You are on page 1of 12

Fábrica, futebol, prisão: o esporte bretão como dispositivo disciplinar

Luiz Felipe de Oliveira

O século XIX foi o ápice do conjunto muito particular de estratégias sobre o corpo
reunidas pelo filósofo e historiador francês Michel Foucault sob o conceito de Poder
Disciplinar. Enquanto uma série de utopias que buscavam o controle completo da existência
do proletário – na mesma medida em que produziam tal proletário – tornaram-se realidade
(ainda que por curto período de tempo), práticas corporais específicas emergiram na Europa
ocidental, trazendo elementos lúdicos para contextos relativamente institucionalizados e
evidenciando novas concepções de corpo e de tempo ocioso. Mais popular entre tais práticas,
posteriormente definidas como esporte, o futebol é um grande exemplo da inserção do ethos
capitalista em contextos, a priori, não econômicos, estando completamente imerso nas
relações capilares de poder que permitiram a emergência de um novo modo de produção. Por
mais que exista um esforço em pensar o futebol como prática completamente dissociada da
política, pensa-lo como transcendental e irremediavelmente bom, a intenção deste trabalho é
precisamente mostrar o contrário. A obra de Foucault nos dá ferramentas para analisar o
esporte atrelado a configurações de poder inerentes às práticas capitalistas: o esporte mais
popular do mundo não apenas surge com o novo domínio e concepção do corpo, como é
instrumentalizado de diversas formas para melhor servir à produção. Indo além, é possível
mostrar como, em determinado momento, o futebol profissional (o que serve para todos os
esportes altamente midiatizados) pode ser considerado como a grande utopia disciplinar do
século XX, momento no qual ele se constituiu.

Controle de corpos, controle do tempo
Ainda que seja possível afirmar que o futebol é um importante dispositivo disciplinar
– o que ficará mais claro ao longo do texto –, não é viável dizer que o esporte foi constituído
independentemente e mobilizado apenas a posteriori para atingir os objetivos do
poderdisciplinar. A relação entre esporte e disciplina é muito mais íntima, diz respeito à
gênese tanto de um quanto de outro. O que ocorre, entretanto, não é uma linha sucessiva de
eventos cronologicamente ligados pelo desenvolvimento do anterior no posterior, mas sim
diversos processos concomitantes que em algum momento se afetam e se entrelaçam dando
origem a elementos relativamente distintos e não necessariamente planejados. Assim, no

1

também é possível atribuir a gênese do futebol a práticas relativamente religiosas do período pré- moderno. práticas que foram coaptadas pela elite do século XIX sob regras específicas parar servir a fins pedagógicos (ELIAS & DUNNING. Novos saberes sobre o corpo emergem em conjunto. o futebol. Mais especificamente. Foucault (2006: 51) afirma que uma série de exercícios ascéticos tornaram-se métodos disciplinares para a vida cotidiana dentro de comunidades religiosas. dando origem – junto com uma série de outros acontecimentos – a toda uma nova política do (sobre o) corpo (FOUCAULT. com reverberações na França. antes de ser alocado para fins disciplinares – e assim como a maioria dos dispositivos disciplinares –. 2005). mas apenas que quando os dois elementos aqui abordados se tocam definitivamente na segunda metade do século XIX algo deste já poderia ser sentido naquele. 2006: 50). 1985). o futebol surge sob outras perspectivas. Segundo Wisnik (2008). em total consonância com a sociedade industrial em formação (BRACHT. 2 . 2 Se constitui como prática corporal distinta denominada de Association Football. assim como os esportes em geral.mesmo período em que o poder psiquiátrico se insinua nas práticas médicas. Foi com o passar do tempo que tais métodos disciplinares saíram da arena religiosa para gerar. de conforma-los. passíveis de serem ilustradas na figura do mosteiro. a forma do contato sináptico entre poder político e corpo individual. 1993). de atuar sobre eles. Fenômeno inglês. por mais que seja marginal frente à centralidade da fábrica nessa questão. surge a partir de 1 Impossível dizer se a popularidade do futebol se deve ao seu uso pelo poder disciplinar ou se é exatamente o contrário: seu uso ocorre devido à sua popularidade. Antes de se converter para mais um dispositivo responsável por gerenciar o corpo e o tempo do operário. sucedem-se vários movimentos de institucionalização e de conformação a normas de práticas lúdicas com enfoque em desempenho corporal (HUIZINGA. 2006: 15). ainda que de forma independente. no interior de comunidades laicas e em conjunto com diversas técnicas e aparatos reunidos a partir de diversas fontes. é uma dessas formas. Em certo momento de suas aulas sobre o poder psiquiátrico. no século XIX (FOUCAULT. O movimento que faz com que uma prática marcadamente elitista se transforme em um esporte de popularidade praticamente inigualável entre as classes mais pobres 1 demanda análise mais detida. com novas formas de gerir corpos. Tal aproximação não indica que futebol e Poder Disciplinar foram igualmente afetados por fatores não definidos ao longo dos séculos. o futebol. o futebol nasce2 possivelmente no final do século XVIII.

1985).processos de esportivização de práticas populares. É exatamente nesses aspectos que a relação entre poder disciplinar e futebol fica mais clara. no limite. aproximando-os da moral burguesa da competitividade. mas simultaneamente submissos e dóceis. 1983) – com base em novas concepções do trato com o corpo. Portanto. o que implica na não violência e na preocupação com a formação dos gentlemen. o sucesso do poder disciplinar está diretamente ligado a sua forma capilar de se impor silenciosamente a diversas instituições e práticas. sem permitir que a atividade destoe 3 . baseada no inédito enfoque político dos detalhes (ibid: 134). o futebol aparece ao poder disciplinar como um suplemento dos processos que ocorrem dentro da fábrica e visando a produtividade. o futebol não apenas possui toda a moral aristocrática e o ethos da iniciativa privada. 2015: 159). não lhe pertence. A gestão mais incisiva do corpo do operário está ligada a afirmações morais a respeito da conduta do trabalhador dentro e fora do ambiente de trabalho. desde sua origem o futebol condiciona seus praticantes tanto física quanto moralmente. o que provavelmente não daria certo. Como afirma Foucault. 2013). não está necessariamente atrelado aos meios de produção. de fato. mas tanto patrões quanto empregados tinham interesse – ainda que distintos – no esporte recém formado. O esporte bretão permite a inserção de demandas e controles particulares sobre o corpo em ambientes distintos do fabril. como ele também é fruto de toda essa nova gama de relações de poder aplicadas no corpo que elas também constroem (não é possível pensar no corpo anterior a tais relações). 1997) das manifestações corporais envolvendo bola se desenrola dentro de escolas burguesas e para fins higiênicos (BOURDIEU. Não à toa. pois não apenas o futebol é um meio de reforçar o enfoque no corpo e a produção de desempenho físico dentro do controle da relação interpessoal por meio de normas e regulamentos – como dito no início do parágrafo –. Assim. transformadas com base em regulamentos e regras previamente definidas e não controladas pelos participantes (ELIAS & DUNNING. a acumulação econômica de capital só foi possível graças acumulação política dos homens. Óbvio que isto não foi algo imposto pelos superiores. do cuidado de si. O que permite a hipertrofia desta força é toda uma nova arte do corpo atrelada a certa mecânica do poder que produz corpos eficazes e rápidos. Sob a alcunha de lazer. O corpo potencializado para melhor servir ao capital. como também diz respeito ao controle da saúde de uma forma que extrapola a escola e chega ao proletariado sob a tutela dos patrões (Ibid). portanto corpo como força de trabalho (FOUCAULT. diminuindo sua força política e aumentando sua força útil (FOUCAULT. Tal perda do caráter lúdico (BRACHT. é imoral o operário que se afasta da fábrica e que faz uso indevido do corpo que.

4 . O futebol se apresenta como prática legitimada pelos empregadores. Toda a ascensão capitalista – ou burguesa – foi marcada pela gestão de ilegalismos. também o uso indevido do tempo antes considerado ocioso será repreendido.com. a dissipação da força. a disciplina não diz respeito apenas a um conjunto de estratégias em relação ao corpo.br/historia-do-clube> Acesso em 13 de Fevereiro de 2017). mas de 70 anos depois (vide <http://www. Se desde o século XIX clubes de futebol são fundados por operários de indústrias 4. a obediência a um conjunto de regras faz parte da prática esportiva. como também insere o controle do tempo na dominação (FOUCAULT. J. Social and cultural anthropology: the key concepts. 2013: 155). & OVERING. Se o ápice do controle do corpo ainda pode ser observado dentro de qualquer caserna. 2015: 193). capitalismo e futebol possa parecer exagerada – a desnaturalização de relações e práticas que constituem o cotidiano contemporâneo pode passar tal imagem –. Embora a relação entre poder disciplinar. De forma mais ou menos impositiva. o zênite alcançado pelo controle do tempo foi um período relativamente curto no século XX. em que se produziu a utopia da sequestração (FOUCAULT. inclusive.manutd. um dispositivo suplementar – e completamente aceito – de gerência do tempo do empregado.para contentas mais violentas (BOURDIEU. Não é mais possível dominar completamente o tempo do operário. a migração do futebol das escolas burguesas para outros setores da sociedade é marcada pelas fundações de clubes atrelados às fábricas (RODRIGUES. N. interior paulista. Assim como o mau uso do corpo constitui um ilegalismo inaceitável para a sociedade burguesa. 3 Rapport e Overing lembram que a própria divisão da vida social em elementos reificados. mas o mau uso do tempo de folga.C. economia. será contornado com a inserção do lazer no tempo ocioso. como política. sendo os soldados aqueles que possuem corpos quase perfeitamente disciplinados. 4 Como é o caso do Manchester United F. RAPPORT. 2000). a preocupação e o controle do corpo e do tempo do trabalhador é visível na fundação de grêmios e clubes poliesportivo por grandes empresas. permitindo uns e reprimindo outros. afinal. ambas na cidade de Araraquara.ferroviariasa. como é o caso da Nestlé e da Lupo. 2004: 270). em 1878 (vide <http://ir. O esporte bretão enquanto atividade recreativa aconselhada é mais uma evidência de como a emergência e sustentação de um meio de produção nunca é um fator retido à esfera econômica3. religião é completamente questionável (conf. London: Routledge. esse movimento é extremamente importante para entender a popularização do esporte.aspx> Acesso em 13 de Fevereiro de 2017) e da Associação Ferroviária de Esportes. agora moralizado.com/company- information/history. 1983).

a saber. Este pode ser definido como o adestramento do corpo. produzindo uma sociedade racionalizada precisamente na violência sobre o corpo (BRACHT. Assim. garantindo a máxima rapidez e a máxima eficiência. inclusive. da marcha. da habilidade. 2006) que podemos pensar em como práticas corporais. ajuda a fixar indivíduos (FOUCAULT. Ao contrário. Transformam-se práticas excepcionais em atividades cotidianas e repetitivas. outra prática igualmente importante surge a partir do século XVIII com Frederico II e o exército prussiano. seja na fábrica. 2014: 508). Sendo o auge dos dispositivos disciplinares. privilegiando o mínimo dispêndio de energia (FOUCAULT. O que é consonante com as demandas pelo controle do corpo do operário. Como abordado anteriormente. o tear). assim como a norma. por exemplo. É na sociedade do exercício. Da caserna aos gramados A violência do Poder Disciplinar não é o espetáculo de tortura e sangue produzido na França do século XVII. sempre se exercendo de forma física (FOUCAULT. 2006: 60). é pelo mesmo motivo que se faz necessário retornar continuamente ao corpo nesta análise. 1997: 20). da vida saudável e da produtividade que o esporte surge como importante organizador da corporeidade 5 . e também justifica a abrangente adesão a práticas esportivas. pois o hábito. A emergência do culto do corpo e do imperativo da vida saudável serve com eficácia singular ao que Foucault caracteriza como biopoder: controle das funções fisiológicas para servir à produção. na importantíssima economia do corpo. estão tão intrinsecamente relacionadas à execução desse poder singular. 2013: 135). da produção do ser saudável (MENDES & GLEYSE. o exercício corporal (FOUCAULT. 2015: 190) – seja na caserna. o exercício uniu tanto as questões físicas quanto morais nas demandas do cuidado de si. 2006: 18). parte das práticas que constituem o Poder Disciplinar remontam ao ascetismo monástico do século XVI. explicitadas na primeira parte desse trabalho. baseado. da resistência dos movimentos elementares segundo uma escala gradual. ramificando-se a ponto de ser percebido apenas no corpo alvo (FOUCAULT. a violência pode muito bem ser meticulosa. codificado de forma instrumental para ser decomposto e conformado à ferramenta (o fuzil. É exatamente pelo fato do poder disciplinar ser discreto. a caserna faz do corpo uma máquina multissegmentada. Em uma convergência imprevista com o discurso médico do mesmo século XVIII. 2005: 46). mas extrapola de diversas formas os ambientes para os quais foi criado. como o futebol. o exercício físico nasce pelos e para os militares (BRACHT.

2015: 212). por provas de aprendizagem e por exercícios comuns e específico. Detlev Claussen (2014). que se tocam e influenciam. é produzida precisamente quando se articulam efeitos de poder (no corpo treinado. 2004). pela organização das sequências. em Foucault. A alma. principalmente o futebol (possuidor de maior alcance). 183). então. só foi possível graças a um saber específico e intimamente ligado a demandas disciplinares: a Educação Física. Evocar o discurso médico traz à tona a questão muito importante até aqui não explorada: todo ponto de exercício de poder – principalmente o corpo – também é ponto de formação de saber (FOUCAULT. Por sua vez. como também imputando o respeito irrestrito às regras e a adequação às normas (BRACHT. efeito e objeto de saber” (Ibid. vigiado. não existiria poder disciplinar sem os dois. 19970. disciplinar. ao mesmo tempo que está no cerne da criação e popularização dos esportes. 2012: 350). como uma descarga de práticas disciplinares que transformaram a relação entre a disputa e tudo que envolvia sua preparação. nesse caso específico. O olhar mais atento mostra que esse emaranhando de instituições. práticas e saberes concomitantes. portanto. ao tratar da vida do grande treinador húngaro Béla Guttmann. No começo do século XX. com ideia de adestrar. sob a tutela militar e com base em seus exercícios (PERES. Enquanto corpo e alma. não esconde sua predileção pelo futebol profissional em relação ao amador. 2013). agora pedagógicas. este simultaneamente autônomo e necessário em relação àquele. Considerando os argumentos do autor de forma não crítica. não apenas produzindo o corpo hábil para o trabalho. O seu nascimento atrelado a saberes médicos não deixa dúvida quanto à sua intenção de controle biopolítico do corpo. 2006). o “indivíduo é efeito e objeto de poder. No que tange a esta empreitada. a formação da forma profissional de jogar futebol como a conhecemos hoje. principalmente no futebol. permitiu o surgimento de algo tão silencioso e inescapável quanto o poder disciplinar. as práticas físicas.(RODRIGUES. a Educação Física se insere no esporte. com dinâmica. Assim. passam pela divisão do tempo em segmentos sucessivos. controlar os indivíduos (Ibid: 760). corrigido) em referência a um saber (FOUCAULT. tinha-se a clara concepção de que a Educação Física deveria preparar o indivíduo para sociedade. tal simpatia é completamente justificada: enquanto 6 . e é mais ou menos desta forma que o esporte se insere na Educação Física como pedagogia higiênica (MORAES E SILVA. regras e fins distintos do futebol praticado nas escolas burguesas do século XIX. A Educação Física surge quando o tempo disciplinar se impõe sobre práticas pedagógicas (Ibid: 153). ainda que não seja possível reduzir a relação entre os conceitos como “saber é poder” (ou vice versa).

mas por motivos de transparência – sem generalizar contextos específico – se faz necessário indicar que analisamos as condições de trabalho de aproximadamente 0. como o médico e o relacionado à Educação Física. em meados do século XX. ao contrário. Acreditamos que seja o caso do futebol profissional. antes suplemento disciplinar e alternativa à incapacidade de domínio completo do tempo do proletário. Acesso em 13 de Fevereiro de 2017). principalmente os pobres e os negros. apropriando-se de seus corpos. O treinamento futebolístico. com grande exposição e salários proporcionais. passou a ser um meio ainda mais disciplinado. viveríamos em uma sociedade do controle (MENDES. então. indisciplinado. 2013: 29). ainda que os jogadores profissionais passem por relações similares de treinamento. Entretanto. tanto o tempo dormido deveria ser regulado. Raio-X do futebol: salário dos jogadores.com. o que permanece como ruído de fundo da biografia de Guttmann e a forma pela qual os jogadores de futebol passaram pelos mesmos processos. como são a consolidação por um longo período de tempo de utopias do controle do tempo e do corpo do trabalhador. o profissional permitiu a inclusão de diversos atores outrora marginalizados. que certos elementos da vida contemporânea. É muito provável que os temas tratados digam respeito a todos os profissionais. principalmente após a década de 905.br/noticias/a- cbf/raio-x-do-futebol-salario-dos-jogadores#.WKYkatLyvIU>. com exercícios constantes para condicionar os jogadores e regras a serem seguidas nos seus tempos de folga. Faz-se necessário uma análise mais detida sobre o assunto. O futebol. permitindo que os jogadores sejam classificados conforme seu desempenho. exercendo controle minucioso das 5 Para ser mais preciso. isto não significaria que não existam diversos resquícios e relações do poder disciplinar entre nós. uma vez que o próprio Foucault questionava periodizações. As demandas do esporte de alto rendimento fazem com que ele seja permissível a práticas disciplinares. as reflexões que seguem enfatizam o caso dos jogadores do futebol extremamente midiatizado. que mobilizam o saber necessário para controlar suas forças (FOUCAULT. aos quais os operários foram submetidos no século anterior.cbf. não apenas possuem resquícios do poder disciplinar.7% dos jogadores brasileiros (referência e mais informações conf. só pôde ser idealizado e produzido com base na tecnologia política do corpo. 2006: 179).o futebol amador estava confinado a uma elite muito delimitada. que se desenvolveram depois da Segunda Guerra Mundial. assim como qualquer condicionamento disciplinar. 7 . quando o consumo de álcool e alimentos em geral possuiam fortes conotações morais (indicando o jogador dedicado e o imoral. Em <http://www. Corpo-potência: o operário ideal Ainda que levemos em conta a ideia de Deleuze de que a sociedade disciplinar passa por declínio no pós-guerra e que. despreparado). Tem- se a impressão.

julgamentos morais e treinamentos baseados no exercício repetitivo. sujeitando as forças do indivíduo e produzindo a relação entre utilidade e docilidade. Assim. assim como elas. Estes são um resquício muito delimitado das instituições de sequestração e. 2015: 193): define-se quando e o que se come. tanto daqueles que constituem a cadeia de subordinação da qual ele. enquanto trabalhador faz parte. sendo o tempo do não trabalho também vigiado. tanto para adestrar o corpo quanto a alma (produzida pelo poder disciplinar). Os torcedores demonstrar a capacidade de controle indireto que as instituições possuem. o futebolista passa pelo controle contínuo baseado na vigilância (FOUCAULT. seu principal objetivo. principalmente das reclusões temporárias chamadas de “concentração”. quando e quanto se dorme. tanto na vida do operário comum quanto no do operário da bola. que podem parecer aquém desse posicionamento. Todos esses dispositivos e conjuntos de regras.: 9). tudo deve ser repetido à exaustão. mas constituem os principais responsáveis pelo julgamento moral dos atletas. 2004: 280). 2006: 72). criam o indivíduo disciplinar perfeito (FOUCAULT. separando seus membros e atribuído a cada um deles funções específicas – inclusive a de não participar. quando um grupo extenso de pessoas passam a julgar. 2004: 260). Existe também. cada movimento está atrelado a saberes. mas ela ainda é o modelo dos centros de treinamento. garantindo o domínio total sobre as funções fisiológicas do corpo – algo impossível sem a emergência do biopoder. 2006: 59). fábricas. obtendo a vigilância ideal. É possível – não podemos afirmar o contrário – que a prisão não seja o modelo geral como um dia foi. 2015). O corpo é simultaneamente fabricado e desmembrado para melhor servir.suas operações e de seu comportamento (Ibid: 133). coagindo-o para se adequar as regras. quanto dos torcedores. diversos dispositivos infrajurídicos capazes de conformar o indivíduo em padrões determinados por estâncias que não a penal. tem função normalizadora (FOUCAULT. delatar outros 8 . sendo quase impossível que operários comuns atinjam o nível de desempenho e docilidade alcançado pelo jogador de futebol. condenar. sendo exemplo para escolas. tendo seu lugar definido (Ibid. A vigilância quase onisciente que resulta de todos os envolvidos fixa o jogador no sistema produtivo do qual faz parte (FOUCAULT. É um controle que os operários não sofrem com tamanha intensidade. se é ou não permitido transar. hospitais. como é o caso do manual de conduta para os jogadores (RODRIGUES. Percebe-se que o futebol moderno é uma instituição extremamente disciplinadora (RODRIGUES.

Sem o poder disciplinar que constitui a prática esportiva. a questão não é tão simples. exigindo cada vez mais desempenho. apenas de refletir sobre como as demandas energéticas capitalistas são de tamanha magnitude que o modo de produção só se desenvolveu em conjunto com as práticas aqui descritas. como já citado. O treinamento do futebol profissional é completamente construído sobre tais alicerces. Entretanto. para depois. se o poder disciplinar apenas constrangesse. Mais visível ainda. Dentro do futebol. 6 O exemplo que vem à mente é da minha própria experiência em uma escolinha de futebol: para ensinar como dominar a bola no peito. com a questão do tempo. em formas específicas de aplicação e na regularidade (Ibid: 148). não apenas restringe (FOUCAULT. ele jamais iria permitir a emergência de um novo modelo de produção capaz de sorver quantidades absurdas de energia dos indivíduos que cotidianamente consome. o faz por meio de treinamento que permite tanto rendimento quanto controle (BRACHT. seria impossível ao homem correr tão rápido.indivíduos. o poder disciplinar desde sua origem se preocupou. constituir o movimento contínuo. assim como sua função no momento da recepção da bola. De fato. cada vez mais produtividade. posições. Ainda melhor. ou saltar tão alto. no caso deste. cada fundamento é ensinado pensando nos membros do corpo de forma relativamente separada 6. o corpo completamente instrumentalizado. 9 . a disciplina é capaz de continuamente atingir a máxima potência do corpo docilizado (RODRIGUES. em outro tempo. ao observarmos todos os fundamentos treinados nas escolinhas de futebol. gerenciando de forma a decompor os gestos em busca da eficiência. onde o sucesso profissional demanda níveis altíssimos de submissão irrefletida. o poder produz e permite. Portanto. o que vem à tona são corpos compartimentalizados e movimentos decompostos. ou conseguir a coordenação motora e força necessária para lançar uma bola a 30 metros depois de percorrer 13 quilômetros. a disciplina produz. tanto no operário quanto no boleiro. o professor de educação física mostrou a posição ideal de todos os membros. pode-se dizer que o adestramento promovido pelas disciplinas tem a impressionante – e nefasta – capacidade de multiplicar as forças enquanto dociliza (Ibid: 209). 2004: 264). recortando elementos do jogo e os repetindo à exaustão. Não se trata de desenhar o poder disciplinar como algo bom de qualquer forma imaginável. Para exaurir o máximo possível dos indivíduos que produziu. movimentos. e também elevando o controle do corpo a configurações utópicas. com base na exatidão. 2005: 47). 2013: 185). A particularidade da abordagem das disciplinas em relação ao tempo se encontra no fato delas o fragmentarem com base em comandos.

Portanto. de marcar irreversivelmente o culpado (FOUCAULT. Portanto. apoiado pela classe dominante (VAZ. o que pode até a permitir a definição da nossa sociedade como a “sociedade esportivizada” (RODRIGUES. obediente e potente (RODIRGUES. como já falado. exigindo muito mais dos indivíduos do que o modo de produção anterior. Não precisamos ir tão longe para perceber que o esporte se constitui como modelo de rendimento da sociedade contemporânea. a viver como atletas. Uma série de ilegalismos populares passa a ser controlada legalmente pela ameaça da figura do delinquente. o esporte é tanto espetáculo quanto trabalho (BOURDIEU. o 10 . mas na necessidade de caracterizar o criminoso. O trabalho de Foucault mostra como instituições e práticas advindas de momentos e lugares distintos podem convergir em algo novo. Inédito até então. A apropriação meticulosa do sistema legal pelo capitalismo transformou o julgamento não mais na necessidade de se punir o crime. competição. rendimento físico-técnico. record. sendo o mais importante deles a delinquência. 2013: 208). a extrapolam de várias formas. 2005: 14) – que alocam práticas disciplinares com fim de produzir o que poderíamos chamar de corpo-potência. racionalização e cientificização dos resultas (BRACHT. De forma similar. as relações de poder que ocorrem no esporte não estão delimitadas à sua esfera. 2004: 281). docilizado e capaz. 2004: 266). levando ao extremo. e pensando nos dias de hoje. ao contrário. 2005) e por estratégias de marketing que nos convidam a ser esportista. 2013: 96). pela quantidade absurda de energia que demanda. é bem verdade que os jogadores de futebol são operários específicos produzidos para atender demandas específicas. afinal. 1983). Escolinhas: entre a fábrica e a prisão O modo de produção capitalista pode ser caracterizado. se fez necessário o desenvolvimento de diversos mecanismos para fixar o indivíduo à produção. poderíamos dizer que o francês produz uma teoria nada simpática à candura. outra singularidade do poder disciplinar é sua preocupação com economia e com o gasto energético despendido para obter o resultado esperado: busca extrair o máximo do indivíduo com o mínimo de esforço possível (FOUCAULT. separa e delimita. não suporta o descontrole e a inexatidão. Também se apresenta como um dispositivo disciplinar sobrevivente e central para populações alvo do poder judicial. Não podemos fechar os olhos para os elementos negativos insidiosamente escondidos nos padrões morais atrelados ao esporte: ele classifica. São as características básicas dos esportes de alto rendimento – a saber.

mostra o sucesso da empreitada disciplinar e como ela ainda se realiza cotidianamente ao nosso redor. Educação física e aprendizagem social. como as escolinhas de futebol. funcionam como suplementação disciplinar. os alunos das escolinhas e seus pais também se engajam ativamente – sem qualquer tipo de coerção – em uma atividade que lhes imputa valores burgueses. Tanto no século XIX quanto atualmente. imputam-se do objetivo de criar o “cidadão responsável” (RODRIGUES. E. As escolinhas. Muitas vezes é exatamente a busca por tais valores que fazem com que se procurem as escolas. faz parte de diversos dispositivos que produzem saber contra a delinquência. São Paulo: Estação Liberdade. entre aqueles classificados como delinquentes e os que não o são (Ibid). aquele que rompe o contrato. 2004: 293). A prisão é diretamente responsável por produzir delinquência. exato inverso do delinquente. o mundo se divide. posicionando-se entre a fábrica e a prisão. N. então. fugindo de uma ideia pejorativa de rua diretamente atrelada à delinquência e ao uso de drogas (SPAGGIARI. Têm como propostas a moralização de crianças e adolescentes por meio do poder pedagógico que extravasa o esporte. ELIAS. 1985. Referências BRACHT. Saberes que se espalham em diversas instituições no que Foucault chama de “arquipélago carcerário” (Ibid: 281). Walter. 1997. inclusive se articulando com outros dispositivos disciplinares como a escola. 2014. mas que também fixam os indivíduos no aparato produtivo (FOUCAULT. Fazem parte daquelas instituições disciplinares não exatamente atreladas ao Estado. sendo sua extensão e complemento. Pierre. Béla Guttmann: uma lenda do futebol do século XX. BOURDIEU. 1983. Detlev. o futebol se configura como suplemento disciplinar para aqueles que não vivem dele. Lisboa: Difel. 11 . mas. Rio de Janeiro: Marco Zero. 2014).criminoso é. & DUNNING. “Como é possível ser esportivo?” In: Questões de sociologia. Unijuí. Sociologia crítica do esporte: uma introdução. assim como os operários. CLAUSSEN. simultaneamente. 2005. um grande inimigo público. _______________. A busca da excitação. Porto Alegra: Magister. presentes também em contextos relativamente distantes da prisão. agora. 2015). O futebol tem a incrível capacidade de ser um incremento disciplinar voluntário. assim como as casas de saúde. Ijuí: Ed.

n. “Escola e educação física: maquinaria disciplinar. biopolítica e generificante. v. esp. 2005. O poder psiquiátrico. 2014. 2015. X. Curso do Collège de France (1973. 1. Florianópolis. MENDES. M.9/10. n. set. Porto Alegre. & GLEYSE. F. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes./out. Porto Alegre. _________________. “Doping. v. M.” In: Movimento. Tese de doutorado pelo Programa de Pós-Graduação de Antropologia Social da Universidade de São Paulo.PERES. 2006) FOUCAULT. MORAES E SILVA. 33. Rio de Janeiro: Vozes. n. In: Sociologias. n. performance: notas sobre os ‘limites’ do corpo. ano 6. esporte. “O cuidado de si em Michel Foucault: reflexões para a educação física. 39. J. nº 11. _________________. “O corpo em Foucault: superfície de disciplinamento e governo. 1. 34. Abril de 2006. Família joga bola: constituição de jovens futebolistas na várzea paulistana. disciplina e futebol: uma análise sociológica da produção social do jogador de futebol no Brasil. Alexandre F. SPAGGIARI. v.1974). Florianópolis. L. F. 27. 1993.” In: Revista Estudos. abr. Homo Ludens.. São Paulo: Companhia das Letras. 2014. Vigiar e punir: nascimento da prisão. WISNIK. Johan. v. n. 2008. jan/jun 2004. RODRIGUES.” In: Revista de Ciências Humanas. 2013. VAZ.” In: Revista Brasileira das Ciências do Esporte. MENDES./jun. São Paulo: Marins Fontes. “A educação física como disciplina preparatória a para o trabalho entre o pensamento de Foucault e de Herbart. José Miguel.” In: Revista Brasileira das Ciências do Esporte. Florianópolis. 2006. EDUFSC. Enrico. HUIZINGA. A sociedade punitiva: curso no Collège de France (1972 -1973). Michel. São Paulo: Perspectiva. Modernidade. C. Goiânia. 2012. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. H. set. 20. 12 .