You are on page 1of 3

Submergidos na heterogeneidade dos rios profundos

Qualquer Pessoa que emerja em los rios profundos de Arguedas pode perceber facilmente o
encontro entre culturas e contradições, não propõe uma historia conciliadora e homogênea; ele
propõe um dialogo entre diversos coexistentes, gerando vínculos e se opondo. Além de ser um
espaço discursivo é um espaço histórico, onde sobressai a injustiça, a opressão e a pobreza,
mostrando assim uma realidade com conflitos y dolorosa, num mundo totalmente humano.

para poder entender este encontro e realizar uma análise mais profunda de esta literatura é
importante observar como dito por Conejo Polar ´´el problema básico de la duplicidad de sus
mecanismos de conformación: la oralidad y la escrita´´. (CORNEJO, 2003, pag.19).
Segundo Cornejo o problema afeta própria a materialidade do discurso e surge de situações próprias
da diglossia. Como se vê no primeiro capítulo el viejo, quando Ernesto observa detalhadamente o
muro incaico:
Me acordé, entonces, de las canciones quechuas que repiten una frase patética constante:
“yawar mayu”, río de sangre; “yawar unu”, agua sangrienta; “puk-tik’ yawar k’ocha”,
lago de sangre que hierve; “yawar wek’e”, lágrimas de sangre. ¿Acaso no podría decirse
“yawar rumi”, piedra de sangre, o “puk’tik yawar rumi”, piedra de sangre hirviente?
(ARGUEDAS, 1973, pag 11)

Neste trecho podemos ver o encontro entre o quéchua e o espanhol, o que significa um encontro
entre culturas diferentes onde se diferencia a oralidade (escrito em Quéchua) da escrita (escrito em
espanhol). Arguedas na obra utiliza o quéchua que é um idioma especial que parece trazer doces
reminiscências da infância do narrador. Cornejo disse que existem diferenças obvias entre estes dois
tipos de produção entretanto há uma forte interação e o escrito no poderia ser entendido se esta
interação não existisse (CORNEJO, 2003, pag 19).
Lucia Herrera Montero em seu ensaio sobre a heterogeneidad en los rios profundos citando a
Guillermo Mariaca disse que Arguedas ´´juega con dos logicas culturales distintas y heterogeneas´´
(HERRERA, 2009, pag 12), porque de um lado se vê a escrita como representação das sociedades
letradas e o Quéchua representa as comunidades agrafas, que é aonde o texto começa a
transformarse e a transmitir sensações que vão mais além da escrita.

Não só o primeiro capítulo se destaca esta interação de línguas, também o segundo quando Ernesto
narra as viagens que fez com seu pai e se lembra dos huaynos que cantavam os indios em maio na
cidade de Huancapi. No quinto capitulo ``¡pachachaca! Puente sobre el mundo´´, Ernesto também
narra o huayno cantado pelas mestiças das chicherias. No nono capítulo quando os guardas estão
tirando uma mula do pachachaca e escutam as mulheres cantando um jarahui pedindo para não
matar nem disparar. Essas canções são máximas expressões orais, e nelas se aprecia a tradição
cultural e a historia, com todos seus conflitos; são momentos de concentração emocional pelas
descrições de instrumentos musicais, movimentos e danças. Assim em vários episódios do romance
está presente o quéchua seguido do espanhol.

Cornejo Polar aponta que uma das características da literatura heterogênea é ´´la duplicidad o
pluralidad de los signos socioculturales de su proceso productivo´´, o que implica que exista ao
menos um elemento que no coincida e gere uma contrariedade, um conflito, uma ambiguidade
(CORNEJO, 2013, pag. 106). Isto é precisamente o que espelha o romance de Arguedas ao
contrastar as duas línguas. Analisando não só o fato de serem línguas diferentes senão observando
que elementos nos geram conflitos como expõe Cornejo. Claramente a língua é um de estes
elementos mas também se pode perceber ao longo do romance a cosmovisão tanto da cultura
ocidental, como da indígena. Por exemplo quando Ernesto esta falando com seu amigo Romero e
Palacios se acercam a eles:

—¿Tú crees que el canto del rondín puede llegar hasta cien leguas, si alguien le ruega? —
le preguntó Romero.
—Quiero mandarle un mensaje a mi padre, en el canto del rondín, Palacitos —le dije—.
Que Romero toque “Apurímac mayo”... Yo imploraré al canto que vaya por las cumbres,
en el aire, y que llegue a los oídos de mi padre. Él sabrá que es mi voz. ¿Llegará,
Palacitos? ¿Llegará la música hasta Coracora si le ruego en quechua? Tú sabes mejor que
yo de estas cosas. (ARGUEDAS, 1973, pag. 147).

Esta visão de mundo claramente nao pertence ao mundo ocidental, é então aonde percebe se
elementos em conflito. O simples fato de tentar transmitir a cosmovisão quechua em espanhol gera
uma contradição este tipo de cosmovisão poderia confundir se com uma visão infantil como propõe
o pai de Ernesto no primeiro capitulo ´´—Sí, hijo. Tú ves, como niño, algunas cosas que los
mayores no vemos. La armonía de Dios existe en la tierra´´ (ARGUEDAS, 1973 pag.14)

Ainda mais seguida de uma expressão ocidentalizada que tenta homogeineizar as realidades em que
ele debate com seu filho. Outro elemento do romance que parece ser heterogêneo, além de Ernesto é
seu pai, poderiamos pensar que este pensonagem faz parte do mundo dos brancos, mas podemos
perceber que em várias ocasiões este não consegue ocultar os ensinamentos que ganhou da cultura
inca:
—Puede que Dios viva mejor en esta plaza, porque es el centro del mundo, elegida por el
Inca. No es cierto que la tierra sea redonda. Es larga; acuérdate, hijo, que hemos andado
siempre a lo ancho o a lo largo del mundo. (ARGUEDAS, 1973, pag. 15).

Inevitavelmente ainda que queira de alguma maneira distanciar a realidade quechua, o pai de
Ernesto se encontra entre estes dois mundos, não só pela aprendizagem senão também pela maneira
como o transmite ao seu filho, de forma oral. este elemento resulta ser outra caracteristica da
literatura heterogenea pois um criterio de Cornejo Polar ao querer encontrar uma definição correta
para este tipo de literatura é o de ´el grado de asimilación de los intereses sociales autenticos del
pueblo indigena (o en el extremo opuesto, el modo como esos intereses son olvidados, tergiversados
o negados) (CORNEJO, 2013, pag.121), que é precisamente o que ocorre com o pai de Ernesto.

Estes numerosos conflitos que estão presentes nesta e em outras obras latinoamericanas, segundo
Cornejo, surgen por ´´estar situadas em el conflictivo cruce de dos sociedades y dos culturas
´´(CORNEJO, 2013, pag.102). Além de que este cruzamento, na literatura indigenista se dá, a partir
de um feito da colonização, o que resulta ainda mais conflitante. claramente podemos perceber que
existe uma cultura predominante e que de acordo com Herrera Monteiro, ´´El hablar de una
mezcla que no ha logrado transformar las esferas implicadas, el referirse a una interacción que no
produce una síntesis plena de las instancias involucradas, supone dotar al término “mestizaje”de
connotaciones diferentes a las usuales.´´ (HERRERA, 2009, pag.22) como o que podemos ver no
seguinte fragmento:
La construcción colonial, suspendida sobre la muralla, tenía la apariencia de un segundo
piso. Me había olvidado de ella. En la calle angosta, la pared española, blanqueada, no
parecía servir sino para dar luz al muro. (ARGUEDAS, 1973, pag. 12).

Se destaca qual é a cultura predominante, o muro branco que representa o “puro”, o “nobre”, o
“bom” e o muro incaico representado como o de “subdesenvolvido”, o “índio”. Não apenas neste
trecho senão ao longo do romance se apresenta claramente a desigualdade e isso é o que queria
comunicar Arguedas, quer mostrar a opressão, desigualdade e a discriminação, por meio do
encontro de culturas e de personagens que divergem e convergem de uma maneira não-harmônica e
é o que permite observar esta heterogeneidade que as vezes negamos a aceitar querendo que tudo
seja homogêneo.