a l fo i sa in d o q u e v o cê a ssu m iu a a rte?

R ica rd o : Isso , fu i assu m in d o p o rq u e tem u m a co isa q u e eu ap ren d i n esse trab alh o q u e é m u ito artesan al e

é d ifícil d eleg ar, eu ten h o d ificu ld ad e d e d eleg ar e p rin cip alm en te d a p arte su b jetiv a, p o rq u e h o je eu já

faço fo ley, eu ten to já ter u m a p ré d o d iálo g o , já ter u m rascu n h o d o s efeito s e tu d o e já v o u fazen d o as

in ten çõ es, o s p lan o s, já p en san d o n o d esen h o fin al d o film e, eu faço co m o eu q u ero escu tar n a m ix ag em ,

p elo m en o s. E to d o s eles eram m eu s am ig o s e eu acab ei b rig an d o m u ito co m eles, a g en te se fala d e n o v o ,

m as ficam o s u n s b o n s tem p o s sem s e f a l a r , p o r q u e v o c ê p e d e p r a f a z e r , e a c h a q u e t á b o m ...

R o sa n a : E n tã o fo i u m a liv io q u a n d o v o cê p eg o u o fo ley?

R ica rd o : U m alív io , m as tam b ém um a n ecessid ad e de m ercad o , estética, d e tu d o , e tam b ém d e estar

aten to e cair a fich a d e q u e n ão ad ian ta p ed ir p ra o u tra p esso a fazer. P o rq u e a m in h a id eia é X , e essa

id eia X talv ez n o fin al n ão seja a id eia q u e o d ireto r ten h a, m as q u an d o ele m e co n trata é p ra eu m o stra a

m in h a id eia X p ra ele, e se a p esso a m e d á u m Y e eu t en h o q u e ex p licar p ra ele q u e é u m X ... A g en te

ficav a b rig an d o . E u co m ecei, n a verdade, fazendo as refaçõ es, p o rq u e as o u tras co isas, a realização , o

b an co d e so m , a ex p eriên cia, n ão p recisav a d e m u ito m ais tem p o p ra fazer o s efeito s e am b ien tes, so b rav a

m ais tem p o e eu co m ecei a fazer, e n a v erd ad e é o q u e eu m ais g o sto d e fazer.

R o sa n a : V o cê tem u m técn ico d e g ra v a çã o fix o ?

R ica rd o : T em o s. O m é t o d o n o s s o a q u i é s e m p r e t e n t a r ... P o r q u e t e m essa co isa d a ex p eriên cia, u m a co isa

que eu sem p re falo pro p esso a l é que o estú d io é um in stru m en to , n en h u m estú d io é p erfeito , e as

im p erfeiçõ es v o cê tem q u e co n h ecer e tirar u m bom p ro v eito d essas im p erfeiçõ es, e isso só se d á co m o

tem p o , m u itas v ezes essas im p erfeiçõ es, co m o u m lad o m ais rev erb eran te, elas tam b ém sã o su b jetiv as e é

im p o rtan te ter, p rin cip alm en te q u em está n a g rav ação , tem q u e ter u m o u v id o crítico , p o rq u e à s v ezes a

g en te fica aq u i e fica m eio lo u co , en tão tem q u e ter u m a referên cia. S e n ão v o cê ach a q u e está tu d o lin d o ,

tu d o fu n cio n an d o , m as não t á . .. E tem tam b ém a p arte técn ica, sab er u sar o eq u alizad o r, sab er os

p ro b lem as q u e tem , ter o co n h ecim en to técn ico e co n h ecer as ferram en tas, e isso é co m o tem p o e co m a

ex ecu ção . E eu g o staria d e sem p re ter g rav ad o co m u m a p esso a, m as aí v o cê tem u m a co is a d e m ercad o , é

d ifícil, v o cê n ão co n seg u e seg u rar, q u an d o a p esso a co m eça a ficar b o a, tem q u e ir p ra o u tro s lu g ares.
M as a g en te sem p re ten ta ter essa co n v ersa e p rin cip alm en te a crítica e a au to crítica. H o je, m u ito m ais d o

q u e an tes, v o cê tem q u e ser m u ito m ais criterio so , m u ito m ais d etalh ista, o s so n s tem q u e estar m u ito m ais

reais, realistas, d o q u e an tig am en t e. C o m certeza q u an d o o S eu A n tô n io C é sar fazia n ão era tu d o p erfeito ,

a ed ição era m u ito d ifícil.

R o sa n a : Q u a is sã o a s fu n çõ es d a d u p la ? Q u em lista ? Q u em ed ita ?

R ica rd o : H o je eu u so do poder de ser só cio e só gravo. M as tem que ter um a preparação, um a

d ecu p ag em , an tig am e n te a g en te fazia o m ap a n a m ão . T ev e u m a ép o ca q u e a g en te fazia n a sessão , e

h o je a g en te faz m ap a d e cen a a cen a, d ep en d e m u ito d o trab alh o , e d o o rçam en to d o trab alh o , q u an to

m ais d etalh ista, m ais tem p o v o cê g asta. A í a g en te está sep aran d o as reg iõ es d o s am b ien tes, se está n a

co zin h a, n a s a l a ... U m a p r a f a z e r a u t o m a ç ã o d e reverb e o u tra p ra p o d er estu d ar o s elem en to s d e cad a

cena pro fo ley, en tão eu sep aro e faço to d as as co zin h as, faço os p asso s, n essa p rep aração já d á u m a

estu d ad a n o tip o d e p asso , d e sap ato s, e aí v ai fazen d o a ex ec u ção p o r p erso n ag em . A í a g e n te m o n ta o s

p iso s, d ep en d en d o à s v ezes eu faço u m m icro fo n e esp ecífico p ra cad a u m o u v o u ap o n tan d o p ra cad a tip o

d e p iso , tem d ad o certo . Q u an d o v o cê faz co rrid o v o cê v ai assistin d o o film e e sacan d o , o farfalh ar eu

faço co rrid o , eu ten to co m eçar p elo farfalh ar, d aí já d o u u m a p rim eira assistid a n o film e, aí p asso s v ai

d ecu p an d o d e u m a m an eira in d u strial.

R o sa n a : Q u a l a fu n çã o d o fo ley n a trilh a so n o ra ?

R ica rd o : O fo ley p ra m im é o co rp o d o s p erso n ag en s. A ch o q u e o q u e m ais eu m e p reo cu p o é ten tar fazer

a co isa, o farfalh ar, o s p asso s, o b rilh o , o s o b j eto s q u e an d am com o p erso n ag em . É o relev o , é o p lan o . E

aí tem tam b ém q u e é im p o rtan te ter a p ré d e d iálo g o p ra eu sab er q u an d o a g en te co n seg u e sep arar a v o z,

q u a l a j a n e l a d o f i l m e , s e v a i s e r s t e r e o o u 5 .1 . E o f o l e y d á f o c o d e c e n a t a m b é m , p o r q u e s e v o c ê t e m u m a

situ ação q u e tá n u m am b ien te g ran d e, m as tem o fo co d a p esso a escrev en d o e rasp an d o o p ap el, e aq u ele

rasp ar o p ap el sig n ifica tu d o p ro film e, e v o cê faz o so n zin h o m e sm o n u m am b ien te g ig an tesco , p o rq u e n a

m ix ag em , ab aix an d o os elem en to s, a m ág ica, co m o d iz o P au lin h o , aco n tece q u an d o n in g u ém percebe

q u e ab aix o u e o so n zin h o d o p assin h o d a fo rm ig u in h a tá g ran d e. E sse p o d er d o fo ley trad icio n al feito n o

estú d io é q u e v o c ê co n seg u e ter o so m puro, com u m a relação sin al ru íd o h ip er ap ro p riad a. E le tem a

fu n ção d e co b rir a d eficiên cia d o so m d ireto , aju d ar a criar o co rp o d o s p erso n ag en s, fo calizar ru íd o s q u e

no am b ien te n atu ral você não co n seg u e cap tar e eu tam b ém co n sid ero m u ito a q u estão da banda

in tern acio n al, se você tem a in ten ção d e fazer a b an d a in tern acio n al sem d escaracterizar o d esen h o d o

film e, p reserv ar, sem o fo ley isso é p raticam en te im p o ssív el.

R o sa n a : O fo ley p o d e ser n a rra tiv o ?

R ica rd o : S im , 1 0 0 % n a r r a t i v o , p r i n c i p a l m e n t e q u a n d o e l e n ã o é o u v i d o .O bom fo ley é aq u ele q u e está lá

n a seg u n d a cam ad a, d an d o u m relev o zin h o , e as p esso as n ão p o d em escu tá -lo , e q u an d o tira, o film e fica

ru im , fica p o b re, n a v erd ad e. C o m um d iálo g o b o m e um ato r b o m , o film e é b o m , m a s ach o q u e essa

p arte d o so m acrescen ta m u ito n a im p ressão , sem co n tar q u e ele te p o ssib ilita fazer o s ru íd o s su b jetiv o s,

você com um bom estú d io d e g rav ação , n u m estú d io d e fo ley v o cê co n seg u e p eg ar h arm ô n ico s d e ferro ,
criar clim as, p rin cip alm en te criar os sam p les in iciais pra d ep o is ad icio n ar efeito s, v o cê cria tu d o . E u

u ltim am en te ten h o feito m u ito árv o res, v en to , am b iên cia co m o fo ley tam b ém , d etalh es q u an d o cab em .

R o sa n a : E a su a estru tu ra d e g ra v a çã o ? D e eq u ip a m en to s?

R ica rd o : A ch o q u e ela é o k . B o n s m icro fo n es, b o n s p ré s d e m icro n o fo n e, p o rq u e o g ran d e lan ce é v o cê

ter u m a relação sin al x ru íd o m áx im a, en tão são eq u ip am en to s caro s p ra lh e d ar isso . E m ais d o q u e a

acú stica p erfeita, u m a sala q u e é b em iso lad a, o n ív el d e ru íd o e x tern o tem q u e ser ali n o s 5 0 d B , 6 0 d B

a s s i m ... N ã o p o d e s e r u m a s a l a a n a e c o i c a , m a s a p a r t e d e r u í d o é i m p o r t a n t e . M a s m e s m o a s s i m a g en te

so fre co m isso , a g en te tem o p ro b lem a d o n o sso cach o rro , o caseiro está d e férias e o cach o rro g o sta

m u ito d ele, en tão o cachorro fica cho rando, daí você põe ele pra en trar, ele fica m eia h o ra q u ieto e

c o m e ç a a r a s p a r a p o r t a ... M a s é t r a n q u i l o .

R o sa n a : F a la u m p o u co d a sa la ?

R ica rd o : E ssa sala m esm o , q u e n a v erd ad e o p ro jeto é p ra sala m aio r q u e n ão está p ro n ta, essa sala em

q u e a g en te faz fo i p en sad a m ais p ra g rav ar v o z, e n a v erd ad e ela tin h a a p o sição in v ertid a d o q u e está

ag o ra, o u seja, a sala d e g rav ação era a m en o r, m as a p arte m en o r, o iso lam en to d ela é m elh o r d o q u e o

q u e a g en te tá h o je. P o r o u tro lad o , a g en te tem o p ro b lem a q u e o p iso lá é em cim a d e o n d e é a casa d o

cach o rro , e aí v irav a u m a m eb ran a e resso av a, e isso era b em ch ato , p o r isso a g en te in v erteu a sala. E

n essa sala tin h a u m a p arte q u e tin h am o s p its d e p ed ra, areia e cim en to , m as q u an d o a g en te m u d o u p ara a

o u tra sala eu fiz o s p its p ra fazer o p asso d e m ad eira, e eu lev o , faço as m in h as ilh in h as q u an d o p reciso d e

areia, vou d o s a n d o ... Porque an tes eu fazia certin h o , m as d ep o is fui vendo que dá pra ir su jan d o , ir

d o san d o p ro q u e p recisa, m ais p reo cu p ad o co m o resu lt ad o so n o ro q u e co m a facilid ad e d e ter a co isa

p ro n ta. O q u e eu lem b ro tam b ém é q u e co m o estav am co n stru íd o s o s p its, eles tin h a u m a p arte d e m ad eira

q u e resso av a, ag o ra eu lem b ro q u e a g en te tin h a co p iad o esse m éto d o co m o era a d a Á lam o , m as a Á lam o

era u m a p u ta sala g ig an tesca, era g en ial, v o cê esco n d ia o p iso , e q u an d o ab ria d av a p ra fazer u m m o n te d e

co isa. É o co n fo rto da execução, você co n seg u e, p rin cip alm en te no com eço, não ir se lim itan d o . O

A n tô n io C é sar fazia só co m um p é, p o rq u e g an h av a tem p o , m as às v ezes é m ais fácil v o cê fazer a an d ad a

m esm o , en tão se v o cê p u d er ter u m m etro , u m m etro e m eio d e cam in h ad a, v o cê co n seg u e fazer u m pra

fren te e p ra trás e v ai d an d o as in ten çõ es. E p rin cip alm en te co m o eu m e lib ertei d o físico , en tão eu m u d o

m u ito o trajeto , en tão eu co n sig o an d ar b astan te fo can d o n o p lan o d o so m , se v em , se sab e q u e v ai, en tão

anda com o p é in teiro , se é secu n d ário eu faço lá atrás, só co m um p é, o u n u m a m arch a m ais fix a, v ai

tiran d o e en tran d o n o eix o , v ai d an d o já u m a co lo ração .

R o sa n a : C o m o v o cê d iv id e o fo ley p ra g ra v a çã o ? Q u a is a s ca teg o ria s?

R ica rd o : P asso s, farfalh ar e o b jeto s. O s to q u es ficam em o b jeto s, co n tato s. Já sep aro u -se m ais, m as co m o

a g en te tá fazen d o a p ré d e fo ley, fica p asso s, o b jeto s e farfalh ar.

R o sa n a : Q u a n to tem p o p ra fa zer u m lo n g a d e 1 0 0 m in u to s? O u u m ro lo d e 2 0 ?
R ica rd o : A í é aq u ela co isa d o o rçam en to , se é u m g ran d e o rçam en to , aí v ão d u as sem an as, eu ch u to 5 0

h o ras, en tre 40 e 50 horas de gravação e 40 ou 50 horas de ed ição . S en d o q u e n ess as h o ras eu faç o ,

escu to , já v o u ajeitan d o a ed ição . E q u an d o é o rçam en to m en o r o u telev isão , d á p ra fazer em u m a sem an a

d e g rav ação , m as aí d u as sem an as d e ed ição .

R o sa n a : Q u a n d o v o cê g ra v a , v o cê g ra v a tu d o o q u e v o cê v ê o u n ã o ? S e v o cê n ã o g ra v a tu d o , co m o

v o cê d ecid e o q u e g ra v a r e o q u e n ã o g ra v a r?

R ica rd o : E ssa é a co isa d e p en sar o d esen h o , e co n h ecer o d ireto r, p o rq u e tem d ireto r q u e q u er escu tar.

E u g o sto d o fo co , o restan te é o rn am en tal e n ão v ale a p en a p erd er tem p o n em en erg ia co m ele p o rq u e ele

v ai d esv iar, v ai ro u b ar en erg ia. E ach o q u e a p recisão d o so m certo n a h o ra certa é o q u e im p o rta. M as

tem essa q u estão d o 3 d , o 3 d m e p arece q u e co m o v o cê tem um fo co n ão fix o , co m certeza aí sim eu acho

q u e c a d a c o i s a ... P o r q u e n a v e r d a d e a g e n t e a c a b a s o n o r i z a n d o o s m o v i m e n t o s , p o r q u e m u i t a c o i s a d o q u e

a g en te so n o riza n ão tem so m n a v id a real, m as é essa co isa: v o cê v ê u m a co isa m ex en d o , v o cê p õ e u m

so n zin h o . N o co m eço eu era assim , ia fazer m ap a e ficav a u m a sem an a p ra fazer o m ap a p o rq u e ficav a

m arcan d o o b alan çar d e t u d o , e d e p o i s v o c ê v a i v e n d o q u e n ã o d á t e m p o d e f a z e r , n o c o m e ç o e r a ... O

S asso falav a assim : p o n h o lá u m co m p resso r fix o e n em m ex o , só lev an to e ab aix o .

R o sa n a : C o m o v o cê tra b a lh o o fo ley co m so m d ireto e co m d u b la g em ?

R ica rd o : C o m so m d ireto v o cê já tem alg u n s ru íd o s e a g en te faz u m co m p lem en to p ra esse so m , a faix a

de freq u ên cia que não tem , a p resen ça q u e n ão tem , a d efin ição q u e n ão tem , é u m p o u co m ais fácil.

Q u an d o v o cê tem q u e reco n stru ir tu d o , aí são p elo m en o s três p assa d as p ra cad a co isa, e p ra co n seg u ir ter

a im p erfeição d a realid ad e: q u an d o v o cê faz a co isa m u ito certin h a e v ai ed itar m u ito certin h o , v ai ficar

falso porque está m u ito certin h o , en tão v o cê tem q u e ter u m a o u tra cam ad a p ra su jar. E é im p o rtan te

lem b rar que aí você tem b astan te ch iad o , p o rq u e co m eça a so m ar o s fu n d o s, m as a ed ição aju d a isso ,

q u an d o v o cê faz o fa d e in e o fa d e o u t é q u ase im p ercep tív el, q u an d o v o cê co lo ca d en tro d o am b ien te, eu

ach o q u e u m a co isa im p o rtan te, reto m an d o co m a q u estão d e q u em g rav a, q u e eu sem p re b ato o p é, é essa

relação , p o rq u e n ão ad ian ta v o cê g rav ar tu d o alto p o rq u e v ai ficar b aix o , tem q u e ter certeza q u e o ru íd o

d e fu n d o seu n ão v ai ficar m ais alto q u e a am b ien te e q u e o so m q u e v o cê está g rav an d o e q u e v o cê v ai

co n seg u ir co lo car n o p lan o d en tro d o so m d ireto , en tão essa n o ção d o q u e é alto e d o q u e é b aix o já n a

g rav ação facilita m u ito p ra g en te, p o rq u e d aí a p ré m ix ag em d o fo ley fica m ais tran q u ila.

R o sa n a : Q u a n d o v o cê v a i g ra v a r, v a i v er a cen a e o ca ra p eg o u u m ob jeto. O q u e v o cê p en sa p ra

esco lh er o seu o b jeto p ra g ra v a r?

R ica rd o : A í é o tim b re, e tam b ém ter n o ção d o q u ão im p o rtan te p ra h istó ria é esse o b jeto . Q u an to m ais

im p o rtan te, m ais fid ed ig n o tem que ser. A ten d ên cia é você b u scar o p ró p rio o b jeto , o m aterial é

fu n d am en tal, o fo rm ato d ele, p rin cip alm en te o m aterial e o fo rm ato , p o rq u e o tam an h o v o cê co n seg u e,

u san d o o m icro fo n e e tam b ém com p itch e essas co isas, você co n seg u e criar o u tra, tran sfo rm ar a

d im en são física d ele.

R o sa n a : Q u a n d o g ra v a , v o cê g ra v a tu d o fla t?
R i c a r d o : A í d e p e n d e , s e e u q u e r o a a r e i n h a m a i s p l i m - p l u m ... D e p e n d e p r i n c i p a l m e n t e d a q u a l i d a d e d o

so m d ireto , n u m so m d ireto m u ito ru id o so , n ão ad ian ta ficar co n co rren d o co m ele, n é? E n tão v o cê v aria,

m as a id eia é q u em está n a técn ica já ter esse p o d er d e d ecisão , d e critério , aí p erg u n ta: v am o s co rtar m ais

ag u d o s? P o rq u e eu g rav o co m fo n e, e tam b ém essa reg u lag em d o m eu fo n e a g en te p erd e b astan te tem p o ,

p o rq u e a id eia é eu ten tar rep ro d u zir n o m eu fo n e o m ix ad o , p ra já fazer tu d o q u ase p ro n to , e sab er se está

alto o u b aix o em relação ao q u e v ai ficar n o fu n d o , e p ra falar a v erd ad e tem u n s d o is o u três m eses q u e a

g en te tá co n seg u in d o acertar m elh o r isso

R o sa n a : V o cê g ra v a o u v in d o o so m d ireto ta m b ém ?

R ica rd o : T am bém , e ela só escu ta a m in h a ex ecu ção . E u ach o im p o rtan te o so m d ireto p o r co n ta d e

ten tar co n tar u m a h istó ria, p ra d ecid ir o q u an to eu v o u co m p etir co m a v o z o u n ão , se v ale a p resen ça o u

não, e p en san d o sem p re já na co isa d ram ática m esm o , o q u e v ale a p en a fazer co m m ais g rav e, m ais

agudo, quando eu faço as am b iên cias, as in ten sid ad es, o so m d ireto é fu n d am en tal, m ú sica tam b ém ,

p a l m a s , d a n ç a ...

R o sa n a : Q uando você tem que gravar um a co isa e não tem a q u i, co m o fu n cio n a a p ro d u çã o d e

o b jeto s?

R ica rd o : E u ten to reso lv er co m tu d o o q u e está aq u i, sen ão tem q u e sair p ra g rav ar, co m p rar, alu g ar, as

v ezes g rav ar em lo cação tam b ém .

R o sa n a : V o lta n d o p a ra o s m icro fo n es, co m o v o cê tra b a lh a a esco lh a e o p o sicio n a m en to ? V o cê fa z

p ersp ectiv a ? U sa o 4 1 6 o u n ã o ?

R ica rd o : E u ten h o u m S M 5 7 , d o is 4 1 6 , u m N eu m an n , u m G arfield , é isso .

R o sa n a : E co m o q u e você grava o q u e?

R ica rd o : U m d o s p rés q u e eu u so é u m p ré d o N ag ra, o s p asso s eu ten h o feito co m ele, e d a í eu u so u m

S M 5 7 e o S en n h eiser. E sse S en n h eiser é p h an to m T , q u an d o eu co m p rei esse N ag ra, u m fo i feito p ara o

o u tro . D aí a co isa da tim b rag em , d a in ten ção , é m ais um o u m ais o u tro , v ia d e reg ra, a ab ertu ra e a

sen sib ilid ad e, a tim b rag em m aio r é a d o S en n h eiser. O S h u re S M 5 7 tam b ém u so p ra ru id ag em , q u an d o

tem u m a co isa d e m u ita p ressão so n o ra, q u e à s v ezes eu tam b ém lig o o sin tetizad o r lá d en tro , b u zin as,

s i r e n e s . E u f a ç o o f a r f a l h a r ... F a ç o r u í d o s q u e t e m q u e t e r p r e s e n ç a d e g r a v e ... A g u d o e g r a v e , c a p s u l a

g ran d e e cap su la d o d irecio n al, o S en n h eiser.

R o sa n a : C o m o é a rela çã o c o m o su p erv iso r e co m o d ireto r q u a n d o ch eg a o film e?

R ica rd o : A g en te assiste, a D éb o ra e a Ju lian a v ão fazen d o essa p arte d e d ecu p ag em , e a D éb o ra tam b ém ,

quando ch eg a o m aterial, sep ara o s d iálo g o s, tro ca o s d iálo g o s, v ê as co b ertu ras, faz o b an co d o film e

in icial. N a sem an a v em o d ireto r e a g en te assiste ju n to , já m eio q u e co m eçad o , já sab en d o o q u e é, e ele

p assa. A v erd ad e é q u e n a g ran d e m aio ria é tu d o m u ito liv re e m u ito o b jetiv o , o q u e é d e d ia é d e d ia e o
q u e é d e n o ite e d e n o ite, o q u e é d en tro é d en tro , o q u e é fo ra é fo ra, n ão tem m u ito o q u e v ariar, q u a n d o

tem , o d ireto r su b lin h a e a g en te v ai acertan d o co m ele. A su p erv isão é ab erta, tem as d iscu ssõ es, m as

to d o s tem b astan te au to n o m ia, é só ter u m b o m arg u m en to e o resu ltad o estar co eren te.

R o sa n a : E d u ra n te o p ro cesso ? V o cê m o stra ro lo s p ra d iscu tir?

R ica rd o : O m eu id eal é co n seg u ir term in ar o film e an tes e sen tar e assistir, e ap o n tar o s d etalh es e o s

d efeito s, m as isso n ão d á tem p o , m as a g en te tem co n seg u id o ap resen tar p ro d ireto r co m to d as as p istas, já

m ais o u m en o s ajeitad o , co m u m a p ro p o sta d e d e sen h o , cad a v ez m ais p ro n to p ra m ix a g em . M as m ais

p ela q u estão q u e aco n tece d e a g en te estar fican d o m en o s n a m ix ag em , p o rq u e n ão tem p o rq u ê . D eix a o

m ix ad o r, o m ix ad o r tem com o q u e se p reo cu p ar, q u e é b astan te co isa, en tão d eix a ele n o tem p o e n o fin al

d o d ia, n as d u as ú ltim as h o ras a g en te v ai e v ê m ais o u m en o s o d ia e v ai ap o n tan d o . O q u e aco n tece, n a

g ran d e m aio ria, é q u e n ó s d o is v am o s, a M iriam v ê as co isas q u e são d a M iriam , e eu v ejo o q u e é m eu . O

m ix ad o r às v ezes n ão tem tem p o d e to m ar co n tato c o m to d as as p istas, aí tem q u e v er o q u e tem que

lev an tar, tro car o ta ke, o s p fx , q u e é u m a co isa p elo q u e a g en te tem b rig ad o b astan te, se co n cen trad o em

sep arar esses ru íd o s, porque o que aco n tece vendo é que as eq u alizaçõ es que você u sa pra voz elas

estrag am o s ru íd o s, q u an d o v o cê tira isso , ele v em com um co rp o m ais p ró x im o , d aí eu n ão p reciso m e

p reo cu p ar tan to co m aq u ele o b jeto so n o ro n a ex ecu ção d o fo ley.

R o sa n a : O q u e v o cê co n sid era co m o ca ra cterística s d e u m b o m fo ley?

R ica rd o : É ele n ão ch am ar a aten ção q u an d o n ão d ev e ch am ar, e ser p o w er q u an d o tem q u e ser, p o rq u e

você tem que pegar p ela su p resa, n a v erd ad e, tem que estar lá p resen te p ra cau sar u m estran h am en to

quando você tira, ou cau sar um estran h am en to quando você exacerba, a cho que poder criar essa

p o ssib ilid ad e. E u p en so assim , a g en te faz com as n o ssas in ten çõ es, co m as n o ssas in terp retaçõ es da

h istó ria, m as ach o q u e o co rreto é, e eu fico tran q u ilo , q u e eu sei q u e se o d ireto r q u iser tirar o d iálo g o ,

v ai ter alg u m a co isa q u e v ai co n d izer, se ele q u iser criar u m a o u tra realid ad e, ele v ai co n seg u ir. E o u tra

co isa q u e ach o im p o rtan te v o cê ter co n tro le, é a d in âm ica so n o ra d o film e, n em tu d o m u ito alto , n em tu d o

m u ito b aix o , se v o cê tem o s elem en to s b em m aleáv eis, v o cê cria ess as sen saçõ es físicas.

R o sa n a : E a p a rte d e in terp reta çã o ?

R ica rd o : T em q u e estu d ar o s p erso n ag en s, p ra u m ato r d ev e ser rid ícu lo , se o cara tá b êb ad o v o cê an d a

assim , se o cara é g o rd o v o cê v ai ten tar m ais p esad o , v ai p en sar p elo tip o d e sa p ato . T u d o m u ito p ró x im o

d a d ireção d e arte, q u e ach o q u e aí ro la a m ág ica d o cin em a, sab er o s d etalh es a q u e v o cê tem q u e estar

aten to , sab er p o n tu ar ou tirar. Se tem um d etalh e que você sab e que não é pra m o strar, v o cê ten ta

m ascarar alg u m a co isa q u e n ão é p ra so ar, o s o m tem isso , v o cê esco n d e o u tro s.

R o sa n a : V o cê tem a lg u m p ro jeto fa v o rito d e fo ley?

R ica rd o : E u g o sto d e to d o s. E u g o stei d e fazer o q u e eu acab ei d e m o strar h o je, q u e é d en tro d e estú d io ,

en tão o so m d ireto está sem n ad a e ele se p assa n o co n v és d e u m b ar co , e a g en te co n seg u iu criar to d o s o s

ran g id o s. E le tá leg al, tem u m as ro u p as, “C id ad e im ag in ária”, d o U g o G io rg etti, q u e é p ra tv . E le está em
p ro cesso , h o je fo i a p rim eira ap resen tação , m as v o cê v ê q u e as o n d as são d e p lástico . V ai ficar claro q u e é

u m cen ário n o estú d io .

R o sa n a : V o cê lem b ra d e a lg u m so m d ifícil d e cria r?

R ica rd o : T em um o u tro , d o s ú ltim o s, q u e é do E d uardo K ish im o to , p ra T v C u ltu ra. N esse film e eu

co m ecei a trab alh ar an tes d a film ag em , p o rq u e a h istó ria é d e u m cara d e trin ta an o s, q u e sai d e casa e lig a

p ra casa, a m ãe d ele aten d e só q u e ele n ão fala, ele só d eix a o am b ien te d o lu g ar. E o E d u ard o n ão q u eria

q u e eu g rav asse d e u m telefo n e d e v erd ad e, m as ele q u eria ter o ru íd o d o cab o d o telefo n e b aten d o n a

cú p u la d o o relh ão , to d a u m a ru id ag em . E u co m ecei g rav an d o d e lig ação , m as ele d isse q u e n ão era isso ,

era n ão real, m as tem q u e id en tificar. A í em casa eu v i q u e o can in h o d a d u ch a d o b an h eiro tem alg o

p arecid o , e eu g rav ei o s sam p les em casa m esm o e p ra cú p u la eu p eg u ei u m a b acio n a, e u m as co rren tes d e

telefo n e an tig o . E m um a das cen as, ele está lig an d o da craco lân d ia e vem a p o lícia e b ate n ele, e o

telefo n e fica b alan çan d o e b aten d o . P eguei a b acia, o telefo n e, u n s cadeados e a g en te m o n to u essa

ru id ag em . O s p asso s à s v ezes são m u ito d ifíceis, p asso s fem in in o s, p ra eu co n seg u ir ch eg ar ao tam an h o

do salto , da p latafo rm a, e fazer so ar p ró x im o ao que está no so m d ireto tam b ém é ... M e s m o que a

so n o r id ad e n ão seja a m ais b o n ita, p ra ele fu n cio n a r ju n to sem b rig ar, e co m p lem en tar, e q u an d o n ão tem

so m d ireto co n tin u ar co eren te, g asta-se b astan te tem p o b u scan d o isso . C o m o tem p o v o cê v ai ap ren d en d o ,

h o je u m lo n g a em q u e o s p erso n ag e n s n ão an d am m u ito já v ai em d o is d ias, eu g rav an d o d u as o u três

h o ras p o r d ia.

R o sa n a : B a sta n te p o n tu a l?

R ica rd o : B astan te p o n tu al e eu co stu m o d e fazer às v ezes d e p rim eira , o u n o m áx im o n a seg u n d a. A s

in ten çõ es, q u an d o b ate fo rte, q u an d o so b e o u d esce escad a, as p arad as, n a v erd ad e eu ap ren d i co m o S eu

A n t ô n i o C é s a r , n a p a r a d a v o c ê d á u m a r a s p a d i n h a ... r i s o s .

R o sa n a : V o cê tem a lg u m ca u so so n o ro ? A lg o q u e o d ireto r p ed iu ? A lg o m a is su rrea l?

R ica rd o : Já fiz x ix i m ascu lin o , x ix i fem in in o , o s d o is co m a lu v a, fu ra o d ed o e v ai b u scan d o o tim b re.

R o sa n a : V o cê tem u m b a n co d e fo ley d a s co isa s g ra v a d a s a q u i?

R ica rd o : T en h o ág u a, v id ro , co isas q u e são m ais ch atas d e fazer, e g en érico s tam b ém , q u an d o tem festa,

o s aleató rio s. N ão p ra ser o p rin cip al, m as p ra so m ar.

R o sa n a : C o m o é a su a rela çã o co m a s eta p a s p o sterio res d e ed içã o , p ré m ix e m ix fin a l?

R i c a r d o : E u a c a b e i m e i o j u n t o t u d o , p o r q u e n ã o a d i a n t a ... E u e n t r e g o p r a m i m m esm o e tem a co isa d e

sin cro n izar co m o so m d ireto , o s efeito s estarem to d o s em sin c ro n ia, to d o s o s ataq u es, até d esen v o lv er o

m éto d o e ch eg ar n a m ix ag em tu d o crav ad o . A n tes, q u an d o a g en te n ão receb ia a p ré d e d iá lo g o , a g en te

fazia co m a ed ição o sin cro n ism o , e ch eg av a n a m ix ag em , n a h o ra d e lev an tar o fo ley, tav a tu d o fo ra,

p o rq u e tem o d ela y d e g rav ação d a p ré d e d ialo g o .
R o sa n a : V o cê já m u d o u o jeito d e g ra v a r d ep o is d e o u v ir a m ix fin a l?

R ica rd o : S im , sem p re, porque fu n cio n av a lin d am en te aq u i, m as na hora de co lo car com os o u tro s

elem en to s m ix ad o s, n ão fu n cio n av a. O m éto d o que eu ten h o h o je fo i ten tan d o m e p ro teg er, p o rq u e o

d esg o sto d o ed ito r n a m ix ag em é v er q u e o so m d ele está fraco , está falh an d o , p erd en d o tem p o p ra ab rir,

p ra ed itar n a m ix ag em . E v o cê tem a resp o n sab ilid ad e d o cu sto /h o ra, q u e n a m ix ag em é m u ito alto , é u m a

p ressão q u e a g en te tem q u e é m u ito alta. P recisa b u scar g rav ar co m a p ré d e d iálo g o , p o rq u e a p arte

técn ica, m esm o essa q u estão d e m icro fo n es, n ão é fix a. É m u ito d e co m o está a so n o rid ad e d o film e, d e

co m o v ai ser a so n o rid ad e d o film e, e sem p re ex p erim en ta -se u m p o u q u in h o , p o rq u e n ad a fica tão certo e

n ad a fica tão errad o , tem q u e estar p reciso p ro film e.

R o sa n a : Q u em ed ita ? V o cê en treg a v á ria s o p çõ es?

R ica rd o : A Ju lian a, e a g en te v ai d ecid in d o n a h o ra. E u m ais d o q u e ela.

R o sa n a : Q u em estru tu ro u o fo ley a q u i n o estú d io ?

R ica rd o : A M iriam , cad a u m q u e v eio e sem p re tro u x e o b jeto s, cad a u m q u e p a s s o u ... A g en te v ai se

estru tu ran d o , p o rq u e a sala n ão está p ro n ta, tem o so n h o n o sso d e co n stru ir a n o v a sala.

R o sa n a : E a s ca teg o ria s? V eio d a M iria m lá d e fo ra ?

R ica rd o : V eio u m p o u co d o S eu A n tô n io , m as ach o q u e essa estru tu ra v eio d a M iriam , p o rq u e a g en te

c h a m a v a d e p r o p s , o s m a p a s ... P o r q u e e l a c o m e ç o u e d i t a n d o r u í d o d e s a l a , e n a q u e l a é p o c a e r a m grandes

eq u ip es, era su p er co m p licad o , as co res, co rtar co m g ilette. E u lem b ro q ela tin h a u m blocão de m apa, que

ela u sav a p ré d ig ital, e co m o era g ro sso o b lo co ele so b rev iv eu à m u d an ça d e tecn o lo g ia, ach o q u e até

h o j e t e m a í , s o b r o u ...

R o sa n a : U m a co isa q u e sem p re a p a rece n a s en trev ista s é q u e a s p esso a s a p ren d e m v en d o co isa s n a

in tern et , m a k in g o f , v o cê ta m b ém tem essa p ro cu ra ?

R ica rd o : T en h o , m as a m in h a p ro cu ra m aio r sem p re fo i n o o u v id o , n as co isas.

R o sa n a : A lém d e lo n g a e cu rta o q u e m a is v o cês tem feito co m fo ley?

R ica rd o : P ra telev isão a g en te tem feito em to d o s, e tem um p ro jeto d e rad io n o v ela q u e esto u v en d o co m

u n s am ig o s, v am o s v er se d esen v o lv e p ro seg u n d o sem estre.

R o sa a : Q u a l a su a p ersp ectiv a d e fu tu ro d a p ro fissã o ?

R ica rd o : E u ach o q u e se n ão in v en tarem o p ro g ram a, q u e d ev e estar p ró x im o já, u m q u e v eja o o b jeto e

an alise o tim b re, é um trab alh o que vai p recisar sem p re ter, p rin cip alm en te na q u estão de banda

in tern acio n al, e acab am en to , n é? E u ach o d ifícil p ra lin g u ag em au d io v isu al co m o a g en te tem h o je, ficar

sem um esp ecialista d e so m , só o so m d ireto , a n ão ser q u e d esen v o lv am , sei lá, u m m icro fo n e q u e fiq u e
in v isív el às câm eras. M as m esm o assim v ai ter q u e ter alg u ém p ra p elo m en o s su p erv isio n ar a m áq u in a

q u e v ai m ix ar tu d o . A ch o q u e tem o so n o p lasta q u e n ão é n o cin em a, tem n o teatro , n o rád io , en tão é u m a

artesan ia q u e é leg al e tem q u e ter, essa co isa d e to car, d e fazer v ib rar.

R o sa n a : V o cês n ã o fa zem fo ley p a ra fo ra ?

R ica rd o : T ev e u m a ép o ca em q u e a g en te p en so u em f a z e r , q u e é e s s a c o i s a ... F i c a c o n f o r t á v e l p r a m i m

porque eu m ais o u m en o s d ecid o co m o v ai ficar a co isa, p o rq u e v o cê p o d e fazer u m fo ley b u ro crático ,

n iv elar tu d o , en treg ar tu d o reto , m as aí pra m im fica ch ato , triste, fica m ecân ico . C laro q u e 9 9 % d o

trab alh o é m ecân ico m esm o . E u fu i d ar u m a au la n o M IS e d aí p erg u n taram se n ão era ch ato faze r so m

p r a t u d o . N ã o é b u r r o ? N ã o q u e r e n d o d e s m e r e c e r o p o d e r c r i a t i v o ... M a s o f i l m e n ã o é m e u . E u t o l á p r a

reso lv er o u tro s p ro b lem as, e tem a d em an d a, v o cê tem q u e ter o so m d o film e sem o s d iálo g o s. M as q u e

d á p ra fazer, d á p ra fazer tu d o , v o cê p o d e fazer u m film e in teiro n o fo ley, faz v en to co m a boca, grava a

água, m as o que aco n tece realm en te é o tem p o de ex p eriên cia e v o cê d ep en d e d e in stru m en to s, sab er

m ex er, en ten d er co m o fu n cio n a p ra ten tar tirar o m el h o r d eles.

R o sa n a : A su a rela çã o co m o fo ley é a m a is d iferen te d e to d a s, a ch o q u e v o cê é o m a is p o d ero so

en tre n ó s, o s a rtista s, m in h a s p ergu n tas acab aram , m as q u eria sa b er se você tem a lg o m a is p ra

fa la r d e fo ley, já q u e a ed içã o ta m b ém é su a , d e efeito s, é tu d o in teg ra d o , n é?

R ica rd o : A g en te am arra, a Ju lian a, a D éb o ra e M iriam tam b ém ed itam b astan te. E u ach o q u e ele é, d o s

co m p o n en tes d a trilh a d e so m , essa técn ica, é im p o rtan tíssim a, ach o q u e ela tem um to m p erjo rativ o lá d o

co n tra-reg ra, d o so n o p lasta p en san d o n o cara d a rad io n o v ela, m as é leg al p ra caram b a. V o cê faz co isas

in u sitad as co m resu ltad o s o b jetiv o s, ach o q u e é ter essa p aciên cia, g o star d e escu tar, g o star d e in terp retar,

g o star d e tirar so m d as co isas.

R o sa n a : A im p ressã o q u e eu ten h o d a su a rela çã o co m o fo ley é d e q u e ele é u m d o s in stru m en to s

q u e v o cê u sa p ra p en sa r a so n o rid a d e d o film e co m o u m to d o .

R ica rd o : H o je eu co n sig o reso lv er m u ita co isa co m ele, e o q u e é leg al é essa co isa d e v o cê n ão u sar o

b an co , d e ter sem p re u m a so n o rid ad e n o v a. N ão tem n ad a m u ito certo , sem p re v ai ter q u e m ex er, v ai ter

q u e au m en tar o u b aix ar v o lu m e, à s v ezes m ex er a p arte d o s o b jeto s, p assar fita, m u d ar o tim b re d o o b jeto ,

p en sar em co m o d eix ar m ais g rav e, m ais ag u d o , se está co m b in an d o co m o co rp o , e iss o é d a v iv ên cia. E

escu tar o m u n d o . N ão é ato a q u e eu saí d o b an co g an h an d o u m q u arto d o q u e eu g an h av a, e m in h a fam ília

in teira m e ach o u lo u co . E eu d em o rav a d u as h o ras p ra ch eg ar, e n o co m eço eu ficav a 1 2 o u 1 3 h o ras n a

b o a, só q u e u m d ia eu v o ltei p ra c asa, d o rm i n o v o lan te e b ati o carro , fo i q u an d o eu saí d e casa e v im

m o rar aq u i p erto , m o ro p erto d o trab alh o até h o je e co n tin u o p assan d o u m as d ez h o ras p elo m en o s n o

estú d io .