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CANTOS DE ANGOLA: ARTICULAÇÕES ENTRE MÚSICA E LITERATURA

Onde queres família, sou maluco
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres coqueiro, eu sou obus
Caetano Veloso

Tania Macêdo (USP)

Em um país jovem como Angola, em cujo território numerosos grupos etno-
linguísticos com suas línguas e costumes constroem as “culturas angolanas”, em que
as guerras de independência e a guerra civil que se lhe seguiu marcaram
definitivamente suas gentes, não causa espécie que as questões atinentes ao “nacional”
estejam em destaque.
Elas se presentificaram, durante o período colonial, na contraposição (e luta)
entre o Outro, o estrangeiro, ou seja, o colonizador, e o Próprio, o autóctone e
espoliado, o colonizado. A luta entre os opositores foi cruel, já que a violência não se
dissocia da luta pela independência, com bem afirma Franz Fanon em Os condenados
da terra quando se refere ao sistema colonial e ao seu término: “este mundo estreito,
semeado de interdições, não pode ser reformulado senão pela violência absoluta”.
(FANON, 1979, p. 27)
E o mundo estreito a que se refere o psiquiatra martiniquenho, é aquele em que
a humanidade é negada ao colonizado, em que sua religiosidade se torna crença
bárbara, sua língua transforma-se em dialeto e a arte exotismo. Trata-se de uma
operação lenta em que, para lembrarmos mais uma vez Fanon, ocorre mais uma

(...) agonia continuada do que um desaparecimento total da cultura
preexistente. Esta cultura, outrora viva e aberta ao futuro, fecha-se, aprisionada
no estatuto colonial, estrangulada pela canga da opressão. Presente e
simultaneamente mumificada depõe contra os seus membros. Com efeito,
define-os sem apelo. A mumificação cultural leva a uma mumificação do
pensamento individual. A apatia tão universalmente apontada dos povos
coloniais não é mais do que a consequência lógica desta operação. (FANON,
1980, p. 38)

Podemos ver o mesmo cenário na música urbana. considerado o fundador da música popular angolana. na sua origem embalaram sonhos. Não nos referimos aqui apenas à música “tradicional” ou “tribal”. No caso de Angola. Nesse cenário. e /ou estiveram ligadas a rituais 1. Frente a esse cenário poderíamos nos perguntar: mas afinal. os instrumentos. o conjunto de Liceu Vieira Dias. a dança e a música tradicionais são toleradas desde que apresentadas como folclore que arranca os risos complacentes do colonizador. possamos presenciar espetáculos de dança ou a manifestações musicais dados em separado. grande parte de seu repertório referia-se a esse grupo etno-linguístico. “africana”. qual o espaço que restaria ao artista colonizado? Segundo entendemos. E aí descobrimos que as rádios veiculam como música local é o exótico e o “mumificado”. Sendo Luanda uma área de língua quimbundo. praticados num contexto ligado a uma cerimônia de ordem religiosa ou social. despertaram sentimentos. esse momento se dá nos finais dos anos 1940. brasileiras e congolesas. não se pode deixar à margem que a música. os gestos e as músicas que. “Coisa de pretos”. que tomamos para examinar mais de perto. as duas formas de manifestação artística se construirão nas ruas dos bairros suburbanos de Luanda. experimentando as possibilidades que o material da tradição lhe fornece. estética e função social estão entrelaçados. quando se consolidam dois sistemas artísticos: o da música popular e o da literatura. como um certo eurocentrismo gosta de chamar. . ainda que músicas de outros grupos também fizessem parte de seu repertório. os musseques. na maior parte dos casos. o artista colonizado trilha o espaço de negação do pequenino palco do exotismo que lhe foi destinado pelo colonialismo e prefere seguir pelo caminho às avessas. o “Ngola Ritmos”. assim como também músicas caribenhas. com liberdade estética. de onde retirarão a sua força e onde construirão seu público privilegiado. são adaptados para uma instrumentação europeia graças a tratamentos inspirados nas músicas afro-americanas sobretudo a partir do trabalho do Maestro Liceu Vieira Dias. a dança e os ritos são. Assim. perseguindo. a criação aberta ao futuro. veiculando a relação do homem com o mundo. A introdução da dikanza (reco reco) e das n’gomas (tambores de conga) em uma base de violas acústicas marca uma revolução no cancioneiro popular. do interior. No domínio da música. por exemplo: são esvaziados de sua vitalidade e função para serem transformados em espetáculo desenraizado e exótico. acabam por receber o mesmo tratamento que a estatuária africana. sobretudo a partir dos anos 1940. Nesse sentido. marca a diferença. os cantos e as danças tradicionais. Entrelaçados. 1 Ainda que por vezes.

Provavelmente a construção de uma capela no local foi uma forma de os colonizadores tentarem subjugar os africanos. define como um despertar de consciências adormecidas.74) Na literatura. tamanha a sua popularidade: “Muxima”... . O curioso é que no imaginário popular a capela teria surgido repentinamente. mas é cantada em quimbundo. o interior nem sequer tinha rádio porque era proibido vender pilhas. assim. surgido em 1948. Portanto a música dos N’Gola Ritmos tinha uma importante função política. aliás. Não havia televisão. Para entender um pouco a música. “Kissanguela ngueto ni mazundo”. que não acreditavam em mais nada. acusado de feitiçaria. buscava uma atualização da inteligência nacional (para usarmos uma expressão do nosso Mário de Andrade quando se referiu ao movimento de 1922 no Brasil). para evitar que as pessoas ouvissem Brazaville.. devemos lembrar que Muxima (palavra que quer dizer “coração” em quimbundo) é uma localidade que começou como presídio em 1595. por exemplo. por obra de um milagre.. tornou-se espaço de culto e romaria. Kinshasa. p. transformando-se numa espécie de “hino” angolano. afirma: Se dizes que sou feiticeiro/ Leva-me então a Sant’Ana Tanto a música. nesse mesmo momento. lembremos de um clássico do cancioneiro tradicional angolano que passou à esfera da música popular. in LOPES. Mas ele sabia quem era o sapo. com o objetivo de dominar os povos da Quissama. quanto a Letra. O pedreiro pode sai estar a trabalhar mas estava ali. (AMORIM. 2012. (.) Quando a gente dizia. eram 500 anos de colonização. que mistura feitiço ao imaginário cristão. um dos integrantes do conjunto. há o movimento “Vamos descobrir Angola!” que. A música tem uma letra em quimbundo e refere-se a um rapaz que. a assobiar a minha canção. zona de forte tradição de magia e bruxaria. E. Apenas para exemplificar o trabalho artístico do “Ngola Ritmos”. nem rádio. descontraidamente. indiciam uma postura que Amadeu Amorim. que – na senda da proposta do “Ngola Ritmos” – mescla instrumento de corda europeu à percussão africana. isto traduzido à letra quer dizer “não queremos mistura com os sapos”.

Viriato da Cruz escolhe um caminho bastante interessante. exatamente desejavam os jovens que. com os fios da oralidade. na vontade e na razão africanas.) natureza africana. mas sem que se fizesse nenhuma concessão à sede de exotismo colonialista. os autores buscam responder aos desafios de consolidar uma literatura. Em razão disso. nos fins dos anos 1940 intitularam-se Novos Intelectuais de Angola. s/d. brancos e mestiços que formavam o movimento desejavam conhecer e escrever para sua terra. fundaram a revista Mensagem. os seus povos de hábitos e linguas tão diversas” O movimento. Cada um à sua maneira. Antonio Jacinto e Viriato da Cruz. na medida em que seus textos procuram urdir. todas as estações e apeadeiros das linhas férreas de Portugal.. (. mas que mal sabiam os afluentes do Cuanza que corria ao seu lado. fizeram um concurso literário. Sob esse aspecto. o “Vamos descobrir Angola!” percorre a mesma senda do movimento da múscia popular angolana do período. na inteligência. principalmente. resultado um . tornou-se necessário estabelecer o diálogo com outro universo cultural. o projeto ideológico de 1930. Do “Vamos descobrir Angola!” faziam parte sobretudo poetas e. Tudo deveria basear-se no senso estético.) solicitava o estudo das modernas correntes culturais estrangeiras. (ERVEDOSA. que não o estreito mundo colonial e salazarista e a interlocução escolhida foi a produção cultural brasileira. Eram ex-alunos do liceu que recitavam de cor todos os rios. Mas o que. com o seu caráter de ruptura em 1922 mas. 81) Ou seja. todas as serras.. esses moços consideravam imprescindível uma aposta na modernidade. os rapazes negros. como também uma ruptura com o colonialismo tardio e prolongado. o tecido da escritura. apresentava. p. exigia a expressão dos interesses populares e da (. pois isso significava não só estar no compasso do que se fazia no mundo. três nomes se destacam: Antonio Agostinho Neto. as suas serras de picos altaneiros. O modernismo brasileiro. para os angolanos as credenciais fundamentais para o diálogo.. buscaram e formaram o seu público nos musseques de Luanda? Segundo o crítico Carlos Ervedosa. no que concerne à aproximação com o Brasil. mas com o fim de repensar e nacionalizar as suas criações positivas válidas. dentre eles..

que já no titulo estabelece uma referência não apenas à fala popular (em quimbundo e não em português. temos a chamada “Poesia de guerrilha”. era cantada nas bases guerrilheiras e veiculada apenas nas emissões das rádios clandestinas. Dessa forma. publicado pela primeira vez nos anos 1950 e posteriormente musicado por Rui Mingas 2 instaura um outro dizer. e da guerra de guerrilha. como a demarcar territórios). acompanhada pelo conjunto 2 Martinho da Vila. mais uma vez literatura e música se entrelaçam. 3 Pensamos aqui. por exemplo. Assim. vendedora de makezu (noz de cola e gengibre). exaltando a luta de libertação. se impõe como modelo e somente seria questionada e parodiada.0-Turbinado ao vivo (SonyBMG. irá realizar um trabalho intenso de dotar de música os poemas escritos por seus colegas (Agostinho Neto. de João Melo (Os filhos da pátria) . cujos feitos heroicos são capazes de derrotar até mesmo a morte. A música de combate. Aqui vale um parênteses.texto em que quimbundo e português. Tanto na prosa quanto na poesia. Quando de sua estadia em Portugal na condição de estudante e atleta do Benfica. essa personagem solar. do MPLA. como também a contraposição entre os velhos tempos e a modernização dos costumes ao iluminar a voz da velha quitandeira Avó Ximinha. ao aproximar-se de outros nacionalistas africanos na Casa dos Estudantes do Império. Essa música. no Brasil. sob a égide da modernidade. em anos subsequentes. se aproximam e distanciam. Mario Antonio). O combate passará a ser não apenas cultural. mais conhecido por David Zé (morto em 27 de maio de 1977). no conto “ Elevador”. 1998). já que este não é o único poema musicado por Ruy Mingas. escolhemos O guerrilheiro. Dentre essas canções. numa tentativa bem conseguida de popularizar os textos nacionalistas. este texto. instalados pelos franceses durante a II. que busca “as raízes”.ª Guerra Mundial. tradição e ruptura se entrelaçam. mas também no maquis. explicitando assim o projeto estético e o projeto ideológico. Mas os tempos exigiam respostas mais incisivas. E o ano de 1961 marca o início da luta de libertação nacional. que exalta os feitos dos combates e ensejará que se forje na literatura angolana uma nova personagem: o guerrilheiro. a partir dos anos 2000 3. Um exemplo é o poema “Mazeku”. que utilizava os emissores de alta potência da Rádio Brazzaville. gravou a música no disco 3. com a Angola Combatente. Antonio Jacinto. Como se pode aquilatar. trata-se de uma personagem com uma vida bastante longa na literatura do país. que metaforicamente no texto são dadas a partir do Makezu. A partir do recrudescimento dos combates. de autoria de David Gabriel José Ferreira.

combatentes angolanos. Honramos o passado e a nossa História. Um só povo. avante! Revolução. o Hino Nacional de Angola. Construindo no Trabalho o Homem novo.“Os merengues”. pela primeira vez. Em novembro desse ano é executado solenemente. é dolente. pelo Poder Popular! Pátria Unida. após 14 anos de guerra. Marchemos. Dessa forma. Orgulhosos lutaremos Pela Paz Com as forças progressistas do mundo. a música de Ruy Mingas de quem já falamos. uma só Nação! Levantemos nossas vozes libertadas Para glória dos povos africanos. O Pátria. pensando e “dizendo” a nação. o “Angola avante!” com letra do poeta e prosador Manuel Rui. havia uma proposta de solidariedade com os povos oprimidos e a paz era um objetivo a ser alcançado não apenas para o país e África. quando Angola obtém sua independência. acompanhada de percussão tímida e uma guitarra. Nesse breve percurso sobre as relações entre literatura e música em Angola. Mas ela concorre com a comunicação rápida e massificada. Ao mesmo tempo. Solidários com os povos oprimidos. nós saudamos os teus filhos Tombados pela nossa Independência. mas para o mundo: O Pátria. Apenas para ilustrar. quando o “poder popular” era importante. Angola. As dificuldades enfrentadas por Angola após sua independência serão imensas. com uma guerra fratricida que transcorre de 1975 a 2002. revisitemos rapidamente o ano de 1975. os projetos socialistas são colocados à margem e economia da globalização é a aposta da classe dirigente angolana. transcrevemos esse poema que “fala” Angola e a utopia dos primeiros tempos de sua independência. com um . A literatura continua a ser elemento importante na vida do país. a canção se realiza como se o importante fossem as palavras e não a música. Liberdade. nunca mais esqueceremos Os heróis do quatro de Fevereiro.

um nebuloso falso caso de encontro de droga em sua bagagem quando foi a Portugal. Os novos nomes de produtores. filho de um homem próximo ao staff do presidente da república de Angola. como adaptação das “street dances”. Condutor. e que é o seu maior crítico. A música para dançar. ritmo que ganha mais e mais adeptos (inclusive no Brasil. Esses artistas afirmam fazer um tipo de música undergound. trata-se de uma posição indômita e direta contra o governo de José Eduardo dos Santos e tem feito numerosos admiradores e seguidores entre a juventude do país. feita para o mercado ganha terreno e as pistas das muitas discotecas de Luanda surgidas após os anos 1990 tocam o kuduro. há outras canções pelos becos e ruas de Luanda que procuram romper com o “status quo” e denunciar a situação angolana. Sua música intitulada “Kamicasio” teve ampla divulgação e custou-lhe a prisão e a perseguição pelo regime: há pouco foi-lhe cerceada a saída do país e ele foi envolvido. para citar dois nomes. pelas autoridades alfandegárias angolanas. rap: MC Kappa. Flagelo Urbano. e veiculam a perspectiva do jovem de Luanda: os amores. o Pensador e com MV Bill. longe das pistas de dança e próximos dos musseques. não espanta que digam que o “sangue do Ngola Ritmos corre em suas veias” e que o Brasil se faça presente a partir do contato que mantém com Gabriel. também conhecido por Zé Du: “Culpado da miséria no país não é só um/Mas o principal não é segredo chama-se o Zé Du” ou ao estado de coisas de Angola: “Desespero me fez me tornar um kamicase/Isto é minha nota de suicídio aos meus pais/Falou a verdade vai no caixão/Que raio de democracia é essa?” Como se pode verificar. Dentre os versos de sua canção. No entanto. nem sempre de boa qualidade. cantores e compositores angolanos podem parecer estranhos. José Eduardo dos Santos. vale a pena dar relevo a Ikonoklasta. deixou os bairros populares para apresentar-se em videoclipes luxuosos. Nascida nos musseques. sai algo prejudicada. Keita Mayanda. mas estão vinculados ao mundo da música urbana: hip hop. em que foi tema de abertura da novela “Avenida Brasil”. Phay Grand. e a escrita atinge menos leitores. . As letras de suas músicas são algumas vezes ingênuas. E. no confronto. José Eduardo dos Santos. Leeonardo Wawuti. salientam-se as críticas abertas ao presidente. da rede Globo). Ikonoklasta ou MC Mata Frakus. Nesse panorama.capitalismo predatório que comanda a economia e a política de Angola. as dificuldades para obter emprego e o mal estar de sentir-se alijado das decisões políticas. em junho de 2012. Sob esse particular.

felizmente. Carlos. 1979. 2 ed.html ERVEDOSA. Tarrafal – Chão bom. 1980. pode-se dizer que. Rio de Janeiro: Civilização brasileira. Roteiro da literatura angolana. 4 ed. os “mambos da malta”. na vertente desses músicos a que fizemos referência: trata-se de Ondjaki. ou seja. de certa maneira. com várias referências a letras de canções populares em seus textos e com uma linguagem que expressa muitas vezes a “fala” e os problemas dos jovens luandenses. Lisboa: Sá da Costa. Disponível em http://musicauhuru. Ngola Ritmos – Porta-estandarte da cultura musical angolana. 2012. Luanda: UEA. Os condenados da terra.br/2010/02/ngola-ritmos-porta-estandarte-da. Para terminar. Memórias e verdades. mencione-se um jovem valor da literatura angolana que se coloca. cuja prosa traz um ritmo muitas vezes próximo da rapidez e flexibilidade do rap e do hip hop. 2 ed. Com essa referência. 81- 105) FANON. Referências bibliográficas LOPES. s/d (p. Franz. as articulações entre literatura e música continuam presentes em Angola. fazendo a riqueza de ambas. Franz.com. .blogspot. José Vicente. Praia: IIPC. Em defesa da revolução africana. FANON.