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O Regresso do Filho Pródigo

Meditações
perante um quadro de Rembrandt

Colecção CAMINHOS DO ESPÍRITO (Títulos mais recentes)

O Regresso do Filho Pródigo – Meditações perante um quadro de Rembrandt (7ª ed.)
Henri J. M. Nouwen
Este Combate Não é Teu... (2ª ed.)
Paulette Boudet
Alegria de Crer e de Viver (2ª ed.)
François Varillon, S.J.
Ser Cristão à Luz do Vaticano II
Manuel Morujão, S.J.
Viver com Qualidade – Virtudes humanas e cristãs (2ª ed.)
Manuel Morujão, S.J.
Verdades para Hoje
Dário Pedroso, S.J.
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Carminda de Sousa Marques
O Vento Sopra Onde Quer
Luís Rocha e Melo, S.J.
Sublime Vida Comum – Viver por dentro a vida
Manuel Morujão, S.J.
O Céu, Onde Deus Nos Espera Para Sempre
Francisco Sousa Monteiro
Ver o Invisível
Dário Pedroso, S.J.
Diário de um Cristão
David Kaleb
Crescer como Pessoa e como Cristão
António José Coelho, S.J.
A Vida do Irmão Roger – Fundador de Taizé
Kathryn Spink
Um Olhar de Fé
Carminda de Sousa Marques
Caminhar Juntos na Fé
Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI)
Nuvem de Poeira
Dário Pedroso, S.J.
Diálogos com Cristo
Dário Pedroso, S.J.
Meditações sobre a alegria
António Coelho, S.J.
Receitas de humanização
Manuel Morujão, S.J.
Geração JMJ – 25 anos das JMJ – 25 histórias pessoais
Cristina Larraondo Erice e Ana Larraondo Erice
Caminhar à luz de um pontificado – O grande «sim» de Deus
Ramiro Pellitero

Henri J. M. O. Nouwen O Regresso do Filho Pródigo Meditações perante um quadro de Rembrandt 7ª edição Editorial A. .

O. Nouwen Published by arrengement with Doubleday.pt/livros@snao.apostoladodaoracao.: 253 689 440 * Fax: 253 689 441 www. Tradução Margarida Maria Osório Gonçalves Na capa O Regresso do Filho Pródigo (pormenor) – Rembrandt Museu do Hermitage (Sampetersburgo – Rússia) Capa (arranjo gráfico) Virgílio Cunha – Editorial A. Inc.M. Paginação Editorial A. Barnabé. 32 – 4710-309 BRAGA Tel. by Henri J.pt . Título original The return of the Prodigal Son Copyright © 1992. O. – Braga Impressão e Acabamentos Tadinense – Artes Gráficas Depósito Legal nº 359897/13 ISBN 978-972-39-0311-9 7ª edição Maio de 2013 Com todas as licenças necessárias © SECRETARIADO NACIONAL DO APOSTOLADO DA ORAÇÃO Rua S. a division of Bantam Doubleday Dell Publishing Group.

Ao meu pai. Laurent Jean Marie Nouwen. nos seus noventa anos .

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o pai avistou-o e teve compaixão. O filho co- meçou a dizer: «Pai. pequei contra o céu e contra ti. Trata-me como um dos teus empregados». na má vida. Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar necessidade. Quando ainda estava longe. O mais novo disse ao pai: «Pai. abraçou-o e cobriu-o de beijos. Poucos dias depois. Quando já tinha gasto tudo. Mas o pai disse aos empregados: «Trazei de- pressa a melhor túnica para lhe vestir. Foi pedir trabalho a um homem do lugar. Correu-lhe ao encontro. mas nem isso lhe davam. pequei contra o céu e contra ti. já não mereço chamar-me teu filho. 11-32). vou ter com o meu pai e dizer-lhe: Pai. História de dois filhos e do seu pai Um homem tinha dois filhos. colocai-lhe um anel no dedo 7 . partiu para um país distante. E o pai dividiu a herança entre ambos. disse consigo: «Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura e eu aqui a morrer de fome! Vou meter-me ao caminho. que o mandou guardar porcos nos seus campos. dá-me a parte da herança que me cabe» (Lc 15. Então. reflectindo. e por lá esbanjou toda a fortuna. O rapaz queria matar a fome com a vianda que os porcos co- miam. Já não mereço chamar-me teu filho». o filho mais novo juntou tudo o que era dele.

matas-lhe o novilho gordo». matai-o. Mas temos que nos alegrar e fazer festa porque este teu irmão estava morto e tornou a viver. já perto de casa. Ide buscar o novilho gordo. O pai respondeu-lhe: «Filho. O pai saiu e pôs-se a convencê-lo. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver. Chamou um dos criados e per- guntou o que era aquilo. ouviu a música e as danças. que gastou os teus bens com prostitutas. Mas ele respondeu ao pai: «Eu trabalho para ti há muitos anos sem nunca desobedecer às tuas ordens e nunca me deste um cabrito sequer para fazer uma festa com os meus amigos. 8 . tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. E todos começaram a festejá-lo. estava perdido e foi encontrado». O criado respondeu: «O teu irmão voltou e o teu pai matou o novilho gordo porque o recuperou são e sal- vo». e vamos fazer um banquete. O regresso do filho pródigo e sandálias nos pés. Ao voltar. Mas mal chega esse teu filho. estava perdido e foi encontrado». Ele ficou com raiva e não queria entrar. O filho mais velho andava no campo.

os meus olhos repararam num grande cartaz 9 . XX à procura do sentido da vida. Enquanto conversávamos. Prólogo Encontro com um quadro O cartaz Um encontro aparentemente insignificante com um cartaz em que se via um pormenor de O Regresso do Filho Pródigo de Rembrandt. Os protagonistas desta aventura são: um quadro do século XVII e o seu autor. uma co- munidade que recebe pessoas com doenças mentais. Fundada em 1964 por um canadiano. onde estava a passar alguns meses em A Arca. A história começou nos finais de 1983. França. a comunidade de Trosly é a primeira das mais de noventa comunidades A Arca espalhadas por todo o mundo. I e o seu autor. foi para mim o início de uma longa aventura es- piritual que me levaria a entender melhor a minha vocação e a cobrar novas forças para viver. e um homem do séc. na aldeia de Trosly. uma parábola do séc. Jean Vanier. Um dia fui visitar a minha amiga Simone Landrien ao pe- queno centro de documentação da comunidade.

pedi a Simone: «Fala-me daquele cartaz». não sei explicar-te o que sinto ao olhar para ele. lutara incansavelmente pela justiça e pela paz. disse eu. «Sim». Sentia-me atraído por aquela intimidade entre as duas figuras. Ao dar conta de que já não estava a prestar atenção à con- versa. é que me transportaram para onde ainda nunca tinha estado. podes comprá-la em Paris»... fora capaz de enfrentar. A tal ponto que quase nem podia andar. Ela respondeu: «Oh!. sem medo. de Rembrandt. Sentia-me preocupado. ao longo de seis semanas esgotantes. Já não consegui despregar dele os olhos. Mas agora. 10 . balbuciei: «É muito bonito. Sobretudo as mãos. mas estou profunda- mente comovido». Durante toda a viagem. por fim. que tocava ternamente nos ombros de um rapaz em desalinho. mais que boni- to. Vinha realmente cansado. inquieto e muito desam- parado. ajoelhado na sua frente. Vi então um homem.. O regresso do filho pródigo pendurado na porta. dá-me vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. fora um combatente forte e valoroso. as trevas do mundo. é uma reprodução de O Regresso do Filho Pródigo. o amarelo dourado da túnica do rapaz. Simone acrescentou: «Tens de arranjar uma cópia. Gostas dele?» Continuei a olhar fixamente para o cartaz e. as mãos do ancião. Quando vi O Regresso do Filho Pródigo pela primeira vez. o vermelho quente do man- to do homem.. a maneira como tocavam nos ombros do rapaz. e a luz misteriosa que envolvia ambos. onde. revestido de um enorme manto vermelho. «tenho que adquirir uma cópia». tinha acabado de chegar dos Estados Unidos. viajara por toda a parte proferindo conferências e apelando às comunidades cristãs para que fizes- sem todo o possível por evitar a violência e a guerra na América Central.

O Regresso do Filho Pródigo permanecia comigo e continuava a dar mais sentido à minha 11 . mas o abraço de Rembrandt continuava gravado no meu coração mais profundamente que qualquer outra expres- são de apoio emocional. a chorar. um lugar onde me sentisse em casa própria. envolvido em inúmeros assuntos e presente numa multiplicidade de lugares. o meu coração deu um baque. De facto. Encontro com um quadro mais parecia uma criança pequena que. Estava neste estado quando me encontrei. pela primeira vez. pendurado na porta do escritório de Simone. por um lar estável. aquele terno abraço entre pai e filho exprimia tudo quanto desejava naquele momento. Ao vê-lo. Tinha-me posto em contacto com algo dentro de mim. queria que me abraçassem. por um sólido sentimento de segurança. Era apenas o filho que regressa a casa. se foram embora. e não queria ser outra coisa. procurava um lar onde me sentisse a salvo. Durante muito tempo. aconselhando e consolando. Depois de tão longa viagem. gatinha até ao regaço da mãe. fiquei acabrunhado pela solidão e facilmente me teria deixado vencer pelas vozes sedutoras que me prometiam descanso físico e emocional. que me louvavam ou criticavam. para além dos altos e baixos de uma vida ata- refada. algo que representa o anelo progressivo do espírito hu- mano. suplicando. tinha andado de um lado para o outro: lutando. Logo que as multidões. Muitas coisas aconteceram nos meses e anos seguintes. com O Regresso do Filho Pródigo de Rembrandt. Agora só queria descansar num lugar que pudesse considerar meu. eu era o filho esgotado pelas longas viagens. o anelo pelo regresso final. O enorme cansaço desapareceu e voltei às minhas aulas e às minhas viagens. Enquanto continuava ocupado com muita gente.

mas que. Nunca pensei ter 12 . É que mesmo antes de me ter interessado por esta obra. A intenção desta mudança era averiguar se seria chamado a viver uma vida de dedicação a pessoas com doenças mentais numa das comunidades de A Arca. A minha reacção imediata foi: «Vou ver o quadro original». O quadro Pouco antes de deixar Trosly. Durante esse ano de transição. para o Hermitage de Sampeters­ burgo (que. Dois anos depois de ter visto o cartaz de Rembrandt. onde passei um ano inteiro. A ânsia por um lugar estável. recebi um convite dos meus amigos Bobby Massie e sua mulher. a Grande. senti-me especialmente próximo de Rembrandt e do seu Filho Pródigo. reivindicou o seu antigo nome de Sampetersburgo) e que ali se conservava. que penetrara na minha consciência graças ao quadro de Rembrandt. em Trosly. foi cres- cendo. recentemente. já sabia que o original tinha sido adquirido em 1766 por Catarina. para ir com eles à União Soviética. passou a chamar-se Lenine- grado. Ao fim e ao cabo. a comunidade de A Arca em Toronto. depois da revolução. demiti‑me do lugar de professor da Universidade de Harvard e voltei a A Arca. e o pintor passou a ser para mim um fiel companheiro e guia. O regresso do filho pródigo vida espiritual. Era como se o meu companheiro holandês me tivesse sido dado como companheiro especial. procurava um novo lar. Dana Robert. Antes do fim do ano já tomara a decisão de fazer de A Arca o meu novo lar e de ingressar em Daybreak. tornou-se mais forte e mais profunda.

após uma viagem esgotante. de braços abertos. significara. O laço dessa relação – tinha a certeza – era O Regresso do Filho Pródigo de Rembrandt. Fosse como fosse. me era desconhecida. quando Rembrandt pintou O Regresso do Filho Pródigo. tinha a sensação de que esse quadro me faria penetrar no mis- tério do regresso ao lar de uma forma que. deixar o mundo dos professores e dos estudantes e viver numa comunidade dedicada a cuidar de homens e mulheres com doenças mentais. «voltar para casa» significava. Logo que soube que partiria. e que deseja ter-me ao pé de Si num abraço eterno. emoções e senti- mentos durante a maior parte da minha vida. No entanto. caminhar passo a passo em direcção ao Único que está à minha espera. para mim. Embora estivesse ansioso por admirar. como que voltar para casa. um país que tão forte influência tivera nos meus pensamentos. isso acabava por ser muito secundário em comparação com a oportunidade de me sentar em frente do quadro que me revelara os mais profun- dos anseios do meu coração. era também uma forma de voltar para casa. mais que tudo isso. Sentia que se 13 . ter vindo para um lugar protegido. até então. com os meus próprios olhos. Sabia que Rembrandt entendera profundamente este regresso espiritual. O facto de. Encontro com um quadro oportunidade de o ver tão depressa. compreendi que havia uma estreita relação entre a decisão de me ligar a A Arca e a visita à União Soviética. já levava uma vida que revelava não ter dúvidas nenhumas sobre o seu verdadeiro e último lar. para mim. Sabia que. conhe- cer o povo de um país que se isolara do resto do mundo por meio de muros e fronteiras fortemente vigiados. fez-me sentir outra vez em casa.

É muito meu amigo. porém. Ter a possibilidade de reflectir tranquilamente sobre O Regresso do Filho Pródigo no Hermitage. que nessa altura residia na União Soviética. 14 . depressa se desvaneceu. O regresso do filho pródigo tivesse conhecido Rembrandt no local onde pintou aquele pai com o seu filho. prometer ir ter comigo a uma das portas late- rais. Suzanne é perita em cultura e arte russas. convidou- -nos a passar alguns dias com ela. e o seu livro The land of the Firebird foi-me muito útil para preparar esta viagem. Ao avistar a enorme fila de pessoas à espera de entrarem no museu. Deus e humanidade. Tal inquietação. Tive também a esperança de. num circuito de amor. Terás todo o tempo que qui- seres e precisares». não te preocupes. A nossa viagem oficial terminava em Sampetersburgo e a maior parte do grupo regressou a casa. é outra. através da obra-prima de Rembrandt. Perguntei a Suzanne: «Como hei-de chegar ao pé do Filho Pródigo?» Ela respondeu: «Olha. Estar em Sampetersburgo é uma coisa. No segundo dia em Sampetersburgo. vir um dia a ser capaz de exprimir tudo quanto desejava dizer sobre o amor. no seu amável sotaque inglês. perguntei a mim mesmo como e durante quanto tempo iria poder ver o que desejava. compaixão e miséria. Telefona-lhe e ele ajudar-te-á a chegar junto do teu filho pródigo». Suzanne deu-me um número de telefone e disse: «É o número do escritório de Alexei Briantsev. teria ficado a saber tudo sobre a vida e a morte. Henri. Marquei imediatamente o número e fiquei surpreendido por ouvir Alexei. Mas a mãe de Bobby. Suzanne Massie. afastada da entrada reservada aos turistas.

Tudo isto me impressionou muito mais intensamente do que jamais pudera imaginar. Era uma sala espaçosa. castanhos e amarelos. E ali fiquei eu diante do quadro que trazia no coração há quase três anos. poucos minutos depois. caminhando à beira do rio Neva. Mas não. dia 26 de Julho de 1986. mas. fui ao Hermitage. Havia quadros por todo o lado. sobretudo. envolto em luz e rodeado de quatro misteriosos especta­ dores. Conduziu- -me por uma série de corredores sumptuosos e nobres escada- rias até um local inacessível aos turistas. a abundância de ver- melhos. e ali me deixou. Entrei e uma pessoa que estava sentada a uma grande secretária deixou-me utilizar o telefone interno para chamar Alexei. que ocupavam cerca de metade da sala. ordenou ao guarda que não me importunasse. Depressa percebi que Alexei era o director do departamento de restauro do Hermitage. os fundos sombreados e os pri- meiros planos luminosos. Maravilhado com a sua beleza majestosa: o tamanho. Encontro com um quadro No sábado. Levou-me directamente ao Filho Pródigo. bancos cobertos de papéis e objectos de todo o género. de tectos altos. che- guei à porta que Alexei me tinha indicado. às duas e meia da tarde. Este apareceu. A sua grandeza e esplendor relegavam 15 . o abraço entre pai e filho. maior que o tamanho natural. muito pelo contrário. Tinha havido momentos em que me interrogara sobre se o original não me desiludiria. umas mesas enormes. e fez-me uma calorosa recepção. parecia o estúdio de um artista de certa ida- de. Com grande amabilidade e muito interesse pelo meu desejo de con- templar o quadro de Rembrandt demoradamente. ofereceu- -me toda a ajuda de que precisasse.

Às quatro horas. para assimilar que estava verdadeira- mente na presença do que. Sentado ali. o sol iluminou o quadro com uma intensidade diferente. ao longo de tanto tempo. À medida que a tarde decorria. a contemplar O Regresso do Filho Pródigo durante todo o tempo que quisesse. O quadro estava exposto da maneira mais apropriada. O regresso do filho pródigo tudo o resto para segundo plano. com dois metros e meio de altura por quase dois de largura. mais profundo. para gozar do facto de estar só. É um quadro a óleo sobre tela. e as figuras de trás – algo confusas durante as primeiras horas – pareceram sair dos seus recantos obscuros. formando um ângulo de oitenta graus. fui dando conta de que havia 16 . Pouco a pouco. perdão e cura interior. a luz do sol ia-se tornando mais directa e esti- mulante. à medida que o meio da tarde se aproximava. Muitos grupos de turistas foram passando rapidamente com os seus guias. tinha que- rido ver. mas também o irmão mais velho e as outras três figuras. Estar aqui era. realmente. numa parede que recebia luz natural em cheio através de uma grande janela que ficava perto. O abraço entre pai e filho parecia mais forte. sentado no Hermitage de Sampetersburgo. Agora estava a ver o original! Não só via o pai a abraçar o filho recém-chegado a casa. voltar para casa. Foi preciso algum tempo para me dar conta de que estava ali efectivamente. a luz se tornava mais intensa. e os espectadores participavam mais directamente naquele misterioso acontecimento de reconciliação. enquanto eu permanecia sentado numa das cadeiras forradas de veludo vermelho que estão em frente dos quadros. dei conta de que. Apenas olhava.

com aquele gracioso baile da natureza e da arte. Por causa do ângulo a partir do qual o sol da manhã iluminava o quadro. sugeriu-me que precisaria de descansar e convidou-me para um café. o verniz reflectia uma luz confusa. Com um sorriso compassivo e um gesto de conforto. Mostraram-se surpreendidos e perplexos com as minhas reflexões e observações espirituais. Escutaram-me muito aten- tamente e pediram que lhes contasse mais. Depois do café voltei para o quadro durante outra hora. que iam fechar o museu e que eu já ali estivera bastante tempo. tinham de- corrido mais de duas horas desde que se fora embora. deixan- do-me sozinho com o quadro. por sinais. facto esse que não posso deixar de contar. Sem que me tivesse apercebido. queijo e doces. muito claramente. 17 . Conduziu-me pelos majestosos vestíbulos do museu – a maior parte do qual foi residência de Inverno dos czares – até à zona de trabalho onde estivéramos anteriormente. Alexei regressou. Alexei e o seu colega tinham preparado uma enorme bandeja com pão. Tanto Alexei como o seu companheiro explicaram-me tudo quanto sabiam sobre o quadro de Rembrandt e mostraram- -se ansiosos por saber a razão do meu tão grande interesse por ele. e insistiram comigo para provar de tudo. Encontro com um quadro tantos quadros do Filho Pródigo quantos os jogos de luz e fi- quei fascinado. até que o guarda e a mulher das limpezas me fizeram saber. Desta vez aconteceu-me um facto divertido. durante bastante tempo. Quatro dias mais tarde voltei a visitar o museu. Tomar o café da tarde com os restaura- dores do Hermitage nunca estivera nos meus planos quando sonhava passar um bocado a sós com O Regresso do Filho Pródi- go.

com abundantes palavras e gestos. O guarda ficou ainda mais zangado. O regresso do filho pródigo Por isso peguei numa das cadeiras forradas de veludo vermelho e levei-a para um local de onde aquela luz tinha menor inten- sidade. de repente. Alexei veio ver o que estaria eu a fazer. Aproximou-se e. ficou muito aborrecido com o meu atrevimento de pegar na cadeira para a pôr noutro sítio. Então o guarda zangou-se com a guia e. ordenou-me que repusesse a cadeira no seu lugar. embora continuando a discordar. apontei primeiro para o sol e depois para a tela. disse-me que me sentasse em cima do radiador que estava por baixo da janela. de maneira que fui pôr a cadeira no lugar onde estava antes e sentei-me no chão. Mas a primeira guia que passou com o seu grupo de turistas veio ter comigo e disse-me. Fazendo novos e animados gestos para tentar captar a minha simpatia. Evidentemente. disse-lhe que tinha sido ele quem me deixara sentar no radiador. em tom severo. dali poderia ver bem. Quando o guarda – um rapaz novo e muito sério. Como res- posta. Minutos mais tarde. O guarda aproximou-se logo dele e entabularam ambos uma longa con- versa. podendo assim ver nitidamente as figuras do quadro. A guia. o guarda esforçava-se por explicar o que acontecera. proferindo um grande aran- zel em russo acompanhado de uma série de gestos universais. para ten- tar explicar porque tirara a cadeira do sítio. resolveu voltar para junto dos turistas que estavam a ver Rem- brandt e perguntavam qual o tamanho das figuras. Alexei foi-se 18 . Então. Os meus esforços não tiveram êxito nenhum. envergando gorro e uniforme militar – viu o que eu fizera. mas a discussão prolongava-se tanto que pensei que algo de insólito se lhe iria seguir. que saísse de cima do radiador e me sentasse numa das cadeiras de velu- do.

senti-me um pouco culpado por ter provocado tal revolução e pensei que apenas conseguira que Alexei ficasse aborrecido comigo. colocou a cadeira diante do quadro e convidou-me a sentar-me nela. Ao fixá-lo nos olhos. Ao afastar-me do quadro. vindo de qualquer pon- to daquele palácio de Inverno. Tinha a minha própria cadeira e já nin- guém me levantaria objecções. Nunca o saberei. De repente. Alexei. Interro- guei-me sobre se alguma vez. Eu tam- bém sorri e ambos nos sentimos salvos. tomando notas do que os guias e os turistas diziam. 19 . dez minutos mais tarde. vi. e de que forma. Elegante burocracia! Perguntei a mim mesmo se alguma das figuras do quadro. e de quanto eu próprio experimentava. estaria a sorrir. aquele precioso tempo passado no Hermitage viria a dar fruto. sorrimos. achei tudo aquilo muito cómico: três cadeiras vagas em que não podia tocar e um luxuoso cadeirão que me era oferecido. no mais profundo do meu ser. que podia deslocar para onde me apetecesse. Passei mais de quatro horas com O Filho Pródigo. do que via graças à intensidade com que o sol iluminava o quadro. carregando um enorme e confortável cadeirão de veludo vermelho e pés pintados de purpurina dou- rada. Alexei voltou. sob aquele gorro russo. à medida que me tornava parte integrante da história que Jesus contou certo dia e que Rembrandt pintou mais tarde. um homem como eu: receoso e com grandes desejos de ser perdoado. O rosto abriu-se-lhe num lindo sorriso. Só para mim! Com um rasgado sorriso. Encontro com um quadro embora. aproximei-me do jovem guarda e tentei exprimir-lhe a minha gratidão por me ter aguentado durante tanto tempo. No entanto. que tinham sido testemunhas de toda a cena. o guarda e eu. Por momentos.

convencido de ter feito a opção certa. chegara a hora de acreditar que Deus ama os pobres de espírito de uma maneira especial e que. Em- bora tivesse passado um ano inteiro a estudar a minha vocação e a discernir se Deus me chamaria a uma vida dedicada a pes­ soas com doenças mentais. Menos ainda sabia como anunciar o Evangelho de Jesus a pessoas que escutavam mais com o coração que com a inteligência e que eram muito mais sensíveis à maneira como eu vivia do que às minhas palavras. em Sampetersburgo. Aprendi a dar aulas e a escre- ver livros. a discutir e a analisar. estava convencido de que. Anteriormente. mas com o coração muito apertado por não saber o que me esperava. nunca prestara grande atenção a pessoas com doenças mentais. O regresso do filho pródigo O acontecimento Algumas semanas depois da minha visita ao Hermitage. Cheguei a Daybreak em Agosto de 1986. se o fazem. sentia-me ainda inquieto e duvida- va da minha capacidade de o fazer bem. Dediquei-me completamente aos estudantes universitários e seus problemas. eles tinham muito para me oferecer a mim. fui para A Arca de Daybreak. quase não fazia a menor ideia de como comunicar com homens e mulheres que quase não falam e que. Portanto. não se interessam minima- mente por argumentos lógicos nem pelas opiniões bem funda- mentadas. para aí viver e trabalhar como animador da comunidade. a explicar as coisas sistematicamente. Apesar de tudo. a pôr títulos e subtítulos. Muito pelo contrário. depois de mais de vinte anos de aulas. embora eu tivesse muito pouco para lhes ofere- cer. em Toronto. 20 .

e que tive inúmeras conversas com directo- res espirituais. Encontro com um quadro Uma das primeiras coisas que fiz assim que cheguei. O lugar de trabalho que me era des- tinado. pareceu-me o ideal. Mas será que ousei alguma vez chegar ao fundo essencial. ao longo de toda a vida. que es- tavam de pé. Às vezes lançava 21 . mas nunca renunciei completamente ao papel de espectador. de qualquer ponto onde me sentasse a ler. foi procurar um local adequado para colocar a reprodução de O Regresso do Filho Pródigo. Ao reflectir sobre o meu próprio trabalho. Embora tenha tido. pelo papel de observador distante. muitos dias e meses em retiro. Podia ver aquele misterioso abraço entre pai e filho. em torno do espaço luminoso onde o pai dava as boas-vindas ao filho. ajoelhar-me e deixar-me abraçar por um Deus misericordioso? O simples facto de ser capaz de dar uma opinião. e ainda me dá. uma sensação de controlo. optei. tornava-me cada vez mais consciente do longo tempo em que desempenhei o papel de espectador. Esses mirones ou espectadores prestavam-se a todo o tipo de interpretações. que se convertera no rumo íntimo da minha trajectória espiritual. duas mulheres e dois homens. Desde a visita ao Hermitage que passei a reparar cada vez mais nas quatro figuras. escrever ou conversar. uma e outra vez. expor um argumento. o desejo de me sentir interiormente implicado. O seu modo de olhar suscitava a pergunta quanto ao que pensariam ou sentiriam acerca do que presencia- vam. É certo que passei muitas horas em oração. explicar um modo de ver. tentando ajudá-los a reconhecer a importância de todos eles. ensinei aos estudantes os diferentes aspectos da vida espiritual. Durante anos. dava- -me. defender uma tese.

Algumas são mais cómodas que outras. Deixar de dar aulas a universitários e passar a viver com doen­ tes mentais significou. me parecia quase im- possível. por detrás do pai. pelo menos para mim. todos eles representam distintas formas de não compro- misso. que renunciar à segurança do espectador. a diferentes distâncias. outro apoia-se num arco. mas são. parecia-me equivaler a dar um salto para o desconhecido. para mim. muito familiar. dar um passo em direcção à plataforma onde o pai abraça o filho ajoelhado. o lugar do amor. de pé. outro está sen- tado de braços cruzados. pelo menos até certo ponto. outras um olhar ciumento. de olhar perdido ao longe. um olhar de amor. uma sobre a outra. o lugar da verdade. As duas mulheres de pé. embora tenha muito medo de chegar a atin- 22 . formas de não compromisso. de qualquer maneira. curiosidade. e o outro alto. ao fundo. outro de pé com as mãos juntas. explicar as palavras e as acções de Jesus e indicar-lhes os diversos caminhos espirituais que as pessoas escolheram ao longo dos tempos. era como que adoptar a posição de uma das quatro figuras que rodeavam o abraço di- vino. um olha fixamente. direito. era a posição segura do espectador crítico. outro contempla. outro observa sem fixar o olhar e outro olha. Desejava tanto controlar a minha trajectória es- piritual e ser capaz de prever o resultado. É o lugar onde quero estar. Cada uma destas posições é. Ensinar os estudantes. simplesmente. É o lugar da luz. uma observação atenta. um sonhar desperto. o homem sentado. Mas abandonar o que. todas elas. de vez em quando. um está de pé. Notamos indiferença. contemplando o acontecimento com olhar crítico. em troca da vulnerabilidade do filho que regressa. O regresso do filho pródigo um olhar curioso. outras ainda um olhar inquieto e.

tudo aquilo de que vou ter necessidade. Mas como receber assim um abraço? Linda não me conhecia. o teu Pai também te quer abraçar!» Parece que em todas as ocasiões – as boas-vindas de Linda. Encontro com um quadro gi‑lo. Teria então de me limitar a sorrir. por si mesmo. emocional e espiritual. tudo o que sempre esperei. o perdão e a cura. Linda. uma bela jovem com síndroma de Down. não tenhas tanta vergonha. É o lugar da rendição e da total confiança. das recompensas que possa receber. nunca me ouviu falar e nunca manteve comigo nenhuma conversa. o sorriso de Gregory. Nunca leu nenhum dos meus livros. o aperto de mão de Bill. rodeou-me o pescoço com os braços e disse: «Bem-vindo». é frequentemente muito mais duro que concedê-lo. Passei por mui- tas lutas interiores e muita dor mental. mas também é o lugar onde tenho que largar tudo quanto quero reter. Estes anos em Daybreak não foram fáceis. Faz isto a todos os recém-chegados e sem- pre com absoluta convicção e amor. É o lugar para além do que cada um. aceitá-los como convites a voar mais alto. Nunca teve oportunidade de vislumbrar o meu lado obscuro nem de descobrir os meus pontos de luz. pode obter ou merecer. a dizer galanteios e a prosseguir o caminho como se nada tivesse acontecido? Talvez Linda estivesse de pé em algum ponto da plataforma. absolutamente nada parecia indicar-me que a mudança 23 . É o lugar onde receberei tudo o que desejo. tenho que optar entre «explicar» esses gestos e. É o lugar que me confronta com o facto de que aceitar de verdade o amor. Não fazia a menor ideia do que vivi antes de chegar a Daybreak. Nada. simplesmente. dizendo com o seu gesto: «Vem. Pouco depois de chegar a Daybreak. o silêncio de Adam ou as palavras de Raymond –.

Cada pequeno passo para nele penetrar era como que uma pretensão impossível. Não sabia quão duro seria converter-me em parte integrante do grande acontecimento representado no quadro de Rembrandt. de adivinhar. Não dava conta de como havia tanta resistência arraigada em mim e de quão angustiante seria «dar conta». Não fazia a menor ideia de quão difícil iria ser uma tal viragem. demasiado «sangrentas». demasiado desnudas. A visão Muito do que se passou desde a minha chegada a Day- break. a pessoa que se deixa amar. uma pretensão a render-me ao amor que não conhece limites. uma pretensão que me exigia pôr de parte. uma pretensão a superar o medo de não saber onde tudo aquilo me levaria. As palavras são demasiado cruas. demasiado ruidosas. o desejo de controlar. O percurso en- tre leccionar sobre o amor e deixar-me amar iria ser mais longo do que supunha. de professor de como se ama. de me ser possível olhar para trás. tal como está. para aqueles anos 24 . Mas a passagem de Harvard para A Arca signifi- cou dar um pequeno passo na mudança da atitude de especta- dor a participante. Sabia que nunca seria capaz de viver o grande manda- mento de amar sem condições nem requisitos. Chegou agora o momento. muito pouco pode ser partilhado com outros. uma vez mais. porém. ficou relatado nos meus diários e blocos de notas mas. cair de joelhos e deixar as lágri- mas correr livremente. O regresso do filho pródigo valera a pena. de juiz a pecador arrependido.

para o significado profundo. Descobrir-se-á nela um pouco de esperança. preparo discursos. do Pai. Nele está todo o Evangelho. Mudei-o de sítio vezes sem conta: do escri­ tório para a capela. Nele está toda a minha vida e a dos meus amigos. a homens e mulhe­ res de todas as condições. É verdade que não sou ainda suficientemente livre para consentir em me abandonar ao abraço. certo e seguro. não como expressão de confusão ou desespero. Continuo a caminhar. sob muitos aspectos. Este quadro converteu-se numa misteriosa janela através da qual posso pôr um pé no Reino de Deus. Ainda sou como o filho pródigo: viajo. mas como etapas do meu caminho para a luz. e descrever. Mas estou a caminho. da capela para a sala de estar de Dayspring (a casa de oração de Daybreak) e da sala de estar de Dayspring outra vez para a capela. O quadro de Rembrandt esteve muito perto de mim duran- te todo este tempo. Agora estou preparado para contar a minha história. dentro e fora da comunidade de Daybreak: aos doentes mentais e aos que os atendem. É como uma entrada imensa que me dá acesso ao outro lado da existência para daí 25 . consolação. conjecturo como tudo vai ser quando por fim chegar a casa do meu Pai. Deixei o país distante e sinto-me mais perto do amor. luz. com maior objectividade que antes. mas também o que eu próprio quero contar a Deus e aos homens e mulheres de Deus. o lugar onde toda essa luta me conduziu. mais o considerava como se fosse a minha própria obra: um quadro que encerra. muito de quanto vivi ao longo destes últimos anos. a ministros e a sacerdotes. Encontro com um quadro de alvoroto. Quanto mais falava sobre O Filho Pródigo. não só o essencial da história que Deus quer que eu conte. Falei dele milhares de vezes.

No entanto. Procurei projectar-me. e tentei falar dessa presença como de uma presença que. e a consolação divina para além da desolação provocada pela angústia e desespero humanos. pode ser vista. mais aberta e mais maravilho­ sa do que podemos imaginar. mais profunda. Jesus disse: «Se alguém Me ama. fui conduzido a um lugar mais interior. No entanto. É o lugar onde saboreio a alegria e a paz que não são deste mundo. meu Pai amá-lo-á e viremos a ele e faremos nele morada» (Jo 14. não era capaz de entrar e de ali viver de verdade. Estas palavras sempre me impressionaram muito profundamente. desde agora. para além da condição mortal da nossa existência. Tentei compreender os altos e baixos da alma humana para conseguir perceber a fome e a sede que só um Deus cujo nome é Amor pode saciar. 23). ao longo do tempo passado aqui em Daybreak. Eu sempre soube onde ficava a fonte da graça. Este lugar sempre ali esteve. ouvida e pal- pada por aqueles que querem acreditar. o eterno para além do tem- poral. dor e alegria. o amor perfeito para além dos medos que nos paralisam. no abraço de um Deus todo amor que me chama pelo nome e me diz: «És o meu filho amado que muito me agrada». um lugar onde ainda nunca tinha estado. ressentimento e gratidão. Sou a casa de Deus! 26 . Durante anos procurei ver Deus na diversidade das experiên­ cias humanas: solidão e amor. O regresso do filho pródigo contemplar a estranha variedade de pessoas e acontecimentos que enchem a minha vida diária. guerra e paz. guardará a minha palavra. É um lugar dentro de mim que Deus es- colheu para Se hospedar. numa presença mais duradoura. É um lugar onde me sinto a salvo. Procurei descobrir o duradoiro para além do passageiro.

a minha reacção profunda ao abraço do pai ao seu filho fez-me ver que andava desesperadamente à procura desse lugar interior onde também eu pudesse ser abra- çado como o jovem do quadro. a satisfação do objectivo alcançado. nunca o conseguirei nesta vida. As crises físicas e emocionais interromperam a vida tão atarefada que levava em Daybreak e obrigaram-me a voltar para casa e a pro- curar Deus no único lugar onde O podia encontrar: no meu santuário interior. É uma viagem longa e muito exi- gente. 4)? O convite é muito claro. eis o enorme desafio espiritual. estava constantemente ausente do lugar que Deus escolheu para fazer a sua morada. Da primeira vez que vi o quadro de Rembrandt. pois o caminho até Deus vai muito para além das fronteiras da morte. era o que me metia mais medo. sentimentos. Ao mesmo tempo. frequentemente. não estava tão familiarizado com a morada de Deus dentro de mim como agora estou. Parece uma tarefa impossível. No entanto. Deus faz a sua morada no mais íntimo do meu ser. Não posso dizer que já o consegui. Sim. Fa- zer a minha morada onde Deus fez a sua. Com os meus pensamentos. pois sabia que Deus é um amante ciumento e que logo quereria tudo de mim a todo o momento. emoções e paixões. Quando estaria preparado para aceitar esse género de amor? O próprio Deus me foi mostrando o caminho. escutar a voz da verdade e do amor. não podia prever o que implicaria aproximar-me cada vez mais desse lu- 27 . Encontro com um quadro Mas era muito duro experimentar a verdade que encerram. Chegar a casa e permanecer ali onde Deus habita. mas plena de surpresas maravilhosas e proporciona-nos. mas como aceitar o convite de Jesus: «Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós» (Jo 15.

Mais ainda. O regresso do filho pródigo gar. A dor e as lutas podem iluminar o caminho. Um ser humano terá porventura essa real possibilidade? Mais importante ainda: terei verdadeira liberdade de escolha? Não se trata de uma questão intelectual. desde a alegria duradoura para as realidades passageiras da nossa curta existência neste mundo. A única maneira de chegar a esse lugar. 28 . Tenho plena consciência da grandeza desta vocação. é rezar. o único caminho. com sumo cuidado e muito amavelmente. rezar constantemente. e só então. desde a casa de Deus para as casas dos seres humanos. Tenho que me ajoelhar diante do Pai. Então. posso dizer. Sou chamado a entrar no meu santuário interior. É a vocação de falar e de escrever. desde a morada do amor para as moradas do medo. para mim. estou total- mente certo de que é este. Agora tenho uma vocação nova. Agora sei que devo falar desde a eternidade para o tempo real. a partir desse lugar profundo. para as outras dimensões de mim mesmo e de me dirigir às vidas de outras pessoas tão cheias de inquie- tação. mas estou certo de que é unicamente a oração contínua que me permite ali entrar. Estou muito grato por não ter sabido de antemão o que Deus me preparara. é uma questão de vo- cação. Poderia chamar-se visão «profética»: olhar as pessoas e este mundo com os olhos de Deus. E também agradeço o novo lugar que se me deparou através de todo o sofrimento interior. encostar o ouvido ao seu peito e escutar ininterruptamente as palpitações do seu coração. onde Deus quis fazer a sua morada. o que oiço.

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