You are on page 1of 36

1

INDICE

INTRODUÇÃO...................................................................................................................................................................................................................................3
O AUTOR ..........................................................................................................................................................................................................................................4
A OBRA ............................................................................................................................................................................................................................................8
A ENCOMENDA ..............................................................................................................................................................................................................................13
O PROJETO .....................................................................................................................................................................................................................................15
A CRITICA .......................................................................................................................................................................................................................................26
CONCLUSÃO ..................................................................................................................................................................................................................................35
BIBLIOGRAFIA ................................................................................................................................................................................................................................36

2

INTRODUÇÃO

Álvaro Siza é considerado um dos melhores arquitetos Portugueses, possivelmente o melhor. Conta já com 80 anos, 60
dos quais dedicados à arquitetura. Os seus trabalhos são reconhecidos em todo o mundo, pela sua coerência e
clareza e simplicidade.

O presente trabalho tem o objetivo de, através da análise de uma das obras de Siza e do seu pensamento
arquitetónico, refletir sobre questões essenciais para uma visão crítica da sua produção arquitetónica.

A obra selecionada foi a “Igreja de Marco de Canaveses”, escolha que teve por base diversas razões. Desde logo, o
fato, de os edifícios religiosos não representarem objeto habitual dos arquitetos contemporâneos, depois o fato da
Igreja de Santa Maria ser o único edifício de carater religioso do trabalho de Siza e por último porque a igreja foi
classificada como monumento de “interesse Público”.

3

O projeto de “4 Casas em Matosinhos”. Siza inicia aqui o seu percurso como arquiteto “com uma exigência de individualidade. A sua primeira obra executada data de 1954. Paulo . Ano em que começou a colaborar com o arquiteto Fernando Távora durante 3 anos e em 1966. Lisboa : Editorial Blau. com apenas 21 anos. 1997. 1 MARTINS BARATA. gerou alguma polémica devido às suas características inovadoras. em 1933.10 4 .Álvaro Siza 1954-1976. quando ainda era estudante. consideradas demasiado arrojadas para a época. de fantasia e de inédito”1. Entrou para a Escola Superior de Belas Artes do Porto em 1949. 1. Fig. Esteve dividido entre estudar escultura ou arquitetura. P. tornou-se professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.O AUTOR Álvaro Siza Vieira nasceu em Matosinhos.Álvaro Siza Vieira. influência das últimas obras de Le Corbusier. na sua cidade natal. Desde pequeno que utiliza o desenho como forma de se expressar. onde esteve até 1955. visitou as mais importantes escolas de arquitetura do mundo onde deu conferências e palestras.

P.Discípulo de Fernando Távora.”2 Siza foi assumindo uma postura atenta em relação à história e à tradição sem nunca esquecer o seu compromisso com a modernidade. a Igreja de 2 JODIDIO. 2003. A sua preocupação com o contexto conduz a um método de projetar que valoriza as potencialidades da morfologia. que se formou nos princípios do movimento moderno e adotou a lição racionalista. tanto no plano cultural como no plano da linguagem. Siza diz “na Itália. Espanha e Portugal dos anos 50. os projetos de Siza caracterizam-se pela harmonia com a envolvente natural e cultural e por um estilo que conjuga elementos racionalistas e organicistas.Álvaro Siza.27 5 . Philip . e o conhecimento empírico da obra de Alvar Aalto. Entre as suas obras mais inovadoras. Aalto exerceu uma grande influência (…) tenho a certeza que a minha obra foi influenciada pela de Aalto. especialmente através da atribuição de obras como a recuperação do bairro judeu de Veneza e do bairro Kreuzberg. mas também por centenas de outros arquitetos. O seu talento artístico foi reconhecido mais rapidamente no estrangeiro do que em Portugal. em Berlim. destacam-se a Casa de Chá da Boa Nova e a piscina de Leça da Palmeira. Köln: Taschen. Adotou de Távora os valores metodológicos. Os seus projetos manifestam um cunho de realismo formal e construtivo que estabelece uma relação com o lugar. (…) Aprender arquitetura é conhecer o trabalho de muitos criadores.

em Oliveira de Azeméis. e as Chaves da Cidade do Porto. pela recuperação do Edifício Castro e Melo. 6 . ao projeto de revitalização do centro da cidade de Madrid. foi o responsável pela proposta do Pavilhão de Portugal da EXPO'98 e foi convidado pelo Papa João Paulo II para o projeto de uma igreja no Vaticano. e ainda centros de arte moderna em vários países europeus. Paralelamente a estas obras mais prestigiadas. na zona do Chiado. em Lisboa. a 10 de fevereiro de 2005. são a expressão maior da chegada de Siza Vieira ao "topo". designadamente no Porto. de Chicago. Rui Rio. considerado o equivalente a um Nobel. a construção da Faculdade de Arquitetura do Porto e foi responsável pelo plano arquitetónico para a construção do Museu de Arte Contemporânea do Porto. a Medalha Internacional das Artes 2002. pelo sucesso da sua carreira. pelas fundações Alvar Aalto e Mies van der Rohe.Marco de Canaveses. como o Centro Galego de Arte Contemporânea e a Faculdade de Jornalismo. coroados em 1992 pelo Premio Pritzker da Fundacao Hyatt. Posteriormente. Os prémios que lhe foram atribuídos em 1988. atribuída pelo Governo Regional da Comunidade de Madrid. pelo projeto da Faculdade de Ciências da Informação de Santiago de Compostela. Em Portugal. Siza Vieira desenvolveu. recebeu o Premio Secil de Arquitetura pela primeira vez em 1996. e pela segunda vez em 2000. entregues pelo Presidente da Camara. entregue pelo Presidente da Republica. uma ação a nível da habitação social. Recebeu também o Premio da Bienal de Veneza. liderando intervenções que visavam integrar zonas degradadas na vivência arquitetónico- paisagística da cidade. ambos em Santiago de Compostela. nos anos do pós 25 de abril. Siza Vieira dirigiu a reconstrução da zona do Chiado. a Agencia do Banco Pinto & Sotto Mayor.

3.Fig. 7 .Cerimónia de entrega do Prémio da Fig. entregue a Bienal de Veneza.Medalha do Prémio Pritzker. Siza. 2.

onde está indiscutivelmente patente o seu brilhante uso do espaço. Representa uma síntese eclética. Os seus primeiros projetos foram marcados pela arquitetura tradicional portuguesa. a sua obra. tanto nos métodos de construção como no uso dos materiais. São disso exemplos Casa de Chá da Boa Nova e as piscinas de Leça da Palmeira. métodos e recursos de uma disciplina que se tem renovado em todos os tempos. A sua projeção nacional e internacional. até ao ponto de mimetizarem a própria paisagem. hoje. como o valor dos princípios. com grande integridade e um enorme cuidado com os materiais. As suas obras posteriores são marcadas pela integração no lugar. é sinónimo de prestígio da cultura portuguesa em todo o mundo. Com efeito. uma das maiores referências da Arquitetura e da Cultura contemporâneas. que se alimentam nas águas do atlântico. 8 . adquirem uma leveza surpreendente e grande liberdade formal. É uma arquitetura feita de sinais subtis e marcantes. As piscinas. alimenta-se da herança da modernidade e do pensamento das últimas décadas. mas que para o arquiteto são pura geometria. em particular. construídas através da combinação da plasticidade das rochas e do ziguezaguear do betão. que aceita tanto a ideia de progresso sempre inerente `a própria arquitetura.A OBRA A obra de Álvaro Siza Vieira é.

com a sua intervenção num quarteirão em Berlim ocidental onde é construído o edifício que se celebrizou como “Bonjour Tristesse”.Piscinas de Leça da Palmeira. É por volta de 1980. Esta obra assinala então. que a sua arquitetura se projeta internacionalmente.Casa de Chá da Boa Nova. Fig. O seu primeiro edifício urbano foi a agência bancária do Banco Pinto e Sotto Mayor. 4.Fig. sem ceder a facilitismos da novidade do progresso ou à nostalgia saudosista do passado. o 9 . onde aplicou os princípios do Movimento Moderno. 5. em Oliveira de Azeméis. e que remete para uma tradição que ele desenvolve e mantem.

Em todas as circunstâncias. de resto. elege o passado como seu aliado. o projeto parece ser uma condição simultânea da necessidade de persuasão. Siza procura sempre interpretações próprias do lugar nas diferentes culturas. O seu exercício é colocar-se sempre perante um novo problema. 10 .início da sua atividade fora de Portugal.“Bonjour Tristesse. onde. 6 e 7. de construção de um corpo disciplinar e de procura de adequação do saber às circunstâncias de cada obra. Fig. Para Siza.

Siza está sempre atento à paisagem. regista a natureza ou o lugar da intervenção. 11 . o desenho também é uma forma de comunicar. que afirma a tradição como um desafio à inovação. e ao mesmo tempo transforma-a. surge a arquitetura. Para Siza. Nas suas mãos. Para ele. também com desenhos. que é o ato de desenhar. como fruto de um conjunto de lugares antropológicos. mas sim a construção de um suporte para a vida urbana nas suas múltiplas transformações. A relação e interação entre tradição e contemporaneidade. os materiais querem ser eles mesmos. faz anotações. um presente e. um passado. e deste ato único e multifacetado. procuram manter a sua integridade sem passar pela mediação pressuposta na aceitação do seu uso tradicional. a sua geografia. aos materiais. Siza observa. um futuro. agrega novos elementos. tanto consigo mesmo como com os outros – é uma linguagem e uma construção. às pessoas que ocuparão o construído. repletos de identidade. Siza Vieira não procura uma hipotética perfeição ou um estilo. Numa atividade única. é mutante e tem também uma memória. altera a realidade hipotética. relações e historia. aos usos. Muda. aos sistemas construtivos. portanto. entre cultura artesanal e processos industriais são aspetos contínuos na pesquisa arquitetónica de Siza. a cidade existe como um lugar. Ele tem plena consciência de que a cidade não está isolada nem estagnada.

Siza é o arquiteto português que acumula o maior número de prémios e galardões nacionais e internacionais. a sua obra mantem-se contemporânea no permanente ajuste à realidade. é disso testemunha. às condições que enfrenta e permanece alvo de um interesse que não esmorece. Sendo aparentemente simples. Depois de mais de cinquenta anos de trabalho intenso. com um notável conjunto de obras realizadas em Portugal e em muitos países de vários continentes. a obra de Álvaro Siza é complexa pelas variantes que abarca e absorve uma densidade imensa de informações que dão corpo e carater ao projeto. 12 . O importante Prémio Pritzker. que recebeu em 1992.

A entidade que financiou o programa foi a Comissão Fabriqueira de Fornos. nomeadamente a proximidade entre o ambão e o “púlpito”. conhecedor do arquiteto e de algumas das suas criações. A escolha incidiu sobre Álvaro Siza Vieira.A ENCOMENDA O responsável pela encomenda do projeto da Igreja de Santa Maria foi o ex-pároco da freguesia de Fornos. da necessidade de ser construído um espaço condigno para os crentes. pelo bispo do Porto. e mesmo ciente da controvérsia que a sua opção podia provocar. que entendesse os preceitos da liturgia católica. o ouviu lamentar-se do facto de nunca ter sido convidado para fazer uma igreja. a centralidade da cadeira presidencial e a posição de destaque atribuída à reserva 13 . da disposição dos elementos que compõem o altar – que supõem o respeito de algumas regras. Nuno Higino. convidou Siza a 26 de Setembro de 1989 para a realização da “sua” obra. coube- lhe encontrar quem satisfizesse tal desejo. que maioritariamente defendia a escolha de um homem de fé. Alertado. O pároco conhecia-o das aulas de Arte Sacra onde. A escolha de Siza. Nuno Higino. provocou alguma polémica no seio da comunidade católica local. Siza Vieira não se viu confrontado com qualquer tipo de exigência por parte do cliente (à exceção. um arquiteto laico.

eucarística). Para a organização deste espaço. considerado o centro axial da construção. A ausência de critérios impostos pela paróquia resultou num edifício “livre”.Rascunho do interior da Igreja. 8. Siza contou com o apoio de uma equipa de teólogos da diocese do Porto. Fig. nu. mas da própria estruturação dos volumes. que se disponibilizou para o ajudar. cuja identidade não resulta de artefactos característicos de locais religiosos. 14 .

com diferentes funções. 10. B e C.Fachada poente. situada em pleno coração da cidade do Marco de Canaveses. destaca-se da malha urbana. planta de implantação. Fig. marcada por edifícios de péssima qualidade. 15 . Fig. 9. Faz parte de um complexo paroquial projetado por Álvaro Siza Vieira.Complexo da Igreja de Marco de Canaveses. que designarei por A. Este complexo é composto por três volumes. de acordo com a planta de implantação.O PROJETO A Igreja de Santa Maria. pela clareza das formas e pela pureza da cor branca foi edificada entre 1994 e 1996.

Fotografia do alçado principal. tendo nas suas imediações um Lar de Idosos da Misericórdia e um conjunto de moradias unifamiliares em banda. Fig.Assim.Rascunho do exterior da Igreja. 16 . 11. Fig. 12. o volume A inclui a igreja e a capela mortuária. O terreno de implantação deste complexo apresentava uma grande diferença de cotas e era limitado pela Avenida Gago Coutinho (uma via com muito tráfego) e por um caminho pedonal de acesso a um infantário. o volume B corresponde ao Centro Paroquial composto pelo Auditório e a Catequese e o volume C corresponde à Residência do Pároco.

em substituição de uma escarpa muito acentuada.A construção deste complexo paroquial é também a construção de um lugar. tinha uma presença marcante na envolvente e impunha-se com uma extensão significativa em relação à estrada. soltando-a depois através do bloco branco. O Lar de Idosos da Misericórdia. o da capela mortuária. Estes espaços têm características marcadamente diferentes e a capela mortuária surge quase como a fundação da própria igreja. uma plataforma em granito que agarra o edifício ao solo e que. com o seu volume. Fonte de inspiração criativa. estabelece a distância em relação à estrada. uma plataforma para que a igreja se possa assentar. Siza optou. tornando-se o ponto de partida deste projeto. onde se articulam as tensões e as contradições do lugar. 17 . por projetar uma igreja articulada em dois níveis. situado no cume da escarpa. além disso. a plataforma de granito evoca a arquitetura regional. marca uma cota estável e fixa. surge então uma obra moderna que se afirma na paisagem. Esta Igreja surge. à terra. como o resultado de uma lógica projectual baseada na lógica do lugar. o bloco branco surge como o espelho de outras arquiteturas e influências. então. surge não só como contraponto necessário à leveza e clareza do volume branco mas também como forma de agarrar a Igreja ao chão. E se por um lado. através do uso de um material recorrente na construção local. O granito na plataforma. a topografia do lugar confere carácter e presença ao projeto. sendo o nível superior reservado à assembleia e o nível inferior. A primeira referência que Siza adotou para a elaboração deste projeto foi uma construção pré-existente.

Fig.Corte longitudinal da nave passando pela torre do campanário (à esquerda) e pela torre do batistério (à direita). altar. Fig. 17 – Alçado posterior.Corte transversal com vista da porta principal e corte transversal com vista do Fig. 15 e 16 . 13 e 14 . 18 .

dinamiza a área circundante. o espaço necessário para o grande volume vertical da fachada. O adro fica assim definido e o lugar ordenado. demarcado o adro. formam. Para Siza. situado diante da entrada principal da igreja que. assim. Ao mesmo tempo. Fig. o pólo aglutinador do complexo é a igreja. um grande u. Assim. a separação entre ambos os espaços é representada em termos físicos. abrindo-se à paisagem. e. convida os transeuntes a participar nas celebrações religiosas. Cria-se. torna-se possível uma relação com as construções de pequena escala que circundam esta acrópole.O Centro Paroquial e a Residência do Pároco definem. 19 . tão característico dos seculos precedentes. o lugar dedicado ao sagrado. mas mais pequeno. Fica. igualmente um u. com as suas duas torres. assim. A reconstituição deste espaço aberto à frente da Igreja. então. ao mesmo tempo. 18 – Adro. pela sua autonomia e maiores dimensões. a do campanário e a do batistério.

O portal principal e o altar situam-se. de planta retangular. tem aproximadamente 30m de profundidade e 16. é composta por duas torres avançadas em relação ao portal de entrada (3x10m).5m). respetivamente.5 x 17. formada por uma só nave. Fig. Fig.5m de altura e largura. de formato quadrangular (17. 20 . 19 – Alçado principal. nos extremos Sudoeste e Nordeste do eixo longitudinal da nave. 20 – Planta. A igreja.A fachada principal.

21 . a Sudeste. Fig. painel de azulejo. a Sul (que recebem luz durante a manha. à qual se tem acesso após descer um pequeno degrau. 23 e 24 – Pia batismal. a fazer crer que os batismos se realizarão preferencialmente durante esse período). A outra torre (do lado direito. O espaço está revestido a azulejo. quando se entra pelo portal principal. 22. e outra na sua base. para quem entra pelo portal principal) é ocupada pela antecâmara da entrada lateral e pela escada de acesso ao órgão e sinos. que por sua vez reflete a luz proveniente de duas janelas situadas na torre à esquerda da entrada principal: uma no seu topo. 21. É constituído pela pia batismal em mármore. escada de acesso ao órgão e sinos e torre sineira.O batistério ocupa a torre do lado esquerdo.

Os lugares sentados. 22 . 400 no total.45m que o daquela. Fig. e distingue-se da nave por ser mais estreito. separados das paredes por corredores de 2m de largura.O espaço do altar ocupa o eixo central da construção. ter o respetivo piso mais elevado 0. ter uma parede convexa (que no exterior tem um formato côncavo). 25 e 26 – Nave. alinham-se simetricamente em relação a um corredor central de 3m.

o habitual ambiente íntimo. de recato e de recolhimento que se vive numa igreja. ao entrar lateralmente na igreja.Uma das características marcantes deste projeto foi a sua atitude contra a posição tradicional das aberturas que não permitem aos fiéis o contacto visual com o exterior. 28 e 29 – Janela sob varias perspetivas. 27. Fig. 23 . que permite ver o vale e as construções em redor. contrariando. a primeira imagem é a de uma janela baixa e alongada. Assim. de certa forma.

30. 32 e 33 – Fontes luz. 24 . três aberturas quadrangulares na parede abaulada. à esquerda (viradas a poente) e duas frestas verticais atras do altar (que recebem luz difusa) – promove um ambiente de claridade. à direita (voltada a nascente). 31.A iluminação natural da nave depende da das diferentes fontes de luz existentes – a janela horizontal. Fig. independentemente da hora do dia.

os horários das celebrações religiosas da Paróquia. mas.O edifício é pautado pela moderação e harmonia. Siza optou por este sistema. cuja principal característica é disseminar os raios de sol que penetram no interior. o grande elo de ligação entre o interior e o exterior (que permite visualizar a paisagem envolvente composta por habitações. de que a estrutura foi construída). através da abertura sudeste. e pela preferência por vidros duplos de face laminada. tendo em conta. 25 . montes e vales). o clima da região (muito frio e sombrio no inverno e extremamente quente no Verão). nas aberturas. no que diz respeito à utilização da luz natural. que se realizam. mas sobretudo. valorizada inteligentemente. que otimiza a quantidade de luz até 80%. faculta o olhar para dentro. pelo uso da cor branca (para cobrir a cor cinzenta do betão rugoso. ao mesmo tempo. entre outras coisas. Por outro lado. a igreja “olha” para fora. diluindo a barreira entre o espaço sagrado e o profano.

Lisboa: Edições 70. em Marco de Canavezes.”3 3 SIZA. p. condigno para usufruto da população católica da paróquia de Santa Maria. 49 26 . formada por diversos acessos e construções com diferentes características. em substituição de uma escarpa muito acentuada. “ a construção deste centro paroquial é por isso também a construção de um “lugar”. E a exigência por parte do cliente.A CRITICA TEMA Necessidade da construção de um edifício religioso. da disposição dos elementos que compõem o altar que pressupõem o respeito de algumas regras. 1998. umas boas outras más. SOLUÇÃO Segundo Siza. A área era também. Álvaro – Imaginar a Evidência. CONSTRANGIMENTOS O terreno destinado à instalação da igreja possuía grandes diferenças de nível e estava situado próximo de uma avenida com tráfego intenso.

o projeto precisou articular as tensões e contradições do “sítio” – edifícios de baixa qualidade. organizar o contexto perante a heterogeneidade do local. liberdade poética e ordem volumétrica. trabalhando basicamente com os edifícios envolventes. Siza adotou como referência inicial um edifício existente de forma alongada (lar da 3ª idade). etc. O desenho do edifício da igreja também releva a existência de uma capela localizada na frente desse mesmo edifício. IDÉIAS CENTRAIS O projeto da Igreja de Santa Maria estrutura-se dentro da diversidade do contexto numa lógica projectual que consequentemente está amarrada a uma lógica do “sítio”. O projeto procurou assim. via com trafego intenso. A conceção dessa lógica é adequada a uma série de constatações da envolvente. num jogo de equilíbrio entre complexidade das informações. a topografia e a paisagem. declive do terreno. entre elas a adequação da escala do edifício ao contexto e ao programa. A partir daí. que ordena a cota superior do declive e sugere uma relação de conformidade com a estrada. – e assim ordenar o espaço privilegiando a paisagem da envolvente.Este edifício surge da ideia que o “sítio” transmite. 27 .

34 – Capela. Sobressai da extensão do território natural graças à sua cor branca e a uma implantação precisa que ocupa a parte mais alta do terreno. A igreja evidencia-se da envolvente e compõe uma certa autonomia na paisagem.Fig. permitindo ser vista de diversos pontos da cidade. Lar da 3ª idade e parte da torre da igreja de Santa Maria. Uma tentativa de manter a abertura para o vale contando com a possibilidade de novas construções não obstruírem a vista. 28 .

o desenho detalhado dos pormenores e as incidências de luz natural refletidas nos diferentes materiais procuram um sentido abstrato e metafórico na materialidade da construção. o povo e a paisagem. compondo um ambiente que possibilita uma intensa experiencia do “sítio” para quem o visita. que liga a igreja. O arquiteto construiu um distanciamento perante as questões “técnicas projetuais”. estabelecendo o equilíbrio entre a poética dos espaços e a racionalidade arquitetónica. 29 . porem deslocado do seu eixo. associando uma dosagem de sensibilidade ao rigor projectual arquitetónico. É um. espaço cerimonial. IDÉIAS SECUNDÁRIAS O barulho da água na pia batismal.O adro da igreja destinado às manifestações religiosas. definido a partir das implementações dos edifícios. em sinal de boas-vindas ao visitante. é protagonista de todo o projeto. De certa forma este espaço. para assim atingir uma certa liberdade criativa. desenhado com precisão para estipular uma ordem do “lugar”. segundo Siza. esse espaço está situado na frente do acesso principal da igreja. de configuração irregular. estabelece uma articulação entre os edifícios que compõe o complexo paroquial e promove a dissimulação da verticalidade da fachada perante as edificações de menor escala existente na envolvente.

para que anunciasse a presença da assembleia. Permite introduzir a paisagem da cidade como variante visual. consequentemente. oferece um enquadramento das montanhas da paisagem a quem está sentado na assembleia – o horizonte é atraído ao interior. Isto é considerando que a 30 . Pode-se afirmar que nestes parâmetros. abordando com exatidão os diversos componentes do projeto e conectando-os equilibradamente num processo “estruturante” das partes.O batistério colocado inicialmente junto ao altar. composta por cadeiras individuais de madeira exclusivamente desenhadas para este espaço. Um minucioso cuidado com o todo da obra. localizada na parede lateral direita. fechado e escuro da igreja. uma releitura do espaço isolado. O desenho do pavimento. Esta abertura abrange uma reinterpretação e. foi fundamental a abertura de uma porta na parede lateral curva. A abertura horizontal. É notável que o mobiliário e os outros pormenores articulam uma relação mais próxima entre arquitetura e o corpo humano. composto por tabuas de madeira. define a nave de planta retangular com 30 metros de comprimento e capacidade para 400 pessoas. Consequentemente. foi posteriormente desviado para perto da entrada. operando entre ordenação dos percursos internos da igreja e o equilíbrio externo entre as formas. já que os fiéis necessariamente precisam percorrer toda a extensão longitudinal da igreja. o espaço arquitetónico é definido por uma justaposição de aspetos que indiretamente respondem à dimensão do corpo. como uma partitura musical desejada e concebida pelo artista. além da luz natural que já entra pelas aberturas zenitais.

Curiosamente. confundindo-se com os fiéis. foi colocada uma imagem da Virgem Maria sem pedestal. Siza sugere um possível entrelaçamento com o meio externo e a vida urbana. 31 . na extremidade dessa janela perto do altar.cerimónia religiosa é também um “evento social”. Fig. 35 – Interior da igreja de Santa Maria.

A parede lateral esquerda é suavemente convexa. uma saliência curva e inclinada que gera a impressão de ter sido abaulada com o intuito de aconchegar as pessoas dentro da vasta dimensão da igreja. que de forma indireta e difusa penetra a igreja e interfere na luz que entra diretamente pelo rasgo horizontal da parede oposta. quarenta e cinco centímetros acima da nave. Na parte mais alta dessa mesma parede. Na parede entre as absides. existem três grandes aberturas destinadas à entrada de luz natural. junto ao teto. que iluminam indiretamente o sacerdote e criam uma atmosfera de “ascese”. surge o altar que está definido geometricamente a partir de duas curvas situadas nos cantos internos da parede posterior. sugerindo a existência de nichos sem imagens de santos. uma justaposição de luzes em função da criação de um impacto espacial. ou seja. No fundo da igreja. Todos os espaços estão relacionados através de um trajeto cautelosamente imaginado pelo arquiteto. Estas paredes com curvatura convexa enfatizam verticalmente o fundo da igreja e estabelecem uma proximidade maior entre altar e assembleia. A luz indireta que entra por meio desses rasgos é filtrada por uma longa e alta abertura. existem dois rasgos verticais que procuram valorizar e harmonizar a verticalidade do altar. uma possível interpretação que a experiencia desse percurso permite fazer está voltada a uma provável intenção estratégia do 32 . uma espécie de chaminé que também ilumina a capela mortuária localizada no piso inferior.

cor e textura. material. começando pelo batistério no nível superior (o nascimento). uma metáfora que fomenta e dá sentido à ordenação espacial da igreja. Fig. e terminando na capela mortuária no nível inferior (a morte). que é complementar aos aspetos estéticos. às variações de luz. Ou seja. passando por todo trajeto da nave e altar (a vida). arquiteto em articular os ciclos da existência da vida por meio de espaços programaticamente agrupados. 33 . 36 – Interior da igreja de Santa Maria.

que é preciso no desenho. é capaz de fazer com que a sua arquitetura seja um exercício poético. os espaços internos. A forma plástica. Álvaro Siza não se limita a copiar a iconografia da tradição católica. Foram utilizados na sua conceção diversos “signos” que remetem à igreja católica. que usa com extrema sensibilidade os materiais. que se recria nos espaços e que. a igreja de Santa Maria em Marco de Canavezes constrói um diálogo consistente entre contemporaneidade e tradição. que domina a escala. AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DA OBRA Segundo Rafael Moneo. além disso. procurando encontrar um equilíbrio entre abstração e figuração. As novas ideias surgem de uma inter-relação entre tradição e experiência. nem em ser moderno a ponto de transformar a igreja num auditório – como acontece em muitos dos projetos contemporâneos neste tipo de edificação.” 34 . “em Canaveses está o Siza que entende o lugar. o mobiliário e os objetos religiosos foram trabalhados a partir de uma releitura criativa que permite reinventar uma identidade ligada à memória cristã – ao mesmo tempo em que há percetivelmente uma sólida investigação pela abstração das formas. o programa. que trabalha com extraordinária economia de meios.AVALIAÇÃO DAS IDÉIAS DO AUTOR Tanto na forma como noutros aspetos. porém dentro de uma perspetiva atualizada. sem recorrer ao óbvio ou ao “pastiche”.

naturalmente. É sobretudo no interior que se revela o encontro entre a depuração formal de Siza Vieira e as reflexões sobre o espaço e a moderna liturgia da Igreja. patente em contrastes formais plenos de dramatismo. Frank Lloyd Wright e Alvar Aalto. o contexto é recriado pela intervenção arquitectónica e a transformação do lugar é também a transformação de uma realidade. o reflexo da visão de Siza sobre o lugar. apresenta-se como um projeto marcante no percurso de um autor de exceção e como obra de caráter emblemático no quadro geral da arquitetura portuguesa do século XX e no âmbito particular da arquitetura sacra contemporânea. cedo conseguiu desenvolver a sua própria linguagem. da qual Siza escolhe os elementos mais significativos. 35 . a paisagem e a cidade.CONCLUSÃO A igreja de Santa Maria. Fortemente marcada pelas obras dos arquitetos Adolf Loos. e assumindo por outro a ambiguidade do ser humano. embebida não só nas referências modernistas internacionais como também na forte tradição construtiva portuguesa. evidenciando por um lado a comunhão entre o celebrante e a assembleia. Nas obras de Siza. podendo afirmar que as suas obras remetem para diversas arquiteturas e são. A arquitetura de Siza não é catalogável e não se insere em nenhum movimento ou tendência.

vitruvius.archdaily.Álvaro Siza. ”Reabilitar para habitar”.infopedia.pt/ 36 . 1997 JODIDIO.br/56992/igreja-de-santa-maria-alvaro-siza/ http://www.baixotamega. “A ideia de lugar”.br/revistas/read/arquitextos/01.org/igreja_marco_canaveses_siza_vieira_15_anos http://www. Raquel. Álvaro – Imaginar a Evidência.org/wiki/Álvaro_Siza_Vieira http://www. Lisboa 2010.com.010/908 http://www.pt/$igreja-do-marco-de-canaveses http://www.Álvaro Siza 1954-1976. 1998. Philip .wikipedia. TRINDADE. Lisboa: Edições 70. Dissertação de Mestrado na Universidade Nova de Lisboa http://pt. Coimbra 2009. Lisboa : Editorial Blau. Lisboa 2010. Köln: Taschen. 2003 SIZA. Dissertação de Mestrado na Universidade de Coimbra PAIVA.BIBLIOGRAFIA MARTINS BARATA.snpcultura. “Luz e Sombra”. Paulo .com. Mafalda. no Instituto Superior Técnico MARTINS. Dissertação de Mestrado para obtenção do grau de Mestre em Arquitetura. Rita.