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INTRODUÇÃO
O presente trabalho atribuído na cadeira de filosofia de Direito, visa abordar um tema complexo
desde outrora, bastante discutido nas esferas académicas políticas, jurídicas filosóficas e sociais
que se estendem ate aos dias que correm denominado direito vs aborto.

O tema suscita varias balizas de debate, mas a nos importa-nos- nos trazer a discussão no que
respeita por exemplo ate que ponto a interrupção voluntaria da gravidez constitui um crime, o
aborto vs o direito a vida, os princípios de valorização da dignidade humana da ética, estes serão
os pontos de debate no presente trabalho.

A estrutura do presente trabalho será dominada inicialmente por certos conceitos basilares como
direito, aborto assim como o desenvolvimento dos aspectos concernentes a estes dois fenómenos
socias intimamente ligados.

1.1 Direito
O direito entende-se como conjunto de normas jurídicas de cariz obrigatório estabelecidos e
garantidas pelo estado para regular as relações sociais.
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Legalizar significa que a interrupção voluntária da gravidez deixa de ser vista como um crime. 2. como e onde efectuar a interrupção de gravidez. ABORTO: UM DIREITO OU UM CRIME O aborto pode ocorrer em várias situações: a primeira é na situação de estupro. pois engloba limites. a segunda situação é a má reação por parte da família. esta não tem coragem para revelar a sua situação. muitas vezes. decide abortar. que faz de seus filhos suas vítimas. a 2 .V. quando a gravidez provém de uma violação. independentemente de prazos como actualmente existem relativamente às 24 semanas. 1. nos preferimos definir como a interrupção da gravidez com a consequente morte do feto ou embrião. Existem diferenças entre estes 3 conceitos: despenalizar. quando respeitados todos os parâmetros descritos na lei. Estes têm diferentes limites e diferentes implicações em termos legais. A despenalização da I. a interrupção da gravidez a pedido da mulher até às 10 semanas de gestação. quando.G. e muito menos traduz a liberalização. Despenalizar. a própria mãe. pois corre o risco de sofrer represálias por parte da família e. uma vez que o filho foi fruto de um ato cruel e totalmente isento de amor. isso se deve a desestrutura familiar. legalizar e liberalizar. irmãos e até mesmo tios cometem tal ato. está a despenalizar esta interrupção anteriormente penalizável caso este pedido não fosse justificável. até às 10 semanas não traduz a sua completa descriminalização. Quando a lei considera. causado na maioria das vezes pela própria família em que o pai. Despenalizar a interrupção voluntária da gravidez significa que a mulher deixa de poder ser acusada em tribunal.2 Aborto Apesar de vários autores referirem simplesmente que o aborto É a interrupção da gestação. julgada e punida com pena de prisão. deixa de ser perseguida pela justiça. junto com os seus anexos ovulares. muitas vezes quando a gravidez se dá em adolescentes solteiras a família tem tendência para não aceitar a criança e. as mulheres têm propensão para abortar. Liberalizar significa que compete à mulher decidir. como acontece actualmente. por isso.

para evitarem problemas futuros. ASPECTOS ECTICOS DO ABORTO A Ética serve para mostrar ao homem como se portar.terceira situação é o risco de vida. nem sanidade mental para acompanhar o desenvolvimento do filho. do Código Penal. em que as mulheres abortam pois não possuem condições. o que conduz a problemas de saúde futuros. quando uma grávida está infectada com doenças sem cura e o filho corre o risco de ser também infectado. a quinta situação é a incapacidade econômica. estes todos casos de inimputabilidade da interrupção da gravidez estão previstos na 166 e Ss. face à falta de controlo estatal. Ao optar pela preservação da vida de um embrião. quando se dão problemas na gravidez e o feto tem malformações. mas em condições adversas. limitando-se simplesmente a ignorar que a interrupção da gravidez indesejada continua a ser realizada. quando de uma gravidez de risco em que um ou ambos os intervenientes correm risco de vida. pois é preferível a ver o filho morrer à nascença ou a não poder acompanhar o seu crescimento. diante das situações impostas pela vida. 3. a quarta situação é no caso de doenças transmissíveis. as mães. em que adolescentes abortam não só por não estarem preparadas para criar um filho mas também porque os filhos de grávidas adolescentes têm elevadas probabilidades de nascerem prematuramente. sem solução por se tratar de interesses contrapostos e principalmente quando há rígida repressão por parte de grupos éticos e religiosos. Portanto. não podendo o Estado deixar de cumprir sua função de controlar a sociedade e assegurar a vida de todos. deixou de garantir a vida das mulheres. 3 .1 Análise do contexto social do Aborto A discussão acerca do aborto é. e a oitava situação é a gravidez na adolescência. 3. Para um melhor entendimento este tópico será dividido em dois: as correntes contra o aborto e as a favor do aborto. Dizer que um ato é um crime não coíbe sua prática. “de forma correta”. a sexta situação é a malformação do feto. mas sempre analisando do ponto de vista ético. a mãe pode tomar a decisão de abortar. decidem abortar. a sétima situação é a instabilidade emocional. devido ao fato de as mães não terem capacidades financeiras para suportar o desenvolvimento do filho. ter criminalizado sua prática não bastou para impedir que continue a ser levado a efeito. sem dúvida.

em termos práticos. sendo indispensável assegurar-lhe o direito de optar. 227 da Constituição Federal. cabe aqui explicar que somos não só a favor da descriminalização do aborto como também da sua despenalização. está em que só no caso dos crimes se concebem penas privativas da liberdade. Basicamente por três ordens de razões: filosófica. Ora. as punições têm lugar não só quando há prática de crimes. constantes do anteprojeto que busca dar nova redação ao art. É necessário que deixem as mulheres de ser vistas como verdadeiro depósito de maternidade.2 A posição humanista Podemos desde já adiantar que somos favoráveis à realização do referendo. jurídica e política. que para os humanistas é um ideal e uma reivindicação . dado que a consulta popular é uma forma de realização da democracia real. que tem o direito de decidir sobre sua vida e sobre a assunção de prole. que outorga primeiro à família. concepção decorrente da verdadeira sacralização da família como entidade destinada à procriação. é possível descriminalizar sem despenalizar. é delegada à família. Não deve o Estado substituir-se à vontade da mulher. podemos também afirmar-nos a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Antes de desenvolvermos os respectivos argumentos.Restringir as possibilidades abortivas ao chamado aborto terapêutico e ao aborto emocional é permanecer não visualizando a questão social. A simples descriminalização do chamado aborto eugênico e da gravidez decorrente de prática não-consentida de reprodução assistida. 3. como pode ser visto no art. Essa responsabilidade recai quase sempre sobre os ombros da mãe. à sociedade e por último ao Estado a formação e a proteção da criança e do adolescente. quando a conduta deixa de ser considerada crime. mas também quando se cometem transgressões. contravenções ou. já que nas contra-ordenações as 4 . despenalizar é deixar de punir. A distinção não deixa de ser importante: descriminalizar é deixar de considerar crime. mas passa a integrar o leque de contra-ordenações. contra-ordenações. que deveria ser do Estado. A responsabilidade pela formação do cidadão. Deste modo. com certeza não levará à reversão desse quadro. Por outro lado. como actualmente se chamam. A diferença. 128 do Código Penal.

4. Sendo assim. mas não sujeita a pena. O interesse desta figura estaria. a vida humana começa com a abertura da intencionalidade da consciência ao mundo e com a consequente interacção da mesma. Esta é uma hipótese um tanto ou quanto estranha. de uma dispensa de pena (com ou sem condições) ou mesmo de ausência de pena legalmente prevista. de uma suspensão automática da execução da pena (embora neste caso houvesse. não faz sentido falar-se do direito à vida do nascituro. através do corpo. Deste modo. 3. De facto. definimos o ser humano como o ser histórico cujo modo de acção social transforma a natureza. os humanistas são a favor quer da descriminalização quer da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Deste modo. pena). ainda que com mero valor simbólico. Esta questão tem a sua importância porque permite ser coerentemente contra a pena de morte e a favor da despenalização do aborto. incluindo a própria5. por tabela. o Código Civil estabelece que a personalidade jurídica se adquire com o nascimento completo e com vida6. não é nem pode ser sujeito de direitos ou de deveres. como se o aborto provocado fosse um crime contra um ser humano e. Essa concepção tem também expressão na lei portuguesa: de facto. mas que podia resultar. como já se disse acima. dado não estar em causa em cada uma das situações o mesmo valor (a vida humana). não é completamente humano. desde logo porque.sanções são maioritariamente pecuniárias (multas ou coimas). OBJECTO DO DIREITO PENAL 5 . em rigor. entremos nos argumentos: Para nós. a vida humana começa com o nascimento. para os seus defensores. pelo menos desde que praticada dentro de certas condições. isto é. em manter a proibição legal do aborto.3 A concepção da vida humana Feito este esclarecimento. com o meio histórico-social e natural que o rodeia. uma violação do mais importante dos direitos fundamentais da pessoa humana. apesar de se tratar de um ser vivo. Ora. poder-se-ia conceber a possibilidade de uma conduta tipificada como crime. o feto ou nascituro não tem personalidade jurídica. por exemplo. Por outro lado.

uma larga maioria da população portuguesa. Esta questão é extremamente relevante porquanto o Direito Penal visa proteger somente aquele núcleo de valores jurídicos considerado fundamental pela comunidade. essa pretensão só seria sustentável se este entendimento fosse partilhado pela unanimidade ou.retira eficácia normativa ao Direito Penal. o aborto é moralmente condenável. dado interpretarem a concepção como uma manifestação da graça divina. ainda que a título meramente simbólico – como já se abordou mais acima . De facto. ao menos. que permita concluir que a vida intrauterina faz parte do núcleo de valores essenciais da comunidade nacional. mas o que não podem é impor a sua concepção moral ao todo social através da lei. já que mesmo dentro do PSD há gente favorável à despenalização). a sensação de imperatividade dilui-se. como já demonstrou o anterior referendo sobre esta matéria. correntes que sustentam que a vida humana começa com a concepção (fecundação do óvulo pelo espermatozoide). em que Portugal se insere no âmbito da sua participação na União Europeia. e como resulta da posição assumida pelos partidos políticos com representação parlamentar (só o CDS-PP está frontalmente contra. o Direito Penal é tanto mais eficaz quanto mais interiorizada estiver a imperatividade dos seus comandos e esta é justamente reforçada pelo mecanismo da penalização da conduta prevaricadora. Ora. Assim sendo. Por outro lado. dado não haver um consenso social alargado para a sua criminalização. há também uma ampla maioria de Estados que não penalizam a interrupção voluntária da gravidez. que dividiu o eleitorado em duas metades quase iguais. Esta questão não impede que aqueles que assim o entendam continuem a considerar o aborto moralmente condenável e a tratar de difundir o seu ponto de vista. aos homens desfazer o que foi feito por Deus. Assim sendo. Aliás. no seio da comunidade jurídica europeia. Contam-se entre elas. de acordo com o princípio da tutela mínima ou de protecção do "mínimo denominador comum". também 6 . porém. Não havendo pena. Contudo. Para estas correntes. a questão do aborto deve ficar de fora do âmbito do Direito Penal. donde ser possível concluir que a mesma não ofende a consciência ética colectiva no espaço civilizacional em que o nosso país se insere. é claro que isso não é assim. enfraquecendo o efeito dissuasor que informa as normas do Código Penal. pelo que entendem que deve ser punido pela lei. pretender manter a proibição legal da interrupção voluntária da gravidez. não cabendo. algumas religiões. portanto.Há. especialmente.

Até que ponto o direito é justo para regular esse fenómeno que é o aborto. não é aceitável manter a tipificação da interrupção voluntária da gravidez como crime. 5. se e um direito a aborto que significa interrupção de uma gravidez (de uma vida que estava a ser gerada) até que ponto o direito fundamental a vida é inviolável (clausulas pétreas). Do exposto pode-se concluir que há situações que admite-se exclusão da ilicitude ou seja da prática de crime punível. 7 . CONCLUSÃO Quando se fala de aborto a pergunta que não quer calar se de facto o aborto é um direito ou um crime. mesmo quando não se preveja ou não se aplique qualquer sanção penal.por esta via.

apesar de algumas correntes não admitirem a vida humana antes do parto e nesse contexto nos sabemos que o mais importante direito que o homem tem é o direito a vida. Pesquisas com Células-Tronco implicações éticas e Jurídicas. A Questão do Aborto – Aspectos Jurídicos Fundamentais. Ives Gandra da Silva. Asdrúbal Franco Nascim. Do CP Vários são os debates que se levantam em relação ao aborto. a própria constituição preceitua este direito como um direito fundamental. A pergunta que não quer calar também é por exemplo onde de facto começa ou inicia a vida humana se é na concepção ou no nascimento do nascituro.por exemplo quando estamos perante um estado de necessidade na medida em que em algumas situações o aborto é praticado no intuito de preservar um bem maior (alínea e) art. e que se esse direito é restringido todos os outros direitos ficam afectados. 8 . O Legislador podia estar qui em virtude de algumas mortes das mulheres por fazerem aborto clandestino proteger essa mulher e desencorajar esta pratica. São Paulo: Quartier Latin. este é o direito primordial por excelência que to ser humano adquire. onde é conferido pelo ordenamento a susceptibilidade de ser titular de direito e de obrigações. assim como a convenção internacional de direitos humanos. 6. São Paulo: Lex Editora. 2008. 2008 MARTINS. 49. BIBLIOGRAFIA BENI. Várias questões são levantadas mas a opinião que fica ee que de facto a legalização a despenalização e a liberalização do aborto trouxe maior controle diminuição de abortos clandestinos. mas entretanto ao permitir o aborto com certas condições não estaríamos a violar o direito a vida que aquele feto tem.

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