You are on page 1of 6

SIBILA

A PROJEÇÃO DO CORPO NO
Revista de poesia e crítica literária
CONTEXTO DA OBRA – UMA
Ano 17 - ISSN 1806-289X
REFLEXÃO A PARTIR DA INSTALAÇÃO
“A CASA É O CORPO” DE LYGIA CLARK
Dione Veiga Vieira | 18 mar 2009 | Novos e críticos

Lygia Clark. “A Casa é o Corpo: Labirinto”, 1968. Instalação
realizada no MAM-RJ e na Bienal de Veneza, em 1968.

O corpo como enfoque das reflexões da obra – com exceção daquela que usa o próprio corpo como

Ano 17 -suporte – não é mais percebido unicamente por suas características basilares, e sim como parte da
ISSN 1806-289X
imensa teia de significações que a obra opera. Uma vez que o corpo, concebido no cruzamento de
Ano 17 - ISSN 1806-289X
Revistaconceitos
de poesia e críticapassa
e processos, literária
a ser compreendido – tanto na experiência artística quanto na

Revistaexperiência
de poesia reflexiva – como algo amalgamado ao contexto
e crítica literária da obra. O corpo, nesse nível de
percepção e análise, está impregnado de um rumoroso mundo externo a ponto de confundir-se com o
mesmo e permanecer na impossibilidade de uma identidade conferida apenas por suas inerentes
singularidades. O corpo pertence ao espaço do mundo, com o qual nunca atinge uma estabilidade.

Freqüentemente podemos observar em certas propostas de arte que o corpo físico se faz entrever
fragmentado, desconstruído, ou distorcido, e assim, (e apesar disso) facilmente identificável. Porém
em outras, o corpo encontra-se tão pulverizado em múltiplas referências – sociais, históricas, políticas,
científicas, metafísicas, etc. – que não há qualquer elemento identificador de sua organicidade. Em
todas essas abordagens, há sempre uma idéia de prolongamento do corpo – o corpo individual está
expandido em seus desdobramentos conceituais e, ao mesmo tempo, na acepção plástica da obra.

Casa e corpo – uma engrenagem simbólica

Há exatamente quarenta anos atrás, Lygia Clark (1920-1988) apresentou, duas vezes, e no mesmo
ano, a instalação “A Casa é o Corpo”, obra de fundamental importância para a história da arte
brasileira: pela primeira vez, no MAM-RJ e posteriormente, na Bienal de Veneza, quando expôs em
sala especial, toda a sua trajetória artística até aquele momento, em 1968.

“A Casa é o Corpo” se constituía de um grande balão plástico situado no centro de uma estrutura
formada por dois compartimentos laterais e um labirinto de 8 metros de comprimento – uma obra-
ambiente concebida “para ser penetrada pelo visitante como abrigo poético” (MILLIET, Maria Alice.
1992. p.111)

SIBILA A palavra “abrigo” proclama a função primordial da casa: a de abrigar o corpo. Nesse caso, a casa-

SIBILA
obra de Clark é basicamente um espaço que “acolhe” o público para a revivência intra-uterina. A obra-
casa é um corpo fecundo – um imenso útero; um espaço-continente. O título da instalação aponta
essa determinada compreensão, porém, por si só, evoca outros imprecisos sentidos, os quais,
inevitavelmente, repercutirão em inexauríveis leituras.

e por vezes desarticulados ou. uma “arquitetura viva”. 1999. se refere à expressão colombiana que aponta o lar em que subitamente um membro da família desapareceu pela violência política. através dos gestos dos participantes. os móveis. os corpos individuais dos participantes tornavam-se um “todo orgânico” ou. ou transgressoras – porque “o gesto é soberano e insubmisso a qualquer regra” (MILLIET. ao usar roupas. passa a ser o meio estruturante das “ações vivenciadas”. (…). essa obra com qualidade de corpo no sentido atribuído por Merleau Ponty: “Ser corpo. das ações coletivas transformadoras.131). a partir daquele momento. além do conceito de “abrigo” ou. de “espaço privado”. p. se referindo às atrocidades políticas cometidas em seu país. É importante ressaltarmos que nessas ações coletivas. A casa é o ambiente em que se processam os primeiros sentimentos de coletividade. Cildo Meirelles (1948) Tunga (1952). a casa constitui o espaço fundamental das experiências socializantes. plasmam a idéia de brutalidade suportada pelo indivíduo e. Assim. conforme Clark. Merleau. reflete sobre o “corpo individual” dentro do “corpo social”: essa é uma reflexão de corpo em sua totalidade. do “corpo social” – uma simbologia que se faz muito presente na arte contemporânea. O corpo que. por conseguinte pela coletividade. Maria Alice. em uma escala de múltiplas variações conceituais e formais. empilhados em grandes blocos. época da ditadura militar no Brasil. . é estar atado a um certo mundo” (PONTY. até início de 2000 – estava. passa a se desenvolver muito significativamente ao longo dos anos 70. através de outras proposições.A Casa é o Corpo – o coletivo e o individual A instalação “A Casa é o Corpo” funda a noção clarkiana de “corpo coletivo” a qual. As ações. p. 1992. artista colombiana. p. cada um a seu modo. “Trata-se de um abrigo poético onde habitar é equivalente do comunicar” (Clark in MILLIET. em certos momentos articulam os desdobramentos dessa premissa. ou mais precisamente. e como tal estabelece uma metáfora poderosa do “corpo coletivo” ou. re-significada na obra de arte. e no objetivo de distanciar-se cada vez mais do objeto. 1992. Nessa época. A imagem da “casa”. enunciou: “o corpo é a casa”. por exemplo. perpassa. Para Salcedo. 1992 -1995). construíam esse “corpo-casa”.205). Doris Salcedo (1958). continha nítidas intenções anti- establishment – e não somente em relação ao sistema das artes. móveis e objetos domésticos – em obras realizadas na década de 90 e. alterados com cimento. o lugar onde se estruturam modelos de sociedade baseados na organização familiar. O espaço da moradia representado tanto pelos aspectos arquiteturais internos e externos. quanto pelo mobiliário e objetos cotidianos.117). Maria Alice. sobretudo. Clark continuava se referindo ao termo “abrigo poético” ao mesmo tempo em que inverteu as palavras do título da instalação e. O título da obra “La Casa Viuda” (A Casa Viúva. A Casa é o Corpo – na Contemporaneidade O embate “corpo individual x corpo coletivo” está geralmente referenciado conscientemente pelo próprio artista. Adriana Varejão (1964) e José Bechara (1957) são alguns exemplos de artistas brasileiros – para citar apenas alguns – que. Evidentemente que essa “poética de corpo” construída na emergência de uma imaginação criadora e crítica. a idéia de um “espaço coletivo” primordial. dedicando-se às “vivências criativas”.

recebe um jorro vermelho da torneira. – também alude que o vermelho seria uma metáfora da força da expressão individual sobre a homogeneização produzida pela economia global: “Este o desafio de individuação. ali se deposita um rastro de paixão e conflito. cujo sangue correu nas prisões e nos lugares. o vermelho como meio de expressão. Casa e corpo estão completamente amalgamados. muitas vezes clandestinos. portanto. nos transportando ao espaço de uma residência. em discursos de espera de um tempo em que os objetos internacionalmente grifados ou indiferentemente massificados sejam inteiramente recobertos de múltiplos tons de vermelho e o cotidiano seja invadido pelo mundo da arte”. ao lugar do assassinato de um jornalista político. E. assim. no qual uma pia de louça branca. da opressão e da resistência. um lugar muito “particular”. obras de arte e diversos objetos estão encobertos pela cor vermelha. Essa disputa entre as “forças da ordem” e os contestadores se prolongou por vários dias. a ambigüidade do título nos oferece as pistas para uma instigante reflexão. em 1998). onde móveis de diferentes designs. de interrogatório. levou-o. ambas apresentadas em 1998.Cildo Meireles. parecendo flutuar no espaço negro. os amigos reescreveram com tinta vermelha. Transformam-se. e que também alude ao sangue. 1984 e 1998) possui três ambientes: uma sala branca (Impregnação). Fonseca interroga: “Quatorze anos mais tarde. Icléia. onde uma pequena garrafa deixa escorrer uma poça vermelha no chão. simultaneamente. cujas vidas tivessem emigrado da pele de seus humanos corpos para o ambiente paralisado. (…) Que novos sentidos ela assume? Que outros . “O título revela o seu duplo sentido: o ‘desvio para o vermelho’ era a resistência. ainda criança. Werneck (2002). ao comentar a obra “Desvio para o Vermelho” de Cildo Meireles – relacionando-a a uma performance de Nardja Zulpério. “Desvio para o Vermelho” (1967 – 1984). O artista associa também ‘Desvio para o Vermelho’ a um episódio de sua vida: seu pai muito engajado politicamente.” (CATTANI. Cildo Meireles com a instalação “Desvio para o Vermelho: Impregnação. A polícia apagou: à noite. Sobre a questão das leituras propiciadas pelos diferentes contextos histórico-culturais em que uma mesma obra é apresentada (nesse caso. um imenso borrão de ações incomuns deixado por desmesurados habitantes do apartamento- país-mundo. na Bienal Internacional de São Paulo. Maria Helena. 2002). e uma sala final (Desvio). Em contraste com a ordem perfeita da disposição da mobília e dos objetos decorativos. lhe confere um sentido de corpo. Toda a instalação. 2004: 110) A instalação “Desvio para o Vermelho” (1967. “Desvio para o Vermelho” em 1984 e depois. um corredor estreito e escuro (Entorno). O vermelho como metáfora. Os colegas deste tinham escrito nas paredes. Entorno e Desvio” conceitualiza o “corpo individual” e o “corpo coletivo”. compõe uma insólita habitação. com o sangue do próprio morto: Aqui jaz um jornalista que defendia a liberdade de expressão.” (WERNECK. tal como na obra de Lygia Clark em questão. combatida pelos militares com a tortura e a morte dos opositores. (…) mesmo quando as individualidades são absorvidas nos fluxos de comunicação e consumo da mundialização. E a cor vermelha que impregna o seu interior. “(…) o vermelho vivo sugere mais do que a memória sensorial pode guardar.

. invariavelmente. político e sociocultural. mas global. filosóficas e intelectuais – um processo muito peculiar do artista. Tunga utilizou dezenas de luminárias e mesas em uma exuberante exposição – composta de instalação e performance – intitulada “Laminadas Almas” (2004-2007).sentidos ligados ao contexto de seu momento histórico-cultural original ficam menos evidentes?” (FONSECA. “Laminadas Almas”. em 2007. porém ao mesmo tempo. se equilibram sobre bases desiguais. a obra ficará sempre relacionada à idéia de um “corpo social”. Óleo sobre tela. Mesas atravessadas por metais dourados e pelos suportes de luminárias acesas. Além do que. 2004-2007. Fixando-nos apenas em um dos três ambientes: mesas e luminárias estão permeadas por diversos materiais como placas de vidro temperado. Ou seja. tenta se equilibrar (teimando em continuar ‘aceso’ e vivo)? Os “cortes” e “perfurações” em cada mesa (metáfora do corpo individual?) seriam as marcas deixadas pelo impacto das turbulentas transições ocorridas nesse “corpo expandido”? Essas seriam algumas das possíveis leituras sobre uma obra de poesia infinda. concebida no espaço da instalação. Seria injusto abordarmos essa instalação. sejam essas econômicas. lâmpadas. explora significações sobre “metamorfoses”. (repleto de luzes e dourados). acima de tudo. No entanto. A casa. sobre um mundo de referências recentes. madeira. 200 x 160 x 57. produto de elaborações poéticas. metal polido. Fotografia de Otavio Shipper. um espaço fora do circuito de arte. apesar das diversas leituras possíveis. demonstrava uma atitude assumidamente política do artista perante a falta de programas culturais das instituições. Maria da Penha. . desorganizando o contexto simétrico? Seria esse um “corpo social” luxuoso. sofre com abruptas cisões? Um “corpo social” que. Resina. em suas estruturas básicas. Dimensão variável. apresentada no Arquivo Geral do Jardim Botânico–RJ em 2006. Tunga. poliuretano em suporte de madeira e alumínio. apenas sob o ponto de vista formal desses objetos-esculturas. Contudo. vulnerável – ferido e desestabilizado? Um mundo que. (e além mesmo das próprias referências do artista). e no MOMA-NY. 1998. as images/stories geradas por esses objetos (relativos ao espaço privado da casa) produzem analogias entre o “corpo individual” e o “corpo social”. é o que elabora eficientemente a metáfora de um contexto histórico. Que “laminadas almas” são essas que atravessam os objetos. 2007). que nesse caso. Tunga sempre teve respostas críticas perante o contexto político-cultural. culturais ou ambientais. Adriana Varejão. mesmo desestruturado. latão. telas de metal e fios emaranhados. O próprio fato de apresentar essa obra específica no Jardim Botânico-RJ. A obra em sua totalidade é. Em uma rápida leitura de “Laminadas Almas” fica difícil evitar as considerações sobre um certo “contexto” não somente brasileiro. por ex. “Língua com Padrão Sinuoso”.

tem buscado os elementos constitutivos de sua poética nas referências históricas brasileiras. O quadro é um corpo. do processo de formação da América pelas políticas de gênero relativas à mulher. rasgada em sua pele-casca. e como tal. a Antropofagia.. . artista que articula uma obra entre pintura.. a começar por sua expressão mais essencial. 2002. pelas lições de anatomia do conhecimento científico e da arte” (HERKENHOFF. O quadro ferido – a vitimação física conecta a pintura de Varejão ao sentido edificante da vida dos mártires.. por serem tão agudas. . o “Corpo individual” está fundido a um “corpo social”. escultura e arquitetura. Bechara buscou estabelecer relações físicas. algumas delas silenciosas embora avassaladoramente sufocantes. indo do barroco ao mito fundamental da cultura brasileira do século XX. durante o evento. em um encontro/residência de artistas plásticos realizado no município de Pinhão. uns contra os outros. 1996).. 2005) A casa de Bechara é um corpo vulnerável que estremece e vomita. As associações entre “corpo individual” e “corpo social” são imensuráveis. de tão brutal e caótico. O corpo é a obra. obstruindo as portas e janelas. são potencializadoras das mais incômodas leituras. Um “corpo social” que assim. a obra de Varejão “ganha qualidade de corpo”. Essa “casa insana” parece ser a síntese visual de um “corpo social” que – na inversão de suas funções – nos ameaça com os mais inesperados atos de abandono e violência... Estamos diante da moldagem histórica do corpo pela religião. impedindo a passagem humana. Paraná. e de tal modo. A casa (a própria obra) está bloqueada por um ajuntamento de móveis que se projetam comprimidos. Essa solução técnica possibilita uma imagem atroz: a parede (da casa) é um corpo dilacerado e sanguinolento. pelos encontros violentos e amorosos. relacionando-os às crueldades da escravatura.Adriana Varejão. Paulo. Corpo e casa formam uma estrutura única. José Bechara. Vista parcial Faxinal das Artes. Nessa visão unificante de mundo. Partindo de uma casa que servia. por exemplo. Citações essas que na pintura estão dramaticamente associadas a um simulacro de carne: poliuretano pintado de vermelho. Faxinal do Céu. “O quadro põe-se aqui como corpo do mundo. a violência perpassa os espíritos em versões variadas. como os desenhos da azulejaria portuguesa. como habitação e ateliê para o artista. menciona elementos visuais referentes ao barroco. exposta em sofrimento pulsante.. A História é o corpo. abalando qualquer ilusão de que exista um refúgio seguro. tornou-se inabitável. Registro Fotográfico: Dedina Bernadelli. se ata a “um certo mundo” – um universo histórico-cultural... negando a sua função de abrigo. em Faxinal do Céu. Agnaldo. “A Casa”. a casa.” (FARIAS. Paraná em 2002. José Bechara apresenta “A Casa”. Na série “Azulejaria”. metafísicas e visuais sobre o habitat. De um modo similar à instalação “A casa é o Corpo” de Lygia Clark. “Mas o fato é que a atmosfera anda pesada. e algumas.

“O Sumo da Violência” in http://www. Nota ¹Título da Palestra ministrada pela autora do texto. Santiago do Chile.. (http://www.. de outras propostas contemporâneas que usam a imagem da casa para refletir sobre o corpo – não somente em relação à sua individualidade e organicidade. EDUSP.Nas análises críticas a respeito dessas e também. Arriscar a Arte: O Risco como Resistência” in “Icléia Cattani”. Catálogo de exposição. O “corpo individual” está impregnado desse “corpo social”.br/Catedra/revista/6Sem_13. e a esse diretamente relacionado. Merleau.josebechara.puc-rio. 2008 . Galeria Fortes Vilaça..br/dissertacoes/2007/MARIA%20DA%20PENHA%20FONSECA. MILLIET. E vice-versa. Tradução de C.com/texto3. in http://www. “ Lygia Clark: obra-trajeto”.letras. Maria da Penha. FUNARTE.html) Acessado em novembro de 2008.. Paulo. Definitivamente. “Fenomenologia da Percepção”.. Referências Bibliográficas CATTANI. 2002. FONSECA. com o convite de Sergio González Valenzuela e do centro de alunos de arte dessa universidade. em setembro de 2008. Maria Alice.ppge. vol. “Pintura/Sutura” in “Adriana Varejão”. • lang:pt-BR . Organizador: Agnaldo Farias. artista chileno. “A Arte Contemporânea: instalações artísticas e suas contribuições para um processo educativo em arte”.ufes. mas em seus movimentos dinâmicos dentro do coletivo – notamos que há sempre uma indicação da fusão do “corpo individual” no “corpo coletivo” (contexto sócio-político. Agnaldo. 1996. FARIAS.html Acessado em setembro de 2008. de Moura.pdf Acessado em outubro de 2008. na UFT – Universidade Finis Terrae. professor e chefe do Curso de Artes Visuais.. PONTY.. 1999. Icléia Borsa. São Paulo. sócio-cultural. e/ou sócio-histórico). Dione Veiga Vieira Novembro. WERNECK. Rio de Janeiro..3. “Arriscar a Pele. Maria Helena. na UVM – Universidade de Viña Del Mar. R. “A mundialização no Cotidiano: images/stories e vozes em dois monólogos brasileiros” in Revista Semear 6. 2005. HERKENHOFF. A. como Lygia Clark afirmou: “a casa é o corpo”. com o convite de Ismael Frigerio. 1992.. São Paulo. Pensamento Crítico. 2004. São Paulo: Martins Fontes. e também.